Curso de Psicologia Geral

Volume 1

A presente obra compõe-se de quatro volumes, a saber:
I.

Introdução Evolucionista à Psicologia

II.

Sensações e Percepção

III.

Atenção e Memória

IV.

Linguagem e Pensamento

A. R. Luria
Curso de Psicologia Geral
Volume I 2º Edição
Introdução Evolucionista. à Psicologia
Tradução de PAULO BEZERRA
Sociedade Unificada Paulista de Ensino Renovado Objetivo – SUPERO
11/01/99

Nº DA CHAMADA

14.013/99
civilização
brasileira \

159.9 – 1967C

REGISTRADO POR LILIANE

- 2.ED.V.1

E.3

DATA

DE VOLUME

PINTO e MARIO ELBER CUNHA 1991 Direitos desta edição reservados à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. 99-20? andar .Centro 20040 .Rio de Janeiro . Av.: (021) 263-2082 Telex: (21) 33798 Fax: (021) 263-61Í2 Impresso no Brasil Printed in Brazil . Rio Branco.Título do original em russo: EVOLYUTSIÕNNOE VVEDÊNIE VPSIKHOLÓGUIYU Capa: DOUNÊ Diagramação: LÉA CAULLIRAUX Revisão: UMBERTO F.RJ Tel.A.

Sumário I — A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA. O OBJETO EA IMPORTÂNCIA PRÁTICA 1 A história da Psicologia como ciência 2 A Psicologia e outras ciências 7 Partes principais da Psicologia 11 Os métodos em Psicologia 17 A importância prática da Psicologia 23 II — A EVOLUÇÃO DO PSIQUISMO 29 A origem do psiquismo 29 Variabilidade do comportamento dos protozoários 32 Mecanismos do comportamento dos protozoários 34 Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples O sistema nervoso ganglionar comportamento mais simples e o surgimento 36 dos programas de 38 Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") 42 O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados variável 50 Mecanismos do comportamento individualmente 56 "intelectual" dos animais O comportamento 62 Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais 68 .

elaboração e conservação da informação 100 O bloco da programação.A ATIVIDADE CONSCIENTE DO HOMEM E SUAS RAÍZES HISTÓRIGO-SOCIAIS 71 Princípios gerais 71 O trabalho e a formação da atividade consciente 95 A linguagem e a consciência do homem 77 A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos 81 O CÉREBRO E OS PROCESSOS PSÍQUICOS 85 O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro 85 Princípios da organização funcional do cérebro humano 93 Os três "blocos" principais do cérebro 94 O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 95 Bloco do recebimento. regulação e controle de atividade 107 O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios 113 .

I
A Psicologia Como Ciência.
O Objeto e a Importância
Prática
O

HOMEM VIVE

e atua em um meio social. Sente necessidades e procura

satisfazê-las, recebe informação do meio circundante e por ele se orienta,
forma imagens conscientes da realidade, cria planos e programas de ação,
compara os resultados de sua atividade com as intenções iniciais, experimenta
estados emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psicológico, que constitui
o objeto de uma ciência: a Psicologia. Esta ciência se propõe a tarefa de
estabelecer as leis básicas da atividade psicológica, estudar as vias de sua
evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e descrever as
mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados patológicos. Só uma
ciência capaz de estudar as leis da atividade psicológica com uma precisão
possível pode assegurar o conhecimento dessa atividade e sua direção em
bases científicas. É justamente por isso que a Psicologia científica se torna
uma das disciplinas mais importantes, cujo significado crescerá cada vez mais
com o
1

desenvolvimento da sociedade e o contínuo aperfeiçoamento dos seus
métodos.
A história da Psicologia como ciência
É muito breve a história da Psicologia como ciência. No entanto remontam a
um passado muito distante as primeiras tentativas de descrever a vida psíquica
do homem e explicar as causas dos seus atos. Na Antigüidade, por exemplo,
os médicos já entendiam que para identificar as doenças era necessário saber
descrever a consciência do homem e descobrir as causas dos seus atos.
Esse enfoque materialista do comportamento do homem foi, séculos a fio,
combatido pela filosofia idealista e a Igreja, que viam na consciência do homem
uma manifestação da sua vida espiritual, considerando que esta não obedecia
às mesmas leis a que se subordinava toda a natureza material e por isto sua
análise não podia ser feita a partir da explicação causai dos fenômenos.
Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua consciência foram
vistos durante séculos como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os
outros processos naturais. Os filósofos assumiam diferentes posições em
relação à consciência, considerando-a manifestação da razão divina ou
resultado de sensações subjetivas, onde eles viam os "elementos" mais
simples que serviam de base à consciência. Mas todos os filósofos idealistas
estavam imbuídos da convicção de que a vida psíquica devia ser entendida
como manifestação de um mundo subjetivo especial, que podia ser revelado
somente na auto-observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou
à explicação científica.
Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve a evolução da
psicologia científicas e mesmo depois de os processos do mundo exterior se
haverem tornado objeto de estudo científico preciso os fenômenos da vida
psíquica do. homem continuaram sendo vistos como manifestação de um
mundo espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
A divisão de todos os fenômenos em duas grandes categorias — a categoria
dos fenômenos físicos, acessíveis à explicação causai, e a dos fenômenos
psíquicos, inacessíveis à análise cien2

tífica objetiva — foi consolidada pelas teses básicas da filosofia dualística de
Descartes,

para

quem

todos

os

processos

físicos,

incluindo-se

o

comportamento animal, estão subordinados às leis da mecânica, ao passo que
os fenômenos psíquicos devem ser considerados como formas do espírito, cuja
fonte de conhecimento pode ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve até período recente na filosofia e Psicologia em
muitos países. Se considerarmos que os pensadores do século XIX
começaram a focalizar os processos elementares dos campos físico e psíquico
(incluindo sensações e movimentos) como processos naturais suscetíveis de
estudo por métodos científicos exatos, os fenômenos superiores do campo
psíquico

(consciência,

pensamento)

continuavam

a

ser

considerados

manifestação do campo espiritual, que podia ser abordado somente por meio
da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à
divisão real da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia
naturalista científica ou Psicologia fisiologista, que tentava estudar com
precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos elementares e
definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que
estudava as formas superiores do campo consciente do homem, enfocando-as
como manifestações do espírito. O enfoque dualista aos fenômenos do campo
psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como os
psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (18561909), o psicólogo americano "William James (1842-1910) e o representante
da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia
ao impasse e provocou tentativas naturais de superar a estagnação surgida
nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais ao estudo dos
processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos
os outros fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara
formulação nítida com os democratas revolucionários russos em meados do
século XIX, teve sua patente mani festação na obra do célebre fisiologista
russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia
segundo a qual até os processos mais complexos do campo psíquico devem

receber tratamento materialista e ser 3 .

Outros notáveis representantes da ciência russa. Nessa corrente. São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados. os beha-vioristas americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento externo do animal. que devia substituir a Psicologia. aplicando métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista. isolados de todos os outros processos naturais.abordados como reflexos complexos. o psicólogo americano Edward Lee Thorn-dike começou a estudar o comportamento dos animais. os fenômenos dg mundo psíquico devem ser estudados pelo naturalista com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza. Watson via a forma científica natural da ciência psicológica. Bekhteryev (1857-1927). B. o pensamento é um reflexo igualmente complexo porém inibido. Em fins do século XIX. criador do estudo objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos reflexos condicionados. A. denominada behavio-rismo (ciência do comportamento) pelo psicólogo americano J. Essas pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia. exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. Watson. 4 . como M. que ele mesmo via como base fisiológica da ciência psicológica. cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente constituído. comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades) biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov. carente de fim motor externo. como fenômenos de tipo especial. Para ele. que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas exteriores de comportamento. Assim surgiu uma nova corrente na ciência. inteiramente suscetíveis de análise naturalista. durante séculos. Ivan Petrov Pávlov (1849-1936). A. Partindo da tese segundo a qual a "consciência" não passa de um conceito subjetivo. Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiologista russo. segundo essa idéia. D. inacessível à pesquisa objetiva.

a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica. Por outro lado. a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras. de atenção ativa.A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância progressista em sua época. Como já tivemos oportunidade de salientar. a imensa parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem. da memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa científica. propunha-se a tarefa de explicar os processos psí- . Mas o behaviorismo americano. atividade psíquica do homem. que se converteu na questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a Psicologia do estado de crise. capaz de abordar com métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem. iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos. que dava continuidade às tradições do enfoque científiconatural dos fenômenos. o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da evolução desta ciência ter assumido duas direções. elas se converteram na base para a posterior evolução da Psicologia como ciência. que se manifesta na atividade consciente dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos. o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo americano. A primeira. como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade psíquica. Por outro lado. Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise científica das formas mais complexas da. As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934).

5

quicos limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e
recusando-se a examinar os fenômenos complexos e especificamente
humanos da atividade consciente. A segunda orientação tomou como objeto de
sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações
subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e
recusando-se a dar aos mesmos um enfoque científico causai.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter
em objeto da pesquisa as formas superiores e especificamente humanas de
atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise científica, explicar por via
causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da
Psicologia.
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função
imediata do cérebro e procurar a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil
quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma de existência do
espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é
uma forma de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode
ser explicada somente pelas leis objetivas dessa atividade representativa. De
modo semelhante, as formas superiores de atividade consciente, de atenção
ativa, memorização arbitrária e pensamento lógico que são específicas do
homem não podem ser consideradas produto natural da evolução do cérebro,
sendo o resultado da forma social específica de vida, que é característica do
homem. Para explicar por via causai as funções psíquicas superiores do
homem, é necessário ir além dos limites do organismo e procurar-lhes as
fontes não no recôndito da ahna ou nas peculiaridades do cérebro mas na
história social da humanidade, nas formas de linguagem e trabalho social que
se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram para a vida tipos
mais aperfeiçoados de comunicação e novas formas de atividade consciente.
Ao procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve estudar a origem
socialmente histórica das formas superiores de atividade consciente e
assegurar uma análise científica das leis que lhes servem de base.
6

Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da psicologia dualista e
delineiam nitidamente o objeto de uma Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das formas complexas de
representação da realidade, que se constituíram ao longo da história da
sociedade e são realizadas ]ielo cérebro humano. Ela deve substituir a anterior
descrição subjetiva das formas complexas de atividade consciente por uma
análise científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tarefa pelo estudo
dos processos fisiológicos que lhes servem de base nem limitar-se à descrição
exterior dos mesmos. É essa a tarefa da ciência psicológica, que deve
estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de
atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das
necessidades complexas e da personalidade, considerando todos esses
fenômenos como produto da história social e sem separar esse estudo da
análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É isto que
constituirá a essência da Psicologia geral no todo e da psicologia do homem no
particular.
A Psicologia e outras ciências
A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação com outras ciências,
que não a substituem mas lhe asseguram informação importante para que ela
possa ser bem-sucedida na elucidação do seu próprio objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais
estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comportamento dos animais
que se desenvolvem no processo de interação deles com o meio, torna-se
absolutamente claro que a completa interpretação das leis do comportamento
animal é impossível sem o conhecimento das formas básicas de vida que
constituem o objeto da biologia. É necessário ter uma noção suficientemente
nítida das diferenças que existem na vida dos vegetais e animais para perceber
o principal que distingue todo tipo de comportamento ativo, baseado na
orientação no meio circundante, das formas de vida que se esgotam com os
processos de metabolismo e podem ocorrer fora das condições de uma
orientação ativa na realidade. É necessário ter uma noção precisa do que
muda
7

e o mundo dos vertebrados superiores com seus poucos descendentes. ocupando-se da atividade nervosa superior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concretizam o "equilíbrio" do organismo com o meio. que materializa os processos de excitação e inibição. Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições do meio e suas influências) e a etologia (doutrina das formas congênitas de comportamento). sobretudo nas condições de existência terrestre. É natural que os fatos constituintes do objeto da ciência psicológica não podem. que garantem a adaptação ao meio em mudança. A segunda ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação é a jisiologia. de . reduzir-se a fatos biológicos. que podem sobreviver somente com a evolução de novas formas individualmente mutáveis de comportamento. de conhecer as leis pelas quais realiza-se a regulação dos processos de metabolismo no organismo. que apresenta exigências imensas à orientação ativa baseada nas condições do meio. A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes funções no organismo. pelas quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso. sobretudo a parte referente à atividade nervosa superior. É necessário conhecer bem a diferença de princípios de vida entre o mundo dos insetos.nas condições de vida com a transição da existência de unicelu-lares num meio aquático homogêneo a formas incomparavelmente mais complexas de vida multicelular. orientação essa que é a única que pode assegurar sucesso na obtenção de alimentos e conjuração de perigos. Sem esses conhecimentos dos princípios biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base biológica. com sólidos programas congênitos que asseguram uma sobrevivência bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar a espécie até em condições de mudança. É fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o papel desempenhado nesse último processo pelas diferentes fases do sistema nervoso. e das complexas formações nervosas que executam os processos de análise e síntese. em hipótese nenhuma.

e asseguram os processos de irradiação e concentração da excitação.confluência das conexões nervosas. é igual8 .

enquanto a fisiologia da atividade nervosa superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou realizam esse comportamento. conheça os dispositivos que as executam. As formas principais de atividade psíquica do homem surgem nas condições da história social. de emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem. Tudo isso é absolutamente necessário para que o psicólogo. Por si mesmo nenhum sistema nervoso é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar instrumentos de trabalho e linguagem e explicar o surgimento das formas altamente complexas de atividade humana. surgidas no processo da história social. que é transmitida por meio da linguagem.mente importante o^ conhecimento das formas básicas de trabalho das células nervosas. Para a Psicologia. Se não usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem. que se encontram em estado normal ou inibido (fásico). o homem não disporia sequer de uma ínfima parte das possibilidades de que dispõe o seu comportamento concreto. esse receptáculo da informação. ficaria privado da comunicação com o meio ambiente. desenvolvem-se no processo de atividade material surgido ao longo da história. baseiam-se nos meios que se formaram no processo de trabalho. não se limite à simples descrição desses tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas formas altamente complexas de atividade. Desconhecer as leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia de uma das fontes mais importantes de conhecimento científico. que estuda os tipos principais de atividade psíquica do homem. É natural que as formas de'atividade do homem são executadas pelo cérebro e se apoiam nas leis dos seus processos nervosos superiores. A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia consiste em que a primeira estuda as formas e meios de atividade que surgiram no processo da história social e determinam o comportamento. Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da atividade nervosa superior — como em certa época propunham os pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo erro do arquiteto que tentasse reduzir a origem e a . tem importância decisiva a sua ligação com as ciências sociais. os sistemas em que elas ocorrem. evoluiria à margem das condições do mundo material — surgido no processo da história da sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humanidade.

análise dos estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência
9

dos materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas que em hipótese
nenhuma podem explicar a origem dos estilos arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grandemente da correta
compreensão da correlação dessas duas ciências e tanto o desconhecimento
da fisiologia como a tentativa de reduzir a Psicologia à fisiologia retardariam o
desenvolvimento da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importância que tem para a
Psicologia a sua ligação com as ciências sociais. Se na formação do
comportamento do animal as condições biológicas de vida desempenham
papel determinante, na formação do comportamento do homem esse papel é
desempenhado pelas condições da história social, que cria formas novas de
uma complexa relação com a realidade, mediada pelas condições de trabalho,
formas essas que são as fontes de novas formas especificamente humanas de
atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro emprego de instrumentos
de trabalho e a primeira forma de trabalho social introduziram mudança radical
nas principais leis biológicas de construção do comportamento e que o
surgimento e, posteriormente, o emprego da linguagem — que permite
conservar e transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento de
uma nova forma de evolução inexistente entre os animais: a forma de evolução
mediante a assimilação da experiência social. A ciência psicológica atual, que
estuda antes de tudo as formas especificamente humanas de atividade
psíquica, não pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém
das ciências sociais: do materialismo histórico, que enriquece as leis básicas
do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística, que estuda as formas
básicas de linguagem, surgida na história da sociedade.
Só levando minuciosamente em conta as condições sociais, que formam a
atividade psíquica do homem, pode a Psicologia obter uma sólida base
científica. Encontraremos a aplicação desse princípio em todas as páginas
seguintes, quando examinaremos todos os fatos psicológicos concretos. É
essa a relação da Psicologia científica com as outras ciências, com as quais
ela se desenvolve em estreito contato.
10

Partes principais da Psicologia
A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência dividida, representa
hoje um sistema amplamente ramificado de disciplinas, que estudam a
atividade psíquica do homem em diferentes aspectos. O que já dissemos antes
deixa claro que algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos
processos psíquicos, aproximando-se da biologia e fisiologia, enquanto outras
partes estudam os fundamentos sociais da atividade psíquica, aproximando-se
das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as formas básicas de
atividade psíquica e constitui a viga-mestra de todo o sistema de disciplinas
psicológicas. Afora a introdução teórica evolucionista, o exame de várias partes
científicas faz parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas sensações e
percepções e terminando nas formas mais complexas de pensamento;
compõem essa parte a análise das condições em que ocorrem os processos
psíquicos e a análise das leis do pensamento, da memória, imaginação, etc), a
análise dos processos afetivos (as necessidades do homem, as formas
complexas de emoções), a análise da estrutura psicológica da atividade do
homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análise da
psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próximas páginas do
presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto de trabalhos de
muitos pensadores célebres, entre os quais sé situam clássicos como W.
Wundt na Alemanha, W. James nos

EUA,

A. Binet e P. Janet na França e

contemporâneos como-L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A.
Smirnov e V. M. Têplov na

URSS,

A. Vallon, A. Piéron e P. Fraisse na França, E.

Nolman, G. Miller e J. Bruner nos

EUA,

Donald Hebb no Canadá e J. Broadbent

na Inglaterra, etc.
É contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas da Psicologia.
Todas elas estudam as bases naturalistas da atividade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou Psicologia animal.
Esta disciplina estuda as peculiaridades do comportamento animal em etapas
sucessivas da evolução, aque-

11 .

estudando as sensações e percepções. bem como a estrutura dos seus processos motores e a mudança destes no processo de exercício e fadiga. particularmente da fisiologia dos órgãos dos sentidos e da fisiologia da atividade nervosa superior. à qual estão estreitamente ligados os nomes de grandes . sua medida e seus mecanismos básicos. Ela descreve os processos de mudança das formas de comportamento animal dependendo das exigências que o meio lhes impõe e dos principais tipos de adaptação às condições de vida. etc. É natural que a Psicologia fisiologista se aproxime da fisiologia. A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico das ciências psicológicas é a Psicologia fisiologista ou Psico-jisiologia. Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de realização de processos psíquicos particulares foi acumulada justamente por essa área da ciência psicológica. a doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento. Ela não abstrai um instante sequer o fato de que os processos por ela estudados fazem parte da complexa atividade psíquica do homem. A psicofisiologia. A diferença consiste em que os cientistas que se ocupam desse problema tomam como objeto a análise das formas concretas de atividade psíquica. Foram precisamente esses pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psicologia e elaboraram minuciosamente partes da Psicologia como a doutrina das sensações. procuram. estabelecer os mecanismos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se realizam. a atenção e a memória do homem. As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade do século XIX por pensadores que se propunham a tarefa de estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação de diversos métodos fisiológicos. está para a fisiologia assim como a bioquímica está para a química ou a biofísica para a física. empregando os métodos mais precisos.Ias peculiaridades que dependem das condições de vida e da estrutura anatômica dos animais. de estudar os mecanismos fisiológicos dos processos psicológicos. não esquece as complexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas tenta descobrir os mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. que são de caráter muito variado quando se tornam complexas as formas de vida. a doutrina das leis básicas da memória e da atenção. permanecendo disciplina psicológica especial.

cientistas como Gustav Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações). Wilhelm 12 .

Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informação dos trabalhos de clássicos notáveis da fisiologia como Pávlov. V. Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desempenham os aparelhos particulares do sistema nervoso na estruturação dos processos psíquicos. Ukhtomsky. Fraisse (França) e outros. G. autor de importante contribuição à fisiologia evolu-cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. estuda as mudanças dos processos psíquicos que surgem quando ocorram afecções locais do cérebro e tira. introdutor do novo conceito de organização do movimento. Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas uma análise psicológica minuciosa tanto das irritações como das destruições de áreas isoladas do cérebro. criador da doutrina da atividade nervosa superior. que enriqueceram a ciência com dados relativos ao funcionamento da audição e visão. A. Bernstein. etc. Anokhin. criador da doutrina dos sistemas funcionais. cujos trabalhos permitiram introduzir uma aova área da ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes. conclusões relacionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos. assim como Piéron na França. Há. V. Kravkov. L. A. de suas observações. Edward Titchener nos EUA. É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e do paleocórtex no processo da atividade psíquica é inteiramente diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cerebrais . Lindsley (EUA). A. porém. E. temporais e occipitais — dão sua contribuição toda especial para o processo de atividade psicológica. Gershuni e S. os grandes psicólogos atuais como O.Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofisioló-gicos de estudo dos processos psíquicos). A. Broad-bent (Inglaterra). Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de diversos países . N. Vve-densky. criador da doutrina da gênese patológica. N. fundamentos para supor que também o papel de algumas regiões do córtex cerebral na organização dos complexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas do cérebro — parietais. R. A terceira disciplina componente do grupo biológico das ciências psicológicas é a neuropsicologia. Hermann Ebbinghâus e Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos exatos de medição da memória e seus mecanismos específicos). Orbeli. A.

Lashley e K. H. S. Pribram (EUA).como K. 13 .

N. B. Wiesel na Inglaterra. Janet. na Rússia) e pelos psicólogos contemporâneos (B. A psicopatologia foi elaborada com êxito por muitos psiquiatras (Kraepelin. Hubel e T. com isto. Milner (Canadá) e outros. Jasper no Canadá. nas Pecheau. Importantes descobertas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento em base neurônica. na França. dando. adquiriu importância . Vinográdov na URSS) se propõem a tarefa de investigar as formas de funcionamento de grupos isolados de neurônios e efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares. Békhterev. H. R. A importância dessa área das ciências psicológicas para a Psicologia geral consiste em que a Psicologia genética ou infantil estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolução da criança e permite acompanhar a formação dos complexos processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua evolução. O. V. na França. e outros). Luria (URSS). Os cientistas que elaboraram essa área (D. que servem de base ao comportamento. Jung na Alemanha. H. E. situada URSS. Zangwill (Inglaterra). Foi justamente por isto que a Psicologia genética.A. na Uma área especial. na Alemanha. que estuda a formação (gênese) das formas superiores de atividade psíquica. N. cabe posição especial à psicologia infantil ou genética. e permite que nos aproximemos mais de um estudo científico das doenças mentais e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica que se manifesta nos estados patológicos. S. Zeygar-nik. Podemos colocar ao lado da neuropsicologia a psicopatologia. é representada pelo estudo dos mecanismos neurônicos da atividade psicológica. L. No sistema das ciências psicológicas. que estuda as peculiaridades "dos processos psíquicos observáveis nos doentes psíquicos. a possibilidade de considerar as formas complexas de atividade psíquica do homem não como "propriedades" ou "faculdades" do psiquismo primitivamente existentes mas como resultado de uma longa formação. H. que deixou vestígios na estrutura dos processos psíquicos. Sokolov e O. A Psicologia genética permite abordar os processos psíquicos superiores do homem como produto da evolução. fronteiras da psicofisiologia e da neuropsicologia.

decisiva tanto para uma área prática 14 .

Foi justamente graças aos êxitos da Psicologia genética. Nessas áreas examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou a atividade psíquica do homem e as formas sociais em que essa atividade se manifesta. descrever os tipos de comportamento e atividade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras por traços característicos. das formas individuais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiaridades tipológicas cujo conhecimento é indispensável à solução das questões práticas da Psicologia. na Inglaterra. Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados em sua época pelo psicólogo alemão W. Vigotsky. em nossa época os problemas das diferenças individuais foram estudados com êxito por cientistas como Charles Edward Spear-man. na URSS. Thurstone. A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a avaliação do nível de evolução da criança. Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou ciência das particularidades que distinguem os processos psíqui15 . estudados pela Psicologia geral. e B. relacionados com a contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis estudiosos Jean Piaget e Lyév S. que deve ser colocado ao lado da Psicologia genética e costuma ser chamado de psicologia diferencial ou psicologia das diferenças individuais. traços característicos do processo cognitivo e do talento. Teplov. L. Sabe-se que as pessoas têm traços comuns. permitiu ocupar posição central na Psicologia atual. Ster (1871-1938). Outro campo da Psicologia. e revelam diferenças individuais. nos EUA. de peculiaridades individuais do campo emocional e do caráter.como a pedagogia quanto para a Psicologia geral. A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas diferenças individuais. A importância da Psicologia genética lhe. L. ocupa posição importante. M. memorização e pensamento) possuem estrutura complexa que se forma no processo de evolução da criança. Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo de áreas intimamente vinculadas às ciências sociais. Estas podem ser diferenças de propriedades do sistema nervoso. que a Psicologia geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos processos psíquicos (percepção e ação.

do direito. Por este motivo as tentativas de "ps:-cologizar a história" retiveram durante muito tempo o desenvolvimento desse importante campo da ciência psicológica. codificação e decodificação da informação veiculada pela linguagem e dos processos psicológicos que se baseiam nos códigos da língua e se materializam na linguagem do homem. Fracassou essa tentativa. as peculiaridades psicológicas da divulgação de informação por meios como a imprensa e o cinema. A psicolingüística. Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenômenos da vida social. representa um campo especial d-Psicologia. O estudo das peculiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes -diferentes culturas constitui atualmente uma área importan:. Janet e Lévy-Bruhl. na França. Mead. Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia. crenças. qa: devia investigar um processo inverso: a influência formadora exercida pelas condições histórico-sociais sobre o desenvoh:-mento da atividade psicológica do homem. na Inglaterra. na Alemanha e M. A Psicologia social é uma área importante porém pouco desenvolvida. autor do livro A psicologia dos povos. a análise dos fatores que servem de base a . Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de grandes cientistas de diversos países (Frazer e Malinowsky. A psicolingüística se propõe o estudo das leis básica: da linguagem enquanto meio de comunicação. as particularidades do comportamento no processo de trabalho. Turnwald. Wundt. que partiu de um dos criadores da Psicologia moderna. cujas bases não são psicológicas mas econc-micas ou histórico-sociais. da ciência psicológica. Esta disciplina estuda as leis psicológicas da comunicação entre os homens.cos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferentes culturas.: forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência que fosse capaz de revelar as bases psicológicas da formação da linguagem. dos processos d. nos EUA) e foram justamente essas pesquisas qu: lançaram as bases da etnopsicologia atual. dos mitos. fizeram-se tentativas de criar uma "psicologia dos povos" corr. etc. competição. Um campo especial da Psicologia social tem como objeto o estudo das inter-relações humanas em pequenos grupos. disciplina que nos últimos decênios s: converteu em área independente e se situa na fronteira entre a Psicologia e a lingüística. etc. W.

16 .

à definição do conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos. mas estes podem mostrar que sistema ramificado de disciplina a Psicologia moderna representa. Segundo os psicólogos idealistas. precisos e seguros. que estuda as bases psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que servem de base às obras de arte que aplicam diversos procedimentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o leitor e espectador. Segundo a concepção idealista. de formação da autoridade. São necessários procedimentos especiais. que separava o psiquismo de todos os outros fenômenos da natureza e da sociedade.) eram consideradas por esses 17 . Os métodos em Psicologia É condição fundamental da evolução de toda ciência a existência de métodos suficientemente objetivos.processos da consciência se distinguiam dos outros processos da realidade objetiva pelo fato de que o fenômeno coincidia com a essência: as formas de consciência que o homem podia observar em si mesmo (clareza ou imprecisão de consciência. que mantêm afinidades com as ciências sociais. Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia? Houve um longo período em que a Psicologia era definida como ciência do mundo subjetivo do homem.tipos concretos de interação entre os homens. a Psicologia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da consciência. que permitam penetrar além dos limites dos fenômenos acessíveis à observação imediata. esses. promoção de líderes. vivência da liberdade do ato volitivo. que lança mão de toda uma série de procedimentos objetivos de pesquisa. incluise a Psicologia da arte. caracteriza as pesquisas verdadeiramente científicas. etc. Esse caminho do fenômeno à essência. penetrar nas leis internas que constituem a essência do processo em estudo. O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que a essência do processo em estudo não coincide com as manifestações em que ela aparece. Entre essas disciplinas. Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da Psicologia. etc.

que permite ao homem orientar-se na realidade ambiente. O reconhecimento da introspecção como método fundamental da Psicologia não apenas separava esta ciência das outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução da Psicologia enquanto ciência autêntica. . ou seja. Excluía. ainda. descrição essa que se obtinha no processo de introspecção. sem nunca se limitar ao método da introspecção. empregava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha aplicação muito restrita porque nem de longe os processos psíquicos ocorrem todos por via consciente. A revisão radical da introspecção como método de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de atividade psíquica. que permitia levantar questões.psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como essência dos processos psíquicos subjetivos. essa coincidência dos fenômenos com a essência constituía o fundamento da Psicologia e lhe definia o método. refleti-la. Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao método básico da Psicologia desde o período em que esta disciplina passou a ser interpretada como ciência de uma forma específica de atividade psíquica. É fácil entender que uma "ciência" que se negava a considerar os processos psíquicos como produtos do desenvolvimento objetivo. bem como porque a autoobservação dos seus processos psíquicos pode introduzir mudanças consideráveis na ocorrência desses processos. formar programas de comportamento e controlar a sua execução. a explicação objetiva e causai dos processos psíquicos. consideravam como fundamental e única a descrição subjetiva dos fenômenos da consciência. reduzindo a Psicologia à descrição subjetiva de formas da vida espiritual e dos fenômenos psíquicos. A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objetivos de estudo dos processos psíquicos do homem. durante muito tempo continuou sendo uma área singular da filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências autênticas. que não levantava os problemas da origem e dos mecanismos objetivos desses processos não podia ter existência própria. referindo-se a ele apenas como um procedimento auxiliar de sentido antes heurístico. Para eles. o que dava a possibilidade de explicar por via causai os fenômenos e encontrar as leis que lhes serviam de base. que era produto de uma longa evolução.

18 .

Essa descrição da estrutura psicológica do processo estudado e a análise das suas partes componentes representam dificuldades consideráveis e exigem vários procedimentos auxiliares especiais. com a análise das mudanças que ocorrem em determinadas condições que podem ser mudadas pelo experi-mentador. formas de comportamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a tarefa dada. os meios auxi-liares em que ele se baseou.A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elaboração de métodos objetivos de pesquisa que usassem os mesmos procedimentos que todas as outras ciências usavam para observar o desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade e da mudança experimental das condições do seu exercício. convencionalmente chamados de método de análise estrutural. inclusão de novas exigências. etc. podem ter caráter direto ou indireto. bem como a proposta de vários procedimentos que ajudam à solução (escolha de apoios externos. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos básicos de pesquisa psicológica. método genético-experimental e método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-mica). que permitem efetuar uma análise estrutural bastante completa. ao estudar essa ou aquela forma de atividade psíquica. meios. de métodos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição exterior dessa atividade no sentido das leis que lhe servem de base. O emprego desses procedimentos diretos de análise estrutural muda . Esses procedimentos. Pertence aos procedimentos diretos a mudança da estrutura da tarefa proposta ao sujeito experimental (com dificultação paulatina. Isto significa que o psicólogo não apenas registra o.resultado final (memorização do material proposto. coloca diante do sujeito experimental uma tarefa correspondente e acompanha a organização estrutural dos processos (procedimentos. O procedimento principal da Psicologia passou a ser a observação do comportamento do homem em condições naturais e experimentais. reação motora ao sinal. procedimentos auxiliares. etc). que tornam necessária a inserção de novas operações na solução da tarefa). O método de análise estrutural dos processos psicológicos consiste no seguinte: o psicólogo. resposta à tarefa proposta) mas acompanha atentamente o processo de solução da tarefa proposta.

19 .

a realização de operações construtivas ou lógicas. por exemplo. Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-se o emprego de indícios. que por si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da atividade psíquica mas podem refletir as condições fisiológicas gerais que caracterizam essa realização. o estudo da estrutura das formas complexas dos atos conscientes. que tem importância especialmente grande para a Psicologia genética. a solução das tarefas. Entre esses procedimentos. Por isto é sobretudo importante para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolução. Ê natural que a aplicação desses procedimentos indiretos ou complementares pode adquirir sentido somente havendo organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo psicólogo. Ao lado do método analítico-estrutural. incluímos a aplicação de métodos de registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas. Pode-se obter resposta a esta questão não apenas acompanhando a execução das mesmas tarefas em fases sucessivas do desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia a denominação de método dos cortes genéticos) como também criando condições experimentais que permitam mostrar como se forma essa ou aquela atividade psíquica. As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas de atividade psíquica como a assimilação ou memorização do material. não sendo eles mesmos elementos. etc.o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer quais dentre os procedimentos empregados surtem um efeito máximo. de atividade do homem. pletismograma). Nuns casos exige-se dele solução independente da tarefa. Com este fim coloca-se em diferentes condições o sujeito experimental. Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são produto de uma longa evolução. podem ser índices do seu estado geral. presta-se-lhe ajuda. das tensões por ele experimentadas. reação galvânica da pele. empregando diversos meios de apoios extremos evidentemente- . que etapas foram incluídas nele e que fatores determinam o surgimento de processos psicológicos superiores. que ocupa posição central na Psicologia. eletromiogramas. que. noutros. a quem se propõe resolver essa ou aquela tarefa. podemos colocar o método genético-expe-rimental.

20 .

O mesmo método pode ser aplicado na Psicologia geral ou na>Psicologia das . Semelhante análise permite estabelecer quais são precisamente os processos psíquicos internamente relacionados com o fator perturbado (ou excluído) e quais são independentes deste. consistindo no seguinte: o psicólogo que estuda minuciosamente os pacientes nos quais a afecção local do cérebro provoca o deslocamento ou a deformação de uma das condições do curso normal dos processos psíquicos (por exemplo. P. como também de formular experimentalmente os complexos processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. Y. sugerindo em voz alta as vias de solução. todo um conjunto de mudanças) que surge com a mudança de uma função e dá a possibilidade de mostrar a interdependência (correlação) de processos psicológicos isolados. por outro. V. O terceiro método da Psicologia. da memória auditiva ou da sólida manutenção do programa de atividade). Zaporojets. o psicólogo pode saber qual a influência que esse fator exerce sobre o curso de toda a atividade psíquica do sujeito. analisa detalhadamente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos e define quais desses processos se mantêm intactos e quais ficam perturbados. Galpe-rina e produziu muitos fatos valiosos que se incorporaram soli-damente à Psicologia. o estudioso se mostra capaz não apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujeito experimental pode assimilar de modo ideal dada atividade. Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pesquisas neuropsicológicas. da percepção visual. especialmente importante para a neuropsicologia e psicopatologia. por um lado. A. O método genético-experimental foi amplamente aplicado na Psicologia na URSS por Vigotsky. é o método patológico-éxperimental ou método da análise sindrômica das mudanças de comportamento que ocorrem nos estados patológicos do cérebro ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos processos psíquicos. observando como ele aproveita essa ajuda. Esse método é aplicável em casos relativamente raros. Aplicando os procedimentos que constituem a essência do método genéticoexperimental. Conhecendo um fator que muda notoriamente o curso dos processos psíquicos. permite descrever toda uma síndrome (por outras palavras.eficazes.

nas quais a superevolu-ção de um aspecto do campo psíquico (por exemplo. da memória 21 .diferenças individuais.

habilidades ou aptidões. A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa importância para que se tenha uma orientação. e se o método de análise estrutural continua sendo o método básico para todas as áreas psicológicas. entretanto. aptidões) e os métodos simples de medição do nível de evolução dos processos psíquicos. acerca das peculiaridades psicológicas dos grandes hemisférios. A par com eles. têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de avaliação qualitativa e quantitativa dos processos psíquicos (dos conhecimentos. quando examinarmos a sua importância para a medição das diferenças individuais de diferentes sujeitos. Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são conhecidos pela denominação de testes psicológicos. a fraqueza ou a mobilidade insuficiente dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos os processos psicológicos e tornar-se fator decisivo no surgimento de todo um conjunto de peculiaridades individuais da pessoa.visual clara) ou alguma peculiaridade individual dos processos nervosos (por exemplo. Faremos adiante uma apreciação crítica desse método. por exemplo) de sujeitos experimentais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são propostas àqueles sujeitos cujos conhecimentos. são feitos previamente com um grande número de sujeitos experimentais (crianças de uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educação). Os testes psicológicos consistem de tarefas. Entre essas tarefas escolhem-se aquelas'que um número considerável (dois terços. ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na Psicologia patológica ou diferencial. . É fácil ver que a importância de todos os referidos métodos nã. Os resultados dessas pesquisas são avaliados por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao grupo correspondente de sujeitos). Para que esses testes possam produzir dados objetivos e mensuráveis.p é a mesma para as diferentes áreas da Psicologia a que nos referimos. que se propõem a um amplo círculo de sujeitos experimentais para estabelecer seus conhecimentos. o método gené-tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia genética. habilidades ou aptidões são mensuráveis. Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são métodos da pesquisa psicológica. habilidades.

22 .

A técnica complexa deve estar adaptada às possibilidades do homem. aviação. do transporte. A indústria moderna. etc. que poderiam. que exigem revisão sumamente rigorosa e que a informação que recebem tenha a máxima acessibilidade. É natural que essas exigências podem ser atendidas somente levando-se em conta as leis da percepção humana. que nos mecanismos modernos consistem de grande número de indicadores. que aumenta à medida que a direção do comportamento do homem em bases científicas e a consideração do fator humano na indústria e nas relações sociais se tornam questão central da vida social. querendo. adaptar a máquina às possibilidades do homem. dentre os quais mencionamos apenas os mais importantes. a área da Psicologia aplicada que se dedica a questões ligadas a esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia do trabalho.A importância prática da Psicologia A Psicologia tem grande importância não apenas para a solução de uma série de questões teóricas do campo psicológico e da atividade consciente do homem. a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-tes à seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou daquelas formas de trabalho. da melhor maneira. O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho. Essas exigências devem referir-se principalmente à construção racional dos painéis de direção. com isto. o volume da memória humana e os modos de originalizá-las. que se criem condições que assegurem circunstâncias ideais para a manutenção da atenção e o menor esgotamento do homem. É necessário criar condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo e o menor número de erros. Por outro lado. que estão se convertendo . subentende uma complexa interação do sistema homemmáquina. Coloca-se a questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias? Todas essas questões são elaboradas pela engenharia psicológica e pela Psicologia do trabalho. que compreende a direção de mecanismos. Ela tem importância também prática. A ciência psicológica é de grande importância prática para vários campos.

23 .

da idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar.em importante componente da organização cientifica da produção. apresenta a base psicológica científica para a elaboração de uma seqüência otimal do material proposto bem como a'aplicação dos métodos mais eficazes de ensino. porém. é o fato de que a falta de aproveitamento que esses alunos demonstram pode ter fundamento variado. exige organização mais racional dos métodos de ensino. a correlação dos meios direto e lógico-verbais de ensino. Questões como o grau de desdobramento do processo de assimilação dos conhecimentos por etapa. que dá contribuição substancial para a fundamentação científica do processo pedagógico. estabelecer o círculo dos conceitos acessíveis às crianças da idade correspondente e os métodos de transmissão do material que garantirão sua melhor assimilação. Em toda classe. há aqueles que não conseguem assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendimento do trabalho de toda a turma. É sabido que o crescente volume de conhecimentos. a área da pedagogia. que cria obstáculo para levar-lhes instrução com êxito. os modos de formulação otimal de regras. Isto depende substancialmente das peculiaridades psicológicas da criança. em suma. O ensino programado (ou teoria da assimilação programada. O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a construção racional do ensino e da educação é a análise das peculiaridades psicológicas das crianças. O essencial. os procedimentos que asseguram assimilação adequada dos conceitos e a transferência de princípios assimilados no processo de ensino constituem apenas uma parte das questões estudadas pela psicologia pedagógica. É sabido que o sucesso do ensino depende não só dos programas e métodos racionalmente organizados mas também da própria composição dos alunos. Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino e a educação da geração adolescente. A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada que deve assegurar a argumentação científica dos programas e métodos de ensino. nova área da pedagogia que se desenvolveu ultimamente. por etapa. dos conhecimentos). paralelamente aos alunos adiantados. que devem ser assimilados no processo de ensino escolar. .

24 .

No .Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem mentalmente retardados e o atraso orgânico do seu cérebro os torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima. 15 sabido que o desenvolvimento de uma doença depende não apenas do agente patogênico e do estado do organismo mas também de como o próprio doente encara sua doença e como a avalia. que possam descrever as peculiaridades psicológicas das crianças que não conseguem acompanhar o programa. não tendo assistido a determinada parte do programa. auxiliar. por terem sofrido uma doença qualquer. Essas crianças devem ser transferidas para escolas destinadas a alunos de audição difícil. o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades de aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam mentalmente retardadas mas porque apresentam algumas deficiências. explicar as causas principais do retardamento da sua evolução e prestar ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas. por outras palavras. Essas crianças necessitam de aulas complementares especiais que possam eliminar as suas lacunas. depende daquilo a que os terapeu-tas chamam de "quadro interno da doença". Por último. que dificultam a comunicação verbal oportuna e plena e provocam retardamento temporário do desenvolvimento. Essas crianças devem ser transferidas da escola de massa para uma escola especial. mas o seu atraso deve-se ao fato de que. A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna das causas do atraso de diferentes grupos de crianças e o diagnóstico das diversas formas de atraso no programa. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspondente e nessas condições podem cumprir com êxito o programa. Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na aprendizagem por serem fisicamente fracos. onde procedimentos e métodos especiais permitirão compensar tais deficiências. Essa tarefa pode ser cumprida somente com íntima participação dos psicólogos. O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a medicina. elas não podem avançar com sucesso porque a assimilação do novo material não encontra nelas a necessária base de conhecimentos. As outras são crianças plenamente normais. Eles são capazes de concentrar com êxito suas atenções apenas durante tempo limitado. como deficiências auditivas. ficam rapidamente exaustos e não têm condições de assimilar o material correspondente.

entanto. a pró25 .

que tipos de perturbação dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas. por um lado. estudo esse feito pela Psicologia. Nos capítulos correspondentes do presente livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para a solução dessas . a afecção dessas áreas do cérebro provoca perturbações visíveis das formas complexas de atividade psíquica. dos reflexos. por outro. a formação de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento da atividade consciente. A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas da medicina como a neurologia e a psiquiatria. Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente se manifestam em sintomas da neurologia clássica como a mudança de sensibilidade. É justamente por isto que. Essas partes dos grandes hemisférios estão relacionadas com a realização das formas superiores de atividade psíquica como a análise do afluxo de informação. estão relacionados com determinadas áreas do cérebro. permitindo focalizar mais de perto o fundamento científico da prática da psico-terapia. com as peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo. permitindo ver. Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução de duas importantíssimas questões: o diagnóstico e a natureza da doença. Graças a isto tornou-se possível introduzir um método novo e prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro. fazendo parte das formas complexas de atividade psíquica. sem provocar sintomas fisiológicos nítidos. tem por isto grande importância para a medicina. que aplica a análise psicológica do caráter das perturbações dos processos psíquicos superiores peio diagnóstico tópico das afecções cerebrais. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e neurocirurgia clínicas. O estudo das peculiaridades caracterológicas e da estrutura do indivíduo. do tônus e dos movimentos. da psico-higiene e da psicoprofilaxia. com o caráter das generalizações que o indivíduo faz. ainda. Este permitiu ver quais os fatores que. Parte considerável dos grandes hemisférios cerebrais não tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a afecção dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visíveis nestes. Nos últimos decênios surgiu um novo campo da Psicologia — a neuropsicologia — já mencionado por nós.pria atitude em relação à doença está relacionada com uma série de fatores psicológicos. e o restabelecimento das funções perturbadas.

questões práticas. 26 .

dominante) provocava perturbações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez. podem ser reestruturados com base na criação de novos sistemas funcionais. Por isto a aplicação dos métodos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite precisar substancialmente o diagnóstico das doenças mentais e se converte em componente essencial da Psicologia geral. Por isto a consideração das características psicológicas desses processos deve ser componente obrigatório da preparação e da atividade do pessoal de atividade forense. as funções perturbadas podem ser restabelecidas em novas bases. dos seus motivos e traços caracterológicos.Não é menor a importância da Psicologia para precisar o diagnóstico das doenças mentais. Deste modo. elaborada pela Psicologia. As perturbações da percepção e da ação. da gradação da percepção e da memória. tornou-se um importante componente da medicina moderna. da memória e do pensamento assumem caráter absolutamente diverso sob diferentes formas de retardamento mental e diferentes doenças mentais. cabe mencionar o último campo de aplicação prática da Psicologia: a psicologia forense. das peculiaridades do seu pensamento. baseados nas áreas cerebrais' não-afetadas. perturbadas como resultados de afecções locais do cérebro. A teoria do restabelecimento das funções psíquicas superiores (perturbadas durante afecções locais do cérebro) por meio de um restaurador especial da aprendizagem. Mas a doutrina da complexa construção sistêmica dos processos psíquicos superiores mostrou que cada forma complexa de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um sistema de zonas cerebrais que trabalham conjuntamente e permitiu rever radicalmente essas teses. Mostrou que os sistemas funcionais. O promotor e o juiz estão constantemente diante de formas complexas de atividade psíquica do homem. É grande a importância prática da Psicologia na elaboração das bases científicas do restabelecimento das junções perturbadas nas afecções cerebrais. Há relativamente pouco tempo ainda se considerava que as funções. que se perturbam com qualquer afecção local do cérebro. Por último. . não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principalmente do seu hemisfério central.

A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas importantes áreas da prática forense: a análise dos depoimentos das 27 .

Por outro lado. Deste modo. 28 . É natural que a incorporação da Psicologia à solução desses problemas permite dar uma contribuição importante para a construção da causa judicial em bases científicas e constitui área importante da aplicação prática da Psicologia. a Psicologia não é apenas uma área importante da ciência como tem campos amplamente ramificados de aplicação prática. Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas asseguram matéria autêntica apenas em certos limites e que o grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplicação de uma investigação psicológico- experimental. fornecendo bases científicas para importantes campos da prática. o crime cometido deixa vestígios não só na situação externa como também no próprio psiquismo do criminoso.testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no crime. daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais esses vestígios podem ser descobertos.

29 que aquela sempre existia . que se desenvolveu nos pri-mórdios da filosofia idealista. A filosofia dua-lista supunha que a consciência era tão eterna quanto a matéria. considerava o psiquismo como uma das propriedades primárias do homem e a consciência como manifestação direta da "vida espiritual". Por esta razão nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismo. de sua origem e dos graus de sua evolução. Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas da evolução da atividade psíquica. A origem do psiquismo A Psicologia pré-científica.II A Evolução do Psiquismo CAPÍTULO anterior vimos como a ciência moderna entende o objeto da Psicologia e que aplicações práticas tem esse campo de atividade. paralelamente a esta.

que respondem à ação das substâncias úteis ou das condições que contribuem para a assimilação dessas substâncias. que também contribuem para a assimilação. essas moléculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentícias como a condições como a luz e o calor. Para sobreviver. Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacervaíos de responder às influências que integram o processo de metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores "indiferentes" ). transmitindo de geração a geração as respectivas modificações das moléculas albuminosas. que não podem existir sem um constante metabolismo com o meio. Junta-se a ela uma segunda propriedade: a possibilidade de conservação das propriedades altamente especializadas da excitabilidade diante das influências. elas devem segregar para o ambiente externo os produtos da desintegração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência normal. Deste modo. Essa propriedade fundamental se manifesta no processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica. que constitui o funda30 . de descrever as condições nas quais deve ter surgido essa forma altamente complexa de vida. Essa última propriedade parece relacionar-se com a modificação de algumas frações dos aminoácidos (particularmente do ácido ribonucléico. Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da vida é o surgimento de complexas moléculas albuminosas. respondendo também à influência nociva que lhes ameaça a existência. Ao mesmo tempo. Reagem negativamente aos efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificultam a existência normal. É natural que essas moléculas albuminosas altamente complexas (às vezes são chamadas coacervaíos) possuam propriedades especiais. elas devem assimilar do meio ambiente as substâncias que são objeto de alimentação e necessárias para mantê-las vivas. Elas não reagem às influências "neutras" estranhas ao processo de metabolismo. Esses dois processos — a assimilação e a eliminação — Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental de existência dessas complexas formações albuminosas.A Psicologia científica parte de teses inteiramente diversas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta para o problema da origem do psiquismo.

que integram o processo imediato do metabolismo. se estas anunciam o surgimento de influências ("bióticas") de importância vital. O vegetal que responde com um intenso metabolismo às influências bióticas não reage às influências exteriores. Noutros termos. Há uma circunstância que é essencial para a vida vegetativa. dirigido pela excitação em relação às influências bióticas (umidade. Eles condicionam os chamados "movimentos dos vegetais". morrer por falta de luz ou umidade. são apenas formas de uma intensa troca ou crescimento. começando pelas algas mais simples e terminando com as formas complexas de vida vegetativa. Esses processos caracterizam toda a vida. que integram o processo imediato do metabolismo. que são um sinal do surgimento dessas condições. os animais (mesmo os protozoários) se orientam ativamente na claridade. Ele não se orienta ativamente no meio ambiente e pode. Fenômenos como o crescimento da raiz do vegetal no sentido da profundidade do solo ou o crescimento irregular do tronco dependendo da iluminação ou a inclinação dos vegetais no sentido dos raios solares constituem apenas o resultado do fenômenos da "excitação" diante das influências bióticas (não indiferentes para a vida). quanto maior é a necessidade de obter alimentação que o ser vivo simples sente. iluminação. a aquisição de formas de excitação altamente especializadas e sua conservação com a transmissão imediata às gerações seguintes caracterizam o estágio de evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa. a começar pelos protozoários. caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não só às influências bióticas.mento molecular da vida) e costuma ser considerada como importante processo que serve de base à memória biológica. por exemplo. Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-tuadamente as formas de existência na etapa seguinte da evolução: o estágio da vida animal. etc). tanto movimentos e mais ativos são os seus . mas também às influências "neutras". Cada organismo animal. Quanto mais intenso é o metabolismo. Os processos de excitação diante de influências bióticas de importância vital. mesmo que as fontes de luz e umidade estejam bem próximas mas não tenham efeito imediato sobre ele. procuram condições de importância vital e reagem a todas as mudanças do meio. não-bióti-cas. em essência. que.

31 .

indispensável ao metabolismo) mas são insensíveis à luz. O principal consiste em que o ser vivo começa a "orientar-se" no meio ambiente. eles se distribuem igualmente por toda a câmara. Sabe-se que os unicelulares. que não existiam no mundo vegetal. É o surgimento da sensibilidade que pode servir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo. mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em condições de experimento.diferenças de temperatura. Variabilidade do comportamento dos proiozoários A sensibilidade aos instigadores "neutros". Mas se durante longo período iluminarmos o canto aquecido e escurecermos o não-aquecido. que agora adquire para eles o significado de sinal de elevação da temperatura e começam a concentrar-se no canto iluminado da câmara. realizado pelo pesquisador alemão Bramstedt. usados nesse experimento. é chamada sensibilidade. Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamento individualmente variável se processa com relativa lentidão. provoca mudanças radicais nas formas de vida. apesar ias. ao contrário. se estes começam a dar sinais do surgimento de influências de importância vital. aquecermos uma parte da câmara igualmente iluminada. Por isto se os colocarmos numa câmara igualmente aquecida. com uma parte clara e outra escura. 32 . ou seja.tanto mais vivificadas são as formas em que se produz sua atividade de "orientação" ou "procura". começa a adquirir formas de comportamento individualmente variáveis. eles se concentram no canto aquecido. Essa capacidade de reagir aos instigadores "abióticos" neutros sob a condição de que eles sinalizem para o surgimento de influências de importância vital. são sensíveis ao calor (qué é para eles condição biótica de importância vital. a reagir ativamente a cada mudança que neste se processa. diferentemente dos fenômenos da ex-citabilidade. Citemos um experimento típico. Se. capacidade essa que surge no estágio de transição para o mundo animal. a situação muda e os unicelulares se tornam sensíveis à luz.

Mas se esses experimentos eram repetidos várias vezes durante 10-12 horas. Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num vaso estreito com seção microscópica. A trajetória por eles adquirida se mantém inclusive quando eles são recolocados num vaso arredondado e passam algum tempo fazendo os mesmos movimentos pela trajetória rômbica. que 33 . Por conseguinte. podendo desaparecer inteiramente se durante longo período a luz não for reforçada pelo calor. batendo contra as paredes do tubo. os pro-tozoários fazem movimentos que lhes são característicos. Pode servir de exemplo o experimento do conhecido pesquisador polonês Edward Dembowski. A seção era tão pequena que para sair do tubo no sentido da ação do agente biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se. se mudarmos as condições que provocam essas reações. transcorre com relativa lentidão e as mudanças que surgem desaparecem com a mesma lentidão. obtinha-se uma nova "habilidade". que garantem o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. Smith. Co-locados.em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular. Mas essas mudanças são tão importantes que as novas formas de comportamento emergentes (de adaptação às novas condições) permitem realizar as respostas necessárias de adaptação às novas condições de modo muito mais rápido do que se verificava em nível inferior da escada evolutiva. o ciliado começava a virar-se com rapidez bem maior e no final do teste gastava apenas 1-2 segundos para virar-se. que os distingue acentuadamente dos vegetais. sob a influência das novas condições. No começo do teste ele gastava de 3 a 6 minutos para virarse. O processo de mutabilidade do comportamento-individual dos protozoários. eles começam a bater-se contra os vidros dessa proveta mas logo seus movimentos adquirem caráter modificado. Assim. Exemplo típico desse processo encontramos no experimento do estudioso americano A. Colocados numa proveta arredondada com água. a trajetória desses movimentos começa a refletir a configuração do vaso. Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-tozoários pode ser provocada com base em suas reações defensivas.É fato característico que essa sensibilidade à claridade se forma paulatinamente entre os unicelulares.

Leôntyev (cf. Como vemos. Leôntyev. que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular). embora muito elementar. N. em vida. O exemplo. É possível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina das propriedades bioquímicas do protoplasma. é constituído de uma camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais líquida (plasma-sol). uma vez surgida. Sabe-se também que as camadas externas do protoplasma do unicelular são mais 34 . que corresponde às condições mudadas. Problemas da evolução do psiquismo). de novas formas de reação indica o surgimento de urna mutabilidade individual no comportamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se do surgimento de um comportamento autêntico. pode ser visto no experimento realizado inicialmente pelo pesquisador belga Blesson. Sabe-se que o protoplasma. Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa manifestação de sensibilidade ao agente neutro inicial. N.. É característico que. a mudança do comportamento se mantém entre eles durante período bastante longo. Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-celulares como entre os pluricelulares de organização relativamente simples. que mostra esse surgimento tão lento e o desaparecimento igualmente lento da nova forma de comportamento. sendo necessário muito tempo para desaparecer. posteriormente pelo pesquisador soviético A. a formação de um novo tipo de comportamento. A. nessa fase da evolução. No entanto o fato da manifestação. respectivamente). exige dos protozoários bastante tempo. Mecanismos do comportamento dos protozoários A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das condições físico-químicas do comportamento dos protozoários e das causas dos seus movimentos positivos ou negativos (movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a partir de outros objetos.se processava com uma rapidez 180-200 vezes superior à reação inicial.

O próprio protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade. elas mesmas. e cada ação externa provoca intenso metabolismo. ele é absorvido pelo corpo do unicelular. ao passo que influências inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo. que. sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação. incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto correspondente de sua superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar ativamente as substâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo. ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que foi apanhado.excitáveis do que as camadas internas. Como mostraram os experimentos de Fogler. Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência. ao que parece. entre os unicelulares mais simples (amebas). que se estende paulatinamente das camadas externas às internas. sofrer as mais complexas modificações. entretanto. Seria. extinguindo-se conforme o tipo de. mas se caracteriza por sistemas altamente diferenciados e seletivos de excitação. . Esses gradientes de excitação. O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do protoplasma. incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um esquema tão simples. Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a excitação por luz. Não sendo aliníen-tício. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as influências que chegam até eles podem. servem de base aos movimentos do unicelular. dirigido a partir do objeto influente. segregando-se para o meio o produto da desintegração. que mudam segundo o processo de metabolismo que nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação. esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário. é depositado no lugar de metabolismo mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto. a influência mecânica de certa força provoca apenas reações relativamente fracas do protozoário.gradiente de excitação paulatinamente decrescente. Se esse objeto é alimentício.

35 .

coloca-o em movimento. por exemplo. que formam. os "flagelos" das bactérias. Mas' o que já sabemos a seu respeito nos leva a pensar que.Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da ameba saciada. que. o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes. que é um dos componentes básicos do seu plasma. espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular. Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples Os processos descritos de irritação em face sensibilidade às influências neutras que 36 das influências bióticas. Por último. estão lançadas as bases da complexa atividade da orientação ativa no meio. Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa. de . que mais tarde constituirão traço importantíssimo da atividade psíquica. reduzindo a resposta a eles na medida do seu prenuncio repetido e longo. assim como os mecanismos que lhe servem de base. Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as observações ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses estímulos são o resultado de certas modificações e do ácido ribonucléico. Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do metabolismo mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente. é neles que surgem os gradientes de excitação constante. e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos correspondentes ou às instigações que sinalizam o surgimento destes. A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo especial. Neles podemos distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma. aqui. Esses "flagelos" estão em movimento permanente e são agentes das funções mais importantes de orientação no meio exterior. formando com isto o extremo "cerebral" provisório do seu corpo.

com o surgimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velocidade do processo é igual a 0. qué entre esses animais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma de rede. na estrutura do corpo da medusa. A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 metros por segundo nos vertebrados superiores). A alimentação por meio da difusão direta de substâncias alimentícias.anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares. agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada). É isto que leva a uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-ricelular. pertencentes à classe dos celenterados. que ocupou posição central no nível dos protozoários. eleva-se o papel da orientação ativa no meio externo. por último. agentes da função que nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da excitação se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular. a que nos lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma mais excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso. Isto leva. 37 . à separação das células de uma recepção especial de irritações que chegaram ao corpo do animal. a velocidade do processo de excitação aumenta ainda mais. anêmona-do-mar e estrela-do-mar. Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente simples. e ao surgimento das primeiras células contrativas. Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares. por exemplo.5m por segundo (observemos que com a contínua evolução do sistema nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação. Se o processo da excitação pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por segundo. Torna-se necessário assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de excitação no protoplasma dos unicelulares.

O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de vida. os animais com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu comportamento. e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório. Esses defeitos são eliminados nas etapas posteriores da evolução. disposto ao lado dele. que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso primário (reticu-lar). criando antes de tudo uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimen38 . Só entre os celenterados mais complexos. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante". tornando-se incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. capaz não só de receber mas também de processar. o papel de "dominante" passará para outro raio. uma parte do corpo (por exemplo. um raio da estrela-do-mar) não difere pela estrutura de outras partes do corpo (raios). É natural que essa falta de um órgão dominante permanente. Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais. Como nas etapas da evolução já descritas. têm também os seus limites. Essa alimentação encontra-se agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais difícil. A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível. A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo do animal. sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa. pode tornar-se dominante e assume a função de órgão mais ativo no movimento. limita substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível. codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado.No entanto as vantagens consideráveis.

Isto é facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo do verme. É a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso. cada um desses gânglios corresponde a um segmento particular do corpo do verme.-foto e hi-dro-receptores. Os sinais dessas mudanças passam pelos filamentos e chegam ao núcleo frontal ou gânglio. Aqui esses sinais são codificados. enquanto a parte traseira se limitará a simples contorções.-termo.tos. bem como mudanças de umidade. onde se concentra uma rede especialmente densa de hemo.-mecano. Esses aparelhos percebem mudanças químicas. que leva ao surgimento do sistema nervoso em cadeia ou ganglionar. A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre eles tipos mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de no- . Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento. Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. assume papel principal. Os impulsos que chegam a esses gânglios provocam movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio frontal. ao passo que os gânglios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. e os "programas" de comportamento que surgem em forma de impulsos motores se difundem pela cadeia dos gânglios nervosos. que se distingue acentuadamente do princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso. A extremidade da cabeça do verme. Na extremidade frontal do verme. que se processa com a ajuda dele. onde se concentram no primeiro "centro" que surge pela primeira vez nessa fase da evolução. principalmente nos insetos. térmicas e de luz que ocorrem no meio exterior. que aparece pela primeira vez nos vermes e adquire a máxima complexidade nos invertebrados superiores. marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital. conservando seus movimentos organizados. sem revelar nenhum indício de movimento organizado. concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão. distribuídos de maneira especialmente densa.

39 .

Com várias repetições desse experimento. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo americano R. a "aprendizagem" começa a a processar-se duas vezes mais rápido e depois de . A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita. Yerkes. evitando o choque elétrico. M.vos modelos de comportamento individualmente adquiridos. Processo de "ensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T Testes N" de t 1-40 — 41-80 — 81-120 — 121-160 — 161-200 — 201-240 — Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T 'rr Testes JV? de os erros 17 Ensiname repetid nto o 1-40 —. que colocou minhocas num tubo em forma de T. labirinto extremamente simples. que provocava reação defensiva. a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminharse para o lado direito. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico. 41-80 — 81-120 — Reensinamento 161-165 — 166-175 — 176-185 — 186-195 — 196-205 — 206-215 — 216-225 — Repetindo-se esse 14 13 9 4 4 19 9 4 4 7 7 7 5 3 2 mesmo experimento após uma longa pausa.

ainda. 40 .80 experimentos o número de erros já é mínimo. que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento". Foi sintomático.

o pesquisador americano J. Como mostrou o experimento. provocadas por semelhante "aprendizagem". ao passo que o extrato das partes anteriores dos vermes "ensinados" (incluindo a substância de gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. V. Esses experimentos se referem tanto à importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade" como à importância que para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio frontal. Depois disto o extrato das partes posteriores do corpo dos vermes "ensinados" não provocou o efeito necessário. A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse experimento pode-se apenas supor que as mudanças. Nesses experimentos. cujas células são imunss ao efeito dis-. ele triturou os corpos desses vermes. eles cometeram imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns não-ensinados. Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento necessário num labirinto muito simples.solvente do. que a minhoca possui uma forma primitiva de memória. Ao serem colocados pela primeira vez no labirinto. Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da possibilidade de transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação dos mecanismos bioquímicos que servem de base à memória elementar. estão relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) . os vermes que absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. Depois disto. fez deles um extrato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam sido ensinados. noutros termos. 41 . Isto foi mostrado pelos experimentos nos quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente depositados em solução de ribonuclease (fermento que dissolve o ARN) .Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas formas de comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas. ribonuclease. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de "habilidade" nessas etapas da evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-plasma e que a "habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral.

Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" por via humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade". Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos complexo-diferenciados de recepção. com o desenvolvimento de programas sumamente complexos. Essa evolução está relacionada. Só na última etapa da evolução. as células sensíveis à luz se concentravam em dois discos sensíveis à luz. Vejamos isto no exemplo da evolução dos fotorreceptores. que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o cristalino). adquirindo a forma de uma esfera vazia. localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo. que permitem assimilar uma informação altamente especializada que vem do meio exterior. os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a aquisição de uma "habilidade" estável e que todas as células do corpo do animal parecem participar da conservação dessa "habilidade". Isto permitia aos animais orientar-se a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a direita ou a esquerda mas ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. que permitem ao animal adaptar-se às condições complexas porém permanentes e estáveis do meio. dando ao animal a possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia localizar a fonte da luz no espaço. Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com nitidez especial nos articulados. ainda. permitia a refração da luz cadente e o efei42 . Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa questão. os discos hipersensíveis se arqueavam. que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. Um pequeno orifício. As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de sensibilidade. A princípio. as células sensíveis à luz estavam simplesmente concentradas na superfície frontal do corpo. verificado na assimilação da substância dos corpos dos vermes ensinados. Na etapa seguinte da evolução.

que reagem às mais ínfimas vibrações ultra-sônicas. Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível — o olho —. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre nós. o mais importante órgão receptor de luz. na parte média. É característi- . que permite reconhecer à distância os objetos agentes. às quais chegam os impulsos dos receptores periféricos. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão complexo. eles têm receptores químicotáteis especiais (situados nas antenas). receptores de sabor (situados na cavidade bucal. continua sendo uma das conquistas mais importantes da evolução. A estrutura do olho. por exemplo. que permite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um sistema auto-regulável de aparelho refratário. Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente as células visuais. apresenta uma estrutura muito complexa.000 vibrações por segundo. que servem de base aos movimentos de adaptação dos insetos . cuja especialização foi por eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações. construído. O gânglio frontal dos insetos superiores. de muitos milhares de células independentes. Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. A par com o complexo "fotorrecep-tor (o olho). das abelhas. provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores. nas pernas). difundem-se pelos filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal. Nos insetos ela tem o caráter de "olho de faceta". às vezes até a 600. que é um protótipo do cérebro e um aparelho que reúne (codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas ultracomplexos de programas congênitos de comportamento. as células sensíveis da cavidade bucal. As excitações. é diferente em animais diferentes. que pela primeira vez permitia não apenas reagir à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente. as células olfativas. receptores de vibração (situados nos tímpanos das pernas). É possível que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos receptores por nós desconhecidos.to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa esfera vazia. que captam as mínimas mudanças de sabor. às vezes. na parte posterior.

43 .

assegurando com isto o reflexo de determinadas influências estruturalmente organizadas. que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas neurôniças do gânglio frontal em forma organizada. onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto. consiste em que tais programas são congênitos e transmissíveis por hereditariedade. a estrutura dos órgãos receptores. Freqüentemente eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram exemplo de comportamento racional. entre os insetos. Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas. que permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências captáveis em sistemas integrais. próxima da estrutura 44 . reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos da forma de funcionamento desses neurônios). impulsos esses que lhe formam o comportamento. Eles estão bem adaptados às condições de existência dos insetos). São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento. Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão grande que exigem análise especial e minuciosa. é característico que já nessa fase da evolução façam parte da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados. É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal. Os códigos de excitações. dividindo-a em grande número de elementos componentes e permitindo. que reagem aos mínimos indícios particulares da informação que chega ao organismo. as características da tromba. posteriormente.co que a disposição dessas células tem caráter organizado. Esses programas são produzidos por milhões de gerações e transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da estrutura do corpo (as formas das asas. Nelas já se pode observar uma estrutura plana de "vídeo". são transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico situado abaixo. Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente complexo. que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos. A peculiaridade dos programas sumamente complexos. que representam uma parcela de absoluto predomínio no comportamento dos insetos.

são congênitos. encobre mecanismos elementares. que colocam em ação os ciclos congênitos dos atos de adaptação. onde elas secam fatalmente. para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para metamorfosear-se em cri-sálida. isto ela faz com admirável precisão. enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles estejam suficientemente cheios. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca na terra. deram certa clareza à forma misteriosa do comportamento e mostraram que essa forma de atividade. nascem com essas formas de comportamento assim como nascem com uma estrutura dos órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade. Não é necessário falar dos programas congênitos de comportamento da aranha. e muitos outros.ideal matematicamente calculada. é gerado de fato pela vibração da teia. particularmente da corrente denominada etologia (etos -— comportamento). que ataca a mosca que se enreda na teia e a devora. se um diapasão vibrante toca a tela. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para que as larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento. Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar da racionalidade dos instintos e aproximá-los do comportamento racional. que tece uma teia impressionante pela construção. Por isto basta substituir a água por um espelho brilhante para o mosquito começar a depositar células em sua superfície. o brilho da água leva o mosquito a deitar células na superfície aquosa. Só ultimamente as pesquisas dos zoólogos. os insetos não precisam estudá-lo. Assim. ou dos programas congênitos de comportamento da abelha. Os mecanismos descritos permitem avançar consideravelmente no sentido de melhorar a compreensão dos processos que servem de base ao . O complexo programa congênito de atividade da aranha. que impressiona pela complexidade e a aparente racionalidade. que constrói favos de forma economicamente ideal. Os exemplos citados de comportamento racional altamente complexo. Essas pesquisas mostraram que os complexíssimos programas de comportamento "instintivo" são gerados de fato por estímulos elementares. Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem movimento. a aranha se lança contra ele assim como se lança contra a mosca.

comportamento congênito e 45 .

É sabido que algumas variedades de minhocas. a freqüência com que a minhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra ponta não era a mesma e que o fator principal que resolvia a questão era a diferença de distinção química entre a parte superior e seu enxerto. Este supôs que o comportamento da minhoca fosse determinado não pela percepção da forma mas por uma sensibilidade química bem mais elementar. Neste caso a minhoca tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina. Isto se considerava manifestação da "atividade racional" das minhocas. passando gelatina neutra em outra. que mostra a complexidade com que se desenvolve semelhante pesquisa e que interessantes são os resultados a que ela conduz. mostrar o quanto o comportamento instintivo difere do comportamento racional. (a) (b) (a/b) seiva da parte superior — bases da folha (b) relação de preferên-da folha (s) cia de uma ou ouparte superior da folha (s) — enxerto (t) tra extremidade da parte superior da folha (s) — gelatina (g) folha enxerto — gelatina (g) (e) 51:49 . reproduzindo a forma dessa folha mas com a ponta para baixo. à qual Dar-win se referiu em sua época. mas pela grossa. seiva da parte superior numa ponta e seiva de enxerto noutra. mas passou seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos. Os resultados do teste mostraram que. Citemos apenas um exemplo. ainda. Como testes de controle. após se abastecerem de folhas para o inverno. Para verificar isto ele colocou diante da minhoca vários pauzinhos iguais. e levava a supor que a minhoca percebe a forma da folha e "calcula" por que extremidade é melhor arrastá-la para o buraco. A causa desse comportamento da minhoca tornou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt. fazendo o mesmo na ponta de outros com seiva da base da folha e. nesses casos.passar da simples descrição à sua explicação. passou seiva da parte superior ou do enxerto da folha numa ponta dos pauzinhos. Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pesquisador alemão Haneli realizou o seguinte experimento: cortou de uma folha um pedaço. arrastam-nas para os seus buracos pela extremidade fina.

68:32 93:7 84:16 46 .

cobertas por desenhos de diferentes formas geométricas. dispostas sob ângulos diversos. Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos pela forma complexa da flor e às vezes por seu colorido. Deste modo. por exemplo). manifestaram-se . Essas pesquisas mostram que o fator que permite à abelha distinguir as formas correspondentes não é constituí47 .com nitidez especial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha. apesar dos programas de comportamento congênito muito complexos que dominam nos invertebrados (principalmente nos insetos). eles podem ser acionados por sinais relativamente simples. que acionam mecanismos congênitos muito complexos. a minhoca não manifestava qualquer preferência por essa ou aquela ponta. Esses sinais. quando esta pousa seletivamente sobre essas ou aquelas espécies de flores melíferas. Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo alemão Frisch e posteriormente Hertz com seus experimentos. refletem as condições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma longa evolução. No teste de controle em que se passava* gelatina neutra numa ponta do pauzinho. a hipótese segundo a qual a minhoca reage à forma da folha foi abandonada. a minhoca preferia duas vezes mais a ponta com seiva da parte superior. mostrando-se que um sentido químico bem mais simples desempenha papel decisivo no processo dessa complexa forma de atividade. a abelha distingue com a mesma facilidade o círculo simples e o cortado. se uma ponta do pauzinho estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra ponta com seiva da base. Se uma ponta estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do enxerto. não pousando sobre o primeiro e reagindo seletivamente ao segundo. Todas as observações descritas permitiram que nos convencêssemos de que. essa preferência pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais nítida. é com dificuldade que a abelha distingue formas geométricas simples como o triângulo e o quadrado.Assim. Por último. nos quais a abelha era treinada para pousar em xícaras com solução de açúcar. As condições que põem em ação os programas congênitos de comportamento. mas distingue facilmente formas complexas como a estrela pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes.

Deram resultados análogos experimentos em que a abelha distinguiu coloridos diferentes. A 48 . no processo de evolução. Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada.do pela simplicidade geométrica destas mas por sua semelhança com os instigadores naturais: a forma das flores. adquiriram a capacidade de responder seletivamente aos estímulos de importância vital como as cores mistas. ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar anterior. que determinam exatamente o indício distinguido pelo animal. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um comportamento muito "racional". Verificou-se que os programas congênitos de comportamento "instintivos" são racionais apenas em determinadas condições rigorosamente padronizadas. aproveitando o momento em que a vespa faz seu reconhecimento no buraco. entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai. que reproduzem o colorido de flores diferentes. o aspecto estrelário ou o corte das formas. etc. verde-azul. afastando-a alguns centímetros. convenceram de mais uma importantíssima peculiaridade do comportamento congênito "instintivo". Eles mostraram que a abelha distingue com dificuldade as cores puras. etc). Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial. de acordo com as quais esses programas se formaram no processo de evolução. realizadas por zoólogos e psicólogos. amarelo-verde. volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. Mas basta mudar um pouco essas condições para que os programas congênitos deixem de ser racionais e percam seu caráter "racional". traz a presa para dentro e se retira. ela deixa a presa junto do buraco. É muito possível que essa elevada seletividade dos indícios a que reage o inseto esteja relacionada com o surgimento de neurônios do gânglio frontal altamente especializados. Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. pega-se a presa que está na boca do buraco. a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior e. Neste caso. que. Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção dos indícios que acionam os programas congênitos (instintivos) de comportamento são as condições naturais de vida (condições ecológicas). distingue com muito mais facilidade as cores mistas (vermelho-amare-lo. As pesquisas. a disposição das formas no espaço. ..

perde sua racionalidade quando essas condições se modificam. E aqui o comportamento. conservando sua aparente "racionalidade" apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da evolução. apesar de que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos inadequados. criando-se condições. que tornam racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais elevado. perdendo nessas condições a sua racionalidade. É sabido que a abelha enche os favos com mel e. 49 . £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células consegue sobreviver. Mas se em condições de um experimento especial corta-se todo o fundo dos favos. Via de regra. após depositar a quantidade suficiente de mel. más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução. assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento "instintivo" são suficientes para a preservação da espécie. A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio biológico fundamental de vida dos insetos. é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no mundo dos insetos.vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas. são programas rotineiros. esta continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo. e sempre que a presa se desloca alguns centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco. Observações análogas foram feitas com abelhas. mecânicos. lacra os favos. derramando-se o mel neles depositados pela abelha. Por isto. que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida. predominantes na atividade dos insetos. Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento. estes depositam um imenso número de células. que se distingue por um grande excesso. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução — os vertebrados. com uma mutabilidade lenta e difícil.

Só os vertebrados inferiores. paralelamente ao comportamento "instintivo" (ou de espécie) congênito e pouco mutável. no homem. Essa nova forma de comportamento existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da evolução começam a ocupar posição cada vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e. pois sobrevive apenas um número relativamente pequeno de indivíduos que nascem de ovas fecundas. Tudo isso cria uma necessidade biológica para que. hereditarieda-de. Por isto só entre os peixes a prevalência de formas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é suficiente para a preservação da espécie. apresentam um excesso de reprodução tão grande que os aproxima da classe dos insetos. em seguida. o meio mais mutável. Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. que seriam capazes não apenas de receber os sinais do meio e pôr em ação os programas de comportamento "instintivo". e a sobrevivência dos indivíduos isolados se torna uma condição para a preservação da espécie. à criação de órgãos nervosos basicamente novos. transmissíveis pors. assegurando novas formas . aumentando infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em constante mudança. como também de analisar a informação recebida e fechar as novas ligações. surja um novo comportamento individualmente variável. que habitam o meio aquo-so.O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que tanto as formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um princípio inteiramente distinto. afastar definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de comportamento. A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de novas possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de novas formas individualmente mutáveis de adaptação levam. As condições de alimentação se tornam mais complexas. no processo de evolução. Muda simultaneamente também o tipo de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais raramente 5-6 semelhantes.

individualmente 50 .

Esse comportamento complexo é determinado por um estímulo relativamente elementar — uma cinti-iaçâo visualmente perceptível —. Neste caso a cintilaçjío aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o papel cintilante como o faz contra a mosca. situados no tronco cerebral. que incluem inicialmente o sistema talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo). construídos segundo o tipo de conjuntos nervososecretórios ou de núcleos nervosos (gânglios). Ao perceber uma mosca. Esse órgão é o cérebro. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua língua viscosa. que se desenvolvem cada vez mais e aos poucos vão começando a dominar inteiramente as formações de nível inferior. assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas "instintivos" e pouco mutáveis de comportamento que se formaram no processo da evolução. Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã. absolutamente. cuja estrutura reflete o longo caminho percorrido pela evolução. nos vertebrados superiores. que é constituído de formações do tronco superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais elevadas apenas esboçadas. predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes realizar programas congênitos mais elementares de atividade adaptadora. garantem os processos de regulagem do estado interno do organismo — metabolismo (hipófise). formações de uma nova camada de grandes hemisférios. 51 . Os níveis inferiores. Esses programas de comportamento apresentam estrutura semelhante à acima descrita. respiração e circulação sangüínea (tronco) e respostas reflexas aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo quadrigêmeo). incluindo posteriormente. resposta a um sinal previamente analisado. A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas umas às outras. que por pouca coisa diferem dos tipos de atividade intensiva acima descritos. não sendo. Esses órgãos.variáveis de comportamento. Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas.

D. que começam a predominar nos répteis e nas aves e. ao passo que o esmeri-lhão.. posteriormente. no cordeiro. Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem. Como mostraram as observações de diversos autores. podem ser gerados por estímulos relativamente simples. Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento. às vezes muito complexos. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar 52 . os órgãos da camada antiga. Mas essas formas de comportamento. das formas biológicas estáveis de sua existência). que se alimenta de carniça. asseguram formas de comportamento individual mais plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores. tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais.Os órgãos do sistema talâmico-estriado. a^nda estão estreitamente vinculadas a formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. e. que já adquirem traços de variedade individual. É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de comportamento animal. os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante). Assim. Slônim. o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais. esses movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça). que refletem as formas de vida do animal. entre elas as do fisiologista soviético A.

já nos mamíferos superiores ele adquire importância de maior peso e os processos de comportamento. em outros termos. que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das observações do pesquisador alemão Schafer. por mais insignificante que seja a sua complexidade. No entanto. realizado pelos órgãos das áreas mais elevadas do cérebro. já não podem ser realizados com a destruição do córtex. Sobre os órgãos que acabamos de descrever. como mostram os dados que abaixo citamos. começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do corpo.ao ver uma ave. edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do sistema nervoso dos grandes hemisférios. o que é menos conhecido. Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral. baleia leão cão macaco homem 1/10. que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência (ecologia) dos animais. 53 . Se nos mamíferos inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído. Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações. que mostram que processos de percepção e que movimentos podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex.000 1/540 1/250 1/100 1/40 Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. particularmente do novo córtex cerebral cujo peso. a raposa que se prepara para obter alimento-sofre inibição ao vê-lo e retém a saliva. Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural. mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos de comportamento.

Tingue os formas e só reage à luz. orientarse nas suas mudanças. não dis- férios. A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais. 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex dos pação das ares correspondentes grandes hemisférios. depois da extirpação do O gato. mantendo os seus movimentos. córtex dos grandes hemisférios. depois da extirpação do A ave.Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da evolução (segundo Schafer) Funções visuais Funções motoras A ave. O macaco. distribuídas em seis camadas principais. cuja massa é constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas. fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento individualmente variáveis.continua a voar. Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas complexas de comportamento animal. Continua a ver. correspondentes a essas mudanças. a quarta destas 54 . O macaco fica cego após a extir.recupera seus movimentos algumas horas depois. pode manter-se em pé mas se desorganizam os seus movimen dos grandes hemisférios. pode manter-se em pé somente ajudado. depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios.O cão. depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemis- córtex dos hemisférios. após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios. A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental — o córtex cerebral — consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior. tos independentes. a pousar no luGar marcado O rato.

incluindo aí as camadas restantes) . e quanto maior é a importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida do animal. que estabeleceu por um método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do porco é muito pequeno. ao passo que no homem as regiões olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas. audição e sensibilidade neuromuscular). do faro. olfato. O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos órgãos do corpo. Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian. que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas ligações. o último grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios. Deste modo. desproporcional ao seu tamanho. finalmente.é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos. visão. tanto mais importante é o seu lugar no córtex cerebral. O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas regiões estão ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato. No macaco. É uma peculiaridade que a projeção dos lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse animal — ocupa idêntica posição desproporcional nos grandes . a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do córtex ocupam posição de grande destaque.) ocupa um território imenso. A quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e. etc. ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que é para este o mais importante órgão do tato. no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo olfato) as regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios. dos sentidos e das superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. ao passo que no cão (animal predominantemente olfativo) as áreas dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior. O princípio ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervoso central se manifesta também aqui. que asseguram a formação de novos programas de comportamento individualmente variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios.

55 .

foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados. Tudo isso mostra que o córtex dos grandes hemisférios do cérebro. mas enfatizou-se a atenção na maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de comportamento. que se desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos vertebrados superiores. forma-se sob a ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que o converte em órgão principal. gerados no processo da evolução. que assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação recebida do meio exterior. como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio. o estímulo que tenha sido de importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento. Mecanismos do comportamento individualmente variável Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo qualquer. que levam ao surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis. bem como em órgão fundamental de regulação do comportamento individualmente variável. As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores. então seria bem mais complexo o mecanismo do comportamento individualmente variável. perigo) começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos programas de comportamento. entretanto. por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que o ameaça. Este se reduz a que. acionasse programas complexos de comportamento. surgido no processo de evolução de uma espécie. Os mecanismos fisiológicos.hemisférios desse mamífero. 56 . que se realiza através do córtex cerebral. a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua formação. É de interesse.

Para resolver tais problemas. sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov. era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. considerando que as novas formas de comportamento. do caráter das tentativas que ele empreendia. O animal dedvia mover um pedal ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido. encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo. surgem no processo de testes e erros desordenados. que levam o animal a atingir o objetivo. Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto. aplicado por Pávlov. em cujo extremo havia um estímulo (objetivo). uma porta fechada a ferrolho). Watson e muitos representantes do behaviorismo americano). aquele método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de novos atos adaptadores. condizentes com as novas condições. noutros termos. separando-o do estímulo (a comida) por um obstáculo (por exemplo. os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de "aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". Uns explicavam esse processo a partir de posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike. Embora o método de estudo da aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao método dos "reflexos condicionados clássicos". Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le- . consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo. O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os caminhos errados. A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos". O processo de aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento. Com essa finalidade colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática). que levam à solução das tarefas colocadas diante do animal.

57 .

dirigidas pelo objetivo. Tolman. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo. Várias observações. o reforço pelo êxito desses movimentos casualmente surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos inadequados fossem extintos. às vezes. 58 . Outro grupo d& autores mantinha outras posições. o fisiologista soviético V. reforçadores os bem-sucedidos. Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à margem da análise o próprio processo de seu surgimento. escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. D. restringem-se paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias reações motoras adequadas ao objetivo. abandonando a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso". analisa a situação. ao tentarem examinar as regras pelas quais se formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal. confirmaram o fato de que.vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a comida. os programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise. que são posteriormente reforçadas. P. realizadas por pesquisadores americanos. Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. Essa situação da "tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal. Posteriormente. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de um ativo desempenho de orientação. A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação. Krech.

por isto. situados na direção oposta ao esquema do movimento. o segundo grupo de animais adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos. via de regra vão sempre em direção ao objetivo. Como mostrou o pesquisador americano Dashnul. o animal que ao menos uma vez tenha se orientado no labirinto. Foi característico o fato de que a aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao animal orientar-se ativamente nas condições do labirinto. com muito mais freqüência do que nos becos sem saída do labirinto. com a rapidez dos animais do segundo grupo. compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos animais.Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) adquire a habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo. dandose-lhes a possibilidade de se orientarem previamente nas condições do labirinto. Deste modo. Nesses testes de "aprendizagem latente". que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo. aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto. Esse experimento foi realizado pelo pesquisador americano Hald. ativamente pela caixa problema. situados na direção do caminho dado. cria um sistema geral de direção no qual ele corre e entra nos becos sem saída do labirinto. pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter casual mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou como surgimento de uma "hipótese motora". que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos que adquirem "habilidade" no labirinto. passiva59 que permitiu enquanto ao outro animal movimentar-se animal observava . os testes feitos pelo animal colocado em labirinto não são casuais. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" confirmam o fato de que as tentativas que o animal empreende no processo de aquisição de novos programas de comportamento não são casuais mas constituem o resultado da orientação ativa do animal nas condições do meio.

mente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. o rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram.. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação pela orientação prévia do animal nas condições do teste. por cambaleios (i. Neste caso o rato devia atravessar a bacia a nado. adquiriu a habilidade motora com rapidez bem maior do que o segundo. porém. o rato acabou se colocando no rumo certo e atingindo o objetivo. mas com isto não perdeu a habilidade adquirida. J .. que não é mera finalidade dos movimentos mecanicamente adquiridos. Como resultado dessa operação. são. por uma série especial de testes. e. é confirmado. não são. Também neste caso o primeiro animal. fazendo movimentos inteiramente novos. Tudo isso mostra que os programas motores. que se orientara ativamente na situação. adquiridos em condições de tarefas especiais. Depois que essa habilidade foi adquirida. esquemas dinâmicos complexos. um fim mecânico dos reflexos. e. Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida. 60 •. finalmente. destruiu-lhe em seguida o cerebelo. que mostram que essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática. uma parte do labirinto foi excluída. Após formar no rato a habilidade de encontrar os caminhos no labirinto. i. por meio de movimentos inteiramente novos). em hipótese alguma. Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter. em cujo teste o rato adquiriu a habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto. antes. colocando-se em seu lugar uma bacia com água. que se formam no animal no processo de •sua atividade orientada. Movendo-se.

a caçar a presa (as aves de rapina. a raposa). a ovelha.contrário com os carnívoros. os programas naturais de comportamento predominam e a aquisição de novas fomas de comportamento individualmente variáveis é um processo lento. É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas congênitas ("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". Nos herbívoros. principalmente nos animais que ingerem alimentação pronta (por exemplo a galinha. nestes a atividade dirigida se processa na forma de buscas ativas. o leão-marinho. etc. a vaca). podem aprender facilmente a executar movimentos que imitam uma "lavagem de roupa". que em condições naturais são obrigados a procurar a comida.Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre os vertebrados. O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o caráter das novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas naturais de comportamento. no qual o mergulho e a perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de comportamento. sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento. que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida (com a ecologia) do animal. O guaxinim ou o urso. que se erguem freqüentemente sobre as patas traseiras. Ocorre o. deixando livres as dianteiras. que correspondem a uma situação variável. a atividade dirigida tem caráter passivo. aprende com especial facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la. Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos movimentos ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do programa motor mas se forma no processo dos testes motores. 61 . Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") com a aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo característica do comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução. limitado. Deste modo.

da qual fazem parte: — a atividade de procura c orientação. particularmente os primatas. que se encontram no topo da escada da evolução. Assim. surgem novas formas de comportamento individualmente variável. de controle dinâmico da ação é o elo mais importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual. K. se não leva a esse efeito. ela cessa. nas etapas superiores da evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura desmembrada. ao passo que os movimentos se tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa. que. Dois fenômenos essenciais. com pleno fundamento.» — a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do objetivo. antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor- ..O comportamento "intelectual" dos animais A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite supremo da evolução do comportamento no mundo animal. Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter autoregu'ador. e. cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos vertebrados. Se a ação leva ao efeito necessário. Nos vertebrados. Anokhin). i. que leva à formação do esquema de solução da tarefa. distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. — a comparação das ações executadas com a intenção inicial. No processo dessa atividade começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa. Esse mecanismo de "aceptor da ação" (P. podemos denominar comportamento "intelectual". o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los.

62 .

"extrapolando" esse movimento (ao que parece. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". O "reflexo extrapolativo". Ao contrário. que se tornam mais complexas. que Krushinsky observou em vários testes. O animal se colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante. o cão). contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia. colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles.tamento dos animais. por exemplo). prendia-se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução. O segundo é o fato das formas de desenvolvimento da memória dos animais. Essas observações mostraram que os animais. que "extrapola" o movimento observado e leva em conta o deslocamento. O segundo fato. foi estabelecido que alguns animais mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. Foi esse reflexo. especialmente aqueles que levam modo de vida carnívoro. O1 primeiro deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada. observam a presa e a perseguem (o corvo. reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. efetuadas nos últimos anos por Krushinsky. que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos vertebrados supe- . sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha. À vista do animal. O estimulante aparecia aos olhos do animal no furo do tubo e continuava em movimento. V. que tem a forma especial de comportamento "antecipante". Sabe-se que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas. representa uma das importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento individualmente variável nos vertebrados superiores. orientando seu comportamento pelo movimento dos olhos). à qual o pesquisador soviético L. observavam os movimentos do alimento e. que se encontram numa fase inferior de evolução. Nas observações. Nesses testes. tornando a aparecer no final do tubo.

63 .

na qual se colocava o estimulante à vista do animal. pelo psicólogo soviético N. ele o apanhava. S. nas etapas superiores da evolução dos vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. corria imediatamente para esta. 64 . Voitonis e o fisiologista polonês Y. Isto era indício de que o animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto. é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da memória nas fases subseqüentes da evolução dos animais. se o vestígio não se mantinha. Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto. Noutros testes. numa das quais colocava-se um estimulante aos olhos do animal. libertava-se o animal do cabresto.riores. Percorrido certo tempo. sendo depois libertado. cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal. Em testes mais complexos. A essência do teste consistia no seguinte: Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada. colocava-se o animal entre duas caixas. o animal corria para essa caixa. Simultaneamente com a formação da percepção por imagem. Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos. o animal não apresentava movimento dirigido. Esse fato foi observado minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais. Y. É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do meio exterior. Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais complexas de comportamento. não o fazendo se o vestígio desaparecia. já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens dos objetos circundantes. Se o animal conservava o vestígio do primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa. Se o vestígio do estimulante colocado numa das caixas se mantinha. substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e acadêmico soviético I. Konorsky.

no início da década de 20 do corrente século. Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas quais lhe era dado o objetivo. Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " o macaco " " " até 10 minutos " " de 16 a 48 horas.Os testes de "reações retardadas" mostram que. o macaco devia desistir das tentativas de obtenção imediata do objetivo. usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto instrumentos especiais. Colocava-se o macaco numa grande jaula. Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual" dos macacos. O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou. O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo. usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula. Para estudar essa forma de comportamento. A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever. É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas "intelectuais" superiores de comportamento do animal. aumenta a duração da conservação das respectivas imagens. desta feita com portas. Diferentemente da 65 . ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não permitia que a mão do macaco o alcançasse. Para atingir o objetivo. colocava-se o macaco numa jaula fechada. nas fases posteriores da evolução dos vertebrados. A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos).

para alcançar o estimulante.primeira situação. na última situação. devia alcançar a vara mais próxima — a curta — e. Mas na mesma área foram colocados caixotes. porém. obter o estimulante. 66 . obter em seguida a vara comprida. mas no campo de visão do macaco havia duas varas: uma curta. e obtinha o alimento. estirando-se ou saltando em sua direção. situada mais adiante e. Com ela conseguia o alimento ou uma vara mais comprida. obtinha o estimulante ou desistia de suas tentativas e apanhava a vara. Essas tentativas inúteis podiam durar muito. na terceira variante dos testes. o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo. o animal devia arrastá-los para perto deste. Em testes mais complexos. colocava-os um sobre o outro. até o macaco ficar exausto e abandoná-las. limitando-se a examinar a situação. no qual o animal permanecia sentado. e os alimentos do macaco se tornavam ato executivo para a realização de um "plano de solução" anteriormente adquirido. colocá-los uns sobre os outros e trepar. trepava. com o auxílio desta. Depois disto vinha o momento decisivo. neste caso a orientação na situação se transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o "campo visual" da percepção e se realizava por meio dos respectivos movimentos dos olhos. A princípio o macaco tentava sem êxito obter o estimulante por via direta. em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente a um braço estirado. Todos esses testes apresentaram como característica o fato de que a solução da tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período da observação antecedente da tentativa. e outra comprida. um pouco adiante. ao alcance do braço. Para resolver a tarefa. Finalmente. com a qual alcançava o alimento. arrastava imediatamente os caixotes. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o objetivo. Em seguida vinha o segundo período. olhava em torno. o macaco abandonava todas as tentativas de alcançar a comida por via direta. pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. que Kõhler descrevia como surgimento inesperado do insight. Por último. imóvel. já com ajuda desta. As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro. A princípio. situada na parede traseira da jaula e. O macaco se dirigia imediatamente à porta. contornando-a. o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior.

Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato de que. O psicólogo austríaco K. tinham de puxar os frutos para si junto com os ramos). A solução posterior da tarefa é. alongan-do-a. "aproxima" os objetos que dela fazem parte no "campo visual". o macaco deve enfiar uma vara de bambu em outra para. segundo Kõhler. . O próprio Kõhler expressa a hipótese de que. quando a vara e o alimento (uma fruta) ou mesmo as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas de tal modo que não caem apenas no campo de visão. que repetiu a pesquisa de Kõhler. Segundo Kõhler. que viviam em árvores. acha possível aproximar essas formas de comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las por via antropomórfica como manifestações de "iluminação criativa". O conhecido psicólogo americano Yerkes. no comportamento "intelectual" dos macacos. colher uma fruta. ao examinar a situação. a análise da situação se transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o macaco.Foram justamente essas observações que deram a Kõhler fundamento para considerar o comportamento do macaco um exemplo de comportamento "intelectual". Se nos experimentos de Kõhler a descrição do comportamento dos macacos é definitiva. Kõhler tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos quais o macaco deve antes preparar o instrumento que usará posteriormente para conseguir o alimento. Bühler cita a experiência anterior do animal para explicar esse comportamento e considera que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto como resultado da transferência de uma experiência anterior (os macacos. por exemplo. apenas a realização de estruturas "visuais" em movimentos reais. essa incidência das duas varas num único campo de visão é o que pode levar à solução adequada da tarefa. fechando-os em certas "estruturas visuais". a explicação das vias pelas quais o animal chega à solução "intelectual" da tarefa apresenta complexidades consideráveis e diferentes pesquisadores dão a esse processo interpretação diversa. Essas ações se tornam bem mais difíceis para o macaco e podem ser realizadas somente se as pontas de ambas as varas estiverem no campo de visão direto. a tarefa se torna insolúvel para o macaco.

67 .

a -que Pávlov chamava de reflexo orientador e que.O problema dos mecanismos que servem de base ao surgimento de comportamento "intelectual" do macaco não poce ser considerado definitivamente resolvido. livres da função de andar. -em decorrência do fato de que as mãos dos macacos. Nenhuma atividade desvinculada de todas essas necessidades biológicas é possível para o animal. que fez observações com o comportamento dos macacc"' possível não opô-lo às formas mais elementares de mento e consideram o comportamento "intelec cacos como uma espécie de "pensamento maniu. consiste em que esse comportamento é sempre determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ("pelo campo exterior") ou por vestígios da experiência anterior. que caracteriza o comportamento de todo animal. Só nas etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a necessidade de orientar-se no meio ambiente. Se uns pesquisada»» o opõem às formas mais elementares de comportamento " dualmente variável dos animais. razão por que o comportamento do animal pode ser considerado com todo fundamento como comportamento cortical-subcortical. outros (por exemplo. atinge desenvolvimento considerável. Surge uma pergunta natural: quais são os seus traços característicos e quais os limites que o comportamento dos animais não pode ultrapassar? A análise do comportamento dos animais permite indicar três traços fundamentais. O segundo traço. Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais Vimos que o comportamento adaptador individualmente variável dos vertebrados superiores pode adquirir formas muito complexas.. O primeiro é o fato de que todo comportamento individualmente variável (mesmo o mais complexo) do animal conserva sua ligação com os motivos biológicos e não pode ultrapassar-lhe os limites. começam a executar formas mais complexas de atividade orientada. num processo de testes e erros. Todo comportamento animal tem por base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de alimento. autoconservação ou necessidade sexual). . que adquire caráter mais r. no macaco. não podendo 68 .

noutros termos. que se transmitem em códigos hereditários ("comportamento instintivo") ou que se formam na experiência imediata de dado indivíduo (comportamento individualmente variável ou reflexivo- condicionado). No primeiro teste o alimento foi posto aos olhos do animal na primeira caixa. O comportamento do animal é sempre dirigido pela experiência imediata ou pela experiência passada. é "um escravo do seu campo visual" ou "escravo da sua experiência passada". segundo Kõhler. começouse (já sem que o animal o percebesse) a transferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte. Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais poder-se-ia encontrar alimento. ou para a caixa onde antes se encontrava o alimento. de importância capital. mostra que o animal. Nenhum animal pode assimilar o princípio do "deslocamento sucessivo" e nunca corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento mas onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio abstrato. Podem ser fonte de comportamento do animal os programas alicerçados em sua experiência de espécie. O experimento de Buytendijk realizado com animais de diferentes grupos. e ele nunca pode impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se a lugar que não tinha sido memorizado. não se dirige pela abstração destas. permitindo-se ao animal apanhá-lo. não se torna livre. e seu comportamento nunca se liberta dessas influências diretas. O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese com uma pesquisa famosa. Depois. O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas limitações das fontes desse comportamento. No segundo teste. permitindo-se sempre ao animal correr livremente para a caixa onde ele supunha encontrar o alimento. A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para a caixa onde vira que havia sido posto o alimento.ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito com eles. Os animais não têm nenhuma possibilidade de assimilação da experiência alheia e de um indivíduo transmiti-la assimilada a outro indivíduo. Os . e muito menos de transmitir a experiência formada em várias gerações. o alimento (também aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa. nos experimentos seguintes. em seguida para uma terceira.

fenômenos que se descrevem como "imitação" ocupam lugar relativamente limitado na for69 .

assimilação essa que caracteriza a história social do homem.Mação do comportamento dos animais. São esse três traços que constituem as peculiaridades fundamentais de todo comportamento e o distinguem radicalmente da atividade consciente do homem. sendo antes uma forma de transmissão prática direta da própria experiência que uma transmissão de informação acumulada na hitória de várias gerações. 70 . que lembre o mínimo sequer a assimilação da experiência material ou intelectual das gerações passadas.

a grande maioria dos nossos atos não se baseia em quaisquer inclinações ou necessidades biológicas. a atividade do homem é regida por complexas necessidades. que incentivam o homem à aquisição de novos conheci71 . opostos àqueles pelos quais acabamos de caracterizar o comportamento dos animais. Situam-se entre elas as necessidades cognitivas. As diferenças da atividade consciente do homem sintetizam-se em três traços fundamentais. freqüentemente chamadas de "superiores" ou "intelectuais".III A Atividade Consciente do Homem e Suas Raízes HistórtcoSociais Princípios gerais 1 OR SUAS peculiaridades fundamentais. a atividade consciente do homem difere acentuadamente do comportamento individualmente variável dos animais. O primeiro desses traços consiste em que a atividade consciente do homem não está obrigatoriamente ligada a motivos biológicos. Além do mais. Via de regra.

a necessidade de útil à sociedade. Encontramos freqüentemente situações nas quais a atividade consciente do homem. A atividade consciente do homem não pode tomar come orientação a impressão imediata da situação exterior e sim um conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação. Sabendo que a água do poço está envenenada. ela não é forçosamente determinada por impressões evidentes. o homem nunca irá bebê-la. esses casos são apenas exemplos da independência do comportamento do homem em relação aos motivos biológicos. c homem pode levar guardachuva. nesta. cobre com seu corpo bocas de fogo ou se lança à morte sob tanques. penetrar nas conexões e dependências profundas das coisas. neste caso. há o terceiro traço característico. conhecer a dependência causai dos acontecimentos e. São amplamente conhecidas casos de heroísmo em que o homem. razão por que há todo fundamento para afirmar-se que c comportamento humano. Aqui ele obedece a um profundo conhecimento das leis da natureza e não à impressão imediata de um tempo de sol e céu claro. além de não se sujeitar às influencias e necessidades biológicas. Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio de modo imediatamente mais profundo do que o animal.mentos. mesmo que esteja cor muita sede. Por último. pois sabe que o tempo i instável no outono. de ocupar. seu comportamento não é orientado pela impressão imediata da água que o atrai mas por um conhecimento mais profundo que ele tem da situação. ou por vestígios da experiência individual imediata. após interpretá-los. que se baseiam em motivos não-biológicos. Ele pode abstrair a impressão imediata. Assim. ao sair a passeio num claro dia de outono. O segundo traço característico da atividade consciente do homem consiste em que. e chega inclusive a reprimi-las. movido por elevados motivos de patriotismo. determinada posição. baseado no reconhecimento da necessidade. recebidas do meio. Entre os animais não há semelhantes formas de comportamento "desinteressado". ainda entra em conflito com e . . tomar come orientação não impressões exteriores porém leis mais profundas. é livre. que difere a atividade consciente . a necessidade de comunicação. à diferença do comportamento do animal.

do homem do comportamento do animal.
72

Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas fontes ■— 1)
os programas hereditários de comportamento, jacentes no genótipo e 2) os
resultados da experiência individual —, a atividade consciente do homem
possui ainda uma terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e
habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de
toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível
no processo de aprendizagem.
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu comportamento sob a
influência das coisas que se formaram na história: senta-se à mesa, come com
colher, bebe em xícara e mais tarde corta o pão com a faca. Ele assimila
aquelas habilidades que foram criadas pela história social ao longo de milênios.
Por meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos mais elementares e
posteriormente, por meio da linguagem, ele assimila na escola as mais
importantes aquisições da humanidade. A grande maioria de conhecimentos,
habilidades e procedimentos do comportamento de que dispõe o homem não
são o resultado de sua experiência própria mas adquiridos pela assimilação da
experiência histórico-social de gerações. Este traço diferencia radicalmente a
atividade consciente do homem do comportamento do animal.
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a Psicologia: como
explicar os traços da atividade consciente do homem que acabamos de
numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir duas vias inteiramente
diferentes de solução dessa questão.
Uma delas, típica da filosofia idealista, partia das posições do dualismo A tese
básica dessa corrente reduzia-se não só ao reconhecimento de acentuadas
diferenças de princípio entre o comportamento do animal e a consciência do
homem, como também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que a
consciência do homem deve ser considerada como manifes: tação de um
princípio espiritual especial de que carece o animal
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma máquina complexa,
cujo comportamento obedece as leis da mecânica, e o homem como dotado do
princípio espiritual com livre-arbítrio partiu de Descartes, tendo sido repetida
posteriormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. É fácil
perceber que, apontando a diferença de princípio entre o comportamento do

animal e a atividade consciente do homem,
73

a atividade consciente do homem é resultado direto da evolução do mundo animal. No entanto as afirmações de que os animais têm em embrião todas as formas da vida consciente do homem. bem como a falta de vontade de reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem continuaram a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. É sabido que toda a atividade psíquica dos animais. O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam a atividade consciente do homem do comportamento dos animais e nas quais devemos procurar as condições que formam essa atividade consciente? As peculiaridades da forma superior de vida. e a transição da história natural do animal à história social da . com o emprego de instrumentos de trabalho e com o surgimento da linguagem. O primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin. A Psicologia científica. focaliza de posições inteiramente diferentes o problema da origem da atividade consciente do homem. os animais já têm todas as formas de atividade racional inerente ao homem e que. que cria a base para a orientação no meio ambiente. forma-se nas condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de animais. que parte dos princípios do marxismo. já se podendo observar nos animais todos os fundamentos da consciência humana. Essas formas de vida não existem nos animais. que tentava estudar uma linha única de desenvolvimento da consciência dos animais ao homem. que em várias de suas obras tentou mostrar que. desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às concepções dualistas pré-científicas. inerente apenas ao homem. que foram ressaltadas acima.essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos fatos. Ficava sem solução o problema da origem das peculiaridades da atividade consciente do homem. que está relacionada com o trabalho social. devem ser procuradas na forma histórico-social de atividade. não há limites precisos e basilares entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem. Segundo essa teoria. O enfoque naturalista. o enfoque antropomórfico da "razão" e das "vivências" dos animais. na forma embrionária. A segunda via de solução do problema da originalidade da atividade consciente caracteriza o positivismo evolucionista.

74 .

com o qual o homem 75 . o outro. juntamente com as duas fontes do comportamento — os programas de comportamento consolidados por via hereditária e a influência da experiência passada do próprio indivíduo —. Junto com os motivos biológicos do comportamento. surgem os motivos superiores ("intelectuais") e necessidades. Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da complexa atividade consciente do homem. na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina. o homem tanto emprega os instrumentos de trabalho como prepara esses instrumentos. Surgem formas superiores de comportamento. São justamente essas condições que fazem com que. o surgimento da linguagem. a flecha) preparados especialmente pelo homem. Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores na mudança radical das formas de atividade psíquica e no surgimento da consciência. à diferença do animal. Sabe-se que.humanidade deve ser considerada um importante passo assim como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida vegetal à animal. Os remanescentes desses instrumentos. e. Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da "alma" nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais de vida historicamente formadas. que pertencem à época mais antiga da história da humanidade. Um desses fatores é o trabalho social e o emprego dos instrumentos de trabalho. mude radicalmente a estrutura do comportamento. O trabalho e a formação da atividade consciente A ciência histórica destaca dois fatores. mostram que. se as lascas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primitivos. baseadas na abstração das influências imediatas do meio. com a transição para a história social. concomitantes com o comportamento que depende da percepção imediata do meio. surge uma terceira fonte formadora da atividade: a transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade. Nesses instrumentos podemos distinguir tanto o gume. que servem de fonte à transição da história natural dos animais à história social do homem.

no homem que preparava seus instrumentos de trabalho. distinguindo-a do comportamento do animal. A mudança mais importante da estrutura geral do comportamento — surgida no processo de transição da história natural do animal à história social do homem — dá-se quando. A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia também a divisão natural do trabalho) por si só já mudava radicalmente a atividade do homem primitivo.primitivo podia esfolar o animal morto ou cortar pedaços de árvore. o conhecimento do futuro emprego do instrumento. noutros termos. que. Percebe-se facilmente que. É esta a condição fundamental. essas ações. não dirigidas imediatamente por motivos biológicos. Por si só a atividade de elaboração da pedra carece de sentido e não tem qualquer justificativa em termos biológicos. que ficava em casa enquanto o homem ia à caça. pelo visto. na medida em que se tornam mais complexas a sociedade e as formas de produção. primeira forma de atividade consciente. e pode ser chamada de primeiro surgimento da consciência. que surge no processo de preparação do instrumento de trabalho. a parte arredondada. o comportamento adquiria caráter de estrutura complexa. juntamente com o conhecimento da operação a ser executada. . da atividade.(preparação do instrumento) será empregado para matar a vítima e deste modo satisfazer a necessidade de alimento. exige. separa-se uma "ação" que não é dirigida imediatamente por motivo biológico e só adquire sentido com o emprego posterior dos seus resultados. da atividade geral. ou seja. cabia aos preferidos do grupo primitivo ou à mulher. É natural que arma dessa natureza exige preparo especial. como a "lombada". determinada por motivo biológico imediato (a necessidade de alimento) . Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho leva a uma mudança radical de toda a estrutura do comportamento . que adquire seu sentido posteriormente. separa-se uma ação especial. Diferentemente disto. quando o produto dessa ação . voltada para a satisfação imediata de uma necessidade. que servia para manter-se comodamente na mão. ela adquire sentido somente a partir do uso posterior do instrumento preparado na caça. O comportamento do animal fora sempre voltado imediatamente para a satisfação de urna necessidade. O trabalho desenvolvido na preparação dos instrumentos já não é uma simples atividade.

76 .

começam a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade consciente do homem. A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma série de procedimentos e modos (desbastar uma pedra com outra. aqui poderia parecer que as ações do primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar a caça e só adquirem sentido a partir das ações do segundo grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores. que não são diretamente dirigidas por motivos biológicos. que adquire sentido apenas na comparação dessas ações com o resultado final. por outras palavras. enquanto outro grupo arma emboscada para ela. A linguagem e a consciência do homem O surgimento da linguagem é a segunda condição que leva à formação da atividade consciente de estrutura complexa do homem. que se separa da atividade geral. por exemplo. e as "ações" especiais não é determinada imediatamente por motivo biológico. a caça na sociedade primitiva. leva ao surgimento de formas de comportamento. exige a separação de várias operações auxiliares. Deste modo. A separação dessas "operações" é o que constitui a sucessiva complicação da estrutura da atividade. durante a qual um grupo de caçadores "assusta" e afugenta a caça que deve ser apanhada. friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo). mas é dirigida pelo objetivo consciente. Torna-se claro que a atividade consciente do homem não é produto do desenvolvimento natural de propriedades jacentes no organismo mas o resultado de novas formas histórico-sociais de atividade-trabalho. A complexa organização de "ações" conscientes. O surgimento de várias "operações" auxiliares por meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a mudança radical do comportamento. a separação entre a atividade biológica geral. Contudo. que é o que representa uma nova estrutura de atividade consciente do homem. a complicação da estrutura da atividade durante a transição à história social do homem não se limita à mudança que acabamos de mencionar. Assim é. podendo inclusive opor-se algumas vezes a eles. 77 .

etc. Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente no processo de transição à sociedade humana. que são percebidos por outros animais e podem exercer influência substancial sobre o comportamento destes. medo ao perigo. É natural que as palavras. O animal possui meios muito variados de expressão de seus estados. "sob". a palavra "pão" designa um objeto comestível. que mudam de caráter dependendo de ter a abelha regressado do vôo com boa prenda e modificam-se dependendo da direção e da distância do caminho percorrido. . "juntamente". Esses "segredos" são transmitidos a outros indivíduos e podem orientar de modos diferentes o comportamento das abelhas. qualidades. de acordo com a Bíblia. Mas a "linguagem" dos animais nunca designa coisas. solta gritos alarmantes aos quais o bando reage vivamente.Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos por meio dos quais são designados os objetos do mundo exterior. Numa manada de macacos podemos observar todo um conjunto de sons. não distingue ações nem qualidades. Podemos observar um sistema muito complexo de movimentos expressivos nas chamadas "danças" das. atribuindo-lhe. "corre" designam ações. na linguagem. Outras teorias. tentam. relações entre eles. que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer manifestação do mundo material. "origem divina". que expressa satisfação. portanto. Essas teorias são muito vagas e omitem o fato de que a linguagem é uma especial "forma simbólica de existência". enquanto "dorme". Algumas delas consideram a linguagem manifestação do campo espiritual. etc. são os principais meios de comunicação mediante os quais o homem conserva e transmite informação e assimila a experiência acumulada por gerações inteiras de outras pessoas. a palavra "cadeira" designa um tipo de móvel que serve de assento. O guia de um bando de cegonhas. Assim. "ácido". O problema do surgimento da linguagem humana é o objeto de inúmeras hipóteses e teorias. unidas em frases. "plano" designam qualidades dos objetos e as palavras auxiliares "sobre". "em conseqüência" designam relações diferentes por complexidade entre os objetos. não é linguagem na verdadeira acepção da palavra. agressão. suas ações. seguindo as tradições do positivismo naturalista. abelhas. ao sentir o perigo.

ver a linguagem como resultado da evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais 78 .inutilmente.

ao contrário. apenas o caminho das hipóteses que se confirmam por via indireta. eram acompanhados de gestos e entonações expressivas. A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosamente no homem a necessidade de transmitir a outros certa informação. razão por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo a situação evidente em que eles surgiam. os primeiros sons que designam objetos surgiram no processo do trabalho conjunto. segundo muitos autores. a princípio. eram "palavras" capazes de designar com independência os objetos. suas qualidades. esta não pode ficar restrita à expressão de estados subjetivos (vivências). devendo. denominada "paleontologia da fala". nesse complexo de meios de expressão parece que. ainda não tinham existência autônoma. Além do mais. A ciência não dispõe de métodos que permitam observar imediatamente as condições que originaram a linguagem. que propiciaram a base para uma evolução paulatina de uma linguagem de . que assumiram paulatinamente a função de transmitir certa informação. constituíam os fundamentos de uma original linguagem ativa ou "linear" e só bem mais tarde o papel determinante passou a ser desempenhado pelos sons. ação ou relações. restando para a. que começavam a indicar determinados objetos. coube posição determinante aos atos e gestos. estes. Estavam entrelaçados na atividade prática. designar os objetos (coisas ou instrumento) que fazem parte da atividade do trabalho conjunto.da evolução da linguagem os fenômenos de "comunicação" entre os animais que descrevemos. Os sons. Entretanto seria incorreto pensar que os sons. concluindo que as condições que originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações sociais do trabalho cujos primórdios de surgimento remontam ao período de tratisição da história natural à história humana. Há muitos fundamentos para se pensar que o surgimento da linguagem teve seus primórdios nas formas de comunicação contraídas pelos homens no processo de trabalho. Segundo as teorias originárias da segunda metade do século XIX. Mas a solução científica do problema da origem da linguagem só se tornou possível quando a filosofia e a ciência abandonaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no âmago do organismo e de deduzi-la diretamente das peculiaridades do "espírito" ou do cérebro.área da ciência.

porém. Durante muito tempo.sons independente. essa linguagem manteve a mais estreita ligação com o gesto e o ato e por isto o mesmo complexo de sons (ou "protovocábulo") podia desig79 .

Enquanto sistema de códigos que designam os objetos. suas ações. que durante um longo período histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma que distingue as línguas atuais. relacionam as coisas perceptíveis a determinadas categorias. dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. a própria mão c a ação produzida com esse objeto. a linguagem teve importância decisiva para a posterior reorganização da atividade consciente do homem. a linguagem permite discriminar esses objetos. O segundo papel essencial da linguagem na formação da consciência consiste em que as palavras de uma língua não apenas indicam determinadas coisas como abstraem as propriedades essenciais destas. que designavam objetos e bem mais tarde passaram a servir para distinguir as ações e as qualidades dos objetos. Ê a essa época que pertence o surgimento das primeiras palavras autônomas. É bastante a pronúncia interna ou externa de uma palavra para o surgimento da imagem do objeto correspondente e o homem pôr-se em condições de operar com essa imagem. Percebe-se facilmente que importância tem o surgimento desse mundo "interior" de imagens. designando os objetos e eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou combinações de palavras. A primeira dessas mudanças consiste em que. Por isto podemos dizer que a linguagem duplica o mundo perceptível. a par com o trabalho. qualidades ou relações e serve de meio de transmissão de informação. que surge como base na linguagem e pode ser usado pelo homem em sua atividade. . Essa possibilidade de assegurar o processo de abstração e generalização representa a segunda contribuição importantíssima da linguagem para a formação da consciência. a linguagem é o fator fundamental de formação da consciência.nar o objeto para o qual a mão apontava. Por isto têm razão os cientistas que afirmam que. Resulta daí que o homem está em condições de lidar com os objetos do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. permite conservar a informação recebida do mundo exterior e cria um mundo de imagens interiores. Surgiu a língua como um sistema de códigos independentes. O surgimento da linguagem imprime ao menos três mudanças essenciais à atividade consciente do homem. Só depois de muitos milênios a linguagem dos sons começou a separar-se da ação prática e a adquirir independência.

Por exemplo. as palavras "relógio" e "mesa" designam não apenas certos objetos. 8X> A palavra "relógio" indica que esse .

A linguagem é o veículo fundamental de transmissão de informação. ou seja. produzida ao longo de muitos séculos de prática histórico-social. a linguagem permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela dominar um ciclo imensurável de conhecimentos. que se formou na história social da humanidade. que se formou no longo processo da história social. . Deste modo. habilidades e modos de comportamento. no estágio do homem. independentemente de sua forma exterior ou do tamanho. O que acaba de ser dito dá fundamento para designar a terceira função essencial da linguagem na formação da consciência. e que a linguagem é realmente o meio mais importante de desenvolvimento da consciência. que assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo. Isto significa que a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios do objeto e generaliza objetos diferentes pelo aspecto exterior mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente ao homem a experiência das gerações e serve de meio de representação do mundo mais poderoso que a simples percepção.objeto serve para marcar as horas (do latim horologio). a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho de análise e classificação dos objetos. Isto significa que com o surgimento da linguagem surge no homem um tipo inteiramente novo de desenvolvimento psíquico desconhecido dos animais. a palavra "mesa" indica que esse objeto serve para ser coberto (do latim mensa). . A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos A importância da linguagem para a formação da consciência consiste em que ela efetivamente penetra em todos os 81 . ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos psíquicos que. Isto dá à linguagem a possibilidade de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o veículo mais importante do pensamento. que em hipótese alguma poderiam ser resultado da atividade independente de um indivíduo isolado. Ao transmitir a informação mais complexa. as palavras "relógio" e "mesa" designam todas as modalidades desses objetos. aproximam-se das duas fontes (os programas de comportamento transmissíveis por hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da experiência de dado indivíduo) que se verificavam nos animais. Além do mais.

É justamente por isto que o papel da linguagem ou "segundo sistema de sinais da realidade". as qualidades ou ações. Se a atenção do animal tinha caráter imediato. mas é muito limitado o número de palavras que designam esses objetos. "amarelo"). quando relacionamos o objeto. acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos nomeados. como a denominou Pávlov. Isto leva a que. matiz com alguma palavra ("mesa". generalizada e permanente. a forma ou. matizes de cores. com o surgimento da linguagem e baseado nela o homem se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção.campos da atividade consciente do homem. Por isto a análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão da informação que emprega meios de linguagem) não pode ser vista apenas como capítulo especial da Psicologia mas deve ser considerada também como jatos de construção de todo o conjunto da vida consciente do homem. nós realmente selecionamos os traços essenciais e generalizamos os objetos. "relógio". É sabido que a memória do animal depende consideravelmente da orientação no meio ambiente e dos motivos biológicos. eleva a um novo nível o desenrolar dos seus processos psíquicos. A linguagem muda essencialmente os processos de atenção do homem. É sabido que existe no mundo um número imenso de objetos. depois interior). formas e matizes. era determinada pela força. A percepção humana se torna mais profunda. A linguagem muda essencialmente também os processos da memória do homem. Quando a mãe diz ao filho "isto é uma xícara". deve ser enfocado como parte conclusiva da introdução evolucionista à Psicologia. "círculo". formas e cores perceptíveis em determinados grupos ou categorias. ela está distinguindo esse objeto de todos os demais e dirigindo para ele a atenção da criança. arbitrária. A linguagem reorganiza substancialmente os processos de percepção do mundo exterior e cria novas leis dessa percepção. relacionada com a discriminação dos indícios essenciais do objeto. a novidade ou valor biológico do objeto que dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do animal. que servem de reforço . "triângulo" ou "vermelho". tornando-se sua atenção dirigível. Isto dá à percepção humana traços que a distinguem radicalmente da percepção do animal. Quando posteriormente a própria criança assimila o discurso (a princípio exterior. formas.

No nível humano e apoiada nos processos 82 .daquilo que é lembrado com êxito.

a linguagem se torna pela primeira vez atividade mnemônica consciente. no processo de memorização. A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela primeira vez da experiência imediata e assegura o surgimento da ■imaginação. a avaliação das correlações das ações realmente exeqüíveis com as intenções iniciais. Não são menos importantes as mudanças introduzidas na reorganização da vivência emocional pelo surgimento da linguagem. não se pode omitir a última tese. aquilo que em dada etapa se lhe afigura mais importante. considerada pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela importância é igual à transição da matéria inanimada para a animada ou da vida vegetal para a animal. na qual o homem coloca fins especiais de lembrar.do discurso. É dispensável dizer que só com base na linguagem e com sua participação imediata constituem-se as complexas formas de pensamento abstrato e generalizado. que se processa com a participação imediata da linguagem. formem-se no homem vivências e demorados estadosde-espirito que vão muito além dos limites das reações afetivas imediatas e são inseparáveis do seu pensamento. selecionando nele. organiza o material a ser lembrado e acha-se em condições não só de ampliar de modo imensurável o volume de informação que se mantém na memória como ainda de voltar-se arbitrariamente para o passado. que ocorrem com a participação dominante dos sistemas sub-corticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou fracasso de sua atividade e conservam plenamente sua ligação com as necessidades biológicas. que eleva a um novo nível os processos psíquicos. paralelamente às categorias afetivas. . processo que não existe no animal e serve de base à criação orientada e dirigida cujo estudo constitui área especial da Psicologia. Por último. o surgimento dessas formas representa uma das aquisições mais importantes da humanidade e garante a transição do "sensorial ao racional". O mundo emocional do homem não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos motivos biológicos. Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expressas. cuja importância é especialmente grande. a possibilidade de uma formação generalizada do caráter e do nível dos seus acertos leva a que.

É sabido que as novas formas de comportamento individualmente variável do animal são adquiridas com base em sia orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de 83 .

estudadas minuciosamente pela escola de Pávlov. A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente. que o homem estabelece com o auxílio da linguagem. mostra-se imediatamente sólida. que distingue acentuadamente o seu comportamento do comportamento do animal. dispensa qualquer reforço "incondicional" (ou biológico) . levantar o braço (ou girar a chave). executável com base em instrução discursiva. na norma. Essa ligação é adquirida paulatinamente. dos meios de sua direção. Não encontramos nada semelhante na formação de novas modalidades de comportamento consciente do homem. das leis que servem de base ao seu desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados patológicos fundamentais da Psicologia^ 84 constitui uma das tarefas . É fato bem conhecido que a aquisição de novas formas de comportamento exige um reforço relativamente longo da resposta ao sinal condicional.formas estáveis de semelhante comportamento se baseia nas leis dos reflexos condicionados. Por último. que se estabelece de acordo com uma regra formulada no discurso. a repetição multiplicada da coincidência dos sinais condicionais com o reforço incondicionado. Basta instruir o homem no sentido de erguer o braço ou girar a chave em resposta a um sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um azul para surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. essa ação. dizendo-lhe. que agora ele deve fazer o contrário: em resposta âo sinal azul. basta sugerir ao sujeito uma nova instrução. dispensa repetição permanente da instrução e não se extingue se essa instrução não se repete. Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter dirifgível dos processos de atividade consciente do homem. nenhuma dificuldade. A nova forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da formulação discursiva de uma regra. O advento de qualquer ação. para que a relação anteriormente criada seja imediatamente substituída por uma contrária. a "conversão" dessa ação numa nova não apresenta. Sua formação dispensa elaboração longa e se estabelece de imediato. nada fazendo ao sinal vermelho. começa a extinguirse tão logo desaparece o reforço e se reorganiza com relativa dificuldade num novo sistema de ligações. por exemplo. e.

O caráter da solução desse problema dependia muito da maneira como se interpretavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam os seus fundamentos cerebrais.IV O Cérebro e os Processos Psíquicos 1 ARA ENTENDER melhor a estrutura dos processos psíquicos do homem e das leis que os regem. devemos conhecer acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos principal da atividade psíquica — o cérebro humano — e as relações dos processos psíquicos com ele. O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro enquanto substrato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em períodos diversos de evolução da ciência. Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia a ela relacionada a concepção segundo a qual os processos psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou 85 .

Os pensadores. a "faculdade do raciocínio". A primeira tentativa de semelhante "localização das faculdades psíquicas" foi empreendida no começo do século XIX por F. Essa hipótese acabou servindo de base a um campo especial da "ciência" — a "frenologia" —. sobretudo no córtex. o "respeito aos pais" e o "amor às crianças"). A idéia de que os processos psíquicos. Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-se distinguir ao menos três "faculdades" básicas: a faculdade da percepção ou imaginação. e consideravam que no ventrículo anterior estava situada a "faculdade da percepção ou imaginação". que levava à formação de protuberâncias no crânio. manteve-se durante muitos séculos e continuou basicamente imutável inclusive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato do psiquismo o líquido que preenche os "ventrículos cerebrais" e chegaram à opinião de que o fundamento da atividade psíquica devia ser procurado na substância sólida do cérebro. pertenciam "faculdades" como a "parcimônia". Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro e considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área cerebral. J. e no ventrículo posterior a "faculdade da memória". segundo ele. Gall. com base no estudo das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas às capacidades individuais do homem. a idéia da "localização" direta de certas funções psíqui- . que são a seguir "faculdades" indivisíveis. Apesar de a "frenologia" de Gall ter sido considerada fantástica e sem fundamento científico ainda com seu criador vivo. podiam estar imediatamente "localizados" em determinadas formações cerebrais. Ele apresentou a hipótese de que o substrato de diversas "faculdades" psíquicas é constituído por pequenas áreas do tecido nervoso do córtex cerebral. a "honestidade"."faculdades" irredutíveis a quaisquer componentes mais elementares . Após distinguir um grande número dessas "faculdades" congênitas (às quais. que crescem muito com o desenvolvimento dessas "faculdades". aventavam a hipótese de que elas estavam localizadas no líquido que preenche três "ventrículos cerebrais". segundo Gall. que procuravam a base material dessas faculdades. no ventrículo médio. que. indicava uma evolução especial dessa "faculdade". a faculdade do raciocínio e a faculdade da memória.

86 .

continuarem por muito tempo a fazer tentativas de "localização" direta das funções psíquicas em áreas isoladas do córtex cerebral.cas do córtex cerebral continuou em evidência. "centro dos conceitos". Essas tentativas foram reunidas num sistema pelo psiquiatra alemão K. leitura e o a . no córtex cerebral. Por um lado. Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as contradições do material factual em relação a essas considerações. o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou a hipótese segundo a qual estão "localizadas" nessa região as imagens motoras da palavra. que. a escrita. O psiquiatra alemão K. que ocorrem nos casos de afecções limitadas (locais) do cérebro. ele lançou a tese de que essa região do córtex é o "centro da palavra sensória". A partir da década de 70 do século passado. Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas em áreas limitadas do cérebro inspiravam os estudiosos (psiquiatras e neurologistas). com base em observações feitas em cérebros de feridos durante a I Guerra Mundial. no qual até as "funções" psíquicas mais complexas coincidiram com as áreas limitadas do córtex cerebral. Por isto os cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mudanças nos processos psíquicos. o estudo das observações clínicas mostrou que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a queda de "funções psíquicas" perfeitamente determinadas. pois tais tentativas refletiam o esforço de fazer um enfoque materialista dos processos psíquicos e seu substrato cerebral. Essas descobertas deram aos pesquisadores fundamentos para distinguir. etc. Wernicke (1873) descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-volução temporal superior do hemisfério esquerdo mantém intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das palavras. Kleist (1934). elas logo mostraram sua inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos. Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-lução frontal do hemisfério esquerdo leva à perturbação da fala articulada. "centros do cálculo". Apesar de que em seu tempo eram progressistas às tentativas de "localização" direta das complexas "funções" psíquicas nas áreas limitadas do córtex cerebral. as áreas que passaram a ser consideradas "centros da escrita". colocouas num "mapa sinótico localizado". levantaram-se dúvidas legítimas de que processos complexos como a fala.

87 .

já sem falar da atividade intelectual. dificuldades de percepção da luz. que à primeira vista parecem inteiramente diferentes. S. à perturbação de todo um grupo de processos psíquicos. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que os processos psíquicos são função de todo o cérebro e não podem ser "localizados" nas áreas limitadas do córtex cerebral. fato que por si só já contrariava a idéia da estreita "localização" das funções psíquicas nas áreas isoladas do córtex. a análise minuciosa dos fatos das observações clínicas mostrou que a atribuição direta dos complexos processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece de fundamento. via de regra. era uma reação legítima às concepções simplistas do "localizacibnismo estreito". podiam ser entendidos como simples "faculdades" congênitas. que áreas corticais distintas apresentam estrutura diferente e que os neurônios. Isto gerou uma crise das concepções anteriores da "localização" direta dos processos psíquicos nas áreas limitadas do córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes grandes psicólogos como K. podendo-se procurar sua "localização" em áreas limitadas do córtex cerebral. No entanto ela não tardou a mostrar sua inconsistência. Observou-se que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral leva. a escrita. Lashley e neurologistas como K. Por outro lado. integrantes do córtex cerebral. são amiúde tão especializados que dentre eles podemos distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou a . Essa idéia.cálculo. C. enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orientação no espaço. a leitura e o cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente diferentes pela posição. a afecção do lobo temporal esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala. Assim. Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é um aparelho bastante diversificado. Goldstein. Verificou-se que perturbações de processos psíquicos tão complexos como a fala. impossibilidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais e vários outros distúrbios congêneres da atividade intelectual. distúrbios na escrita. dificuldades de encontrar palavras. etc. que levou ao surgimento de uma corrente científica conhecida como "antilocalizacionismo".

só reagem aos movimentos do centro à periferia ou da periferia ao centro.indícios muito especiais (por exemplo. etc). Essas 88 . às linhas retas e curvas ou somente às linhas quebradas.

exercida pelo trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos. no qual o objetivo final permanente ("invariante") é realizado pelo sistema mutável ("variante") de suas partes componentes. Compreende-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo. Assim. podem substituir mutuamente uns aos outros. realizadas em certos neurônios. função da locomoção. e se de um sistema funcional extingue-se a participação de um grupo de músculos (os músculos do diafragma.linhas. cada um dos quais integra esse "sistema funcional" (termo de P. a função do pâncreas é a segregação de insulina. 89 . Deste modo. Neste sentido falase de função da respiração. Sabese que a função do fígado é a regulação da troca de hidrato de carbono. essa falha é compensada pelo trabalho reforçado de outro grupo de músculos (os músculos intercostais). por exemplo). Mas o conceito de "função" tem um outro significado mais amplo. difusão do oxigênio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue. que participam do ato de respiração. entende-se por "função" a direção de determinado tecido. parte das quais é o resultado de descobertas obtidas ultimamente como decorrência de pesquisas fisiológicas. assegurando esse ou aquele aspecto desse sistema funcional. o sistema funcional representa um complexo todo dinâmico. Strtctu sensu. função da digestão. a função se constitui^ numa complexa atividade. O conceito de "função" tem em biologia dois significados inteiramente diversos. tornaram muito pouco prováveis as hipóteses da homogeneidade de toda a massa cerebral c as afirmações segundo as quais o cérebro sempre funciona como um todo único. A saída para essa crise estava relacionada com a revisão radical do conceito de "funções psíquicas" e com a mudança radical dos principais enfoques dos princípios da "localização" cerebral dessas "funções". a "função da respiração" é exercida pelo trabalho conjunto de todo um grupo de músculos e alvéolos pulmonares. É característico que os músculos. Ano-khin) em seus próprios papéis. K. Ele pode designar a atividade de adaptação de todo um organismo. a função do alvéolo pulmonar. Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da organização funcional do cérebro e na doutrina da "localização" dos processos psíquicos no córtex cerebral.

acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar uma martelada) é necessário antes de tudo manter uma profunda sensibilidade proprioceptiva do braço que se move dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das distensões dos músculos em funcionamento. t. A execução de um movimento exige a mudança harmoniosa dos seus elementos. até para se darem dois 90 . a batida do martelo. p. bem como da "função do movimento" (ou locomoção). na qual o objetivo final (deslocamento de um lugar para outro. 127). etc.) é realizado por um complexo sistema de músculos cuja interrelação varia com a mudança da posição do corpo. . já sem falar de funções como a fala. têm estrutura sumamente complexa. Se tão amplo significado do conceito de "função" se refere a um grande número de atos biológicos de adaptação. III.O mesmo podemos dizer da "função da digestão". Para a sua execução é necessário um reflexo preciso das coordenadas espaciais exteriores em cujos limites executa-se o movimento. Pávlov. da consolidação da habilidade. é com maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas "funções psicológicas". Sem essa sinalização permanente da posição do extremo que se move. o acerto no alvo. etc. Pávlov já indicara que "se antes o centro respiratório era concebido como um ponto do tamanho da cabeça de um alfinete no bulbo raquidiano. subiu para o cérebro e desceu para a medula espinhal e hoje ninguém indicará com precisão a sua fronteira" (I. . Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas. compreendendo em sua composição um número considerável de elos CQmponentes. garantindo a necessária correção da direção. até "funções" relativamente simples como o movimento arbitrário. agora ele está extremamente espalhado. Para executar o movimento mais simples (por exemplo. Obras completas. dependendo da tensão. a escrita e o cálculo. P. o acerto em dado alvo. que representa o mais complexo sistema funcional de órgãos digestivos que funcionam em conjunto. É natural que um sistema funcional tão complexo não pode ser "localizado" em determinada área limitada do sistema nervoso. o movimento perde sua precisão e se torna impossível. a marcha. nenhum movimento organizado é possível. .

Por último. Somente depois desse trabalho prévio a composição sonora da palavra se considera definida e a palavra pronta para o registro. a escrita. É ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade psíquica como a fala. devemos discriminar antes de tudo os sons que integram a sua composição. decompondo fluxo permanente de sons nas unidades sonoras componentes da língua — os "fonemas" (que em cada língua podem ter caráter diverso). transferindo os impulsos para outro sistema de músculos. Para escrever uma palavra. O cumprimento dessa condição exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes. o processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma tarefa geral (escrever uma frase. sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível. a leitura ou o cálculo. Aqui o processo da escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros ("fonemas") devem ser recodifiçados em elementos motor-visuais da escrita ("grafemas"). Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi construído o ato da escrita e mostremos que elos complexos integram esse sistema funcional. em seguida. nos quais um elo deve incorporar-se harmoniosamente ao seguinte. No entanto a escrita não termina nesse processo. desenervar o primeiro e passar harmoniosamente ao elo seguinte do ato motor. Para executar essa ação é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de "grafemas" ou letras como manter a correta disposição destes no espaço. formados no processo da história da sociedade. devemos fazer a sua análise acústica.passos é necessário inicialmente enervar um sistema de músculos e. Ela representa um complexo programa de movimentos. Amiúde a separação desses fonemas se faz não só "de ouvido" mas com a participação imediata da articulação. expor 91 . noutros termos. que inclui em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-riais (aferentes) como motores. uma carta. por meio da qual é como se nós "sondássemos" os sons e os distinguíssemos de outros próximos. Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relativamente simples é um complexo sistema funcional.

É natural que para semelhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra) se torna desnecessária e o processo da escrita adquire inteiramente outro caráter.) e só com a sólida manutenção desse programa correspondente a necessária tarefa pode ser cumprida. e sempre que haja afecção limitada do cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação da área cerebral afetada. que põem em ação dado "sistema funcional". há línguas (o chinês. integrantes da composição de dada função. etc. O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em determinada área limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de células. noutros termos. nelas o escrevente representa imediatamente os conceitos com determinados sinais convencionais (hieróglifos). a análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estruturas cerebrais. Por isto a tarefa de "localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto. que asseguram elos diversos. turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos de descrever. Se na grande maioria das línguas (indo-européias. 92 . Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada do cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional. Torna-se compreensível que a mesma afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado elo geral ou "fator" geral cujo funcionamento esteja diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo sistema funcional (o ato da escrita ou da fala.uma idéia. por exemplo) em que a escrita não é um processo de transferência das unidades sonoras ("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas"). Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente. por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro.

Assim. importância tanto para o campo prático da neurologia — definição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais — como para uma compreensão mais profunda da estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos. então é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas corticais propriamente motoras. se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios (cinestésicos) espaço-visuais. II). circulação sangüínea e do metabolismo bioquímico. antes de tudo. aos aparelhos do tronco e do córtex primitivo — bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os grandes hemisférios. a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto com a afecção das áreas auditivas. cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e essa perturbação será cada vez diferente. Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos. é necessário. cinestésica (articular) da estrutura da letra. Os dados desta ciência são de grande. é um complexo sistema construído por hierarquia. que no homem chegam a um nível especialmente alto de desenvolvimento Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem em sua composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração. o cérebro humano. ter uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro humano. A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções locais limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia — a neuropsicologia. que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-rentes propriamente ditos. que executa os mais importantes processos vitais). já os apa93 . que se distingue pelo fato de que. Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva. Princípios da organização funcional do cérebro humano Como já foi dito (cap. sendo produto de uma longa evolução.

que ligam regiões corticais isoladas. trabalha sempre como um todo único. peixes. É isto que se reveste de importância essencial para a Psicologia. 94 . Estes são os dispositivos mais complexos. a perturbação do funcionamento normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho. a assimilação e elaboração da informação recebida. que assegura o recebimento e a elaboração da informação e a criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução destes. que asseguram a análise e a síntese das excitações que chegam do mundo exterior. As áreas superiores do sistema nervoso central são os grandes hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente. Os três "blocos" principais do cérebro Como já indicamos. aves) mas são paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior — os grandes hemisférios. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado. a inclusão delas nos aparelhos motores (corpo quadrigêmeo) e sua integração primária com a execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado). Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica morfológica dos aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua organização funcional.relhos do corpo quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (receptores de contato e distância). o cérebro humano. que ligam o córtex às formações subcorticais subjacentes. constituída de fibras de projeção. Os grandes hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados superiores. composto de várias partes. o fechamento de novas ligações. o mais importante da atividade psíquica do homem. Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios. o processamento de programas de atividade complexa e regulação da realização das formas superiores de comportamento. tornandose o aparelho fundamental. e de fibras de associação.

segundo a qual um instigador forte (ou mais significativo) provoca uma reação forte. ao passo que o instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se inibe mais facilmente. Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex. O primeiro mantém o necessário tônus do córtex. bem como dos processos de formação de programas e controle da execução destes. O terceiro bloco elabora programas de comportamento. criar e executar os complexos programas de comportamento. Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a uma acertada organização da atividade consciente do homem. A existência dessa "lei da força". é necessária para a realização de atividade seletiva organizada. a elaboração e conservação da informação. a conservação dos seus vestígios. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais. indispensável para o bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da informação. cada um desempenhando papel especial na atividade psíquica. elaboração e conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). que deixa o vestígio mais estável. é necessária uma permanente manutenção do tônus otimal do córtex. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento. assegura e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. para a criação de sistemas domi95 . indicando que os processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força". O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento. acompanhar o êxito das ações executadas e fazer a necessária auto-regulação do comportamento. que caracteriza a exci-tabilidade otimal do córtex. a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da execução destes.No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais.

H. A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico. os antimuros e os corpos mamilares. que assegura o tônus geral ou estado de vigília do córtex. Jas-per H. Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas do grande cérebro como o hipocampo. por exemplo. W. mais complexa) .nantes de exeitação. o movimento da excitação nesse sistema. Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento normal do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa. que une essas formações por uma ligação bilateral com o córtex cerebral. Moruzzi G. que recebeu a denominação de "ciclo do hipocampo" é uma das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-cal. Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras observações e experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo seletivo organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou secundárias). que está situado nas áreas internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-referidos do tronco superior. É bem conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode passar ao estado inibido ou "fásico": os instigadores fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase niveladora") ou até reações mais fortes do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal"). de garantia do estado emocional normal e cria condições para a sólida manutenção dos indícios surgidos. no estado de sono ou sonolência.. 96 . Essas formações são as componentes principais do "primeiro bloco" do cérebro-bloco humano. para a conservação de sistemas de informação organizados e programas estáveis de comportamento. particularmente as formações do hipotálamo.) mostraram que nesse processo desempenham papel substancial as formações das áreas superiores do tronco cerebral. o núcleo do tálamo ótico. do tá-lamo ótico e do sistema de fibras reticulares ("formação re-ticular"). A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais tarde acrescenta-se uma terceira. Essa peculiaridade do trabalho surge.

O corte das vias que levam do tronco superior ao córtex na composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao adormecimento. É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue. Mc Lean. superior e a formação reticular ascendente desempenham papel principal. tem importância decisiva o estado de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a primeira instância do recebimento das instigações afluentes de fora. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que? nesses casos. Por isto. o animal adormece. que. os reflexos da agressão. A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos impulsos que a este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo. Olds. para manter o tônus ideal do córtex. começam facilmente a surgir alucinações no homem. levou freqüentemente o paciente a adormecer. o efeito provocado pela "fome de informação". Miller. Sabe-se. Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo. caindo para um nível inferior ao necessário. é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipotálamo. Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de comportamento sexual instintivo. que o tronco superior e o encéfalo primitivo são compostos também por aparelhos especiais. privado dessa afluência de excitações do mundo exterior. que é um índice do estado de fome ou saciação.Por um lado. qué compensam em parte essa insuficiência de afluência permanente de instigações exteriores. a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações da periferia. ainda. atos de . N. o nível de oxigênio no sangue. ainda. no qual os órgãos do tronco. os pesquisadores (N. por exemplo. Sabe-se. etc. que formam a base das inclinações biológicas do organismo. que regulam processos como os reflexos sexuais. para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de informação do mundo exterior. Deste modo. esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo (que tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. J. que surge no homem após um longo período de isolamento numa cela escura à prova de som. Burdenko.

agressão. 97 .

Klüver e P. e a considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos". Exemplos de mudança do tônus podemos ver nos casos de distúrbio das funções da hipófise. constituem a segunda fonte de manutenção do tônus cortical e seu estado de vigília. etc. situados nas áreas internas (mediais) dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo. Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico. considerado parte essencial do "corpo olfativo". de funções bem mais complexas. considerados pelos referidos autores como "centros" sui generís. que são transmitidos ao córtex através da formação reticular ascendente. de formações nervosas que regulam as inclinações citadas.fome constante e sede. por um lado. que asseguram a manutenção do tônus do córtex. Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesquisadores americanos K. por outro. depois da dani-ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais do lobo temporal) observaram nos animais acentuada . Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos introduzidos nessas áreas do encéfalo. A existência. Mas a existência dessa área nos animais sem olfato (delfins). Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o olfato desempenha papel dominante no comportamento. Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular. e de tumores das paredes do terceiro ventrículo. A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. O córtex primitivo "límbico" foi. devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"). o animal provocava sozinho e demoradamente a excitação desses aparelhos. levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes. tendo participação essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a conservação dos vestígios da memória. reguladores do estado emocional do animal. foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Delgado) para provocar nos animais reações duradouras de "auto-estimulação". durante muito tempo. nas referidas zonas do encéfalo. bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista. Bucy que.

Dados aproximados foram obtidos também nas observações pos98 .excitação das reações emocionais e perturbações da memória.

Através dos primeiros ("formação reticular ativadora ascendente") efetua-se a excitação do córtex pelos impulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco do encéfalo. que apenas mencionamos e que está ligado aos complexos programas e necessidades que surgem no homem como resultado de sua atividade consciente. Jasper e outros) descobriram que no hipocampo existe um grande número de neurônios que não reagem a instigadores específicos (visuais. Penfield. Por último. B. Milner e W. A existência desses neurônios de cujas funções faz parte a comparação dos instigadores com os vestígios antecedentes. Scoville permitiram mostrar que. importantes observações realizadas em pessoas com afecção bilateral do hipocampo pelos pesquisadores americanos W. que ocorrem nos animais como resultado da danificação do hipocampo. O papel dos aparelhos do primeiro* bloco na manutenção do tônus do córtex e do estado de vigília é assegurado pelas suas estreitíssimas ligações com o córtex„ que são realizadas através das fibras da formação reticular ativadora. auditivos ou táteis) mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio ambiente. Por meio dos segundos ("formação reticular ativadora descendente") realizam-se 1 aquelas influências que as áreas superiores do cérebro. Cabe observar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como descendentes. fazendo parte também as reações à 'Mescoordena-ção" destes. que tiveram oportunidade de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos processos afetivos. . Por isto o aparelho da "formação reticular descendente" desempenha papel substancial na transmissão do colorido afetivo e na garantia do tônus para os programas de comportamento que surgem no córtex em decorrência da informação recebida e das formas exteriores de programas e necessidades que se formam no homem com a participação da fala. nesses casos. Olds e outros.teriores de Mc Lean. muda substancialmente o tônus do córtex e afeta-se profundamente a memória. A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando os fisiologistas (Viesel. particularmente o seu córtex. É esse aparelho que assegura a terceira fonte de manutenção do estado de vigília. exercem sobre os segmentos do tronco encefálico. parece explicar o papel desempenhado pelas formações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado (atenção não-dirigida) e memorização.

99 .

está relacionado com o recebimento. distinguindo-se e sepa-rando-se aqui indícios isolados da informação visual. noutros termos. Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extremidades centrais (corticais) dos sistemas perceptivos (analisa-dores). as auditivas na região temporal e as táteis na região tátil-cinestésica. tem caráter modal-específico. A mais desenvolvida nessas zonas é a seção IV do córtex. o primeiro bloco do cérebro de cuja composição fazem parte os aparelhos do tronco superior. diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco. Nas seções mais complexas dessas zonas eles se reúnem.Deste modo. assegurando o tônus geral do córtex. o processamento e a conservação da informação recebida pelo homem. temporal e occipi-tal) e. Como todas as outras regiões do novo córtex. Bloco do recebimento. O funcionamento desse bloco não está relacionado especialmente com os outros órgãos dos sentidos e tem caráter "modal-não-específico". elaboração e conservação da informação Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não participa do recebimento e processamento da informação nem da elaboração dos programas de comportamento. sendo que as extremidades corticais do analisador visual estão situadas na região occipital. aonde 100 . sendo um sistema de dispositivos centrais que registra a informação visual. processam-na ou "codificam-na" e conservam na memória os vestígios da experiência adquirida. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura celular das zonas corticais. Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes dos respectivos aparelhos receptores. assegura o tônus geral (vigília) do córtex e a possibilidade de duradoura conservação dos vestígios da excitação. sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais complexas. da formação reticular e do córtex primitivo. Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções posteriores do córtex cerebral (áreas parietal. já o segundo bloco está imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos. auditiva e tátil afluente. essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. auditiva e tátil.

a posição de maior destaque cabe à seção IV receptora das células. O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-tical. instalando-se na VI as projeções das células vegetativas. é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex ■cerebral. integrante da composição do bloco por nós examinado. Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção e denominadas zonas secundária? ou de projeto e associação. parte considerável dos grandes . que contactam as áreas contíguas do* córtex. Outros tecidos. Toda a substância branca situada sob o córtex é constituída de fibras longas. que servem de aparelhos de transferência das excítações para células associativas mais complexas. que contactam o córtex com as formações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas isoladas do córtex a outras regiões corticais (tecidos transcorticais) . deste modo. onde estão instaladas as células piramidais (motoras). que chegam dos órgãos sensitivos à seção IV do córtex. auditivo ou tátil às zonas primárias (ou de projeção do córtex) é aqui fracionada em grande número de indícios que a compõem. que são denominadas zonas primárias ou de projeção. que constituem o aparelho principal de transmissão das excitações de uns neurônios a outros. Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si por um feixe especialmente potente de fibras transcorticais. Como mostraram as pesquisas. Algumas fibras descem diretamente para a seção V do córtex. As fibras se dirigem de algumas dessas células para a periferia e. Isto se deve a que nessas . Grande parte das células associativas ou células de ação curta. transferem-se ali para os neurônios de ação curta. As seções I e VI não examinadas têm importância especial: na I estão instaladas as ligações horizontais "transcorticais". a informação que chega do receptor visual. Nas zonas corticais aonde chegam diretamente as fibras vindas dos órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-corticais). fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais simples.chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos periféricos. que têm a forma de pequenas pirâmides ou células asteróides. Quando se corta o corpo caloso. denominado "corpo caloso". que contactam o córtex com as áreas profundas do encéfalo.hemisférios fica desconexa e os dois hemisférios começam a funcionar isoladamente. as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas. Aqui elas se transferem para outros neurônios. está situada nas seções II e III do córtex.

101 .

via de regra. a todo um complexo de instigadores específico-modais (visuais. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários. essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. A importância dessas zonas secundárias parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis. às linhas quebradas agudas. etc. porém. acessível à organização posterior. Eles não reagem a indícios isolados divididos. que se espalha a fundo nas zonas contíguas. Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch. do receptor periférico. respondem somente a alguns indícios particulares das instigações. surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas. só às linhas curvas harmoniosas. depositada num pedaço de papel. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente a exci- .zonas de projeção do córtex estão instalados neurônios altamente especializados. a irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação. Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos. Assim. táteis). A maioria esmagadora dos neurônios componentes dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de associação). a irritação das zonas primárias com estricnina. como mostraram pesquisas de alguns fisiologistas. reagindo a instigações de diversas modalidades. que. com elevadíssima especialização. Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados e os transforma num mosaico funcional das instigações. Essas mesmas células. existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal). sendo que alguns deles têm inclusive caráter multimodal. mais amiúde. Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e associação. auditivos. eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex. na zona de projeção do córtex occipital (visual) há neurônios que só reagem ao movimento do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro. ao contrário. À diferença das zonas primárias do córtex.

102 .

A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. noutros termos. podem-se observar as reações do doente. garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex. etc. rostos conhecidos. É sabido que o córtex do cérebro. feras. etc. táteis). Assim. Penfield) chegarem a uma conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. "bolas luminosas". as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida". Poetzl e W. ao passo que as zonas visuais dessas mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração complexa da informação que chega ao sujeito. Resultados análogos são obtidos com a irritação do córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou sons isolados. razão por que as cirurgias cerebrais podem ser feitas sem anestesia.tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos inteiros de neurônios. Como mostraram as pesquisas. passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex. esse órgão superior da sensibilidade. Diferentemente disto. exercem a função de fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida. Foerster. permitiu aos O. "chama". No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e secundárias do córtex. 103 . etc). Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e aqueles indícios específico-modais (visuais. é por si mesmo indolor. Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e secundárias (de projeção e associação) do córtex. auditivos. irritando partes isoladas do córtex. a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes (alucinações).). a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma definida (borboletas. For isto que pesquisadores (O.

Isto garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação central. da boca e dos lábios. e a situada nas partes . a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de sensações visuais ou auditivas. sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna. que surgem como resultado da influência irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral. cruzando-se no tronco do encé-falo. é de importância especial o fato de que a área. Assim. aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores periféricos. ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do corpo. apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente determinado do córtex de projeção. a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região provoca as mesmas sensações no braço oposto. ao passo que as projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador). a área ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante. ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério oposto. são muito grandes. que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. que chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas.As' zonas primárias do córtex. uma cicatriz localizada nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento" na extremidade inferior do lado oposto. não estão distribuídas por acaso mas dispostas em ordem rigorosa. é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. Assim. Ao contrário. chegam às zonas superiores da circunvolução anterior central do hemisfério oposto. Isto significa que as fibras nervosas. O típico para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos. os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas inferiores do corpo. destruídas por processo patológico. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal (póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo. Deste modo. do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras.

inferiores 104 .

os campos corticais secundários do bloco por nós examinado asseguram a síntese das excitações que chegam ao campo primário. A consideração dos referidos fatos da estrutura somatotópica das zonas primárias do córtex é de grande importância prática. projetam-se nas áreas laterais do córtex. No entanto ele não tem qualquer validade para a avaliação do funcionamento dos campos corticais secundários. que podem ser o início (aura) de acessos epilépticos. resultando que a afec-ção de determinadas áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual. que constituem partes do campo visual. pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem de importante indício diagnóstico para a atividade tópica de suas afecções. projetam-se em trechos absolutamente determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual). levadas a coincidirem com determinadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da per- . Por isto a destruição dessas zonas não leva a ocorrências de quedas de sensibilidade. a irritação de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em determinadas áreas do campo visual. enquanto correspondentes aos tônus os baixos. O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam excitação. Como já foi dito. projetamse nas áreas internas da zona auditiva tecidos que implicam excitações. eles substituem o princípio de projeção somatotópica por outro princípio: o da organização fundamental das respectivas excitações. Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de determinadas superfícies sensíveis (receptoras) em certas áreas dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite usar os sintomas de queda da sensibilidade em determinadas áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) caracteriza a organização funcional dos campos corticais primários. que corresponde a tônus elevados. Assim. as fibras que vão de áreas isoladas da retina.do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto. primária do córtex. Por isto a irritação desses setores do córtex ou de suas vias condutoras provoca sensações auditivas correspondentes. "codificando-as".

105 .

Flechsig. occipital e temporal e compreendem os campos 39. até certo ponto. As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas mais tardias da escada filogenética e são. Tudo isso mostra que as zonas terciárias ou "zonas de cobertura" são as áreas do córtex cerebral mais jovens. Pela estrutura histológica. Isto se refere às suas funções básicas. 37 das áreas parietais inferiores do córtex. que começam a funcionar mais tardiamente. sua afecção não provoca a queda da sensibilidade visual. Ainda voltaremos a abordar a análise desses fenômenos quando analisarmos os processos de percepção. leva à perturbação das formas complexas de percepção visual. auditiva ou tátil.cepçao. noutros termos. sumamente importantes para garantir as formas mais complexas de funcionamento desse bloco. Quando elas se irritam. conhecida na clínica pela denominação de "agnosia". A importância dessas áreas do córtex . auditiva ou tátil. Até nos carnívoros as zonas corticais de certos analisadores estão em contato direto umas com as outras. Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciárias do córtex (ou "zonas" de cobertura das extremidades corticais de determinados analisadores). que os torna aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do que em outras zonas. ao passo que no homem elas ocupam parte considerável das áreas posteriores do córtex. mas suscita uma desintegração geral no funcionamento desse ou daquele analisador. que consistem na unificação da informação que chega de diferentes analisadores ao córtex cerebral. essas zonas pertencem àquelas em que predominam inteiramente as camadas II e III de células de associação. As zonas terciárias das áreas posteriores do córtex cerebral estão situadas nos -limites da região parietal. sendo apenas esboçadas no macaco. As zonas terciárias do cóitex cerebral amadurecem só muito tardiamente. a qual se manifesta na complexa decodificação da informação que chega ao sujeito. o processo de revestimento dos tecidos que surgem nessas zonas — a mielina. Como mostrou o anatomista alemão P. 40. As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam os aparelhos corticais do bloco em análise. não surgem quaisquer reações sensitivas ou observações. formações especificamente humanas. na ontogênese.

106 .

subtrações e divisões rápidas e começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação das complexas estruturas gramaticais e de operações lógicas que incluem relações complexas. entender a posição dos ponteiros do relógio e correlação dos países no mapa geográfico. Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores do encéfalo e seus lobos frontais. confundem a direção. O bloco da programação. 107 . Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são um importante aparelho. realizá-los nos devidos atos e. surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codificação mais complexa da informação recebida. que chega de analisadores isolados. a regulação e o controle do desempenho ativo do homem. terminando com a formação das intenções. acompanhar as ações em curso. A atividade consciente do homem apenas começa com a obtenção da informação e sua elaboração. capaz de criar e manter as necessárias intenções. o que é de suma importância. cabendo nele posição dominante as seções frontais do encéfalo. regulução e controle da atividade O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação. Distiguindo os objetos e sons visualmente perceptíveis. indispensável para as formas mais complexas de elaboração e codificação da informação recebida. Para isto é necessário um aparelho especial. não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo.para a unificação da informação. fi integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes hemisférios. predominando a dificuldade de unificar em esquema espaciais simultâneos as irritações sucessivas que chegam ao encéfalo. os doentes começam a sentir dificuldades de orientar-se no espaço. comparando o efeito da ação exercida com as intenções iniciais. Esses pacientes ficam sem condições de fazer operações matemáticas que exigem tomar como orientação a ordem numérica. elaborar programas de ação a elas correspondentes. pode ser vista analisando-se os comportamentos dos doentes com afecção dessas áreas do córtex cerebral. do respectivo programa de ação e com a realização desse programa em atos exteriores (motores) ou interiores (mentais). Via de regra.

10.área de Brodmann). as áreas anteriores do córtex distinguem-se substancialmente das posteriores. sobre a qual está construído o campo pré-motor secundário (6^ área de Brodmann). se o córtex das áreas posteriores do encéfalo apresentava • como característica raias transversais. fazendo-os chegar aos músculos dos braços e assim provocando os movimentos correspondentes cujos programas foram preparados por todo o córtex cerebral. 11. o que sugere o caráter motor das estruturas nele dominantes. Por uma questão de simplicidade da nossa exposição. Como as áreas posteriores. É zona primária ou de projeção das áreas anteriores do encéfalo a circunvolução central anterior ou a região motora do córtex (4?. provocando movimentos correspondentes. o córtex das * áreas anteriores se caracterizava por raias verticais. Como os sistemas das áreas posteriores do córtex. cujas ações levam à periferia os impulsos formados. 108 . que acompanham os impulsos formados nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam o estado geral da atividade do organismo. manteremos no exame das zonas primárias do cérebro a mesma ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarquicamente organizadas das áreas posteriores do córtex. 46 de Brodmann). as áreas anteriores têm as mais estreitas ligações com as formações subjacentes da formação reticular. no córtex das áreas anteriores (especialmente em sua zona primária) predomina a camada eferente de células com as grandes pirâmides. sendo importante que aqui estão poderosamente representados tanto as fibras ascendentes como as descendentes da formação reticular.Pelo caráter de sua estrutura. Se no córtex das áreas posteriores do encéf alo (principalmente enx suas zonas primárias) predomina a camada IV (aferente) de células. mais acima estão situadas as formações do córtex propriamente frontal ou região pré-frontal (áreas 9. as áreas anteriores têm estrutura hierárquica com a única diferença de que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras (aonde chegam os instigadores que atingem o encéf alo) mas as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas dirigem esses impulsos para a periferia. mudando-a de conformidade com as intenções formadas no córtex. particularmente por sua região frontal.

da cabeça e do rosto. O córtex primário ou de projeção está situado em forma de uma faixa longa nos limites da circunvolução anterior central. as estruturas celulares de cada uma das referidas zonas difere muito uma. descem. das outras. Essa organização somatotópica da circunvolução central anterior e suas vias condutoras é de suma importância para o diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das áreas superiores dessa região cerebral ou de suas vias condutoras leva à paralisia na perna oposta. passando no tronco cerebral para o lado oposto. descobertas pelo anatomista russo V. Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se a região prémotora.Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como característica a "estrutura de raias verticais" já referida. as cicatrizes situadas nessas áreas do córtex. provocam contração ou convulsões das partes correspondentes do corpo. que tem em sua composição a 6? área . o território do campo motor primário representa os respectivos grupos musculares não pelo traço geométrico mas pelo funcional. a afecção das áreas inferiores leva à paralisia ou paresia dos nervos do lado oposto do rosto. que. as gigantescas pirâmides das zonas médias levam esses impulsos aos músculos das extremidades superiores. as células piramidais das zonas inferiores desse campo levam os impulsos aos músculos do pescoço. levam a conhecidos grupos musculares. predominando nele a camada eferente constituída de gigantescas células piramidais. De acordo com isto. e que o irritam. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos axônios. tanto maior território ocupa sua projeção na zona motora primária do córtex. A. a afecção das áreas médias leva à paralisia do braço oposto. indicando o lugar da cicatriz. Como outras zonas de projeção. Bets. os campos motores primários do córtex têm precisa estrutura somatotópica: as gigantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os impulsos motores aos músculos das extremidades inferiores do lado oposto do corpo. chegam aos cornos anteriores da medula espinhal e são portadores de impulsos motores que. Como nas zonas sensórias de projeção. razão por que o caráter da aura (período inicial dos acessos epilépticos que surgem em casos semelhantes) é de grande importância diagnostica. em suma. quanto mais dirigível deve ser o respectivo grupo muscular.

109 .

não surgem contrações de grupos musculares isolados mas complexos movimentos conjuntos (viradas da cabeça e dos olhos. Essa região prepara o lançamento dos impulsos motores e cria a "melodia cinética" que põe em funcionamento as "teclas" da zona motora do córtex. À diferença da zona motora e pré-motora. nessa região pré-motora predominam pequena^ células piramidais das camadas II e III do córtex. essas áreas do córtex não têm entre seus componentes grandes células piramidais. a perturbação das "melodias ciné-ticas" ou habilidades motoras. células essas que desempenham papel de projeção e associação. A importância da zona pré-motora do córtex (ou "campo motor extrapiramidal") consiste em que ela cria condições para o funcionamento sistemático do aparelho motor e. 10. que é um centro anterior de movimentação dos olhos. Por isto a afecção da zona pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em determinados grupos musculares. com a afecção dessa zona surgem perdas da transferência harmoniosa de um elo a outro. que acompanham os objetos em movimento. 11 e 46 de Brodmann. mantém-se os movimentos refletores dos olhos. Com sua afecção. assegura a transferência harmoniosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros. £ por isto que. A zona pré-motora do córtex adquire importância especialmente grande para a criação de habilidades motoras. aqui o princípio da projeção somatotópica está incomparavelmente menos representado do que na zona motora de projeção. que garante ativos movimentos harmoniosos dos olhos. nas quais um elo motor deve ser harmoniosamente substituído por outro. perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos. estando toda a massa cortical ocupada por células de pequenos axônios e células asteróides cujos corpos são muito pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região préfrontal é às vezes chamada de "córtex frontal granular"). Ela apenas se esboça . À diferença da zona motora de projeção. em particular. ou seja. integradas pelas áreas 9.de Brodmann. em outros termos. Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à 8^ área de Brodmann. de estrutura inteiramente diferente. movimentos de agarramento com os braços). garantindo a execução de complexas melodias motoras. com a irritação da zona pré-motora do córtex. Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do córtex frontal ou região pré-frontal.

nos vertebrados. ocupa lugar relativa110 .

nela se desenvolvem. distúrbios da sensibilidade nem perturbação da fala. À luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem maior a função do cérebro. os lobos frontais do encéfalo se constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel ativador. no qual representa quase um terço de toda a massa dos hemisférios. ocupando pelo tempo de maturação um dos últimos lugares no mapa de mieíinização de Flechsig. a afecção dos lobos frontais do encéfalo não levava a nenhuma perturbação dos movimentos elementares. A questão mudou substancialmente quando os pesquisadores passaram a enfocar o cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo. Por último. Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final da ontogênese. Como mostraram os estudos. que os contactam com as formações subjacentes do tronco. regula a ocorrência de atos motores e exerce controle sobre estes. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter permanentemente o tônus do córtex por meio de tecidos básicos. Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as funções dos lobos frontais do encéfalo nos conceitos clássicos do raio refletor. embora durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição científica precisa. Essas ligações são especialmente significativas nas regiões mediais e basais dos lobos frontais. cálculo complexo) surgem nos . Por isto o córtex pré-frontal pode ser considerado formação especificamente humana. concomitantemente com as fibras ascendentes da formação reticular. A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é muito grande para a organização do comportamento. como já dissemos anteriormente. Dotados de poderosas ligações com a formação reticular ascendente e a descendente.mente pequeno nos macacos. as regiões pré-frontais do córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas subjacentes da formação reticular. em cada tensão intelectual (expectativa do sinal. o que é de suma importância. Isto dava a alguns autores fundamentos para considerar as regiões frontais do córtex cerebral como "zona muda" sem quaisquer funções especiais. desenvolvendo-se poderosamente apenas no homem. com força especial as fibras da formação reticular descendente. não provocava paralisia. que cria complexos programas de comportamento.

lobos frontais do cérebro ondas lentas especiais. que se esten111 .

inibir os impulsos não-correspondentes aos programas e regular a atividade sujeita a esses programas. manter os programas complexos de ação. regiões mediais e basais. Como mostrou o cientista soviético M. que provoca tensão. indispensável para a realização da tarefa colocada. orientada pela tarefa colocada. leva nos sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos de ativação (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-gicas). dotadas de ligações sobretudo potentes com a formação reticular ativante). N. que exige elevado tônus do córtex. Livanov. Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos lobos frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar solidamente as intenções. foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou traumas) dos lobos frontais do encéfalo. Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal. as regiões frontais do encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de programas de ação que concretizam essas intenções. ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos. Os experimentos da psicóloga soviética E. substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhantes. Ao manter o tônus do córtex. provoca nos lobos frontais um elevado número de pontos de funcionamento conjunto. D. O trabalho intelectual tenso. esses pontos de funcionamento sincrônico se conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este cessa. então esse estado persistente de elevada ativação não surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afecção dos lobos frontais do encéfalo (especialmente das suas. provocado pela instrução do discurso ou uma tarefa intelectual. Eles não podem concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou' e fogem facilmente ao seu cumprimento. dificultando-lhe o cumprimento adequado. É natural que a atividade intelectual organizada. . Chomskaya mostraram que se a instrução do discurso.dem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da expectativa" pelo fisiologista inglês Walter Gray. que continuam a reproduzir-se independentemente da tarefa colocada. O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo. que se excitam sincronicamente.

aqui os planos com112 .é substancialmente perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro.

dominado. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha papel dominante nos destros. só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da fala.plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. enquanto nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa para o hemisfério direito. Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes. no homem um deles (via de regra. o caráter dominante do hemisfério esquerdo começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como executor do papel principal na atividade de trabalho. que serve de base ao funcionamento do cérebro humano. É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na realização do controle permanente da atividade em processo. Ao que parece. O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse trabalho estar estreitamente ligado à fala. Tsvetkova). Os pacientes com afec-ção dos lobos frontais do encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção inicial. O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade do cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. S. o hemisfério esquerdo) é dominante e o outro. em termos morfoló-gicos. Anokhin) que desempenha papel de suma importância na garantia da atividade auto-reguladora do homem. as partes inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e panetal) estão relacionadas com 113 . Isto dá fundamento para considerar que os lobos frontais são importante componente do mecanismo do "aceptor de ação" (P. A. Contudo essa descrição deve ser completada com mais um princípio. Luria e L. a diferença entre os dois hemisférios ser muito insignificante. Apesar de. perdem a atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los.

a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ("afasia motora aferente"). da escrita e. sendo as áreas inferiores da zona pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em complexas "melodias cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. Como mostraram observações clínicas. a afecção das regiões do córtex cerebral. provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia). É por isso mesmo que a afecção das áreas posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de distinguir os complexos sons da fala. Assim. Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento .o discurso receptor (diferença dos sons da fala. a integridade do hemisfério esquerdo é importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com o discurso falado. O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal dos processos da fala. contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões terciárias do córtex. É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-te) não provoca tais distúrbios.. provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada "afasia seri-sória"). a desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos processos intelectuais ("afasia semântica"). etc.do cálculo. De modo diferente. da fala independente organizada. que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais). a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das articulações precisas ("afasia motora aferente"). em alguns casos. formação de articulações da fala e codificação do discurso falado. É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização dos nomes necessários. as afecções de áreas análogas do hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem. à perturbação da leitura.

transcorre de modo 114 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful