Você está na página 1de 24

Faculdade Redentor

Pós-Graduação em Arqueologia Brasileira

Antonio Carlos de Souza Silva

Arqueologia da paisagem:

Elementos naturais como possíveis indicadores de sítios arqueológicos

Belford Roxo

2012

Faculdade Redentor

Pós-Graduação em Arqueologia Brasileira

Antonio Carlos de Souza Silva

Arqueologia da paisagem:

Elementos naturais como possíveis indicadores de sítios arqueológicos

Trabalho de conclusão de curso para obtenção da certificação de especialista em arqueologia brasileira pela Faculdade Redentor, tendo como área de concentração a Arqueologia da Paisagem, orientador Dr. Ondemar Dias.

Belford Roxo

2012

Resumo

Uma das etapas mais importantes da pesquisa arqueológica é o levantamento sistemático de campo ou prospecção não intrusiva. Nesta etapa onde o profissional de arqueologia percorre a área com a finalidade de identificar sítios arqueológicos o conhecimento do ambiente pode ser extremamente importante para facilitar o trabalho e colaborar para um melhor resultado deste. Em algumas pesquisas da arqueologia de contrato a maioria dos sítios somente são identificados após a intervenção no local por máquinas pesadas dos construtores, geralmente causando impacto aos sítios e seus artefatos. A observação e interpretação da paisagem podem auxiliar na identificação destes possíveis sítios arqueológicos, onde o relevo, a vegetação nativa ou exótica, o tipo de solo exposto e a presença de água podem vir a se tornar indicadores de sítios arqueológicos, evitando, assim, danos ao patrimônio arqueológico.

Abstract

One of the most important stages of archaeological research is the systematic collection of field or prospecting nonintrusive. At this stage where professional archeology covers the area in order to identify archaeological knowledge of the environment can be extremely important to facilitate the work and contribute to a better outcome this. In some research contract archeology most sites are identified only after the intervention in place for heavy machinery manufacturers, generally impacting the sites and their artifacts. The observation and interpretation of the landscape can help identify these potential archaeological sites, where the terrain, vegetation native or exotic, the kind of exposed soil and the presence of water may well become indicators of archaeological sites, thus avoiding damage to property archaeological.

Palavras chave:

Arqueologia, meio ambiente, levantamento de campo.

SUMÁRIO

 

1 - Introdução

6

2 - Arqueologia e Meio Ambiente

7

3 - Sítios arqueológicos

7

4

-

Levantamento sistemático de campo

8

5 - Aspectos geográficos

9

 

5.1

Relevo

9

6 - Aspectos pedológicos

11

 

6.1

- Coloração do solo “Terra preta”

11

7 - Aspectos florísticos

13

 

7.1 - Exemplos de plantas exóticas encontradas em sítios arqueológicos

13

7.2 - Exemplos de plantas nativas encontradas em sítios arqueológicos

15

8 - Disponibilidade de água

18

9 - Biomas

 

18

 

9.1 - Manguezal

19

9.2 Restinga

19

9.3 - Floresta atlântica de terras baixas e alto montana

20

10 Considerações finais

21

11 - Referências bibliográficas

22

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Vista da área dos sítios Pau Cheiroso (Seropédica) 1 e Nazare II 2

10

Figura 2 - vista do resgate no sítio aldeia de Itaguaçu II e aldeia de Itaguaçu I ao

11

Figura 3 coleta de material em superfície nas manchas de terra preta do Sítio Rancho Alegre

13

Figura 4 Árvores exóticas 1. Jaqueira, 2. Palmeira Imperial, 3.Mangueira e 4.Agave verde.

 

15

Figura 5 Jabuticabeira junto as ruínas de uma fazenda em Rio Claro

16

Figura 6 – Vista da estrutura do Sitio Nazaré II com Arvore Pau D’alho ao fundo

17

Figura 7 localização de Sitio nas margens do rio Guandu

18

Figura 8 vista do Sitio Duna de Itaipu em Niterói

20

Figura 9 abrigo sob rocha no sítio Sambaqui do Caranguejo em Mangaratiba

21

6

Arqueologia da paisagem:

Elementos naturais como possíveis indicadores de sítios arqueológicos

1 - Introdução Este trabalho consiste na análise da observação de características bióticas e

abióticas de áreas onde são identificados sítios arqueológicos e na avaliação para

verificar se elementos naturais podem vir a se tornar referências de ocorrência de

sítios arqueológicos históricos e pré-históricos. Para isto, foi realizada uma pesquisa

em relatórios de sítios arqueológicos pesquisados em várias regiões do estado do

Rio de Janeiro. A geografia da região, o extrato arbóreo/arbustivo, a coloração do

solo e ainda a disponibilidade de água dessas áreas foram analisadas e comparadas

em diversos sítios com a finalidade de confirmar ou descartar a hipótese de estes

serem de alguma maneira, referências para a ocorrência de sítios arqueológicos,

com o intuito de auxiliar pesquisadores nas etapas de levantamento sistemático de

campo e prospecção arqueológica.

Em conversas com experientes arqueólogos o autor deste artigo sempre

ouviu falar de “feeling arqueológico” de alguns profissionais da arqueologia.

Certamente não se pode descartar esta hipótese, entretanto, em que se baseiam

estes profissionais e qual seria o método utilizado? Esta pergunta pode ter a

seguinte resposta: A observação do meio ambiente da área a ser pesquisada.

Algumas perguntas durante a observação podem ser feitas, como por

exemplo: Porque este seria um bom lugar para o homem viver? Quais as

Vantagens? O que ele teria modificado no local? Essas perguntas são

imediatamente respondidas se o pesquisador tiver algum conhecimento sobre a flora

e a pedologia, matérias das Ciências Naturais e Geologia respectivamente. Tendo

como base que o homem habitaria sempre um local seguro e com recursos para sua

subsistência fica ainda mais fácil observar e identificar esses locais e nunca pensar

em descarta-los durante a pesquisa.

A etapa da pesquisa arqueológica chamada de caminhamento ou

levantamento sistemático de campo não intrusivo é o momento no qual o

pesquisador percorre a área a ser impactada pelo empreendimento, em casos de

arqueologia de contrato, com a finalidade de verificar seu potencial arqueológico.

Nesta etapa os pesquisadores somente verificam a ocorrência de artefatos em

7

superfície, em uma área geralmente coberta por algum tipo de vegetação. Se a

análise proposta for positiva, considera-se pertinente a análise do meio físico

durante essas atividades.

2 - Arqueologia e Meio Ambiente Segundo Rahtz (1989), ”arqueologia é o estudo da cultura material em

se ocupa também do ambiente em que

o gênero humano se desenvolveu e no qual o homem ainda vive”. A partir desta

definição não se pode dissociar o estudo da arqueologia do estudo do meio

relação com o comportamento humano

ela

ambiente. Ainda segundo este mesmo autor,na mesma publicação, o mais notável

arqueólogo europeu Eric Highs iniciou na arqueologia uma nova abordagem, com

base na devida apreciação da interação do homem com seu ambiente. Mais adiante

o autor continua:

“É importante para o arqueólogo compreender o ambiente e a interação do

homem com esse ambiente. Podem-se observar as formas do solo, a geologia, a

água e o clima, e notar as maneiras como a qualquer tempo esses elementos

determinam os recursos disponíveis numa área, as estratégias de sobrevivência e o

tipo de excedente que estará provavelmente disponível para a troca por coisas que

não podem ser produzidas no local.” (Rahtz, 1989).

Já nos anos 80 do século passado arqueólogos consideravam a importância

da análise do meio ambiente em suas pesquisas. Esta prática, entretanto, não foi

seguida por alguns discípulos por motivos diversos. É o que se verifica na atual

situação onde diversos sítios arqueológicos somente são identificados nas etapas de

prospecção e monitoramento. É evidente que os vestígios que identificam os sítios

arqueológicos em sua maioria se encontram em subsuperfície, porém levar em

consideração os aspectos físicos bióticos e abióticos da área a ser pesquisa pode

promover um resultado bastante significativo. É claro que nem sempre em locais

onde ocorram tais elementos que vamos discorrer adiante existam vestígios

arqueológicos, porem a possibilidade de ocorrência não é descartada.

3 - Sítios arqueológicos

Entre várias definições podemos destacar a de que Sítios Arqueológicos são

os locais onde se encontram vestígios da vida e da cultura material dos povos do

8

passado, esses vestígios podem ser móveis (objetos) ou imóveis (estruturas).

Podem ser subdivididos em diversas categorias de acordo com seu uso, sua

localização e sua temporalidade como definidos nos exemplos a seguir (Cadernos

de Arqueologia, ano I, N1, 1976):

Sítio acampamento ou de passagem - são aqueles com indícios de permanência

temporária ;

Sítio cerimonial - local onde foram encontradas apenas evidências de práticas

religiosas ou sociais;

Sítio habitação local com vestígios de permanência prolongada;

Sítio oficina local onde foram encontradas evidencias de fabricação de artefatos.

Sítio arqueológico pré-histórico - é um sítio arqueológico, resultado da ação das

antigas populações residentes no Brasil (até 5 mil anos atrás). Podem ser ainda

subdivididos em sambaquis, pinturas rupestres, cerâmicos e líticos.

Sítio arqueológico histórico são todos os locais que reúnem vestígios significativos

da cultura material, remanescente da passagem e/ou assentamento de populações

imigrantes, a partir do século XVI.

4 - Levantamento sistemático de campo “Um aspecto importantíssimo no trabalho de prospecção é a tomada de

consciência de que o trabalho está permanentemente incompleto e que qualquer

individuo nunca consegue fazer o levantamento completo, pois tem determinadas

predisposições que não lhe permitem ver, ou que lhe truncam a realidade

observável” (BICHO,2006. p.90). Diante desta afirmação acredita-se que qualquer

informação, método ou prática que auxilie o pesquisador vem a colaborar

positivamente para a realização da atividade.

De acordo com a legislação do IPHAN, a portaria 230/2002 exige a pesquisa

de campo através de levantamento inicial para a liberação da licença prévia

(EIA/RIMA) conforme descrito no artigo a seguir:

Art. 2 - No caso de projetos afetando áreas arqueologicamente

desconhecidas, pouco ou mal conhecidas que não permitam inferências sobre a

9

área do empreendimento, deverá ser providenciado levantamento arqueológico de

campo pelo menos em sua área de influência direta, este levantamento deverá

contemplar todos os compartimentos ambientais significativos no contexto geral da

área a ser implantada e deverá prever levantamento prospectivo de sub superfície.

Mesmo O IPHAN exigindo prospecção interventiva nesta etapa ainda ocorre o

caminhamento em etapa anterior onde toda a área deve ser vistoriada e demarcada

para posterior prospecção interventiva.

5 - Aspectos geográficos

5.1 Relevo A análise da geografia da área, mais especificamente o relevo pode se tornar

um forte aliado para a identificação de sítios arqueológicos. Áreas possivelmente

inundáveis, com fácil e médio acesso, morrotes e elevações com boa visibilidade do

entorno devem receber maior atenção durante a pesquisa. O que pode ser analisado

pelo pesquisador é se de alguma maneira o local seria possível de ser habitado pelo

homem, já que o instinto humano não sofreu mudanças tão radicais durante os

tempos.

Como exemplo de sítios arqueológicos identificados com estas características

temos os sítios históricos Nazaré II e Pau Cheiroso (posteriormente renomeado para

Sítio Seropédica), ambos localizados no município de Seropédica, na região da

Baixada Fluminense no Rio de Janeiro, durante as Obras do Arco Metropolitano por

pesquisadores do IAB Instituto de Arqueologia Brasileira.

O Sítio Nazaré II pertencente a categoria de sitio histórico se encontra numa

elevação de aproximadamente 30 metros de altitude de fácil acesso, com boa

visibilidade da região ao entorno (ver figura 1). Ao redor, se encontra uma planície

onde ocorrem lagos perenes e sazonais e ainda um rio (Guandu) que teve seu curso

modificado por processo antrópico. Ao observar a esta elevação entre as demais

existentes nas proximidades o pesquisador encontrou fragmentos de material

histórico em superfície e estruturas de pedra, e assim, registrou o Sítio segundo

ficha enviada ao IPHAN.

O sítio denominado Pau Cheiroso (Seropédica), localizado na região de

mesmo nome, também pertence a categoria de Sítio Histórico. Este foi encontrado

10

através de caminhamento nas proximidades da área do empreendimento supra citado numa pequena colina de onde se observa toda a região e seus principais acessos, o pesquisador encontrou estruturas de pedra, cerâmicas e louças em superfície, parcialmente encobertas pela vegetação de pastagem. É considerado um dos maiores sítios da região e ainda se encontra em estudo pelos pesquisadores do IAB Instituto de Arqueologia Brasileira.

do IAB – Instituto de Arqueologia Brasileira. Figura 1 - Vista da área dos sítios Pau

Figura 1 - Vista da área dos sítios Pau Cheiroso (Seropédica) 1 e Nazare II 2.

Historicamente têm-se informações de que as sedes das antigas fazendas da região da Baixada Fluminense eram erguidas sobre elevações, assim confirmadas pelos vestígios arqueológicos encontrados nos diversos sítios identificados na região. Não se pode descartar, no entanto a ocorrência de sítios pré-históricos de origem Tupi nestas mesmas configurações de relevo, pois estes também necessitavam de lugar seguro, conforme os Sítios denominados Aldeia de Itaguaç I e II nesta mesma região, porém em terras atualmente pertencentes ao Município de Japeri., implantados sobre colinas com altura máxima de 70 metros. (ver figura 2)

11

11 Figura 2 - vista do resgate no sítio aldeia de Itaguaçu II e aldeia de

Figura 2 - vista do resgate no sítio aldeia de Itaguaçu II e aldeia de Itaguaçu I ao fundo.

6 - Aspectos pedológicos A pedogênese ou formação do solo é estudada pela Pedologia, cujas noções

básicas e conceitos fundamentais foram definidos em 1877, pelo cientista russo

Dokuchaev

Em 1898, Dokuchaev consolidou a concepção de que as propriedades

do solo são resultado dos fatores de formação do solo que nele atuaram e ainda

atuam, a saber: material de origem, clima, organismos, topografia (relevo) e tempo.

base neste conhecimento é possível analisar as diferenças na composição do solo e

ficar atento as mudanças de coloração, de certa forma elas poderão demonstrar a

utilização da área por populações humanas em tempos remotos.

6.1 - Coloração do solo “Terra preta” Embora em meados do século passado existissem posições antagônicas a

respeito da origem das terras pretas, com alguns pesquisadores defendendo para as

mesmas uma origem puramente geológica (FARIA 1946, In KÄMPF e KERN 2005) e

outros atribuindo-lhes uma gênese arqueológica (GOUROU 1950, In KÄMPF e

KERN, op. cit.), a partir dos anos 1960 torna-se praticamente consensual que a alta

fertilidade destes solos deve-se unicamente à ocupação indígena prolongada.

12

Reafirmam esta hipótese a textura, composição da fração argilosa e profundidade do horizonte C das terras pretas, quando comparadas às dos solos adjacentes, e o fato de sua coloração escura ser oriunda de material orgânico decomposto relativo seja a carvão residual de fogueiras domésticas, seja a queimadas para uso agrícola (DENEVAN 2001). Por isso são altos os teores de C orgânico, P, Ca e Mg, formados às custas das cinzas e dos resíduos de peixes, conchas, caça e dejetos humanos (KÄMPF e KERN 2005), além de conterem teores de Zn e Mn mais elevados no horizonte A, em relação aos horizontes subjacentes e aos solos não-antropogênicos da terra firme amazônica (KERN e KÄMPF 1989).

Em termos metodológicos, vale salientar que a fração terra fina (menor ou igual a 2mm), tradicionalmente descartada após o peneiramento e a coleta dos restos culturais, tem recebido a atenção dos arqueólogos envolvidos com sítios possuidores de terras pretas, mediante análises químicas, análises palinológicas, estudos microbiológicos e datações efetuadas em trincheiras em transeções (MORA

2003).

Diante dessas informações a observação do solo no que se refere a sua coloração deve ser bem avaliada durante a pesquisa de campo, podendo ser um referencial de ocupação humana tanto pré-histórica quanto histórica.

A

estratigrafia

do

terreno

pode

ser

visualizada

através

de

barrancos,

depressões e solo exposto por processos naturais ou antrópicos e torna-se uma aliada na identificação de locais habitados em tempos pretéritos.

Como exemplo podemos destacar a identificação do sítio Rancho Alegre pertencente à categoria sítio Histórico também identificado na região de Seropédica no Rio de Janeiro durante a pesquisa arqueológica para a construção do Arco Metropolitano do Rio. Este sítio foi identificado durante o monitoramento arqueológico por pesquisadores do IAB, pois anteriormente estava coberto pela vegetação. Está localizado numa encosta com declive aproximado de 45°, sendo identificadas manchas de terra preta após a supressão da vegetação. Em superfície foram identificados artefatos cerâmicos, louça entre outros materiais que o configuraram como sítio histórico. Durante o resgate em que este autor participou, ficou claro de que se tratava de um depósito de bens inservíveis de uma antiga residência anteriormente localizada no platô acima da encosta.

13

13 Figura 3 – coleta de material em superfície nas manchas de terra preta do Sítio

Figura 3 coleta de material em superfície nas manchas de terra preta do Sítio Rancho Alegre

7 - Aspectos florísticos Ao falar sobre os aspectos florísticos precisaremos recorrer a orientações da

botânica. Alguns grupos humanos adquiriram hábitos e costumes como o manejo de

espécies vegetais típicas da flora brasileira ou trazidas pelos colonizadores.

Primeiramente deve-se entender que espécies nativas são aquelas oriundas do

Brasil de todos os seus Biomas e espécies exóticas são as que foram introduzidas

pelos colonizadores e são oriundas de outros continentes ou países.

7.1 - Exemplos de plantas exóticas encontradas em sítios arqueológicos Palmeira Imperial (Roystonea oleracea) a palmeira-imperial é espécie

exótica, com distribuição do Caribe à Venezuela. Viraram símbolo de poder político,

econômico e social no Brasil. Conquistaram esse status em 1809, quando o príncipe

regente D. João VI as plantou no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Os troncos

altos, de até 32 metros de altura, esbranquiçados e de palmitos volumosos,

transformaram-se em sinônimo de pujança. Muitos outros poderosos da época

plantaram em suas antigas sedes de fazendas que hoje podem ter se tornado ruína.

No entanto, esses belos espécimes vegetais de grande longevidade muitas vezes

permanecem imponentes como testemunho histórico de um rico passado. Como são

fáceis de serem vistas, não se pode deixar de verificar seu entorno, pois podem ser

indicadores de presença humana pretérita.

14

Mangueira (Manguifera indica) É uma árvore de grande longevidade, de copa densa, perene e muito frondosa, que pode alcançar 30 metros de altura. Seu tronco é largo, e apresenta casca escura, rugosa e látex resinoso. As folhas são coriáceas, lanceoladas, com 15 a 35 cm de comprimento. Avermelhadas quando jovens e verdes com nervuras amarelas quando maduras. De floração abundante e ornamental, a mangueira apresenta inflorescências paniculadas e terminais, com flores pequenas e polígamas. Pesquisadores acreditam que seja originária do sudeste da Índia após terem sido descobertos fosseis com cerca de 25 a 30 milhões de anos. Foi introduzida no Brasil pelos portugueses e faziam parte do pomar das grandes fazendas históricas. Como é uma planta muito conhecida, muitos acreditam ser nativa, porem só ocorrem no Brasil após a colonização. Áreas com concentração desta espécie em meio a arvores nativas devem ser verificadas, pois sua dispersão geralmente é feita pelo homem.

Jaqueira Artocarpus heterophyllus - É uma árvore originária da Índia e cultivada em todos os países tropicais do mundo. Trazida da Índia para o Brasil no século XVIII é uma árvore que chega a 20 m de altura e seu tronco tem mais de 1 m de diâmetro. É cultivada em toda região Amazônica e toda a costa tropical brasileira, do Pará ao Rio de Janeiro.

A fruta nasce no tronco e nos galhos inferiores da jaqueira e são formados por gomos, sendo que cada um contém uma grande semente recoberta por uma polpa cremosa. Apresenta cor amarelada e superfície áspera, quando madura. As variedades mais cultivadas da jaqueira são: jaca-dura, jaca-mole e jaca-manteiga.

Relatos de historiadores indicam que mudas de jaqueira eram estrategicamente plantadas em caminhos históricos pelos desbravadores e quando adultas forneciam sombra e frutos para estes. Portanto vale a pena verificar seus arredores em áreas de pesquisa quando se encontrarem árvores muito antigas com troncos espessos.

Agave verde (Furcrarea gigantis) - Nativa da América Central e do Sul, foi introduzida ao Brasil para fins ornamentais. Invade ambientes costeiros e áreas de restinga, estando também presente em clareiras e capoeirinhas de áreas florestais

(fonte: Instituto Horus).

15

Esta planta foi amplamente utilizada em jardins de antigas sedes de fazendas,

como se propaga com facilidade sempre deixa remanescentes no entorno.

Considera-se verificar áreas com ocorrências desta espécie.

verificar áreas com ocorrências desta espécie. Figura 4 – Árvores exóticas 1. Jaqueira, 2. Palmeira

Figura 4 Árvores exóticas 1. Jaqueira, 2. Palmeira Imperial, 3.Mangueira e 4.Agave verde.

7.2 - Exemplos de plantas nativas encontradas em sítios arqueológicos.

(Myrciaria cauliflora) - A jabuticabeira é uma árvore nativa da

Mata Atlântica, conhecida por seus deliciosos frutos. Seu tronco é bastante

ramificado e de casca lisa, que se renova anualmente após a frutificação. Na

primavera surgem do tronco numerosas flores brancas, que cobrem quase toda sua

extensão. Este processo ocorre simultaneamente à queda das folhas, modificando

completamente a aparência da árvore. Após a polinização, as flores gradativamente

vão sendo substituídas por pequenos frutos verdes, esféricos, que tornam-se

vermelhos e depois negros, quando completamente amadurecidos (Jardineiro.net).

Jabuticabeira

Como são árvores de grande longevidade e crescimento lento, é possível

encontra-las em pomares de antigas sedes de fazendas entre as ruínas conforme

verificado na região da Serra do Piloto em Rio Claro no Rio de Janeiro entre as

ruínas de uma antiga fazenda e em sítios históricos do Interior de Minas Gerais

como o Sitio Jambeiro em Paracatu.

16

16 Figura 5 – Jabuticabeira junto as ruínas de uma fazenda em Rio Claro RJ Paineira

Figura 5 Jabuticabeira junto as ruínas de uma fazenda em Rio Claro RJ

Paineira rosa (Ceiba speciosa) - A paineira-rosa é uma árvore bastante popular, e isto se deve principalmente à sua beleza extraordinária e seu curioso fruto. O tronco é cinzento-esverdeado e recoberto de acúleos grandes e piramidais. A madeira da paineira-rosa é bastante leve, mole e pouco resistente, além de não ter boa durabilidade. Pode ser utilizada na confecção de calçados, caixotaria, celulose e artesanato. As folhas são compostas palmadas, com 5 a 7 folíolos. As flores pintalgadas de vermelho, podem se apresentar em diversas tonalidades de rosa, de acordo com a variedade. É uma planta excelente para o paisagismo de grandes áreas, como parques e jardins públicos, devido ao seu rápido crescimento, rusticidade e beleza. A floração é intensa e ocorre no verão e outono, com a árvore semi ou completamente despida de sua folhagem. (Fonte: Jardineiro.net)

Nativa da mata atlântica esta árvore foi bastante utilizada em cidades históricas de Minas Gerais, sendo plantada em laterais de igrejas e sedes de fazendas demonstrando sua imponência. Quando encontrada em áreas descampadas merece atenção o seu entorno, pois possui grande longevidade chegando a passar dos 100 anos.

Pau d’alho (Gallesia integrifólia) - Com altura média entre 15 e 30 metros, esta árvore pode ser considerada robusta. Tanto que seu tronco é largo (gira em

17

torno de 70 a 140 centímetros de diâmetro). Possui ainda folhas glabras (sem pêlo) e brilhantes. E tem com uma característica geral e marcante, o cheiro de alho, em

qualquer parte da planta. (Fonte: www.terradagente.com.br/flora).

Não se sabe o real motivo, mas já foram encontrados nas proximidades de ruínas de antigos casarões exemplares desta espécie como se estivessem sido preservados na época de utilização da área, conforme verificado no sitio Nazaré II em Seropédica (RJ) e no Sítio Ruínas da Fazenda Balsamo Na Serra do Piloto em Rio Claro (RJ).

da Fazenda Balsamo Na Serra do Piloto em Rio Claro (RJ). Figura 6 – Vista da

Figura 6 – Vista da estrutura do Sitio Nazaré II com Arvore Pau D’alho ao fundo

Também é interessante ficar atento a concentração de plantas de porte arbóreo numa mesma área e plantas baixas ou gramíneas ao seu entorno. Esta configuração paisagística pode informar a ocorrência de solo mais produtivo resultante do uso humano. Geralmente ocorre em sítios pré-históricos com aldeamentos e assentamentos históricos.

Árvores frutíferas nativas ou exóticas dispostas em alinhamento também pode ser alvo de pesquisa mais acentuada, pois geralmente foram plantadas por humanos (antropocoria) e não disseminadas por demais processo de dispersão natural.

18

8 - Disponibilidade de água Geralmente uma das primeiras anotações que deve ser feita na caderneta de

campo é o curso d’água mais próximo da área pesquisada. Esta fonte pode

inviabilizar a ocorrência de permanência humana na área se for negativa ou

corroborar para isto se for positiva. Sendo a água um bem extremamente necessário

para a vida, pode-se concluir que quanto maior a disponibilidade nas proximidades

maior será a possibilidade de ocorrência de assentamentos humanos pretéritos na

área.

Um dos exemplos esta nos sítios localizados nas margens do rio Guandu na

Baixada Fluminense (RJ) que mesmo antes da modificação de seu curso natural

apresentava calha e lagos ao entorno das áreas dos sítios pré-históricos Aldeia de

Itaguaçu I e II e históricos como o Nazaré II na mesma região.

I e II e históricos como o Nazaré II na mesma região. Figura 7 – localização

Figura 7 localização de Sitio nas margens do rio Guandu

9 - Biomas Deve-se considerar nesta etapa da pesquisa o tipo de bioma da área a ser

pesquisada, pois alguns são propícios à ocupação humana de antigas populações

como veremos a seguir.

19

9.1 - Manguezal

É considerado um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes

terrestre e marinho. Característico de regiões tropicais e subtropicais, apresenta solo

e vegetação e fauna características. Localizado geralmente em áreas de estuário é

um grande berçário para algumas espécies de moluscos que faziam parte da dieta

de grupos humanos denominados sambaquieiros.

Os sítios de sambaqui são localizados geralmente nas proximidades de

manguezais em áreas mais elevadas, torna-se importante verificar concentrações de

conchas nas suas imediações. Porém também foram registrados sítios de

Sambaquis distantes do nível atual do mar, o que gera questionamentos entre

pesquisadores especialistas.

9.2 Restinga

próximo ao mar

formado pela dinâmica das ondas durante milhares de anos e coberto de plantas

herbáceas características. As restingas se distribuem geograficamente ao longo do

litoral brasileiro, numa extensão de mais de 5000 km, não ocorrendo de forma

contínua, ocupando 79% da costa brasileira. As principais formações ocorrendo no

litoral de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. Um exemplo de restinga

é a Restinga da Marambaia, no litoral do Rio de Janeiro. No Município de Niterói (ver

figura 8 ), Maricá e Cabo Frio, no Rio de Janeiro, já foram registrados diversos sítios

arqueológicos pré-históricos Sambaqui e Itaipu neste bioma.

A restinga pode ser definida como um cordão arenoso

20

20 Figura 8 – vista do Sitio Duna de Itaipu em Niterói RJ 9.3 - Floresta

Figura 8 vista do Sitio Duna de Itaipu em Niterói RJ

9.3 - Floresta atlântica de terras baixas e alto montana

Este bioma ocupa uma área de 1.110.182 Km², corresponde 13,04% do território nacional e que é constituída principalmente por mata ao longo da costa litorânea que vai do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. A Mata Atlântica passa pelos territórios dos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, e parte do território do estado de Alagoas, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe. A Mata Atlântica apresenta uma variedade de formações, engloba um diversificado conjunto de ecossistemas florestais com estrutura e composições florísticas bastante diferenciadas, acompanhando as características climáticas da região onde ocorre. (ibflorestas.org.br/pt/bioma-mata- atlantica.html)

Neste bioma ocorrem formações de cavernas e abrigos formadas por fraturas ou deslocamento de rochas. Nestes locais, na região serrana do Rio de Janeiro, já foram registrados diversos sítios arqueológicos pré-históricos, conforme cadastro do Iphan. Em pesquisa a ser realizada em áreas com estas características torna-se importante a verificação desses locais com bastante atenção.

21

21 Figura 9 – abrigo sob rocha no sítio Sambaqui do Caranguejo em Mangaratiba RJ 10

Figura 9 abrigo sob rocha no sítio Sambaqui do Caranguejo em Mangaratiba RJ

10 Considerações finais De acordo com as informações adquiridas durante os trabalhos de campo

realizados pelo autor em companhia de arqueólogos, além de sua experiência na

formação com ênfase em Meio Ambiente, os ensinamentos recebidos não poderiam

ficar simplesmente guardados. Acredita-se que ao ler este artigo profissionais

iniciantes ligados a pesquisa arqueológica terão mais informações para melhorar

sua performance em atividades de campo e ainda poderão assimilar mais

conhecimentos sobre o meio físico onde estão localizados seu objeto de estudo, os

sítios arqueológicos.

Acreditar que a observação do meio ambiente em todos os seus aspectos

pode auxiliar nas atividades de campo na etapa de prospecção arqueológica é

apenas uma tese que pode ser confirmada ou não por demais profissionais da área.

Entretanto esta é uma colaboração de um profissional das ciências biológicas, a

arqueologia que é uma ciência extremamente interdisciplinar. É evidente que não

ocorrerão artefatos e estruturas arqueológicas em todos os locais com estas

características, porem deixar de verifica-las atentamente pode se tornar um grande

erro durante a pesquisa de campo.

22

11 - Referências bibliográficas

RAHTZ,PHILIP convite a arqueologia / Philip Rahtz; tradução de Luiz Orlando Coutinho Lemos Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.

BICHO, N. Ferreira; Manual de Arqueologia Pre-histórica, Edições 70,

525p,2006.

Cadernos de Arqueologia, ano I, N1, 1976 - terminologia arqueológica brasileira para a cerâmica segunda edição revista e ampliada Museu de Arqueologia e Artes Populares- Universidade Federal do Paraná, Paraná, Brasil.

Relatórios de campo programa de arqueologia do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro , IAB , 2012.

DENEVAN, W.M. Cultivated landscapes of native Amazônia and the Andes. Oxfor, Oxford Univ. Press, 396p, 2001.

KÄMPF, N. e KERN, D.C. O solo como registro da ocupação humana pré- histórica na Amazônia. Tópicos Ci. Solo, 4:277-320. 2005

KERN, D.C. & KÄMPF, N. Antigos assentamentos indígenas na formação de solos com Terra Preta Arqueológica na região de Oriximiná, Pará. Rev. Bras. Ci. Solo, 13:219-225. 1989.

MORA, S. Archaeobotanical methods for the study of Amazonian Dark Earths. In: LEHMANN, J.; KERN, D.C.; GLASER, B. & WOODS, W.I., eds. Amazonian Dark Earth. Origin, properties and management. Dordrecht, Kluwer Academic Publishers, 2003. P.205-225.

http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=337 portaria 230/2002 acessado em 25/12/2012

27/12/2012

http://www.ufjf.br/pavimentacao/files/2009/10/Apostila-Vi%C3%A7osa.pdf

acessado em 26/12/2012