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SEXO E GÊNERO

Embora gênero seja uma palavra que tem uma longa história de usos diferentes, seu
significado sociológico refere-se a idéias culturais que constroem imagens e expectativas a
respeito de machos e fêmeas. Esse fato distingue gênero de sexo, cujo escopo se limita a
diferenças biológicas, como a função reprodutiva, e a características secundárias, como pêlos
no corpo e desenvolvimento dos seios. De certa maneira, trata-se de uma distinção que induz
ao erro, porquanto ignora que o sexo é também um conjunto socialmente construído de
idéias moldadas pela cultura.
As culturas ocidentais, por exemplo, definem-no tipicamente em termos de dois sexos,
homem e mulher, embora haja culturas que identificam mais de duas categorias. Nesse
sentido, a importância social do sexo como um conjunto de categorias reside não em alguma
realidade objetiva à qual a linguagem apenas dá nomes, mas que aquilo que pensamos como
sexo é definido por idéias culturais.
O gênero é em geral definido em torno de idéias sobre traços de personalidade,
masculina e feminina, e por tendências de comportamentos que assumem formas opostas.
Tomadas como conjuntos de traços e tendências, elas constituem a feminilidade e a
masculinidade. A masculinidade costumeiramente inclui agressividade, lógica, frieza
emocional e dominação, ao passo que a feminilidade é associada à paz, intuição,
expressividade emocional e submissão.
Embora seja clara a prova de que essas idéias sobre os sexos são culturais, sua
importância sociológica é menos clara. Numerosos autores observam que traços
habitualmente atribuídos a homens e mulheres não descrevem exatamente a maioria das
pessoas. Esposas podem ser relativamente submissas em relação aos maridos, mas, como
mães, não tanto em relação aos filhos. Nesse sentido, descrever mulheres como “submissas”
confunde personalidade com expectativas culturais ligadas a papéis e situações sociais
particulares.
Outros afirmam que a ênfase comum sobre masculinidade e feminilidade como fatores
decisivos em explicações de desigualdade de gêneros é mal colocada. Androginia, por
exemplo, é um conceito que descreve uma mistura de traços de personalidade masculinos e
femininos e tem sido proposta por algumas feministas como parte da solução da
desigualdade dos gêneros. Críticos, porém, argumentam que a opressão das mulheres não se
baseia em diferenças de personalidade, mas na organização social da PATRIARQUIA e suas
instituições, variando da divisão do trabalho na família à natureza competitiva e exploradora
do capitalismo.
Dessa perspectiva, os conceitos de masculinidade e feminilidade servem a funções de
controle míticas e sociais que reforçam a dominação masculina. Esse fato é revelado na
maneira seletiva como elas são aplicadas. Quando homens não ternos e fisicamente
afetuosos com os filhos, por exemplo, eles quase nunca são criticados como não-masculinos;
mas quando se comportam dessa maneira com outros homens, a ideologia masculina é
invocada para colocá-los de acordo com os requisitos da dominação. Analogamente, é
provável que mulheres sejam criticadas se aplicarem poder ou dominação em relação aos
maridos e outros homens, mas não no caso de se comportarem dessa maneira em relação
aos filhos.
No estudo dos gêneros, a importância da feminilidade e da masculinidade reside em sua
relação com os papéis de gênero (às vezes denominados papéis sexuais). Há conjuntos de
expectativas e outras idéias sobre como homens e mulheres devem pensar, sentir, parecer e
se comportar em relação a outras pessoas. Nas sociedades ocidentais, por exemplo, homens
que se comportam e se apresentam de formas culturalmente masculinas são vistos como em
conformidade com seu papel de gênero.
Há algumas discordâncias tanto sobre a existência de papéis de gênero como quanto
sua importância para entender a desigualdade entre gêneros. Espera-se que mulheres
“femininas”, por exemplo, submetam-se à vontade do marido, mas não às de irmãos ou
filhos, mesmo que em ambos os casos o status que ocupam – esposa, irmã ou mãe – seja
inerentemente feminino. Esse fato sugere que não há um papel masculino ou feminino
distinto (da mesma maneira que não há papéis de classe ou raciais distintos), mas apenas
conjuntos frouxamente ligados de idéias sobre homens e mulheres, que podem ser invocados
para várias finalidades, incluindo controle social e manutenção da patriarquia como sistema
dominado pelo homem.