AS MODAS / PAUTAS

in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
Coordenação Distrital de Beja
Ministério da Cultura
Direcção-Geral da Educação de Adultos
Arranjo gráfico das pautas de música: Paulo Barreto

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

2

Digitalização de Pautas de Música
https://www.youtube.com/watch?v=Rhl98H6nyns

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

AS MODAS / PAUTAS
IN LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
Coordenação Distrital de Beja
Ministério da Cultura
Direcção-Geral da Educação de Adultos
Arranjo gráfico das pautas de música: Paulo Barreto

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

3

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

4

FICHA TÉCNICA:
Título -- AS MODAS / PAUTAS, in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
Digitalização e organização – José Rabaça Gaspar
Créditos: Abílio Perpétua Raposo, Manuel Viegas Guerreiro, António Machado Guerreiro – Ministério da
Educação e Cultura – Direcção-Geral da Educação d Adultos – Coordenação Distrital de Beja,
1987
Local – Corroios
Data -- 2015 07

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

dedicatória

A todos os Amantes do CANTE
que, agora e no futuro, puderem e quiserem
estudar e fundamentar as raízes deste
PATIMÓNIO da HUMANIDADE
Desde 2014, Novembro

5

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

6

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

apresentação

para ir permitindo tentar ir completando
o imenso acervo musical do CANTE…
além das mais de setecentas PAUTAS MUSICAIS
já digitalizadas e divulgadas…
aqui apresento mais QUARENTA…
algumas são repetidas, como acontece com as que já foram divulgadas…
fica o desafio para que se possam detectar as que foram copiadas e repetidas…
e o grande desafio aos mais capazes para que possam se digitalizadas para áudio…
como já acontece com o notável trabalho que pode ver / ouvir:
http://wencesmc.web.interacesso.pt/delgado1.htm#Acom
ABRAÇO:
José Rabaça Gaspar
Corroios
2015 07

7

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

8

ÍNDICE
Texto de: Guadalupe de F. M. Apolinário Palma, ...............................................................11
Nota de: Abílio Perpétua Raposo .......................................................................................11
01 – AO ROMPER DA BELA AURORA ......................................................................................13
02 – Ó ERVA CIDREIRA ............................................................................................................14
FUI COLHER MARCELA ........................................................................................................15
FUI COLHER UMA ROMÃ ....................................................................................................15
Ó RAMA, Ó QUE UNDA RAMA ............................................................................................16
TRIGUEIRINHA ....................................................................................................................16
03 – OLIVEIRINHA DA SERRA ..................................................................................................17
04 – AO PASSAR A RIBEIRINHA ...............................................................................................18
A RIBEIRA VAI CHEIA ...........................................................................................................19
ENTÃO, PORQUE NÃO, PORQUE NÃO? ..............................................................................19
MENINA DA SAIA BRANCA..................................................................................................19
VILA NOVA DE FERREIRA ....................................................................................................20
05 – AI QUE PRAIAS ................................................................................................................21
06 – JÁ MORREU QUEM ME LAVAVA .....................................................................................22
07 – A ROUPA DO MARINHEIRO .............................................................................................23
08 – VAI COLHER A ROSA .......................................................................................................24
09 – LISBOA, LINDA LISBOA ....................................................................................................25
10 – PASSARINHO PRISIONEIRO .............................................................................................26
11 – Ó RAMA ..........................................................................................................................27
12 – ROSA BRANCA DESMAIADA ............................................................................................28
13 – A ROUPA DO MARINHEIRO .............................................................................................29
14 – ‘STAVA DE ABALADA .......................................................................................................30
Outra variante recolhida e publicada pelo P. Marvão ........................................................31
15 – TODA A BELA NOITE .......................................................................................................32
16 –Ó MINHA MÃE, MINHA MÃE ...........................................................................................33
AS CEIFEIRAS ......................................................................................................................34
17 – ADEUS, MARIANITA, ADEUS ...........................................................................................35
18 – ADEUS, Ó VILA DE SERPA ................................................................................................36
AURORA TEM UM MENINO ................................................................................................37
BARCO À VELA ....................................................................................................................37
19 – CARMEZITA, CARMEZITA ................................................................................................38
20 – O CERRO DA NEVE ..........................................................................................................39
CHAMASTE-ME EXTRAVAGANTE ........................................................................................39
21 – DIZES QUE SOU LAVADEIRA ............................................................................................40
22 – EU FUJO ..........................................................................................................................41

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

23 – EU OUVI, MIL VEZES OUVI ..............................................................................................42
24 – EU OUVI UM PASSARINHO .............................................................................................43
25 – EU SOU MARUJINHO, EU SOU ........................................................................................44
HÁ LOBOS SEM SER NA SERRA ...........................................................................................45
26 – LÁ VAI O BALÃO AO AR ...................................................................................................46
27 – A MACELA .......................................................................................................................47
MARIANITA FOI À FONTE ...................................................................................................48
MELANCOLIA DOS CAMPOS ...............................................................................................48
28 – MANINA ESTÁS À JANELA ...............................................................................................49
MEU LÍRIO ROXO ................................................................................................................50
MEU LÍRIO ROXO DO CAMPO .............................................................................................50
MONDADEIRA ALENTEJANA ...............................................................................................51
29 – NÃO É TARDE NEM É CEDO ............................................................................................52
NÃO QUERO QUE VAS A MONDA .......................................................................................53
30 – NASCE O SOL NO ALENTEJO ...........................................................................................54
31 – DE NOITE BATEM À PORTA .............................................................................................55
OLHA A NOIVA SE VAI LINDA! .............................................................................................56
32 – OS OLHOS DA MARIANITA ..............................................................................................57
33 – ROSA BRANCA DESMAIADA ............................................................................................58
QUE PRAIAS TÃO LINDAS....................................................................................................59
34 – SERPA DO ALENTEJO.......................................................................................................60
35 – TANTAS LIBRAS ...............................................................................................................61
TENHO BARCO, TENHO REMOS ..........................................................................................62
36 – TINHAS-ME TANTA AMIZADE .........................................................................................63
TRIGUEIRINHA ALENTEJANHA ............................................................................................64
TRISTE VIUVINHA................................................................................................................64
UMA FLOR QUE ABRIU EM MAIO .......................................................................................65
37 – VAI COLHER A SILVA .......................................................................................................66
VAMOS LÁ SAINDO .............................................................................................................67
38 – VERDE CARACOL .............................................................................................................68
39 – AO PASSAR A RIBEIRINHA ...............................................................................................69
[NOSSA SEMHORA DE AIRES] .............................................................................................70
O CANTE AO DESPIQUE ......................................................................................................71
40 – DESPIQUE – EU TENHO OUVIDO DIZER ..........................................................................73

Nota: Só os títulos numerados têm pauta musical

9

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

10

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
Da introdução de: AS MODAS, pp. 183 e 184
Texto de: Guadalupe de F. M. Apolinário Palma,
Professora destacada no C. E. B. do C. C. P. em Serpa.
«Aqui, neste Alentejo «sem sombras», de searas ondulantes, onde o pão tem o sabor do suor de quem
trabalha, há um povo que sente. E porque sente criou uma forma de cantar que, se não a mais bela, é
das mais belas do nosso país.
O cantar deste povo carrega consigo todo o labor do seu dia-a-dia. A dolência com que os corais o
interpretam está intimamente ligada com a vida do homem trabalhador. Na imensidão da planície... O
cansaço, o calor ardente do sol de Agosto ou a fria geada de Janeiro, a dor de trabalhar todos os dias e a
vida acabar em «nada»: A luta pelo pão, pela sobrevivência e... que mais?
Não é de estranhar que o canto alentejano seja dolente; ele é o reflexo do cansaço de quem o faz viver.
Quem escreveu os poemas que o Alentejo canta? Quem os musicou e obteve melodias tão belas?
Não procuremos nos meios intelectuais, não foi lá que eles nasceram. Mas no seio deste povo que, na
sua maioria analfabeto, tem consigo o dom natural de saber olhar a natureza e cantá-la.
Quando nasceu o canto alentejano? Que fontes o inspiraram?
Eis duas perguntas já inúmeras vezes feitas por inúmeras pessoas e para as quais ainda não se
conseguiram respostas concretas e que nos possam dar uma referência exacta. A sua antiguidade recua
tanto no tempo que não permite que se conheça com rigor a sua verdadeira origem.
Existe a hipótese de que estes cantares tenham sofrido uma certa influência árabe. Há ainda quem
defenda uma certa influência da ópera italiana no século XVIII e ainda a «hipótese de vestígios do canto
eslavo, fundamentada numa pretensa existência de famílias russas nas colónias de fenícios que
estiveram no litoral sul da costa portuguesa» (Apontamentos do Sr. PaIma).
No folclore alentejano só se encontram dois tipos de cantares:
-- A moda ou estribilho
-- A cantiga (quadra que -se «mete» na moda.
Os poemas que inspiram o cantar do povo têm a sua essência no quotidiano: o trabalho do campo, a
natureza e a relação existente entre os diversos elementos que a compõem: o amor, a saudade...
Umas vezes cada um destes temas aparece isolado mas, na sua maioria, conjugam-se, como se conjuga
tudo o que forma a vida.
Procurar mais palavras para definir esta manifestação deste povo seria um alongar (quem sabe!)
desnecessário.
Vamos, pois, apreciar a alma deste povo, através da sua voz...

Texto de: Guadalupe de F. M. Apolinário Palma,
Professora destacada no C. E. B. do C. C. P. em Serpa.
Da introdução de: AS MODAS, pp. 185 e 186
Nota de: Abílio Perpétua Raposo
Permitimo-nos acrescentar muito pouco ao que a professora de Serpa lucidamente e apaixonadamente
expôs.
Seja, por exemplo, podermos afirmar que as modas alentejanas sofreram durante décadas a
incompreensão de muita gente (há povoações onde foi proibido, ou pelo menos quase proibido, os
grupos cantarem), e que ultimamente, por felicidade e por justiça, há um renovar de interesse por este
modo de expressão. Sabemos da criação recente de alguns grupos corais (Alcácer do Sal, Colos,
Amoreiras, Baixa da Banheira); sabemos, pela voz de Michel Giacometti, que há nos arredores de Lisboa
22 grupos corais alentejanos e que também os há pelo mundo que os alentejanos povoam (França,
Alemanha, Luxemburgo, Suécia, Suíça, Estados Unidos).
O alentejano leva com ele o seu cantar mais querido, porque lhe lembra a terra, a família, os amigos,
porque lhe vai na alma, e talvez porque, embora inconscientemente, sinta que em nenhuma outra parte
do mundo seu conhecido encontra a arte melodiosa do seu cante, ao mesmo tempo singelo e profundo
-- e que, segundo a opinião de estudiosos, não tem igual no mundo e apenas encontra algum
paralelismo em certas áreas da extensa Rússia.

11

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

12

Acrescentaremos ainda um pormenor: o que há de extraordinário e maravilhoso em ouvir a execução
duma moda cantada por um grupo de homens que não conhecem uma nota de música, que
desconhecem a mais simples e rudimentar noção técnica de harmonia, entoando na perfeição, com
recolhimento e entusiasmo, a melodia que não tem pauta! Quem os ensinou? Ninguém. Aquele cantar é
instintivo. E natural. E é belo.
Registamos também uma opinião do PF António Marvão, expressa em «O Canto Popular Alentejano»,
Arquivo de Beja, IV, 1947: «Entre os centros onde bem se cultivam as nossas modas, tem para nós um
valor muito especial a Peroguarda, não porque no conjunto de vozes, na afinação ou na execução, se
avantaje a Serpa, Amareleja ou Aldeia Nova; o que verdadeiramente nos impressiona é a toadilha das
vozes, que mais parecem gemidos plangentes, tomando a cadência final de cada moda um volume
especial e surpreendente.»
Ilustram-se algumas modas com a respectiva pauta musical.
Não obtivemos mais, e foi pena. Parte delas são muito antigas. É bom assim, para que o antigo não se
perca. Quanto ao moderno, há boas perspectivas de que se vá multiplicando.
Repetimos as palavras finais da Professora Guadalupe Palma:
«Vamos, pois, apreciar a alma deste povo, através da sua voz...»

Nota de: Abílio Perpétua Raposo

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

01 – AO ROMPER DA BELA AURORA

AO ROMPER DA BELA AURORA
Moda
Ao romper da bela aurora,
Sai o pastor da choupana;
Vai dizendo, em altas vozes,
Muito padece quem ama.
Muito padece quem ama,
Muito mais de quem namora;
Sai o pastor da choupana,
Ao romper da bela aurora.
Beringel
Palavras do P. António Marvão, de quem é também a transcrição no Arquivo de Beja IV, 1947: «É para nós uma das mais castiças
modas alentejanas e das de maior valor quanto a antiguidade.

13

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

14

02 – Ó ERVA CIDREIRA

MODA
Ó erva cidreira
Mais a folha abranda
Que’stás na varanda,
Mais a folha cheira
Quanto mais se rega,
Que’stás na varanda,
Trai-la-rai
Trai-la-rai
Mais a folha abranda
Ó erva cidreira
Ai, Ai.
Ai, Ai.
«Com esta melodia recolhida em São Matias, com a letra: Ó Erva cidreira, confrontemos esta
outra, de Amareleja e vejamos a diferença que entre ambas existe:

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

15
FUI COLHER MARCELA

Moda
Eu fui colher marcela,
Da marcela marcelinha,
Lá nos campos, verdes campos,
Daquela mais miudinha.
Daquela mais miudinha,
Daquela mais amarela,
Lá nos campos, verdes campos,
Eu fui colher a marcela.
Castro Verde
Nota do colector: «Esta cantiga é a mais popular dos mastros de S. João e S. Pedro»
FUI COLHER UMA ROMÃ

Cantiga
Muito gosto eu de ouvir
Uma bonita conversa.
Mesmo que vagar não tenha,
Logo se me acaba a pressa.
Moda
Fui colher uma romã,
Estava madura no ramo.
Fui encontrar no jardim
Aquela mulher que eu amo.
Aquela mulher que eu amo,
Dei-lhe um aperto de mão.
Estava madura no ramo
E o ramo caiu no chão.
Castro Verde
Também cantada nos mastros.

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

16
Ó RAMA, Ó QUE UNDA RAMA
Cantiga
Por baixo das oliveiras
Não se pode namorar,
Que as folhas são miudinhas,
Não deixam passar o ar.
Moda
Ó rama, Ó que linda rama,
A rama da oliveira.
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira.
Que anda aqui na roda inteira,
Aqui, e em qualquer lugar,
O rama, Ó que linda rama,
A rama do olival.
Castro Verde
TRIGUEIRINHA
Cantiga
Ó olhos azuis,
Que já foram meus.
Agora são doutro...
Agora são doutro... (1)
Paciência. Adeus.
Moda
Trigueirinha de raça,
Quem te fez assim,
Ceifando os trigais,
Ouvindo os pardais,
Com pena de mim?
Eu por ti cantando,
Alegre e chorando,
Sem ter um desejo.
Linda trigueirinha,
Linda alentejana.
Dá cá um beijo.
Castro Verde
(1) A estrutura desta moda é um tanto estranha A cantiga é uma quadra a que se repete um
verso, para perfazer a quintilha, medida, aliás, pouco vulgar nas modas; isso não é impossível. O que se estranha a é que, na
própria moda, uma estrofe seja em quintilha e a outra em sextilha. Haveria lapso do informador?

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

17

03 – OLIVEIRINHA DA SERRA

Moda
Oliveirinha da serra,
Dá-lhe o vento, abana a rama.
Lá no sítio mais escuro
E que eu faço a minha cama.
É que eu faço a minha cama,
Na manhã de Primavera.
Dá-lhe o vento, abana a rama,
Oliveirinha da serra. (1)
Ferreira do Alentejo.
A transcrição da música e da letra é do P.° Marvão, ob. cit.
(1) Por nos parecer significativo das transformações que as modas podem sofrer,
transcrevemos a letra da moda cantada em Colos com o mesmo título:
Oliveirinha da serra,
O vento leva a flor.
Ó-i-Ó-ai.
Só a mim ninguém me leva (bis)
Ó-i-Ó-ai,
Para ao pé do meu amor.

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

18

04 – AO PASSAR A RIBEIRINHA

Moda
Ao passar a ribeirinha,
Pus um pé, molhei a meia.
Não casei na minha terra,
Ó ai,
Fui casar em terra alheia.
Fui casar em terra alheia
E não fui casar na minha.
Pus um pé, molhei a meia,
Ó ai,
Ao passar a ribeirinha.
Peroguarda
Transcrição de letra e de música do P. Marvão, trabalho citado.
(1) Veja-se adiante a mesma moda cantada na Vidigueira.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

19
A RIBEIRA VAI CHEIA

Moda
A ribeira vai cheia
E o barco não anda.
Tenho o meu amor
Lá daquela banda.
Lá daquela banda,
Eu cá deste lado;
A ribeira vai cheia
E o barco parado.
Ferreira do Alentejo
ENTÃO, PORQUE NÃO, PORQUE NÃO?

Moda
Então, porque não, porque näo?
Então, porque não hei-de ir?
A ladeira do castelo
É alta, má de subir.
E alta, má de subir,
E alta má de baixar.
Já morreu o meu amor,
Já não há quem saiba amar. (bis)
Peroguarda

MENINA DA SAIA BRANCA

Moda
Menina da saia branca
Foi passar ao apeadeiro;
Apertou a mão ao chefe,
Pensando que era solteiro.
Pensando que era solteiro...
Enganou-se. Era casado.
Menina da saia branca,
Do «cachiné» encarnado.
Peroguarda

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

20
VILA NOVA DE FERREIRA

Moda
Vila Nova de Ferreira
Tem uma fonte à entrada,
Não é como a de Almodôvar;
Que bebe água enxovalhada.
Bebe água enxovalhada
Para não morrer à sede.
Não a vilas que eu mais goste
Que é de Ourique e Castro Verde.
Que e de Ourique e Castro Verde,
Não falando na Salvada.
Para não morrer à sede
Bebe água enxovalhada.
Bebem água enxovalhada,
Toda cheia de poeria.
Tem uma fonte à entrada
Vila Nova de Ferreira.
Ferreiro do Alentejo
Cantava-se em Colos esta moda, com algumas variantes na letra, há mais de 50 anos. (1986)
Repare-se que é das poucas modas com quatro quadras na letra e que, de quadra para quadra
há apenas uma dobra: o último verso da quadra é o primeiro da quadra que se lhe segue.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

05 – AI QUE PRAIAS

Moda
Ai que praias tão lindas, tão belas,
Era meia-noite, eu estava a sonhar,
Assentado num barco, mais elas,
Namorando ao fresco luar.
Amareleja.
Nota do P Marvão, ob. cit.: «É uma das mais conhecidas e mais cantadas no Alentejo. O oitavo
compasso apresenta-nos um exemplo de três vozes, constituídas pelo alto, segundas vozes e
baixo. Este raras vezes aparece (...).»
A transcrição da letra e da música são também do mesmo autor, no mesmo artigo.

21

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

22

06 – JÁ MORREU QUEM ME LAVAVA

Moda
Já morreu quem me Iavava,
Minha rica Iavadeira!
Deixava a roupa de neve,
Naquela fresca ribeira.
Amareleja,
Transcrição de letra e música do P.A. Marvão, art. citado.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

07 – A ROUPA DO MARINHEIRO

Moda
A roupa do marinheiro
Não é lavada no rio:
É lavada no mar alto,
À sombra do seu navio.
À sombra do seu navio,
À sombra do seu vapor.
Não é lavada no rio
A roupa do meu amor.
Amareleja
Transcrição de letra e música do P. Marvão, art. citado.

23

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

24

08 – VAI COLHER A ROSA

Moda
Vai colher a rosa,
Vai colhê-la, vai,
Se ela te picar,
Não digas ai, ai.
Não digas ai, ai,
Não dias ai, ui;
Vai colher a rosa,
Vai, que eu também fui.
Amareleja.
Recolha de letra e música do P.' A. Marvão, trabalho citado.
Nota: Na década de 30 cantava-se esta moda em Colos, mas com certas diferenças. Não temos a música, mas a letra mostra-as:
Vai panhá-Ia rosa.
Vai panhá-la vai,
Se ela te picar
Não digas ai, ai.
E ora vai. E ora vai.
Não digas ai, ai,
Não digas, ui, ui,
Vai panhá-la rosa,
Vai. que eu também fui.

No fim do século passado cantava-se em Serpa ainda de outra maneira, como adiante se pode verificar.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

09 – LISBOA, LINDA LISBOA

25

Recolha de A. Machado Guerreiro
Transcrição de Francisco Antunes Domingos
Cantiga
Nem de chorar sou senhor,
Que me procuram por quẽi.
Choro de noite, na cama;
Às escuras ninguém vẽi.
Moda
Lisboa, linda Lisboa,
és a nossa capital,
Donde embarcam-nos soldados
Prás terras do Ultramar.
Pràs terras do Ultramar,
Deixando esta vida boa.
És a nossa capital,
Lisboa, e Ó linda Lisboa.
Colos, 1963

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

26

10 – PASSARINHO PRISIONEIRO

Recolha de A. Machado Guerreiro
Transcrição de Francisco Antunes Domingos
Cantiga
Toma lá meu coração;
Se o queres matar, podes.
Olha que estás dentro dele,
Se o matas também morres.
Moda
Passarinho prisioneiro,
Diz-me lá quem te prendeu.
Pela tua liberdade
Eu, cantando, peço a Deus.
Eu, cantando, peço a Deus
Pra livrar teu cativeiro.
Diz-me lá quem te prendeu,
Passarinho prisioneiro.
COLOS, 1963

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

11 – Ó RAMA

Moda
Ó rama, oh que linda rama,
Ó rama da oliveira!
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui, na brincadeira.
Que anda aqui, na brincadeira,
É mentira, não é tai.
Ó rama, oh que linda rama,
Ó rama do olival.
Colos.
O P. Marvão publicou esta recolha em 1947. Obteve-a. Portanto, antes. A letra que, recentemente,
obtivemos em Castro Verde tem pequenas diferenças e é, segundo nos parece. a que os profissionais da
canção utilizam e a radiodifusão e a televisão difundem. Repare-se que a antiga, que pensamos ser e do
povo, rima «oliveira» com «brincadeira» e «é mentira. não é tal» com a «rama do olival». A mais
recente, nos mesmos lugares, tem «oliveira» e «roda inteira», «lugar» a rimar com «olival». Ressalvando
a nossa ignorância na matéria, atrevemo-nos a pensar que a versão moderna não beneficiou nem a rima
nem a harmonia. Caso semelhante se verifica nas diferenças da moda Ao passar a ribeirinha, isto é. a
forma tradicional não beneficia nada com o arranjo da forma moderna. Se, como pensamos, se trata de
intromissão da música erudita na música antiga. Tradicional, popular, perece-nos que seria desejável
que a intromissão não se alargasse a outras modas alentejanas.

27

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

28

12 – ROSA BRANCA DESMAIADA

Recolha de A. Machado Guerreiro
Transcrição de Francisco Antunes Domingos
Cantiga
Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes.
Só me inveja de quem bebe
Água de tão boas fontes.
Moda
Rosa branca, desmaiada,
Onde deixastes o cheiro?
Deixei-o no teu jardim,
A sombra do limoeiro.
À sombra do limoeiro,
Onde não seja regada.
Onde deixastes o cheiro,
Roda branca, desmaiada?
Colos, 1963

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

13 – A ROUPA DO MARINHEIRO

29

Recolha de A. Machado Guerreiro
Transcrição de Francisco Antunes Domingos

Cantiga
Q cantar parece bẽi,
E uma coisa bonita,
Não empobrece ninguẽi,
Assim como não enrica.
Moda
A roupa do marinheiro
Não é lavada no rio:
É lavada no mar alto,
A sombra do seu navio.
A sombra do seu navio,
A sombra do seu vapor.
Não é lavada no rio
A roupa do meu amor.
Colos. 1933
Pode comparar-se com a versão da Amareleja.

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

30

14 – ‘STAVA DE ABALADA

Recolha de A. Machado Guerreiro
Transcrição de Francisco Antunes Domingos

Cantiga
Quando eu não tinha,
Desejava ter
Uma hora, no dia,
Meu bem, pra te ver.
Moda
'Stava de abalada
Lá pró meu montinho;
Saiu-me uma rosa
Dançando ò caminho.
Como ela é linda,
Como é formosa;
Dançando, ò caminho,
Saiu-me uma rosa.
Colos, 1963

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
Outra variante recolhida e publicada pelo P. Marvão

Moda
'Stava de abalada
Lá pró meu montinho;
Saiu-me uma rosa
Dançand’ò caminho.
Como era linda,
Como era formosa;
Dançand’ò caminho,
Saiu-me uma rosa.

31

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

32

15 – TODA A BELA NOITE

Cantiga
Ó alta faia sombria,
Se vires passar meu bem,
Diz-lhe qu'eu sou amado,
Mas não lhe digas de quem.
Moda
Toda a bela noite eu 'stive
Com o pensamento em ti;
Só tu, agora, meu amor,
Já te não lembras de mim.
Colos.
Recolha do P. Marvão, ob. cit

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

16 –Ó MINHA MÃE, MINHA MÃE
[(Gravação obtida posteriormente (1963)]

Cantiga
Ó minha mãe, minha mãe,
Ó minha mãe, minha amada:
Quem tem uma mãe tem tudo,
Quem não tem mãe não tem nada.
Moda
Toda a bela noite que eu ando,
Lindo amor, pensando em ti.
Só tu, ingrata, amante doutro,
Não te recordas de mim.
Não te recordas de mim,
Nem de mim te recordais (1).
Toda a bela noite que eu ando
Dando suspiros e ais.
(1) Nem Colos, nem todo o Baixo Alentejo usa a segunda pessoa do plural. O emprego dela,
aqui, significa que a letra está deturpada. Antigamente estes três últimos versos, eram:
«Já te não lembras, não, não / Toda a bela noite que eu ando / Pensando em teu coração.»

33

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

34
AS CEIFEIRAS

A seara é longe,
Vamo-nos embora.
Já não tarda muito
O raiar d'aurora.
A seara dança
Ao sabor do vento
E faz ondas d'oiro
No seu movimento.
Já esta na hora.
Vamos começar.
Como é bela a arte
De saber ceifar!
Da terra fecunda
Ceifamos o pão
Que os homens cultivam
Com dedicação.
O Sol vai a pino,
Queima-nos o rosto.
Já escorre o suor.
Quem dera o sol-posto!
São um grande alívio,
Na tarde deserta,
As nossas enfusas,
Quando a sede aperta.
E, ao pôr-do-sol.
Que grande alegria!
Da faina da ceifa
Passou mais um dia.
Voltamos a casa,
De foices no braço.
E as balsas transportam
O nosso cansaço.
Canção alegre, de acordeão, estreada pelo Grupo ORIGEM
Maria Joaquina Rebelo Rosa, 18/2/1981, Panóias

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

17 – ADEUS, MARIANITA, ADEUS

Moda
Adeus, Marianita, adeus!
Ai!
Já me despeço de ti.
Que eu vou pra Lourenço Marques,
Ai!
Não sei que será de mim.
Não sei que será de mim,
Ai!
De mim não sei que há-de ser!
Adeus, Marianita, adeus.
Ai!
Saudinha, até mais ver.
Serpa. Pauta da revista A Tradição

35

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

36

18 – ADEUS, Ó VILA DE SERPA

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
Ó Serpa, pois tu não ouves
Os teus filhos a cantar?
Enquanto os teus filhos cantam,
Tu, Serpa, deves chorar.
Moda
Adeus, Ó vila de Serpa.
Saudades, quem as não tem?
Dentro das tuas muralhas.
Há uma rosa a quem quero bem.
Adeus, Ó velho castelo,
Companheiro do luar.
Quem me dera já lá ir, _ bis
Para me ouvires cantar.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA
AURORA TEM UM MENINO

37

Cantiga
Uma mãe que um filho embala,
Ó meu lindo amor,
As vezes põe-se a chorar,
Ó meu lindo amor,
Ó meu lindo bem,
Só por não saber a sorte,
O meu lindo amor,
Que Deus tem para lhe dar.
O meu lindo amor,
Ó meu lindo bem.
Moda
Aurora tem um menino,
Mas tão pequenino,
Q pai quem será?
E o Zé da Daroeira,
Que foi prà Figueira,
Mais tarde virá.
No adro de S. Vicente,
Onde há tanta gente,
Aurora não está.
Cala-te, Aurora, não chores,
Que o pai da criança
Mais tarde virá.
Serpa
BARCO À VELA

Cantiga
Lá no meio daqueles mares
Ouvem-se grandes gemidos.
São os tristes marinheiros
Quando se vêem perdidos.
Moda
Já lá vem o barco à vela,
Só o meu amor não vem.
Não se lembra, aquele ingrato,
Duma rosa que cá tem.
Duma rosa que cá tem,
Duma rosa tão bonita.
Já lá vem o barco à vela,
Só o meu amor lá fica.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

38

19 – CARMEZITA, CARMEZITA

Moda coreográfica
Carmezita, Carmezita,
Carmezita da lembrança!
Anda, vem dançar ao meio
Uma linda contradança.
Uma linda contradança,
Anda, vem dançar ao meio!
Carmezita, Carmezita,
Anda, não tenhas receio.
Serpa
Pauta musical da revista A Tradição
[Dança(?J

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

20 – O CERRO DA NEVE

39

Moda
Todas as bem-casadinhas
Vão par'ö Cerro da Neve...
Eu também pra lá hei-de ir,
Antes que a morte me leve.
Antes que a morte me leve,
A mim, mais ao meu amor.
Eu também pra lá hei-de ir,
Ó meu Deus, ó meu Senhor.
Serpa
Pauta publicada em A Tradição
Ano III – Nº 7, Julho 1901, pp. 104 e 105, letra p. 106
CHAMASTE-ME EXTRAVAGANTE

Cantiga
Toda esta noite, eu caminho
Por estradas tão medonhas,
Sempre sonhando contigo;
Só tu comigo não sonhas.
Moda
Chamaste-me extravagante
Por eu ter uma noitada:
Eu sou rapaz brilhante,
Recolho de madrugada.
Recolho de madrugada,
Mesmo agora, neste instante.
Por eu ter uma noitada
Chamaste-me extravagante.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

40

21 – DIZES QUE SOU LAVADEIRA

Descante
Dizes qu'eu sou lavadeira, /
Que ando no mar a lavara. / bis
Eu passo uma vida alegre/
Na ribeira, a namorara. / bis
Na ribeira a namorara /
É que eu passo o meu bom tempo / bis
Desejava, amor, saberá /
Qual era o teu pensamento. / bis
Serpa
Pauta musical da Revista A Tradição

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

22 – EU FUJO
Moda coreográfica

Vai o barco à vela.
Moda
Ó meu lindo amor, /
Eu fujo! /
Pelo mar abaixo /
Vou a ser marujo! / bis
Vou a ser marujo! /
Mais ela. / bis
Pelo mar abaixo /
Vai o barco à vela. / bis
M. Dias Nunes, Serpa.
Letra e música publicadas na Revista A Tradição, Serpa

41

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

42

23 – EU OUVI, MIL VEZES OUVI

Moda
Eu ouvi, mil vezes ouvi,
Lá no campo rufar os tambores...
Das janelas, me chamam-nas moças:
-- Já lá vou, já lá vou, meus amores! (1)
M. Dias Nunes
Música e letra publicadas na Revista A Tradição, 1902, Serpa.
(1) Variante, também de Serpa:

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

24 – EU OUVI UM PASSARINHO

43

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de S. Leonardo Freitas Barros
Moda
Quando o rouxinol padece,
Uma ave tão pequena,
Que fará meu coração,
Coberto de tanta pena?
Ao romper da bela aurora,
Eu ouvi o passarinho
Lamentar sua desgraça,
Poisado nesse raminho.
Poisado nesse raminho,
Olhando para quem passa,
Eu ouvi o passarinho
Lamentar sua desgraça.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

44

25 – EU SOU MARUJINHO, EU SOU
(Moda coreográfica)

Eu sou, marujinho, eu sou
Contramestre do navio.
Esta noite dormi eu
Na rua, a tremer com frio.
Na rua, a tremer com frio,
À porta do meu amor.
Eu sou, marujinho, eu sou
Contramestre do vapor (1).
Doce limão,
Branco luar...
Oh! que lindas damas
Para namorar.
Doce limão,
Verde limão.
Hó que lindas damas
Do meu coração.
Letra e música publicadas em A Tradição; Serpa, 1904.
(1) Em Colos a moda cantava-se só com as duas quadras septissílábicas, e a cantiga naturalmente.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

45
HÁ LOBOS SEM SER NA SERRA

Cantiga
O homem nunca devia
Sua existência acabar,
Nem nunca se fazer velho,
Para sempre namorar.
Moda
Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia.
Debaixo do arvoredo
Trabalho com valentia.
Trabalho com valentia,
Cada qual na sua terra.
Eu ainda não sabia,
Há lobos sem ser na serra.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

46

26 – LÁ VAI O BALÃO AO AR

Moda
Lá vai o balão ao ar!
Se ele vai, deixai-o ir!
Ajuntem-se as moças todas
Para verem o balão subir.
Para verem o balão subir,
Para verem o balão baiar.
Ausentou-se o meu amor,
Já não há quem saiba amar. (1)
M. Días Nunes.
Letra e música publicadas em A Tradição, Serpa, 1902.
(1) Variante em Colos.
Jogui o balão, à ar,
Jogui-o, deixá-Io ir.
Ai!
Juntaram-se as moças todas
Pra verem-no balão subir.
Pra verem-no balão subir.
Pra verem-no balão baixar.
Ai!
Jogui-o, deixá-lo ir.
Jogui o balão ó ar.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

27 – A MACELA

47

(Moda coreográfica)

Moda
Eu hei-de ir colher macela, /
Da macela, a macelinha, / bis
Lá nos campos, verdes campos, /
Daquela mais miudinha. /bis
Daquela mais miudinha. /
Daquela mais amarela. / bisS
Lá nos campos, verdes campos, /
Eu hei-de ir colher macela. / bis
M. Dias Nunes
Serpa. Da revista A Tradição, 1900
Moda vulgarizada, nos últimos tempos, pela rádio e pela TV.

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

48
MARIANITA FOI À FONTE

Moda
Marianita foi à fonte
E a cantarinha quebrou.
Ah! Ah! Q meu lindo bem!
Ah! Ah! O meu lindo amor.
Marianita não tem culpa,
Culpa tem quem na mandou.
Ah! Ah! Ó meu lindo bem!
Ah! Ah! Ó meu lindo amor.
Serpa
MELANCOLIA DOS CAMPOS

Cantiga
O Alentejo é que é
O celeiro da nação.
Nós somos alentejanos,
Sorrindo, ceifando,
Somos da terra do pão.
Moda
Melancolia dos campos!
Oiço o meu amor cantar
Debaixo do sol ardente,
Sorrindo, ceifando,
Até o dia findar.
Até o dia findar.
Alegria para a gente.
Oiço o meu amor cantar,
Sorrindo, ceifando,
Debaixo do sol ardente.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

49

28 – MANINA ESTÁS À JANELA

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
Já com esta são três vezes /
Que aqui passo à tua rua, / bis
Sempre com a porta fechada: /
Não sei que vida é a tua! / bis
Moda
Menina, estás à janela
Com o teu cabelo à lua,
Não me vou daqui embora
Sem levar uma prenda tua.
Sem levar uma prenda tua.
Sem levar uma prenda dela,
Com o teu cabelo à lua
Menina, estás à janela.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

50

MEU LÍRIO ROXO

(Esta é a moda mais difícil de cantar) (Nota do informador)
Cantiga
Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
-- Meu lírio roxo -Sai o pastor da choupana,
Gritando, em altas vozes:
Muito padece quem ama.
-- Meu Iírio roxo -Muito padece quem ama.
Moda
Badajoz tem lindas damas,
Portugal também as tem
-- Meu Iírio roxo -Chirlo, birlo, birlo,
Para amar meu bem.
Serpa
MEU LÍRIO ROXO DO CAMPO

Cantiga
Suspirava p'ra te ver,
Já matei a saudade.
Muito custa uma ausência,
Ai, ai,
P'ra quem ama na verdade.
Moda
Meu Iírio roxo do campo,
Criado na Primavera:
Desejava, amor, saber,
Ai, ai,
A tua intenção qual era.
A tua intenção qual era.
Desejava, amor, saber,
Meu Iírio roxo do campo,
Ai, ai,
Quem te pudesse colher! (1)
Serpa
(1) Variante: Oh! Quem te tosse colher.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

51
MONDADEIRA ALENTEJANA

Cantiga
Na campina alentejana,
Cantando, à sua maneira,
Cantigas aos seus amores,
Linda moça mondadeira.
Moda
Mondadeira alentejana,
Lenço de todas as cores,
Vai mondando, vai cantando
Cantigas aos seus amores.
Um dia mais tarde, quando
Chega a ceifa, que alegria!
Vai ceifando, vai cantando,
Passa mais depressa o dia.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

52

29 – NÃO É TARDE NEM É CEDO

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
Ó luar da meia-noite /
Não venhas cá ao serão, / bis
Que as meninas de hoje em dia /
Querem escuro e luar não. / bis
Moda
Não é tarde nem é cedo, /
Chegaste mesmo a boa hora: /
O meu pai já está deitado, /
Minha mãe deitou-se agora. / bis
Eu ia pela rua /
Quando ouvi: pst!, pst! / bis
Eu logo respondi: /
Estou aqui! Estou aqui! (1) / bis
Serpa
(1) Este verso pode ser substituído por assobio, respeitando a música da moda.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

53
NÃO QUERO QUE VAS A MONDA

Cantiga
A paixão não tem limites:
Dura enquanto a vida dura.
Tudo o que nasce na alma
Só tem fim na sepultura.
Moda
Não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar.
Só quero que me acompanhes
No dia em que me casar.
No dia em que me casar
Hás-de ser minha madrinha.
Não quero que vás à monda
Nem à ribeira sozinha.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

54

30 – NASCE O SOL NO ALENTEJO

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
Algum dia em tendo sede,
Ia beber ao teu monte.
Agora, passo de roda,
Vou beber a outra fonte.
Moda
Nasce o sol no Alentejo,
Nasce água clara na fonte
Nasce em mim a saudade
Na ladeira do teu monte.
Na ladeira do teu monte,
Meu amor quando te vejo,
Nasce água clara na fonte,
Nasce o sol no Alentejo.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

31 – DE NOITE BATEM À PORTA

55

Descante
De noite batem à porta:
Ó filha, vai ver quem é.
Se for teu amor primeiro,
Vai aquecer o café.
Vai aquecer o café,
Vai aquecer o ch'coIate.
De noite batem à porta:
Ó filha, vai ver quem bate.
Serpa
Pauta musical da revista A Tradição

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

56
OLHA A NOIVA SE VAI LINDA!

Cantiga
Compadre, já te casaste,
Já o laço te apanhou.
Deus queira que sempre digas:
Se bem estava, melhor estou.
Moda
Olha a noiva, se vai linda
No dia do seu noivado!
Também eu queria ser,
Também eu queria ser,
Também eu queria,
Também eu queria ser casado.
Ser casado e ter juízo,
Acho que é bonito estado.
Também eu queria ser,
Também eu queria ser,
Também eu queria,
Também eu queria ser casado.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

57

32 – OS OLHOS DA MARIANITA

Moda
Os olhos da Marianita /
São verdes, cor de limão. / bis
Ai! sim, Marianita, ai! sim... /
Ai! não, Marianita, ai! não... / bis
M. Dias Nunes
Letra e música publicadas em A Tradição, Serpa, 1989.
Esta moda está divulgada por todo o país

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

58

33 – ROSA BRANCA DESMAIADA

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
A rosa, depois de seca,
Foi-se queixar ao jardim.
Respondeu-lhe o jardineiro:
Tudo no mundo tem fim.
Moda
Rosa branca desmaiada,
Onde deixaste o cheiro?
Deixei-o no teu jardim,
A sombra do limoeiro.
À sombra do limoeiro.
Onde não seja regada.
Onde deixaste o cheiro,
Rosa branca, desmaiada?
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

59
QUE PRAIAS TÃO LINDAS

Cantiga
Ó luar bisbilhoteiro,
Não me venhas espreitar
Quando estou com meu amor
No barquinho, a navegar.
Mota
Que praias tão lindas, tão belas
Era meia-noite, estava a sonhar,
Assentado no barco, mais ela,
Namorando à beira do mar.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

60

34 – SERPA DO ALENTEJO

Recolha da Coordenação Distrital de Beja
Transcrição de J. Leonardo Freitas Barros
Cantiga
Cantigas de Serpa são /
Palmos de trigo nascendo, / bis
São bocadinhos de pão /
Que só nos sobram em morrendo. / bis
Moda
Ó Serpa do Alentejo,
És minha terra natal.
És das vilas mais antigas
Que temos em Portugal.
Que temos em Portugal,
Das terras que eu mais invejo.
Es minha terra natal,
Ó Serpa do Alentejo.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

35 – TANTAS LIBRAS
Moda coreográfica

Tantas libras e eu tão livre delas,
Amarelas, são de cavalinho;
São leais ao meu amor,
São leais ao meu benzinho.
São leais ao meu benzinho,
São leais ao meu amor;
Tantas libras e eu tão livre delas,
Amarelas, oh! que linda cor.
Letra e música publicadas n'A Tradição, Anno V – Nº 5 Serpa, Maio 1903, volume V
Letra p. 68, pauta musical p. 69

61

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

62
TENHO BARCO, TENHO REMOS

Cantiga
Quem embarca, quem embarca?
Quem vem para o mar, quem vem?
Quem embarca, quem embarca?
Olé, menina, olé!
Quem vem para o mar, quem vem?
Quem embarca nos teus olhos,
Que linda maré que tem!
Que linda maré que tem!
Quem embarca nos teus olhos,
Olé, menina, olé,
Que Iinda maré que tem!
Moda
Tenho barco, tenho remos,
Tenho navios no mar,
Tenho um amor tão catita,
Olé, menina, olé!
Não mo deixam namorar.
Não mo deixam namorar,
Não me deixam comparecer.
Se com ela não casar,
Olé, menina, olé,
Com outra não há-de ser.
Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

36 – TINHAS-ME TANTA AMIZADE
Moda coreográfica

TINHAS-ME TANTA AMIZADE
Tinhas-me tanta amizade,
Que me querias sustentara...
Abalaste para Lisboa
E eu cá fiquei a chorara.
Eu cá fiquei a chorara,
Chorava duma paixão.
Abalaste para Lisboa,
Lindo amor do coração.
Pauta musical da Revista A Tradição, Serpa

63

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

64
TRIGUEIRINHA ALENTEJANHA

Cantiga
É tão linda a minha terra!
Ela lá e eu aqui.
Os anjos do céu me levem ,
Par'à terra onde nasci.
Moda
É tão lindo ver no campo,
Tão lindo...
Trigueirinha alentejana:
Numa mão levas a foice,
Noutra, canudos de cana.
Com teu trajo a camponesa,
Tão lindo...
Com o teu chapéu ao lado,
Cantando lindas cantigas,
Ceifando
As espigas do pão sagrado.
Serpa
TRISTE VIUVINHA

Moda
-- Triste viuvinha,
Que fazes tu lá dentro?
-- Estou fazendo os bolos
Para o nosso casamento.
Não te quero a ti,
Nem a ti também!
Só te quero a ti,
Lindo amor, és o meu bem!
Da Revista A Tradição, Serpa

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

65
UMA FLOR QUE ABRIU EM MAIO

Cantiga
Entre papoilas, no campo,
Es a rainha das flores,
Ceifeira de olhos negros,
Senhora dos meus amores.
Moda
Uma flor que abriu em Maio,
Se bem abriu, bem fechou.
Um amor que tanto amava
Gavou-se que me deixou.
Gavou-se que me deixou,
Abram-se as portas que eu saio.
Se bem abriu, bem fechou,
Uma flor que abriu em Maio.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

66

37 – VAI COLHER A SILVA
Moda coreográfica

VAI COLHER A SILVA
Vai colhê-la (1) silva,
Vai colhê-la, vai
Se a fores colhera (2),
Não digas - ai! ai!
Não digas - ai! ai!
Não digas - ui! ui!
Vai colhê-la silva,
Vai, que eu também fui.
Dias Nunes, A Traição, Serpa, 1899 (3).
(1) A fala popular dá a um infinito verbal seguido de artigo o mesmo tratamento que ao infinito seguido
de pronome.
(2) O infinito seguido de um a paragógico é forma característica de algumas regiões do Baixo Alentejo.
(3) Esta moda foi a predilecta do povo serpense, durante o Carnaval. Em andamento alegro, dança-se ao
meio, nos bailes de roda.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

67
VAMOS LÁ SAINDO

Cantiga
Eu não sei, amor,
Como t'hei-de amar,
Que o mundo não tenha
De nós que falar.
Moda
Vamos lá saindo
Por esses campos fora,
Que a manhã vem vindo
Dos lados da aurora.
Dos lados da aurora
A manhã vem vindo.
Por esses campos fora
Vamos lá saindo.
Serpa

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

68

38 – VERDE CARACOL

Moda
Verde caracola (1),
Minha rica pomba!
Eu ando contigo
Do sol pra sombra.
Do sol prà sombra,
Da sombra prò sola.
Minha rica pomba,
Verde caracola.
Serpa.
(1) Também característica da região de Serpa, entre outras do Baixo Alentejo é a posição deste
a paragógico, como que para apoio da consoante final.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

39 – AO PASSAR A RIBEIRINHA

Moda
Ao passar da ribeirinha,
Pus um pé, molhei a meia.
Não casei na minha terra,
Fui casar em terra alheia.

69

Fui casar em terra alheia,
E não quis casar na minha.
Pus um pé, molhei a meia,
Ao passar da ribeirinha.

Letra e música publicadas pelo P. Marvão, trabalho citado. Vidigueira.
Nota:
Tanto esta versão como a de Peroguarda foram publicadas no Arquivo de Beja, pela mesma altura, pelo P. António Marvão. Há
pequenas diferenças na letra (Vidigueira não canta o «Ó ai›» e na música. Mas nenhuma das versões apresenta a triplicação do
segundo e do quarto verso das quadras, como se ouve na rádio e na televisão, cantadas por cançonetistas profissionais, com o
arranjo (?) que parece estar na linha das composições desta década e da anterior, em que certas frases ou versos se repetem até à
saturação de quem os ouve. Aqui, por exemplo, o arranjo (?) resulta assim, pouco mais ou menos:
Ao passar da ribeirinha
Pus o pé, molhei a meia,
Pus o pé, molhei a meia,
Pus o pé, molhei a meia,
Não casei na minha terra,
Fui casar em terra alheia,
Fui casar em terra alheia,
Fui casar em terra alheia.
Fui casar em terra alheia,
Podendo casar na minha,
Podendo casar na minha,
Podendo casar na minha,
Pus o pé, molhei a meia,
Ao passar da ribeirinha,
Ao passar da ribeirinha,
Ao passar da ribeirinha.
Não será caso para dizer que o poeta popular foi mais simples e menos impertinente que o poeta erudito?

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

70
[NOSSA SEMHORA DE AIRES]

Moda
Ó Virgem Senhora de Aires,
Ó santa das mais formosas:
Transformai o meu viver
Em linda estrada de rosas.
Fui ver a Senhora de Aires
E rezar-lhe a ladainha:
Fui solteira e vim casada,
Foi milagre da santinha.
À Virgem Senhora de Aires
Eu rezo, de noite e dia,
A fim de que meu filhinho
Seja criança sadia.
Quando vou à feira de Aires,
Eu rezo a Nossa Senhora,
Fƒois a Virgem milagrosa
É a nossa protectora.
Vila de Frades

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

71
O CANTE AO DESPIQUE

Em quase todo o país, e até nos Açores, quando duas ou mais pessoas cantam, respondendo
uma a outra, diz-se que se estão despicando, que cantam a despique -- o que tanto pode ser
cantar à desgarrada, como cantar ao desafio, como cantar ao baldão, como a qualquer outro
título que não nos ocorre agora. Nesses cantares, nesses desafios, cada um canta as quadras
que sabe de cor ou que inventa de momento para responder ao adversário, mas não há regras,
a não ser a de rimar normalmente o segundo com o último verso duma quadra, em regra, e
em regra também compondo os versos em septissílabos.
Não é este o caso do «cante a despique» do Sul do país, e que nos parece ser só dali, isto é,
duma área que compreende a ‹«Serra» e a «Meia-Serra» do Algarve, tanto a que desce para o
litoral algarvio como a que desce para o Alentejo e se prolonga da serra de Monchique até
Sines, entre os cursos do Mira e do Sado e o Atlântico. Antigamente o cante a despique era
acompanhado à «viola campaniça», o que parece sugerir que também se cantaria mais para o
interior da planície alentejana. Presentemente, segundo as informações que temos, nesta
última região já se não encontra. Os exemplos que se apresentam foram recolhidos no
concelho de Odemira. O de Colos, só para explicar como é o esquema; o das Amoreiras foi
gravado em fita magnética nesta povoação.
Começaremos por notar que há no cante a despique o dobre (o verso de abertura é o que
termina a estrofe), a rima abraçada (com dois versos soltos entre os rimados), formas pouco
vulgares entre toda a nossa poesia, e o modo de repetição, também invulgar na nossa poesia:
repetem-se não os dois últimos versos, como é vulgar, mas sim os dois primeiros, em ordem
inversa: ABCA-BA.
Distingue-se o cante a despique dos outros cantares ao desafio porque tem regras, mais ou
menos rígidas, conforme a combinação prévia. Um número variável de cantadores, geralmente
na venda, resolve cantar a despique. Combina-se o ponto, e cada um vai cantando na sua vez,
respondendo se pode e como pode ao que o anterior cantou, mas a resposta explícita não é
obrigatória. Obrigatório é não pisar o ponto (e o que o fizer sujeita-se a multa) e não fugir à
rima (falta que já não é tão grave). Os castigos eram, e hoje também, se assim se combinar, o
faltoso pagar uma rodada de vinho para os outros cantadores ou não beber na vez que lhe
competia -- isto quando o cante é a rigor.
Pisar o ponto é repetir, no final do segundo verso, palavra que já tenha sido empregada. Fugir
ao ponto é não encontrar palavra para terminar esse segundo verso, com a sílaba escolhida
para ponto.
Fugir à rima é não encontrar palavra para terminar o quarto verso de modo a rimar com o
primeiro.
O ponto é a última sílaba forte do segundo verso. Nos nossos exemplos o ponto é -ida num
caso e -ia no outro. Mas pode ser -ão, -oa, -ar, -ém, -ento, -inho, etc., etc., ou -ola, -ava, etc.
Na combinação prévia também se pode estabelecer se vale ou não vale empregar toantes no
ponto (ou só consoantes) e ainda que não vale roubar o ponto, isto é, utilizar, noutro que não
seja o segundo verso, palavra com a terminação do ponto.
António Domingos Pontalinho deu-nos em Colos estas três estrofes para exemplificação:
o ponto é -ida.
-- o primeiro cantador diria, por hipótese:

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

72

(A) Coitado de quem não tem /
(B) Nem caminho nem guarida. / bis
(C) Vive aí abandonado,
(A) Sem carinhos de ninguém.
(B) Nem caminho nem guarida
(A) Coitado de quem não tem.
-- o segundo poderia cantar assim:
(A) À falta de saber ler /
(B) Há muita gente atrevida. / bis
(C) Se não há conhecimento,
(A) As vezes vão a sofrer.
(B) Há muita gente atrevida
(A) A falta de saber ler.
-- um terceiro cantador poderia exprimir-se desta forma (mostrando que o essencial, no cante
a despique, é encontrar o ponto.
Responder a palavra ou frase de algum dos outros cantadores é de bom-tom, é vulgar e é o
que todos desejam, mas não é o principal do cante e nem todos sempre o conseguem. Quando
não podem alcançar esse objectivo, limitam-se a preencher a sua vez):
(A) Eu mudo qualquer santinho /
(B) Às vezes, p'ra outra ermida: / bis
(C) Já posso pedir auxílio,
(A) Certamente, ao meu vizinho.
(B) Às vezes, p'ra outra ermida,
(A) Eu mudo qualquer santinho.
Aprofundando um pouco o sentido destas três estrofes, pode-se tentar encontrar nelas uma
certa ligação. Mas ela não está explícita e não é aqui lugar para a tentativa ( 1).
Se um cantador não acha, de momento, palavra que satisfaça o ponto, passa, isto é, não canta,
e cede a sua vez ao parceiro que se lhe segue.
Quando escasseiam as palavras que contêm o ponto, combina-se de comum acordo outro
ponto e o cante prossegue. Normalmente o divertimento dura horas, mantém-se pela noite
fora (ou pela tarde fora) e normalmente também, lá para o fim, há só dois cantadores, porque
os outros foram desistindo, e um deles acaba por ser o campeão dessa tarde ou dessa noite.
A música é uma toada lenta, arrastada, e com pequenas variações melódicas de cantador para
cantador, o que permite estender versos de seis sílabas como se tivessem sete, e versos de
oito ou mais sílabas encurtarem-se e serem cantados como se fossem septissilábicos. Como já
se verificou, os versos são normalmente de sete sílabas e o esquema estrófico é A, B (que
bisam), C, A’, B, A, e a música é, como módulo médio, a da pauta que se segue.

1

A. Machado Guerreiro, in «O Cante a Despique», Revista Lusitana (Nova Série). n.° 2, Lisboa, 1981, tentou uma ligeira explicação
da interligação do sentido destas três estrofes.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

73

40 – DESPIQUE – EU TENHO OUVIDO DIZER

1 Pauta musical da Revista Lusitana
(Nova série) N.° 2, Lisboa, 1981
Segue-se a transcrição das estrofes cantadas pelos cinco intervenientes que se prontificaram a
cantar para a gravação feita em Amoreiras-Gare, povoação mais conhecida, naquela área por
Estação das Amoreiras. José Pontalinho organizou a sessão, com mais quatro amigos de que
omitimos os nomes, porque não os sabemos completos e porque, infelizmente, nem todos já
são vivos. Combinado que o ponto era -ia, começou-se sem outras combinações prévias.
Primeiro cantador:
Eu cá sou di S. Martinho, /
Senhô Capela, de Santa Luzia. /bis
Já me tenho embobedado
Mesmo sem provar o vinho.
Senhor Capela, de Santa Luzia,
E eu cá sou de S. Martinho.
Segundo cantador:
Ao romper da madrugada /
Aparece a luz do dia. / bis
Inda nunca m'embobedei
Uma vez qui não beba nada.
Aparece a luz do dia
Ao romper da madrugada.
Terceiro cantador:
Eu vejo, profeitamênti, /

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

74

Qu'eu qui cantar nã devia. / bis
'Stou velho, aqui cantando
À vista de tanta gênti.
Pois eu cantar nã devia,
Eu vejo profeitamênti.
Quarto cantador:
Conheço a provinça alentejana /
(E) conheço a provinça algarvia;
(E) conheço a vida trabalhadora
E conheço a vida cigana.
Conheço a provinça algarvia,
Conheço a provinça alentejana.
Quinto cantador:
O primo José estar aqui com a gente /
A todos nos dá alegria. / bis
Dês quêra qu'inda viva mais 5 ò 6 anos,
Mas que não morra de repente.
Que a todos dá alegria
O primo José estar aqui com a gente.
Com esta estrofe terminou a primeira volta. Continua:
Primeiro cantador:
Eu tenho ouvido dizéri: /
Quonde se canta nã se assobia. / bis
Nós samos todos iguais
E no nascer e no morréri.
Quonde se canta nã se assobia,
(E) eu tenho ouvido dizer.
Segundo cantador:
À brilhante sociadádi /
Tenho por ela sempatía. / bis
Eu, d'ouvir 'ma cantiga bem feita,
Eu até me crece saudádi.
Tenho por ela sempatia,
À brilhante sociadádi.
Terceiro cantador:
Quondo eu era rapaz novo, /
Eu com isto me antertia. / bis
Mas hoje estou velho e cansado,
Eu até-i-aborreço o povo.
Eu com isto me antretia
Quondo eu era rapaz novo.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

Quarto cantador:
Quondo eu vendo puxar à linha, /
Este moço não si desvia. / bis
Vamos a ver quem seja capaz,
Assar a sua sardinha.
E este moço não si desvia
Quondo vendo puxar à linha.
Quinto cantador:
(Ai) levamos o cantar porfundo, /
Ó moços desta freguesia: / bis
Que as cantigas são gravadas
Talvez para todo o mundo.
Ó moços desta freguesia.
Levamos o cantar porfundo.
Terminada a segunda, entra-se na terceira volta. Mas esclareça-se que não há paragens de
uma para a outra volta. Diz-se que se fez uma volta ou uma roda quando todos cantaram na
sua respectiva vez.
Primeiro cantador:
Quondo eu meto o meu machado ( 2) /
Sai virge e mais amadia.
Fazemos a roda completa
Sem ver um ponto pisado (3).
Sai virge e mais amadia
Quondo eu meto o meu machado.
Segundo cantador:
Eu tenho manto e bingala, /
Eu vou-me ter à setia. / bis
É pena, sociadade,
Eu ter tam poucachinha fala.
Eu vou-me ter à setia,
Eu tenho manto e bingala.
Terceiro cantador:
Ele, só o enterradôri /
Me tirará esta mania: / bis
Não é porque seja muito parvo,
Mas sou desconhecedôri.
Me tirará esta mania,
2
3

O cantador era tirador de cortiça: tirava cortiça virge (virgem) e cortiça amadia.
Alguém na assistência perguntou se não tinha sido pisado o ponto.

75

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

76

Pois, só o enterradôri.
Quarto cantador:
Sou páss'ro di arribação, /
Lido co’ as moças di a Mouraria. / bis
Eu não quero aqui ser criado,
Mas nem criado nem patrão.
Lido co'as moças di a Mouraria,
Sou páss'ro di arribação.
Quinto cantador:
(Ai) samos todos di a mesma terra, /
Baptizados na mesma pia, / bis
Sam Martinho di a Amorêras,
Que fica-i-à beira-serra.
Baptizados na mesma pia,
Samos todos di a mesma terra.
Dedica-se a esta forma de divertimento popular algumas palavras, atendendo a que é quase
desconhecida no país e vai sendo cada vez mais rara mesmo na região onde foi muito
difundida.
Nota-se que dos 60 versos transcritos (sem contar as repetições) a maioria é septissilábica (29)
e 24 aproximam-se desta medida (têm 8 sílabas métricas); e que, tal como nos exemplos de
Colos, há por vezes respostas implícitas: na 1.ª volta o segundo cantador responde ao primeiro
(este embebedava-se sem vinho, o outro sem vinho nunca se embebedou); ao terceiro, que se
achava ali «indevidamente«, devido à idade, diz o quinto que tem muita alegria em vê-lo ali e
deseja-lhe mais anos de vida; também se pode admitir como resposta o primeiro cantador, na
2.ª volta, dizer que somos todos iguais, contrapondo-se à enumeração que um outro fizera das
gentes e das províncias que conhecia; é como que uma resposta o terceiro cantador, já idoso,
dizer que só o enterrador lhe tira a mania de cantar, enquanto o outro, moço novo, se
lamentava já de ter tam poucachinha fala.

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

77

trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2015 JULHO

JORAGA

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

78

AS MODAS / PAUTAS
in LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA

79

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho

80

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar, Corroios, 2015 Julho