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Referenciação e intencionalidade

:
considerações sobre escrita e leitura
Sueli Cristina Marquesi (PUC-SP)

Neste artigo, tenho por objetivo discutir a importância dos estudos sobre referenciação para o desenvolvimento da escrita e da leitura.
Tomando por base os fundamentos teóricos da Lingüística Textual e
analisando textos jornalísticos de opinião, oriento-me pelos seguintes
pressupostos: i) a referenciação é uma atividade que consiste na (re)
construção de objetos-de-discurso; ii) a referenciação revela a intencionalidade do escritor e orienta o leitor na construção de sentidos; iii)
a intencionalidade refere-se à forma como falantes/autores utilizam
a linguagem para concretizarem suas intenções comunicativas. Os
resultados evidenciam que as expressões referenciais em textos jornalísticos de opinião cumprem uma função argumentativa relacionada
à intencionalidade do autor e apontam a relevância da compreensão
do processo de referenciação para a construção de sentidos, tanto do
ponto de vista do autor, quanto do ponto de vista do leitor.

Considerações iniciais
Tema relevante dentro da agenda da Lingüística Textual, na
contemporaneidade, os estudos sobre a referenciação abrem muitas
perspectivas para o tratamento do texto seja em situação de escrita,
seja em situação de leitura.

Para o desenvolvimento do presente artigo. na segunda. analiso o processo de referenciação em textos jornalísticos de opinião. orientando-me por Mondada e Dubois (2003). de outro. estudiosos que vêm se dedicando ao tema em sua dimensão mais ampla. imprescindível à leitura de quaisquer textos. ao escrever seu texto. de um lado. a abordagem da referenciação constitui questão prioritária. sobre o mesmo assunto e inseridos no mesmo contexto. e que orienta o leitor na construção de sentidos do texto. estabeleço um diálogo com Mondada e Dubois. 2005). proponho-me a discutir aspectos teóricos relativos à referenciação. por meio dela. o leitor orienta-se no exercício da construção de sentidos. A primeira trata da categoriza–216– . Beaugrande). Ingedore Villaça Koch e Luiz Antonio Marcuschi e analisar a questão em textos jornalísticos de opinião. e. apresento uma reflexão sobre a análise realizada. uma vez que. princípio de textualidade que define escolhas que o autor faz. Mondada e Dubois (2003) situam duas linhas argumentativas para o tratamento da referenciação. mas escritos por autores com posições antagônicas em relação ao tema desenvolvido. relacionando a referenciação ao princípio de intencionalidade e aponto perspectivas para novos estudos. tratados por Mondada e Daniele Dubois. no diálogo imprescindível entre escrita e leitura.Coleção Mestrado em Lingüística Pode-se dizer que. discuto aspectos teóricos relativos à referenciação. na terceira. o escritor constrói seu objeto de discurso. Koch e Marcuschi. pondo em foco a relação entre a referenciação e a intencionalidade (cf. Sobre a referenciação: uma perspectiva teórica Para situar a perspectiva teórica que ampara a concepção que aqui adoto sobre a referenciação e orienta a análise que será realizada. Neste artigo. Koch (2004) e Marcuschi (2003. proponho sua apresentação em três partes: na primeira.

assim como a categorização. já que são concernentes às práticas e aos discursos. ao estudar a referenciação. estando ambas estreitamente imbricadas. Koch (2004). uma vez que este tem relação direta com as escolhas lexicais e com a organização estrutural das categorias cognitivas. A referenciação. explicita sua concordância com Mondada e Dubois. tratar da referenciação exige que se pense não apenas na abordagem lingüística. Neste sentido. e a segunda trata de uma perspectiva lingüística interacionista e discursiva. o elemento contextual assume igual importância para tratamento da questão. 1994). Neste sentido. assume. há um processo de ajustamento das palavras que não se faz diretamente em relação ao referente dentro do mundo. por meio da qual os processos de referenciação são analisados em termos de construção de objetos de discurso e de negociação de modelos públicos do mundo. mas descrever os procedimentos lingüísticos e cognitivos por meio dos quais os atores sociais constroem os referentes. a fim de construir o objeto de discurso pelo curso do próprio processo de referenciação (Mondada. pois.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura ção. um caráter de prática simbólica. mas no quadro contextual. –217– . tanto Koch quanto Mondada e Dubois apontamnos que as variações no discurso dependem muito mais da pragmática da enunciação do que da semântica dos objetos. por meio da qual os sistemas cognitivos dão uma estabilidade ao mundo. necessariamente passando pela leitura de mundo do autor. dando destaque ao fato de que a categorização deve ser vista como um problema de decisão que se coloca aos atores sociais. Desta forma. no sentido de que a questão não é avaliar a adequação de um rótulo correto. na escrita de um texto. mas também na cognitiva. Assim.

construído em atividades discursivas que permitem toda a reflexão humana e a análise do próprio pensamento no âmago da linguagem. da ativação dentre os conhecimentos pressupostos como partilhados com o(s) interlocutor(es). Para Marcuschi (2003). não está segmentada da forma como é concebida. isto é. 1989. assim como a inferenciação e a categorização. Se a referenciação é uma atividade que consiste na (re)construção de objetos de discurso. a partir de um background tido por comum. O autor também defende a tese de que não existem categorias naturais. mantida e alterada não somente pela forma como sociocognitivamente se interage com ele: interpretam-se e constroem-se mundos por meio da interação com o entorno físico. mas as coisas ditas são coisas discursivamente construídas. a referenciação. social e cultural. pode-se dizer que as escolhas para cada contexto são feitas em função do projeto de dizer do produtor do texto (Koch. ou seja. pode-se dar destaque a duas considerações muito importantes: os processos de referenciação são escolhas do sujeito em função de um querer-dizer. pode-se estabelecer uma confluência entre o pensamento de Marcuschi (2003) e o de Mondada (1994). em geral. a realidade é construída. 1992. também para a autora. 1997). Tratase. e as coisas não estão no mundo da maneira como são ditas.Coleção Mestrado em Lingüística Concordando com Koch (2004). objetos de discurso. mas (re)constroem-na no próprio processo de interação. e os referentes são. na maioria. de características ou traços do referente que o locutor procura ressaltar ou enfatizar. uma vez que. uma vez que não existe um mundo naturalmente categorizado. Ainda de acordo com os fundamentos de Koch. 1984. Os objetos-de-discurso não se confundem com a realidade extralingüística. a maneira como se diz aos outros as coisas –218– . segundo o estudioso. A realidade. em relação à escrita de um texto. é um processo básico.

no processo de referenciação. A anáfora indireta. conteúdos ou contextos textuais (retomando-os ou não). indefinidas e pronomes interpretados referencialmente sem que lhes corresponda um antecedente ou subseqüente explícito no texto. de construção. para constituir-se. pois ela se dá nas situações concretas de uso. Neste sentido. o que ocorre por meio da anáfora indireta. contribuindo assim para a continuidade tópica referencial.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura é decorrência da atuação lingüística sobre o mundo. Guiado pela premissa de que as referências textuais são construídas no processo discursivo e de que muitos referentes são objetos de discurso construídos no modelo textual. já que as atividades de categorização têm uma dimensão discursiva. as anáforas indiretas não estão. os aspectos lingüísticos constituem-se em fontes para as interações. no que se refere ao fato de que o mundo comunicado é sempre fruto de um agir comunicativo ou de uma ação discursiva e não de uma identificação de realidades discretas. ainda. viabilizada por uma estratégia endofórica de ativação de referentes novos e não de uma reativação de referentes já conhecidos. restritas ao campo dos pronomes e da referência em sentido restrito. enunciados. como sempre estiveram. que pode ser constituída por expressões nominais definidas. Marcuschi (2005) apresenta o processo de referenciação implícita. Trata-se de identificar as formas de inserção sociodiscursiva no mundo. isto é. em função das intenções pretendidas com cada texto produzido. em expressões que se reportam a outras expressões. objetivas e estáveis. acredito que. no texto. deixando. –219– . é um caso de referência textual. neste sentido. de ser apenas repetição de uma expressão ou sintagma. pois. segundo o autor. de indução ou ativação de referentes no processo textual-discursivo que envolve atenção cognitiva conjunta dos interlocutores e processamento local e. Considerando. que a língua não pré-existe. com o autor. concordo com Marcuschi.

que levam seus autores a escolhas diversificadas. ao tratarem do mesmo assunto. a referenciação expande a intenção do autor de posicionar-se favoravelmente em relação ao desempenho do presidente Lula no primeiro mandato. mas defendendo posições antagônicas. as quais são manifestadas por seus respectivos processos de referenciação. foi escrito por Gustavo Fruet. como se verá a seguir. Os dois textos. são desenvolvidos. com suas escolhas lingüísticas. desenvolvido sobre um eixo argumentativo desfavorável. doutor em direito pela Universidade Federal do Paraná e deputado federal (PSDB-PR). dois dias antes da posse do presidente Lula para seu segundo mandato. apontam para orientações argumentativas distintas. 30 de dezembro de 2006. desenvolvido sobre um eixo argumentativo favorável. No texto (I). foi escrito por Antonio Palocci Filho. buscando. buscando. evidenciar que ele criou condições favoráveis a um segundo mandato melhor. O texto (I). O texto (II). Para a mesma questão colocada – O presidente Lula criou as condições para fazer um segundo mandato melhor que o primeiro? – dois textos. com suas escolhas lingüísticas. com visões antagônicas. no mesmo dia. a seção Opinião – Tendências e Debates – do Caderno 1. coerentes com o fio condutor de cada texto. a referenciação expande a intenção do autor de posicionar-se contrariamente em relação ao desempenho do presidente Lula no primeiro mandato. –220– .Coleção Mestrado em Lingüística AnÁlise do processo de referenciação em dois textos jornalísticos de opinião Os dois textos selecionados para esta análise foram veiculados na mesma seção do jornal Folha de S. No texto (II). Paulo. médico sanitarista e deputado federal eleito (PT-SP) e ex-ministro da Fazenda. evidenciar que ele não criou condições favoráveis a um segundo mandato melhor do que o primeiro.

O resultado é um país travado. O adiamento da divulgação do pacote do crescimento é mais um sintoma de que o governo não dispõe de um projeto. numa confissão involuntária do que foi seu primeiro governo.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura Texto I – O presidente Lula criou as condições para fazer um segundo mandato melhor que o primeiro? NÃO Mais do mesmo? O “NÃO” que norteia este texto tem caráter construtivo. Os bons ventos sopraram sem que o governo enfrentasse desafios. Mas uma pergunta se impõe: qual é a agenda para os próximos quatro anos? Toda reflexão a esse respeito levará à conclusão de que o governo continua se afirmando mais como símbolo de possibilidades. observa-se a continuidade de atritos e disputas no governo. Os anos recentes ofereceram ao país condições muito favoráveis. como se viu na definição do salário mínimo. a garantia da estabilidade de regras e a retomada de investimentos continuados em infra-estrutura. como a definição de marcos regulatórios – cuja fragilidade está expressa na lentidão das PPPs –. A trava resulta da opção do governo. como afirma o próprio presidente. contra o conformismo. difíceis de serem repetidas no cenário internacional. Nada indica que daqui a dois ou três anos o Brasil deixará a constrangedora posição que ocupa no ranking do crescimento. nem mesmo de um conjunto de prioridades. capaz de levar o país ao desenvolvimento sustentado. do que como condutor de um programa consistente e previsível. na forte imagem do presidente Lula. em dezembro: “Neste mandato vou destravar o Brasil”. feita durante encontro com lideranças de movimentos sociais. que respaldou o aperto monetário proposto pelos ministros e anunciado aos mercados –221– . Ao mesmo tempo.

Coleção Mestrado em Lingüística como bandeira pacificadora. deixou até pessoas em pé. O apagão aéreo é a crise de gestão que veio à tona com a tragédia que levou 154 vidas e se arrasta sem solução. Em que bases? Ao preço de reforçar na opinião pública a idéia de que todos são iguais. alimentam o noticiário com o escândalo da operação tapa-buracos e os acidentes. De concreto. como prometera. mais encargos. Mais aperto. A quem interessa um Parlamento enfraquecido? Agora. Não importa quem contaminou quem: o casamento das velhas práticas com as “novas” teve o efeito de uma bomba moral no Congresso. menos investimentos e infra-estrutura precária. a manutenção do superávit primário nas alturas para pagar os juros. Seria boa notícia se não resultasse. As rodovias. Aprenderam com as lições deixadas por episódios como mensalão e sanguessugas? A chamada coalizão privilegia cargos e –222– . fala-se em coalizão para o ministério. financiar e controlar os partidos. Sob o aspecto político. ou por isso mesmo. O setor de energia. ao mesmo tempo. uma política de controle do capital externo de curto prazo. Deixou as paredes do edifício em pé. continua com incertezas e previsões sombrias. Adicionalmente. o presidente conseguiu se descolar dos escândalos. que só não chegou à total ruptura porque as taxas de crescimento são baixas. O controle inflacionário é um sucesso que poucos comemoram. mas detonou a credibilidade da instituição. Mais: nosso empresariado está preferindo investir noutros países. contaminando um Congresso com defesas muito baixas. vital para sustentar o crescimento. caóticas. da necessidade de buscar um ambiente econômico menos hostil. A dívida pública cresce e o déficit nominal não é reduzido. pois os juros continuam inibindo os investimentos públicos e privados. Os investimentos brasileiros no exterior cresceram 226% em 2006. em grande parte. desenvolveu-se uma prática para. o governo não estabeleceu.

A partir de janeiro se verá como se conciliam essas contradições e dúvidas com a fantasia do mágico crescimento econômico de 5%. (GUSTAVO FRUET. 30 de dezembro de 2006. Caderno 1. Paulo. Há anestesiados e indignados nessa história. seção Opinião – Tendências e Debates. Jornal Folha de S. Mas há também desafios.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura pacotes em lugar de uma agenda e de reformas efetivas. Haverá aparelhamento? Redução da carga tributária? Reforma política? Segurança? O que pensa o governo? Mais uma vez. O fato é que Lula ganhou o segundo mandato de um país dividido. doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná e deputado federal (PSDB-PR). prevalece a retórica.) –223– . E questões a serem esclarecidas em investigações que continuam após as CPMIs. 43.

cada um a seu modo. No primeiro mandato. houve avanços sociais importantes. e não da sorte. o Brasil vem construindo. embora lentamente. como o Bolsa Família. nasceram reformas. decorrentes dos avanços macroeconômicos ou associados a eles: a expansão progressiva do crédito. o aumento da geração de empregos para mais de 100 mil vagas formais por mês e. como a da Previdência pública. aquelas da construção civil – que estão transformando o setor – e as medidas de in–224– . o arcabouço institucional sobre o qual se levanta um novo país.Coleção Mestrado em Lingüística Texto II . Com ele. o Brasil consolidou conquistas fundamentais: a melhora extraordinária das contas externas.O presidente Lula criou as condições para fazer um segundo mandato melhor que o primeiro? SIM Unir o país O PRIMEIRO mandato do presidente Lula não significou apenas a recuperação da estabilidade perdida nos conturbados anos de 2001-2002. a possibilidade de financiar programas. Desse árduo trabalho. que causaram impacto na distribuição de renda. as taxas baixas de inflação com juros cadentes. contribuíram com as conquistas atuais: desde o fim da famigerada conta-movimento até a Lei de Responsabilidade Fiscal. É certo que isso não é fruto exclusivo deste mandato. ainda. Seus antecessores. a Lei de Recuperação de Empresas – que tem preservado ativos e empregos –. com instrumentos inovadores. a queda do risco-país a níveis historicamente baixos e a confirmação da importância do equilíbrio fiscal. o que foi ampliado pela estabilidade dos preços e pela diminuição do desemprego. como o crédito consignado.

um laboratório para as mais diferentes experiências econômicas. descomprimindo a classe média para ela desenvolver sua força empreendedora. melhorando a qualidade e simplificando seus tributos. E quer colher desse crescimento todos os frutos em termos de emprego. nas últimas décadas. renda e riqueza. Esse é o grande desafio do segundo mandato do presidente Lula. sustentando a melhoria da distribuição de renda. o lucro líquido das empresas de capital aberto mais que triplicou. inflando o Estado. Não temos o direito de repetir esses erros. Aventuras na política cambial. O Brasil foi.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura centivo ao mercado de capitais. melhorando a qualidade da educação em todos os níveis –225– . Nossa história é plena de exemplos malsucedidos no campo econômico. a manutenção e o fechamento de firmas. As bases do crescimento foram bem firmadas. reduzindo as despesas de custeio para melhorar o investimento público em infra-estrutura e frear a carga tributária. reduzindo a burocracia para a abertura. Mas esse avanço só ocorrerá se formos capazes de continuar o esforço por reformas que favoreçam o investimento e os ganhos de produtividade e evitar que. voluntarismos na política monetária ou leniência na política fiscal já se mostraram caminhos certos para a estagnação. Mas o Brasil quer crescer a taxas mais elevadas e por longo período. Neste período. a abertura do mercado de resseguro e o Fundeb. recentemente aprovados. completam o quadro de conquistas de um governo que teve uma agenda clara para o país. que vêm fornecendo recursos abundantes às empresas de boa governança. E o novo Estatuto da Micro e Pequena Empresa. ajustando a Previdência à melhoria da expectativa de vida. O Brasil precisa atacar os seus problemas reais. com altos custos para a sociedade. sem mágicas. se atrofie a economia.

Coleção Mestrado em Lingüística com avaliação permanente de desempenho. O foco deve estar sempre na produtividade da economia e na oportunidade para as pessoas trabalharem ou empreenderem. 30 de dezembro de 2006. inclusive para garantir a energia suficiente para o crescimento mais vigoroso. Paulo. E poderá escrever as mais belas e transformadoras delas se lançando a essa grande tarefa. Seu nome já escreve páginas inteiras de nossa história. 46. Unir as lideranças políticas e sociais é o outro lado da mesma moeda.) –226– . (ANTONIO PALOCCI FILHO. médico sanitarista. Jornal Folha de S. seção Opinião – Tendências e Debates. deputado federal eleito (PT-SP) e ex-ministro da Fazenda. e melhorando os marcos regulatórios para aumentar o investimento privado. tornando o Brasil uma nação muito mais rica e muito mais justa. Lula tem a legitimidade e a competência necessárias para liderar esse esforço. Pautar cada uma dessas medidas e desenhar adequadamente cada uma dessas reformas é renovar a agenda para um avanço mais significativo do país. Caderno 1.

• governo ganhou o segundo mandato de um país dividido. • mensalão. • infra-estrutura precária. • setor de energia com incertezas e previsões sombrias. • questões a serem esclarecidas. mais encargo. • governo não condutor de um programa consistente e previsível. • governo símbolo de possibilidades. • privilégio de cargos e pacotes. • continuidade de atritos. • prevalece a retórica. • crescimento da dívida pública. •conciliação entre contradições e dúvidas com a fantasia do mágico crescimento econômico. • menos investimento. • governo incapaz de levar o país ao desenvolvimento sustentado. • governo sem projeto. CONTEXTO Quadro 1– Análise de elementos lingüísticos de referenciação do texto I –227– . • governo sem pacote de crescimento.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura Fio condutor revelador da intencionalidade do autor O presidente Lula não criou condições para fazer um segundo mandato melhor do que o primeito Referenciação Características do novo governo Características do país Crises anteriores • governo sem agenda para os próximos quatro anos. • disputas no governo. • país travado. • tragédia que levou 154 vidas e se arrasta sem solução. • apagão aéreo. • sanguessugas. • governo centrado na imagem do presidente. • governo sem prioridades. • rodovias caóticas. • escândalo da operação tapaburacos. • mais aperto. • segurança.

Coleção Mestrado em Lingüística Fio condutor revelador da intencionalidade do autor O presidente Lula criou condições para fazer um segundo mandato melhor do que o primeito Referenciação Conquista do primeiro mandato • recuperação da estabilidade perdida no governo anterior. • expansão progressiva do crédito. • marcos regulatórios para aumentar o investimento privado. Características negativas de governos anteriores • exemplos malsucedidos no campo econômico são dos governos anteriores: Desafios do segundo mandato • continuidade ao esforço por reformas que favoreçam. lei de recuperação de empresas. • voluntarismos na política monetária. • aumento da geração de empregos. • oportunidade para as pessoas trabalharem ou empreenderem. • financiamento de programas. • conquistas fundamentais: melhora extraordinária das contas externas. • taxas baixas de inflação. • possibilidade de escrever as mais belas e transformadoras delas. • transformação do setor da construção civil. • aventuras na política cambial. • instrumentos inovadores: crédito consignado. • incentivo ao mercado de capitais. • equilíbrio fiscal. • legitimidade e competência do governo para liderar esse esforço. • união de liderança a políticas sociais. • avanços sociais importantes. • essa grande tarefa (o novo governo). • triplicação do lucro das empresas de capital aberto. CONTEXTO Quadro 2 – Análise de elementos lingüísticos de referenciação do texto II –228– . • seu nome (Lula) escreve páginas inteiras e nossa história. • estagnação. • foco na produtividade da economia. • energia suficiente para o crescimento mais vigoroso. • conquistas de um governo que teve uma agenda clara para o país. • melhoria na qualidade da educação com avaliação permanente. • adequação e pauta de medidas. • reformas: previdência pública. • uma nação mais rica e mais justa. • desenho adequado para cada uma dessas reformas.

ao segundo mandato de um governo de seu partido político. de acordo com seus respectivos pontos de vista. pois. o autor filiado ao PSDB explicita seu ponto de vista contrário ao tema. favorável.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura Referenciação. por meio do processo de referenciação que desenvolve. Escritos no mesmo contexto espaço-temporal – jornal Folha de S. para fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro. busca enfatizar a imagem negativa da atuação do presidente Lula em seu primeiro mandato. tendo-se em vista a função de orientação argumentativa. de maneiras variadas. por meio do processo de referenciação que desenvolve. condições negativas do país. os textos. intencionalidade e perspectivas para os estudos da escrita e da leitura As análises realizadas apontam a importância do modo de constituição de expressões referenciais. Assim. de 30 de dezembro de 2006 –. ao retratar o objeto descrito de uma determinada maneira dentre tantas outras possibilidades. em cada um deles. Já no texto II. busca enfatizar a imagem positiva da atuação do presidente Lula em seu primeiro mandato. pelas escolhas feitas por seus respectivos autores. mas com intenções opostas. As variações exigiram competências de seus autores para expandir o mesmo tema – condições criadas por Lula. Paulo (Caderno de Opinião). crises anteriores. e um do PT. No texto I. em textos jornalísticos de opinião. Já o autor filiado ao PT explicita seu ponto de vista –229– . ao segundo mandato de um governo petista. pois. são evidenciados problemas do primeiro mandato e seu autor. são evidenciados problemas de governos anteriores e seu autor. revelam orientações argumentativas coerentes com as posições políticas de cada um deles: um do PSDB. expandindo três tópicos favoráveis que evidenciam: características negativas do novo governo. contrário. no primeiro mandato.

objetiva e estável. As escolhas feitas pelos produtores dos textos trazem para os leitores informações importantes sobre suas opiniões. em cada um dos textos analisados. Pode-se observar. crenças e atitudes. expandindo três tópicos que evidenciam: conquistas do primeiro mandato. a relacioná-los –230– . entre elas anáforas indiretas. é fruto de um agir comunicativo ou de uma ação discursiva de seus autores. houve um processo de (re)construção da realidade e não um simples processo de elaboração de informações. utilizadas nos textos. Os leitores são. Em nenhum deles tem-se a identificação de uma realidade discreta. desafios do segundo mandato. mas a identificação de formas de inserção sóciodiscursiva no mundo de seus autores. que o objeto de discurso Condições criadas pelo presidente Lula no primeiro mandato para o segundo mandato constituiu-se de diferentes maneiras. orientados. auxiliando-os na construção de sentidos. características negativas advindas de governos anteriores. uma vez que sofreu constante transformação e reconstrução no curso da progressão textual. Desta forma. num processo altamente dinâmico.Coleção Mestrado em Lingüística favorável ao tema. pelas expressões de referenciação. Essas expansões. A relação entre as realizações do primeiro mandato de Lula e as condições de realizações de seu segundo mandato. nas análises. em cada um dos textos analisados. o lugar de onde cada um de seus autores fala na sociedade brasileira do final de 2006 é fundamental para a realização da leitura de ambos os textos. assim. no processo de referenciação realizado em cada um dos textos. exigem de seus leitores competências de leitura que lhes possibilitem relacionar elementos lingüísticos e não-lingüísticos para a construção de sentidos dos textos: assim. orientadas pela intenção pretendida por cada um dos autores.

concluir que os resultados evidenciam que as expressões referenciais em textos jornalísticos de opinião cumprem uma função argumentativa relacionada à intencionalidade do autor. Ao concluir este artigo. pois. assim. As expressões utilizadas funcionam. conforme nos assevera Koch (2004). respectivamente. que a partir dele se projetam. em (I) de considerar as condições criadas pelo presidente Lula no primeiro mandato como desfavoráveis para um segundo mandato melhor. pode-se observar que as decisões dos agentes-produtores em (I) e em (II) refletiram suas intenções e orientaram os efeitos que desejaram produzir. dentro do contexto maior em que os textos se inserem para as leituras possíveis. que permite ao leitor/ ouvinte construir. Novas perspectivas se abrem.Nos caminhos do Texto: Atos de Leitura com os implícitos. em (II) de considerá-las como favoráveis. como uma espinha dorsal do texto. considero que foi possível avançar na direção de que o estudo do processo de referenciação é um grande aliado para o entendimento do diálogo entre escrita e leitura. e que os textos jornalísticos de opinião podem ocupar um espaço significativo no tratamento desta questão. e apontam a relevância da compreensão do processo de referenciação para a elaboração do texto escrito. com base na maneira pela qual se encadeiam e remetem umas às outras. um roteiro que irá orientá-lo para determinados sentidos implicados no texto. bem como para a leitura e construção de sentidos. –231– . A reflexão que ora finalizo permitiu-me avançar no estudo mais amplo que venho desenvolvendo nos últimos anos sobre a importância de trabalhar os princípios teóricos que fundamentam uma análise textual discursiva para o tratamento da leitura e da escrita em diálogo. pois. e. Nos dois textos aqui analisados. É possível. à continuidade da investigação cujo compromisso maior é o ensino de língua portuguesa.

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