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XIII Congresso Brasileiro de Sociologia 29 de maio a 1º de junho de 2007 UFPE, Recife (PE) GT10: Estado, Cidadania e Identidade

Cidadania cibernética como construção não-governamental:

o cyberativismo do Greenpeace

Autora: Samira Feldman Marzochi (IFCH-Unicamp) marzochi@gmail.com Orientador: Renato Ortiz

Campinas, 16 de abril de 2007

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Cidadania cibernética como construção não-governamental:

o cyberativismo do Greenpeace

Samira Feldman Marzochi

(IFCH-Unicamp)

Resumo: Que tipo de cidadão pressupõe uma ONG Internacional como o Greenpeace? A quem esta organização apela que participe como cyberativista ao lançar suas campanhas? Através das práticas não-governamentais, a figura de um cidadão cibernético desterritorializado vem sendo construída. O trabalho consiste de um exercício de caracterização deste sujeito por meio da análise empírica sobre o Greenpeace (publicidade, páginas eletrônicas, material de campanha, entrevistas) e da discussão teórica sociológica sobre o indivíduo na modernidade. Sustento a hipótese de que o cidadão cibernético possa ser tomado como emblema da dimensão transnacional da cultura política contemporânea e estendido, desse modo, à compreensão de outras situações de ativismo eletrônico. Por ser um produto histórico e ideológico, é capaz de refletir, em sua própria figura, novos valores político-culturais.

Palavras-chave: cidadania; ativismo; organizações não-governamentais; Greenpeace; cultura política; mundialização.

Introdução

Observando o modo como o Greenpeace apela à participação dos sócios e cadastrados em seus sites nacionais, percebemos que um novo tipo de ativismo se configura. Além de afiliado ou simpatizante, a organização propõe que sejamos “cyberativistas” 1 : uma grande quantidade de pessoas anônimas a quem a organização se dirige mas que raramente se encontra, aparece ou manifesta publicamente. O contato entre os afiliados e a ONG ocorre através do correio eletrônico ou telefone e as ações da organização são acompanhadas pela Internet, TV, rádio, jornais e publicações próprias. Simpatizantes e afiliados participam como espectadores, torcedores e no máximo se tornam voluntários para executar ações que não são planejadas por eles. E o “voluntário”, inscrito e recrutado pelo Greenpeace para a realização das “ações diretas”, corresponde a mais um dos mecanismos de funcionamento e coordenação da ONG. Ele executa as ações planejadas à sua revelia, como soldado anônimo. Ao invés de desfazer a distância que envolve a relação entre a ONG e os seus sócios, o voluntário é introduzido num outro tipo de distanciamento ao viver situações que na verdade lhe são estranhas. Conforme observa Fruet, “é preciso ter um grande controle emocional para evitar reações

1 O “ciberativismo” se torna, nos anos recentes, um meio reconhecido de protesto: “O ciberativismo é uma forma de ativismo realizado através de meios eletrônicos, como a informática e a Internet. Na visão dos que o praticam, o ciberativismo é uma alternativa aos meios de comunicação de massa tradicionais, permitindo-lhes ‘driblar’ o monopólio da opinião pública por estes meios, ter mais liberdade e causar mais impacto, ou é apenas uma forma de expressar opiniões” http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciberativismo.

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agressivas em momentos em que os voluntários possam sentir-se ameaçados, sofrer ofensas ou serem alvos de violência. Há um treinamento prévio ao estilo de uma ‘dinâmica de grupo’ em que um dos membros exerce o papel de um guarda fabril ou de um policial violento e os outros são orientados para apenas fugir sem em nada demonstrar reação” (Fruet, 2004, pp. 57-58). 2 Para os sócios, há uma “central de relacionamento” e um fórum virtual de discussão em que os contribuintes podem trocar idéias, criticar, propor ações, fazer perguntas e criar grupos de discussão sobre diversos temas dentro daqueles que fazem parte das campanhas do Greenpeace. Os pontos de acesso (GIDDENS, 1991, p.91), entendidos como pontos de conexão entre indivíduos ou coletividades leigas e os representantes de sistemas abstratos, através dos quais a confiança no Greenpeace pode ser mantida e reforçada, são poucos e quase todos virtuais 3 . Os escritórios nacionais da organização são restritos à permanência dos funcionários para evitar o vazamento de informações sobre as estratégias de campanha e ações diretas. Os 2,8 milhões de colaboradores (22 mil no Brasil) de 158 países (dos quais 41 têm escritórios nacionais) 4 não são consultados e em nada ajudam a definir os rumos da organização, as prioridades de campanha, o uso dos recursos, os tipos de ação ou a forma como a ONG se estrutura. Como o “telespectador de chinelos” de Edgar Morin 5 que projeta seu espírito para alhures através das imagens eletrônicas, ser sócio do Greenpeace é, de algum modo, estar conectado a todos os cantos do mundo onde a organização tem escritórios ou realiza ações de campanha. Na perspectiva do sócio (sublinho esta condição), uma ONG internacional como esta pode lhe servir de extensão, assim

2 O voluntário assiste a uma apresentação do projeto de voluntariado do Greenpeace e decide se quer ou não participar. Depois, recebe um treinamento institucional em que o voluntário entende a estrutura e o funcionamento da organização e das campanhas. Em seguida, é treinado para a “não-violência”. Os voluntários são treinados para

trabalhar basicamente fora da organização em atividades de engajamento público (Pompeu, 2005).

A organização mexicana ainda convoca seus sócios a assistir à apresentação anual do relatório financeiro e de atividades e esclarecer dúvidas, mas esta não é uma prática na grande maioria dos escritórios: “Para Greenpeace es fundamental mantener un contacto cercano con quienes hacen posible nuestras campañas y victorias. Para ello, además de los talleres, charlas y acciones, al inicio de cada año organizamos una reunión especial con socios donadores de Greenpeace México. En ella les informamos del trabajo que Greenpeace ha realizado -gracias a su apoyo- a lo largo del año anterior.Este año, nuestra Reunión anual de Socios Greenpeace se realizó en el Club de Periodistas de México. Alrededor de 650 socios donadores nos acompañaron y pudimos informarles acerca del trabajo realizado en 2005, un año de mucho esfuerzo a favor de nuestro medio ambiente. Durante su exposición Alejandro Calvillo, director de Greenpeace México, dio a conocer el panorama social y político en el cual está trabajando nuestra organización. Le siguieron exposiciones de cada una de nuestras campañas y de las áreas de acciones, comunicación y finanzas, apoyadas con videos.Después del informe tuvimos la oportunidad de convivir con nuestros socios, platicar con ellos, aclarar dudas y profundizar en algunos temas de nuestras campañas. Nos acompañaron socios del Distrito Federal, Jalisco, Morelos, Estado de México, Querétaro, Veracruz, Puebla, Monterrey y Baja California. Si tú pudiste acompañarnos, ¡muchas gracias! Si no te fue posible asistir, sigue el desarrollo de nuestras actividades y recuerda: te

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esperamos el próximo año”. http://www.greenpeace.org/mexico/newsletter/reuni-n-anual-de-socios-greenp.
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Observar que há mais sócios colaboradores em países que não possuem escritórios nacionais do Greenpeace que nos países onde há escritórios. Há uma identificação com o a ONG que ultrapassa as fronteiras e os limites culturais da nacionalidade, ainda que a organização possa realizar ações no interior destes países (sem escritórios nacionais) e

lidar com questões a estes relacionadas.

“É a televisão que realiza a extrema ubiqüidade do alhures na extrema imobilidade do aqui. Um condensado múltiplo do cosmo se oferece diariamente ao telespectador de chinelos” (MORIN, 1990, p.178).

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como a mídia de McLuhan 6 . O Greenpeace reorganizaria o sensorium dos indivíduos.

É como se suas ações, imagens, slogans, barcos e balões funcionassem como

extensões das faculdades políticas clássicas: a razão, o discurso e a ação.

Parafraseando Morin, o Greenpeace “fantasmaliza o espectador, projeta seu espírito

na pluralidade dos universos figurados ou imaginados, faz sua alma emigrar para os

inúmeros sósias que vivem para ele. (

soberanos, eles nos servem de consolo para a vida que nos falta, nos servem de distração para a vida que nos é dada” (MORIN, 1990, p.169-170). O espaço de encontro entre os cyberativistas é, virtualmente, o próprio objeto da organização: a Terra.

O cyberativismo pressupõe, portanto, uma cibercidadania que já não se limita

ao pertencimento à cidade ou ao território nacional 7 . O que nos indica o cyberativismo

é uma nova cultura de ligação individual com o mundo. O “mundo”, porém, não é mais aquele do sentido puramente cosmológico ou identitário, o universo que nos situa socialmente, organiza nosso modo de pensar e as divisões do clã (DURKHEIM, 1995).

O universo deste novo ser político, o cibercidadão, é a Terra em sua existência

material e finita, que corre riscos, pode ser fotografada por satélites, está submetida às

leis da natureza que são independentes da vontade humana, da tradição, da fé e da cultura. O cidadão cibernético é também o cidadão do mundo. Embora possa sofrer de modo diferente e em cada lugar social e geográfico os efeitos dos problemas ambientais, está igualmente sujeito à possibilidade de uma hecatombe ecológica. Por trás do cidadão abstrato e a rigor muito pouco ativo, revela-se um mundo demasiadamente real que se impõe, cada vez mais, às existências individuais. Ao mesmo tempo em que se desenha a figura, ainda impressionista, do cidadão do mundo, tornam-se mais nítidos os problemas (possibilidade de guerra nuclear, calamidades ecológicas, explosão populacional, colapso do câmbio econômico global) que ameaçam a todos sem respeitar divisões entre ricos e pobres

ou regiões do mundo. Ao mesmo tempo em que aumenta o acesso à informação e a

ilusão do controle, os mecanismos de desencaixe (GIDDENS, 1991) aparentemente tiram as coisas das mãos de quaisquer indivíduos ou grupos específicos. As campanhas de proteção à natureza surgem em todo o globo exatamente quando o indivíduo se acha desterritorializado (ORTIZ, 1997, p.79), suspenso. A política se torna, neste novo modelo de cidadania, um modo de funcionamento, não algo a que se entrega, sacrifica-se, ou que implica perdas,

)

Estes sósias vivem em nosso lugar, livres,

6 A roda é extensão dos pés, o livro é extensão dos olhos, as roupas são extensão da pele, o circuito elétrico é extensão do sistema nervoso central e assim por diante (MCLUHAN, 1969, p.81). 7 Também não diz respeito ao pertencimento ao “cyberespaço”, uma vez que admiti-lo seria redundante: a cultura já é um “lugar virtual”.

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escolhas e definições político-ideológicas precisas. A ONG Internacional apenas exige que o sócio deposite regularmente sua contribuição, mesmo que pequena, como se pagasse um serviço terceirizado de participação política. “Você pode ajudar tanto quanto um ativista mesmo sem sair de casa”, anuncia um cartaz publicitário que apresenta duas moças conversando e tomando chá num bote de borracha atracado no centro de uma sala de estar 8 . A organização promete não atrapalhar nossa vida cotidiana, promete não nos tirar o conforto e a segurança ou exigir que entremos fisicamente em contato com pessoas para além do círculo social mais íntimo. O cyberativista deve subscrever cartas de protesto já elaboradas pelo Greenpeace nas quais só é preciso digitar nome, e-mail e “dar enter” para remetê-las aos endereços eletrônicos de políticos ou empresários pré-definidos sobre os temas de campanha da ONG (Mudanças Climáticas, Florestas, Energia Nuclear, Engenharia Genética, Paz e Desarmamento, Oceanos, Substâncias Tóxicas). Muitas vezes, em algumas campanhas como a de Oceanos, nem é preciso informar o nome, a idade, o país ou endereço, mas somente o e-mail 9 . Cada ativista é apenas uma conexão numa rede, capaz de ler mensagens, lidar com máquinas computadoras e comover-se o suficiente para clicar “enviar”:

Excelentíssimo Sr. Luís Inácio Lula da Silva Presidente da República

Exma. Sra. Dilma Roussef Ministra Chefe da Casa Civil

Exmo. Sr. Silas Rondeau Cavalcante Silva Ministro de Minas e Energia

Exmo. Sr. Sérgio Machado Rezende Ministro da Ciência e Tecnologia

Exmos. Senhores,

Faço parte daquele grupo de brasileiros apaixonados pela beleza natural do nosso País e consciente da necessidade de garantir um desenvolvimento sustentável para o Brasil. Energia é um elemento fundamental para nosso desenvolvimento, portanto, para garantir a sustentabilidade, devemos buscar fontes de energia limpas, renováveis,

8 www.greenpeace.org.br

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http://oceans.greenpeace.org/pt/defensores-oceanos

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economicamente viáveis e socialmente justas.

O Brasil é solar, é eólico, é renovável e deve ter um papel de liderança nesta revolução energética. Não queremos nem precisamos de usinas de carvão ou nucleares.

Vamos mudar a cara deste País! Vamos investir em energias limpas e renováveis em grande escala. Vamos afastar o fantasma do apagão e crescer usando a energia de forma consciente, sem desperdício e sem destruir o meio ambiente.

Obrigado,

Nome:

Data de nascimento:

e-mail:

Cidade:

Estado:

País:

Nome: Data de nascimento: e-mail: Cidade: Estado: País: DD/MM/AAAA BRASIL Sim! Desejo receber mais informações
Nome: Data de nascimento: e-mail: Cidade: Estado: País: DD/MM/AAAA BRASIL Sim! Desejo receber mais informações

DD/MM/AAAA

de nascimento: e-mail: Cidade: Estado: País: DD/MM/AAAA BRASIL Sim! Desejo receber mais informações sobre o
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BRASIL
BRASIL

Sim! Desejo receber mais informações sobre o Greenpeace e esta campanha.

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Este novo tipo de pertencimento e participação não encontra com facilidade referentes teóricos que auxiliem sua compreensão. Mesmo a divisão entre cidadania “ativa” e “passiva” defendida por autores como Bryan Turner (1990;1993;1994) se restringe ao espaço nacional e não contempla, de modo satisfatório, o uso dos recursos eletrônicos. A cidadania passiva, relacionada aos direitos garantidos pelo Estado, e a ativa, que se realiza através da participação em associações locais e autônomas, não satisfazem o objetivo de compreensão da cidadania cibernética que não se limita à ação no interior de um país (e não é tão passiva quanto simplesmente usufruir das garantias do Estado, nem tão ativa quanto participar de instituições locais). O termo cidadania pressupõe, normalmente, o Estado Nacional. Mas, pode-se dar a ele um sentido mais genérico, como o faz Michael Walzer que se refere ao direito de membership, de pertencimento a uma comunidade (TOURAINE, 1994,

p.111).

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A cidadania cibernética não corresponde, portanto, à igualdade de direitos inspirada na cidadania romana, um estatuto único pelo qual todos os cidadãos são iguais em direitos (de estado civil, de residência, de sufrágio, de matrimônio, de herança, de acesso à justiça etc.), mas pressupõe uma igualdade de pertencimento à Terra. A cidadania cibernética estaria, portanto, muito próxima à idéia abstrata de universalidade, admitindo-a como conceito capaz de abranger todas as diferenças, ao invés de ser um modelo. Uma cidadania que dispensa as identidades nacionais, regionais, de gênero, raça, credo e classe, ao mesmo tempo que as envolve igualmente. 10 Para ser um cyberativista ambiental não é preciso estar em nenhum lugar específico, nem identificar-se com qualquer grupo em particular. A cidadania cibernética não pressupõe, como o faz Robert Sack, que “para ser um agente é preciso estar em algum lugar” (GIDDENS, 1991, pp.119-120).

Cibercidadania

Schnapper e Bachelier (2000, pp. 9-10) observam que o termo cidadão, de que a Revolução já vez uso entusiasmado e por vezes excessivo, voltou à moda na última década de maneira insistente nos países democráticos. Fala-se em “encontros cidadãos”, “ação cidadã” e mesmo em “café cidadão”. Toda a cidadania parece restringir-se aos direitos políticos e, destes, somente a um aspecto, normalmente exaltado: a participação não formalizada pelo Estado em todas as questões que possam ter caráter político. Os direitos sociais, civis e os direitos políticos formais (por ex., de votar e candidatar-se) 11 parecem menores diante da livre possibilidade de manifestação através de métodos imprevistos. No pensamento político ocidental inspirado na idealização da Grécia Antiga, o conceito de razão, discurso, ação e humanidade se desenvolvem juntos (ARENDT, 1987). Interiorizamos de tal modo a idéia de cidadania segundo a fórmula “um homem, uma voz” que ela hoje nos parece evidente (SCHNAPPER; BACHELIER, 2000, pp. 11- 12). A cidadania atribuída aos gregos mistura-se profundamente à idéia de indivíduo no pensamento político democrático (numa demonstração de exagerada complacência por parte de filósofos e cientistas sociais em relação às profundas desigualdades e à ausência de liberdade na “democracia” grega). 12 Assim, como compreender a

10 Desde que se saiba ler, escrever e manipular um computador. 11 Marshall divide o conceito de cidadania em três partes e as chama de civil, política e social. “Por elemento político se deve entender o direito de participar do exercício do poder político como membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo. As instituições correspondentes são o parlamento e conselhos do governo local” (Marshall, 1967, p. 66).

12 Os lugares sociais na Grécia Antiga eram limitados e pré-definidos pela ordem social. Mulheres, crianças, escravos e estrangeiros (nascidos fora da Grécia) não eram cidadãos, e os jovens eram obrigados a lutar em guerras periódicas (ORTIZ, 2006). A polis grega se definia por valores étnicos. Os cidadãos eram classificados segundo o nascimento, o pertencimento e a filiação a uma fratria ou a um clã. O cidadão ateniense era filho, neto, bisneto de um cidadão

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cidadania sem razão, ação, discurso e voz próprios como é a cibercidadania? No mesmo processo de individualização (BECK, 1995, p.25), a cidadania parece desindividualizar-se. A democracia moderna herdou de Roma a concepção de uma cidadania definida em termos de estatuto jurídico. No Império Romano que se tornou imenso, não se tratava mais de organizar a vida e os conflitos entre os grupos de indivíduos reais, mas de regrar as relações entre os sujeitos de direito. Agora, os estrangeiros poderiam ascender à sociedade política definida em termos jurídicos. As elites provinciais adquiriam cidadania romana na medida em que as províncias eram anexadas ao Império. Mesmo que a maioria dos cidadãos se encontrasse alheia à prática política cotidiana, os romanos definiram a cidadania em termos jurídicos. Além disso, eles fundaram a idéia segundo a qual a cidadania estava aberta e tinha vocação universal (SCHNAPPER; BACHELIER, 2000, pp. 15). Por outro lado, a cidadania romana, assim como o universalismo posterior do cristianismo católico, era imposta. A cidadania romana impunha-se pela conquista territorial, o catolicismo pelas Cruzadas, Inquisição, Catequese e outros mecanismos. O universalismo se mostra, até a modernidade, como um modelo a que se deve submeter ao preço da inexistência social ou efetiva (por assassinato, clandestinidade, marginalidade, invisibilidade, enfim, pela completa ausência de direitos individuais). Segundo a fórmula do dominicano Las Casas, considerado defensor do “direito” indígena à catequese na Disputa de Valladolid de 1550-1551, “não existe nenhuma nação no mundo, mesmo as bárbaras, ferozes ou depravadas nos costumes, que não possa se tornar, um dia, uma nação polida cujos membros se comportem de modo humano e conforme a razão” (SCHNAPPER; BACHELIER, 2000, pp. 16). O pensamento político moderno, redescobrindo o direito romano e elaborando em seguida a idéia do contrato social, introduz uma ruptura na concepção e na prática política. A cidadania moderna não é mais uma essência (quase uma alma) dada de uma vez para todos, mas uma conquista por direitos que se desenrola historicamente. As práticas da cidadania tomam hoje formas concretas diferentes nos vários países democráticos. Para Schnapper e Bachelier (2000, pp. 17), uma grande diversidade de instituições organiza a cidadania e sua evolução continua.

ateniense. A aquisição da cidadania pelos estrangeiros foi excepcional e a atividade política era, de fato, limitada aos membros mais afortunados da polis. Os gregos eram reconhecidos pela origem, língua, deuses, lugares sagrados, festas sacrificiais e modo de vida (SCHNAPPER; BACHELIER, 2000, pp. 14). Além disso, não havia separação entre Estado e Religião (algo que só foi possível na modernidade política instaurada após a Revolução Francesa), o que torna os conceitos de cidadania e de esfera pública não-estatal incoerentes neste contexto. A Grécia dos filósofos é um mundo ideal que não nos serve de registro histórico para reconstruir a cidadania grega. Lembremos que Sócrates fora condenado por defender a liberdade de pensamento e a independência em relação às crenças do Estado. Suas idéias não correspondiam, portanto, à realidade política e cultural da Grécia Antiga.

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Ortiz observa que a liberdade individual, valor caro à modernidade, estava longe de realizar-se na Grécia Antiga. A esfera privada era carregada de conotação negativa. “Idion era um dos termos que se opunha à público, ao qual se associava idiotes, alguém que se encontrava na ignorância das coisas coletivas” (ORTIZ, 2006, p.86). Foi o Romantismo que contribuiu para a valorização do privado em relação ao público junto à separação entre Igreja e Estado. A distinção entre público e privado é, portanto, indissociável do conceito de cidadania.

A cidadania é uma invenção recente e não o prolongamento e um passado

distante e glorioso. A realização do indivíduo como cidadão livre e consciente, capaz de escolher a orientação política que lhe convém, apenas se concretizaria como vontade no âmbito da esfera pública. Apenas a partir Revolução Francesa fomos capazes de incorporar às leis a associação entre cidadania, igualdade e também liberdade entre os indivíduos, embora permaneçam, a rigor, como princípios aos quais se pode apelar juridicamente e não como emancipação real. Conforme Schnapper e Bachelier (2000, pp. 23), “o que é a modernidade política senão a elaboração de uma

sociedade na qual a cidadania constitui o fundamento da legitimidade”? A universalidade pode, então, realizar-se menos como um modelo imposto e mais como

espaço capaz de envolver a diversidade dos grupos e dos indivíduos e lhes assegurar iguais direitos.

A cibercidadania talvez possa ser compreendida como manifestação do direito

de participação política, ainda que desvinculada de instituições governamentais. Sua

condição é o acoplamento dos indivíduos ao computador pessoal conectado à Internet. A cibercidadania pressupõe, desse modo, um novo tipo de indivíduo que, além de encarnar os aspectos atribuídos à individualidade moderna, apenas existe em conexão com estes aparelhos. O cyberativista do Greenpeace é não apenas um “cidadão cibernético”, conectado à Internet por meio do computador, como está em relação com conteúdos (informação, conhecimento, discursos, imagens, sons) organizados ou produzidos por esta ONG Internacional. Como organização inserida num sistema técnico, científico e político, o Greenpeace atua como uma tecnologia que economiza esforço intelectual dos indivíduos no conhecimento, interpretação e julgamento da realidade (LÉVY, 1993, p.142).

A percepção individual do cyberativista sobre as questões ecológicas depende,

neste sentido, do modo como a organização elabora seus conteúdos. Este sistema de tecnologias e instituições faz dos cibercidadãos os pontos últimos de sua extensão, ao contrário do que McLuhan imaginava. Não são os aparelhos e as instituições a ampliação dos nossos sentidos mas nós é que somos o meio através do qual as máquinas e as organizações operam. Para os sociólogos americanos da década de

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50, o indivíduo moderno não é mais tradition-directed (orientado pela tradição), nem self-directed (orientado por projetos pessoais), mas other-directed, orientado por um “outro” (CHESNEAUX, 1995). O cibercidadão é um cyborg. O conceito de cyborg (cybernetic organism) foi forjado em 1960 por Manfred Clynes e Nathan Kline no âmbito dos projetos aeroespaciais da Nasa (SANTOS, 2003a). Haraway define o cyborg como um híbrido de máquina e organismo. A tecnologia das últimas décadas do século XX teria mesclado natureza e artificialidade, corpo e mente, interior e exterior, criando máquinas “perturbadoramente vivas” e humanos “apavorantemente inertes” com implicações culturais e políticas importantes. “Não fica claro quem faz e quem é feito na relação entre homem e máquina”. “Os cyborgs necessitam de conexão” (HARAWAY, 1994, pp.243-278). Velhos conceitos da política de inspiração clássica não podem mais se aplicar. Temos para análise um universo em que não há espaço público, visibilidade, exercício da razão individual, ação, discurso e encontro físico entre sócios, mas que não deixa de ser um campo político. Deparamo-nos com o desafio de compreender novas práticas políticas muito distantes dos modelos conhecidos. Ao que tudo indica, é o próprio Greenpeace quem assume o papel do ator político tradicional capaz de promover ações, ser visto através da publicidade institucional, levar adiante sua palavra e convencer um grande público. A passividade dos indivíduos vem acompanhada da atividade das instituições. Para o Greenpeace, assim como para o modelo de Hannah Arendt, o espaço da aparência é também o do poder. Dessa relativa impotência do ser humano condenado a espectador, a organização retira a sua força. Tal como o Moderno Príncipe (GRAMSCI, 1991b, p.8- 9), o Greenpeace se dedica à reforma intelectual e moral. Porém, diferente dele, constrói uma concepção de mundo que ultrapassa as fronteiras do “nacional-popular”. “O Moderno príncipe, o mito-príncipe, não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto; só pode ser um organismo, um elemento complexo da sociedade no qual já tenha se iniciado a concretização de uma vontade coletiva, reconhecida e fundamentada parcialmente na ação” (GRAMSCI, 1991b, p. 6). As ONGs Internacionais ganham prestígio exatamente a partir dos anos 60/70 da contracultura internacional, quando o papel do Estado e dos partidos políticos como representantes da sociedade e promotores de transformações sociais era profundamente questionado. Para os militantes ecologistas, os partidos políticos não correspondiam mais às clivagens contemporâneas, especialmente às noções de direita e esquerda (SAINTENY, 2001, p.64). Como defendia Brice Lalonde nos anos 70, “estas noções de direita e esquerda não são pertinentes porque elas se referem

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aos partidos políticos que representam tradições culturais ultrapassadas. Direita e esquerda se remetem às instituições políticas, mas não aos movimentos sociais” (SAINTENY, 2001, pp.64-65). Os grandes debates que deram nascimento à oposição entre esquerda e direita (forma do regime, separação entre Igreja e Estado, questão do trabalho) não seriam mais os conflitos fundamentais da sociedade contemporânea. Os ecologistas insistem

seguidamente sobre a recusa da disciplina do partido, sua vontade de uma “política à

la carte” e sua preferência pelos grupos temporários de objetivos precisos, na linha de

Moïse Ostrogorski (SAINTENY, 2001, p.66; OSTROGORSKI, 1979). Os partidos cultivam interesses particulares e não mais que um objetivo: a conquista do poder do Estado quando, para os ecologistas, este deveria ser apenas um entre outros. “São todos organismos totalitários de que os ecologistas desejam a metamorfose ou o

desaparecimento, ao mesmo tempo em que eles querem o fim (

órgãos de informação centralizada” (Brice Lalonde 13 ) (SAINTENY, 2001, p.66). Diferente de uma ONG, um partido é uma organização local bem estabelecida

e aparentemente durável que estabelece relações regulares e variadas em escala

nacional. Seus dirigentes nacionais e locais buscam tomar e exercer o poder (do Estado) sozinhos ou através de outros e não simplesmente influenciar o poder. Procuram, enfim, um apoio popular que deve traduzir-se em votos em eleições governamentais (OFFERLÉ, 1987, p.8). Para Offerlé (1987, p.8), um partido é, antes de tudo, uma marca coletiva. “Um partido é uma empresa de representação” (OFFERLÉ, 1987, p.11). Na definição weberiana, os partidos podem empregar todos os meios para obter o poder e são suscetíveis de ser orientados em direção ao interesse pessoal ou

dos grandes

)

a interesses objetivos. Os grupos são fundados sobre uma adesão formalmente livre e seus membros e dirigentes são interessados pelo poder político no seio de um agrupamento (OFFERLÉ, 1987, p.10; WEBER, 1991). O partido político está sempre circunscrito às atividades políticas no interior da Nação. O próprio conceito de “associação política”, para Weber, restringe-se aos limites nacionais. Weber denomina associação política uma associação de dominação. Sua subsistência e a vigência de suas ordens “dentro de determinado

13 O discurso anti-partidário e anti-estatal não corresponde, porém, à trajetória política de Brice Lalonde. Ele foi militante do PSU e da UNEF. Integrou no início dos anos 70 a associação Amigos da Terra cuja seção francesa foi fundada por Alain Hervé. Foi diretor de campanha do candidato ecologista à eleição presidencial francesa de 1974, René Dumont. Foi candidato dos ecologistas à eleição presidencial francesa em 1981 e candidato às eleições municipais de Paris em 1983. Será em seguida a terceira posição da lista Entente Radical Ecologista pelos Estados Unidos da Europa com François Doubin (MRG) e Olivier Stirn (UCR). Em 1988, ele participa do Governo de Michel Rocard. Será encarregado do meio ambiente até abril de 1992, como secretário de Estado do Meio Ambiente, depois como Ministro Delegado do Meio Ambiente em outubro de 1990 e, enfim, como Ministro do Meio ambiente em maio de 1991. Em 1990, funda o Geração Ecologia, partido fundado por iniciativa de François Mitterrand que esperava um possível sucesso dos Verdes nas eleições regionais de 1992 (Consultar www.wikipedia.org - francês).

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território geográfico” estariam garantidas mediante à ameaça e à aplicação de coação física por parte do quadro administrativo. Uma empresa com caráter de instituição política é denominada Estado quando seu quadro administrativo reivindica o monopólio legítimo da coação física para realizar as ordens vigentes. Para Weber, uma ação social é politicamente orientada “quando e na medida em que tenha por fim a influência da direção de uma associação política, particularmente a apropriação ou expropriação, a nova distribuição ou atribuição de poderes governamentais de forma não-violenta”. (WEBER, 1991, p.34, grifo meu). No quadro deste autor, o adjetivo “político” está tão intimamente ligado ao Estado quanto o Estado está atado ao poder, sendo este essencialmente o poder de dominação (obediência forçada a uma ordem) do Estado. Um partido político pode realizar ações politicamente orientadas, mas apenas adquire “poder” ao conquistar o Estado. Conforme este ponto de vista, as atividades de uma organização internacional como o Greenpeace não podem ser consideradas as de uma associação política, e tampouco a ONG realizaria ações sociais politicamente orientadas. O “poder” a que está ligado o Greenpeace não é reconhecido por Weber. Se tomássemos como referência este conjunto de conceitos, diríamos que a “cibercidadania” promovida por esta organização Internacional não é política, mas civil, lembrando que os direitos civis dizem respeito aos de associação, e diferem dos direitos políticos de participação em âmbito nacional. Weber denomina empresa uma “ação contínua que persegue determinados fins, e associação de empresa uma relação associativa cujo quadro administrativo age continuamente com vista a determinados fins” (WEBER, 1991, p.32). Ele nota, porém, que sob o conceito de “empresa” se inclui, também, a realização de atividades políticas e religiosas, desde que apresentem continuidade na persecução de seus fins (WEBER, 1991, p.32). O caráter da empresa, todavia, não se define pela política, mas por sua finalidade (que pode ser variada). A concepção de cidadania (e prática política) amordaçada às instituições nacionais e ao território tem sido revista de diferentes maneiras (CASTELLS, 1996; ORTIZ, 1997; VIEIRA, 2001; FOUCAULT, 2002; SILVA, 2005) abrindo um campo de estudos promissor. A chamada “crise de representação” é um compendium de fenômenos muito diversos, muitos ligados ao processo de mundialização, entre os quais 4 nos interessam aqui: o resultado da Segunda Guerra Mundial (hegemonia norte-americana), a criação de um sistema de instituições multilaterais (Nações Unidas e agências relacionadas), o movimento da contracultura internacional (questionamento da tradição, dos padrões de sociabilidade e das instituições políticas) e o desenvolvimento dos sistemas peritos (GIDDENS, 1991).

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As organizações modernas conectam o local e o global de formas impensáveis nas sociedades tradicionais afetando simultaneamente a vida de milhões de pessoas. As relações sociais são retiradas dos contextos locais de interação e reestruturadas através de “extensões indefinidas de tempo-espaço”. A estas transformações Giddens chama desencaixe. O sentido de lugar básico e integrativo fragmenta-se em partes complexas, contraditórias, justapostas. O espaço se torna muito mais integrado porém territorialmente fragmentado. As posições singulares no espaço geográfico passam a ter uma importância meramente secundária (GIDDENS, 1991). Este aspecto é acentuado pelas mídias eletrônicas que tornam familiar ambientes, pessoas e objetos ausentes de origens distantes. Para Giddens, “familiaridade” e “lugar” estão muito menos constantemente vinculados do que já estiveram. Nos familiarizamos com eventos, ações e paisagens há milhares de quilômetros de onde vivemos. Enquanto armazenamos informações sobre lugares, perdemos o senso de lugar. As paisagens que resultam dos processos modernos são pastiches justapostos e desorientadores. Parodiando Subirats, (1989, p.71), os meios de comunicação se transformam numa “segunda pele, numa segunda consciência, o órgão da realidade para o ser humano e, até mesmo, o princípio da sua realização como existência aberta ao devir histórico- universal”. A vida interior do indivíduo moderno transborda para uma vasta área nacional ou internacional. O cyberativista vive a experiência do deslocamento, familiarização e desencaixe (GIDDENS, 1991), da distância e proximidade como o estrangeiro de Simmel (1983), mas sem estranhamento 14 . “A distância é experimentada mentalmente enquanto os corpos sofrem a similitude da vida cotidiana” (MORIN, 1991). Tudo interessa e ao mesmo tempo se indistingue. Para Simmel (1987), não há fenômeno psíquico mais característico da vida metropolitana que a atitude blasé: o embotamento do poder de discriminar. O significado e os valores das coisas, assim como as próprias coisas, perdem a substância, gerando, para além da liberdade, a sensação de inutilidade e impotência. Assim, a esfera privada se torna enfraquecida e amorfa enquanto a esfera pública é excessivamente institucionalizada (GIDDENS, 1991). A exclusão da maioria das arenas onde as políticas de maior conseqüência são elaboradas e as decisões tomadas força uma concentração sobre o eu. A perda do espaço público significa a perda da relação objetiva com os outros homens, da noção de realidade (ARENDT, 1987) e da capacidade de diferenciar o domínio do eu do que está situado fora (CHESNEAUX, 1995). É como se os indivíduos estivessem isolados no plano espectral da hiperconexão.

14 O “estrangeiro” de Simmel pode também ser traduzido por “estranho”.

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As gentes contra o conceito

Nem todos os sites nacionais possuem um fórum virtual de discussão disponível para os sócios. O Greenpeace Internacional, Brasil e USA o têm. Para acompanhar as discussões no Fórum Virtual do Greenpeace Brasil e ser também uma

sócia ativista, afiliei-me pelo valor mínimo de 12 reais mensais. No site do GP Internacional pude acompanhar algumas discussões mesmo não sendo sócia deste escritório. O Fórum não funciona como um chat em que as pessoas ficam conectadas conversando em “tempo real”. Pode ser melhor compreendido como um mural de recados em que se publica opiniões, avisos, críticas, reclamações, perguntas e respostas. A partir do Fórum, as pessoas podem fazer contatos e continuá-los através de outros meios, e mesmo formar grupos de encontro fora do “ciberespaço”. Para a maioria das pessoas que se manifestam no Fórum brasileiro, a filiação ao Greenpeace

é apenas um ponto de partida para a mobilização e ação coletiva em benefício do

meio ambiente. É nítida uma certa revolta em relação à condição virtual (associada à

passividade e ao conformismo). O cyberativista reage a esta imagem sociológica que

lhe é imposta e tenta ultrapassá-la. Os erros de ortografia e a nova escrita dos correios eletrônicos nos lembram da realidade nacional e internacional e chamam atenção para

o fato de que estas pessoas que escrevem são verdadeiras e escapam à abstração

teórica de um indivíduo de formação intelectual e sensibilidade semelhante em todas as partes do mundo. Esta pequena mostra nos leva a perguntar se é possível, a partir de uma brecha teórica que emerge de solo empírico, questionarmos a própria modernidade como conceito válido para a compreensão do indivíduo contemporâneo, mesmo correndo o risco de uma nova generalização. Em substituição ao conceito que simultaneamente exalta e anula o indivíduo, não poderíamos imaginar um outro que o compreenda de modo mais próximo da realidade social, libertando de fato a modernidade sociológica da modernidade filosófica? O que, a final, a sociedade contemporânea tem a revelar ou acrescentar ao plano da cultura política internacional? Por que denominar modernas atividades políticas que não são previstas pelo direito político modernamente constituído? Como compreender a cidadania que não está circunscrita aos limites institucionais e jurídicos de um Estado Nacional? A cibercidadania talvez expresse uma dimensão do indivíduo contemporâneo que é simultaneamente cosmopolita, envolvida pelas coisas do lugar e ansiosa por engajamento (conservador ou revolucionário). O que há de coincidente

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com o indivíduo moderno não é o seu alheamento, mas a sensação angustiante de impotência que resiste, no entanto, à desesperança.

É preciso levar em conta, é claro, que a pequena mostra apresentada a seguir

já foi extraída de um universo selecionado. Os sócios do Greenpeace, a princípio,

estão preocupados com o meio ambiente e acreditam que a ajuda deles pode levar a mudanças. Mas, este recorte, como qualquer outro, nos lembra que não é suficiente

reproduzir modelos teóricos, mesmo numa pesquisa que pretende atingir resultados muito abrangentes.

No Fórum do Greenpeace Internacional não é preciso ser sócio para participar, basta informar o nome e o e-mail e, caso haja interesse, fornecer mais alguns dados.

O Fórum Internacional funciona de modo parecido com o do Greenpeace Brasil. É

possível propor um item para discussão dentro dos temas pré-existentes. Dentre os itens encontrados em “general discussion” estão temas como vegetarianismo, modificação genética, hábitos alimentares, regulamentação para testes em animais, questão nuclear. Há um grande número de mensagens, em torno de 100 ou mais para os itens mais “freqüentados” e, diferente do Greenpeace Brasil, as mensagens são sempre recentes (de horas a poucos minutos). Por não exigir filiação, a participação é muito maior, e a língua usada, sendo o inglês, permite a comunicação entre pessoas de diversos países, “ricos” e “pobres”:

Nigéria, Estados Unidos, Islândia, Eslováquia, Itália, Espanha, Brasil, Inglaterra, Tunísia, Canadá, Coréia, Indonésia, Holanda, Moldávia, Israel, Escócia, Noruega, Austrália, Tasmânia, Equador, Romênia, Nova Zelândia, Venezuela, Argentina, Filipinas, Croácia, Sérvia, Dinamarca, Colômbia, África do Sul, Turquia, Costa Rica, Singapura O tema “Geral” é o mais movimentado, assim como no site do Greenpeace Brasil. Por não exigir um cadastro rigoroso, as pessoas podem inventar seus nomes e lugares de origem. É freqüente encontrar localidades como “earth”, the world” e outros mais criativos como “fond du lac”. É possível montar seu “avatar” com qualquer imagem da Internet. O número de mensagem de cada item é contado a partir do número de respostas ao item de discussão proposto. No Fórum do Greenpeace Internacional o que se encontra são discussões superficiais, trocas rápidas de idéias, comentários curtos. A idéia parece ser mais a de ”marcar presença” e expor a opinião que sustentar uma discussão. Estão quase ausentes tentativas de mobilização e de ação conjunta como no Fórum do GP Brasil. No Fórum Internacional, são relatados problemas, experiências com questões ambientais, às vezes se repetem informações veiculadas pelo próprio Greenpeace, mas tudo em nível superficial. Há, no máximo, propostas de boicote, como o de não

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comer nada que provenha do mar (“If you love the oceans don't eat seafood”). Duas campanhas estão em evidência no Greenpeace Internacional: “oceanos” e “mudanças climáticas”. (Aquelas que mais dizem respeito ao mundo todo). Não raro, identificamos rivalidades e sentimentos nacionalistas nos dois Fóruns. Brasileiros contra os “gringos” na Amazônia e estranheza entre nacionalidades no GP Internacional. - “Iceland is a "bad" country? Do you know ANYTHING about Iceland's fisheries? Reason this statement, please.” O domínio da língua inglesa escrita pode ser usado como estratégia de afirmação e desqualificação do interlocutor:

- “Hello????? Read what I say!!! Your English not that good, eh? I stated these people should be allowed to eat seafood!”. 15 A preocupação com as questões ecológicas, portanto, não exclui nacionalismos e preconceitos de qualquer tipo, ainda que pareçam anacrônicos ao nosso modelo de cyberativista. Como conciliar modelo e excessão é o desafio que nos resta.

“Fragmentos” do cibercidadão sócio do GP Brasil 16 :

- “Concordo com Liana, estamos aqui reclamando e achando supostas soluções para todos os

problemas, mas na verdade o que importa é a ação, nossa eficácia em ajudar as floresta, enfim, agirmos!

Vamos postar os emails para contatos!!!!!!!!”.

- “Dani como vai ? tudo bem??? vc é de onde? eu sou de São Paulo capital. Estamos tentando

colocar em prática os temas das campanhas do Greenpeace, mas parece que tem gente que entra como colaborador só pra dizer que tem a carterinha do green, isso ta desanimando a gente um pouco. Enfim, a princípio lancei a idéia de baixarmos o abaixo assinado contra a angra3, que se encontra na parte de nucleares aqui do site. Mas , não tem só isso! Se vasculharmos o item campanhas, iremos encontrar

algumas coisas a serem feitas, Por favor Dani, se vc tiver idéias vamos mandar bala. To afim de fazer o evento dos transgênicos,que o Greenpeace coloca direitinho como podemos fazê-lo e dá os passos a

serem seguidos. Mas precisamos de união né

- “Falar é facil!!! ficar indignado tbm, mas procurar solucoes e aplicar ao seu dia-a-dia ehhh mto

dificil, nao votar em candidatos que so visam o consumo desenfreado e irresponsavel, nao gastar agua em excesso, reciclar o lixo, denunciar, sair do estado letargico em q a maioria se encontra é mto mto

dificil, desde o pequeno ao maior, todos temos que nos conscietizar e mudar primeiro em ksa, e atingir o mundo. No dia em que a sociedade se der conta que a Amazonia e seus recursos naturais sao seus como nacao e q é responsabilidade de cada um cuidar e defender, esse dia nao vai ser governo, nao vai ser madeireiro ou sojeiro que vai fazer e usufruir como kiser, destruindo e acabando. Bjoks”.

um abraço a ti e boa sorte a todos nós.”

- “E aí

o q vcs vão fazer

ahh

deixa eu ver

Nada né

Pois ééééé

Que perca de tempo

heim????”

15 http://forum.greenpeace.org/int/showthread.php?t=118

As mensagens foram “copiadas” e “coladas” diretamente do Fórum Virtual para sócios do Greenpeace Brasil. Não foram realizadas, propositalmente, correções de qualquer tipo (ortografia, pontuação, concordância). Os nomes originais foram substituídos por fictícios. Os grifos são meus. As “falas” não estão ordenadas.

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- “Galera, estou em busca de colaboradores do ABC pra que possamos montar um projeto de

educação ambiental e tb pra conhecer a galera e saber o que juntos podemos fazer, blz?! Valeu!!”.

“Pessoal queria entrar em contato com colaboradores de Goias , saber como eh feita esta colaboração ,

ou so apenas doação de grana , quero me engajas em projetos mais sérios em Goias , ongs goianas ,

podem por favor entrar em contato pelo mail bruno@xxx.com”.

- “Gostaria de pedir ajuda ou opinião para saber como eu começo alguma atividade voluntária do

Greenpeace aqui no meu estado, Espirito Santo, onde não possuimos nenhuma sede do Greenpeace.

Também não conheço outras pessoas aqui que estão filiadas ao Greenpeace. Para se fazer um Grupo

Local de Voluntários é necessário todos estejam filiados ao Greenpeace? Bom, essas são as minhas

dúvidas e se vcs puderem me ajudar eu ficarei muito grata. Obrigado pela atenção. E muita paz pra

todos.”

- “Pessoal! Quero unificar grupos que pensem em medidas estratégicas políticas inteligentes em

driblar grandes coorporações desavergonhadas, que danificam o meio ambiente, sugerindo aplicações de

políticas locais, que possam gerar lucros na região e desfoque interesses internacionais! É UM DESAFIO

E TANTO!! Abraços e PAZ VERDE!!”.

- “Não gostei de forma alguma de como foi disposta as propostas dos canditados, uma vez que o

GreenPeace em si fala de modo totalmente opinativo e pendendo para beneficiar o candidato

Alckmin.Lula tendo muito mais propostas do que Alckmin tem os comentários do GreenPeace todos

negativos, enquanto Alckmin com 3 propostas tem os comentários positivos. O que é isso? Vocês querem

vender o Brasil? Alckmin é sinônimo de venda e privatização. A amazônia pode ser praticamente leiloada

por ele, assim como o Banco do Brasil e a Petrobrás. Lembrem-se que para cuidarmos de um país,

primeiro precisamos tê-lo”.

- “Gostaria de saber porque essas instituições não trabalham juntas na preservação do nosso

querido Brasil.No país existe tres importantes (as mais conhecidas) organizações que e: SOS mata

atlantica, o WWf, e o Greenpeace. Acredito que se essas instituiçoes se unissem as campanhas seriam

melhores realizadas. Abraços para todos”.

Pelo amor de Deus!!! Temos que tomar uma

atitude drástica sei que estão fazendo lavagem cerebral nas crianças americanas, pois em seus livros de

Geografia já consta que a Floresta pertence a eles. Qualquer dia desses vamos ver os mariners

atracando em Manaus e matando todo mundo para reevindicar ¨Suas Terras¨. As crianças de hoje serão

- “Todos nós temos consciência de tudo isso

os soldados de amanhã aldeias onde os americanos constroem igrejas e catequisam os indios

cobrando entrada nossa (turista brasileiro) para visitar a aldeia

O mundo inteiro está a par e os nossos

governantes???”.

- “Aqui no Amapá, apesar de termos uma das áreas mais bem preservada da amazônia. Tente

entrar numa aldeia indígena? se você não tiver a permissão do "irmão missionário"( leia-se aki americano)

você não entra, se bobear até mesmo os funcionários da FUNAI E FUNASA estão pedindo autorização

para realizar o precário trabalho de atendimento aos nossos irmãos índios”.

- “So para constar como exmeplo em Sao Gabriel da cachoeira - AM ha indios q falam

padres la como se aidna estivessemos no seculo XVI pedem infromacoes sobre a flora

fauna levam ervas medicinais ilegalmente pedras preciosas e cade o SIPAM????? ele nao servia para

proteger nossa amazonia dos estrangeiros??? Ah e tem outra nao podemos deixar a amazonia virar

cerrado o Governador de Rondonia eh DOIDO!!! tudo pra ele eh derrubar pra plantar ou criar gado”.

- “Ana Luísa, concordo com você! Temos que valorizar mais o convívio familiar com o

almoço/jantar em família. Eu tenho o privilégio de estar sempre comendo na casa de minha vó, e a

dizendo porque fui vitima desse

despaltério

Tem

Estou

Estamos

falando muito e fazendo nada a respeito

alemao

chegam

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comida dela além de muito gostosa é bastante saudável. Só pra ter idéia, o pão-de-milho é feito com milho moído no moinho, na hora. è muito mais saboroso do que o vendido no comércio, além de mais saudável. Esse é só um exemplo.”

- ”Sou novo aqui na ONG e gostaria de conhecer pessoas que queiram uma ação mais ativa aqui

em POA. Saí pra rua e fazer o que for possível! Meu msn: bernado_#####@xxxxx.com” - “Bom, primeiramente gostaria de avisar que é a primeira vez que participo do fórum. Gostaria de pedir ajuda ou opinião para saber como eu começo alguma atividade voluntária do Greenpeace aqui no meu estado, Espirito Santo, onde não possuimos nenhuma sede do Greenpeace.

Também não conheço outras pessoas aqui que estão filiadas ao Greenpeace. Para se fazer um Grupo Local de Voluntários é necessário todos estejam filiados ao Greenpeace? Bom, essas são as minhas dúvidas e se vcs puderem me ajudar eu ficarei muito grata. Obrigado pela atenção. E muita paz pra todos.=) P.S. Eu pus esse mesmo tópico no forum Amazonia. Como eu vi q todos estão reunindo aqui, passei o tópico prá cá”.

assunto vcs podem desconfiar em que eu estou interessado,estava

lendo todos os assuntos do forum realmente muito interessante

da opinião de vcs já velhos de

gerra nessa batalha.Sei que cada um tem um propósito nessa vida e acho que acabei de descobrir o

meu. Não queria ficar aqui em casa atrás desse computador e dando somente meu dinheiro e debatendo

começei aqui na minha cidade

o que eu acho disso ou daquilo

Poços de Caldas MG, temos várias trilhas ecológicas aqui sempre saio com um saco de lixo limpando as trilhas.Gostaria de perguntar o que o pessoal do grenpeace poderia me orientar alem disso??Minha cidade é muito linda ela esta sendo destrida pelas mineradoras de alunínio. Forte abraço Luís”.

- Como vai pessoal

pelo

gostaria

gosto

de vestir a camisa mesmo

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17 (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1777,1.shl)