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Para quem acompanha – por dever (e prazer) de ofício – a criação literária brasileira, a diversidade de nossa produção poética não chega a surpreender. São artistas consagrados e em plena atividade como João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Sebastião Uchoa Leite, e poetas da nova geração como Régis Bonvicino, Nelson Ascher, Duda Machado, Fred Barbosa, Arnaldo Antunes, Augusto Massi, Carlito Azevedo, Heitor Ferraz e Rodrigo Garcia Lopes – numa lista que peca por várias omissões. Há porém uma novidade neste cenário: o fato de que estes poetas estão se tornando cada vez mais familiares ao grande público, propiciando o crescimento desse segmento do mercado editorial. A necessidade de dar voz à produção poética vem abrindo espaço para novas publicações, voltadas especificamente para a poesia, como as revistas Inimigo Rumor (da editora carioca Sette Letras) e a paulista Azougue (já no quarto número). Mais do que isso: pequenas editoras como a Ateliê Editorial e a própria Sette Letras têm “ousado” publicar poetas novos, mostrando que, em momentos de crise (crise ética, crise da linguagem, crise de identidade, crise econômica), a cultura e a criação são a melhor forma de resistência. Resistência: não há outra maneira de explicar a permanência e o crescimento da literatura no seio do caos social, do inferno cotidiano. E ninguém melhor do que o poeta Ferreira Gullar, esse resistente da poesia, expressa tal paradoxo. Numa frase que nasce antológica, dita ao poeta Heitor Ferraz em nossa reportagem de capa, Gullar desabafa: “A coisa mais fácil na vida no mundo é ser pessimista, porque você vai ficar velho, broxa e vai

morrer. Além de estar cercado na cidade pela miséria, a exploração e a corrupção. O difícil é no meio de tudo isso afirmar a vida. E como eu gosto do difícil, eu não me dobro, não me entrego. É um esforço da consciência para enfrentar a barra”. Frase lapidar, profissão de fé na literatura, na palavra liberadora, libertária, que vê na ficção poética um sentido subversivo, um instrumento da mudança (ainda uma vez literatura como resistência) e uma razão para mudar (de que valeria um mundo sem poesia?). Por coincidência ou não, este terceiro número da CULT coloca Ferreira Gullar ao lado de outros subversivos da língua, como o anarquista William Burroughs (tema do ensaio de Rodrigo Garcia Lopes) e seus amigos beatniks, que incendiavam a Paris dos anos 50 (como mostra Leonor Amarante na seção Turismo literário, num delicioso passeio pelo hotel da rive gauche em que se hospedavam Gregory Corso, Allen Ginsberg e outros “carbonários”). Isso para não falar de Arnaldo Jabor, que no livro Sanduíches de

realidade (título aliás inspirado em comentário de Ginsberg sobre Burroughs

seus coquetéis molotov literários, artigos lapidados com raiva e virtuosismo, crônicas das mazelas brasileiras. No Dossiê, enfim, temos um exemplo do significado do imaginário ficcional para um país: há 50 anos surgia o primeiro movimento literário da Alemanha do pós-guerra, o Grupo 47, marcando uma sucessão de gerações que de Günter Grass e Heinrich Böll a Peter Handke e Botho Strauss, das ruínas do nazismo à reunificação, assinalam o papel fundamental da literatura como porta-voz de utopias que podem transformar a história. A CULT procura flagrar, portanto, diferentes momentos da persistência da literatura em tempos sombrios, assumindo o compromisso de ser um espaço de “afirmação” do poético – conforme a exigência de Ferreira Gullar.

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reúne

Manuel da Costa Pinto

de “afirmação” do poético – conforme a exigência de Ferreira Gullar. ) reúne Manuel da Costa

 

 
 

         
         

 

 

 

 

 

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POEMAS

DOIS POEMAS

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