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XII SEMANA ACADÊMICA DE HISTÓRIA HISTÓRIA E ARTE: LITERATURA, MÚSICA E CINEMA.

ANAIS

HISTÓRIA E ARTE: LITERATURA, MÚSICA E CINEMA. ANAIS MARECHAL CÂNDIDO RONDON – PARANÁ 16 A 18

MARECHAL CÂNDIDO RONDON PARANÁ 16 A 18 DE JUNHO DE 2015

COMISSÃO ORGANIZADORA:

Acad. Alex Sander Sanoto; Acad. Alex Sandro Ventura Griebeler; Acad. Heliab Borges da Silva; Acad. Julia Gabriela Borelli; Prof. Mtd. Lucas Blank Fano; Prof. Mtd. Lucas Eduardo Gaspar; Acad. Luis Henrique Carminati; Acad. Paloma Mariana Caetano; Acad. Paulo Cesar Nunes da Silva; Acad. Régis Gustavo Petri; Acad. Sara Munique Noal e Acad. Victor Antonio Melo Silva.

Coordenador: Prof°. Dr°. Antonio de Pádua Bosi

PROMOÇÃO:

Centro Acadêmico de História Zumbi dos Palmares – Gestão “Portas Abertas” Colegiado do Curso de História UNIOESTE campus de Marechal Cândido Rondon

APOIO:

Laboratório de Ensino de História LEH; Programa Institucional de Bolsas de Incentivo à Docência (PIBID) História.

de Ensino de História – LEH; Programa Institucional de Bolsas de Incentivo à Docência (PIBID) –

APRESENTAÇÃO

SUMÁRIO

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ELIMINATION, ELIMINATION, ELIMINATION”: O GENOCÍDIO ARMÊNIO E O SYSTEM OF A DOWN…………………………………………………………………………. 7

LITERATURA E HISTÓRIA: REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DE HISTÓRIA 16

AS REPRESENTAÇÕES DO FEMININO NA GRÉCIA ARCAICA E NA FRANÇA DO

SÉCULO XII

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CONCEPÇÕES SOBRE A MORTE NA ATENAS DO SÉC. V A.C., A PARTIR DAS

TRAGÉDIAS DE EURÍPIDES

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LITERATURA MEMORIALÍSTICA EM PERSPECTIVA: UMA ANÁLISE DA OBRA CASCAVEL, A HISTÓRIA DE ALCEU SPERANÇA 37

DISCUSSÃO SOBRE OS “MALUCOS DE BR”, POPULARMENTE CONHECIDOS COMO

“HIPPIES”. CONSIDERAÇÕES INCIAIS

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TRABALHADORES EM MARECHAL CÂNDIDO RONDONPR: TRAJETÓRIAS E

CAMPOS DE POSSIBILIDADE NA CIDADE

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UMA

VINICIANA

INTERRETAÇÃO

ANTROPOLÓGICA

SOBRE

A

MULHER

NA

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LÍRICA

CRISTÃOS E MUÇULMANOS NO CANTAR DE MIO CID: UM DIÁLOGO COM A

“RECONQUISTA

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ROMANTISMO E A “AUTOCRÍTICA DA MODERNIDADE”: O CASO DE CRIME E

CASTIGO DE DOSTOIEVSKI

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DE MASTIGADORES À DRÁCULA A FIGURA DO VAMPIRO NOS RELATOS OFICIAS

E NA LITERATURA

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ENTRE A TRADIÇÃO E O CONSUMO: ALTERAÇÕES NO IMAGINÁRIO DO HERÓI NO
ENTRE A TRADIÇÃO E O CONSUMO:
ALTERAÇÕES NO IMAGINÁRIO DO HERÓI NO
BRASIL DO SÉCULO BRASIL DO SÉCULO XX 88 88
BRASIL DO SÉCULO
BRASIL DO SÉCULO XX
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ENTRE A TRADIÇÃO E O CONSUMO: ALTERAÇÕES NO IMAGINÁRIO DO HERÓI NO BRASIL DO SÉCULO XX.

Introdução

Jeferson Wruck 95

Dr. Fausto Alencar Irschlinger²

Este estudo aborda as alterações no imaginário do herói no Brasil do século XX decorrentes da inserção dos comics, histórias em quadrinhos norte-americanas, no mercado editorial nacional. Aos tipos heroicos constituídos pela amalgamação das mentalidades das etnias que formaram a população brasileira: indígenas, europeus e africanos, denominamos heróis tradicionais. Para analisá-los nos pautamos na classificação da tríade heroica do antropólogo Roberto Da Matta e nos estudos do folclorista Luiz da Câmara Cascudo. Baseados nos estudos de Gonçalo Junior, Sonia Bibe Luyten, Diamantino da Silva e Álvaro de Moya apresentamos o processo de penetração das histórias em quadrinhos (HQs) americanas, tendo início com a publicação do Suplemento Infantil em 1934, e quais foram as reações da sociedade, o frenesi do público leitor infanto-juvenil e a preocupação de pais, religiosos e políticos com a influência dos quadrinhos. Utilizamos a obra Imperialismo Sedutor, de Antônio Tota, com o objetivo de compreender a função dos comics dentro do quadro de intenções políticas e econômicas dos Estados Unidos nas Américas. Em Christopher Knowless e Willian Irwin buscamos informações sobre as origens dos comics e as ideologias que orientavam seus autores, estabelecendo um vínculo entre as HQs e a literatura popular nos EUA durante as primeiras décadas do século XX. Os teóricos da Escola de Frankfurt Theodor Adorno e Max Horkheimer, nos proveram subsídios para discutir os quadrinhos como produtos da indústria cultural. Recorremos à Jean Baudrillard e Zygmunt Bauman para compreender como as HQs operam dentro da lógica da sociedade de consumo. Finalmente, elencamos alguns dados referentes ao consumo de produtos vinculados à imagem de super-heróis como intuito de demonstrar como estes personagens estão presentes no

E-mail:

raptorwruck@hotmail.com ² Professor, pesquisador e coordenador do Curso de História da UNIPAR Unidade de Cascavel. E-mail:

fausto@unipar.br

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Acadêmico

do

ano

do

Curso

de

História

da

UNIPAR

Unidade

de

Cascavel.

cotidiano do brasileiro, desde crianças até adultos, induzindo hábitos e movimentando milhões de reais. Desenvolvimento

O Imaginário é um conceito chave para a História desde a renovação de Annales.

Imaginário pode ser definido como:

[…] o conjunto de imagens guardadas no inconsciente coletivo de uma sociedade ou de um grupo social; é o depósito de imagens de memória e imaginação. Ele abarca todas as representações de uma sociedade, toda a experiência humana, coletiva ou individual: as ideias sobre morte, sobre o futuro, sobre o corpo (SILVA; SILVA, 2009, p.213).

Das inumeráveis imagens que compõem o Imaginário dos povos humanos, uma se destaca por sua força simbólica, larga disseminação e obstinada permanência nas representações das mais variadas civilizações: o herói. Afinal, o que é um herói? Para Sal Randazzo (1996, p. 160) herói é o “generoso defensor da verdade e da justiça, pronto a morrer por aquilo em que acredita e/ou ao serviço daqueles que não podem defender a si mesmos. ” A interpretação etimológica de Junito Brandão parece reforçar essa visão revelando que a gênese do termo herói, em várias culturas, está associada à ideia de “guardião, defensor, o que nasceu para servir” (BRANDÃO, 1987, p. 15). Para Flávio Kothe, as tensões na conjuntura material participam da construção do herói imaginário. Desse modo, “rastrear o percurso e a tipologia do herói é procurar as pegadas do sistema social” (KOTHE, 2000, p. 08). O imaginário do herói brasileiro foi formado por uma tríplice união de culturas. Europeus, africanos e indígenas colaboraram com suas lendas e religiosidade a para a criação de heróis característicos do Brasil (CASCUDO, 1983, p.31 33). O antropólogo Roberto DaMatta classifica os heróis tradicionais do Brasil em três tipos básicos: o caxias, o malandro e o renunciador.

O caxias é protetor da lei e dos bons costumes. Seu nome é uma clara referência do

Duque de Caxias, “herói” brasileiro na Guerra do Paraguai. É o campeão da ordem e da religião. Modelo da honradez, moralidade, mas também de repressão e dureza contra os inimigos das instituições do poder político e da fé. O caxias “demonstra o poder do uniformizado e regular ( ) numa sociedade fascinada pela ordem e hierarquia” (DAMATTA, 1997, p. 264). O Capitão Nascimento, da duologia Tropa de Elite, é a aparição mais recente do caxias no cinema nacional. O malandro é o típico adepto do “jeitinho brasileiro”. É o espertalhão, sedutor, astucioso que aproveita-se ingenuidade alheia para “insinuar-se em um universo individualizado” nas brechas do “esqueleto hierarquizante da sociedade” (DAMATTA, 1997, p.264). Ganha a vida às

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custas da dissimulação e do estelionato. Podemos apontar o personagem Didi Mocó, do ator Renato Aragão, como exemplo do malandro.

O terceiro tipo de herói tradicional é o renunciador. Este se distingue dos outros dois por

ser um reformador social. O caxias é o defensor da ordem e o malandro, mesmo que não se ajuste à ela, depende da manutenção de uma sociedade ordeira, pois as brechas da ordem formam seu campo de ação. O renunciador é um renegador do status quo. Em busca de uma sociedade perfeita, criada aos moldes da lei divina, ele despreza este mundo corrupto de homens pecadores. Este tipo heroico teve grande repercussão na história brasileira. Insurreições como a de Canudos e o Contestado foram possíveis graça ao apelo popular que guias espirituais como Antônio Conselheiro e José Maria, renunciadores, exercem sobre o imaginário. O renunciador é um descendente direto da reforma monástica medieval e a força desse herói messiânico explica-se pela “sempre presente combinação de elementos católicos” no Brasil (DAMATTA, 1997, p. 267) Com um caráter absolutamente agrário até o início do séc. XX, a cultura brasileira era, embora arcaica, “muito integrada, em que um saber operativo se transmitia de pais a filhos e em que todos viviam um calendário civil regido pela Igreja, dentro de padrões morais bem prescritos” (RIBEIRO, 1995, p. 205). Nesse contexto, as histórias ouvidas na infância constituíam uma iniciação à cultura geral, instruindo os indivíduos e os treinando para o jogo da sociedade na vida adulta (CASCUDO, 2012, p. 55).

A primeira publicação periódica significativa voltada para o público infantil foi O Tico-

Tico. Criada em 1905, a revista trazia atividades, contos e histórias em quadrinhos. Embora influenciada por publicações europeias e americanas, os autores faziam releituras introduzindo personagens e elementos que davam uma roupagem brasileira aos quadrinhos.

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Imagem 01: História em quadrinhos da primeira edição da revista O Tico-Tico , datada de

Imagem 01: História em quadrinhos da primeira edição da revista O Tico-Tico, datada de 22 de novembro de 1905. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

Como demonstrado pelo historiador estadunidense Robert Darnton em sua obra O Grande Massacre de Gatos, os contos tradicionais espelham as condições históricas em que surgiram ou foram recontados. As personagens d’O Tico-Tico são ecos da população brasileira de sua época. Ali encontramos a criança travessa, o professor rígido e a escola tradicional, a família patriarcal, a elite branca, as criadas negras, os meninos de rua negros e mestiços

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Imagem 02: Na capa da primeira edição há uma história cômica, em quatro quadros, de

Imagem 02: Na capa da primeira edição há uma história cômica, em quatro quadros, de um professor em sala de aula. Podemos observar que não há crianças negras entre os alunos. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

O Tico-Tico foi líder inconteste o mercado editorial de publicações infantis até a década de 1930. Fez grande sucesso entre a juventude e conquistou o apreço de pais e mestres, pois além dos quadrinhos trazia atividades, concursos e ensinamentos morais. Mas o ano de 1934 viria para desferir um duro golpe sobre a revista e revolucionar definitivamente o imaginário infantil. Diamantino da Silva, estudioso dos quadrinhos que viveu sua infância na década de 1930, nos relata que “pessoalmente, não ligava muito para O Tico-Tico, o achava muito infantil” (SILVA, 2003, p.11), mas que sua atitude com os quadrinhos foi alterada ao ter contato com “um taloide de 12 páginas chamado Suplemento Juvenil, que logo conquistou minha simpatia”. Diamantino confessa que os heróis dessa nova publicação “logo tornaram-se nossos ídolos e ninguém queria perder um só capítulo de suas histórias” (SILVA, 2003, p.12).

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A edição de 14 de março de 1934 do jornal A Nação trazia um suplemento direcionado para o público infanto-juvenil. As histórias em quadrinhos não eram novidade nos idos de 1930, mas o conteúdo do suplemento era algo jamais visto nas páginas d’O Tico-Tico. Enquanto este seguia uma linha editorial francesa, com foco em satirizar aspectos da vida diária, o Suplemento tornou-se um canal por onde os comics norte-americanos inundaram o Brasil com o american

comics norte-americanos inundaram o Brasil com o american way of life . Imagem 03: Primeira página

way of life.

Imagem 03: Primeira página do Suplemento Infantil no jornal A Nação.

Fonte: http://blog.flaptrap.com.br/wp-content/uploads/2014/03/ANacaoSuplementoInfantil.jpg

Em viagem aos Estados Unidos, o jornalista Adolfo Aizen ficou maravilhado com o sucesso das histórias em quadrinhos naquele país. Os quadrinhos norte-americanos, ou comics, diferiam muito do gênero de HQ’s praticado no Brasil. Eram histórias cheias de suspense, terror, violência e ficção. Os cenários eram os mais variados, desde as savanas africanas, com Tarzan, até distantes planetas de outros sistemas solares nas aventuras de Flash Gordon. Aizen, acreditando que a importação dos comics faria grande sucesso no Brasil, criou em março de 1934 o Suplemento Infantil, anexo ao jornal A Nação, e em junho do mesmo ano lançou o Suplemento

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Juvenil, desvinculado do A Nação e voltado exclusivamente para os quadrinhos. Os resultados

mostraram que Aizen estava certo. Gonçalo Junior relata que a meninada parecia fora de controle no hábito de ler gibis. Liam em todos os lugares e horários: durante o almoço, antes de dormir, na sala de aula, na hora de fazer o dever de casa” (JUNIOR, 2004, p.295).

A inserção dos quadrinhos americanos no Brasil não foi ignorada pelo governo

americano. Visando estender sua influência sobre as Américas e repelir o comunismo do seu “quintal”, os EUA propunham uma política da boa vizinhança com o intuito de criar uma

imagem de parceiro e protetor das nações americanas. No Brasil, numa estratégia que Antônio Pedro Tota classificou como “Imperialismo Sedutor”, houveram grandes investimentos em rádio, cinema, desenhos animados e publicações, como a revista Em Guarda, as Seleções do Reader’s Digest e as histórias em quadrinhos (TOTA, 2000).

Os heróis dos comics nascem diretamente da literatura popular que surgiu nos Estados

Unidos entre o final do séc. XIX e início do Séc. XX, ganhando imensa repercussão entre as massas. As revistas de pulp fiction, impressas em papel de qualidade inferior feito a partir de polpa de celulose, de onde deriva a designação das revistas, e encadernação rústica, eram vendidas a preço módico, sendo muito consumidas pelas classes econômicas inferiores das grandes cidades industriais. Os seus autores exploravam, principalmente, temas ligados à ficção científica, magia e contos detetivescos. Grande parte dos escritores que publicavam nos pulp’s

eram membros de sociedades ocultistas ou interessados em assuntos místicos, paganismo e religiões orientais (KNOWLESS, 2008). Diamantino da Silva deixa entrever que havia algo

ideologicamente peculiar nos comics ao comentar que o aparecimento do Suplemento Juvenil

“foi responsável pela criação de uma exuberante mitologia com vasta aceitação popular (

só tinha paralelo com as das velhas mitologias orientais e grego-latinas” (SILVA, 2003, p.17).

A primeira aparição do Superman, em 1938, marca o nascimento dos super-heróis.

) que

Humanos ou alienígenas dotados de poderes incríveis, físicos e psíquicos, lutavam contra o crime, contra os nazistas e fascistas e, posteriormente, contra vilões também superpoderosos. Por

esse tempo os quadrinhos viveram o ápice de sua era de ouro e era de prata, vendendo milhões de revistas.

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Imagem 04: Primeira aparição do Superman, na revista Action Comics nº 1, datada de junho

Imagem 04: Primeira aparição do Superman, na revista Action Comics nº 1, datada de junho de 1938. Fonte:

http://infinitecomix.com/wp-content/uploads/2014/06/actioncomics1.jpg

Vale ressaltar um ponto de contraste entre os heróis brasileiros tradicionais e os heróis/super-heróis importados dos comics americanos. Enquanto a religiosidade cristã é indissociável dos heróis tradicionais, “há poucas menções, na narrativa dos quadrinhos, a um Criador, a algum tipo de plano divino para humanidade ou sequer a um espaço para fé pessoal em Deus na vida de qualquer indivíduo” (MORRIS in IRWIN, 2005, p.56). Os quadrinhos estavam destinados a suscitar algum tipo de reação por parte de uma sociedade fundamentada no cristianismo. Nos EUA ela veio com o macarthismo 96 e recrudesceu após a publicação, em 1954, do controverso livro Seduction of the innocent, do psiquiatra Frederic Wertham, que acusava uma relação entre o hábito de ler quadrinhos a delinquência juvenil. No Brasil, enquanto aumentavam nas bancas os títulos voltados exclusivamente para os comics, os quadrinhos “tiravam cada vez mais o sono de educadores, padres, pais e políticos desde a segunda metade dos anos 40” (JUNIOR, 2004, p. 181). O assunto foi parar na Câmara Federal, chegando-se até a propor a reformulação do inciso 5º do artigo 141 da Constituição, que dispunha sobre a liberdade de expressão. Os deputados alegavam que “em face do clamor levantado no país contra os malefícios da chamada literatura infanto-juvenil” por uma “multidão de pais e educadores preocupados com a formação moral e intelectual das crianças e dos adolescentes” (JUNIOR, 2004, p. 183), fazia-se necessário censurar a publicação das HQs. Além do conservadorismo e da xenofobia da sociedade à época, esse episódio nos revela o impacto que os heróis americanos já haviam causado entre a juventude em curto espaço de tempo. Pais,

96 Termo derivado do nome do senador republicano Joseph MacCarthy, usado para classificar um período de intensiva perseguição política anticomunista nos Estados Unidos, entre o fim da década de 1940 e meados de 1950.

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educadores e igrejas alarmaram-se pois percebiam que “os gibis 97 encarregaram-se de povoar o

mundo mágico das crianças e dos adolescentes” (SOARES in LYUTEN, 1989, p. 49).

Para Klawa e Cohen (in Moya, 1977, p. 108 e 110) “é necessário que a história em

quadrinhos seja entendida como um produto típico da cultura de massas” e, como tais,

participam da lógica de mercado da indústria cultural. Diamantino da Silva comenta que a

popularidade das HQs, após o Suplemento Juvenil e ainda mais depois dos super-heróis, era

garantida por agir como “estimulante evasão compensatória da rotina e das frustações cotidianas

sofridas pelo público leitor” (SILVA, 2003, p.17). Seus enredos, personagens, cores fortes, eram

pensados para atrair o leitor, viciá-lo e induzi-lo a comprar o próximo número. De acordo com

Adorno, esse efeito narcotizante e alienante faz parte do repertório de mecanismos da Indústria

Cultural. Ela “volta a oferecer como paraíso o mesmo cotidiano. Tanto o escape quanto o

elopement estão de antemão destinados a reconduzir ao ponto de partida” (ADORNO;

HORKHEIMER, 1985, p.117), numa espiral de desejos insaciados que arrasta o indivíduo cada

vez mais fundo numa sociedade de consumo, penhorando sua vida ao crédito (BAUMAN, 2010),

num sistema que lhe oferece várias possibilidades de compra, mas que lhe veta a possibilidade de

não comprar (BAUDRILLARD, 1997, p. 149).

Adorno, a despeito de seu elitismo intelectual que o impede de reconhecer qualquer coisa como boa na cultura de massa, faz uma análise pertinente dos efeitos da indústria cultural nos indivíduos:

A indústria cultural continuamente priva seus consumidores do que

continuamente promete. O assalto ao prazer que a ação e apresentação

emitem é indefinidamente prorrogado (

os nomes e imagens esplêndidos serve-se, em suma, apenas o elogia da oca rotina da qual se queria escapar (ADORNO, 2002, p.37).

Ao desejo suscitado por todos

)

Na mentalidade daqueles que cresceram ouvindo as narrativas do folclore nacional,

tornar-se com os heróis das lendas era uma possibilidade. A ação do sobrenatural parecia-lhes tão

plausível quanto os fenômenos físicos. Por outro lado, os leitores dos quadrinhos não ignoravam

o caráter ficcional das histórias que liam. Embora os comics despertassem a vontade de ser como

os super-heróis, não prometiam aos assinantes um encontro com o Batman, muito menos os

poderes do Superman. Nesse sentido podemos entender por que Adorno chama a indústria

cultural de “pornográfica e puritana” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 131), uma prostituta

casta que se insinua mas não pode, e nem deve, se entregar, pois o desejo plenamente saciado

romperia o ciclo do consumo.

97 Gibi foi uma revista de histórias em quadrinhos lançada por Roberto Marinho em 1939 para concorrer com a revista Mirim, de Adolfo Aizen. A revista conquistou tamanho sucesso que seu título tornou-se sinônimo de HQs no Brasil.

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Considerações finais Teriam os comics afetado o imaginário do herói no Brasil do século XX? Alguns dados nos persuadem a dar uma resposta afirmativa. Maria Cristina Von Atzingen nos informa que os brinquedos usados pelas crianças brasileiras até a década de 1930 não deferiam muito daqueles manuseados pelos meninos e meninas nos séculos anteriores: carrinhos de madeira, bonecas de

pano, estilingue, entre outros (ATZINGEN, 2001). Desde então, os brinquedos artesanais e as brincadeiras tradicionais perderam seu espaço para as mercadorias industrializadas, desenhos animados e jogos eletrônicos (ALTMAN in DEL PRIORE, 2000, p. 256) e “quanto mais os brinquedos denotam sua origem yankee e ligação com personagens dos quadrinhos e da TV, mais atraentes se tornam” (ALVES, 1988, p.131). Mudança nos hábitos e objetos usados pelas crianças em suas brincadeiras é um indício significativo pois, de acordo com o psicanalista Carlos de Mattos, através do brinquedo a criança “manipula imagens e significações simbólicas que constituem uma parte da impregnação cultural a que está submetida” (GUIDALLI et al., 2003, p.09). Em rápida busca nos sites de compra da internet com as palavras “mochila infantil”, “decoração de festa para meninos” ou “fantasia infantil”, por exemplo, entre os primeiros itens estarão produtos com os membros da Liga da Justiça ou Os Vingadores. Digitando “brinquedos de heróis” o usuário será exposto aos catálogos infindáveis de bonecos e outros brinquedos relacionados aos heróis de comics.

O mercado de super-heróis já não se limita aos produtos infantis. Roupas e acessórios

adultos que estampam os símbolos dos heróis de quadrinhos ganham cada vez mais espaço nas lojas físicas e existem vários sites na web especializados nessa temática. Além do vestuário,

podemos citar o sucesso de canecas personalizadas, jogos eletrônicos e até tatuagens com imagens de heróis de HQs.

A Marvel, que ao lado da Detective Comics (DC) formam as duas gigantes mundiais das

histórias em quadrinhos, tornou-se a maior franquia do cinema no mundo (ACTIONSECOMICS, 2015). Somente no Brasil, o filme Os Vingadores: Era de Ultron, que estreou nos cinemas em 23 de abril de 2015, já arrecadou mais de R$ 140 milhões (GUIADASEMANA, 2015), constituindo, até o momento da publicação deste estudo, a maior bilheteria os cinemas brasileiros em 2015. Enquanto isso, a DC faz planos de superá-la nos próximos dez anos. As festas de cosplay e eventos para fãs de quadrinhos, mangás, e cultura geek 98 , tornaram-se muito comuns no Brasil, como a realização da Comic Con Experience, megaevento que movimenta milhões de reais.

98 Termo usado para designar fãs de tecnologia, jogos eletrônicos e de tabuleiro, quadrinhos, filmes, séries e animes.

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Sem a pretensão de esgotar o tema, divisamos variados direcionamentos a partir desse estudo. Pesquisas posteriores poderão apontar os efeitos dos heróis dos comics na formação psicológica das crianças, problematizar as influências dos comics na representação imagética do heroísmo nas produções brasileiras e demonstrar os esforços dos quadrinhistas nacionais face a hegemonia das HQs americanas. A penetração dos quadrinhos japoneses, os mangás, é outro tema que se abre à investigação.

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agora.

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GUIADASEMANA.

Maiores

bilheterias

de

2015

até

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