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Saúde ambiental como estratégia para a saúde indígena na Mata Atlântica

Diogo de Oliveira

Os registros arqueológicos indicam que a introdução dos sistemas agrícolas na região sul e
sudeste da Mata Atlântica ocorreu há 2500 anos, sendo que a paisagem encontrada pelos europeus foi
a de extensas áreas sendo cultivadas e manejadas em sistema itinerante, permitindo a sucessiva
recomposição da funcionalidade ecológica dos ambientes e interagindo com a paisagem de forma a
incrementar a diversidade biológica. Estas populações humanas vivem até hoje de acordo com uma
concepção pragmática da paisagem florestal atlântica, expressando profundo conhecimento ecológico
por meio de representações simbólicas complexas de sua vida social, como os rituais, as crenças, a
mitologia, a medicina tradicional, e as próprias práticas cotidianas, entre elas o sistema de caça,
coleta e agricultura de subsistência. Portanto, as florestas subtropicais fazem parte da cosmologia
destes povos, isto é, da maneira com que estas sociedades concebem o universo e, nele, situam o ser
humano. A própria natureza é concebida como parte da sociedade indígena.

Os relatos dos primeiros navegadores a alcançaram a costa sul e sudeste atlântica fazem
referência à de povos de boa saúde e constituição física, além da grande fartura de alimentos. Os
estudos de ecologia alimentar indicam que o sistema a manejo agroflorestal de subsistência exigia
poucas horas de trabalho diário para proporcionar grande quantidade de alimento. As atividades
sociais eram intensificadas, sendo realizadas práticas simbólicas e rituais em relação aos alimentos, a
caça, a coleta, envolvendo neste imaginário uma grande quantidade de elementos existentes nas
florestas atlânticas. Estas práticas ainda evitavam o esgotamento do solo, dos recursos hídricos e dos
demais recursos florestais.

A chegada dos não-índios veio acompanhada pela trágica destruição do território de


sustento, além da introdução de doenças e da mudança do sistema de trabalho. Os indígenas foram
obrigados a se adaptar a um espaço muito reduzido, sem boa parte dos recursos necessários para o
próprio sustento, criando uma enorme lista de novas necessidades, como remédios industrializados
para doenças que não conheciam. Fica estabelecido um processo de dependência a uma sociedade
etnocêntrica, que não respeita os sistemas culturais indígenas e os coloca em condição de
inferioridade.

O modelo de exploração madeireira implantado na Mata Atlântica, principalmente no século


XX, dizimou as florestas do sul e sudeste do Brasil, devastando um território étnico. As populações
indígenas da Mata Atlântica acabaram se refugiando nos remanescentes florestais de difícil acesso,
resistindo para manter sua cultura enquanto viam o território de seus antepassados sendo destruído.
Os conflitos fundiários se intensificaram, sendo que muitos casos ganharam visibilidade por estarem
em conflito com o crescimento econômico e com Unidades de Conservação.

A luta pelos direitos territoriais indígenas sempre mediu forças com o crescimento
econômico e o modelo predatório de exploração do ambiente. No Brasil, a Constituição Federal de
1988 pela primeira vez garantiu constitucionalmente aos índios os direitos sobre as terras
tradicionalmente ocupadas, seus costumes, os recursos necessários para a reprodução física e cultural,
além do ao atendimento diferenciado em educação e saúde. No entanto, seguem-se os esforços para
garantir esses direitos e, principalmente, para compreender o que, de fato, eles significam.

As políticas integracionistas empregadas ao longo do século XX, associadas com a


conquista de direitos territoriais indígenas, impulsionam a criação de projetos de “desenvolvimento
econômico” nas áreas indígenas. Tais projetos formalizaram a exploração de recursos naturais das
áreas indígenas, além de sua gentil da mão-de-obra. O conhecimento minucioso das culturas
indígenas sobre o ambiente passou a ser encarado como uma fonte de espécies da fauna e da flora
passíveis de beneficiamento e comercialização, como frutos, óleos, medicamentos, madeiras.

Somente a partir da década de 1990 que, com o despertar da nova mentalidade ecológica, os
projetos comunitários de subsistência passam a ganhar destaque. As perspectivas políticas e
econômicas de cada etnia são respeitadas, incentivando a implantação de projetos visando autonomia,
subsistência e sustentabilidade ambiental nas áreas indígenas. Desta forma os indígenas se tornam
senhores de seu presente e futuro, fazendo uso de sua etnicidade, de sua identidade diferenciada em
relação aos demais segmentos da população, para decidir sobre os rumos de sua própria vida. Na
medida em que ocorre o empoderamento dos indígenas sobre o território e os sistemas produtivos,
estes se organizam para ocupação e fiscalização de suas áreas. Na maioria dos casos vem sendo
implantadas medidas para restaurar as áreas degradadas, explorar sustentavelmente os recursos e
promover a segurança alimentar, conservando as práticas tradicionais de manejo e a
agrobiodiversidade.

A visão alternativa ganhou espaço também na educação indígena bilíngüe, e no atendimento


à saúde integral, respeitando práticas tradicionais e apoiando projetos de subsistência, visando
assegurando a saúde psicossocial dos indígenas. No entanto, esta perspectiva ainda encontra muitos
obstáculos para ser incorporada à prática de certas instituições, principalmente o sul e sudeste da
Mata Atlântica.

O avançado estado de devastação do Bioma aumenta a necessidade de projetos que


favoreçam e valorizem os conhecimentos tradicionais das comunidades indígenas da Mata Atlântica.
A sobrevivência sócio-cultural das comunidades tradicionais do sul e sudeste (indígenas,
quilombolas, ribeirinhos, caiçaras) está ameaçada, pois estes vivem em um sistema de
interdependência intensa com o ambiente florestal. A ocupação dos remanescentes florestais por
comunidades indígenas deve ser percebida como uma estratégia para a conservação da Mata
Atlântica. Embora muitas dessas áreas sejam consideradas de alta prioridade para a conservação
biológica, não existem políticas públicas suficientes para: a) recomposição da paisagem com espécies
de uso e significado simbólico das culturas indígenas, que muitas vezes são ameaçadas de extinção e
possuem potencial de uso econômico; b) uso das áreas indígenas como corredores ecológicos,
conectando fragmentos florestais e Unidades de Conservação; c) preservação dos recursos hídricos; e
d) projetos de etnodesenvolvimento, orientados o manejo sustentável de acordo a perspectiva de cada
etnia. Esta falta de atuação muitas vezes ocorre por falta de recursos, acirrando a insegurança física
das populações indígenas, que se tornam reféns em seu próprio território, mantendo o vínculo de
dependência e ameaçando a saúde psicossocial dos índios e a saúde ambiental das áreas.

Para assegurar a saúde integral às comunidades indígenas, é necessário manter a saúde


ambiental das florestas onde vivem, permitindo o cultivo dos alimentos tradicionais, o uso da
medicina tradicional e o sistema de caça e coleta, gerando renda e benefícios por meio do uso
sustentável desse ecossistema altamente ameaçado, a Mata Atlântica. Assegurando os recursos
ambientais para a reprodução física e cultural, consolida-se também a educação diferenciada,
ofertando melhor perspectiva de futuro para as novas gerações. Portanto, a restauração ambiental da
paisagem, com plantas e animais que permitam exploração econômica, o re-povoamento das matas
com espécies ameaçadas de extinção e de uso cultural, além do incentivo aos sistemas de medicina e
agricultura tradicional, são vitais para assegurar saúde integral às populações indígenas. O manejo
agroecológico das áreas indígenas, de acordo com conhecimentos e práticas tradicionais, promove a
segurança alimentar e a manutenção dos sistemas culturais, interagindo de forma parcimoniosa e
sustentável com sistema econômico do não-índio. Desta forma, respeita-se a perspectiva indígena de
desenvolvimento aliada a intensa necessidade de conservação da Mata Atlântica. Portanto, para
assegurar a saúde integral das populações indígenas é necessário que seja reconhecido o seu
intrínseco vínculo à saúde ambiental das áreas que ocupam.