Curso de Psicologia Geral

Volume 1

A presente obra compõe-se de quatro volumes, a saber:
I.

Introdução Evolucionista à Psicologia

II.

Sensações e Percepção

III.

Atenção e Memória

IV.

Linguagem e Pensamento

A. R. Luria
Curso de Psicologia Geral
Volume I 2º Edição
Introdução Evolucionista. à Psicologia
Tradução de PAULO BEZERRA
Sociedade Unificada Paulista de Ensino Renovado Objetivo – SUPERO
11/01/99

Nº DA CHAMADA

14.013/99
civilização
brasileira \

159.9 – 1967C

REGISTRADO POR LILIANE

- 2.ED.V.1

E.3

DATA

DE VOLUME

Av.Título do original em russo: EVOLYUTSIÕNNOE VVEDÊNIE VPSIKHOLÓGUIYU Capa: DOUNÊ Diagramação: LÉA CAULLIRAUX Revisão: UMBERTO F. 99-20? andar . Rio Branco.Centro 20040 .RJ Tel.: (021) 263-2082 Telex: (21) 33798 Fax: (021) 263-61Í2 Impresso no Brasil Printed in Brazil .Rio de Janeiro .A. PINTO e MARIO ELBER CUNHA 1991 Direitos desta edição reservados à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.

Sumário I — A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA. O OBJETO EA IMPORTÂNCIA PRÁTICA 1 A história da Psicologia como ciência 2 A Psicologia e outras ciências 7 Partes principais da Psicologia 11 Os métodos em Psicologia 17 A importância prática da Psicologia 23 II — A EVOLUÇÃO DO PSIQUISMO 29 A origem do psiquismo 29 Variabilidade do comportamento dos protozoários 32 Mecanismos do comportamento dos protozoários 34 Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples O sistema nervoso ganglionar comportamento mais simples e o surgimento 36 dos programas de 38 Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") 42 O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados variável 50 Mecanismos do comportamento individualmente 56 "intelectual" dos animais O comportamento 62 Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais 68 .

regulação e controle de atividade 107 O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios 113 . elaboração e conservação da informação 100 O bloco da programação.A ATIVIDADE CONSCIENTE DO HOMEM E SUAS RAÍZES HISTÓRIGO-SOCIAIS 71 Princípios gerais 71 O trabalho e a formação da atividade consciente 95 A linguagem e a consciência do homem 77 A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos 81 O CÉREBRO E OS PROCESSOS PSÍQUICOS 85 O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro 85 Princípios da organização funcional do cérebro humano 93 Os três "blocos" principais do cérebro 94 O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 95 Bloco do recebimento.

I
A Psicologia Como Ciência.
O Objeto e a Importância
Prática
O

HOMEM VIVE

e atua em um meio social. Sente necessidades e procura

satisfazê-las, recebe informação do meio circundante e por ele se orienta,
forma imagens conscientes da realidade, cria planos e programas de ação,
compara os resultados de sua atividade com as intenções iniciais, experimenta
estados emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psicológico, que constitui
o objeto de uma ciência: a Psicologia. Esta ciência se propõe a tarefa de
estabelecer as leis básicas da atividade psicológica, estudar as vias de sua
evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e descrever as
mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados patológicos. Só uma
ciência capaz de estudar as leis da atividade psicológica com uma precisão
possível pode assegurar o conhecimento dessa atividade e sua direção em
bases científicas. É justamente por isso que a Psicologia científica se torna
uma das disciplinas mais importantes, cujo significado crescerá cada vez mais
com o
1

desenvolvimento da sociedade e o contínuo aperfeiçoamento dos seus
métodos.
A história da Psicologia como ciência
É muito breve a história da Psicologia como ciência. No entanto remontam a
um passado muito distante as primeiras tentativas de descrever a vida psíquica
do homem e explicar as causas dos seus atos. Na Antigüidade, por exemplo,
os médicos já entendiam que para identificar as doenças era necessário saber
descrever a consciência do homem e descobrir as causas dos seus atos.
Esse enfoque materialista do comportamento do homem foi, séculos a fio,
combatido pela filosofia idealista e a Igreja, que viam na consciência do homem
uma manifestação da sua vida espiritual, considerando que esta não obedecia
às mesmas leis a que se subordinava toda a natureza material e por isto sua
análise não podia ser feita a partir da explicação causai dos fenômenos.
Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua consciência foram
vistos durante séculos como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os
outros processos naturais. Os filósofos assumiam diferentes posições em
relação à consciência, considerando-a manifestação da razão divina ou
resultado de sensações subjetivas, onde eles viam os "elementos" mais
simples que serviam de base à consciência. Mas todos os filósofos idealistas
estavam imbuídos da convicção de que a vida psíquica devia ser entendida
como manifestação de um mundo subjetivo especial, que podia ser revelado
somente na auto-observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou
à explicação científica.
Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve a evolução da
psicologia científicas e mesmo depois de os processos do mundo exterior se
haverem tornado objeto de estudo científico preciso os fenômenos da vida
psíquica do. homem continuaram sendo vistos como manifestação de um
mundo espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
A divisão de todos os fenômenos em duas grandes categorias — a categoria
dos fenômenos físicos, acessíveis à explicação causai, e a dos fenômenos
psíquicos, inacessíveis à análise cien2

tífica objetiva — foi consolidada pelas teses básicas da filosofia dualística de
Descartes,

para

quem

todos

os

processos

físicos,

incluindo-se

o

comportamento animal, estão subordinados às leis da mecânica, ao passo que
os fenômenos psíquicos devem ser considerados como formas do espírito, cuja
fonte de conhecimento pode ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve até período recente na filosofia e Psicologia em
muitos países. Se considerarmos que os pensadores do século XIX
começaram a focalizar os processos elementares dos campos físico e psíquico
(incluindo sensações e movimentos) como processos naturais suscetíveis de
estudo por métodos científicos exatos, os fenômenos superiores do campo
psíquico

(consciência,

pensamento)

continuavam

a

ser

considerados

manifestação do campo espiritual, que podia ser abordado somente por meio
da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à
divisão real da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia
naturalista científica ou Psicologia fisiologista, que tentava estudar com
precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos elementares e
definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que
estudava as formas superiores do campo consciente do homem, enfocando-as
como manifestações do espírito. O enfoque dualista aos fenômenos do campo
psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como os
psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (18561909), o psicólogo americano "William James (1842-1910) e o representante
da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia
ao impasse e provocou tentativas naturais de superar a estagnação surgida
nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais ao estudo dos
processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos
os outros fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara
formulação nítida com os democratas revolucionários russos em meados do
século XIX, teve sua patente mani festação na obra do célebre fisiologista
russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia
segundo a qual até os processos mais complexos do campo psíquico devem

receber tratamento materialista e ser 3 .

denominada behavio-rismo (ciência do comportamento) pelo psicólogo americano J. Partindo da tese segundo a qual a "consciência" não passa de um conceito subjetivo. segundo essa idéia. Em fins do século XIX. inacessível à pesquisa objetiva. isolados de todos os outros processos naturais.abordados como reflexos complexos. criador do estudo objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos reflexos condicionados. como M. o pensamento é um reflexo igualmente complexo porém inibido. Assim surgiu uma nova corrente na ciência. A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov. A. durante séculos. inteiramente suscetíveis de análise naturalista. carente de fim motor externo. que ele mesmo via como base fisiológica da ciência psicológica. Ivan Petrov Pávlov (1849-1936). Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiologista russo. Watson via a forma científica natural da ciência psicológica. comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades) biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. os fenômenos dg mundo psíquico devem ser estudados pelo naturalista com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza. A. B. Para ele. D. os beha-vioristas americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento externo do animal. Nessa corrente. que devia substituir a Psicologia. Watson. o psicólogo americano Edward Lee Thorn-dike começou a estudar o comportamento dos animais. Outros notáveis representantes da ciência russa. 4 . Essas pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia. Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista. aplicando métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas exteriores de comportamento. exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente constituído. São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados. Bekhteryev (1857-1927). como fenômenos de tipo especial.

que dava continuidade às tradições do enfoque científiconatural dos fenômenos.A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância progressista em sua época. capaz de abordar com métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem. Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise científica das formas mais complexas da. a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras. da memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa científica. Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica. Por outro lado. propunha-se a tarefa de explicar os processos psí- . o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da evolução desta ciência ter assumido duas direções. de atenção ativa. Por outro lado. que se manifesta na atividade consciente dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos. Como já tivemos oportunidade de salientar. elas se converteram na base para a posterior evolução da Psicologia como ciência. como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade psíquica. Mas o behaviorismo americano. atividade psíquica do homem. que se converteu na questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a Psicologia do estado de crise. a imensa parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem. a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo americano. As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934). iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos. A primeira.

5

quicos limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e
recusando-se a examinar os fenômenos complexos e especificamente
humanos da atividade consciente. A segunda orientação tomou como objeto de
sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações
subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e
recusando-se a dar aos mesmos um enfoque científico causai.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter
em objeto da pesquisa as formas superiores e especificamente humanas de
atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise científica, explicar por via
causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da
Psicologia.
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função
imediata do cérebro e procurar a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil
quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma de existência do
espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é
uma forma de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode
ser explicada somente pelas leis objetivas dessa atividade representativa. De
modo semelhante, as formas superiores de atividade consciente, de atenção
ativa, memorização arbitrária e pensamento lógico que são específicas do
homem não podem ser consideradas produto natural da evolução do cérebro,
sendo o resultado da forma social específica de vida, que é característica do
homem. Para explicar por via causai as funções psíquicas superiores do
homem, é necessário ir além dos limites do organismo e procurar-lhes as
fontes não no recôndito da ahna ou nas peculiaridades do cérebro mas na
história social da humanidade, nas formas de linguagem e trabalho social que
se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram para a vida tipos
mais aperfeiçoados de comunicação e novas formas de atividade consciente.
Ao procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve estudar a origem
socialmente histórica das formas superiores de atividade consciente e
assegurar uma análise científica das leis que lhes servem de base.
6

Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da psicologia dualista e
delineiam nitidamente o objeto de uma Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das formas complexas de
representação da realidade, que se constituíram ao longo da história da
sociedade e são realizadas ]ielo cérebro humano. Ela deve substituir a anterior
descrição subjetiva das formas complexas de atividade consciente por uma
análise científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tarefa pelo estudo
dos processos fisiológicos que lhes servem de base nem limitar-se à descrição
exterior dos mesmos. É essa a tarefa da ciência psicológica, que deve
estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de
atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das
necessidades complexas e da personalidade, considerando todos esses
fenômenos como produto da história social e sem separar esse estudo da
análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É isto que
constituirá a essência da Psicologia geral no todo e da psicologia do homem no
particular.
A Psicologia e outras ciências
A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação com outras ciências,
que não a substituem mas lhe asseguram informação importante para que ela
possa ser bem-sucedida na elucidação do seu próprio objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais
estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comportamento dos animais
que se desenvolvem no processo de interação deles com o meio, torna-se
absolutamente claro que a completa interpretação das leis do comportamento
animal é impossível sem o conhecimento das formas básicas de vida que
constituem o objeto da biologia. É necessário ter uma noção suficientemente
nítida das diferenças que existem na vida dos vegetais e animais para perceber
o principal que distingue todo tipo de comportamento ativo, baseado na
orientação no meio circundante, das formas de vida que se esgotam com os
processos de metabolismo e podem ocorrer fora das condições de uma
orientação ativa na realidade. É necessário ter uma noção precisa do que
muda
7

que garantem a adaptação ao meio em mudança. que materializa os processos de excitação e inibição. ocupando-se da atividade nervosa superior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concretizam o "equilíbrio" do organismo com o meio. sobretudo a parte referente à atividade nervosa superior. e o mundo dos vertebrados superiores com seus poucos descendentes. de conhecer as leis pelas quais realiza-se a regulação dos processos de metabolismo no organismo. pelas quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso. com sólidos programas congênitos que asseguram uma sobrevivência bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar a espécie até em condições de mudança. A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes funções no organismo. A segunda ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação é a jisiologia. Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições do meio e suas influências) e a etologia (doutrina das formas congênitas de comportamento). e das complexas formações nervosas que executam os processos de análise e síntese. em hipótese nenhuma. sobretudo nas condições de existência terrestre.nas condições de vida com a transição da existência de unicelu-lares num meio aquático homogêneo a formas incomparavelmente mais complexas de vida multicelular. que podem sobreviver somente com a evolução de novas formas individualmente mutáveis de comportamento. É natural que os fatos constituintes do objeto da ciência psicológica não podem. É fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o papel desempenhado nesse último processo pelas diferentes fases do sistema nervoso. que apresenta exigências imensas à orientação ativa baseada nas condições do meio. Sem esses conhecimentos dos princípios biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base biológica. É necessário conhecer bem a diferença de princípios de vida entre o mundo dos insetos. reduzir-se a fatos biológicos. de . orientação essa que é a única que pode assegurar sucesso na obtenção de alimentos e conjuração de perigos.

confluência das conexões nervosas. é igual8 . e asseguram os processos de irradiação e concentração da excitação.

os sistemas em que elas ocorrem. desenvolvem-se no processo de atividade material surgido ao longo da história. de emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem. tem importância decisiva a sua ligação com as ciências sociais. que é transmitida por meio da linguagem.mente importante o^ conhecimento das formas básicas de trabalho das células nervosas. que se encontram em estado normal ou inibido (fásico). É natural que as formas de'atividade do homem são executadas pelo cérebro e se apoiam nas leis dos seus processos nervosos superiores. o homem não disporia sequer de uma ínfima parte das possibilidades de que dispõe o seu comportamento concreto. As formas principais de atividade psíquica do homem surgem nas condições da história social. evoluiria à margem das condições do mundo material — surgido no processo da história da sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humanidade. A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia consiste em que a primeira estuda as formas e meios de atividade que surgiram no processo da história social e determinam o comportamento. enquanto a fisiologia da atividade nervosa superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou realizam esse comportamento. não se limite à simples descrição desses tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas formas altamente complexas de atividade. conheça os dispositivos que as executam. ficaria privado da comunicação com o meio ambiente. Desconhecer as leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia de uma das fontes mais importantes de conhecimento científico. esse receptáculo da informação. Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da atividade nervosa superior — como em certa época propunham os pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo erro do arquiteto que tentasse reduzir a origem e a . Por si mesmo nenhum sistema nervoso é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar instrumentos de trabalho e linguagem e explicar o surgimento das formas altamente complexas de atividade humana. Tudo isso é absolutamente necessário para que o psicólogo. Se não usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem. Para a Psicologia. surgidas no processo da história social. baseiam-se nos meios que se formaram no processo de trabalho. que estuda os tipos principais de atividade psíquica do homem.

análise dos estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência
9

dos materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas que em hipótese
nenhuma podem explicar a origem dos estilos arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grandemente da correta
compreensão da correlação dessas duas ciências e tanto o desconhecimento
da fisiologia como a tentativa de reduzir a Psicologia à fisiologia retardariam o
desenvolvimento da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importância que tem para a
Psicologia a sua ligação com as ciências sociais. Se na formação do
comportamento do animal as condições biológicas de vida desempenham
papel determinante, na formação do comportamento do homem esse papel é
desempenhado pelas condições da história social, que cria formas novas de
uma complexa relação com a realidade, mediada pelas condições de trabalho,
formas essas que são as fontes de novas formas especificamente humanas de
atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro emprego de instrumentos
de trabalho e a primeira forma de trabalho social introduziram mudança radical
nas principais leis biológicas de construção do comportamento e que o
surgimento e, posteriormente, o emprego da linguagem — que permite
conservar e transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento de
uma nova forma de evolução inexistente entre os animais: a forma de evolução
mediante a assimilação da experiência social. A ciência psicológica atual, que
estuda antes de tudo as formas especificamente humanas de atividade
psíquica, não pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém
das ciências sociais: do materialismo histórico, que enriquece as leis básicas
do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística, que estuda as formas
básicas de linguagem, surgida na história da sociedade.
Só levando minuciosamente em conta as condições sociais, que formam a
atividade psíquica do homem, pode a Psicologia obter uma sólida base
científica. Encontraremos a aplicação desse princípio em todas as páginas
seguintes, quando examinaremos todos os fatos psicológicos concretos. É
essa a relação da Psicologia científica com as outras ciências, com as quais
ela se desenvolve em estreito contato.
10

Partes principais da Psicologia
A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência dividida, representa
hoje um sistema amplamente ramificado de disciplinas, que estudam a
atividade psíquica do homem em diferentes aspectos. O que já dissemos antes
deixa claro que algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos
processos psíquicos, aproximando-se da biologia e fisiologia, enquanto outras
partes estudam os fundamentos sociais da atividade psíquica, aproximando-se
das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as formas básicas de
atividade psíquica e constitui a viga-mestra de todo o sistema de disciplinas
psicológicas. Afora a introdução teórica evolucionista, o exame de várias partes
científicas faz parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas sensações e
percepções e terminando nas formas mais complexas de pensamento;
compõem essa parte a análise das condições em que ocorrem os processos
psíquicos e a análise das leis do pensamento, da memória, imaginação, etc), a
análise dos processos afetivos (as necessidades do homem, as formas
complexas de emoções), a análise da estrutura psicológica da atividade do
homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análise da
psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próximas páginas do
presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto de trabalhos de
muitos pensadores célebres, entre os quais sé situam clássicos como W.
Wundt na Alemanha, W. James nos

EUA,

A. Binet e P. Janet na França e

contemporâneos como-L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A.
Smirnov e V. M. Têplov na

URSS,

A. Vallon, A. Piéron e P. Fraisse na França, E.

Nolman, G. Miller e J. Bruner nos

EUA,

Donald Hebb no Canadá e J. Broadbent

na Inglaterra, etc.
É contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas da Psicologia.
Todas elas estudam as bases naturalistas da atividade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou Psicologia animal.
Esta disciplina estuda as peculiaridades do comportamento animal em etapas
sucessivas da evolução, aque-

11 .

Ias peculiaridades que dependem das condições de vida e da estrutura anatômica dos animais. Ela não abstrai um instante sequer o fato de que os processos por ela estudados fazem parte da complexa atividade psíquica do homem. bem como a estrutura dos seus processos motores e a mudança destes no processo de exercício e fadiga. particularmente da fisiologia dos órgãos dos sentidos e da fisiologia da atividade nervosa superior. estabelecer os mecanismos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se realizam. estudando as sensações e percepções. a atenção e a memória do homem. não esquece as complexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas tenta descobrir os mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. de estudar os mecanismos fisiológicos dos processos psicológicos. está para a fisiologia assim como a bioquímica está para a química ou a biofísica para a física. As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade do século XIX por pensadores que se propunham a tarefa de estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação de diversos métodos fisiológicos. que são de caráter muito variado quando se tornam complexas as formas de vida. Ela descreve os processos de mudança das formas de comportamento animal dependendo das exigências que o meio lhes impõe e dos principais tipos de adaptação às condições de vida. procuram. à qual estão estreitamente ligados os nomes de grandes . a doutrina das leis básicas da memória e da atenção. A diferença consiste em que os cientistas que se ocupam desse problema tomam como objeto a análise das formas concretas de atividade psíquica. Foram precisamente esses pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psicologia e elaboraram minuciosamente partes da Psicologia como a doutrina das sensações. Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de realização de processos psíquicos particulares foi acumulada justamente por essa área da ciência psicológica. etc. permanecendo disciplina psicológica especial. A psicofisiologia. empregando os métodos mais precisos. A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico das ciências psicológicas é a Psicologia fisiologista ou Psico-jisiologia. sua medida e seus mecanismos básicos. a doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento. É natural que a Psicologia fisiologista se aproxime da fisiologia.

Wilhelm 12 .cientistas como Gustav Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações).

Fraisse (França) e outros. N. Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desempenham os aparelhos particulares do sistema nervoso na estruturação dos processos psíquicos. assim como Piéron na França. Gershuni e S. Kravkov. autor de importante contribuição à fisiologia evolu-cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. Vve-densky. Hermann Ebbinghâus e Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos exatos de medição da memória e seus mecanismos específicos). A. V. conclusões relacionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos. de suas observações. criador da doutrina dos sistemas funcionais. temporais e occipitais — dão sua contribuição toda especial para o processo de atividade psicológica. introdutor do novo conceito de organização do movimento. L. A. A. R. os grandes psicólogos atuais como O. A. Edward Titchener nos EUA. que enriqueceram a ciência com dados relativos ao funcionamento da audição e visão. porém. Broad-bent (Inglaterra). Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de diversos países . cujos trabalhos permitiram introduzir uma aova área da ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes. Há. Orbeli. Bernstein. A terceira disciplina componente do grupo biológico das ciências psicológicas é a neuropsicologia. Ukhtomsky. Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informação dos trabalhos de clássicos notáveis da fisiologia como Pávlov.Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofisioló-gicos de estudo dos processos psíquicos). N. G. criador da doutrina da gênese patológica. E. Anokhin. A. V. estuda as mudanças dos processos psíquicos que surgem quando ocorram afecções locais do cérebro e tira. Lindsley (EUA). É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e do paleocórtex no processo da atividade psíquica é inteiramente diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cerebrais . etc. criador da doutrina da atividade nervosa superior. fundamentos para supor que também o papel de algumas regiões do córtex cerebral na organização dos complexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas do cérebro — parietais. Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas uma análise psicológica minuciosa tanto das irritações como das destruições de áreas isoladas do cérebro.

Pribram (EUA). Lashley e K. H. S. 13 .como K.

na França. H.A. Milner (Canadá) e outros. Hubel e T. N. Zangwill (Inglaterra). nas Pecheau. Zeygar-nik. na Alemanha. que estuda a formação (gênese) das formas superiores de atividade psíquica. é representada pelo estudo dos mecanismos neurônicos da atividade psicológica. fronteiras da psicofisiologia e da neuropsicologia. na Uma área especial. e outros). situada URSS. Janet. L. V. na Rússia) e pelos psicólogos contemporâneos (B. com isto. Sokolov e O. na França. R. Foi justamente por isto que a Psicologia genética. Os cientistas que elaboraram essa área (D. H. Békhterev. H. Luria (URSS). A importância dessa área das ciências psicológicas para a Psicologia geral consiste em que a Psicologia genética ou infantil estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolução da criança e permite acompanhar a formação dos complexos processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua evolução. que servem de base ao comportamento. Podemos colocar ao lado da neuropsicologia a psicopatologia. e permite que nos aproximemos mais de um estudo científico das doenças mentais e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica que se manifesta nos estados patológicos. que estuda as peculiaridades "dos processos psíquicos observáveis nos doentes psíquicos. que deixou vestígios na estrutura dos processos psíquicos. A Psicologia genética permite abordar os processos psíquicos superiores do homem como produto da evolução. adquiriu importância . S. No sistema das ciências psicológicas. Jasper no Canadá. Jung na Alemanha. dando. Vinográdov na URSS) se propõem a tarefa de investigar as formas de funcionamento de grupos isolados de neurônios e efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares. Wiesel na Inglaterra. B. A psicopatologia foi elaborada com êxito por muitos psiquiatras (Kraepelin. Importantes descobertas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento em base neurônica. a possibilidade de considerar as formas complexas de atividade psíquica do homem não como "propriedades" ou "faculdades" do psiquismo primitivamente existentes mas como resultado de uma longa formação. N. O. E. cabe posição especial à psicologia infantil ou genética.

decisiva tanto para uma área prática 14 .

relacionados com a contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis estudiosos Jean Piaget e Lyév S. Estas podem ser diferenças de propriedades do sistema nervoso. em nossa época os problemas das diferenças individuais foram estudados com êxito por cientistas como Charles Edward Spear-man. A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas diferenças individuais. Vigotsky.como a pedagogia quanto para a Psicologia geral. L. Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados em sua época pelo psicólogo alemão W. Teplov. Nessas áreas examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou a atividade psíquica do homem e as formas sociais em que essa atividade se manifesta. Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou ciência das particularidades que distinguem os processos psíqui15 . A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a avaliação do nível de evolução da criança. permitiu ocupar posição central na Psicologia atual. Sabe-se que as pessoas têm traços comuns. e B. Ster (1871-1938). Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo de áreas intimamente vinculadas às ciências sociais. e revelam diferenças individuais. na URSS. estudados pela Psicologia geral. Thurstone. memorização e pensamento) possuem estrutura complexa que se forma no processo de evolução da criança. que a Psicologia geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos processos psíquicos (percepção e ação. Foi justamente graças aos êxitos da Psicologia genética. descrever os tipos de comportamento e atividade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras por traços característicos. das formas individuais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiaridades tipológicas cujo conhecimento é indispensável à solução das questões práticas da Psicologia. Outro campo da Psicologia. traços característicos do processo cognitivo e do talento. L. na Inglaterra. que deve ser colocado ao lado da Psicologia genética e costuma ser chamado de psicologia diferencial ou psicologia das diferenças individuais. A importância da Psicologia genética lhe. de peculiaridades individuais do campo emocional e do caráter. ocupa posição importante. M. nos EUA.

Um campo especial da Psicologia social tem como objeto o estudo das inter-relações humanas em pequenos grupos. da ciência psicológica. competição.cos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferentes culturas. disciplina que nos últimos decênios s: converteu em área independente e se situa na fronteira entre a Psicologia e a lingüística. etc. etc. dos processos d. W. autor do livro A psicologia dos povos. Esta disciplina estuda as leis psicológicas da comunicação entre os homens. nos EUA) e foram justamente essas pesquisas qu: lançaram as bases da etnopsicologia atual. fizeram-se tentativas de criar uma "psicologia dos povos" corr. Mead. Por este motivo as tentativas de "ps:-cologizar a história" retiveram durante muito tempo o desenvolvimento desse importante campo da ciência psicológica. Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de grandes cientistas de diversos países (Frazer e Malinowsky. codificação e decodificação da informação veiculada pela linguagem e dos processos psicológicos que se baseiam nos códigos da língua e se materializam na linguagem do homem. na Alemanha e M. Turnwald.: forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência que fosse capaz de revelar as bases psicológicas da formação da linguagem. na França. as peculiaridades psicológicas da divulgação de informação por meios como a imprensa e o cinema. as particularidades do comportamento no processo de trabalho. a análise dos fatores que servem de base a . representa um campo especial d-Psicologia. A psicolingüística. que partiu de um dos criadores da Psicologia moderna. crenças. Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia. na Inglaterra. Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenômenos da vida social. Fracassou essa tentativa. dos mitos. cujas bases não são psicológicas mas econc-micas ou histórico-sociais. A Psicologia social é uma área importante porém pouco desenvolvida. Wundt. A psicolingüística se propõe o estudo das leis básica: da linguagem enquanto meio de comunicação. Janet e Lévy-Bruhl. do direito. O estudo das peculiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes -diferentes culturas constitui atualmente uma área importan:. qa: devia investigar um processo inverso: a influência formadora exercida pelas condições histórico-sociais sobre o desenvoh:-mento da atividade psicológica do homem.

16 .

O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que a essência do processo em estudo não coincide com as manifestações em que ela aparece. Segundo os psicólogos idealistas. precisos e seguros.tipos concretos de interação entre os homens. que permitam penetrar além dos limites dos fenômenos acessíveis à observação imediata. à definição do conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos. Os métodos em Psicologia É condição fundamental da evolução de toda ciência a existência de métodos suficientemente objetivos. São necessários procedimentos especiais. incluise a Psicologia da arte. Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da Psicologia. Entre essas disciplinas. que mantêm afinidades com as ciências sociais. mas estes podem mostrar que sistema ramificado de disciplina a Psicologia moderna representa. Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia? Houve um longo período em que a Psicologia era definida como ciência do mundo subjetivo do homem. de formação da autoridade. etc. que lança mão de toda uma série de procedimentos objetivos de pesquisa.processos da consciência se distinguiam dos outros processos da realidade objetiva pelo fato de que o fenômeno coincidia com a essência: as formas de consciência que o homem podia observar em si mesmo (clareza ou imprecisão de consciência. que estuda as bases psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que servem de base às obras de arte que aplicam diversos procedimentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o leitor e espectador. Segundo a concepção idealista. etc. penetrar nas leis internas que constituem a essência do processo em estudo. esses. que separava o psiquismo de todos os outros fenômenos da natureza e da sociedade. a Psicologia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da consciência. caracteriza as pesquisas verdadeiramente científicas. Esse caminho do fenômeno à essência. promoção de líderes.) eram consideradas por esses 17 . vivência da liberdade do ato volitivo.

Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao método básico da Psicologia desde o período em que esta disciplina passou a ser interpretada como ciência de uma forma específica de atividade psíquica. a explicação objetiva e causai dos processos psíquicos. formar programas de comportamento e controlar a sua execução. que permitia levantar questões. A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objetivos de estudo dos processos psíquicos do homem. É fácil entender que uma "ciência" que se negava a considerar os processos psíquicos como produtos do desenvolvimento objetivo. refleti-la. que era produto de uma longa evolução. . consideravam como fundamental e única a descrição subjetiva dos fenômenos da consciência. reduzindo a Psicologia à descrição subjetiva de formas da vida espiritual e dos fenômenos psíquicos. essa coincidência dos fenômenos com a essência constituía o fundamento da Psicologia e lhe definia o método. referindo-se a ele apenas como um procedimento auxiliar de sentido antes heurístico. durante muito tempo continuou sendo uma área singular da filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências autênticas. Para eles. Excluía. o que dava a possibilidade de explicar por via causai os fenômenos e encontrar as leis que lhes serviam de base. O reconhecimento da introspecção como método fundamental da Psicologia não apenas separava esta ciência das outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução da Psicologia enquanto ciência autêntica. bem como porque a autoobservação dos seus processos psíquicos pode introduzir mudanças consideráveis na ocorrência desses processos. que permite ao homem orientar-se na realidade ambiente. ainda. descrição essa que se obtinha no processo de introspecção. sem nunca se limitar ao método da introspecção. A revisão radical da introspecção como método de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de atividade psíquica.psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como essência dos processos psíquicos subjetivos. ou seja. empregava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha aplicação muito restrita porque nem de longe os processos psíquicos ocorrem todos por via consciente. que não levantava os problemas da origem e dos mecanismos objetivos desses processos não podia ter existência própria.

18 .

coloca diante do sujeito experimental uma tarefa correspondente e acompanha a organização estrutural dos processos (procedimentos. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos básicos de pesquisa psicológica. Esses procedimentos. ao estudar essa ou aquela forma de atividade psíquica.A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elaboração de métodos objetivos de pesquisa que usassem os mesmos procedimentos que todas as outras ciências usavam para observar o desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade e da mudança experimental das condições do seu exercício. Pertence aos procedimentos diretos a mudança da estrutura da tarefa proposta ao sujeito experimental (com dificultação paulatina. de métodos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição exterior dessa atividade no sentido das leis que lhe servem de base. podem ter caráter direto ou indireto. meios. reação motora ao sinal. os meios auxi-liares em que ele se baseou.resultado final (memorização do material proposto. inclusão de novas exigências. etc). O método de análise estrutural dos processos psicológicos consiste no seguinte: o psicólogo. que permitem efetuar uma análise estrutural bastante completa. que tornam necessária a inserção de novas operações na solução da tarefa). com a análise das mudanças que ocorrem em determinadas condições que podem ser mudadas pelo experi-mentador. O procedimento principal da Psicologia passou a ser a observação do comportamento do homem em condições naturais e experimentais. método genético-experimental e método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-mica). bem como a proposta de vários procedimentos que ajudam à solução (escolha de apoios externos. Isto significa que o psicólogo não apenas registra o. O emprego desses procedimentos diretos de análise estrutural muda . procedimentos auxiliares. Essa descrição da estrutura psicológica do processo estudado e a análise das suas partes componentes representam dificuldades consideráveis e exigem vários procedimentos auxiliares especiais. etc. convencionalmente chamados de método de análise estrutural. formas de comportamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a tarefa dada. resposta à tarefa proposta) mas acompanha atentamente o processo de solução da tarefa proposta.

19 .

Nuns casos exige-se dele solução independente da tarefa. que por si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da atividade psíquica mas podem refletir as condições fisiológicas gerais que caracterizam essa realização. presta-se-lhe ajuda. Pode-se obter resposta a esta questão não apenas acompanhando a execução das mesmas tarefas em fases sucessivas do desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia a denominação de método dos cortes genéticos) como também criando condições experimentais que permitam mostrar como se forma essa ou aquela atividade psíquica. de atividade do homem. Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-se o emprego de indícios. por exemplo. As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas de atividade psíquica como a assimilação ou memorização do material. que tem importância especialmente grande para a Psicologia genética. eletromiogramas. podemos colocar o método genético-expe-rimental. empregando diversos meios de apoios extremos evidentemente- . pletismograma). que etapas foram incluídas nele e que fatores determinam o surgimento de processos psicológicos superiores. que ocupa posição central na Psicologia. Por isto é sobretudo importante para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolução. Ao lado do método analítico-estrutural. que. reação galvânica da pele. podem ser índices do seu estado geral. a realização de operações construtivas ou lógicas. Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são produto de uma longa evolução. incluímos a aplicação de métodos de registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas. Com este fim coloca-se em diferentes condições o sujeito experimental. a solução das tarefas.o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer quais dentre os procedimentos empregados surtem um efeito máximo. Entre esses procedimentos. das tensões por ele experimentadas. noutros. etc. a quem se propõe resolver essa ou aquela tarefa. Ê natural que a aplicação desses procedimentos indiretos ou complementares pode adquirir sentido somente havendo organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo psicólogo. não sendo eles mesmos elementos. o estudo da estrutura das formas complexas dos atos conscientes.

20 .

A. sugerindo em voz alta as vias de solução. analisa detalhadamente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos e define quais desses processos se mantêm intactos e quais ficam perturbados. da percepção visual.eficazes. Aplicando os procedimentos que constituem a essência do método genéticoexperimental. Y. O terceiro método da Psicologia. Conhecendo um fator que muda notoriamente o curso dos processos psíquicos. Esse método é aplicável em casos relativamente raros. como também de formular experimentalmente os complexos processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. Zaporojets. todo um conjunto de mudanças) que surge com a mudança de uma função e dá a possibilidade de mostrar a interdependência (correlação) de processos psicológicos isolados. por um lado. da memória auditiva ou da sólida manutenção do programa de atividade). V. Galpe-rina e produziu muitos fatos valiosos que se incorporaram soli-damente à Psicologia. Semelhante análise permite estabelecer quais são precisamente os processos psíquicos internamente relacionados com o fator perturbado (ou excluído) e quais são independentes deste. observando como ele aproveita essa ajuda. especialmente importante para a neuropsicologia e psicopatologia. o psicólogo pode saber qual a influência que esse fator exerce sobre o curso de toda a atividade psíquica do sujeito. é o método patológico-éxperimental ou método da análise sindrômica das mudanças de comportamento que ocorrem nos estados patológicos do cérebro ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos processos psíquicos. consistindo no seguinte: o psicólogo que estuda minuciosamente os pacientes nos quais a afecção local do cérebro provoca o deslocamento ou a deformação de uma das condições do curso normal dos processos psíquicos (por exemplo. Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pesquisas neuropsicológicas. O método genético-experimental foi amplamente aplicado na Psicologia na URSS por Vigotsky. permite descrever toda uma síndrome (por outras palavras. o estudioso se mostra capaz não apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujeito experimental pode assimilar de modo ideal dada atividade. P. por outro. O mesmo método pode ser aplicado na Psicologia geral ou na>Psicologia das .

nas quais a superevolu-ção de um aspecto do campo psíquico (por exemplo. da memória 21 .diferenças individuais.

A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa importância para que se tenha uma orientação. têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de avaliação qualitativa e quantitativa dos processos psíquicos (dos conhecimentos. Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são conhecidos pela denominação de testes psicológicos. ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na Psicologia patológica ou diferencial. a fraqueza ou a mobilidade insuficiente dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos os processos psicológicos e tornar-se fator decisivo no surgimento de todo um conjunto de peculiaridades individuais da pessoa. Para que esses testes possam produzir dados objetivos e mensuráveis. aptidões) e os métodos simples de medição do nível de evolução dos processos psíquicos. habilidades ou aptidões são mensuráveis. acerca das peculiaridades psicológicas dos grandes hemisférios. A par com eles. e se o método de análise estrutural continua sendo o método básico para todas as áreas psicológicas. habilidades. por exemplo) de sujeitos experimentais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são propostas àqueles sujeitos cujos conhecimentos. Os resultados dessas pesquisas são avaliados por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao grupo correspondente de sujeitos). Faremos adiante uma apreciação crítica desse método.p é a mesma para as diferentes áreas da Psicologia a que nos referimos.visual clara) ou alguma peculiaridade individual dos processos nervosos (por exemplo. quando examinarmos a sua importância para a medição das diferenças individuais de diferentes sujeitos. É fácil ver que a importância de todos os referidos métodos nã. Entre essas tarefas escolhem-se aquelas'que um número considerável (dois terços. Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são métodos da pesquisa psicológica. entretanto. . habilidades ou aptidões. o método gené-tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia genética. são feitos previamente com um grande número de sujeitos experimentais (crianças de uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educação). que se propõem a um amplo círculo de sujeitos experimentais para estabelecer seus conhecimentos. Os testes psicológicos consistem de tarefas.

22 .

o volume da memória humana e os modos de originalizá-las. A indústria moderna. a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-tes à seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou daquelas formas de trabalho. etc. que nos mecanismos modernos consistem de grande número de indicadores. Coloca-se a questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias? Todas essas questões são elaboradas pela engenharia psicológica e pela Psicologia do trabalho. da melhor maneira. do transporte. adaptar a máquina às possibilidades do homem. subentende uma complexa interação do sistema homemmáquina. Ela tem importância também prática. O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho.A importância prática da Psicologia A Psicologia tem grande importância não apenas para a solução de uma série de questões teóricas do campo psicológico e da atividade consciente do homem. aviação. Essas exigências devem referir-se principalmente à construção racional dos painéis de direção. É natural que essas exigências podem ser atendidas somente levando-se em conta as leis da percepção humana. que aumenta à medida que a direção do comportamento do homem em bases científicas e a consideração do fator humano na indústria e nas relações sociais se tornam questão central da vida social. É necessário criar condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo e o menor número de erros. que estão se convertendo . A ciência psicológica é de grande importância prática para vários campos. que compreende a direção de mecanismos. com isto. que se criem condições que assegurem circunstâncias ideais para a manutenção da atenção e o menor esgotamento do homem. que poderiam. Por outro lado. querendo. A técnica complexa deve estar adaptada às possibilidades do homem. a área da Psicologia aplicada que se dedica a questões ligadas a esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia do trabalho. dentre os quais mencionamos apenas os mais importantes. que exigem revisão sumamente rigorosa e que a informação que recebem tenha a máxima acessibilidade.

23 .

É sabido que o sucesso do ensino depende não só dos programas e métodos racionalmente organizados mas também da própria composição dos alunos.em importante componente da organização cientifica da produção. A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada que deve assegurar a argumentação científica dos programas e métodos de ensino. em suma. nova área da pedagogia que se desenvolveu ultimamente. É sabido que o crescente volume de conhecimentos. Em toda classe. O ensino programado (ou teoria da assimilação programada. dos conhecimentos). da idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar. há aqueles que não conseguem assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendimento do trabalho de toda a turma. que dá contribuição substancial para a fundamentação científica do processo pedagógico. Questões como o grau de desdobramento do processo de assimilação dos conhecimentos por etapa. O essencial. os procedimentos que asseguram assimilação adequada dos conceitos e a transferência de princípios assimilados no processo de ensino constituem apenas uma parte das questões estudadas pela psicologia pedagógica. a correlação dos meios direto e lógico-verbais de ensino. que cria obstáculo para levar-lhes instrução com êxito. é o fato de que a falta de aproveitamento que esses alunos demonstram pode ter fundamento variado. Isto depende substancialmente das peculiaridades psicológicas da criança. . exige organização mais racional dos métodos de ensino. estabelecer o círculo dos conceitos acessíveis às crianças da idade correspondente e os métodos de transmissão do material que garantirão sua melhor assimilação. que devem ser assimilados no processo de ensino escolar. paralelamente aos alunos adiantados. O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a construção racional do ensino e da educação é a análise das peculiaridades psicológicas das crianças. a área da pedagogia. Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino e a educação da geração adolescente. por etapa. porém. apresenta a base psicológica científica para a elaboração de uma seqüência otimal do material proposto bem como a'aplicação dos métodos mais eficazes de ensino. os modos de formulação otimal de regras.

24 .

Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na aprendizagem por serem fisicamente fracos. por terem sofrido uma doença qualquer. No . Eles são capazes de concentrar com êxito suas atenções apenas durante tempo limitado.Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem mentalmente retardados e o atraso orgânico do seu cérebro os torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima. que possam descrever as peculiaridades psicológicas das crianças que não conseguem acompanhar o programa. As outras são crianças plenamente normais. o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades de aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam mentalmente retardadas mas porque apresentam algumas deficiências. por outras palavras. elas não podem avançar com sucesso porque a assimilação do novo material não encontra nelas a necessária base de conhecimentos. Essas crianças devem ser transferidas da escola de massa para uma escola especial. depende daquilo a que os terapeu-tas chamam de "quadro interno da doença". 15 sabido que o desenvolvimento de uma doença depende não apenas do agente patogênico e do estado do organismo mas também de como o próprio doente encara sua doença e como a avalia. A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna das causas do atraso de diferentes grupos de crianças e o diagnóstico das diversas formas de atraso no programa. O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a medicina. mas o seu atraso deve-se ao fato de que. não tendo assistido a determinada parte do programa. Essas crianças devem ser transferidas para escolas destinadas a alunos de audição difícil. como deficiências auditivas. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspondente e nessas condições podem cumprir com êxito o programa. ficam rapidamente exaustos e não têm condições de assimilar o material correspondente. Essa tarefa pode ser cumprida somente com íntima participação dos psicólogos. Por último. onde procedimentos e métodos especiais permitirão compensar tais deficiências. Essas crianças necessitam de aulas complementares especiais que possam eliminar as suas lacunas. auxiliar. que dificultam a comunicação verbal oportuna e plena e provocam retardamento temporário do desenvolvimento. explicar as causas principais do retardamento da sua evolução e prestar ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas.

entanto. a pró25 .

por outro. dos reflexos. tem por isto grande importância para a medicina. fazendo parte das formas complexas de atividade psíquica. e o restabelecimento das funções perturbadas. do tônus e dos movimentos. a afecção dessas áreas do cérebro provoca perturbações visíveis das formas complexas de atividade psíquica. Graças a isto tornou-se possível introduzir um método novo e prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e neurocirurgia clínicas. Parte considerável dos grandes hemisférios cerebrais não tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a afecção dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visíveis nestes. com as peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo. permitindo ver. Nos últimos decênios surgiu um novo campo da Psicologia — a neuropsicologia — já mencionado por nós. estudo esse feito pela Psicologia. por um lado. sem provocar sintomas fisiológicos nítidos. com o caráter das generalizações que o indivíduo faz. Essas partes dos grandes hemisférios estão relacionadas com a realização das formas superiores de atividade psíquica como a análise do afluxo de informação. Este permitiu ver quais os fatores que. que tipos de perturbação dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas. estão relacionados com determinadas áreas do cérebro. que aplica a análise psicológica do caráter das perturbações dos processos psíquicos superiores peio diagnóstico tópico das afecções cerebrais. a formação de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento da atividade consciente. A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas da medicina como a neurologia e a psiquiatria. permitindo focalizar mais de perto o fundamento científico da prática da psico-terapia. ainda. É justamente por isto que. Nos capítulos correspondentes do presente livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para a solução dessas . Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução de duas importantíssimas questões: o diagnóstico e a natureza da doença. da psico-higiene e da psicoprofilaxia. Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente se manifestam em sintomas da neurologia clássica como a mudança de sensibilidade.pria atitude em relação à doença está relacionada com uma série de fatores psicológicos. O estudo das peculiaridades caracterológicas e da estrutura do indivíduo.

questões práticas. 26 .

Há relativamente pouco tempo ainda se considerava que as funções. dos seus motivos e traços caracterológicos. da gradação da percepção e da memória. Por último. não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principalmente do seu hemisfério central. As perturbações da percepção e da ação. . que se perturbam com qualquer afecção local do cérebro. dominante) provocava perturbações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez. elaborada pela Psicologia.Não é menor a importância da Psicologia para precisar o diagnóstico das doenças mentais. Deste modo. A teoria do restabelecimento das funções psíquicas superiores (perturbadas durante afecções locais do cérebro) por meio de um restaurador especial da aprendizagem. as funções perturbadas podem ser restabelecidas em novas bases. É grande a importância prática da Psicologia na elaboração das bases científicas do restabelecimento das junções perturbadas nas afecções cerebrais. podem ser reestruturados com base na criação de novos sistemas funcionais. cabe mencionar o último campo de aplicação prática da Psicologia: a psicologia forense. O promotor e o juiz estão constantemente diante de formas complexas de atividade psíquica do homem. perturbadas como resultados de afecções locais do cérebro. tornou-se um importante componente da medicina moderna. Por isto a aplicação dos métodos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite precisar substancialmente o diagnóstico das doenças mentais e se converte em componente essencial da Psicologia geral. das peculiaridades do seu pensamento. Mas a doutrina da complexa construção sistêmica dos processos psíquicos superiores mostrou que cada forma complexa de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um sistema de zonas cerebrais que trabalham conjuntamente e permitiu rever radicalmente essas teses. Por isto a consideração das características psicológicas desses processos deve ser componente obrigatório da preparação e da atividade do pessoal de atividade forense. Mostrou que os sistemas funcionais. baseados nas áreas cerebrais' não-afetadas. da memória e do pensamento assumem caráter absolutamente diverso sob diferentes formas de retardamento mental e diferentes doenças mentais.

A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas importantes áreas da prática forense: a análise dos depoimentos das 27 .

o crime cometido deixa vestígios não só na situação externa como também no próprio psiquismo do criminoso. Deste modo. Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas asseguram matéria autêntica apenas em certos limites e que o grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplicação de uma investigação psicológico- experimental.testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no crime. É natural que a incorporação da Psicologia à solução desses problemas permite dar uma contribuição importante para a construção da causa judicial em bases científicas e constitui área importante da aplicação prática da Psicologia. fornecendo bases científicas para importantes campos da prática. a Psicologia não é apenas uma área importante da ciência como tem campos amplamente ramificados de aplicação prática. Por outro lado. 28 . daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais esses vestígios podem ser descobertos.

II A Evolução do Psiquismo CAPÍTULO anterior vimos como a ciência moderna entende o objeto da Psicologia e que aplicações práticas tem esse campo de atividade. Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas da evolução da atividade psíquica. A origem do psiquismo A Psicologia pré-científica. 29 que aquela sempre existia . Por esta razão nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismo. que se desenvolveu nos pri-mórdios da filosofia idealista. de sua origem e dos graus de sua evolução. considerava o psiquismo como uma das propriedades primárias do homem e a consciência como manifestação direta da "vida espiritual". paralelamente a esta. A filosofia dua-lista supunha que a consciência era tão eterna quanto a matéria.

de descrever as condições nas quais deve ter surgido essa forma altamente complexa de vida. Ao mesmo tempo. essas moléculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentícias como a condições como a luz e o calor.A Psicologia científica parte de teses inteiramente diversas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta para o problema da origem do psiquismo. transmitindo de geração a geração as respectivas modificações das moléculas albuminosas. Deste modo. Esses dois processos — a assimilação e a eliminação — Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental de existência dessas complexas formações albuminosas. Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da vida é o surgimento de complexas moléculas albuminosas. que também contribuem para a assimilação. Para sobreviver. elas devem segregar para o ambiente externo os produtos da desintegração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência normal. Essa última propriedade parece relacionar-se com a modificação de algumas frações dos aminoácidos (particularmente do ácido ribonucléico. que constitui o funda30 . É natural que essas moléculas albuminosas altamente complexas (às vezes são chamadas coacervaíos) possuam propriedades especiais. Junta-se a ela uma segunda propriedade: a possibilidade de conservação das propriedades altamente especializadas da excitabilidade diante das influências. respondendo também à influência nociva que lhes ameaça a existência. Reagem negativamente aos efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificultam a existência normal. Elas não reagem às influências "neutras" estranhas ao processo de metabolismo. Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacervaíos de responder às influências que integram o processo de metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores "indiferentes" ). que respondem à ação das substâncias úteis ou das condições que contribuem para a assimilação dessas substâncias. elas devem assimilar do meio ambiente as substâncias que são objeto de alimentação e necessárias para mantê-las vivas. que não podem existir sem um constante metabolismo com o meio. Essa propriedade fundamental se manifesta no processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica.

Noutros termos. a aquisição de formas de excitação altamente especializadas e sua conservação com a transmissão imediata às gerações seguintes caracterizam o estágio de evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa. dirigido pela excitação em relação às influências bióticas (umidade. Quanto mais intenso é o metabolismo. Cada organismo animal. mas também às influências "neutras". Eles condicionam os chamados "movimentos dos vegetais". caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não só às influências bióticas. iluminação. etc). que integram o processo imediato do metabolismo. Os processos de excitação diante de influências bióticas de importância vital. Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-tuadamente as formas de existência na etapa seguinte da evolução: o estágio da vida animal. se estas anunciam o surgimento de influências ("bióticas") de importância vital. que são um sinal do surgimento dessas condições. começando pelas algas mais simples e terminando com as formas complexas de vida vegetativa. Há uma circunstância que é essencial para a vida vegetativa.mento molecular da vida) e costuma ser considerada como importante processo que serve de base à memória biológica. O vegetal que responde com um intenso metabolismo às influências bióticas não reage às influências exteriores. mesmo que as fontes de luz e umidade estejam bem próximas mas não tenham efeito imediato sobre ele. quanto maior é a necessidade de obter alimentação que o ser vivo simples sente. morrer por falta de luz ou umidade. tanto movimentos e mais ativos são os seus . Esses processos caracterizam toda a vida. procuram condições de importância vital e reagem a todas as mudanças do meio. não-bióti-cas. por exemplo. que integram o processo imediato do metabolismo. os animais (mesmo os protozoários) se orientam ativamente na claridade. em essência. que. a começar pelos protozoários. são apenas formas de uma intensa troca ou crescimento. Fenômenos como o crescimento da raiz do vegetal no sentido da profundidade do solo ou o crescimento irregular do tronco dependendo da iluminação ou a inclinação dos vegetais no sentido dos raios solares constituem apenas o resultado do fenômenos da "excitação" diante das influências bióticas (não indiferentes para a vida). Ele não se orienta ativamente no meio ambiente e pode.

31 .

eles se concentram no canto aquecido. que não existiam no mundo vegetal. Variabilidade do comportamento dos proiozoários A sensibilidade aos instigadores "neutros". é chamada sensibilidade.tanto mais vivificadas são as formas em que se produz sua atividade de "orientação" ou "procura". eles se distribuem igualmente por toda a câmara. a reagir ativamente a cada mudança que neste se processa. ou seja. 32 . realizado pelo pesquisador alemão Bramstedt. diferentemente dos fenômenos da ex-citabilidade. provoca mudanças radicais nas formas de vida. a situação muda e os unicelulares se tornam sensíveis à luz. capacidade essa que surge no estágio de transição para o mundo animal. começa a adquirir formas de comportamento individualmente variáveis. Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamento individualmente variável se processa com relativa lentidão. indispensável ao metabolismo) mas são insensíveis à luz. aquecermos uma parte da câmara igualmente iluminada. são sensíveis ao calor (qué é para eles condição biótica de importância vital.diferenças de temperatura. O principal consiste em que o ser vivo começa a "orientar-se" no meio ambiente. que agora adquire para eles o significado de sinal de elevação da temperatura e começam a concentrar-se no canto iluminado da câmara. Mas se durante longo período iluminarmos o canto aquecido e escurecermos o não-aquecido. Sabe-se que os unicelulares. Essa capacidade de reagir aos instigadores "abióticos" neutros sob a condição de que eles sinalizem para o surgimento de influências de importância vital. Se. Citemos um experimento típico. mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em condições de experimento. Por isto se os colocarmos numa câmara igualmente aquecida. se estes começam a dar sinais do surgimento de influências de importância vital. com uma parte clara e outra escura. apesar ias. ao contrário. usados nesse experimento. É o surgimento da sensibilidade que pode servir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo.

se mudarmos as condições que provocam essas reações. podendo desaparecer inteiramente se durante longo período a luz não for reforçada pelo calor. sob a influência das novas condições. a trajetória desses movimentos começa a refletir a configuração do vaso.É fato característico que essa sensibilidade à claridade se forma paulatinamente entre os unicelulares. Pode servir de exemplo o experimento do conhecido pesquisador polonês Edward Dembowski. eles começam a bater-se contra os vidros dessa proveta mas logo seus movimentos adquirem caráter modificado. Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num vaso estreito com seção microscópica. que 33 .em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular. Exemplo típico desse processo encontramos no experimento do estudioso americano A. obtinha-se uma nova "habilidade". batendo contra as paredes do tubo. Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-tozoários pode ser provocada com base em suas reações defensivas. o ciliado começava a virar-se com rapidez bem maior e no final do teste gastava apenas 1-2 segundos para virar-se. Por conseguinte. que garantem o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. No começo do teste ele gastava de 3 a 6 minutos para virarse. O processo de mutabilidade do comportamento-individual dos protozoários. que os distingue acentuadamente dos vegetais. os pro-tozoários fazem movimentos que lhes são característicos. A seção era tão pequena que para sair do tubo no sentido da ação do agente biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se. A trajetória por eles adquirida se mantém inclusive quando eles são recolocados num vaso arredondado e passam algum tempo fazendo os mesmos movimentos pela trajetória rômbica. Co-locados. Colocados numa proveta arredondada com água. Smith. Assim. Mas se esses experimentos eram repetidos várias vezes durante 10-12 horas. Mas essas mudanças são tão importantes que as novas formas de comportamento emergentes (de adaptação às novas condições) permitem realizar as respostas necessárias de adaptação às novas condições de modo muito mais rápido do que se verificava em nível inferior da escada evolutiva. transcorre com relativa lentidão e as mudanças que surgem desaparecem com a mesma lentidão.

exige dos protozoários bastante tempo. que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular). que mostra esse surgimento tão lento e o desaparecimento igualmente lento da nova forma de comportamento. É possível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina das propriedades bioquímicas do protoplasma. a mudança do comportamento se mantém entre eles durante período bastante longo. É característico que. em vida. Como vemos. Mecanismos do comportamento dos protozoários A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das condições físico-químicas do comportamento dos protozoários e das causas dos seus movimentos positivos ou negativos (movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a partir de outros objetos. a formação de um novo tipo de comportamento. Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-celulares como entre os pluricelulares de organização relativamente simples.. posteriormente pelo pesquisador soviético A. Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa manifestação de sensibilidade ao agente neutro inicial. A. O exemplo. No entanto o fato da manifestação. respectivamente). Sabe-se também que as camadas externas do protoplasma do unicelular são mais 34 . N. de novas formas de reação indica o surgimento de urna mutabilidade individual no comportamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se do surgimento de um comportamento autêntico. Leôntyev (cf. Leôntyev. Sabe-se que o protoplasma. pode ser visto no experimento realizado inicialmente pelo pesquisador belga Blesson. que corresponde às condições mudadas. Problemas da evolução do psiquismo). uma vez surgida. embora muito elementar. é constituído de uma camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais líquida (plasma-sol). N. nessa fase da evolução.se processava com uma rapidez 180-200 vezes superior à reação inicial. sendo necessário muito tempo para desaparecer.

mas se caracteriza por sistemas altamente diferenciados e seletivos de excitação. elas mesmas. sofrer as mais complexas modificações. O próprio protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade. sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as influências que chegam até eles podem. entretanto. Esses gradientes de excitação. Seria. O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do protoplasma. e cada ação externa provoca intenso metabolismo. que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto correspondente de sua superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar ativamente as substâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo. Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a excitação por luz. dirigido a partir do objeto influente. esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário. é depositado no lugar de metabolismo mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto. a influência mecânica de certa força provoca apenas reações relativamente fracas do protozoário. incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um esquema tão simples. que. ele é absorvido pelo corpo do unicelular. Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência. incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. ao passo que influências inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo. que mudam segundo o processo de metabolismo que nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação.excitáveis do que as camadas internas. servem de base aos movimentos do unicelular. extinguindo-se conforme o tipo de. entre os unicelulares mais simples (amebas). Não sendo aliníen-tício. que se estende paulatinamente das camadas externas às internas. Como mostraram os experimentos de Fogler. segregando-se para o meio o produto da desintegração. ao que parece. ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que foi apanhado.gradiente de excitação paulatinamente decrescente. Se esse objeto é alimentício. .

35 .

Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as observações ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses estímulos são o resultado de certas modificações e do ácido ribonucléico. Mas' o que já sabemos a seu respeito nos leva a pensar que. estão lançadas as bases da complexa atividade da orientação ativa no meio. de . que é um dos componentes básicos do seu plasma. espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular. reduzindo a resposta a eles na medida do seu prenuncio repetido e longo. Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples Os processos descritos de irritação em face sensibilidade às influências neutras que 36 das influências bióticas. Esses "flagelos" estão em movimento permanente e são agentes das funções mais importantes de orientação no meio exterior. que mais tarde constituirão traço importantíssimo da atividade psíquica.Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da ameba saciada. Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do metabolismo mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente. por exemplo. que formam. o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes. coloca-o em movimento. que. A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo especial. Por último. aqui. Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa. formando com isto o extremo "cerebral" provisório do seu corpo. Neles podemos distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma. os "flagelos" das bactérias. assim como os mecanismos que lhe servem de base. é neles que surgem os gradientes de excitação constante. e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos correspondentes ou às instigações que sinalizam o surgimento destes.

agentes da função que nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. à separação das células de uma recepção especial de irritações que chegaram ao corpo do animal. na estrutura do corpo da medusa. eleva-se o papel da orientação ativa no meio externo. a velocidade do processo de excitação aumenta ainda mais.5m por segundo (observemos que com a contínua evolução do sistema nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação. com o surgimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velocidade do processo é igual a 0. chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 metros por segundo nos vertebrados superiores). Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares. Torna-se necessário assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de excitação no protoplasma dos unicelulares. 37 . por exemplo. Isto leva. Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da excitação se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular. A alimentação por meio da difusão direta de substâncias alimentícias. agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada). por último. pertencentes à classe dos celenterados. e ao surgimento das primeiras células contrativas. qué entre esses animais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma de rede. Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente simples. A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. anêmona-do-mar e estrela-do-mar. a que nos lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma mais excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso.anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares. que ocupou posição central no nível dos protozoários. É isto que leva a uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-ricelular. Se o processo da excitação pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por segundo.

sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa. O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de vida. codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado. uma parte do corpo (por exemplo. Só entre os celenterados mais complexos. os animais com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu comportamento. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante". A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo do animal. criando antes de tudo uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimen38 . têm também os seus limites. pode tornar-se dominante e assume a função de órgão mais ativo no movimento. limita substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível. É natural que essa falta de um órgão dominante permanente. capaz não só de receber mas também de processar. tornando-se incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório. Como nas etapas da evolução já descritas. Essa alimentação encontra-se agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais difícil. Esses defeitos são eliminados nas etapas posteriores da evolução. Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais. disposto ao lado dele. que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso primário (reticu-lar). A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível. o papel de "dominante" passará para outro raio.No entanto as vantagens consideráveis. um raio da estrela-do-mar) não difere pela estrutura de outras partes do corpo (raios).

Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão. concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis.-termo. e os "programas" de comportamento que surgem em forma de impulsos motores se difundem pela cadeia dos gânglios nervosos. térmicas e de luz que ocorrem no meio exterior. Esses aparelhos percebem mudanças químicas. distribuídos de maneira especialmente densa. que se distingue acentuadamente do princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). assume papel principal. Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento. A extremidade da cabeça do verme. A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre eles tipos mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de no- . que leva ao surgimento do sistema nervoso em cadeia ou ganglionar. onde se concentram no primeiro "centro" que surge pela primeira vez nessa fase da evolução. Isto é facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo do verme. onde se concentra uma rede especialmente densa de hemo.-foto e hi-dro-receptores. bem como mudanças de umidade. sem revelar nenhum indício de movimento organizado. que se processa com a ajuda dele.-mecano. conservando seus movimentos organizados. Na extremidade frontal do verme. ao passo que os gânglios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital. cada um desses gânglios corresponde a um segmento particular do corpo do verme. Os impulsos que chegam a esses gânglios provocam movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio frontal. Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. Aqui esses sinais são codificados. É a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso. enquanto a parte traseira se limitará a simples contorções. Os sinais dessas mudanças passam pelos filamentos e chegam ao núcleo frontal ou gânglio. principalmente nos insetos.tos. que aparece pela primeira vez nos vermes e adquire a máxima complexidade nos invertebrados superiores.

39 .

Processo de "ensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T Testes N" de t 1-40 — 41-80 — 81-120 — 121-160 — 161-200 — 201-240 — Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T 'rr Testes JV? de os erros 17 Ensiname repetid nto o 1-40 —. labirinto extremamente simples. que colocou minhocas num tubo em forma de T. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo americano R. a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminharse para o lado direito.vos modelos de comportamento individualmente adquiridos. M. que provocava reação defensiva. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico. evitando o choque elétrico. 41-80 — 81-120 — Reensinamento 161-165 — 166-175 — 176-185 — 186-195 — 196-205 — 206-215 — 216-225 — Repetindo-se esse 14 13 9 4 4 19 9 4 4 7 7 7 5 3 2 mesmo experimento após uma longa pausa. Yerkes. a "aprendizagem" começa a a processar-se duas vezes mais rápido e depois de . A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita. Com várias repetições desse experimento.

80 experimentos o número de erros já é mínimo. ainda. Foi sintomático. que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento". 40 .

eles cometeram imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns não-ensinados. cujas células são imunss ao efeito dis-. Depois disto o extrato das partes posteriores do corpo dos vermes "ensinados" não provocou o efeito necessário.solvente do. provocadas por semelhante "aprendizagem". Esses experimentos se referem tanto à importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade" como à importância que para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio frontal. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de "habilidade" nessas etapas da evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-plasma e que a "habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral. Isto foi mostrado pelos experimentos nos quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente depositados em solução de ribonuclease (fermento que dissolve o ARN) . que a minhoca possui uma forma primitiva de memória. A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse experimento pode-se apenas supor que as mudanças. 41 . V. ao passo que o extrato das partes anteriores dos vermes "ensinados" (incluindo a substância de gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. estão relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) . Como mostrou o experimento. ribonuclease. ele triturou os corpos desses vermes.Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas formas de comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas. Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da possibilidade de transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação dos mecanismos bioquímicos que servem de base à memória elementar. os vermes que absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento necessário num labirinto muito simples. Depois disto. Ao serem colocados pela primeira vez no labirinto. noutros termos. o pesquisador americano J. fez deles um extrato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam sido ensinados. Nesses experimentos.

Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" por via humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade". as células sensíveis à luz estavam simplesmente concentradas na superfície frontal do corpo. que permitem ao animal adaptar-se às condições complexas porém permanentes e estáveis do meio. Vejamos isto no exemplo da evolução dos fotorreceptores. Isto permitia aos animais orientar-se a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a direita ou a esquerda mas ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. Só na última etapa da evolução. Na etapa seguinte da evolução. Um pequeno orifício. verificado na assimilação da substância dos corpos dos vermes ensinados. Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com nitidez especial nos articulados. localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo. dando ao animal a possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia localizar a fonte da luz no espaço. que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o cristalino). as células sensíveis à luz se concentravam em dois discos sensíveis à luz. adquirindo a forma de uma esfera vazia. com o desenvolvimento de programas sumamente complexos. Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos complexo-diferenciados de recepção. A princípio. que permitem assimilar uma informação altamente especializada que vem do meio exterior. os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a aquisição de uma "habilidade" estável e que todas as células do corpo do animal parecem participar da conservação dessa "habilidade". os discos hipersensíveis se arqueavam. ainda. que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. Essa evolução está relacionada. Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa questão. As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de sensibilidade. permitia a refração da luz cadente e o efei42 .

as células sensíveis da cavidade bucal. é diferente em animais diferentes. das abelhas.000 vibrações por segundo. na parte posterior. que servem de base aos movimentos de adaptação dos insetos . o mais importante órgão receptor de luz. por exemplo. de muitos milhares de células independentes. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas. É possível que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos receptores por nós desconhecidos. receptores de vibração (situados nos tímpanos das pernas). as células olfativas. provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores.to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa esfera vazia. Nos insetos ela tem o caráter de "olho de faceta". às quais chegam os impulsos dos receptores periféricos. Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. que permite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um sistema auto-regulável de aparelho refratário. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão complexo. difundem-se pelos filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal. nas pernas). Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível — o olho —. na parte média. às vezes. que pela primeira vez permitia não apenas reagir à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente. continua sendo uma das conquistas mais importantes da evolução. A par com o complexo "fotorrecep-tor (o olho). Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente as células visuais. que é um protótipo do cérebro e um aparelho que reúne (codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas ultracomplexos de programas congênitos de comportamento. construído. eles têm receptores químicotáteis especiais (situados nas antenas). apresenta uma estrutura muito complexa. receptores de sabor (situados na cavidade bucal. que reagem às mais ínfimas vibrações ultra-sônicas. cuja especialização foi por eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações. É característi- . que captam as mínimas mudanças de sabor. que permite reconhecer à distância os objetos agentes. às vezes até a 600. O gânglio frontal dos insetos superiores. A estrutura do olho. As excitações. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre nós.

43 .

dividindo-a em grande número de elementos componentes e permitindo. as características da tromba. que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas neurôniças do gânglio frontal em forma organizada.co que a disposição dessas células tem caráter organizado. São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento. consiste em que tais programas são congênitos e transmissíveis por hereditariedade. Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas. Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão grande que exigem análise especial e minuciosa. Eles estão bem adaptados às condições de existência dos insetos). que reagem aos mínimos indícios particulares da informação que chega ao organismo. reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos da forma de funcionamento desses neurônios). a estrutura dos órgãos receptores. Esses programas são produzidos por milhões de gerações e transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da estrutura do corpo (as formas das asas. posteriormente. Nelas já se pode observar uma estrutura plana de "vídeo". assegurando com isto o reflexo de determinadas influências estruturalmente organizadas. impulsos esses que lhe formam o comportamento. Os códigos de excitações. É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal. que representam uma parcela de absoluto predomínio no comportamento dos insetos. A peculiaridade dos programas sumamente complexos. que permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências captáveis em sistemas integrais. Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente complexo. onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto. é característico que já nessa fase da evolução façam parte da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados. são transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico situado abaixo. próxima da estrutura 44 . Freqüentemente eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram exemplo de comportamento racional. que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos. entre os insetos.

que impressiona pela complexidade e a aparente racionalidade. nascem com essas formas de comportamento assim como nascem com uma estrutura dos órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade. encobre mecanismos elementares. para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para metamorfosear-se em cri-sálida. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para que as larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento. isto ela faz com admirável precisão. Não é necessário falar dos programas congênitos de comportamento da aranha. o brilho da água leva o mosquito a deitar células na superfície aquosa. são congênitos. Essas pesquisas mostraram que os complexíssimos programas de comportamento "instintivo" são gerados de fato por estímulos elementares. que tece uma teia impressionante pela construção. os insetos não precisam estudá-lo. ou dos programas congênitos de comportamento da abelha. e muitos outros. onde elas secam fatalmente. que colocam em ação os ciclos congênitos dos atos de adaptação. Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar da racionalidade dos instintos e aproximá-los do comportamento racional. que constrói favos de forma economicamente ideal. Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem movimento. que ataca a mosca que se enreda na teia e a devora. O complexo programa congênito de atividade da aranha. deram certa clareza à forma misteriosa do comportamento e mostraram que essa forma de atividade. Por isto basta substituir a água por um espelho brilhante para o mosquito começar a depositar células em sua superfície. Os exemplos citados de comportamento racional altamente complexo.ideal matematicamente calculada. enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles estejam suficientemente cheios. é gerado de fato pela vibração da teia. Assim. Os mecanismos descritos permitem avançar consideravelmente no sentido de melhorar a compreensão dos processos que servem de base ao . se um diapasão vibrante toca a tela. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca na terra. a aranha se lança contra ele assim como se lança contra a mosca. particularmente da corrente denominada etologia (etos -— comportamento). Só ultimamente as pesquisas dos zoólogos.

comportamento congênito e 45 .

Este supôs que o comportamento da minhoca fosse determinado não pela percepção da forma mas por uma sensibilidade química bem mais elementar. Isto se considerava manifestação da "atividade racional" das minhocas. nesses casos. ainda. e levava a supor que a minhoca percebe a forma da folha e "calcula" por que extremidade é melhor arrastá-la para o buraco.passar da simples descrição à sua explicação. A causa desse comportamento da minhoca tornou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt. Neste caso a minhoca tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina. seiva da parte superior numa ponta e seiva de enxerto noutra. após se abastecerem de folhas para o inverno. mas pela grossa. Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pesquisador alemão Haneli realizou o seguinte experimento: cortou de uma folha um pedaço. mas passou seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos. que mostra a complexidade com que se desenvolve semelhante pesquisa e que interessantes são os resultados a que ela conduz. (a) (b) (a/b) seiva da parte superior — bases da folha (b) relação de preferên-da folha (s) cia de uma ou ouparte superior da folha (s) — enxerto (t) tra extremidade da parte superior da folha (s) — gelatina (g) folha enxerto — gelatina (g) (e) 51:49 . mostrar o quanto o comportamento instintivo difere do comportamento racional. Os resultados do teste mostraram que. arrastam-nas para os seus buracos pela extremidade fina. Para verificar isto ele colocou diante da minhoca vários pauzinhos iguais. É sabido que algumas variedades de minhocas. passou seiva da parte superior ou do enxerto da folha numa ponta dos pauzinhos. fazendo o mesmo na ponta de outros com seiva da base da folha e. Como testes de controle. passando gelatina neutra em outra. Citemos apenas um exemplo. reproduzindo a forma dessa folha mas com a ponta para baixo. a freqüência com que a minhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra ponta não era a mesma e que o fator principal que resolvia a questão era a diferença de distinção química entre a parte superior e seu enxerto. à qual Dar-win se referiu em sua época.

68:32 93:7 84:16 46 .

cobertas por desenhos de diferentes formas geométricas. eles podem ser acionados por sinais relativamente simples. dispostas sob ângulos diversos. por exemplo).Assim. Esses sinais. Todas as observações descritas permitiram que nos convencêssemos de que. a abelha distingue com a mesma facilidade o círculo simples e o cortado. se uma ponta do pauzinho estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra ponta com seiva da base. a minhoca não manifestava qualquer preferência por essa ou aquela ponta. que acionam mecanismos congênitos muito complexos. Deste modo. As condições que põem em ação os programas congênitos de comportamento. não pousando sobre o primeiro e reagindo seletivamente ao segundo.com nitidez especial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha. mostrando-se que um sentido químico bem mais simples desempenha papel decisivo no processo dessa complexa forma de atividade. refletem as condições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma longa evolução. nos quais a abelha era treinada para pousar em xícaras com solução de açúcar. Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo alemão Frisch e posteriormente Hertz com seus experimentos. Essas pesquisas mostram que o fator que permite à abelha distinguir as formas correspondentes não é constituí47 . é com dificuldade que a abelha distingue formas geométricas simples como o triângulo e o quadrado. manifestaram-se . a hipótese segundo a qual a minhoca reage à forma da folha foi abandonada. quando esta pousa seletivamente sobre essas ou aquelas espécies de flores melíferas. No teste de controle em que se passava* gelatina neutra numa ponta do pauzinho. apesar dos programas de comportamento congênito muito complexos que dominam nos invertebrados (principalmente nos insetos). Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos pela forma complexa da flor e às vezes por seu colorido. Se uma ponta estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do enxerto. a minhoca preferia duas vezes mais a ponta com seiva da parte superior. Por último. mas distingue facilmente formas complexas como a estrela pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes. essa preferência pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais nítida.

Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada. Eles mostraram que a abelha distingue com dificuldade as cores puras. que.do pela simplicidade geométrica destas mas por sua semelhança com os instigadores naturais: a forma das flores.. o aspecto estrelário ou o corte das formas. no processo de evolução. afastando-a alguns centímetros. realizadas por zoólogos e psicólogos. adquiriram a capacidade de responder seletivamente aos estímulos de importância vital como as cores mistas. entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai. a disposição das formas no espaço. amarelo-verde. Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial. As pesquisas. aproveitando o momento em que a vespa faz seu reconhecimento no buraco. que reproduzem o colorido de flores diferentes. a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior e. pega-se a presa que está na boca do buraco. ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar anterior. volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. A 48 . etc. É muito possível que essa elevada seletividade dos indícios a que reage o inseto esteja relacionada com o surgimento de neurônios do gânglio frontal altamente especializados. Neste caso. verde-azul. Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. etc). Mas basta mudar um pouco essas condições para que os programas congênitos deixem de ser racionais e percam seu caráter "racional". Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção dos indícios que acionam os programas congênitos (instintivos) de comportamento são as condições naturais de vida (condições ecológicas). . convenceram de mais uma importantíssima peculiaridade do comportamento congênito "instintivo". de acordo com as quais esses programas se formaram no processo de evolução. ela deixa a presa junto do buraco. Verificou-se que os programas congênitos de comportamento "instintivos" são racionais apenas em determinadas condições rigorosamente padronizadas. que determinam exatamente o indício distinguido pelo animal. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um comportamento muito "racional". traz a presa para dentro e se retira. distingue com muito mais facilidade as cores mistas (vermelho-amare-lo. Deram resultados análogos experimentos em que a abelha distinguiu coloridos diferentes.

perdendo nessas condições a sua racionalidade. que tornam racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais elevado. criando-se condições. e sempre que a presa se desloca alguns centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco. que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida. Via de regra. E aqui o comportamento. Mas se em condições de um experimento especial corta-se todo o fundo dos favos. Observações análogas foram feitas com abelhas. £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células consegue sobreviver. perde sua racionalidade quando essas condições se modificam. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução — os vertebrados. É sabido que a abelha enche os favos com mel e. A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio biológico fundamental de vida dos insetos. conservando sua aparente "racionalidade" apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da evolução. predominantes na atividade dos insetos. após depositar a quantidade suficiente de mel. são programas rotineiros. é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no mundo dos insetos. Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento. mecânicos. assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento "instintivo" são suficientes para a preservação da espécie. que se distingue por um grande excesso. 49 .vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas. más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução. Por isto. apesar de que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos inadequados. estes depositam um imenso número de células. Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento. com uma mutabilidade lenta e difícil. lacra os favos. derramando-se o mel neles depositados pela abelha. esta continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo.

O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que tanto as formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um princípio inteiramente distinto. o meio mais mutável. afastar definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de comportamento. que habitam o meio aquo-so. surja um novo comportamento individualmente variável. apresentam um excesso de reprodução tão grande que os aproxima da classe dos insetos. Só os vertebrados inferiores. Essa nova forma de comportamento existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da evolução começam a ocupar posição cada vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e. As condições de alimentação se tornam mais complexas. no homem. à criação de órgãos nervosos basicamente novos. transmissíveis pors. paralelamente ao comportamento "instintivo" (ou de espécie) congênito e pouco mutável. Por isto só entre os peixes a prevalência de formas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é suficiente para a preservação da espécie. Muda simultaneamente também o tipo de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais raramente 5-6 semelhantes. Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de novas possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de novas formas individualmente mutáveis de adaptação levam. Tudo isso cria uma necessidade biológica para que. aumentando infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em constante mudança. assegurando novas formas . e a sobrevivência dos indivíduos isolados se torna uma condição para a preservação da espécie. que seriam capazes não apenas de receber os sinais do meio e pôr em ação os programas de comportamento "instintivo". hereditarieda-de. como também de analisar a informação recebida e fechar as novas ligações. pois sobrevive apenas um número relativamente pequeno de indivíduos que nascem de ovas fecundas. em seguida. no processo de evolução.

individualmente 50 .

situados no tronco cerebral. Ao perceber uma mosca. Neste caso a cintilaçjío aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o papel cintilante como o faz contra a mosca. Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas. a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua língua viscosa. nos vertebrados superiores. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. não sendo. formações de uma nova camada de grandes hemisférios. cuja estrutura reflete o longo caminho percorrido pela evolução. Esse órgão é o cérebro. que é constituído de formações do tronco superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais elevadas apenas esboçadas. construídos segundo o tipo de conjuntos nervososecretórios ou de núcleos nervosos (gânglios). resposta a um sinal previamente analisado. Esses órgãos. Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã. assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas "instintivos" e pouco mutáveis de comportamento que se formaram no processo da evolução.variáveis de comportamento. garantem os processos de regulagem do estado interno do organismo — metabolismo (hipófise). Esse comportamento complexo é determinado por um estímulo relativamente elementar — uma cinti-iaçâo visualmente perceptível —. que se desenvolvem cada vez mais e aos poucos vão começando a dominar inteiramente as formações de nível inferior. predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes realizar programas congênitos mais elementares de atividade adaptadora. que incluem inicialmente o sistema talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo). absolutamente. incluindo posteriormente. Esses programas de comportamento apresentam estrutura semelhante à acima descrita. A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas umas às outras. que por pouca coisa diferem dos tipos de atividade intensiva acima descritos. respiração e circulação sangüínea (tronco) e respostas reflexas aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo quadrigêmeo). Os níveis inferiores. 51 .

D. o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais. Mas essas formas de comportamento. os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante).. os órgãos da camada antiga. que já adquirem traços de variedade individual. podem ser gerados por estímulos relativamente simples. É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de comportamento animal. que começam a predominar nos répteis e nas aves e. a^nda estão estreitamente vinculadas a formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais. que se alimenta de carniça. Slônim. e. às vezes muito complexos. ao passo que o esmeri-lhão. das formas biológicas estáveis de sua existência). Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento. Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem. que refletem as formas de vida do animal.Os órgãos do sistema talâmico-estriado. Como mostraram as observações de diversos autores. asseguram formas de comportamento individual mais plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores. Assim. esses movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça). entre elas as do fisiologista soviético A. posteriormente. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar 52 . no cordeiro.

53 . já nos mamíferos superiores ele adquire importância de maior peso e os processos de comportamento. a raposa que se prepara para obter alimento-sofre inibição ao vê-lo e retém a saliva. que mostram que processos de percepção e que movimentos podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex. como mostram os dados que abaixo citamos. Sobre os órgãos que acabamos de descrever. que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência (ecologia) dos animais. Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral. começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do corpo. edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do sistema nervoso dos grandes hemisférios.ao ver uma ave. em outros termos. já não podem ser realizados com a destruição do córtex. o que é menos conhecido. que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das observações do pesquisador alemão Schafer. mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos de comportamento. realizado pelos órgãos das áreas mais elevadas do cérebro. No entanto. particularmente do novo córtex cerebral cujo peso. Se nos mamíferos inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído. Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural. baleia leão cão macaco homem 1/10.000 1/540 1/250 1/100 1/40 Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações. por mais insignificante que seja a sua complexidade.

depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios. mantendo os seus movimentos. pode manter-se em pé mas se desorganizam os seus movimen dos grandes hemisférios. A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental — o córtex cerebral — consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior. Tingue os formas e só reage à luz. depois da extirpação do O gato. depois da extirpação do A ave. a quarta destas 54 . O macaco. cuja massa é constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas.Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da evolução (segundo Schafer) Funções visuais Funções motoras A ave.recupera seus movimentos algumas horas depois. Continua a ver. não dis- férios. a pousar no luGar marcado O rato. córtex dos grandes hemisférios. O macaco fica cego após a extir. Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas complexas de comportamento animal. depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemis- córtex dos hemisférios. 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex dos pação das ares correspondentes grandes hemisférios. distribuídas em seis camadas principais. orientarse nas suas mudanças. após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios.continua a voar. pode manter-se em pé somente ajudado. tos independentes. A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais. correspondentes a essas mudanças.O cão. fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento individualmente variáveis.

tanto mais importante é o seu lugar no córtex cerebral. que asseguram a formação de novos programas de comportamento individualmente variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios.) ocupa um território imenso. O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas regiões estão ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato.é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos. O princípio ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervoso central se manifesta também aqui. audição e sensibilidade neuromuscular). o último grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios. que estabeleceu por um método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do porco é muito pequeno. dos sentidos e das superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que é para este o mais importante órgão do tato. ao passo que no homem as regiões olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas. ao passo que no cão (animal predominantemente olfativo) as áreas dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior. Deste modo. A quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e. do faro. desproporcional ao seu tamanho. visão. e quanto maior é a importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida do animal. finalmente. que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas ligações. no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo olfato) as regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios. a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do córtex ocupam posição de grande destaque. No macaco. incluindo aí as camadas restantes) . É uma peculiaridade que a projeção dos lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse animal — ocupa idêntica posição desproporcional nos grandes . etc. olfato. O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos órgãos do corpo. Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian.

55 .

É de interesse. Mecanismos do comportamento individualmente variável Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo qualquer. bem como em órgão fundamental de regulação do comportamento individualmente variável. As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores. Os mecanismos fisiológicos. que assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação recebida do meio exterior. por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que o ameaça. surgido no processo de evolução de uma espécie. mas enfatizou-se a atenção na maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de comportamento. então seria bem mais complexo o mecanismo do comportamento individualmente variável. Este se reduz a que. perigo) começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos programas de comportamento. entretanto. como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio. forma-se sob a ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que o converte em órgão principal. 56 . acionasse programas complexos de comportamento. gerados no processo da evolução. Tudo isso mostra que o córtex dos grandes hemisférios do cérebro. o estímulo que tenha sido de importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento. que se realiza através do córtex cerebral. que levam ao surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis. foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados. a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua formação. que se desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos vertebrados superiores.hemisférios desse mamífero.

considerando que as novas formas de comportamento. consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo. os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de "aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". Embora o método de estudo da aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao método dos "reflexos condicionados clássicos". aplicado por Pávlov. O animal dedvia mover um pedal ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido. noutros termos. encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo. A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos". Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto. era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. do caráter das tentativas que ele empreendia. que levam o animal a atingir o objetivo. O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os caminhos errados. Com essa finalidade colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática). Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le- . uma porta fechada a ferrolho). Uns explicavam esse processo a partir de posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike. O processo de aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento. em cujo extremo havia um estímulo (objetivo). condizentes com as novas condições.Para resolver tais problemas. sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov. aquele método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de novos atos adaptadores. que levam à solução das tarefas colocadas diante do animal. separando-o do estímulo (a comida) por um obstáculo (por exemplo. surgem no processo de testes e erros desordenados. Watson e muitos representantes do behaviorismo americano).

57 .

abandonando a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso". os programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise. Várias observações.vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a comida. Outro grupo d& autores mantinha outras posições. às vezes. analisa a situação. D. Tolman. realizadas por pesquisadores americanos. P. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo. que são posteriormente reforçadas. ao tentarem examinar as regras pelas quais se formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal. o fisiologista soviético V. restringem-se paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias reações motoras adequadas ao objetivo. escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. Essa situação da "tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal. Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação. dirigidas pelo objetivo. Posteriormente. reforçadores os bem-sucedidos. confirmaram o fato de que. o reforço pelo êxito desses movimentos casualmente surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos inadequados fossem extintos. 58 . Krech. Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à margem da análise o próprio processo de seu surgimento. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de um ativo desempenho de orientação.

dandose-lhes a possibilidade de se orientarem previamente nas condições do labirinto. situados na direção oposta ao esquema do movimento. o animal que ao menos uma vez tenha se orientado no labirinto. cria um sistema geral de direção no qual ele corre e entra nos becos sem saída do labirinto. por isto. os testes feitos pelo animal colocado em labirinto não são casuais. compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos animais. com muito mais freqüência do que nos becos sem saída do labirinto. Deste modo. passiva59 que permitiu enquanto ao outro animal movimentar-se animal observava . Esse experimento foi realizado pelo pesquisador americano Hald. situados na direção do caminho dado. aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto. pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter casual mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou como surgimento de uma "hipótese motora". que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo. que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos que adquirem "habilidade" no labirinto. Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos. Foi característico o fato de que a aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao animal orientar-se ativamente nas condições do labirinto. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" confirmam o fato de que as tentativas que o animal empreende no processo de aquisição de novos programas de comportamento não são casuais mas constituem o resultado da orientação ativa do animal nas condições do meio. via de regra vão sempre em direção ao objetivo. ativamente pela caixa problema. Nesses testes de "aprendizagem latente". Como mostrou o pesquisador americano Dashnul.Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) adquire a habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo. o segundo grupo de animais adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. com a rapidez dos animais do segundo grupo.

que se formam no animal no processo de •sua atividade orientada. esquemas dinâmicos complexos. em hipótese alguma. Como resultado dessa operação. antes. Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter. uma parte do labirinto foi excluída. não são. por cambaleios (i. Movendo-se. colocando-se em seu lugar uma bacia com água. Tudo isso mostra que os programas motores. o rato acabou se colocando no rumo certo e atingindo o objetivo. é confirmado.. que não é mera finalidade dos movimentos mecanicamente adquiridos. finalmente. mas com isto não perdeu a habilidade adquirida.mente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. que mostram que essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática. em cujo teste o rato adquiriu a habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto. que se orientara ativamente na situação. O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida. e. por uma série especial de testes. 60 •. por meio de movimentos inteiramente novos). Também neste caso o primeiro animal. o rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram. Neste caso o rato devia atravessar a bacia a nado. um fim mecânico dos reflexos. adquiridos em condições de tarefas especiais. porém. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação pela orientação prévia do animal nas condições do teste.. adquiriu a habilidade motora com rapidez bem maior do que o segundo. i. Depois que essa habilidade foi adquirida. são. destruiu-lhe em seguida o cerebelo. fazendo movimentos inteiramente novos. Após formar no rato a habilidade de encontrar os caminhos no labirinto. Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. e. J .

O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o caráter das novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas naturais de comportamento. os programas naturais de comportamento predominam e a aquisição de novas fomas de comportamento individualmente variáveis é um processo lento. limitado. no qual o mergulho e a perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de comportamento.Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre os vertebrados. que correspondem a uma situação variável. Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") com a aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo característica do comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução. que se erguem freqüentemente sobre as patas traseiras. nestes a atividade dirigida se processa na forma de buscas ativas.contrário com os carnívoros. a atividade dirigida tem caráter passivo. o leão-marinho. aprende com especial facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la. sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento. podem aprender facilmente a executar movimentos que imitam uma "lavagem de roupa". que em condições naturais são obrigados a procurar a comida. a ovelha. a caçar a presa (as aves de rapina. Deste modo. O guaxinim ou o urso. Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos movimentos ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do programa motor mas se forma no processo dos testes motores. a vaca). 61 . etc. que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida (com a ecologia) do animal. Nos herbívoros. a raposa). Ocorre o. principalmente nos animais que ingerem alimentação pronta (por exemplo a galinha. É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas congênitas ("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". deixando livres as dianteiras.

que. K.» — a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do objetivo. Anokhin). No processo dessa atividade começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa. que leva à formação do esquema de solução da tarefa. de controle dinâmico da ação é o elo mais importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual. Assim. Se a ação leva ao efeito necessário. que se encontram no topo da escada da evolução. distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los. surgem novas formas de comportamento individualmente variável. podemos denominar comportamento "intelectual". ela cessa. Nos vertebrados.. se não leva a esse efeito. com pleno fundamento. da qual fazem parte: — a atividade de procura c orientação. e. ao passo que os movimentos se tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa. nas etapas superiores da evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura desmembrada. Esse mecanismo de "aceptor da ação" (P.O comportamento "intelectual" dos animais A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite supremo da evolução do comportamento no mundo animal. cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos vertebrados. antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor- . o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. particularmente os primatas. — a comparação das ações executadas com a intenção inicial. i. Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter autoregu'ador. Dois fenômenos essenciais.

62 .

por exemplo). os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução. O animal se colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante. "extrapolando" esse movimento (ao que parece. que se encontram numa fase inferior de evolução. o cão). efetuadas nos últimos anos por Krushinsky. que "extrapola" o movimento observado e leva em conta o deslocamento. colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. que Krushinsky observou em vários testes. observam a presa e a perseguem (o corvo. especialmente aqueles que levam modo de vida carnívoro. Sabe-se que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas. O "reflexo extrapolativo". tornando a aparecer no final do tubo. observavam os movimentos do alimento e. Nas observações. que se tornam mais complexas. que tem a forma especial de comportamento "antecipante". representa uma das importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento individualmente variável nos vertebrados superiores. V. sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha. O segundo fato.tamento dos animais. considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles. O segundo é o fato das formas de desenvolvimento da memória dos animais. Ao contrário. O1 primeiro deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada. reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. O estimulante aparecia aos olhos do animal no furo do tubo e continuava em movimento. à qual o pesquisador soviético L. Foi esse reflexo. que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos vertebrados supe- . contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia. À vista do animal. Nesses testes. foi estabelecido que alguns animais mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. prendia-se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. Essas observações mostraram que os animais. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". orientando seu comportamento pelo movimento dos olhos).

63 .

ele o apanhava. Se o animal conservava o vestígio do primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e acadêmico soviético I. Konorsky. o animal não apresentava movimento dirigido. pelo psicólogo soviético N. Esse fato foi observado minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais.riores. Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto. substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. na qual se colocava o estimulante à vista do animal. Isto era indício de que o animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto. Voitonis e o fisiologista polonês Y. cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal. se o vestígio não se mantinha. não o fazendo se o vestígio desaparecia. Se o vestígio do estimulante colocado numa das caixas se mantinha. colocava-se o animal entre duas caixas. nas etapas superiores da evolução dos vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. S. Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos. Em testes mais complexos. o animal corria para essa caixa. A essência do teste consistia no seguinte: Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada. Y. Simultaneamente com a formação da percepção por imagem. 64 . Percorrido certo tempo. É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do meio exterior. Noutros testes. já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens dos objetos circundantes. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa. numa das quais colocava-se um estimulante aos olhos do animal. corria imediatamente para esta. Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais complexas de comportamento. sendo depois libertado. libertava-se o animal do cabresto. é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da memória nas fases subseqüentes da evolução dos animais.

A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . Diferentemente da 65 . colocava-se o macaco numa jaula fechada. Para estudar essa forma de comportamento. aumenta a duração da conservação das respectivas imagens.Os testes de "reações retardadas" mostram que. Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual" dos macacos. Colocava-se o macaco numa grande jaula. É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas "intelectuais" superiores de comportamento do animal. A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever. ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não permitia que a mão do macaco o alcançasse. nas fases posteriores da evolução dos vertebrados. Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas quais lhe era dado o objetivo. o macaco devia desistir das tentativas de obtenção imediata do objetivo. Para atingir o objetivo. no início da década de 20 do corrente século. usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto instrumentos especiais. usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula. Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " o macaco " " " até 10 minutos " " de 16 a 48 horas. pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos). O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo. desta feita com portas. O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou.

colocava-os um sobre o outro. já com ajuda desta. colocá-los uns sobre os outros e trepar. A princípio o macaco tentava sem êxito obter o estimulante por via direta. Com ela conseguia o alimento ou uma vara mais comprida. devia alcançar a vara mais próxima — a curta — e. imóvel. Para resolver a tarefa. O macaco se dirigia imediatamente à porta. contornando-a. o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo. o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior. que Kõhler descrevia como surgimento inesperado do insight. Todos esses testes apresentaram como característica o fato de que a solução da tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período da observação antecedente da tentativa. mas no campo de visão do macaco havia duas varas: uma curta. Mas na mesma área foram colocados caixotes. e os alimentos do macaco se tornavam ato executivo para a realização de um "plano de solução" anteriormente adquirido.primeira situação. olhava em torno. na terceira variante dos testes. A princípio. trepava. em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente a um braço estirado. As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro. neste caso a orientação na situação se transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o "campo visual" da percepção e se realizava por meio dos respectivos movimentos dos olhos. ao alcance do braço. porém. Em testes mais complexos. com o auxílio desta. 66 . e obtinha o alimento. situada mais adiante e. pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. um pouco adiante. até o macaco ficar exausto e abandoná-las. obtinha o estimulante ou desistia de suas tentativas e apanhava a vara. com a qual alcançava o alimento. no qual o animal permanecia sentado. Essas tentativas inúteis podiam durar muito. Depois disto vinha o momento decisivo. Em seguida vinha o segundo período. obter em seguida a vara comprida. situada na parede traseira da jaula e. e outra comprida. para alcançar o estimulante. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o objetivo. Finalmente. limitando-se a examinar a situação. obter o estimulante. arrastava imediatamente os caixotes. estirando-se ou saltando em sua direção. Por último. na última situação. o macaco abandonava todas as tentativas de alcançar a comida por via direta. o animal devia arrastá-los para perto deste.

acha possível aproximar essas formas de comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las por via antropomórfica como manifestações de "iluminação criativa". por exemplo. apenas a realização de estruturas "visuais" em movimentos reais. Se nos experimentos de Kõhler a descrição do comportamento dos macacos é definitiva. quando a vara e o alimento (uma fruta) ou mesmo as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas de tal modo que não caem apenas no campo de visão. O psicólogo austríaco K. ao examinar a situação. segundo Kõhler. A solução posterior da tarefa é.Foram justamente essas observações que deram a Kõhler fundamento para considerar o comportamento do macaco um exemplo de comportamento "intelectual". "aproxima" os objetos que dela fazem parte no "campo visual". que repetiu a pesquisa de Kõhler. . O próprio Kõhler expressa a hipótese de que. Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato de que. Kõhler tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos quais o macaco deve antes preparar o instrumento que usará posteriormente para conseguir o alimento. que viviam em árvores. a análise da situação se transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o macaco. o macaco deve enfiar uma vara de bambu em outra para. a explicação das vias pelas quais o animal chega à solução "intelectual" da tarefa apresenta complexidades consideráveis e diferentes pesquisadores dão a esse processo interpretação diversa. a tarefa se torna insolúvel para o macaco. Segundo Kõhler. alongan-do-a. fechando-os em certas "estruturas visuais". tinham de puxar os frutos para si junto com os ramos). essa incidência das duas varas num único campo de visão é o que pode levar à solução adequada da tarefa. Essas ações se tornam bem mais difíceis para o macaco e podem ser realizadas somente se as pontas de ambas as varas estiverem no campo de visão direto. no comportamento "intelectual" dos macacos. O conhecido psicólogo americano Yerkes. colher uma fruta. Bühler cita a experiência anterior do animal para explicar esse comportamento e considera que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto como resultado da transferência de uma experiência anterior (os macacos.

67 .

começam a executar formas mais complexas de atividade orientada. consiste em que esse comportamento é sempre determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ("pelo campo exterior") ou por vestígios da experiência anterior. livres da função de andar. Surge uma pergunta natural: quais são os seus traços característicos e quais os limites que o comportamento dos animais não pode ultrapassar? A análise do comportamento dos animais permite indicar três traços fundamentais. Todo comportamento animal tem por base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de alimento. a -que Pávlov chamava de reflexo orientador e que. outros (por exemplo. num processo de testes e erros. no macaco. que caracteriza o comportamento de todo animal. Só nas etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a necessidade de orientar-se no meio ambiente. Se uns pesquisada»» o opõem às formas mais elementares de comportamento " dualmente variável dos animais. que adquire caráter mais r. autoconservação ou necessidade sexual). não podendo 68 . -em decorrência do fato de que as mãos dos macacos.O problema dos mecanismos que servem de base ao surgimento de comportamento "intelectual" do macaco não poce ser considerado definitivamente resolvido. O segundo traço. . Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais Vimos que o comportamento adaptador individualmente variável dos vertebrados superiores pode adquirir formas muito complexas. que fez observações com o comportamento dos macacc"' possível não opô-lo às formas mais elementares de mento e consideram o comportamento "intelec cacos como uma espécie de "pensamento maniu. Nenhuma atividade desvinculada de todas essas necessidades biológicas é possível para o animal.. O primeiro é o fato de que todo comportamento individualmente variável (mesmo o mais complexo) do animal conserva sua ligação com os motivos biológicos e não pode ultrapassar-lhe os limites. atinge desenvolvimento considerável. razão por que o comportamento do animal pode ser considerado com todo fundamento como comportamento cortical-subcortical.

começouse (já sem que o animal o percebesse) a transferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte. mostra que o animal.ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito com eles. é "um escravo do seu campo visual" ou "escravo da sua experiência passada". A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para a caixa onde vira que havia sido posto o alimento. permitindo-se ao animal apanhá-lo. o alimento (também aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa. Podem ser fonte de comportamento do animal os programas alicerçados em sua experiência de espécie. segundo Kõhler. Nenhum animal pode assimilar o princípio do "deslocamento sucessivo" e nunca corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento mas onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio abstrato. de importância capital. O experimento de Buytendijk realizado com animais de diferentes grupos. O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese com uma pesquisa famosa. ou para a caixa onde antes se encontrava o alimento. noutros termos. e muito menos de transmitir a experiência formada em várias gerações. Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais poder-se-ia encontrar alimento. não se torna livre. e seu comportamento nunca se liberta dessas influências diretas. nos experimentos seguintes. No primeiro teste o alimento foi posto aos olhos do animal na primeira caixa. Depois. No segundo teste. O comportamento do animal é sempre dirigido pela experiência imediata ou pela experiência passada. e ele nunca pode impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se a lugar que não tinha sido memorizado. Os animais não têm nenhuma possibilidade de assimilação da experiência alheia e de um indivíduo transmiti-la assimilada a outro indivíduo. não se dirige pela abstração destas. em seguida para uma terceira. O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas limitações das fontes desse comportamento. Os . permitindo-se sempre ao animal correr livremente para a caixa onde ele supunha encontrar o alimento. que se transmitem em códigos hereditários ("comportamento instintivo") ou que se formam na experiência imediata de dado indivíduo (comportamento individualmente variável ou reflexivo- condicionado).

fenômenos que se descrevem como "imitação" ocupam lugar relativamente limitado na for69 .

que lembre o mínimo sequer a assimilação da experiência material ou intelectual das gerações passadas. assimilação essa que caracteriza a história social do homem. 70 . São esse três traços que constituem as peculiaridades fundamentais de todo comportamento e o distinguem radicalmente da atividade consciente do homem. sendo antes uma forma de transmissão prática direta da própria experiência que uma transmissão de informação acumulada na hitória de várias gerações.Mação do comportamento dos animais.

Via de regra. freqüentemente chamadas de "superiores" ou "intelectuais".III A Atividade Consciente do Homem e Suas Raízes HistórtcoSociais Princípios gerais 1 OR SUAS peculiaridades fundamentais. Além do mais. O primeiro desses traços consiste em que a atividade consciente do homem não está obrigatoriamente ligada a motivos biológicos. a atividade consciente do homem difere acentuadamente do comportamento individualmente variável dos animais. que incentivam o homem à aquisição de novos conheci71 . a atividade do homem é regida por complexas necessidades. opostos àqueles pelos quais acabamos de caracterizar o comportamento dos animais. As diferenças da atividade consciente do homem sintetizam-se em três traços fundamentais. Situam-se entre elas as necessidades cognitivas. a grande maioria dos nossos atos não se baseia em quaisquer inclinações ou necessidades biológicas.

ou por vestígios da experiência individual imediata. nesta. ainda entra em conflito com e . Encontramos freqüentemente situações nas quais a atividade consciente do homem. ao sair a passeio num claro dia de outono. de ocupar. razão por que há todo fundamento para afirmar-se que c comportamento humano. determinada posição. Por último. . que se baseiam em motivos não-biológicos. Entre os animais não há semelhantes formas de comportamento "desinteressado". A atividade consciente do homem não pode tomar come orientação a impressão imediata da situação exterior e sim um conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação. além de não se sujeitar às influencias e necessidades biológicas. recebidas do meio. conhecer a dependência causai dos acontecimentos e. movido por elevados motivos de patriotismo. é livre. o homem nunca irá bebê-la. São amplamente conhecidas casos de heroísmo em que o homem. O segundo traço característico da atividade consciente do homem consiste em que. há o terceiro traço característico. penetrar nas conexões e dependências profundas das coisas. e chega inclusive a reprimi-las. a necessidade de útil à sociedade. após interpretá-los. c homem pode levar guardachuva. à diferença do comportamento do animal. tomar come orientação não impressões exteriores porém leis mais profundas. ela não é forçosamente determinada por impressões evidentes. seu comportamento não é orientado pela impressão imediata da água que o atrai mas por um conhecimento mais profundo que ele tem da situação.mentos. Ele pode abstrair a impressão imediata. Sabendo que a água do poço está envenenada. esses casos são apenas exemplos da independência do comportamento do homem em relação aos motivos biológicos. neste caso. Assim. baseado no reconhecimento da necessidade. Aqui ele obedece a um profundo conhecimento das leis da natureza e não à impressão imediata de um tempo de sol e céu claro. mesmo que esteja cor muita sede. a necessidade de comunicação. pois sabe que o tempo i instável no outono. cobre com seu corpo bocas de fogo ou se lança à morte sob tanques. Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio de modo imediatamente mais profundo do que o animal. que difere a atividade consciente .

do homem do comportamento do animal.
72

Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas fontes ■— 1)
os programas hereditários de comportamento, jacentes no genótipo e 2) os
resultados da experiência individual —, a atividade consciente do homem
possui ainda uma terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e
habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de
toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível
no processo de aprendizagem.
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu comportamento sob a
influência das coisas que se formaram na história: senta-se à mesa, come com
colher, bebe em xícara e mais tarde corta o pão com a faca. Ele assimila
aquelas habilidades que foram criadas pela história social ao longo de milênios.
Por meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos mais elementares e
posteriormente, por meio da linguagem, ele assimila na escola as mais
importantes aquisições da humanidade. A grande maioria de conhecimentos,
habilidades e procedimentos do comportamento de que dispõe o homem não
são o resultado de sua experiência própria mas adquiridos pela assimilação da
experiência histórico-social de gerações. Este traço diferencia radicalmente a
atividade consciente do homem do comportamento do animal.
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a Psicologia: como
explicar os traços da atividade consciente do homem que acabamos de
numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir duas vias inteiramente
diferentes de solução dessa questão.
Uma delas, típica da filosofia idealista, partia das posições do dualismo A tese
básica dessa corrente reduzia-se não só ao reconhecimento de acentuadas
diferenças de princípio entre o comportamento do animal e a consciência do
homem, como também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que a
consciência do homem deve ser considerada como manifes: tação de um
princípio espiritual especial de que carece o animal
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma máquina complexa,
cujo comportamento obedece as leis da mecânica, e o homem como dotado do
princípio espiritual com livre-arbítrio partiu de Descartes, tendo sido repetida
posteriormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. É fácil
perceber que, apontando a diferença de princípio entre o comportamento do

animal e a atividade consciente do homem,
73

inerente apenas ao homem. É sabido que toda a atividade psíquica dos animais.essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos fatos. os animais já têm todas as formas de atividade racional inerente ao homem e que. na forma embrionária. que cria a base para a orientação no meio ambiente. A Psicologia científica. devem ser procuradas na forma histórico-social de atividade. O enfoque naturalista. que em várias de suas obras tentou mostrar que. bem como a falta de vontade de reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem continuaram a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. A segunda via de solução do problema da originalidade da atividade consciente caracteriza o positivismo evolucionista. O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam a atividade consciente do homem do comportamento dos animais e nas quais devemos procurar as condições que formam essa atividade consciente? As peculiaridades da forma superior de vida. O primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin. Segundo essa teoria. o enfoque antropomórfico da "razão" e das "vivências" dos animais. Ficava sem solução o problema da origem das peculiaridades da atividade consciente do homem. desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às concepções dualistas pré-científicas. No entanto as afirmações de que os animais têm em embrião todas as formas da vida consciente do homem. com o emprego de instrumentos de trabalho e com o surgimento da linguagem. já se podendo observar nos animais todos os fundamentos da consciência humana. não há limites precisos e basilares entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem. a atividade consciente do homem é resultado direto da evolução do mundo animal. focaliza de posições inteiramente diferentes o problema da origem da atividade consciente do homem. que parte dos princípios do marxismo. Essas formas de vida não existem nos animais. forma-se nas condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de animais. que está relacionada com o trabalho social. que tentava estudar uma linha única de desenvolvimento da consciência dos animais ao homem. que foram ressaltadas acima. e a transição da história natural do animal à história social da .

74 .

surge uma terceira fonte formadora da atividade: a transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade. O trabalho e a formação da atividade consciente A ciência histórica destaca dois fatores. Os remanescentes desses instrumentos. concomitantes com o comportamento que depende da percepção imediata do meio. a flecha) preparados especialmente pelo homem. surgem os motivos superiores ("intelectuais") e necessidades. na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina. que pertencem à época mais antiga da história da humanidade. o surgimento da linguagem. Junto com os motivos biológicos do comportamento. Sabe-se que. mude radicalmente a estrutura do comportamento. Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da "alma" nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais de vida historicamente formadas. e. Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores na mudança radical das formas de atividade psíquica e no surgimento da consciência. Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da complexa atividade consciente do homem. à diferença do animal. São justamente essas condições que fazem com que. juntamente com as duas fontes do comportamento — os programas de comportamento consolidados por via hereditária e a influência da experiência passada do próprio indivíduo —. o outro. com a transição para a história social. que servem de fonte à transição da história natural dos animais à história social do homem.humanidade deve ser considerada um importante passo assim como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida vegetal à animal. se as lascas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primitivos. Nesses instrumentos podemos distinguir tanto o gume. Surgem formas superiores de comportamento. mostram que. baseadas na abstração das influências imediatas do meio. Um desses fatores é o trabalho social e o emprego dos instrumentos de trabalho. o homem tanto emprega os instrumentos de trabalho como prepara esses instrumentos. com o qual o homem 75 .

não dirigidas imediatamente por motivos biológicos. Por si só a atividade de elaboração da pedra carece de sentido e não tem qualquer justificativa em termos biológicos. que surge no processo de preparação do instrumento de trabalho. que adquire seu sentido posteriormente. no homem que preparava seus instrumentos de trabalho.(preparação do instrumento) será empregado para matar a vítima e deste modo satisfazer a necessidade de alimento. que ficava em casa enquanto o homem ia à caça. o comportamento adquiria caráter de estrutura complexa. A mudança mais importante da estrutura geral do comportamento — surgida no processo de transição da história natural do animal à história social do homem — dá-se quando. O trabalho desenvolvido na preparação dos instrumentos já não é uma simples atividade. primeira forma de atividade consciente. noutros termos. juntamente com o conhecimento da operação a ser executada. cabia aos preferidos do grupo primitivo ou à mulher. que. ou seja. a parte arredondada. É natural que arma dessa natureza exige preparo especial. O comportamento do animal fora sempre voltado imediatamente para a satisfação de urna necessidade. . separa-se uma ação especial. É esta a condição fundamental. Diferentemente disto. exige. essas ações. distinguindo-a do comportamento do animal. da atividade geral. como a "lombada". determinada por motivo biológico imediato (a necessidade de alimento) . que servia para manter-se comodamente na mão. e pode ser chamada de primeiro surgimento da consciência. da atividade. voltada para a satisfação imediata de uma necessidade. na medida em que se tornam mais complexas a sociedade e as formas de produção. A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia também a divisão natural do trabalho) por si só já mudava radicalmente a atividade do homem primitivo. o conhecimento do futuro emprego do instrumento. quando o produto dessa ação . separa-se uma "ação" que não é dirigida imediatamente por motivo biológico e só adquire sentido com o emprego posterior dos seus resultados. Percebe-se facilmente que. pelo visto. ela adquire sentido somente a partir do uso posterior do instrumento preparado na caça.primitivo podia esfolar o animal morto ou cortar pedaços de árvore. Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho leva a uma mudança radical de toda a estrutura do comportamento .

76 .

que é o que representa uma nova estrutura de atividade consciente do homem. Deste modo.começam a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade consciente do homem. Torna-se claro que a atividade consciente do homem não é produto do desenvolvimento natural de propriedades jacentes no organismo mas o resultado de novas formas histórico-sociais de atividade-trabalho. Contudo. que não são diretamente dirigidas por motivos biológicos. A linguagem e a consciência do homem O surgimento da linguagem é a segunda condição que leva à formação da atividade consciente de estrutura complexa do homem. por outras palavras. por exemplo. exige a separação de várias operações auxiliares. que se separa da atividade geral. podendo inclusive opor-se algumas vezes a eles. mas é dirigida pelo objetivo consciente. 77 . a caça na sociedade primitiva. Assim é. a complicação da estrutura da atividade durante a transição à história social do homem não se limita à mudança que acabamos de mencionar. a separação entre a atividade biológica geral. durante a qual um grupo de caçadores "assusta" e afugenta a caça que deve ser apanhada. A separação dessas "operações" é o que constitui a sucessiva complicação da estrutura da atividade. A complexa organização de "ações" conscientes. enquanto outro grupo arma emboscada para ela. leva ao surgimento de formas de comportamento. que adquire sentido apenas na comparação dessas ações com o resultado final. aqui poderia parecer que as ações do primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar a caça e só adquirem sentido a partir das ações do segundo grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores. O surgimento de várias "operações" auxiliares por meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a mudança radical do comportamento. e as "ações" especiais não é determinada imediatamente por motivo biológico. friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo). A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma série de procedimentos e modos (desbastar uma pedra com outra.

enquanto "dorme". agressão. "sob". não é linguagem na verdadeira acepção da palavra. etc. Numa manada de macacos podemos observar todo um conjunto de sons. "origem divina". portanto. O problema do surgimento da linguagem humana é o objeto de inúmeras hipóteses e teorias. . unidas em frases. a palavra "cadeira" designa um tipo de móvel que serve de assento. Assim. É natural que as palavras. não distingue ações nem qualidades. que são percebidos por outros animais e podem exercer influência substancial sobre o comportamento destes. Essas teorias são muito vagas e omitem o fato de que a linguagem é uma especial "forma simbólica de existência". ao sentir o perigo. Esses "segredos" são transmitidos a outros indivíduos e podem orientar de modos diferentes o comportamento das abelhas. qualidades. Outras teorias. O guia de um bando de cegonhas. seguindo as tradições do positivismo naturalista. Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente no processo de transição à sociedade humana. "juntamente". medo ao perigo. etc. são os principais meios de comunicação mediante os quais o homem conserva e transmite informação e assimila a experiência acumulada por gerações inteiras de outras pessoas. "plano" designam qualidades dos objetos e as palavras auxiliares "sobre". "corre" designam ações. a palavra "pão" designa um objeto comestível. abelhas. suas ações. que expressa satisfação.Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos por meio dos quais são designados os objetos do mundo exterior. Algumas delas consideram a linguagem manifestação do campo espiritual. "ácido". de acordo com a Bíblia. Podemos observar um sistema muito complexo de movimentos expressivos nas chamadas "danças" das. relações entre eles. na linguagem. que mudam de caráter dependendo de ter a abelha regressado do vôo com boa prenda e modificam-se dependendo da direção e da distância do caminho percorrido. Mas a "linguagem" dos animais nunca designa coisas. tentam. "em conseqüência" designam relações diferentes por complexidade entre os objetos. O animal possui meios muito variados de expressão de seus estados. que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer manifestação do mundo material. solta gritos alarmantes aos quais o bando reage vivamente. atribuindo-lhe.

inutilmente. ver a linguagem como resultado da evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais 78 .

área da ciência. denominada "paleontologia da fala". estes. que começavam a indicar determinados objetos. eram "palavras" capazes de designar com independência os objetos. eram acompanhados de gestos e entonações expressivas. Há muitos fundamentos para se pensar que o surgimento da linguagem teve seus primórdios nas formas de comunicação contraídas pelos homens no processo de trabalho. ao contrário. A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosamente no homem a necessidade de transmitir a outros certa informação. Segundo as teorias originárias da segunda metade do século XIX. nesse complexo de meios de expressão parece que.da evolução da linguagem os fenômenos de "comunicação" entre os animais que descrevemos. que propiciaram a base para uma evolução paulatina de uma linguagem de . Os sons. constituíam os fundamentos de uma original linguagem ativa ou "linear" e só bem mais tarde o papel determinante passou a ser desempenhado pelos sons. suas qualidades. restando para a. Entretanto seria incorreto pensar que os sons. ainda não tinham existência autônoma. coube posição determinante aos atos e gestos. esta não pode ficar restrita à expressão de estados subjetivos (vivências). apenas o caminho das hipóteses que se confirmam por via indireta. designar os objetos (coisas ou instrumento) que fazem parte da atividade do trabalho conjunto. concluindo que as condições que originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações sociais do trabalho cujos primórdios de surgimento remontam ao período de tratisição da história natural à história humana. a princípio. razão por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo a situação evidente em que eles surgiam. A ciência não dispõe de métodos que permitam observar imediatamente as condições que originaram a linguagem. os primeiros sons que designam objetos surgiram no processo do trabalho conjunto. que assumiram paulatinamente a função de transmitir certa informação. Estavam entrelaçados na atividade prática. Mas a solução científica do problema da origem da linguagem só se tornou possível quando a filosofia e a ciência abandonaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no âmago do organismo e de deduzi-la diretamente das peculiaridades do "espírito" ou do cérebro. Além do mais. ação ou relações. devendo. segundo muitos autores.

sons independente. Durante muito tempo. essa linguagem manteve a mais estreita ligação com o gesto e o ato e por isto o mesmo complexo de sons (ou "protovocábulo") podia desig79 . porém.

que durante um longo período histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma que distingue as línguas atuais. Essa possibilidade de assegurar o processo de abstração e generalização representa a segunda contribuição importantíssima da linguagem para a formação da consciência. O surgimento da linguagem imprime ao menos três mudanças essenciais à atividade consciente do homem. O segundo papel essencial da linguagem na formação da consciência consiste em que as palavras de uma língua não apenas indicam determinadas coisas como abstraem as propriedades essenciais destas. Ê a essa época que pertence o surgimento das primeiras palavras autônomas. relacionam as coisas perceptíveis a determinadas categorias. A primeira dessas mudanças consiste em que. . dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. a linguagem é o fator fundamental de formação da consciência. Por isto podemos dizer que a linguagem duplica o mundo perceptível. Surgiu a língua como um sistema de códigos independentes. a própria mão c a ação produzida com esse objeto. a linguagem permite discriminar esses objetos. Enquanto sistema de códigos que designam os objetos. Resulta daí que o homem está em condições de lidar com os objetos do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. Percebe-se facilmente que importância tem o surgimento desse mundo "interior" de imagens. a linguagem teve importância decisiva para a posterior reorganização da atividade consciente do homem. a par com o trabalho. que surge como base na linguagem e pode ser usado pelo homem em sua atividade. designando os objetos e eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou combinações de palavras. que designavam objetos e bem mais tarde passaram a servir para distinguir as ações e as qualidades dos objetos. qualidades ou relações e serve de meio de transmissão de informação. Só depois de muitos milênios a linguagem dos sons começou a separar-se da ação prática e a adquirir independência. suas ações. Por isto têm razão os cientistas que afirmam que. permite conservar a informação recebida do mundo exterior e cria um mundo de imagens interiores.nar o objeto para o qual a mão apontava. É bastante a pronúncia interna ou externa de uma palavra para o surgimento da imagem do objeto correspondente e o homem pôr-se em condições de operar com essa imagem.

8X> A palavra "relógio" indica que esse .Por exemplo. as palavras "relógio" e "mesa" designam não apenas certos objetos.

Ao transmitir a informação mais complexa. a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho de análise e classificação dos objetos. Isto dá à linguagem a possibilidade de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o veículo mais importante do pensamento.objeto serve para marcar as horas (do latim horologio). A linguagem é o veículo fundamental de transmissão de informação. que assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo. aproximam-se das duas fontes (os programas de comportamento transmissíveis por hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da experiência de dado indivíduo) que se verificavam nos animais. Deste modo. ou seja. A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos A importância da linguagem para a formação da consciência consiste em que ela efetivamente penetra em todos os 81 . . O que acaba de ser dito dá fundamento para designar a terceira função essencial da linguagem na formação da consciência. . no estágio do homem. Isto significa que com o surgimento da linguagem surge no homem um tipo inteiramente novo de desenvolvimento psíquico desconhecido dos animais. as palavras "relógio" e "mesa" designam todas as modalidades desses objetos. a linguagem permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela dominar um ciclo imensurável de conhecimentos. produzida ao longo de muitos séculos de prática histórico-social. que em hipótese alguma poderiam ser resultado da atividade independente de um indivíduo isolado. ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos psíquicos que. Além do mais. a palavra "mesa" indica que esse objeto serve para ser coberto (do latim mensa). que se formou no longo processo da história social. e que a linguagem é realmente o meio mais importante de desenvolvimento da consciência. independentemente de sua forma exterior ou do tamanho. Isto significa que a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios do objeto e generaliza objetos diferentes pelo aspecto exterior mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente ao homem a experiência das gerações e serve de meio de representação do mundo mais poderoso que a simples percepção. que se formou na história social da humanidade. habilidades e modos de comportamento.

É justamente por isto que o papel da linguagem ou "segundo sistema de sinais da realidade". Quando posteriormente a própria criança assimila o discurso (a princípio exterior. matizes de cores. Quando a mãe diz ao filho "isto é uma xícara". A linguagem muda essencialmente os processos de atenção do homem. formas e matizes. É sabido que existe no mundo um número imenso de objetos.campos da atividade consciente do homem. depois interior). ela está distinguindo esse objeto de todos os demais e dirigindo para ele a atenção da criança. nós realmente selecionamos os traços essenciais e generalizamos os objetos. que servem de reforço . a novidade ou valor biológico do objeto que dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do animal. como a denominou Pávlov. Por isto a análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão da informação que emprega meios de linguagem) não pode ser vista apenas como capítulo especial da Psicologia mas deve ser considerada também como jatos de construção de todo o conjunto da vida consciente do homem. "círculo". tornando-se sua atenção dirigível. "amarelo"). relacionada com a discriminação dos indícios essenciais do objeto. formas e cores perceptíveis em determinados grupos ou categorias. Isto dá à percepção humana traços que a distinguem radicalmente da percepção do animal. quando relacionamos o objeto. matiz com alguma palavra ("mesa". deve ser enfocado como parte conclusiva da introdução evolucionista à Psicologia. É sabido que a memória do animal depende consideravelmente da orientação no meio ambiente e dos motivos biológicos. as qualidades ou ações. com o surgimento da linguagem e baseado nela o homem se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção. arbitrária. Isto leva a que. "triângulo" ou "vermelho". era determinada pela força. A linguagem muda essencialmente também os processos da memória do homem. generalizada e permanente. A percepção humana se torna mais profunda. Se a atenção do animal tinha caráter imediato. eleva a um novo nível o desenrolar dos seus processos psíquicos. formas. "relógio". a forma ou. A linguagem reorganiza substancialmente os processos de percepção do mundo exterior e cria novas leis dessa percepção. acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos nomeados. mas é muito limitado o número de palavras que designam esses objetos.

No nível humano e apoiada nos processos 82 .daquilo que é lembrado com êxito.

no processo de memorização. não se pode omitir a última tese. formem-se no homem vivências e demorados estadosde-espirito que vão muito além dos limites das reações afetivas imediatas e são inseparáveis do seu pensamento. Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expressas. a possibilidade de uma formação generalizada do caráter e do nível dos seus acertos leva a que. na qual o homem coloca fins especiais de lembrar. o surgimento dessas formas representa uma das aquisições mais importantes da humanidade e garante a transição do "sensorial ao racional". aquilo que em dada etapa se lhe afigura mais importante. Não são menos importantes as mudanças introduzidas na reorganização da vivência emocional pelo surgimento da linguagem. a avaliação das correlações das ações realmente exeqüíveis com as intenções iniciais. . cuja importância é especialmente grande. a linguagem se torna pela primeira vez atividade mnemônica consciente.do discurso. selecionando nele. É dispensável dizer que só com base na linguagem e com sua participação imediata constituem-se as complexas formas de pensamento abstrato e generalizado. organiza o material a ser lembrado e acha-se em condições não só de ampliar de modo imensurável o volume de informação que se mantém na memória como ainda de voltar-se arbitrariamente para o passado. que se processa com a participação imediata da linguagem. considerada pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela importância é igual à transição da matéria inanimada para a animada ou da vida vegetal para a animal. paralelamente às categorias afetivas. A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela primeira vez da experiência imediata e assegura o surgimento da ■imaginação. que ocorrem com a participação dominante dos sistemas sub-corticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou fracasso de sua atividade e conservam plenamente sua ligação com as necessidades biológicas. O mundo emocional do homem não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos motivos biológicos. processo que não existe no animal e serve de base à criação orientada e dirigida cujo estudo constitui área especial da Psicologia. que eleva a um novo nível os processos psíquicos. Por último.

É sabido que as novas formas de comportamento individualmente variável do animal são adquiridas com base em sia orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de 83 .

A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente. Essa ligação é adquirida paulatinamente. a repetição multiplicada da coincidência dos sinais condicionais com o reforço incondicionado. das leis que servem de base ao seu desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados patológicos fundamentais da Psicologia^ 84 constitui uma das tarefas . dos meios de sua direção. na norma. nenhuma dificuldade. levantar o braço (ou girar a chave). Não encontramos nada semelhante na formação de novas modalidades de comportamento consciente do homem. basta sugerir ao sujeito uma nova instrução. nada fazendo ao sinal vermelho. que se estabelece de acordo com uma regra formulada no discurso. e. A nova forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da formulação discursiva de uma regra. a "conversão" dessa ação numa nova não apresenta. que o homem estabelece com o auxílio da linguagem. que agora ele deve fazer o contrário: em resposta âo sinal azul. por exemplo. mostra-se imediatamente sólida. estudadas minuciosamente pela escola de Pávlov. para que a relação anteriormente criada seja imediatamente substituída por uma contrária. essa ação. dispensa repetição permanente da instrução e não se extingue se essa instrução não se repete. Sua formação dispensa elaboração longa e se estabelece de imediato. começa a extinguirse tão logo desaparece o reforço e se reorganiza com relativa dificuldade num novo sistema de ligações. Por último. que distingue acentuadamente o seu comportamento do comportamento do animal. dispensa qualquer reforço "incondicional" (ou biológico) . dizendo-lhe. É fato bem conhecido que a aquisição de novas formas de comportamento exige um reforço relativamente longo da resposta ao sinal condicional. Basta instruir o homem no sentido de erguer o braço ou girar a chave em resposta a um sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um azul para surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. O advento de qualquer ação. Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter dirifgível dos processos de atividade consciente do homem. executável com base em instrução discursiva.formas estáveis de semelhante comportamento se baseia nas leis dos reflexos condicionados.

Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia a ela relacionada a concepção segundo a qual os processos psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou 85 . devemos conhecer acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos principal da atividade psíquica — o cérebro humano — e as relações dos processos psíquicos com ele. O caráter da solução desse problema dependia muito da maneira como se interpretavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam os seus fundamentos cerebrais.IV O Cérebro e os Processos Psíquicos 1 ARA ENTENDER melhor a estrutura dos processos psíquicos do homem e das leis que os regem. O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro enquanto substrato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em períodos diversos de evolução da ciência.

e no ventrículo posterior a "faculdade da memória". que levava à formação de protuberâncias no crânio. a "honestidade"."faculdades" irredutíveis a quaisquer componentes mais elementares . a "faculdade do raciocínio". Essa hipótese acabou servindo de base a um campo especial da "ciência" — a "frenologia" —. no ventrículo médio. aventavam a hipótese de que elas estavam localizadas no líquido que preenche três "ventrículos cerebrais". que. com base no estudo das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas às capacidades individuais do homem. indicava uma evolução especial dessa "faculdade". Apesar de a "frenologia" de Gall ter sido considerada fantástica e sem fundamento científico ainda com seu criador vivo. que procuravam a base material dessas faculdades. que crescem muito com o desenvolvimento dessas "faculdades". e consideravam que no ventrículo anterior estava situada a "faculdade da percepção ou imaginação". Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro e considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área cerebral. pertenciam "faculdades" como a "parcimônia". A primeira tentativa de semelhante "localização das faculdades psíquicas" foi empreendida no começo do século XIX por F. Os pensadores. A idéia de que os processos psíquicos. Ele apresentou a hipótese de que o substrato de diversas "faculdades" psíquicas é constituído por pequenas áreas do tecido nervoso do córtex cerebral. a faculdade do raciocínio e a faculdade da memória. segundo Gall. sobretudo no córtex. podiam estar imediatamente "localizados" em determinadas formações cerebrais. o "respeito aos pais" e o "amor às crianças"). Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-se distinguir ao menos três "faculdades" básicas: a faculdade da percepção ou imaginação. que são a seguir "faculdades" indivisíveis. manteve-se durante muitos séculos e continuou basicamente imutável inclusive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato do psiquismo o líquido que preenche os "ventrículos cerebrais" e chegaram à opinião de que o fundamento da atividade psíquica devia ser procurado na substância sólida do cérebro. J. Após distinguir um grande número dessas "faculdades" congênitas (às quais. Gall. segundo ele. a idéia da "localização" direta de certas funções psíqui- .

86 .

Por isto os cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mudanças nos processos psíquicos.cas do córtex cerebral continuou em evidência. "centros do cálculo". Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-lução frontal do hemisfério esquerdo leva à perturbação da fala articulada. etc. Apesar de que em seu tempo eram progressistas às tentativas de "localização" direta das complexas "funções" psíquicas nas áreas limitadas do córtex cerebral. levantaram-se dúvidas legítimas de que processos complexos como a fala. que ocorrem nos casos de afecções limitadas (locais) do cérebro. no qual até as "funções" psíquicas mais complexas coincidiram com as áreas limitadas do córtex cerebral. elas logo mostraram sua inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos. O psiquiatra alemão K. o estudo das observações clínicas mostrou que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a queda de "funções psíquicas" perfeitamente determinadas. leitura e o a . a escrita. A partir da década de 70 do século passado. Wernicke (1873) descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-volução temporal superior do hemisfério esquerdo mantém intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das palavras. Essas descobertas deram aos pesquisadores fundamentos para distinguir. ele lançou a tese de que essa região do córtex é o "centro da palavra sensória". Por um lado. Kleist (1934). Essas tentativas foram reunidas num sistema pelo psiquiatra alemão K. colocouas num "mapa sinótico localizado". que. as áreas que passaram a ser consideradas "centros da escrita". pois tais tentativas refletiam o esforço de fazer um enfoque materialista dos processos psíquicos e seu substrato cerebral. "centro dos conceitos". Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as contradições do material factual em relação a essas considerações. Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas em áreas limitadas do cérebro inspiravam os estudiosos (psiquiatras e neurologistas). continuarem por muito tempo a fazer tentativas de "localização" direta das funções psíquicas em áreas isoladas do córtex cerebral. com base em observações feitas em cérebros de feridos durante a I Guerra Mundial. o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou a hipótese segundo a qual estão "localizadas" nessa região as imagens motoras da palavra. no córtex cerebral.

87 .

Assim. podendo-se procurar sua "localização" em áreas limitadas do córtex cerebral. Por outro lado. já sem falar da atividade intelectual. S. Goldstein. à perturbação de todo um grupo de processos psíquicos. a afecção do lobo temporal esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala. Essa idéia. No entanto ela não tardou a mostrar sua inconsistência. são amiúde tão especializados que dentre eles podemos distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou a .cálculo. C. fato que por si só já contrariava a idéia da estreita "localização" das funções psíquicas nas áreas isoladas do córtex. distúrbios na escrita. via de regra. a leitura e o cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente diferentes pela posição. a escrita. Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é um aparelho bastante diversificado. que levou ao surgimento de uma corrente científica conhecida como "antilocalizacionismo". que à primeira vista parecem inteiramente diferentes. Isto gerou uma crise das concepções anteriores da "localização" direta dos processos psíquicos nas áreas limitadas do córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes grandes psicólogos como K. era uma reação legítima às concepções simplistas do "localizacibnismo estreito". a análise minuciosa dos fatos das observações clínicas mostrou que a atribuição direta dos complexos processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece de fundamento. Verificou-se que perturbações de processos psíquicos tão complexos como a fala. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que os processos psíquicos são função de todo o cérebro e não podem ser "localizados" nas áreas limitadas do córtex cerebral. etc. impossibilidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais e vários outros distúrbios congêneres da atividade intelectual. enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orientação no espaço. Lashley e neurologistas como K. que áreas corticais distintas apresentam estrutura diferente e que os neurônios. dificuldades de percepção da luz. Observou-se que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral leva. integrantes do córtex cerebral. podiam ser entendidos como simples "faculdades" congênitas. dificuldades de encontrar palavras.

às linhas retas e curvas ou somente às linhas quebradas. etc).indícios muito especiais (por exemplo. Essas 88 . só reagem aos movimentos do centro à periferia ou da periferia ao centro.

função da locomoção. podem substituir mutuamente uns aos outros. o sistema funcional representa um complexo todo dinâmico. no qual o objetivo final permanente ("invariante") é realizado pelo sistema mutável ("variante") de suas partes componentes. Mas o conceito de "função" tem um outro significado mais amplo. tornaram muito pouco prováveis as hipóteses da homogeneidade de toda a massa cerebral c as afirmações segundo as quais o cérebro sempre funciona como um todo único. Neste sentido falase de função da respiração. que participam do ato de respiração. a função do alvéolo pulmonar. a função se constitui^ numa complexa atividade. essa falha é compensada pelo trabalho reforçado de outro grupo de músculos (os músculos intercostais). É característico que os músculos. e se de um sistema funcional extingue-se a participação de um grupo de músculos (os músculos do diafragma. Sabese que a função do fígado é a regulação da troca de hidrato de carbono. K. por exemplo). a "função da respiração" é exercida pelo trabalho conjunto de todo um grupo de músculos e alvéolos pulmonares. entende-se por "função" a direção de determinado tecido. A saída para essa crise estava relacionada com a revisão radical do conceito de "funções psíquicas" e com a mudança radical dos principais enfoques dos princípios da "localização" cerebral dessas "funções". Ano-khin) em seus próprios papéis. 89 . função da digestão.linhas. difusão do oxigênio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue. O conceito de "função" tem em biologia dois significados inteiramente diversos. exercida pelo trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos. cada um dos quais integra esse "sistema funcional" (termo de P. Ele pode designar a atividade de adaptação de todo um organismo. realizadas em certos neurônios. assegurando esse ou aquele aspecto desse sistema funcional. Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da organização funcional do cérebro e na doutrina da "localização" dos processos psíquicos no córtex cerebral. Strtctu sensu. Compreende-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo. Deste modo. a função do pâncreas é a segregação de insulina. parte das quais é o resultado de descobertas obtidas ultimamente como decorrência de pesquisas fisiológicas. Assim.

Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas. bem como da "função do movimento" (ou locomoção). etc. Pávlov. a escrita e o cálculo. Sem essa sinalização permanente da posição do extremo que se move. na qual o objetivo final (deslocamento de um lugar para outro. P. Pávlov já indicara que "se antes o centro respiratório era concebido como um ponto do tamanho da cabeça de um alfinete no bulbo raquidiano. 127).O mesmo podemos dizer da "função da digestão". É natural que um sistema funcional tão complexo não pode ser "localizado" em determinada área limitada do sistema nervoso. . a batida do martelo. até "funções" relativamente simples como o movimento arbitrário. Se tão amplo significado do conceito de "função" se refere a um grande número de atos biológicos de adaptação. é com maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas "funções psicológicas". até para se darem dois 90 . nenhum movimento organizado é possível. . p. subiu para o cérebro e desceu para a medula espinhal e hoje ninguém indicará com precisão a sua fronteira" (I. . etc. A execução de um movimento exige a mudança harmoniosa dos seus elementos. da consolidação da habilidade. t. Para executar o movimento mais simples (por exemplo. III.) é realizado por um complexo sistema de músculos cuja interrelação varia com a mudança da posição do corpo. Para a sua execução é necessário um reflexo preciso das coordenadas espaciais exteriores em cujos limites executa-se o movimento. acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar uma martelada) é necessário antes de tudo manter uma profunda sensibilidade proprioceptiva do braço que se move dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das distensões dos músculos em funcionamento. já sem falar de funções como a fala. a marcha. o acerto no alvo. o movimento perde sua precisão e se torna impossível. o acerto em dado alvo. garantindo a necessária correção da direção. Obras completas. que representa o mais complexo sistema funcional de órgãos digestivos que funcionam em conjunto. dependendo da tensão. têm estrutura sumamente complexa. compreendendo em sua composição um número considerável de elos CQmponentes. agora ele está extremamente espalhado.

noutros termos. Por último. nos quais um elo deve incorporar-se harmoniosamente ao seguinte. decompondo fluxo permanente de sons nas unidades sonoras componentes da língua — os "fonemas" (que em cada língua podem ter caráter diverso). Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi construído o ato da escrita e mostremos que elos complexos integram esse sistema funcional. É ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade psíquica como a fala. Somente depois desse trabalho prévio a composição sonora da palavra se considera definida e a palavra pronta para o registro. a leitura ou o cálculo. Para executar essa ação é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de "grafemas" ou letras como manter a correta disposição destes no espaço. transferindo os impulsos para outro sistema de músculos. O cumprimento dessa condição exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes. que inclui em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-riais (aferentes) como motores. Amiúde a separação desses fonemas se faz não só "de ouvido" mas com a participação imediata da articulação. sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível. uma carta. desenervar o primeiro e passar harmoniosamente ao elo seguinte do ato motor. por meio da qual é como se nós "sondássemos" os sons e os distinguíssemos de outros próximos. expor 91 . formados no processo da história da sociedade. o processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma tarefa geral (escrever uma frase. a escrita. No entanto a escrita não termina nesse processo. Para escrever uma palavra. Ela representa um complexo programa de movimentos. Aqui o processo da escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros ("fonemas") devem ser recodifiçados em elementos motor-visuais da escrita ("grafemas"). devemos fazer a sua análise acústica. em seguida. Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relativamente simples é um complexo sistema funcional.passos é necessário inicialmente enervar um sistema de músculos e. devemos discriminar antes de tudo os sons que integram a sua composição.

92 . que põem em ação dado "sistema funcional". etc. Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada do cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional. por exemplo) em que a escrita não é um processo de transferência das unidades sonoras ("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas"). turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos de descrever. nelas o escrevente representa imediatamente os conceitos com determinados sinais convencionais (hieróglifos). O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em determinada área limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de células. noutros termos. por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro. integrantes da composição de dada função. há línguas (o chinês. e sempre que haja afecção limitada do cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação da área cerebral afetada. Se na grande maioria das línguas (indo-européias. a análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estruturas cerebrais. É natural que para semelhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra) se torna desnecessária e o processo da escrita adquire inteiramente outro caráter. Torna-se compreensível que a mesma afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado elo geral ou "fator" geral cujo funcionamento esteja diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo sistema funcional (o ato da escrita ou da fala.) e só com a sólida manutenção desse programa correspondente a necessária tarefa pode ser cumprida. Por isto a tarefa de "localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto. que asseguram elos diversos.uma idéia. Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente.

ter uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro humano. importância tanto para o campo prático da neurologia — definição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais — como para uma compreensão mais profunda da estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos. Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva. A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções locais limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia — a neuropsicologia. sendo produto de uma longa evolução. o cérebro humano. se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios (cinestésicos) espaço-visuais. Princípios da organização funcional do cérebro humano Como já foi dito (cap. a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto com a afecção das áreas auditivas. cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e essa perturbação será cada vez diferente. que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-rentes propriamente ditos. então é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas corticais propriamente motoras. cinestésica (articular) da estrutura da letra. aos aparelhos do tronco e do córtex primitivo — bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os grandes hemisférios. Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos. Os dados desta ciência são de grande. já os apa93 . é um complexo sistema construído por hierarquia. antes de tudo. que no homem chegam a um nível especialmente alto de desenvolvimento Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem em sua composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração. que se distingue pelo fato de que.Assim. é necessário. II). que executa os mais importantes processos vitais). circulação sangüínea e do metabolismo bioquímico.

composto de várias partes. peixes. a inclusão delas nos aparelhos motores (corpo quadrigêmeo) e sua integração primária com a execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado). que asseguram a análise e a síntese das excitações que chegam do mundo exterior. 94 . tornandose o aparelho fundamental. o fechamento de novas ligações.relhos do corpo quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (receptores de contato e distância). Os grandes hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados superiores. que ligam regiões corticais isoladas. a perturbação do funcionamento normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho. É isto que se reveste de importância essencial para a Psicologia. As áreas superiores do sistema nervoso central são os grandes hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente. que ligam o córtex às formações subcorticais subjacentes. constituída de fibras de projeção. Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios. Os três "blocos" principais do cérebro Como já indicamos. o cérebro humano. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado. o processamento de programas de atividade complexa e regulação da realização das formas superiores de comportamento. aves) mas são paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior — os grandes hemisférios. Estes são os dispositivos mais complexos. trabalha sempre como um todo único. Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica morfológica dos aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua organização funcional. que assegura o recebimento e a elaboração da informação e a criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução destes. e de fibras de associação. a assimilação e elaboração da informação recebida. o mais importante da atividade psíquica do homem.

No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais. ao passo que o instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se inibe mais facilmente. é necessária uma permanente manutenção do tônus otimal do córtex. A existência dessa "lei da força". indicando que os processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força". criar e executar os complexos programas de comportamento. elaboração e conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). cada um desempenhando papel especial na atividade psíquica. que deixa o vestígio mais estável. Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a uma acertada organização da atividade consciente do homem. bem como dos processos de formação de programas e controle da execução destes. segundo a qual um instigador forte (ou mais significativo) provoca uma reação forte. a elaboração e conservação da informação. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento. é necessária para a realização de atividade seletiva organizada. O primeiro mantém o necessário tônus do córtex. a conservação dos seus vestígios. O terceiro bloco elabora programas de comportamento. assegura e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex. para a criação de sistemas domi95 . indispensável para o bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da informação. que caracteriza a exci-tabilidade otimal do córtex. O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento. acompanhar o êxito das ações executadas e fazer a necessária auto-regulação do comportamento. a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da execução destes.

que está situado nas áreas internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-referidos do tronco superior. Moruzzi G. para a conservação de sistemas de informação organizados e programas estáveis de comportamento. A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico. o movimento da excitação nesse sistema. particularmente as formações do hipotálamo. de garantia do estado emocional normal e cria condições para a sólida manutenção dos indícios surgidos. que recebeu a denominação de "ciclo do hipocampo" é uma das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-cal.) mostraram que nesse processo desempenham papel substancial as formações das áreas superiores do tronco cerebral. É bem conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode passar ao estado inibido ou "fásico": os instigadores fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase niveladora") ou até reações mais fortes do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal").nantes de exeitação. Essas formações são as componentes principais do "primeiro bloco" do cérebro-bloco humano. que assegura o tônus geral ou estado de vigília do córtex. o núcleo do tálamo ótico. que une essas formações por uma ligação bilateral com o córtex cerebral. no estado de sono ou sonolência. do tá-lamo ótico e do sistema de fibras reticulares ("formação re-ticular"). Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas do grande cérebro como o hipocampo. É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo seletivo organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou secundárias). Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras observações e experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento normal do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa. A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais tarde acrescenta-se uma terceira. Essa peculiaridade do trabalho surge. 96 .. por exemplo. os antimuros e os corpos mamilares. H. W. mais complexa) . Jas-per H.

A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos impulsos que a este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo. J. que regulam processos como os reflexos sexuais. levou freqüentemente o paciente a adormecer. N. para manter o tônus ideal do córtex. privado dessa afluência de excitações do mundo exterior. Sabe-se. Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo. que surge no homem após um longo período de isolamento numa cela escura à prova de som. Deste modo. O corte das vias que levam do tronco superior ao córtex na composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao adormecimento. esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo (que tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. o nível de oxigênio no sangue. Sabe-se. É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue. os reflexos da agressão. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que? nesses casos. o efeito provocado pela "fome de informação". ainda. que o tronco superior e o encéfalo primitivo são compostos também por aparelhos especiais. Burdenko. os pesquisadores (N. por exemplo. é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipotálamo.Por um lado. tem importância decisiva o estado de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a primeira instância do recebimento das instigações afluentes de fora. para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de informação do mundo exterior. que é um índice do estado de fome ou saciação. que formam a base das inclinações biológicas do organismo. qué compensam em parte essa insuficiência de afluência permanente de instigações exteriores. Mc Lean. caindo para um nível inferior ao necessário. ainda. etc. Por isto. o animal adormece. começam facilmente a surgir alucinações no homem. a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações da periferia. superior e a formação reticular ascendente desempenham papel principal. que. Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de comportamento sexual instintivo. Olds. atos de . no qual os órgãos do tronco. Miller.

agressão. 97 .

reguladores do estado emocional do animal. bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista. Klüver e P. Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o olfato desempenha papel dominante no comportamento. considerados pelos referidos autores como "centros" sui generís. por um lado. depois da dani-ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais do lobo temporal) observaram nos animais acentuada . situados nas áreas internas (mediais) dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo. Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular. Bucy que. Exemplos de mudança do tônus podemos ver nos casos de distúrbio das funções da hipófise. tendo participação essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a conservação dos vestígios da memória. foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Delgado) para provocar nos animais reações duradouras de "auto-estimulação". por outro. etc. de formações nervosas que regulam as inclinações citadas. nas referidas zonas do encéfalo. durante muito tempo. que asseguram a manutenção do tônus do córtex. considerado parte essencial do "corpo olfativo". que são transmitidos ao córtex através da formação reticular ascendente.fome constante e sede. A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. O córtex primitivo "límbico" foi. levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes. devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"). o animal provocava sozinho e demoradamente a excitação desses aparelhos. constituem a segunda fonte de manutenção do tônus cortical e seu estado de vigília. Mas a existência dessa área nos animais sem olfato (delfins). Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico. e de tumores das paredes do terceiro ventrículo. e a considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos". de funções bem mais complexas. Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesquisadores americanos K. Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos introduzidos nessas áreas do encéfalo. A existência.

Dados aproximados foram obtidos também nas observações pos98 .excitação das reações emocionais e perturbações da memória.

Olds e outros. Cabe observar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como descendentes. Jasper e outros) descobriram que no hipocampo existe um grande número de neurônios que não reagem a instigadores específicos (visuais. muda substancialmente o tônus do córtex e afeta-se profundamente a memória. particularmente o seu córtex. importantes observações realizadas em pessoas com afecção bilateral do hipocampo pelos pesquisadores americanos W. exercem sobre os segmentos do tronco encefálico. Por meio dos segundos ("formação reticular ativadora descendente") realizam-se 1 aquelas influências que as áreas superiores do cérebro.teriores de Mc Lean. fazendo parte também as reações à 'Mescoordena-ção" destes. O papel dos aparelhos do primeiro* bloco na manutenção do tônus do córtex e do estado de vigília é assegurado pelas suas estreitíssimas ligações com o córtex„ que são realizadas através das fibras da formação reticular ativadora. Milner e W. A existência desses neurônios de cujas funções faz parte a comparação dos instigadores com os vestígios antecedentes. . B. Através dos primeiros ("formação reticular ativadora ascendente") efetua-se a excitação do córtex pelos impulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco do encéfalo. nesses casos. que tiveram oportunidade de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos processos afetivos. Por isto o aparelho da "formação reticular descendente" desempenha papel substancial na transmissão do colorido afetivo e na garantia do tônus para os programas de comportamento que surgem no córtex em decorrência da informação recebida e das formas exteriores de programas e necessidades que se formam no homem com a participação da fala. Scoville permitiram mostrar que. Penfield. que ocorrem nos animais como resultado da danificação do hipocampo. que apenas mencionamos e que está ligado aos complexos programas e necessidades que surgem no homem como resultado de sua atividade consciente. É esse aparelho que assegura a terceira fonte de manutenção do estado de vigília. Por último. parece explicar o papel desempenhado pelas formações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado (atenção não-dirigida) e memorização. A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando os fisiologistas (Viesel. auditivos ou táteis) mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio ambiente.

99 .

diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco. assegura o tônus geral (vigília) do córtex e a possibilidade de duradoura conservação dos vestígios da excitação. sendo que as extremidades corticais do analisador visual estão situadas na região occipital. Como todas as outras regiões do novo córtex. tem caráter modal-específico. Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções posteriores do córtex cerebral (áreas parietal. temporal e occipi-tal) e. já o segundo bloco está imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos. noutros termos. auditiva e tátil. A mais desenvolvida nessas zonas é a seção IV do córtex. O funcionamento desse bloco não está relacionado especialmente com os outros órgãos dos sentidos e tem caráter "modal-não-específico". está relacionado com o recebimento. essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. Bloco do recebimento. distinguindo-se e sepa-rando-se aqui indícios isolados da informação visual. sendo um sistema de dispositivos centrais que registra a informação visual.Deste modo. processam-na ou "codificam-na" e conservam na memória os vestígios da experiência adquirida. da formação reticular e do córtex primitivo. o processamento e a conservação da informação recebida pelo homem. aonde 100 . elaboração e conservação da informação Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não participa do recebimento e processamento da informação nem da elaboração dos programas de comportamento. Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes dos respectivos aparelhos receptores. auditiva e tátil afluente. as auditivas na região temporal e as táteis na região tátil-cinestésica. o primeiro bloco do cérebro de cuja composição fazem parte os aparelhos do tronco superior. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura celular das zonas corticais. Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extremidades centrais (corticais) dos sistemas perceptivos (analisa-dores). assegurando o tônus geral do córtex. sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais complexas. Nas seções mais complexas dessas zonas eles se reúnem.

que têm a forma de pequenas pirâmides ou células asteróides. que constituem o aparelho principal de transmissão das excitações de uns neurônios a outros. instalando-se na VI as projeções das células vegetativas. Quando se corta o corpo caloso. Algumas fibras descem diretamente para a seção V do córtex. que chegam dos órgãos sensitivos à seção IV do córtex. que servem de aparelhos de transferência das excítações para células associativas mais complexas. As fibras se dirigem de algumas dessas células para a periferia e. fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais simples. está situada nas seções II e III do córtex. Como mostraram as pesquisas. onde estão instaladas as células piramidais (motoras). Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si por um feixe especialmente potente de fibras transcorticais. As seções I e VI não examinadas têm importância especial: na I estão instaladas as ligações horizontais "transcorticais". Grande parte das células associativas ou células de ação curta. Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção e denominadas zonas secundária? ou de projeto e associação.chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos periféricos. que contactam o córtex com as formações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas isoladas do córtex a outras regiões corticais (tecidos transcorticais) . integrante da composição do bloco por nós examinado.hemisférios fica desconexa e os dois hemisférios começam a funcionar isoladamente. Aqui elas se transferem para outros neurônios. Isto se deve a que nessas . auditivo ou tátil às zonas primárias (ou de projeção do córtex) é aqui fracionada em grande número de indícios que a compõem. que contactam o córtex com as áreas profundas do encéfalo. que contactam as áreas contíguas do* córtex. que são denominadas zonas primárias ou de projeção. Nas zonas corticais aonde chegam diretamente as fibras vindas dos órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-corticais). parte considerável dos grandes . transferem-se ali para os neurônios de ação curta. é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex ■cerebral. Outros tecidos. denominado "corpo caloso". deste modo. a posição de maior destaque cabe à seção IV receptora das células. as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas. a informação que chega do receptor visual. Toda a substância branca situada sob o córtex é constituída de fibras longas. O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-tical.

101 .

na zona de projeção do córtex occipital (visual) há neurônios que só reagem ao movimento do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro. via de regra. que se espalha a fundo nas zonas contíguas. existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal). com elevadíssima especialização. eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários. acessível à organização posterior. essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. À diferença das zonas primárias do córtex. surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas. às linhas quebradas agudas. a irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação. A maioria esmagadora dos neurônios componentes dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de associação). só às linhas curvas harmoniosas. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente a exci- . respondem somente a alguns indícios particulares das instigações. que. porém. Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e associação. a todo um complexo de instigadores específico-modais (visuais. Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos. como mostraram pesquisas de alguns fisiologistas. reagindo a instigações de diversas modalidades. auditivos. Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch.zonas de projeção do córtex estão instalados neurônios altamente especializados. Eles não reagem a indícios isolados divididos. sendo que alguns deles têm inclusive caráter multimodal. etc. táteis). mais amiúde. Essas mesmas células. Assim. Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados e os transforma num mosaico funcional das instigações. do receptor periférico. A importância dessas zonas secundárias parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis. depositada num pedaço de papel. a irritação das zonas primárias com estricnina. ao contrário.

102 .

táteis). etc). É sabido que o córtex do cérebro. No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e secundárias do córtex. Poetzl e W. Penfield) chegarem a uma conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. etc. 103 . feras. as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida". Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e aqueles indícios específico-modais (visuais. A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex. noutros termos. exercem a função de fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida. Resultados análogos são obtidos com a irritação do córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou sons isolados. Assim. esse órgão superior da sensibilidade. irritando partes isoladas do córtex.). a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes (alucinações). "bolas luminosas". "chama". podem-se observar as reações do doente. auditivos. Como mostraram as pesquisas. é por si mesmo indolor. razão por que as cirurgias cerebrais podem ser feitas sem anestesia. Diferentemente disto. etc. Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e secundárias (de projeção e associação) do córtex.tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos inteiros de neurônios. a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma definida (borboletas. ao passo que as zonas visuais dessas mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração complexa da informação que chega ao sujeito. passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex. Foerster. rostos conhecidos. permitiu aos O. For isto que pesquisadores (O.

aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores periféricos. apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. Deste modo. a área ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante. que surgem como resultado da influência irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral.As' zonas primárias do córtex. Isto significa que as fibras nervosas. é de importância especial o fato de que a área. uma cicatriz localizada nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento" na extremidade inferior do lado oposto. Isto garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação central. os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas inferiores do corpo. cruzando-se no tronco do encé-falo. não estão distribuídas por acaso mas dispostas em ordem rigorosa. que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. são muito grandes. estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente determinado do córtex de projeção. ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do corpo. O típico para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos. a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de sensações visuais ou auditivas. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal (póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo. chegam às zonas superiores da circunvolução anterior central do hemisfério oposto. ao passo que as projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador). que chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas. destruídas por processo patológico. da boca e dos lábios. Assim. ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério oposto. a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região provoca as mesmas sensações no braço oposto. Assim. sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna. Ao contrário. do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras. é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. e a situada nas partes .

inferiores 104 .

as fibras que vão de áreas isoladas da retina. levadas a coincidirem com determinadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da per- . resultando que a afec-ção de determinadas áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual. enquanto correspondentes aos tônus os baixos. eles substituem o princípio de projeção somatotópica por outro princípio: o da organização fundamental das respectivas excitações. projetam-se nas áreas laterais do córtex. No entanto ele não tem qualquer validade para a avaliação do funcionamento dos campos corticais secundários. que podem ser o início (aura) de acessos epilépticos. que constituem partes do campo visual. O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem de importante indício diagnóstico para a atividade tópica de suas afecções. a irritação de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em determinadas áreas do campo visual. "codificando-as". projetam-se em trechos absolutamente determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual). Por isto a irritação desses setores do córtex ou de suas vias condutoras provoca sensações auditivas correspondentes. os campos corticais secundários do bloco por nós examinado asseguram a síntese das excitações que chegam ao campo primário. O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam excitação. que corresponde a tônus elevados. Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de determinadas superfícies sensíveis (receptoras) em certas áreas dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite usar os sintomas de queda da sensibilidade em determinadas áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) caracteriza a organização funcional dos campos corticais primários. A consideração dos referidos fatos da estrutura somatotópica das zonas primárias do córtex é de grande importância prática.do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto. primária do córtex. Assim. projetamse nas áreas internas da zona auditiva tecidos que implicam excitações. Por isto a destruição dessas zonas não leva a ocorrências de quedas de sensibilidade. Como já foi dito.

105 .

na ontogênese. leva à perturbação das formas complexas de percepção visual. o processo de revestimento dos tecidos que surgem nessas zonas — a mielina. As zonas terciárias das áreas posteriores do córtex cerebral estão situadas nos -limites da região parietal. que começam a funcionar mais tardiamente. essas zonas pertencem àquelas em que predominam inteiramente as camadas II e III de células de associação. mas suscita uma desintegração geral no funcionamento desse ou daquele analisador. occipital e temporal e compreendem os campos 39. que os torna aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do que em outras zonas. formações especificamente humanas. A importância dessas áreas do córtex . sua afecção não provoca a queda da sensibilidade visual. Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciárias do córtex (ou "zonas" de cobertura das extremidades corticais de determinados analisadores). Como mostrou o anatomista alemão P. a qual se manifesta na complexa decodificação da informação que chega ao sujeito. auditiva ou tátil. Pela estrutura histológica. Ainda voltaremos a abordar a análise desses fenômenos quando analisarmos os processos de percepção. Quando elas se irritam. As zonas terciárias do cóitex cerebral amadurecem só muito tardiamente. que consistem na unificação da informação que chega de diferentes analisadores ao córtex cerebral. 37 das áreas parietais inferiores do córtex. Tudo isso mostra que as zonas terciárias ou "zonas de cobertura" são as áreas do córtex cerebral mais jovens. Flechsig. até certo ponto. sumamente importantes para garantir as formas mais complexas de funcionamento desse bloco.cepçao. auditiva ou tátil. conhecida na clínica pela denominação de "agnosia". Até nos carnívoros as zonas corticais de certos analisadores estão em contato direto umas com as outras. ao passo que no homem elas ocupam parte considerável das áreas posteriores do córtex. 40. noutros termos. sendo apenas esboçadas no macaco. Isto se refere às suas funções básicas. As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas mais tardias da escada filogenética e são. não surgem quaisquer reações sensitivas ou observações. As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam os aparelhos corticais do bloco em análise.

106 .

elaborar programas de ação a elas correspondentes. A atividade consciente do homem apenas começa com a obtenção da informação e sua elaboração. Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores do encéfalo e seus lobos frontais. pode ser vista analisando-se os comportamentos dos doentes com afecção dessas áreas do córtex cerebral. a regulação e o controle do desempenho ativo do homem. 107 . Via de regra. surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codificação mais complexa da informação recebida. Para isto é necessário um aparelho especial. fi integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes hemisférios. entender a posição dos ponteiros do relógio e correlação dos países no mapa geográfico. o que é de suma importância. predominando a dificuldade de unificar em esquema espaciais simultâneos as irritações sucessivas que chegam ao encéfalo. confundem a direção. Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são um importante aparelho. indispensável para as formas mais complexas de elaboração e codificação da informação recebida. subtrações e divisões rápidas e começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação das complexas estruturas gramaticais e de operações lógicas que incluem relações complexas. Distiguindo os objetos e sons visualmente perceptíveis. acompanhar as ações em curso.para a unificação da informação. terminando com a formação das intenções. cabendo nele posição dominante as seções frontais do encéfalo. regulução e controle da atividade O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação. comparando o efeito da ação exercida com as intenções iniciais. capaz de criar e manter as necessárias intenções. não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo. que chega de analisadores isolados. os doentes começam a sentir dificuldades de orientar-se no espaço. do respectivo programa de ação e com a realização desse programa em atos exteriores (motores) ou interiores (mentais). realizá-los nos devidos atos e. O bloco da programação. Esses pacientes ficam sem condições de fazer operações matemáticas que exigem tomar como orientação a ordem numérica.

mudando-a de conformidade com as intenções formadas no córtex. cujas ações levam à periferia os impulsos formados. 46 de Brodmann).Pelo caráter de sua estrutura. mais acima estão situadas as formações do córtex propriamente frontal ou região pré-frontal (áreas 9. Como os sistemas das áreas posteriores do córtex. o que sugere o caráter motor das estruturas nele dominantes. 108 . se o córtex das áreas posteriores do encéfalo apresentava • como característica raias transversais. manteremos no exame das zonas primárias do cérebro a mesma ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarquicamente organizadas das áreas posteriores do córtex. as áreas anteriores têm as mais estreitas ligações com as formações subjacentes da formação reticular. fazendo-os chegar aos músculos dos braços e assim provocando os movimentos correspondentes cujos programas foram preparados por todo o córtex cerebral. particularmente por sua região frontal. provocando movimentos correspondentes. Como as áreas posteriores. que acompanham os impulsos formados nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam o estado geral da atividade do organismo. 11.área de Brodmann). sobre a qual está construído o campo pré-motor secundário (6^ área de Brodmann). o córtex das * áreas anteriores se caracterizava por raias verticais. as áreas anteriores do córtex distinguem-se substancialmente das posteriores. Por uma questão de simplicidade da nossa exposição. Se no córtex das áreas posteriores do encéf alo (principalmente enx suas zonas primárias) predomina a camada IV (aferente) de células. no córtex das áreas anteriores (especialmente em sua zona primária) predomina a camada eferente de células com as grandes pirâmides. 10. É zona primária ou de projeção das áreas anteriores do encéfalo a circunvolução central anterior ou a região motora do córtex (4?. as áreas anteriores têm estrutura hierárquica com a única diferença de que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras (aonde chegam os instigadores que atingem o encéf alo) mas as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas dirigem esses impulsos para a periferia. sendo importante que aqui estão poderosamente representados tanto as fibras ascendentes como as descendentes da formação reticular.

O córtex primário ou de projeção está situado em forma de uma faixa longa nos limites da circunvolução anterior central. as células piramidais das zonas inferiores desse campo levam os impulsos aos músculos do pescoço. as gigantescas pirâmides das zonas médias levam esses impulsos aos músculos das extremidades superiores. o território do campo motor primário representa os respectivos grupos musculares não pelo traço geométrico mas pelo funcional. Essa organização somatotópica da circunvolução central anterior e suas vias condutoras é de suma importância para o diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das áreas superiores dessa região cerebral ou de suas vias condutoras leva à paralisia na perna oposta. que tem em sua composição a 6? área . as estruturas celulares de cada uma das referidas zonas difere muito uma. que. e que o irritam. A. chegam aos cornos anteriores da medula espinhal e são portadores de impulsos motores que. levam a conhecidos grupos musculares. a afecção das áreas médias leva à paralisia do braço oposto. quanto mais dirigível deve ser o respectivo grupo muscular. provocam contração ou convulsões das partes correspondentes do corpo. De acordo com isto. Como outras zonas de projeção. a afecção das áreas inferiores leva à paralisia ou paresia dos nervos do lado oposto do rosto. da cabeça e do rosto. passando no tronco cerebral para o lado oposto. em suma. descobertas pelo anatomista russo V. Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se a região prémotora. indicando o lugar da cicatriz. Bets. tanto maior território ocupa sua projeção na zona motora primária do córtex.Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como característica a "estrutura de raias verticais" já referida. descem. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos axônios. Como nas zonas sensórias de projeção. as cicatrizes situadas nessas áreas do córtex. predominando nele a camada eferente constituída de gigantescas células piramidais. das outras. os campos motores primários do córtex têm precisa estrutura somatotópica: as gigantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os impulsos motores aos músculos das extremidades inferiores do lado oposto do corpo. razão por que o caráter da aura (período inicial dos acessos epilépticos que surgem em casos semelhantes) é de grande importância diagnostica.

109 .

essas áreas do córtex não têm entre seus componentes grandes células piramidais. de estrutura inteiramente diferente. Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do córtex frontal ou região pré-frontal. 11 e 46 de Brodmann. À diferença da zona motora e pré-motora. células essas que desempenham papel de projeção e associação. movimentos de agarramento com os braços). ou seja. Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à 8^ área de Brodmann. com a afecção dessa zona surgem perdas da transferência harmoniosa de um elo a outro. Essa região prepara o lançamento dos impulsos motores e cria a "melodia cinética" que põe em funcionamento as "teclas" da zona motora do córtex. £ por isto que. A zona pré-motora do córtex adquire importância especialmente grande para a criação de habilidades motoras. que é um centro anterior de movimentação dos olhos. À diferença da zona motora de projeção. garantindo a execução de complexas melodias motoras. perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos. 10. Com sua afecção. assegura a transferência harmoniosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros. a perturbação das "melodias ciné-ticas" ou habilidades motoras. aqui o princípio da projeção somatotópica está incomparavelmente menos representado do que na zona motora de projeção. Por isto a afecção da zona pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em determinados grupos musculares. estando toda a massa cortical ocupada por células de pequenos axônios e células asteróides cujos corpos são muito pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região préfrontal é às vezes chamada de "córtex frontal granular"). integradas pelas áreas 9. Ela apenas se esboça . com a irritação da zona pré-motora do córtex. A importância da zona pré-motora do córtex (ou "campo motor extrapiramidal") consiste em que ela cria condições para o funcionamento sistemático do aparelho motor e. em outros termos. nas quais um elo motor deve ser harmoniosamente substituído por outro. não surgem contrações de grupos musculares isolados mas complexos movimentos conjuntos (viradas da cabeça e dos olhos. mantém-se os movimentos refletores dos olhos. que acompanham os objetos em movimento. nessa região pré-motora predominam pequena^ células piramidais das camadas II e III do córtex. que garante ativos movimentos harmoniosos dos olhos.de Brodmann. em particular.

nos vertebrados. ocupa lugar relativa110 .

A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é muito grande para a organização do comportamento. Por último. Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final da ontogênese. com força especial as fibras da formação reticular descendente.mente pequeno nos macacos. desenvolvendo-se poderosamente apenas no homem. concomitantemente com as fibras ascendentes da formação reticular. Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as funções dos lobos frontais do encéfalo nos conceitos clássicos do raio refletor. como já dissemos anteriormente. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter permanentemente o tônus do córtex por meio de tecidos básicos. Como mostraram os estudos. A questão mudou substancialmente quando os pesquisadores passaram a enfocar o cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo. ocupando pelo tempo de maturação um dos últimos lugares no mapa de mieíinização de Flechsig. no qual representa quase um terço de toda a massa dos hemisférios. nela se desenvolvem. Essas ligações são especialmente significativas nas regiões mediais e basais dos lobos frontais. cálculo complexo) surgem nos . a afecção dos lobos frontais do encéfalo não levava a nenhuma perturbação dos movimentos elementares. em cada tensão intelectual (expectativa do sinal. o que é de suma importância. que cria complexos programas de comportamento. regula a ocorrência de atos motores e exerce controle sobre estes. que os contactam com as formações subjacentes do tronco. embora durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição científica precisa. Dotados de poderosas ligações com a formação reticular ascendente e a descendente. Isto dava a alguns autores fundamentos para considerar as regiões frontais do córtex cerebral como "zona muda" sem quaisquer funções especiais. À luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem maior a função do cérebro. Por isto o córtex pré-frontal pode ser considerado formação especificamente humana. os lobos frontais do encéfalo se constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel ativador. distúrbios da sensibilidade nem perturbação da fala. as regiões pré-frontais do córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas subjacentes da formação reticular. não provocava paralisia.

lobos frontais do cérebro ondas lentas especiais. que se esten111 .

N. provoca nos lobos frontais um elevado número de pontos de funcionamento conjunto. as regiões frontais do encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de programas de ação que concretizam essas intenções. Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos lobos frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar solidamente as intenções. inibir os impulsos não-correspondentes aos programas e regular a atividade sujeita a esses programas. foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou traumas) dos lobos frontais do encéfalo. indispensável para a realização da tarefa colocada. substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhantes. que exige elevado tônus do córtex. Eles não podem concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou' e fogem facilmente ao seu cumprimento. ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos. que continuam a reproduzir-se independentemente da tarefa colocada. É natural que a atividade intelectual organizada. Os experimentos da psicóloga soviética E. Chomskaya mostraram que se a instrução do discurso. . provocado pela instrução do discurso ou uma tarefa intelectual. então esse estado persistente de elevada ativação não surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afecção dos lobos frontais do encéfalo (especialmente das suas. O trabalho intelectual tenso. Como mostrou o cientista soviético M. esses pontos de funcionamento sincrônico se conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este cessa. orientada pela tarefa colocada. regiões mediais e basais. dotadas de ligações sobretudo potentes com a formação reticular ativante). Ao manter o tônus do córtex. leva nos sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos de ativação (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-gicas). Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal. manter os programas complexos de ação. que provoca tensão.dem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da expectativa" pelo fisiologista inglês Walter Gray. que se excitam sincronicamente. O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo. Livanov. dificultando-lhe o cumprimento adequado. D.

aqui os planos com112 .é substancialmente perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro.

É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na realização do controle permanente da atividade em processo. Contudo essa descrição deve ser completada com mais um princípio. perdem a atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los. a diferença entre os dois hemisférios ser muito insignificante. Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes. Isto dá fundamento para considerar que os lobos frontais são importante componente do mecanismo do "aceptor de ação" (P. Tsvetkova). enquanto nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa para o hemisfério direito. S. Os pacientes com afec-ção dos lobos frontais do encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção inicial. o caráter dominante do hemisfério esquerdo começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como executor do papel principal na atividade de trabalho. A. só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da fala. que serve de base ao funcionamento do cérebro humano. Luria e L. O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse trabalho estar estreitamente ligado à fala.plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. o hemisfério esquerdo) é dominante e o outro. Anokhin) que desempenha papel de suma importância na garantia da atividade auto-reguladora do homem. Apesar de. O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade do cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha papel dominante nos destros. no homem um deles (via de regra. Ao que parece. as partes inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e panetal) estão relacionadas com 113 . dominado. em termos morfoló-gicos.

De modo diferente. contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões terciárias do córtex. da escrita e. da fala independente organizada. à perturbação da leitura. a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das articulações precisas ("afasia motora aferente"). formação de articulações da fala e codificação do discurso falado. as afecções de áreas análogas do hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem. Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento .do cálculo. a afecção das regiões do córtex cerebral. Assim. que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais). provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia). etc. a desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos processos intelectuais ("afasia semântica")..o discurso receptor (diferença dos sons da fala. É por isso mesmo que a afecção das áreas posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de distinguir os complexos sons da fala. em alguns casos. Como mostraram observações clínicas. sendo as áreas inferiores da zona pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em complexas "melodias cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ("afasia motora aferente"). É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-te) não provoca tais distúrbios. O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal dos processos da fala. provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada "afasia seri-sória"). a integridade do hemisfério esquerdo é importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com o discurso falado. É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização dos nomes necessários.

transcorre de modo 114 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful