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Análise de Conjuntura – 08/02/2014

É verdade, eu vivo em tempos negros. Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas Indica insensibilidade. Aquele que ri Apenas não recebeu ainda A terrível notícia. Bertold Brecht

Fazer uma análise de conjuntura demanda tempo, estudos e compreensão da realidade. Separar acontecimentos, atores, cenários, pensar a correlação de forças entre eles. Buscar as informações em jornais que tem suas próprias conclusões e refazer o caminho, montando nossa análise, traçando tendências e apontando caminhos para nosso objetivo último: Fazer a revolução! Como Emílio Genari apontou, “à primeira vista, a realidade pode ser comparada com um grande quebra-cabeça cujas peças amontoadas diante de nós vão compor uma figura que não conhecemos, que muda com o passar do tempo e que, exatamente por isso, torna mais difícil o nosso trabalho de separar e classificar as peças para poder começar a montá-las. E, por isso, nos paralisamos e buscamos as análises de outros. Nos últimos 30 anos, nos acostumamos a ter outros fazendo tais análises por nós. Especialistas que apontam o que fazer, como fazer, quando fazer. Especialistas que nos dão receituários ou cartas náuticas, com linhas gerais sobre assuntos que não temos domínio. Ao lermos ou ouvirmos tais especialistas vamos acreditando que eles são mesmos especiais e muito inteligentes, capazes de fazer conexões e movimentos que nós não conseguiríamos fazer sozinhos. Guilherme Boulos, Emir Sader, Ricardo Antunes, Marilena Chauí são alguns dos que estão sendo ouvidos ou lidos nos últimos tempos. Na extrema esquerda, para não deixar de falar de nós, também escutamos ou lemos alguns especialistas. Qual o problema disso? Gosto de lembrar de uma passagem do livro Combate nas Trevas em que o Jacob Gorender pondera sobre os mitos:

“Chego aqui à questão do mito ou da liderança carismática ou do culto à personalidade, conforme preferem os soviéticos. A história do movimento comunista internacional está repleta da construção dos mitos. Por enquanto, a racionalidade marxista tem sido impotente para refrear essa tendência ideológica milenar, cuja força espontânea impregna a consciência das massas trabalhadoras.” Ele aponta por fim que tal estímulo facilita a condução das massas, deseduca a formação militante e dificulta a correção dos erros das direções. Neste sentido, a análise de conjuntura de especialistas também reforça este movimento de criação de mitos. Além disso, os especialistas também nos pautam através de sua visão de mundo

sobre os temas da atualidade. O que sabemos sobre reforma política? Sobre a explosão das manifestações em junho de 2013? Sobre a relação entre economia e política? Para se fazer uma análise de conjuntura temos que ter paciência e tentar montar um grande quebra-cabeças, como Genari havia dito. Não se faz uma análise de conjuntura em 20 minutos de fala, nem em textos de duas ou três laudas. Faz-se análise de conjuntura, utilizando-a como um instrumento com o qual podemos ajudar nossa classe a deixar de ser expectadora dos rumos de sua vida. O objetivo de nossa análise é munir a classe trabalhadora de conteúdo para construir a mudança necessária nas bases da sociedade. Dito isso, o que vamos conversar é somente a impressão de alguém que busca se instrumentalizar para melhor compreender a realidade em que estamos. E busca não se paralisar diante de tantas maneiras de interpretar tal realidade.

O Desenvolvimento da esquerda brasileira e suas consequências

entendo por esquerda o conceito referencial de movimentos e ideias endereçados ao

projeto de transformação social em benefício das classes oprimidas e exploradas. Os diferentes graus, caminhos e formas dessa transformação social pluralizam a esquerda e fazem dela um ESPECTRO DE CORES E MATIZES". Jacob Gorender (Combate nas trevas)

"(

)

História da esquerda no mundo A socialdemocracia debateu participar ou não das eleições burguesas nos longínquos anos de 1850. Foi então a primeira grande separação do movimento socialista. A grande maioria dos partidos à época decidiu participar, com o intuito de buscar os princípios da democracia e prolongar sua atuação no campo político para que ele se encaminhasse na crescente atuação no campo social. Defendendo o sufrágio universal, os partidos tinham como principal bandeira a propaganda do socialismo e acreditavam que conquistariam a maioria dos votos, afinal a classe trabalhadora era maioria numericamente. O que se viu não foi bem isso. Ao longo de algumas eleições, os partidos socialistas cresceram em sua atuação no campo da política mas, estagnaram seu crescimento numérico nas eleições em 30% dos votos da população. A partir de então aconteceriam modificações nas histórias estratégias socialistas. Aqueles partidos passaram a defender a revolução democrática, e construir o processo da transição democrática para o socialismo, inaugurando a teoria da transição para a transição. Com a estagnação nos 30% dos votos, decidiram então ampliar seu leque de alianças. Primeiro com o grupo de pequenos burgueses, depois com pequenos empresários e então

negociando a participação democrática com empresários médios e maiores que se identificavam com a democracia. Essa característica pragmática para construir o processo de transição democrática se apresentou então pela primeira vez. O maior exemplo desse movimento é o PSD Alemão. Não deixando de lado toda a história dos partidos de esquerda no Brasil, iremos nos focar mais no último período histórico, quer dizer, nos últimos 40 anos. Falaremos do PT e do Campo Democrático e Popular. Projeto Democrático e Popular 1 é o nome dado a um conjunto de resoluções políticas definidas no 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores, em 1987 (ALMEIDA; VIEIRA; CANCELLI, 1998), e que, ainda hoje, fundamenta resoluções das mais variadas organizações do campo da esquerda brasileira. Tal projeto aparece também, para determinadas organizações de esquerda, como um programa político historicamente incompleto, o que justificaria a atualidade de suas formulações e a necessidade de sua implementação. Mas em que consiste este Projeto? Podemos iniciar sua identificação caracterizando aspectos importantes:

Ele é anti-imperialista

É anti-latifundiário

É antimonopolista

E aponta para a realização das Reformas em atraso.

Lá em 1987, quando foi resenhado, seus idealizadores estavam preocupados em negar o Projeto Democrático Nacional tão defendido. Conhecido como a teoria do etapismo, tal perspectiva era rechaçada ferozmente, não por sua ineficiente teórica ainda, mas para negar com veemência toda a história da luta de classes brasileira e seu protagonista principal, o PCB. Em seus documentos mais recentes 2 , intelectuais do Partido Comunista Brasileiro (PCB), qualificam tal projeto como Estratégia Democrática e Popular, pois aquilo que foi um programa atualmente se configura com um fim em si mesmo. Suas principais características são:

Um novo contrato social;

Acumulação de Forças;

1 A polêmica em torno do doravante denominado Projeto Democrático e Popular envolve inclusive distinções nominais. Há aquelas organizações que a nomeiam como Programa Democrático e Popular (Consulta Popular, tendências do Partido Socialismo e Liberdade e documentos antigos do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), Estratégia Democrática e Popular (Partido Comunista Brasileiro), e também como Projeto Democrático e Popular (tendências do Partido Socialismo e Liberdade, produções mais recentes do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados e tendências do Partido dos Trabalhadores). Importante frisar que as diversas denominações do Projeto Democrático e Popular refletem distintas compreensões de sua natureza. 2 IASI, Mauro Luís. O PT e a Revolução Burguesa no Brasil. 2013, mimeo. PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. A Estratégia e a Tática da Revolução Socialista no Brasil. [Resolução para o XV Congresso do PCB]. São Paulo, 2014. Disponível em: http://pcb.org.br/portal/index.php?

option=com_content&view=article&id=7378:a-estrategia-e-a-tatica-da-revolucao-socialista-no-brasil&catid=133:xv-congresso.

Ampliação das alianças;

Inclusão Social;

Mudança estrutural para garantir o Estado-Nação.

Resumidamente, o Campo Democrático e Popular vai ter como seu mentor teórico Gramsci, atualizando inclusive o debate sobre hegemonia e luta contra hegemônica. E com esta base vai buscar o aprofundamento da democracia substantiva e um projeto alternativo de sociedade. Este projeto alternativo se baseará em um Projeto de Modernidade, desencantado com a República e com uma motivação mais profunda de liberdade, igualdade e fraternidade que não se concretizou. Pensem que um Projeto de Modernidade desencantado com a República traz consigo algo muito concreto. É necessário realizar as reformas em atraso para que o Brasil possa ser mais justo e democrático. Estamos falando do momento das primeiras eleições presidenciais brasileiras, após um longo período de ditadura. A maior bandeira defendida por todos naquele momento é a democracia.

Mas qual o sentido de democracia? Democracia é a presença efetiva das condições sociais e institucionais que possibilitam ao conjunto dos cidadãos a participação ativa na formação do governo e do controle da vida social, como apontou Carlos Nelson Coutinho. E após os acontecimentos de 1989, constituiu-se então na maior bandeira do Campo Democrático e Popular. Sua defesa é inquestionável. Afinal, a história mostrou que o regime totalitário soviético foi um erro.

Como defender a democracia é algo inalienável para este novo momento dos lutadores e lutadoras, Francisco Weffort vai apontar em seu livro “Por que democracia?” que a democracia se transformou em um método, com as seguintes características:

Competição pacífica entre lideranças através das eleições;

Firme ponto de partida para o reconhecimento da autonomia dos fenômenos políticos do mundo moderno;

Construir a noção de democracia como um valor em si;

Não há liberdade política sem liberdade econômica – Não há democracia sem Mercado.

Retomemos um pouco da história brasileira de luta:

A primeira geração de luta foi composta por anarquistas, comunistas e socialistas das primeiras décadas do século XX e vinculava-se à tradição de esquerda europeia, tendo representatividade especialmente junto aos trabalhadores fabris, seu maior expoente foi o Partido Comunista Brasileiro (PCB). A segunda geração é a dos movimentos ligados à luta armada que se formaram durante os anos da ditadura militar. Esta geração tem cinco focos principais:

1) das dissidências do PCB (Partido Comunista Brasileiro) surgiu o PC do B (Partido Comunista do Brasil), fundado em agosto de 1960, anterior ao golpe militar; 2) a formação da POLOP (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), em 1961 3 , no mesmo campo de crítica ao PCB; 3) a criação da Ação Popular e todos os grupos eclesiais de base, no campo do pensamento crítico cristão; 4) as ligas camponesas, que se constituíram “num movimento político e acabaram assumindo uma posição de luta insurrecional pelo poder”; 5) após o golpe de 1964, novas organizações se formaram, como a Aliança de Libertação Nacional (ALN), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), além de outras organizações de menor expressão 4 . Já a terceira geração teve origem nessa fragmentação anterior, disso resultou amplamente a conformação da atual esquerda brasileira e de um conjunto de práticas políticas. No interior dessas práticas, segundo Paludo (2001, p. 217): “a hegemonia é da esquerda chamada democrática, sendo por vezes, também caracterizada como social”, o que imprime um caráter específico ao “novo” perfil da militância de esquerda brasileira. Diferente dos anarquistas e comunistas da primeira geração (que agiam prioritariamente para a defesa dos interesses dos trabalhadores nas cidades e mantinham relações diretas com os partidos e movimentos de esquerda no mundo) e também das mais variadas fragmentações da segunda geração (em que a luta para a abertura democrática foi o principal foco, levando vários de seus membros à morte), a esquerda democrática atua para defender todo e qualquer direito mobilizada pela noção de cidadania, cuja ênfase da militância se dá em difusos espaços de luta (moradia, terra, juventude, criança e adolescente, negros, LGBTT, entre outros), nos quais os trabalhadores são mais um “ator social”. Paludo, uma das estudiosas destes novos momentos da luta brasileira aponta que acontece um fenômeno novo no Brasil durante a redemocratização: a qualificação e socialização da política, quer dizer, a reflexão sobre a realidade brasileira é qualificada e deixa de ser restrita a parcelas pequenas da sociedade, alastrando-se e penetrando em todo o tecido social. E ela continua:

“Os estudos sobre os movimentos sociais nas décadas de 1970 e 1980 refletem essa elaboração. Há uma ampliação das classes sociais populares para além do proletariado e campesinato, às quais se conferia o poder da transformação social. Aos poucos o MOSAICO HETERÔGENEO do popular

3 CENTRO DE ESTUDOS VICTOR MEYER. POLOP, Uma trajetória de luta pela organização independente da classe operária no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Victor Meyer, 2009.

4 Segundo Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá, no total pode-se identificar 18 organizações diferentes que combatiam a ditadura militar no Brasil.

foi descoberto.

A autora ainda aponta que os movimentos sociais populares, entretanto, não podem ser

vistos só pela ótica da produção industrial, do trabalho e das carências. Seus contornos também lhe são conferidos pela esfera da religiosidade e da cultura. Esta ampliação da percepção do popular, como composição e identidade, indica a necessidade de revisão da concepção de um único sujeito histórico protagonista dos processos transformadores. Vamos então resumir toda essa conversa:

O que antes era a luta concreta e Negação da ordem capitalista, transformou-se na defesa

incondicional da democracia substantiva.

O que antes era a Construção do socialismo transformou-se em defesa de um projeto

alternativo de sociedade.

E as novas lutas e movimentos sociais? Ler o Chico de Oliveira – E agora PT? E Zizek trechos.

O Movimento pelo Passe Livre

O Movimento pelo Passe Livre (MPL) existe a quase 10 anos, debate e luta “por outro

projeto de transporte para a cidade” 5 . Ele existe em várias capitais do Brasil, iniciou suas atividades

a partir de acontecimentos em Florianópolis, Salvador, Porto Alegre e São Paulo. Tal movimento

presa pela horizontalidade e não está conectado a nenhum partido político. Tem como principal

característica manifestar-se nas ruas, sempre que os governos municipais anunciam o aumento do valor das passagens no transporte público. Atualmente sua principal bandeira de luta é a gratuidade do transporte independente dele ser público ou privado, quer dizer, para este movimento o importante é garantir que o Estado (sociedade política) arque com os custos do transporte de pessoas mesmo que tal serviço seja oferecido por empresas privadas. Neste sentido o MPL vem se destacando não só pela horizontalidade de sua organização, mas pelo fato de defender algo que não

o caracteriza como ultrarradical de esquerda, pois a gratuidade da passagem é algo já existentes em

vários lugares do mundo. Chama a atenção, a necessidade deste grupo de ser horizontal e não se apresentar ou se relacionar com nenhum partido político. Em várias ocasiões, durante as manifestações, eles apontam que são da esquerda, e que se os partidos quiserem participar tem que estar subordinados a este tipo de organização. Gorender lembra, no início deste artigo que entende-se por esquerda todos os grupos que, de alguma forma, defendem a transformação da sociedade em benefício das classes

5 . In http://saopaulo.mpl.org.br/apresentacao/ visto em 25/11/2014 às 10h42.

oprimidas. Mas ele continua sua conceituação afirmando que “Os diferentes graus, caminhos e formas dessa transformação social pluralizam a esquerda e fazem dela um espectro de cores e matizes.” 6 Tal afirmação pode ser levada em consideração quando observa-se o MPL. Sua direção também é organizada por diferentes figuras, todos jovens que já participaram ou ainda participam de vários movimentos, partidos e outras organizações de esquerda que não conseguem substituir o Partido dos Trabalhadores (PT) no que estas esquerdas chamam de direção da classe trabalhadora. É como se estes meninos estampassem todo o sentimento de desilusão, fúria, revolta, com o PT e outros partidos de esquerda que se mostram desorganizados nos últimos 14 anos. O transformismo do PT, resultante de suas opções de governabilidade por pacto social e caracterizado por sua nova concepção, que nos dizeres de Iasi (2014) é pequeno burguesa, construiu um grupo de militantes de esquerda muito mais próximos do anarquismo do que do histórico marxismo-leninismo desenvolvido ao longo do século XX no Brasil. Tais informações ajudam a compreender porque de uma hora para outra o MPL não conseguiu mais organizar a massa da população para sua bandeira de luta tão concreta. Mesmo assim, é preciso um pouco mais de informações para o aprofundamento da análise. Existindo há mais de 10 anos, o MPL produziu manifestações, em São Paulo e outras capitais todos os anos, sempre que os governos municipais anunciavam o aumento das passagens. E, em todas elas, foi violentamente reprimido pela polícia militar, com a anuência de prefeitos, governadores e da “opinião pública”. As manifestações do primeiro semestre de 2013 não foram diferentes. Organizada pelas redes sociais, para o começo de junho, as manifestações anteriores ao dia 11 (dia em que apareceram mais de 80 mil pessoas) também foram marcadas pela violência da Polícia Militar de São Paulo. Em uma semana, foram pelo menos 3 manifestações cercadas pela polícia e cheia de prisões para averiguação. Mas, na última delas, a polícia militar extrapolou sua repressão e acertou uma jornalista da Folha de São Paulo, cegando-a. Tudo mudou então. Em vários veículos de comunicação iniciaram-se pesquisas de opinião para saber o que a população estava entendendo sobre estas manifestações, antes e depois do que aconteceu com a jornalista. Algumas situações inusitadas aconteceram no meio da imprensa, entre elas a pesquisa de opinião em que José Luís Datena tenta convencer o distinto público que ele está errado quando aos “baderneiros” e Arnaldo Jabor tem que se retratar no rádio e na TV, avaliando que não havia conseguido captar as revoltas da população com o governo. Mesmo assim, logo em seguida, o mesmo Arnaldo Jabor pauta a próxima manifestação quanto a ser contrário a uma lei que seria votada. Os meios de comunicação logo se colocaram a favor das manifestações pacíficas e também já pautavam as pessoas nas ruas.

6 In: Gorender (2014, p.11))

O clima de tensão naqueles 12 primeiros dias de junho não apareceu do nada. A população como um todo se colocou em movimento, não porque foi chamada às ruas para protestar. O que aconteceu então?

O PT e as manifestações de rua

Desde o fim da Ditadura Militar, o partido que mais manifestou-se nas ruas foi o Partido dos trabalhadores. Durante 30 anos, foi este o partido que organizou movimentos sociais, associações de trabalhadores rurais, sindicatos, estudantes para protestar e reivindicar seus direitos. Era, para conectar com o conceito de Gramsci, o partido revolucionário que dirigia os “menos favorecidos” para a hegemonia nas instituições da sociedade civil. Mas o PT se burocratizou, organizou-se enquanto partido político da ordem, ganhou (finalmente) as eleições presidenciais e constituiu

governo de pacto social que, partindo de um programa e uma

concepção pequeno-burguesa, crê ser possível manter a acumulação de capitais, o que leva a uma brutal concentração de renda e riqueza nas mãos de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada intenção de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, salário e crédito etc.)” 7 (IASI: p.

“(

)um

186).

Cherobini aponta em sua resenha que Iasi apresenta que o pacto social entre os setores da grande burguesia monopolista e da pequena burguesia representante da classe trabalhadora implica limites à ação governamental desta última. Iasi diz que o PT trocou o reformismo forte pelo reformismo fraco atendendo às exigências da acumulação de capitais dos diversos segmentos da burguesia. E, mesmo que aparentemente, os trabalhadores acreditassem ter conquistados mais direitos durante o governo petista, “as demandas dos trabalhadores têm que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensatórias”, para manter a conciliação de classe produzida pelo PT enquanto governo federal. Esta visualização pode ser um primeiro indício do clima de descontentamento visto naqueles dias de junho. E é, sem dúvida, a forma mais precisa de compreender as manifestações contrárias a partidos políticos dirigidas pelo próprio Movimento pelo Passe Livre. Cabe aqui ressaltar que não se está afirmando que o MPL organizou gritos de sem partido durante as manifestações de rua, mas

7 In: Iasi (2014, pg.186)

por sua característica de horizontalidade e rechaçamento aos partidos políticos na própria organização, o MPL reforçou um clima anti-partido, e mais precisamente anti-PT, já pré-montado pelo próprio PT ao se afastar de suas bandeiras históricas. Assim, conclui-se que Gramsci tem razão, ao preocupar-se com a burocratização das organizações dos trabalhadores. “Os operários sentem que o complexo da ‘sua’ organização se transformou num aparelho tão enorme que acabou por obedecer a leis próprias, íntimas a sua estrutura e ao seu complicado funcionamento, mas estranhas à massa que adquiriu consciência de sua missão histórica de classe revolucionária. Sentem que a sua vontade de poder não consegue exprimir-se, em sentido nítido e preciso, através das atuais hierarquias institucionais. Sentem que também em sua casa, na casa que construíram tenazmente com esforços pacientes, cimentando-a com sangue e com lágrimas, a máquina trai o homem, o funcionalismo esteriliza o espírito criador e o diletantismo banal e verbalista tenta encobrir em vão a ausência de conceitos precisos acerca das necessidades da produção industrial e a nenhuma compreensão da psicologia das massas operárias. Os operários se irritam por estas condições de fato, mas são individualmente incompetentes para as modificar: as palavras e as vontades de cada um dos homens são coisa muito pequena em confronto com as leis férreas inerentes à estrutura funcional do aparelho sindical” 8 .

Falar da Resolução da Articulação de Esquerda, logo após as eleições.

8 In: Gramsci (2006, p.41)