Curso de Psicologia Geral

Volume 1

A presente obra compõe-se de quatro volumes, a saber:
I.

Introdução Evolucionista à Psicologia

II.

Sensações e Percepção

III.

Atenção e Memória

IV.

Linguagem e Pensamento

A. R. Luria
Curso de Psicologia Geral
Volume I 2º Edição
Introdução Evolucionista. à Psicologia
Tradução de PAULO BEZERRA
Sociedade Unificada Paulista de Ensino Renovado Objetivo – SUPERO
11/01/99

Nº DA CHAMADA

14.013/99
civilização
brasileira \

159.9 – 1967C

REGISTRADO POR LILIANE

- 2.ED.V.1

E.3

DATA

DE VOLUME

: (021) 263-2082 Telex: (21) 33798 Fax: (021) 263-61Í2 Impresso no Brasil Printed in Brazil . PINTO e MARIO ELBER CUNHA 1991 Direitos desta edição reservados à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. 99-20? andar .RJ Tel. Av. Rio Branco.A.Rio de Janeiro .Título do original em russo: EVOLYUTSIÕNNOE VVEDÊNIE VPSIKHOLÓGUIYU Capa: DOUNÊ Diagramação: LÉA CAULLIRAUX Revisão: UMBERTO F.Centro 20040 .

O OBJETO EA IMPORTÂNCIA PRÁTICA 1 A história da Psicologia como ciência 2 A Psicologia e outras ciências 7 Partes principais da Psicologia 11 Os métodos em Psicologia 17 A importância prática da Psicologia 23 II — A EVOLUÇÃO DO PSIQUISMO 29 A origem do psiquismo 29 Variabilidade do comportamento dos protozoários 32 Mecanismos do comportamento dos protozoários 34 Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples O sistema nervoso ganglionar comportamento mais simples e o surgimento 36 dos programas de 38 Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") 42 O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados variável 50 Mecanismos do comportamento individualmente 56 "intelectual" dos animais O comportamento 62 Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais 68 .Sumário I — A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA.

elaboração e conservação da informação 100 O bloco da programação.A ATIVIDADE CONSCIENTE DO HOMEM E SUAS RAÍZES HISTÓRIGO-SOCIAIS 71 Princípios gerais 71 O trabalho e a formação da atividade consciente 95 A linguagem e a consciência do homem 77 A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos 81 O CÉREBRO E OS PROCESSOS PSÍQUICOS 85 O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro 85 Princípios da organização funcional do cérebro humano 93 Os três "blocos" principais do cérebro 94 O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 95 Bloco do recebimento. regulação e controle de atividade 107 O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios 113 .

I
A Psicologia Como Ciência.
O Objeto e a Importância
Prática
O

HOMEM VIVE

e atua em um meio social. Sente necessidades e procura

satisfazê-las, recebe informação do meio circundante e por ele se orienta,
forma imagens conscientes da realidade, cria planos e programas de ação,
compara os resultados de sua atividade com as intenções iniciais, experimenta
estados emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psicológico, que constitui
o objeto de uma ciência: a Psicologia. Esta ciência se propõe a tarefa de
estabelecer as leis básicas da atividade psicológica, estudar as vias de sua
evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e descrever as
mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados patológicos. Só uma
ciência capaz de estudar as leis da atividade psicológica com uma precisão
possível pode assegurar o conhecimento dessa atividade e sua direção em
bases científicas. É justamente por isso que a Psicologia científica se torna
uma das disciplinas mais importantes, cujo significado crescerá cada vez mais
com o
1

desenvolvimento da sociedade e o contínuo aperfeiçoamento dos seus
métodos.
A história da Psicologia como ciência
É muito breve a história da Psicologia como ciência. No entanto remontam a
um passado muito distante as primeiras tentativas de descrever a vida psíquica
do homem e explicar as causas dos seus atos. Na Antigüidade, por exemplo,
os médicos já entendiam que para identificar as doenças era necessário saber
descrever a consciência do homem e descobrir as causas dos seus atos.
Esse enfoque materialista do comportamento do homem foi, séculos a fio,
combatido pela filosofia idealista e a Igreja, que viam na consciência do homem
uma manifestação da sua vida espiritual, considerando que esta não obedecia
às mesmas leis a que se subordinava toda a natureza material e por isto sua
análise não podia ser feita a partir da explicação causai dos fenômenos.
Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua consciência foram
vistos durante séculos como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os
outros processos naturais. Os filósofos assumiam diferentes posições em
relação à consciência, considerando-a manifestação da razão divina ou
resultado de sensações subjetivas, onde eles viam os "elementos" mais
simples que serviam de base à consciência. Mas todos os filósofos idealistas
estavam imbuídos da convicção de que a vida psíquica devia ser entendida
como manifestação de um mundo subjetivo especial, que podia ser revelado
somente na auto-observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou
à explicação científica.
Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve a evolução da
psicologia científicas e mesmo depois de os processos do mundo exterior se
haverem tornado objeto de estudo científico preciso os fenômenos da vida
psíquica do. homem continuaram sendo vistos como manifestação de um
mundo espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
A divisão de todos os fenômenos em duas grandes categorias — a categoria
dos fenômenos físicos, acessíveis à explicação causai, e a dos fenômenos
psíquicos, inacessíveis à análise cien2

tífica objetiva — foi consolidada pelas teses básicas da filosofia dualística de
Descartes,

para

quem

todos

os

processos

físicos,

incluindo-se

o

comportamento animal, estão subordinados às leis da mecânica, ao passo que
os fenômenos psíquicos devem ser considerados como formas do espírito, cuja
fonte de conhecimento pode ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve até período recente na filosofia e Psicologia em
muitos países. Se considerarmos que os pensadores do século XIX
começaram a focalizar os processos elementares dos campos físico e psíquico
(incluindo sensações e movimentos) como processos naturais suscetíveis de
estudo por métodos científicos exatos, os fenômenos superiores do campo
psíquico

(consciência,

pensamento)

continuavam

a

ser

considerados

manifestação do campo espiritual, que podia ser abordado somente por meio
da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à
divisão real da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia
naturalista científica ou Psicologia fisiologista, que tentava estudar com
precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos elementares e
definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que
estudava as formas superiores do campo consciente do homem, enfocando-as
como manifestações do espírito. O enfoque dualista aos fenômenos do campo
psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como os
psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (18561909), o psicólogo americano "William James (1842-1910) e o representante
da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia
ao impasse e provocou tentativas naturais de superar a estagnação surgida
nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais ao estudo dos
processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos
os outros fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara
formulação nítida com os democratas revolucionários russos em meados do
século XIX, teve sua patente mani festação na obra do célebre fisiologista
russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia
segundo a qual até os processos mais complexos do campo psíquico devem

receber tratamento materialista e ser 3 .

abordados como reflexos complexos. Outros notáveis representantes da ciência russa. A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov. cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente constituído. Watson via a forma científica natural da ciência psicológica. como fenômenos de tipo especial. que ele mesmo via como base fisiológica da ciência psicológica. Para ele. inteiramente suscetíveis de análise naturalista. carente de fim motor externo. durante séculos. que devia substituir a Psicologia. Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista. inacessível à pesquisa objetiva. segundo essa idéia. D. B. criador do estudo objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos reflexos condicionados. Partindo da tese segundo a qual a "consciência" não passa de um conceito subjetivo. isolados de todos os outros processos naturais. Ivan Petrov Pávlov (1849-1936). Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiologista russo. Watson. denominada behavio-rismo (ciência do comportamento) pelo psicólogo americano J. Em fins do século XIX. Essas pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia. aplicando métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. A. Assim surgiu uma nova corrente na ciência. São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados. comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades) biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. 4 . o psicólogo americano Edward Lee Thorn-dike começou a estudar o comportamento dos animais. Bekhteryev (1857-1927). o pensamento é um reflexo igualmente complexo porém inibido. A. os fenômenos dg mundo psíquico devem ser estudados pelo naturalista com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza. os beha-vioristas americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento externo do animal. Nessa corrente. como M. exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas exteriores de comportamento.

o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da evolução desta ciência ter assumido duas direções. a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica. elas se converteram na base para a posterior evolução da Psicologia como ciência. Por outro lado. A primeira. que se converteu na questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a Psicologia do estado de crise. que dava continuidade às tradições do enfoque científiconatural dos fenômenos. o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo americano.A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância progressista em sua época. As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934). capaz de abordar com métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem. Como já tivemos oportunidade de salientar. iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos. Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise científica das formas mais complexas da. como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade psíquica. atividade psíquica do homem. de atenção ativa. que se manifesta na atividade consciente dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos. da memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa científica. a imensa parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem. a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras. Por outro lado. Mas o behaviorismo americano. propunha-se a tarefa de explicar os processos psí- .

5

quicos limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e
recusando-se a examinar os fenômenos complexos e especificamente
humanos da atividade consciente. A segunda orientação tomou como objeto de
sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações
subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e
recusando-se a dar aos mesmos um enfoque científico causai.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter
em objeto da pesquisa as formas superiores e especificamente humanas de
atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise científica, explicar por via
causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da
Psicologia.
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função
imediata do cérebro e procurar a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil
quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma de existência do
espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é
uma forma de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode
ser explicada somente pelas leis objetivas dessa atividade representativa. De
modo semelhante, as formas superiores de atividade consciente, de atenção
ativa, memorização arbitrária e pensamento lógico que são específicas do
homem não podem ser consideradas produto natural da evolução do cérebro,
sendo o resultado da forma social específica de vida, que é característica do
homem. Para explicar por via causai as funções psíquicas superiores do
homem, é necessário ir além dos limites do organismo e procurar-lhes as
fontes não no recôndito da ahna ou nas peculiaridades do cérebro mas na
história social da humanidade, nas formas de linguagem e trabalho social que
se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram para a vida tipos
mais aperfeiçoados de comunicação e novas formas de atividade consciente.
Ao procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve estudar a origem
socialmente histórica das formas superiores de atividade consciente e
assegurar uma análise científica das leis que lhes servem de base.
6

Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da psicologia dualista e
delineiam nitidamente o objeto de uma Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das formas complexas de
representação da realidade, que se constituíram ao longo da história da
sociedade e são realizadas ]ielo cérebro humano. Ela deve substituir a anterior
descrição subjetiva das formas complexas de atividade consciente por uma
análise científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tarefa pelo estudo
dos processos fisiológicos que lhes servem de base nem limitar-se à descrição
exterior dos mesmos. É essa a tarefa da ciência psicológica, que deve
estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de
atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das
necessidades complexas e da personalidade, considerando todos esses
fenômenos como produto da história social e sem separar esse estudo da
análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É isto que
constituirá a essência da Psicologia geral no todo e da psicologia do homem no
particular.
A Psicologia e outras ciências
A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação com outras ciências,
que não a substituem mas lhe asseguram informação importante para que ela
possa ser bem-sucedida na elucidação do seu próprio objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais
estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comportamento dos animais
que se desenvolvem no processo de interação deles com o meio, torna-se
absolutamente claro que a completa interpretação das leis do comportamento
animal é impossível sem o conhecimento das formas básicas de vida que
constituem o objeto da biologia. É necessário ter uma noção suficientemente
nítida das diferenças que existem na vida dos vegetais e animais para perceber
o principal que distingue todo tipo de comportamento ativo, baseado na
orientação no meio circundante, das formas de vida que se esgotam com os
processos de metabolismo e podem ocorrer fora das condições de uma
orientação ativa na realidade. É necessário ter uma noção precisa do que
muda
7

que garantem a adaptação ao meio em mudança. Sem esses conhecimentos dos princípios biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base biológica. sobretudo a parte referente à atividade nervosa superior. e das complexas formações nervosas que executam os processos de análise e síntese. em hipótese nenhuma. pelas quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso. É fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o papel desempenhado nesse último processo pelas diferentes fases do sistema nervoso. A segunda ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação é a jisiologia. ocupando-se da atividade nervosa superior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concretizam o "equilíbrio" do organismo com o meio. e o mundo dos vertebrados superiores com seus poucos descendentes. reduzir-se a fatos biológicos. sobretudo nas condições de existência terrestre. que apresenta exigências imensas à orientação ativa baseada nas condições do meio. É natural que os fatos constituintes do objeto da ciência psicológica não podem.nas condições de vida com a transição da existência de unicelu-lares num meio aquático homogêneo a formas incomparavelmente mais complexas de vida multicelular. A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes funções no organismo. com sólidos programas congênitos que asseguram uma sobrevivência bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar a espécie até em condições de mudança. de conhecer as leis pelas quais realiza-se a regulação dos processos de metabolismo no organismo. que materializa os processos de excitação e inibição. orientação essa que é a única que pode assegurar sucesso na obtenção de alimentos e conjuração de perigos. que podem sobreviver somente com a evolução de novas formas individualmente mutáveis de comportamento. É necessário conhecer bem a diferença de princípios de vida entre o mundo dos insetos. de . Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições do meio e suas influências) e a etologia (doutrina das formas congênitas de comportamento).

e asseguram os processos de irradiação e concentração da excitação.confluência das conexões nervosas. é igual8 .

não se limite à simples descrição desses tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas formas altamente complexas de atividade. Por si mesmo nenhum sistema nervoso é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar instrumentos de trabalho e linguagem e explicar o surgimento das formas altamente complexas de atividade humana. Tudo isso é absolutamente necessário para que o psicólogo. o homem não disporia sequer de uma ínfima parte das possibilidades de que dispõe o seu comportamento concreto. Para a Psicologia. Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da atividade nervosa superior — como em certa época propunham os pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo erro do arquiteto que tentasse reduzir a origem e a . baseiam-se nos meios que se formaram no processo de trabalho. É natural que as formas de'atividade do homem são executadas pelo cérebro e se apoiam nas leis dos seus processos nervosos superiores. tem importância decisiva a sua ligação com as ciências sociais. As formas principais de atividade psíquica do homem surgem nas condições da história social. que é transmitida por meio da linguagem. enquanto a fisiologia da atividade nervosa superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou realizam esse comportamento. desenvolvem-se no processo de atividade material surgido ao longo da história. esse receptáculo da informação.mente importante o^ conhecimento das formas básicas de trabalho das células nervosas. conheça os dispositivos que as executam. os sistemas em que elas ocorrem. que estuda os tipos principais de atividade psíquica do homem. A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia consiste em que a primeira estuda as formas e meios de atividade que surgiram no processo da história social e determinam o comportamento. de emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem. surgidas no processo da história social. Se não usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem. Desconhecer as leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia de uma das fontes mais importantes de conhecimento científico. que se encontram em estado normal ou inibido (fásico). ficaria privado da comunicação com o meio ambiente. evoluiria à margem das condições do mundo material — surgido no processo da história da sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humanidade.

análise dos estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência
9

dos materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas que em hipótese
nenhuma podem explicar a origem dos estilos arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grandemente da correta
compreensão da correlação dessas duas ciências e tanto o desconhecimento
da fisiologia como a tentativa de reduzir a Psicologia à fisiologia retardariam o
desenvolvimento da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importância que tem para a
Psicologia a sua ligação com as ciências sociais. Se na formação do
comportamento do animal as condições biológicas de vida desempenham
papel determinante, na formação do comportamento do homem esse papel é
desempenhado pelas condições da história social, que cria formas novas de
uma complexa relação com a realidade, mediada pelas condições de trabalho,
formas essas que são as fontes de novas formas especificamente humanas de
atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro emprego de instrumentos
de trabalho e a primeira forma de trabalho social introduziram mudança radical
nas principais leis biológicas de construção do comportamento e que o
surgimento e, posteriormente, o emprego da linguagem — que permite
conservar e transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento de
uma nova forma de evolução inexistente entre os animais: a forma de evolução
mediante a assimilação da experiência social. A ciência psicológica atual, que
estuda antes de tudo as formas especificamente humanas de atividade
psíquica, não pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém
das ciências sociais: do materialismo histórico, que enriquece as leis básicas
do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística, que estuda as formas
básicas de linguagem, surgida na história da sociedade.
Só levando minuciosamente em conta as condições sociais, que formam a
atividade psíquica do homem, pode a Psicologia obter uma sólida base
científica. Encontraremos a aplicação desse princípio em todas as páginas
seguintes, quando examinaremos todos os fatos psicológicos concretos. É
essa a relação da Psicologia científica com as outras ciências, com as quais
ela se desenvolve em estreito contato.
10

Partes principais da Psicologia
A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência dividida, representa
hoje um sistema amplamente ramificado de disciplinas, que estudam a
atividade psíquica do homem em diferentes aspectos. O que já dissemos antes
deixa claro que algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos
processos psíquicos, aproximando-se da biologia e fisiologia, enquanto outras
partes estudam os fundamentos sociais da atividade psíquica, aproximando-se
das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as formas básicas de
atividade psíquica e constitui a viga-mestra de todo o sistema de disciplinas
psicológicas. Afora a introdução teórica evolucionista, o exame de várias partes
científicas faz parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas sensações e
percepções e terminando nas formas mais complexas de pensamento;
compõem essa parte a análise das condições em que ocorrem os processos
psíquicos e a análise das leis do pensamento, da memória, imaginação, etc), a
análise dos processos afetivos (as necessidades do homem, as formas
complexas de emoções), a análise da estrutura psicológica da atividade do
homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análise da
psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próximas páginas do
presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto de trabalhos de
muitos pensadores célebres, entre os quais sé situam clássicos como W.
Wundt na Alemanha, W. James nos

EUA,

A. Binet e P. Janet na França e

contemporâneos como-L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A.
Smirnov e V. M. Têplov na

URSS,

A. Vallon, A. Piéron e P. Fraisse na França, E.

Nolman, G. Miller e J. Bruner nos

EUA,

Donald Hebb no Canadá e J. Broadbent

na Inglaterra, etc.
É contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas da Psicologia.
Todas elas estudam as bases naturalistas da atividade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou Psicologia animal.
Esta disciplina estuda as peculiaridades do comportamento animal em etapas
sucessivas da evolução, aque-

11 .

Foram precisamente esses pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psicologia e elaboraram minuciosamente partes da Psicologia como a doutrina das sensações. A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico das ciências psicológicas é a Psicologia fisiologista ou Psico-jisiologia. bem como a estrutura dos seus processos motores e a mudança destes no processo de exercício e fadiga. A diferença consiste em que os cientistas que se ocupam desse problema tomam como objeto a análise das formas concretas de atividade psíquica.Ias peculiaridades que dependem das condições de vida e da estrutura anatômica dos animais. procuram. que são de caráter muito variado quando se tornam complexas as formas de vida. A psicofisiologia. a atenção e a memória do homem. estudando as sensações e percepções. a doutrina das leis básicas da memória e da atenção. É natural que a Psicologia fisiologista se aproxime da fisiologia. Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de realização de processos psíquicos particulares foi acumulada justamente por essa área da ciência psicológica. estabelecer os mecanismos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se realizam. está para a fisiologia assim como a bioquímica está para a química ou a biofísica para a física. Ela descreve os processos de mudança das formas de comportamento animal dependendo das exigências que o meio lhes impõe e dos principais tipos de adaptação às condições de vida. As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade do século XIX por pensadores que se propunham a tarefa de estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação de diversos métodos fisiológicos. etc. empregando os métodos mais precisos. particularmente da fisiologia dos órgãos dos sentidos e da fisiologia da atividade nervosa superior. permanecendo disciplina psicológica especial. à qual estão estreitamente ligados os nomes de grandes . de estudar os mecanismos fisiológicos dos processos psicológicos. a doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento. Ela não abstrai um instante sequer o fato de que os processos por ela estudados fazem parte da complexa atividade psíquica do homem. sua medida e seus mecanismos básicos. não esquece as complexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas tenta descobrir os mecanismos fisiológicos que lhes servem de base.

cientistas como Gustav Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações). Wilhelm 12 .

Orbeli. fundamentos para supor que também o papel de algumas regiões do córtex cerebral na organização dos complexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas do cérebro — parietais. Anokhin. Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informação dos trabalhos de clássicos notáveis da fisiologia como Pávlov. de suas observações. Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de diversos países . G. conclusões relacionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos. os grandes psicólogos atuais como O. A. criador da doutrina dos sistemas funcionais. assim como Piéron na França. Lindsley (EUA). Broad-bent (Inglaterra). Gershuni e S. Hermann Ebbinghâus e Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos exatos de medição da memória e seus mecanismos específicos). Edward Titchener nos EUA. Bernstein. cujos trabalhos permitiram introduzir uma aova área da ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes. introdutor do novo conceito de organização do movimento. criador da doutrina da atividade nervosa superior. L. E. A terceira disciplina componente do grupo biológico das ciências psicológicas é a neuropsicologia. R. A. autor de importante contribuição à fisiologia evolu-cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e do paleocórtex no processo da atividade psíquica é inteiramente diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cerebrais . etc. estuda as mudanças dos processos psíquicos que surgem quando ocorram afecções locais do cérebro e tira.Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofisioló-gicos de estudo dos processos psíquicos). Há. que enriqueceram a ciência com dados relativos ao funcionamento da audição e visão. criador da doutrina da gênese patológica. V. Vve-densky. Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desempenham os aparelhos particulares do sistema nervoso na estruturação dos processos psíquicos. V. N. Kravkov. N. temporais e occipitais — dão sua contribuição toda especial para o processo de atividade psicológica. Ukhtomsky. A. A. porém. A. Fraisse (França) e outros. Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas uma análise psicológica minuciosa tanto das irritações como das destruições de áreas isoladas do cérebro.

H. 13 . Lashley e K. Pribram (EUA).como K. S.

na França. H. N. Foi justamente por isto que a Psicologia genética. Milner (Canadá) e outros. Luria (URSS). Janet. Jasper no Canadá. L. que servem de base ao comportamento. na Uma área especial. que estuda as peculiaridades "dos processos psíquicos observáveis nos doentes psíquicos. V. na Rússia) e pelos psicólogos contemporâneos (B. com isto. A Psicologia genética permite abordar os processos psíquicos superiores do homem como produto da evolução. R. na Alemanha. adquiriu importância . é representada pelo estudo dos mecanismos neurônicos da atividade psicológica. que deixou vestígios na estrutura dos processos psíquicos. fronteiras da psicofisiologia e da neuropsicologia. S. a possibilidade de considerar as formas complexas de atividade psíquica do homem não como "propriedades" ou "faculdades" do psiquismo primitivamente existentes mas como resultado de uma longa formação. Zangwill (Inglaterra). Importantes descobertas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento em base neurônica. nas Pecheau. Zeygar-nik. A psicopatologia foi elaborada com êxito por muitos psiquiatras (Kraepelin. Podemos colocar ao lado da neuropsicologia a psicopatologia. O. Sokolov e O. Jung na Alemanha. N. No sistema das ciências psicológicas. na França. E. A importância dessa área das ciências psicológicas para a Psicologia geral consiste em que a Psicologia genética ou infantil estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolução da criança e permite acompanhar a formação dos complexos processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua evolução. H. H. Wiesel na Inglaterra. Hubel e T. B. Vinográdov na URSS) se propõem a tarefa de investigar as formas de funcionamento de grupos isolados de neurônios e efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares.A. cabe posição especial à psicologia infantil ou genética. Os cientistas que elaboraram essa área (D. Békhterev. dando. que estuda a formação (gênese) das formas superiores de atividade psíquica. situada URSS. e outros). e permite que nos aproximemos mais de um estudo científico das doenças mentais e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica que se manifesta nos estados patológicos.

decisiva tanto para uma área prática 14 .

traços característicos do processo cognitivo e do talento. Outro campo da Psicologia. de peculiaridades individuais do campo emocional e do caráter. A importância da Psicologia genética lhe. e revelam diferenças individuais. M. das formas individuais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiaridades tipológicas cujo conhecimento é indispensável à solução das questões práticas da Psicologia. Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados em sua época pelo psicólogo alemão W. que a Psicologia geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos processos psíquicos (percepção e ação. nos EUA. que deve ser colocado ao lado da Psicologia genética e costuma ser chamado de psicologia diferencial ou psicologia das diferenças individuais. A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas diferenças individuais. Sabe-se que as pessoas têm traços comuns. relacionados com a contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis estudiosos Jean Piaget e Lyév S. Vigotsky. em nossa época os problemas das diferenças individuais foram estudados com êxito por cientistas como Charles Edward Spear-man. Nessas áreas examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou a atividade psíquica do homem e as formas sociais em que essa atividade se manifesta. Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo de áreas intimamente vinculadas às ciências sociais. A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a avaliação do nível de evolução da criança. permitiu ocupar posição central na Psicologia atual. Foi justamente graças aos êxitos da Psicologia genética. na URSS.como a pedagogia quanto para a Psicologia geral. Teplov. ocupa posição importante. L. na Inglaterra. Ster (1871-1938). Estas podem ser diferenças de propriedades do sistema nervoso. Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou ciência das particularidades que distinguem os processos psíqui15 . memorização e pensamento) possuem estrutura complexa que se forma no processo de evolução da criança. estudados pela Psicologia geral. descrever os tipos de comportamento e atividade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras por traços característicos. L. Thurstone. e B.

do direito. Esta disciplina estuda as leis psicológicas da comunicação entre os homens. A Psicologia social é uma área importante porém pouco desenvolvida. na Inglaterra. as peculiaridades psicológicas da divulgação de informação por meios como a imprensa e o cinema. etc. da ciência psicológica. Fracassou essa tentativa. dos processos d. as particularidades do comportamento no processo de trabalho. competição. cujas bases não são psicológicas mas econc-micas ou histórico-sociais. W. etc. dos mitos. fizeram-se tentativas de criar uma "psicologia dos povos" corr. autor do livro A psicologia dos povos. Mead.cos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferentes culturas. O estudo das peculiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes -diferentes culturas constitui atualmente uma área importan:. na França. Por este motivo as tentativas de "ps:-cologizar a história" retiveram durante muito tempo o desenvolvimento desse importante campo da ciência psicológica. A psicolingüística se propõe o estudo das leis básica: da linguagem enquanto meio de comunicação. disciplina que nos últimos decênios s: converteu em área independente e se situa na fronteira entre a Psicologia e a lingüística. crenças. A psicolingüística. Wundt. nos EUA) e foram justamente essas pesquisas qu: lançaram as bases da etnopsicologia atual. qa: devia investigar um processo inverso: a influência formadora exercida pelas condições histórico-sociais sobre o desenvoh:-mento da atividade psicológica do homem. Um campo especial da Psicologia social tem como objeto o estudo das inter-relações humanas em pequenos grupos. codificação e decodificação da informação veiculada pela linguagem e dos processos psicológicos que se baseiam nos códigos da língua e se materializam na linguagem do homem.: forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência que fosse capaz de revelar as bases psicológicas da formação da linguagem. Turnwald. Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenômenos da vida social. Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia. representa um campo especial d-Psicologia. na Alemanha e M. que partiu de um dos criadores da Psicologia moderna. Janet e Lévy-Bruhl. Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de grandes cientistas de diversos países (Frazer e Malinowsky. a análise dos fatores que servem de base a .

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promoção de líderes. de formação da autoridade. Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia? Houve um longo período em que a Psicologia era definida como ciência do mundo subjetivo do homem. que lança mão de toda uma série de procedimentos objetivos de pesquisa. que estuda as bases psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que servem de base às obras de arte que aplicam diversos procedimentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o leitor e espectador. incluise a Psicologia da arte. São necessários procedimentos especiais.processos da consciência se distinguiam dos outros processos da realidade objetiva pelo fato de que o fenômeno coincidia com a essência: as formas de consciência que o homem podia observar em si mesmo (clareza ou imprecisão de consciência. esses. Os métodos em Psicologia É condição fundamental da evolução de toda ciência a existência de métodos suficientemente objetivos. Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da Psicologia. penetrar nas leis internas que constituem a essência do processo em estudo. à definição do conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos. Segundo a concepção idealista. O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que a essência do processo em estudo não coincide com as manifestações em que ela aparece. Entre essas disciplinas. que permitam penetrar além dos limites dos fenômenos acessíveis à observação imediata. caracteriza as pesquisas verdadeiramente científicas. Esse caminho do fenômeno à essência. mas estes podem mostrar que sistema ramificado de disciplina a Psicologia moderna representa. Segundo os psicólogos idealistas. etc. etc.) eram consideradas por esses 17 . a Psicologia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da consciência. vivência da liberdade do ato volitivo. que mantêm afinidades com as ciências sociais. precisos e seguros. que separava o psiquismo de todos os outros fenômenos da natureza e da sociedade.tipos concretos de interação entre os homens.

a explicação objetiva e causai dos processos psíquicos. que permitia levantar questões. Para eles. que permite ao homem orientar-se na realidade ambiente. que não levantava os problemas da origem e dos mecanismos objetivos desses processos não podia ter existência própria. A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objetivos de estudo dos processos psíquicos do homem. essa coincidência dos fenômenos com a essência constituía o fundamento da Psicologia e lhe definia o método.psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como essência dos processos psíquicos subjetivos. . O reconhecimento da introspecção como método fundamental da Psicologia não apenas separava esta ciência das outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução da Psicologia enquanto ciência autêntica. sem nunca se limitar ao método da introspecção. consideravam como fundamental e única a descrição subjetiva dos fenômenos da consciência. formar programas de comportamento e controlar a sua execução. empregava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha aplicação muito restrita porque nem de longe os processos psíquicos ocorrem todos por via consciente. referindo-se a ele apenas como um procedimento auxiliar de sentido antes heurístico. o que dava a possibilidade de explicar por via causai os fenômenos e encontrar as leis que lhes serviam de base. que era produto de uma longa evolução. refleti-la. bem como porque a autoobservação dos seus processos psíquicos pode introduzir mudanças consideráveis na ocorrência desses processos. A revisão radical da introspecção como método de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de atividade psíquica. ou seja. É fácil entender que uma "ciência" que se negava a considerar os processos psíquicos como produtos do desenvolvimento objetivo. ainda. Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao método básico da Psicologia desde o período em que esta disciplina passou a ser interpretada como ciência de uma forma específica de atividade psíquica. descrição essa que se obtinha no processo de introspecção. reduzindo a Psicologia à descrição subjetiva de formas da vida espiritual e dos fenômenos psíquicos. Excluía. durante muito tempo continuou sendo uma área singular da filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências autênticas.

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coloca diante do sujeito experimental uma tarefa correspondente e acompanha a organização estrutural dos processos (procedimentos. O procedimento principal da Psicologia passou a ser a observação do comportamento do homem em condições naturais e experimentais. que permitem efetuar uma análise estrutural bastante completa. Essa descrição da estrutura psicológica do processo estudado e a análise das suas partes componentes representam dificuldades consideráveis e exigem vários procedimentos auxiliares especiais. os meios auxi-liares em que ele se baseou. que tornam necessária a inserção de novas operações na solução da tarefa).A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elaboração de métodos objetivos de pesquisa que usassem os mesmos procedimentos que todas as outras ciências usavam para observar o desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade e da mudança experimental das condições do seu exercício. Esses procedimentos. convencionalmente chamados de método de análise estrutural. com a análise das mudanças que ocorrem em determinadas condições que podem ser mudadas pelo experi-mentador. ao estudar essa ou aquela forma de atividade psíquica. etc). formas de comportamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a tarefa dada. bem como a proposta de vários procedimentos que ajudam à solução (escolha de apoios externos. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos básicos de pesquisa psicológica. método genético-experimental e método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-mica). podem ter caráter direto ou indireto. meios. O emprego desses procedimentos diretos de análise estrutural muda . de métodos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição exterior dessa atividade no sentido das leis que lhe servem de base. etc. resposta à tarefa proposta) mas acompanha atentamente o processo de solução da tarefa proposta. procedimentos auxiliares. inclusão de novas exigências. O método de análise estrutural dos processos psicológicos consiste no seguinte: o psicólogo. Isto significa que o psicólogo não apenas registra o. Pertence aos procedimentos diretos a mudança da estrutura da tarefa proposta ao sujeito experimental (com dificultação paulatina.resultado final (memorização do material proposto. reação motora ao sinal.

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noutros. Por isto é sobretudo importante para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolução. das tensões por ele experimentadas. incluímos a aplicação de métodos de registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas. presta-se-lhe ajuda. Ê natural que a aplicação desses procedimentos indiretos ou complementares pode adquirir sentido somente havendo organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo psicólogo. que. que por si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da atividade psíquica mas podem refletir as condições fisiológicas gerais que caracterizam essa realização. por exemplo. que ocupa posição central na Psicologia. a realização de operações construtivas ou lógicas. Entre esses procedimentos. podem ser índices do seu estado geral. Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-se o emprego de indícios. empregando diversos meios de apoios extremos evidentemente- . reação galvânica da pele. pletismograma). etc. a solução das tarefas. As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas de atividade psíquica como a assimilação ou memorização do material. Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são produto de uma longa evolução. Com este fim coloca-se em diferentes condições o sujeito experimental. podemos colocar o método genético-expe-rimental.o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer quais dentre os procedimentos empregados surtem um efeito máximo. que tem importância especialmente grande para a Psicologia genética. de atividade do homem. eletromiogramas. o estudo da estrutura das formas complexas dos atos conscientes. Nuns casos exige-se dele solução independente da tarefa. que etapas foram incluídas nele e que fatores determinam o surgimento de processos psicológicos superiores. a quem se propõe resolver essa ou aquela tarefa. Ao lado do método analítico-estrutural. Pode-se obter resposta a esta questão não apenas acompanhando a execução das mesmas tarefas em fases sucessivas do desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia a denominação de método dos cortes genéticos) como também criando condições experimentais que permitam mostrar como se forma essa ou aquela atividade psíquica. não sendo eles mesmos elementos.

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O método genético-experimental foi amplamente aplicado na Psicologia na URSS por Vigotsky. o estudioso se mostra capaz não apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujeito experimental pode assimilar de modo ideal dada atividade. Esse método é aplicável em casos relativamente raros. sugerindo em voz alta as vias de solução. Y. é o método patológico-éxperimental ou método da análise sindrômica das mudanças de comportamento que ocorrem nos estados patológicos do cérebro ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos processos psíquicos. todo um conjunto de mudanças) que surge com a mudança de uma função e dá a possibilidade de mostrar a interdependência (correlação) de processos psicológicos isolados. por outro. observando como ele aproveita essa ajuda. especialmente importante para a neuropsicologia e psicopatologia. P. o psicólogo pode saber qual a influência que esse fator exerce sobre o curso de toda a atividade psíquica do sujeito. Conhecendo um fator que muda notoriamente o curso dos processos psíquicos. da memória auditiva ou da sólida manutenção do programa de atividade). Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pesquisas neuropsicológicas. V. O mesmo método pode ser aplicado na Psicologia geral ou na>Psicologia das . O terceiro método da Psicologia. da percepção visual. Semelhante análise permite estabelecer quais são precisamente os processos psíquicos internamente relacionados com o fator perturbado (ou excluído) e quais são independentes deste. por um lado. A. como também de formular experimentalmente os complexos processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. Zaporojets. Aplicando os procedimentos que constituem a essência do método genéticoexperimental. analisa detalhadamente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos e define quais desses processos se mantêm intactos e quais ficam perturbados.eficazes. permite descrever toda uma síndrome (por outras palavras. consistindo no seguinte: o psicólogo que estuda minuciosamente os pacientes nos quais a afecção local do cérebro provoca o deslocamento ou a deformação de uma das condições do curso normal dos processos psíquicos (por exemplo. Galpe-rina e produziu muitos fatos valiosos que se incorporaram soli-damente à Psicologia.

da memória 21 .diferenças individuais. nas quais a superevolu-ção de um aspecto do campo psíquico (por exemplo.

e se o método de análise estrutural continua sendo o método básico para todas as áreas psicológicas. Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são conhecidos pela denominação de testes psicológicos. A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa importância para que se tenha uma orientação. Faremos adiante uma apreciação crítica desse método. habilidades ou aptidões são mensuráveis. Os testes psicológicos consistem de tarefas. são feitos previamente com um grande número de sujeitos experimentais (crianças de uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educação). habilidades ou aptidões. . Os resultados dessas pesquisas são avaliados por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao grupo correspondente de sujeitos). têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de avaliação qualitativa e quantitativa dos processos psíquicos (dos conhecimentos. entretanto.p é a mesma para as diferentes áreas da Psicologia a que nos referimos. o método gené-tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia genética. ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na Psicologia patológica ou diferencial. Entre essas tarefas escolhem-se aquelas'que um número considerável (dois terços. Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são métodos da pesquisa psicológica. É fácil ver que a importância de todos os referidos métodos nã. a fraqueza ou a mobilidade insuficiente dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos os processos psicológicos e tornar-se fator decisivo no surgimento de todo um conjunto de peculiaridades individuais da pessoa.visual clara) ou alguma peculiaridade individual dos processos nervosos (por exemplo. quando examinarmos a sua importância para a medição das diferenças individuais de diferentes sujeitos. aptidões) e os métodos simples de medição do nível de evolução dos processos psíquicos. habilidades. Para que esses testes possam produzir dados objetivos e mensuráveis. acerca das peculiaridades psicológicas dos grandes hemisférios. A par com eles. que se propõem a um amplo círculo de sujeitos experimentais para estabelecer seus conhecimentos. por exemplo) de sujeitos experimentais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são propostas àqueles sujeitos cujos conhecimentos.

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dentre os quais mencionamos apenas os mais importantes. A ciência psicológica é de grande importância prática para vários campos. A técnica complexa deve estar adaptada às possibilidades do homem. da melhor maneira. que compreende a direção de mecanismos. etc. o volume da memória humana e os modos de originalizá-las. É natural que essas exigências podem ser atendidas somente levando-se em conta as leis da percepção humana. a área da Psicologia aplicada que se dedica a questões ligadas a esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia do trabalho. que nos mecanismos modernos consistem de grande número de indicadores. Por outro lado. do transporte. Ela tem importância também prática. que aumenta à medida que a direção do comportamento do homem em bases científicas e a consideração do fator humano na indústria e nas relações sociais se tornam questão central da vida social. que poderiam. aviação. É necessário criar condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo e o menor número de erros. Coloca-se a questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias? Todas essas questões são elaboradas pela engenharia psicológica e pela Psicologia do trabalho. subentende uma complexa interação do sistema homemmáquina. que estão se convertendo . querendo. que se criem condições que assegurem circunstâncias ideais para a manutenção da atenção e o menor esgotamento do homem. A indústria moderna. a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-tes à seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou daquelas formas de trabalho. Essas exigências devem referir-se principalmente à construção racional dos painéis de direção. que exigem revisão sumamente rigorosa e que a informação que recebem tenha a máxima acessibilidade.A importância prática da Psicologia A Psicologia tem grande importância não apenas para a solução de uma série de questões teóricas do campo psicológico e da atividade consciente do homem. com isto. O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho. adaptar a máquina às possibilidades do homem.

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por etapa. O ensino programado (ou teoria da assimilação programada. nova área da pedagogia que se desenvolveu ultimamente. há aqueles que não conseguem assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendimento do trabalho de toda a turma. É sabido que o sucesso do ensino depende não só dos programas e métodos racionalmente organizados mas também da própria composição dos alunos. os modos de formulação otimal de regras. A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada que deve assegurar a argumentação científica dos programas e métodos de ensino. apresenta a base psicológica científica para a elaboração de uma seqüência otimal do material proposto bem como a'aplicação dos métodos mais eficazes de ensino.em importante componente da organização cientifica da produção. Questões como o grau de desdobramento do processo de assimilação dos conhecimentos por etapa. Isto depende substancialmente das peculiaridades psicológicas da criança. Em toda classe. a área da pedagogia. os procedimentos que asseguram assimilação adequada dos conceitos e a transferência de princípios assimilados no processo de ensino constituem apenas uma parte das questões estudadas pela psicologia pedagógica. que dá contribuição substancial para a fundamentação científica do processo pedagógico. O essencial. Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino e a educação da geração adolescente. da idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar. . é o fato de que a falta de aproveitamento que esses alunos demonstram pode ter fundamento variado. a correlação dos meios direto e lógico-verbais de ensino. porém. estabelecer o círculo dos conceitos acessíveis às crianças da idade correspondente e os métodos de transmissão do material que garantirão sua melhor assimilação. É sabido que o crescente volume de conhecimentos. exige organização mais racional dos métodos de ensino. em suma. dos conhecimentos). paralelamente aos alunos adiantados. que devem ser assimilados no processo de ensino escolar. que cria obstáculo para levar-lhes instrução com êxito. O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a construção racional do ensino e da educação é a análise das peculiaridades psicológicas das crianças.

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por outras palavras. Essa tarefa pode ser cumprida somente com íntima participação dos psicólogos.Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem mentalmente retardados e o atraso orgânico do seu cérebro os torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima. onde procedimentos e métodos especiais permitirão compensar tais deficiências. Essas crianças necessitam de aulas complementares especiais que possam eliminar as suas lacunas. No . Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na aprendizagem por serem fisicamente fracos. ficam rapidamente exaustos e não têm condições de assimilar o material correspondente. A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna das causas do atraso de diferentes grupos de crianças e o diagnóstico das diversas formas de atraso no programa. As outras são crianças plenamente normais. não tendo assistido a determinada parte do programa. explicar as causas principais do retardamento da sua evolução e prestar ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas. que possam descrever as peculiaridades psicológicas das crianças que não conseguem acompanhar o programa. 15 sabido que o desenvolvimento de uma doença depende não apenas do agente patogênico e do estado do organismo mas também de como o próprio doente encara sua doença e como a avalia. O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a medicina. mas o seu atraso deve-se ao fato de que. que dificultam a comunicação verbal oportuna e plena e provocam retardamento temporário do desenvolvimento. Essas crianças devem ser transferidas para escolas destinadas a alunos de audição difícil. depende daquilo a que os terapeu-tas chamam de "quadro interno da doença". o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades de aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam mentalmente retardadas mas porque apresentam algumas deficiências. Essas crianças devem ser transferidas da escola de massa para uma escola especial. por terem sofrido uma doença qualquer. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspondente e nessas condições podem cumprir com êxito o programa. Por último. como deficiências auditivas. elas não podem avançar com sucesso porque a assimilação do novo material não encontra nelas a necessária base de conhecimentos. auxiliar. Eles são capazes de concentrar com êxito suas atenções apenas durante tempo limitado.

a pró25 .entanto.

que tipos de perturbação dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas. permitindo ver.pria atitude em relação à doença está relacionada com uma série de fatores psicológicos. Essas partes dos grandes hemisférios estão relacionadas com a realização das formas superiores de atividade psíquica como a análise do afluxo de informação. com o caráter das generalizações que o indivíduo faz. e o restabelecimento das funções perturbadas. ainda. a afecção dessas áreas do cérebro provoca perturbações visíveis das formas complexas de atividade psíquica. fazendo parte das formas complexas de atividade psíquica. sem provocar sintomas fisiológicos nítidos. Graças a isto tornou-se possível introduzir um método novo e prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro. estão relacionados com determinadas áreas do cérebro. Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente se manifestam em sintomas da neurologia clássica como a mudança de sensibilidade. dos reflexos. com as peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo. Parte considerável dos grandes hemisférios cerebrais não tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a afecção dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visíveis nestes. Este permitiu ver quais os fatores que. Nos últimos decênios surgiu um novo campo da Psicologia — a neuropsicologia — já mencionado por nós. É justamente por isto que. da psico-higiene e da psicoprofilaxia. Nos capítulos correspondentes do presente livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para a solução dessas . que aplica a análise psicológica do caráter das perturbações dos processos psíquicos superiores peio diagnóstico tópico das afecções cerebrais. permitindo focalizar mais de perto o fundamento científico da prática da psico-terapia. estudo esse feito pela Psicologia. O estudo das peculiaridades caracterológicas e da estrutura do indivíduo. por um lado. A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas da medicina como a neurologia e a psiquiatria. do tônus e dos movimentos. Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução de duas importantíssimas questões: o diagnóstico e a natureza da doença. por outro. tem por isto grande importância para a medicina. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e neurocirurgia clínicas. a formação de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento da atividade consciente.

26 .questões práticas.

elaborada pela Psicologia. da gradação da percepção e da memória. . Mostrou que os sistemas funcionais. É grande a importância prática da Psicologia na elaboração das bases científicas do restabelecimento das junções perturbadas nas afecções cerebrais. das peculiaridades do seu pensamento. O promotor e o juiz estão constantemente diante de formas complexas de atividade psíquica do homem. As perturbações da percepção e da ação. baseados nas áreas cerebrais' não-afetadas. cabe mencionar o último campo de aplicação prática da Psicologia: a psicologia forense. Há relativamente pouco tempo ainda se considerava que as funções. Mas a doutrina da complexa construção sistêmica dos processos psíquicos superiores mostrou que cada forma complexa de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um sistema de zonas cerebrais que trabalham conjuntamente e permitiu rever radicalmente essas teses. não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principalmente do seu hemisfério central.Não é menor a importância da Psicologia para precisar o diagnóstico das doenças mentais. Por último. perturbadas como resultados de afecções locais do cérebro. dos seus motivos e traços caracterológicos. Deste modo. A teoria do restabelecimento das funções psíquicas superiores (perturbadas durante afecções locais do cérebro) por meio de um restaurador especial da aprendizagem. que se perturbam com qualquer afecção local do cérebro. dominante) provocava perturbações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez. podem ser reestruturados com base na criação de novos sistemas funcionais. da memória e do pensamento assumem caráter absolutamente diverso sob diferentes formas de retardamento mental e diferentes doenças mentais. as funções perturbadas podem ser restabelecidas em novas bases. tornou-se um importante componente da medicina moderna. Por isto a consideração das características psicológicas desses processos deve ser componente obrigatório da preparação e da atividade do pessoal de atividade forense. Por isto a aplicação dos métodos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite precisar substancialmente o diagnóstico das doenças mentais e se converte em componente essencial da Psicologia geral.

A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas importantes áreas da prática forense: a análise dos depoimentos das 27 .

fornecendo bases científicas para importantes campos da prática. o crime cometido deixa vestígios não só na situação externa como também no próprio psiquismo do criminoso. 28 .testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no crime. Deste modo. É natural que a incorporação da Psicologia à solução desses problemas permite dar uma contribuição importante para a construção da causa judicial em bases científicas e constitui área importante da aplicação prática da Psicologia. Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas asseguram matéria autêntica apenas em certos limites e que o grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplicação de uma investigação psicológico- experimental. a Psicologia não é apenas uma área importante da ciência como tem campos amplamente ramificados de aplicação prática. Por outro lado. daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais esses vestígios podem ser descobertos.

A filosofia dua-lista supunha que a consciência era tão eterna quanto a matéria. A origem do psiquismo A Psicologia pré-científica. que se desenvolveu nos pri-mórdios da filosofia idealista. de sua origem e dos graus de sua evolução. considerava o psiquismo como uma das propriedades primárias do homem e a consciência como manifestação direta da "vida espiritual". Por esta razão nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismo. paralelamente a esta. 29 que aquela sempre existia .II A Evolução do Psiquismo CAPÍTULO anterior vimos como a ciência moderna entende o objeto da Psicologia e que aplicações práticas tem esse campo de atividade. Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas da evolução da atividade psíquica.

Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacervaíos de responder às influências que integram o processo de metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores "indiferentes" ). Reagem negativamente aos efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificultam a existência normal. que também contribuem para a assimilação. Esses dois processos — a assimilação e a eliminação — Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental de existência dessas complexas formações albuminosas. essas moléculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentícias como a condições como a luz e o calor. transmitindo de geração a geração as respectivas modificações das moléculas albuminosas. respondendo também à influência nociva que lhes ameaça a existência. que não podem existir sem um constante metabolismo com o meio. elas devem assimilar do meio ambiente as substâncias que são objeto de alimentação e necessárias para mantê-las vivas. Ao mesmo tempo.A Psicologia científica parte de teses inteiramente diversas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta para o problema da origem do psiquismo. elas devem segregar para o ambiente externo os produtos da desintegração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência normal. Para sobreviver. Junta-se a ela uma segunda propriedade: a possibilidade de conservação das propriedades altamente especializadas da excitabilidade diante das influências. que constitui o funda30 . É natural que essas moléculas albuminosas altamente complexas (às vezes são chamadas coacervaíos) possuam propriedades especiais. Elas não reagem às influências "neutras" estranhas ao processo de metabolismo. Essa última propriedade parece relacionar-se com a modificação de algumas frações dos aminoácidos (particularmente do ácido ribonucléico. Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da vida é o surgimento de complexas moléculas albuminosas. Deste modo. Essa propriedade fundamental se manifesta no processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica. que respondem à ação das substâncias úteis ou das condições que contribuem para a assimilação dessas substâncias. de descrever as condições nas quais deve ter surgido essa forma altamente complexa de vida.

iluminação. os animais (mesmo os protozoários) se orientam ativamente na claridade. O vegetal que responde com um intenso metabolismo às influências bióticas não reage às influências exteriores. Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-tuadamente as formas de existência na etapa seguinte da evolução: o estágio da vida animal. caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não só às influências bióticas. são apenas formas de uma intensa troca ou crescimento. Eles condicionam os chamados "movimentos dos vegetais". Quanto mais intenso é o metabolismo. mesmo que as fontes de luz e umidade estejam bem próximas mas não tenham efeito imediato sobre ele. Há uma circunstância que é essencial para a vida vegetativa. quanto maior é a necessidade de obter alimentação que o ser vivo simples sente. Os processos de excitação diante de influências bióticas de importância vital. a aquisição de formas de excitação altamente especializadas e sua conservação com a transmissão imediata às gerações seguintes caracterizam o estágio de evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa. mas também às influências "neutras". em essência. que integram o processo imediato do metabolismo. não-bióti-cas. Cada organismo animal. tanto movimentos e mais ativos são os seus . dirigido pela excitação em relação às influências bióticas (umidade. por exemplo.mento molecular da vida) e costuma ser considerada como importante processo que serve de base à memória biológica. Fenômenos como o crescimento da raiz do vegetal no sentido da profundidade do solo ou o crescimento irregular do tronco dependendo da iluminação ou a inclinação dos vegetais no sentido dos raios solares constituem apenas o resultado do fenômenos da "excitação" diante das influências bióticas (não indiferentes para a vida). se estas anunciam o surgimento de influências ("bióticas") de importância vital. começando pelas algas mais simples e terminando com as formas complexas de vida vegetativa. a começar pelos protozoários. que são um sinal do surgimento dessas condições. Ele não se orienta ativamente no meio ambiente e pode. Noutros termos. morrer por falta de luz ou umidade. que. Esses processos caracterizam toda a vida. procuram condições de importância vital e reagem a todas as mudanças do meio. que integram o processo imediato do metabolismo. etc).

31 .

Variabilidade do comportamento dos proiozoários A sensibilidade aos instigadores "neutros".tanto mais vivificadas são as formas em que se produz sua atividade de "orientação" ou "procura". Por isto se os colocarmos numa câmara igualmente aquecida. Mas se durante longo período iluminarmos o canto aquecido e escurecermos o não-aquecido. Essa capacidade de reagir aos instigadores "abióticos" neutros sob a condição de que eles sinalizem para o surgimento de influências de importância vital. diferentemente dos fenômenos da ex-citabilidade. usados nesse experimento. eles se distribuem igualmente por toda a câmara. que agora adquire para eles o significado de sinal de elevação da temperatura e começam a concentrar-se no canto iluminado da câmara. é chamada sensibilidade. mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em condições de experimento.diferenças de temperatura. indispensável ao metabolismo) mas são insensíveis à luz. Se. apesar ias. Citemos um experimento típico. são sensíveis ao calor (qué é para eles condição biótica de importância vital. se estes começam a dar sinais do surgimento de influências de importância vital. realizado pelo pesquisador alemão Bramstedt. a reagir ativamente a cada mudança que neste se processa. ao contrário. a situação muda e os unicelulares se tornam sensíveis à luz. Sabe-se que os unicelulares. É o surgimento da sensibilidade que pode servir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo. ou seja. que não existiam no mundo vegetal. começa a adquirir formas de comportamento individualmente variáveis. O principal consiste em que o ser vivo começa a "orientar-se" no meio ambiente. eles se concentram no canto aquecido. com uma parte clara e outra escura. capacidade essa que surge no estágio de transição para o mundo animal. 32 . aquecermos uma parte da câmara igualmente iluminada. provoca mudanças radicais nas formas de vida. Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamento individualmente variável se processa com relativa lentidão.

a trajetória desses movimentos começa a refletir a configuração do vaso.É fato característico que essa sensibilidade à claridade se forma paulatinamente entre os unicelulares. Exemplo típico desse processo encontramos no experimento do estudioso americano A. que garantem o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. Assim. que os distingue acentuadamente dos vegetais. Co-locados. eles começam a bater-se contra os vidros dessa proveta mas logo seus movimentos adquirem caráter modificado. obtinha-se uma nova "habilidade". A trajetória por eles adquirida se mantém inclusive quando eles são recolocados num vaso arredondado e passam algum tempo fazendo os mesmos movimentos pela trajetória rômbica. Colocados numa proveta arredondada com água. No começo do teste ele gastava de 3 a 6 minutos para virarse. O processo de mutabilidade do comportamento-individual dos protozoários. se mudarmos as condições que provocam essas reações. Mas essas mudanças são tão importantes que as novas formas de comportamento emergentes (de adaptação às novas condições) permitem realizar as respostas necessárias de adaptação às novas condições de modo muito mais rápido do que se verificava em nível inferior da escada evolutiva. A seção era tão pequena que para sair do tubo no sentido da ação do agente biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se. Pode servir de exemplo o experimento do conhecido pesquisador polonês Edward Dembowski. Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num vaso estreito com seção microscópica. os pro-tozoários fazem movimentos que lhes são característicos. podendo desaparecer inteiramente se durante longo período a luz não for reforçada pelo calor. Smith. Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-tozoários pode ser provocada com base em suas reações defensivas. Mas se esses experimentos eram repetidos várias vezes durante 10-12 horas. Por conseguinte. que 33 . batendo contra as paredes do tubo. transcorre com relativa lentidão e as mudanças que surgem desaparecem com a mesma lentidão. o ciliado começava a virar-se com rapidez bem maior e no final do teste gastava apenas 1-2 segundos para virar-se.em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular. sob a influência das novas condições.

é constituído de uma camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais líquida (plasma-sol). pode ser visto no experimento realizado inicialmente pelo pesquisador belga Blesson. No entanto o fato da manifestação. É característico que. nessa fase da evolução. posteriormente pelo pesquisador soviético A. embora muito elementar. sendo necessário muito tempo para desaparecer. Como vemos. que corresponde às condições mudadas. Problemas da evolução do psiquismo). de novas formas de reação indica o surgimento de urna mutabilidade individual no comportamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se do surgimento de um comportamento autêntico. Sabe-se que o protoplasma. uma vez surgida. que mostra esse surgimento tão lento e o desaparecimento igualmente lento da nova forma de comportamento. A. Leôntyev. Sabe-se também que as camadas externas do protoplasma do unicelular são mais 34 . O exemplo. Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-celulares como entre os pluricelulares de organização relativamente simples. que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular).. É possível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina das propriedades bioquímicas do protoplasma. exige dos protozoários bastante tempo. Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa manifestação de sensibilidade ao agente neutro inicial. Mecanismos do comportamento dos protozoários A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das condições físico-químicas do comportamento dos protozoários e das causas dos seus movimentos positivos ou negativos (movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a partir de outros objetos. a mudança do comportamento se mantém entre eles durante período bastante longo. N. N. Leôntyev (cf. em vida.se processava com uma rapidez 180-200 vezes superior à reação inicial. respectivamente). a formação de um novo tipo de comportamento.

extinguindo-se conforme o tipo de.gradiente de excitação paulatinamente decrescente. Esses gradientes de excitação. a influência mecânica de certa força provoca apenas reações relativamente fracas do protozoário. que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto correspondente de sua superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar ativamente as substâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo. mas se caracteriza por sistemas altamente diferenciados e seletivos de excitação. entretanto. elas mesmas. Se esse objeto é alimentício. Não sendo aliníen-tício. que mudam segundo o processo de metabolismo que nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação. ao que parece.excitáveis do que as camadas internas. dirigido a partir do objeto influente. sofrer as mais complexas modificações. que se estende paulatinamente das camadas externas às internas. . incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um esquema tão simples. Seria. incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação. servem de base aos movimentos do unicelular. entre os unicelulares mais simples (amebas). é depositado no lugar de metabolismo mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto. Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a excitação por luz. ele é absorvido pelo corpo do unicelular. O próprio protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade. O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do protoplasma. que. Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência. ao passo que influências inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo. ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que foi apanhado. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as influências que chegam até eles podem. esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário. e cada ação externa provoca intenso metabolismo. segregando-se para o meio o produto da desintegração. Como mostraram os experimentos de Fogler.

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Por último. é neles que surgem os gradientes de excitação constante. Mas' o que já sabemos a seu respeito nos leva a pensar que. Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do metabolismo mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente. e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos correspondentes ou às instigações que sinalizam o surgimento destes. estão lançadas as bases da complexa atividade da orientação ativa no meio. aqui. os "flagelos" das bactérias. reduzindo a resposta a eles na medida do seu prenuncio repetido e longo. Neles podemos distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma. formando com isto o extremo "cerebral" provisório do seu corpo. Esses "flagelos" estão em movimento permanente e são agentes das funções mais importantes de orientação no meio exterior. assim como os mecanismos que lhe servem de base. A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo especial. de . que mais tarde constituirão traço importantíssimo da atividade psíquica. Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples Os processos descritos de irritação em face sensibilidade às influências neutras que 36 das influências bióticas. espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular. coloca-o em movimento. por exemplo. que formam. que é um dos componentes básicos do seu plasma.Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da ameba saciada. que. Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as observações ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses estímulos são o resultado de certas modificações e do ácido ribonucléico. o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes. Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa.

A alimentação por meio da difusão direta de substâncias alimentícias. eleva-se o papel da orientação ativa no meio externo. a velocidade do processo de excitação aumenta ainda mais. Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares.5m por segundo (observemos que com a contínua evolução do sistema nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação. Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da excitação se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular. na estrutura do corpo da medusa. agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada). a que nos lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma mais excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso. agentes da função que nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. Se o processo da excitação pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por segundo. Isto leva. por exemplo.anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares. que ocupou posição central no nível dos protozoários. 37 . Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente simples. com o surgimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velocidade do processo é igual a 0. qué entre esses animais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma de rede. à separação das células de uma recepção especial de irritações que chegaram ao corpo do animal. pertencentes à classe dos celenterados. Torna-se necessário assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de excitação no protoplasma dos unicelulares. chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 metros por segundo nos vertebrados superiores). A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. anêmona-do-mar e estrela-do-mar. por último. e ao surgimento das primeiras células contrativas. É isto que leva a uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-ricelular.

uma parte do corpo (por exemplo. A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível. disposto ao lado dele. criando antes de tudo uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimen38 . capaz não só de receber mas também de processar. sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa. Essa alimentação encontra-se agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais difícil. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante". o papel de "dominante" passará para outro raio. O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de vida. têm também os seus limites. tornando-se incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo do animal. codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado. os animais com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu comportamento. pode tornar-se dominante e assume a função de órgão mais ativo no movimento. É natural que essa falta de um órgão dominante permanente. Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais. que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso primário (reticu-lar). Só entre os celenterados mais complexos. Como nas etapas da evolução já descritas. e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório. Esses defeitos são eliminados nas etapas posteriores da evolução. um raio da estrela-do-mar) não difere pela estrutura de outras partes do corpo (raios). limita substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível.No entanto as vantagens consideráveis.

concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis. enquanto a parte traseira se limitará a simples contorções.tos.-foto e hi-dro-receptores. onde se concentram no primeiro "centro" que surge pela primeira vez nessa fase da evolução. bem como mudanças de umidade. e os "programas" de comportamento que surgem em forma de impulsos motores se difundem pela cadeia dos gânglios nervosos. sem revelar nenhum indício de movimento organizado. ao passo que os gânglios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. principalmente nos insetos. cada um desses gânglios corresponde a um segmento particular do corpo do verme. A extremidade da cabeça do verme. É a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso. Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso.-termo. A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre eles tipos mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de no- . marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital. Na extremidade frontal do verme. Esses aparelhos percebem mudanças químicas. Isto é facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo do verme. que se processa com a ajuda dele. onde se concentra uma rede especialmente densa de hemo. Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior.-mecano. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão. Os impulsos que chegam a esses gânglios provocam movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio frontal. térmicas e de luz que ocorrem no meio exterior. que se distingue acentuadamente do princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). conservando seus movimentos organizados. distribuídos de maneira especialmente densa. que aparece pela primeira vez nos vermes e adquire a máxima complexidade nos invertebrados superiores. que leva ao surgimento do sistema nervoso em cadeia ou ganglionar. Os sinais dessas mudanças passam pelos filamentos e chegam ao núcleo frontal ou gânglio. Aqui esses sinais são codificados. Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento. assume papel principal.

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No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico. que provocava reação defensiva. M. Com várias repetições desse experimento. Yerkes. labirinto extremamente simples. que colocou minhocas num tubo em forma de T. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo americano R. a "aprendizagem" começa a a processar-se duas vezes mais rápido e depois de . evitando o choque elétrico. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita. a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminharse para o lado direito. Processo de "ensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T Testes N" de t 1-40 — 41-80 — 81-120 — 121-160 — 161-200 — 201-240 — Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T 'rr Testes JV? de os erros 17 Ensiname repetid nto o 1-40 —.vos modelos de comportamento individualmente adquiridos. 41-80 — 81-120 — Reensinamento 161-165 — 166-175 — 176-185 — 186-195 — 196-205 — 206-215 — 216-225 — Repetindo-se esse 14 13 9 4 4 19 9 4 4 7 7 7 5 3 2 mesmo experimento após uma longa pausa.

80 experimentos o número de erros já é mínimo. ainda. Foi sintomático. que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento". 40 .

Como mostrou o experimento. o pesquisador americano J. eles cometeram imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns não-ensinados. Ao serem colocados pela primeira vez no labirinto. ele triturou os corpos desses vermes. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de "habilidade" nessas etapas da evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-plasma e que a "habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral. ribonuclease. os vermes que absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. 41 . que a minhoca possui uma forma primitiva de memória.Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas formas de comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas. Isto foi mostrado pelos experimentos nos quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente depositados em solução de ribonuclease (fermento que dissolve o ARN) . provocadas por semelhante "aprendizagem". Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento necessário num labirinto muito simples. estão relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) .solvente do. A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse experimento pode-se apenas supor que as mudanças. ao passo que o extrato das partes anteriores dos vermes "ensinados" (incluindo a substância de gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. Nesses experimentos. V. noutros termos. Depois disto o extrato das partes posteriores do corpo dos vermes "ensinados" não provocou o efeito necessário. Depois disto. Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da possibilidade de transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação dos mecanismos bioquímicos que servem de base à memória elementar. Esses experimentos se referem tanto à importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade" como à importância que para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio frontal. cujas células são imunss ao efeito dis-. fez deles um extrato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam sido ensinados.

A princípio. as células sensíveis à luz estavam simplesmente concentradas na superfície frontal do corpo. dando ao animal a possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia localizar a fonte da luz no espaço.Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" por via humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade". Isto permitia aos animais orientar-se a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a direita ou a esquerda mas ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo. Um pequeno orifício. Vejamos isto no exemplo da evolução dos fotorreceptores. ainda. verificado na assimilação da substância dos corpos dos vermes ensinados. com o desenvolvimento de programas sumamente complexos. As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de sensibilidade. os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a aquisição de uma "habilidade" estável e que todas as células do corpo do animal parecem participar da conservação dessa "habilidade". Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos complexo-diferenciados de recepção. permitia a refração da luz cadente e o efei42 . que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. os discos hipersensíveis se arqueavam. adquirindo a forma de uma esfera vazia. Na etapa seguinte da evolução. Só na última etapa da evolução. que permitem ao animal adaptar-se às condições complexas porém permanentes e estáveis do meio. Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa questão. Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com nitidez especial nos articulados. que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o cristalino). Essa evolução está relacionada. as células sensíveis à luz se concentravam em dois discos sensíveis à luz. que permitem assimilar uma informação altamente especializada que vem do meio exterior.

das abelhas. o mais importante órgão receptor de luz. Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente as células visuais. construído. eles têm receptores químicotáteis especiais (situados nas antenas). que permite reconhecer à distância os objetos agentes. Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. nas pernas). de muitos milhares de células independentes. as células olfativas. que pela primeira vez permitia não apenas reagir à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente. as células sensíveis da cavidade bucal. As excitações. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas. que reagem às mais ínfimas vibrações ultra-sônicas. que servem de base aos movimentos de adaptação dos insetos . difundem-se pelos filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal. por exemplo. na parte posterior. A par com o complexo "fotorrecep-tor (o olho). cuja especialização foi por eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações. A estrutura do olho. é diferente em animais diferentes. continua sendo uma das conquistas mais importantes da evolução.to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa esfera vazia. Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível — o olho —. que é um protótipo do cérebro e um aparelho que reúne (codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas ultracomplexos de programas congênitos de comportamento. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão complexo. receptores de vibração (situados nos tímpanos das pernas). provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores.000 vibrações por segundo. às quais chegam os impulsos dos receptores periféricos. que captam as mínimas mudanças de sabor. Nos insetos ela tem o caráter de "olho de faceta". É característi- . que permite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um sistema auto-regulável de aparelho refratário. apresenta uma estrutura muito complexa. às vezes. às vezes até a 600. receptores de sabor (situados na cavidade bucal. O gânglio frontal dos insetos superiores. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre nós. É possível que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos receptores por nós desconhecidos. na parte média.

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consiste em que tais programas são congênitos e transmissíveis por hereditariedade. Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas. a estrutura dos órgãos receptores. que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas neurôniças do gânglio frontal em forma organizada. assegurando com isto o reflexo de determinadas influências estruturalmente organizadas.co que a disposição dessas células tem caráter organizado. Esses programas são produzidos por milhões de gerações e transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da estrutura do corpo (as formas das asas. são transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico situado abaixo. A peculiaridade dos programas sumamente complexos. que reagem aos mínimos indícios particulares da informação que chega ao organismo. Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente complexo. impulsos esses que lhe formam o comportamento. que permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências captáveis em sistemas integrais. São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento. posteriormente. É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal. onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto. Nelas já se pode observar uma estrutura plana de "vídeo". reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos da forma de funcionamento desses neurônios). Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão grande que exigem análise especial e minuciosa. entre os insetos. Eles estão bem adaptados às condições de existência dos insetos). que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos. que representam uma parcela de absoluto predomínio no comportamento dos insetos. Os códigos de excitações. é característico que já nessa fase da evolução façam parte da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados. dividindo-a em grande número de elementos componentes e permitindo. Freqüentemente eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram exemplo de comportamento racional. as características da tromba. próxima da estrutura 44 .

o brilho da água leva o mosquito a deitar células na superfície aquosa. para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para metamorfosear-se em cri-sálida. Assim. os insetos não precisam estudá-lo. ou dos programas congênitos de comportamento da abelha. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca na terra. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para que as larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento. Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar da racionalidade dos instintos e aproximá-los do comportamento racional. que tece uma teia impressionante pela construção. enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles estejam suficientemente cheios. é gerado de fato pela vibração da teia. encobre mecanismos elementares. Não é necessário falar dos programas congênitos de comportamento da aranha. nascem com essas formas de comportamento assim como nascem com uma estrutura dos órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade. que ataca a mosca que se enreda na teia e a devora. Por isto basta substituir a água por um espelho brilhante para o mosquito começar a depositar células em sua superfície. se um diapasão vibrante toca a tela. que constrói favos de forma economicamente ideal. particularmente da corrente denominada etologia (etos -— comportamento). onde elas secam fatalmente.ideal matematicamente calculada. Os mecanismos descritos permitem avançar consideravelmente no sentido de melhorar a compreensão dos processos que servem de base ao . Essas pesquisas mostraram que os complexíssimos programas de comportamento "instintivo" são gerados de fato por estímulos elementares. O complexo programa congênito de atividade da aranha. Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem movimento. Os exemplos citados de comportamento racional altamente complexo. que colocam em ação os ciclos congênitos dos atos de adaptação. isto ela faz com admirável precisão. e muitos outros. Só ultimamente as pesquisas dos zoólogos. a aranha se lança contra ele assim como se lança contra a mosca. que impressiona pela complexidade e a aparente racionalidade. deram certa clareza à forma misteriosa do comportamento e mostraram que essa forma de atividade. são congênitos.

comportamento congênito e 45 .

e levava a supor que a minhoca percebe a forma da folha e "calcula" por que extremidade é melhor arrastá-la para o buraco. Isto se considerava manifestação da "atividade racional" das minhocas. passou seiva da parte superior ou do enxerto da folha numa ponta dos pauzinhos. mas pela grossa.passar da simples descrição à sua explicação. Neste caso a minhoca tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina. Para verificar isto ele colocou diante da minhoca vários pauzinhos iguais. Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pesquisador alemão Haneli realizou o seguinte experimento: cortou de uma folha um pedaço. que mostra a complexidade com que se desenvolve semelhante pesquisa e que interessantes são os resultados a que ela conduz. passando gelatina neutra em outra. ainda. seiva da parte superior numa ponta e seiva de enxerto noutra. Este supôs que o comportamento da minhoca fosse determinado não pela percepção da forma mas por uma sensibilidade química bem mais elementar. Como testes de controle. reproduzindo a forma dessa folha mas com a ponta para baixo. fazendo o mesmo na ponta de outros com seiva da base da folha e. à qual Dar-win se referiu em sua época. Os resultados do teste mostraram que. mas passou seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos. após se abastecerem de folhas para o inverno. É sabido que algumas variedades de minhocas. A causa desse comportamento da minhoca tornou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt. (a) (b) (a/b) seiva da parte superior — bases da folha (b) relação de preferên-da folha (s) cia de uma ou ouparte superior da folha (s) — enxerto (t) tra extremidade da parte superior da folha (s) — gelatina (g) folha enxerto — gelatina (g) (e) 51:49 . a freqüência com que a minhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra ponta não era a mesma e que o fator principal que resolvia a questão era a diferença de distinção química entre a parte superior e seu enxerto. arrastam-nas para os seus buracos pela extremidade fina. mostrar o quanto o comportamento instintivo difere do comportamento racional. nesses casos. Citemos apenas um exemplo.

68:32 93:7 84:16 46 .

a hipótese segundo a qual a minhoca reage à forma da folha foi abandonada. Esses sinais. nos quais a abelha era treinada para pousar em xícaras com solução de açúcar. por exemplo). Todas as observações descritas permitiram que nos convencêssemos de que. Essas pesquisas mostram que o fator que permite à abelha distinguir as formas correspondentes não é constituí47 . que acionam mecanismos congênitos muito complexos.Assim. é com dificuldade que a abelha distingue formas geométricas simples como o triângulo e o quadrado.com nitidez especial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha. No teste de controle em que se passava* gelatina neutra numa ponta do pauzinho. a minhoca preferia duas vezes mais a ponta com seiva da parte superior. Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos pela forma complexa da flor e às vezes por seu colorido. essa preferência pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais nítida. As condições que põem em ação os programas congênitos de comportamento. apesar dos programas de comportamento congênito muito complexos que dominam nos invertebrados (principalmente nos insetos). refletem as condições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma longa evolução. Deste modo. a minhoca não manifestava qualquer preferência por essa ou aquela ponta. eles podem ser acionados por sinais relativamente simples. dispostas sob ângulos diversos. não pousando sobre o primeiro e reagindo seletivamente ao segundo. Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo alemão Frisch e posteriormente Hertz com seus experimentos. quando esta pousa seletivamente sobre essas ou aquelas espécies de flores melíferas. manifestaram-se . se uma ponta do pauzinho estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra ponta com seiva da base. mas distingue facilmente formas complexas como a estrela pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes. Por último. mostrando-se que um sentido químico bem mais simples desempenha papel decisivo no processo dessa complexa forma de atividade. Se uma ponta estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do enxerto. cobertas por desenhos de diferentes formas geométricas. a abelha distingue com a mesma facilidade o círculo simples e o cortado.

Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção dos indícios que acionam os programas congênitos (instintivos) de comportamento são as condições naturais de vida (condições ecológicas). Neste caso. É muito possível que essa elevada seletividade dos indícios a que reage o inseto esteja relacionada com o surgimento de neurônios do gânglio frontal altamente especializados. Deram resultados análogos experimentos em que a abelha distinguiu coloridos diferentes. amarelo-verde. distingue com muito mais facilidade as cores mistas (vermelho-amare-lo. Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. no processo de evolução. convenceram de mais uma importantíssima peculiaridade do comportamento congênito "instintivo". que reproduzem o colorido de flores diferentes. Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial. que. etc). que determinam exatamente o indício distinguido pelo animal. a disposição das formas no espaço. A 48 . o aspecto estrelário ou o corte das formas. afastando-a alguns centímetros. Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um comportamento muito "racional". entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai. As pesquisas. pega-se a presa que está na boca do buraco. de acordo com as quais esses programas se formaram no processo de evolução. etc.. volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. . a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior e. realizadas por zoólogos e psicólogos. ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar anterior. traz a presa para dentro e se retira. verde-azul. adquiriram a capacidade de responder seletivamente aos estímulos de importância vital como as cores mistas. Verificou-se que os programas congênitos de comportamento "instintivos" são racionais apenas em determinadas condições rigorosamente padronizadas. aproveitando o momento em que a vespa faz seu reconhecimento no buraco.do pela simplicidade geométrica destas mas por sua semelhança com os instigadores naturais: a forma das flores. Eles mostraram que a abelha distingue com dificuldade as cores puras. Mas basta mudar um pouco essas condições para que os programas congênitos deixem de ser racionais e percam seu caráter "racional". ela deixa a presa junto do buraco.

Observações análogas foram feitas com abelhas. mecânicos. más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no mundo dos insetos. perdendo nessas condições a sua racionalidade. após depositar a quantidade suficiente de mel. Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento. que se distingue por um grande excesso. criando-se condições. Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento. Via de regra. Mas se em condições de um experimento especial corta-se todo o fundo dos favos. e sempre que a presa se desloca alguns centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco. apesar de que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos inadequados. assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento "instintivo" são suficientes para a preservação da espécie. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução. A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio biológico fundamental de vida dos insetos. esta continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo. são programas rotineiros. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução — os vertebrados.vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas. conservando sua aparente "racionalidade" apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da evolução. Por isto. predominantes na atividade dos insetos. É sabido que a abelha enche os favos com mel e. que tornam racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais elevado. que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida. 49 . E aqui o comportamento. perde sua racionalidade quando essas condições se modificam. estes depositam um imenso número de células. com uma mutabilidade lenta e difícil. derramando-se o mel neles depositados pela abelha. £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células consegue sobreviver. lacra os favos.

no homem. e a sobrevivência dos indivíduos isolados se torna uma condição para a preservação da espécie. Essa nova forma de comportamento existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da evolução começam a ocupar posição cada vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e. hereditarieda-de. Só os vertebrados inferiores. Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de novas possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de novas formas individualmente mutáveis de adaptação levam. que habitam o meio aquo-so. que seriam capazes não apenas de receber os sinais do meio e pôr em ação os programas de comportamento "instintivo".O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que tanto as formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um princípio inteiramente distinto. à criação de órgãos nervosos basicamente novos. As condições de alimentação se tornam mais complexas. em seguida. Muda simultaneamente também o tipo de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais raramente 5-6 semelhantes. como também de analisar a informação recebida e fechar as novas ligações. paralelamente ao comportamento "instintivo" (ou de espécie) congênito e pouco mutável. Tudo isso cria uma necessidade biológica para que. transmissíveis pors. Por isto só entre os peixes a prevalência de formas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é suficiente para a preservação da espécie. aumentando infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em constante mudança. assegurando novas formas . apresentam um excesso de reprodução tão grande que os aproxima da classe dos insetos. pois sobrevive apenas um número relativamente pequeno de indivíduos que nascem de ovas fecundas. o meio mais mutável. afastar definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de comportamento. surja um novo comportamento individualmente variável. no processo de evolução.

individualmente 50 .

que é constituído de formações do tronco superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais elevadas apenas esboçadas. Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã. garantem os processos de regulagem do estado interno do organismo — metabolismo (hipófise). resposta a um sinal previamente analisado. a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua língua viscosa. construídos segundo o tipo de conjuntos nervososecretórios ou de núcleos nervosos (gânglios). nos vertebrados superiores. situados no tronco cerebral. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas. Neste caso a cintilaçjío aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o papel cintilante como o faz contra a mosca. formações de uma nova camada de grandes hemisférios. A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas umas às outras. absolutamente. Ao perceber uma mosca. não sendo. que por pouca coisa diferem dos tipos de atividade intensiva acima descritos.variáveis de comportamento. incluindo posteriormente. Esses órgãos. Esses programas de comportamento apresentam estrutura semelhante à acima descrita. Esse órgão é o cérebro. assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas "instintivos" e pouco mutáveis de comportamento que se formaram no processo da evolução. predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes realizar programas congênitos mais elementares de atividade adaptadora. 51 . respiração e circulação sangüínea (tronco) e respostas reflexas aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo quadrigêmeo). que se desenvolvem cada vez mais e aos poucos vão começando a dominar inteiramente as formações de nível inferior. Esse comportamento complexo é determinado por um estímulo relativamente elementar — uma cinti-iaçâo visualmente perceptível —. que incluem inicialmente o sistema talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo). Os níveis inferiores. cuja estrutura reflete o longo caminho percorrido pela evolução.

D. das formas biológicas estáveis de sua existência). os órgãos da camada antiga. Assim. e. Mas essas formas de comportamento. que começam a predominar nos répteis e nas aves e. o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais. É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de comportamento animal. Como mostraram as observações de diversos autores. que refletem as formas de vida do animal. às vezes muito complexos. ao passo que o esmeri-lhão. a^nda estão estreitamente vinculadas a formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. asseguram formas de comportamento individual mais plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores.. que se alimenta de carniça. que já adquirem traços de variedade individual. Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem. esses movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça). Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento. os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante).Os órgãos do sistema talâmico-estriado. entre elas as do fisiologista soviético A. posteriormente. tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar 52 . Slônim. podem ser gerados por estímulos relativamente simples. no cordeiro.

Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural. baleia leão cão macaco homem 1/10.ao ver uma ave. que mostram que processos de percepção e que movimentos podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex. como mostram os dados que abaixo citamos. 53 . o que é menos conhecido. edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do sistema nervoso dos grandes hemisférios. Sobre os órgãos que acabamos de descrever. No entanto. que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência (ecologia) dos animais. realizado pelos órgãos das áreas mais elevadas do cérebro. por mais insignificante que seja a sua complexidade. que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das observações do pesquisador alemão Schafer. já nos mamíferos superiores ele adquire importância de maior peso e os processos de comportamento. Se nos mamíferos inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído. mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos de comportamento. começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do corpo. em outros termos. Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações. já não podem ser realizados com a destruição do córtex. particularmente do novo córtex cerebral cujo peso. Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral.000 1/540 1/250 1/100 1/40 Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. a raposa que se prepara para obter alimento-sofre inibição ao vê-lo e retém a saliva.

após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios. depois da extirpação do A ave. Tingue os formas e só reage à luz. Continua a ver. distribuídas em seis camadas principais. depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemis- córtex dos hemisférios. orientarse nas suas mudanças.continua a voar. cuja massa é constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas. pode manter-se em pé somente ajudado. A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais. a pousar no luGar marcado O rato. tos independentes. não dis- férios. fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento individualmente variáveis. A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental — o córtex cerebral — consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior. córtex dos grandes hemisférios. depois da extirpação do O gato. pode manter-se em pé mas se desorganizam os seus movimen dos grandes hemisférios.Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da evolução (segundo Schafer) Funções visuais Funções motoras A ave.O cão. O macaco fica cego após a extir. mantendo os seus movimentos. 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex dos pação das ares correspondentes grandes hemisférios. depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios. O macaco. correspondentes a essas mudanças. Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas complexas de comportamento animal. a quarta destas 54 .recupera seus movimentos algumas horas depois.

olfato. A quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e. No macaco. finalmente. O princípio ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervoso central se manifesta também aqui. ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que é para este o mais importante órgão do tato. dos sentidos e das superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas regiões estão ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato. visão. a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do córtex ocupam posição de grande destaque. ao passo que no cão (animal predominantemente olfativo) as áreas dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior. audição e sensibilidade neuromuscular). Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian. tanto mais importante é o seu lugar no córtex cerebral. O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos órgãos do corpo. que estabeleceu por um método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do porco é muito pequeno.é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos. desproporcional ao seu tamanho. ao passo que no homem as regiões olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas. que asseguram a formação de novos programas de comportamento individualmente variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios. que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas ligações. do faro. Deste modo. e quanto maior é a importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida do animal. no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo olfato) as regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios.) ocupa um território imenso. É uma peculiaridade que a projeção dos lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse animal — ocupa idêntica posição desproporcional nos grandes . etc. o último grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios. incluindo aí as camadas restantes) .

55 .

como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio. que se desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos vertebrados superiores. Tudo isso mostra que o córtex dos grandes hemisférios do cérebro. que se realiza através do córtex cerebral. 56 . então seria bem mais complexo o mecanismo do comportamento individualmente variável. o estímulo que tenha sido de importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento. surgido no processo de evolução de uma espécie. Este se reduz a que. foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados. bem como em órgão fundamental de regulação do comportamento individualmente variável. perigo) começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos programas de comportamento. entretanto. mas enfatizou-se a atenção na maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de comportamento.hemisférios desse mamífero. gerados no processo da evolução. que assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação recebida do meio exterior. acionasse programas complexos de comportamento. que levam ao surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis. Os mecanismos fisiológicos. As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores. forma-se sob a ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que o converte em órgão principal. Mecanismos do comportamento individualmente variável Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo qualquer. a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua formação. por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que o ameaça. É de interesse.

Para resolver tais problemas. que levam o animal a atingir o objetivo. noutros termos. era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. Watson e muitos representantes do behaviorismo americano). Uns explicavam esse processo a partir de posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike. Embora o método de estudo da aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao método dos "reflexos condicionados clássicos". O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os caminhos errados. A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos". que levam à solução das tarefas colocadas diante do animal. O processo de aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento. separando-o do estímulo (a comida) por um obstáculo (por exemplo. Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le- . O animal dedvia mover um pedal ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido. em cujo extremo havia um estímulo (objetivo). consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo. sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov. considerando que as novas formas de comportamento. surgem no processo de testes e erros desordenados. uma porta fechada a ferrolho). do caráter das tentativas que ele empreendia. Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto. aplicado por Pávlov. condizentes com as novas condições. os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de "aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". Com essa finalidade colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática). aquele método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de novos atos adaptadores. encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo.

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A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação. escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. reforçadores os bem-sucedidos. às vezes. Krech. Tolman. o reforço pelo êxito desses movimentos casualmente surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos inadequados fossem extintos. Essa situação da "tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal. os programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise. realizadas por pesquisadores americanos. P. 58 . que são posteriormente reforçadas. Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à margem da análise o próprio processo de seu surgimento. restringem-se paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias reações motoras adequadas ao objetivo. Posteriormente. dirigidas pelo objetivo. Outro grupo d& autores mantinha outras posições.vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a comida. analisa a situação. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo. Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. Várias observações. o fisiologista soviético V. abandonando a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso". ao tentarem examinar as regras pelas quais se formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal. confirmaram o fato de que. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de um ativo desempenho de orientação. D.

que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos que adquirem "habilidade" no labirinto. via de regra vão sempre em direção ao objetivo.Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) adquire a habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo. compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos animais. o animal que ao menos uma vez tenha se orientado no labirinto. passiva59 que permitiu enquanto ao outro animal movimentar-se animal observava . situados na direção oposta ao esquema do movimento. Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos. aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto. Nesses testes de "aprendizagem latente". Como mostrou o pesquisador americano Dashnul. com a rapidez dos animais do segundo grupo. o segundo grupo de animais adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" confirmam o fato de que as tentativas que o animal empreende no processo de aquisição de novos programas de comportamento não são casuais mas constituem o resultado da orientação ativa do animal nas condições do meio. com muito mais freqüência do que nos becos sem saída do labirinto. pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter casual mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou como surgimento de uma "hipótese motora". ativamente pela caixa problema. cria um sistema geral de direção no qual ele corre e entra nos becos sem saída do labirinto. situados na direção do caminho dado. Esse experimento foi realizado pelo pesquisador americano Hald. que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo. Foi característico o fato de que a aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao animal orientar-se ativamente nas condições do labirinto. dandose-lhes a possibilidade de se orientarem previamente nas condições do labirinto. os testes feitos pelo animal colocado em labirinto não são casuais. Deste modo. por isto.

. por meio de movimentos inteiramente novos). 60 •. fazendo movimentos inteiramente novos. e. o rato acabou se colocando no rumo certo e atingindo o objetivo. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação pela orientação prévia do animal nas condições do teste. uma parte do labirinto foi excluída. em hipótese alguma. Neste caso o rato devia atravessar a bacia a nado. Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. mas com isto não perdeu a habilidade adquirida. adquiriu a habilidade motora com rapidez bem maior do que o segundo. por uma série especial de testes. Também neste caso o primeiro animal. esquemas dinâmicos complexos. adquiridos em condições de tarefas especiais. Movendo-se. é confirmado. Depois que essa habilidade foi adquirida. em cujo teste o rato adquiriu a habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto. Tudo isso mostra que os programas motores. que não é mera finalidade dos movimentos mecanicamente adquiridos. Após formar no rato a habilidade de encontrar os caminhos no labirinto. Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter. e. O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida. o rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram.mente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. J . finalmente. que se orientara ativamente na situação. antes. destruiu-lhe em seguida o cerebelo. colocando-se em seu lugar uma bacia com água. que se formam no animal no processo de •sua atividade orientada. são. que mostram que essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática. Como resultado dessa operação. um fim mecânico dos reflexos.. por cambaleios (i. porém. não são. i.

61 . a raposa). que correspondem a uma situação variável. limitado. a vaca). que em condições naturais são obrigados a procurar a comida. que se erguem freqüentemente sobre as patas traseiras. É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas congênitas ("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". nestes a atividade dirigida se processa na forma de buscas ativas. no qual o mergulho e a perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de comportamento. podem aprender facilmente a executar movimentos que imitam uma "lavagem de roupa". que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida (com a ecologia) do animal. o leão-marinho. Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos movimentos ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do programa motor mas se forma no processo dos testes motores. O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o caráter das novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas naturais de comportamento. a caçar a presa (as aves de rapina. O guaxinim ou o urso. sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento. a ovelha. Deste modo. etc. Ocorre o. a atividade dirigida tem caráter passivo. Nos herbívoros. os programas naturais de comportamento predominam e a aquisição de novas fomas de comportamento individualmente variáveis é um processo lento. deixando livres as dianteiras. aprende com especial facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la.contrário com os carnívoros. principalmente nos animais que ingerem alimentação pronta (por exemplo a galinha.Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre os vertebrados. Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") com a aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo característica do comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução.

Esse mecanismo de "aceptor da ação" (P. Se a ação leva ao efeito necessário. Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter autoregu'ador. se não leva a esse efeito. — a comparação das ações executadas com a intenção inicial. A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los. surgem novas formas de comportamento individualmente variável. antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor- . com pleno fundamento. No processo dessa atividade começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa. que se encontram no topo da escada da evolução. Nos vertebrados. de controle dinâmico da ação é o elo mais importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual.O comportamento "intelectual" dos animais A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite supremo da evolução do comportamento no mundo animal. podemos denominar comportamento "intelectual". ao passo que os movimentos se tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa. distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. da qual fazem parte: — a atividade de procura c orientação. Assim. Dois fenômenos essenciais. K.» — a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do objetivo. Anokhin). ela cessa. que. e. i. particularmente os primatas. nas etapas superiores da evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura desmembrada. o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. que leva à formação do esquema de solução da tarefa. cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos vertebrados..

62 .

Ao contrário. colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. À vista do animal. que "extrapola" o movimento observado e leva em conta o deslocamento. sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha. representa uma das importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento individualmente variável nos vertebrados superiores. O "reflexo extrapolativo". orientando seu comportamento pelo movimento dos olhos). O estimulante aparecia aos olhos do animal no furo do tubo e continuava em movimento. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução. O segundo é o fato das formas de desenvolvimento da memória dos animais. que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos vertebrados supe- . Essas observações mostraram que os animais. O animal se colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante. O1 primeiro deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada. Nas observações. O segundo fato. considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles. "extrapolando" esse movimento (ao que parece. foi estabelecido que alguns animais mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. V. especialmente aqueles que levam modo de vida carnívoro.tamento dos animais. contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia. que se tornam mais complexas. prendia-se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. que Krushinsky observou em vários testes. observam a presa e a perseguem (o corvo. o cão). Sabe-se que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas. que tem a forma especial de comportamento "antecipante". Nesses testes. efetuadas nos últimos anos por Krushinsky. por exemplo). reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. Foi esse reflexo. à qual o pesquisador soviético L. tornando a aparecer no final do tubo. observavam os movimentos do alimento e. que se encontram numa fase inferior de evolução.

63 .

A essência do teste consistia no seguinte: Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada. colocava-se o animal entre duas caixas. É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do meio exterior. é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da memória nas fases subseqüentes da evolução dos animais. sendo depois libertado. Se o vestígio do estimulante colocado numa das caixas se mantinha. não o fazendo se o vestígio desaparecia. Percorrido certo tempo. pelo psicólogo soviético N. ele o apanhava. substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. S. na qual se colocava o estimulante à vista do animal.riores. já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens dos objetos circundantes. Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto. se o vestígio não se mantinha. o animal corria para essa caixa. Se o animal conservava o vestígio do primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro. cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal. numa das quais colocava-se um estimulante aos olhos do animal. Voitonis e o fisiologista polonês Y. corria imediatamente para esta. Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos. Noutros testes. Em testes mais complexos. Y. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e acadêmico soviético I. Isto era indício de que o animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto. Konorsky. nas etapas superiores da evolução dos vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. Esse fato foi observado minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais. libertava-se o animal do cabresto. Simultaneamente com a formação da percepção por imagem. 64 . Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais complexas de comportamento. o animal não apresentava movimento dirigido. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa.

Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " o macaco " " " até 10 minutos " " de 16 a 48 horas. usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto instrumentos especiais. O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo. colocava-se o macaco numa jaula fechada. ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não permitia que a mão do macaco o alcançasse. desta feita com portas. Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas quais lhe era dado o objetivo.Os testes de "reações retardadas" mostram que. Colocava-se o macaco numa grande jaula. pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos). Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual" dos macacos. A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever. aumenta a duração da conservação das respectivas imagens. É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas "intelectuais" superiores de comportamento do animal. Para atingir o objetivo. O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou. nas fases posteriores da evolução dos vertebrados. no início da década de 20 do corrente século. Para estudar essa forma de comportamento. o macaco devia desistir das tentativas de obtenção imediata do objetivo. usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula. Diferentemente da 65 .

o macaco abandonava todas as tentativas de alcançar a comida por via direta. na terceira variante dos testes. pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. Em seguida vinha o segundo período. e os alimentos do macaco se tornavam ato executivo para a realização de um "plano de solução" anteriormente adquirido. e obtinha o alimento. devia alcançar a vara mais próxima — a curta — e. 66 . arrastava imediatamente os caixotes. ao alcance do braço. em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente a um braço estirado. com a qual alcançava o alimento. obter o estimulante. mas no campo de visão do macaco havia duas varas: uma curta. Depois disto vinha o momento decisivo. no qual o animal permanecia sentado. que Kõhler descrevia como surgimento inesperado do insight. o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior. Para resolver a tarefa. situada mais adiante e. olhava em torno. colocá-los uns sobre os outros e trepar. neste caso a orientação na situação se transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o "campo visual" da percepção e se realizava por meio dos respectivos movimentos dos olhos. situada na parede traseira da jaula e. imóvel. Finalmente. O macaco se dirigia imediatamente à porta. o animal devia arrastá-los para perto deste. o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo. A princípio o macaco tentava sem êxito obter o estimulante por via direta. Com ela conseguia o alimento ou uma vara mais comprida. limitando-se a examinar a situação. até o macaco ficar exausto e abandoná-las. Mas na mesma área foram colocados caixotes. contornando-a. com o auxílio desta. um pouco adiante. Em testes mais complexos. porém. Todos esses testes apresentaram como característica o fato de que a solução da tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período da observação antecedente da tentativa. na última situação.primeira situação. obter em seguida a vara comprida. estirando-se ou saltando em sua direção. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o objetivo. A princípio. colocava-os um sobre o outro. para alcançar o estimulante. já com ajuda desta. Por último. trepava. e outra comprida. obtinha o estimulante ou desistia de suas tentativas e apanhava a vara. Essas tentativas inúteis podiam durar muito. As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro.

Se nos experimentos de Kõhler a descrição do comportamento dos macacos é definitiva. tinham de puxar os frutos para si junto com os ramos). fechando-os em certas "estruturas visuais". Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato de que. ao examinar a situação. O conhecido psicólogo americano Yerkes. quando a vara e o alimento (uma fruta) ou mesmo as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas de tal modo que não caem apenas no campo de visão. O psicólogo austríaco K. a tarefa se torna insolúvel para o macaco. "aproxima" os objetos que dela fazem parte no "campo visual". acha possível aproximar essas formas de comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las por via antropomórfica como manifestações de "iluminação criativa". Essas ações se tornam bem mais difíceis para o macaco e podem ser realizadas somente se as pontas de ambas as varas estiverem no campo de visão direto. o macaco deve enfiar uma vara de bambu em outra para. colher uma fruta. que viviam em árvores. no comportamento "intelectual" dos macacos. A solução posterior da tarefa é. segundo Kõhler. alongan-do-a. essa incidência das duas varas num único campo de visão é o que pode levar à solução adequada da tarefa. que repetiu a pesquisa de Kõhler. O próprio Kõhler expressa a hipótese de que. Segundo Kõhler. a explicação das vias pelas quais o animal chega à solução "intelectual" da tarefa apresenta complexidades consideráveis e diferentes pesquisadores dão a esse processo interpretação diversa. a análise da situação se transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o macaco. apenas a realização de estruturas "visuais" em movimentos reais.Foram justamente essas observações que deram a Kõhler fundamento para considerar o comportamento do macaco um exemplo de comportamento "intelectual". por exemplo. . Kõhler tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos quais o macaco deve antes preparar o instrumento que usará posteriormente para conseguir o alimento. Bühler cita a experiência anterior do animal para explicar esse comportamento e considera que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto como resultado da transferência de uma experiência anterior (os macacos.

67 .

Se uns pesquisada»» o opõem às formas mais elementares de comportamento " dualmente variável dos animais. a -que Pávlov chamava de reflexo orientador e que.O problema dos mecanismos que servem de base ao surgimento de comportamento "intelectual" do macaco não poce ser considerado definitivamente resolvido. que fez observações com o comportamento dos macacc"' possível não opô-lo às formas mais elementares de mento e consideram o comportamento "intelec cacos como uma espécie de "pensamento maniu. num processo de testes e erros. Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais Vimos que o comportamento adaptador individualmente variável dos vertebrados superiores pode adquirir formas muito complexas. não podendo 68 . O segundo traço. no macaco. Todo comportamento animal tem por base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de alimento. -em decorrência do fato de que as mãos dos macacos. que caracteriza o comportamento de todo animal. Só nas etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a necessidade de orientar-se no meio ambiente. . razão por que o comportamento do animal pode ser considerado com todo fundamento como comportamento cortical-subcortical. outros (por exemplo. começam a executar formas mais complexas de atividade orientada. Nenhuma atividade desvinculada de todas essas necessidades biológicas é possível para o animal. autoconservação ou necessidade sexual).. consiste em que esse comportamento é sempre determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ("pelo campo exterior") ou por vestígios da experiência anterior. que adquire caráter mais r. atinge desenvolvimento considerável. livres da função de andar. Surge uma pergunta natural: quais são os seus traços característicos e quais os limites que o comportamento dos animais não pode ultrapassar? A análise do comportamento dos animais permite indicar três traços fundamentais. O primeiro é o fato de que todo comportamento individualmente variável (mesmo o mais complexo) do animal conserva sua ligação com os motivos biológicos e não pode ultrapassar-lhe os limites.

segundo Kõhler. não se dirige pela abstração destas. Os animais não têm nenhuma possibilidade de assimilação da experiência alheia e de um indivíduo transmiti-la assimilada a outro indivíduo. nos experimentos seguintes. Os .ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito com eles. e seu comportamento nunca se liberta dessas influências diretas. de importância capital. ou para a caixa onde antes se encontrava o alimento. Nenhum animal pode assimilar o princípio do "deslocamento sucessivo" e nunca corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento mas onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio abstrato. o alimento (também aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa. e muito menos de transmitir a experiência formada em várias gerações. No primeiro teste o alimento foi posto aos olhos do animal na primeira caixa. Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais poder-se-ia encontrar alimento. permitindo-se sempre ao animal correr livremente para a caixa onde ele supunha encontrar o alimento. A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para a caixa onde vira que havia sido posto o alimento. Depois. em seguida para uma terceira. No segundo teste. e ele nunca pode impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se a lugar que não tinha sido memorizado. O experimento de Buytendijk realizado com animais de diferentes grupos. O comportamento do animal é sempre dirigido pela experiência imediata ou pela experiência passada. Podem ser fonte de comportamento do animal os programas alicerçados em sua experiência de espécie. que se transmitem em códigos hereditários ("comportamento instintivo") ou que se formam na experiência imediata de dado indivíduo (comportamento individualmente variável ou reflexivo- condicionado). mostra que o animal. é "um escravo do seu campo visual" ou "escravo da sua experiência passada". noutros termos. permitindo-se ao animal apanhá-lo. O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese com uma pesquisa famosa. O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas limitações das fontes desse comportamento. começouse (já sem que o animal o percebesse) a transferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte. não se torna livre.

fenômenos que se descrevem como "imitação" ocupam lugar relativamente limitado na for69 .

sendo antes uma forma de transmissão prática direta da própria experiência que uma transmissão de informação acumulada na hitória de várias gerações. São esse três traços que constituem as peculiaridades fundamentais de todo comportamento e o distinguem radicalmente da atividade consciente do homem. assimilação essa que caracteriza a história social do homem.Mação do comportamento dos animais. 70 . que lembre o mínimo sequer a assimilação da experiência material ou intelectual das gerações passadas.

a grande maioria dos nossos atos não se baseia em quaisquer inclinações ou necessidades biológicas. O primeiro desses traços consiste em que a atividade consciente do homem não está obrigatoriamente ligada a motivos biológicos.III A Atividade Consciente do Homem e Suas Raízes HistórtcoSociais Princípios gerais 1 OR SUAS peculiaridades fundamentais. Via de regra. As diferenças da atividade consciente do homem sintetizam-se em três traços fundamentais. opostos àqueles pelos quais acabamos de caracterizar o comportamento dos animais. que incentivam o homem à aquisição de novos conheci71 . a atividade do homem é regida por complexas necessidades. freqüentemente chamadas de "superiores" ou "intelectuais". a atividade consciente do homem difere acentuadamente do comportamento individualmente variável dos animais. Além do mais. Situam-se entre elas as necessidades cognitivas.

baseado no reconhecimento da necessidade. . seu comportamento não é orientado pela impressão imediata da água que o atrai mas por um conhecimento mais profundo que ele tem da situação. recebidas do meio. à diferença do comportamento do animal. é livre. além de não se sujeitar às influencias e necessidades biológicas. de ocupar. a necessidade de comunicação. Encontramos freqüentemente situações nas quais a atividade consciente do homem. que se baseiam em motivos não-biológicos. tomar come orientação não impressões exteriores porém leis mais profundas. O segundo traço característico da atividade consciente do homem consiste em que. Ele pode abstrair a impressão imediata. neste caso. nesta. determinada posição. pois sabe que o tempo i instável no outono. e chega inclusive a reprimi-las. ainda entra em conflito com e . o homem nunca irá bebê-la. razão por que há todo fundamento para afirmar-se que c comportamento humano. Aqui ele obedece a um profundo conhecimento das leis da natureza e não à impressão imediata de um tempo de sol e céu claro. ao sair a passeio num claro dia de outono. Entre os animais não há semelhantes formas de comportamento "desinteressado". A atividade consciente do homem não pode tomar come orientação a impressão imediata da situação exterior e sim um conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação. após interpretá-los. conhecer a dependência causai dos acontecimentos e. que difere a atividade consciente . Sabendo que a água do poço está envenenada. ela não é forçosamente determinada por impressões evidentes. movido por elevados motivos de patriotismo. penetrar nas conexões e dependências profundas das coisas. esses casos são apenas exemplos da independência do comportamento do homem em relação aos motivos biológicos. Assim. mesmo que esteja cor muita sede. a necessidade de útil à sociedade. cobre com seu corpo bocas de fogo ou se lança à morte sob tanques.mentos. Por último. São amplamente conhecidas casos de heroísmo em que o homem. Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio de modo imediatamente mais profundo do que o animal. ou por vestígios da experiência individual imediata. c homem pode levar guardachuva. há o terceiro traço característico.

do homem do comportamento do animal.
72

Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas fontes ■— 1)
os programas hereditários de comportamento, jacentes no genótipo e 2) os
resultados da experiência individual —, a atividade consciente do homem
possui ainda uma terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e
habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de
toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível
no processo de aprendizagem.
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu comportamento sob a
influência das coisas que se formaram na história: senta-se à mesa, come com
colher, bebe em xícara e mais tarde corta o pão com a faca. Ele assimila
aquelas habilidades que foram criadas pela história social ao longo de milênios.
Por meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos mais elementares e
posteriormente, por meio da linguagem, ele assimila na escola as mais
importantes aquisições da humanidade. A grande maioria de conhecimentos,
habilidades e procedimentos do comportamento de que dispõe o homem não
são o resultado de sua experiência própria mas adquiridos pela assimilação da
experiência histórico-social de gerações. Este traço diferencia radicalmente a
atividade consciente do homem do comportamento do animal.
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a Psicologia: como
explicar os traços da atividade consciente do homem que acabamos de
numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir duas vias inteiramente
diferentes de solução dessa questão.
Uma delas, típica da filosofia idealista, partia das posições do dualismo A tese
básica dessa corrente reduzia-se não só ao reconhecimento de acentuadas
diferenças de princípio entre o comportamento do animal e a consciência do
homem, como também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que a
consciência do homem deve ser considerada como manifes: tação de um
princípio espiritual especial de que carece o animal
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma máquina complexa,
cujo comportamento obedece as leis da mecânica, e o homem como dotado do
princípio espiritual com livre-arbítrio partiu de Descartes, tendo sido repetida
posteriormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. É fácil
perceber que, apontando a diferença de princípio entre o comportamento do

animal e a atividade consciente do homem,
73

inerente apenas ao homem. o enfoque antropomórfico da "razão" e das "vivências" dos animais. A segunda via de solução do problema da originalidade da atividade consciente caracteriza o positivismo evolucionista. que tentava estudar uma linha única de desenvolvimento da consciência dos animais ao homem. bem como a falta de vontade de reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem continuaram a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. com o emprego de instrumentos de trabalho e com o surgimento da linguagem. Ficava sem solução o problema da origem das peculiaridades da atividade consciente do homem. A Psicologia científica. focaliza de posições inteiramente diferentes o problema da origem da atividade consciente do homem. que está relacionada com o trabalho social. e a transição da história natural do animal à história social da . O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam a atividade consciente do homem do comportamento dos animais e nas quais devemos procurar as condições que formam essa atividade consciente? As peculiaridades da forma superior de vida. É sabido que toda a atividade psíquica dos animais. não há limites precisos e basilares entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem. a atividade consciente do homem é resultado direto da evolução do mundo animal. No entanto as afirmações de que os animais têm em embrião todas as formas da vida consciente do homem. já se podendo observar nos animais todos os fundamentos da consciência humana. que em várias de suas obras tentou mostrar que. que cria a base para a orientação no meio ambiente.essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos fatos. devem ser procuradas na forma histórico-social de atividade. Essas formas de vida não existem nos animais. O primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin. Segundo essa teoria. que parte dos princípios do marxismo. os animais já têm todas as formas de atividade racional inerente ao homem e que. O enfoque naturalista. forma-se nas condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de animais. que foram ressaltadas acima. desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às concepções dualistas pré-científicas. na forma embrionária.

74 .

juntamente com as duas fontes do comportamento — os programas de comportamento consolidados por via hereditária e a influência da experiência passada do próprio indivíduo —. Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da complexa atividade consciente do homem. com o qual o homem 75 . com a transição para a história social.humanidade deve ser considerada um importante passo assim como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida vegetal à animal. à diferença do animal. Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores na mudança radical das formas de atividade psíquica e no surgimento da consciência. São justamente essas condições que fazem com que. surge uma terceira fonte formadora da atividade: a transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade. surgem os motivos superiores ("intelectuais") e necessidades. o homem tanto emprega os instrumentos de trabalho como prepara esses instrumentos. o surgimento da linguagem. Junto com os motivos biológicos do comportamento. o outro. e. Os remanescentes desses instrumentos. baseadas na abstração das influências imediatas do meio. que pertencem à época mais antiga da história da humanidade. a flecha) preparados especialmente pelo homem. concomitantes com o comportamento que depende da percepção imediata do meio. Um desses fatores é o trabalho social e o emprego dos instrumentos de trabalho. mude radicalmente a estrutura do comportamento. Nesses instrumentos podemos distinguir tanto o gume. Sabe-se que. Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da "alma" nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais de vida historicamente formadas. na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina. mostram que. O trabalho e a formação da atividade consciente A ciência histórica destaca dois fatores. que servem de fonte à transição da história natural dos animais à história social do homem. Surgem formas superiores de comportamento. se as lascas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primitivos.

primitivo podia esfolar o animal morto ou cortar pedaços de árvore. É esta a condição fundamental. que adquire seu sentido posteriormente. Por si só a atividade de elaboração da pedra carece de sentido e não tem qualquer justificativa em termos biológicos. não dirigidas imediatamente por motivos biológicos. A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia também a divisão natural do trabalho) por si só já mudava radicalmente a atividade do homem primitivo. essas ações. cabia aos preferidos do grupo primitivo ou à mulher. noutros termos. O comportamento do animal fora sempre voltado imediatamente para a satisfação de urna necessidade. da atividade geral. quando o produto dessa ação . A mudança mais importante da estrutura geral do comportamento — surgida no processo de transição da história natural do animal à história social do homem — dá-se quando.(preparação do instrumento) será empregado para matar a vítima e deste modo satisfazer a necessidade de alimento. que surge no processo de preparação do instrumento de trabalho. que servia para manter-se comodamente na mão. . determinada por motivo biológico imediato (a necessidade de alimento) . Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho leva a uma mudança radical de toda a estrutura do comportamento . separa-se uma "ação" que não é dirigida imediatamente por motivo biológico e só adquire sentido com o emprego posterior dos seus resultados. que. Diferentemente disto. no homem que preparava seus instrumentos de trabalho. distinguindo-a do comportamento do animal. como a "lombada". separa-se uma ação especial. na medida em que se tornam mais complexas a sociedade e as formas de produção. juntamente com o conhecimento da operação a ser executada. a parte arredondada. É natural que arma dessa natureza exige preparo especial. ou seja. primeira forma de atividade consciente. pelo visto. e pode ser chamada de primeiro surgimento da consciência. da atividade. Percebe-se facilmente que. exige. que ficava em casa enquanto o homem ia à caça. o comportamento adquiria caráter de estrutura complexa. o conhecimento do futuro emprego do instrumento. O trabalho desenvolvido na preparação dos instrumentos já não é uma simples atividade. voltada para a satisfação imediata de uma necessidade. ela adquire sentido somente a partir do uso posterior do instrumento preparado na caça.

76 .

a caça na sociedade primitiva. leva ao surgimento de formas de comportamento. A complexa organização de "ações" conscientes. podendo inclusive opor-se algumas vezes a eles. Assim é. Torna-se claro que a atividade consciente do homem não é produto do desenvolvimento natural de propriedades jacentes no organismo mas o resultado de novas formas histórico-sociais de atividade-trabalho. que adquire sentido apenas na comparação dessas ações com o resultado final. Contudo.começam a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade consciente do homem. durante a qual um grupo de caçadores "assusta" e afugenta a caça que deve ser apanhada. que não são diretamente dirigidas por motivos biológicos. 77 . que é o que representa uma nova estrutura de atividade consciente do homem. friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo). A linguagem e a consciência do homem O surgimento da linguagem é a segunda condição que leva à formação da atividade consciente de estrutura complexa do homem. enquanto outro grupo arma emboscada para ela. e as "ações" especiais não é determinada imediatamente por motivo biológico. aqui poderia parecer que as ações do primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar a caça e só adquirem sentido a partir das ações do segundo grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores. por exemplo. exige a separação de várias operações auxiliares. a complicação da estrutura da atividade durante a transição à história social do homem não se limita à mudança que acabamos de mencionar. que se separa da atividade geral. Deste modo. mas é dirigida pelo objetivo consciente. A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma série de procedimentos e modos (desbastar uma pedra com outra. A separação dessas "operações" é o que constitui a sucessiva complicação da estrutura da atividade. a separação entre a atividade biológica geral. por outras palavras. O surgimento de várias "operações" auxiliares por meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a mudança radical do comportamento.

É natural que as palavras. Assim. atribuindo-lhe. . agressão. "origem divina". solta gritos alarmantes aos quais o bando reage vivamente. Numa manada de macacos podemos observar todo um conjunto de sons. não é linguagem na verdadeira acepção da palavra. O animal possui meios muito variados de expressão de seus estados. que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer manifestação do mundo material. "plano" designam qualidades dos objetos e as palavras auxiliares "sobre". enquanto "dorme". "juntamente". "em conseqüência" designam relações diferentes por complexidade entre os objetos. a palavra "pão" designa um objeto comestível. medo ao perigo. O guia de um bando de cegonhas. O problema do surgimento da linguagem humana é o objeto de inúmeras hipóteses e teorias. na linguagem. que expressa satisfação. Esses "segredos" são transmitidos a outros indivíduos e podem orientar de modos diferentes o comportamento das abelhas. etc. Mas a "linguagem" dos animais nunca designa coisas. portanto. qualidades. que são percebidos por outros animais e podem exercer influência substancial sobre o comportamento destes. unidas em frases. Essas teorias são muito vagas e omitem o fato de que a linguagem é uma especial "forma simbólica de existência". ao sentir o perigo. "corre" designam ações. etc. seguindo as tradições do positivismo naturalista. Podemos observar um sistema muito complexo de movimentos expressivos nas chamadas "danças" das. suas ações. que mudam de caráter dependendo de ter a abelha regressado do vôo com boa prenda e modificam-se dependendo da direção e da distância do caminho percorrido.Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos por meio dos quais são designados os objetos do mundo exterior. Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente no processo de transição à sociedade humana. abelhas. não distingue ações nem qualidades. "ácido". são os principais meios de comunicação mediante os quais o homem conserva e transmite informação e assimila a experiência acumulada por gerações inteiras de outras pessoas. a palavra "cadeira" designa um tipo de móvel que serve de assento. "sob". Outras teorias. tentam. Algumas delas consideram a linguagem manifestação do campo espiritual. de acordo com a Bíblia. relações entre eles.

inutilmente. ver a linguagem como resultado da evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais 78 .

concluindo que as condições que originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações sociais do trabalho cujos primórdios de surgimento remontam ao período de tratisição da história natural à história humana. designar os objetos (coisas ou instrumento) que fazem parte da atividade do trabalho conjunto. razão por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo a situação evidente em que eles surgiam. A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosamente no homem a necessidade de transmitir a outros certa informação. estes. Mas a solução científica do problema da origem da linguagem só se tornou possível quando a filosofia e a ciência abandonaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no âmago do organismo e de deduzi-la diretamente das peculiaridades do "espírito" ou do cérebro. ação ou relações. devendo. suas qualidades.da evolução da linguagem os fenômenos de "comunicação" entre os animais que descrevemos. ainda não tinham existência autônoma. eram acompanhados de gestos e entonações expressivas. a princípio. restando para a. que começavam a indicar determinados objetos. denominada "paleontologia da fala".área da ciência. Segundo as teorias originárias da segunda metade do século XIX. segundo muitos autores. apenas o caminho das hipóteses que se confirmam por via indireta. os primeiros sons que designam objetos surgiram no processo do trabalho conjunto. constituíam os fundamentos de uma original linguagem ativa ou "linear" e só bem mais tarde o papel determinante passou a ser desempenhado pelos sons. Há muitos fundamentos para se pensar que o surgimento da linguagem teve seus primórdios nas formas de comunicação contraídas pelos homens no processo de trabalho. ao contrário. Estavam entrelaçados na atividade prática. que propiciaram a base para uma evolução paulatina de uma linguagem de . Além do mais. que assumiram paulatinamente a função de transmitir certa informação. coube posição determinante aos atos e gestos. Os sons. esta não pode ficar restrita à expressão de estados subjetivos (vivências). Entretanto seria incorreto pensar que os sons. A ciência não dispõe de métodos que permitam observar imediatamente as condições que originaram a linguagem. nesse complexo de meios de expressão parece que. eram "palavras" capazes de designar com independência os objetos.

essa linguagem manteve a mais estreita ligação com o gesto e o ato e por isto o mesmo complexo de sons (ou "protovocábulo") podia desig79 .sons independente. Durante muito tempo. porém.

Essa possibilidade de assegurar o processo de abstração e generalização representa a segunda contribuição importantíssima da linguagem para a formação da consciência. relacionam as coisas perceptíveis a determinadas categorias. que designavam objetos e bem mais tarde passaram a servir para distinguir as ações e as qualidades dos objetos. A primeira dessas mudanças consiste em que. Só depois de muitos milênios a linguagem dos sons começou a separar-se da ação prática e a adquirir independência. a linguagem permite discriminar esses objetos. que surge como base na linguagem e pode ser usado pelo homem em sua atividade. Resulta daí que o homem está em condições de lidar com os objetos do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. É bastante a pronúncia interna ou externa de uma palavra para o surgimento da imagem do objeto correspondente e o homem pôr-se em condições de operar com essa imagem. a linguagem teve importância decisiva para a posterior reorganização da atividade consciente do homem. a par com o trabalho. dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. Por isto podemos dizer que a linguagem duplica o mundo perceptível.nar o objeto para o qual a mão apontava. que durante um longo período histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma que distingue as línguas atuais. designando os objetos e eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou combinações de palavras. Surgiu a língua como um sistema de códigos independentes. O surgimento da linguagem imprime ao menos três mudanças essenciais à atividade consciente do homem. Por isto têm razão os cientistas que afirmam que. a linguagem é o fator fundamental de formação da consciência. suas ações. Enquanto sistema de códigos que designam os objetos. . O segundo papel essencial da linguagem na formação da consciência consiste em que as palavras de uma língua não apenas indicam determinadas coisas como abstraem as propriedades essenciais destas. Ê a essa época que pertence o surgimento das primeiras palavras autônomas. permite conservar a informação recebida do mundo exterior e cria um mundo de imagens interiores. a própria mão c a ação produzida com esse objeto. Percebe-se facilmente que importância tem o surgimento desse mundo "interior" de imagens. qualidades ou relações e serve de meio de transmissão de informação.

as palavras "relógio" e "mesa" designam não apenas certos objetos. 8X> A palavra "relógio" indica que esse .Por exemplo.

as palavras "relógio" e "mesa" designam todas as modalidades desses objetos.objeto serve para marcar as horas (do latim horologio). que se formou no longo processo da história social. a linguagem permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela dominar um ciclo imensurável de conhecimentos. A linguagem é o veículo fundamental de transmissão de informação. a palavra "mesa" indica que esse objeto serve para ser coberto (do latim mensa). Ao transmitir a informação mais complexa. Isto dá à linguagem a possibilidade de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o veículo mais importante do pensamento. e que a linguagem é realmente o meio mais importante de desenvolvimento da consciência. . que em hipótese alguma poderiam ser resultado da atividade independente de um indivíduo isolado. Além do mais. O que acaba de ser dito dá fundamento para designar a terceira função essencial da linguagem na formação da consciência. . produzida ao longo de muitos séculos de prática histórico-social. habilidades e modos de comportamento. ou seja. independentemente de sua forma exterior ou do tamanho. a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho de análise e classificação dos objetos. ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos psíquicos que. no estágio do homem. Isto significa que com o surgimento da linguagem surge no homem um tipo inteiramente novo de desenvolvimento psíquico desconhecido dos animais. Deste modo. Isto significa que a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios do objeto e generaliza objetos diferentes pelo aspecto exterior mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente ao homem a experiência das gerações e serve de meio de representação do mundo mais poderoso que a simples percepção. que assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo. A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos A importância da linguagem para a formação da consciência consiste em que ela efetivamente penetra em todos os 81 . que se formou na história social da humanidade. aproximam-se das duas fontes (os programas de comportamento transmissíveis por hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da experiência de dado indivíduo) que se verificavam nos animais.

matiz com alguma palavra ("mesa". mas é muito limitado o número de palavras que designam esses objetos. Se a atenção do animal tinha caráter imediato. Quando posteriormente a própria criança assimila o discurso (a princípio exterior. generalizada e permanente. nós realmente selecionamos os traços essenciais e generalizamos os objetos. formas e matizes. como a denominou Pávlov. A percepção humana se torna mais profunda. "triângulo" ou "vermelho". deve ser enfocado como parte conclusiva da introdução evolucionista à Psicologia. A linguagem reorganiza substancialmente os processos de percepção do mundo exterior e cria novas leis dessa percepção. A linguagem muda essencialmente os processos de atenção do homem. quando relacionamos o objeto. arbitrária. era determinada pela força. A linguagem muda essencialmente também os processos da memória do homem. "círculo". com o surgimento da linguagem e baseado nela o homem se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção. depois interior). Por isto a análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão da informação que emprega meios de linguagem) não pode ser vista apenas como capítulo especial da Psicologia mas deve ser considerada também como jatos de construção de todo o conjunto da vida consciente do homem. Isto dá à percepção humana traços que a distinguem radicalmente da percepção do animal. Isto leva a que. É justamente por isto que o papel da linguagem ou "segundo sistema de sinais da realidade". que servem de reforço . eleva a um novo nível o desenrolar dos seus processos psíquicos. É sabido que existe no mundo um número imenso de objetos. "relógio". acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos nomeados. matizes de cores. É sabido que a memória do animal depende consideravelmente da orientação no meio ambiente e dos motivos biológicos. formas. Quando a mãe diz ao filho "isto é uma xícara".campos da atividade consciente do homem. tornando-se sua atenção dirigível. as qualidades ou ações. ela está distinguindo esse objeto de todos os demais e dirigindo para ele a atenção da criança. a novidade ou valor biológico do objeto que dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do animal. formas e cores perceptíveis em determinados grupos ou categorias. "amarelo"). a forma ou. relacionada com a discriminação dos indícios essenciais do objeto.

daquilo que é lembrado com êxito. No nível humano e apoiada nos processos 82 .

que eleva a um novo nível os processos psíquicos. Não são menos importantes as mudanças introduzidas na reorganização da vivência emocional pelo surgimento da linguagem. Por último. É dispensável dizer que só com base na linguagem e com sua participação imediata constituem-se as complexas formas de pensamento abstrato e generalizado. paralelamente às categorias afetivas. O mundo emocional do homem não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos motivos biológicos. . a possibilidade de uma formação generalizada do caráter e do nível dos seus acertos leva a que. formem-se no homem vivências e demorados estadosde-espirito que vão muito além dos limites das reações afetivas imediatas e são inseparáveis do seu pensamento. não se pode omitir a última tese. o surgimento dessas formas representa uma das aquisições mais importantes da humanidade e garante a transição do "sensorial ao racional". Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expressas. na qual o homem coloca fins especiais de lembrar. A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela primeira vez da experiência imediata e assegura o surgimento da ■imaginação. a avaliação das correlações das ações realmente exeqüíveis com as intenções iniciais. processo que não existe no animal e serve de base à criação orientada e dirigida cujo estudo constitui área especial da Psicologia. a linguagem se torna pela primeira vez atividade mnemônica consciente. considerada pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela importância é igual à transição da matéria inanimada para a animada ou da vida vegetal para a animal.do discurso. cuja importância é especialmente grande. que se processa com a participação imediata da linguagem. organiza o material a ser lembrado e acha-se em condições não só de ampliar de modo imensurável o volume de informação que se mantém na memória como ainda de voltar-se arbitrariamente para o passado. aquilo que em dada etapa se lhe afigura mais importante. selecionando nele. que ocorrem com a participação dominante dos sistemas sub-corticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou fracasso de sua atividade e conservam plenamente sua ligação com as necessidades biológicas. no processo de memorização.

É sabido que as novas formas de comportamento individualmente variável do animal são adquiridas com base em sia orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de 83 .

levantar o braço (ou girar a chave). na norma. a repetição multiplicada da coincidência dos sinais condicionais com o reforço incondicionado. começa a extinguirse tão logo desaparece o reforço e se reorganiza com relativa dificuldade num novo sistema de ligações. que o homem estabelece com o auxílio da linguagem. por exemplo. nenhuma dificuldade. mostra-se imediatamente sólida. dispensa qualquer reforço "incondicional" (ou biológico) . dos meios de sua direção. que se estabelece de acordo com uma regra formulada no discurso. Não encontramos nada semelhante na formação de novas modalidades de comportamento consciente do homem. a "conversão" dessa ação numa nova não apresenta. Essa ligação é adquirida paulatinamente. essa ação. das leis que servem de base ao seu desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados patológicos fundamentais da Psicologia^ 84 constitui uma das tarefas . Por último. executável com base em instrução discursiva. para que a relação anteriormente criada seja imediatamente substituída por uma contrária. A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente. A nova forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da formulação discursiva de uma regra. Sua formação dispensa elaboração longa e se estabelece de imediato.formas estáveis de semelhante comportamento se baseia nas leis dos reflexos condicionados. dispensa repetição permanente da instrução e não se extingue se essa instrução não se repete. que agora ele deve fazer o contrário: em resposta âo sinal azul. É fato bem conhecido que a aquisição de novas formas de comportamento exige um reforço relativamente longo da resposta ao sinal condicional. basta sugerir ao sujeito uma nova instrução. que distingue acentuadamente o seu comportamento do comportamento do animal. dizendo-lhe. O advento de qualquer ação. Basta instruir o homem no sentido de erguer o braço ou girar a chave em resposta a um sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um azul para surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. e. nada fazendo ao sinal vermelho. Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter dirifgível dos processos de atividade consciente do homem. estudadas minuciosamente pela escola de Pávlov.

O caráter da solução desse problema dependia muito da maneira como se interpretavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam os seus fundamentos cerebrais.IV O Cérebro e os Processos Psíquicos 1 ARA ENTENDER melhor a estrutura dos processos psíquicos do homem e das leis que os regem. Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia a ela relacionada a concepção segundo a qual os processos psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou 85 . devemos conhecer acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos principal da atividade psíquica — o cérebro humano — e as relações dos processos psíquicos com ele. O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro enquanto substrato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em períodos diversos de evolução da ciência.

Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro e considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área cerebral. J. que são a seguir "faculdades" indivisíveis. que. que levava à formação de protuberâncias no crânio. A primeira tentativa de semelhante "localização das faculdades psíquicas" foi empreendida no começo do século XIX por F. Essa hipótese acabou servindo de base a um campo especial da "ciência" — a "frenologia" —. a "honestidade". segundo ele. no ventrículo médio. e consideravam que no ventrículo anterior estava situada a "faculdade da percepção ou imaginação". manteve-se durante muitos séculos e continuou basicamente imutável inclusive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato do psiquismo o líquido que preenche os "ventrículos cerebrais" e chegaram à opinião de que o fundamento da atividade psíquica devia ser procurado na substância sólida do cérebro. que procuravam a base material dessas faculdades. indicava uma evolução especial dessa "faculdade". Gall. que crescem muito com o desenvolvimento dessas "faculdades". podiam estar imediatamente "localizados" em determinadas formações cerebrais. Apesar de a "frenologia" de Gall ter sido considerada fantástica e sem fundamento científico ainda com seu criador vivo. o "respeito aos pais" e o "amor às crianças"). a "faculdade do raciocínio". com base no estudo das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas às capacidades individuais do homem. sobretudo no córtex. Após distinguir um grande número dessas "faculdades" congênitas (às quais."faculdades" irredutíveis a quaisquer componentes mais elementares . A idéia de que os processos psíquicos. a idéia da "localização" direta de certas funções psíqui- . Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-se distinguir ao menos três "faculdades" básicas: a faculdade da percepção ou imaginação. pertenciam "faculdades" como a "parcimônia". aventavam a hipótese de que elas estavam localizadas no líquido que preenche três "ventrículos cerebrais". e no ventrículo posterior a "faculdade da memória". segundo Gall. a faculdade do raciocínio e a faculdade da memória. Ele apresentou a hipótese de que o substrato de diversas "faculdades" psíquicas é constituído por pequenas áreas do tecido nervoso do córtex cerebral. Os pensadores.

86 .

o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou a hipótese segundo a qual estão "localizadas" nessa região as imagens motoras da palavra. com base em observações feitas em cérebros de feridos durante a I Guerra Mundial. as áreas que passaram a ser consideradas "centros da escrita". Essas tentativas foram reunidas num sistema pelo psiquiatra alemão K. etc. Por um lado. O psiquiatra alemão K. Apesar de que em seu tempo eram progressistas às tentativas de "localização" direta das complexas "funções" psíquicas nas áreas limitadas do córtex cerebral. o estudo das observações clínicas mostrou que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a queda de "funções psíquicas" perfeitamente determinadas. pois tais tentativas refletiam o esforço de fazer um enfoque materialista dos processos psíquicos e seu substrato cerebral. que ocorrem nos casos de afecções limitadas (locais) do cérebro. Essas descobertas deram aos pesquisadores fundamentos para distinguir. Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as contradições do material factual em relação a essas considerações. ele lançou a tese de que essa região do córtex é o "centro da palavra sensória". Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas em áreas limitadas do cérebro inspiravam os estudiosos (psiquiatras e neurologistas). "centros do cálculo". a escrita. colocouas num "mapa sinótico localizado". no qual até as "funções" psíquicas mais complexas coincidiram com as áreas limitadas do córtex cerebral. que. Por isto os cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mudanças nos processos psíquicos. no córtex cerebral. Wernicke (1873) descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-volução temporal superior do hemisfério esquerdo mantém intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das palavras. levantaram-se dúvidas legítimas de que processos complexos como a fala. elas logo mostraram sua inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos. continuarem por muito tempo a fazer tentativas de "localização" direta das funções psíquicas em áreas isoladas do córtex cerebral. "centro dos conceitos". Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-lução frontal do hemisfério esquerdo leva à perturbação da fala articulada. A partir da década de 70 do século passado. Kleist (1934).cas do córtex cerebral continuou em evidência. leitura e o a .

87 .

Por outro lado. fato que por si só já contrariava a idéia da estreita "localização" das funções psíquicas nas áreas isoladas do córtex. Essa idéia. dificuldades de encontrar palavras. a afecção do lobo temporal esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala. dificuldades de percepção da luz. etc. enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orientação no espaço. que áreas corticais distintas apresentam estrutura diferente e que os neurônios. a leitura e o cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente diferentes pela posição. já sem falar da atividade intelectual. Verificou-se que perturbações de processos psíquicos tão complexos como a fala. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que os processos psíquicos são função de todo o cérebro e não podem ser "localizados" nas áreas limitadas do córtex cerebral. que à primeira vista parecem inteiramente diferentes. Observou-se que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral leva. são amiúde tão especializados que dentre eles podemos distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou a . a escrita. Isto gerou uma crise das concepções anteriores da "localização" direta dos processos psíquicos nas áreas limitadas do córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes grandes psicólogos como K. integrantes do córtex cerebral. a análise minuciosa dos fatos das observações clínicas mostrou que a atribuição direta dos complexos processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece de fundamento. Assim. Goldstein. Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é um aparelho bastante diversificado. distúrbios na escrita. S. podiam ser entendidos como simples "faculdades" congênitas. impossibilidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais e vários outros distúrbios congêneres da atividade intelectual. No entanto ela não tardou a mostrar sua inconsistência. C. que levou ao surgimento de uma corrente científica conhecida como "antilocalizacionismo". era uma reação legítima às concepções simplistas do "localizacibnismo estreito". à perturbação de todo um grupo de processos psíquicos.cálculo. via de regra. Lashley e neurologistas como K. podendo-se procurar sua "localização" em áreas limitadas do córtex cerebral.

Essas 88 . às linhas retas e curvas ou somente às linhas quebradas. só reagem aos movimentos do centro à periferia ou da periferia ao centro. etc).indícios muito especiais (por exemplo.

É característico que os músculos. assegurando esse ou aquele aspecto desse sistema funcional. a "função da respiração" é exercida pelo trabalho conjunto de todo um grupo de músculos e alvéolos pulmonares. realizadas em certos neurônios. Neste sentido falase de função da respiração. e se de um sistema funcional extingue-se a participação de um grupo de músculos (os músculos do diafragma. Strtctu sensu. parte das quais é o resultado de descobertas obtidas ultimamente como decorrência de pesquisas fisiológicas. exercida pelo trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos. função da locomoção. a função do pâncreas é a segregação de insulina. que participam do ato de respiração. O conceito de "função" tem em biologia dois significados inteiramente diversos. Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da organização funcional do cérebro e na doutrina da "localização" dos processos psíquicos no córtex cerebral. Mas o conceito de "função" tem um outro significado mais amplo. cada um dos quais integra esse "sistema funcional" (termo de P. por exemplo). tornaram muito pouco prováveis as hipóteses da homogeneidade de toda a massa cerebral c as afirmações segundo as quais o cérebro sempre funciona como um todo único. A saída para essa crise estava relacionada com a revisão radical do conceito de "funções psíquicas" e com a mudança radical dos principais enfoques dos princípios da "localização" cerebral dessas "funções". o sistema funcional representa um complexo todo dinâmico. a função do alvéolo pulmonar. podem substituir mutuamente uns aos outros. 89 . Deste modo. no qual o objetivo final permanente ("invariante") é realizado pelo sistema mutável ("variante") de suas partes componentes. função da digestão. Compreende-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo. difusão do oxigênio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue. essa falha é compensada pelo trabalho reforçado de outro grupo de músculos (os músculos intercostais). a função se constitui^ numa complexa atividade. Ele pode designar a atividade de adaptação de todo um organismo. Ano-khin) em seus próprios papéis.linhas. Sabese que a função do fígado é a regulação da troca de hidrato de carbono. Assim. entende-se por "função" a direção de determinado tecido. K.

Obras completas. o acerto em dado alvo. .) é realizado por um complexo sistema de músculos cuja interrelação varia com a mudança da posição do corpo. III. P. Sem essa sinalização permanente da posição do extremo que se move. o acerto no alvo. dependendo da tensão. p. Pávlov já indicara que "se antes o centro respiratório era concebido como um ponto do tamanho da cabeça de um alfinete no bulbo raquidiano. já sem falar de funções como a fala. da consolidação da habilidade. etc. subiu para o cérebro e desceu para a medula espinhal e hoje ninguém indicará com precisão a sua fronteira" (I. . Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas. até para se darem dois 90 . a marcha. 127). bem como da "função do movimento" (ou locomoção). acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar uma martelada) é necessário antes de tudo manter uma profunda sensibilidade proprioceptiva do braço que se move dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das distensões dos músculos em funcionamento. É natural que um sistema funcional tão complexo não pode ser "localizado" em determinada área limitada do sistema nervoso. na qual o objetivo final (deslocamento de um lugar para outro. Pávlov. a escrita e o cálculo. têm estrutura sumamente complexa. nenhum movimento organizado é possível.O mesmo podemos dizer da "função da digestão". etc. garantindo a necessária correção da direção. A execução de um movimento exige a mudança harmoniosa dos seus elementos. a batida do martelo. . é com maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas "funções psicológicas". Para a sua execução é necessário um reflexo preciso das coordenadas espaciais exteriores em cujos limites executa-se o movimento. Para executar o movimento mais simples (por exemplo. agora ele está extremamente espalhado. até "funções" relativamente simples como o movimento arbitrário. Se tão amplo significado do conceito de "função" se refere a um grande número de atos biológicos de adaptação. que representa o mais complexo sistema funcional de órgãos digestivos que funcionam em conjunto. compreendendo em sua composição um número considerável de elos CQmponentes. t. o movimento perde sua precisão e se torna impossível.

desenervar o primeiro e passar harmoniosamente ao elo seguinte do ato motor. por meio da qual é como se nós "sondássemos" os sons e os distinguíssemos de outros próximos. transferindo os impulsos para outro sistema de músculos. No entanto a escrita não termina nesse processo. devemos discriminar antes de tudo os sons que integram a sua composição. decompondo fluxo permanente de sons nas unidades sonoras componentes da língua — os "fonemas" (que em cada língua podem ter caráter diverso). nos quais um elo deve incorporar-se harmoniosamente ao seguinte. Amiúde a separação desses fonemas se faz não só "de ouvido" mas com a participação imediata da articulação. em seguida. Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relativamente simples é um complexo sistema funcional. Ela representa um complexo programa de movimentos. o processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma tarefa geral (escrever uma frase. devemos fazer a sua análise acústica. É ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade psíquica como a fala. uma carta. noutros termos. O cumprimento dessa condição exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes. a escrita. Para executar essa ação é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de "grafemas" ou letras como manter a correta disposição destes no espaço. expor 91 . Somente depois desse trabalho prévio a composição sonora da palavra se considera definida e a palavra pronta para o registro. sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível. Aqui o processo da escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros ("fonemas") devem ser recodifiçados em elementos motor-visuais da escrita ("grafemas"). que inclui em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-riais (aferentes) como motores. Por último.passos é necessário inicialmente enervar um sistema de músculos e. a leitura ou o cálculo. Para escrever uma palavra. formados no processo da história da sociedade. Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi construído o ato da escrita e mostremos que elos complexos integram esse sistema funcional.

integrantes da composição de dada função. Por isto a tarefa de "localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto. etc. nelas o escrevente representa imediatamente os conceitos com determinados sinais convencionais (hieróglifos). a análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estruturas cerebrais. há línguas (o chinês. que asseguram elos diversos. Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente. Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada do cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional. 92 . e sempre que haja afecção limitada do cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação da área cerebral afetada. O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em determinada área limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de células. Torna-se compreensível que a mesma afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado elo geral ou "fator" geral cujo funcionamento esteja diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo sistema funcional (o ato da escrita ou da fala. É natural que para semelhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra) se torna desnecessária e o processo da escrita adquire inteiramente outro caráter. Se na grande maioria das línguas (indo-européias. turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos de descrever. noutros termos. por exemplo) em que a escrita não é um processo de transferência das unidades sonoras ("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas"). por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro.) e só com a sólida manutenção desse programa correspondente a necessária tarefa pode ser cumprida.uma idéia. que põem em ação dado "sistema funcional".

Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos. sendo produto de uma longa evolução. aos aparelhos do tronco e do córtex primitivo — bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os grandes hemisférios. Princípios da organização funcional do cérebro humano Como já foi dito (cap. circulação sangüínea e do metabolismo bioquímico. A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções locais limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia — a neuropsicologia. que executa os mais importantes processos vitais). então é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas corticais propriamente motoras. importância tanto para o campo prático da neurologia — definição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais — como para uma compreensão mais profunda da estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos. Os dados desta ciência são de grande. que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-rentes propriamente ditos.Assim. cinestésica (articular) da estrutura da letra. se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios (cinestésicos) espaço-visuais. que no homem chegam a um nível especialmente alto de desenvolvimento Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem em sua composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração. já os apa93 . II). Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva. ter uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro humano. que se distingue pelo fato de que. a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto com a afecção das áreas auditivas. é necessário. cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e essa perturbação será cada vez diferente. é um complexo sistema construído por hierarquia. antes de tudo. o cérebro humano.

composto de várias partes. Estes são os dispositivos mais complexos. a perturbação do funcionamento normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho. o fechamento de novas ligações. As áreas superiores do sistema nervoso central são os grandes hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente. peixes. a assimilação e elaboração da informação recebida. o processamento de programas de atividade complexa e regulação da realização das formas superiores de comportamento. Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica morfológica dos aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua organização funcional. Os três "blocos" principais do cérebro Como já indicamos. É isto que se reveste de importância essencial para a Psicologia. aves) mas são paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior — os grandes hemisférios. que asseguram a análise e a síntese das excitações que chegam do mundo exterior. e de fibras de associação. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado. o mais importante da atividade psíquica do homem.relhos do corpo quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (receptores de contato e distância). trabalha sempre como um todo único. que ligam o córtex às formações subcorticais subjacentes. 94 . que ligam regiões corticais isoladas. Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios. tornandose o aparelho fundamental. a inclusão delas nos aparelhos motores (corpo quadrigêmeo) e sua integração primária com a execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado). Os grandes hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados superiores. que assegura o recebimento e a elaboração da informação e a criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução destes. o cérebro humano. constituída de fibras de projeção.

cada um desempenhando papel especial na atividade psíquica. bem como dos processos de formação de programas e controle da execução destes. para a criação de sistemas domi95 . indicando que os processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força". que deixa o vestígio mais estável. a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da execução destes.No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais. ao passo que o instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se inibe mais facilmente. segundo a qual um instigador forte (ou mais significativo) provoca uma reação forte. a elaboração e conservação da informação. elaboração e conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). O primeiro mantém o necessário tônus do córtex. O terceiro bloco elabora programas de comportamento. que caracteriza a exci-tabilidade otimal do córtex. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais. Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex. é necessária uma permanente manutenção do tônus otimal do córtex. indispensável para o bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da informação. A existência dessa "lei da força". O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento. a conservação dos seus vestígios. O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento. é necessária para a realização de atividade seletiva organizada. criar e executar os complexos programas de comportamento. assegura e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. acompanhar o êxito das ações executadas e fazer a necessária auto-regulação do comportamento. Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a uma acertada organização da atividade consciente do homem.

no estado de sono ou sonolência. Essas formações são as componentes principais do "primeiro bloco" do cérebro-bloco humano. Essa peculiaridade do trabalho surge. Jas-per H. de garantia do estado emocional normal e cria condições para a sólida manutenção dos indícios surgidos. para a conservação de sistemas de informação organizados e programas estáveis de comportamento. que está situado nas áreas internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-referidos do tronco superior. É bem conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode passar ao estado inibido ou "fásico": os instigadores fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase niveladora") ou até reações mais fortes do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal"). particularmente as formações do hipotálamo. do tá-lamo ótico e do sistema de fibras reticulares ("formação re-ticular"). Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento normal do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa. o núcleo do tálamo ótico. A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais tarde acrescenta-se uma terceira. Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas do grande cérebro como o hipocampo. mais complexa) . Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras observações e experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. o movimento da excitação nesse sistema. W. Moruzzi G. É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo seletivo organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou secundárias). por exemplo. os antimuros e os corpos mamilares. que une essas formações por uma ligação bilateral com o córtex cerebral.. que recebeu a denominação de "ciclo do hipocampo" é uma das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-cal. A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico.) mostraram que nesse processo desempenham papel substancial as formações das áreas superiores do tronco cerebral. H. 96 .nantes de exeitação. que assegura o tônus geral ou estado de vigília do córtex.

qué compensam em parte essa insuficiência de afluência permanente de instigações exteriores. esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo (que tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. superior e a formação reticular ascendente desempenham papel principal. Burdenko.Por um lado. ainda. começam facilmente a surgir alucinações no homem. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que? nesses casos. para manter o tônus ideal do córtex. Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo. os reflexos da agressão. que surge no homem após um longo período de isolamento numa cela escura à prova de som. que. o animal adormece. os pesquisadores (N. que o tronco superior e o encéfalo primitivo são compostos também por aparelhos especiais. privado dessa afluência de excitações do mundo exterior. Sabe-se. para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de informação do mundo exterior. O corte das vias que levam do tronco superior ao córtex na composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao adormecimento. etc. caindo para um nível inferior ao necessário. que regulam processos como os reflexos sexuais. tem importância decisiva o estado de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a primeira instância do recebimento das instigações afluentes de fora. a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações da periferia. Mc Lean. Olds. É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue. A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos impulsos que a este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo. Sabe-se. por exemplo. atos de . Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de comportamento sexual instintivo. é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipotálamo. que formam a base das inclinações biológicas do organismo. no qual os órgãos do tronco. levou freqüentemente o paciente a adormecer. Miller. o efeito provocado pela "fome de informação". que é um índice do estado de fome ou saciação. ainda. o nível de oxigênio no sangue. N. J. Por isto. Deste modo.

agressão. 97 .

considerado parte essencial do "corpo olfativo". por um lado. por outro. considerados pelos referidos autores como "centros" sui generís. Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico. bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista. Bucy que. A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. depois da dani-ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais do lobo temporal) observaram nos animais acentuada . durante muito tempo. A existência. de funções bem mais complexas. de formações nervosas que regulam as inclinações citadas. foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Delgado) para provocar nos animais reações duradouras de "auto-estimulação". Mas a existência dessa área nos animais sem olfato (delfins). O córtex primitivo "límbico" foi. Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular. levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes. Exemplos de mudança do tônus podemos ver nos casos de distúrbio das funções da hipófise. e a considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos". Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesquisadores americanos K. devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"). Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos introduzidos nessas áreas do encéfalo. que asseguram a manutenção do tônus do córtex. tendo participação essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a conservação dos vestígios da memória. nas referidas zonas do encéfalo. que são transmitidos ao córtex através da formação reticular ascendente. Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o olfato desempenha papel dominante no comportamento.fome constante e sede. reguladores do estado emocional do animal. e de tumores das paredes do terceiro ventrículo. o animal provocava sozinho e demoradamente a excitação desses aparelhos. constituem a segunda fonte de manutenção do tônus cortical e seu estado de vigília. Klüver e P. situados nas áreas internas (mediais) dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo. etc.

excitação das reações emocionais e perturbações da memória. Dados aproximados foram obtidos também nas observações pos98 .

importantes observações realizadas em pessoas com afecção bilateral do hipocampo pelos pesquisadores americanos W. nesses casos. Milner e W. Jasper e outros) descobriram que no hipocampo existe um grande número de neurônios que não reagem a instigadores específicos (visuais. muda substancialmente o tônus do córtex e afeta-se profundamente a memória. que apenas mencionamos e que está ligado aos complexos programas e necessidades que surgem no homem como resultado de sua atividade consciente. . que ocorrem nos animais como resultado da danificação do hipocampo. Por meio dos segundos ("formação reticular ativadora descendente") realizam-se 1 aquelas influências que as áreas superiores do cérebro. É esse aparelho que assegura a terceira fonte de manutenção do estado de vigília. Olds e outros. O papel dos aparelhos do primeiro* bloco na manutenção do tônus do córtex e do estado de vigília é assegurado pelas suas estreitíssimas ligações com o córtex„ que são realizadas através das fibras da formação reticular ativadora. Por último. Através dos primeiros ("formação reticular ativadora ascendente") efetua-se a excitação do córtex pelos impulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco do encéfalo. Penfield. A existência desses neurônios de cujas funções faz parte a comparação dos instigadores com os vestígios antecedentes. que tiveram oportunidade de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos processos afetivos. Por isto o aparelho da "formação reticular descendente" desempenha papel substancial na transmissão do colorido afetivo e na garantia do tônus para os programas de comportamento que surgem no córtex em decorrência da informação recebida e das formas exteriores de programas e necessidades que se formam no homem com a participação da fala. B.teriores de Mc Lean. Scoville permitiram mostrar que. auditivos ou táteis) mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio ambiente. particularmente o seu córtex. A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando os fisiologistas (Viesel. fazendo parte também as reações à 'Mescoordena-ção" destes. parece explicar o papel desempenhado pelas formações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado (atenção não-dirigida) e memorização. exercem sobre os segmentos do tronco encefálico. Cabe observar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como descendentes.

99 .

auditiva e tátil. noutros termos. Nas seções mais complexas dessas zonas eles se reúnem. Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extremidades centrais (corticais) dos sistemas perceptivos (analisa-dores). Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções posteriores do córtex cerebral (áreas parietal. distinguindo-se e sepa-rando-se aqui indícios isolados da informação visual. da formação reticular e do córtex primitivo. o primeiro bloco do cérebro de cuja composição fazem parte os aparelhos do tronco superior. Bloco do recebimento. Como todas as outras regiões do novo córtex. sendo que as extremidades corticais do analisador visual estão situadas na região occipital. sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais complexas. assegura o tônus geral (vigília) do córtex e a possibilidade de duradoura conservação dos vestígios da excitação. essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. aonde 100 . já o segundo bloco está imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos. elaboração e conservação da informação Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não participa do recebimento e processamento da informação nem da elaboração dos programas de comportamento. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura celular das zonas corticais. temporal e occipi-tal) e. está relacionado com o recebimento. o processamento e a conservação da informação recebida pelo homem. as auditivas na região temporal e as táteis na região tátil-cinestésica. auditiva e tátil afluente. Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes dos respectivos aparelhos receptores. tem caráter modal-específico. diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco. O funcionamento desse bloco não está relacionado especialmente com os outros órgãos dos sentidos e tem caráter "modal-não-específico". A mais desenvolvida nessas zonas é a seção IV do córtex. processam-na ou "codificam-na" e conservam na memória os vestígios da experiência adquirida. sendo um sistema de dispositivos centrais que registra a informação visual. assegurando o tônus geral do córtex.Deste modo.

que contactam as áreas contíguas do* córtex. deste modo. que contactam o córtex com as áreas profundas do encéfalo. que contactam o córtex com as formações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas isoladas do córtex a outras regiões corticais (tecidos transcorticais) . a posição de maior destaque cabe à seção IV receptora das células. Grande parte das células associativas ou células de ação curta. que constituem o aparelho principal de transmissão das excitações de uns neurônios a outros.chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos periféricos. instalando-se na VI as projeções das células vegetativas. Isto se deve a que nessas . as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas. fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais simples. Nas zonas corticais aonde chegam diretamente as fibras vindas dos órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-corticais). parte considerável dos grandes . Como mostraram as pesquisas. que chegam dos órgãos sensitivos à seção IV do córtex. Toda a substância branca situada sob o córtex é constituída de fibras longas. Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si por um feixe especialmente potente de fibras transcorticais. denominado "corpo caloso". onde estão instaladas as células piramidais (motoras). Aqui elas se transferem para outros neurônios. integrante da composição do bloco por nós examinado. transferem-se ali para os neurônios de ação curta. que têm a forma de pequenas pirâmides ou células asteróides.hemisférios fica desconexa e os dois hemisférios começam a funcionar isoladamente. auditivo ou tátil às zonas primárias (ou de projeção do córtex) é aqui fracionada em grande número de indícios que a compõem. As fibras se dirigem de algumas dessas células para a periferia e. As seções I e VI não examinadas têm importância especial: na I estão instaladas as ligações horizontais "transcorticais". Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção e denominadas zonas secundária? ou de projeto e associação. a informação que chega do receptor visual. Outros tecidos. que servem de aparelhos de transferência das excítações para células associativas mais complexas. é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex ■cerebral. está situada nas seções II e III do córtex. que são denominadas zonas primárias ou de projeção. Algumas fibras descem diretamente para a seção V do córtex. Quando se corta o corpo caloso. O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-tical.

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zonas de projeção do córtex estão instalados neurônios altamente especializados. surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas. do receptor periférico. Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos. auditivos. que. com elevadíssima especialização. mais amiúde. eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex. existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal). acessível à organização posterior. ao contrário. táteis). que se espalha a fundo nas zonas contíguas. a irritação das zonas primárias com estricnina. etc. porém. A importância dessas zonas secundárias parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis. a todo um complexo de instigadores específico-modais (visuais. via de regra. Essas mesmas células. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários. sendo que alguns deles têm inclusive caráter multimodal. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente a exci- . às linhas quebradas agudas. a irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação. na zona de projeção do córtex occipital (visual) há neurônios que só reagem ao movimento do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro. Eles não reagem a indícios isolados divididos. essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. respondem somente a alguns indícios particulares das instigações. Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e associação. reagindo a instigações de diversas modalidades. À diferença das zonas primárias do córtex. Assim. A maioria esmagadora dos neurônios componentes dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de associação). Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados e os transforma num mosaico funcional das instigações. só às linhas curvas harmoniosas. depositada num pedaço de papel. como mostraram pesquisas de alguns fisiologistas. Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch.

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ao passo que as zonas visuais dessas mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração complexa da informação que chega ao sujeito. as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida". esse órgão superior da sensibilidade. etc). é por si mesmo indolor. Assim.tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos inteiros de neurônios. passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex. noutros termos. exercem a função de fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida. garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex. podem-se observar as reações do doente. "bolas luminosas". Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e aqueles indícios específico-modais (visuais. Penfield) chegarem a uma conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. feras. Como mostraram as pesquisas. rostos conhecidos. A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. irritando partes isoladas do córtex. etc. For isto que pesquisadores (O. Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e secundárias (de projeção e associação) do córtex. etc. No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e secundárias do córtex.). auditivos. "chama". táteis). Diferentemente disto. permitiu aos O. razão por que as cirurgias cerebrais podem ser feitas sem anestesia. a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes (alucinações). Resultados análogos são obtidos com a irritação do córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou sons isolados. 103 . É sabido que o córtex do cérebro. a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma definida (borboletas. Foerster. Poetzl e W.

uma cicatriz localizada nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento" na extremidade inferior do lado oposto. Assim. é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. a área ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante. ao passo que as projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador). estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente determinado do córtex de projeção. a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de sensações visuais ou auditivas. são muito grandes. é de importância especial o fato de que a área.As' zonas primárias do córtex. sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna. que chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas. e a situada nas partes . destruídas por processo patológico. do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras. da boca e dos lábios. cruzando-se no tronco do encé-falo. chegam às zonas superiores da circunvolução anterior central do hemisfério oposto. Isto significa que as fibras nervosas. Assim. ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do corpo. aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores periféricos. Isto garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação central. a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região provoca as mesmas sensações no braço oposto. Deste modo. Ao contrário. não estão distribuídas por acaso mas dispostas em ordem rigorosa. que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal (póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo. ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério oposto. os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas inferiores do corpo. apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. O típico para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos. que surgem como resultado da influência irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral.

inferiores 104 .

projetamse nas áreas internas da zona auditiva tecidos que implicam excitações. que constituem partes do campo visual. enquanto correspondentes aos tônus os baixos. Por isto a irritação desses setores do córtex ou de suas vias condutoras provoca sensações auditivas correspondentes. as fibras que vão de áreas isoladas da retina. pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem de importante indício diagnóstico para a atividade tópica de suas afecções. O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam excitação. O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de determinadas superfícies sensíveis (receptoras) em certas áreas dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite usar os sintomas de queda da sensibilidade em determinadas áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) caracteriza a organização funcional dos campos corticais primários. No entanto ele não tem qualquer validade para a avaliação do funcionamento dos campos corticais secundários. eles substituem o princípio de projeção somatotópica por outro princípio: o da organização fundamental das respectivas excitações. A consideração dos referidos fatos da estrutura somatotópica das zonas primárias do córtex é de grande importância prática. "codificando-as".do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto. projetam-se nas áreas laterais do córtex. Por isto a destruição dessas zonas não leva a ocorrências de quedas de sensibilidade. Assim. que podem ser o início (aura) de acessos epilépticos. os campos corticais secundários do bloco por nós examinado asseguram a síntese das excitações que chegam ao campo primário. projetam-se em trechos absolutamente determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual). a irritação de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em determinadas áreas do campo visual. que corresponde a tônus elevados. resultando que a afec-ção de determinadas áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual. Como já foi dito. primária do córtex. levadas a coincidirem com determinadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da per- .

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não surgem quaisquer reações sensitivas ou observações. Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciárias do córtex (ou "zonas" de cobertura das extremidades corticais de determinados analisadores). Até nos carnívoros as zonas corticais de certos analisadores estão em contato direto umas com as outras. 40. sua afecção não provoca a queda da sensibilidade visual. essas zonas pertencem àquelas em que predominam inteiramente as camadas II e III de células de associação. Tudo isso mostra que as zonas terciárias ou "zonas de cobertura" são as áreas do córtex cerebral mais jovens. As zonas terciárias das áreas posteriores do córtex cerebral estão situadas nos -limites da região parietal. occipital e temporal e compreendem os campos 39. que começam a funcionar mais tardiamente. As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam os aparelhos corticais do bloco em análise. sumamente importantes para garantir as formas mais complexas de funcionamento desse bloco. o processo de revestimento dos tecidos que surgem nessas zonas — a mielina. na ontogênese. Quando elas se irritam. A importância dessas áreas do córtex . sendo apenas esboçadas no macaco. Pela estrutura histológica. mas suscita uma desintegração geral no funcionamento desse ou daquele analisador. auditiva ou tátil. que os torna aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do que em outras zonas. que consistem na unificação da informação que chega de diferentes analisadores ao córtex cerebral. Flechsig.cepçao. leva à perturbação das formas complexas de percepção visual. As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas mais tardias da escada filogenética e são. ao passo que no homem elas ocupam parte considerável das áreas posteriores do córtex. Ainda voltaremos a abordar a análise desses fenômenos quando analisarmos os processos de percepção. conhecida na clínica pela denominação de "agnosia". Como mostrou o anatomista alemão P. formações especificamente humanas. até certo ponto. a qual se manifesta na complexa decodificação da informação que chega ao sujeito. auditiva ou tátil. Isto se refere às suas funções básicas. noutros termos. As zonas terciárias do cóitex cerebral amadurecem só muito tardiamente. 37 das áreas parietais inferiores do córtex.

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acompanhar as ações em curso. Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são um importante aparelho. pode ser vista analisando-se os comportamentos dos doentes com afecção dessas áreas do córtex cerebral. terminando com a formação das intenções. surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codificação mais complexa da informação recebida. Esses pacientes ficam sem condições de fazer operações matemáticas que exigem tomar como orientação a ordem numérica. O bloco da programação. A atividade consciente do homem apenas começa com a obtenção da informação e sua elaboração. do respectivo programa de ação e com a realização desse programa em atos exteriores (motores) ou interiores (mentais). subtrações e divisões rápidas e começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação das complexas estruturas gramaticais e de operações lógicas que incluem relações complexas. o que é de suma importância. Para isto é necessário um aparelho especial. não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo. capaz de criar e manter as necessárias intenções. que chega de analisadores isolados. regulução e controle da atividade O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação. os doentes começam a sentir dificuldades de orientar-se no espaço. confundem a direção. indispensável para as formas mais complexas de elaboração e codificação da informação recebida. entender a posição dos ponteiros do relógio e correlação dos países no mapa geográfico. comparando o efeito da ação exercida com as intenções iniciais. Via de regra. elaborar programas de ação a elas correspondentes. predominando a dificuldade de unificar em esquema espaciais simultâneos as irritações sucessivas que chegam ao encéfalo. Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores do encéfalo e seus lobos frontais. Distiguindo os objetos e sons visualmente perceptíveis.para a unificação da informação. realizá-los nos devidos atos e. 107 . cabendo nele posição dominante as seções frontais do encéfalo. fi integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes hemisférios. a regulação e o controle do desempenho ativo do homem.

Como os sistemas das áreas posteriores do córtex. Por uma questão de simplicidade da nossa exposição. sobre a qual está construído o campo pré-motor secundário (6^ área de Brodmann).Pelo caráter de sua estrutura. 11. mudando-a de conformidade com as intenções formadas no córtex. Como as áreas posteriores. as áreas anteriores têm as mais estreitas ligações com as formações subjacentes da formação reticular.área de Brodmann). cujas ações levam à periferia os impulsos formados. manteremos no exame das zonas primárias do cérebro a mesma ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarquicamente organizadas das áreas posteriores do córtex. 10. provocando movimentos correspondentes. se o córtex das áreas posteriores do encéfalo apresentava • como característica raias transversais. o que sugere o caráter motor das estruturas nele dominantes. no córtex das áreas anteriores (especialmente em sua zona primária) predomina a camada eferente de células com as grandes pirâmides. particularmente por sua região frontal. É zona primária ou de projeção das áreas anteriores do encéfalo a circunvolução central anterior ou a região motora do córtex (4?. as áreas anteriores têm estrutura hierárquica com a única diferença de que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras (aonde chegam os instigadores que atingem o encéf alo) mas as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas dirigem esses impulsos para a periferia. as áreas anteriores do córtex distinguem-se substancialmente das posteriores. 108 . 46 de Brodmann). Se no córtex das áreas posteriores do encéf alo (principalmente enx suas zonas primárias) predomina a camada IV (aferente) de células. que acompanham os impulsos formados nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam o estado geral da atividade do organismo. mais acima estão situadas as formações do córtex propriamente frontal ou região pré-frontal (áreas 9. o córtex das * áreas anteriores se caracterizava por raias verticais. sendo importante que aqui estão poderosamente representados tanto as fibras ascendentes como as descendentes da formação reticular. fazendo-os chegar aos músculos dos braços e assim provocando os movimentos correspondentes cujos programas foram preparados por todo o córtex cerebral.

a afecção das áreas médias leva à paralisia do braço oposto. descem.Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como característica a "estrutura de raias verticais" já referida. que tem em sua composição a 6? área . indicando o lugar da cicatriz. Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se a região prémotora. provocam contração ou convulsões das partes correspondentes do corpo. as células piramidais das zonas inferiores desse campo levam os impulsos aos músculos do pescoço. De acordo com isto. O córtex primário ou de projeção está situado em forma de uma faixa longa nos limites da circunvolução anterior central. que. e que o irritam. os campos motores primários do córtex têm precisa estrutura somatotópica: as gigantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os impulsos motores aos músculos das extremidades inferiores do lado oposto do corpo. as estruturas celulares de cada uma das referidas zonas difere muito uma. das outras. passando no tronco cerebral para o lado oposto. as cicatrizes situadas nessas áreas do córtex. em suma. Bets. A. razão por que o caráter da aura (período inicial dos acessos epilépticos que surgem em casos semelhantes) é de grande importância diagnostica. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos axônios. tanto maior território ocupa sua projeção na zona motora primária do córtex. descobertas pelo anatomista russo V. Essa organização somatotópica da circunvolução central anterior e suas vias condutoras é de suma importância para o diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das áreas superiores dessa região cerebral ou de suas vias condutoras leva à paralisia na perna oposta. a afecção das áreas inferiores leva à paralisia ou paresia dos nervos do lado oposto do rosto. Como nas zonas sensórias de projeção. quanto mais dirigível deve ser o respectivo grupo muscular. Como outras zonas de projeção. o território do campo motor primário representa os respectivos grupos musculares não pelo traço geométrico mas pelo funcional. chegam aos cornos anteriores da medula espinhal e são portadores de impulsos motores que. levam a conhecidos grupos musculares. predominando nele a camada eferente constituída de gigantescas células piramidais. da cabeça e do rosto. as gigantescas pirâmides das zonas médias levam esses impulsos aos músculos das extremidades superiores.

109 .

A importância da zona pré-motora do córtex (ou "campo motor extrapiramidal") consiste em que ela cria condições para o funcionamento sistemático do aparelho motor e. que garante ativos movimentos harmoniosos dos olhos. movimentos de agarramento com os braços). À diferença da zona motora e pré-motora. a perturbação das "melodias ciné-ticas" ou habilidades motoras. £ por isto que. com a afecção dessa zona surgem perdas da transferência harmoniosa de um elo a outro. 11 e 46 de Brodmann. em particular. 10. de estrutura inteiramente diferente. que é um centro anterior de movimentação dos olhos. A zona pré-motora do córtex adquire importância especialmente grande para a criação de habilidades motoras. que acompanham os objetos em movimento. com a irritação da zona pré-motora do córtex. ou seja. Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do córtex frontal ou região pré-frontal. Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à 8^ área de Brodmann.de Brodmann. mantém-se os movimentos refletores dos olhos. perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos. essas áreas do córtex não têm entre seus componentes grandes células piramidais. Ela apenas se esboça . células essas que desempenham papel de projeção e associação. Com sua afecção. assegura a transferência harmoniosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros. nessa região pré-motora predominam pequena^ células piramidais das camadas II e III do córtex. não surgem contrações de grupos musculares isolados mas complexos movimentos conjuntos (viradas da cabeça e dos olhos. aqui o princípio da projeção somatotópica está incomparavelmente menos representado do que na zona motora de projeção. Por isto a afecção da zona pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em determinados grupos musculares. integradas pelas áreas 9. Essa região prepara o lançamento dos impulsos motores e cria a "melodia cinética" que põe em funcionamento as "teclas" da zona motora do córtex. garantindo a execução de complexas melodias motoras. em outros termos. estando toda a massa cortical ocupada por células de pequenos axônios e células asteróides cujos corpos são muito pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região préfrontal é às vezes chamada de "córtex frontal granular"). À diferença da zona motora de projeção. nas quais um elo motor deve ser harmoniosamente substituído por outro.

nos vertebrados. ocupa lugar relativa110 .

A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é muito grande para a organização do comportamento. Por isto o córtex pré-frontal pode ser considerado formação especificamente humana. regula a ocorrência de atos motores e exerce controle sobre estes. como já dissemos anteriormente. Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as funções dos lobos frontais do encéfalo nos conceitos clássicos do raio refletor. Essas ligações são especialmente significativas nas regiões mediais e basais dos lobos frontais. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter permanentemente o tônus do córtex por meio de tecidos básicos. cálculo complexo) surgem nos . nela se desenvolvem. Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final da ontogênese. que os contactam com as formações subjacentes do tronco. não provocava paralisia. ocupando pelo tempo de maturação um dos últimos lugares no mapa de mieíinização de Flechsig. Dotados de poderosas ligações com a formação reticular ascendente e a descendente. Por último. A questão mudou substancialmente quando os pesquisadores passaram a enfocar o cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo. Isto dava a alguns autores fundamentos para considerar as regiões frontais do córtex cerebral como "zona muda" sem quaisquer funções especiais. embora durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição científica precisa. Como mostraram os estudos.mente pequeno nos macacos. que cria complexos programas de comportamento. as regiões pré-frontais do córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas subjacentes da formação reticular. com força especial as fibras da formação reticular descendente. distúrbios da sensibilidade nem perturbação da fala. a afecção dos lobos frontais do encéfalo não levava a nenhuma perturbação dos movimentos elementares. o que é de suma importância. concomitantemente com as fibras ascendentes da formação reticular. em cada tensão intelectual (expectativa do sinal. À luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem maior a função do cérebro. os lobos frontais do encéfalo se constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel ativador. no qual representa quase um terço de toda a massa dos hemisférios. desenvolvendo-se poderosamente apenas no homem.

lobos frontais do cérebro ondas lentas especiais. que se esten111 .

que exige elevado tônus do córtex. Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos lobos frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar solidamente as intenções. Chomskaya mostraram que se a instrução do discurso. Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal. Os experimentos da psicóloga soviética E. indispensável para a realização da tarefa colocada. Eles não podem concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou' e fogem facilmente ao seu cumprimento. Como mostrou o cientista soviético M. ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos. provocado pela instrução do discurso ou uma tarefa intelectual. dificultando-lhe o cumprimento adequado. O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo. O trabalho intelectual tenso. . dotadas de ligações sobretudo potentes com a formação reticular ativante). que continuam a reproduzir-se independentemente da tarefa colocada. N. manter os programas complexos de ação. as regiões frontais do encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de programas de ação que concretizam essas intenções. regiões mediais e basais. leva nos sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos de ativação (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-gicas). Ao manter o tônus do córtex. orientada pela tarefa colocada. provoca nos lobos frontais um elevado número de pontos de funcionamento conjunto. que se excitam sincronicamente. que provoca tensão. esses pontos de funcionamento sincrônico se conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este cessa. Livanov.dem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da expectativa" pelo fisiologista inglês Walter Gray. D. substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhantes. É natural que a atividade intelectual organizada. inibir os impulsos não-correspondentes aos programas e regular a atividade sujeita a esses programas. então esse estado persistente de elevada ativação não surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afecção dos lobos frontais do encéfalo (especialmente das suas. foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou traumas) dos lobos frontais do encéfalo.

é substancialmente perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro. aqui os planos com112 .

O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse trabalho estar estreitamente ligado à fala. no homem um deles (via de regra. É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na realização do controle permanente da atividade em processo. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha papel dominante nos destros. Isto dá fundamento para considerar que os lobos frontais são importante componente do mecanismo do "aceptor de ação" (P. Anokhin) que desempenha papel de suma importância na garantia da atividade auto-reguladora do homem. Tsvetkova). o hemisfério esquerdo) é dominante e o outro. A. Os pacientes com afec-ção dos lobos frontais do encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção inicial. dominado. Luria e L. a diferença entre os dois hemisférios ser muito insignificante. Apesar de. as partes inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e panetal) estão relacionadas com 113 .plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. enquanto nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa para o hemisfério direito. Contudo essa descrição deve ser completada com mais um princípio. Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes. que serve de base ao funcionamento do cérebro humano. o caráter dominante do hemisfério esquerdo começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como executor do papel principal na atividade de trabalho. em termos morfoló-gicos. Ao que parece. S. O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade do cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da fala. perdem a atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los.

a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das articulações precisas ("afasia motora aferente"). que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais). a desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos processos intelectuais ("afasia semântica"). a integridade do hemisfério esquerdo é importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com o discurso falado. É por isso mesmo que a afecção das áreas posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de distinguir os complexos sons da fala. formação de articulações da fala e codificação do discurso falado. da fala independente organizada. a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ("afasia motora aferente"). Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento .o discurso receptor (diferença dos sons da fala. em alguns casos. etc. É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-te) não provoca tais distúrbios. contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões terciárias do córtex. à perturbação da leitura. da escrita e. Assim. De modo diferente. sendo as áreas inferiores da zona pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em complexas "melodias cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. Como mostraram observações clínicas.do cálculo. O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal dos processos da fala. É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização dos nomes necessários.. as afecções de áreas análogas do hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem. provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada "afasia seri-sória"). a afecção das regiões do córtex cerebral. provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia).

transcorre de modo 114 .

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