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MUMU, A VACA METAFÍSICA

Tragicomédia em dois atos e oito quadros

Marcílio Moraes

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PERSONAGENS
JEREMIAS
CLOTILDE
BERENICE
PEDRO
ATAÍDE

CENÁRIO
Sala de família classe-média, de época indeterminada. Há uma mesa de quatro
lugares, poltronas, sofá, máquina de costura e objetos diversos. Ao fundo uma
grande porta. À direita, porta para o exterior. À esquerda, corredor para o
interior.

NOTA
JEREMIAS e ATAÍDE serão representados pelo mesmo ator.

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PRIMEIRO ATO – QUADRO I
CLOTILDE, JEREMIAS.
- A cena está vazia e escura. Entra CLOTILDE pela esquerda e acende a luz. Tem o andar lento e a
expressão cansada mas está visivelmente alegre. Traz uma toalha e a estende sobre a mesa. Volta ao
interior e traz dois pratos de sopa e talheres, que arruma cuidadosamente sobre a mesa. Vai ao interior
novamente e traz dois copos e uma moringa. Arruma-os e senta-se numa das cadeiras. Apóia o cotovelo na
mesa e descansa a cabeça na palma da mão. Fica com o olhar perdido e um leve sorriso nos lábios. Após
alguns momentos ouve-se o ruído de chave rodando na fechadura. JEREMIAS abre a porta da direita e
entra. Veste um terno simples e traz um guarda-chuva que coloca cuidadosamente num móvel próprio.
JEREMIAS – (Notando a presença de CLOTILDE.) Você está aí?
CLOTILDE – (Levantando-se.) Já chegou? Vai ter vida longa. Estava pensando em você
agorinha mesmo. Como foram as coisas hoje?
JEREMIAS – Que calvário, mulher. Que calvário. (Ela o ajuda a tirar o paletó, que pendura no
encosto de uma cadeira.)
CLOTILDE – Algum problema?
JEREMIAS – Os mesmos de sempre. Era até melhor que aparecesse um novo, que Deus
me perdoe. Pelo menos a gente se preocupava com uma coisa diferente. (Senta-se à mesa.
Sacudindo a cabeça.) Eu não entendo. Não entendo. Por trás de tudo isso tem que haver uma
coisa dirigindo. Um desígnio. É tanta safadeza, tanta desonestidade, tanta impunidade. Só
os sem-vergonhas que se dão bem, que sobem na vida. Tem que haver um castigo. Tem
que haver.
CLOTILDE – Esquece isso agora. Deus é grande.
JEREMIAS – Põe o jantar. (Ela sai pela esquerda. Ele fica balançando a cabeça e resmungando)
Hum! (CLOTILDE traz uma terrina que coloca sobre a mesa.) Traz o pão. (Ela sai pela esquerda e
volta com dois pedaços de pão num prato. Coloca sobre a mesa. Ele estende o prato e ela serve a sopa.) É o
que eu te digo, mulher. Quem é trabalhador, quem cumpre com seus deveres, quem não se
mete em patifaria... Chega. (Ela serve a si própria e senta-se. JEREMIAS corta um pedaço de pão
com a mão. Comem.) Esse está sempre por baixo. Ninguém reconhece. (Pausa.) Hoje o doutor
Jaime me chamou na sala dele e perguntou: (Arremedando.) seu Jeremias, onde é que o
senhor mora? Já fiquei desconfiado. Quando chefe começa com essas intimidades boa
coisa não é. Eu moro no bairro da Saúva, doutor, respondi. Sabe o que que ele disse? É um
safado mesmo. (Arremedando.) Mas ali é um lugar tão ruim, tão longe, seu Jeremias. Como é
que o senhor agüenta?
CLOTILDE – Falou assim é?
JEREMIAS – Assim como eu estou dizendo.
CLOTILDE – Que coisa, meu Deus.

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JEREMIAS – Agüento porque não sou safado, porque não me meto em patifaria, vivo
com o meu ordenado. Por isso que agüento. É longe, feio, mas só mora gente decente.
Não é como o bairro do senhor não. Bonitinho por fora mas cheio de gente indecente, de
safados, de mulheres desquitadas e outras coisas que nem é bom falar. (Pausa.) Não disse
isso porque afinal de contas ele é meu chefe e a gente tem que respeitar. Mas que tive
vontade, tive. (Categórico.) Não é bairro de rico mas só mora gente decente.
CLOTILDE – Antes fosse, meu velho. Antes fosse. Você nem sabe o que que aconteceu
hoje.
JEREMIAS – Que foi?
CLOTILDE – (Indicando com o polegar e abaixando um pouco a voz.) Imagina que essa sujeitinha
aí do lado teve a petulância de vir bater hoje aqui.
JEREMIAS – (Incrédulo.) Aqui?
CLOTILDE – (Indicando a porta da direita.) Nessa porta que aí está. (Arremedando.) Ah, dona
Clotilde, queria dar uma palavrinha com a senhora.
JEREMIAS – Bateu aqui?
CLOTILDE – É o que eu estou te dizendo.
JEREMIAS – Teve esse descaramento? Depois do que ela fez? Depois que todo mundo
viu ela recebendo um homem em casa? Mas onde é que nós estamos? Este mundo está
pelo lado do avesso mesmo.
CLOTILDE – Contando não se acredita.
JEREMIAS – E o que que ela queria?
CLOTILDE – Aí é que vem o melhor. Você vai cair pra trás.
JEREMIAS – Conta logo.
CLOTILDE – Queria que eu ficasse tomando conta da casa dela, (Arremedando.) porque
vem umas pessoas me visitar e eu não posso esperar. Pediu pra eu avisar que ela tinha um
compromisso e teve que sair. Você já viu uma coisa dessas?
JEREMIAS – Não sou porteira de casa de tolerância, você devia ter respondido.
CLOTILDE – Graças a Deus eu tenho o que fazer, minha filha. Não sou desocupada não.
Não tenho tempo pra tomar conta da vida de ninguém. Isso é que eu devia ter respondido.
JEREMIAS – Meu marido é um homem honesto e não trabalha pra eu ficar em casa de
mexerico não. Isso ela precisava ouvir.
CLOTILDE – Mas ela não ficou sem resposta não. Só não disse nada pesado porque acho
que o melhor é a gente ignorar. O que essa gente quer é escândalo, é fofoca. O melhor é a
gente não dar confiança. Isso é que deixa elas mais danadas.

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JEREMIAS – Fez bem. Não se pode dar confiança. Mas que que você respondeu?
CLOTILDE – Disse que estava muito ocupada, que ia ficar o dia todo aqui pra dentro mas
que se eu visse as pessoas chegando eu avisava. Mas falei dum jeito que ela percebeu muito
bem o que que eu estava pensando. Ela não é boba não. (Pausa.) Você precisava ver como
é que ela estava. (JEREMIAS estende o prato e ela serve mais sopa.) Na certa ia ter um encontro.
Com um vestido apertadinho, muito pintada. E fazendo aqueles olhares de vagabunda.
Tive que fazer força pra não botar ela porta afora.
JEREMIAS – Ela entrou aqui?
CLOTILDE – (Zangada.) Que entrou. Você acha que eu deixo gente dessa laia pôr os pés
na minha casa? Parece maluco.
JEREMIAS – Você disse que ia botar ela pela porta afora. Qualquer pessoa ouvindo isso
entende que ela estava aqui dentro e você ia botar ela pra fora. Não que ela estava lá fora e
você ia botar ela mais pra fora ainda. Você fala as coisas erradas e acha que os outros têm
que entender certo.
CLOTILDE – Não estou falando com qualquer pessoa. Estou falando com você.
JEREMIAS – Mesmo assim você tem que falar as coisas certas. Não sou burro não. Mas
também não sou obrigado a adivinhar.
CLOTILDE – Já começa ele. Quando é que eu disse que você é burro?
JEREMIAS – Não disse claramente. Mas falou dum jeito que quem ouve pensa que eu sou
burro.
CLOTILDE – O caso é que ela não entrou aqui. Pronto. Fiz questão que ela ficasse bem lá
fora. Pra todo mundo ver que aqui ela não entra. Senão vão dizer que nós ficamos
amiguinhas. Você sabe como essa gente é maldosa, né.
JEREMIAS – Sei. Sei melhor que você. Imagina que andaram dizendo lá na repartição que
eu era assim esquisito porque minha mulher é preta.
CLOTILDE – Quem é preta?
JEREMIAS – Você. Disseram que você era preta e eu tinha vergonha. Por isso que não me
dava com ninguém.
CLOTILDE – Foram inventar uma coisa dessas?
JEREMIAS – Pra você ver. Donde é que eles foram tirar isso, meu Deus?
CLOTILDE – Vai ver que foi alguma coisa que você disse, Jeremias.
JEREMIAS – O que? Você é branca. Que que eu podia dizer? Isso é pura maldade. Não
percebe? Aquela gente não vale nada. São capazes de fazer qualquer coisa pra denegrir a
reputação de um homem. Principalmente se é alguém honesto, que cumpre seus deveres,

Dizerem que eu sou preta. Vai ver que foi ele mesmo que inventou isso e veio me contar pra debochar ainda mais. Corja de vagabundos. Cachorro preto tem parte com o diabo. Mas amanhã vou procurar o chefe e vou dizer: doutor Jaime. Mas não sei. Pode deixar. CLOTILDE – Você precisa tomar cuidado com essa gente. JEREMIAS – Isso não fica assim não. Imagina inventarem uma coisa dessas.) Que calvário. Somos muito superiores a eles. CLOTILDE – Afinal o que que ele queria? JEREMIAS – Quando eu falei onde morava ele desconversou. Isso ele já teve ocasião de perceber. São capazes de tudo pra prejudicar quem não se mete em patifaria. Não chegam nem a nossos pés. Mas os patifes são perversos. Na minha família nunca teve preto. Que ele estava procurando apartamento pro cunhado dele mas que por aqui não servia não. Levanta-se. CLOTILDE – Mas você não desfez essa intriga? JEREMIAS – Na mesma hora. Porque dá um verdadeiro sentido a nossas vidas. Tanto que comigo não vem com certas histórias. Isso é que é importante. Tirei tua fotografia do bolso e mostrei pro Cunha. Mas pra mim aquilo era uma manobra. Disse que eu podia deixar. Jeremias. Minha mulher é branca. Não há riqueza nem prazer no mundo que substitua isso. Até cachorro mamãe fazia questão que fosse branco. meu Deus. JEREMIAS – E ele vai duvidar de mim? Ele que se atreva. Porque a minha integridade ofende eles. Sou homem de respeito. Mas eu sei que estou certo.6 como eu. JEREMIAS – Eu tomo. Graças a Deus. ela dizia. Tenho uma vida decente. (Sorri e olha para a porta central. Jeremias. Clotilde. Está aqui a fotografia dela. o senhor não acredita nessa intriga não. Você acaba sendo prejudicado. (Pausa. CLOTILDE – Você tem que esclarecer isso direitinho. . Olha você mesmo e vê se ela tem alguma coisa de preto. Sou um homem de bem. Aí é que eles ficam com mais ódio. CLOTILDE – Se ele duvidar eu vou lá pra tirar a prova. Que que ele não deve estar pensando de mim? Acho até que foi por isso que ele me chamou lá e veio com aquelas perguntas. CLOTILDE – Vai ver até que dizem outras coisas. de princípios. São uns pobres de espírito. Foi pra me sondar. Mostra o quanto são sórdidos. com mais rancor. Ele é meio debochado. Agora é que estou percebendo. Ponho eles no seu lugar. Que calvário. (Ouve-se um mugido de vaca por trás da porta central. ó. Já devem ter ido dizer até pro chefe.) Além disso tem uma coisa que eles não sabem. Nem preto nem afeminado. Na minha família nunca teve preto. Está aqui. JEREMIAS – Mais do que eu tomo? Você acha que dou confiança a eles? Não senhora. Jeremias. Hoje não falei nada porque não tive ocasião. Desconfio muito do Cunha. Não sou rico mas sou honesto. Você tem que tomar muito cuidado.

7 JEREMIAS sorri satisfeito.) Nossa filha? CLOTILDE – Já terminou a escola. (Dando uma risadinha. Eles não são nada. Jeremias.) Mas como é que vai ser.) Conta. JEREMIAS – (Impaciente. Ela é o único conforto que temos.) Você não acha bom? JEREMIAS – (Atordoado. (Apreensiva. CLOTILDE – No fundo a gente sabia que um dia ia acontecer. mulher.) Você nem faz idéia. JEREMIAS – É verdade. Clotilde. Tenho medo. . põe na mesa e senta-se. Agora tem que vir. (Senta-se à mesa e segura as mãos de CLOTILDE.) Não sei. JEREMIAS – A gente sabia.) Como é repousante ouvir esse som. CLOTILDE – É. CLOTILDE volta com dois pratinhos de doce. Está me deixando nervoso. JEREMIAS – (Assustado. JEREMIAS fica pensativo. Parece mentira mas eu nunca tinha pensado nisso.) CLOTILDE – São uns infelizes. JEREMIAS – Não sei como eu poderia suportar esse calvário se não fosse ela. JEREMIAS – Coisa boa ou ruim? CLOTILDE – Acho que é boa. (Recolhe os pratos e a terrina e sai pela esquerda. Comem.) Agora que você se acalmou vou contar uma coisa. Desde que você chegou estou pra contar. Mas nunca falou nisso. (Silêncio) CLOTILDE – Vou buscar o doce. boquiaberto. JEREMIAS – (Largando os talheres. Clotilde? CLOTILDE – Tudo se ajeita. CLOTILDE – Nem sei como contar.) Carta? De quem? CLOTILDE – Nossa filha vem morar com a gente. CLOTILDE – Deus sabe equilibrar as coisas. Acho que não queria pensar. CLOTILDE – Recebi uma carta. JEREMIAS – Que que pode ser? Fala logo. E agora? JEREMIAS – Não sei. JEREMIAS – (Espantado. Muito medo. A gente fala mas não precisa se preocupar.

Me pergunta como é que foi o dia.) Temos que ter muito cuidado. Você fala como se ela fosse uma leviana. CLOTILDE – Mas ela também não é igual. Vai gostar dessa casa. Criança gosta de chocolate. JEREMIAS – Não sei. Vai ficar comigo. Nós sabemos o que é o futuro. CLOTILDE – Você está se preocupando demais. JEREMIAS – A gente tem que ensinar a ela o bom caminho. Também já tive minhas ilusões.) Será que ela vai se adaptar a nossa vida? Hoje é tudo tão diferente.) Quando eu chegar ela me dá um beijo. CLOTILDE – Vai adorar. a fazer empada. Enquanto não aprende acha que pode rir das coisas mais sagradas. CLOTILDE – Vou fazer um vestido pra ela. Jeremias. me fazer companhia. É uma menina obediente. Só vai dar alegria. Nós não somos iguais aos outros. Traz o chinelo. É um perigo. Jeremias. Tem coisas que nunca saem da moda. Mas ela. CLOTILDE – Ela não é assim. JEREMIAS – E se ela não aceitar a Mumu? Rir da gente? CLOTILDE – Que é isso. JEREMIAS – (Sorrindo. JEREMIAS – Tem que ver se ela gosta. Clotilde.) Será que ela não vai se dar com a Mumu? . acham que tudo é sempre cor-de-rosa. Os jovens hoje em dia são cheios de idéias. JEREMIAS – Conheço a vida. Não pode ter complacência não. CLOTILDE – (Preocupada. Jeremias. CLOTILDE – Nada. Você vai ver. CLOTILDE – Claro. Não sei. JEREMIAS – Quando a gente é jovem vê as coisas diferentes. (De dedo em riste. Clotilde.) A gente vai ter que ser duro com ela. É tão bonito que nunca tive coragem de usar. Ensino ela a costurar. Jeremias. Clotilde. Nossa própria filha não vai se revoltar contra a gente. JEREMIAS – (Preocupado. Os jovens já não respeitam os mais velhos. (Ameaçador. É lindo. Depois é que aprende que essa vida é um calvário. os jovens. Vou trazer sempre um chocolate pra ela. Tenho um tecido que ganhei quando a gente casou.8 CLOTILDE – Não sente alegria também? Vai ser tão bom ter ela aqui. JEREMIAS – Hoje em dia o gosto é diferente. Tenho certeza que ela é uma moça conscienciosa.

Clotilde. JEREMIAS – Que calvário. Você vai ver. (Consternado.) Vem dormir.) Te esconjuro.) Mas graças a Deus temos algo de que nos orgulhar. (Apontando para a porta central.) entrar por aquela porta e dizer que a Mumu não vale nada. Que calvário. Sofremos os maiores sacrifícios. Você vê. JEREMIAS – Deus queira. Com o tempo ela compreende e acaba reconhecendo. CLOTILDE – Deus é grande. Por isso a gente tem de ser duro. (Ele ajuda-a a levar a louça. Caso contrário. Cruz. Sem a Mumu não seríamos nada. Vai ser boazinha. Os dois saem vagarosamente pena esquerda.) .. Ela é sangue do nosso sangue. ensinar com rigor. apontando para a direita. (Silêncio. carne da nossa carne. CLOTILDE – (Benzendo-se.9 JEREMIAS – Vai custar a compreender. Jeremias. Dedicamos nossa vida toda a ela. CLOTILDE – (Levantando-se e recolhendo os pratos e talheres..) Apesar de todo o sacrifício hoje corremos o risco de nossa própria filha (Enfático.) JEREMIAS – A vida é um verdadeiro calvário. Tudo vai dar certo. CLOTILDE – Isso não vai acontecer. Não adianta ficar se preocupando.

sem saber o que dizer.) Entra. Um pouco cansativa. Comi umas coisas na viagem. .) Com licença.) Mãe? CLOTILDE – É você. mas iluminada. (Entra pela esquerda.) É ela. CLOTILDE – Já ia esquecendo. tenso. Toda hora falava: ela está demorando tanto. JEREMIAS – (Aflito. CLOTILDE – (Aflita. (Ela senta-se à mesa. Abre. (Sorrindo. BERENICE – Eu também.) Mas me dá aqui sua mala. (Examina a eles e ao ambiente. (Fecha a porta. JEREMIAS.) Mas agora você chegou. (Tira a mala das mãos dela e a coloca num canto. BERENICE – (Entra com uma mala. Pára no meio da sala.) BERENICE – (Fora. fora. né? BERENICE – Não. torce as mãos e vai abrir. .10 QUADRO II CLOTILDE.) Você deve estar cansada. Jeremias. olha assustada para a porta da direita.) É você. Estávamos esperando por você.) Fecha a porta. Ouve-se tocar a campainha. Berenice? BERENICE – Pai? JEREMIAS – Sou eu.) BERENICE – Foi boa. Berenice? (JEREMIAS surge na esquerda e fica olhando.A cena está vazia. CLOTILDE – Senta. Fica olhando para fora. JEREMIAS – Esses ônibus são muito desconfortáveis. BERENICE – É. CLOTILDE – Jeremias já estava preocupado. JEREMIAS – Estamos muito felizes. BERENICE.) Como foi a viagem? JEREMIAS – (Para CLOTILDE.) JEREMIAS – (Aproximando-se dela. CLOTILDE – Você deve estar com fome.

) Está vendo? Ela disse que a casa é simpática. Ele senta à mesa. maravilhado.. Ela evita o olhar e examina a sala. Você fica falando essas coisas ela vai pensar que a gente não queria que ela viesse. Vivo dizendo pro Jeremias não comer nada na rua.) É.) Eu não disse nada disso. Você só nos dá prazer. Só fazem mal. Vou trazer um pouquinho de chá também. CLOTILDE – Já vou. BERENICE – Não. Está uma delícia. BERENICE – É simpática. Não gosto que distorçam minhas palavras. . Mas não estava me referindo a Berenice. BERENICE – (Sem graça. né.. JEREMIAS olha para ela.) JEREMIAS – Traz pra mim também. A casa é simples mas nunca faltou nada. não se adaptam aos hábitos dos mais velhos. Clotilde. Põe a mesa. (Encaminha-se para a esquerda. Eu disse que às vezes os jovens. Não estou com fome mesmo. CLOTILDE – Nada disso. Graças a Deus. BERENICE – Não precisa. BERENICE – Gosto muito. é claro. A gente nunca sabe como aquilo foi feito.) Jeremias ficava dizendo que você ia achar isso aqui muito antiquado. (CLOTILDE sai.) Vai buscar logo. CLOTILDE – Então ela vai pensar uma coisa dessas. BERENICE – Obrigada. Não dá trabalho nenhum.) JEREMIAS – Não repare não. alguns jovens. Jeremias? Que absurdo. CLOTILDE – Não falei? Tinha certeza que ela ia gostar. Eu. Traz uma bandeja com bolo e três xícaras.) BERENICE – Está vendo? Já estou dando amolação a vocês. Fica só falando. Essas viagens enjoam tanto. que não ia se adaptar.. (CLOTILDE entra pela esquerda.) JEREMIAS – (Para CLOTILDE. JEREMIAS – Amolação nenhuma. satisfeito. (Silêncio. Fiz um bolinho especialmente pra você.. JEREMIAS – (Para CLOTILDE. CLOTILDE – Vou preparar uma coisinha pra você comer. JEREMIAS – (Contrafeito.11 CLOTILDE – Essas coisas de estrada não alimentam nada. BERENICE – Não precisa se incomodar. mulher. CLOTILDE – (Troca um olhar satisfeito com JEREMIAS.

galinha.) Que que você comia lá no colégio? BERENICE – De tudo.) Hum! Pois aqui você vai poder tomar lanche todo dia. JEREMIAS – Deixa de bobagem. JEREMIAS – Mesmo assim é um absurdo. A casa não é rica mas graças a Deus a mesa é farta. Vai melhorar. (Para BERENICE. vinho. Não precisa se preocupar. figos. avelãs. Pois você fica falando essas coisas. você vai ver. (Pausa. Vai buscar logo o chá. Não estou sentido nada. JEREMIAS – (Satisfeito. JEREMIAS – (Escandalizado. Se a gente não falar não traz nem o pão pra mesa. (Sai apressada pela esquerda. Eu não tenho nada. Na minha casa o domingo é sagrado. BERENICE – Mas não precisava se incomodar. Nunca faltou galinha. Deixar as pessoas sem lanche. Ela é avoada assim mesmo.12 BERENICE – Não.) Está sentindo alguma coisa. . papai. doces. JEREMIAS – Eles serviam lanche? BERENICE – Só nos domingos. (Pausa. meu bem? BERENICE – Não absolutamente.) Você gosta de galinha ao molho pardo? BERENICE – Gosto.) Não tinha lanche? Vocês ficavam com fome? BERENICE – Não. (Sacudindo a cabeça. JEREMIAS – Ela não diz porque é uma moça educada... Mas no fundo vai pensar sim. Tem muita gente aí que mora em palacete e no Natal come a comida de todo dia. Era muito variado. que não tinha jantar. Ou então quando alguém fazia aniversário. mamãe. No Natal tem de tudo: nozes. Aqui não. A pobrezinha já está até pálida.) BERENICE – Mas eu não. em vez de ficar dizendo bobagem.) Todo domingo Clotilde faz. Aqui é sua casa. Eu não deixo faltar nada. castanhas. CLOTILDE – Quer um pouquinho de bicarbonato? BERENICE – Não. CLOTILDE – (Assustada.) Não repara não. O almoço e o jantar eram bem reforçados. JEREMIAS – Traz um pedaço de queijo também. CLOTILDE – Então vou trazer logo o chá. Ninguém pode dizer que come melhor que a gente.

(Para JEREMIAS. Silêncio.) Você gosta de galinha? BERENICE – Gosto. minha filha.) Estão falando de galinha? Hum! Que assunto gostoso. (Para CLOTILDE. CLOTILDE – Então domingo vou fazer pra você. Para Berenice. mulher.) Come à vontade. já disse.) JEREMIAS – Mas come. né? (Ela sorri e pega a fatia. (Serve o chá e oferece bolo e queijo. (JEREMIAS faz um gesto de enfado. Estou satisfeita.13 CLOTILDE – (Entrando pela esquerda com um bule de chá e queijo.) Pára de falar um pouco. (Corta uma fatia de bolo e dá para ela. Os dois trocam olhares satisfeitos vendo-a comer. (Ela sorri e começa a comer. Tenho uma receita que é do tempo da minha avó. Não vai fazer cerimônia. (Para BERENICE. CLOTILDE – Come mais um pedaço. Clotilde? CLOTILDE – Essa sua mania de falar tudo. CLOTILDE – (Para BERENICE. Silêncio. maravilhados. Não se preocupe comigo não.) BERENICE – Não precisa se incomodar. né? JEREMIAS – Que que tem isso. menina. Deixa a menina comer. (JEREMIAS e CLOTILDE trocam um olhar satisfeito. CLOTILDE – Então domingo vou fazer galinha ao molho pardo pra você.) Já disse o quê? (Senta-se. Você também tem que ir logo falando tudo. Não gosto disso. CLOTILDE – Come. BERENICE – (Sem graça. Fica delicioso.) Que bom. Os dois comem também mas não tiram os olhos dela. CLOTILDE – Ah. BERENICE abaixa os olhos.) JEREMIAS – (Para CLOTILDE.) JEREMIAS – Que você vai fazer galinha no domingo. Você não vai fazer cerimônia na sua casa. Você fica dando ouvidos a Clotilde e não come nada.) CLOTILDE – Está bom? BERENICE – Está.) Eu já disse a ela.) CLOTILDE – Mais um pedacinho de queijo? .) Você gosta de doce de côco? BERENICE – Gosto. CLOTILDE – Que nada.

Já estou satisfeita. JEREMIAS – Quando a gente é jovem tem muita fome. Não falta nada aqui. (Para CLOTILDE. CLOTILDE – (Sentando-se. Não é? Mas aqui você pode comer tudo que você quiser. JEREMIAS – Aproveita. Em casa a gente está sempre melhor.14 BERENICE – Não precisa se incomodar.) Imagina que ela estava me dizendo que no colégio não serviam lanche.) Vou pegar. BERENICE – Falem um pouco de vocês. Toma mais um pouco de chá. Aqui pelo menos estamos livres de certo tipo de gente. É muito raro a gente sair de casa. Já estou satisfeita. CLOTILDE – Temos a nossa casa. minha filha. Esse queijo está uma delícia. (Corta e põe no prato dela.) Por favor. CLOTILDE – Quer uns biscoitinhos? (Levanta-se. minha filha. CLOTILDE – Você precisa se alimentar bem. (Põe na xícara dela. É um calvário. Graças a Deus na nossa mesa não falta nada.) Então você come antes de dormir. JEREMIAS – Agora a gente tem você. Pra que sair? Na rua só se vê patifaria. Lá devia ser tudo controlado. Mas mesmo antes a gente não vivia sozinho não. CLOTILDE – Tem muita gente ruim nesse mundo.) BERENICE – Não precisa. Já comi muito.) Nossa Senhora! Que gente mesquinha. Você que é jovem precisa tomar cuidado.) Come sim. Temos alguém que nos dá muito conforto. Então come mais uma fatia de bolo. CLOTILDE – É por isso que ela está fazendo cerimônia. Graças a Deus nossa mesa é farta. minha filha. BERENICE – Mas assim vocês ficam muito sozinhos. Pra que sair? JEREMIAS – A rua não ensina nada de bom. indecência. (Sorrindo. Temos todo conforto. CLOTILDE – (Corta a fatia e põe no prato dela. Vocês costumam passear muito? JEREMIAS – Não.) BERENICE – Pode deixar. JEREMIAS – Nós conhecemos a vida. É tão triste ficar sozinho. CLOTILDE – (Horrorizada. Chega. . BERENICE – (Categórica.) Não. CLOTILDE – Antes só que mal acompanhado.

É biscoito amanteigado. Não falta nada na nossa mesa. BERENICE – (Enérgica. Não gosto. JEREMIAS – Come..) Não. Ela pensa que a gente passa necessidade.) Ainda tem tanta coisa pra gente conversar. Mas nunca consegui aprender... minha filha. . Bolo. Sou excelente taquígrafa. A professora sempre dizia.) Trabalhar fora? Mas pra que. JEREMIAS – Ela está pensando que a gente nem tem biscoito em casa.. BERENICE – Vai ter muita serventia sim. minha filha. (Para CLOTILDE. Deixa eu explicar. Agora também moro aqui e tenho que saber. minha filha. (Sai. Não é por isso que eu quero trabalhar.) Está vendo? Você oferece mas não traz.) Está aqui. JEREMIAS – Você não precisa trabalhar. mamãe. Clotilde. Geléia. papai.) Prova. (Pega um biscoito e come. CLOTILDE – Costurar é que é importante.15 BERENICE – É. CLOTILDE – (Entrando apressada pela esquerda com uma lata na mão. Quero saber tudo sobre vocês. Mas amanhã vou comprar. meu anjo? Você não precisa.) Está delicioso. Não é isso. É uma delícia. Prova só. BERENICE – Não é isso que eu estou falando. de secretária. doce em calda.) Tem sim. JEREMIAS – Mas isso pra você não tem serventia nenhuma. CLOTILDE – (Levantando-se.) Você queria biscoito? Vai lá pegar. Aqui tem tudo. papai. aflita e indo em direção à esquerda.) JEREMIAS – Tem de tudo aqui. CLOTILDE – (Oferecendo. Posso comprar de tudo. JEREMIAS – (Surpreso. O que eu sei bem é taquigrafia.) Um dia você vai saber. Quero trabalhar pra poder comprar as minhas coisas. queijo. O lanche estava muito gostoso. Hoje é que não tem. BERENICE – Não é isso. BERENICE – Eu não quis dizer isso. Eu sei que vocês não passam necessidade. Quero trabalhar fora. Não é bolacha de água e sal não. Então vocês têm um amigo? JEREMIAS – Mais ou menos. Você sabe costurar? BERENICE – No colégio elas ensinavam. BERENICE – Conta. CLOTILDE – (Cortando. (CLOTILDE olha-o apreensiva. (Aflito. que aqui tem muita fartura. Eu queria.

que sou um pé-rapado. Silêncio.) O que que você tem contra a vida de seus pais? BERENICE – Não tenho nada. Por isso vou trabalhar. meu Deus. Não é colchão ordinário não.. JEREMIAS – (Furioso. Entende. (Silêncio. minha filha. . CLOTILDE – Nossa cruz é mais pesada do que a gente pensava. Mas o que eu quero da vida vocês não podem me dar. Quero me divertir.) Por favor. por favor. Agora eu quero me vestir bem. desolado. meu Deus. CLOTILDE – Mulher leviana é que trabalha fora. papai. Com armário. Passei a vida inteira num colégio.. Gosto muito de vocês. papai? Entende. Explica pra ele. Entende? Quero me pintar. sem poder fazer nada. Quero conhecer gente rica. papai. Eu. JEREMIAS – Se meter com gente que vive em patifarias.) Não. Colchão meio. Que calvário. Você quer ter vida de leviana. Ele ouviu muito bem. JEREMIAS – Você está se saindo melhor do que a encomenda. (JEREMIAS troca um olhar com CLOTILDE e os dois abaixam a cabeça.16 CLOTILDE – Mas aqui tem tudo que você precisa. mamãe. Está decidido. BERENICE – Por favor. Não quero magoar vocês. (Levantando-se. Não tenho nada contra a vida de vocês. não fiquem assim. andar na moda. Seu pai não mente pra você não. Já escrevi pra uma companhia e amanhã vou lá fazer o teste. BERENICE – Eu não quero desrespeitar o senhor. papai. JEREMIAS – Um quarto só para você. gente famosa. BERENICE – (Suplicante. mesa de cabeceira. Não me meto em patifarias mas o que eu ganho é suficiente pra ter uma mesa farta. pra sustentar toda minha família.) JEREMIAS – (Para CLOTILDE. BERENICE – Não vou envergonhar ninguém. Os jovens hoje em dia são cheios de idéias. mamãe? Não vou ficar nessa vidinha pra sempre não. Só quero trabalhar fora.) Não fiquem tristes comigo não. (Dá um beijo em cada um.) Você é minha filha. Me deve respeito. Compreendam. Me deve tudo que você é. Eu trabalho. É o que eu te dizia.) Que calvário. papai. JEREMIAS – (Ofendido. Mas isso é problema meu.) Mamãe.) Vem cá ver. JEREMIAS – Você quer me envergonhar? Que que vão dizer? Que não posso sustentar minha filha. CLOTILDE – Explicar o que. vestindo uniforme. minha filha. Vocês não entendem o que eu estou falando. BERENICE – (Impaciente.) Eu não sou o que vocês estão pensando. (Para CLOTILDE.

JEREMIAS – O único conforto nesse calvário. O que você quer é ilusão. JEREMIAS – Nós temos experiência.) BERENICE – (Espantada. BERENICE – Mumu? (Ouve-se outro mugido. . É terrível. BERENICE olha amedrontada para a porta. Não sei se acho graça ou choro. JEREMIAS – (Tremendo de ódio.) Uma vaca. Um dia vai se arrepender amargamente de ter dito isso.) Eu não sou homem de brincadeiras. CLOTILDE – Mumu é a coisa mais séria que tem nesta casa. Cala essa boca.) Não estou entendendo.) Que foi isso? Vocês não ouviram? CLOTILDE – Não se assuste. BERENICE – Devo estar sonhando. isso é um absurdo. Como é que é o negócio? Será que ouvi direito? JEREMIAS – (Com fúria contida.17 CLOTILDE – Essa gente não presta.) Uma vaca? CLOTILDE – (Séria. Vão te arrastar pro lodo. JEREMIAS – (Levantando-se. JEREMIAS – Nós sabemos o que é o futuro.) Você ouviu perfeitamente. BERENICE – Quem é Mumu? JEREMIAS – Mumu é uma vaca. Mumu é uma vaca que mora ali naquele quarto. Você não conhece nada da vida. furioso. Não sabe o que é o futuro. Não admito que você ria duma coisa dessas. Você é uma criança ainda. BERENICE – O senhor está brincando comigo. (Ouve-se um mugido atrás da porta central. Ouve o que seus pais estão dizendo. Isso é. É um escárnio intolerável. Ninguém pode viver assim.) Espera aí. CLOTILDE – Quem segue o caminho da perdição mais tarde se arrepende.. Depois passa a fazer parte da vida.. Mamãe. minha filha. olhando para os lados.) Cala essa boca. BERENICE – (Estupefata. Só tem gente ruim nesse mundo. Você respeita o que eu digo.) Que foi isso? (Os dois abaixam a cabeça e não respondem. JEREMIAS – No começo é um pouco difícil entender. BERENICE – (Rindo. papai. É a Mumu.

papai. Tudo que você é deve a mim.. BERENICE – Calma. papai. Não se revolte contra ele. meu Deus. papai. Horrível. CLOTILDE – Obedece minha filha. Tão. Mas isso é tão fora de propósito.) Eles estão cheios de idéias. Senta aqui e vamos trocar idéias. BERENICE – Eu não quero desobedecer. JEREMIAS – Não interessa. JEREMIAS – Se não pensa nada então obedece a quem já pensou em tudo. Que calvário. BERENICE – (Irritada. JEREMIAS senta-se à mesa e esconde a cabeça entre as mãos. Eu vou levar a vida que eu quero e ninguém vai se meter. Mas tem uma coisa. Eu sabia que isso ia acontecer.) . papai. (Pausa. As duas saem. Eu não estou disposta a aturar isso não. CLOTILDE – Você está sendo ingrata. BERENICE – Isso é problema meu. Só tem deveres.) Vou mostrar.. (Silêncio. BERENICE – Sou sua filha. Minhas idéias não são figurinhas de jornaleiro.) Onde é meu quarto? CLOTILDE – (Levantando-se e encaminhando-se para a esquerda. Se vocês moram com uma vaca o problema é de vocês. que eu não posso aceitar.) É o único jeito da gente viver junto. BERENICE – Eu não quero me revoltar.. Eles não têm mais o menor respeito. minha filha. (Levanta-se.. mamãe. (Berenice pega a mala e a acompanha.18 CLOTILDE – Seu pai sabe o que é bom pra você. JEREMIAS – Você tem que aceitar. (Pausa. Eu não tenho nada com isso. minha filha.) JEREMIAS – Que calvário. Cada um com a sua vida. Quero entender as coisas. JEREMIAS – E aí já não haverá jeito não. mamãe. Quem é você pra não aceitar o que seu pai diz? Quem você pensa que é? BERENICE – Eu não penso nada. JEREMIAS – Não tenho idéia nenhuma pra trocar. JEREMIAS – Você não tem direito nenhum.. Um dia vai se arrepender amargamente de ter tratado seus pais assim. Só acho que tenho o direito.) Escuta aqui..

CLOTILDE.) Ah. ram. CLOTILDE – (Com olhar repreensivo. Onde a senhora comprou? CLOTILDE – Foi presente de casamento. Ele sempre teve essa mania de dar uma voltinha no domingo antes do almoço. (Sacode os ombros. JEREMIAS. Às vezes chega aqui já passa de uma hora. CLOTILDE – (Colocando no centro da mesa. (Juntando as mãos e olhando.BERENICE enxuga pratos e talheres e arruma-os cuidadosamente sobre a mesa.19 QUADRO III BERENICE. Até hoje só usei duas vezes. . minha filha.) CLOTILDE – (Farejando. né. Visita o túmulo de todas as pessoas que ele conheceu. mamãe. CLOTILDE – (Entrando pela esquerda com um vaso de flores. extasiada. Fica ali horas esquecidas. BERENICE – Se não usar também é a mesma coisa que não ter nada. CLOTILDE retoca a arrumação da mesa. Deixa ele se divertir um pouquinho. Dinheiro não nasce em árvore não. BERENICE – É mesmo. que que tem. fica com o olhar perdido. que está revestida com uma vistosa toalha branca de renda. BERENICE – Depende de quem planta a árvore. CLOTILDE – Seu pai está demorando tanto hoje. BERENICE – A senhora acha que ele ainda está muito zangado? Já estou aqui há um tempão e ele mal fala comigo.) Hum! Está sentindo? BERENICE – (Farejando. Quando acabar compra outra.) Ram! (Silêncio. Aqui dá tanto copode-leite. Depois sorri e volta ao trabalho. Ele já tem tão pouco prazer na vida. Me dá pena de usar. Essa vida já tem tão pouca coisa bonita que se a gente não guardar fica sem nada. E eu esperando. Não é uma delícia? BERENICE – Estou morta de fome. De vez em quando se distrai. CLOTILDE – Pra você tudo é fácil.) Olha como ficou bonito. Usa. sabe? Estraga muito. de preferência copos-de-leite.) E combina tão bem com essa toalha.) Todo domingo eu colho. BERENICE – A toalha é linda. Vai aqui por cima até o cemitério.) O cheirinho da galinha? CLOTILDE – Ram. . né? Coitado.

abraçando todo mundo. Também já estou com fome. mamãe. Sei que me sinto bem lá. Mas acaba se acostumando. Que que se há de fazer? BERENICE – Que bom que a senhora concordou comigo. Deixa ele descansar um pouco. Jeremias. Ninguém presta nesse mundo. JEREMIAS – Não. Põe duma vez. Ali pelo menos não se vê nenhuma patifaria. BERENICE – Tem sido tão bom pra mim. Pra mim lugar de mulher é em casa. JEREMIAS – (Entrando pela direita. minha filha. BERENICE – Tem muita gente boa também. CLOTILDE – Não precisa. Me dá vontade de sair pela rua cantando. As únicas pessoas em quem você pode confiar é em seus pais. Eu nem ligo mais. No fundo ele gosta muito de você. Conheço uma porção de gente. (Ouve-se o ruído da chave rodando na fechadura. Berenice já estava morta de fome. O mundo é muito ruim. É outro mundo. Está um pouco aborrecido com esse negócio de você trabalhar fora. CLOTILDE – Boa pro fogo. É o que você quer e pronto. Pode pôr. dançando. (Encaminha-se para a esquerda. animado. Com isso ele não se conforma de jeito nenhum. Mas também não quero mais me amofinar com isso não. Pareço uma maluca. Todo dia eu saio. CLOTILDE – Então vou servir. mamãe. sabe. A gente não sabe quem são essas pessoas que você está conhecendo.) Não sei se se diz que o cemitério é bonito.20 CLOTILDE – Não liga não. Gosto daquela paz. Sei que não adianta. CLOTILDE – Você precisa tomar cuidado. Você vai ver.) Olha ele aí.) . (Esfregando as mãos. Já estou aqui. Quando recebo o ordenado a senhora acredita que fico toda tremendo. BERENICE – Não é tanto assim. É tão diferente do colégio. Fica aí com seu pai que eu trago.) Com esse cheirinho de galinha não dá pra esperar muito não. BERENICE – São todas maravilhosas. CLOTILDE – Não se fia nas pessoas não. Fico tão preocupada. daquele silêncio.) BERENICE – Vou te ajudar.) Vocês estão aí? CLOTILDE – Já chegou? BERENICE – Foi bonito o passeio? JEREMIAS – (Tirando o paletó. mamãe. (Sai. CLOTILDE – Não concordei não senhora. Acho que nunca fui tão feliz na minha vida. JEREMIAS – Ora. CLOTILDE – Você demorou tanto.

) Não sei se está bom de sal. Eu conheço o mundo. Também tem muita coisa boa. Hoje pus só um pouquinho. Jeremias sempre fala que ponho sal demais.) Senta aí. Mais tarde vai dar razão a seu pai. Silêncio. papai. Os três comem.) CLOTILDE – Você gosta muito de ter um motivo pra reclamar.) É bom chegar em casa no domingo sabendo que tem galinha na panela. Clotilde? CLOTILDE – Que coisa. CLOTILDE – (Mastigando. (Silêncio. E na época era o homem mais conhecido da cidade. Depois serve a si própria. JEREMIAS – Que Deus me tenha longe dessas “coisas boas”. Nem uma flor. Deixa que sua mãe traz.) Está bom? JEREMIAS – (Mastigando. minha filha. (Estende o prato e ela serve. Não sou de criar caso à toa não. Sei é que todo mundo vivia bajulando ele. (Ela senta-se. (Ela serve. É triste. Você ainda vive na ilusão da juventude. JEREMIAS – Pra se ver o que é a vida. BERENICE – O senhor é muito amargo. Falavam até que ele era dado a patifarias. Um calvário.) JEREMIAS – Hoje vi a sepultura do Senador Eusébio. minha filha. Isso não sei. Vamos ver se ele vai falar. JEREMIAS – Só falo quando tenho razão. Pensa que não te conheço? (Para Berenice.) CLOTILDE – (Para JEREMIAS.) Mais ou menos. A gente passava em frente à casa dele aquilo estava sempre cheio. BERENICE – Está muito gostoso. Contam muita vantagem mas em casa os filhos passam necessidade. meu Deus. CLOTILDE – (Entrando com uma terrina e colocando sobre a mesa.21 JEREMIAS – (Sentando-se à mesa. JEREMIAS – Diziam que ele vivia em farras e pifões.) Está bom de sal? BERENICE – Pra mim está. Muita gente que se diz boa não tem isso. E agora.) Quer coxa ou peito? BERENICE – Peito. Clotilde? CLOTILDE – Lembro. CLOTILDE – Toda semana davam festa. menina. Você imagina que até limo nos cantos tinha. . Não tinha uma flor lá. Lembra dele.

Da mesma forma que eu respeito os que estão acima de mim. Comem. Conheci um rapaz fabuloso. Sobre a gente. hem. . nossos sonhos. (Olhando para BERENICE. Afinal de contas era um senador. Depois comprei uma flor e pus lá. É de outra seção. Aí a gente começou a conversar e ficamos amigos. É algum interrogatório? Não é nada demais não. Mas eu tenho respeito.) Como vão as coisas (Em tom de censura. o futuro.) Um rapaz? CLOTILDE – Conheceu como? BERENICE – Ele trabalha na companhia.22 JEREMIAS – Não tive dúvida. Respeitar pra ser respeitado. CLOTILDE – Que que vocês conversam? BERENICE – Uma porção de coisas. o trabalho. JEREMIAS – Que futuro? Que que vocês sabem do futuro? BERENICE – Ah! Dos planos da gente. CLOTILDE – Vocês têm planos? JEREMIAS – Que planos? Quem é ele? CLOTILDE – Vocês já foram a algum lugar juntos? JEREMIAS – Que que fizeram? BERENICE – (Impaciente. mamãe. E olha que eu nunca nem cheguei perto desse homem. JEREMIAS – Que que vocês fazem? BERENICE – Ele sempre me espera na saída e me traz até aqui perto. CLOTILDE – Então como é que você conheceu ele? BERENICE – Na saída.) Calma. Se eu estivesse na calçada e ele passasse com o carro nem se incomodaria em me jogar lama. JEREMIAS – (Trocando um olhar com CLOTILDE. JEREMIAS – Na mesma sala que você? BERENICE – Não.) JEREMIAS – (Para BERENICE. Pedi uma escova ao coveiro e limpei.) quero que os que estão abaixo me respeitem. Um dia eu estava esperando o ônibus e ele me perguntou as horas. Por enquanto somos só amigos.) no seu mundo? BERENICE – Cada dia melhores. (Silêncio.

. papai. A gente divide as despesas. BERENICE – Que devassos. mamãe. Sei. A safadeza não ia demorar a aparecer.23 JEREMIAS – Por enquanto? CLOTILDE – Conta isso direito. JEREMIAS – E você pensa que gente chic é o que? CLOTILDE – São depravados. meu Deus. que sabe aproveitar a vida. É um lugar como outro qualquer. Fique longe desses antros. Mas vai ficar. Boate é um lugar chic. Gente que tem dinheiro. Ver o que eles comem. papai. Diga-me com quem andas que te direi quem és. JEREMIAS – E ele vai pagar a conta com os planos. Fazer amizade com eles. JEREMIAS – Todo mundo que não presta. Todo mundo vai.) Vocês têm graça. papai. BERENICE – Não é isso. JEREMIAS – Os devassos. CLOTILDE – Essa gente é esquecida de Deus. Se a gente quer chegar até lá tem de ir se aproximando. Economizamos em outras coisas pra poder ir lá. JEREMIAS – Ah. CLOTILDE – Boate é lugar de vagabunda. CLOTILDE – Aquilo é um lugar de perdição. JEREMIAS – Pra mim é esse rapaz que meteu essas idéias na cabeça dela. menina. ele me convidou pra ir a uma boate hoje. BERENICE – Que safadeza. eu sabia.) Está vendo? Eles estão cheios de idéias. minha filha. BERENICE – (Rindo. Quem podia ser? Não foram as freiras do colégio. papai. Quer dizer. Ele tem muitos planos. É só isso. BERENICE – Iiii! Como vocês são antiquados. JEREMIAS – (Para CLOTILDE. como se vestem. Só isso. Não vê que está deixando seu pai nervoso? BERENICE – Mas não tem nada pra contar. CLOTILDE – Que necessidade você tem de ir a esses lugares? BERENICE – Porque lá é que estão as pessoas que a gente quer conhecer. JEREMIAS – Se é um lugar chic como é que esse rapaz te convidou pra ir lá? Ele por acaso é rico? BERENICE – Não. minha filha. minha filha.

uns pobres coitados a quem não se dá importância. Não sei. visão. mamãe. cheia de idéias. JEREMIAS – Por quê? Por acaso você tem vergonha de seus pais? (Furioso. CLOTILDE – Conta tudo direitinho. Todo mundo gosta dele.24 CLOTILDE – Você já conhecia esse rapaz. Isso tudo me cheira a patifaria. JEREMIAS – Isso é que eu duvido. Nisso você tem razão.) Você tenha respeito. BERENICE – Não estou escondendo nada. JEREMIAS – Não. . Tem planos. BERENICE – (Exasperada.) Não é nada disso. JEREMIAS – Então traz ele aqui pra gente conhecer. minha filha. CLOTILDE – Não vai atrás disso não. BERENICE – Como é que vocês afirmam uma coisa dessas? Vocês nem conhecem ele. tem visão. Eu sabia que tinha alguma coisa. Só acho que não faz nenhum sentido trazer ele aqui. Conheci ele agora..) O senhor não sabe de nada. Tudo que você é deve a nós. Se for um homem de bem não vai se recusar. CLOTILDE – Quais são as intenções dele com você? BERENICE – Casar comigo.. papai. Ele só está querendo se aproveitar de você. Só está esperando resolver um negócio. cheia de planos. cheia de esperança. Iiiii! Vocês não entendem nada. JEREMIAS – Planos. não é? JEREMIAS – É. Clotilde. entende? Nasceu pra subir na vida. JEREMIAS – E de onde saiu esse peralta? Quem me diz que não é um marginal. É bom demais pra gente. Ele tem ótimo conceito na companhia. esperança. Pelo amor de Deus. É uma pessoa especial. Berenice? BERENICE – Não. um depravado? BERENICE – Eu digo. (BERENICE fica confusa e volta a comer. CLOTILDE – É por causa da Mumu. Já há alguns dias que estou com esse pressentimento. BERENICE – Não é isso. Enquanto nós não passamos de uns infelizes.) Ah! Agora ela não responde. É uma pessoa cheia de vida. menina. Ou seja. BERENICE – (Irritada. Não esconde as coisas do seu pai. Sou sempre o último a saber. Certamente ele é bom demais pra ela.

) Chega! Será que não se pode nem comer em paz? (Silêncio..) Deixou tudinho.) . CLOTILDE – Mas não comeu nada.) Não grita com seu pai não.) JEREMIAS – (Para CLOTILDE. trabalhador. Um dia ela vai se arrepender amargamente. JEREMIAS – Deixa. menina. Comem. (Pega o pedaço de galinha que estava no prato de BERENICE e põe no seu. Está vendo? São cheios de idéias. CLOTILDE – Assim a gente pode formar uma opinião verdadeira. Silêncio. como você diz. BERENICE – (Gritando. minha filha. mais vai sofrer.) Será que vocês não podem calar a boca nem um instante? Será que em tudo tem que se meter na minha vida? (Levanta-se e sai furiosa pela esquerda.) É assim que eles são. Aí.) CLOTILDE – Onde é que você vai? Acaba de comer. quanto mais se envergonhar.. (Aponta o prato de BERENICE.25 JEREMIAS – Então o que é? Por que você não pode trazer ele aqui? Se é um bom rapaz. Quando mais você se revoltar. para BERENICE. JEREMIAS – Mumu também faz parte da sua vida. Ouça o que seu pai está dizendo. minha filha. (Repentinamente. Que que você pensa que é? CLOTILDE – Você não é diferente da gente não. Eu sei o que é o futuro. BERENICE – (Desesperada.

) Tenho tanta coisa pra te contar. PEDRO. JEREMIAS – (Virando a página com raiva.) CLOTILDE – Quem será? JEREMIAS – São quase dez horas. (Força a porta e entra.. (Encaminha-se para a porta da direita. JEREMIAS consulta o relógio. PEDRO – (Sem dar atenção a JEREMIAS.) Berenice.) Sou eu mesmo.) JEREMIAS – Mas a luz está acesa.) A Berenice está? BERENICE – (Instintiva. Os dois têm um sobressalto e entreolham-se assustados. JEREMIAS entreabre a porta e olha para fora. (BERENICE tem um sobressalto.CLOTILDE está costurando na máquina. (Vira a página com raiva. JEREMIAS – (Furioso.) Preciso falar com você. .) Que calvário! Que calvário que é a vida nesse mundo. BERENICE – Mas já é.. Quem é o senhor? PEDRO – Sou o Pedro. PEDRO – (Para BERENICE. JEREMIAS lê o jornal. CLOTILDE se levanta. Lê.) Seu Jeremias? JEREMIAS – (Desconfiado.) CLOTILDE – Toma cuidado. Que que vai pensar da gente? É melhor abrir. A pessoa deve ter percebido. JEREMIAS – Um momento.) Não dava pra esperar até amanhã. CLOTILDE – É melhor não abrir.) Um momento rapazinho.26 QUADRO IV JEREMIAS.) JEREMIAS – Quem é? PEDRO – (Fora. (A campainha soa novamente. CLOTILDE..) Patifarias! Patifarias! (Lê durante algum tempo. Soa a campainha.) Pedro! PEDRO – (Metendo a cara na porta. BERENICE. (BERENICE aparece na esquerda e fica olhando. ..

PEDRO – O senhor está sendo injusto comigo. BERENICE – Papai. Mas não fico zangado não. Você fique calada. . meus respeitos.) Sei que o senhor deve estar desconfiado de mim. JEREMIAS – É isso mesmo.) Senta um pouco. Vou desfazer essa má impressão. JEREMIAS – Já percebi. Jeremias. Ele senta. (Volta-se para CLOTILDE e pega-lhe a mão.) Esse é o Pedro. CLOTILDE – O senhor aceita um cafezinho com bolo? PEDRO – Aceito sim senhora.) Desculpe. BERENICE – (Aflita. Depois ele vai embora. Não estou passando bem. PEDRO – (Voltando-se para ele. seu Jeremias.) Desculpem invadir a casa a essa hora. (Pega a mão dele. PEDRO – Obrigado. Tinha que falar com Berenice hoje. Hoje não tive tempo nem de comer. (Sai pela esquerda. seu Jeremias. CLOTILDE – (Faz sinal para que JEREMIAS se sente. CLOTILDE – Calma. Sua teimosia já nos trouxe bastante aborrecimentos.) Rapazinho! Tenha respeito a um pai de família. Deixe o rapaz se explicar. JEREMIAS – Não quero nenhuma explicação sua. É que estou meio aturdido mesmo. Não me leve a mal. papai. (Senta-se.) BERENICE – (Para PEDRO.) Deixa pra amanhã. PEDRO – (Para JEREMIAS.) JEREMIAS – Então se explica logo.) Então vou buscar. (Silêncio.) Dona Clotilde. CLOTILDE – (Para PEDRO. PEDRO – Quando você souber do que se trata vai melhorar logo. Não admito que ninguém invada minha casa a essa hora da noite.) JEREMIAS – Antes de tudo quero que o senhor saiba que não aprovo de forma nenhuma essa sua amizade com minha filha.27 JEREMIAS – (Gritando. Acho que o dono da casa ainda sou eu. (JEREMIAS e CLOTILDE estão sem ação. Mas vou me explicar.) Muito prazer em conhecê-lo. Mas eu não posso esperar até amanhã.

Nunca teve visão na vida. De vez em quando olha para a porta central.) Me dá um pedaço de bolo. JEREMIAS – Já se vê que era um homem íntegro. JEREMIAS – Você devia ter mais respeito pela vida de seu pai. Tudo que você é deve a ele. Ela enche as outras xícaras e vai servindo. É isso que quero explicar. Minha mãe. quatro xicrinhas e bolo.) Obrigado. seu Jeremias. JEREMIAS – Ela ainda é uma moça inexperiente. CLOTILDE – (Corta uma fatia de bolo e oferece a ele.) Espera aí. PEDRO – Aconteceu uma coisa muito importante. enche uma xícara e oferece a PEDRO. Morreram há muito tempo. Traz uma bandeja com bule. PEDRO – Também sou um homem de bem.) Essa receita é muito boa. Só podia ter aquele fim mesmo.) Seu pai o que fazia? PEDRO – Era bancário. Nunca ousou nada. Coitado. (Ela dá.) Amanhã a gente conversa. Se ele morreu pobre é porque era um homem íntegro. viu. JEREMIAS está carrancudo. (Ele pega e come. Coloca sobre a mesa.28 JEREMIAS – Sou um homem de bem. Minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis. . BERENICE – (Irritada. Uma vida inteira de trabalho e no fim morreu sem nada. (Para PEDRO. Desde os vinte anos que sou órfão. JEREMIAS – Ademais já proibi minha filha de encontrar com o senhor. JEREMIAS – Um homem de bem não invade uma casa de família sem ser convidado. (Entra CLOTILDE pela esquerda. PEDRO – Mas pobre. JEREMIAS – Seus pais ainda vivem? PEDRO – Não. BERENICE está aflita.) Uma fatia de bolo. JEREMIAS – (Para CLOTILDE. Coitado. E minha filha é uma moça decente. Eu me explico com seu Jeremias.) PEDRO – Está delicioso. papai. Só conheci uma pessoa que fazia bolo tão bem. Você devia se orgulhar disso. PEDRO – (Pegando a xícara. Ainda não sabe o que quer na vida. PEDRO – Calma.) CLOTILDE – Já tem açúcar. Fiz hoje de tarde. Um homem de respeito. seu Jeremias. BERENICE – Não é isso. CLOTILDE – (Lisonjeada.

Imagina que aquele meu primo que eu te falei que tinha aberto uma empresa no Paraguai me chamou pra trabalhar com ele. BERENICE – (Exasperada. BERENICE está lívida. Eles são cheias de idéias.) Vai embora. intrigado. PEDRO – (Perplexo.) Está vendo só? A integridade pra ele quer dizer fracasso. Não estou querendo passar por cima da autoridade do senhor. PEDRO – Calma. Berenice? (Ouve-se outro mugido. (Ouve-se um mugido. E atualmente tenho muito mais certeza disso. Essas idéias me dão a certeza de que minha vida vai ser diferente da do meu pai.) PEDRO – Que foi isso? BERENICE – (Aflita. Agora.) Vocês moram com uma vaca dentro de casa? . (Para BERENICE. (Ouve-se outro mugido. Isso não é caixa-dágua. tenho planos. E não é como empregado não. BERENICE – Deixa essa conversa pra depois. Vou ficar rico. JEREMIAS – Os seus problemas são meus problemas. isso não. JEREMIAS – Exatamente. Sou uma pessoa de bem. (Para PEDRO. Já pensou. Eu sabia que ia dar certo. tá. JEREMIAS – (Para CLOTILDE. CLOTILDE e JEREMIAS trocam um olhar maldoso. moral. Temos que combinar tudo hoje. Não passou de um bobo. É a caixa-dágua que às vezes faz esse barulho. Meu pai durante a vida inteira só teve princípios. seu Jeremias.) Nada. O que que está acontecendo com você. Acabou-se essa vidinha sem futuro. Berenice. PEDRO – Mas é o nosso futuro. rapazinho. Vou ser sócio da firma. me orgulhar do seu fracasso.) Quem é você pra acusar seu pai de fracassado? Que que você conhece da vida? Fracasso! É o que eu te digo. seu Jeremias. É um mugido. Amanhã viajo pra lá. Vou domar a vida. por favor. Na verdade o que aconteceu é que pisaram na cabeça dele.) Espera aí. Uma vaca. PEDRO – Calma. PEDRO olha para os lados. Comigo não. Clotilde. seu Jeremias. (Para JEREMIAS. Berenice? Nosso futuro está garantido. PEDRO – Estranho.) Mas que diabo é isso? Tem uma vaca aqui dentro. Você é minha filha. papai. São essas idéias que nutrem minha esperança. por favor.) É o que eu vim aqui pra te contar. PEDRO – De idéias.) E você vai comigo. Me deve tudo o que é. Berenice.29 PEDRO – Respeito muito a memória dele. Vim aqui justamente pra me apresentar ao senhor. sim. JEREMIAS – Pelo que sei esta moça ainda tem um pai. É minha oportunidade.) Tenho idéias. (Para BERENICE. BERENICE – Deixa que eu resolvo os meus problemas. a quem deve respeito e obediência. Amanhã vou viajar.

(Entra BERENICE pela esquerda com uma mala. PEDRO – Isso é o que veremos. (Dá gargalhadas. Aqui não há esperança.) O senhor respeite esta casa. Isso é ridículo. JEREMIAS – Um dia você vai se arrepender amargamente do que está fazendo. Não vou ser igual ao senhor. JEREMIAS – Você não é diferente da gente. Sua atitude é de um escárnio intolerável. Você não deve nada a eles.) Pronta? BERENICE – Vamos.. Como eu odeio isso tudo. PEDRO – Eu vou vencer. JEREMIAS – Não se atreva. PEDRO – (Rindo. Berenice.) Rápido.. você é diferente. Isso é loucura.) JEREMIAS – (Apoplético. Ninguém pode viver assim.30 JEREMIAS – O que nos dá motivo de muito orgulho. O senhor nunca mais verá minha filha. (Silêncio. Como me dá nojo. JEREMIAS – Faça o que eu mandei. Deixa essa casa agora mesmo. Eu tenho a vida. Tenho o futuro.) Uma vaca. CLOTILDE – É o caminho da perdição. É a coisa mais ridícula que eu já vi na minha vida. Vem. PEDRO impede a passagem deles para o interior. BERENICE – Eu vou com ele. CLOTILDE – Obedeça a seu pai.) PEDRO – Vocês e essa vaca ridícula. (BERENICE cai em prantos. (CLOTILDE e JEREMIAS tentam impedi-la mas PEDRO se interpõe. rapaz. Ponha-se daqui pra fora. . PEDRO – Isso não. PEDRO – Obedeça a seus sentimentos. JEREMIAS – Patife.) Vá para o seu quarto e não saia de lá. Não agüento mais isso aqui. Conheço a vida e sei o que estou falando. PEDRO – (Para BERENICE. BERENICE sai apressada pela esquerda. PEDRO – Pega suas coisas e vamos embora. minha filha.) Não tentem impedi-la.) Mas Berenice. menina. Você não tem nada com isso. JEREMIAS – (Para BERENICE.

como se fosse ter um ataque.) FIM DO PRIMEIRO ATO .) JEREMIAS – Que calvário. nunca mais ponha os pés aqui. PEDRO – Não se preocupe. CLOTILDE – Está sentindo alguma coisa? (Ele não responde. JEREMIAS está ofegante. CLOTILDE o ampara e conduz até a poltrona. Que calvário.31 JEREMIAS – Se sair. (Saem pela direita e batem a porta. (Sai pela esquerda.) Vou buscar um chazinho.

) CLOTILDE – É você mesmo? BERENICE – Sou eu. BERENICE. CLOTILDE – Você? BERENICE – (Fora. que fecha a porta. mamãe.) Coitado. Claro. A cruz está cada vez mais pesada. Está bem mais velha e se veste de preto.) Morreu? CLOTILDE – (Chorando. Com voz embargada. Entra. As duas se contemplam longamente. . Nunca deixou de falar em você.) Seu pai morreu. BERENICE – Dez anos. CLOTILDE – Uma vida. Mas graças a Deus ainda posso carregar. Sempre tinha a esperança de que você ia voltar. (As duas choram. PEDRO.CLOTILDE costura na máquina. Abre a porta e leva um susto. olha intrigada para a porta e levanta-se. BERENICE – (Contraindo o rosto e abraçando a mãe. mamãe.) BERENICE – A senhora está bem? CLOTILDE – Como você vê. abaixa os óculos. . BERENICE – E papai? CLOTILDE – (Abaixando os olhos e contraindo o rosto. (CLOTILDE fica meneando a cabeça. CLOTILDE – Já faz tanto tempo.) Pode. Ela ergue a cabeça. Usa óculos como os da mãe e está bem envelhecida.) Sou eu mamãe.) BERENICE – Me perdoa. minha filha. Examina toda a sala e volta-se para a mãe.32 SEGUNDO ATO – QUADRO V CLOTILDE. (BERENICE entra. absorta. Já faz muitos anos. Soa a campainha. (Silêncio. Vai-se indo.) BERENICE – (Tímida.) Posso entrar? CLOTILDE – (Atrapalhada.

) E você. Não respondeu.) As coisas têm sido muito difíceis pra gente. Coitado.) Morreu como um passarinho.33 CLOTILDE – (Puxando-a em direção à mesa. .) Ele ia se aposentar no fim daquele ano. Faliu oito meses depois. Estava muito quietinho. Conta como foi. (Escondendo o rosto entre as mãos. Só falava nisso. CLOTILDE – Então manda ele entrar.) É tão difícil. A vida não me surpreende mais não. Pedro está desempregado há vários meses. CLOTILDE – (Voltando a chorar. Mas nada deu certo. Jeremias. Já estava morto. BERENICE – Antes tem uma coisa que eu queria contar pra senhora. Mas achei estranho. Ficar lá fora com esse frio. Eu queria pedir pra gente ficar aqui até acertar a vida.) Vem sentar. BERENICE – Estamos numa situação muito difícil. Mas morreu. Não conseguia arranjar mais nada. Estava tão contente. CLOTILDE – Pobrezinho. O rosto tão sereno. Parecia que estava dormindo. mamãe. onde está? BERENICE – Pedro está esperando lá fora. Acontece tanta coisa. (Sentam-se. (Pausa. filhinha? Porque nunca mandou notícias? Seu pai teria ficado tão feliz. A gente não sabia como é que vocês estavam. E seu marido. Acho que vai acontecer alguma coisa ruim. (As duas choram. Depois do jantar sentou no sofá pra descansar um pouco. minha filha.) Só tivemos um. Aqui tem um senhor que foi amigo do pai dele e que prometeu arranjar um emprego. (Pausa. Ele ainda tentou abrir outros negócios. Quando olhei pra trás parecia que ele estava dormindo. Nasceu tão fraquinho. Chamei: Jeremias. CLOTILDE – Você casou com aquele rapaz? BERENICE – Casei. CLOTILDE – Fala. CLOTILDE – E a firma que ele ia ser sócio? BERENICE – Não deu em nada. CLOTILDE – E os filhos? BERENICE – (Chorando. Naquele dia ele chegou em casa e me disse: hoje estou sentindo uma tristeza tão estranha. CLOTILDE – Porque não entrou? BERENICE – Achamos melhor eu vir na frente. Parecia que estava adivinhando. Por isso que nós voltamos. mãe. Eu fui costurar. mamãe. BERENICE – É a vida.) Quer comer uma coisinha? BERENICE – Depois.

Coitada. Agora vai chamar seu marido enquanto eu preparo uma coisinha pra vocês comerem. Depois sai pela esquerda.34 CLOTILDE – É claro que pode.) Tem um pedacinho de bolo. Já está tudo pronto. filhinha. (Afasta-a e contempla-a. CLOTILDE fica arrumando a mesa para o lanche. Já está tão velhinha. põe xícaras.) CLOTILDE – Como vai.) A senhora não mudou nada. BERENICE – Você é tão boa. Não é o que o espelho me diz quando eu acordo. BERENICE – É bom voltar pra aqui. BERENICE – Não é boa demais pra isso. Tenho vivido tão sozinha. Pedro? PEDRO – (Abraçando-a. (Entra CLOTILDE pela esquerda enxugando as mãos no avental. Há quanto tempo. pão. Entram BERENICE e PEDRO pela direita. Um dia a casa vai ser sua mesmo. CLOTILDE – Bondade sua.) CLOTILDE – Conversa fiada. PEDRO está bastante envelhecido. CLOTILDE – Não precisa. açucareiro. BERENICE – (Levantando-se. PEDRO – A gente tem de fazer tudo pra agradar a ela. mamãe. Me sinto segura. . PEDRO – Cadê sua mãe? BERENICE – (Alto. Estende uma toalha. colheres.) PEDRO – Acho que ela não guardou mágoa não. satisfeito consigo próprio.) Um instantinho.) Mamãe! CLOTILDE – (Fora. Vocês podem ficar pra sempre. Tem tanto lugar. BERENICE – Deixa que eu ajudo a senhora. Mas sentem que vou trazer o lanche. etc. manteiga. Senta aí.) PEDRO – (Examinando a sala. mamãe. (Sai. (Sai pela direita.) Ainda está tudo nos mesmos lugares. Ele não reflete o espírito. Traz duas malas que deposita no chão. filhinha. (Sorri. Como eu me arrependo do que fiz. (BERENICE e PEDRO sentam-se. PEDRO – É bom estar de volta. CLOTILDE – Não tem importância. não sei. umas rabanadas que eu fiz domingo e ainda estão aí. PEDRO – O espelho é mentiroso.) Obrigado. E vai ser muito bom pra mim. Aqui as coisas vão dar certo. Encaminhando-se para a esquerda.) Dona Clotilde. Deus escreve certo por linhas tortas.

) Encontrei um vidrinho de geléia de morango também. (Silêncio. Nunca vi isso nessa época do ano. CLOTILDE – É verdade. Os livros não passam de mentiras pra enganar os bobos. (Senta-se. A gente pensa que está se afastando de um ponto e nunca faz mais do que voltar pra ele. Nos livros a gente sempre se identifica com o personagem vencedor. Imagina que as pessoas são boas e honestas.) O doutor Ataíde – esse senhor que vai me empregar – foi chefe do meu pai. A senhora imagina.) Então vai trabalhar de novo aqui? PEDRO – A gente sempre volta um dia. dona Clotilde. Coisa que os bancários geralmente não têm. Jeremias sempre dizia que mais vale um pássaro na mão que dois voando. Me dei mal mas adquiri muita experiência nesses anos. Tinha muito respeito por ele. CLOTILDE – Em algum lugar ele há de estar ouvindo isso. Compensar aquilo que ele não fez por meu pai. CLOTILDE – A segurança vale mais que tudo nessa vida. BERENICE serve o café e os três comem e bebem.) BERENICE – Pedro vai trabalhar num banco. Por isso acredito que vou me dar muito bem. CLOTILDE – Está bem. dona Clotilde. (Coloca a bandeja sobre a mesa. dona Clotilde. (Silêncio. (Pausa. Acho que a vida é um círculo. Comem. PEDRO – O inverno veio mais cedo do que se esperava. Jeremias costumava dizer que as coisas são como um iô-iô.35 CLOTILDE – (Entrando com uma bandeja onde há tudo que foi mencionado além de um bule de café.) Seu Jeremias. Ele conhecia a vida. CLOTILDE – É verdade. Tenho certeza que vai me ajudar. É um emprego mais seguro.) Mas agora vai ser diferente.) PEDRO – Tenho dado muita cabeçada. E deve estar feliz. Nem me lembrava que tinha isso. Acho que será melhor pra gente.) PEDRO – (Animado. Mas na verdade os homens são uns patifes. PEDRO – (Pensativo. (Pausa. Vão lá embaixo e voltam. Conheço o mundo dos negócios por dentro. Tenho visão das coisas.) BERENICE – Deixa que eu sirvo. Sempre naquela vidinha. Pelo menos no fim do mês o ordenado é certo. Enrolando-se mais no xale. (Silêncio.) Não tenho mais ilusões não. BERENICE – Ele tinha experiência. (Pausa. Queria que ele ainda estivesse aqui pra pedir perdão. . Quando a gente é jovem pensa que as coisas são fáceis.) Tem feito tanto frio ultimamente. Um calvário.

meu Deus.) As coisas poderiam ter sido diferentes se eu não me tivesse metido com gente tão ordinária. PEDRO se sobressalta e vira-se lentamente para a porta central.) PEDRO – (Admirado.) Estou querendo me lembrar o que eu pensava disso há dez anos atrás. Gente que se dizia amiga de unha e sangue me fez das piores..) Engraçado. BERENICE – Isso é coisa do passado. Mas depois. (Pausa. Quando a gente é jovem é muito orgulhoso. meu filho. PEDRO – Diga. longamente. CLOTILDE – Deus te ouça. PEDRO – (Para si mesmo. BERENICE – Isso não tem mais importância. Todos uns patifes. Jeremias sempre dizia: o homem é o lobo do homem. BERENICE acompanha-lhe os movimentos.) PEDRO – Levei muitas rasteiras. (Pausa.) Mas isso não tem importância. BERENICE – Seria uma recompensa pra todo esse sofrimento que a gente tem tido. aflita.. CLOTILDE – Amém. CLOTILDE – O mundo é assim mesmo. Pra que relembrar? .) Ela ainda está aqui? CLOTILDE – Onde poderia estar? Aqui é a casa dela. Que seria de nós sem ela? BERENICE – (Apreensiva.) Ele disse que há muitas possibilidades de subir na carreira. hein. Nunca mais pensei nisso. graças a Deus. dona Clotilde. BERENICE – Era um santo.) Eu me lembro direitinho o que você falou. (Silêncio. meu filho. Em um ano sou chefe de seção.36 BERENICE – (Para CLOTILDE. BERENICE – Nós mudamos muito. não é Pedro? PEDRO – (Pensativo.) Não digo nada não. (Silêncio. PEDRO – Deus o tenha. Tinha me esquecido inteiramente dela. Pedro. Ouve-se um mugido. CLOTILDE – (Com uma ponta de sarcasmo. PEDRO – Vou subir num instante. mamãe. Ninguém ali tem a cancha que eu tenho.) A vaca. Mas em dois anos é capaz de eu já ser gerente. (Fecha os olhos e esfrega a testa com a mão.

Pedro. Não bastou tudo que passamos? Você tendo um emprego fixo pra mim já é o bastante.) Está vendo? Não haverá mais problemas. que já é tarde. PEDRO – Mas pra mim não é. mamãe. Nós não temos mais condições de ter orgulho. (BERENICE abaixa a cabeça.) BERENICE – Esquece isso. BERENICE – Não queremos dar amolação. mamãe. BERENICE – Não. (Pausa. Eu fico com a pequena. CLOTILDE – Eu sei. minha filha. Jeremias sempre dizia que todos os rios correm para o mar.) Mas vamos pensar na vida. BERENICE – (Para CLOTILDE.) Assim que eu conseguir uma promoção a gente se muda. CLOTILDE – Você achou a coisa mais ridícula que já tinha visto na sua vida. PEDRO – Não é orgulho. Vocês ficam com a minha cama. (BERENICE sacode a cabeça.) . Silêncio. PEDRO continua pensativo. CLOTILDE – Amolação nenhuma.) Ridículo. (Levanta-se e sai pela esquerda. levanta-se e sai pela esquerda.37 PEDRO – (Para CLOTILDE. Vou arrumando enquanto vocês acabam de comer. CLOTILDE – Há sim. BERENICE – Isso foi há dez anos atrás. Naquele tempo eu achava muita coisa ridícula. BERENICE – Deixa essas ilusões de lado... CLOTILDE – (Amarga.) Há mágoas que nem dez anos curam. Não há necessidade. A casa é de vocês. mamãe. Ninguém pode subir na vida com uma vaca dentro de casa. CLOTILDE – E hoje? PEDRO – Aprendi muito. mãe. PEDRO – (Pensativo. PEDRO está absorto.) Diga.) BERENICE – Nós aprendemos nossa lição. Isso vai atrapalhar meus planos. Pra que que eu preciso duma cama de casal? Fiquem vocês com ela. comendo. (Pausa.

(Silêncio. Falei com ele hoje de tarde.) PEDRO – (Abrindo. Ele confirmou que vinha. Que que você quer que eu faça? BERENICE – (Aflita. Silêncio. agitado. (Ela faz um gesto de enfado. PEDRO – Vamos esperar mais vinte minutos. Pedro. . que acorda assustada. Já estou há três anos naquele banco e não tive nenhuma promoção. BERENICE está sentada à mesa com a cabeça recostada na mão. Há seis meses que eu convido. Sem saber onde jogar ele enfia num bolso do paletó. Os dois ficam afobados. desanimada.) Já te expliquei mil vezes. ATAÍDE.A mesa está posta.). não vai ter problema. CLOTILDE cochila numa poltrona. É o único jeito de conseguir promoção.) Doutor Ataíde. BERENICE – Mas precisava ser aqui? Você sabe muito bem os problemas que a gente tem. É muito importante pra mim. PEDRO vai abrir a porta da direita. CLOTILDE. PEDRO – Não fala isso. Se ele não vier a gente deve agradecer a Deus. não se afobar (Olha para a porta central. PEDRO – Ele tem que vir. BERENICE. PEDRO – (Abaixa-se e pega no chão um pedaço de papel ou barbante. Soa a campainha.) BERENICE – Acho melhor a gente jantar logo. PEDRO – Vem. Tomara que não venha mesmo.) Olha que desleixo. É meu chefe. Não vai fazer uma desfeita dessas. Os três estão em trajes de ocasião especial.38 QUADRO VI PEDRO. PEDRO caminha de um lado para outro. para quatro pessoas. Ele não vem não. Pedro. Se a gente fizer tudo direitinho.) Não vai dar certo. Fica calma. com uma vistosa toalha. Mostrando para BERENICE.) BERENICE – Não sei pra que que você convidou esse homem pra jantar aqui. É uma pessoa de caráter. BERENICE – São quase dez horas. Quero me tornar mais amigo dele. PEDRO – (Irritado. Me garantiu que vinha. (Silêncio. BERENICE corre até a poltrona e sacode a mãe. ATAÍDE – (Entrando.) Estou atrasado? . Mamãe já até dormiu.

) Obrigado. PEDRO – Um pouco frio hoje.) Minha sogra.) Mora aqui há muito tempo? PEDRO – Desde que voltamos à cidade. PEDRO – Atualmente tem muita condução. Me achou parecido com alguém. não é? ATAÍDE – Muito.) Encantado. CLOTILDE – É. Vindo para o centro da sala. (Pegando o cálice.) Doutor Ataíde.) Encantado.) ATAÍDE – (Examinando a casa. para BERENICE. ATAÍDE – Mesmo assim é fora de mão. CLOTILDE – Há mais de trinta e cinco anos. Oferece a ATAÍDE. PEDRO – Mas vamos sentar.) Esta é minha esposa. (Sentam-se nas poltronas.) Muito prazer. (Fecha a porta. . BERENICE – (Para ATAÍDE. PEDRO – (Para ATAÍDE. (CLOTILDE estende a mão e sorri.) O senhor quer um vinho do porto? ATAÍDE – Aceito. Desde que o senhor entrou me deu essa impressão.39 PEDRO – Absolutamente. Mas dona Clotilde já está aqui há.) Estou tão impressionada com uma coisa.) ATAÍDE – (Apertando-lhe a mão. Uma noite boa para se ficar em casa. CLOTILDE – É. ATAÍDE – (Apertando-lhe a mão. CLOTILDE – (Olhando fixamente para ATAÍDE. Indicando BERENICE.) O mal desse lugar é que fica muito longe do centro.) ATAÍDE – Sou um bom psicólogo. BERENICE – (Estendendo a mão. Como é que o senhor adivinhou? (Entra BERENICE pela esquerda com um cálice de vinho na bandeja. PEDRO – Que é? ATAÍDE – Pelo jeito de olhar é comigo. (BERENICE levanta-se e sai pela esquerda.. para PEDRO. (As mulheres se levantam.. (Para BERENICE. ATAÍDE – É uma vida.) Costumamos jantar tarde mesmo. ATAÍDE – Já sei.

ATAÍDE – A doença é assim mesmo. Vem quando menos se espera.40 CLOTILDE – O senhor se parece tanto com meu falecido marido.) Vamos.) Já vai pra mesa.. BERENICE – Então vou servir. ATAÍDE – Igual a meu pai.) CLOTILDE – (Mostrando o medalhão que traz no peito. Acho que nem percebeu que estava morrendo.) Olha aqui o retrato dele. Se não tivesse olhado por acaso não tinha percebido. PEDRO – Vamos passar. desconfiado.. Acho que me lembro. Sem um grito. PEDRO – O senhor quer jantar agora ou prefere. Quando se viu estava morto.) Ia se aposentar naquele ano. Assim de cabeça não me lembro. CLOTILDE – Não é? Levei até um susto quando ele entrou. Pois não ouvi nada. ATAÍDE – (Aproximando-se. ATAÍDE – Podemos jantar. Parecia que estava tão bem. ATAÍDE – Verdade? BERENICE – Também achei.) BERENICE – Não sei se o senhor gosta de canja de galinha. (Consternada. Mas já faz muito tempo. BERENICE – (Entrando com uma terrina. . (Levantam-se e vão sentar-se à mesa. Trabalhava no Departamento Urbano. ATAÍDE – (Vira o cálice de vinho. doutor Ataíde. ATAÍDE – Talvez eu o tenha conhecido.) Você não acha parecido? PEDRO – Acho. CLOTILDE – Ele morreu vai fazer seis anos mês que vem.) É. (Sai pela esquerda. Sem um ai. Acabou de almoçar e foi descansar um pouco. Pedro nunca tinha falado nisso. CLOTILDE – O senhor acredita que ele morreu dormindo. (ATAÍDE olha-o com o canto dos olhos.) ATAÍDE – Como se chamava seu marido? CLOTILDE – Jeremias. Todos os homens de bem são parecidos. (Para PEDRO. CLOTILDE – Ele estava sentado aqui onde eu estou e eu estava na máquina.

Jeremias sempre dizia que um homem se conhece pela família que tem. O funcionário subalterno não. ATAÍDE – Certamente. que são mais dedicados. ATAÍDE – Muito poucos. Isso é que é importante. Conheço os negócios por dentro. doutor Ataíde? ATAÍDE – Está bom.) Vamos ver se o senhor vai gostar do meu tempero. Acho que devem contar também a experiência anterior. Só dá amolação. Homem de caráter estava ali. ATAÍDE – É verdade.) Trabalhou comigo durante quase dez anos. Sei disso porque já tive firmas minhas. CLOTILDE – Pra mim o mais importante é o caráter. ATAÍDE – Só se preocupava em fazer bem o seu trabalho. Faz o seu trabalho e vai pra casa. (Silêncio. Mas eu não aconselharia ninguém a querer ser chefe.) PEDRO – Doutor Ataíde conheceu muito meu pai. Ela serve os outros. (Pausa. Não conhece o mundo.) E depois tem as intrigas. ATAÍDE – (Tomando a sopa. Daí haver tantas demissões. Um verdadeiro inferno. BERENICE – Um bom chefe de família é sempre um bom chefe no trabalho. PEDRO – Eu acho que promoção é um problema de capacidade. Comem. PEDRO – Lá isso ele era.41 ATAÍDE – Na minha idade come-se de tudo. Os chefes. Às vezes o sujeito é dedicado mas não tem nenhuma visão. dona Clotilde. Trabalhou até o último dia de sua vida. Os chefes vêem aqueles que são mais inteligentes. é claro. Tudo que fazem é visando aparecer. BERENICE – (Pegando o prato dele. É aí que o homem mostra o seu valor. percebem isso.) Hoje em dia a maior parte dos funcionários só está atrás de promoção. Sua responsabilidade termina aí.) Sim senhor. CLOTILDE – Homens assim há poucos hoje em dia. Quer dizer. . É aquele tipo de empregado de que uma empresa não pode prescindir: abnegado e desinteressado.) BERENICE – Está bom de sal. CLOTILDE – (Sorrindo para ATAÍDE. (Pausa.) Está bom assim? (Ele concorda com a cabeça. Saiu do banco pra morrer em casa. BERENICE – (Servindo.

Ouve-se um mugido. .) Um mugido. Silêncio. ATAÍDE – Pois então. BERENICE acompanha. Não se preocupe.) PEDRO – (Desesperado. PEDRO e BERENICE ficam aterrorizados. Muuu! (Levanta-se mas suas calças caem.42 CLOTILDE – Jeremias sempre dizia que o maior peso que um homem pode carregar é a responsabilidade. (PEDRO olha satisfeito para as duas. Ser bom chefe de família já é uma porta aberta. etc. intrigado. Boa noite para todos. BERENICE – O boi veio atrás Muuu! ATAÍDE – (Levantando-se. PEDRO levanta-se e fala alto para encobrir. doutor Ataíde. CLOTILDE está séria. não é? (BERENICE ri. Não se assuste não.) Fui passear no pasto e Muuu! Saiu um boi atrás de mim Muuu! (Corre pela sala. ATAÍDE olha assustado. (Ri. CLOTILDE – Estamos acostumados. Muuuu! E o boi atrás de mim Muuu! Eu gritava Muuu! Me acudam. ora de quatro.) Muuuu! Pulei a cerca. ao mesmo tempo que arrasta a cadeira. PEDRO – Aí tinha uma cerca na frente e o Muuuu! O boi atrás de mim Muuuu! Não tive dúvida (Salta sobre a poltrona e cai no chão. ATAÍDE – Parecia um mugido.) E eu na frente. É. quando se pensa em promovê-lo. BERENICE – Isso é uma brincadeira.) Mas a vida familiar do funcionário também é importante. pula daqui. me acudam! Muuuu! E o boi não parava Muuuu! Atrás de mim Muuu! BERENICE – Conta a cerca que você pulou. ora de pé. ATAÍDE olha para os lados. O senhor notou bem. assustado. ele tropeça e cai outra vez. Ouvem-se novos mugidos que PEDRO tenta encobrir com seus próprios mugidos.) Tenho que ir embora.) Parece mesmo.) PEDRO – Já contei pro senhor o que que aconteceu comigo numa fazenda? É muito engraçado. (Para as mulheres. (Encaminha-se para a direita. (Pausa.) BERENICE – A gente precisa mandar consertar isso. ATAÍDE – De madrugada pode dar um susto dos diabos.) ATAÍDE – Que foi isso? PEDRO – (Nervoso. pula dali. mexe na louça. (Começa-se a ouvir um novo mugido.) Ai.) Não é nada.) Espera aí. O cano de água de vez em quando faz uns barulhos esquisitos. PEDRO – (Rindo.

cabisbaixa. arrasado. doutor.) Todo mundo tem seus problemas. (Sai e bate a porta. BERENICE senta-se à mesa. (Abre a porta. PEDRO – (Levanta-se segurando as calças.) ATAÍDE – Não. Pedro. (Ouve-se um mugido.) . Vamos sentar. Estou atrasado.43 ATAÍDE – Mas eu tenho que ir mesmo. Ele o afasta com rispidez. PEDRO deixa-se cair na poltrona. O segredo da vida consiste justamente em saber escondê-los. PEDRO tenta segurá-lo. CLOTILDE volta a comer.) Desculpe. Pedro. Vou embora. Foi só uma brincadeira.

) Ficou bonito? CLOTILDE – Lindo. BERENICE – É que a senhora não tem mais paciência. Velho daquele jeito. Senão. CLOTILDE – Deve estar uma delícia. como se fosse dona do banco. BERENICE – (Farejando.. BERENICE. (Juntando as mãos e olhando. . Disse que ela chega lá e vai entrando na sala dele. BERENICE – (Entrando pela esquerda com o mesmo vaso de flores do quadro III. E assim abertamente. CLOTILDE – Não diga. CLOTILDE – Coitado. É essa situação no banco. BERENICE – É que a senhora toma cuidado. BERENICE – Disse que ele dá presentes caríssimos a ela. . CLOTILDE – Essa vida já tem tão pouca coisa bonita que se a gente não toma cuidado fica sem nada. Ele também tem o direito de se distrair um pouquinho.. BERENICE – (Colocando-o no centro da mesa. Já estou com uma fome. PEDRO. Ainda está perfeitinha.44 QUADRO VII CLOTILDE.) Tem tanto copo-de-leite nessa época. Doutor Ataíde tem se mostrado um patife dos piores. BERENICE – Pedro está demorando tanto hoje. BERENICE – A voltinha de domingo antes do almoço.) Fica tão bem com essa toalha.) Quem diria? Você hoje cozinha melhor do que eu. (Silêncio. satisfeita.) BERENICE – Ele anda tão desanimado. BERENICE retoca detalhes da arrumação. (Pausa. CLOTILDE – Está pegando as mesmas manias do seu pai. que está guarnecida com a mesma toalha branca de renda do quadro III. A terra aqui é muito boa.) Hum! Está sentindo? CLOTILDE – O cheirinho da galinha. CLOTILDE – Coisa boa está aí. Mostrando-o. Ganhei no dia do meu casamento.CLOTILDE enxuga pratos e talheres e arruma-os cuidadosamente sobre a mesa. Sem-vergonha. Imagina que Pedro descobriu que ele tem uma amante.

CLOTILDE – Pode-se imaginar. Mas hoje está num cantinho que é seu. naquele silêncio.) BERENICE – Já chegou? CLOTILDE – Que tal o passeio? PEDRO – (Fecha a porta. (Ouve-se o ruído da chave rodando na fechadura. Pausa. Pelo menos não se vê nenhuma patifaria. Eu tenho uma economiazinha no banco justamente pra essa eventualidade. BERENICE – Só sei que ele anda muito nervoso. Tirando o paletó. A gente se sente bem naquela paz. Passou cinco anos comprando um túmulo a prestação. Isso é que vale. Além disso. . (Senta-se à mesa. CLOTILDE – É por essas e outras que eu acho até bom que o Pedro não tenha sido promovido.) Vocês estão aí? (Está visivelmente mais envelhecido. Lá tem lugar pra nós todos. BERENICE – Depois que passou a gerente deu pra isso. Merecia. Diz que assim que o marido sai pro trabalho ela corre pro telefone.) BERENICE – Você demorou tanto. um caso de doença. Depois se emboneca toda e vai pra rua.) BERENICE – Olha ele aí. Onde vai ninguém sabe. né. Já cheguei. Gasta uma fortuna nisso.45 CLOTILDE – Que escândalo. A dona Eulália tem uma cunhada que costura pra ela. Muda dois três vestidos por dia. meu Deus. quando vier o pior já estamos garantidos. Que coisa. CLOTILDE – Não é tão grave assim. Mamãe já estava morta de fome. Desde mocinha que eu ajunto esse dinheiro. Só volta um pouco antes do marido chegar. graças a Deus. Pode pôr. Jeremias era um homem muito precavido. PEDRO – (Entrando pela direita.) Uma vida inteira de trabalho e não temos nem uma reserva pra uma necessidade. Deus sabe o que está fazendo. CLOTILDE – Há males que vêm pra bem. BERENICE – Mas ele já está lá há cinco anos. Ninguém está livre disso. meu Deus. mamãe.) Fui ao cemitério. A senhora vê. Ele tinha razão. minha filha. Lembrei que seu Jeremias sempre ia lá aos domingos. Jeremias sempre dizia que só sobe quem se mete em patifarias. É o mesmo que estar nua. (Senta-se à mesa. CLOTILDE – E a mulher dele? BERENICE – Parece que também não fica atrás não. PEDRO – Ora. Será que essa gente não tem medo do castigo? BERENICE – Diz que as roupas que ela manda fazer são uma vergonha.

) Não sei se está bom de sal. Comem. dona Clotilde. BERENICE – Não precisa. PEDRO – Se eu falo é porque é verdade.) Está bom de sal? CLOTILDE – Pra mim está.) Esse cheirinho de galinha não me aconselha a esperar não. Silêncio. CLOTILDE – Pois é. (BERENICE serve e depois serve a si própria.) É um calvário. BERENICE – (Mastigando. Comem. dona Clotilde.46 CLOTILDE – Não é tanto assim. Também estou com fome.) PEDRO – Hoje vi o enterro de um autor de teatro. Berenice traz.) Mais ou menos. (Ela senta-se. BERENICE – (Entrando pela esquerda com uma terrina que coloca sobre a mesa. animado. Hoje pus bastante sal. Como é mesmo? Marcílio. . (Para CLOTILDE.) Está muito gostoso. CLOTILDE – (Mastigando. pode pôr. Deixa que eu trago (Sai. (Pausa. (Esfregando as mãos. Está muito cansado.. (Estende o prato e ela serve.) BERENICE – (Para PEDRO.) BERENICE – Você gosta muito de reclamar. CLOTILDE – Eu te ajudo. É um calvário. CLOTILDE – Você também. Esse tal de.) Fui ver a sepultura do seu Jeremias. Silêncio.. Essa semana não tive tempo de ir lá. É tanta coisa.) PEDRO – Senta.) Está bom? PEDRO – (Mastigando. Vamos ver se ele vai falar. Marcílio Moraes. (Silêncio.) Então vou servir. BERENICE – (Levanta-se. Depois de uma certa idade a gente não pode mais fazer determinadas coisas não. (Silêncio.) A senhora quer coxa ou peito? CLOTILDE – Coxa. PEDRO – Não. minha filha.) PEDRO – A senhora precisa se cuidar mais. Pedro sempre fala que está insosso. Deixa ele descansar um pouco. Não dou mais conta não. Já estou velha. Tirei um pouquinho de limo que tinha dos lados e troquei as flores. Eu te conheço.

sardinha. Aponta a mesa.) Aí. (Pausa.. A integridade. Isso sim. Que acabe com esse desrespeito. PEDRO – Agora parece que ninguém dá mais importância a eles. Um monstro. PEDRO – Safados. Galinha ao molho pardo. . PEDRO – (Furioso. BERENICE – São desajustados.) Imagina que uma peça que ele escreveu era a história de uma família que morava com um.47 BERENICE – Tinha muita gente? PEDRO – Nada. os bons costumes pra eles não significam nada.) Só a indecência.) CLOTILDE – Não sei onde esse mundo vai parar. Esse é que é o termo exato. doces. BERENICE – Que coisa mais boba.. PEDRO – (Mastigando. PEDRO – Precisamos de alguém que imponha ordem.) Hum. Bicho enorme dentro de casa. a patifaria que serve. No jornal ainda dizia que o bicho simbolizava a falta de sentido. CLOTILDE – Mas ele era bem conhecido. (Pega uma coxa com a mão e dá uma dentada. CLOTILDE – Antigamente tinha. o vazio da nossa vida e outras idiotices. a moral.. Também pudera. Não passamos necessidade não. PEDRO – Que que eles pensam que a gente é? Gado? CLOTILDE – Não é de admirar que ninguém vá ao enterro deles. Graças a Deus. bolo. CLOTILDE – Deviam proibir essas peças. avelã. É presunto. Sei lá. bacalhau. nozes. Temos a mesa farta. Corja! BERENICE – E ainda chamam isso de arte. não é? PEDRO – Acho que era. Por aí você vê o que eles pensam. CLOTILDE – Isso é tudo maluco. Uma vez li um artigo no jornal sobre esse tal de Marcílio Moraes. não falta nada. CLOTILDE – (Com cara de nojo. Nossa ceia de Natal não fica atrás da de ninguém.. Acham que a vida que a gente leva não vale nada. Eu pensava que essa gente de teatro tinha mais prestígio. Meia dúzia de gatos pingados.) Boba? Um escárnio. Comem. (Silêncio..

ele acorda. bonitas. Que idéia. BERENICE – Será que pus muito tempero? PEDRO – Não é isso. Assim como se fosse receber uma notícia muito importante. Descansa bem hoje que amanhã já está melhor. (Começam a tirar a mesa. Levam a louça pra dentro e voltam até acabar. Vou recostar um pouco na poltrona. BERENICE – Deus nos perdoe. BERENICE – Eu também. Esses absurdos.) BERENICE – Que é? Está ruim? PEDRO – Não. (Sacudindo a cabeça. CLOTILDE – (Levantando-se. PEDRO cruza os talheres no prato e põe a mão no peito. mas ruim. A cabeça vai caindo. ele acorda. PEDRO fecha os olhos e cochila. Perdi a vontade.) Hum! (Silêncio. (PEDRO vai sentar-se na poltrona. em cochichos. Você tem trabalhado demais.) BERENICE – A senhora quer doce? CLOTILDE – Não. CLOTILDE – Isso. Por fim dorme. Cai outra vez.48 PEDRO – A vida já é tão dura e eles ainda querem atormentar mais a gente com esses problemas idiotas.) Então vamos tirar duma vez. Está me dando um fastio estranho. PEDRO – Agora essa comida não está me fazendo bem. Não vou comer mais não.) BERENICE – (Puxando CLOTILDE para um canto. PEDRO – Não. As duas andam na ponta dos pés. BERENICE – Quer doce? CLOTILDE – Tem gelatina.) A senhora acha que ele está doente? . BERENICE – Em vez de escrever umas coisas agradáveis. Estou cansado. CLOTILDE – Está sentindo alguma coisa? PEDRO – Hoje acordei com uma sensação esquisita. CLOTILDE – Cruz Credo.

) BERENICE – (Angustiada. vai até ele e o sacode. Depois que ele dormir um pouco melhora.) Pedro! Pedro! Pedro! Pedro! . Isso é cansaço.49 CLOTILDE – Não. CLOTILDE – Aproveita pra acabar aquela costura. Ela se assusta. BERENICE continua sacudindo PEDRO. (CLOTILDE sai pela esquerda e BERENICE senta-se na máquina de costura.) Faz alguma coisa. Trabalha durante algum tempo e vira-se para olhar PEDRO. BERENICE – Deus queira. corre. O tom vai do desespero ao choro franco.) Pedro! Pedro! (Ele não se mexe. Agarra PEDRO e o sacode. Eu vou recostar um pouco.) Pedro! Pedro! Mamãe. Chama o médico. Depressa.) CLOTILDE – Pedro! Pedro! BERENICE – (Desesperada. (CLOTILDE sai apressada pela direita. Desesperada. Pedro está morrendo. Gritando. Ele está absolutamente imóvel. Pedro! (CLOTILDE entra assustada pela esquerda.) Pedro! (Levanta-se correndo.

) BERENICE – Qual o sentido disso tudo? (Socando a mesa e chorando. minha filha. Eu fui costurar. Longo silêncio. CLOTILDE – Essa gente é muito ocupada. mexe o café. Ele estava muito quieto. BERENICE – Sentou na poltrona pra descansar um pouco. BERENICE chora.) Na hora do almoço ele ainda disse: hoje acordei sentindo uma coisa tão esquisita.) CLOTILDE – (Levantando-se. Vestem-se de preto. Já estava morto.) CLOTILDE – Conforme-se. (Pausa.) Toma o café. .) Você viu a coroa que o doutor Ataíde mandou? BERENICE – Vi.Cena vazia. Ele andava trabalhando demais. meu Deus? Por quê? (Pausa. BERENICE – Ele estava tão bonito no caixão. As duas emitem longos suspiros. CLOTILDE – Parecia que estava adivinhando. Sentam-se à mesa e apóiam a cabeça na mão. Acho que nem sentiu nada. CLOTILDE. (Pausa. Chamei: Pedro.50 QUADRO VIII BERENICE. Quando olhei pra trás achei estranho. CLOTILDE – Parecia que estava dormindo. BERENICE – Morreu como um passarinho. pão. BERENICE esconde a cabeça entre as mãos.) BERENICE – Por que.) Vou ver uma coisinha pra gente comer.) Por quê? CLOTILDE – Não se desespere. Sua fisionomia traduz cansaço.) Por que que a gente sofre tanto? CLOTILDE – (Entra pela esquerda com uma bandeja com duas xícaras. (Sai pela esquerda. CLOTILDE – Coitado. bolo. (Silêncio. (Ela enxuga os olhos com a mão. É como se eu fosse receber uma notícia muito ruim. minha filha. Mas ele nem se deu ao trabalho de ir lá. angústia e desespero. Entram BERENICE e CLOTILDE pela direita. minha filha. Pedro. Senta-se e serve. bule de café. Ouve-se rodar a chave na fechadura. Hoje você ainda não comeu nada. Silêncio. Ele foi prum lugar melhor. pega um pedaço de pão. Eu bem que avisei. talheres.) Não respondeu. Comem.) Calma. . (Coloca a bandeja sobre a mesa. (Silêncio. (Chora.

O quarto está totalmente escuro. Dentro do quarto vê-se. Saber pra que que a gente leva essa vida. Você está muito nervosa. desesperada. BERENICE abre a porta. minha filha.) CLOTILDE – Não. Entra tateando. (BERENICE levanta-se mas não sair do lugar.) Mamãe. minha filha. minha filha. Alguma coisa que alivie essa dor. (Vai-se agachando lentamente até o chão.) Não tem nada. (Chora.) CLOTILDE – Vem pra mesa.) BERENICE – É muito cruel. BERENICE – (Afastando-a com violência. CLOTILDE – Não se deixe levar pelo desespero. É como se tivesse alguma coisa aqui dentro me estraçalhando o coração. CLOTILDE esconde o rosto entre as mãos e vira-se de costas. JEREMIAS. CLOTILDE senta-se à mesa.) Deixa. mamãe.) Não entendo. Entra um raio de sol que inunda toda a cena. (Corre até ela e a sacode. BERENICE – Agora não tem mais importância. Hesita. Espera um pouco para acostumar os olhos. Há ainda dois ganchos vazios.) Não. BERENICE – (Desesperada. Eu quero uma resposta. BERENICE – (Erguendo a cabeça. mãe. Ela dá um passo à frente. abrir portas que eu sei que não se deve abrir. Nada. Quero uma resposta.51 BERENICE – Mas o que que custava? Pedro teria ficado tão feliz. (Vai até o fundo do quarto e abre a janela.) CLOTILDE – Conforme-se. mamãe.) Por que isso tem que acontecer? CLOTILDE – Pra morrer basta estar vivo.) Nada. mãe? Não me resta mais nada. BERENICE – (Decidida. (Pausa. PEDRO e uma metade esquartejada de boi.) CLOTILDE – (Enérgica.) Mas não tem nada aqui. CLOTILDE puxa-a. Após algum tempo. pendurados no teto. (Desesperada. Silêncio.) Não. É pro seu próprio bem. BERENICE – Que que importa agora. CLOTILDE – (Aflita. Tenho vontade de fazer uma loucura. (Chora. mamãe. (Segura a maçaneta. E os mugidos? Quem? (CLOTILDE encara-a friamente e desvia o olhar.) Mas dói. minha filha. (CLOTILDE corre até ela e a segura. chorando.) . não tem nada aqui. procura divisar alguma coisa lá dentro. Não faça isso. Vem descansar um pouco. Só essa dor insuportável.) Queria descobrir o sentido disso tudo. BERENICE abaixa a cabeça e chora.) Calma. (Levanta-se e dirige-se para a porta central. Revoltada. por ganchos de açougueiro.

(BERENICE enxuga os olhos. Está entrando sol. Ouve-se um longo mugido. fecha a porta e vem sentar-se. A luz começa a decrescer suavemente. A luz vai decrescendo até a completa escuridão. As duas voltam a comer.) Fecha a janela. cabisbaixas.) FIM . Você está tão pálida. (BERENICE vai até o quarto e fecha a janela.52 CLOTILDE – Vem tomar mais um pouquinho de café. Ela sai.

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