Linguagem de revista - o texto como o despertador de sensações

Nossos sentidos são forçados a se mostrarem durante todos os dias em que
vivemos. Isso é parte de se ser humano. É nesse universo da complexidade, como
escreve Malena Contrera em ‘O gosto da pera: sobre anjos caídos’, que a dor se
revela, mas também outras especificidades que somente a nossa realidade
sensório-motora permite. Viver, desse modo, é participar, desde o momento em que
se acorda, dessa experiência em sentir e estar presente. O que o homem produz,
muitas vezes, é fruto dessa conexão com os sentidos existentes nele. É por isso que
os textos escritos pela literatura universal têm essa capacidade de despertar a
imaginação e a transposição do leitor àquele momento.
Através das palavras, a cena de um rio, o grito de uma criança, o barulho da
chuva e até mesmo o cheiro de um pão que acabou de sair do forno ganha forças e
pode fazer com que o leitor “viva” intensamente as palavras escritas do autor. Isso
pode ser verificado, por exemplo, nos textos de terror e na sua característica única
de despertar os sentidos. A esse respeito, a autora Bruna de Freitas, no artigo
intitulado ‘A semiótica dos textos de terror: o discurso que provoca o medo’, defende
o discurso como provocador de sentido nos textos. Logo, temas, figuras e estruturas
são moldados para provocar o medo:
“(...) estabelece-se a autenticidade da ficção fantástica de terror
como uma configuração discursiva, haja vista que o medo é o elemento
principal dessas narrativas e, para que ele seja suscitado, é necessário que
os textos tragam elementos literários e traços discursivos, recorrentes em
todos eles, que evoquem esse efeito de sentido.” (FREITAS, B.L.B.,
2012, p.2).
Jornalismo impresso não é ficção, mas também trabalha com elementos
literários e traços discursivos. É por isso que os textos presentes em jornalismo da
revista, aquele que permite o uso da reportagem e as abordagens mais
contextualizadas, geralmente trabalha com temas de variedades. Geralmente
segmentado, sabe a qual público se dirige. Por isso mesmo, o cuidado com a
linguagem tende a ser maior. Conforme escreve Alexander Goulart, no artigo ‘Uma
lupa sobre o jornalismo de revista’ divulgado no site Observatório da Imprensa em
2006, “texto e imagem, traduzidos em matéria bem escrita e apresentação visual
eficiente são as bases da revista” (GOULART, 2006).

A . o volume ficando meio ondulado com o manuseio (. Gosto de interromper a leitura num trecho especialmente bonito e encostá-lo contra o peito. fechado. a busca pelo despertar de sentidos é evidente. a vontade de saber como isso pode acontecer. é o meio mais comum para se verificar como os elementos discursivos têm o poder de despertar as mais variadas sensações. é principalmente nos textos jornalísticos divulgados em revistas. (…) Gosto do barulho das paginas sendo folheadas. o que desperta um ar nostálgico e ao mesmo tempo de solidão. mas também conta histórias. Na edição nº 12 de 2013. Dá para sentir o papel entre as mãos.. Gosto das marcas de velhice que o livro vai ganhando: (…) a lombada descascando. publicidade. camufla-se através das palavras. gosto do cheiro dos livros. um trabalho que provoca no leitor algum tipo de interlocução com o que presencia. ‘Campus Repórter’ não é um livro. Depois reabro e continuo a viagem. sente ou chega mesmo a “pegar” por meios das palavras. o que provoca. Outras. A foto de capa desta edição é toda preta e lá ao fundo tem uma casinha com uma luz quase escondida. desenho industrial e artes visuais da Universidade de Brasília (UNB). Um caso que nasce dentro do ambiente acadêmico das faculdades de jornalismo pode ser exemplificado na revista semestral Campus Repórter. No caso específico da revista. Tudo irá depender do tema da reportagem e das habilidades do repórter que a escreve. pela qual denuncia-se o “sentir” presente na leitura: “Eu. O título da reportagem é ‘Vidas na Escuridão’. que podem ser verificados o trabalho com a linguagem. Por se tratar de um conteúdo divulgado em papel. O toque é leve e sabe-se que está folheando páginas macias.)”. Se considerarmos que a reportagem também é uma arte (embora não seja esta a discussão proposta neste artigo). no leitor. vê. podemos dizer que ninguém sairá impune diante do que lê. Daí para a leitura é um passo. que ganhou vazão no Brasil principalmente nos anos 1960. Lá a reportagem ganha espaço e se alia a fotografias muitas vezes artísticas. é atribuída à escritora Martha Medeiros a seguinte frase. por exemplo. A técnica do jornalismo literário. o leitor interage com a revista assim como afaga um gato. Sobre isso. produzida pelos alunos de jornalismo. Mas falta energia no interior do Piauí’. enquanto penso no que foi lido. a revista traz como matéria principal uma chamada de capa intitulada ‘Lusco-fusco: fios e interruptores foram conectados. mas o mesmo poderia ser dito de um livro. Como resultado..Desse modo. Fala-se aqui de uma revista. Em alguns casos. há o cheiro característico do papel.

a autora da reportagem. Acompanhada da reportagem. O título da matéria é ‘Do tupi. de gado. Logo. seca no sol. Em outros casos. O despertar da imaginação através das palavras fica evidente logo início. É de algo doce. pois as larvas (algo desagradável como gênero alimentício na cultura ocidental) se misturam com a carne (no caso. no entanto. quando demais. Texto e imagem. deixamos de ver.) Quando a mesa é farta.. embora não faça uso constante das técnicas do jornalismo literário. (MAIA. o paladar também entra em ação. o quanto o modo como o texto foi construído contribui para transportar o leitor para o universo imaginado pelo autor do texto.. Ficava intragável de tão doce””. o casamento perfeito para aguçar o olhar e o paladar do primeiro que folhear o periódico. escalpos inteiros com chifres. também consegue trazer até o público leitor as imagens de algo que provoca o paladar: (. Ermídio serve para a família carne de bode ou tatu. No entanto. ou aquele que contém água’ e. Era um revigorante. 2013). tem-se a sensação de nojo com a imagem que as palavras provocam. água. 2012). Quando se fala em carne que apodrece e enche de larvas. Ele misturava buriti. No quintal das casas é comum ver a carcaça dos animais dependurada nos varais.reportagem trabalha com as técnicas do jornalismo literário. consequência das moscas que circulam em volta da carne seca. atrativo. mbïrï’ti’. fotos dos doces feitos com o buriti. e tomava. Mas essa já é outra história.” (FERREIRA. Muito pouco da carne dependurada para secar. mas selecionamos o seguinte trecho para elucidar: “(. desse modo. típica comida presente nos pratos dos brasileiros) e isso não aparenta. o leitor atento pode mesmo a sentir esse “enojamento”. como a descrição minuciosa d’aquilo que contextualiza o local sobre o qual se fala. o “intragável” é de tão doce que. o sentir pode ser mais agradável. leite condensado e outras coisas. logo na primeira leitura. esse enojar é positivo. Mas sobre o olhar. Nesse caso.. como em uma outra reportagem produzida pela mesma revista. como um bom prato. LACERDA. Nesse caso. a sensação de nojo.. Grande parte apodrece enche de larvas. patas e cascos.) “O seu Manoel fazia uma mistura que ele chamava de ‘peitoral’. Percebe-se. No chão. é de fato aproveitada. . ao falar sobre as propriedades do buriti. açúcar.

ar/vjornadas/BiasioliDeFreitas. MAIA. 1ª ed. M. Acesso em: 12 out. 2013. 4859. La Plata. nº 10. Brasília. VI. B. C. Acesso em: 12 out. Alexander. 103-119 FERREIRA. <http://jornadasfilologiaylinguistica. 2002. São Paulo: Annablume / FAPESP. In: CONTRERA. e LACERDA.com. 2014. a. a. 2012.B. A semiótica dos textos de terror: o discurso que provoca o medo. p. Mídia e Pânico – Saturação da Informação. 6. Do tupi. mbïrï’ti’. v. Violência e Crise Cultural na Mídia. O gosto da pêra: sobre anjos caídos.edu.unlp. 2014 GOULART. Cap.br/news/view/uma-lupa-sobre-o-jornalismo-de-revista>. 21 al 23 de mar. Campus Repórter. Uma lupa sobre o jornalismo de revista. p.L. ou aquele que contém água.pdf>. FaHCEUNLP. Campus Repórter.(AQUI COLOCAR O VISUAL) Referências CONTRERA. . nº 12.7. 28-41. FREITAS. Malena Segura. Vidas na Escuridão. p. 2012. Brasília. 1.fahce. Em: <http://observatoriodaimprensa. B.