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J.T.PARREIRA

COMO QUEM IA
PARA LONGE
Contos de inspiração evangélica

2015
Edição de Sammis Reachers

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Índice
Uma breve apresentação ......................................................................................... 04
Como quem ia para longe ....................................................................................... 05
Judas I .............................................................................................................................. 07
Com água pelos artelhos ......................................................................................... 11
A jumenta viu o anjo ................................................................................................. 14
A Troca ............................................................................................................................ 17
Os Pronomes ................................................................................................................ 20
Perto de uma aldeia chamada Jerash ................................................................. 23
Nem sempre era deserto ......................................................................................... 26
Uma conversa sobre ruínas ................................................................................... 30
Os olhos de Judas I. ................................................................................................... 34
O Poeta do Salmo exilado ........................................................................................ 36
O Visitante de Jericó .................................................................................................. 40
O Hóspede ...................................................................................................................... 44
Uma ponte levantada do remorso ....................................................................... 47
O aposento do dia anterior ..................................................................................... 50
O Filho mais velho ...................................................................................................... 52
O Náufrago ..................................................................................................................... 55
Carta ao evangelista Marcos .................................................................................. 57
No sábado jantamos com Lázaro ......................................................................... 61
Sobre o autor ................................................................................................................ 64
Outros livros do autor .............................................................................................. 65

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Uma breve apresentação
Este Como quem ia para longe é um livro sobre a Bíblia. Ou,
fundamentalmente, sobre seus atores. Sob a pena do poeta, aqui as
personagens bíblicas saltam para diante do leitor, vívidas – ganham em
tessitura, têm como que expandida sua humanidade. A força da
descrição faz a elas irmanarmo-nos de imediato. Caminhamos curiosos
junto aos três que avançam para Emaús, no conto que dá nome ao
livro. Em O poeta do Salmo exilado, onde o autor revisita um tema caro
à sua literatura, o Salmo 137, sentamo-nos ao lado do exilado poetaancião que cisma, e suas dores, a existencial e a criativa, são nossas
dores. Somos ora o irmão do pródigo filho, ora o cego Bartimeu - ou
Pedro debatendo-se em suas contradições; revisitamos o angustioso
Judas, de quem o autor, como Giovanni Papini em seu clássico
Testemunhas da Paixão, decompõe os passos sombrios.
Ao longo dos dezenove contos que compõem o livro, o dito e o não
dito interpenetram-se, como é de praxe na grande literatura. A eficácia
da expressão concisa, do hábil buril que extrai o máximo da palavra, e
que o poeta alcança em sua produção poética, temos aqui
fidedignamente reproduzida em prosa: contos curtos, que sustentam
com segurança e maestria a tensão narrativa, envolvendo o leitor em
seu jogo de construção/desconstrução das personagens bíblicas.
Um pequeno volume de formidável literatura, tão superior a muito
do que se vê hoje sendo comercializado nas livrarias, e aqui
graciosamente ofertado pelo autor, neste e-book gratuito. Livro que já
nasce imprescindível, dentro da infelizmente paupérrima seara da
ficção evangélica, em seu gênero conto.
Por tudo isso, lhe faço o convite, amigo leitor: Sente-se confortável.
Apanhe um café ou uma outra bebida de sua predileção. E mergulhe
neste conciso e aprazível exercício de arte narrativa.
Sammis Reachers

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Como quem ia para longe
- Sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas
aconteceram – disse Cleopas, falando com o seu companheiro e com
outro viajante ocasional, sobre quem faziam cair olhos desconfiados.
Por de trás da fileira de árvores via-se perfeitamente que o dia estava a
apagar-se, o sol prestes a cair da linha longínqua cor de fogo, aquela
que parece aos nossos olhos desdobrar o Céu e a Terra.
Num outro lugar começaria a surgir o dia; dir-se-ia que o futuro a
nascer com o sol. Mas para aqueles dois homens, companheiros de
viagem e da vida, que iam a caminho da sua aldeia, não parecia haver
dia de amanhã, horas felizes, apenas uma solidão que se levantara
debaixo dos seus pés.
Em Emaús, para onde se dirigiam, tudo continuaria envolto em
passado; agarrada à História sem retorno, a aldeia vivia ainda de
suposições, que Judas Macabeu, quase dois séculos antes derrotara aí,
em terreno amplo, os sírios de Antíoco IV; que os sicômoros, as pedras
e o chão ainda desse tempo, seriam testemunhas mudas; que os
escassos onze quilómetros que a separavam de Jerusalém não a tinham
beneficiado com a civilização.
Começava a pesar tudo isto no coração dos dois amigos, todo o passado
vivido na aldeia até ao período de tempo em que foram discípulos de
Jesus, o Nazareno, que os arrancara ao chão, às pedras, às figueiras
mediterrâneas, aos fantasmas de Judas Macabeu e Antíoco. A espera do
dia declinar, a noite e o sono talvez viessem a constituir uma densa
mas abençoada névoa, capaz de tudo engolir sem deixar rasto,
sobretudo aqueles últimos dias que tanto os magoava.
Durante o caminho, porém, interessava-lhes a espécie de catarse que
constituía o conversarem, o mais possível, sobre os acontecimentos
recentíssimos, daquela Páscoa diferente de todas as anteriores.
- Somente um estranho em Israel desconheceria como os cordeiros
reduzidos a cinza, o fogo dos holocaustos, as cerimonias, tudo havia
sido feito com um apressado alheamento – sentenciou o mesmo
Cleopas.
- Em toda a História da nação nunca houve uma vítima tão solitária –
disse o companheiro, parando um pouco para olhar no sentido de
Jerusalém – Por isso todas as atenções recaíram sobre ela – concluiu,
com a voz a esconder-se sob um soluço.
Cleopas e o seu companheiro nunca haviam vivido tão perto de um
acontecimento que ia pondo cores de tristeza nos seus olhos e no

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fundo do seu coração. Pelo menos era o que iam sentindo, com
suposições e uma ou outra certeza enquanto caminhavam.
Mas depois que aquele terceiro viajante – para quem olharam
desconfiados do que parecia ser um alheamento das coisas que tinham
sucedido – se acercou deles, e, como quem ia para longe, fez questão de
acompanha-los na jornada, começando a mitigar a aspereza da viagem
com palavras sustentadas por um firme conhecimento das Escrituras,
somente aí começou a correr, como um vento agradável, uma
indescritível alegria nas frases.
- Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho,
nos falava e quando nos abria as Escrituras? – disseram um ao outro, já
preparados para se deitarem no sono.
Agora que o Mestre tocara o chão da sua humilde casa, estivera com
eles, tinha tomado nas Suas mãos o pão que repartiu com um gesto
universal, vastíssimo até ao coração dos homens, era realmente a
memória doce da sua presença, ainda que por breves instantes, o que
lhes fazia recordar aquele pôr do sol, como único da sua vida.
- Cumpriu as suas palavras – comentou Cleopas, procurando alguma
coisa.
- Os três dias no ventre do grande peixe – lembrou o companheiro – Do
templo derrubado e em três dias reerguido – disse ainda.
- Do grão de trigo sepultado para se levantar em inumerável fruto –
relembrou Cleopas.
Desde aquele momento, e de posse de toda esta sabedoria, não
poderiam reter por mais tempo aquela revelação; seria a alegria
também que os impulsionava a distribuir a notícia.
Olhando fixamente o campo da noite que estava à sua frente, o
caminho de regresso a Jerusalém pareceu-lhes mais curto, ainda que
envolto no sono sem estrelas dos que, àquela hora, dormiam.
Istambul - Julho de 1993

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Judas I.
O desperdício do unguento. O valor do nardo puro. O perfume
libertando-se do alabastro.
Ver o Mestre ceder ao sentimentalismo de uma bela acção, passo após
passo tudo era mais um motivo que Judas I. levava na cabeça.
Tinha acabado de assistir a um acto que não entendeu.
Frágil acto que não contribuía nada para a visão que havia o muito o
acompanhava, uma revolução que acabasse com os estrangeiros na sua
pátria e levasse outros horizontes aos pobres do país.
E, com uma frontalidade que não era seu hábito, mas com o segundo
sentido que era a capa da sua hipocrisia, manifestara ao Mestre o seu
desagrado. Aproveitara mesmo o momento para conduzir o grupo à
razão da tarefa que achava prioritária.
- Por que não se vendeu este unguento para distribuir o dinheiro pelos
pobres? – Inquire Judas I.
- Não. – Diz Jesus.
- Por trezentos dinheiros, Mestre… – insiste Judas I., dirigindo a voz à
bolsa onde se guardava o sustento da pequena comunidade.
A noite consumira as formas e as cores, cercara já as casas de Betânia.
Porém esse não era o motivo de Judas I. estar sombrio, muito obscuro,
no meio de todos os demais convidados.
Jesus Cristo conhecia, de facto, o interior da observação do seu
discípulo, estava a verificar como ela poderia ser contagiosa, mas foi
com a emoção de quem está próximo da morte e repara que ninguém
entende as palavras do drama, que o Mestre afirmou:
- Pobres, sempre haverá no meio de vós, mas a mim, nem sempre me
hão-de ter.
Algum tempo levou Judas I. a perceber como o seu messianismo era
diferente. Era natural de uma região onde as conspirações se
misturavam com o pensamento filosófico e o temperamento selvagem,
ou o modo de fazer as coisas; da região próxima da morte, pela
vastidão clara e inanimada do Mar Morto, de onde surgiram activistas
românticos; Judas I. não viveria porém o suficiente para ver Masada
dar o último quartel de luta contra os ocupantes romanos. O homem de
Quiriote-Hezrom, do extremo sul de Judá, era diferente, não custava
admiti-lo, mas, também, não era seu hábito declará-lo abertamente; ele
tinha a visão dos zelotes.
Naquele jantar que Simão proporcionara, todos os convivas ficaram
sensíveis diante do desperdício, não estavam menos sensíveis –
pensava Judas I. – ao espectáculo da gratidão. Ele não podia
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permanecer nessa gratidão, porque esta era o sinal dos necessitados,
dos que não têm poder. Judas I. não poderia ser um dependente – e
esta divisa não parava de ribombar na sua cabeça. Tão pouco poderia
continuar a esperar uma mudança nos limitados ideais do grupo com
quem andava: viviam todos muito próximo do Mestre, reclinavam
todos a cabeça no ideal do Mestre, os seus ouvidos já não sabiam ouvir
outras palavras. Por isso, naquele banquete, acentuar-se-ia outro sinal,
que ele, homem forte e activista apaixonado, estava sozinho.
Judas I. havia muito tempo que somava todas as renúncias; ele queria
derrubar a ocupação romana, enquanto o Mestre queria liberdade da
alma; ele governava a sua avareza, enquanto o Mestre praticava a
inefável mordomia ao próximo; ele invejava, o Mestre despojava-se.
Sabia, com determinação, juntar todas as diferenças.
Judas I. tinha uma espécie de fome, enquanto Jesus, nazareno, oriundo
da fértil Galileia, saciava outros famintos.
Mas nessa noite as coisas tinham-se tornado claras na sua mente: os
sinais para fazer alguma coisa por si mesmo tocaram silenciosamente
nos seus ouvidos, os olhos de Judas I. não poderiam por mais tempo
enganar. Como tinha suportado cerca de três anos essa diferença entre
messianismo, isso é que Judas não saberia ou não poderia exprimir.
Sem um único vislumbre de claridade, a noite recebeu a exaltação e a
dúvida no corpo de Judas I. Este sem um senão que revelasse como era
falsa a sua harmonia aparente, precisava cumprir a atitude que lhe
ocorrera, naquele momento. Precisava trair – pensou Judas I. Trair, não
Jesus, mas o Seu ideal de amor, de entrega à morte por razões
imponderáveis, o que era contrário à revolução. Precisava trair para
que o seu acto salvasse alguma coisa, salvasse algum proveito para si
mesmo.
Portanto, talvez Judas I. pudesse ainda contribuir para a história, para
outra história como a do seu homónimo Macabeu, sem ter que recorrer
afinal às colinas da Judeia: com uma guerra de guerrilhas.
Foi, porém, com o seu amor próprio e com os ouvidos ainda feridos
pelo que percebeu ser uma repreensão em defesa da atitude da Maria –
«Deixem-na em paz! Isto que ela fez serve para o dia do meu enterro»,
dissera Jesus – que o discípulo de Queriote se decidiu.
A noite adormeceu sem chuva, apesar de um vento com odor a Mar
Vermelho. Alheia a traições dos homens e a milagres da Divindade, ao
sono ou à insónia ou às portas e às aldeias fechadas.
No seu interior, milhões de pensamentos e de corações nada enxergam
para além dos olhos. Quando a noite desce, através do silêncio, as
coisas acabam por não pertencer às pessoas.

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A partir dessa noite, todas as poucas noites de Judas I. deixariam de ser
quietas.
- Quanto é que me dão se eu entregar Jesus? – Pergunta ao chefe dos
sacerdotes.
Judas I. não fora nunca frequentador assíduo dos círculos do poder
religioso da Sinagoga ou do Sinédrio.
Mas, passo após passo parecia estar de posse do salvo-conduto para a
sua traição.
O seu coração, agora, nem sequer pensava em Romanos, em derrubar a
ilegítima ocupação das hostes de Tibério. Se lhe tivessem perguntado,
nesse instante, quais eram suas ideias políticas, teria com certeza
respondido:
- Agora, não tenho quaisquer ideias; o que eu tenho é pressa!
As trinta moedas de prata foram apenas a parte prática do plano.
Exibiam um ar sinistro, os rostos dos principais sacerdotes quando
depositaram nas mãos de Judas I. o preço da combinação.
Um ar sinistro e olhos oblíquos, trocados entre eles; teriam mesmo de
agir contra o povo, quando Judas encontrasse a melhor ocasião para
lhes entregar o Mestre.
Até esse momento, Judas I. dissolvia-se no grupo, agora iria fazê-lo
tremer.
O melhor dos Judeus, julgava-se Judas I.; um herói, o mais forte e o
melhor dos apóstolos.
O futuro, decerto, escreveria românticos resumos acerca da sua
personalidade – «o melhor amigo de Jesus», «o mais leal», «persuadido
a trair, como melhor amigo, para ajudar o Mestre a consumar o plano
divino».
A partir desse momento, porém, Judas I. estaria desprotegido, à mercê
de uma muralha de olhos que esperavam. Esses quatro ou cinco dias
até à hora propícia iriam ser toda a sua vida.
- Levei noites a pensar se entregá-Lo não era um favor menos útil a vós
do que aos estrangeiros – diz Judas I. aos homens do templo.
Procurava dar um sentido à sua traição, e isso afligia-o.
- Seria preferível que o Mestre fosse, de facto, um mais, um zelote;
assim a traição seria laica, preservaria a ordem estabelecida… – de pé,
à saída, Judas I. procurava quebrar o silêncio que as trinta moedas de
prata vieram instalar.
De quando em quando, Judas I. com a memória sempre pronta a
devolver-lhe os momentos de rara comunhão passados entre os seus
condiscípulos e o mestre, tempos de milagres e de doçura, não deixava
de pensar em como já não pertencia a ninguém, nem mesmo a si
próprio.

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**
Nessa manhã, Judas I. encontrou-se perante um beijo que dera ao
Mestre, a amizade que ainda ouvira nas palavras «amigo, a que
vieste?», a multidão com espadas e varapaus, cosida às esquinas da
noite, e por fim, a condenação pelo Sinédrio.
No templo, arremessou ao chão as palavras do remorso.
- Pequei, traindo o sangue inocente. – Diz perante a indiferença. E
arremessou, também, a prata.
Trinta moedas não podiam incluir a morte.
Depois, alguém o viu, náufrago a balançar no vento.
Judas I. acabou sozinho, com o céu distante, sobre a sua cabeça, claro.

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Com água pelos artelhos
Nessa noite Jacob também não dormiu. Havia tarefas que à primeira
vista pareciam simples que tinha de executar, revestidas do aspecto
prático; estavam porém carregadas de significado.
- Qual é a minha transgressão para que não me deixes seguir o meu
caminho? Pois bem, se não há outra coisa a fazer… – Consentiu Jacob,
diante do homem que estava de pé à sua frente, dando-lhe a ilusão de
que o olhava de um ponto algures entre o chão e o ar escurecido. De
poucas palavras, o desconhecido apenas dissera que a luta seria tão
inevitável como uma porta única de saída.
No rio, o Jacob, que é um pequeno tributário a encaminhar-se para o
Jordão, um pouco antes da morte os apanhar num enorme beco
salgado, apesar de tudo as águas corriam com a noite por cima. Era aí,
na pouca profundidade do rio, num vau cuja água tocava apenas nos
artelhos, que as dificuldades se agigantavam perante Jacob.
A luta tinha que ser corpo a corpo, flancos contra flancos, se os olhos se
atingiam mutuamente, faziam-no por platonismo. A luta tinha que
ocupar espaço e fazer sentir o volume das formas. O combate que Jacob
nunca travara para alcançar o desejado, teria de realizar-se um dia no
plano físico.
Houvera no passado, a uma distância de pouco mais de vinte anos,
outras lutas não menos dramáticas, porventura no aspecto psicológico,
ao nível dos sentimentos feridos, das fugas para evitar os homens que
enganara.
Essas foram as lutas que conhecera; houve Raquel o caso do amor, e do
acto de entrega sempre adiados; os passos que dera longe da casa
paterna; o dormir e o acordar dos sonhos; os lugares que o seu corpo
considerara terríveis, apesar de no seu espírito ter admitido um dia
que estava à porta dos Céus.
Apenas a sua vontade, as suas reflexões, a sua mente, o seu carácter em
geral, se entregar aos jogos agónicos, quando podia fechar os olhos e os
alongava até aos dias em que fugia do seu irmão Esaú.
As próprias palavras foram os meios com que pugnou ao não poder
suportar mais o cerco que a família da mulher erguia à sua volta:
- Estes vinte anos, eu estive contigo; as tuas ovelhas e as tuas cabras
nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho – retorquiu
Jacob às acusações. Para recordar toda a vida passada, que de
excepcional tivera apenas a sua juventude.
- De dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o meu sono fugiu
dos meus olhos – dissera ele encontrando na imagem usada toda a sua
natureza universal e agreste.
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Não se esquecia da luta onírica que travara no sono, depois da saída
precipitada da casa dos pais, para evitar o desespero do irmão
roubado. A sua cabeça deitada numa pedra nem por isso repousara,
mas fizera-o sentir a dureza da solidão emergindo uma vez mais do
campo da noite.
Embora recordasse ao seu espírito o bálsamo que os anjos em sonho
fizeram descer do alto dessa escada, que lhe parecia uma imensurável
porta para a humanidade, o divino a pisar a relva, os arbustos baixos, o
orvalho perfumando as sólidas sombras da noite.
Desta recordava também o medo subtil a penetrar os seus ossos. As
promessas de bênçãos, a reafirmação do pacto longínquo com o seu
avô Abraão, fizeram Deus franquear os Céus, mas agora todo o
universo de Jacob se resumia a uma pedra de saudade que não fora
ainda removida do seu corpo.
Talvez de todos os momentos em que foi agonista, de todas as lutas
que travara sem ferir a carne, o combate íntimo com as saudades de
voltar a casa dos seus pais, ainda que para testemunhar o facto de que
já não existiam, fosse aquele que mais marcou o rosto de Jacob.
Revelando-se ao ponto de o deixar perceber.
- E agora se querias ir embora, porquanto tinhas saudades de voltar à
casa de teu pai, por que furtaste os meus deuses? – Perguntara-lhe com
uma profunda censura, indignação e espanto, o sogro.
Mal saíra dos seus recessos do passado, Jacob voltou a ter a sensação
de que aquela criatura singular estava ali perante ele para o julgar, e ao
impedir-lhe que continuasse o caminho decretava a inevitabilidade da
luta.
- Se não há outra coisa a fazer… – Repetiu, dirigindo ao desconhecido
toda a força do seu corpo.
A mão que dirigia aquela luta estava para além das forças de si mesmo
e do seu antagonista. As escassas águas continuavam a correr pelo solo
ondulado, onde as margens do rio davam a impressão de se
misturarem com o próprio caudal. Pelo meio das árvores, numa ou
noutra elevação pequena e acidental começava a subir e a descer a luz
cinzenta, da manhã.
Enquanto o rumorejar das águas fazia desfilar um cântico sentimental,
os contendores mediam corpos e forças, sobrava-lhes formas que não
cabiam nas limitadas mãos. Excediam-se em obstinações, com os
corpos já clareando pela subida da alva, agarravam flancos e largavam
quando a resistência do outro desferia algum golpe com maior ciência
ou oportunidade. Tentavam imobilizar os músculos adversários, as
costelas, que pareciam alargar-se e diminuir conforme o momento
agónico. Os rostos incólumes no meio daquele corpo a corpo

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mantinham-se livres, como os olhos que viam num segundo o alvo e no
outro para além do que a mistura da noite com a manhã permitia ver.
No começo tudo pareceu fácil, mas vendo o desconhecido que não
prevalecia, tocou a juntura da coxa do adversário, fazendo-a deslocarse.
Então Jacob coxeou.
Deviam ser já as primeiras horas da manhã quando a luta deixara a sua
beleza original e se tornara num recorte de corpos exaustos, ainda que
bem perto as águas continuassem com o seu cântico, impregnando o
silêncio.
Jacob, coxeando, parecia no entanto ter tolhido os movimentos ao
adversário, o desconhecido está agora como uma estátua presa ao solo.
**
- Deixa-me ir, porque já a alva subiu! – Suplicava.
Jacob, porém, não afrouxou o laço das suas mãos; estava certo agora
que ao ter lutado como um príncipe, conforme reconhecera o próprio
adversário, ganhara para si direito ao privilégio hebraico de uma
bênção, preferia mesmo a todas as coisas materiais da sua vida, umas
palavras do Céu.
- Não te deixarei partir, se não me abençoares. – Afirmou com
convicção, como se desferisse um derradeiro e obstinado golpe.
A troca de nome, de Jacob, para Israel, parecera suficiente, como tudo o
que está para além de nós, no Universo, por mais íntimo que seja.
Sozinhos não tinham onde depor os quatro olhos já cansados de tanto
se terem fixado, o esgotamento e a ansiedade iam ficando pouco a
pouco mais visíveis, e quando se separaram, os passos dos lutadores
arrancaram à terra um novelo de pó, lento e prolongado, que se
transformou numa nuvem entre ambos.

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A jumenta viu o Anjo
- A claridade começa naqueles vidros. – Pensou José Demas, enquanto
os olhava ainda deitado.
Nessa noite quase não dormira, por isso aguardava impaciente que o
dia despertasse, e assim estava a olhar com alguma pressa para a
janela.
O primeiro indício da manhã começou enfim a surgir para lá do vidro,
que as cortinas mal fechadas deixavam entrever.
O que tinha a fazer nesse dia era importante.
Colocar os seus préstimos de ministro religioso ao serviço de uma nova
organização era tarefa importante.
Requereria, da sua parte, muito tacto, passos de argumentação muito
seguros e fundamentados, cálculos dialécticos, prós e contras; tinha de
cativar a comissão pastoral, embora o convite para trabalhar com a
nova organização partisse dela. O que preocupava José Demas, é que
sentia não ter, naquele momento, muita convicção sobre as doutrinas
que teria agora de aprofundar e tomar como suas, numa defesa
heurística de quem está por si próprio a descobrir verdades.
Assim que a claridade se instalou no quarto, levantou-se, preparou um
duche rápido, tomou um pequeno almoço que já inundava de odor a
café forte todo o apartamento, deu um último toque no nó da gravata
de um arco-íris sedoso de que ele próprio se maravilhara sempre,
diante de um espelho que era cúmplice há anos desse gesto. Foi sentarse no escritório.
- A entrevista é somente às 10 horas e trinta minutos, tenho algum
tempo para arrumar alguns pensamentos. – Respondeu à mulher, que
se preparava também para enfrentar mais um dia de aulas, mas antes
teria de defrontar-se com a corrente do trânsito da grande cidade em
permanente conflito com o relógio.
Era estranho, mas apesar das boas perspectivas que a organização
levantara na primeira abordagem, o seu espírito estava aborrecido.
Sempre fora um bocado rebelde a convenções, não entrava logo à
primeira nas normas oriundas dos seus pares, que visavam manter a
unidade, desde alguns anos atrás sentia-se uma ilha de solidão no meio
de outras ilhas povoadas. Porém, nessa manhã tinha que fazer uma
viragem na sua maneira independente de pensar, tinha de enquadrarse, de submeter-se a uma presidência que lhe parecia próspera,
embora ganha a pulso férreo, capaz no entanto de dar prosperidade
aos outros. O conforto que daí poderia advir, mantinha-se a custo à
superfície dos seus pensamentos, o pragmatismo, o egotismo, a
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vaidade, a sobrestima pessoal passavam por cima de tudo. Teria de se
submeter afinal. Com certeza por isso, o seu espírito estava aborrecido.
- Deixem-me pensar esta noite – dissera no dia anterior ao convite.
Amanhã vos trarei a resposta, como o Senhor me falar. – Concluiu.
Colocadas as coisas como base do que iria responder, num plano
prático, teria de encaixar que se tratava de uma reunião tipo entrevista
de recursos humanos, o género de recrutamento de quadros que
costumava ler, ao sábado no jornal “Expresso”, ou, então de uma
reunião de negócios, do negócio de almas, dogmas, fé, ética,
emocionalidades que teriam de ser puxadas para bem da organização.
Enfim tratar-se-ia, bem vistas as coisas, de um comércio do seu dom.
Apesar de estar havia vários anos ao serviço espiritual de outra
denominação, não estaria de todo desajustado da forma, e do conteúdo
da nova organização que o disputava, com vivo interesse, recados,
telefonemas, incursões à sua casa de oração, há quase um ano.
- Aquele meu primeiro contacto com o grupo familiar da terra dos
meus sogros, veio despontar toda esta situação. – Recordou. – Bom, o
modo de aproximação não é para aqui chamado agora, neste momento
interessa mais como é que vou entrar na coisa. – Pensou, como ponto
final para afastar remorsos que ainda parecia possuir pela sua
cedência.
Aquiescendo consigo próprio, tinha de admitir que não ouvira nessa
noite, em que mal dormiu, nenhuma voz especial, da insónia para
aqueles sonhos pequenos que Freud colocou como escapes,
manifestações do inconsciente, provou a si mesmo que já desconfiava
que toda esta mudança da sua vida se iria dar no plano meramente
humano, das conveniências, sem intromissão da vontade divina.
Pequeno, mas insistente, como uma mosca que voasse num quarto com
as janelas fechadas, um sentimento de culpa errava dentro da sua
mente. Tinha-se levantado com ele e agora sentado à secretária onde
costumava estudar a Bíblia e preparar os seus sermões, que a
comunidade apreciava, esse sentimento teria de desaparecer por uma
abertura qualquer. Lançado um olhar retrospectivo à sua vida, pensou
que as coisas espirituais nuca chegaram até ele genuinamente, sempre
lhe foram chegando através de meios materiais, como aquela claridade
a surgir no vidro. Longe do maravilhoso momento do nascer do Sol.
Lembrou-se daquela madrugada quando ia de viagem, com a sua
família, a caminho de umas férias em Torremolinos, e já sobre a ponte
que liga Portugal e Espanha viu um puro genuíno nascer do Sol. Como
era diferente da claridade que irrompia no vidro, na sua vida
suburbana, do seu despertar citadino.

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- Não se trata, de facto, de uma mudança de emprego. – Agora pensava
alto.
Deixar uma igreja e tomar a responsabilidade de outra, mesmo levando
comigo bastantes crentes, é sempre uma mudança de fiéis, de métodos,
existe no entanto o aspecto monetário. – Aquiesceu, enquanto se
levantava da mesa de trabalho e parecia procurar qualquer coisa no ar.
Quando se preparava para abrir a porta do escritório e sair, os seus
olhos fixaram-se numa fotografia sua exibindo-o num púlpito, quando
de uma dessas conferências de avivamento em que tomou parte como
convidado.

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A Troca
O dia ainda não tinha nove horas, mas parecia enorme. A cidade exibia
as marcas de não ter caído no sono com a noite. Era notória a agitação
nas ruas, todos os anos na época da Pesach, as multidões pareciam
rebanhos sem pastor, de um lado para o outro, de uma língua para
outra; mas, naquela manhã, a azáfama era outra coisa.
Começava a tomar forma, aos olhos dos menos atentos aos sinais
urbanos, qualquer acontecimento importante; e o que quer que fosse
trazia a marca do Sinédrio, falava-se mesmo em usar a lei dos
invasores, em incomodar Pilatos, o próprio Herodes, que havia
chegado à cidade; tinha havido algumas prisões, alguns incidentes
escondidos, poucos judeus, em grupos furtivos, na penumbra,
continuavam a inventar a resistência a Roma.
- Por isso coisa natural não é; nunca houve uma preparação da festa
tão agitada – comentou um velho, de um grupo habituado a conversar
sobre todos os assuntos.
- E nós que vivemos perto do Vale de Hinon e nunca vimos tanta
agitação às portas de Herodes! – Disse, cioso da sua privilegiada
vizinhança, outro velho do mesmo grupo, que mais parecia de estátuas
nunca tocadas pelo sono. – A agitação tem sempre uma causa – atalhou
um homem que parecia, apesar da barba grisalha, um dos mais novos
do grupo – e, desta vez, não é apenas a Páscoa, a causa de todo este
barulho – continuou o mesmo homem.
Mas como daquele tumulto em crescendo um nome começava a ser
murmurado, ninguém sabia por que razão. A verdade é que o nome
começava a correr as bocas de Jerusalém. Os assuntos, as sombras, que
o nome suscitava, iam do esconderijo dos lábios que apertavam letras,
até aos ouvidos mais cúmplices. Era isso, sobretudo, que surpreendia
Barrabás, o seu nome circular sem que estivesse cosido às esquinas da
noite, fora dos lugares discretos em que era naturalmente apreciado.
Barrabás, que empurrava os acontecimentos da história do seu povo
com os próprios ombros, estava agora encurralado, e não conseguira
sair por si desse interior de pedra, ao qual mais uma sedição e um
homicídio o arrastaram. No entanto, quando o povo ouvia,
recentemente falar de empurrar os romanos, de os fazer voltar para lá
do grande mar, de tornar difícil o quotidiano da guarnição das águias,
que escondiam com a sua presença e sua força na Judeia, as indecisões
de Pôncio, quando o povo murmurava revoltas através de olhares de
soslaio, associava sempre todo esse sonho a um nome: Barrabás. O
messianismo torto, a tensão política e as confusões religiosas da época
tinham feito Barrabás.
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Mas agora eram outras as perturbações que, de facto, erguiam o
sedicioso como uma bandeira.
- Prisioneiro onde? – Perguntavam alguns estrangeiros prosélitos que
tinham chegado à Cidade.
- Na fortaleza Antónia – responde, com firmeza, um homem, que
parecia conhecer os percursos da festa. – Quem é o preso? – Ouviu-se
uma voz perguntar de trás do grupo. – Um preso famoso, chamado
Barrabás, que os romanos detêm. – E a resposta vinda do mesmo
homem conhecedor, parecia querer sublinhar a impossibilidade de se
desconhecer a importância do facto e do nome.
Barrabás ia juntando os murmúrios que subiam, nessa manhã, até à
fortaleza, àquele meio de o manter afastado do destino a que era
necessário conduzir os judeus.
Não dormira bem, porque as correntes de ar eram quase tão cortantes
quanto as correntes de ferro que lhe prendiam os pés ao solo. O espaço
que possuía mal dava para ir à porta de ferro e pequena janela
emparedada por onde o silêncio era quebrado; mas quando lhe traziam
comida e outros pequenos confortos à prisão, deixavam cair, aqui e
além, pequenas palavras que indicavam novidades. – Alguma coisa
diferente, possivelmente sangue, poderá estar para suceder… – Mas o
guarda que dissera esta suposição, ao fazer deslizar a porta do cárcere,
não estaria, com certeza, muito empenhado em esclarecer Barrabás.
Era um dos muitos estrangeiros que desejaria entender os murmúrios
que andavam nas ruas e já estavam nos corredores da Fortaleza.
Durante toda a noite, o prisioneiro percebeu, no meio do sono agitado
mas sem remorsos, que alguma coisa iria, nessa Páscoa, lançá-lo para
um protagonismo qualquer. E uma vez mais não havia pânico nos seus
olhos mal lavados. Por experiência, sabia que era costume soltarem um
preso no decorrer da Festa, um preso que cederia o seu lugar no
cárcere à demagogia dos dirigentes religiosos do país.
- Mais uma vez, sem dúvida, a traição romana vai esbofetear a nossa
Pesach – disse Barrabás, estremecendo um pouco ao frio daquela
manhã de Abibe. Mas daí a algumas horas saberia como o pedido dos
judeus se concretizaria, como a boa vontade dos invasores está sempre
pronta, quando eles podem dispor da sua vontade soberana.
Barrabás ergueu o seu corpo pesado, quando vieram proclamar-lhe
que tinha razão, que não estava inocente, nem lhe assistia o direito de,
por si próprio, sair da prisão, apenas outro tomaria seu lugar. Não
passou, como era costume, violentamente pelos guardas, os seus
passos eram ainda os da estupefacção, apesar dos pressentimentos de
uma noite em branco, por causa da agitação que se comunicava de
pessoa a pessoa, nunca houvera início da Páscoa assim. O seu nome

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enrouqueceu a multidão, finalmente os seus irmãos, judeus simples, os
próprios sacerdotes erguiam a cabeça em honra perante a indiferença
do Procurador.
- Eh! O teu aspecto não recomenda confiança, para estares tão perto da
fortaleza – gritou-lhe um soldado – se não sabes eu digo-te. É como se
estivesses em terra romana. Eh! Não ouves? - E o guarda marcava cada
palavra com um movimento da sua lança. Mas, Barrabás passou ao
largo, procurando envolver-se, em silêncio no meio de outros judeus.
Que diferença havia agora no silêncio de Barrabás, não era mais o
silêncio de quem perscruta um momento apropriado para uma sedição
ou um ataque; era um silêncio daqueles que se desejaria fosse mais
uma nuvem ou uma espessa névoa que esconda o corpo dos olhares
que nos rodeiam. Barrabás, agora, era somente um nome na multidão;
já nem sequer aspirava ter força, “potenza” contra os romanos, nem
corpo.
- Que espécie de bulício era aquele? - Pensava para consigo – Na
véspera do “Shabat”, os cordeiros estão ameaçados – murmurou a meia
voz o homicida – mas parece-me que estou livre…
Barrabás voltava para a sua vida; não tinha a intenção de investigar
quem fora aquele que, por necessidade da Pesach e por um capricho da
demagogia de Pilatos, o substituíra na prisão, talvez na morte.
- Crucifica-O, crucifica-O! – Era o grito que vinha ainda do lado do
monte da Caveira, que Barrabás conhecia bem. – Ora, temos tempo
para lidar com a morte – replicou a um grupo que o convidava para
assistir ao ponto alto daquela festa. – Tenho tempo para lidar com a
morte… – insistiu Barrabás. Não parou no caminho, não trocara os
grilhões para ficar quieto, nem sentado.
A tarde ia adiantada, quando Barrabás pensou que poderia ter sido
feito um rei, um dirigente a quem o povo perdoara e de quem
esquecera os homicídios, mas, nessa tarde, estava completamente só. –
Mudaram-me os grilhões para dentro do corpo – pensou, enquanto se
afastava.

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Os Pronomes
A caminho da fogueira, que chamava a atenção para os confortos da
carne, ia com passos inseguros e um talhe esguio e abatido de corpo,
embora os olhos parecessem ir firmes e uns bons metros adiante dele.
Assentou-se junto do fogo gratuito, nessa noite em que a temperatura
oscilava entre o fim do Inverno e o começo das brisas da Primavera.
Parecia com a sua inquietude, estar em busca da noite; provavelmente,
para que dentro do escuro fosse igual aos demais, que estavam
também à roda do fogo ou vinham assentar-se, aproveitando o
aquecimento que as noites do pátio do sumo-sacerdote promoviam.
- “Não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me
conheces”. – Dissera-lhe Ele contrariando o seu voluntarismo, quase
sempre pouco prudente.
Era uma frase a que não dera, no momento, o devido valor profético.
Por certo que iria procurar que tal não sucedesse, em toda aquela noite
de grande azáfama e em que coisas estranhas haviam acontecido.
Sacerdotes, capitães do Templo, anciãos representativos do povo, as
forças vivas da cidade, toda a gente ligada aos meios religiosos de
Jerusalém, tinham chegado como que preparados para prender um
qualquer malfeitor, um inimigo público, e por isso munidos de espadas
e varapaus.
- “Uma multidão orientada por um traidor, mas em tumulto consigo
mesma”. – Pensava ele, enquanto via chamas a lamberem o escuro ao
redor da fogueira.
Não era tarde ainda, quando chegou ao pátio, mas estava cansado e
agitado com toda aquela balbúrdia a que assistiu, de que participou
também, e que levara alguém num gesto de defesa a perguntar:
– Senhor, feriremos à espada? – estava ainda longe de formar
conclusões no seu espírito. Era simples pescador das águas do Mar da
Galileia, homem de trabalho artesanal e não um jogador de políticas,
fossem elas religiosas ou de Sinédrio; ele era um homem sem
premeditações, por isso custava-lhe a entender todo aquele ambiente
criado à volta do Mestre.
Quando se aproximou do fogo, foi apenas para compartilhar com ele a
sua tristeza, apenas para colocar seus olhos em alguma coisa que não
fosse fria, diferente do coração dos homens. O enredo viria depois.
- “Quem estenderá a sua mão para o fogo a negar o Mestre? Quem se
aquecerá junto à fogueira e negará seu Mestre?” – era já uma legenda
contida no fogo, que mais tarde passaria à história e à tradição.
Entretanto Pedro procurava apenas o calor numa noite de Primavera
fria, e que não suspeitava sequer da solidão e de como o seu olhar
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seguindo o Mestre voltaria igual ao daqueles seus colegas do fogo
acendido no meio do pátio.
Em seguida foi buscando aqui e ali cumplicidades, tentando
comparticipar das conversas que abordavam, à margem, o crepitar das
chamas que se elevavam da fogueira. Era já noite agora, o que mais
acentuava a pureza da luz em combustão. Não sabia ele ainda como,
apesar de tantas labaredas, mas o seu passado recente com o Mestre
estava a resvalar da claridade para o obscuro; estava prestes a
misturar-se nas sombras que falavam, gesticulavam, levantavam-se e
assentavam ao redor do fogo, esperando que amanhecesse o dia da
preparação da Pesach judaica.
- “É galileu” – foi um golpe na madrugada já, que rompeu a obscuridade
em que Pedro se envolvia mais do que nunca. O homem que parece ter
feito esta descoberta, não pronunciara, no entanto, nenhuma novidade.
– “Também este verdadeiramente estava com ele, pois também é
galileu” – reforçou, certo de que a insistência abriria a defesa.
Pedro sentiu que a sua fala aramaica, com pesado acento gutural, o
identificava.
Naquela roda de amigos conviventes de muitas circunstâncias jamais
existira uma diferença, uma dissonância que fosse. E a aparição de um
estranho, ainda por cima com um sotaque malquisto, actuou como a
queda de um copo de cristal num jantar de cerimónia, ou como uma
tosse no momento mais solene de silêncio na sinagoga.
- “Este também estava com Ele”. – Disse uma criada, que ia e vinha
servindo os que estavam no pátio, mas que seriam íntimos da casa de
José Caifás.
- “Mulher, não o conheço!” – esquivou-se ele, como se tentasse
apresentar um outro rosto diante dos olhos insistentes da criada.
Pela primeira vez, notou Pedro em si, e a força com que desmentia cada
arremetida tornava-o na árvore de toda aquela floresta de cúmplice de
Caifás e do seu sogro, Anãs.
Aparentemente parecia ter-se desinteressado do que estava a ocorrer
no interior da casa com o seu Mestre. Tinha olhos só para si próprio.
Procurava com esforço incansável que o seu «eu» se diluísse e
desaparecesse entre tantos «eus» que ali o rodeavam. Estava a
exercitar arduamente a sua sobrevivência numa luta agónica de
pronomes.
- “Tu és também deles” – juntou-o ao grupo dos discípulos um outro
homem. Ao que Pedro, em evidente esforço, responde: - “Homem, não
sou!”
Quando uma última negação se misturou com o cantar de um galo, que
o escuro devorava completamente, mas que agora já não podia resistir-

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lhe a força de cada bicada do animal, quando a madrugada começou a
apagar o clarão do fogo, a fortuna enfim chegou primeiro aos olhos de
Pedro, depois a todo o corpo alquebrado por uma noite em branco. Nos
seus olhos estavam lágrimas que, sem o saber, guardara para o
sacrifício do Mestre, como aquela mulher guardara o vaso de alabastro
como o unguento para a morte do Senhor.
Uma mudança profunda começa a amanhecer nele, e um outro fogo
que não cessa estava agora a iluminar o seu rosto, mesmo perante os
homens que o reconheceram. A esse fogo chamar-se-ia vergonha,
humilhação, ou simplesmente maneira de testemunhar doravante
quem era e a quem estava ligado. Bastou que, do fundo da casa, do
mais fundo da zombaria e dos ferimentos que infligiam o Mestre, este
colocasse sobre o negador o seu olhar.
Pedro deixa para trás os pronomes com que estivera lutando nessa
noite ao redor da fogueira, este, ele, tu. E saindo fora do pátio, chorou
amargamente.

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Perto de uma aldeia chamada Jerash
A manhã dava a impressão de pôr as coisas ao contrário. A atmosfera
parecia as águas cinzentas e agitadas do mar da Galileia, com um ar
carregado de nuvens e vento.
O homem com as suas vestes esfarrapadas, esguio como junco,
balançando no próprio vento que se levantara dos lados do lago, tinha
um aspecto desagradável, cabelo hirsuto, para aqueles que o
conheciam estes aspectos passariam despercebidos.
O homenzinho encostava a orelha a um bloco de pedra mais alto do
que a sua estatura, um bloco de pedra que mais parecia um resto de
coluna deixada de um passado helenista; estava numa daquelas
posições de quem espera ouvir alguma coisa, e batia com a mão
esquerda feita punho, como se batesse a uma porta. Sem expectativa,
nem comoção, com os olhos parados, sem imaginação, aguardaria, no
entanto, uma resposta do lado de dentro da pedra.
Sem perceber nem o seu presente nem o seu passado, somente os
amigos de infância, os vizinhos, sabiam que não fora sempre assim.
Menino, menino feliz da rua principal de Gerasa, esperara muitas vezes
com o olhar inquieto de obstinado nas portas dos amigos, para se
deslocarem ao mar da Galileia, para aí aguardarem que os peixes
comparecessem ao logro das pequenas e artesanais redes que
lançavam às águas; acordava, na manhã cedo, com a mente nos saltos
aflitos dos peixes da pescaria da véspera.
Brincava também com o que tinha à mão, imitava lanças com que a
guarnição de romanos teimava, ano após ano, em fender o ar da
Palestina e submeter os judeus mais excessivamente inquietos. Menino
feliz, menino faltava-lhe o tempo para utilizar a sua sabedoria popular
dos jogos de infância, que vinham de um tempo já nebuloso desde o
Egipto; brincava nas ruas, imitando a vida quotidiana dos pais, mas o
jogo de que mais gostava era, sem dúvida, o exercitar a destreza com
ambas as mãos, mantendo ao mesmo tempo no ar várias bolas; este
jogo tipicamente feminino, contrastava com a sua valentia mostrada
quando entrava nas águas do lago para preparar as redes; era, de facto,
um rapazinho diferente. Menino feliz, mais do que uma vez mimara
carros, animais, tocara flauta.
O menino de outrora, estava completamente esquecido.
- É um endemoninhado – esclarece uma velha mulher para quem
Gerasa não tinha segredos.
Jovem já, foi o trabalho que o dominou; em perfeita união com seus
pais, tornara apta a fertilidade natural da terra de onde brotava um
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invejado trigo. Faltou-lhe muita vez o tempo para a sinagoga, e, com
seus familiares, descia a Jerusalém quando soavam os ruídos das
festas; também compartilhava o coração com outros cultos alheios que,
na sua juventude, ainda existiam em honra de Zeus e de Artemis. Na
velha aldeia de Gerasa, que crescera a caminho da água, perto do mar
da Galileia, o jovem era olhado com orgulho pelos seus progenitores;
era um filho que crescera com a terra, e os vizinhos, que também o
admiravam, auguravam que iria ser fértil como essa terra.
Agora os habitantes de Gerasa fechavam seus olhos por medo, quando
passavam pelo endemoninhado, apesar de pensarem sempre que
aquilo não era ninguém.
- Agora estimam-me menos, e um pouco de estima já era bastante. –
Costumava replicar para si mesmo, quando nos momentos de calma e
lucidez apreciava a frieza, quando não a repulsa com que o tratavam.
Mesmo assim, à força de gritos e de murros, o antigo menino feliz ia
passando os seus dias amargos entre as pessoas, que cada vez o
suportavam menos. E por mais longe no passado remoto a que levasse
a memória, nada poderia recordar. O que conhecia agora, era somente
aquela multidão abrasadora que o mutilava por dentro e o impelia
contra as pedras dos sepulcros.
Constrangido a obedecer a essa legião interior, que o dominava na
mente, o gadareno encontrava-se vezes sem conta agrilhoado pelos
seus conterrâneos, que julgavam poder assim atenuar os perigos que
dimanavam dele.
- Tanto pior, se voltar a partir as correntes. – Ameaçava um velho
guardador de porcos, que conhecia bem os pais do infeliz.
- Voltamos a agrilhoá-lo. – Sentenciou outro homem.
E este prometeu a quem os demónios iam roubando o fogo da
existência, quando rebentava as correntes com as quais o pretendiam
amarrar à terra não menos brava, mal sabia que estava apenas a
arrostar a multidão que carregava em si. Correntes postas, correntes
partidas, era este o seu reino.
Por isso, Gerasa ficou preocupada por não compreender a repentina
mudança.
Para uma cidade habituada a não conviver com milagres, o que se
passara, de certa maneira causou pânico.
A tarde vinha com nuvens acinzentadas dos lados do grande mar.
Sentado normalmente, vestido e em perfeito juízo, o homem gadareno
parecia agora o menino feliz de antes.
Suas mãos calejadas de agarrar as pedras, com as quais se dilacerava,
estavam presas a uma velha capa que havia muito não vestia, a qual,

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naquele momento, lhe cobria os joelhos magros. Uma saudade fazia
com que acariciasse aquele linho.
Naquele fim de tarde, fora também a hecatombe dos porcos, que se
despenharam no lago, a causa das bocas de Gerasa se segredarem pelas
esquinas. O abismo das águas que recebeu os animais imundos, estava
em silêncio, como o mar Vermelho um dia fechado sobre os egípcios.
O hábito do isolamento acabou por prevalecer, em Gerasa os
habitantes consumiam os acontecimentos, como quaisquer ilhéus não
davam continuidade àquilo que vinha de fora dos seus limites.
De modo que se fecharam sobre o acontecimento.
– Rogamos-te que saias dos nossos termos. – Disseram a Jesus, de
Nazaré.
- A nossa religião é dura, de pedra; o nosso coração não atinge com
facilidade. – Parecia ser uma justificação para a despedida.
Apesar do rio Jordão fazer caminho através do mar da Galileia, este é
fechado com os corações dos namorados de Gerasa. – Pensavam os
acompanhantes de Jesus.
- Para minha casa? – Exclamou admirado e triste, aquele que fora
endemoninhado, quando, ao contrário dos outros, o que desejava era
ficar com Aquele que o curara.
- Vai para tua casa, para a tua família, e anuncia-lhes quão enormes
foram as coisas que o Senhor fez por ti. – Dissera-lhe Jesus, antes de
entrar no regresso do barco.
Os outros gadarenos jamais se lembrariam daquele barco que se
afastava do seu solo de pedra, que parecia vogar como um ponto claro
no interior da escuridão que viera definitivamente com a noite, e que
mais se acentuava entre as colinas de onde os olhos mergulhavam nas
águas.

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Nem sempre era deserto
Nem sempre era deserto. Às vezes, apenas o vento que estendia o calor
pegadiço e transportava a subtileza dos grãos de areia.
Chegava senti-lo na claridade que se agitava nas cortinas da porta;
chegava vê-lo mexer nos frutos do sicômoro, para Perez recordar que,
entre ele e a casa longínqua, a distância era o deserto.
- Este vento volta a trazer-me pequenos cheiros – exclamava. Mas o
que doía demasiadamente a Perez era a recordação do que fora para si
a casa do Pai.
- Um limite – considerou, muitas vezes – O limite foi o que me levou a
abandona-la, há anos.
Agora a casa era mais do que isso. Sentia bem fundo, sentia-o em tudo.
- A minha casa é uma amputação infeliz da minha memória. – Dizia
Perez a alguns amigos, quando estes, raros já, lhe permitiam falar do
passado.
No momento em que partiu, Perez desejava qualquer sítio que fosse o
contrário de um lar. Foi tudo quanto pôde exprimir na atitude
audaciosa de rogar a sua parte da herança, um escondido desejo de se
livrar do sistema de educação do Pai.
Um dia, porque a aventura se avolumava nos seus olhos e no seu
coração, chegou mesmo a dizer:
- As minhas relações consigo, meu Pai, começam a não estar boas.
- Eis aí algo que me tem vindo a entristecer – respondeu-lhe o Pai –
porque, em verdade, o que mais desejo é um bom relacionamento
contigo, mas que não coloque em causa a obediência.
Perez, contudo, jamais tinha posto em causa o papel patriarcal do
progenitor, e costumava sublinhar isso naquelas conversas pequenas.
Na realidade, tudo como pretexto se confinava a querer abandonar –
partir para uma terra longínqua – era o sonho que Perez trazia, com
frequência, à sua boca, e que já não escondia de seu irmão e até de
alguns jornaleiros da casa paterna.
O Pai, quando sentiu rumores, falou:
- Enquanto estiveres sob este telhado, onde tudo te pertence, quero
que saibas o que pedem o meu amor e o meu cuidado. - E pedia-lhe
apenas obediência. Uma vez falou em autoridade e disse:
-A minha autoridade será, como tem sido até hoje, o teu limite.
Perez, ao lembrar-se destas palavras, considerou que o seu Pai não lhe
pedia, de facto, obediência cega, mas impunha-lhe limitações,
conveniências. Tinha, no entanto, a compaixão de não dizer essas
coisas, senão no seu silêncio, para não magoar.

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E, por vezes, às refeições em que compartilhavam silêncios, com o pão
de trigo e as lentilhas, os fantasmas de Perez não resistiam.
- As tradições – dizia então – pegam-se-me à roupa desde a infância,
aos meus objectivos de uso pessoal, e, pior que isto, começam a colarse às minhas ideias.
Desejava despojar-se do domínio das leis, dos costumes, das
cerimónias; disse-o, certo dia, ao seu irmão.
- Quero despojar-me das visões a que me obrigam.
- Ribbono Shel Olom – exclamou o irmão – Senhor do Universo! Que
estás a dizer? – Repetia a pergunta o irmão.
- Isto, tudo quanto querem de mim, não passa de um comportamento.
Creio em Deus e na Torah. Oro três vezes ao dia, preservo na mente a
libertação do cativeiro, como apenas comida pura, observo o Sabbath…
- Não observas – interrompeu-o o irmão – não observas que o nosso
Pai é um anjo de Deus.
Perez sabia, com certeza, que seu Pai era um anjo de Deus, que
atravessaria até os sete portões do inferno para que nada faltasse aos
seus filhos. Todo este paternalismo constrangia-o, porém. E o ter de
conduzir-se conforme as tradições.
- Ouve, meu irmão. O que o Pai nos exige é que sejamos tudo de acordo
com o Talmude.
Seiscentos e treze mandamentos, modos judaicos de ver as coisas,
xenofobia, eram alguns dos limites, a consagração a Jeová do Destino
colectivo, a forma de viver. Perez precisava de partir o mais depressa
possível.
- Aqui – disse ao irmão – confiamos todos em coisas, em sinais, em
estatutos. Agora quero confiar em mim mesmo.
Perez não era, de facto, um ortodoxo, embora procurasse respeitar a
regra de ouro, o cerne do comportamento social do judaísmo.
- Não fazer aos outros o que não quero que os outros me façam. Ainda
procuro cumprir isto – respondeu, naquela manhã, ao irmão.
- No entanto, estás decidido a ir-te embora, – replicou o irmão – a
deixares o velho Pai. Vais fazer uma coisa que ele não faria nunca:
abandonar.
II
O velho Pai tinha algumas palavras nos olhos que não conseguia
articular.
Perez tornara clara a sua decisão.
- Pai dá-me a parte da fazenda que me pertence.

Página n.º 27

Dias depois, partiria para uma terra distante. A natureza pura, sem
moldagens, sem peles de cordeiro, sem o fogo dos holocaustos, o ar
com novos cheiros, tornaram-se o alvo de Perez.
- Vou ser eu a minha própria aventura – filosofou para o Pai e para o
irmão, com uma alegria irresponsável.
- Vai! Conhecerás muita gente – disse, entre lágrimas, o Pai –
perguntar-lhe-ás todos os pormenores da sua vida, o preço dos
bezerros do cevadouro, os nomes pelos quais se chama essa gente,
quanto gasta para ter alegria.
Naquela hora, os olhos do Pai amavam mais e eram testemunhos dos
céus.
- Quem se regozijará, nos lugares para onde vais, na nudez dos seus
cordeiros? – Perguntou finalmente o Pai.
Sem compreender, Perez deixava sem resposta a casa paterna, como se
deixasse um rebanho: as regras, os constrangimentos, os caminhos
sempre marcados.
III
Ali estava, agora, perto de cair em mais uma noite. Para trás ficaram,
havia muito tempo, a fluidez dos horizontes, o silêncio das claridades, o
deserto cheio de sol para nada. Até a vida sem regras, a dissipação.
A manhã estava próxima, Perez sentar-se-ia novamente, entre os
porcos, guardando da impureza os pensamentos. Mas nesse dia,
subitamente, a indignidade surgiu e fê-lo cair em si.
- Meu Pai continuará a prantear-me, como se o fizesse por um
unigénito? – Inquiriu Perez, dando a impressão de falar com alguém. –
Quando parti, bastaria um olhar indiferente do velho e eu não teria
hoje pesadelos. Falaríamos linguagens diferentes – exclamou Perez em
voz sumida – assim falamos ainda a do amor, de um amor traído…
Porque ignorava se teria o amor do Pai, Perez decidiu experimentar a
justiça.
- Levantar-me-ei, e irei ter com meu Pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra
o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Pela primeira vez reflectia nas palavras que iria ouvir do seu Pai.
Até se anteciparia, reconhecendo com humildade, o último lugar.
- Não sou digno de ser chamado filho – repetiu – faze-me como um dos
teus jornaleiros.
Perez desejava, acima de tudo, voltar para ocupar um espaço no velho
coração de seu Pai – «O amor afastará aquilo que fui.» - Cantou, em
surdina.

Página n.º 28

- Pela primeira vez vou colocar o meu coração acima dos ritos, a minha
obediência acima da minha virtude.
IV
- Os meus vestidos estão rotos – afirmou Perez, voltando-se para si
mesmo – nem sequer disponho do albornoz ismaelita que o meu antigo
patrão me deu. Meu Deus, onde teria ficado, perdido nos dias, o meu
talit, esse velho xale franjado de quatro cantos?
Perez estava cansado, descalço, a poeira enovelava as dores, que, como
lâminas, lhe percorriam os pés. Porém, sem piedade por si, o que
desejava era divisar, ao longe, a sua antiga casa.
- Ainda, que me recorde do meu velho Pai, da sua figura austera
quando me acenava adeus, envelhecido e curvado de silêncios –
pensou.
V
Já perto da casa, os silêncios romper-se-iam. Diversas vezes o Pai
pensara naquele momento, quando abraçou Perez, apesar da velhice o
cansar quando correu ao encontro do filho. Várias vezes preparara a
sua emoção, com as palavras:
- Trazei depressa o melhor vestido, ponham-lhe também um anel no
dedo e calcem-lhe sandálias – gritou o Pai para o interior da casa.
Esta recobria-se já de alegrias antigas, quando o velho deu as últimas
ordens.
Era necessário que tudo começasse assim. Esta afirmação do Pai não
fazia o seu filho mais velho desencostar-se da ombreira da porta.
- Não fiques aí parado – implorou. Parecia no entanto, que aquelas
ombreiras eram demasiado estreitas para o orgulho do irmão do
reencontro de Perez.
Parecia não querer lançar-se num sacrifício de amor, em que temia
colocar a sua primogenitura.
- Não fiques aí parado – repetiu, suavemente o Pai – Essa porta, não
poderá mais desunir-nos.

Página n.º 29

UMA CONVERSA SOBRE RUÍNAS
- Este lanço da escada não leva a parte alguma – Jorge Temudo,
arqueólogo, lembrou-se repentinamente que já lera um poema que
começava assim.
Se calhar, bem vistas as coisas, a recordação do poema não era
despropositada, perante as ruínas que naquele momento visitava,
como complemento dos seus afazeres, em Kefar Nahum.
Quando pisou o chão do aeroporto de Tel Aviv e olhou para o recanto
mais distante da vedação, pareceu-lhe que esse espaço e as ondas do
calor se configuravam com um aquário, contendo nele alguns aviões de
pequena envergadura, carros de serviço à pista e pessoas apressadas.
Tudo parecia dançar, serpenteando acima do solo.
Antes, quando a porta do avião se abriu e lançou os passageiros e a ele
também, no ar quente que se dirigia ao Mediterrâneo, vinha a reflectir
em outras coisas, a pensar no seu trabalho que o levaria a um sítio
arqueológico excelente, às ruínas de uma rua que os seus colegas
israelenses tinham descoberto a leste do Aeroporto de Ben Gurion, os
restos de uma cidade cananeia datados de há 5 mil anos.
-É a primeira vez que venho a Israel – disse Jorge Temudo a um
passageiro como ele, que viajara no mesmo voo e que ia ao seu lado no
mini bus da El Al.
A declaração de circunstância nada teria de anormal, se Jorge não
tivesse dito a seguir, e a conversa ficara por aí, que aquela viagem não
tinha sido do seu inteiro agrado. No Aeroporto Internacional havia
uma vigilância que beirava a histeria e a obsessão, carros e pessoas que
chegavam eram examinados por guardas armados com mini-uzis,
polícias à paisana patrulhavam o edifício e as zonas limítrofes do
Aeroporto. A globalização da segurança anti-terrorismo.
-Preferiria ter ido ver Persépolis ou Pasárgada a estar aqui, porque
estas ruínas não levam, de facto, a parte alguma – ia dizendo depois de
se ter lembrado dos versos seguintes do poema.
- «Há anos que dorme / esta pedra, nada acordará / o interior dos
quartos.» – Ou então ir rever o Taj Mahal, que quase toda a gente já
sabe o que é, que é completo e volumoso – e riu com a sua própria
graça, motivado certamente pela companhia agradável.
Considerava-se com muito boa memória, pelo menos para decorar
poesia e lembrar-se de outras viagens que fizera.
- Mas a reconstituição da vida, quero dizer do quotidiano, que aqui se
passou há vinte séculos, é que dá sentido às pedras na arqueologia –
respondeu-lhe a colega do Departamento de Pré-História da
Universidade de Jerusalém, que fazia parte da equipe.
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Sheina Stern era uma jovem mulher nascida na mistura dum colonato
de Gaza, nos anos 70, os seus olhos verdes e grandes funcionavam
como dois sinais de alarme para quem, de preferência do sexo
masculino, se detivesse a olhar, por tempo demasiado, aquele belo
rosto em que o olhar tomava lugar preponderante de mistério e beleza.
Sheina estudara também arqueologia e aplicava-a num contexto de
confirmação ou de negação, conforme os casos estudados do que a
história de Israel continha de bíblico, embora as suas funções
destacadas para aquele sitio onde se descobriram vestígios
arqueológicos de uma cidade cananeia com 5 milénios, não implicasse,
de modo nenhum, a teologia.
-Confio inteiramente nas pedras, no seu silêncio, no seu discurso
silencioso – precisou Sheina.
As pedras não a forçavam a posicionar-se numa religião, qualquer que
fosse.
-As pedras não têm crença religiosa, tanto servem a Iavé como a
Mamon, mas mostram aquilo em que os homens acreditam –
costumava dizer isso e repetiu-o ali.
Quando ouviu estas palavras, Jorge sentiu-se provocado no seu
cepticismo e não pode evitar um ligeiro meneio da cabeça.
Sabia que as pedras, em arqueologia, sobretudo na Palestina, têm que
ser acompanhadas da palavra escrita, histórica. São quase sempre
materiais de cultura pré-histórica, mas também indígena. E foi isso que
lhe respondeu.
-Mas, correcto, e a oralidade histórica? Aquilo que tem passado de boca
para boca? – Perguntou-lhe Sheina, enquanto se preparavam para abrir
a porta do «Land Cruiser» e sair.
Jorge percebeu que não seria apenas sobre pedras que iriam divergir,
mas isso era bom para os consensos científicos que teriam de afirmar.
Lá fora, as pedras, como as pessoas em multidão, ainda se apertavam
umas contra as outras, na solidão. O que restava da sinagoga de Kefar
Nahum era, de facto, para além dos artefactos pétreos, toda a solidão
de não pertencer a este tempo. Embora também não pertencesse nem
aos tempos nem a sinagoga original, narrados no Evangelho de Marcos.
- Sabe, Sheina, lembro-me agora da parte final do poema, que se
adequa a este caso, cujos primeiros versos já lhe disse.
- «Há anos que as ruínas / misturam os telhados / e os pátios, as
colunas / que repousam do cansaço».
-O poema aqui não conta – Sheina contrapôs com uma brusquidão mal
disfarçada na voz. – Não, não é que eu não goste de poesia – emendou,
ao ver uma retracção no rosto de Jorge. - A verdade é que sempre

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podemos colocar vozes nestas salas, no que foram estas salas, quero eu
dizer, murmúrios nas paredes – concluiu.
-Murmúrios nas paredes que levantarmos na memória da história…
isso é também poesia – argumentou, já recomposto, Jorge,
prosseguindo o que julgava ser uma inspiração – A arqueologia tem
por função também tirar véus que os séculos, os preconceitos e os
mitos, se encarregaram de manter.
E Sheina achou melhor concordar e perguntou, entrando no jogo:
- Já pensou em quantas conversas e orações se encostaram nestas
colunas?
- Prefiro a essas análises mais do foro da espiritualidade, a história
tradicional das cidades, sejam elas bíblicas ou não – respondeu Jorge.
Era apenas um profissional, a sua relação com as pedras era fria, a sua
emotividade reduzia-se exclusivamente à poesia. A somar a isso,
descendia de uma família que tinha um passado pouco dado a amar as
coisas judaicas, embora não fosse como os seus ancestrais do século
XVI, um anti-semita, desses que só viam, como o outro Jorge Temudo,
os judeus num sítio, na fogueira da Inquisição. Esse seu avoengo
remotíssimo fora indigitado, no reinado de D. João III, para espiar e
acusar os marranos.
-Há milénios que nós, os judeus, lidamos com a frieza de uma boa parte
da humanidade, embora agora se justifique o anti-semitismo com
preconceitos de esquerda – disse Sheina, num tom irónico, depois de
ouvir aquela pequeníssima parte da autobiografia do seu colega
português.
- Há anos que as ruínas / misturam os telhados / e os pátios… – Jorge já
começara a repetir os versos, quando Sheina o interrompeu:
-Bem vistas as coisas, o poema até se adequa bem ao que estamos a
ver. E cá temos o trabalho arqueológico que serve para destrinçar o
que está misturado.
-Claro, para dar uma identidade às ruínas -afirmou Jorge com
convicção.
Tinha procurado conservar uma distância razoável de fazer
arqueologia fosse em solo israelita fosse no chão palestiniano, por um
imperativo de consciência. Jorge Temudo parecia, agora, ter recobrado
a sua identificação com aquilo que era uma parte do berço fundador da
humanidade.
-Bem vê, Sheina, com um passado anti-semita na família, de expulsões
e despojamento de judeus, achava que não deveria vir aproveitar-me
da história, ainda que artesanal, monumental, ou o que seja, de um
povo a quem se negou a existência – admitiu, com um tom de tristeza
na voz, e dirigindo o seu olhar para longe.

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Sheina falou por ele, num tom interrogativo, mas a revelar
compreensão:
- Porque seria um acto de hipocrisia, no mínimo…
- Pior – concluiu Jorge – seria um perfeito oportunismo.
Mas o que se passara na década de Quarenta com os judeus da Europa
Central e os acontecimentos recentes mudaram-lhe as ideias.
Aquele trabalho de campo arqueológico, a céu aberto, cujo sítio os seus
colegas já tinham isolado e sobre o qual recaíam agora os habituais
gestos de filigrana na obtenção de pequenas provas, estava porém
longe de caber no pessimismo do seu poema de estimação. Por mais
que continuasse a lembrar-se desses versos.
«(…) as colunas / que repousam do cansaço. / Nossos olhos / as
visitam, flutuam, / e perdem-se na poeira das ruas.»
-Estafante este trabalho, mas tem um sabor de aventura – disse
Sheinfeld, o outro colega contratado pelo Departamento de
Arqueologia da Universidade, que tinha estado a ouvir a conversa
entre os dois.
-Aventura, muita vez, connosco mesmo – contrapôs Jorge.
-Embora nós não tenhamos tempo para acompanhar a aventura da
história – disse com um ar sério Sheinfeld. Para logo acrescentar,
rindo: - Por manifesta limitação de idade.
Aquele trabalho iria ser de largas horas diante de qualquer coisa que
no fundo tinha sido abandonada, involuntariamente, pela curta vida
dos homens.

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OS OLHOS DE JUDAS I.
Judas I. tinha um olhar sempre enviesado e isso fazia com que os seus
olhos, que esgueirava e fechava levemente ao dirigi-los para pessoas e
coisas, ficassem muito escuros.
Somente vários séculos depois se deu por essa particularidade e foi um
pintor renascentista que descobriu no seu olhar uma tendência para as
sombras.
Ninguém se apercebera da profundidade dessa escuridão, durante
aquele jantar, o ponto central onde recaíam os olhares de todos era
sem dúvida o prato.
Um prato único, onde o cordeiro e o molho se tornavam pertença de
todos, e onde as diferenças, tantas como os feitios dos doze que
rodeavam a mesa, seriam as mãos dos comensais, retirando do mesmo
prato o que era a comida da Páscoa de todos, no seu significado
límpido. O mistério daquela que iria ser a última ceia, estava, porém, na
frase de Jesus.
-O que mete comigo a mão no prato, esse me há-de trair. - Dissera Ele,
sem tremor na voz, sem azedume, mas sublinhando cada palavra com
uma tristeza que tinia como os cristais nos ouvidos dos discípulos,
como uma inevitabilidade.
Nesse momento, os olhos de Judas I. enviesaram-se, tomaram uma
posição de defesa e, de soslaio, ficaram como duas raposinhas entre
arbustos.
Sabia mais do que todos os companheiros, já possuía o peso da traição,
nessa última semana a sua vida já vivia de sombras.
A sua vida tinha sido até àquele dia um somatório de hipocrisias, que
agora se desnudavam na fronteira entre o amor ao dinheiro e o
desamor à missão do Mestre.
Pouco habituado com Jesus, como de resto os demais condiscípulos, a
situações limite, o Mestre sempre lhes resolvera qualquer problema,
estava agora no fio da navalha. E era a hipocrisia que aflorava no limite,
pois conhecendo-se, também perguntara – «Porventura, sou eu,
Senhor? –, fazendo coro com a inocência e a estupefacção dos
companheiros, que estavam sentados naquela mesa.
Estava ali como no derradeiro acto da sua encenação hipócrita. Já
traíra ao receber as trinta moedas de prata e continuaria a trair ao
responder ao gesto de amizade e de deferência do Mestre, respeitador
dos usos e costumes da Palestina, quando distribuía pedaços de pão
ensopados de molho aos seus convidados.
Por isso não pode deixar de receber a frase «o que mete comigo a mão
no prato, esse me há-de trair», escondendo os seus olhos no soslaio da
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sombra, fazendo apenas avançar a sua mão na ponta de um braço que
mais parecia uma lança, arremessada ao peito de Jesus, para receber o
pedaço do pão da harmonia, que para ele poderia ter sido, mas não foi,
que foi o pedaço final da composição do seu carácter de traidor.
A claridade do aviso de Jesus, não o arrancaria do seu refúgio na
sombra, apenas lhe fez semi-fechar ainda mais os olhos, gelando-os.
-Ai do homem por quem eu sou traído! Bom seria para esse homem se
não houvera nascido.
O hebraísmo da frase continha toda a inevitabilidade da profecia e os
olhos de Judas I. já não tiveram tempo de recusar fosse o que fosse,
nem o seu coração.
Praia de Mira, 8-2003

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O Poeta do Salmo exilado
O rio não parecia correr no seu leito natural, circulava pela cidade, por
entre as casas e dava a impressão de estar ao nível das construções
mais rectangulares, reflectindo as faces dos edifícios.
Gedalias, um ancião de olhar já acomodado, sentava-se ao lado de
Quebar, um canal navegável, a jusante do Eufrates, e via subir e descer
com o vento, até arrastarem as folhas mais altas nas águas, os juncos
que se pareciam com saltadores no momento do mergulho.
Nas pedras, junto de si, tinha pousada uma tábua de barro com
inscrições da história recente e um papiro envelhecido no qual se via
que já inscrevera algumas frases em aramaico. O velhinho olhava-as, e
quando o fazia espaçadamente era com uma tristeza nos cantos da
boca, como se alguma coisa tardasse em chegar.
E afirmava a si próprio: «Estes versos serão feitos como se esculpisse o
sentir da tristeza, a lamentação certa há-de chegar perfeita, do meu
estado de espírito.»
Era um velho que trajava um longo vestido gasto, com motivos
sumérios, e abrigava-se da humidade do ar com uma pele de carneiro
surrada, «Apesar das aparências, sou um cativo muito bem tratado» –
pensava, várias vezes, com algum reconhecimento, e poucas vezes
falava de vingança.
Fizera parte da primeira deportação, era um bom artífice, a quem
reconheceram a sua valia profissional para trabalhar em artes
decorativas. Agora, porém, já não trabalhava.
Tinha as sandálias cheias de lama, porque costumava percorrer os
montes de terra que bordejavam as águas do rio.
O rosto evidenciava, com rugas, que havia percorrido uma estrada na
vida que não fora atapetada de lírios.
Tinha, no entanto, uma boa figura, e as mãos, quando andava, pareciam
imprimir calma a todo o corpo.
Vivia num lugar que as autoridades babilónicas tinham destinado aos
judeus deportados. Estes viviam em casas próprias, alguns até haviam
enriquecido com o esforço da sua aculturação e integração, vivendo
não como escravos, mas semi-livres, em pontos estratégicos um pouco
acima das margens do Quebar. A sua casa e a da família estava ao lado
de um grande salgueiro, que em fins de tarde sem vento dava bastante
calma ao olhar, embora não acrescentasse nenhuma novidade, por isso
nos olhos de Gedalias havia, por vezes, uma certa acomodação.
Mas, na maior parte do tempo em que estava sozinho, os olhos iam
buscar ao fundo do rio sentimentos tristes, e, no entanto, davam a
impressão de estarem a acompanhar o subtil curso das águas.
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Como quase sempre podia fazer, estava sentado ao lado do rio, e a
luminosidade que vinha da água, compartilhava-a no seu rosto. Nesses
momentos baixava a cabeça e olhava em direcção do seu manuscrito.
Trouxeram-nos, um dia, por volta do anoitecer, das suas terras da
Palestina, ao velhinho com uma dezena de milhar de outros judeus, e a
partir de então aqueles canais da Babilónia eram como uma praça onde
juntavam os soluços e as palavras castradas.
Lembrava-se perfeitamente do dia, Jerusalém após um cerco breve
capitulou no dia 16 de Março de 597, sem resistência digna de nota.
O rio possuía recantos aprazíveis e os salgueiros quando se reflectiam
no retrato criado no espelho das águas, faziam-no de margem a
margem em alguns pontos.
Uma parte do seu estado de espírito quereria fazer caber esse
sentimento estético no que viesse a escrever, a outra, era mais
dramática, prendia-se com o aviltamento natural do seu estado de
exilado judeu, prendia-se com a religião.
- «Se eu fosse o nosso grande rei David, o salmo já arderia de beleza em
todas as suas palavras.» - Disse, um dia, a um moço que lhe perguntara
o destino que daria ao manuscrito.
- «Eu sou apenas um velho que quer deixar um pedaço de história para
lá das nossas ruínas. Mas talvez seja já muito tarde.» - Arrematou,
voltando de novo à sua contemplação.
- «Venha, meu pai.» - Julgar-se-ia que a filha o teria acordado, quando o
veio chamar. - «Venha preparar o Shabat, que apesar de estarmos em
terra estranha, temos aqui de perpetuar Sião.»
A noite caía sobre o Eufrates e o Quebar como uma peça única,
compacta, a própria sombra ténue dos salgueiros já não se distinguia,
mais tarde seria somente o murmurar das águas que indicariam, no
escuro, o volume espesso dos rios.
Embora não desse excessiva importância à idade, como limite para
produzir uma obra salmódica, pensava com frequência que já não teria
muito tempo, que talvez fosse já muito tarde.
- «Ainda quero sair daqui, regressar à minha terra.» - Desejava sempre
que a conversa se metia por aí, embora lá não tivesse as margens de
um rio como aquele onde se poderia sentar. Sentar-se-ia debaixo do
alpendre de uma casa. E pensava assim sempre que se animava com
uma possível longevidade.
Havia rumores de que os persas, sob o mando de Ciro, poderiam estar
perto de invadir Babilónia. E esses não eram propriamente bárbaros. E
no que dizia respeito aos judeus, a sua relação com estes não era assim
tão complicada politicamente.

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Mas um poema sobre o exílio obcecava-o e estava dentro das suas
prioridades de ancião.
Pensava muito no assunto, e talvez por saber que o mesmo não
acontecia com outros da sua idade, e, sobretudo, com alguns muito
mais novos, que já haviam nascido em terra estranha, muito mais
pensava num retrato poético do exílio, numa forma que sintetizasse a
tristeza e o orgulho nacionais.
Foi nesse instante que um dos filhos, o mais velho, lhe interrompeu o
que estava a pensar. Ele falava de um modo pacificado e parecia
inquieto, mais no olhar do que na voz.
- «Pai, queria que me desse uns momentos da sua atenção.»
Esse seu filho era o predilecto, não por ser o primogénito, mas por ser
rigoroso com a sua vida secular, com ortodoxia de princípios para com
a comunidade, cumpridor da lei Mosaica e um excelente músico.
Tocava lira na perfeição.
- «Já decidi, há muito tempo, que não vou tocar lira para a festividade
dos nossos opressores. No entanto, insistem. Vou debater-me com
problemas.»
- «Deus reservou-te uma tarefa, que não será certamente tocares o
cântico do Senhor em terra estranha.» - Anuiu o velho pai, enquanto
com a cabeça procurava o exacto ponto cardeal para olhar, no vazio,
rumo a Jerusalém.
- «Não sou o único a pensar desta maneira» – informou o filho – «Há
muitos judeus a pensarem o mesmo.»
E, no entanto, estavam todos aflitos com a situação. Era uma honra que
os babilónios os considerassem muito bons músicos e se deliciassem a
ouvir as liras dedilhadas por uns dedos que só sabiam, agora, contar
salmos de angústia e tristeza, mas sempre com aquele ritmo vivo que
um dia fizera Miriã executar uma remota dança ou David saltar à frente
da Arca.
- «Talvez.» - Concordou o velho – «Mas sempre é o cântico do Senhor
em terra estranha. Por muito que ambicionemos não poderemos tirar
desta terra um cântico para o Senhor.» - Repetiu, enquanto um vento
inesperado fez uma passagem rápida pelos salgueiros, como uma
música agreste, defrontando as ramagens. E entre as suas pálpebras, já
muito flácidas, começaram a brilhar umas pequeníssimas pérolas.
Uma nuvem mais branca, queria agora instalar-se entre as mais
escuras que corriam, já havia um bocado, pelo céu. Era uma nuvem
muito simples, que não se parecia com nada, nem suscitava qualquer
desenho à imaginação.
O velho talvez pudesse agora voltar para o seu sítio ao lado do rio, e
levar os seus instrumentos de escrita onde esperava ainda escrever

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alguma coisa a favor do mundo que lhe roubaram. A lua era uma quilha
de um barco a subir e a descer na luminosidade de espuma, quase alva,
de algumas nuvens. Nessa noite, cheia do rumor com que as águas, às
vezes, substituem a ventania, sentia-se com pensamentos inspirados.
- «Junto dos rios da Babilónia nos assentamos e choramos» – disse em
voz alta, e achou que este começo do poema condizia com a verdade,
porque já presumia a lição de quanto mais poético mais verdadeiro.
Poderia ser mais narrativa que poesia, mas era a verdade sentida.
- «Filho – olhou para o primogénito – Não crês que esta é a melhor
posição que actualmente nos retrata, como um povo?»
Havia no entanto, que meter dentro do parágrafo, dissera-lhe o filho, a
saudade, a religiosidade e também um sentido comunitário. Fizera bem
em referi-lo, porque o velho concluiu os versos com «lembrando-nos de
Sião.»
Depois veio aquela referência aos salgueiros. Havia inúmeros, junto às
colónias oferecidas aos judeus, nas margens do rio Quebar. «Nos
salgueiros penduramos nossas harpas.»
Mas como uma centelha que sai do fundo da fogueira que parece
extinta, e revigora todo o fogo, Gedalias recordou que nos primeiros
anos de cativeiro, e mesmo muitos anos depois, os babilónios insistiam
para que cantassem as suas canções. Era verdade, que tinham
permissão para celebrar as suas festas, embora só cultivassem uma, a
Festa das Lamentações aliada ao novo costume de orarem com os
olhos voltados para Jerusalém, mas tocar para aqueles que os levaram
ao exílio, jamais.
E, assim, começou a escrever: «Porquanto aqueles que nos levaram
cativos, nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os
alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.»
Mas como numa terra impura, o homem se guarda de contaminar o
corpo, sem lugar de culto, sem referências físicas para situar a sua
religião, a não ser no plano dos costumes, dando maior importância ao
Sábado e à Circuncisão, o velho e todos os outros judeus que puderam,
enfim, regressar a Jerusalém, tinham imenso orgulho em poder
afirmar, como as palavras desse poema, a sua recusa: «Mas como
entoaremos o cântico do Senhor em terra estranha?».

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O visitante de Jericó
-Trazes-me água? – Pergunto, tacteando o odre que o homem me
entrega.
- É o odre velho, este está quase gasto. – Digo ainda, antes de o levar
aos lábios.
À volta de mim, o ar áspero de poeira, o chão suspenso na poeira, as
árvores sem química nem vegetação, apenas poeira.
Esse pó da velha estrada para Jerusalém fica entre mim e os olhos dos
que passam. Há muito tempo que é assim, que me vêem como que
através da névoa. A névoa que é uma espécie de indiferença que cai
sobre a paisagem e que abate uma a uma as suas cores.
Junto da estrada, eu olho sem ver, sentado ou de pé, mas dadas as
circunstâncias tenho sempre os olhos abertos somente para dentro de
mim.
Quem conhece o mínimo do nosso psiquismo, do nosso
comportamento face à cegueira, ao não possuirmos o sentido da vista,
dos contornos e do volume das coisas, sabe que o nosso verbo ver é
pessoal, que tem um sentido profundo e íntimo. Por isso eu vejo a
estrada que leva as pessoas a Jericó e que as trás de volta, como neste
dia branco, igual aos outros dias, para mim sempre brancos, mas
coalhado de poeira.
Ahab Timeu acordou-me destes pensamentos, quando surgiu do meio
da poeira e me trouxe o odre com água fresca.
Um pouco acima do nível da estrada há uma concavidade numa rocha,
que lembra uma cadeira revestida de musgo, de natureza espontânea, e
que passou a ser o meu ponto de paragem, onde o meu corpo se
encaixa perfeitamente.
As pessoas que vão passando por esta estrada nem imaginam como eu
as vejo, através do ruído que fazem e me dá um frenesi no corpo,
porque necessito das esmolas. O tempo, a chuva, ou o sol, também
influem no volume dos rendimentos.
Quando os dias exibem um grande sol brilhante, porque o céu está com
a sua nudez completa e azul, por incrível que pareça, não são muitos os
transeuntes, ao contrário das belas manhãs ou fins de tarde, em que o
látego do ar quente e de poeira é menos caustico. Em todo o caso, faz
parte da minha missão por necessidade esperar por quem passa.
Por alturas das chuvas, há sempre um familiar que irrompe pelas águas
dentro, quando não consegue ser mais rápido do que a promessa que
as nuvens negras carregam, e me leva, a custo, para casa.
- Bartimeu sentes-te bem hoje? – É sempre um dos habituais
transeuntes que passa, ao finalzinho da tarde, e cuja voz reconheço, a
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sua saudação neutra não tem tanto a ver com o estado do meu corpo,
mas com o dia que ele presume estar a correr de feição.
- Deves ter tido mesmo um dia muito frutuoso com o movimento que
vai por estas redondezas – comenta ainda.
- Hoje está ameno, apesar do pó que perdeu toda a subtileza, que um
cego o pode ver – respondo, ainda não refeito do trovão que a sua voz
pareceu eclodir dentro de mim. – Estava cá com os meus pensamentos,
Bar-Josué – concluo.
Estou assim muitas vezes, apoiando as minhas tristezas na parede
espessa da memória, esforço-me todavia por empurra-la no retorno a
um passado já remoto. É um caminho de regresso à infância, que gosto
de percorrer, absorto nos meus pensamentos.
- Sabes, se as vozes me fazem companhia, a imaginação e a memória
ainda mais. – Quis explicar-lhe, mas percebi que já não estava junto de
mim, pelo silêncio que os seus passos arrastados iam deixando ficar
para trás.
Quando era rapazinho brincava nas ruínas da velha Jericó, o seu
silêncio, a sua desabitação, a sua antiga, angustiante história cananeia,
eu e outros meninos costumávamos brincar aí com essa história.
- Depois, foi a cegueira – repetia com um tom resignado e religioso, de
quem sabe que há uma soberana vontade acima do homem judeu ou
qualquer outro.
Noutros dias já longínquos, chegava a inventar brincadeiras que
reproduziam os relatos dos livros históricos das Escrituras, que
mimavam Josué e Caleb, e ao exército armado de trombetas de pau
emprestávamos uma imitação de música gutural. Levávamos mais
longe o tema das brincadeiras, fazendo rolar algumas pedras que
estavam ao alcance da nossa força, embora algumas delas fossem
maiores que as nossas mãos. Contudo, era nesse tempo, com as nossas
mãos cheias de alegria, que refazíamos a história. A nossa vozearia
incontrolada caía no vasto silêncio que habitava as ruínas.
Pensávamos, contudo, como a chegada ruidosa de um povo, com uma
música constante, inexplicável, estranha e pouco suave, deveria ter
enchido de estranheza aqueles lugares há muitos séculos. As
interrogações desvanecer-se-iam com a queda dos muros fracassados
da cidadela.
Como a pergunta que cresce dentro de mim, neste momento, que
cresce como uma excitação bem no centro do meu peito, assim parte
de um ponto não distante um tropel em crescendo, uma entoação
desusada.
Vozes, cânticos, passos a espezinhar o pó que eu imagino estar a
levantar-se. Vejo-o e sinto-o, uma vez mais, nas narinas. Mexo-me na

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cadeira improvisada na pedra, nem ligo às marcas do musgo que me
devem estar a esverdear, outra vez, a capa.
- Que som é este? – Pergunto, e os meus ouvidos abrem-se para
apanhar algum indício da grande coisa que se avizinha. Uma enervação
percorre-me o rosto, os meus olhos apagados parece que se
movimentam dentro de uma caverna, as órbitas quase não os podem
conter, querem saltar por cima do som que me chega aos ouvidos,
querem ver a causa de tanto entusiasmo.
- É uma multidão arrebatada – diz um companheiro, também cego,
agora mais perto de mim.
Mais alto, o som da multidão avança em direcção de Jerusalém. O que
subitamente, me leva a perguntar o que pode vir da velha Jericó.
- Com certeza um daqueles grupos que costumam ir protestar à cidade
santa pelos pesados impostos que os publicanos exorbitam, quando
cobram – diz um outro colega de mendicidade.
- Eles abusam – concordo com ele – Como o rico Zaqueu, de quem já
tinha ouvido falar – acrescento, apenas para dar algum sentido útil e
histórico à conversa do outro.
Uma voz, fazendo lembrar um jovem alegre e a compartilhar da
euforia, corta o ruído geral.
- Olha que grande multidão aí vem, nestes caminhos, estar junto e falar
aos gritos, é a melhor maneira de afastar possíveis salteadores – pelo
tom que emprega parece saber do que afirma.
Eu tenho, porém, outro conceito sobre as multidões. Estas costumam
ser cegas, avassaladoras, não podem ver, porque não querem ver, onde
pisam.
As multidões, quando correm, só olham para o alvo a atingir, e movemse como se sobre inimigos o fizessem.
Seja como for, nesta multidão entusiástica, provavelmente com
grandes motivos para vir assim alegre, quase infantil, pode haver
corações e braços atentos para as desgraças do próximo.
Com a multidão tão perto de mim, eu já não posso viver de
imaginações e de aparências. Existem diferenças, que o meu apurado
ouvido percebe.
O motivo que faz esta quantidade de gente estar junta é outra coisa, é
diferente de tudo o que já tentara contornar e tactear, dentro do
branco dos meus olhos. Algo inexplicável parece estar ao alcance do
meu coração, algo que dimana e sobressai deste turbilhão de pessoas.
- En…tão, …ainda… não o viste? – Pergunta, ao meu lado, uma voz que
eu não reconheço, que pelo arfar das palavras e pelo tom exaltado, veio
certamente a correr.

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Agora a multidão é já todo um mundo próximo de mim. Distingo já o
que torna esta multidão diferente, ouço alguns salmos judaicos por
cima das conversas da turba.
- Não vi, quem? – Respondo à pergunta, interrogando e rendido à
sensação de que algo especial, anormal mesmo, se está a passar.
- É Jesus de Nazaré – dizem-me.
- É quase meia nação que vem com ele – exagera outro.
De facto, a multidão já alardeia um nome, que se percebe nitidamente,
Jesus de Nazaré, no meio da vozearia e dos cânticos que homens mais
felizes, e parecendo mais sinceros, por assim dizer, desperdiçavam na
confusão geral.
- Mas, é bom ou mau? – Pergunta, receoso, José, o companheiro de
estrada, igualmente cego, e sinto que a sua cabeça está a espreitar por
cima do meu ombro.
Depois de eu ter dado conta que gritei, não sei por que impulso divino
e de um modo vital, a plenos pulmões «Jesus, Filho de David, tem
misericórdia de mim», tudo se passou incrivelmente depressa.
Houve empurrões da multidão quando Ele me chamou, ante as
palavras ferinas daqueles que desejavam que os ferros da minha prisão
não se quebrassem, aquela pergunta de Jesus que me soou como se o
Universo estivesse todo a reconstituir-se, com harmonias celestiais, em
torno de mim.
- Que queres que te faça? – Perguntou-me, com voz de quem não
conhecia o impossível, Jesus de Nazaré. Nos seus olhos vi depois a
eternidade e na sua voz o intacto poder com que ordena à Criação.
Gostaria de lhe ter chamado muitos nomes que nada tinham a ver com
o costume religioso, semeador de árvores, desenhador de homens,
pintor de paisagens, obreiro de casas com o sol a derramar-se nos
terraços, acolhedor de pássaros que se refugiavam nas brisas….
Somente me ocorria «Filho de David», porventura devido ao seu olhar
de monarca, que ao pousar nos homens reinava nos seus sentimentos e
até nas coisas inanimadas.
Mas, a multidão apressou-se, e como uma enorme onda, num
movimento contrário, começou a refluir. Sem esmorecer o seu
entusiasmo, pelo contrário, foi afastando-se. Eu contemplava-a, não a
achando muito diferente de como a imaginara, embriagada, amorfa,
impessoal. Vi-a agora com as janelas abertas no meu rosto, a essa mole
imensa de gente alegre, quase que forçando o Filho de David a seguir,
como em uma correnteza de águas insensíveis.
Eu esquecera as esmolas, e seguia-O, agora com os meus próprios
olhos, ainda inadaptados e desabituados dos raios de sol que a poeira
insistia em turvar.

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O Hóspede
- Tu és rico e podias dar-te a benfeitorias – disse um dos empregados.
- Dei quase tudo – respondeu, receoso no entanto de não o
acreditarem.
- Pois, mesmo assim… – insistiu outro, sem ter porém coragem para
continuar.
- Procuro esquecer as riquezas – retorquiu.
- Adormecendo sobre elas, porque estão seguras e a aumentar? –
Ironizou um colega concorrente da administração pública de Jericó.
- O meio que conheço agora é o melhor. Dou aos pobres… – declarou Z.
Os ecos do seu mundo chegavam-lhe assim, através das insistentes
evocações insinuosas da pequena comunidade dos cobradores de
impostos.
Mas a declaração, que chocara a comunidade, as atitudes sociais de Z.
que doravante tomava, a sua convicção religiosa que cedia sempre
lugar ao materialismo, estavam a estruturar e a erguer uma onda de
respeitabilidade junto do povo, por um lado, e, por outro, um receio de
que tão repentina mudança e abalo moral tivessem réplicas
profissionais. Temia-se que pudesse colocar mesmo em causa os
métodos usados por toda a administração da fazenda, no que dizia
respeito à cobrança dos tributos.
Alheia, naturalmente, a toda esta convulsão que se registrava na aldeia,
a ancestral figueira-brava, quase com as palmeiras e tamareiras um
símbolo da teimosia de Jericó, continuava a sua vegetal existência, os
homens diminuíam-se, ela restava não se sabendo bem há quantos
séculos.
Revestida de folhas, que serviam de esconderijo às brincadeiras das
crianças da vizinhança e aos cansaços das aves, que debicavam a
clorofila da folhagem, a figueira bravia era por isso um instrumento
quase social de auxílio aos homens e mulheres da aldeia, com a sua
ampla copa, raízes profundas e largos ramos.
Esses ramos eram fortes, secos, e as ventanias quentes de Verão da
Palestina, ou mesmo os furacões do mês de Adar já tiveram embaraços
ao tentarem partir alguns desses tamanhões daquela figueira tutelar.
Acima do lugar onde Z. construíra a sua casa, existia essa figueirabrava ou sicômoro, que abarcava com sua largueza uma boa parte da
estrada e às vezes quase confinava com as nuvens.
Z. estava sentado na ampla sala do primeiro andar da sua casa, a um
canto duas ânforas de um barro trabalhado com mãos de geómetra,
uma mesa longa de madeira de carvalho sustentava, quase aereamente,
uma taça de prata com tâmaras, uma banqueta com embutidos de osso
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e um leito. A casa estava sossegada, somente lá fora corria um
burburinho, uma multidão de passos empoeirados deslocava-se com
ruídos naturais.
Não era homem azedo, nem mesquinho, somente procurava passar à
frente dos outros, usando maneiras variadas, não via na sua pequena
estatura nenhum impedimento, nem possuía do defraudar o próximo
um conceito rígido, olhava para a sua sala, para o mobiliário, e pensava
como a sua riqueza fora até ali fruto da sua esperteza para os negócios.
Conhecia bem o que dele se pensava, em Jericó, provavelmente em
Jerusalém apesar dos mais de vinte quilómetros de distância, mas era
aí que estava a fortaleza Antónia, a administração romana. Os judeus
cobradores de tributos tinham duas coisas graves contra eles, o serem
cobradores e os impostos.
No entanto, aparentava estar despreocupado, parecia sentir-se feliz,
ainda que um desusado nervosismo tomasse conta das suas mãos.
Dava a impressão de estar à espera.
- Não há duvidas de que esse Jesus, de Nazaré, ou como lhe chamam,
terá que passar perto – disse alto para a sua mulher.
Quem desejasse sair de Jericó deveria cruzar esse principal, cuja
figueira dava a impressão de ser a praça, onde residiam os melhores
mercadores de bálsamo e outras famílias abastadas. Assim, estava a
aguardar.
- Daqui a pouco sairei para o ver passar – concluiu, voltando os olhos
para o terraço, que alongava a casa pelo ar livre. Um dos filhos, o mais
novo, chegou ao aposento, excitado apontando a cabeça várias vezes
para o local de onde vinha o burburinho, disse que o Homem estava
com alguma dificuldade em avançar devido à muita gente.
- Cá para mim, deve ser tudo verdade o que dizem desse Jesus, mas
entusiasmo a mais da parte da multidão – disse ainda para o pequeno,
embora estivesse no íntimo a pensar na cura de um tal Bartimeu, de
que ouvira falar.
Quando Z. imprimiu vontade ao seu corpo pequeno para se erguer, foi
pela premência do nervosismo, porquanto o cortejo ainda estava para
lá da velha figueira.
Gostava de pessoas que se elevam acima das turbas entusiasmadas,
que de certo modo as conduzem, por isso também estava curioso de
ver a tal figura.
A pensar nisso, saiu de casa.
A rua, com muitos transeuntes, estava como o átrio do templo, lá em
Jerusalém, cheia de palradores. E foi ao encontro da figura singular que
assim arrastava uma multidão, foi com a mente em branco, esta seria
preenchida certamente com o que iria ver.

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Poucos lhe chamavam Deus, e isto acontecia mesmo quando lhe
pediam que os abençoasse. O suor saia dos poros da multidão e um
nome tradicional de judeu ressumava entre as conversas movediças
dos grupos de homens.
Novamente teve necessidade de se erguer. Querer observar sem ser
observado ou a dimensão pequena do corpo, em altura, alcandoraramno no topo da vizinha figueira.
Já pertíssimo vinha o sinal que parecia uma respiração ofegante,
profunda, de uma parte da multidão, a que estava mais perto daquele
homem trajando uma túnica cujas orlas rodeavam o corpo magro,
comum, e pairavam sobre o chão.
Sentiu-se incómodo, sustentado por uns ramos, que tanto o
aproximavam, do ridículo como da curiosidade e foi daí que lançou
seus olhos, depositando-os, admirado, em cima de Jesus.
Então, uns olhos escuros, de judeu típico, que falavam como os olhos
das crianças quando olham, depois da ausência, para a regressada mãe,
fizeram estremecer Z. que se julgava inexpugnável na árvore, e sentiu
seus próprios olhos como dois tições dentro das órbitas.
Já em casa, a luz ténue do dia e os ruídos da multidão a dissipar-se, era
o que entrava pela janela. Jesus e Z. conversavam, sentados numa das
cadeiras longas que demarcavam no quarto o lugar das riquezas bem
empregadas. Agora os dois rostos não eram tão diferentes, como
quando Z. foi convidado a descer de cima da figueira e a entrar na
própria casa, com um convite em cujo tom havia uma ternura, ao
mesmo tempo um cansaço, uma necessidade de um copo de água
fresca. O seu rosto ficara vermelho, depois envergonhado. O de Jesus,
bem formado, com uma barba jovem a encher as maçãs da face, um
pouco pálido, era um rosto varonil entusiasmado com uma missão.
Z. levantou-se da cadeira e a sua pequena estatura tornou-se ainda
menor sob o tom da declaração proferida, uma afirmação como essa
iria brilhar em muitas casas como um bilião de estrelas. Que resolvia
dar aos pobres metade dos seus bens, e, admitindo que nem sempre
tinha sido honesto, que iria restituir quatro vezes mais àqueles a quem
tinha defraudado.
Poucos, lá fora, esfregando nas mãos o frio da noite, compreenderam
como as paredes da casa de Z., tão longe de serem um templo, puderam
albergar a voz de Deus e como uma parte da singular teologia da
salvação ali se fundara.
- Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido – dissera
Jesus, ao despedir-se, e estas palavras eram tão consistentes que letra a
letra pairaram sobre a luz das lâmpadas de bronze.

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Uma ponta levantada do remorso
Então Judas, atirando para o santuário as
Moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se.
Mateus 27:5
Fê-lo triste pensar que a única ideia que tinha naquele dia era sobre a
morte.
Foi na véspera da preparação do Sábado e também da grande festa da
Páscoa que se encontrou perante o desfecho do caso. Desde a
madrugada daquela sexta-feira que a conduta pessoal lhe causava,
apesar de tudo, enorme surpresa.
Já não cultivava a mesma frieza da noite anterior, nem pensava que
fora a coisa menos usual o que acabara de fazer, talvez só mesmo o
espírito amargo de sempre. Limpou, com a manga da túnica, a saliva
dos cantos da boca, que se acumulara ao gritar aos principais
sacerdotes e anciãos, limpou o suor que seguia na direcção dos olhos.
- «Eu condenei um homem inocente à morte! Traí um inocente!» – foi o
que Iscariotes gritou, engolindo em seco um nó na garganta.
Até ali fizera tudo com discrição, para evitar tumultos, usara a astúcia,
mas pensava com tristeza que o dinheiro não tinha necessariamente
que o transformar dessa maneira, mas era tarde.
- Se a minha alma fosse material, estaria agora destroçada em farrapos
– disse-me Iscariotes, quando se despediu, à pressa, nessa manhã.
Seria como um sentimento desagradável e simbólico que quase fizera
em farrapos a sua capa, se não fosse apenas o acaso de a rasgar numa
esquina afiada de uma das paredes do templo ao fugir apressadamente.
Quem o visse, naquele momento, com toda aquela agitação, diria que
estava ali um sicário, desesperado para se vingar dos romanos,
procurando nas sombras entre as esquinas sinuosas da rua que levava
para fora da cidade, como uma criança que procura no ar o lado de
onde vêm as vozes dos pais.
Quem o conhecesse de perto, como eu, diria que aquele homem estava
agora com uma crise de fé, balbuciava um nome ininterrupto «Mestre»,
como um agnóstico de boa vontade. A ironia já não era o seu anteparo,
a ironia que sublimara naquele sinal identificador, do beijo no mestre,
com que completou o processo da rejeição que sempre demonstrou em
relação a Jesus.
Vi-o afastar-se com o cabelo coberto por um talit, curvado, sem cabeça,
como a querer cozer às sombras o seu rosto.

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Ali na rua estava instalado aquele burburinho com que se iniciam as
manhãs muito cedo, havia a um canto oito ou nove pessoas que
conversavam sobre uma condenação invulgar, que o Sinédrio efectuara
de noite.
- Foi uma rusga e uma acareação.
- Com certeza, porém foi tudo um pouco às escuras.
- Sim – disse um homem alto que estava à ponta do grupo, que
percebeu outro sentido na alusão à obscuridade – sim, às escuras, à
margem da própria legalidade religiosa.
- Mas não, o politicamente correcto vai prevalecer, Pilatos dará a
palavra derradeira. – Sentenciou alguém, que se evidenciava da
mediania do grupo.
Ao olhar Iscariotes deste ponto, parecia um homem que ia decidido a
fazer uma viagem.
E na última casa da rua, onde se virava a esquina para o caminho dos
arredores da cidade, como se virasse uma página, deitou para trás um
olhar de medo, escorregou ou tropeçou numa relevância do terreno,
não vi bem, e desapareceu repentinamente.
Soube que começara bem com o dinheiro que os sacerdotes lhe tinham
dado na noite anterior. Mas durante a mesma, o toque naquelas trinta
pratas não se diferenciara daquele com que costumava passar a mão
nas moedas do saco das esmolas.
Tais remorsos, por assim dizer, sensoriais, revelaram-se através de
uma náusea incontida. Há sempre um momento em que os pecadores
têm vergonha, porque esta é, desde as origens do homem, uma forma
de conhecimento.
Mas o seu voltar atrás foi apenas materialista: foi só para devolver
aquilo de que mais gostava, levado sem esperança pela angústia da
culpa.
Cabisbaixo, Iscariotes dissera-me qualquer coisa apressadamente
sobre a repulsa que sentia por si, como aguentara a indiferença dos
principais do templo, e como depois de se aproveitarem dos seus
préstimos sem ética, o deixaram entregue ao seu destino solitário.
Iscariotes não podia absolver-se, porque não tinha nenhuma dúvida
razoável sobre o seu acto. E nunca fora homem para possuir uma
apreciação moral de um acto daquela natureza.
A menos de dez estádios de distância, já em pleno campo, levantou os
olhos por entre os fiapos da manhã enevoada, uma névoa que parecia
consistente, e lá estava a árvore raquítica, plantada como um rubor
floral no meio do verde, carregada de flores purpúreas.

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A chegada da morte, media-se agora em metros, não em tempo,
porquanto Iscariotes estava a levar seus últimos passos a
aproximarem-se do local.
E aí deteve-se bruscamente.
- Foi acossado pelo remorso – comentou um publicano que era
apóstolo de Jesus, a quem chamavam Levi mas na realidade era
Mateus, enquanto nos aproximávamos do campo do oleiro.
- Foi tocado de remorso – repeti eu com voz triste, enquanto procurava
ver fragilidades na árvore que Iscariotes usara, já o sol fazia ângulos
rectos entre os objectos e as sombras.

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O aposento do dia anterior
A iluminação subia as escadas de tijolo degrau a degrau, até ao
primeiro andar.
Era um percurso em linha recta, fácil, embora fosse a subir. Seria
íngreme para os pescadores da Galileia, de condição pobre e casas
térreas, habituados a viver com o mar sempre à mão.
A luz consubstanciava-se com as próprias escadas, dando-lhes uma
tonalidade que as tornava imateriais, quase voláteis, antes de se
instalar definitivamente numa ampla sala clara, onde era naturalmente
absorvida.
Como um rio em forma de delta profundamente turvado que entra pelo
mar, nas suas espumas, nas suas ondas desfeitas, assim eram a
luminosidade e as escadas que levavam até ao espaçoso aposento da
casa.
- «Encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa
em que ele entrar» – foi o que disse Jesus com toda a precisão. E isso
fazia sentir que alguma coisa ia acontecer, sentia-se isso perfeitamente,
e não apenas pelo clima de fervor religioso que se apoderava dos
judeus, nesse cruel mês de Abibe.
Para o grupo do carpinteiro oriundo de um artesão de Nazaré, as coisas
não eram muito simples quando se tratava de arranjar uma casa
condigna e grande para aquela ocasião importante; discípulos e Mestre
não possuíam riqueza. No entanto, este compartilhava com todos os
homens o Universo, mas na sua pátria não possuía nada, e, pior do que
isso, foi até por ela rejeitado, pelo menos era esta a opinião de um
membro do grupo chamado João.
Pedro e João, como os restantes condiscípulos, já iam considerando
mesmo as mais pequenas afirmações do Mestre como coisas fora do
mundo. Por essa razão quando a escolha recaiu sobre eles, irem à
frente do grupo para preparar a festividade da Pesach, apenas se
limitaram a perguntar qual o lugar onde o Mestre desejaria realizá-la.
Dir-se-ia mesmo que tinham um conjunto de lugares que poderiam
escolher, e, no entanto, em Jerusalém, exceptuando João que teria casa
própria e posses de família que lhe proporcionavam certo conforto
económico, a maioria não tinha quaisquer referências, nem porventura
possuía amigos hospitaleiros, com casas frescas prontas para albergar
galileus pobres.
- «Onde queres que a preparemos?» – ainda assim perguntaram. Mas a
sua pergunta estava revestida de uma forma activa com a palavra
exacta que revelava a vontade de tornar as coisas prontas, desde a
instalação ao material necessário, como quem parte para um quarto
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escuro com móveis que sabe ir encontrar no sítio certo, em sítios
imutáveis há muito nos seus olhos.
Há sempre lugares mágicos que fazem parte da nossa justa ambição, de
um dia os vermos ou, melhor ainda, estamos neles. Todos os homens
daquele grupo já tinham preparado e celebrado outras Páscoas ao
longo das suas vidas desde a infância. Definitivamente alheios a
posteriores dissensões histórico-teológicas, não tinham ainda
diferenças de opinião sobre a observância do período da Páscoa,
porque nada disso sabiam, o único cordeiro que por agora conheciam
era o anho pascal.
Haveria quem explicasse bem como havia sido a primeira Páscoa,
quando os hebreus saíram do Egipto, com certeza com o legítimo
desejo de ter estado aí, nesse tempo heróico. Porventura também
haveria quem não soubesse nada de história. Mas numa coisa todos
estavam de acordo, a festividade da Páscoa era uma lembrança, antes
de tudo, que fazia os judeus voltarem para Deus que os havia libertado
da escravidão.
Sem nenhum plano, nem pensamento sobre a Páscoa, com certeza,
Ariel passou fugazmente na rua, atarracado, mas de porte leonino, não
era alto, tinha porém amplas mãos, e estas poderiam sugerir a
qualquer goy inculto que eram mãos arredondadas pelas bilhas de
água que seguravam.
Contudo, nesse fim de tarde, era o primeiro dia em que Ariel ao cabo
dos seus quarenta e cinco anos esperava que a rua ficasse sozinha para
ele, sem receios, curvar o corpo sob o peso da água que transportava,
sem muitos olhos caindo sobre si. A ninguém ocorreria questionar a
igualdade social entre o homem e a mulher, como ninguém perguntaria
por que razão apenas as mulheres se deslocavam ao poço para encher
cântaros com água para a família.
Nesse fim de tarde, Ariel quebrava uma tradição. Por isso, sentia-se
contente por ter enfim ultrapassado o último degrau da portada da
casa. A argamassa e os tijolos de barro em que se assentavam as traves
e ombreiras da porta, escondiam-no da luz e dos olhares que recaíam
sobre ele. Haveria, porventura, um estranho motivo, uma razão forte
que assistiria ao chefe da família, porque Ariel fora inesperadamente
incumbido de substituir na líquida tarefa, naquela tarde, as mulheres
da casa.

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O filho mais velho
Antes dos seus olhos arrefecerem, já os ouvidos recebiam cada som
como se fosse um cubo de gelo a cair na concavidade de um copo.
Sentia-se um vidro, ainda que não soubesse bem o que estava a
suceder.
Mas não disse uma palavra até ver o mais antigo servo da casa, que
acompanhava todos os eventos com a sabedoria calma retirada dos
provérbios, e agora corria apressado, de um lado para outro, cruzando
o alpendre.
- O que é isto que está a acontecer? – Perguntou-lhe, com a mesma
autoridade com que na infância lhe perguntara coisas na pista do
conhecimento.
- Ouviste ao longe a festa? – Entusiasmou-se o velho mordomo,
esquecendo-se que ele estivera a trabalhar nas propriedades mais
distantes da casa.
- Veio o teu irmão – informou, com mais cerimónia, o homem. E
perante o ar glacial do filho mais velho da família, imprimiu um tom
mais excitado às suas palavras – Perez Levi regressou, vivo, com saúde,
e teu pai mandou fazer uma festa.
Passara tanto tempo que se esquecera a si próprio como irmão do
Pródigo, como era recordado pelos vizinhos, por isso desejava, naquele
momento, jamais haver tido esse irmão.
Judá Levi Stein resolveu, contudo, continuar o seu caminho para mais
próximo da casa, a fim de melhor ouvir as músicas e ver os graciosos
corpos a dançarem. Porém não entrou.
As suas roupas tinham um ar cansado, quase como o seu corpo, via-se
que jamais deixaram de acompanhar Judá Stein para as lides agrícolas.
Era um trabalhador compulsivo, e, apesar de não ter mais de quarenta
anos, as rugas na cara e na testa, ao lado dos olhos, estavam
intensamente cravadas no pó que trazia do campo. E ali especado, a
poucos metros da porta, um ligeiro vento sul fazia brandir as suas
vestes e, sem nenhum milagre, movia-se no pó que trazia nos cabelos.
Parara à porta de casa, como se estivesse a rever-se, nas suas roupas
gastas pelo trabalho e não pelas dissoluções, no seu moral, na sua força
de filho sempre pronto a sacrificar o seu bem-estar pela família. Que se
recordasse, fora a primeira vez que parara à porta de casa, retardando
a sua marcha rumo ao olhar de aprovação e bênção do velho pai.
Estava sem vontade, não parecia, devido ao seu porte, mas estava à
deriva como um navio a aguardar apoios para vencer as vagas do seu
pensamento, as ventanias interiores, e entrar na barra.

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Todavia, não estava a lutar contra a sua natureza, estava intimamente a
lutar contra esse seu irmão, que após anos de estúrdia e amoralidade
resolvera encher o cinzento da casa com cores dos vestidos alegres das
mulheres da família e da vizinhança, dos parentes mais próximos, até o
sorriso que se via longe da boca do velho, parecia-lhe das muitas cores
com que o sol faz arco-íris da chuva. Não fizera planos para isto, não se
entregaria incondicionalmente ao milagre, se outra coisa não pudesse
fazer, naquele momento, faria de juiz entre todo aquele entusiasmo. E
assim foi.
No entanto, foi a voz do pai que primeiro se fez ouvir, e as palavras não
eliminaram por completo o sorriso que trazia entre os lábios. Como um
fio de água feliz entre rochas, disse:
- Perdi a minha primeira serenidade, nesta mesma porta, não quero
perder agora a segunda, que readquiri, Judá Levi. Conheces a extensão
do meu coração, conheces… – e foi interrompido pelo filho…
- Conheço, sobretudo, o meu desprezo por esse teu filho dissoluto. –
Afirmou forte Judá Stein.
- Conheces a extensão do coração de Deus? – Pôde concluir o velho.
Mas o silêncio do filho maior foi uma concludente resposta.
- Não, não conheces, deverias conhecer, no entanto ela está aqui
reflectida à tua frente, no meu coração tão grande onde podem caber
dois filhos, um com suas falhas, outro inteiriço, como se nunca houvera
falhado – disse o pai, com um esforço evidente.
E ao fazer uma pausa para recuperar o fôlego, que na sua idade já lhe ia
escasseando, quando se emocionava, sentiu que um aperto
humedecido lhe fechava os olhos. Espremeu duas lágrimas contra as
pálpebras e perante um gesto atrás de Judá Stein, insistiu:
- Pensas que os pecados são apenas o abandono da casa paterna, a
dissipação dos bens? Pior do que abandonar é ficar, mas sem
sentimentos, sem existir para além de nosso eu, de coração fechado, é
muito pior querer estar sempre em pé, hirto, mas sobre o que julgamos
ser destroços dos outros…
Uma tensão como um céu escuro a gerar entre nuvens um relâmpago
inesperado, pairava naquele momento entre dois. Porém, o velho pai
continuava com os seus olhos dóceis a questionar uma brecha no rosto
fechado do filho primogénito.
- Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir as tuas ordens,
e nunca me deste um cabrito, para alegrar-me com meus amigos –
disse, por fim, Judá Stein, pensando apenas na sua alegria, que,
segundo as suas palavras, o pai não lhe proporcionava.
- E hoje, a esse teu filho, que devorou uma fortuna com mulheres de má
vida, dás o bezerro mais gordo… – e esta acusação foi demasiada.

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- Filho, tu estás sempre comigo. Temo, no entanto, que te tenhas
perdido dentro da casa, como teu irmão se perdeu fora… Eu quero ficar
com os dois, quero encontrar-te, Judá Levi, como encontrei Perez.

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O Náufrago
Levantou a perna direita, dobrou o joelho quase à altura da cabeça e
saltou. Esse salto naquele momento pareceria um acto temerário não
para o escuro, embora estivesse muito escuro, mas um salto para o
universo azul do deslumbramento.
Foi assim que Simão Barjonas transpôs a borda do barco que se
inclinou com risco e pisou, firmemente, o lago Tiberíades.
-Sempre foi impetuoso! Mas como é que ele vai conseguir? –
Perguntou Tomé ao colega do lado.
- Vai, porque o Mestre está a dizer-lhe – atalhou J. Boanerges,
enquanto uma vaga mais alta lhe fez descer e subir a voz.
Aquelas águas, que o vento confundia com pequenos montes de terra
acastanhada que se erguiam e caiam, tiveram sempre grande
significado para ele.
Nunca havia pensado nisso, senão reduzidamente, que o seu pai Jonas,
a sua família, nascera, fadados para explorarem as águas do lago, que
os do sul chamavam mar da Galileia, cujos produtos eram consumidos
por toda a Palestina. Pertencia à classe dos pescadores que integrava a
classe geral dos pobres, remediados pelo seu próprio labor como
artesãos. Pior estavam os que dependiam da terra que, por norma, era
sempre a terra pertencente às grandes famílias. Comia peixe, pão trigo,
lentilhas e favas. Nunca havia pensado nisso com apego, naquela altura
em que levantara o corpo para pisar as águas compactas do lago,
menos pensava. Estava decidido.
- Senhor, se realmente és tu, manda-me ir ter contigo caminhando
sobre a água – gritou Pedro de longe.
Eram quatro da manhã; a túnica inquieta do Mestre recebia agora uma
ligeira claridade que acentuava o vento, o qual estava a levantar-se dos
lados do Hermon, por isso a túnica parecia uma bandeira inquieta
sobre as águas.
Mas não viu nenhumas vestes a esvoaçarem, nem pensou em bandeira
alguma. Os seus olhos afeitos à pesca nocturna, às imprecisões da
madrugada, não se tiravam do corpo que parecia correr sobre as águas,
com passadas estendidas sobre o lago. A palavra do Mestre ressoava
sobre o marulho das ondas como ressoava nos seus ouvidos.
-Vem! – Correspondeu o Mestre.
Simão Barjonas, devido a ser um homem voluntarioso, funcionava
muito sob comando.
O vento atravessava o lago, torrencialmente. Devido ao seu leito, com
uma profundidade média de 20 metros, estar cavado no vale do Jordão,
cercado de colinas, era propenso à criação de diferenças de pressão
Página n.º 55

atmosférica e de pés-de-vento, curtos mas rigorosos. Mesmo assim,
naquele dealbar da noite, Simão Barjonas entrou na torrente do vento
e pisou firmemente as águas. Caminhar sobre o lago Tiberíades, jamais
havia sido para ele uma aspiração daquelas que às vezes se tem desde
criança. Caminhar sobre as águas seria como andar sobre uma esfera à
procura do centro, era assim que se sentia, naquele momento especial.
O vento frio atirava fortes bátegas, mornas de água à cara de Simão
Barjonas. Atrás ficara o barco e o espanto nos olhos dos companheiros,
os seus corpos embalados pelo balanço quase perigoso do barco, por
breves instantes, não estavam em pânico. Mas o rosto de Simão
Barjonas começou a fechar-se como o temporal. Começou a água a
fugir-lhe debaixo dos pés, deixara, naturalmente, as sandálias no barco.
Os dois pés pareciam agora perdidos sob as águas. Vieram e tornaram
a vir à superfície. Simão Barjonas era cedro do Líbano, seco e espesso,
o seu cerne fá-lo-ia afundar-se mais depressa. A voz do Mestre
flutuava-lhe nos ouvidos – Vem! – E fora a força do milagre, essa voz
inteira, acima da terra, do mar, do céu, estava a ser substituída,
paulatinamente, pelo vento e pelo marulhar das águas do Tiberíades.
Só agora Simão parecia estar a dar conta de que estava a dar passos
inseguros sobre o mar.
Aquilo era como estar a sonhar acordado. Havia redes com enormes
buracos prenhes de peixes; peixes com coroas de louro, quais
vencedores romanos, à volta de cabeças com escamas; barcos a
navegarem pelas costas de pescadores com narizes aduncos e
compridos; asas mil e umas cores de borboletas a tomarem o lugar das
velas dos barcos; estes pontilhavam e cobriam com suas formas o lago
a que os gentios chamavam Yam Kineret; a forma de harpa que o lago
tinha soava-lhe, musicalmente, aos ouvidos; via a sogra a arder em
febre e as bagas de suor da sua testa a molharem as mãos de Jesus; a
cabeça cortada de João Baptista dava a dimensão trágica às águas do
lago, o sangue cobrira o acastanhado das águas, e Simão Barjonas
queria apanhar a cabeça do Baptista que lhe escapava entre os dedos e
ondulava nas vagas que se erguiam sob os pés, como um meteorito
enorme no cosmos; os milhares de pedaços de pão que saltava dos
cestos, caíam nas águas e regressavam de novo aos cestos…
Quando o Mestre lhe deitou a mão e o fez subir para o barco, olhou pela
primeira vez para as estrelas, quando voltaram a aparecer. Mediu-lhes
a altura, sacudiu a água da túnica enrolada no baixo-ventre como um
calção e sentou-se. Passou as mãos calejadas pelos olhos, queria ver o
corpo do Mestre por inteiro, na arca do peito o seu coração estava em
repouso.

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Carta ao evangelista Marcos
Eu sou Bartimeu, o cego. À beira da estrada viam-me como um marco
geodésico, um ponto de referência da proximidade de Jericó.
-Lá está ele – costumavam dizer, quando estavam perto da porta da
cidade.
Desde muito novo que Timeu, o meu pai, me levava pela mão para
aquele ponto da estrada, onde, arrumado a um canto sob uma sombra
de figueira e o pó, partia os meus sonhos para os restaurar à noite.
A estrada real está longe das margens do rio, apenas aí existem
palmeiras, por isso acolhia-me sob uma figueira, com a impressão de
frescura deixada pela brisa leve nas folhas.
Na infância, os risos dos meus irmãos eram os fios invisíveis que me
levavam às suas mãos, aos seus braços, aos seus corpos, para os
prender, e, assim, sentir-me seguro na minha escuridão, apesar desta
ser como um abismo marinho. Sentia a vida e o som ao meu redor.
Mas não era na companhia dos irmãos e de Timeu, no escuro
permanente da minha existência, que poderia contribuir para a
economia da casa. A manhã cedo levava-me com a subida do sol para o
meu posto.
Conheciam-me desde jovem por Bartimeu, o cego, o filho, que vivia das
esmolas. Cresci à beira da estrada para Jericó.
Sempre que saía de casa, o meu pai, ou Levi, um dos meus irmãos mais
novos, mas com pernas fortes, agarrava o meu braço esquerdo, e essa
estreiteza física ainda tem efeitos sobre mim, desde a minha
juventude. As suas mãos são como marcas ainda coladas na minha
pele.
Como cego, tenho todos os outros sentidos apurados. Sobretudo a
percepção inexplicável do que vale o ser humano, porque eu sou um
termo de comparação. Mas também o percebia pelo vento que se
levantava do chão, quando os homens arrastavam os pés, sentia se iam
carregados ou não, subliminarmente percebia as suas angústias.
Alegrava-me quando o barulho das poucas crianças que por ali
brincavam transformava o pó num ciclone. Eu via no interior da minha
mente, mas via poucas coisas, partindo de visões impressas nos meus
pensamentos, nos relatos que ia ouvindo, nos meus outros sentidos, o
meu mundo porém era curto, de casa para debaixo da figueira e desta
para casa.
Antes que viessem buscar-me, ao fim do dia, pensava na brisa, sentia
no olfacto o cheiro dos que saiam ou entravam na cidade. E o perfume

Página n.º 57

dos frutos e das flores, que se derramava generosamente da Natureza
em festa.
Raramente pensava na morte, era cego, para pensarmos na morte é
preciso ter referências exteriores, ver. E eu jamais vi fosse o que fosse.
Quando a minha irmã morreu, e senti no ar da casa o movimento para
levarem o esquife, o meu pensamento foi aritmético, dirigiu-se para a
quantidade dos meus irmãos, agora havia um número que ficara vazio,
e um nome apenas.
Continuei a minha carreira para junto da estrada, não ia contra nada,
talvez teimosamente contra o escuro, não ia nem contra a sociedade
que não podia cuidar de mim nem contra Deus, que estaria do lado da
Luz, mesmo que alguns me fossem dizendo “vês, esse castigo é
certamente pelos teus pecados, cada dia pesa mais”. Não havia nada
contra o que correr, só a escuridão em que respirava.
Confesso que gostaria de ver onde estava, há tantos anos, naquela
estrada, que me diziam ser como as estradas ladeadas por árvores. As
árvores todas, que são a alegria da terra. E aprendi se as árvores não
falavam comigo, era porque não havia vento.
Quando o meu pai me levava pela cidade e, depois, pela rua principal,
eu não podia ver, mas ao sentir os seus dedos a apertarem o meu
braço, sabia que me estava a proteger de alguma coisa que se
avizinhava, um cão vadio, algum caminhante desconhecido. Naquele
gesto tenho ainda hoje a dimensão, que parece pequena mas não é, do
amor do meu pai, do amor que gostaria de ver nos seus olhos quando
eu sabia que olhava para mim.
Se ele estivesse connosco no dia em que as notícias começaram a
correr, estou certo que me apertaria com mais força o braço, um sinal
para eu estar atento às novidades. Jericó estava a ponto de se tornar
diferente, um lugar de vários milagres.
Jericó é uma cidade média, os assentamentos das suas construções e
ruínas passadas provam-no, já foi um dia esfarrapada pelo toque
ensurdecedor das trombetas dos nossos pais, mas hoje cresce, tem
mármores, alonga-se para as margens do Jordão.
Leram-me um relato no Livro de Josué que houve uma maldição:
“Naquele tempo, Josué fez o povo jurar e dizer: Maldito diante do Senhor
seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó; com a
perda do seu primogênito lhe porá os fundamentos e, à custa do mais
novo, as portas”.
Ao que me contavam, esta profecia ter-se-ia cumprido à custa dos
homens, porque a cidade tornou-se bonita e atractiva, reconstruindose sobre os escombros das vidas, sobre o desrespeito ao Senhor Deus.

Página n.º 58

Jericó foi sempre uma cidade posto de fronteira e uma alfândega e
muita gente importante passava por ali a caminho de Jerusalém. Eu
achava que as suas vozes zumbiam, antes de se aproximarem de mim, e
então percebia o que vinham a dizer. As notícias chegavam, umas
preocupadas cada vez que a Festa da Pesach se aproximava, pelo
redobro dos legionários na província, outras construindo nos nossos
ouvidos momentos felizes dos outros, que eu não teria.
Um historiador antigo escrevera o que agora só consigo lembrar em
paráfrase, que Jericó era uma cidade encantadora, bordada de flores e
de laranjeiras que explodiam, periodicamente, em festa de perfume.
Rica em fontes e riachos, próxima do rio Jordão e de Jerusalém,
constituía um dos orgulhos da Judeia.
Eu, é claro, não podia notar isso, testava só pelo olfacto, vivi sempre
fechado na minha escuridão e tudo me parecia igual.
As janelas onde estavam instalados os meus olhos cegos, eram duas
cavidades orbitais bem formadas, quem não me conhecesse e olhasse
para as minhas pupilas podia ver um azul magoado, e como os olhos
estavam parados, perceberia que eu era cego.
Havia muitos anos que o nosso pai não saía de Jericó e tudo o que se
passava lá para cima, para a Judeia e mais longe ainda, a Galileia, lhe
passava muito alto. Algumas vezes o acompanhei, depois nunca mais,
quando a velhice o limitou.
A última vez que vi com vida o pai, foi há dez anos quando lhe apalpei o
rosto, redondo, as faces com rugas encovadas, tinham ângulos sob a
barba, e as minhas mãos afundaram-se na sua longa barba como se
mergulhassem na seda das águas da torrente do Jordão. A minha
memória descobriu, lá bem no fundo, uns versos que um dia me leram,
de um poeta judeu:
Morrerá como um figo morre no Outono, Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão, os ramos nus apontando para o lugar onde há
tempo para tudo.
Mas, nesse momento de lembranças, um vozear diferente ocupou os
meus ouvidos. Eu estava numa escuridão profunda mas não no
silêncio, podia ouvir distintamente e discernir o que quer que fosse que
estivesse a caminho de mim. Como naquele dia, a meio da tarde.
– Ouvi que esse homem vinha precedido de uma boa reputação –
dissera eu ao meu irmão Levi, que estava sentado ao meu lado,
recordando como o nosso pai gostaria de estar presente. – Filho de
David, é o que se diz por aí – acrescentou o meu irmão.
Nesse dia, a luz voltou aos meus olhos, do escuro lentamente para a
claridade. Quase como se estivesse a fugir de costas de um túnel de

Página n.º 59

escuridão, que estaria sem fim à minha frente, e era a Luz que estava
atrás de mim que me atraía.
Comecei a ver, primeiro por dentro e depois todas as formas e todos os
homens. Parece incoerente o que acabo de dizer, mas assim foi.

Página n.º 60

No sábado jantamos com Lázaro
- Enfim, eis que regresso a casa passados quatro dias – teria dito o
nosso amigo Lázaro, se tivesse alguma intuição sobre o espaço e o
tempo que o afastara da sua casa em Betânia. E o lugar onde estivera
retido. Mas tinha um buraco negro na memória.
Todas as coisas que ouvia, decorridas já algumas semanas, integravamse apenas no hiato, vago, com uma ligação esbatida entre um momento
antes e outro depois. Mesmo aquele último jantar de sábado em sua
casa, cujo convidado especial foi o Mestre, tratou-o simplesmente
como um acontecimento repetido, que já ocorrera noutras ocasiões. No
entanto, atribuía a esta ceia um sentido especial, porque estavam a
uma semana da festa da Pesach.
Não obstante, o que o nosso amigo Lázaro sabia era tudo o que os seus
conterrâneos contavam, e também o estado de permanente alegria e
assombro em que a sua família andava, os modos com que as suas
irmãs Marta e Maria o tratavam. Nesses dias, perante tantos afectos,
dava-lhe para pensar:
- «Estive doente, talvez seja por isso, com uma febre que me tirou o
conhecimento, mas sinto-me agora sem debilidades…»
Suspeitava, assim, que alguma coisa extraordinária acontecera. Ouvia
falar de uma ressurreição, de um regresso da morte, mas nada sabia
sobre esse portento. Vinha e ia gente, durante aquelas semanas, de
Jerusalém para Betânia, uma correria que somente a curiosidade
permitia entender. Os judeus da cidade, mais politizados, com
obrigações urbanas, instruções mais refinadas e cultura, olhavam para
Lázaro com os mesmos olhos cheios de espanto, um espanto quase
rural, como qualquer aldeão das margens do rio, todos procuravam
passar por Betânia, a propósito de qualquer tarefa.
- Esta gente olha para mim como se eu fosse de outro mundo. –
Retorquiu Lázaro a um companheiro, que aludira a como ele estava
famoso, mas que se remeteu, depois, a um silêncio mais
comprometedor que os olhares.
Continuava, no entanto, a pensar que toda aquela popularidade que de
repente alcançara, não seria mais do que o efeito do seu
relacionamento,
que
sentia
agora
ser
mais
profundo,
inexplicavelmente intenso, com Jesus Cristo.
- Diz-se, em Jerusalém, por entre dentes, que os principais dos
sacerdotes querem exercer represálias sobre ti, e também contra
esse a que vocês chamam Mestre – Segredou-lhe um vizinho, colega
de adolescência da cerimónia de profissão de fé chamada «BarMitsva».
Página n.º 61

- Parece que o acusam de uma situação absurda como é a de estar
vivo… – Voltaram-se e quem tinha falado era judeu gordo, de gestos
lentos e de olhar irónico, com um ar pegajoso que eles não conheciam
de Betânia, nem as restantes pessoas que estavam com ele.
Aquelas palavras foram ditas com um tom de intriga.
E Lázaro não conseguia atinar por que razão se dizia tudo isto.
- Fala-se até de morte, de tirar a vida a alguém, há pessoas a
atrapalhar os desígnios dos responsáveis eclesiásticos – escutou
Lázaro, mais do que uma vez, ao passar junto à sinagoga, num fim de
tarde em que as sombras já não tinham as formas definidas.
Assim corriam os dias do nosso amigo Lázaro, um cadáver que estivera
em decomposição, restaurado, revivificado, testemunho vivo de um
milagre do qual podiam participar, os crentes, os cépticos, os cultos e
os incultos.
Os que sabiam do Poder de Deus e os que teimavam em ver tudo isso
como um jogo de política religiosa. Bastava que o vissem ao longe, que
pousassem nele os olhos. Havia até um certo arrepio quando alguns
mais sensíveis passavam muito perto.
- Que esplêndido sinal divino que presenciamos! – Exclamara mesmo
uma piedosa mulher, por certo uma crente, batendo com a mão direita
no peito.
- Esse Jesus que o ressuscitou, deu provas de domínio sobre o
mundo dos espíritos, ao fazer voltar a alma de Lázaro – comentou,
com assombro, um amigo da família, habitante da cidade.
- E então, também não demonstrou ter domínio sobre a matéria? –
Contestou outro – Basta que olhemos para o corpo de Lázaro, é
como se nada de anormal tivesse passado por esse corpo – conclui o
mesmo, que era um reputado estudante das Escrituras.
Era disso que os principais, e, supostamente, mais argutos intérpretes
da Torah, tinham pavor. Um medo que passava nas conversas
religioso-políticas, que ia longe, em todos aqueles que foram
testemunhas, mas hostis.
Havia até quem ultrapassasse as próprias fronteiras da nação, na sua
dialéctica, quem fosse até à suposição do que poderia acontecer, se os
romanos soubessem.
A falta de uma explicação racional e humana para a magnitude desse
milagre, que fora dado a alguns deles presenciar, era um dos elementos
que constituíam o medo, quiçá a inveja por serem apenas testemunhas
e não amigos íntimos do Mestre, e, também, a impotência, porque não
tinham meios para anular com desmentidos o que os seus próprios
olhos viram. A ressurreição do nosso amigo Lázaro deixara o
sobrenatural inconsumível pela razão e inatingível pelo espírito

Página n.º 62

limitado dos homens, e passara para o domínio do facto, da realidade
que tinha substâncias, que se podia tocar.
Lázaro podia ser tocado, ainda que poucos tivessem coragem para o
fazer.
Abordavam-no pelo lado do olhar e do falatório.
A própria atmosfera do jantar de sábado, reflectia esse desconforto dos
habitantes de Betânia.
- No sábado jantamos com Lázaro – era o que alguns judeus vinham
dizendo.
Estava a ser uma notícia muito espalhada, que não disfarçava
suficientemente com naturalidade o sentimento de assombro, de
respeito, mesmo de temor, apesar de terem já passado muitas semanas
sobre o milagre da ressurreição.
Esse jantar recuava o tempo, viam-se, de novo, em frente a um sepulcro
com uma enorme pedra, e diante do corpo repentino do amigo Lázaro,
com vida, enfaixado, mas com vida, de pés atados, mas de pé.
Sobretudo, não deixavam de ver-se perante aquele nazareno, Jesus,
para o qual a morte jamais foi imodificável.

Página n.º 63

Sobre o autor

João Tomaz (do Nascimento) Parreira, Lisboa, 1947. Poeta. 6 livros
de poesia (Este Rosto do Exílio, 1973; Pedra Debruçada no Céu, 1975;
Pássaros Aprendendo para Sempre, 1993; Contagem de Estrelas, 1996;
Os Sapatos de Auschwitz, 2008; Encomenda a Stravinsky, 2011; e
Esperar que a voz seja suave, 2014. Um ensaio teológico (O Quarto
Evangelho - Aproximação ao Prólogo, 1988) e participação em
Antologias e prefácios em livros de poesia. Escreve na revista
evangélica «Novas de Alegria» desde 1964. Na juventude escreveu
poesia e artigos no suplemento juvenil do "República", entre 19701972, sob a direcção de Raul Rego. Está representado no Projecto
Vercial, a maior base de dados da literatura portuguesa.

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