Curso de Psicologia Geral

Volume 1

A presente obra compõe-se de quatro volumes, a saber:
I.

Introdução Evolucionista à Psicologia

II.

Sensações e Percepção

III.

Atenção e Memória

IV.

Linguagem e Pensamento

A. R. Luria
Curso de Psicologia Geral
Volume I 2º Edição
Introdução Evolucionista. à Psicologia
Tradução de PAULO BEZERRA
Sociedade Unificada Paulista de Ensino Renovado Objetivo – SUPERO
11/01/99

Nº DA CHAMADA

14.013/99
civilização
brasileira \

159.9 – 1967C

REGISTRADO POR LILIANE

- 2.ED.V.1

E.3

DATA

DE VOLUME

Av. PINTO e MARIO ELBER CUNHA 1991 Direitos desta edição reservados à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. Rio Branco. 99-20? andar .A.Centro 20040 .Rio de Janeiro .: (021) 263-2082 Telex: (21) 33798 Fax: (021) 263-61Í2 Impresso no Brasil Printed in Brazil .RJ Tel.Título do original em russo: EVOLYUTSIÕNNOE VVEDÊNIE VPSIKHOLÓGUIYU Capa: DOUNÊ Diagramação: LÉA CAULLIRAUX Revisão: UMBERTO F.

Sumário I — A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA. O OBJETO EA IMPORTÂNCIA PRÁTICA 1 A história da Psicologia como ciência 2 A Psicologia e outras ciências 7 Partes principais da Psicologia 11 Os métodos em Psicologia 17 A importância prática da Psicologia 23 II — A EVOLUÇÃO DO PSIQUISMO 29 A origem do psiquismo 29 Variabilidade do comportamento dos protozoários 32 Mecanismos do comportamento dos protozoários 34 Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples O sistema nervoso ganglionar comportamento mais simples e o surgimento 36 dos programas de 38 Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") 42 O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados variável 50 Mecanismos do comportamento individualmente 56 "intelectual" dos animais O comportamento 62 Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais 68 .

elaboração e conservação da informação 100 O bloco da programação.A ATIVIDADE CONSCIENTE DO HOMEM E SUAS RAÍZES HISTÓRIGO-SOCIAIS 71 Princípios gerais 71 O trabalho e a formação da atividade consciente 95 A linguagem e a consciência do homem 77 A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos 81 O CÉREBRO E OS PROCESSOS PSÍQUICOS 85 O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro 85 Princípios da organização funcional do cérebro humano 93 Os três "blocos" principais do cérebro 94 O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 95 Bloco do recebimento. regulação e controle de atividade 107 O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios 113 .

I
A Psicologia Como Ciência.
O Objeto e a Importância
Prática
O

HOMEM VIVE

e atua em um meio social. Sente necessidades e procura

satisfazê-las, recebe informação do meio circundante e por ele se orienta,
forma imagens conscientes da realidade, cria planos e programas de ação,
compara os resultados de sua atividade com as intenções iniciais, experimenta
estados emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psicológico, que constitui
o objeto de uma ciência: a Psicologia. Esta ciência se propõe a tarefa de
estabelecer as leis básicas da atividade psicológica, estudar as vias de sua
evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e descrever as
mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados patológicos. Só uma
ciência capaz de estudar as leis da atividade psicológica com uma precisão
possível pode assegurar o conhecimento dessa atividade e sua direção em
bases científicas. É justamente por isso que a Psicologia científica se torna
uma das disciplinas mais importantes, cujo significado crescerá cada vez mais
com o
1

desenvolvimento da sociedade e o contínuo aperfeiçoamento dos seus
métodos.
A história da Psicologia como ciência
É muito breve a história da Psicologia como ciência. No entanto remontam a
um passado muito distante as primeiras tentativas de descrever a vida psíquica
do homem e explicar as causas dos seus atos. Na Antigüidade, por exemplo,
os médicos já entendiam que para identificar as doenças era necessário saber
descrever a consciência do homem e descobrir as causas dos seus atos.
Esse enfoque materialista do comportamento do homem foi, séculos a fio,
combatido pela filosofia idealista e a Igreja, que viam na consciência do homem
uma manifestação da sua vida espiritual, considerando que esta não obedecia
às mesmas leis a que se subordinava toda a natureza material e por isto sua
análise não podia ser feita a partir da explicação causai dos fenômenos.
Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua consciência foram
vistos durante séculos como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os
outros processos naturais. Os filósofos assumiam diferentes posições em
relação à consciência, considerando-a manifestação da razão divina ou
resultado de sensações subjetivas, onde eles viam os "elementos" mais
simples que serviam de base à consciência. Mas todos os filósofos idealistas
estavam imbuídos da convicção de que a vida psíquica devia ser entendida
como manifestação de um mundo subjetivo especial, que podia ser revelado
somente na auto-observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou
à explicação científica.
Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve a evolução da
psicologia científicas e mesmo depois de os processos do mundo exterior se
haverem tornado objeto de estudo científico preciso os fenômenos da vida
psíquica do. homem continuaram sendo vistos como manifestação de um
mundo espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
A divisão de todos os fenômenos em duas grandes categorias — a categoria
dos fenômenos físicos, acessíveis à explicação causai, e a dos fenômenos
psíquicos, inacessíveis à análise cien2

tífica objetiva — foi consolidada pelas teses básicas da filosofia dualística de
Descartes,

para

quem

todos

os

processos

físicos,

incluindo-se

o

comportamento animal, estão subordinados às leis da mecânica, ao passo que
os fenômenos psíquicos devem ser considerados como formas do espírito, cuja
fonte de conhecimento pode ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve até período recente na filosofia e Psicologia em
muitos países. Se considerarmos que os pensadores do século XIX
começaram a focalizar os processos elementares dos campos físico e psíquico
(incluindo sensações e movimentos) como processos naturais suscetíveis de
estudo por métodos científicos exatos, os fenômenos superiores do campo
psíquico

(consciência,

pensamento)

continuavam

a

ser

considerados

manifestação do campo espiritual, que podia ser abordado somente por meio
da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à
divisão real da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia
naturalista científica ou Psicologia fisiologista, que tentava estudar com
precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos elementares e
definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que
estudava as formas superiores do campo consciente do homem, enfocando-as
como manifestações do espírito. O enfoque dualista aos fenômenos do campo
psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como os
psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (18561909), o psicólogo americano "William James (1842-1910) e o representante
da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia
ao impasse e provocou tentativas naturais de superar a estagnação surgida
nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais ao estudo dos
processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos
os outros fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara
formulação nítida com os democratas revolucionários russos em meados do
século XIX, teve sua patente mani festação na obra do célebre fisiologista
russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia
segundo a qual até os processos mais complexos do campo psíquico devem

receber tratamento materialista e ser 3 .

Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista. durante séculos.abordados como reflexos complexos. 4 . Em fins do século XIX. que ele mesmo via como base fisiológica da ciência psicológica. D. Para ele. A. que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas exteriores de comportamento. segundo essa idéia. Nessa corrente. inteiramente suscetíveis de análise naturalista. Bekhteryev (1857-1927). inacessível à pesquisa objetiva. criador do estudo objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos reflexos condicionados. carente de fim motor externo. B. o pensamento é um reflexo igualmente complexo porém inibido. denominada behavio-rismo (ciência do comportamento) pelo psicólogo americano J. Essas pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia. que devia substituir a Psicologia. exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. o psicólogo americano Edward Lee Thorn-dike começou a estudar o comportamento dos animais. A. Assim surgiu uma nova corrente na ciência. Outros notáveis representantes da ciência russa. os beha-vioristas americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento externo do animal. Partindo da tese segundo a qual a "consciência" não passa de um conceito subjetivo. cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente constituído. Watson. Watson via a forma científica natural da ciência psicológica. Ivan Petrov Pávlov (1849-1936). Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiologista russo. isolados de todos os outros processos naturais. os fenômenos dg mundo psíquico devem ser estudados pelo naturalista com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza. como fenômenos de tipo especial. como M. A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov. aplicando métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades) biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados.

da memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa científica. que se manifesta na atividade consciente dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos. como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade psíquica. a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. Por outro lado. iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos. a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras. A primeira. Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise científica das formas mais complexas da. capaz de abordar com métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem. elas se converteram na base para a posterior evolução da Psicologia como ciência. a imensa parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem. de atenção ativa. que se converteu na questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a Psicologia do estado de crise. o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da evolução desta ciência ter assumido duas direções. que dava continuidade às tradições do enfoque científiconatural dos fenômenos. Mas o behaviorismo americano. Por outro lado. As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934). o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo americano. propunha-se a tarefa de explicar os processos psí- . Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica.A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância progressista em sua época. Como já tivemos oportunidade de salientar. atividade psíquica do homem.

5

quicos limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e
recusando-se a examinar os fenômenos complexos e especificamente
humanos da atividade consciente. A segunda orientação tomou como objeto de
sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações
subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e
recusando-se a dar aos mesmos um enfoque científico causai.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter
em objeto da pesquisa as formas superiores e especificamente humanas de
atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise científica, explicar por via
causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da
Psicologia.
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função
imediata do cérebro e procurar a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil
quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma de existência do
espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é
uma forma de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode
ser explicada somente pelas leis objetivas dessa atividade representativa. De
modo semelhante, as formas superiores de atividade consciente, de atenção
ativa, memorização arbitrária e pensamento lógico que são específicas do
homem não podem ser consideradas produto natural da evolução do cérebro,
sendo o resultado da forma social específica de vida, que é característica do
homem. Para explicar por via causai as funções psíquicas superiores do
homem, é necessário ir além dos limites do organismo e procurar-lhes as
fontes não no recôndito da ahna ou nas peculiaridades do cérebro mas na
história social da humanidade, nas formas de linguagem e trabalho social que
se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram para a vida tipos
mais aperfeiçoados de comunicação e novas formas de atividade consciente.
Ao procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve estudar a origem
socialmente histórica das formas superiores de atividade consciente e
assegurar uma análise científica das leis que lhes servem de base.
6

Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da psicologia dualista e
delineiam nitidamente o objeto de uma Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das formas complexas de
representação da realidade, que se constituíram ao longo da história da
sociedade e são realizadas ]ielo cérebro humano. Ela deve substituir a anterior
descrição subjetiva das formas complexas de atividade consciente por uma
análise científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tarefa pelo estudo
dos processos fisiológicos que lhes servem de base nem limitar-se à descrição
exterior dos mesmos. É essa a tarefa da ciência psicológica, que deve
estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de
atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das
necessidades complexas e da personalidade, considerando todos esses
fenômenos como produto da história social e sem separar esse estudo da
análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É isto que
constituirá a essência da Psicologia geral no todo e da psicologia do homem no
particular.
A Psicologia e outras ciências
A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação com outras ciências,
que não a substituem mas lhe asseguram informação importante para que ela
possa ser bem-sucedida na elucidação do seu próprio objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais
estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comportamento dos animais
que se desenvolvem no processo de interação deles com o meio, torna-se
absolutamente claro que a completa interpretação das leis do comportamento
animal é impossível sem o conhecimento das formas básicas de vida que
constituem o objeto da biologia. É necessário ter uma noção suficientemente
nítida das diferenças que existem na vida dos vegetais e animais para perceber
o principal que distingue todo tipo de comportamento ativo, baseado na
orientação no meio circundante, das formas de vida que se esgotam com os
processos de metabolismo e podem ocorrer fora das condições de uma
orientação ativa na realidade. É necessário ter uma noção precisa do que
muda
7

A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes funções no organismo.nas condições de vida com a transição da existência de unicelu-lares num meio aquático homogêneo a formas incomparavelmente mais complexas de vida multicelular. sobretudo a parte referente à atividade nervosa superior. e das complexas formações nervosas que executam os processos de análise e síntese. orientação essa que é a única que pode assegurar sucesso na obtenção de alimentos e conjuração de perigos. É natural que os fatos constituintes do objeto da ciência psicológica não podem. que podem sobreviver somente com a evolução de novas formas individualmente mutáveis de comportamento. ocupando-se da atividade nervosa superior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concretizam o "equilíbrio" do organismo com o meio. pelas quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso. Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições do meio e suas influências) e a etologia (doutrina das formas congênitas de comportamento). Sem esses conhecimentos dos princípios biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base biológica. que garantem a adaptação ao meio em mudança. de conhecer as leis pelas quais realiza-se a regulação dos processos de metabolismo no organismo. A segunda ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação é a jisiologia. com sólidos programas congênitos que asseguram uma sobrevivência bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar a espécie até em condições de mudança. de . sobretudo nas condições de existência terrestre. É necessário conhecer bem a diferença de princípios de vida entre o mundo dos insetos. e o mundo dos vertebrados superiores com seus poucos descendentes. que materializa os processos de excitação e inibição. em hipótese nenhuma. que apresenta exigências imensas à orientação ativa baseada nas condições do meio. É fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o papel desempenhado nesse último processo pelas diferentes fases do sistema nervoso. reduzir-se a fatos biológicos.

e asseguram os processos de irradiação e concentração da excitação. é igual8 .confluência das conexões nervosas.

Se não usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem. Tudo isso é absolutamente necessário para que o psicólogo. ficaria privado da comunicação com o meio ambiente. que é transmitida por meio da linguagem. conheça os dispositivos que as executam. enquanto a fisiologia da atividade nervosa superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou realizam esse comportamento. que estuda os tipos principais de atividade psíquica do homem. não se limite à simples descrição desses tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas formas altamente complexas de atividade. baseiam-se nos meios que se formaram no processo de trabalho. de emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem.mente importante o^ conhecimento das formas básicas de trabalho das células nervosas. É natural que as formas de'atividade do homem são executadas pelo cérebro e se apoiam nas leis dos seus processos nervosos superiores. o homem não disporia sequer de uma ínfima parte das possibilidades de que dispõe o seu comportamento concreto. surgidas no processo da história social. desenvolvem-se no processo de atividade material surgido ao longo da história. tem importância decisiva a sua ligação com as ciências sociais. A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia consiste em que a primeira estuda as formas e meios de atividade que surgiram no processo da história social e determinam o comportamento. os sistemas em que elas ocorrem. As formas principais de atividade psíquica do homem surgem nas condições da história social. Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da atividade nervosa superior — como em certa época propunham os pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo erro do arquiteto que tentasse reduzir a origem e a . esse receptáculo da informação. evoluiria à margem das condições do mundo material — surgido no processo da história da sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humanidade. Desconhecer as leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia de uma das fontes mais importantes de conhecimento científico. Para a Psicologia. Por si mesmo nenhum sistema nervoso é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar instrumentos de trabalho e linguagem e explicar o surgimento das formas altamente complexas de atividade humana. que se encontram em estado normal ou inibido (fásico).

análise dos estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência
9

dos materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas que em hipótese
nenhuma podem explicar a origem dos estilos arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grandemente da correta
compreensão da correlação dessas duas ciências e tanto o desconhecimento
da fisiologia como a tentativa de reduzir a Psicologia à fisiologia retardariam o
desenvolvimento da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importância que tem para a
Psicologia a sua ligação com as ciências sociais. Se na formação do
comportamento do animal as condições biológicas de vida desempenham
papel determinante, na formação do comportamento do homem esse papel é
desempenhado pelas condições da história social, que cria formas novas de
uma complexa relação com a realidade, mediada pelas condições de trabalho,
formas essas que são as fontes de novas formas especificamente humanas de
atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro emprego de instrumentos
de trabalho e a primeira forma de trabalho social introduziram mudança radical
nas principais leis biológicas de construção do comportamento e que o
surgimento e, posteriormente, o emprego da linguagem — que permite
conservar e transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento de
uma nova forma de evolução inexistente entre os animais: a forma de evolução
mediante a assimilação da experiência social. A ciência psicológica atual, que
estuda antes de tudo as formas especificamente humanas de atividade
psíquica, não pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém
das ciências sociais: do materialismo histórico, que enriquece as leis básicas
do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística, que estuda as formas
básicas de linguagem, surgida na história da sociedade.
Só levando minuciosamente em conta as condições sociais, que formam a
atividade psíquica do homem, pode a Psicologia obter uma sólida base
científica. Encontraremos a aplicação desse princípio em todas as páginas
seguintes, quando examinaremos todos os fatos psicológicos concretos. É
essa a relação da Psicologia científica com as outras ciências, com as quais
ela se desenvolve em estreito contato.
10

Partes principais da Psicologia
A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência dividida, representa
hoje um sistema amplamente ramificado de disciplinas, que estudam a
atividade psíquica do homem em diferentes aspectos. O que já dissemos antes
deixa claro que algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos
processos psíquicos, aproximando-se da biologia e fisiologia, enquanto outras
partes estudam os fundamentos sociais da atividade psíquica, aproximando-se
das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as formas básicas de
atividade psíquica e constitui a viga-mestra de todo o sistema de disciplinas
psicológicas. Afora a introdução teórica evolucionista, o exame de várias partes
científicas faz parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas sensações e
percepções e terminando nas formas mais complexas de pensamento;
compõem essa parte a análise das condições em que ocorrem os processos
psíquicos e a análise das leis do pensamento, da memória, imaginação, etc), a
análise dos processos afetivos (as necessidades do homem, as formas
complexas de emoções), a análise da estrutura psicológica da atividade do
homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análise da
psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próximas páginas do
presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto de trabalhos de
muitos pensadores célebres, entre os quais sé situam clássicos como W.
Wundt na Alemanha, W. James nos

EUA,

A. Binet e P. Janet na França e

contemporâneos como-L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A.
Smirnov e V. M. Têplov na

URSS,

A. Vallon, A. Piéron e P. Fraisse na França, E.

Nolman, G. Miller e J. Bruner nos

EUA,

Donald Hebb no Canadá e J. Broadbent

na Inglaterra, etc.
É contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas da Psicologia.
Todas elas estudam as bases naturalistas da atividade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou Psicologia animal.
Esta disciplina estuda as peculiaridades do comportamento animal em etapas
sucessivas da evolução, aque-

11 .

Ela não abstrai um instante sequer o fato de que os processos por ela estudados fazem parte da complexa atividade psíquica do homem. A psicofisiologia. Foram precisamente esses pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psicologia e elaboraram minuciosamente partes da Psicologia como a doutrina das sensações. Ela descreve os processos de mudança das formas de comportamento animal dependendo das exigências que o meio lhes impõe e dos principais tipos de adaptação às condições de vida. a atenção e a memória do homem. permanecendo disciplina psicológica especial. empregando os métodos mais precisos. A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico das ciências psicológicas é a Psicologia fisiologista ou Psico-jisiologia. particularmente da fisiologia dos órgãos dos sentidos e da fisiologia da atividade nervosa superior. estabelecer os mecanismos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se realizam. As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade do século XIX por pensadores que se propunham a tarefa de estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação de diversos métodos fisiológicos. sua medida e seus mecanismos básicos. a doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento. procuram. Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de realização de processos psíquicos particulares foi acumulada justamente por essa área da ciência psicológica. a doutrina das leis básicas da memória e da atenção.Ias peculiaridades que dependem das condições de vida e da estrutura anatômica dos animais. estudando as sensações e percepções. à qual estão estreitamente ligados os nomes de grandes . está para a fisiologia assim como a bioquímica está para a química ou a biofísica para a física. não esquece as complexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas tenta descobrir os mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É natural que a Psicologia fisiologista se aproxime da fisiologia. A diferença consiste em que os cientistas que se ocupam desse problema tomam como objeto a análise das formas concretas de atividade psíquica. de estudar os mecanismos fisiológicos dos processos psicológicos. bem como a estrutura dos seus processos motores e a mudança destes no processo de exercício e fadiga. etc. que são de caráter muito variado quando se tornam complexas as formas de vida.

cientistas como Gustav Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações). Wilhelm 12 .

criador da doutrina da atividade nervosa superior. A. É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e do paleocórtex no processo da atividade psíquica é inteiramente diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cerebrais . E. estuda as mudanças dos processos psíquicos que surgem quando ocorram afecções locais do cérebro e tira. Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de diversos países . autor de importante contribuição à fisiologia evolu-cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. porém. Há. introdutor do novo conceito de organização do movimento. Gershuni e S. que enriqueceram a ciência com dados relativos ao funcionamento da audição e visão. fundamentos para supor que também o papel de algumas regiões do córtex cerebral na organização dos complexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas do cérebro — parietais. A terceira disciplina componente do grupo biológico das ciências psicológicas é a neuropsicologia. L. Ukhtomsky. Vve-densky. Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informação dos trabalhos de clássicos notáveis da fisiologia como Pávlov. Edward Titchener nos EUA. etc. A. Broad-bent (Inglaterra). V. conclusões relacionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos. Hermann Ebbinghâus e Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos exatos de medição da memória e seus mecanismos específicos). Lindsley (EUA). A. A. Anokhin. N. os grandes psicólogos atuais como O. A. criador da doutrina dos sistemas funcionais. G. temporais e occipitais — dão sua contribuição toda especial para o processo de atividade psicológica. N. Fraisse (França) e outros.Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofisioló-gicos de estudo dos processos psíquicos). cujos trabalhos permitiram introduzir uma aova área da ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes. Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas uma análise psicológica minuciosa tanto das irritações como das destruições de áreas isoladas do cérebro. Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desempenham os aparelhos particulares do sistema nervoso na estruturação dos processos psíquicos. V. Kravkov. assim como Piéron na França. de suas observações. criador da doutrina da gênese patológica. Orbeli. Bernstein. R.

Pribram (EUA). Lashley e K. 13 . S. H.como K.

na Rússia) e pelos psicólogos contemporâneos (B. R. cabe posição especial à psicologia infantil ou genética. Békhterev. N. na Uma área especial. Sokolov e O. adquiriu importância . Zangwill (Inglaterra). Podemos colocar ao lado da neuropsicologia a psicopatologia. No sistema das ciências psicológicas. na Alemanha. Vinográdov na URSS) se propõem a tarefa de investigar as formas de funcionamento de grupos isolados de neurônios e efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares. H. fronteiras da psicofisiologia e da neuropsicologia. Importantes descobertas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento em base neurônica. A importância dessa área das ciências psicológicas para a Psicologia geral consiste em que a Psicologia genética ou infantil estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolução da criança e permite acompanhar a formação dos complexos processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua evolução. dando. é representada pelo estudo dos mecanismos neurônicos da atividade psicológica. V. H. que estuda a formação (gênese) das formas superiores de atividade psíquica. na França. que deixou vestígios na estrutura dos processos psíquicos. B. situada URSS. A psicopatologia foi elaborada com êxito por muitos psiquiatras (Kraepelin. Janet. com isto. O. que servem de base ao comportamento. E. Milner (Canadá) e outros. e outros). Wiesel na Inglaterra. na França. A Psicologia genética permite abordar os processos psíquicos superiores do homem como produto da evolução. Jung na Alemanha. nas Pecheau. Os cientistas que elaboraram essa área (D. Jasper no Canadá. L. Luria (URSS).A. N. e permite que nos aproximemos mais de um estudo científico das doenças mentais e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica que se manifesta nos estados patológicos. Hubel e T. Foi justamente por isto que a Psicologia genética. S. H. Zeygar-nik. que estuda as peculiaridades "dos processos psíquicos observáveis nos doentes psíquicos. a possibilidade de considerar as formas complexas de atividade psíquica do homem não como "propriedades" ou "faculdades" do psiquismo primitivamente existentes mas como resultado de uma longa formação.

decisiva tanto para uma área prática 14 .

Outro campo da Psicologia. estudados pela Psicologia geral. L. Ster (1871-1938). relacionados com a contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis estudiosos Jean Piaget e Lyév S. memorização e pensamento) possuem estrutura complexa que se forma no processo de evolução da criança. Nessas áreas examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou a atividade psíquica do homem e as formas sociais em que essa atividade se manifesta. e revelam diferenças individuais. Foi justamente graças aos êxitos da Psicologia genética. Estas podem ser diferenças de propriedades do sistema nervoso. Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo de áreas intimamente vinculadas às ciências sociais. Vigotsky. ocupa posição importante. que deve ser colocado ao lado da Psicologia genética e costuma ser chamado de psicologia diferencial ou psicologia das diferenças individuais.como a pedagogia quanto para a Psicologia geral. M. A importância da Psicologia genética lhe. nos EUA. A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a avaliação do nível de evolução da criança. Teplov. Sabe-se que as pessoas têm traços comuns. em nossa época os problemas das diferenças individuais foram estudados com êxito por cientistas como Charles Edward Spear-man. Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados em sua época pelo psicólogo alemão W. das formas individuais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiaridades tipológicas cujo conhecimento é indispensável à solução das questões práticas da Psicologia. traços característicos do processo cognitivo e do talento. na Inglaterra. L. Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou ciência das particularidades que distinguem os processos psíqui15 . e B. permitiu ocupar posição central na Psicologia atual. de peculiaridades individuais do campo emocional e do caráter. na URSS. Thurstone. que a Psicologia geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos processos psíquicos (percepção e ação. descrever os tipos de comportamento e atividade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras por traços característicos. A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas diferenças individuais.

que partiu de um dos criadores da Psicologia moderna. competição. Turnwald.: forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência que fosse capaz de revelar as bases psicológicas da formação da linguagem. A psicolingüística. A psicolingüística se propõe o estudo das leis básica: da linguagem enquanto meio de comunicação. codificação e decodificação da informação veiculada pela linguagem e dos processos psicológicos que se baseiam nos códigos da língua e se materializam na linguagem do homem. etc. do direito. as peculiaridades psicológicas da divulgação de informação por meios como a imprensa e o cinema. W. Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de grandes cientistas de diversos países (Frazer e Malinowsky. Por este motivo as tentativas de "ps:-cologizar a história" retiveram durante muito tempo o desenvolvimento desse importante campo da ciência psicológica. as particularidades do comportamento no processo de trabalho. etc. representa um campo especial d-Psicologia. Mead. dos mitos. na França. O estudo das peculiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes -diferentes culturas constitui atualmente uma área importan:. Janet e Lévy-Bruhl. disciplina que nos últimos decênios s: converteu em área independente e se situa na fronteira entre a Psicologia e a lingüística. nos EUA) e foram justamente essas pesquisas qu: lançaram as bases da etnopsicologia atual. Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia. Wundt.cos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferentes culturas. a análise dos fatores que servem de base a . Fracassou essa tentativa. autor do livro A psicologia dos povos. A Psicologia social é uma área importante porém pouco desenvolvida. Esta disciplina estuda as leis psicológicas da comunicação entre os homens. da ciência psicológica. Um campo especial da Psicologia social tem como objeto o estudo das inter-relações humanas em pequenos grupos. na Alemanha e M. qa: devia investigar um processo inverso: a influência formadora exercida pelas condições histórico-sociais sobre o desenvoh:-mento da atividade psicológica do homem. Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenômenos da vida social. dos processos d. na Inglaterra. cujas bases não são psicológicas mas econc-micas ou histórico-sociais. fizeram-se tentativas de criar uma "psicologia dos povos" corr. crenças.

16 .

O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que a essência do processo em estudo não coincide com as manifestações em que ela aparece. Entre essas disciplinas. Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da Psicologia. etc. Os métodos em Psicologia É condição fundamental da evolução de toda ciência a existência de métodos suficientemente objetivos. etc. Segundo a concepção idealista. incluise a Psicologia da arte. mas estes podem mostrar que sistema ramificado de disciplina a Psicologia moderna representa. que mantêm afinidades com as ciências sociais. à definição do conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos.tipos concretos de interação entre os homens. a Psicologia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da consciência. penetrar nas leis internas que constituem a essência do processo em estudo. vivência da liberdade do ato volitivo.processos da consciência se distinguiam dos outros processos da realidade objetiva pelo fato de que o fenômeno coincidia com a essência: as formas de consciência que o homem podia observar em si mesmo (clareza ou imprecisão de consciência. Segundo os psicólogos idealistas. promoção de líderes. de formação da autoridade. caracteriza as pesquisas verdadeiramente científicas. Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia? Houve um longo período em que a Psicologia era definida como ciência do mundo subjetivo do homem. Esse caminho do fenômeno à essência. que separava o psiquismo de todos os outros fenômenos da natureza e da sociedade. São necessários procedimentos especiais. que lança mão de toda uma série de procedimentos objetivos de pesquisa. precisos e seguros. que permitam penetrar além dos limites dos fenômenos acessíveis à observação imediata.) eram consideradas por esses 17 . que estuda as bases psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que servem de base às obras de arte que aplicam diversos procedimentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o leitor e espectador. esses.

o que dava a possibilidade de explicar por via causai os fenômenos e encontrar as leis que lhes serviam de base. descrição essa que se obtinha no processo de introspecção. que permite ao homem orientar-se na realidade ambiente. durante muito tempo continuou sendo uma área singular da filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências autênticas. sem nunca se limitar ao método da introspecção. formar programas de comportamento e controlar a sua execução. que não levantava os problemas da origem e dos mecanismos objetivos desses processos não podia ter existência própria. referindo-se a ele apenas como um procedimento auxiliar de sentido antes heurístico.psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como essência dos processos psíquicos subjetivos. que era produto de uma longa evolução. refleti-la. a explicação objetiva e causai dos processos psíquicos. O reconhecimento da introspecção como método fundamental da Psicologia não apenas separava esta ciência das outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução da Psicologia enquanto ciência autêntica. ainda. consideravam como fundamental e única a descrição subjetiva dos fenômenos da consciência. reduzindo a Psicologia à descrição subjetiva de formas da vida espiritual e dos fenômenos psíquicos. A revisão radical da introspecção como método de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de atividade psíquica. empregava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha aplicação muito restrita porque nem de longe os processos psíquicos ocorrem todos por via consciente. É fácil entender que uma "ciência" que se negava a considerar os processos psíquicos como produtos do desenvolvimento objetivo. bem como porque a autoobservação dos seus processos psíquicos pode introduzir mudanças consideráveis na ocorrência desses processos. . ou seja. Para eles. Excluía. Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao método básico da Psicologia desde o período em que esta disciplina passou a ser interpretada como ciência de uma forma específica de atividade psíquica. A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objetivos de estudo dos processos psíquicos do homem. que permitia levantar questões. essa coincidência dos fenômenos com a essência constituía o fundamento da Psicologia e lhe definia o método.

18 .

que tornam necessária a inserção de novas operações na solução da tarefa). procedimentos auxiliares. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos básicos de pesquisa psicológica. O método de análise estrutural dos processos psicológicos consiste no seguinte: o psicólogo.A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elaboração de métodos objetivos de pesquisa que usassem os mesmos procedimentos que todas as outras ciências usavam para observar o desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade e da mudança experimental das condições do seu exercício. Essa descrição da estrutura psicológica do processo estudado e a análise das suas partes componentes representam dificuldades consideráveis e exigem vários procedimentos auxiliares especiais. formas de comportamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a tarefa dada. que permitem efetuar uma análise estrutural bastante completa. podem ter caráter direto ou indireto. os meios auxi-liares em que ele se baseou.resultado final (memorização do material proposto. etc. Pertence aos procedimentos diretos a mudança da estrutura da tarefa proposta ao sujeito experimental (com dificultação paulatina. inclusão de novas exigências. método genético-experimental e método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-mica). Esses procedimentos. resposta à tarefa proposta) mas acompanha atentamente o processo de solução da tarefa proposta. coloca diante do sujeito experimental uma tarefa correspondente e acompanha a organização estrutural dos processos (procedimentos. O emprego desses procedimentos diretos de análise estrutural muda . O procedimento principal da Psicologia passou a ser a observação do comportamento do homem em condições naturais e experimentais. ao estudar essa ou aquela forma de atividade psíquica. meios. com a análise das mudanças que ocorrem em determinadas condições que podem ser mudadas pelo experi-mentador. convencionalmente chamados de método de análise estrutural. reação motora ao sinal. de métodos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição exterior dessa atividade no sentido das leis que lhe servem de base. etc). Isto significa que o psicólogo não apenas registra o. bem como a proposta de vários procedimentos que ajudam à solução (escolha de apoios externos.

19 .

pletismograma).o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer quais dentre os procedimentos empregados surtem um efeito máximo. Pode-se obter resposta a esta questão não apenas acompanhando a execução das mesmas tarefas em fases sucessivas do desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia a denominação de método dos cortes genéticos) como também criando condições experimentais que permitam mostrar como se forma essa ou aquela atividade psíquica. empregando diversos meios de apoios extremos evidentemente- . o estudo da estrutura das formas complexas dos atos conscientes. eletromiogramas. que etapas foram incluídas nele e que fatores determinam o surgimento de processos psicológicos superiores. reação galvânica da pele. Ê natural que a aplicação desses procedimentos indiretos ou complementares pode adquirir sentido somente havendo organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo psicólogo. por exemplo. a realização de operações construtivas ou lógicas. podem ser índices do seu estado geral. a quem se propõe resolver essa ou aquela tarefa. não sendo eles mesmos elementos. das tensões por ele experimentadas. Por isto é sobretudo importante para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolução. Com este fim coloca-se em diferentes condições o sujeito experimental. de atividade do homem. Entre esses procedimentos. que. noutros. a solução das tarefas. presta-se-lhe ajuda. incluímos a aplicação de métodos de registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas. Ao lado do método analítico-estrutural. Nuns casos exige-se dele solução independente da tarefa. que ocupa posição central na Psicologia. etc. que por si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da atividade psíquica mas podem refletir as condições fisiológicas gerais que caracterizam essa realização. podemos colocar o método genético-expe-rimental. que tem importância especialmente grande para a Psicologia genética. Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são produto de uma longa evolução. As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas de atividade psíquica como a assimilação ou memorização do material. Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-se o emprego de indícios.

20 .

Zaporojets. analisa detalhadamente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos e define quais desses processos se mantêm intactos e quais ficam perturbados. Semelhante análise permite estabelecer quais são precisamente os processos psíquicos internamente relacionados com o fator perturbado (ou excluído) e quais são independentes deste. O método genético-experimental foi amplamente aplicado na Psicologia na URSS por Vigotsky. por outro. Esse método é aplicável em casos relativamente raros. permite descrever toda uma síndrome (por outras palavras.eficazes. O mesmo método pode ser aplicado na Psicologia geral ou na>Psicologia das . Conhecendo um fator que muda notoriamente o curso dos processos psíquicos. especialmente importante para a neuropsicologia e psicopatologia. Aplicando os procedimentos que constituem a essência do método genéticoexperimental. como também de formular experimentalmente os complexos processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. todo um conjunto de mudanças) que surge com a mudança de uma função e dá a possibilidade de mostrar a interdependência (correlação) de processos psicológicos isolados. V. por um lado. sugerindo em voz alta as vias de solução. o estudioso se mostra capaz não apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujeito experimental pode assimilar de modo ideal dada atividade. Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pesquisas neuropsicológicas. Galpe-rina e produziu muitos fatos valiosos que se incorporaram soli-damente à Psicologia. o psicólogo pode saber qual a influência que esse fator exerce sobre o curso de toda a atividade psíquica do sujeito. observando como ele aproveita essa ajuda. é o método patológico-éxperimental ou método da análise sindrômica das mudanças de comportamento que ocorrem nos estados patológicos do cérebro ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos processos psíquicos. O terceiro método da Psicologia. consistindo no seguinte: o psicólogo que estuda minuciosamente os pacientes nos quais a afecção local do cérebro provoca o deslocamento ou a deformação de uma das condições do curso normal dos processos psíquicos (por exemplo. Y. P. A. da memória auditiva ou da sólida manutenção do programa de atividade). da percepção visual.

da memória 21 .diferenças individuais. nas quais a superevolu-ção de um aspecto do campo psíquico (por exemplo.

o método gené-tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia genética. Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são métodos da pesquisa psicológica. Para que esses testes possam produzir dados objetivos e mensuráveis. A par com eles. e se o método de análise estrutural continua sendo o método básico para todas as áreas psicológicas. aptidões) e os métodos simples de medição do nível de evolução dos processos psíquicos. Faremos adiante uma apreciação crítica desse método. Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são conhecidos pela denominação de testes psicológicos. . entretanto. têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de avaliação qualitativa e quantitativa dos processos psíquicos (dos conhecimentos. acerca das peculiaridades psicológicas dos grandes hemisférios. são feitos previamente com um grande número de sujeitos experimentais (crianças de uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educação). Os testes psicológicos consistem de tarefas.visual clara) ou alguma peculiaridade individual dos processos nervosos (por exemplo. Os resultados dessas pesquisas são avaliados por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao grupo correspondente de sujeitos). habilidades ou aptidões são mensuráveis.p é a mesma para as diferentes áreas da Psicologia a que nos referimos. a fraqueza ou a mobilidade insuficiente dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos os processos psicológicos e tornar-se fator decisivo no surgimento de todo um conjunto de peculiaridades individuais da pessoa. que se propõem a um amplo círculo de sujeitos experimentais para estabelecer seus conhecimentos. Entre essas tarefas escolhem-se aquelas'que um número considerável (dois terços. É fácil ver que a importância de todos os referidos métodos nã. por exemplo) de sujeitos experimentais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são propostas àqueles sujeitos cujos conhecimentos. habilidades ou aptidões. A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa importância para que se tenha uma orientação. ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na Psicologia patológica ou diferencial. quando examinarmos a sua importância para a medição das diferenças individuais de diferentes sujeitos. habilidades.

22 .

que estão se convertendo . que nos mecanismos modernos consistem de grande número de indicadores. que compreende a direção de mecanismos. É natural que essas exigências podem ser atendidas somente levando-se em conta as leis da percepção humana. subentende uma complexa interação do sistema homemmáquina. Coloca-se a questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias? Todas essas questões são elaboradas pela engenharia psicológica e pela Psicologia do trabalho. com isto. Essas exigências devem referir-se principalmente à construção racional dos painéis de direção. Por outro lado. A ciência psicológica é de grande importância prática para vários campos. que aumenta à medida que a direção do comportamento do homem em bases científicas e a consideração do fator humano na indústria e nas relações sociais se tornam questão central da vida social. a área da Psicologia aplicada que se dedica a questões ligadas a esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia do trabalho. que poderiam.A importância prática da Psicologia A Psicologia tem grande importância não apenas para a solução de uma série de questões teóricas do campo psicológico e da atividade consciente do homem. Ela tem importância também prática. do transporte. aviação. adaptar a máquina às possibilidades do homem. A técnica complexa deve estar adaptada às possibilidades do homem. É necessário criar condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo e o menor número de erros. querendo. O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho. da melhor maneira. dentre os quais mencionamos apenas os mais importantes. a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-tes à seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou daquelas formas de trabalho. que se criem condições que assegurem circunstâncias ideais para a manutenção da atenção e o menor esgotamento do homem. o volume da memória humana e os modos de originalizá-las. A indústria moderna. que exigem revisão sumamente rigorosa e que a informação que recebem tenha a máxima acessibilidade. etc.

23 .

O ensino programado (ou teoria da assimilação programada. que dá contribuição substancial para a fundamentação científica do processo pedagógico. é o fato de que a falta de aproveitamento que esses alunos demonstram pode ter fundamento variado. É sabido que o sucesso do ensino depende não só dos programas e métodos racionalmente organizados mas também da própria composição dos alunos. que cria obstáculo para levar-lhes instrução com êxito. Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino e a educação da geração adolescente. apresenta a base psicológica científica para a elaboração de uma seqüência otimal do material proposto bem como a'aplicação dos métodos mais eficazes de ensino. exige organização mais racional dos métodos de ensino. que devem ser assimilados no processo de ensino escolar. os modos de formulação otimal de regras. Em toda classe. O essencial. Questões como o grau de desdobramento do processo de assimilação dos conhecimentos por etapa. paralelamente aos alunos adiantados. Isto depende substancialmente das peculiaridades psicológicas da criança. os procedimentos que asseguram assimilação adequada dos conceitos e a transferência de princípios assimilados no processo de ensino constituem apenas uma parte das questões estudadas pela psicologia pedagógica. a correlação dos meios direto e lógico-verbais de ensino. porém. nova área da pedagogia que se desenvolveu ultimamente. O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a construção racional do ensino e da educação é a análise das peculiaridades psicológicas das crianças. É sabido que o crescente volume de conhecimentos. por etapa. há aqueles que não conseguem assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendimento do trabalho de toda a turma. . dos conhecimentos). em suma. estabelecer o círculo dos conceitos acessíveis às crianças da idade correspondente e os métodos de transmissão do material que garantirão sua melhor assimilação.em importante componente da organização cientifica da produção. A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada que deve assegurar a argumentação científica dos programas e métodos de ensino. da idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar. a área da pedagogia.

24 .

No . Por último. que dificultam a comunicação verbal oportuna e plena e provocam retardamento temporário do desenvolvimento. O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a medicina. onde procedimentos e métodos especiais permitirão compensar tais deficiências. como deficiências auditivas. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspondente e nessas condições podem cumprir com êxito o programa. Essas crianças devem ser transferidas da escola de massa para uma escola especial. por outras palavras. As outras são crianças plenamente normais. que possam descrever as peculiaridades psicológicas das crianças que não conseguem acompanhar o programa. A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna das causas do atraso de diferentes grupos de crianças e o diagnóstico das diversas formas de atraso no programa. Essas crianças devem ser transferidas para escolas destinadas a alunos de audição difícil. Essas crianças necessitam de aulas complementares especiais que possam eliminar as suas lacunas. explicar as causas principais do retardamento da sua evolução e prestar ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas. ficam rapidamente exaustos e não têm condições de assimilar o material correspondente. 15 sabido que o desenvolvimento de uma doença depende não apenas do agente patogênico e do estado do organismo mas também de como o próprio doente encara sua doença e como a avalia.Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem mentalmente retardados e o atraso orgânico do seu cérebro os torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima. mas o seu atraso deve-se ao fato de que. o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades de aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam mentalmente retardadas mas porque apresentam algumas deficiências. depende daquilo a que os terapeu-tas chamam de "quadro interno da doença". Eles são capazes de concentrar com êxito suas atenções apenas durante tempo limitado. elas não podem avançar com sucesso porque a assimilação do novo material não encontra nelas a necessária base de conhecimentos. por terem sofrido uma doença qualquer. Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na aprendizagem por serem fisicamente fracos. auxiliar. Essa tarefa pode ser cumprida somente com íntima participação dos psicólogos. não tendo assistido a determinada parte do programa.

a pró25 .entanto.

a formação de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento da atividade consciente. permitindo focalizar mais de perto o fundamento científico da prática da psico-terapia. dos reflexos. com as peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo. com o caráter das generalizações que o indivíduo faz. tem por isto grande importância para a medicina. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e neurocirurgia clínicas. Graças a isto tornou-se possível introduzir um método novo e prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro. estão relacionados com determinadas áreas do cérebro. Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente se manifestam em sintomas da neurologia clássica como a mudança de sensibilidade. e o restabelecimento das funções perturbadas. da psico-higiene e da psicoprofilaxia. a afecção dessas áreas do cérebro provoca perturbações visíveis das formas complexas de atividade psíquica. Este permitiu ver quais os fatores que. Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução de duas importantíssimas questões: o diagnóstico e a natureza da doença. que tipos de perturbação dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas. Nos capítulos correspondentes do presente livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para a solução dessas . por outro. Parte considerável dos grandes hemisférios cerebrais não tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a afecção dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visíveis nestes. por um lado. A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas da medicina como a neurologia e a psiquiatria. do tônus e dos movimentos. Nos últimos decênios surgiu um novo campo da Psicologia — a neuropsicologia — já mencionado por nós. ainda. sem provocar sintomas fisiológicos nítidos. É justamente por isto que. fazendo parte das formas complexas de atividade psíquica. permitindo ver. que aplica a análise psicológica do caráter das perturbações dos processos psíquicos superiores peio diagnóstico tópico das afecções cerebrais. estudo esse feito pela Psicologia. O estudo das peculiaridades caracterológicas e da estrutura do indivíduo. Essas partes dos grandes hemisférios estão relacionadas com a realização das formas superiores de atividade psíquica como a análise do afluxo de informação.pria atitude em relação à doença está relacionada com uma série de fatores psicológicos.

questões práticas. 26 .

cabe mencionar o último campo de aplicação prática da Psicologia: a psicologia forense. da gradação da percepção e da memória. Mas a doutrina da complexa construção sistêmica dos processos psíquicos superiores mostrou que cada forma complexa de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um sistema de zonas cerebrais que trabalham conjuntamente e permitiu rever radicalmente essas teses. Mostrou que os sistemas funcionais. tornou-se um importante componente da medicina moderna. elaborada pela Psicologia. Há relativamente pouco tempo ainda se considerava que as funções. das peculiaridades do seu pensamento. Por isto a aplicação dos métodos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite precisar substancialmente o diagnóstico das doenças mentais e se converte em componente essencial da Psicologia geral. O promotor e o juiz estão constantemente diante de formas complexas de atividade psíquica do homem. não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principalmente do seu hemisfério central. A teoria do restabelecimento das funções psíquicas superiores (perturbadas durante afecções locais do cérebro) por meio de um restaurador especial da aprendizagem. da memória e do pensamento assumem caráter absolutamente diverso sob diferentes formas de retardamento mental e diferentes doenças mentais. Por último. É grande a importância prática da Psicologia na elaboração das bases científicas do restabelecimento das junções perturbadas nas afecções cerebrais. dominante) provocava perturbações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez. baseados nas áreas cerebrais' não-afetadas. . as funções perturbadas podem ser restabelecidas em novas bases. que se perturbam com qualquer afecção local do cérebro. Deste modo. perturbadas como resultados de afecções locais do cérebro. dos seus motivos e traços caracterológicos. As perturbações da percepção e da ação.Não é menor a importância da Psicologia para precisar o diagnóstico das doenças mentais. podem ser reestruturados com base na criação de novos sistemas funcionais. Por isto a consideração das características psicológicas desses processos deve ser componente obrigatório da preparação e da atividade do pessoal de atividade forense.

A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas importantes áreas da prática forense: a análise dos depoimentos das 27 .

28 . o crime cometido deixa vestígios não só na situação externa como também no próprio psiquismo do criminoso. Por outro lado. É natural que a incorporação da Psicologia à solução desses problemas permite dar uma contribuição importante para a construção da causa judicial em bases científicas e constitui área importante da aplicação prática da Psicologia. daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais esses vestígios podem ser descobertos. a Psicologia não é apenas uma área importante da ciência como tem campos amplamente ramificados de aplicação prática. Deste modo. Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas asseguram matéria autêntica apenas em certos limites e que o grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplicação de uma investigação psicológico- experimental.testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no crime. fornecendo bases científicas para importantes campos da prática.

A origem do psiquismo A Psicologia pré-científica. que se desenvolveu nos pri-mórdios da filosofia idealista.II A Evolução do Psiquismo CAPÍTULO anterior vimos como a ciência moderna entende o objeto da Psicologia e que aplicações práticas tem esse campo de atividade. A filosofia dua-lista supunha que a consciência era tão eterna quanto a matéria. considerava o psiquismo como uma das propriedades primárias do homem e a consciência como manifestação direta da "vida espiritual". Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas da evolução da atividade psíquica. de sua origem e dos graus de sua evolução. paralelamente a esta. 29 que aquela sempre existia . Por esta razão nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismo.

elas devem assimilar do meio ambiente as substâncias que são objeto de alimentação e necessárias para mantê-las vivas. que respondem à ação das substâncias úteis ou das condições que contribuem para a assimilação dessas substâncias. Essa última propriedade parece relacionar-se com a modificação de algumas frações dos aminoácidos (particularmente do ácido ribonucléico. que constitui o funda30 . elas devem segregar para o ambiente externo os produtos da desintegração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência normal. Essa propriedade fundamental se manifesta no processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica. Junta-se a ela uma segunda propriedade: a possibilidade de conservação das propriedades altamente especializadas da excitabilidade diante das influências. de descrever as condições nas quais deve ter surgido essa forma altamente complexa de vida. transmitindo de geração a geração as respectivas modificações das moléculas albuminosas.A Psicologia científica parte de teses inteiramente diversas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta para o problema da origem do psiquismo. Ao mesmo tempo. respondendo também à influência nociva que lhes ameaça a existência. Deste modo. que também contribuem para a assimilação. essas moléculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentícias como a condições como a luz e o calor. É natural que essas moléculas albuminosas altamente complexas (às vezes são chamadas coacervaíos) possuam propriedades especiais. Elas não reagem às influências "neutras" estranhas ao processo de metabolismo. Reagem negativamente aos efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificultam a existência normal. Para sobreviver. que não podem existir sem um constante metabolismo com o meio. Esses dois processos — a assimilação e a eliminação — Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental de existência dessas complexas formações albuminosas. Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da vida é o surgimento de complexas moléculas albuminosas. Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacervaíos de responder às influências que integram o processo de metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores "indiferentes" ).

a começar pelos protozoários. que integram o processo imediato do metabolismo. não-bióti-cas. etc). que integram o processo imediato do metabolismo. em essência. mas também às influências "neutras". a aquisição de formas de excitação altamente especializadas e sua conservação com a transmissão imediata às gerações seguintes caracterizam o estágio de evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa. procuram condições de importância vital e reagem a todas as mudanças do meio. Cada organismo animal. morrer por falta de luz ou umidade. caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não só às influências bióticas. que são um sinal do surgimento dessas condições.mento molecular da vida) e costuma ser considerada como importante processo que serve de base à memória biológica. dirigido pela excitação em relação às influências bióticas (umidade. começando pelas algas mais simples e terminando com as formas complexas de vida vegetativa. Noutros termos. Eles condicionam os chamados "movimentos dos vegetais". Há uma circunstância que é essencial para a vida vegetativa. Os processos de excitação diante de influências bióticas de importância vital. se estas anunciam o surgimento de influências ("bióticas") de importância vital. O vegetal que responde com um intenso metabolismo às influências bióticas não reage às influências exteriores. iluminação. Esses processos caracterizam toda a vida. que. Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-tuadamente as formas de existência na etapa seguinte da evolução: o estágio da vida animal. os animais (mesmo os protozoários) se orientam ativamente na claridade. Quanto mais intenso é o metabolismo. quanto maior é a necessidade de obter alimentação que o ser vivo simples sente. tanto movimentos e mais ativos são os seus . Ele não se orienta ativamente no meio ambiente e pode. por exemplo. Fenômenos como o crescimento da raiz do vegetal no sentido da profundidade do solo ou o crescimento irregular do tronco dependendo da iluminação ou a inclinação dos vegetais no sentido dos raios solares constituem apenas o resultado do fenômenos da "excitação" diante das influências bióticas (não indiferentes para a vida). são apenas formas de uma intensa troca ou crescimento. mesmo que as fontes de luz e umidade estejam bem próximas mas não tenham efeito imediato sobre ele.

31 .

começa a adquirir formas de comportamento individualmente variáveis. se estes começam a dar sinais do surgimento de influências de importância vital. é chamada sensibilidade. indispensável ao metabolismo) mas são insensíveis à luz. que agora adquire para eles o significado de sinal de elevação da temperatura e começam a concentrar-se no canto iluminado da câmara. Mas se durante longo período iluminarmos o canto aquecido e escurecermos o não-aquecido.diferenças de temperatura. Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamento individualmente variável se processa com relativa lentidão. provoca mudanças radicais nas formas de vida. usados nesse experimento. Essa capacidade de reagir aos instigadores "abióticos" neutros sob a condição de que eles sinalizem para o surgimento de influências de importância vital. capacidade essa que surge no estágio de transição para o mundo animal. apesar ias. eles se distribuem igualmente por toda a câmara. a reagir ativamente a cada mudança que neste se processa. com uma parte clara e outra escura. Por isto se os colocarmos numa câmara igualmente aquecida. mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em condições de experimento. que não existiam no mundo vegetal. aquecermos uma parte da câmara igualmente iluminada. eles se concentram no canto aquecido. Citemos um experimento típico. Sabe-se que os unicelulares. É o surgimento da sensibilidade que pode servir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo.tanto mais vivificadas são as formas em que se produz sua atividade de "orientação" ou "procura". O principal consiste em que o ser vivo começa a "orientar-se" no meio ambiente. Se. são sensíveis ao calor (qué é para eles condição biótica de importância vital. ou seja. diferentemente dos fenômenos da ex-citabilidade. realizado pelo pesquisador alemão Bramstedt. 32 . ao contrário. Variabilidade do comportamento dos proiozoários A sensibilidade aos instigadores "neutros". a situação muda e os unicelulares se tornam sensíveis à luz.

Exemplo típico desse processo encontramos no experimento do estudioso americano A. Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num vaso estreito com seção microscópica. os pro-tozoários fazem movimentos que lhes são característicos. O processo de mutabilidade do comportamento-individual dos protozoários. transcorre com relativa lentidão e as mudanças que surgem desaparecem com a mesma lentidão. batendo contra as paredes do tubo. No começo do teste ele gastava de 3 a 6 minutos para virarse. A trajetória por eles adquirida se mantém inclusive quando eles são recolocados num vaso arredondado e passam algum tempo fazendo os mesmos movimentos pela trajetória rômbica. Mas se esses experimentos eram repetidos várias vezes durante 10-12 horas. a trajetória desses movimentos começa a refletir a configuração do vaso. obtinha-se uma nova "habilidade". o ciliado começava a virar-se com rapidez bem maior e no final do teste gastava apenas 1-2 segundos para virar-se. Colocados numa proveta arredondada com água.É fato característico que essa sensibilidade à claridade se forma paulatinamente entre os unicelulares. Smith. Por conseguinte. Co-locados. que os distingue acentuadamente dos vegetais. sob a influência das novas condições. que 33 . Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-tozoários pode ser provocada com base em suas reações defensivas. se mudarmos as condições que provocam essas reações. podendo desaparecer inteiramente se durante longo período a luz não for reforçada pelo calor. A seção era tão pequena que para sair do tubo no sentido da ação do agente biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se. eles começam a bater-se contra os vidros dessa proveta mas logo seus movimentos adquirem caráter modificado. Mas essas mudanças são tão importantes que as novas formas de comportamento emergentes (de adaptação às novas condições) permitem realizar as respostas necessárias de adaptação às novas condições de modo muito mais rápido do que se verificava em nível inferior da escada evolutiva.em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular. Pode servir de exemplo o experimento do conhecido pesquisador polonês Edward Dembowski. que garantem o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. Assim.

sendo necessário muito tempo para desaparecer. Como vemos. exige dos protozoários bastante tempo. nessa fase da evolução. Mecanismos do comportamento dos protozoários A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das condições físico-químicas do comportamento dos protozoários e das causas dos seus movimentos positivos ou negativos (movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a partir de outros objetos. embora muito elementar.se processava com uma rapidez 180-200 vezes superior à reação inicial. pode ser visto no experimento realizado inicialmente pelo pesquisador belga Blesson. Sabe-se que o protoplasma. que mostra esse surgimento tão lento e o desaparecimento igualmente lento da nova forma de comportamento. posteriormente pelo pesquisador soviético A. Leôntyev. A. que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular). Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa manifestação de sensibilidade ao agente neutro inicial. de novas formas de reação indica o surgimento de urna mutabilidade individual no comportamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se do surgimento de um comportamento autêntico. uma vez surgida. é constituído de uma camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais líquida (plasma-sol). Leôntyev (cf. É característico que. a mudança do comportamento se mantém entre eles durante período bastante longo. a formação de um novo tipo de comportamento. em vida. Problemas da evolução do psiquismo). Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-celulares como entre os pluricelulares de organização relativamente simples. N. É possível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina das propriedades bioquímicas do protoplasma. No entanto o fato da manifestação. respectivamente). que corresponde às condições mudadas. Sabe-se também que as camadas externas do protoplasma do unicelular são mais 34 . O exemplo.. N.

extinguindo-se conforme o tipo de. Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a excitação por luz. que mudam segundo o processo de metabolismo que nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação. Esses gradientes de excitação. entre os unicelulares mais simples (amebas). que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto correspondente de sua superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar ativamente as substâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo. servem de base aos movimentos do unicelular. esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário. Como mostraram os experimentos de Fogler. entretanto. sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação. Não sendo aliníen-tício. é depositado no lugar de metabolismo mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto. ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que foi apanhado. dirigido a partir do objeto influente. mas se caracteriza por sistemas altamente diferenciados e seletivos de excitação. incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um esquema tão simples. segregando-se para o meio o produto da desintegração. e cada ação externa provoca intenso metabolismo. incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. . ele é absorvido pelo corpo do unicelular. Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência. sofrer as mais complexas modificações.gradiente de excitação paulatinamente decrescente. Seria. Se esse objeto é alimentício. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as influências que chegam até eles podem. O próprio protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade.excitáveis do que as camadas internas. ao passo que influências inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo. elas mesmas. O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do protoplasma. que se estende paulatinamente das camadas externas às internas. que. a influência mecânica de certa força provoca apenas reações relativamente fracas do protozoário. ao que parece.

35 .

que mais tarde constituirão traço importantíssimo da atividade psíquica.Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da ameba saciada. por exemplo. Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples Os processos descritos de irritação em face sensibilidade às influências neutras que 36 das influências bióticas. Mas' o que já sabemos a seu respeito nos leva a pensar que. e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos correspondentes ou às instigações que sinalizam o surgimento destes. Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do metabolismo mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente. espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular. o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes. é neles que surgem os gradientes de excitação constante. que formam. aqui. que. os "flagelos" das bactérias. reduzindo a resposta a eles na medida do seu prenuncio repetido e longo. Por último. Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa. que é um dos componentes básicos do seu plasma. Neles podemos distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma. estão lançadas as bases da complexa atividade da orientação ativa no meio. assim como os mecanismos que lhe servem de base. de . A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo especial. coloca-o em movimento. formando com isto o extremo "cerebral" provisório do seu corpo. Esses "flagelos" estão em movimento permanente e são agentes das funções mais importantes de orientação no meio exterior. Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as observações ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses estímulos são o resultado de certas modificações e do ácido ribonucléico.

a velocidade do processo de excitação aumenta ainda mais. com o surgimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velocidade do processo é igual a 0. A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 metros por segundo nos vertebrados superiores).5m por segundo (observemos que com a contínua evolução do sistema nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação. Se o processo da excitação pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por segundo. A alimentação por meio da difusão direta de substâncias alimentícias. na estrutura do corpo da medusa. É isto que leva a uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-ricelular. anêmona-do-mar e estrela-do-mar. por exemplo. que ocupou posição central no nível dos protozoários. à separação das células de uma recepção especial de irritações que chegaram ao corpo do animal. eleva-se o papel da orientação ativa no meio externo. a que nos lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma mais excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso. Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente simples. Torna-se necessário assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de excitação no protoplasma dos unicelulares. 37 . Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares. por último. Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da excitação se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular.anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares. pertencentes à classe dos celenterados. agentes da função que nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. qué entre esses animais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma de rede. Isto leva. agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada). e ao surgimento das primeiras células contrativas.

Como nas etapas da evolução já descritas. Essa alimentação encontra-se agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais difícil. A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível. sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa. uma parte do corpo (por exemplo. pode tornar-se dominante e assume a função de órgão mais ativo no movimento. têm também os seus limites.No entanto as vantagens consideráveis. codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado. capaz não só de receber mas também de processar. que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso primário (reticu-lar). limita substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível. É natural que essa falta de um órgão dominante permanente. Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais. disposto ao lado dele. o papel de "dominante" passará para outro raio. O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de vida. criando antes de tudo uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimen38 . um raio da estrela-do-mar) não difere pela estrutura de outras partes do corpo (raios). A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo do animal. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante". Esses defeitos são eliminados nas etapas posteriores da evolução. Só entre os celenterados mais complexos. os animais com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu comportamento. tornando-se incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório.

e os "programas" de comportamento que surgem em forma de impulsos motores se difundem pela cadeia dos gânglios nervosos. É a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso. Aqui esses sinais são codificados. que aparece pela primeira vez nos vermes e adquire a máxima complexidade nos invertebrados superiores. sem revelar nenhum indício de movimento organizado. que se distingue acentuadamente do princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). distribuídos de maneira especialmente densa. Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso.-foto e hi-dro-receptores. Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. que se processa com a ajuda dele. marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital. Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento. conservando seus movimentos organizados.-mecano. A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre eles tipos mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de no- . onde se concentram no primeiro "centro" que surge pela primeira vez nessa fase da evolução. ao passo que os gânglios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. Os impulsos que chegam a esses gânglios provocam movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio frontal. Na extremidade frontal do verme. Isto é facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo do verme.tos. concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis. Esses aparelhos percebem mudanças químicas. térmicas e de luz que ocorrem no meio exterior. que leva ao surgimento do sistema nervoso em cadeia ou ganglionar. onde se concentra uma rede especialmente densa de hemo. bem como mudanças de umidade. enquanto a parte traseira se limitará a simples contorções. Os sinais dessas mudanças passam pelos filamentos e chegam ao núcleo frontal ou gânglio. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão. assume papel principal.-termo. principalmente nos insetos. cada um desses gânglios corresponde a um segmento particular do corpo do verme. A extremidade da cabeça do verme.

39 .

Yerkes. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo americano R. que colocou minhocas num tubo em forma de T. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico. que provocava reação defensiva. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita. labirinto extremamente simples. Processo de "ensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T Testes N" de t 1-40 — 41-80 — 81-120 — 121-160 — 161-200 — 201-240 — Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T 'rr Testes JV? de os erros 17 Ensiname repetid nto o 1-40 —.vos modelos de comportamento individualmente adquiridos. a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminharse para o lado direito. 41-80 — 81-120 — Reensinamento 161-165 — 166-175 — 176-185 — 186-195 — 196-205 — 206-215 — 216-225 — Repetindo-se esse 14 13 9 4 4 19 9 4 4 7 7 7 5 3 2 mesmo experimento após uma longa pausa. a "aprendizagem" começa a a processar-se duas vezes mais rápido e depois de . evitando o choque elétrico. Com várias repetições desse experimento. M.

Foi sintomático. ainda. que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento".80 experimentos o número de erros já é mínimo. 40 .

Nesses experimentos. Isto foi mostrado pelos experimentos nos quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente depositados em solução de ribonuclease (fermento que dissolve o ARN) . Ao serem colocados pela primeira vez no labirinto. que a minhoca possui uma forma primitiva de memória. eles cometeram imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns não-ensinados. 41 .solvente do. cujas células são imunss ao efeito dis-. noutros termos. Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da possibilidade de transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação dos mecanismos bioquímicos que servem de base à memória elementar. A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse experimento pode-se apenas supor que as mudanças. Como mostrou o experimento. fez deles um extrato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam sido ensinados. estão relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) . V. ribonuclease. ao passo que o extrato das partes anteriores dos vermes "ensinados" (incluindo a substância de gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de "habilidade" nessas etapas da evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-plasma e que a "habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral. Esses experimentos se referem tanto à importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade" como à importância que para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio frontal. os vermes que absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. ele triturou os corpos desses vermes. Depois disto. o pesquisador americano J. provocadas por semelhante "aprendizagem".Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas formas de comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas. Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento necessário num labirinto muito simples. Depois disto o extrato das partes posteriores do corpo dos vermes "ensinados" não provocou o efeito necessário.

as células sensíveis à luz estavam simplesmente concentradas na superfície frontal do corpo. com o desenvolvimento de programas sumamente complexos. localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo. Na etapa seguinte da evolução. Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos complexo-diferenciados de recepção. ainda. Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa questão. as células sensíveis à luz se concentravam em dois discos sensíveis à luz. Só na última etapa da evolução. que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o cristalino). que permitem ao animal adaptar-se às condições complexas porém permanentes e estáveis do meio. dando ao animal a possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia localizar a fonte da luz no espaço. que permitem assimilar uma informação altamente especializada que vem do meio exterior. Um pequeno orifício. os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a aquisição de uma "habilidade" estável e que todas as células do corpo do animal parecem participar da conservação dessa "habilidade". Essa evolução está relacionada. Vejamos isto no exemplo da evolução dos fotorreceptores. A princípio. adquirindo a forma de uma esfera vazia.Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" por via humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade". Isto permitia aos animais orientar-se a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a direita ou a esquerda mas ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. permitia a refração da luz cadente e o efei42 . verificado na assimilação da substância dos corpos dos vermes ensinados. os discos hipersensíveis se arqueavam. As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de sensibilidade. que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com nitidez especial nos articulados.

das abelhas. receptores de vibração (situados nos tímpanos das pernas). que reagem às mais ínfimas vibrações ultra-sônicas. por exemplo. As excitações. é diferente em animais diferentes. Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente as células visuais. eles têm receptores químicotáteis especiais (situados nas antenas). as células sensíveis da cavidade bucal. É característi- . A estrutura do olho. O gânglio frontal dos insetos superiores. que permite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um sistema auto-regulável de aparelho refratário. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas. A par com o complexo "fotorrecep-tor (o olho). que servem de base aos movimentos de adaptação dos insetos . nas pernas). provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores. na parte média. às vezes até a 600.000 vibrações por segundo. que permite reconhecer à distância os objetos agentes. o mais importante órgão receptor de luz. que pela primeira vez permitia não apenas reagir à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente. às vezes. as células olfativas. Nos insetos ela tem o caráter de "olho de faceta". Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível — o olho —. É possível que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos receptores por nós desconhecidos.to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa esfera vazia. Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. construído. cuja especialização foi por eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre nós. receptores de sabor (situados na cavidade bucal. continua sendo uma das conquistas mais importantes da evolução. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão complexo. de muitos milhares de células independentes. apresenta uma estrutura muito complexa. difundem-se pelos filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal. que é um protótipo do cérebro e um aparelho que reúne (codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas ultracomplexos de programas congênitos de comportamento. na parte posterior. que captam as mínimas mudanças de sabor. às quais chegam os impulsos dos receptores periféricos.

43 .

posteriormente. que representam uma parcela de absoluto predomínio no comportamento dos insetos. Nelas já se pode observar uma estrutura plana de "vídeo".co que a disposição dessas células tem caráter organizado. que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos. próxima da estrutura 44 . que reagem aos mínimos indícios particulares da informação que chega ao organismo. São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento. as características da tromba. É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal. onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto. assegurando com isto o reflexo de determinadas influências estruturalmente organizadas. Freqüentemente eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram exemplo de comportamento racional. Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas. que permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências captáveis em sistemas integrais. impulsos esses que lhe formam o comportamento. Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente complexo. Os códigos de excitações. reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos da forma de funcionamento desses neurônios). entre os insetos. dividindo-a em grande número de elementos componentes e permitindo. Esses programas são produzidos por milhões de gerações e transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da estrutura do corpo (as formas das asas. que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas neurôniças do gânglio frontal em forma organizada. a estrutura dos órgãos receptores. é característico que já nessa fase da evolução façam parte da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados. A peculiaridade dos programas sumamente complexos. são transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico situado abaixo. consiste em que tais programas são congênitos e transmissíveis por hereditariedade. Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão grande que exigem análise especial e minuciosa. Eles estão bem adaptados às condições de existência dos insetos).

são congênitos. que constrói favos de forma economicamente ideal. nascem com essas formas de comportamento assim como nascem com uma estrutura dos órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade. enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles estejam suficientemente cheios. Os mecanismos descritos permitem avançar consideravelmente no sentido de melhorar a compreensão dos processos que servem de base ao . que ataca a mosca que se enreda na teia e a devora. Essas pesquisas mostraram que os complexíssimos programas de comportamento "instintivo" são gerados de fato por estímulos elementares. Os exemplos citados de comportamento racional altamente complexo. Não é necessário falar dos programas congênitos de comportamento da aranha. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para que as larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento. Por isto basta substituir a água por um espelho brilhante para o mosquito começar a depositar células em sua superfície. O complexo programa congênito de atividade da aranha.ideal matematicamente calculada. se um diapasão vibrante toca a tela. é gerado de fato pela vibração da teia. que impressiona pela complexidade e a aparente racionalidade. que tece uma teia impressionante pela construção. o brilho da água leva o mosquito a deitar células na superfície aquosa. particularmente da corrente denominada etologia (etos -— comportamento). Só ultimamente as pesquisas dos zoólogos. Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar da racionalidade dos instintos e aproximá-los do comportamento racional. encobre mecanismos elementares. deram certa clareza à forma misteriosa do comportamento e mostraram que essa forma de atividade. para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para metamorfosear-se em cri-sálida. que colocam em ação os ciclos congênitos dos atos de adaptação. a aranha se lança contra ele assim como se lança contra a mosca. e muitos outros. os insetos não precisam estudá-lo. isto ela faz com admirável precisão. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca na terra. ou dos programas congênitos de comportamento da abelha. onde elas secam fatalmente. Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem movimento. Assim.

comportamento congênito e 45 .

Neste caso a minhoca tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina. Para verificar isto ele colocou diante da minhoca vários pauzinhos iguais. após se abastecerem de folhas para o inverno. passando gelatina neutra em outra. e levava a supor que a minhoca percebe a forma da folha e "calcula" por que extremidade é melhor arrastá-la para o buraco. a freqüência com que a minhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra ponta não era a mesma e que o fator principal que resolvia a questão era a diferença de distinção química entre a parte superior e seu enxerto. Os resultados do teste mostraram que. Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pesquisador alemão Haneli realizou o seguinte experimento: cortou de uma folha um pedaço. Como testes de controle. fazendo o mesmo na ponta de outros com seiva da base da folha e. A causa desse comportamento da minhoca tornou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt. arrastam-nas para os seus buracos pela extremidade fina. que mostra a complexidade com que se desenvolve semelhante pesquisa e que interessantes são os resultados a que ela conduz. ainda. Isto se considerava manifestação da "atividade racional" das minhocas. reproduzindo a forma dessa folha mas com a ponta para baixo. mostrar o quanto o comportamento instintivo difere do comportamento racional. É sabido que algumas variedades de minhocas. à qual Dar-win se referiu em sua época. mas passou seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos. Citemos apenas um exemplo. (a) (b) (a/b) seiva da parte superior — bases da folha (b) relação de preferên-da folha (s) cia de uma ou ouparte superior da folha (s) — enxerto (t) tra extremidade da parte superior da folha (s) — gelatina (g) folha enxerto — gelatina (g) (e) 51:49 .passar da simples descrição à sua explicação. nesses casos. mas pela grossa. seiva da parte superior numa ponta e seiva de enxerto noutra. passou seiva da parte superior ou do enxerto da folha numa ponta dos pauzinhos. Este supôs que o comportamento da minhoca fosse determinado não pela percepção da forma mas por uma sensibilidade química bem mais elementar.

68:32 93:7 84:16 46 .

a hipótese segundo a qual a minhoca reage à forma da folha foi abandonada. essa preferência pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais nítida. Essas pesquisas mostram que o fator que permite à abelha distinguir as formas correspondentes não é constituí47 .com nitidez especial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha. apesar dos programas de comportamento congênito muito complexos que dominam nos invertebrados (principalmente nos insetos). por exemplo). que acionam mecanismos congênitos muito complexos. As condições que põem em ação os programas congênitos de comportamento. mas distingue facilmente formas complexas como a estrela pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes. quando esta pousa seletivamente sobre essas ou aquelas espécies de flores melíferas. se uma ponta do pauzinho estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra ponta com seiva da base. a minhoca não manifestava qualquer preferência por essa ou aquela ponta. nos quais a abelha era treinada para pousar em xícaras com solução de açúcar. é com dificuldade que a abelha distingue formas geométricas simples como o triângulo e o quadrado. eles podem ser acionados por sinais relativamente simples. mostrando-se que um sentido químico bem mais simples desempenha papel decisivo no processo dessa complexa forma de atividade. Todas as observações descritas permitiram que nos convencêssemos de que. não pousando sobre o primeiro e reagindo seletivamente ao segundo. Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos pela forma complexa da flor e às vezes por seu colorido. Se uma ponta estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do enxerto.Assim. a abelha distingue com a mesma facilidade o círculo simples e o cortado. Deste modo. Esses sinais. Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo alemão Frisch e posteriormente Hertz com seus experimentos. Por último. a minhoca preferia duas vezes mais a ponta com seiva da parte superior. dispostas sob ângulos diversos. manifestaram-se . No teste de controle em que se passava* gelatina neutra numa ponta do pauzinho. cobertas por desenhos de diferentes formas geométricas. refletem as condições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma longa evolução.

Deram resultados análogos experimentos em que a abelha distinguiu coloridos diferentes. Eles mostraram que a abelha distingue com dificuldade as cores puras. realizadas por zoólogos e psicólogos. Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. . amarelo-verde. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um comportamento muito "racional". etc.do pela simplicidade geométrica destas mas por sua semelhança com os instigadores naturais: a forma das flores. de acordo com as quais esses programas se formaram no processo de evolução. a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior e. As pesquisas. afastando-a alguns centímetros. adquiriram a capacidade de responder seletivamente aos estímulos de importância vital como as cores mistas. traz a presa para dentro e se retira. distingue com muito mais facilidade as cores mistas (vermelho-amare-lo. ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar anterior. aproveitando o momento em que a vespa faz seu reconhecimento no buraco.. Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial. convenceram de mais uma importantíssima peculiaridade do comportamento congênito "instintivo". pega-se a presa que está na boca do buraco. Neste caso. Mas basta mudar um pouco essas condições para que os programas congênitos deixem de ser racionais e percam seu caráter "racional". que. Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada. entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai. É muito possível que essa elevada seletividade dos indícios a que reage o inseto esteja relacionada com o surgimento de neurônios do gânglio frontal altamente especializados. que reproduzem o colorido de flores diferentes. verde-azul. ela deixa a presa junto do buraco. Verificou-se que os programas congênitos de comportamento "instintivos" são racionais apenas em determinadas condições rigorosamente padronizadas. o aspecto estrelário ou o corte das formas. no processo de evolução. etc). volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. a disposição das formas no espaço. Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção dos indícios que acionam os programas congênitos (instintivos) de comportamento são as condições naturais de vida (condições ecológicas). A 48 . que determinam exatamente o indício distinguido pelo animal.

são programas rotineiros. E aqui o comportamento. É sabido que a abelha enche os favos com mel e. £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células consegue sobreviver. esta continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo. mecânicos. que se distingue por um grande excesso. conservando sua aparente "racionalidade" apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da evolução. após depositar a quantidade suficiente de mel. Via de regra. perdendo nessas condições a sua racionalidade. assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento "instintivo" são suficientes para a preservação da espécie. que tornam racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais elevado. Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento. Observações análogas foram feitas com abelhas. e sempre que a presa se desloca alguns centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução. lacra os favos. Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento. é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no mundo dos insetos. 49 . A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio biológico fundamental de vida dos insetos. apesar de que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos inadequados. perde sua racionalidade quando essas condições se modificam. criando-se condições. derramando-se o mel neles depositados pela abelha.vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas. que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida. predominantes na atividade dos insetos. estes depositam um imenso número de células. Por isto. Mas se em condições de um experimento especial corta-se todo o fundo dos favos. más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução — os vertebrados. com uma mutabilidade lenta e difícil.

Só os vertebrados inferiores. apresentam um excesso de reprodução tão grande que os aproxima da classe dos insetos. Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de novas possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de novas formas individualmente mutáveis de adaptação levam. como também de analisar a informação recebida e fechar as novas ligações. aumentando infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em constante mudança. Essa nova forma de comportamento existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da evolução começam a ocupar posição cada vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e. que habitam o meio aquo-so. afastar definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de comportamento. à criação de órgãos nervosos basicamente novos. o meio mais mutável. que seriam capazes não apenas de receber os sinais do meio e pôr em ação os programas de comportamento "instintivo". no homem. Muda simultaneamente também o tipo de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais raramente 5-6 semelhantes. surja um novo comportamento individualmente variável. transmissíveis pors.O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que tanto as formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um princípio inteiramente distinto. no processo de evolução. Tudo isso cria uma necessidade biológica para que. em seguida. Por isto só entre os peixes a prevalência de formas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é suficiente para a preservação da espécie. pois sobrevive apenas um número relativamente pequeno de indivíduos que nascem de ovas fecundas. As condições de alimentação se tornam mais complexas. hereditarieda-de. e a sobrevivência dos indivíduos isolados se torna uma condição para a preservação da espécie. assegurando novas formas . paralelamente ao comportamento "instintivo" (ou de espécie) congênito e pouco mutável.

individualmente 50 .

nos vertebrados superiores. a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua língua viscosa. Os níveis inferiores.variáveis de comportamento. assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas "instintivos" e pouco mutáveis de comportamento que se formaram no processo da evolução. respiração e circulação sangüínea (tronco) e respostas reflexas aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo quadrigêmeo). formações de uma nova camada de grandes hemisférios. 51 . incluindo posteriormente. que se desenvolvem cada vez mais e aos poucos vão começando a dominar inteiramente as formações de nível inferior. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. Esse órgão é o cérebro. Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã. construídos segundo o tipo de conjuntos nervososecretórios ou de núcleos nervosos (gânglios). Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas. resposta a um sinal previamente analisado. garantem os processos de regulagem do estado interno do organismo — metabolismo (hipófise). Esses órgãos. situados no tronco cerebral. Neste caso a cintilaçjío aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o papel cintilante como o faz contra a mosca. que por pouca coisa diferem dos tipos de atividade intensiva acima descritos. A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas umas às outras. absolutamente. cuja estrutura reflete o longo caminho percorrido pela evolução. predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes realizar programas congênitos mais elementares de atividade adaptadora. Ao perceber uma mosca. Esses programas de comportamento apresentam estrutura semelhante à acima descrita. que é constituído de formações do tronco superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais elevadas apenas esboçadas. que incluem inicialmente o sistema talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo). não sendo. Esse comportamento complexo é determinado por um estímulo relativamente elementar — uma cinti-iaçâo visualmente perceptível —.

a^nda estão estreitamente vinculadas a formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. no cordeiro. D. Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento. ao passo que o esmeri-lhão. que refletem as formas de vida do animal. esses movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça). que começam a predominar nos répteis e nas aves e. Mas essas formas de comportamento. os órgãos da camada antiga. o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais. os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante). às vezes muito complexos. que já adquirem traços de variedade individual.Os órgãos do sistema talâmico-estriado. que se alimenta de carniça. das formas biológicas estáveis de sua existência). Como mostraram as observações de diversos autores. Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem. asseguram formas de comportamento individual mais plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores.. podem ser gerados por estímulos relativamente simples. e. tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais. entre elas as do fisiologista soviético A. Assim. posteriormente. Slônim. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar 52 . É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de comportamento animal.

No entanto. já não podem ser realizados com a destruição do córtex. Sobre os órgãos que acabamos de descrever. mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos de comportamento. já nos mamíferos superiores ele adquire importância de maior peso e os processos de comportamento. a raposa que se prepara para obter alimento-sofre inibição ao vê-lo e retém a saliva.ao ver uma ave. que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência (ecologia) dos animais. Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural. Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações. começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do corpo. o que é menos conhecido. que mostram que processos de percepção e que movimentos podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex. realizado pelos órgãos das áreas mais elevadas do cérebro.000 1/540 1/250 1/100 1/40 Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral. por mais insignificante que seja a sua complexidade. Se nos mamíferos inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído. em outros termos. como mostram os dados que abaixo citamos. edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do sistema nervoso dos grandes hemisférios. 53 . que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das observações do pesquisador alemão Schafer. baleia leão cão macaco homem 1/10. particularmente do novo córtex cerebral cujo peso.

correspondentes a essas mudanças. Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas complexas de comportamento animal. a quarta destas 54 . cuja massa é constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas.Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da evolução (segundo Schafer) Funções visuais Funções motoras A ave. depois da extirpação do O gato. O macaco. A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais. O macaco fica cego após a extir. pode manter-se em pé somente ajudado. após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios. distribuídas em seis camadas principais. pode manter-se em pé mas se desorganizam os seus movimen dos grandes hemisférios. 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex dos pação das ares correspondentes grandes hemisférios. mantendo os seus movimentos. depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemis- córtex dos hemisférios. depois da extirpação do A ave. depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios.O cão. orientarse nas suas mudanças. não dis- férios. A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental — o córtex cerebral — consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior.recupera seus movimentos algumas horas depois.continua a voar. fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento individualmente variáveis. Tingue os formas e só reage à luz. tos independentes. córtex dos grandes hemisférios. a pousar no luGar marcado O rato. Continua a ver.

dos sentidos e das superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. É uma peculiaridade que a projeção dos lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse animal — ocupa idêntica posição desproporcional nos grandes . visão. O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas regiões estão ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato. no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo olfato) as regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios. que asseguram a formação de novos programas de comportamento individualmente variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios.é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos. tanto mais importante é o seu lugar no córtex cerebral. A quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e. incluindo aí as camadas restantes) . o último grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios. que estabeleceu por um método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do porco é muito pequeno. ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que é para este o mais importante órgão do tato. e quanto maior é a importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida do animal. olfato. etc.) ocupa um território imenso. audição e sensibilidade neuromuscular). ao passo que no cão (animal predominantemente olfativo) as áreas dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior. a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do córtex ocupam posição de grande destaque. ao passo que no homem as regiões olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas. finalmente. Deste modo. Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian. do faro. desproporcional ao seu tamanho. No macaco. O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos órgãos do corpo. O princípio ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervoso central se manifesta também aqui. que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas ligações.

55 .

como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio. É de interesse. por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que o ameaça. mas enfatizou-se a atenção na maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de comportamento. então seria bem mais complexo o mecanismo do comportamento individualmente variável. Mecanismos do comportamento individualmente variável Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo qualquer. Este se reduz a que. gerados no processo da evolução. Os mecanismos fisiológicos. forma-se sob a ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que o converte em órgão principal. Tudo isso mostra que o córtex dos grandes hemisférios do cérebro. 56 . acionasse programas complexos de comportamento. entretanto. que se realiza através do córtex cerebral. As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores. surgido no processo de evolução de uma espécie. que se desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos vertebrados superiores. perigo) começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos programas de comportamento. bem como em órgão fundamental de regulação do comportamento individualmente variável. foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados.hemisférios desse mamífero. o estímulo que tenha sido de importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento. que assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação recebida do meio exterior. que levam ao surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis. a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua formação.

Uns explicavam esse processo a partir de posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike. uma porta fechada a ferrolho). O animal dedvia mover um pedal ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido. os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de "aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". O processo de aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento. que levam o animal a atingir o objetivo. Watson e muitos representantes do behaviorismo americano). Com essa finalidade colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática). surgem no processo de testes e erros desordenados. Embora o método de estudo da aquisição de novas formas individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao método dos "reflexos condicionados clássicos". separando-o do estímulo (a comida) por um obstáculo (por exemplo. sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov. A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos". aquele método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de novos atos adaptadores. aplicado por Pávlov. considerando que as novas formas de comportamento. noutros termos. encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo. Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto. que levam à solução das tarefas colocadas diante do animal. consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo. do caráter das tentativas que ele empreendia. O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os caminhos errados. condizentes com as novas condições. era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le- . em cujo extremo havia um estímulo (objetivo).Para resolver tais problemas.

57 .

abandonando a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso". Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à margem da análise o próprio processo de seu surgimento. restringem-se paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias reações motoras adequadas ao objetivo. escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. o fisiologista soviético V. Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. o reforço pelo êxito desses movimentos casualmente surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos inadequados fossem extintos. Krech. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo. Essa situação da "tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal. realizadas por pesquisadores americanos. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de um ativo desempenho de orientação. Outro grupo d& autores mantinha outras posições. reforçadores os bem-sucedidos. analisa a situação. que são posteriormente reforçadas. A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação. dirigidas pelo objetivo. 58 . ao tentarem examinar as regras pelas quais se formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal. os programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise. D.vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a comida. P. Várias observações. Posteriormente. às vezes. Tolman. confirmaram o fato de que.

que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos que adquirem "habilidade" no labirinto. Deste modo. passiva59 que permitiu enquanto ao outro animal movimentar-se animal observava . pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter casual mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou como surgimento de uma "hipótese motora". por isto. Nesses testes de "aprendizagem latente". compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos animais. ativamente pela caixa problema. situados na direção do caminho dado. o animal que ao menos uma vez tenha se orientado no labirinto. os testes feitos pelo animal colocado em labirinto não são casuais. que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo. cria um sistema geral de direção no qual ele corre e entra nos becos sem saída do labirinto. o segundo grupo de animais adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. dandose-lhes a possibilidade de se orientarem previamente nas condições do labirinto. com a rapidez dos animais do segundo grupo. Como mostrou o pesquisador americano Dashnul.Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) adquire a habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo. com muito mais freqüência do que nos becos sem saída do labirinto. situados na direção oposta ao esquema do movimento. via de regra vão sempre em direção ao objetivo. Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos. Foi característico o fato de que a aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao animal orientar-se ativamente nas condições do labirinto. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" confirmam o fato de que as tentativas que o animal empreende no processo de aquisição de novos programas de comportamento não são casuais mas constituem o resultado da orientação ativa do animal nas condições do meio. Esse experimento foi realizado pelo pesquisador americano Hald. aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto.

Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. adquiridos em condições de tarefas especiais. Também neste caso o primeiro animal. mas com isto não perdeu a habilidade adquirida. Depois que essa habilidade foi adquirida. Tudo isso mostra que os programas motores. por cambaleios (i. O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida. J . i. que se orientara ativamente na situação. um fim mecânico dos reflexos. Como resultado dessa operação. que não é mera finalidade dos movimentos mecanicamente adquiridos. o rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram. por uma série especial de testes. porém. fazendo movimentos inteiramente novos. e. antes. colocando-se em seu lugar uma bacia com água. adquiriu a habilidade motora com rapidez bem maior do que o segundo. em cujo teste o rato adquiriu a habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto.mente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. uma parte do labirinto foi excluída. Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter. não são. 60 •. destruiu-lhe em seguida o cerebelo. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação pela orientação prévia do animal nas condições do teste. em hipótese alguma. esquemas dinâmicos complexos. que mostram que essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática.. Movendo-se. por meio de movimentos inteiramente novos). Neste caso o rato devia atravessar a bacia a nado. finalmente. são. e. o rato acabou se colocando no rumo certo e atingindo o objetivo. é confirmado. Após formar no rato a habilidade de encontrar os caminhos no labirinto.. que se formam no animal no processo de •sua atividade orientada.

61 . O guaxinim ou o urso. O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o caráter das novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas naturais de comportamento. principalmente nos animais que ingerem alimentação pronta (por exemplo a galinha. sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento. que se erguem freqüentemente sobre as patas traseiras. o leão-marinho. limitado. a caçar a presa (as aves de rapina. Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") com a aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo característica do comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução. que em condições naturais são obrigados a procurar a comida. nestes a atividade dirigida se processa na forma de buscas ativas. a raposa). Nos herbívoros.contrário com os carnívoros. que correspondem a uma situação variável. deixando livres as dianteiras. aprende com especial facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la. a vaca). Deste modo. a ovelha. podem aprender facilmente a executar movimentos que imitam uma "lavagem de roupa". Ocorre o. a atividade dirigida tem caráter passivo.Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre os vertebrados. É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas congênitas ("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos movimentos ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do programa motor mas se forma no processo dos testes motores. os programas naturais de comportamento predominam e a aquisição de novas fomas de comportamento individualmente variáveis é um processo lento. que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida (com a ecologia) do animal. etc. no qual o mergulho e a perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de comportamento.

de controle dinâmico da ação é o elo mais importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual. com pleno fundamento. se não leva a esse efeito. que leva à formação do esquema de solução da tarefa. cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos vertebrados. ela cessa. e. particularmente os primatas.O comportamento "intelectual" dos animais A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite supremo da evolução do comportamento no mundo animal. distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter autoregu'ador. i. antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor- . podemos denominar comportamento "intelectual". K. nas etapas superiores da evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura desmembrada. Assim. o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. que. Dois fenômenos essenciais. da qual fazem parte: — a atividade de procura c orientação. surgem novas formas de comportamento individualmente variável. No processo dessa atividade começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa. que se encontram no topo da escada da evolução. — a comparação das ações executadas com a intenção inicial. Se a ação leva ao efeito necessário. A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los.» — a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do objetivo. ao passo que os movimentos se tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa.. Esse mecanismo de "aceptor da ação" (P. Anokhin). Nos vertebrados.

62 .

que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos vertebrados supe- . representa uma das importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento individualmente variável nos vertebrados superiores. os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução. Ao contrário. V. colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. À vista do animal. Foi esse reflexo. orientando seu comportamento pelo movimento dos olhos). efetuadas nos últimos anos por Krushinsky. Nas observações. O estimulante aparecia aos olhos do animal no furo do tubo e continuava em movimento. contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia. que se encontram numa fase inferior de evolução. tornando a aparecer no final do tubo. O segundo fato. reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. Essas observações mostraram que os animais. O "reflexo extrapolativo". observam a presa e a perseguem (o corvo. O segundo é o fato das formas de desenvolvimento da memória dos animais. especialmente aqueles que levam modo de vida carnívoro. observavam os movimentos do alimento e. Sabe-se que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas. prendia-se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. que Krushinsky observou em vários testes. o cão). que tem a forma especial de comportamento "antecipante".tamento dos animais. por exemplo). "extrapolando" esse movimento (ao que parece. considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles. foi estabelecido que alguns animais mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha. que "extrapola" o movimento observado e leva em conta o deslocamento. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". que se tornam mais complexas. O1 primeiro deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada. O animal se colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante. Nesses testes. à qual o pesquisador soviético L.

63 .

Esse fato foi observado minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais. Se o animal conservava o vestígio do primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro. ele o apanhava. Konorsky. Em testes mais complexos. nas etapas superiores da evolução dos vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. o animal não apresentava movimento dirigido. sendo depois libertado. substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. na qual se colocava o estimulante à vista do animal. já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens dos objetos circundantes. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e acadêmico soviético I. Percorrido certo tempo. Voitonis e o fisiologista polonês Y. corria imediatamente para esta. Y. libertava-se o animal do cabresto. Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos. Se o vestígio do estimulante colocado numa das caixas se mantinha. A essência do teste consistia no seguinte: Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada. se o vestígio não se mantinha. S.riores. cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal. colocava-se o animal entre duas caixas. 64 . Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto. É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do meio exterior. Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais complexas de comportamento. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa. é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da memória nas fases subseqüentes da evolução dos animais. o animal corria para essa caixa. não o fazendo se o vestígio desaparecia. Noutros testes. Isto era indício de que o animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto. numa das quais colocava-se um estimulante aos olhos do animal. pelo psicólogo soviético N. Simultaneamente com a formação da percepção por imagem.

aumenta a duração da conservação das respectivas imagens. O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou. ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não permitia que a mão do macaco o alcançasse. colocava-se o macaco numa jaula fechada. Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " o macaco " " " até 10 minutos " " de 16 a 48 horas. Para atingir o objetivo. Colocava-se o macaco numa grande jaula. o macaco devia desistir das tentativas de obtenção imediata do objetivo. nas fases posteriores da evolução dos vertebrados. Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas quais lhe era dado o objetivo. pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos). Diferentemente da 65 .Os testes de "reações retardadas" mostram que. Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual" dos macacos. usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula. A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . desta feita com portas. A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever. usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto instrumentos especiais. Para estudar essa forma de comportamento. O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo. É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas "intelectuais" superiores de comportamento do animal. no início da década de 20 do corrente século.

e outra comprida. limitando-se a examinar a situação. situada na parede traseira da jaula e. Por último. Essas tentativas inúteis podiam durar muito. neste caso a orientação na situação se transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o "campo visual" da percepção e se realizava por meio dos respectivos movimentos dos olhos. ao alcance do braço. Finalmente. na última situação. em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente a um braço estirado. obter em seguida a vara comprida. mas no campo de visão do macaco havia duas varas: uma curta. estirando-se ou saltando em sua direção. Mas na mesma área foram colocados caixotes. As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro. o macaco abandonava todas as tentativas de alcançar a comida por via direta. A princípio o macaco tentava sem êxito obter o estimulante por via direta. até o macaco ficar exausto e abandoná-las. situada mais adiante e. que Kõhler descrevia como surgimento inesperado do insight. imóvel. devia alcançar a vara mais próxima — a curta — e. porém. na terceira variante dos testes. no qual o animal permanecia sentado. Todos esses testes apresentaram como característica o fato de que a solução da tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período da observação antecedente da tentativa. o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior. contornando-a. colocava-os um sobre o outro. com a qual alcançava o alimento. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o objetivo. A princípio. colocá-los uns sobre os outros e trepar. O macaco se dirigia imediatamente à porta. já com ajuda desta. e os alimentos do macaco se tornavam ato executivo para a realização de um "plano de solução" anteriormente adquirido. o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo. 66 .primeira situação. para alcançar o estimulante. Para resolver a tarefa. arrastava imediatamente os caixotes. um pouco adiante. olhava em torno. e obtinha o alimento. obter o estimulante. obtinha o estimulante ou desistia de suas tentativas e apanhava a vara. pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. Em testes mais complexos. Com ela conseguia o alimento ou uma vara mais comprida. com o auxílio desta. Depois disto vinha o momento decisivo. Em seguida vinha o segundo período. o animal devia arrastá-los para perto deste. trepava.

"aproxima" os objetos que dela fazem parte no "campo visual". que repetiu a pesquisa de Kõhler. O conhecido psicólogo americano Yerkes. Segundo Kõhler. segundo Kõhler. Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato de que. O próprio Kõhler expressa a hipótese de que. quando a vara e o alimento (uma fruta) ou mesmo as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas de tal modo que não caem apenas no campo de visão. apenas a realização de estruturas "visuais" em movimentos reais. a análise da situação se transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o macaco. A solução posterior da tarefa é. . que viviam em árvores. essa incidência das duas varas num único campo de visão é o que pode levar à solução adequada da tarefa. a tarefa se torna insolúvel para o macaco. a explicação das vias pelas quais o animal chega à solução "intelectual" da tarefa apresenta complexidades consideráveis e diferentes pesquisadores dão a esse processo interpretação diversa. alongan-do-a. por exemplo. fechando-os em certas "estruturas visuais". Kõhler tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos quais o macaco deve antes preparar o instrumento que usará posteriormente para conseguir o alimento. Essas ações se tornam bem mais difíceis para o macaco e podem ser realizadas somente se as pontas de ambas as varas estiverem no campo de visão direto. colher uma fruta. Se nos experimentos de Kõhler a descrição do comportamento dos macacos é definitiva. Bühler cita a experiência anterior do animal para explicar esse comportamento e considera que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto como resultado da transferência de uma experiência anterior (os macacos. o macaco deve enfiar uma vara de bambu em outra para. acha possível aproximar essas formas de comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las por via antropomórfica como manifestações de "iluminação criativa". tinham de puxar os frutos para si junto com os ramos).Foram justamente essas observações que deram a Kõhler fundamento para considerar o comportamento do macaco um exemplo de comportamento "intelectual". ao examinar a situação. no comportamento "intelectual" dos macacos. O psicólogo austríaco K.

67 .

consiste em que esse comportamento é sempre determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ("pelo campo exterior") ou por vestígios da experiência anterior. Todo comportamento animal tem por base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de alimento. . no macaco. livres da função de andar. Só nas etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a necessidade de orientar-se no meio ambiente. que adquire caráter mais r. autoconservação ou necessidade sexual). Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais Vimos que o comportamento adaptador individualmente variável dos vertebrados superiores pode adquirir formas muito complexas. que fez observações com o comportamento dos macacc"' possível não opô-lo às formas mais elementares de mento e consideram o comportamento "intelec cacos como uma espécie de "pensamento maniu. O segundo traço. -em decorrência do fato de que as mãos dos macacos.O problema dos mecanismos que servem de base ao surgimento de comportamento "intelectual" do macaco não poce ser considerado definitivamente resolvido.. outros (por exemplo. Se uns pesquisada»» o opõem às formas mais elementares de comportamento " dualmente variável dos animais. num processo de testes e erros. começam a executar formas mais complexas de atividade orientada. razão por que o comportamento do animal pode ser considerado com todo fundamento como comportamento cortical-subcortical. não podendo 68 . Nenhuma atividade desvinculada de todas essas necessidades biológicas é possível para o animal. que caracteriza o comportamento de todo animal. a -que Pávlov chamava de reflexo orientador e que. atinge desenvolvimento considerável. Surge uma pergunta natural: quais são os seus traços característicos e quais os limites que o comportamento dos animais não pode ultrapassar? A análise do comportamento dos animais permite indicar três traços fundamentais. O primeiro é o fato de que todo comportamento individualmente variável (mesmo o mais complexo) do animal conserva sua ligação com os motivos biológicos e não pode ultrapassar-lhe os limites.

O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas limitações das fontes desse comportamento. não se torna livre. ou para a caixa onde antes se encontrava o alimento. é "um escravo do seu campo visual" ou "escravo da sua experiência passada". que se transmitem em códigos hereditários ("comportamento instintivo") ou que se formam na experiência imediata de dado indivíduo (comportamento individualmente variável ou reflexivo- condicionado). nos experimentos seguintes. O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese com uma pesquisa famosa. Nenhum animal pode assimilar o princípio do "deslocamento sucessivo" e nunca corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento mas onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio abstrato. No primeiro teste o alimento foi posto aos olhos do animal na primeira caixa. Os animais não têm nenhuma possibilidade de assimilação da experiência alheia e de um indivíduo transmiti-la assimilada a outro indivíduo. Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais poder-se-ia encontrar alimento. o alimento (também aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa. mostra que o animal. começouse (já sem que o animal o percebesse) a transferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte. No segundo teste. e seu comportamento nunca se liberta dessas influências diretas. A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para a caixa onde vira que havia sido posto o alimento. não se dirige pela abstração destas. O comportamento do animal é sempre dirigido pela experiência imediata ou pela experiência passada. permitindo-se ao animal apanhá-lo. segundo Kõhler. Depois. e ele nunca pode impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se a lugar que não tinha sido memorizado. de importância capital. permitindo-se sempre ao animal correr livremente para a caixa onde ele supunha encontrar o alimento. Os . noutros termos. em seguida para uma terceira. Podem ser fonte de comportamento do animal os programas alicerçados em sua experiência de espécie. O experimento de Buytendijk realizado com animais de diferentes grupos. e muito menos de transmitir a experiência formada em várias gerações.ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito com eles.

fenômenos que se descrevem como "imitação" ocupam lugar relativamente limitado na for69 .

Mação do comportamento dos animais. sendo antes uma forma de transmissão prática direta da própria experiência que uma transmissão de informação acumulada na hitória de várias gerações. assimilação essa que caracteriza a história social do homem. 70 . São esse três traços que constituem as peculiaridades fundamentais de todo comportamento e o distinguem radicalmente da atividade consciente do homem. que lembre o mínimo sequer a assimilação da experiência material ou intelectual das gerações passadas.

a grande maioria dos nossos atos não se baseia em quaisquer inclinações ou necessidades biológicas. a atividade do homem é regida por complexas necessidades. freqüentemente chamadas de "superiores" ou "intelectuais". Além do mais. que incentivam o homem à aquisição de novos conheci71 . Via de regra. As diferenças da atividade consciente do homem sintetizam-se em três traços fundamentais. Situam-se entre elas as necessidades cognitivas. O primeiro desses traços consiste em que a atividade consciente do homem não está obrigatoriamente ligada a motivos biológicos.III A Atividade Consciente do Homem e Suas Raízes HistórtcoSociais Princípios gerais 1 OR SUAS peculiaridades fundamentais. a atividade consciente do homem difere acentuadamente do comportamento individualmente variável dos animais. opostos àqueles pelos quais acabamos de caracterizar o comportamento dos animais.

além de não se sujeitar às influencias e necessidades biológicas. . c homem pode levar guardachuva. é livre. e chega inclusive a reprimi-las. ela não é forçosamente determinada por impressões evidentes. mesmo que esteja cor muita sede. a necessidade de útil à sociedade. à diferença do comportamento do animal. esses casos são apenas exemplos da independência do comportamento do homem em relação aos motivos biológicos. conhecer a dependência causai dos acontecimentos e. baseado no reconhecimento da necessidade. Por último. São amplamente conhecidas casos de heroísmo em que o homem. ainda entra em conflito com e . o homem nunca irá bebê-la. que se baseiam em motivos não-biológicos. determinada posição. há o terceiro traço característico. tomar come orientação não impressões exteriores porém leis mais profundas. nesta. Encontramos freqüentemente situações nas quais a atividade consciente do homem. que difere a atividade consciente . Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio de modo imediatamente mais profundo do que o animal. de ocupar. ou por vestígios da experiência individual imediata. cobre com seu corpo bocas de fogo ou se lança à morte sob tanques. movido por elevados motivos de patriotismo. penetrar nas conexões e dependências profundas das coisas. pois sabe que o tempo i instável no outono. Entre os animais não há semelhantes formas de comportamento "desinteressado". O segundo traço característico da atividade consciente do homem consiste em que. A atividade consciente do homem não pode tomar come orientação a impressão imediata da situação exterior e sim um conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação. Assim. neste caso. ao sair a passeio num claro dia de outono. a necessidade de comunicação. após interpretá-los. Sabendo que a água do poço está envenenada. recebidas do meio. razão por que há todo fundamento para afirmar-se que c comportamento humano. Ele pode abstrair a impressão imediata.mentos. Aqui ele obedece a um profundo conhecimento das leis da natureza e não à impressão imediata de um tempo de sol e céu claro. seu comportamento não é orientado pela impressão imediata da água que o atrai mas por um conhecimento mais profundo que ele tem da situação.

do homem do comportamento do animal.
72

Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas fontes ■— 1)
os programas hereditários de comportamento, jacentes no genótipo e 2) os
resultados da experiência individual —, a atividade consciente do homem
possui ainda uma terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e
habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de
toda a humanidade, acumulada no processo da história social e transmissível
no processo de aprendizagem.
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu comportamento sob a
influência das coisas que se formaram na história: senta-se à mesa, come com
colher, bebe em xícara e mais tarde corta o pão com a faca. Ele assimila
aquelas habilidades que foram criadas pela história social ao longo de milênios.
Por meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos mais elementares e
posteriormente, por meio da linguagem, ele assimila na escola as mais
importantes aquisições da humanidade. A grande maioria de conhecimentos,
habilidades e procedimentos do comportamento de que dispõe o homem não
são o resultado de sua experiência própria mas adquiridos pela assimilação da
experiência histórico-social de gerações. Este traço diferencia radicalmente a
atividade consciente do homem do comportamento do animal.
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a Psicologia: como
explicar os traços da atividade consciente do homem que acabamos de
numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir duas vias inteiramente
diferentes de solução dessa questão.
Uma delas, típica da filosofia idealista, partia das posições do dualismo A tese
básica dessa corrente reduzia-se não só ao reconhecimento de acentuadas
diferenças de princípio entre o comportamento do animal e a consciência do
homem, como também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que a
consciência do homem deve ser considerada como manifes: tação de um
princípio espiritual especial de que carece o animal
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma máquina complexa,
cujo comportamento obedece as leis da mecânica, e o homem como dotado do
princípio espiritual com livre-arbítrio partiu de Descartes, tendo sido repetida
posteriormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. É fácil
perceber que, apontando a diferença de princípio entre o comportamento do

animal e a atividade consciente do homem,
73

que tentava estudar uma linha única de desenvolvimento da consciência dos animais ao homem. desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às concepções dualistas pré-científicas. Ficava sem solução o problema da origem das peculiaridades da atividade consciente do homem. devem ser procuradas na forma histórico-social de atividade. que parte dos princípios do marxismo. o enfoque antropomórfico da "razão" e das "vivências" dos animais. que foram ressaltadas acima. No entanto as afirmações de que os animais têm em embrião todas as formas da vida consciente do homem. O enfoque naturalista. inerente apenas ao homem.essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos fatos. forma-se nas condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de animais. e a transição da história natural do animal à história social da . já se podendo observar nos animais todos os fundamentos da consciência humana. não há limites precisos e basilares entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem. É sabido que toda a atividade psíquica dos animais. que em várias de suas obras tentou mostrar que. A segunda via de solução do problema da originalidade da atividade consciente caracteriza o positivismo evolucionista. Essas formas de vida não existem nos animais. O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam a atividade consciente do homem do comportamento dos animais e nas quais devemos procurar as condições que formam essa atividade consciente? As peculiaridades da forma superior de vida. a atividade consciente do homem é resultado direto da evolução do mundo animal. bem como a falta de vontade de reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do homem continuaram a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. os animais já têm todas as formas de atividade racional inerente ao homem e que. O primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin. Segundo essa teoria. com o emprego de instrumentos de trabalho e com o surgimento da linguagem. que está relacionada com o trabalho social. que cria a base para a orientação no meio ambiente. na forma embrionária. focaliza de posições inteiramente diferentes o problema da origem da atividade consciente do homem. A Psicologia científica.

74 .

São justamente essas condições que fazem com que. o surgimento da linguagem. à diferença do animal. O trabalho e a formação da atividade consciente A ciência histórica destaca dois fatores. Junto com os motivos biológicos do comportamento. Surgem formas superiores de comportamento. com o qual o homem 75 . Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores na mudança radical das formas de atividade psíquica e no surgimento da consciência. mostram que. Um desses fatores é o trabalho social e o emprego dos instrumentos de trabalho. com a transição para a história social. o homem tanto emprega os instrumentos de trabalho como prepara esses instrumentos. na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina. Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da complexa atividade consciente do homem. surgem os motivos superiores ("intelectuais") e necessidades. se as lascas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primitivos. a flecha) preparados especialmente pelo homem. Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da "alma" nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais de vida historicamente formadas. Sabe-se que. que pertencem à época mais antiga da história da humanidade. baseadas na abstração das influências imediatas do meio. concomitantes com o comportamento que depende da percepção imediata do meio. juntamente com as duas fontes do comportamento — os programas de comportamento consolidados por via hereditária e a influência da experiência passada do próprio indivíduo —. surge uma terceira fonte formadora da atividade: a transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade. que servem de fonte à transição da história natural dos animais à história social do homem. Os remanescentes desses instrumentos. e.humanidade deve ser considerada um importante passo assim como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida vegetal à animal. mude radicalmente a estrutura do comportamento. Nesses instrumentos podemos distinguir tanto o gume. o outro.

que surge no processo de preparação do instrumento de trabalho. Por si só a atividade de elaboração da pedra carece de sentido e não tem qualquer justificativa em termos biológicos. voltada para a satisfação imediata de uma necessidade. na medida em que se tornam mais complexas a sociedade e as formas de produção. que servia para manter-se comodamente na mão. .primitivo podia esfolar o animal morto ou cortar pedaços de árvore. separa-se uma "ação" que não é dirigida imediatamente por motivo biológico e só adquire sentido com o emprego posterior dos seus resultados. A mudança mais importante da estrutura geral do comportamento — surgida no processo de transição da história natural do animal à história social do homem — dá-se quando. Diferentemente disto. noutros termos. cabia aos preferidos do grupo primitivo ou à mulher. o conhecimento do futuro emprego do instrumento. determinada por motivo biológico imediato (a necessidade de alimento) . A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia também a divisão natural do trabalho) por si só já mudava radicalmente a atividade do homem primitivo. primeira forma de atividade consciente. Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho leva a uma mudança radical de toda a estrutura do comportamento . juntamente com o conhecimento da operação a ser executada. que adquire seu sentido posteriormente. Percebe-se facilmente que. pelo visto. O trabalho desenvolvido na preparação dos instrumentos já não é uma simples atividade. da atividade geral.(preparação do instrumento) será empregado para matar a vítima e deste modo satisfazer a necessidade de alimento. essas ações. distinguindo-a do comportamento do animal. exige. O comportamento do animal fora sempre voltado imediatamente para a satisfação de urna necessidade. a parte arredondada. não dirigidas imediatamente por motivos biológicos. que. ela adquire sentido somente a partir do uso posterior do instrumento preparado na caça. É esta a condição fundamental. ou seja. da atividade. quando o produto dessa ação . que ficava em casa enquanto o homem ia à caça. separa-se uma ação especial. como a "lombada". e pode ser chamada de primeiro surgimento da consciência. o comportamento adquiria caráter de estrutura complexa. no homem que preparava seus instrumentos de trabalho. É natural que arma dessa natureza exige preparo especial.

76 .

Assim é. por outras palavras. friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo). Torna-se claro que a atividade consciente do homem não é produto do desenvolvimento natural de propriedades jacentes no organismo mas o resultado de novas formas histórico-sociais de atividade-trabalho. que é o que representa uma nova estrutura de atividade consciente do homem. leva ao surgimento de formas de comportamento. A linguagem e a consciência do homem O surgimento da linguagem é a segunda condição que leva à formação da atividade consciente de estrutura complexa do homem. que não são diretamente dirigidas por motivos biológicos. 77 . podendo inclusive opor-se algumas vezes a eles. enquanto outro grupo arma emboscada para ela. por exemplo. Contudo. durante a qual um grupo de caçadores "assusta" e afugenta a caça que deve ser apanhada. a complicação da estrutura da atividade durante a transição à história social do homem não se limita à mudança que acabamos de mencionar. e as "ações" especiais não é determinada imediatamente por motivo biológico. A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma série de procedimentos e modos (desbastar uma pedra com outra. O surgimento de várias "operações" auxiliares por meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a mudança radical do comportamento. A separação dessas "operações" é o que constitui a sucessiva complicação da estrutura da atividade. exige a separação de várias operações auxiliares. que adquire sentido apenas na comparação dessas ações com o resultado final. a caça na sociedade primitiva. que se separa da atividade geral. a separação entre a atividade biológica geral. Deste modo. A complexa organização de "ações" conscientes. aqui poderia parecer que as ações do primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar a caça e só adquirem sentido a partir das ações do segundo grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores. mas é dirigida pelo objetivo consciente.começam a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade consciente do homem.

O guia de um bando de cegonhas. etc. na linguagem. Assim. abelhas. relações entre eles. Mas a "linguagem" dos animais nunca designa coisas. "ácido". Essas teorias são muito vagas e omitem o fato de que a linguagem é uma especial "forma simbólica de existência". "sob".Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos por meio dos quais são designados os objetos do mundo exterior. Numa manada de macacos podemos observar todo um conjunto de sons. "corre" designam ações. É natural que as palavras. que expressa satisfação. Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente no processo de transição à sociedade humana. "origem divina". que mudam de caráter dependendo de ter a abelha regressado do vôo com boa prenda e modificam-se dependendo da direção e da distância do caminho percorrido. Podemos observar um sistema muito complexo de movimentos expressivos nas chamadas "danças" das. são os principais meios de comunicação mediante os quais o homem conserva e transmite informação e assimila a experiência acumulada por gerações inteiras de outras pessoas. de acordo com a Bíblia. Algumas delas consideram a linguagem manifestação do campo espiritual. Outras teorias. suas ações. "em conseqüência" designam relações diferentes por complexidade entre os objetos. etc. não é linguagem na verdadeira acepção da palavra. agressão. O animal possui meios muito variados de expressão de seus estados. atribuindo-lhe. qualidades. . a palavra "pão" designa um objeto comestível. "juntamente". medo ao perigo. "plano" designam qualidades dos objetos e as palavras auxiliares "sobre". seguindo as tradições do positivismo naturalista. ao sentir o perigo. portanto. Esses "segredos" são transmitidos a outros indivíduos e podem orientar de modos diferentes o comportamento das abelhas. enquanto "dorme". unidas em frases. que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer manifestação do mundo material. O problema do surgimento da linguagem humana é o objeto de inúmeras hipóteses e teorias. não distingue ações nem qualidades. solta gritos alarmantes aos quais o bando reage vivamente. a palavra "cadeira" designa um tipo de móvel que serve de assento. que são percebidos por outros animais e podem exercer influência substancial sobre o comportamento destes. tentam.

inutilmente. ver a linguagem como resultado da evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais 78 .

restando para a. a princípio. Há muitos fundamentos para se pensar que o surgimento da linguagem teve seus primórdios nas formas de comunicação contraídas pelos homens no processo de trabalho. coube posição determinante aos atos e gestos. concluindo que as condições que originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações sociais do trabalho cujos primórdios de surgimento remontam ao período de tratisição da história natural à história humana. suas qualidades. constituíam os fundamentos de uma original linguagem ativa ou "linear" e só bem mais tarde o papel determinante passou a ser desempenhado pelos sons.da evolução da linguagem os fenômenos de "comunicação" entre os animais que descrevemos. estes. ao contrário. A ciência não dispõe de métodos que permitam observar imediatamente as condições que originaram a linguagem. os primeiros sons que designam objetos surgiram no processo do trabalho conjunto. designar os objetos (coisas ou instrumento) que fazem parte da atividade do trabalho conjunto.área da ciência. que propiciaram a base para uma evolução paulatina de uma linguagem de . Estavam entrelaçados na atividade prática. devendo. Mas a solução científica do problema da origem da linguagem só se tornou possível quando a filosofia e a ciência abandonaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no âmago do organismo e de deduzi-la diretamente das peculiaridades do "espírito" ou do cérebro. Segundo as teorias originárias da segunda metade do século XIX. que assumiram paulatinamente a função de transmitir certa informação. A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosamente no homem a necessidade de transmitir a outros certa informação. nesse complexo de meios de expressão parece que. eram "palavras" capazes de designar com independência os objetos. que começavam a indicar determinados objetos. Entretanto seria incorreto pensar que os sons. ainda não tinham existência autônoma. esta não pode ficar restrita à expressão de estados subjetivos (vivências). ação ou relações. Além do mais. razão por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo a situação evidente em que eles surgiam. apenas o caminho das hipóteses que se confirmam por via indireta. Os sons. eram acompanhados de gestos e entonações expressivas. denominada "paleontologia da fala". segundo muitos autores.

sons independente. porém. essa linguagem manteve a mais estreita ligação com o gesto e o ato e por isto o mesmo complexo de sons (ou "protovocábulo") podia desig79 . Durante muito tempo.

A primeira dessas mudanças consiste em que. Surgiu a língua como um sistema de códigos independentes. que designavam objetos e bem mais tarde passaram a servir para distinguir as ações e as qualidades dos objetos. a linguagem permite discriminar esses objetos. Enquanto sistema de códigos que designam os objetos. a linguagem é o fator fundamental de formação da consciência. O segundo papel essencial da linguagem na formação da consciência consiste em que as palavras de uma língua não apenas indicam determinadas coisas como abstraem as propriedades essenciais destas. a própria mão c a ação produzida com esse objeto.nar o objeto para o qual a mão apontava. . Por isto têm razão os cientistas que afirmam que. qualidades ou relações e serve de meio de transmissão de informação. Resulta daí que o homem está em condições de lidar com os objetos do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. Ê a essa época que pertence o surgimento das primeiras palavras autônomas. dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. Essa possibilidade de assegurar o processo de abstração e generalização representa a segunda contribuição importantíssima da linguagem para a formação da consciência. Percebe-se facilmente que importância tem o surgimento desse mundo "interior" de imagens. permite conservar a informação recebida do mundo exterior e cria um mundo de imagens interiores. suas ações. designando os objetos e eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou combinações de palavras. a linguagem teve importância decisiva para a posterior reorganização da atividade consciente do homem. Por isto podemos dizer que a linguagem duplica o mundo perceptível. que durante um longo período histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma que distingue as línguas atuais. relacionam as coisas perceptíveis a determinadas categorias. O surgimento da linguagem imprime ao menos três mudanças essenciais à atividade consciente do homem. É bastante a pronúncia interna ou externa de uma palavra para o surgimento da imagem do objeto correspondente e o homem pôr-se em condições de operar com essa imagem. Só depois de muitos milênios a linguagem dos sons começou a separar-se da ação prática e a adquirir independência. que surge como base na linguagem e pode ser usado pelo homem em sua atividade. a par com o trabalho.

8X> A palavra "relógio" indica que esse . as palavras "relógio" e "mesa" designam não apenas certos objetos.Por exemplo.

habilidades e modos de comportamento. que assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo. A linguagem é o veículo fundamental de transmissão de informação. as palavras "relógio" e "mesa" designam todas as modalidades desses objetos. produzida ao longo de muitos séculos de prática histórico-social. Isto dá à linguagem a possibilidade de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o veículo mais importante do pensamento. ou seja. . a linguagem permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela dominar um ciclo imensurável de conhecimentos.objeto serve para marcar as horas (do latim horologio). que se formou na história social da humanidade. Deste modo. que se formou no longo processo da história social. ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos psíquicos que. independentemente de sua forma exterior ou do tamanho. aproximam-se das duas fontes (os programas de comportamento transmissíveis por hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da experiência de dado indivíduo) que se verificavam nos animais. Isto significa que a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios do objeto e generaliza objetos diferentes pelo aspecto exterior mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente ao homem a experiência das gerações e serve de meio de representação do mundo mais poderoso que a simples percepção. A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos A importância da linguagem para a formação da consciência consiste em que ela efetivamente penetra em todos os 81 . . Isto significa que com o surgimento da linguagem surge no homem um tipo inteiramente novo de desenvolvimento psíquico desconhecido dos animais. a palavra "mesa" indica que esse objeto serve para ser coberto (do latim mensa). a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho de análise e classificação dos objetos. e que a linguagem é realmente o meio mais importante de desenvolvimento da consciência. Além do mais. O que acaba de ser dito dá fundamento para designar a terceira função essencial da linguagem na formação da consciência. Ao transmitir a informação mais complexa. no estágio do homem. que em hipótese alguma poderiam ser resultado da atividade independente de um indivíduo isolado.

É sabido que existe no mundo um número imenso de objetos. a forma ou. Isto leva a que. "amarelo"). tornando-se sua atenção dirigível. quando relacionamos o objeto. que servem de reforço . "triângulo" ou "vermelho". depois interior). Por isto a análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão da informação que emprega meios de linguagem) não pode ser vista apenas como capítulo especial da Psicologia mas deve ser considerada também como jatos de construção de todo o conjunto da vida consciente do homem. A linguagem muda essencialmente os processos de atenção do homem. A linguagem muda essencialmente também os processos da memória do homem. com o surgimento da linguagem e baseado nela o homem se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção. deve ser enfocado como parte conclusiva da introdução evolucionista à Psicologia. matiz com alguma palavra ("mesa". nós realmente selecionamos os traços essenciais e generalizamos os objetos. Se a atenção do animal tinha caráter imediato. mas é muito limitado o número de palavras que designam esses objetos. Quando posteriormente a própria criança assimila o discurso (a princípio exterior. formas. era determinada pela força. formas e matizes. "círculo". generalizada e permanente. a novidade ou valor biológico do objeto que dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do animal. eleva a um novo nível o desenrolar dos seus processos psíquicos. acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos nomeados. É justamente por isto que o papel da linguagem ou "segundo sistema de sinais da realidade". arbitrária. A linguagem reorganiza substancialmente os processos de percepção do mundo exterior e cria novas leis dessa percepção. relacionada com a discriminação dos indícios essenciais do objeto. como a denominou Pávlov. as qualidades ou ações. formas e cores perceptíveis em determinados grupos ou categorias. A percepção humana se torna mais profunda. Quando a mãe diz ao filho "isto é uma xícara". ela está distinguindo esse objeto de todos os demais e dirigindo para ele a atenção da criança. "relógio".campos da atividade consciente do homem. É sabido que a memória do animal depende consideravelmente da orientação no meio ambiente e dos motivos biológicos. Isto dá à percepção humana traços que a distinguem radicalmente da percepção do animal. matizes de cores.

No nível humano e apoiada nos processos 82 .daquilo que é lembrado com êxito.

que ocorrem com a participação dominante dos sistemas sub-corticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou fracasso de sua atividade e conservam plenamente sua ligação com as necessidades biológicas. que se processa com a participação imediata da linguagem. a linguagem se torna pela primeira vez atividade mnemônica consciente. que eleva a um novo nível os processos psíquicos. Não são menos importantes as mudanças introduzidas na reorganização da vivência emocional pelo surgimento da linguagem. na qual o homem coloca fins especiais de lembrar. processo que não existe no animal e serve de base à criação orientada e dirigida cujo estudo constitui área especial da Psicologia. o surgimento dessas formas representa uma das aquisições mais importantes da humanidade e garante a transição do "sensorial ao racional". no processo de memorização. a avaliação das correlações das ações realmente exeqüíveis com as intenções iniciais. não se pode omitir a última tese. A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela primeira vez da experiência imediata e assegura o surgimento da ■imaginação. selecionando nele. a possibilidade de uma formação generalizada do caráter e do nível dos seus acertos leva a que. Por último.do discurso. É dispensável dizer que só com base na linguagem e com sua participação imediata constituem-se as complexas formas de pensamento abstrato e generalizado. organiza o material a ser lembrado e acha-se em condições não só de ampliar de modo imensurável o volume de informação que se mantém na memória como ainda de voltar-se arbitrariamente para o passado. cuja importância é especialmente grande. O mundo emocional do homem não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos motivos biológicos. paralelamente às categorias afetivas. considerada pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela importância é igual à transição da matéria inanimada para a animada ou da vida vegetal para a animal. Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expressas. . aquilo que em dada etapa se lhe afigura mais importante. formem-se no homem vivências e demorados estadosde-espirito que vão muito além dos limites das reações afetivas imediatas e são inseparáveis do seu pensamento.

É sabido que as novas formas de comportamento individualmente variável do animal são adquiridas com base em sia orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de 83 .

dizendo-lhe. nenhuma dificuldade. na norma. estudadas minuciosamente pela escola de Pávlov.formas estáveis de semelhante comportamento se baseia nas leis dos reflexos condicionados. começa a extinguirse tão logo desaparece o reforço e se reorganiza com relativa dificuldade num novo sistema de ligações. dispensa qualquer reforço "incondicional" (ou biológico) . O advento de qualquer ação. Por último. mostra-se imediatamente sólida. Não encontramos nada semelhante na formação de novas modalidades de comportamento consciente do homem. Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter dirifgível dos processos de atividade consciente do homem. que se estabelece de acordo com uma regra formulada no discurso. basta sugerir ao sujeito uma nova instrução. A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente. levantar o braço (ou girar a chave). das leis que servem de base ao seu desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados patológicos fundamentais da Psicologia^ 84 constitui uma das tarefas . essa ação. para que a relação anteriormente criada seja imediatamente substituída por uma contrária. É fato bem conhecido que a aquisição de novas formas de comportamento exige um reforço relativamente longo da resposta ao sinal condicional. a "conversão" dessa ação numa nova não apresenta. executável com base em instrução discursiva. por exemplo. Basta instruir o homem no sentido de erguer o braço ou girar a chave em resposta a um sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um azul para surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. dispensa repetição permanente da instrução e não se extingue se essa instrução não se repete. que agora ele deve fazer o contrário: em resposta âo sinal azul. A nova forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da formulação discursiva de uma regra. que o homem estabelece com o auxílio da linguagem. Sua formação dispensa elaboração longa e se estabelece de imediato. a repetição multiplicada da coincidência dos sinais condicionais com o reforço incondicionado. Essa ligação é adquirida paulatinamente. dos meios de sua direção. e. nada fazendo ao sinal vermelho. que distingue acentuadamente o seu comportamento do comportamento do animal.

IV O Cérebro e os Processos Psíquicos 1 ARA ENTENDER melhor a estrutura dos processos psíquicos do homem e das leis que os regem. devemos conhecer acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos principal da atividade psíquica — o cérebro humano — e as relações dos processos psíquicos com ele. Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia a ela relacionada a concepção segundo a qual os processos psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou 85 . O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro enquanto substrato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em períodos diversos de evolução da ciência. O caráter da solução desse problema dependia muito da maneira como se interpretavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam os seus fundamentos cerebrais.

que. a "faculdade do raciocínio". A primeira tentativa de semelhante "localização das faculdades psíquicas" foi empreendida no começo do século XIX por F. segundo Gall. sobretudo no córtex. com base no estudo das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas às capacidades individuais do homem. o "respeito aos pais" e o "amor às crianças"). que procuravam a base material dessas faculdades. indicava uma evolução especial dessa "faculdade". J. manteve-se durante muitos séculos e continuou basicamente imutável inclusive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato do psiquismo o líquido que preenche os "ventrículos cerebrais" e chegaram à opinião de que o fundamento da atividade psíquica devia ser procurado na substância sólida do cérebro. podiam estar imediatamente "localizados" em determinadas formações cerebrais. Apesar de a "frenologia" de Gall ter sido considerada fantástica e sem fundamento científico ainda com seu criador vivo. A idéia de que os processos psíquicos."faculdades" irredutíveis a quaisquer componentes mais elementares . segundo ele. Essa hipótese acabou servindo de base a um campo especial da "ciência" — a "frenologia" —. Após distinguir um grande número dessas "faculdades" congênitas (às quais. aventavam a hipótese de que elas estavam localizadas no líquido que preenche três "ventrículos cerebrais". e consideravam que no ventrículo anterior estava situada a "faculdade da percepção ou imaginação". a "honestidade". que crescem muito com o desenvolvimento dessas "faculdades". Ele apresentou a hipótese de que o substrato de diversas "faculdades" psíquicas é constituído por pequenas áreas do tecido nervoso do córtex cerebral. a idéia da "localização" direta de certas funções psíqui- . no ventrículo médio. pertenciam "faculdades" como a "parcimônia". que são a seguir "faculdades" indivisíveis. Gall. Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-se distinguir ao menos três "faculdades" básicas: a faculdade da percepção ou imaginação. Os pensadores. a faculdade do raciocínio e a faculdade da memória. que levava à formação de protuberâncias no crânio. e no ventrículo posterior a "faculdade da memória". Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro e considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área cerebral.

86 .

no qual até as "funções" psíquicas mais complexas coincidiram com as áreas limitadas do córtex cerebral. continuarem por muito tempo a fazer tentativas de "localização" direta das funções psíquicas em áreas isoladas do córtex cerebral. as áreas que passaram a ser consideradas "centros da escrita". Essas tentativas foram reunidas num sistema pelo psiquiatra alemão K. A partir da década de 70 do século passado. Essas descobertas deram aos pesquisadores fundamentos para distinguir. Kleist (1934). levantaram-se dúvidas legítimas de que processos complexos como a fala. ele lançou a tese de que essa região do córtex é o "centro da palavra sensória". Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-lução frontal do hemisfério esquerdo leva à perturbação da fala articulada. Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas em áreas limitadas do cérebro inspiravam os estudiosos (psiquiatras e neurologistas). o estudo das observações clínicas mostrou que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a queda de "funções psíquicas" perfeitamente determinadas. o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou a hipótese segundo a qual estão "localizadas" nessa região as imagens motoras da palavra. Por isto os cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mudanças nos processos psíquicos. etc. Apesar de que em seu tempo eram progressistas às tentativas de "localização" direta das complexas "funções" psíquicas nas áreas limitadas do córtex cerebral. que. pois tais tentativas refletiam o esforço de fazer um enfoque materialista dos processos psíquicos e seu substrato cerebral. "centro dos conceitos". Wernicke (1873) descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-volução temporal superior do hemisfério esquerdo mantém intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das palavras. O psiquiatra alemão K. elas logo mostraram sua inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos. com base em observações feitas em cérebros de feridos durante a I Guerra Mundial. Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as contradições do material factual em relação a essas considerações. no córtex cerebral. que ocorrem nos casos de afecções limitadas (locais) do cérebro. "centros do cálculo".cas do córtex cerebral continuou em evidência. Por um lado. leitura e o a . a escrita. colocouas num "mapa sinótico localizado".

87 .

já sem falar da atividade intelectual.cálculo. No entanto ela não tardou a mostrar sua inconsistência. etc. Lashley e neurologistas como K. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que os processos psíquicos são função de todo o cérebro e não podem ser "localizados" nas áreas limitadas do córtex cerebral. via de regra. era uma reação legítima às concepções simplistas do "localizacibnismo estreito". a análise minuciosa dos fatos das observações clínicas mostrou que a atribuição direta dos complexos processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece de fundamento. Por outro lado. Goldstein. Isto gerou uma crise das concepções anteriores da "localização" direta dos processos psíquicos nas áreas limitadas do córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes grandes psicólogos como K. Essa idéia. que levou ao surgimento de uma corrente científica conhecida como "antilocalizacionismo". são amiúde tão especializados que dentre eles podemos distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou a . Observou-se que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral leva. Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é um aparelho bastante diversificado. S. C. Assim. que à primeira vista parecem inteiramente diferentes. enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orientação no espaço. dificuldades de percepção da luz. distúrbios na escrita. integrantes do córtex cerebral. fato que por si só já contrariava a idéia da estreita "localização" das funções psíquicas nas áreas isoladas do córtex. a escrita. à perturbação de todo um grupo de processos psíquicos. Verificou-se que perturbações de processos psíquicos tão complexos como a fala. impossibilidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais e vários outros distúrbios congêneres da atividade intelectual. a leitura e o cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente diferentes pela posição. podendo-se procurar sua "localização" em áreas limitadas do córtex cerebral. podiam ser entendidos como simples "faculdades" congênitas. dificuldades de encontrar palavras. a afecção do lobo temporal esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala. que áreas corticais distintas apresentam estrutura diferente e que os neurônios.

etc). Essas 88 .indícios muito especiais (por exemplo. às linhas retas e curvas ou somente às linhas quebradas. só reagem aos movimentos do centro à periferia ou da periferia ao centro.

no qual o objetivo final permanente ("invariante") é realizado pelo sistema mutável ("variante") de suas partes componentes. Strtctu sensu. o sistema funcional representa um complexo todo dinâmico. É característico que os músculos. Compreende-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo. Ele pode designar a atividade de adaptação de todo um organismo. assegurando esse ou aquele aspecto desse sistema funcional. parte das quais é o resultado de descobertas obtidas ultimamente como decorrência de pesquisas fisiológicas. exercida pelo trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos. a função do pâncreas é a segregação de insulina. cada um dos quais integra esse "sistema funcional" (termo de P. difusão do oxigênio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue. a função do alvéolo pulmonar. 89 . e se de um sistema funcional extingue-se a participação de um grupo de músculos (os músculos do diafragma. Mas o conceito de "função" tem um outro significado mais amplo. função da locomoção. a função se constitui^ numa complexa atividade. entende-se por "função" a direção de determinado tecido. podem substituir mutuamente uns aos outros. por exemplo). Ano-khin) em seus próprios papéis. tornaram muito pouco prováveis as hipóteses da homogeneidade de toda a massa cerebral c as afirmações segundo as quais o cérebro sempre funciona como um todo único. O conceito de "função" tem em biologia dois significados inteiramente diversos. realizadas em certos neurônios. A saída para essa crise estava relacionada com a revisão radical do conceito de "funções psíquicas" e com a mudança radical dos principais enfoques dos princípios da "localização" cerebral dessas "funções". a "função da respiração" é exercida pelo trabalho conjunto de todo um grupo de músculos e alvéolos pulmonares. função da digestão. Neste sentido falase de função da respiração. essa falha é compensada pelo trabalho reforçado de outro grupo de músculos (os músculos intercostais). Deste modo. Sabese que a função do fígado é a regulação da troca de hidrato de carbono. K. Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da organização funcional do cérebro e na doutrina da "localização" dos processos psíquicos no córtex cerebral.linhas. que participam do ato de respiração. Assim.

agora ele está extremamente espalhado. dependendo da tensão. a escrita e o cálculo. Sem essa sinalização permanente da posição do extremo que se move. etc. têm estrutura sumamente complexa. Para executar o movimento mais simples (por exemplo. da consolidação da habilidade. na qual o objetivo final (deslocamento de um lugar para outro. . o acerto no alvo. até para se darem dois 90 . até "funções" relativamente simples como o movimento arbitrário. compreendendo em sua composição um número considerável de elos CQmponentes. É natural que um sistema funcional tão complexo não pode ser "localizado" em determinada área limitada do sistema nervoso. 127).O mesmo podemos dizer da "função da digestão". . etc. Pávlov já indicara que "se antes o centro respiratório era concebido como um ponto do tamanho da cabeça de um alfinete no bulbo raquidiano. t. acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar uma martelada) é necessário antes de tudo manter uma profunda sensibilidade proprioceptiva do braço que se move dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das distensões dos músculos em funcionamento. Se tão amplo significado do conceito de "função" se refere a um grande número de atos biológicos de adaptação. Para a sua execução é necessário um reflexo preciso das coordenadas espaciais exteriores em cujos limites executa-se o movimento. A execução de um movimento exige a mudança harmoniosa dos seus elementos. o acerto em dado alvo. o movimento perde sua precisão e se torna impossível.) é realizado por um complexo sistema de músculos cuja interrelação varia com a mudança da posição do corpo. a marcha. garantindo a necessária correção da direção. nenhum movimento organizado é possível. Obras completas. Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas. Pávlov. subiu para o cérebro e desceu para a medula espinhal e hoje ninguém indicará com precisão a sua fronteira" (I. III. bem como da "função do movimento" (ou locomoção). que representa o mais complexo sistema funcional de órgãos digestivos que funcionam em conjunto. já sem falar de funções como a fala. . é com maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas "funções psicológicas". P. a batida do martelo. p.

que inclui em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-riais (aferentes) como motores. transferindo os impulsos para outro sistema de músculos.passos é necessário inicialmente enervar um sistema de músculos e. desenervar o primeiro e passar harmoniosamente ao elo seguinte do ato motor. Para executar essa ação é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de "grafemas" ou letras como manter a correta disposição destes no espaço. a leitura ou o cálculo. decompondo fluxo permanente de sons nas unidades sonoras componentes da língua — os "fonemas" (que em cada língua podem ter caráter diverso). devemos discriminar antes de tudo os sons que integram a sua composição. Para escrever uma palavra. Aqui o processo da escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros ("fonemas") devem ser recodifiçados em elementos motor-visuais da escrita ("grafemas"). O cumprimento dessa condição exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes. expor 91 . sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível. No entanto a escrita não termina nesse processo. Amiúde a separação desses fonemas se faz não só "de ouvido" mas com a participação imediata da articulação. o processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma tarefa geral (escrever uma frase. em seguida. por meio da qual é como se nós "sondássemos" os sons e os distinguíssemos de outros próximos. Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi construído o ato da escrita e mostremos que elos complexos integram esse sistema funcional. Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relativamente simples é um complexo sistema funcional. a escrita. Por último. Somente depois desse trabalho prévio a composição sonora da palavra se considera definida e a palavra pronta para o registro. noutros termos. Ela representa um complexo programa de movimentos. É ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade psíquica como a fala. uma carta. formados no processo da história da sociedade. nos quais um elo deve incorporar-se harmoniosamente ao seguinte. devemos fazer a sua análise acústica.

integrantes da composição de dada função. que asseguram elos diversos. turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos de descrever.) e só com a sólida manutenção desse programa correspondente a necessária tarefa pode ser cumprida. É natural que para semelhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra) se torna desnecessária e o processo da escrita adquire inteiramente outro caráter. Por isto a tarefa de "localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto. que põem em ação dado "sistema funcional". 92 .uma idéia. Se na grande maioria das línguas (indo-européias. e sempre que haja afecção limitada do cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação da área cerebral afetada. a análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estruturas cerebrais. Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada do cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional. nelas o escrevente representa imediatamente os conceitos com determinados sinais convencionais (hieróglifos). etc. O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em determinada área limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de células. Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente. por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro. noutros termos. há línguas (o chinês. Torna-se compreensível que a mesma afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado elo geral ou "fator" geral cujo funcionamento esteja diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo sistema funcional (o ato da escrita ou da fala. por exemplo) em que a escrita não é um processo de transferência das unidades sonoras ("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas").

então é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas corticais propriamente motoras. é necessário.Assim. circulação sangüínea e do metabolismo bioquímico. antes de tudo. Princípios da organização funcional do cérebro humano Como já foi dito (cap. sendo produto de uma longa evolução. cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e essa perturbação será cada vez diferente. cinestésica (articular) da estrutura da letra. Os dados desta ciência são de grande. já os apa93 . II). o cérebro humano. ter uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro humano. é um complexo sistema construído por hierarquia. Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva. que no homem chegam a um nível especialmente alto de desenvolvimento Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem em sua composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração. que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-rentes propriamente ditos. Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos. que se distingue pelo fato de que. que executa os mais importantes processos vitais). aos aparelhos do tronco e do córtex primitivo — bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os grandes hemisférios. se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios (cinestésicos) espaço-visuais. importância tanto para o campo prático da neurologia — definição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais — como para uma compreensão mais profunda da estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos. a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto com a afecção das áreas auditivas. A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções locais limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia — a neuropsicologia.

Os três "blocos" principais do cérebro Como já indicamos. a assimilação e elaboração da informação recebida. constituída de fibras de projeção. composto de várias partes. As áreas superiores do sistema nervoso central são os grandes hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente.relhos do corpo quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (receptores de contato e distância). que ligam o córtex às formações subcorticais subjacentes. aves) mas são paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior — os grandes hemisférios. e de fibras de associação. Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica morfológica dos aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua organização funcional. trabalha sempre como um todo único. a perturbação do funcionamento normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho. o mais importante da atividade psíquica do homem. o processamento de programas de atividade complexa e regulação da realização das formas superiores de comportamento. É isto que se reveste de importância essencial para a Psicologia. o cérebro humano. a inclusão delas nos aparelhos motores (corpo quadrigêmeo) e sua integração primária com a execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado). o fechamento de novas ligações. Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios. que assegura o recebimento e a elaboração da informação e a criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução destes. tornandose o aparelho fundamental. que ligam regiões corticais isoladas. peixes. que asseguram a análise e a síntese das excitações que chegam do mundo exterior. Estes são os dispositivos mais complexos. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado. 94 . Os grandes hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados superiores.

assegura e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. a conservação dos seus vestígios. bem como dos processos de formação de programas e controle da execução destes. indicando que os processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força". O terceiro bloco elabora programas de comportamento. segundo a qual um instigador forte (ou mais significativo) provoca uma reação forte. é necessária para a realização de atividade seletiva organizada. O primeiro mantém o necessário tônus do córtex. para a criação de sistemas domi95 . que deixa o vestígio mais estável. cada um desempenhando papel especial na atividade psíquica. O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento. é necessária uma permanente manutenção do tônus otimal do córtex. a elaboração e conservação da informação.No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais. Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a uma acertada organização da atividade consciente do homem. elaboração e conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). indispensável para o bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da informação. que caracteriza a exci-tabilidade otimal do córtex. criar e executar os complexos programas de comportamento. a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da execução destes. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento. A existência dessa "lei da força". ao passo que o instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se inibe mais facilmente. acompanhar o êxito das ações executadas e fazer a necessária auto-regulação do comportamento. Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex.

que assegura o tônus geral ou estado de vigília do córtex. mais complexa) . por exemplo.. de garantia do estado emocional normal e cria condições para a sólida manutenção dos indícios surgidos. A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais tarde acrescenta-se uma terceira. que recebeu a denominação de "ciclo do hipocampo" é uma das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-cal. A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico. Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento normal do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa.) mostraram que nesse processo desempenham papel substancial as formações das áreas superiores do tronco cerebral. que está situado nas áreas internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-referidos do tronco superior. É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo seletivo organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou secundárias). 96 . no estado de sono ou sonolência. o movimento da excitação nesse sistema.nantes de exeitação. os antimuros e os corpos mamilares. É bem conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode passar ao estado inibido ou "fásico": os instigadores fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase niveladora") ou até reações mais fortes do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal"). do tá-lamo ótico e do sistema de fibras reticulares ("formação re-ticular"). para a conservação de sistemas de informação organizados e programas estáveis de comportamento. que une essas formações por uma ligação bilateral com o córtex cerebral. W. H. Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras observações e experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas do grande cérebro como o hipocampo. o núcleo do tálamo ótico. Moruzzi G. Essa peculiaridade do trabalho surge. particularmente as formações do hipotálamo. Essas formações são as componentes principais do "primeiro bloco" do cérebro-bloco humano. Jas-per H.

para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de informação do mundo exterior. que o tronco superior e o encéfalo primitivo são compostos também por aparelhos especiais. que formam a base das inclinações biológicas do organismo. que regulam processos como os reflexos sexuais. tem importância decisiva o estado de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a primeira instância do recebimento das instigações afluentes de fora. Sabe-se. N. É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue. levou freqüentemente o paciente a adormecer. superior e a formação reticular ascendente desempenham papel principal. Sabe-se. etc. o nível de oxigênio no sangue. começam facilmente a surgir alucinações no homem. o animal adormece. esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo (que tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos impulsos que a este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo. ainda. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que? nesses casos. os pesquisadores (N. O corte das vias que levam do tronco superior ao córtex na composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao adormecimento. atos de . por exemplo. que. qué compensam em parte essa insuficiência de afluência permanente de instigações exteriores. o efeito provocado pela "fome de informação". Olds. a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações da periferia. Mc Lean. Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de comportamento sexual instintivo. que surge no homem após um longo período de isolamento numa cela escura à prova de som. no qual os órgãos do tronco. Por isto. caindo para um nível inferior ao necessário. Miller. é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipotálamo.Por um lado. para manter o tônus ideal do córtex. privado dessa afluência de excitações do mundo exterior. ainda. Burdenko. os reflexos da agressão. Deste modo. que é um índice do estado de fome ou saciação. J. Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo.

agressão. 97 .

que asseguram a manutenção do tônus do córtex. Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos introduzidos nessas áreas do encéfalo. considerados pelos referidos autores como "centros" sui generís. nas referidas zonas do encéfalo. por um lado. tendo participação essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a conservação dos vestígios da memória. devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"). e de tumores das paredes do terceiro ventrículo. levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes. Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesquisadores americanos K. etc. O córtex primitivo "límbico" foi. Bucy que. Klüver e P. A existência. por outro. Exemplos de mudança do tônus podemos ver nos casos de distúrbio das funções da hipófise. considerado parte essencial do "corpo olfativo". A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. constituem a segunda fonte de manutenção do tônus cortical e seu estado de vigília.fome constante e sede. Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o olfato desempenha papel dominante no comportamento. Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico. de funções bem mais complexas. durante muito tempo. reguladores do estado emocional do animal. bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista. de formações nervosas que regulam as inclinações citadas. e a considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos". o animal provocava sozinho e demoradamente a excitação desses aparelhos. Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular. que são transmitidos ao córtex através da formação reticular ascendente. situados nas áreas internas (mediais) dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo. depois da dani-ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais do lobo temporal) observaram nos animais acentuada . foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Delgado) para provocar nos animais reações duradouras de "auto-estimulação". Mas a existência dessa área nos animais sem olfato (delfins).

excitação das reações emocionais e perturbações da memória. Dados aproximados foram obtidos também nas observações pos98 .

. particularmente o seu córtex. Por isto o aparelho da "formação reticular descendente" desempenha papel substancial na transmissão do colorido afetivo e na garantia do tônus para os programas de comportamento que surgem no córtex em decorrência da informação recebida e das formas exteriores de programas e necessidades que se formam no homem com a participação da fala. parece explicar o papel desempenhado pelas formações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado (atenção não-dirigida) e memorização. Por último. muda substancialmente o tônus do córtex e afeta-se profundamente a memória. É esse aparelho que assegura a terceira fonte de manutenção do estado de vigília. Penfield. Jasper e outros) descobriram que no hipocampo existe um grande número de neurônios que não reagem a instigadores específicos (visuais. que ocorrem nos animais como resultado da danificação do hipocampo. A existência desses neurônios de cujas funções faz parte a comparação dos instigadores com os vestígios antecedentes. Por meio dos segundos ("formação reticular ativadora descendente") realizam-se 1 aquelas influências que as áreas superiores do cérebro. importantes observações realizadas em pessoas com afecção bilateral do hipocampo pelos pesquisadores americanos W. Através dos primeiros ("formação reticular ativadora ascendente") efetua-se a excitação do córtex pelos impulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco do encéfalo. que apenas mencionamos e que está ligado aos complexos programas e necessidades que surgem no homem como resultado de sua atividade consciente. Cabe observar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como descendentes. Milner e W. fazendo parte também as reações à 'Mescoordena-ção" destes. auditivos ou táteis) mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio ambiente. exercem sobre os segmentos do tronco encefálico. que tiveram oportunidade de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos processos afetivos.teriores de Mc Lean. O papel dos aparelhos do primeiro* bloco na manutenção do tônus do córtex e do estado de vigília é assegurado pelas suas estreitíssimas ligações com o córtex„ que são realizadas através das fibras da formação reticular ativadora. nesses casos. Olds e outros. A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando os fisiologistas (Viesel. Scoville permitiram mostrar que. B.

99 .

já o segundo bloco está imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos. assegurando o tônus geral do córtex. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura celular das zonas corticais. assegura o tônus geral (vigília) do córtex e a possibilidade de duradoura conservação dos vestígios da excitação. temporal e occipi-tal) e. sendo que as extremidades corticais do analisador visual estão situadas na região occipital. as auditivas na região temporal e as táteis na região tátil-cinestésica. Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes dos respectivos aparelhos receptores. Nas seções mais complexas dessas zonas eles se reúnem.Deste modo. o primeiro bloco do cérebro de cuja composição fazem parte os aparelhos do tronco superior. essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. auditiva e tátil. sendo um sistema de dispositivos centrais que registra a informação visual. processam-na ou "codificam-na" e conservam na memória os vestígios da experiência adquirida. está relacionado com o recebimento. tem caráter modal-específico. elaboração e conservação da informação Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não participa do recebimento e processamento da informação nem da elaboração dos programas de comportamento. noutros termos. aonde 100 . diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco. sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais complexas. Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções posteriores do córtex cerebral (áreas parietal. o processamento e a conservação da informação recebida pelo homem. O funcionamento desse bloco não está relacionado especialmente com os outros órgãos dos sentidos e tem caráter "modal-não-específico". Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extremidades centrais (corticais) dos sistemas perceptivos (analisa-dores). Como todas as outras regiões do novo córtex. da formação reticular e do córtex primitivo. Bloco do recebimento. distinguindo-se e sepa-rando-se aqui indícios isolados da informação visual. auditiva e tátil afluente. A mais desenvolvida nessas zonas é a seção IV do córtex.

denominado "corpo caloso". Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção e denominadas zonas secundária? ou de projeto e associação. integrante da composição do bloco por nós examinado. instalando-se na VI as projeções das células vegetativas. que constituem o aparelho principal de transmissão das excitações de uns neurônios a outros. que são denominadas zonas primárias ou de projeção. Nas zonas corticais aonde chegam diretamente as fibras vindas dos órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-corticais). Como mostraram as pesquisas. deste modo. que têm a forma de pequenas pirâmides ou células asteróides. as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas.hemisférios fica desconexa e os dois hemisférios começam a funcionar isoladamente. transferem-se ali para os neurônios de ação curta. Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si por um feixe especialmente potente de fibras transcorticais. que servem de aparelhos de transferência das excítações para células associativas mais complexas. Algumas fibras descem diretamente para a seção V do córtex. que chegam dos órgãos sensitivos à seção IV do córtex. a posição de maior destaque cabe à seção IV receptora das células. é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex ■cerebral. que contactam o córtex com as formações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas isoladas do córtex a outras regiões corticais (tecidos transcorticais) . As fibras se dirigem de algumas dessas células para a periferia e. auditivo ou tátil às zonas primárias (ou de projeção do córtex) é aqui fracionada em grande número de indícios que a compõem. Grande parte das células associativas ou células de ação curta. Toda a substância branca situada sob o córtex é constituída de fibras longas. que contactam as áreas contíguas do* córtex. Isto se deve a que nessas . As seções I e VI não examinadas têm importância especial: na I estão instaladas as ligações horizontais "transcorticais". está situada nas seções II e III do córtex. a informação que chega do receptor visual. Aqui elas se transferem para outros neurônios. Quando se corta o corpo caloso. O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-tical. fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais simples.chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos periféricos. onde estão instaladas as células piramidais (motoras). parte considerável dos grandes . Outros tecidos. que contactam o córtex com as áreas profundas do encéfalo.

101 .

essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. ao contrário. como mostraram pesquisas de alguns fisiologistas. respondem somente a alguns indícios particulares das instigações. surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas. que se espalha a fundo nas zonas contíguas. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários. táteis). do receptor periférico. auditivos. Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos. com elevadíssima especialização. porém. sendo que alguns deles têm inclusive caráter multimodal. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente a exci- . Eles não reagem a indícios isolados divididos. acessível à organização posterior. existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal). etc. Essas mesmas células. que. A importância dessas zonas secundárias parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis. a irritação das zonas primárias com estricnina. depositada num pedaço de papel. na zona de projeção do córtex occipital (visual) há neurônios que só reagem ao movimento do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro. Assim. A maioria esmagadora dos neurônios componentes dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de associação). reagindo a instigações de diversas modalidades. À diferença das zonas primárias do córtex. Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch. via de regra. eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex. Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados e os transforma num mosaico funcional das instigações. às linhas quebradas agudas. só às linhas curvas harmoniosas. Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e associação.zonas de projeção do córtex estão instalados neurônios altamente especializados. a irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação. a todo um complexo de instigadores específico-modais (visuais. mais amiúde.

102 .

Foerster. etc). etc. Penfield) chegarem a uma conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. feras. É sabido que o córtex do cérebro. irritando partes isoladas do córtex. For isto que pesquisadores (O. 103 . Assim. a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma definida (borboletas. Resultados análogos são obtidos com a irritação do córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou sons isolados.). Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e aqueles indícios específico-modais (visuais. "bolas luminosas". Poetzl e W. No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e secundárias do córtex. passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex. táteis). razão por que as cirurgias cerebrais podem ser feitas sem anestesia. noutros termos. Como mostraram as pesquisas. as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida". etc.tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos inteiros de neurônios. "chama". é por si mesmo indolor. Diferentemente disto. exercem a função de fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida. garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex. ao passo que as zonas visuais dessas mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração complexa da informação que chega ao sujeito. esse órgão superior da sensibilidade. permitiu aos O. A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. podem-se observar as reações do doente. a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes (alucinações). rostos conhecidos. auditivos. Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e secundárias (de projeção e associação) do córtex.

Assim. cruzando-se no tronco do encé-falo. destruídas por processo patológico. do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras. sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna. a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de sensações visuais ou auditivas. é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. Assim. não estão distribuídas por acaso mas dispostas em ordem rigorosa. ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério oposto. Ao contrário. é de importância especial o fato de que a área. os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas inferiores do corpo. estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente determinado do córtex de projeção. a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região provoca as mesmas sensações no braço oposto. que surgem como resultado da influência irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral. da boca e dos lábios. aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores periféricos. Deste modo. e a situada nas partes . Isto significa que as fibras nervosas. Isto garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação central. chegam às zonas superiores da circunvolução anterior central do hemisfério oposto. que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. ao passo que as projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador). uma cicatriz localizada nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento" na extremidade inferior do lado oposto. são muito grandes. ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do corpo.As' zonas primárias do córtex. a área ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante. apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. O típico para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos. que chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal (póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo.

inferiores 104 .

No entanto ele não tem qualquer validade para a avaliação do funcionamento dos campos corticais secundários. projetam-se em trechos absolutamente determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual). os campos corticais secundários do bloco por nós examinado asseguram a síntese das excitações que chegam ao campo primário. Como já foi dito. Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de determinadas superfícies sensíveis (receptoras) em certas áreas dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite usar os sintomas de queda da sensibilidade em determinadas áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) caracteriza a organização funcional dos campos corticais primários. enquanto correspondentes aos tônus os baixos. que podem ser o início (aura) de acessos epilépticos. A consideração dos referidos fatos da estrutura somatotópica das zonas primárias do córtex é de grande importância prática. pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem de importante indício diagnóstico para a atividade tópica de suas afecções. levadas a coincidirem com determinadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da per- . a irritação de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em determinadas áreas do campo visual. resultando que a afec-ção de determinadas áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual. O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam excitação. eles substituem o princípio de projeção somatotópica por outro princípio: o da organização fundamental das respectivas excitações. "codificando-as". que corresponde a tônus elevados. projetam-se nas áreas laterais do córtex. Assim. primária do córtex. que constituem partes do campo visual. O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. as fibras que vão de áreas isoladas da retina. projetamse nas áreas internas da zona auditiva tecidos que implicam excitações.do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto. Por isto a irritação desses setores do córtex ou de suas vias condutoras provoca sensações auditivas correspondentes. Por isto a destruição dessas zonas não leva a ocorrências de quedas de sensibilidade.

105 .

As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas mais tardias da escada filogenética e são. Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciárias do córtex (ou "zonas" de cobertura das extremidades corticais de determinados analisadores). conhecida na clínica pela denominação de "agnosia". não surgem quaisquer reações sensitivas ou observações. sua afecção não provoca a queda da sensibilidade visual. Ainda voltaremos a abordar a análise desses fenômenos quando analisarmos os processos de percepção. As zonas terciárias das áreas posteriores do córtex cerebral estão situadas nos -limites da região parietal. mas suscita uma desintegração geral no funcionamento desse ou daquele analisador. Pela estrutura histológica. Como mostrou o anatomista alemão P. A importância dessas áreas do córtex . essas zonas pertencem àquelas em que predominam inteiramente as camadas II e III de células de associação. Quando elas se irritam. As zonas terciárias do cóitex cerebral amadurecem só muito tardiamente.cepçao. formações especificamente humanas. auditiva ou tátil. ao passo que no homem elas ocupam parte considerável das áreas posteriores do córtex. a qual se manifesta na complexa decodificação da informação que chega ao sujeito. leva à perturbação das formas complexas de percepção visual. na ontogênese. As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam os aparelhos corticais do bloco em análise. que consistem na unificação da informação que chega de diferentes analisadores ao córtex cerebral. Flechsig. sendo apenas esboçadas no macaco. occipital e temporal e compreendem os campos 39. auditiva ou tátil. 37 das áreas parietais inferiores do córtex. o processo de revestimento dos tecidos que surgem nessas zonas — a mielina. que começam a funcionar mais tardiamente. Até nos carnívoros as zonas corticais de certos analisadores estão em contato direto umas com as outras. sumamente importantes para garantir as formas mais complexas de funcionamento desse bloco. noutros termos. até certo ponto. Isto se refere às suas funções básicas. 40. Tudo isso mostra que as zonas terciárias ou "zonas de cobertura" são as áreas do córtex cerebral mais jovens. que os torna aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do que em outras zonas.

106 .

Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores do encéfalo e seus lobos frontais. pode ser vista analisando-se os comportamentos dos doentes com afecção dessas áreas do córtex cerebral. acompanhar as ações em curso. predominando a dificuldade de unificar em esquema espaciais simultâneos as irritações sucessivas que chegam ao encéfalo.para a unificação da informação. entender a posição dos ponteiros do relógio e correlação dos países no mapa geográfico. A atividade consciente do homem apenas começa com a obtenção da informação e sua elaboração. capaz de criar e manter as necessárias intenções. não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo. subtrações e divisões rápidas e começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação das complexas estruturas gramaticais e de operações lógicas que incluem relações complexas. Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são um importante aparelho. comparando o efeito da ação exercida com as intenções iniciais. realizá-los nos devidos atos e. Distiguindo os objetos e sons visualmente perceptíveis. regulução e controle da atividade O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação. a regulação e o controle do desempenho ativo do homem. elaborar programas de ação a elas correspondentes. que chega de analisadores isolados. cabendo nele posição dominante as seções frontais do encéfalo. 107 . confundem a direção. do respectivo programa de ação e com a realização desse programa em atos exteriores (motores) ou interiores (mentais). o que é de suma importância. Para isto é necessário um aparelho especial. os doentes começam a sentir dificuldades de orientar-se no espaço. Esses pacientes ficam sem condições de fazer operações matemáticas que exigem tomar como orientação a ordem numérica. Via de regra. indispensável para as formas mais complexas de elaboração e codificação da informação recebida. terminando com a formação das intenções. fi integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes hemisférios. O bloco da programação. surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codificação mais complexa da informação recebida.

particularmente por sua região frontal. se o córtex das áreas posteriores do encéfalo apresentava • como característica raias transversais. Como os sistemas das áreas posteriores do córtex. no córtex das áreas anteriores (especialmente em sua zona primária) predomina a camada eferente de células com as grandes pirâmides. Como as áreas posteriores. manteremos no exame das zonas primárias do cérebro a mesma ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarquicamente organizadas das áreas posteriores do córtex. sendo importante que aqui estão poderosamente representados tanto as fibras ascendentes como as descendentes da formação reticular. provocando movimentos correspondentes. as áreas anteriores têm as mais estreitas ligações com as formações subjacentes da formação reticular. mudando-a de conformidade com as intenções formadas no córtex.Pelo caráter de sua estrutura. mais acima estão situadas as formações do córtex propriamente frontal ou região pré-frontal (áreas 9. fazendo-os chegar aos músculos dos braços e assim provocando os movimentos correspondentes cujos programas foram preparados por todo o córtex cerebral. que acompanham os impulsos formados nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam o estado geral da atividade do organismo. 10.área de Brodmann). cujas ações levam à periferia os impulsos formados. o córtex das * áreas anteriores se caracterizava por raias verticais. sobre a qual está construído o campo pré-motor secundário (6^ área de Brodmann). o que sugere o caráter motor das estruturas nele dominantes. Se no córtex das áreas posteriores do encéf alo (principalmente enx suas zonas primárias) predomina a camada IV (aferente) de células. Por uma questão de simplicidade da nossa exposição. É zona primária ou de projeção das áreas anteriores do encéfalo a circunvolução central anterior ou a região motora do córtex (4?. 108 . 46 de Brodmann). 11. as áreas anteriores do córtex distinguem-se substancialmente das posteriores. as áreas anteriores têm estrutura hierárquica com a única diferença de que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras (aonde chegam os instigadores que atingem o encéf alo) mas as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas dirigem esses impulsos para a periferia.

descem. tanto maior território ocupa sua projeção na zona motora primária do córtex. De acordo com isto.Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como característica a "estrutura de raias verticais" já referida. que. a afecção das áreas médias leva à paralisia do braço oposto. as estruturas celulares de cada uma das referidas zonas difere muito uma. quanto mais dirigível deve ser o respectivo grupo muscular. as gigantescas pirâmides das zonas médias levam esses impulsos aos músculos das extremidades superiores. da cabeça e do rosto. indicando o lugar da cicatriz. os campos motores primários do córtex têm precisa estrutura somatotópica: as gigantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os impulsos motores aos músculos das extremidades inferiores do lado oposto do corpo. Como nas zonas sensórias de projeção. provocam contração ou convulsões das partes correspondentes do corpo. Como outras zonas de projeção. que tem em sua composição a 6? área . as células piramidais das zonas inferiores desse campo levam os impulsos aos músculos do pescoço. O córtex primário ou de projeção está situado em forma de uma faixa longa nos limites da circunvolução anterior central. Essa organização somatotópica da circunvolução central anterior e suas vias condutoras é de suma importância para o diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das áreas superiores dessa região cerebral ou de suas vias condutoras leva à paralisia na perna oposta. A. Bets. a afecção das áreas inferiores leva à paralisia ou paresia dos nervos do lado oposto do rosto. chegam aos cornos anteriores da medula espinhal e são portadores de impulsos motores que. o território do campo motor primário representa os respectivos grupos musculares não pelo traço geométrico mas pelo funcional. das outras. razão por que o caráter da aura (período inicial dos acessos epilépticos que surgem em casos semelhantes) é de grande importância diagnostica. as cicatrizes situadas nessas áreas do córtex. em suma. passando no tronco cerebral para o lado oposto. e que o irritam. Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se a região prémotora. predominando nele a camada eferente constituída de gigantescas células piramidais. descobertas pelo anatomista russo V. levam a conhecidos grupos musculares. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos axônios.

109 .

com a afecção dessa zona surgem perdas da transferência harmoniosa de um elo a outro. com a irritação da zona pré-motora do córtex. 10. que garante ativos movimentos harmoniosos dos olhos. integradas pelas áreas 9. Com sua afecção. Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do córtex frontal ou região pré-frontal. 11 e 46 de Brodmann. que acompanham os objetos em movimento. perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos. em particular. de estrutura inteiramente diferente. aqui o princípio da projeção somatotópica está incomparavelmente menos representado do que na zona motora de projeção. não surgem contrações de grupos musculares isolados mas complexos movimentos conjuntos (viradas da cabeça e dos olhos. Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à 8^ área de Brodmann. A zona pré-motora do córtex adquire importância especialmente grande para a criação de habilidades motoras. assegura a transferência harmoniosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros. À diferença da zona motora de projeção. garantindo a execução de complexas melodias motoras. À diferença da zona motora e pré-motora. que é um centro anterior de movimentação dos olhos. Ela apenas se esboça . nas quais um elo motor deve ser harmoniosamente substituído por outro. estando toda a massa cortical ocupada por células de pequenos axônios e células asteróides cujos corpos são muito pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região préfrontal é às vezes chamada de "córtex frontal granular"). Por isto a afecção da zona pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em determinados grupos musculares. a perturbação das "melodias ciné-ticas" ou habilidades motoras. movimentos de agarramento com os braços). em outros termos.de Brodmann. Essa região prepara o lançamento dos impulsos motores e cria a "melodia cinética" que põe em funcionamento as "teclas" da zona motora do córtex. A importância da zona pré-motora do córtex (ou "campo motor extrapiramidal") consiste em que ela cria condições para o funcionamento sistemático do aparelho motor e. essas áreas do córtex não têm entre seus componentes grandes células piramidais. ou seja. £ por isto que. mantém-se os movimentos refletores dos olhos. nessa região pré-motora predominam pequena^ células piramidais das camadas II e III do córtex. células essas que desempenham papel de projeção e associação.

nos vertebrados. ocupa lugar relativa110 .

nela se desenvolvem. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter permanentemente o tônus do córtex por meio de tecidos básicos. Essas ligações são especialmente significativas nas regiões mediais e basais dos lobos frontais. que os contactam com as formações subjacentes do tronco. não provocava paralisia. que cria complexos programas de comportamento. A questão mudou substancialmente quando os pesquisadores passaram a enfocar o cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo. cálculo complexo) surgem nos . Por último. ocupando pelo tempo de maturação um dos últimos lugares no mapa de mieíinização de Flechsig. À luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem maior a função do cérebro. Por isto o córtex pré-frontal pode ser considerado formação especificamente humana. como já dissemos anteriormente. Como mostraram os estudos. regula a ocorrência de atos motores e exerce controle sobre estes. em cada tensão intelectual (expectativa do sinal. concomitantemente com as fibras ascendentes da formação reticular. os lobos frontais do encéfalo se constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel ativador. Isto dava a alguns autores fundamentos para considerar as regiões frontais do córtex cerebral como "zona muda" sem quaisquer funções especiais. o que é de suma importância. desenvolvendo-se poderosamente apenas no homem. no qual representa quase um terço de toda a massa dos hemisférios. A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é muito grande para a organização do comportamento. Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final da ontogênese. Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as funções dos lobos frontais do encéfalo nos conceitos clássicos do raio refletor. a afecção dos lobos frontais do encéfalo não levava a nenhuma perturbação dos movimentos elementares. Dotados de poderosas ligações com a formação reticular ascendente e a descendente.mente pequeno nos macacos. as regiões pré-frontais do córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas subjacentes da formação reticular. distúrbios da sensibilidade nem perturbação da fala. com força especial as fibras da formação reticular descendente. embora durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição científica precisa.

que se esten111 .lobos frontais do cérebro ondas lentas especiais.

indispensável para a realização da tarefa colocada. . que provoca tensão. O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo. então esse estado persistente de elevada ativação não surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afecção dos lobos frontais do encéfalo (especialmente das suas. orientada pela tarefa colocada. as regiões frontais do encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de programas de ação que concretizam essas intenções. O trabalho intelectual tenso. regiões mediais e basais. substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhantes. esses pontos de funcionamento sincrônico se conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este cessa. leva nos sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos de ativação (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-gicas). N. foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou traumas) dos lobos frontais do encéfalo. dificultando-lhe o cumprimento adequado. provoca nos lobos frontais um elevado número de pontos de funcionamento conjunto. Como mostrou o cientista soviético M. manter os programas complexos de ação. Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal. provocado pela instrução do discurso ou uma tarefa intelectual. que continuam a reproduzir-se independentemente da tarefa colocada. dotadas de ligações sobretudo potentes com a formação reticular ativante). Ao manter o tônus do córtex. É natural que a atividade intelectual organizada. D. Livanov. que exige elevado tônus do córtex. que se excitam sincronicamente. inibir os impulsos não-correspondentes aos programas e regular a atividade sujeita a esses programas.dem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da expectativa" pelo fisiologista inglês Walter Gray. Chomskaya mostraram que se a instrução do discurso. Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos lobos frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar solidamente as intenções. ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos. Eles não podem concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou' e fogem facilmente ao seu cumprimento. Os experimentos da psicóloga soviética E.

aqui os planos com112 .é substancialmente perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro.

a diferença entre os dois hemisférios ser muito insignificante. Ao que parece. só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da fala. Contudo essa descrição deve ser completada com mais um princípio. Apesar de. O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse trabalho estar estreitamente ligado à fala. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha papel dominante nos destros. Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes. Isto dá fundamento para considerar que os lobos frontais são importante componente do mecanismo do "aceptor de ação" (P. as partes inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e panetal) estão relacionadas com 113 . A. O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade do cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. o hemisfério esquerdo) é dominante e o outro. É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na realização do controle permanente da atividade em processo. enquanto nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa para o hemisfério direito. que serve de base ao funcionamento do cérebro humano. dominado. Os pacientes com afec-ção dos lobos frontais do encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção inicial. perdem a atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los.plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. o caráter dominante do hemisfério esquerdo começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como executor do papel principal na atividade de trabalho. em termos morfoló-gicos. Luria e L. S. Tsvetkova). no homem um deles (via de regra. Anokhin) que desempenha papel de suma importância na garantia da atividade auto-reguladora do homem.

o discurso receptor (diferença dos sons da fala. da escrita e. em alguns casos. O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal dos processos da fala. De modo diferente. etc. É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização dos nomes necessários. as afecções de áreas análogas do hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem. formação de articulações da fala e codificação do discurso falado. É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-te) não provoca tais distúrbios. à perturbação da leitura. sendo as áreas inferiores da zona pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em complexas "melodias cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões terciárias do córtex. Como mostraram observações clínicas. a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ("afasia motora aferente"). provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada "afasia seri-sória"). Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento . da fala independente organizada. a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das articulações precisas ("afasia motora aferente").do cálculo. a desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos processos intelectuais ("afasia semântica"). É por isso mesmo que a afecção das áreas posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de distinguir os complexos sons da fala.. que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais). a afecção das regiões do córtex cerebral. a integridade do hemisfério esquerdo é importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com o discurso falado. provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia). Assim.

transcorre de modo 114 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful