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Plano Collor: o que ainda pode

ser recuperado?
Texto extraído do Jus Navigandi
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?
id=11524

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Passados mais de 18 anos da implementação do Plano Collor, subsiste a
dúvida na sociedade brasileira se alguma coisa pode ser recuperada daquele
verdadeiro "calote" governamental que, à guisa de supostamente combater a inflação,
confiscou os valores depositados em contas poupança e adotou índices "expurgados"
para se aferir a inflação da época, criando uma expectativa de redução da espiral
inflacionária – que, ao final, não se verificou– à custa de muito sacrifício da
sociedade.

Nos anos 90, constatou-se uma autêntica "enxurrada" de ações judiciais


buscando o reconhecimento do direito dos poupadores ao recebimento da correção
monetária integral, pelo IPC, para os saldos bloqueados das contas em caderneta de
poupança que haviam sido transferidos ao Banco Central do Brasil, por força das
disposições contidas na Medida Provisória nº 168/90 (15/03/1990), depois convertida
na Lei nº 8.024/90, de 12.04.1990.

Com efeito, nos termos daquela lei, os saldos das cadernetas de poupança
excedentes ao valor estipulado de NCz$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzados novos)
seriam convertidos em cruzeiros somente a partir de 16.09.1991, e permaneceriam
até então bloqueados sob a guarda do Banco Central do Brasil, recebendo correção
pela variação mensal da BTN Fiscal, em substituição ao IPC, índice que, até a edição
da MP 168/90, era aplicado à correção monetária mensal das cadernetas de
poupança.

Já os valores inferiores a quantia estipulada de NCz$ 50.000,00 (cinqüenta


mil cruzados novos) seriam imediatamente convertidos para a nova moeda – cruzeiro
– e permaneceriam sob a livre disposição dos poupadores.

Pois bem: Quanto aos cruzados novos bloqueados, o desfecho judicial não foi
favorável aos poupadores, porquanto o Supremo Tribunal Federal entendeu que as
quantias bloqueadas – uma vez transferidas ao Banco Central do Brasil – perderam a
natureza de depósitos em cadernetas de poupança, inexistindo, assim, direito
adquirido ao recebimento do índice até então contratado, o IPC – Índice de Preços ao
Consumidor, e portanto revelando-se lícita a substituição do critério para a correção
de tais quantias, "in casu", com a adoção do BTNF, consoante estipulado em lei.

Ademais, o mesmo STF deliberou no sentido que a responsabilidade para


responder ações judiciais envolvendo os cruzados novos que foram bloqueados e
transferidos ao Banco Central do Brasil era da própria Autarquia, o que isentou a
responsabilidade dos bancos, neste aspecto. Acrescente-se que, em sendo definida a
responsabilidade do Banco Central do Brasil, e sendo esta uma Autarquia Federal,
incide a regra prescricional de 05 anos em face da Fazenda Pública. Logo, desde
março/1995, qualquer iniciativa judicial contra o BACEN, neste aspecto, já se
encontra prescrita.

Neste ponto, portanto, calha a reprodução da pergunta que faz título ao


presente artigo: O que pode ainda ser recuperado pelos poupadores, em se tratando
de Plano Collor? Há algo ainda a ser postulado em juízo pelos poupadores?
A resposta é positiva!

Efetivamente existem duas situações concretas em que se é possível recuperar


parte do que foi perdido pelos poupadores em decorrência da implementação do
Plano Collor. Uma dessas situações é de caráter geral, aplicável a todos aqueles que
possuíam contas de caderneta de poupança à época. Já a outra abarca situações
específicas, restringindo, por conseguinte, o número de beneficiários.

Vamos a elas:

1ª Possibilidade de Recuperação – Aplicada à todos os poupadores do País

A primeira possibilidade de recuperação de perdas do Plano Collor poderá ser


suscitada – exclusivamente pela via judicial – por todos aqueles que possuíam
depósitos em cadernetas de poupança quando o Plano Collor foi editado.

Trata-se do direito ao recebimento da correção monetária integral – pelo IPC


– nos saldos existentes em maio/1990, sobre os valores que foram imediatamente
convertidos em cruzeiros (no limite então estabelecido de NCz$ 50.000,00, ou de
NCz$ 100.000,00, para o caso específico de conta poupança conjunta) e que
permaneceram "livres" nas contas de caderneta de poupança.

São valores que em nenhum momento foram bloqueados, e assim, não foram
transferidos ao Banco Central do Brasil, permanecendo sob a guarda do banco
depositário.

E tais quantias, em maio/90, receberam (ou "não receberam") uma esdrúxula


correção monetária de 0% (ZERO POR CENTO), uma vez que lhes foi aplicado o
novo índice do BTNF, que havia aferido a inflação, naquele período, como
inexistente. Tais contas, na verdade, apenas receberam o 0,5% de juros legais,
conforme estabelecido em lei.

E na verdade, os valores existentes em cruzeiros livres deveriam, sim, ter


recebido a correção monetária pela variação inflacionária aferida pelo IPC em
abril/90 – aplicável em maio/90 – a qual foi de 44,80%.

Em resumo, em vez de receberem a correção monetária nos termos da lei, de


44,80%, tais contas poupança receberam, sobre os valores não bloqueados, 0% por
cento, e assim, todos têm direito ao recebimento de tal correção não aplicada,
evidentemente atualizada desde àquela época, acrescida de juros legais e de juros de
mora, até o seu efetivo pagamento.

Que a postulação judicial, neste sentido, deve ser dirigida contra o banco
depositário onde se mantinha a conta poupança, uma vez que os valores ali
permaneceram livres. E como se trata de uma relação privada, não envolvendo a
Fazenda Pública, o prazo prescricional é de 20 anos, portanto, com vencimento em
maio de 2010.
2ª Possibilidade de Recuperação – Aplicada aos aposentados, pensionistas,
instituições sem fins lucrativos, depósitos judiciais e à quem comprovasse à época
ter débitos assumidos anteriores ao bloqueio

Existe ainda uma segunda possibilidade de recuperação de quantias não


integralmente pagas nas contas poupança quando da edição do Plano Collor, porém
destinada a grupos mais restritos de pessoas, mas nem por isso menos relevante.

Tratam-se de poupadores que não tiveram todos os seus saldos em conta


poupança superiores a NCz$ 50.000,00 efetivamente bloqueados e transferidos ao
BACEN.

São os aposentados e pensionistas da Previdência, Instituições sem Fins


Lucrativos, depósitos judiciais em contas poupança e mesmo aqueles que
comprovaram, segundo os ditames da época, a necessidade da liberação antecipada
dos valores que seriam bloqueados, para fazer frente a determinadas obrigações.

Sua Excelência Ministro GILMAR FERREIRA MENDES – atual Presidente


do Supremo Tribunal Federal – publicou clássico artigo doutrinário sobre o tema, no
ano de 1991, quando assim esclareceu, verbis:

"A par dessas cautelas, admitiu-se a transferência de


titularidade para fins de liquidação de dívidas e operações
financeiras comprovadamente contraídas antes de 15 de
março de 1990 (Lei 8.024/90, art. 12), e permitiu-se a
liberação de recursos em cruzados novos em montantes e
percentuais distintos daqueles estabelecidos em lei, desde
que o beneficiário fosse pessoa física que percebesse
exclusivamente rendimentos provenientes de pensões e
aposentadorias."

("In" A Reforma Monetária de 1990 – Problemática Jurídica da Chamada


"Retenção dos Ativos Financeiros (Lei nº 8.024, de 12-4-1990 – Revista de
Informação Legislativa do Senado Federal nº 112 – out. a dez. 1991 – p. 296))
(grifos nossos)

Para as pessoas nas situações acima descritas, então, nem todas as quantias
superiores a NCz$ 50.000,00 foram efetivamente bloqueadas e transferidas ao Banco
Central do Brasil.

Pelo contrário, permaneceram livres, à disposição dos Bancos Depositários, e


assim, deveriam também ter recebido a correção monetária, em maio/90, pela
variação do IPC de abril/90, de 44,80%, ao invés do 0% que receberam.

Isto porque a Medida Provisória nº 168/90, que implantou o Plano Collor, não
dispôs que os cruzados novos não bloqueados e não transferidos ao BACEN seriam
corrigidos pelo BTNF.

A adoção deste novo índice (BTNF) valeria apenas para os cruzados novos
efetivamente bloqueados e transferidos ao BACEN!

Por conseguinte, os valores que não foram bloqueados deveriam receber a


correção monetária pelas regras então vigentes, isto é, pelo IPC, que em maio/90 era
de 44,80%!

Ressalte-se que, talvez percebendo o "cochilo", o Governo ainda tentou


modificar as coisas, através da Medida Provisória 172/90, de 17.03.90, na qual se
previu, aí sim, que os cruzados novos não bloqueados (até o limite de NCz$
50.000,00 ou os que não acabariam não sendo bloqueados por diversas razões),
também seriam corrigidos, a partir do próximo rendimento, pelo BTNf.

Mas ocorreu que a dita MP 172/90 não foi incluído na Lei nº 8.024, de
12.04.90, a qual, portanto, somente converteu em lei o que estava disposto na MP
168/90, que determinava a aplicação do BTNf, exclusivamente, para os cruzados
novos bloqueados e efetivamente transferidos ao BACEN.

Assim, tal disposição jamais foi convertida em lei, prevalecendo, até hoje, o
regramento então vigente, isto é, a aplicação do IPC para a correção monetária, em
maio/90, para os valores que não foram efetivamente bloqueados e transferidos ao
BACEN.

Em ambos os casos, é imprescindível que o poupador tenha em mãos as


cópias dos extratos de contas de caderneta de poupança dos meses de março/90,
abril/90 e maio/90, os quais podem ser solicitados junto ao banco onde se encontrava
o dinheiro depositado. É de rigor o fornecimento de tais extratos, pelos bancos
depositários.

Analisando tais extratos, o poupador perceberá que as quantias no limite de


NCz$ 50.000,00 (na primeira hipótese) ou mesmo superiores (na segunda hipótese),
receberam apenas o pagamento dos juros de 0,5%. Nada mais.

Em certos extratos – como os emitidos pela CEF – se constatará a existência


de determinados códigos que comprovam que as quantias superiores a NCz$
50.000,00 estavam livres em maio/90.

Código como o de nº "36", constante no extrato, demonstra que a quantia


que era para ser bloqueada foi novamente creditada na conta livre, com a
conseqüente conversão automática para a nova moeda (cruzeiro) e a possibilidade de
sua livre disposição e movimentação, pelo poupador.

Também o código "cr.alt.sb", constante no extrato, comprova igualmente que


a quantia ali consignada estava na verdade liberada e convertida em cruzeiro,
porquanto dita sigla, na linguagem bancária, significava "creditamento pela alteração
do saldo bloqueado", ou seja, o poupador, por se enquadrar em alguma das hipóteses
acima (aposentado, pensionista, depósito judicial, instituição sem fins lucrativos,
com dívidas já consolidadas antes de 15.03.1990, etc), estava com os valores livres
em sua conta, e assim, deveria ter recebido a correção monetária pelo IPC, ao invés
do BTNF que lhe foi aplicado.

Também nesta segunda hipótese – pelas mesmas razões acima explicitadas –


a ação deve ser endereçada junto ao banco depositário onde se mantinha a conta
poupança, e o prazo prescricional outrossim é de 20 anos, encerrando-se em
maio/2010.

Para finalizar, acrescente-se que a jurisprudência – após um período vacilante


em razão da confusão que se instalou com a decisão do STF – já compreendeu as
diferenças acima apontadas, como recentemente bem decidido, v.g., pelo Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, verbis:

AÇÃO DE COBRANÇA – RECLAMADAS


DIFERENÇAS DE CADERNETAS DE
POUPANÇA...EXCLUSÃO DA CORREÇÃO MONETÁRIA,
PELO IPC, EM RELAÇÃO AOS MESES DE ABRIL A
DEZEMBRO DE 1990 E JANEIRO E FEVEREIRO DE 1991,
ENVOLVENDO O PERÍODO EM QUE OS SALDOS DAS
CONTAS BANCÁRIAS E DAS APLICAÇÕES FINANCEIRAS
FICARAM BLOQUEADOS, PORQUANTO TRANSFERIDOS
AO BANCO CENTRAL DO BRASIL, POR FORÇA DA
LEGISLAÇÃO DO CHAMADO PLANO COLLOR –
RESPONSABILIDADE DO BANCO DEPOSITÁRIO QUE
SUBSISTE EM RELAÇÃO AO MONTANTE QUE NÃO
FOI TRANSFERIDO ÀQUELA OUTRA INSTITUIÇÃO..."

(TJ/PR – 5ª Câmara Cível – Apel.Civ. 480.076-6 – Rel. Des. Duarte


Medeiros - DJ 7.612 - j. 23.04.2008)

E do voto do Relator, Desembargador DUARTE MEDEIROS, ora se


reproduz o seguinte e esclarecedor entendimento:

"...Daí porque, sendo responsabilidade do Banco


Central do Brasil o pagamento das diferenças dos expurgos
inflacionários sobre os valores EFETIVAMENTE
BLOQUEADOS, no período de abril de 1990 até fevereiro de
1991, e não do réu, impõe-se a reforma da sentença, neste
tópico, para afastar o IPC como o indexador das contas de
poupança do autor quanto a este montante, PERSISTINDO
ELA, PORÉM, QUANDO AO SALDO REMANESCENTE
DE CADA CONTA, NÃO ATINGIDO POR TAL
BLOQUEIO." (grifos nossos)

Em suma, estes os principais esclarecimentos de relevo em relação às dúvidas


dos poupadores quanto aos direitos ainda existentes quanto aos efeitos do Plano
Collor, esperando o autor que as dúvidas tenham sido dissipadas, evitando-se, com
isso, até o ajuizamento de ações sabidamente inexitosas com a proximidade do
encerramento do prazo prescricional para reclamações em face do Plano Collor, cujo
alerta de prescrição, pela mídia, sempre acarreta o abarrotamento do Poder Judiciário
com o ajuizamento de inúmeras ações judiciais de última hora.