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2014 O POVO JUDEU DURANTE OS SÉCULOS
2014
O POVO JUDEU
DURANTE OS SÉCULOS

HISTÓRIA JUDAICA

BY GIL CHAIM PACHECO

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APRESENTAÇÃO

Com o intuito de trazer um maior conteúdo historiográfico da presença judaica durante os séculos,
Com o intuito de trazer um maior conteúdo historiográfico da presença judaica
durante os séculos, iniciamos este trabalho. Sem sombra de dúvidas, há muito o que se
falar e comentar. Contudo, para não sermos prolixos focaremos nos mais
representativos fatos históricos da história judaica durante os séculos.
Não há como dissociar a influência dos eventos históricos na formação cultural
e religiosa de nosso povo, e para isso, faremos uso de uma bibliografia específica afim
de elencarmos com a maior clareza possível esses eventos históricos e suas
consequências na formação identitária do povo judeu, ou seja, nosso povo.
Adentraremos nas da ciência do conhecimento a procura de elementos
epistemológicos que demonstrem ao leitor deste pequeno trabalho o impacto dos
séculos no amálgama cultural judaico. Esse posicionamento epistemológico, se faz
necessário para que o aporte histórico seja absorvido de forma mais clara a ponto de
haver uma cristalização histórica do conteúdo aqui elencado.
Não obstante a isso, faremos com que esse aporte histórico traga uma maior
compreensão dos diversos momentos históricos a que fomos expostos durante os
séculos, trazendo consigo os princípios da identidade judaica, fator transcendental do
nosso povo e que supera a compreensão e explicações racionais.
Boa leitura e bom aprendizado.
Olinda, 01 de kislev de 5775.

Gil Chaim Pacheco 1 - hyldg Nb Myyx lyg

1 Historiador e Internacionalista, membro do Instituto Histórico de Olinda e Primeiro Presidente da Sinagoga Beit Shmuel em Recife PE.

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INTRODUÇÃO

“Cinco bens de Seu mundo, adotou especialmente para Si o Eterno, abençoado seja Ele. São
“Cinco bens de Seu mundo, adotou especialmente para Si
o Eterno, abençoado seja Ele. São esses: a Torá, o céu e
a terra, Abraão, Israel e o Santuário Sagrado”
(Pirkei Avot [Ética dos Pais] 6:10).
Sem sombra de dúvidas a maior fonte histórica da presença judaica é a
Torá, se iniciando em Bereshit (Gênese). A longa jornada do povo de Israel se
inicia com Abraão, o primeiro patriarca 2 . Primeiro monoteísta da história, Abraão
rebelou-se contra a idolatria reinante, foi também o primeiro a proclamar que
D’us é Um e Único e que o mundo tem um único Senhor do Universo. Sem ter
tido “ninguém para ensinar-lhe”, Abraão abandonou todos os ensinamentos e
tradições de seus pais e a terra onde vivia para seguir a Voz que o levava a D’us.
Segundo o Midrash, ele era chamado de Avraham, ha-Ivri, Abraão, o Ivri, que
significava “o que passou para o outro lado”. Pois Abraão enfrentou o mundo
sozinho: ele, o monoteísta, de um lado; o resto do mundo, politeísta e idólatra,
do outro.

Abraão foi o primeiro judeu. Com ele e através dele D’us selou uma aliança sagrada e perpétua com o povo de Israel, assegurando-lhe que seus descendentes seriam numerosos como as “estrelas do céu” e herdariam a Terra Sagrada. Nosso primeiro patriarca ensinou a Verdade à sua família e a todos ao seu redor, mas, principalmente, a seu filho Isaac, que a transmitiu a Jacó e este, a seus filhos, que deram origem às doze tribos. Assim, a herança de Abraão passou de pai para filho em uma corrente espiritual que atravessa os séculos. O legado de Abraão é sinônimo de fidelidade, lealdade, bondade, fé e coragem, pois sua fé em um Único Criador, Justo e Bom, exigia do homem integridade absoluta em relação a D’us e aos outros homens. Seus atos moldaram e inspiram a Nação Judaica, que se refere a ele como Avraham Avinu, nosso pai, Abraão.

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Extraído

do

site

da

Revista

Morashá,

Edição

de

2002,

disponível

em,

http://www.morasha.com.br/conteudo/ed37/abraao.htm

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A vida do primeiro patriarca é narrada no primeiro livro da Torá, Bereshit (Gênese). O texto e os estudos adicionais no Talmud, no Midrash e nos livros da Cabala revelam ainda mais sobre a vida de Abraão, as lutas, as vitórias e os desafios que teve que enfrentar ao longo do caminho que o levou a D’us. Os eventos da vida do patriarca prenunciam a história do Povo de Israel, pois, como ensinam os nossos sábios: “Os atos e episódios ocorridos durante a vida dos patriarcas são um sinal para os seus descendentes”. O que sabemos sobre Abraão, o nosso patriarca? Quais as virtudes que possuía para ter sido escolhido por D’us como o fundador da Nação Judaica?

ABRAÃO: UM HOMEM EM BUSCA DA VERDADE O Abraão revelado pela Torá não é retratado
ABRAÃO: UM HOMEM EM BUSCA DA VERDADE
O Abraão revelado pela Torá não é retratado como um sábio imerso em
contemplações metafísicas ou um visionário. Era um homem à procura da
Verdade, dotado de uma mente independente, um coração generoso, uma alma
fervorosa e uma coragem indomável. Apesar de ter adquirido, ainda jovem, uma
consciência intuitiva sobre a existência de um Único Criador – de acordo com o
Midrash, a partir dos três anos de idade – sua primeira experiência profética só
ocorreu aos 75. Somente após anos de persistente busca pela Realidade
Absoluta, D’us se revelou a ele pela primeira vez, e o instruiu. Nossa tradição lhe
confere inúmeros talentos e virtudes: sabedoria de um justo, bondade lendária,
poderes e riquezas de um rei e força e coragem de um grande guerreiro. Sua
figura imponente, porte real e clareza de ideias impressionavam a todos a seu
redor, assim como sua eloquência em espalhar a Verdade.

Segundo os livros, Abraão era conhecido em seu meio como um sábio místico que acreditava na existência de uma Única Divindade um D’us misterioso do qual recebia instruções. Seus contemporâneos diziam que anjos sussurravam em seu ouvido e que ele usava tanto seus poderes místicos quanto sua sabedoria prática para ajudar os outros. Profundo conhecedor de segredos místicos, estudara na Academia de Shem e Eiver, em Jerusalém, na época denominada Shalem. Foi lá que aprendeu a tradição sobre a Criação do mundo que Noé aprendera de seu pai e transmitira a seus filhos, em especial a Shem.

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Primeiro a compreender os segredos da Criação do mundo, Abraão

registrou seus ensinamentos e observações no primeiro texto místico da humanidade – o “Livro da Criação”, Sefer Yetsirá. A obra é, até hoje, considerada

a mais importante fonte sobre os segredos da Criação do Universo. Nela está

revelado que D’us criou o mundo por meio das 22 letras do alfabeto hebraico e

de 10 emanações divinas chamadas de sefirot. O nome original do primeiro patriarca era Abrão
de 10 emanações divinas chamadas de sefirot.
O nome original do primeiro patriarca era Abrão (Avram), até D’us mudá-
lo para Abraão (Avraham), que quer dizer “pai de muitas nações”. De fato, somos
proibidos de chamá-lo de Abrão, seu nome de nascimento. Abraão nasceu por
volta do final do segundo milênio antes da era comum (a.E.C.) na cidade de Ursh
Cashdin, na Mesopotâmia, região localizada no Crescente Fértil, berço da
civilização ocidental. Na época em que Abraão nasceu, o politeísmo – a crença
em várias divindades – reinava supremo no mundo. Segundo a Torá, seu pai,
Terach, apesar de descender de Noé e de Shem, servia a “deuses estranhos”.
Considerado o principal idólatra da região, mantinha uma loja onde vendia
estátuas e representações de divindades. Mas o filho de Terach não sucumbiu
às práticas de seu pai.
Segundo as nossas tradições, Abraão descobriu a existência de um
Único D’us observando o sol e a lua, que se alternam no céu, e a natureza a sua
volta. Sua intuição aliada a sua mente sagaz, fizeram-no concluir que devia haver
um Ser Supremo que governava todo o universo e estabelecera e geria as leis
da Natureza. Só um Ser Supremo e Perfeito poderia ter criado algo tão perfeito.
Sua percepção estava de acordo com os ensinamentos que havia adquirido na
Academia de Shem, em Jerusalém.
Abraão passou a tentar convencer seu pai Terach e a população de sua
região sobre a falsidade do politeísmo. Mas suas atitudes, seus questionamentos
e sua eloquência em transmitir a Verdade que descobrira, de que há um Único
D’us, Senhor do Universo, chocavam-se com todos ao seu redor. O rei de Ursh,

Nimrod, sentiu-se particularmente ameaçado e insultado, pois ele mesmo queria ser considerado um deus. Furioso com as atitudes de Abraão, o rei condenou-o

a uma fornalha ardente. “Se seu D’us realmente existe, Ele que o salve”,

declarou o rei Nimrod a Abraão. Abraão foi salvo por D’us e emergiu do fogo da

fornalha sem a menor queimadura. Foi um dos dez testes aos quais Abraão foi

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submetido durante sua vida. Um teste de fé no Todo-Poderoso, do qual Abraão emergiu triunfante como em todos os demais que enfrentou.

Somente aos 75 anos, após décadas de absoluta e total devoção, o Eterno Se revelou a Abraão pela primeira vez, apresentando-Se com o chamado Divino “Lech Lechá” – “Sai da tua terra, da tua pátria e da casa do teu pai para a terra que Eu te mostrarei” (Gênese 12). As palavras Lech Lechá literalmente significam “Vai por ti mesmo”.

No momento em que D’us se revelou pela primeira vez, Abraão já havia realizado feitos
No momento em que D’us se revelou pela primeira vez, Abraão já havia
realizado feitos sem precedentes. Descobrira a verdade do D’us Único, desafiara
o rei mais poderoso da época e também sacerdotes, sobrevivera à fornalha
ardente e convertera milhares à fé monoteísta. Tudo isso conseguiu por si
mesmo. Não tinha um mestre nem uma tradição para guiá-lo, nem uma voz
celestial para dirigi-lo. Nada além de seu intelecto e de sua incansável busca
pela Verdade Absoluta.
Mesmo assim, quando finalmente obteve a revelação Divina, ele
recebeu a ordem de “Vai por ti mesmo: deixa de lado teus talentos (“tua terra”),
tua personalidade enraizada em teu meio ambiente (“teu local de nascimento”)
e tua sabedoria fenomenal (“da casa de teu pai), e segue D’us até “a terra que
Eu te mostrarei”. D’us ordena a Abraão abandonar todas as influências externas
para segui-Lo. A partir do momento em que D’us revelou a Abrãao Seu caráter
único, Abrãao passa a cumprir Suas instruções e a seguir Suas ordens, que o
levariam mais próximo de D’us e de Sua Verdade. E então prometeu o Todo-
Poderoso: “E farei de ti uma grande nação. Eu te abençoarei e engrandecerei
teu nome. Tu serás uma bênção. Eu abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” (Gênese 12:1).

Após obedecer a Ordem Divina, Abraão seguiu em direção a Canaã com sua esposa Sarai, seu sobrinho Lot e todos aqueles a quem tinha convertido à nova fé. Uma vez em Canaã, D’us lhe revelou Sua Vontade e fez uma série de promessas a Abraão, selando com ele pactos que iriam ligar para sempre o povo de Israel a D’us. Promete a Abraão que seus descendentes herdarão a terra. “Eu darei esta terra a teus descendentes” (Gênese 12:1), repete D’us em várias ocasiões.

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Mas Abraão não tinha filhos e, sendo um grande astrólogo, sabia que só

a Vontade Divina poderia fazer com que tanto seu destino e como o de Sarai,

sua esposa, fossem revertidos para que, assim, pudessem conceber um filho. Se não tivesse um filho, a quem poderia transmitir sua herança espiritual? perguntou Abraão ao Eterno. Quem iria propagar a fé entre todos os povos? D’us

assegurou-lhe que iria ter filhos e prometeu multiplicar a descendência de Abraão, dizendo que seria
assegurou-lhe que iria ter filhos e prometeu multiplicar a descendência de
Abraão, dizendo que seria tão numerosa quanto “as estrelas do céu”.
Mas Abraão, temeroso pelo futuro de seus descendentes, pediu uma
prova tangível de que a Terra Sagrada lhes pertenceria. D’us então lhe mostrou
o futuro de seus descendentes – as provações que teriam que enfrentar, os
sucessivos impérios que se levantariam contra eles. Ressaltou, no entanto, que
Israel sobreviveria a todos os perigos e os venceria. Foi esta a promessa do
Eterno. Como a promessa de D’us é irrevogável, a Terra Sagrada caberá, em
última instância, a Israel, mesmo se este – por não cumprir a Vontade Divina –
a perder por algum tempo.
A promessa do Todo-Poderoso de que Abraão seria uma bênção e
geraria bênçãos implicava também que receberia Sua proteção. Portanto, o
Eterno é o Escudo de Abraão, Magen Avraham, e, como seus descendentes,
pedimos a D’us, todos os dias, em nossas orações, que também seja nosso
Escudo.
A ALIANÇA ETERNA ENTRE D’US E O POVO DE
ISRAEL

Quando Abraão tinha 99 anos, D’us Se revelou novamente para selar com o patriarca, através do brit milah, Sua Aliança Eterna com o povo de Israel. Diz o Eterno a Abraão: “Eu sou D’us, Todo-Poderoso, anda diante de Minha presença e sê perfeito” (Gênese 17). “Até agora não foste perfeito diante de Mim”, disse D’us a Abraão, mas “circuncida-te, então andarás diante de Mim (à vista dos homens) e serás perfeito”. E o Eterno ordenou: “E vós sereis circuncidados na carne de vosso prepúcio. E será o símbolo de uma aliança

(Gênese, 17:11). “E vós mantereis Minha aliança, vós e todos

entre Mim e vós

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os vossos descendentes, por todas as gerações” (Gênese, 17:9-12). Tão forte é a ligação que existe entre Abraão e a circuncisão que, ao ser realizada, incluímos na berachá pronunciada no ato a frase “Abençoado és Tu, Senhor, nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificaste com os Seus Mandamentos e nos ordenaste introduzi-lo na Aliança de Abraão, nosso patriarca”.

Até então o nome de nosso patriarca era Abrão (Avram), que significa av Aram –
Até então o nome de nosso patriarca era Abrão (Avram), que significa av
Aram – “pai de Aram”, sua terra natal, mas a partir desse momento D’us lhe dá
um novo nome, Abraão – (Avraham), contração de duas palavras – av hamon,
que significa “pai de uma multidão”. A mudança de nome indica seu novo status,
“perfeito” perante D’us e pai de uma multidão de nações que seriam fundadas
por ele. Tão significativa foi esta mudança que somos determinantemente
proibidos de chamá-lo pelo seu nome anterior. D’us também mudou o nome de
sua esposa, nossa primeira matriarca. Sarai, que significava “minha princesa”,
foi mudado para Sarah – “princesa para todas as nações do mundo”.
Foi nessa ocasião em que mudaram seus nomes, que D’us revelou-lhes o futuro
nascimento do filho tão desejado – Isaac, nosso segundo patriarca.
Abraão, ensina o Talmud, era bom com os Céus e com os homens. Nos
textos místicos, é a personificação do atributo de chesed – bondade – a
emanação divina (sefirá) da benevolência, generosidade e amor infinito. As duas
características principais da personalidade do patriarca eram guemilut
chassadim e emuná: atos de bondade e fé em D’us.

Abraão servia a D’us principalmente através do amor que se manifestava tanto em sua devoção a Ele como através de um contínuo e incessante amor por seus semelhantes. Exemplo supremo do homem bondoso e justo, Abraão estava sempre preocupado com o bem-estar dos outros, respeitando e amando todos os seres, cercando-os de atos de bondade e generosidade. Abraão mantinha o seu lar sempre aberto a todos, sem perguntar quem eram ou por que o visitavam. Oferecia a todos anjos ou mendigos abrigo e alimento. Em troca, só pedia que seus hóspedes agradecessem a D’us, o verdadeiro Provedor de tudo no mundo. A Torá afirma que D’us escolheu Abraão porque ele seria capaz de ensinar seus filhos a praticar a caridade e a justiça (Gênese 18:19).

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Abraão também possuía um senso imenso de responsabilidade com as pessoas ao seu redor. Apesar de todas as dificuldades e obstáculos que enfrentou durante sua vida nunca questionou o Criador; sua fé em D’us era absoluta. Mas, mesmo assim, não hesitou em contestar e até enfrentar o Eterno para salvar alguém do sofrimento e da morte. Relata a Torá que ao ser informado por D’us de que a destruição de Sodoma e Gomorra era iminente, Abraão implorou pela vida de seus habitantes, apesar de saber que eram malvados e cruéis. O Talmud, então, afirma que “qualquer um que tenha compaixão pelas pessoas, certamente descende de Abraão, nosso patriarca”.

E O ETERNO TESTOU ABRAÃO O amor e a fé de Abraão em D’us permaneceram
E O ETERNO TESTOU ABRAÃO
O amor e a fé de Abraão em D’us permaneceram inalterados e
inabaláveis durante toda a vida de nosso patriarca, apesar dos testes e
obstáculos que teve que enfrentar. Para testar a sua devoção, D’us submeteu
Abraão a dez testes. Entre estes, o patriarca enfrentou o fogo, a fome e reis
idólatras, lutou contra poderosos exércitos e foi obrigado a abandonar o seu lar
e a sua terra. No seu último e mais difícil desafio, o único que a Torá relata,
Abraão prova estar disposto até a sacrificar o seu tão amado filho, Isaac, para
obedecer a ordem Divina. Nenhum relato da Torá foi – e ainda é – mais analisado
e comentado por sábios e filósofos do que o sacrifício de Isaac. A Torá nos diz:
Traze-o como um holocausto
“Após esses eventos, D’us testou Abraão” (Gênese 22:1). O Eterno ordenou ao
patriarca que tomasse o seu filho Isaac, dizendo: “Vai para a área de Moriá.
(Gênese 22:2).
A Torá relata os acontecimentos: a viagem do pai com o filho, os
preparativos e o fatídico instante quando Abraão estende a mão e toma a faca
para cortar a garganta de seu filho único e um anjo de D’us o chama: “Abraão!
Abraão!” “Eis-me aqui”, responde o patriarca. E então o anjo de D’us lhe revela

que tudo fora um teste, o último e mais difícil de sua vida: “Não faças mal ao menino. Pois agora sei que temes a D’us. Tu não Lhe recusaste teu único filho” (Gênese 22: 11-12). O anjo de D’us transmite ao patriarca a promessa Divina: “Eu jurei por Minha própria Essência que, por teres realizado tal ato e não me teres recusado teu único filho, Eu te abençoarei bastante e

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aumentarei tua semente como as estrelas do céu. Todas as nações do mundo serão abençoadas através dos teus descendentes tudo porque tu obedeceste a Minha voz” (Gênese 22:15-18).

Todos as manhãs, lemos esta porção da Torá em um relato que precede as nossas orações, quando pedimos que sejam realizadas as bênçãos prometidas pelo Eterno a Abraão. É importante lembrar que em Moriá no exato lugar onde Abraão preparou seu filho para o sacrificar foi construído o Beit Hamikdash, o Grande Templo de Jerusalém. O Templo era o núcleo da Presença Divina na Terra e o local de onde todas as rezas subiam aos Céus. Foi uma das recompensas de D’us pela devoção de Abraão.

De fato, não poderia haver provação mais difícil para Abraão do que o sacrifício de
De fato, não poderia haver provação mais difícil para Abraão do que
o sacrifício de Isaac. Abraão havia ensinado ao mundo que a vida é uma
sagrada dádiva divina e que D’us odeia os sacrifícios humanos. O assassinato,
mesmo a mando do Divino, representava a antítese da bondade de Abraão.
E mais ainda, D’us havia prometido a Abraão que sua recompensa seria
grande: seu filho Isaac seria pai de uma grande nação que disseminaria e
perpetuaria seus ensinamentos.
O sacrifício de Isaac representava o oposto de tudo aquilo que Abraão
ensinou, praticou e sonhou em sua vida. Apesar disso, o homem que desafiou
D’us para salvar os povos malévolos de Sodoma e Gomorra, calou-se e
preparou-se para cumprir a mais difícil ordem Divina. Por tudo isto, a Torá
nos relata que o Todo-Poderoso encontrou em Abraão lealdade e devoção
absolutas: “Tu és o Eterno, o D’us que escolheu Abraão, e Tu encontraste seu
coração fiel” (Neemias 9:7).

Com Abraão e através dele se iniciou a história do povo judeu, uma nação eterna que influenciou toda a humanidade. Em nossas orações diárias, chamamos o Criador de “D’us de Abraão, D’us de Isaac e D’us de Jacó”. Pedimos proteção, bondade e misericórdia Divina pelo mérito dos nossos patriarcas. Pois antes de Abraão, ensinam os nossos sábios, “D’us reinava nos Céus. Foi Abraão quem O trouxe para a Terra.

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ISRAEL NO EGITO

Após a formação do povo judeu como um clã monoteísta através de seus patriarcas, os
Após a formação do povo judeu como um clã monoteísta através de
seus patriarcas, os hebreus passaram a vivenciar a busca de um lugar para
chamarem de lar. Foi a partir desse momento que a presença judaica como
uma proto nação passou a ser percebida. Esse efeito nos povos passou a
transferir uma visibilidade política aos hebreus, conforme vimos no trecho da
torá que relata a descida de Yaakov (Jacób) e seus filhos ao Egito. Esse
evento foi crucial para a consolidação do status quo de povo.
Todo o protagonismo de Yossef (José) no Egito trouxe uma grande
visibilidade aos hebreus. Com isso, o povo de Israel se estabeleceu com
segurança e prosperidade no Egito até a morte de Yossef (José). Entretanto,
após a morte de Yossef, uma série de mudanças começaram a ser percebidas.
O humor dos egípcios mudou drasticamente e, onde havia paz e prosperidade
se iniciou o fato mais relevante da história judaica – a escravidão.
Do status de nação hóspede pelos méritos de Yossef, à escravidão
passaram-se “apenas” uma geração, conforme podemos ler no trecho da Torá
em Shemot 1:8, que diz: “ףסוֹיֵ תאֶ עדָיַ אֹל רשֲאֶ םִירָצְ מִ לַע שדָחָ ךְלֶמֶ םקָיַוָ . – Um novo
rei que não conheceu José chegou ao poder no Egito”. Desse momento em
diante, toda a generosidade e parceria egípcia com os hebreus ruiu. O nosso
povo passou a ser escravizado brutalmente no Egito, tendo durado 210 anos
essa escravidão. O dilema de segurança 3 egípcio passou a níveis beligerantes
ao ponto de esquecer todo o passado de paz e harmonia construído com a
subida de Israel ao Egito. Com isso, houve um processo de recrudescimento

3 Termo cunhado pelo teórico das Relações Internacionais, John Herz que trouxe importantes contribuições para o pensamento realista clássico das Relações Internacionais, sendo um dos mais relevantes a ideia de dilema de segurança: quando um Estado se sente ameaçado, ele investe em armas, o que faz, em determinado prazo, com que os Estados ao seu redor se sintam igualmente ameaçados, de forma que eles também investem em armamentos. Dessa forma, todos os Estados acabam numa situação pior do que antes em termos de segurança, mesmo que o objetivo original de determinado Estado tenha sido o de aumentar sua segurança.

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social contra os israelitas. Esse fenômeno está ricamente descrito na literatura judaica, a partir do livro de Shemot (Êxodo), em midrashim 4 , no Talmud 5 , etc.

FARAÓ ORDENA ÀS PARTEIRAS QUE MATEM OS JUDEUS RECÉM-NASCIDOS O faraó ordenou que trouxessem ao
FARAÓ ORDENA ÀS PARTEIRAS QUE MATEM OS
JUDEUS RECÉM-NASCIDOS
O faraó ordenou que trouxessem ao palácio as duas mulheres judias
encarregadas de ajudar as mães a ter os bebês. Chamavam-se Shifra e Puá.
Ordenou-lhes: "Shifra e Puá, façam com que não nasçam mais meninos
judeus vivos! Quando forem chamadas à casa de uma judia prestes a dar à luz
e for um menino, asfixiem-no e digam à mãe: "Sentimos muito, mas seu filho
nasceu morto!"
O faraó pensou: "Pronto, não haverá mais meninos judeus."
Por que o faraó ordenou a morte somente dos varões? Poderia ter
ordenado a morte de meninas! Mas os sábios feiticeiros o haviam avisado:
"vemos nas estrelas, Majestade, que está para nascer um menino que libertará
todos os escravos judeus e os tirará do Egito." Por isso, o faraó decidiu matar
todos os meninos judeus, na esperança de que o futuro líder se encontrasse
entre eles. Não ocorreu ao faraó que as parteiras pudessem desobedecer-lhe.
Afinal, bem se sabia no Egito que todo aquele que se atrevesse a desobedecer
o poderoso faraó seria condenado à morte.

Acontece que Shifra e Puá decidiram ignorar a ordem, pois eram tsadikaniot, mulheres de bem. Afirmaram: "Estamos dispostas a morrer antes de matar meninos judeus, D’us nos livre!". Quando o faraó ficou sabendo que nenhum menino judeu estava nascendo morto, chamou Shifra e Puá para repreendê-las: "Por que estão deixando viver os meninos judeus?"

4 Plural da palavra Midrash wrdym, que vem da raiz “Drash - wrd” e significa investigar, inquirir, pesquisar. Essa palavra traz consigo a ideia de aprofundamento ou debate sobre qual é a verdade no seu sentido lato senso, ou seja, num sentido mais amplo.

5 Talmud Compilação da torá oral, ou seja, a descrição das explicações, investigações e debates acerca da torá escrita, também conhecido como “torá she-beal-pê”. Possui duas versões distintas denominadas de Talmud Bavli (Talmud Babilônico) pois começou a ser compilado durante o exílio babilônico e Talmud Yerushalmi (Talmud compilado em Jerusalém) iniciado durante mais ou menos o mesmo período histórico.

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Elas responderam: "Não é nossa culpa, Majestade. Nunca somos chamadas a tempo. As mulheres judias fazem Tefilá (rezam) para que seus filhos nasçam rapidamente e em paz. Quando nos chamam já é demasiado tarde; os bebês já nasceram!". D’us recompensou Shifra e Puá com bênçãos pela sua coragem em desobedecer as ordens do faraó. Seus descendentes se converteram nos líderes do povo judeu: cohanim 6 , leviyim 7 e reis.

OS MENINOS JUDEUS SÃO ARREMESSADOS AO RIO NILO O faraó e seus assessores compreenderam que
OS MENINOS JUDEUS SÃO ARREMESSADOS AO
RIO NILO
O faraó e seus assessores compreenderam que não podiam mandar
matar os meninos judeus em segredo, de modo que decidiram assassiná-los
abertamente.
O rei proclamou: "De agora em diante, todos os varões judeus serão
jogados ao Nilo!"
Como o faraó imaginou que as mães judias esconderiam seus filhos
recém-nascidos, ordenou aos egípcios que se mudassem para casas vizinhas
às dos judeus para espioná-los e saber quando uma mulher judia estava prestes
a dar à luz. Então deviam informar à polícia egípcia, e a casa judaica era
registrada assim que nascesse o bebê. Se fosse menino, levariam-no e o
afogariam no rio. Os egípcios ajudaram o faraó, vigiando os judeus.
Diziam aos filhos: "sigam as mulheres judias para todos os lados, assim
saberão quando estão prestes a dar à luz."
As egípcias também ajudaram o faraó da seguinte maneira: quando um
policial egípcio ia procurar um menino judeu num lugar assinalado e não o
encontrava, as mulheres egípcias levavam seu próprio filho ao lugar. Beliscavam
a
criança para que chorasse, e quando o menino judeu escutava o choro,

também começava a chorar. Assim, era descoberto e levado para ser jogado ao Rio Nilo.

6 Sacerdotes, ou os filhos de Aharon (Aarão) Irmão de Moshê.

7 Os Levitas, ou os descendentes da tribo de Levy.

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COMO D’US SALVOU OS MENINOS JUDEUS

D’us fez um milagre para o povo judeu. Os meninos jogados ao rio não se
D’us fez um milagre para o povo judeu. Os meninos jogados ao rio não
se afogavam. Ao contrário, o rio os arrastava até umas cavernas perto de uns
campos, longe das cidades egípcias. Ali, D’us se ocupava com os meninos.
Colocou duas pedras junto à boca dos pequenos. De uma delas fluía leite, e da
outra mel. Os meninos cresciam, alimentados por D’us, e logo regressavam às
casas de suas famílias. Outro midrash explica que D’us salvava os meninos
mantendo-os vivos milagrosamente no Rio Nilo. D’us permitia que pudessem
respirar na água como peixes, e tiravam o sustento do rio. Assim, quando o faraó
cancelou o decreto, os meninos saíram vivos do rio. Desse modo, os malvados
planos do faraó não tiveram êxito.
NASCE MOSHÊ
Um dos líderes do povo judeu nesse momento era o tsadik (justo)
Amram, da tribo de Levi. Era tão justo que não havia jamais cometido um só
pecado na vida. Sua esposa Yocheved era também uma grande tsadeket (justa).
Tinham uma filha de seis anos, Miriam, e um filho de três, Aharon.
No dia em que Yocheved estava para dar à luz a outro menino, os
astrólogos e sábios do faraó o advertiram: "Lemos nas estrelas que hoje nascerá
o menino que tirará os judeus do Egito." Porém, os egípcios nunca puderam
descobrir o filho de Amram e Yocheved. Esta o escondeu em casa por três
meses. Porém, temerosa de que os egípcios tivessem visto algo, buscou outro
esconderijo.

Yocheved pensou: "Talvez, se ocultar meu filho no rio, os astrólogos do faraó vejam nas estrelas que o menino que os preocupa foi jogado ao rio. Talvez assim o faraó cancele a ordem de atirar os meninos judeus no rio”.

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MOSHÊ NO RIO NILO

A mãe de Moshê arrumou uma caixa de madeira e colocou uma tampa.

Para impermeabilizá-la, cobriu-a com breu por fora e com argila por dentro. Pôs a caixa
Para impermeabilizá-la, cobriu-a com breu por fora e com argila por dentro. Pôs
a caixa no Rio Nilo entre os juncos que cresciam às margens, onde poderia ser
vista pela gente que passava perto do rio. A irmã de Moshê, Miriam, decidiu
permanecer perto da margem do rio para ver o que aconteceria ao irmãozinho.
Passaram-se vinte minutos e ninguém notou a caixa que flutuava no rio.
Mas quem se aproximava agora? Miriam viu que se tratava de uma dama
egípcia da alta nobreza, seguida pelas criadas. Quem poderia ser? Quando se
aproximou, Miriam viu que era a filha do faraó, a princesa Batia, que vinha
banhar-se no Nilo. Podem imaginar como bateu o coraçãozinho de Miriam,
quando viu que Batia mergulhava no rio, não muito distante da caixa com seu
irmãozinho dentro? Miriam observou ansiosamente, para ver se Batia descobriria
o menino. Pois não é que descobriu?
"Que será isso que flutua entre os juncos?" exclamou a princesa.
Ordenou às criadas: "Tragam-me essa caixa! Como se negassem,
Batiah 8 estendeu o braço para alcançá-la. Era impossível para Batia alcançar a
caixa, que estava fora de seu alcance, mas ela tentou de todas as maneiras.
D’us fez um milagre: seu braço se esticou até alcançar a caixa, e Batia pôde abri-
la. Surpreendeu-se ao encontrar um menino dentro.
Que lindo bebê! Batia ficou encantada, e não sabia o que fazer com ele.
D’us enviou o anjo Gabriel para que desse uma palmada no menino, que
começou a chorar; Batia sentiu pena dele. "Rápido, corram!!" ordenou às criadas.
"Este menino deve ser um judeu, e está morrendo de fome. Tragam uma ama
de leite para que o amamente!".

As moças regressaram com uma ama egípcia, mas para surpresa de todos, o bebê fechava a boca com força e não quis mamar do seu peito. Batia ordenou quer trouxessem outra ama egípcia para amamentar o nenê, porém

8 A Princesa filha de Faraó. Essa personagem bíblica guarda em si mesma algo divino, pois o seu nome significa em hebraico “Filha de D’us”.

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uma vez mais ele cerrou a boca e se negou a mamar. Miriam estava observando

a cena desde o começo. Neste momento, perguntou: "Trago uma ama judia?

Talvez o menino aceite seu leite”. Quando a princesa consentiu, Miriam correu para casa e trouxe a sua própria mãe, Yocheved. Naturalmente, o pequeno

mamou o leite de sua mãe!

MOSHÊ NO PALÁCIO DO FARAÓ Você acaba de saber quem era o menino. Não era
MOSHÊ NO PALÁCIO DO FARAÓ
Você acaba de saber quem era o menino. Não era outro senão Moshê.
Na verdade, este nome foi-lhe dado pela princesa Batia. Chamou-o assim porque
a palavra Moshê significa "tirei-o da água", e Batia o havia encontrado no rio.
Batia disse à mãe de Moshê: "Fique com o menino em sua casa e o amamente
até que eu vá buscá-lo para levar ao palácio, e te pagarei por isso”. Dois anos
depois, a princesa reconheceu Moshê e o levou ao palácio do faraó. Cuidava
muito bem dele. Amava o menino como se fosse seu próprio filho. Seu pai, o
faraó, também se encantou com o bebê e sempre brincava com ele.
MOSHÊ TIRA A COROA DO FARAÓ
Certa vez, o pequeno Moshê estava sentado sobre os joelhos do faraó.
De repente, esticou a mãozinha, tirou a coroa do faraó, e a colocou sobre a
própria cabeça. Podem imaginar o alvoroço que se produziu na corte? Um
ministro advertiu o faraó: "Majestade, este menino, embora pequeno, já está lhe
tirando a coroa! Quando crescer, tirará todo o reino! Talvez seja este o menino
que os feiticeiros diziam que levaria os judeus do Egito. Mate-o agora mesmo e
não se converterá num inimigo poderoso para o senhor!

Outro ministro interpôs-se: :Majestade, é um exagero dar tanta atenção aos atos de uma criança. Todos os pequeninos gostam de brincar com objetos brilhantes. Ele tomou sua coroa simplesmente porque pensou que era um objeto agradável e brilhante para brincar”.

Para pôr fim à discussão entre os ministros, decidiram pôr o pequeno Moshê à prova, e descobrir porque havia tirado a coroa do faraó. Compreendia

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ele a importância da coroa ou estava só brincando? Se a prova mostrasse que Moshê havia tomado a coroa do faraó com um propósito determinado, seria morto.

Colocaram diante de Moshê duas vasilhas: uma cheia de moedas de ouro e outra de carvões acesos e resplandecentes. Escolheria Moshê o ouro ou

os carvões ardentes? Se escolhesse as moedas de ouro, demonstraria que tinha inteligência suficiente para
os carvões ardentes? Se escolhesse as moedas de ouro, demonstraria que tinha
inteligência suficiente para compreender que o ouro era mais valioso que o
carvão. Se era tão inteligente, isso queria dizer que compreendia o valor da coroa
e que a havia colocado sobre a própria cabeça de propósito. Porém, se
escolhesse o carvão por causa de seu esplendor, demonstraria ser apenas uma
criança que se sentia atraída pelo brilho da coroa.
Moshê era um menino muito esperto. Sabia que o ouro era muito mais
valioso que o carvão, e estendeu a mãozinha para o ouro. Mas D’us enviou o
anjo Gabriel para que empurrasse a mão de Moshê até o recipiente cheio de
carvões ardentes. Moshê pegou um, e, vendo que estava muito quente para
segurá-lo, levou-o à boca. O carvão ardente queimou-lhe a língua, e desde esse
dia Moshê teve dificuldades para falar.
MOSHÊ CRESCE
Moshê cresceu no palácio do faraó. Embora fosse tratado como um
príncipe e pudesse desfrutar de todos os prazeres da corte egípcia, Moshê
estava sempre triste, tão triste que chorava sem parar. Havia descoberto que era
judeu, e sentia-se consternado ao ver como o faraó tratava cruelmente a seus
irmãos, os judeus. Moshê se negou a desfrutar dos prazeres do palácio enquanto
outros judeus sofriam e trabalhavam duramente.

Então, Moshê pediu ao faraó que o deixasse supervisionar os escravos judeus, e a cada vez que visitava um lugar onde via os judeus trabalhando, ajudava-os secretamente no que fosse possível. Com o pretexto de ajudar o faraó, Moshê os ajudava a carregar fardos ou a terminar um trabalho. Angustiava-se terrivelmente ao ver que os judeus sofriam tanto.

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OS PLANOS DE MOSHÊ PARA DAR AOS JUDEUS UM DIA DE DESCANSO

Moshê estava constantemente pensando na forma de aliviar o trabalho dos judeus, e finalmente elaborou um plano. Foi ver o faraó e lhe disse: "Tenho observado os judeus trabalhando e devo informar-lhe que estão a ponto de sofrer um colapso. Aí, não terão mais utilidade, pois o senhor os obriga a trabalhar sem descanso. Nenhum escravo pode trabalhar semana após semana, mês após mês."

"Tens alguma sugestão para evitar que sofram um colapso?" perguntou- lhe o faraó. "Creio que
"Tens alguma sugestão para evitar que sofram um colapso?" perguntou-
lhe o faraó.
"Creio que se lhes permitisse descansar um dia por semana", sugeriu
Moshê, "lhes daria a oportunidade de reunir força suficiente para trabalhar
melhor o restante do tempo”. O faraó aceitou o plano de Moshê. Quando permitiu
a Moshê escolher um dia da semana, que dia acham que escolheu? Sim, foi o
Shabat. Embora a torá ainda não tivesse sido outorgada, Moshê sabia que o
Shabat era um dia santo. Sabia que Avraham, Yitschac, Yaacov e Yossef
descansavam no Shabat.
Segundo outro Midrash, o faraó descobriu que qualquer edifício que os
judeus levantavam no Shabat, caía imediatamente.
O faraó perguntou desconfiado: "Por que os edifícios construídos no
sétimo dia não duram?"
Moshê explicou ao faraó: "Porque não lhes permite descansar neste
dia!”. Desde então, o faraó liberou o Povo de Israel de trabalhar no Shabat.
MOSHÊ MATA UM EGÍPCIO

Certo dia, quando Moshê tinha vinte anos, chegou ao lugar onde trabalhavam os judeus e se deparou com um espetáculo pavoroso! Um supervisor egípcio estava chicoteando selvagemente um judeu! Moshê sabia que precisava detê-lo rapidamente ou ele mataria o judeu. Decidiu que o

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malvado egípcio não merecia viver, mas pensou que poderia ter filhos ou netos que fossem bons. Embora Moshê fosse jovem, era um grande Tsadik (justo) que tinha um poderoso ruach hacodesh 9 , um dom de D’us que lhe permitia ver o futuro de uma pessoa. Moshê previu que este egípcio era um malvado da pior espécie, e que seus filhos e descendentes que pudesse ter seriam reshaim (malvados).

Moshê conhecia o segredo de matar uma pessoa invocando o nome de D’us, pois D’us
Moshê conhecia o segredo de matar uma pessoa invocando o nome de
D’us, pois D’us havia enviado um anjo para que o ensinasse. Pronunciou um dos
nomes santos de D’us, com 42 letras, e o egípcio caiu morto. Moisés
rapidamente sepultou o egípcio na areia e advertiu os judeus que haviam
presenciado a cena: "Não digam uma palavra do que viram aqui”. No dia
seguinte, Moshê voltou a esse lugar. Havia problemas novamente. Dois homens
estavam lutando, e um havia levantado a mão para golpear o outro. Quando
Moshê se aproximou, viu que eram judeus. Eram dois reshaim (malvados)
chamados Datan e Aviram.
"Parem!" ordenou Moshê a Datan, o judeu que levantava a mão contra
o outro. Por que faz isso? Nenhum judeu pode golpear outro!"
Datan replicou com insolência: "És muito jovem para me dar ordens! E
mesmo que fosses mais velho, quem te nomeou juiz sobre nós? Ou talvez
queres matar-me como fez ontem com o egípcio!". Quando Moshê escutou
essas palavras, sentiu-se desolado. Datan mencionara em voz alta o fato de que
matara o egípcio. Por acaso Moshê não advertira os judeus a guardar segredo
e não falar lashon hará (palavras maliciosas) sobre ele? Moshê temia que D’us
não iria tirar os judeus do Egito por pecar, falando lashon hará 10 !

Os dois reshaim (malvados), Datan e Aviram, ficaram tão furiosos porque Moshê apartara sua briga, que se apressaram em ir ao palácio e informar ao faraó; "Moshê assassinou um supervisor egípcio!". O faraó deu ordens para deterem Moshê e o condenou à morte. O carrasco quis brandir sua poderosa

9 Literalmente “Espírito da Santidade”. Este termo detém um enorme significado dentro da torá, pois representa a presença da Divindade. 10 Lashon hará é uma observação negativa verdadeira sobre outra pessoa. A Torá nos proíbe de fazer tal declaração ou de dar ouvidos a ela. Nossos sábios nos ensinam que um judeu que fala lashon hará peca tão gravemente como um assassino, um adúltero ou um idólatra. Na época do Bet Hamicdash um judeu que falasse lashon hará era punido com tsaráat (uma espécie de lepra bíblica).

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espada no pescoço de Moshê, mas D’us fez um milagre: seu pescoço ficou duro como uma pedra, e a espada voltou-se para trás, matando o carrasco. Então D’us deixou o faraó mudo, para que não pudesse falar e dar ordens de matar Moshê, e deixou as pessoas cegas, para que não vissem sua fuga.

MOSHÊ SE REFUGIA NA CASA DE YITRÔ Moshê saiu da terra do Egito, porque o
MOSHÊ SE REFUGIA NA CASA DE YITRÔ
Moshê saiu da terra do Egito, porque o faraó era poderoso e tinha
espiões em toda parte. Viajou a países distantes por muitos anos, até que
chegou à terra de Midyan. Enquanto descansava junto a um poço, viu sete irmãs
com um rebanho de ovelhas que se aproximavam do poço. Uns pastores que
estavam por perto não permitiram que as moças dessem de beber às ovelhas, e
jogaram as irmãs dentro do poço.
Quando Moshê viu o ocorrido, tirou as moças do poço e deu água às
suas ovelhas. Também ajudou os pastores a dar de beber aos animais. As irmãs
agradeceram e foram para casa. Ao chegarem, o pai, Yitrô, lhes perguntou: "Por
que chegaram tão cedo hoje? Sempre chegam tarde, pois os pastores as tratam
mal e não as deixam dar água às ovelhas."
"Hoje um estranho, um egípcio, nos ajudou," explicaram elas. "Tirou-nos
do poço e deu de beber às ovelhas."
"Trata-se, sem dúvida, de um homem muito bondoso", disse Yitrô. Vão
buscá-lo e convidem-no a jantar conosco”. Moshê foi à casa de Yitrô. "Quem és,
e o que fazes em Midyan?" perguntou-lhe Yitrô.
Quando Moshê explicou que estava fugindo do faraó porque este queria
matá-lo, Yitrô se assustou porque temia que o faraó o castigasse por dar abrigo
a Moshê. Assim, Yitrô ordenou aos serventes que colocaram Moshê em um poço
perto da casa, e o mantiveram ali por dez anos. Todos os dias, Tsiporá, uma das

filhas de Yitrô, levava-lhe comida, e assim Moshê pôde sobreviver. Finalmente, dez anos depois, Yitrô o libertou.

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O MARAVILHOSO CAJADO DE MOSHÊ

Quando D’us criou os céus e a terra e tudo que há neles, criou também
Quando D’us criou os céus e a terra e tudo que há neles, criou também
um maravilhoso bastão de safira, que deu a Adam, o primeiro homem, que viveu
por 930 anos. Adam o entregou a seu tataraneto, o Tsadik Chanosh, que havia
nascido quando Adam tinha 622 anos. Chanosh o deu a Metushelach, que por
sua vez o deu a Noâch. Noâch o deu a Avraham, que o deu a Yitschac, que o
deu a Yaacov, que o deu a Yossef. Quando Yossef morreu, Yitrô, que era
conselheiro na corte do faraó, o tomou porque percebeu o quão importante era.
Yitrô o cravou na terra de seu jardim, no fundo da casa.
Porém, quando o bastão foi plantado ali, ninguém, por mais forte que
fosse, não conseguia tirá-lo. Yitrô proclamou: Se algum homem conseguir tirar o
bastão da terra, dar-lhe-ei uma de minhas filhas por esposa!" Mas ninguém
conseguia. Quando Moshê saiu do cárcere de Yitrô, tirou o cajado. Guardou-o
com ele. Yitrô deu a Moshê a mais especial de suas filhas, Tsiporá, que era uma
grande tsadeket (justa). Esta deu à luz um filho, a quem Moshê chamou Gershon,
e logo outro, Eliezer. Moshê ficou vivendo com Yitrô e se ocupou em cuidar das
ovelhas.
D’US FALA COM MOSHÊ

Os pastores só levam as ovelhas e cabras a pastarem o mais perto possível de casa. Moshê, ao contrário, não fazia assim. Todos os dias levava as ovelhas de Yitrô muito longe, longe das cidades povoadas, pois temia que os animais comessem pasto de alguma outra pessoa, e isso seria roubar. Moshê somente ia com o rebanho em campo aberto, onde a terra não pertencia a ninguém. Estava chegando a hora de liberar o Povo de Israel do Egito. Apenas D’us sabia quando chegaria este momento. Pois como Moshê era um Tsadik (justo) tão especial, D’us decidiu elegê-lo líder dos judeus.

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Certa vez Moshê conduzia as ovelhas por um campo deserto, e viu um fato inusitado: numa colina havia um arbusto espinhoso que estava se incendiando, sem que os ramos fossem destruídos pelo fogo. Moshê olhou com mais atenção e viu um segundo milagre: apenas parte do arbusto estava se incendiando, e o fogo não tocava a outra parte de jeito nenhum. Moshê ficou admirado pelo maravilhoso espetáculo. Havia outros pastores junto a Moshê, mas apenas o Tsadik (justo) Moshê podia ver o maravilhoso arbusto, e somente ele escutou um anjo de D’us que o chamava para que se aproximasse do arbusto.

Quando Moshê chegou perto, D’us lhe ordenou: "Não chegue muito perto! Tire os sapatos, pois
Quando Moshê chegou perto, D’us lhe ordenou: "Não chegue muito
perto! Tire os sapatos, pois estás parado em terra santa!”. A colina era santa pois
a shechiná (Presença da Divindade) de D’us estava sobre ela. Voltaria a ser
sagrada no ano seguinte quando D’us entregaria os Dez Mandamentos ao Povo
de Israel sobre esta colina. (Pois a colina onde Moshê vira o arbusto ardente não
era outra senão o Har Sinai -Monte Sinai).
D’us disse a Moshê: "Escutei o Povo de Israel chorando por causa do
duro trabalho no Egito. Vi que fizeram teshuvá (arrependimento) em seus
corações. Vou libertá-los. Vá ao faraó e ordene-lhe: "Deixe partirem os judeus.
Você os guiará para fora do Egito."
"Sou uma pessoa muito insignificante," protestou Moshê. "Por que
haverias Tu, D’us, de eleger-me o líder que tirará os judeus do Egito? Elege um
homem mais importante! Quem sou eu para que o faraó me escute e me permita
sair para a terra Santa? Pode estar furioso comigo por ter matado um egípcio –
pode até prender-me ou executar-me!"

"Não temas!" tranquilizou D’us a Moshê. "Estarei a teu lado para assegurar teu êxito em liberar o Povo de Israel do Egito. Prometo que o faraó não te fará mal. Esta é uma das razões por que te mostrei a sarça ardente. Foi um sinal: assim como o arbusto não sofreu danos por causa do fogo, não serás prejudicado pelo faraó."

Moshê fez outra pergunta: "Se eu disser ao Povo de Israel que me ordenastes tirá-los do Egito, não me acreditarão. Dirão: ‘D’us nunca apareceu para você! Não acreditamos em você!’"

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D’us ficou irado com Moshê por não confiar nos judeus; por pensar que não lhe dariam crédito. D’us esperava que Moshê compreendesse que os judeus eram um povo santo que confiaria nele, pois havia aprendido de seu antepassado Yaacov e de Yossef, sobre o redentor que D’us enviaria.

"Como temes que o Povo de Israel não confie em ti, dar-te-ei três sinais", disse
"Como temes que o Povo de Israel não confie em ti, dar-te-ei três sinais",
disse D’us a Moshê. "Estas serão as provas para o Povo de Israel de que foste
enviado por Mim."
O PRIMEIRO SINAL
D’us perguntou a Moshê: "Que levas nas mãos?"
"Um cajado," disse Moshê.
"Joga-o no solo!"
Quando Moshê jogou o cajado, este se transformou em uma serpente.
Moshê se assustou tanto com a perigosa serpente que se movia em sua direção
que começou a correr.
Mas D’us ordenou-lhe: "Pega a serpente pela cabeça!"
Quando Moshê fez o que D’us lhe ordenava, a serpente transformou-se
em cajado novamente. Era sem dúvida um sinal maravilhoso que convenceria
os judeus de que deveriam crer nas palavras de Moshê. Porém, D’us havia
também escolhido este sinal para demonstrar a Moshê que estava aborrecido
com ele, por haver falado mal de Bney Israel ao dizer: "Não crerão em mim!"
Desse modo, Moshê havia agido como a serpente no Gan Eden (paraíso) que
havia falado lashon hará (calúnias) sobre D’us a Chava. Para que Moshê
tomasse consciência de seu erro, D’us utilizou uma serpente como primeiro sinal.

O SEGUNDO SINAL

D’us ordenou a Moshê: "Põe tua mão sobre o peito!"

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Moshê pôs a mão dentro da túnica. Quando a retirou, estava branca como a neve. Estava coberta da doença cutânea conhecida como tsara’at. Quando uma pessoa contraí essa doença, a pele fica toda branca.

Logo D’us ordenou a Moshê: "Coloca novamente tua mão dentro da

túnica." Desta vez, quando Moshê a tirou, a mão estava com sua cor normal novamente.
túnica."
Desta vez, quando Moshê a tirou, a mão estava com sua cor normal
novamente.
D’us disse: "O sinal de tua mão doente será o sinal que mostrarás ao
Povo de Israel."
Este sinal era uma nova prova de que Moshê não deveria ter falado
sobre Bney Israel; "Não me acreditarão!" Como Moshê havia falado mal dos
judeus, D’us o havia castigado com uma enfermidade com que D’us castiga as
pessoas que falam calúnias.
O TERCEIRO SINAL
D’us deu a Moshê outro sinal para que mostrasse ao Povo de Israel.
Disse-lhe: "Toma um pouco de água do Rio Nilo e joga-a sobre o solo e se
transformará em sangue."
Mesmo depois de receber estes três sinais do próprio D’us, Moshê não
estava pronto para ir até o faraó. "Meu irmão Aharon sentir-se-á mal se eu me
transformar no líder do povo judeu, e não ele! Ele é um navi (profeta) a quem Tu
tens falado e enviado mensagens ao povo judaico. Não sou digno de comparecer
perante o faraó, pois tenho dificuldades para falar."

Mas D’us insistiu que Moshê fosse o líder de Bney Israel. "Teu irmão Aharon te acompanhará na visita ao faraó e ao povo de Israel," disse-lhe. "Ele falará diretamente com o faraó. Tu falarás lashon hakôdesh (hebraico) e ele traduzirá tuas palavras para o egípcio. Leva consigo o cajado, pois com ele farás milagres!

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A SAÍDA DO EGITO

Sem sombras de dúvidas, o êxodo é o evento mais comentado em todas as gerações desde a nossa saída do Egito. Não obstante a esses fatos, podemos elencar uma mudança drástica na vida judaica a partir desse evento ímpar da história judaica. A identidade judaica que se encontrava em formação no Egito, se consolida a partir de nossa saída. No primeiro momento, um pequeno povo que desceu para o Egito, apenas 70 almas e posteriormente mais de 2.5 milhões pessoas saindo do Egito.

Esse fenômeno só foi possível primeiro pela infinita misericórdia do D’us e depois pela consolidação
Esse fenômeno só foi possível primeiro pela infinita misericórdia do D’us
e depois pela consolidação do pensamento e da identidade judaica, mesmo em
um ambiente de assimilação e idolatria. Por isso se faz necessário uma análise
mais apurada dos conceitos de identidade judaica e seus impactos na vida de
Israel como um Estado-Nação dentro do Egito.
Em 15 de Nissan, anualmente, celebramos o pessach ou a páscoa
(literalmente passagem, em referência a passagem do anjo da morte sobre a
casa dos israelitas, não ceifando a vida de nossos primogênitos), como início de
Israel como Estado-Nação.
Na parashá 11 de Beshalach (Ex. 13.17-17.16) está o início do relato de
nossa saída do Egito e toda a épica descrição dos seus eventos e milagres. A
partir daí, até Canaã, nosso povo passou 40 anos peregrinando até que toda a
geração que saiu do perecesse, com a exceção de Yehoshua e Caleb. Mais
porque isso foi necessário?

Segundo os nossos sábios, para não contaminar a terra de Israel com o espírito de escravidão e idolatria, pois, não saíram somente os israelitas, mais saíram Am haÁretz, gente de todas as nações que subiram ao Egito também foram libertos por Moshê. Essa erev rav (grande mistura) comprometia a saúde espiritual de Israel. A partir daí, até o recebimento da torá foram 50 dias,

11 A torah é dividida em 54 porções (parashiot), que são lidas nas sinagogas todo o sábado.

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completando o ciclo de libertação de Israel, do físico (saída do Egito) ao Espiritual (recebimento da Torá) no Har Sinai.

PREPARANDO A ENTRADA EM CANAÃ O povo judeu estava agora num local a sudoeste de
PREPARANDO A ENTRADA EM CANAÃ
O povo judeu estava agora num local a sudoeste de Israel. Sabiam que
em breve subiriam a montanha localizada na fronteira de Israel. Acotovelando-
se animadamente, aproximaram-se de Moshê com um pedido. A única tribo que
não juntou-se à multidão foi a de Levy.
"Deixe-nos enviar espiões à nossa frente," pediu o povo a Moshê, "para
investigar a Terra. Aconselhar-nos-ão sobre a rota a ser tomada. Também nos
informarão quais cidades podem ser facilmente conquistadas, para que
saibamos onde atacar primeiro."
É óbvio que não necessitavam de espiões para reconhecer a Terra. A
Nuvem de Glória e a Arca de D’us viajavam na frente do povo. Preparavam o
caminho para o povo, e indicavam para onde ir. Os judeus, portanto, citaram
vários argumentos a fim de convencer Moshê da necessidade de exploradores.
"D’us prometeu levar-nos à Terra repleta de tudo de bom e bens
preciosos," disseram-lhe. "Antes de nossa chegada, os canaanitas com certeza
esconderão de nós todos os bens valiosos. Por isso, é uma boa ideia enviar
agentes secretos para observar os habitantes e investigar seus esconderijos
secretos”.

"Mais que isso, D’us prometeu expulsar os habitantes de Canaã aos poucos. Precisamos decidir quais cidades atacar e conquistar primeiro. Os espiões também averiguarão a língua nativa. Se soubermos sua língua, podemos ser treinados para espioná-los durante a guerra, a fim de descobrir suas estratégias”.

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O povo judeu, na verdade, queria enviar espiões por causa das dúvidas que rondavam sua cabeça:

1. Apesar de D’us ter-lhes assegurado que Israel era uma terra boa,

ninguém daquela geração a tinha visto. Não estavam convencidos de que a terra era especial o bastante para garantir uma guerra de grandes proporções (a guerra da época de Yehoshua durou sete anos). Os judeus queriam confirmação através de relatos de testemunhas oculares de que a Terra Prometida era de fato boa.

2. Comparados aos numerosos e bem treinados exércitos das sete nações que habitavam Canaã, o
2. Comparados aos numerosos e bem treinados exércitos das sete
nações que habitavam Canaã, o povo judeu tinha apenas um punhado de
guerreiros sem preparo algum. Como poderiam ousar enfrentar inimigo tão
temido em terreno desconhecido, sem saber exatamente seu número, o poderio
de seu exército, e outros detalhes relevantes ao combate?
D’us condenou o povo pela falta de fé em Sua palavra, proclamando, por
conseguinte, que aquela geração não entraria em Israel. A Tribo de Levi, todavia,
não requisitara espiões, e nenhum espião desta tribo fora enviado,
consequentemente, os leviyim entraram na Terra Prometida.
Quando Moshê ouviu o pedido do povo, replicou:
"Jamais darei um passo antes de consultar D’us. Concordarei apenas se
Ele sancionar seu plano”. Moshê perguntou ao Todo Poderoso: "Consentes em
enviar espiões à Canaã?"
"Se você assim o desejar," respondeu D’us, "não o impedirei. Todavia,
Moshê, envie espiões por você mesmo, não por Mim."

Quando o dono do vinhedo percebeu que a vindima estava indo muito bem e que as uvas daquela safra resultariam em vinho doce e delicioso, ordenou a seus trabalhadores: "Tragam todas as uvas ao meu celeiro!". Contudo, de outra vez, quando experimentou uvas de outra estação, percebeu que resultariam em vinho ácido. Portanto, disse aos trabalhadores: "Podem levar todas essas uvas aos seus próprios celeiros!"

Similarmente, D’us previu que os espiões não dariam certo, "azedariam"; por isso, não usou a frase: "Envie espiões para Mim" (como dissera, por

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exemplo, "Junte para Mim setenta homens; traga a Mim os leviyim"). Em vez disso, consentiu com as palavras: "Envie espiões por você mesmo."

Apesar de D’us saber que os espiões falhariam em sua missão e trariam punição a à geração inteira, não os proibiu de viajarem a Israel por diversas razões. Dentre elas:

1. Se recusasse o pedido dos israelitas, poderiam supor que a Terra não era verdadeiramente
1. Se recusasse o pedido dos israelitas, poderiam supor que a Terra não
era verdadeiramente tão boa como Ele prometera. A profanação do Nome de
D’us de acreditarem que o Todo Poderoso decepcionou-os era pior que a
eventual punição da geração.
2. Apesar do Todo Poderoso prever todos os eventos futuros, Ele
concede livre arbítrio a cada um. Apesar da exigência dos judeus de enviar
espiões estar errada, os espiões tinham a opção de trazer um relato positivo e
tornar a missão um sucesso.
De fato, Moshê consultou D’us no que concerne a cada espião
individualmente, se tratava-se ou não de um Tsadik, e D’us confirmou acerca de
cada um: "Ele é um indivíduo de valor." No princípio desta parashá, os espiões,
são descritos como "anashim," homens distintos, indicando que quando
principiaram sua missão, ainda eram todos virtuosos. Os doze homens
escolhidos eram os doze melhores do povo. Quando Moshê informou aos judeus
que D’us concordara com a empreitada, esperava que o povo respondesse que
não necessitavam de espiões. Afinal, o fato de que a permissão fora concedida
significava que Israel deve ser uma boa Terra.
Moshê tinha esperança de que sua aquiescência dissuadisse o povo de
insistir no pedido. Os sábios discorrem uma parábola: Alguém quer comprar um
asno, mas diz que quer primeiro testá-lo. O vendedor, entusiasmado, concorda.
"Posso levá-lo tanto para montanhas como para vales?" - pergunta o comprador.
"Claro!" - responde o vendedor.

Vendo que o vendedor estava tão confiante na coragem e astúcia do animal, o comprador decide que não tem nada a temer, e não faz o teste. Compra o asno e fica muito satisfeito. Da mesma forma, Moshê pensou que sua prontidão em concordar com o pedido do povo o convenceria de que não havia nada a

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temer. Ele estava errado; eles queriam ouvir sobre a Terra da boca de seus iguais. Assim, Moshê enviou os espiões.

O RETORNO DOS ESPIÕES

Retorno dos Espiões que se passou em 1312 AEC, despachados 40 dias antes por Moshê
Retorno dos Espiões que se passou em 1312 AEC, despachados 40 dias
antes por Moshê para fazerem uma vistoria na Terra Prometida voltaram ao
acampamento de Israel no deserto, levando grande quantidade de uvas e outras
frutas enormes e suculentas. Mas embora louvassem a fertilidade da terra,
assustaram o povo com histórias de gigantes poderosos e guerreiros que ali
habitavam, garantindo que a terra era inconquistável. Com isso, todo Israel
murmurou e se atemorizou. Criou-se o pânico e começaram a blasfemar contra
D’us.
Segundo a torá, essa série de más notícias produziu uma das maiores
dificuldades a Moshê, segundo nossos sábios, foi esse fato que impossibilitou a
entrada de Moshê Rabeinu de entrar em Éretz Israel, na Terra de Israel. Eles
[os espiões] trouxeram aos filhos de Israel um relato maldoso sobre a terra que
tinham averiguado, dizendo: “A terra que exploramos é uma terra que consome
seus habitantes.” (Bamidbar 13:32).
Segundo Rashi, o Rabi Shlomo Ben Itzahak mencionou no seu
comentário sobre essa passagem da torá, afirmando que “Em todo lugar por
onde passamos os achamos enterrando seus mortos!” Porém, a verdade era que
o Santo, Bendito seja, fez isso para o bem deles, para envolvê-los (os habitantes
de Canaã) em luto a fim de desviar suas atenções dos espiões.”.

Por que a letra ayin (e) precede a letra (p) (no alef-bet)? Por causa dos espiões, que falaram daquilo que não viram (Sanhedrin 104b). E, mais importante, o que segue: Yossef disse aos seus irmãos: “Eu sou Yossef, meu pai ainda está vivo?” Porém, seus irmãos não foram capazes de responder-lhe porque estavam em choque (Bereshit 45:3).

Ai de nós no dia do julgamento, e ai de nós no dia da repreensão. Yossef era a mais jovem das tribos, mas quando ele disse “EU SOU YOSSEF!” os irmãos foram tomados pela humilhação por terem agido injustamente. Quando

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D’us se revelar a cada um de nós, proclamando “EU SOU HASHEM!”, certamente seremos incapazes de responder e ficaremos profundamente envergonhados de nós mesmos. (Bereshit Raba 93:10). Os fatos relatados pelos espiões a Canaã trouxeram severos problemas ao nosso povo, conforme vimos acima descrito.

A MONARQUIA O primeiro rei, Saul (cerca de 1020 AEC), governou durante o período entre
A MONARQUIA
O primeiro rei, Saul (cerca de 1020 AEC), governou durante o período entre a
organização tribal e o estabelecimento de uma monarquia plena com seu sucessor, David.
O rei David (cerca de 1004 a 965 AEC) estabeleceu seu reino como uma grande potência
na região através de expedições militares bem sucedidas, incluindo a derrota final dos
filisteus, e através de uma rede de alianças amistosas com reinos vizinhos.
Consequentemente, sua autoridade era reconhecida desde as fronteiras do Egito
e do Mar Vermelho até as margens do Eufrates. Em sua terra natal, ele uniu as 12 tribos
israelitas em um só reino e estabeleceu sua capital, Jerusalém, e a monarquia no centro da
vida nacional do país. A tradição bíblica descreve David como poeta e músico, com versos
atribuídos a ele incluídos no Livro dos Salmos. David foi sucedido por seu filho Salomão
(cerca de 965 a 930 AEC), que fortaleceu o reino.
Através de tratados com os reis vizinhos, reforçados por casamentos políticos,
Salomão garantiu a paz para seu reino, igualando-o às grandes potências da época. Ele
expandiu o comércio exterior e promoveu a prosperidade nacional, desenvolvendo grandes
empreendimentos, tais como a mineração do cobre e a fundição de metais; enquanto isso,
construía novas vilas e fortalecia as vilas antigas, de importância estratégica e econômica.
O auge de suas realizações foi a construção do Templo em Jerusalém, que se
tornou o centro da vida nacional e religiosa do povo judeu. A Bíblia atribui a Salomão o Livro
dos Provérbios e o Cântico dos Cânticos.
MONARQUIA DIVIDIDA
O fim do reinado de Salomão foi marcado por descontentamento por parte da

população, que teve que pagar muito por seus ambiciosos planos. Ao mesmo tempo, o tratamento preferencial a sua própria tribo irritava as outras, resultando em um crescente antagonismo entre a monarquia e os separatistas tribais. Após a morte de Salomão (930 AEC), uma insurreição aberta levou ao rompimento das dez tribos do norte e à divisão do país em um reino do norte, Israel, e um reino do sul, Judá este último no território das

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tribos de Judá e Benjamin. O Reino de Israel, com sua capital Samaria, durou mais de 200 anos com 19 reis, enquanto o Reino de Judá foi governado a partir de Jerusalém durante 400 anos pelo mesmo número de reis, da linhagem de David.

A expansão dos impérios assírio e babilônio causou a dominação de Israel e,

depois, de Judá. O Reino de Israel foi destruído pelos assírios (722 AEC) e seu povo foi

levado ao exílio e ao esquecimento. Mais de cem anos depois, a Babilônia conquistou o
levado ao exílio e ao esquecimento. Mais de cem anos depois, a Babilônia conquistou o
Reino de Judá, exilando a maioria de seus habitantes e destruindo Jerusalém e o Templo
(586 AEC).
PRIMEIRO EXÍLIO (586 A 538 AEC)
A conquista da Babilônia pôs fim ao período do Primeiro Templo, mas não cortou
a conexão do povo judeu à Terra de Israel. Às margens dos rios da Babilônia, os judeus se
comprometeram a recordarem sua pátria: Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-
se minha mão direita de sua destreza. Apegue-se-me a língua ao céu da boca, se não me
lembrar de ti, se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria (Salmos 137:5-6).
O exílio na Babilônia, que se seguiu à destruição do Primeiro Templo (586 AEC),
marcou o início da diáspora judaica. Lá, o judaísmo começou a desenvolver uma estrutura
religiosa e um modo de vida fora da Terra, para assegurar a sobrevivência nacional do povo
e sua identidade espiritual, imbuindo-a com a vitalidade necessária para preservar seu futuro
como nação.
PERÍODO DO SEGUNDO TEMPO:
O RETORNO A SIÃO (538 a 142 AEC)

Após um decreto do rei persa Ciro, conquistador do império babilônico (538 AEC), cerca de cinquenta mil judeus partiram pela primeira vez em direção à Terra de Israel, liderados por Zorobabel, descendente da Casa de David. Menos de um século depois, o segundo retorno foi liderado por Esdras, o Escriba. Nos próximos quatro séculos, os judeus tiveram diferentes graus de autonomia sob governos persas (538 a 333 AEC) e helenísticos (ptolemaico e selêucida) (332 a 142 AEC).

A repatriação dos judeus sob a inspirada liderança de Esdras, a construção do

Segundo Templo no local do Primeiro Templo, a fortificação das muralhas de Jerusalém, e

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o

estabelecimento da Knesset Hagedolah (Grande Assembleia), o supremo órgão religioso

e

judicial do povo judeu, marcaram o início do período do Segundo Templo. Dentro dos

limites do Império Persa, Judá era uma nação liderada pelo sumo sacerdote e conselho de anciãos em Jerusalém. Como parte do mundo antigo conquistado por Alexandre, o Grande, da Grécia (332 AEC), a Terra continuou a ser uma teocracia judaica, sob o domínio dos selêucidas, baseado nos sírios. Quando a prática do judaísmo foi proibida e seu Templo foi profanado, durante a imposição da cultura e costumes gregos a toda a população, os judeus se rebelaram (166 AEC).

DINASTIA DOS ASMONEUS (142 A 63 AEC) Primeiramente liderados por Matatías, da família sacerdotal dos
DINASTIA DOS ASMONEUS (142 A 63 AEC)
Primeiramente liderados por Matatías, da família sacerdotal dos
Asmoneus, e depois por seu filho Judá, o Macabeu, os judeus entraram em
Jerusalém e purificaram o Templo (164 AEC). Os dois eventos são
comemorados todo ano pelo festival de Chanucah. Após outras vitórias dos
Asmoneus (147 AEC), os selêucidas restauraram a autonomia da Judeia, como
a Terra de Israel era então chamada, e, com o colapso do reino selêucida (129
AEC), a independência judaica foi alcançada. Durante a dinastia dos Asmoneus,
que durou aproximadamente 80 anos, o reino recuperou fronteiras quase iguais
às do reino de Salomão, alcançou a consolidação política sob o governo judeu e
a vida judaica floresceu.
Massada: Cerca de mil homens, mulheres e crianças judias, que tinham
sobrevivido à destruição de Jerusalém, ocuparam e fortificaram o palácio de
Massada, do rei Herodes, no topo de uma montanha na região do Mar Morto,
onde resistiram durante três anos a diversas tentativas romanas de desalojá-los.
Quando os romanos finalmente escalaram Massada e derrubaram suas paredes,
eles descobriram que os defensores e suas famílias haviam escolhido morrer por
suas próprias mãos, em vez de serem escravizados.

DOMÍNIO ROMANO (63 AEC A 313 EC)

Quando os romanos substituíram os selêucidas, passando a ser a grande potência da região, eles concederam ao rei Asmoneu Hircano II uma

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autoridade limitada, subordinado ao governador romano de Damasco. Os judeus reagiram com hostilidade ao novo regime, e nos anos seguintes houve diversas insurreições. Matatias Antígono fez uma última tentativa de restaurar a antiga glória da dinastia dos Asmoneus; sua derrota e morte finalizou o governo dos Asmoneus (40 AEC), e a Terra tornou-se uma província do Império Romano.

Em 37 AEC, Herodes, genro de Hircano II, foi nomeado rei da Judéia pelos romanos.
Em 37 AEC, Herodes, genro de Hircano II, foi nomeado rei da Judéia
pelos romanos. Com autonomia quase ilimitada sobre assuntos internos do país,
ele tornou-se um dos mais poderosos monarcas no Império Romano oriental.
Grande admirador da cultura grecoromana, Herodes lançou um enorme
programa de construções, que incluía as cidades de Cesareia e Sebaste e as
fortalezas em Heródio e Massada. Ele também reformou o Templo, tornando-o
uma das mais magníficas construções da época.
Mas apesar de suas realizações, Herodes não conseguiu ganhar a
confiança e o apoio de seus súditos judeus. Dez anos após a morte de Herodes
(4 AEC), a Judeia passou a ser governada diretamente pelos romanos. A
opressão romana da vida judaica causou uma insatisfação crescente, resultando
em episódios violentos esporádicos que se transformaram em uma grande
revolta em 66 EC.
Forças superiores romanas, lideradas por Tito, acabaram vitoriosas,
arrasando Jerusalém totalmente (70 EC) e derrotando até a última fortaleza judia
em Massada (73 EC). A total destruição de Jerusalém e do Segundo Templo foi
catastrófica para o povo judeu. De acordo com o historiador contemporâneo
Flávio Josefo, centenas de milhares de judeus faleceram durante a tomada de
Jerusalém e no restante do país, e outros milhares foram vendidos como
escravos.

Houve um último e breve período de soberania judaica após a revolta de Shimon Bar Kochba (132 EC), durante o qual Jerusalém e a Judeia foram reconquistadas. No entanto, dado o enorme poder dos romanos, o resultado era inevitável. Três anos depois, de acordo com os costumes romanos, Jerusalém foi "arada com uma junta de bois"; a Judeia foi renomeada Palestina e Jerusalém, Aélia Capitolina.

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Embora o templo tivesse sido destruído e Jerusalém totalmente queimada, os judeus e o judaísmo sobreviveram ao encontro com Roma. O órgão legislativo e judiciário supremo, o Sinédrio (sucessor da Knesset Hagedolah) foi reunido em Yavneh (70 EC) e, mais tarde, em Tiberíades. Sem a estrutura unificadora do Estado e do Templo, a pequena comunidade judaica restante se recuperou gradualmente, ocasionalmente fortalecida pela volta de grupos exilados.

A vida institucional e comunal foi renovada, os sacerdotes foram substituídos por rabinos e a
A vida institucional e comunal foi renovada, os sacerdotes foram
substituídos por rabinos e a sinagoga tornou-se o foco das comunidades
judaicas, como exemplificado pelos restos de sinagogas em Capernaum,
Korazin, Bar’am, Gamla, etc. A Halachá (a lei religiosa judaica) serviu como elo
comum entre os judeus e foi passado de geração a geração.
DOMÍNIO BIZANTINO (313 A 636)
Ao final do século IV, após o Imperador Constantino adotar o cristianismo
(313) e a fundação do Império Bizantino, a Terra de Israel havia se tornado um
país predominantemente cristão. Igrejas foram construídas em locais sagrados
cristãos em Jerusalém, Belém e Galileia, e fundaram-se mosteiros em muitas
regiões do país. Os judeus foram privados da autonomia relativa que tinham
anteriormente, do direito de ocupar cargos públicos, e foram proibidos de entrar
em Jerusalém, exceto em um dia do ano (Tisha B'Av — nove de Av) para
lamentar a destruição do Templo.
A invasão persa de 614 foi auxiliada pelos judeus, inspirados pela
esperança messiânica da libertação. Em troca de sua ajuda, eles receberam o
governo de Jerusalém; esse período durou aproximadamente três anos.
Subsequentemente, o exército bizantino recuperou o domínio da cidade (629) e
mais uma vez expulsou seus habitantes judeus.

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DOMÍNIO ÁRABE (636 A 1099)

A conquista da Terra pelos árabes ocorreu quatro anos após a morte de Maomé (632) e durou mais de quatro séculos, com califas governando primeiro a partir de Damasco, depois de Bagdá e do Egito. No início, a colonização judaica em Jerusalém foi retomada, e a comunidade judaica recebeu o status de dhimmi (não muçulmanos protegidos), o que lhes garantia a vida, propriedade e liberdade de culto, em troca do pagamento de taxas e impostos territoriais especiais.

No entanto, logo restrições contra não muçulmanos (717) afetaram a conduta pública dos judeus, assim
No entanto, logo restrições contra não muçulmanos (717) afetaram a
conduta pública dos judeus, assim como suas práticas religiosas e seu status
legal. A imposição de pesados impostos sobre terras agrícolas fez com que
muitos se mudassem de áreas rurais para as cidades, onde sua situação
melhorou pouco; enquanto isso, o aumento da discriminação social e econômica
forçou muitos outros a deixar o país. Ao final do século XI, a comunidade judaica
na Terra tinha diminuído consideravelmente, tendo perdido parte de sua coesão
organizacional e religiosa.
CRUZADOS (1099 A 1291)

Durante os 200 anos seguintes, o país foi dominado pelos cruzados, que, atendendo a um apelo do Papa Urbano II, vieram da Europa para recuperar a Terra Santa dos infiéis. Em julho de 1099, após um cerco de cinco semanas, os cavaleiros da Primeira Cruzada e seu exército de plebeus capturaram Jerusalém, massacrando a maioria dos habitantes não cristãos da cidade. Presos em suas sinagogas, os judeus defenderam sua região, mas foram queimados vivos ou vendidos como escravos. Durante as décadas seguintes, os cruzados ampliaram seu poder sobre o restante do país, em parte por meio de tratados e acordos, mas principalmente através de sangrentas conquistas militares.

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O Reino Latino dos Cruzados constituía-se de uma minoria conquistadora, confinada em cidades e castelos fortificados. Quando os cruzados abriram as rotas de transporte a partir da Europa, a peregrinação à Terra Santa tornou-se popular e, ao mesmo tempo, um número cada vez maior de judeus procurava retornar à sua terra natal. Documentos da época indicam que 300 rabinos da França e da Inglaterra chegaram em um grupo, instalando- se em Acre (Akko), outros em Jerusalém.

Após a derrota dos cruzados pelo exército muçulmano de Saladino (1187), os judeus ganharam novamente
Após a derrota dos cruzados pelo exército muçulmano de Saladino
(1187), os judeus ganharam novamente certa liberdade, incluindo o direito de
viver em Jerusalém. Embora os cruzados tenham conseguido uma presença no
país após a morte de Saladino (1193), sua presença limitava-se a uma rede de
castelos fortificados. A autoridade dos cruzados na Terra terminou após uma
derrota final (1291) pelos mamelucos, uma casta militar muçulmana que
conquistara o poder no Egito.
DOMÍNIO MAMELUCO (1291 A 1516)
Sob o domínio dos mamelucos, a Terra tornou-se apenas uma província,
governada a partir de Damasco. Acre, Jaffa, e outros portos foram destruídos
por receio de novas cruzadas, e o comércio marítimo e terrestre foi interrompido.
Ao final da Idade Média, as cidades do país estavam praticamente em
ruínas, a maior parte de Jerusalém estava abandonada, e a pequena
comunidade judaica vivia na miséria. O declínio do domínio mameluco foi
marcado por revoltas políticas e econômicas, pragas, gafanhotos, e terremotos
devastadores.
DOMÍNIO OTOMANO (1517 A 1917)

Após a conquista otomana, em 1517, o país foi dividido em quatro distritos, ligados administrativamente à província de Damasco e governados de Istambul. No início da era otomana, aproximadamente mil famílias judias viviam no país, principalmente em Jerusalém, Nablus (Siquém), Hebron, Gaza, Safed

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(Tzfat) e nas aldeias da Galileia. A comunidade era constituída por descendentes de judeus que sempre viveram na Terra, assim como imigrantes do norte da África e da Europa.

Um governo eficiente, até a morte (em 1566) do sultão Suleiman, o Magnífico, trouxe melhorias e estimulou a imigração judaica. Alguns recém- chegados se estabeleceram em Jerusalém, mas a maioria foi para Safed, onde, em meados do século 16, a população judaica havia aumentado para aproximadamente dez mil, e a cidade tornou-se um próspero centro têxtil e um foco de intensa atividade intelectual.

Durante esse período, o estudo da Cabala (misticismo judaico) floresceu e esclarecimentos da lei judaica,
Durante esse período, o estudo da Cabala (misticismo judaico) floresceu
e esclarecimentos da lei judaica, codificados no Shulchan Aruch, foram
disseminados por toda a Diáspora a partir das casas de estudo de Safed. Com
um declínio gradual na qualidade do domínio otomano, o país todo muito
negligenciado. Ao final do século XVIII, grande parte da Terra pertencia a
proprietários ausentes, sendo arrendadas a agricultores empobrecidos, e a
tributação era altíssima e arbitrária. As grandes florestas da Galileia e do monte
Carmel foram desmatadas; pântanos e desertos invadiam as terras agrícolas.
O SIONISMO, O MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO NACIONAL
DO POVO JUDEU
O sionismo recebeu este nome a partir da palavra "Sião", sinônimo
tradicional de Jerusalém e da Terra de Israel. A ideia do sionismo — a redenção
do povo judeu em sua pátria ancestral — está enraizado na contínua saudade e
profunda ligação à Terra de Israel, que é uma parte inerente da existência judaica
na Diáspora através dos séculos. O sionismo político surgiu em resposta à
contínua opressão e perseguição de judeus na Europa Oriental e à desilusão
com a emancipação na Europa Ocidental, que não pusera fim à discriminação

nem levara à integração dos judeus nas sociedades locais.

Sua expressão foi formalizada no estabelecimento da Organização Sionista (1897), durante o Primeiro Congresso Sionista, reunido por Theodor Herzl em Basileia, Suíça. O programa do movimento sionista continha elementos

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ideológicos e práticos para o incentivo do retorno dos judeus à Terra, facilitando o renascimento social, cultural, econômico e político da vida nacional judaica e procurando também alcançar um lar reconhecido internacionalmente e legalmente garantido para o povo judeu em sua pátria histórica, onde não fossem perseguidos e pudessem desenvolver suas próprias vidas e identidade.

TEMPOS MODERNOS Durante o século XIX, o atraso medieval foi aos poucos substituído pelos primeiros
TEMPOS MODERNOS
Durante o século XIX, o atraso medieval foi aos poucos substituído pelos
primeiros sinais de progresso, com várias potências ocidentais procurando uma
posição dominante, muitas vezes através de atividades missionárias. Estudiosos
britânicos, franceses e americanos iniciaram estudos de arqueologia bíblica; a
Grã-Bretanha, a França, a Rússia, a Áustria e os Estados Unidos abriram
consulados em Jerusalém. Navios a vapor passaram a ter rotas constantes de e
para a Europa; conexões postais e telegráficas foram instaladas; a primeira
estrada ligando Jerusalém a Jaffa foi construída. O renascimento do país como
ponto de encontro comercial de três continentes foi acelerado pela abertura do
Canal de Suez.
Consequentemente, a situação dos judeus do país foi melhorando, e seu
número aumentou substancialmente. Na metade do século, a superpopulação
no interior das muralhas de Jerusalém levou os judeus a construírem o primeiro
bairro fora das muralhas (1860), e, nos vinte e cinco anos seguintes, adicionaram
mais sete, formando o núcleo da nova cidade.

Em 1870, Jerusalém tinha uma maioria absoluta judia. Terras para a agricultura foram compradas em todo o país; novos assentamentos rurais foram estabelecidos; a língua hebraica, há muito restrita à liturgia e à literatura, foi reavivada. Era o estágio ideal para o início do movimento sionista. Inspirados pela ideologia sionista, dois grandes fluxos de judeus da Europa Oriental chegaram ao país no final do século XIX e início do século XX. Determinados a restaurar sua pátria pelo cultivo do solo, esses pioneiros recuperaram campos estéreis, construíram novos assentamentos e formaram a base para o que se tornaria uma próspera economia agrícola.

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Os recém-chegados enfrentaram condições extremamente difíceis: a postura da administração otomana era hostil e opressiva; comunicações e transporte eram rudimentares e pouco seguros; nos pântanos havia a mortal malária; e o solo sofrera séculos de negligência. A aquisição de terras era restrita, e a construção foi proibida sem uma licença especial, que só podia ser obtida em Istambul.

Embora essas dificuldades tenham dificultado o desenvolvimento do país, não o impediram. Com o início
Embora essas dificuldades tenham dificultado o desenvolvimento do
país, não o impediram. Com o início da I Guerra Mundial (1914), a população
judaica na Terra era de 85.000, em comparação com os 5.000 do início do século
XVI. Em dezembro de 1917, forças britânicas, sob o comando do General
Allenby, invadiram Jerusalém, terminando 400 anos de domínio otomano.
A Legião Judaica, com três batalhões formados por milhares de
voluntários judeus, era uma unidade essencial do exército britânico. Domínio
britânico (1918 a 1948) Em julho de 1922, a Liga das Nações concedeu à Grã-
Bretanha o Mandato sobre a Palestina (nome pelo qual o país era então
conhecido). Reconhecendo a ligação histórica do povo judeu com a Palestina,
foi solicitado à Grã-Bretanha que facilitasse o estabelecimento de um lar nacional
judaico na Palestina e em Eretz Israel (Terra de Israel).
Dois meses depois, em setembro de 1922, o Conselho da Liga das
Nações e a Grã-Bretanha decidiram que as condições para a criação de um lar
nacional judaico não valeriam para a região leste do rio Jordão, que constituía
três quartos do território incluído no Mandato e que acabou por se tornar o Reino
Hachemita da Jordânia.
IMIGRAÇÃO

Motivados pelo sionismo e incentivados pela empatia britânica com as aspirações judaicas sionistas, conforme comunicado pelo secretário de Relações Exteriores, Lord Balfour (1917), sucessivos grupos de imigrantes chegaram ao país, entre 1919 e 1939, cada um contribuindo para diferentes aspectos do desenvolvimento da comunidade judaica. Cerca de 35.000 judeus

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chegaram entre 1919 e 1923, principalmente da Rússia, e influenciaram muito o caráter e organização da comunidade durante anos.

Esses pioneiros estabeleceram os alicerces de uma infraestrutura social e econômica abrangente, desenvolveram a agricultura, instalaram formas comunitárias cooperativas e únicas de assentamentos rurais kibutz e moshav e forneceram a mão de obra para a construção de casas e estradas. A onda seguinte, com aproximadamente 60.000 judeus, que vieram principalmente da Polônia entre 1924 e 1932, foi fundamental para o desenvolvimento e enriquecimento da vida urbana.

Esses imigrantes se estabeleceram principalmente em Tel Aviv, Haifa e Jerusalém, onde abriram pequenos negócios,
Esses imigrantes se estabeleceram principalmente em Tel Aviv, Haifa e
Jerusalém, onde abriram pequenos negócios, empresas de construção e
indústrias leves. A última grande onda de imigração antes da II Guerra Mundial,
que incluiu aproximadamente 165 mil judeus, ocorreu na década de 1930, após
a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Os recém chegados, muitos dos
quais eram profissionais e acadêmicos, constituíram o primeiro grande grupo de
imigrantes da Europa Ocidental e Central. Sua educação, habilidades e
experiência aumentaram o padrão dos negócios, refinaram as condições
urbanas e rurais, e ampliaram a vida cultural da comunidade.
A ADMINISTRAÇÃO DA TERRA
As autoridades britânicas concederam às comunidades judaica e árabe
o direito de administrarem seus próprios assuntos internos. Utilizando esse
direito, a comunidade judaica, conhecida como Yishuv, elegeu (em 1920) um
órgão auto governante com base em representação partidária, que se reunia
anualmente para analisar suas atividades e eleger o Conselho Nacional (Va'ad
Leumi) para implantar suas políticas e programas.

Financiados por recursos locais e fundos angariados pelo judaísmo mundial, uma rede nacional de serviços educacionais, religiosos, sociais e de saúde foi desenvolvida e mantida. Em 1922, conforme estipulado no Mandato, uma "agência judaica" foi constituída para representar o povo judeu diante das autoridades britânicas, governos estrangeiros e organizações internacionais.

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DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Durante as três décadas do Mandato, a agricultura foi desenvolvida; fábricas foram estabelecidas; novas estradas foram construídas em todo o país; as águas do rio Jordão foram represadas para a produção de energia elétrica; e o potencial mineral do Mar Morto foi aproveitado. A Histadrut (Federação Geral do Trabalho) foi fundada (1920) para apoiar o bem estar dos trabalhadores e criar empregos através do estabelecimento de empresas cooperativas no setor industrial, assim como serviços de marketing para as colônias agrícolas.

Três movimentos clandestinos judeus ocorreram durante o período do Mandato Britânico. O maior deles foi
Três movimentos clandestinos judeus ocorreram durante o período do
Mandato Britânico. O maior deles foi a Haganah, fundada em 1920 pela
comunidade judaica como uma milícia de defesa para a segurança da população
judaica. A partir de meados dos anos 1930, o movimento também foi responsável
por retaliações após os ataques árabes e respostas às restrições britânicas à
imigração judaica com demonstrações e sabotagem em massa.
O Etzel, organizado em 1931, rejeitou o auto controle da Haganah e
iniciou ações independentes contra alvos árabes e britânicos. O menor e mais
militante dos grupos, o Lehi, foi criado em 1940. As três organizações foram
dissolvidas com o estabelecimento das Forças de Defesa de Israel em junho de
1948.
CULTURA

Dia após dia, surgia uma vida cultural que se tornaria exclusiva para a comunidade judaica na Terra de Israel. Arte, música, e dança se desenvolveram gradualmente com a criação de escolas e estúdios profissionais. Galerias e salas forneceram espaços para exposições e espetáculos, frequentados por um público exigente. A abertura de uma nova peça, o lançamento de um novo livro, ou uma exposição de retrospectiva de um pintor local eram imediatamente cobertos pela imprensa e tornaram-se objetos de animados debates em cafés e reuniões sociais.

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A língua hebraica foi reconhecida como língua oficial do país, juntamente

com o inglês e o árabe, e passou a ser usada em documentos, moedas e selos, assim como em programas de rádio. O mercado editorial aumentou, e o país surgiu como centro mundial de atividade literária em hebraico. Teatros de vários gêneros abriram suas portas para o público, juntamente com tentativas iniciais de escrever peças originais em hebraico.

O renascimento nacional judaico e o empenho da comunidade para reconstruir o país encontraram fortes
O renascimento nacional judaico e o empenho da comunidade para
reconstruir o país encontraram fortes oposições por parte dos nacionalistas
árabes. Seu ressentimento explodiu em períodos de intensa violência (1920,
1921, 1929, 1936 a 1939), quando ataques não provocados foram lançados
contra a população judaica, incluindo o Massacre de Hebron de 1929, o assédio
no transporte judaico, e a queima de campos e florestas.
Tentativas de diálogo com os árabes, realizadas no início do movimento
sionista, foram infrutíferas, polarizando o sionismo e o nacionalismo árabe em
uma situação potencialmente explosiva. Reconhecendo os objetivos opostos dos
dois movimentos nacionais, a Grã-Bretanha recomendou (1937) a divisão do
país em dois Estados, um judeu e outro árabe, ligados por uma união econômica.
A liderança judaica aceitou a ideia da divisão e permitiu que a agência
judaica negociasse com o governo britânico para reformular os diversos
aspectos da proposta. Os árabes foram intransigentemente contra qualquer
plano de divisão. A continuação de grandes ataques árabes antissemitas levou
a Grã-Bretanha (em maio de 1939) à emissão de um Livro Branco, impondo
restrições drásticas sobre a imigração judaica, apesar de, consequentemente,
negar a judeus europeus um refúgio da perseguição nazista.
O início da II Guerra Mundial pouco depois levou David Ben-Gurion,
posteriormente o primeiro primeiro-ministro de Israel, a declarar: Vamos lutar na
guerra como se não houvesse Livro Branco, e contra o Livro Branco como se
não houvesse guerra.

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HOLOCAUSTO

Distintivo amarelo que os judeus foram forçados a usar pelos nazistas Durante a 2ª Guerra Mundial (1939 a 1945), o regime nazista executou um deliberado e sistemático plano para liquidar a comunidade judaica da Europa. Nesse período, aproximadamente seis milhões de judeus, incluindo um milhão e meio de crianças, foram assassinados.

À medida que os exércitos nazistas varriam a Europa, os judeus eram selvagemente perseguidos, submetidos
À medida que os exércitos nazistas varriam a Europa, os judeus eram
selvagemente perseguidos, submetidos a tortura e humilhação, e levados para
guetos, onde tentativas de resistência armada causaram medidas ainda mais
duras. A partir dos guetos, eles eram transportados para campos de
concentração, onde alguns, com mais sorte, eram submetidos a trabalhos
forçados, mas a maioria era executada em massa através de tiros ou câmaras
de gás.
Muitos não conseguiram escapar. Alguns fugiram para outros países,
alguns se juntaram aos guerrilheiros, e outros foram escondidos por não judeus,
que arriscaram suas próprias vidas ao fazerem isso. Consequentemente, apenas
um terço dos judeus sobreviveu, incluindo aqueles que haviam deixado a Europa
antes da guerra, de uma população de quase nove milhões, que outrora
constituía a maior e mais vibrante comunidade judaica do mundo.
Após a guerra, a oposição árabe levou os britânicos a intensificar suas
restrições sobre o número de judeus com permissão para entrar e se estabelecer
no país. A comunidade judaica reagiu, instituindo uma ampla rede de imigração
ilegal para resgatar sobreviventes do Holocausto. Entre 1945 e 1948,
aproximadamente 85.000 judeus foram trazidos à Terra secretamente, por rotas
muitas vezes perigosas, apesar do bloqueio naval britânico e patrulhas de
fronteira preparadas para interceptar refugiados antes de chegarem ao país.

Aqueles capturados foram internados em campos de detenção na ilha de Chipre, ou forçados a retornar para a Europa. Voluntários judeus na 2ª Guerra Mundial: Mais de 26.000 homens e mulheres da comunidade judaica da Terra

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se ofereceram para juntarem-se às forças britânicas na luta contra a Alemanha nazista e seus aliados do Eixo, servindo no exército, força aérea e marinha.

Em setembro de 1944, após um esforço prolongado da agência judaica no país e do movimento sionista no exterior para conseguir o reconhecimento da participação dos judeus da Palestina no esforço de guerra, a Brigada Judaica foi formada como uma unidade militar independente do exército britânico, com sua própria bandeira e emblema.

Composta por aproximadamente 5.000 homens, a brigada agiu no Egito, no norte da Itália e
Composta por aproximadamente 5.000 homens, a brigada agiu no Egito,
no norte da Itália e no noroeste da Europa. Após a vitória dos Aliados na Europa
(1945), muitos de seus membros juntaram-se às atividades de “imigração ilegal”
para trazer sobreviventes do Holocausto à Terra de Israel.
A CAMINHO DA INDEPENDÊNCIA
A incapacidade da Grã-Bretanha de conciliar as exigências opostas das
comunidades judaica e árabe levou o governo britânico a pedir que a "Questão
da Palestina" fosse inscrita na agenda da Assembleia Geral das Nações Unidas
(em abril de 1947). Como resultado, uma comissão especial foi constituída para
elaborar propostas sobre o futuro do país.
Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia votou pela adoção da
proposta do comitê de divisão da Terra em dois Estados, um judeu e outro árabe.
A comunidade judaica aceitou o plano, mas os árabes o rejeitaram. Após a
votação da ONU, os militantes árabes locais, auxiliados por voluntários
aleatórios de países árabes, lançaram violentos ataques contra a comunidade
judaica, tentando frustrar a resolução da divisão e impedir o estabelecimento de
um Estado judeu.

Após uma série de contratempos, as organizações de defesa judaicas expulsaram a maioria das forças de ataque, tomando conta de toda a área alocada para o Estado judeu. Em 14 de maio de 1948, quando o mandato britânico chegou ao fim, a população judaica na Terra chegava a 650.000 pessoas, formando uma comunidade organizada com instituições políticas,

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sociais e econômicas bem desenvolvidas de fato, uma nação e Estado em todos os sentidos, exceto no nome.

A CONSTRUÇÃO DO ESTADO

Com o fim da guerra, Israel concentrou-se na construção do Estado que o povo tinha
Com o fim da guerra, Israel concentrou-se na construção do Estado que
o povo tinha lutado tanto para recuperar. Os primeiros 120 assentos do Knesset
(do parlamento) entraram em funcionamento após as eleições nacionais (em 25
de janeiro de 1949) em que quase 85% de todos os eleitores votaram. Duas das
pessoas que haviam conduzido Israel à independência tornaram-se líderes do
país: David Ben-Gurion, líder da agência judaica, foi escolhido como primeiro
primeiro-ministro, e Chaim Weizman, presidente da Organização Sionista
Mundial, foi eleito pelo Knesset como primeiro presidente.
Em 11 de maio de 1949, Israel tornou-se o 59º membro das Nações
Unidas. De acordo com o conceito de "reunir os exilados", que está no cerne da
razão de ser de Israel, os portões do país foram abertos, afirmando o direito de
cada judeu de vir para o país e, ao entrar, adquirir cidadania. Nos primeiros
quatro meses de independência, aproximadamente 50.000 recém-chegados,
principalmente sobreviventes do Holocausto, chegaram às praias de Israel. Até
o final de 1951, um total de 687.000 homens, mulheres e crianças chegaram,
mais de 300.000 deles refugiados de países árabes, duplicando assim a
população judaica.
A crise econômica causada pela Guerra da Independência e a
necessidade de sustentar uma população em rápido crescimento exigiram
austeridade no país e ajuda financeira do exterior. A assistência prestada pelo
governo dos Estados Unidos, empréstimos de bancos americanos, as

contribuições dos judeus da Diáspora e reparações alemãs após a guerra foram usados para construir casas, mecanizar a agricultura, estabelecer uma frota mercante e uma companhia aérea nacional, explorar minerais disponíveis, desenvolver indústrias e expandir rodovias, telecomunicações e redes elétricas.

No final da primeira década, a produção da indústria dobrou, assim como

o número de pessoas empregadas, com as exportações industriais aumentando

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quatro vezes. A vasta expansão das áreas cultivadas trouxe autossuficiência no fornecimento de todos os produtos alimentares básicos, exceto carne e grãos, enquanto aproximadamente 50.000 hectares de terra árida foram arborizados e árvores foram plantadas ao longo de quase 500 milhas (800 km) de rodovias.

O sistema educacional, desenvolvido pela comunidade judaica no período pré-estatal e que agora incluía o
O sistema educacional, desenvolvido pela comunidade judaica no
período pré-estatal e que agora incluía o setor árabe, expandiu-se
consideravelmente. Frequentar as escolas tornou-se gratuito e obrigatório para
todas as crianças com idades entre 5 e 14 anos (em 1978 tornou-se obrigatório
até os 16 anos e gratuito até os 18). Atividades culturais e artísticas floresceram,
misturando elementos do Oriente Médio, do Norte Africano e ocidentais, pois os
judeus chegando de todas as partes do mundo trouxeram consigo as tradições
específicas de suas comunidades e aspectos da cultura dominante dos países
onde tinham vivido por gerações. Quando Israel comemorou seu décimo
aniversário, a população ultrapassava dois milhões.

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BIBLIOGRAFIA

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BUNIM, Irving M. A Ética do Sinai, ensinamentos dos sábios do Talmud. Editora Sefer. JOHNSON,
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JOHNSON, Paul. A História dos Judeus. Ed. Imago.
KAPLAN, Rabino Aryeh. A Torá Viva. Ed. Sefer.
LANGE, Nicholas de. Atlas of the Jewish World. Ediciones Folio, S.A. KAPLAN,
MILLER, Rabbi Avigdor. Behold a People, a didactic history of scriptural times. Balshon
Printing and Offsets Co.
MUNK, Rabbi Elie. Ed. Maayanot.
SITIOS DE INTERNET
EMBAIXADA DE ISRAEL EM BRASÍLIA:
Disponível em:
http://embassies.gov.il/brasilia/AboutTheEmbassy/Artigos_e_publicacoes/Documents/F
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REVISTA MORASHÁ
Disponível em: http://www.morasha.com.br, acessado em 10 de janeiro de 2015.
MORASHÁ SYLLABUS
Disponível em: http://www.morashasyllabus.com/Portuguese/Syllabus.htm, acessado
em 15 de janeiro de 2015.

BEIT CHABAD

Disponível em: http://www.pt.chabad.org, acessado em 15 de Janeiro de 2015.