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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DA FACULDADE DE ARQUITETURA


DISCIPLINA: 5707 ÁREAS RESIDENCIAIS LOCALIZAÇÃO E PLANEJAMENTO.
DOCENTES: Prof.Antônio Cláudio Moreira Lima e Moreira
Profa.Suzana Pasternak
Profa.Maria de Lourdes Zuquim
ALUNA: Letícia de Andrade Vilas Boas

RELATÓRIO DE VISITA – CORTIÇOS NO PARI

Rua João Teodoro, números 879/887.

SÃO PAULO, AGOSTO DE 2008


INTRODUÇÃO
O cortiço é uma das soluções encontradas pela população de
baixa renda para resolver seu problema de falta de moradia. De
acordo com bibliografia pesquisada1, os cortiços são localizado
normalmente nas regiões centrais em áreas com desvalorização
imobiliária. Na área central há maiores e melhores ofertas de
ocupação e renda, como também de infra-estrutura instalada.
Como é um arranjo irregular não tem tipologia definida,
entretanto possui algumas particulariedades predominantes.
Através delas estabeleceu-se a Lei Moura, lei municipal 10.928,
1991, que define:
“Art.1o – Defini-se como cortiço a unidade usada como
habitação coletiva, apresentando total ou parcialmente, as
seguintes características:
a) Constituídas por uma ou mais edificações construídas em
lote urbano;
b) Subdividida em vários cômodos alugados, subalugados ou
cedidos a qualquer título;
c) Várias funções exercidas no mesmo cômodo;
d) Uso comum dos espaços não edificados, sanitários, etc.;
e) Circulação e infra-estrutura em geral precárias;
f) Com superlotação de pessoas no mesmo ambiente.”
Ou seja, o cortiço têm por características principais o
congestionamento dos espaços e instalações precárias.
Como normalmente são imóveis adaptados de residências
unifamiliares. As instalações sanitárias, cozinha e área de
serviço são comuns, sobrecarregando as instalações e dificultando
a manutenção higiênica.

1
MOREIRA, Antônio Cláudio M. L. (org.) et alli. Intervenção em cortiço: uma experiência didática. São Paulo:
FAUUSP, 2006.
PICCINI, Andrea. Cortiços na cidade: conceito e preconceito na reestruturação do centro urbano de São Paulo. 2a.
ed. São Paulo: Annablume, 2004.
KOHARA, Luiz T.(org) et alli. Cortiços de São Paulo: soluções viáveis para habitação social no centro da cidade e
legislação de proteção à moradia. São Paulo: Mídia Alternativa: Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos;
Salvador , BA: CESE. 2006.
CORTIÇOS EM SÃO PAULO
De acordo com a bibliografia supra-citada, desde do século
XIX, já havia relatos de moradias encortiçadas em São Paulo.
Ocasionada principalmente pela ausência de oferta de moradia para
população de baixa renda, eles foram crescendo junto com a taxa
demográfica da cidade.
Durante o século XX as políticas públicas tiveram vários
enfoques em relação ao cortiço, ora proibindo a construção, ora
ignorando, ora disciplinando padrões mínimos. Através da Lei Moura
estabeleceram-se valores mínimos de ventilação, insolação, pé
direito, acesso a instalações sanitárias, etc. Fornecendo assim
instrumentos para fiscalizar e autuar proprietários que não se
adaptarem.
A prefeitura de São Paulo executou alguns programas que
atendiam moradores de cortiço, porém não tiveram continuidade nas
administrações municipais consecutivas, logo tornaram-se eventos
pontuais isolados pelos mandatos distintos.
Segue abaixo gráfico disponível no sítio da SEHAB – Secretaria
Municipal de Habitação2, com dados do programa PAC (Programa de
Atuação em Cortiço) efetuado pela CDHU (Companhia de
Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) em
parceria com a Subprefeitura da Móoca.

2
http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/sec/habitacao/2007/05/0005
BAIRRO DO PARI
O bairro do Pari tem mais de 400 anos, a origem do nome está
relacionado a atividade da pesca “...os peixes vendidos no centro
da então vila de São Paulo eram pescados principalmente nos rios
Tietê e Tamanduateí. Tais rios possuíam na época lugares piscosos
e próprios para a instalação de “paris”. Pari era uma cerca de
taquara ou de cipó, estendida de margem a margem para pescar
peixes (o instrumento veio a dar nome ao bairro).”3
Possui atividade comercial intensa e muitas indústrias. Está
localizado a cerca de 2 quilômetros da região central, possui área
2,9 quilômetros quadrados, com 14.824 moradores.

3
Fonte sítio da Subprefeitura da Móoca.
Subprefeitura de
Santana/
Tucuruvi

Subprefeitura da
Casa Verde
Subprefeitura Vila Maria/
Vila Guilherme

Pari
Subprefeitura da
Lapa
Subprefeitura da Sé
Suprefeitura da Móoca

Subprefeitura de
Pinheiros
Subprefeitura da Vila Prudente

Subprefeitura da Vila
Mariana Subprefeitura do
Ipiranga

LOCALIZAÇÃO DO CORTIÇO
A programação da disciplina AUP 5707 era de visitar um
cortiço localizado no Bairro do Pari,na rua João Teodoro,975 -
próximo ao metrô Tiradentes.
Entretanto fomos surpreendidos ao encontrar, no local do
cortiço, um estacionamento. Através de informações com o pessoal
da região foi sabido que houve a demolição da construção e que
parcela dos moradores fora indenizada com cartas de crédito da
CDHU, suponho que foram comtemplados pelo PAC (Programa de Atuação
Metrô Tiradentes
em Cortiços).
Diante disso, dirigimo-nos a um outro cortiço, situado na
mesma rua, João Teodoro 879/887. Este é uma construção antiga que
pelas características arquitetônicas aparenta ter mais de 60 anos,
embora não disponha de
dados corretos.
Formado por dois edifícios
geminados com acessos
distintos.
Estacionamento localizado na área do cortiço demolido

Nele fomos recepcionados por Dona Margarida, senhora


responsável pelo cortiço. Muito simpática e solícita, respondeu
prontamente as inúmeras perguntas que fizemos. De acordo com as
informações dela, a maioria dos moradores do número 879 são seus
parentes, ou seja, é um “cortiço familiar”. Isso o torna distinto
em relação à maioria dessas moradias, pois normalmente são
caracterizadas por famílias diferentes em cada cômodo, o que
aumenta a disputa pelas instalações – sanitárias, cozinha e área
de serviço – como também diminui as condições higiênicas.
Assim apesar das instalações serem muito precárias, as áreas
comuns como circulação, sanitários, pias e tanques estavam limpos.

Estado das instalações elétricas com arranjos perigosos efetuado pelos moradores
Instalações sanitárias precárias, porém limpas

Vão interno que propicia ventilação e iluminação nos cômodos dos porões
CÔMODO - DONA MARGARIDA
Dona Margarida vive com o esposo. Seu cômodo possui pia, o
que não é comum em cortiços, pois como cortiço normalmente é
instalado em edificações que originalmente eram residências
unifamiliares não é usual haver pias e/ou sanitários nos cômodos.
Ela vive em São Paulo há 12 anos e é originária de
Pernambuco, cidade de Vitória do Santo Antão. Informou que três
proprietárias são as donas do imóvel e que não moram em São Paulo.
Conforme colegas levantaram, ela paga R$ 300,00 de aluguel,
enquanto os demais moradores pagam aproximadamente R$ 270,00. Ela
paga um pouco mais porque lava roupas para fora, compensando assim
o gasto extra de água.
Efetuei um croqui esquemático onde fica ilustrado o grau de

obstrução de movimentação do
ambiente.

Vista da área da pia e armários e


geladeira
Vista da porta de acesso ao cômodo e do guarda roupa
CÔMODO – MARIA, NORA DE DONA MARGARIDA
Maria está há 5 anos em São Paulo e mora há 4 anos neste
cortiço. Também é proveniente do nordeste. Logo que chegou em São
Paulo, morou em Guarulhos. Pela declaração dela, era ruim, sendo
muito longe e cansativo, pois necessitava acordar cedo para tomar
condução até a região de trabalho. Morar ali, para ela, estava bom
por haver melhores oportunidades de trabalho e não precisar
acordar tão cedo.
Seu cômodo possui dois ambientes, conformando um quarto para
o casal e outro para as crianças, porém não possui pia. Ela lava
louças na área comum dos fundos. O grau de obstrução é muito
grande e há uma goteira enorme sobre a cama do casal, resultado de
uma chuva de granizo que quebrou telhas. Ela diz que a
proprietária não vai tomar providência nenhuma, principalmente
porque, ao que parece, a prefeitura está estimulando a desativação
do cortiço.
Vista superior e inferior da porta do cômodo, divisão por conta da beliche

Vista da goteira sobre a cama, e a obstrução do quarto do casal


CÔMODO – DONA RITA
Dona Rita vive no porão do 887, com os filhos e netos. No
total são 5 pessoas. Seu cômodo possui pia e banheiro, e um outro
quarto nos fundos. As condições de higiene são muito deficientes,
tanto que informou conviver com ratos. Apesar de haver janelas, o
ambiente é muito abafado. O cheiro de mofo impregna tudo, pois a
ventilação e iluminação são muito ruins. Ela é desempregada e
cuida de seu filho que têm hidrocefalia, possuindo duas válvulas
introduzidas no seu cérebro para drenar o excesso de líquidos.
Também sofre de eplepsia. Sua filha é adulta e possui dois filhos
pequenos, também está sem trabalho.
Dona Rita informou que se inscreveu em diversos programas
socias governamentais, entretanto até o momento não recebeu nenhum
benefício.

Vista das instalações sanitárias

Vista do quarto dos fundos – janela que propiciam a iluminação e ventilação


CONCLUSÃO
Existiam mais ambientes nas edificações, entretanto não
visitei todos e não falei com todos os moradores, afinal os
espaços eram pequenos e abarrotados de móveis e objetos. Também
não quis importuna-los. Esse cortiço é incomum, pois grande parte
dos moradores são parentes. Os porões possuiam ventilação e
iluminação ruins, mas melhor que nenhuma, havia alguns cômodos com
pia e/ou banheiro.
É impressionante a quantidade de tapumes para novas
construções na região, ilustrando que existe forte política
municipal pressionando proprietários e moradores com o fim de
acabar com os cortiços da região. É lamentável que ainda persista
a idéia de encaminhar os moradores de cortiço para regiões
periféricas, onde a oferta de trabalho é menor, a infra-estrutura
é pouca e as distâncias a serem percorridas são grandes.

Tapumes em todos os lados

Muitos novos estacionamento –


indica houve mais demolições

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