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DIARIO d e P E R N A M B U C O

viver ■ ■ ■

Recife, DOM - 18/05/2014
HEDRA EDITORA/DIVULGAÇÃO

Pernambucano autor
da primeira graphic
novel do país, há 40
anos, quer que o
dramaturgo autorize
adaptação de O auto
da Compadecida
FELLIPE TORRES
fellipetorres.pe@dabr.com.br

R

econhecimento internacional, trabalhos publicados
em vários países,
mais de 60 livros ilustrados
no Brasil, homenagens, troféu HQ Mix de Grande Mestre.
Aos 70 anos, o pernambucano Jô Oliveira conquistou quase tudo o que a carreira de
artista gráfico poderia oferecer. Quase tudo. Ainda falta
amolecer o coração de um outro mestre. Há dois anos, por
intermédio de um amigo, ele
pediu autorização do escritor Ariano Suassuna, 86, para adaptar aos quadrinhos O
auto da Compadecida. Teve o
pedido veementemente negado, pois, segundo a justificativa do dramaturgo, “gibi é

Ouça o apelo,

Ariano

coisa de americano”.
Sem querer tirar a razão de
Ariano, Jô Oliveira é considerado por muita gente o autor
da primeira graphic novel brasileira (versão mais sofisticada das histórias em quadrinhos). Chama-se A guerra do
reino divino e foi publicada há
exatos 40 anos na Itália (só
em 1976 saiu no Brasil). O
mais interessante são as referências do álbum: o cangaceiro Lampião, a figura do
“beato sertanejo”, Dom Sebastião, a literatura de cordel e o Romance da pedra do
reino e o príncipe do sangue do
vai-e-volta (1971), de Ariano.
“Segui a mesma linha narrativa dele. Além de Ariano
luenciado muito,
ter me inf
influenciado
foi uma homenagem. Já nos
encontramos, mas não sei se
ele soube disso”. Nascido na
Ilha de Itamaracá e hoje radicado em Brasília, o ilustrador
diz não ter a consciência do

pioneirismo na graphic novel,
embora seja apontado por especialistas como o jornalista
e editor do site Universo HQ,
Sidney Gusman, e pela pesquisadora da Universidade de
Brasília Eliane Dourado.
A paixão pelos quadrinhos
acompanhou Jô desde a juventude. Quando foi morar

TRABALHOS
PRODUZIDOS POR
ELE JÁ CHEGARAM
À EUROPA E À
AMÉRICA LATINA
em Campina Grande (PB), adquiriu o hábito de trocar gibis com os colegas (“esses de
super-heróis norte-americanos, mesmo”), mas sempre
sentiu falta de uma HQ brasileira que representasse cangaceiros. Em 1957, surgiu a
revista Jerônimo, o herói do Sertão, mas aquele herói não con-

venceu. “Fiquei decepcionado. Era um caubói de cartucheira, baseado em faroeste”.
Surgiram Os aba-largas (1962),
inspirados na polícia montada do sul do país, e Saci-pererê (1958), de Ziraldo.
Após passar pela Escola de
Belas Artes, no Rio de Janeiro, e de prosseguir os estudos
na Escola Superior de Artes
Industriais, na Hungria, Jô
ganhou o mundo. A guerra do
reino divino estampou revistas
italianas, foi publicado na Dinamarca, Argentina, Espanha, Grécia. “Já pensou Lampião falando grego? Consegui a façanha”. Recentemente, ele se deparou com uma
foto da (sua) Ilha de Itamarcá estampada em painel no
aeroporto de Brasília. A propaganda turística consolidou
a impressão: “Pernambuco está em alta. O estado tem tradição, identidade e levanta a
bandeira da cultura”.

Ilustração da novela
gráfica pioneira
evocou o cangaço.
Ao lado, capa da
primeira edição
lançada no Brasil

JÔ OLIVEIRA
OLIVEIRA/DIVUL
/DIVULG
/DIVUL
GAÇÃO

Adaptar para os quadrinhos
O auto da Compadecida
Fazer outras adaptações
infantis da obra de Ariano
Suassuna
Doar ilustrações de Luiz
Gonzaga para o Museu Cais
do Sertão (no Recife Antigo)
Fazer exposição com os mais
de 30 selos postais que fazem
referência à cultura
nordestina
* A reportagem entrou em
contato com a assessoria do
escritor Ariano Suassuna,
mas não obteve resposta até
o fechamento da edição.

+ influências
Lampião falou em italiano e grego pelas mãos de Jô

Como começou?
Sempre tive paixão por his-

O que faz agora?
Estou fazendo adaptações da
obra de Shakespeare, e fiquei
espantado como é possível
transformar a história para a
criança ter acesso ao texto de
uma maneira menos pretensiosa, mas que possa desen-

volver o gosto pela obra. Eu estudei arte aplicada, ou seja,
quando lido com o texto,
meus desenhos são narrativos, acoplados com a história. Então tenho essa visão de
educador.
Como foi o primeiro livro?
Desenvolvi alguns desenhos,
um editor italiano se interessou e pediu para eu transformar em HQ. Meses depois, foram publicadas 16 páginas em
uma revista italiana. Foi uma
grande vitória. Na época conheci Ziraldo, e ele disse que
quando voltasse ao Brasil, publicaria a HQ no Pasquim.


HISTÓRIAS

entrevista >> Jô Oliveira
tórias em quadrinhos. Era leitor assíduo de gibis, desses
de super-herói americano,
mesmo. Quando me mudei
de Itamaracá para a Paraíba,
a programação do fim de semana era me encontrar com
outras pessoas para trocar revistinhas. Assim, ninguém
precisava comprar as novas.

Embora esteja longe de
Pernambuco há muitas
décadas, boa parte do
trabalho de Jô Oliveira pega
emprestado elementos da
cultura do estado e do
Nordeste. “É uma maneira de
resgatar minha infância”,
confessa. Há muito tempo o
artista deseja retomar o
contato com a terra natal,
mas diz “não conhecer
ninguém” e “não saber se
promover”.

Os desejos de Jô:

SÉRGIO AMARAL/DIVULGAÇÃO

Dá para viver de quadrinhos?
Hoje em dia é muito difícil
viver de quadrinhos no Brasil,
pois é uma atividade que leva muito tempo. Nenhuma
editora quer sustentar o quadrinista por todo esse período. Por isso, faço muito livro
infantil. Somente neste ano,
já foram três. Em breve, sairá um livro meu, Os donos da
bola, que não tem texto, apenas ilustrações, e conta a história fictícia de como o futebol foi criado no Brasil e os ingleses roubaram a ideia.

+ devolta

No interior sempre há
a figura do contador
de história, da alma penada,
assombração, cangaceiros”.
CORDEL

Convivi com literatura
de cordel nas feiras.
Meus pais e avôs eram de
João Alfredo, no interior de
Pernambuco, e traziam
muitos livretos”.

CINEMA

Era uma coisa muito
fascinante naquela
época, em que não havia
televisão, sobretudo no
interior. O filme O cangaceiro
foi uma sensação”.

ANIMAÇÃO

Os desenhos
animados mais legais
eram os do Bloco Soviético.
Depois de ter uma animação
premiada em festival, no Rio
de Janeiro, ganhei bolsa para
estudar na Hungria”.

ARTE POPULAR

Pernambucano da Ilha de Itamaracá mora em Brasília

São influências os
mamulengos, as
gravuras, a arte de Mestre
Vitalino, o São João de
Caruaru... Além de inspiração,
J. Borges é um grande amigo”

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