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PICOS NAS SOMBRAS DO TEMPO: A CIDADE PRÉREFORMA URBANÍSTICA COMO ESPAÇO DA SAUDADE

*
José Elierson de Sousa Moura1
Larice Íris Marinho Moura2
Ada Raquel Teixeira Mourão3
Artigo recebido em: NÃO PREENCHA.
Artigo aceito em: NÃO PREENCHA.

RESUMO:
Este trabalho analisa o estranhamento identificado em alguns
moradores
com
relação
à
cidade
de
Picos
da
contemporaneidade, evocado através do sentimento de saudade
da cidade associado à década de 1950, período de destaque da
economia agrícola às margens do Rio Guaribas, e da década de
1960, quando a cidade oferecia uma variedade de espaços de
lazer e convivência para os citadinos. Para retratar a presença
desses espaços tem-se como referência o presente, que é o
tempo da falta, sendo que a angústia, pela falta, em face do
tempo, assume um refúgio no passado. Nosso objetivo foi
conhecer as cidades projetadas no imaginário dos citadinos
como lembranças, tendo em vista que os usos dos espaços eram
moderados por filtros culturais e normas sociais. Os picoenses
1* Artigo desenvolvido a partir do projeto Rio Guaribas: história oral e

identidade, no Programa de Educação Tutorial – PET: Cidade, Saúde e
Justiça, no ano de 2012. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em
História do Brasil – PPGHB, da Universidade Federal do Piauí-UFPI e
bolsista CAPES. http://lattes.cnpq.br/9300414701534014.

2 Licenciada em História, pela Universidade Federal do Piauí-UFPI.
http://lattes.cnpq.br/3060773059215574.
3 Doutora em Espacio Público y Regeneracion Urbana, pela Universidade

Barcelona - Espanha e docente da Universidade Federal do Piauí, Campus
Senador Helvídio Nunes de Barros-CSHNB.
http://lattes.cnpq.br/8753514615371475.

sentem saudade da cidade de Picos de outrora, porque é uma
das formas de terem no presente, o tempo que já passou.
PALAVRAS-CHAVE:
Picos. Espaço da saudade. História e memória. História e
cidades.

ABSTRACT: Refazer por que mudei. Você conhece alguém que
faça?
Escreva aqui o seu resumo em inglês ou em outra língua
estrangeira. Lembre-se de substituir a palavra “Abstract” caso o
seu resumo não esteja escrito em inglês.
KEYWORDS:
Abstract – Espacialidades – Example

***
Picos, minha amada!
O tempo muda os homens
E os homens mudam as cidades.
Mas enquanto eu não morro, tu dormirás em minhas retinas.
Eu sou tua fotografia, eternizada e renovada a cada instante.
O velho e o novo nos meus olhos-poesia[...]
Minha amada!
Uma antítese em meu peito;
Uma glória e uma chaga; um sorriso e uma lágrima[...]
Elegia para Picos - Vilebaldo Nogueira Rocha

Nos fragmentos acima, o poeta “fotografou” com seus
“olhos-poesia” uma angustia que atravessa diversos picoenses:
o

estranhamento

com

relação

à

cidade

de

Picos

da

contemporaneidade. Estranhamento que provoca em alguns
moradores um sentimento de saudade da cidade das décadas
de 1950 e 1960. Nas palavras do poeta, a maneira de viver, na

Revista Espacialidades [online]. 2015, v. 8, n. 1. ISSN 1984-817X

Veja se consegue encaixar em outro espaço. Antítese que é sentida não somente de forma individual. Feito o historiador. Revista Espacialidades [online]. Em Elegia para Picos. p. acho que essa parte acima pode ser aproveitada em outro ponto do texto. 2011. 1. 4 O termo “cultura” é utilizado aqui para se pensar as convenções sociais que distinguiram os espaços da cidade disponíveis para consumo. “não podiam” frequentá-los nos mesmos horários e dias que as “moças de família” (OLIVEIRA. Semelhante ao historiador que para desempenhar o seu ofício. 17). como o conjunto de representações mentais e hábitos de um dado grupo em um determinado tempo. para dar visibilidade à cidade de Picos da década de 1950. que Renato Duarte cognominou de Picos: os verdes anos cinquenta (DUARTE. o poeta não está sozinho. período em que esta oferecia uma variedade de espaços coletivos que eram vivenciados e apropriados. Os vínculos e sentidos de consumo dos espaços obedeciam a acordos implícitos e convenções sociais. apesar de comuns a todos. Rioux (1998) conceitua “cultura” a partir de duas linhas: a primeira. 2009.atualidade. 2015. n. 6). Ainda não li o texto todo. p. p. Vilebaldo Rocha partiu da sua saudade de uma cidade de outrora. v. já que é sorriso e lágrima. e a segunda. que ao escrever está povoado de presenças do presente e do passado (ALBUQUERQUE JÚNIOR. ISSN 1984-817X . ao mesmo tempo. Acho muito específica para uma introdução e ainda mais bem no começo do texto. As prostitutas. eram regulados culturalmente 4 e nem todos os frequentavam do mesmo modo. 8. por exemplo. e da década de 1960. como a distinção entre a existência humana e o estado natural. parte de uma inquietação que não é somente sua. 1991. o poeta observa atores e espaços para compor a sua trama. Elierson. constitui uma antítese no seu peito. Os usos dos espaços coletivos na Picos de outrora. 4). e que agora são lembrados em forma de saudade.

Foi uma forma de prometer. Alguém que não a visitou mais desde as décadas de 1950 ou 1960. p. Os dois projetos provocaram alterações no traçado urbanístico da 5 Desejava-se transformar algumas cidades brasileiras em símbolos de avanço e desenvolvimento. Entendia-se que a cidade de Picos era o marco zero da Rodovia Transamazônica e que merecia um Plano Diretor que propiciasse o ordenamento econômico e social do seu espaço. ISSN 1984-817X . 1974. que ao final da década de 1970. mediante o milagre econômico. na década de 1970 foi planejada dessa maneira. perceberá que as sociabilidades e parte da sua materialidade daquele período esfacelaram-se no tempo. 2007. mas se quiser deixar em verde mesmo que verei isso quando estiver lendo. Picos recebeu a implantação de dois projetos de impacto urbanístico: a construção da BR230. 2011. 15).17) citação direta? Aspas. 2014). recordando a Isidora sonhada de tempos atrás (CALVINO. em As cidades invisíveis. a cidade de Picos também é a cidade das recordações. 12). com os seus velhos sentados na praça vendo a juventude passar. 1. assim a cidade da memória não está mais representada na cidade real. E a cidade de Picos. Senão retire o número da página. A materialidade. Picos é uma cidadememória. v. 2015. p. assolava o Piauí (MOURA. Os dois projetos fizeram parte do pretenso surto modernizador planejado para algumas cidades brasileiras durante a Ditadura civil-militar 5. 1973. 182). a estrutura do espaço urbano influencia as vivências e sociabilidades. e um Plano Diretor de Organização do Espaço Urbano (ATAS da Câmara dos Vereadores. o combate à pobreza. Semelhante a Isidora. p. no interior do Estado do Piauí. Durante a década de 1970. cidade pensada por Ítalo Calvino. Revista Espacialidades [online]. (FONTINELES. 8.portanto não sei. n. ao visitá-la atualmente. p. conhecida também por Rodovia Transamazônica (ATAS da Câmara dos Vereadores.

se dentro dos aprendizes de historiadores (ALBUQUERQUE 6 De acordo com Karla Oliveira (2011). perdeu seu protagonismo econômico e agoniza no desprezo de parecer ausente7. tendo em vista que se constituíram como de espaços de relações sociais que preenchem o vazio da saudade. principal via de acesso ao centro da cidade. desejosos de um “retorno” ao passado. Vários jovens buscavam o bar como forma de se divertirem. espaços dinâmicos de vivência social. n. sofreu diversas alterações. principal praça central. Como não desejar conhecer “as cidades”. essa cidade da memória que ainda hoje mobiliza sentimentos de ausência. sendo hoje a principal via comercial da cidade. a ponto de deixarem os sujeitos. O Rio Guaribas. As mudanças foram tantas e tamanhas. 2015. 1. trocou a sua calmaria pelo trânsito confuso. As motivações dessa pesquisa estão relacionadas ao desejo de conhecer essa cidade do passado. v. posto que são várias as representações projetadas no imaginário dos citadinos. 8. a Avenida Getúlio Vargas e o Rio Guaribas são alguns dos espaços urbanos mais evocados nas memórias dos citadinos. ISSN 1984-817X . de acordo com as regras culturais da época. Revista Espacialidades [online]. várias cidades foram projetadas no imaginário dos picoenses. Com todas as transformações ocorridas. p. que viveram aqueles períodos. Buscamos conhecer a interseção das narrativas dos moradores com a cidade de Picos das décadas de 1950 e 1960. entretanto não foram os únicos. o Bar Abrigo foi um dos catalisadores de sociabilidades na cidade de Picos durante a década de 1960.cidade. 2007. A Praça Félix Pacheco. 11). diminuiu de tamanho e perdeu atrativos culturais como o Coreto e o Bar Abrigo6. As cidades “reais correspondem a várias outras cidades produzidas pelos citadinos através do pensamento e da ação” (PESAVENTO. 7 A Praça Félix Pacheco. A Avenida Getúlio Vargas.

forjado na década de 1990. p. enquanto as crianças brincavam. Lembranças que contornaram o presente em que viviam. na cidade de Picos. Os narradores afirmam sentir falta das sociabilidades na Praça Félix Pacheco. n. principalmente em ambientes festivos? (OLIVEIRA. ou por meio do processo de fermentação das lembranças que nos foram narradas na segunda década do século XXI. das plantações às margens do Rio Guaribas e da “não existência” de violência. O texto constitui-se em uma cartografia da saudade ligada à temporalidade específica dos anos 1950 e 1960. Revista Espacialidades [online]. analisaremos as lembranças de citadinos que viveram na cidade de Picos na segunda metade do século passado. 8. 1991. fazendo-as sentiremse marginalizadas.JÚNIOR. Lembranças que passaram por diversas transformações. v. em seu livro Picos: os verdes anos 50. 2015. p. ISSN 1984-817X . De sentir-se na pele das prostitutas. p. “Sentir” o tempo passado: paisagem. 56). Seja por meio das memórias escritas do picoense Renato Duarte. 50). quando as “mulheres de família” imprimiam olhares de desprezo que perfuravam a dignidade. enxergando múltiplos-passados. 8) que teceram estas linhas. existem crianças que aprenderam a sentir saudade do Rio Guaribas. 2011. A partir de tais inquietações. 2012. 1. sem o terem mergulhado uma única vez? Do desejo de ouvir a banda de seu Raelson tocando na Praça Félix Pacheco. como o se constituindo no (?) tempo da falta. memória e sociabilidades em Picos. mesmo não tendo pisado aquele chão rodeado pelos belos jardins que existiam na época? De poder enxergar o céu estrelado depois que a energia era desligada às onze horas da noite? (DUARTE.

1996. Os poetas disseram-lhe: é um rio a montante. Em 1950. Veias que conduziam o combustível para pulsar vidas: a água (DUARTE. É uma criação da mente (SCHAMA. Os poetas criaram uma camada de lembranças. Nos meses secos. e com o vento que levava consigo o cheiro de um vasto fungo subfluvial (SCHAMA. Rio que crescera dentro de Simon Schama. Um segundo rio e as lembranças. 17). do século passado. Em 1960. p. o Rio Guaribas enquanto o rio que marcou a década de 1950 em Picos. Seu nome: Guaribas. v. A natureza e a percepção humana. 13). Existe um direcionamento nesse sentido.568 habitantes na área urbana. não se separa da mente. utilizandose das suas áreas alagadas. Veias que faziam pulsar esperança. tinha 8. a urbe era envolvida por um cinturão verde e por uma faixa úmida que margeavam o Rio Guaribas. a cidade era formada por um “núcleo urbano integrado ao meio rural”. 1996. 1991.092 (MARTINS. ISSN 1984-817X . Infinitas lembranças. Eram como duas veias. Falar da década de 1950 é falar também daquele rio. 16-17). Existe uma saudade. n. soa melhor de outro modo: “Rio Guaribas”. Seu nome: Tâmisa. A paisagem. 2003. também é uma criação da mente. existe um discurso saudosista. É sinônimo de uma década. 8. Voltemos ao Tâmisa. Sobre a década.Um rio e as lembranças. Em Picos. 2015. Na outra face. 175). O Tâmisa agora era: o rio com estuário baixo. as suas margens são cobertas de musgo. É que ele.080. Revista Espacialidades [online]. p. Schama criara a sua própria camada. Para sermos mais precisos. Ouvira falar muito do rio durante a sua infância. no início dos anos 50. não se separam. do mesmo modo. ou. Para ele. antes de ser natureza é cultura. p. Com o encontro. as suas águas borbulham. é uma estrada verde-oliva que divide Londres ao meio. a cidade possuía uma população de 4. com o seu leito nupcial de sal e água doce. 1. com a visita de gaivotas. e em 1970 já era de 18. Múltiplas-lembranças. p. Renato Duarte apropriouse do lugar de fala e começou a construir a sua paisagem. Veias que definiam as estratégias de sobrevivência da cidade.

trouxe para a discussão o tempo em que vivia no presente de sua fala.Maria das Graças. 8. sem lhe pertencer mais. de presente. diversas e individualizadas. também foi uma das citadinas que guardou o passado como refúgio. Todavia. Consumia os traços e rastros de outra temporalidade. Elas Revista Espacialidades [online]. ISSN 1984-817X . nos anos 1970 (PESAVENTO. Não se curvava às quebras lineares que alguns tentavam lhe impor. feito um linho. Um tempo que trouxe mudanças na forma de enxergar a cidade de Picos. Era um tempo amigo. podemos entender que as pessoas que viveram em um mesmo período não são necessariamente contemporâneas. para que esta. os estudos sobre o urbano buscavam entender a materialidade da cidade como locus privilegiado de acumulação do capital. Neste sentido. passado e futuro. v. 2012). Era o tempo e algumas de suas faces. Até a década de 1990. mas pelo menos não tinha necessidade. como fundamentais para a compreensão da cidade apropriada. fazendo parte da tessitura que está sendo bordada (ALBUQUERQUE JÚNIOR. disse: “Não tinha tudo como hoje.. Porque hoje a gente tem tudo.]” (RODRIGUES. uma questão surge e o nosso ofício precisa lançar luz em sua direção. começou-se a pensar também as representações sociais que emergem das práticas e vivências. 2012. Ao falar do tempo que viveu. 2008. Com as análises. entrelace-se a outros linhos. mas a gente não tem nada porque não tem segurança para ir à rua. p. 2015. dificultando o trabalho do historiador. p. se buscamos conhecer as cidades subjetivadas. Era um tempo egoísta. primando pela continuidade. fazendo amizade com o desejo de retorno a outra época. Era até melhor pra viver do que hoje. 1. 4): será que as tantas cidades que se formaram no imaginário dos moradores que viveram os anos 1950 e 1960 em Picos (entrevistados por nós) foram evocadas da mesma forma? Será que existe algo em comum quando a memória é evocada? Para respondermos tais indagações é preciso apoiar-nos em estudos urbanos. do mesmo modo que Renato Duarte.. 8). Ao falar sobre a vida na cidade que parece ter ficado em outro tempo. não tem segurança pra estar dentro de casa [. n.

] (RODRIGUES. 2012). percebendo que “a memória permite a relação do corpo presente com o passado e. 2015. pois as experiências de vida são múltiplas. ao falar de sua rotina diária na parte urbana da cidade. 4647). ao mesmo tempo. Entretanto. 2005. com que as pessoas de mais posses econômicas se abasteciam. É uma busca pelos múltiplos fragmentos do passado. Fragmentos que se encaixam. v. lavar. 16). por que depois de sete horas o pessoal começava lavar roupa e não tinha mais água. ISSN 1984-817X . p. nem todos os citadinos contemporâneos seus.. 1994. como podemos ter acesso a suas multiplicidades? Mediante o contato com as memórias daqueles que viveram e consumiram a cidade de Picos do período analisado. [. certamente. No entanto. nem todos sentiam o tempo dessa forma na parte urbana. Se Maria das Graças lembrou-se da sua rotina diária a partir da necessidade de buscar água no rio. interfere no processo atual das representações” (BOSI. foi porque a sua família dependia das águas do Rio Guaribas. A busca pelo múltiplo é uma das faces possíveis. mediante a utilização da Revista Espacialidades [online]. Maria das Graças. lançando feixes de luz nas ferramentas do historiador. 1. formando o quebra-cabeça que chamamos de memória. o ato de lembrar não é uniforme. ou não.] Até sete horas tinha que pegar água no rio. p. cozinhar. Nem todos dependiam daquelas águas para matar a sua sede. Nem todas as pessoas precisavam deixar as suas moradias em direção ao Rio Guaribas em busca da água com que iriam matar a sede durante o dia. Assim. Sabendo que a atividade do lembrar possui múltiplas faces. Várias são as maneiras dos picoenses evocarem os anos 1950 e 1960.. Havia em Picos a venda de água dos olhos d’água. lembrar-se-ão da rotina a partir daquele. tudo do rio [.. Apesar de termos acesso ao passado. descreveu o dia-a-dia dos citadinos a partir da necessidade de abastecimento de água a partir do Rio Guaribas. Então começava de madrugada e quatro horas nós começava a pegar água do rio porque tinha que beber.. não dava mais pra pegar água no rio.não sentem a cidade da mesma forma (CORBIN. n. 8.

o presente se torna o ponto de partida. mas por familiares que de tanto evocarem-nas. Posto o limite do nosso ofício. 8. acabaram fazendo parte da nossa memória (HALBWACHS. não o teremos tal qual ocorrera. es abierto. dentre várias. normalmente. Para Elizabeth Jelin. 39). 1994. considerando os afastamentos dos grupos em relação aos fatos passados como processos de seleção dos acontecimentos. es algo determinado. A memória não é fixa. seguindo a linha de que a maneira de lembrar o passado pode ser mudada. dependendo da temporalidade em que estamos inseridos. seguimos na busca das memórias. por el contrario. Resta ao historiador ter em mente que o seu trabalho é uma possibilidade. Nós as adquirimos mediante a convivência com os grupos sociais dos quais fazemos parte. El futuro. sujeto a reinterpretaciones” (JELIN. 28). p. v. Ele é o detentor do nosso olhar. e que sendo o tempo um limite fatal. 2015. 53). do que pela maneira como lembraram. ISSN 1984-817X . Uma possibilidade de conhecer o que um dia fora promessa de futuro. n. guardando como sua. a nossa busca é menos pela verdade dos narradores. O grupo familiar é um exemplo disso. indeterminado. 2002. 1990.memória. 1. O que interessa é o que os narradores escolheram como história para a vida. em que os traços passados passam pela barreira do tempo. É saber qual a cidade de Picos que cada um dos narradores lembrou. já que o Revista Espacialidades [online]. não foram formadas por nós. Levando-se em consideração as possíveis transformações da memória. E se o passado não pode ser mudado (mas somente a maneira de lembrá-lo). Lo que puede cambiar es el sentido de ese pasado. p. As primeiras lembranças da infância. Ao tratar desse limite. incierto. Nunca é pura porque para as lembranças “reais”. Promessa que já passou. no puede ser cambiado. “El pasado ya pasó. O “resgate” do passado. Ecléa Bosi diz que a releitura é um exemplo da impossibilidade de reviver o passado. resta-nos reconstruí-lo com o que nos foi possível (BOSI. sempre existem lembranças fictícias. é uma barreira intransponível. Ela é sujeita a transformações. tal e qual.

[tempo para pensar] eu morava vizinho à Igreja Catedral e eu circulava por ali. O rio naquele tempo parecia uma coisa tão distante. Lembranças. já que a maneira como vivenciou a cidade. Então. incitou a descontinuidade de suas lembranças. 2015. Podia pagar pela água que era retirada dos olhos d’água. porque no trecho acima houve duas distâncias. sensibilidades e sua captura. mas era outro mundo (BARROS. diversos Revista Espacialidades [online]. Patrícia Barros foi morar fora da cidade. 2012). Porque assim. Não precisava das suas águas para beber. em que o narrador elucida detalhes que. sabe? Hoje é perto até porque a cidade cresce e os espaços diminuem. os locais que frequentava. O distanciamento dos grupos sociais que rememoravam as lembranças sobre o Rio Guaribas. Sua família era de posse econômica na cidade. não se lembrou (BOSI. tendo em vista que não o frequentava.. Seu pai (José Nunes de Barros) fora prefeito da cidade de Picos na década de 1970. Nas palavras de Patrícia Barros. p. na entrevista. 30). ISSN 1984-817X . 1994.. p. Monsenhor Hipólito que era onde eu estudava. A segunda foi uma distância na formação de suas memórias. não teremos como obter por completo o que este viveu. Por isso ela iniciou falando: “Eu não sei”. Você tem a sensação que há muito canto. o Rio Guaribas parecia algo distante. 1. Era distante porque ela não tinha contato com ele. aquilo não se torna mais distante. 1990. Um exemplo disso é a maneira como Patrícia Barros falou sobre os diferentes espaços do Rio Guaribas. Ela poderia também ter dito que não se lembrava. ou ainda. Com um mergulho na memória do outro. se fizéssemos a mesma entrevista em outro momento. 39). A primeira foi uma distância física. determinaram a formação de suas lembranças acerca do Rio Guaribas. Muitas vezes as lembranças aparecem no momento do cafezinho. n.afastamento de um grupo e a perda de contato incita a descontinuidade (HALBWACHS. v. 8. Em determinado momento da vida. Eu não sei. a falta de contato incita a descontinuidade.

De alguma forma. (PORTELLI. O novo dado ganhava um sentido daquele emblema e ao mesmo tempo acrescentava um novo sentido ao emblema. conseguirei possuir o meu império. destinando Marco Polo a explorá-lo. pensou Kublai. 1. 2008. a história oral é uma narração dialógica que tem o passado como assunto e que brota do encontro de um sujeito que chamarei de “narrador” e de outro sujeito que chamarei de “pesquisador”.Não creio: nesse dia. O império. Trabalhamos não com a palavra “resgate”.). 2015. 2011. E feito uma bordadeira.. perguntou a Marco.Quando conhecer todos os emblemas. 2010. 210. 51) que tal 8 Para Alessandro Portelli. como também poderíamos ter o decréscimo de muitos que tinham sido lembrados. Alessandro. para tecer a trama. E se não teremos a “verdade”. apontando-nos um caminho: [. . Ensaios de história oral. talvez não passe de um zodíaco de fantasmas da mente. Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas (CALVINO. o que desejamos capturar? Kublai Khan e Marco Polo dialogaram sobre. já que o historiador pode desejar capturar o que foi lembrado. o nosso trabalho é uma possibilidade dentre várias. 2009. A função de Marco Polo assemelha-se ao ofício dos narradores.encontro geralmente mediado por um gravador ou um bloco de anotações. finalmente? E o veneziano: . mas não deixa de ser um “regime de verdade” (PESAVENTO. a maneira de escutar de Kublai Khan se aproxima do historiador que trabalha com a história oral. 26). 8. 2001. Utilizamos a palavra “reconstruir”. recolhemos os fragmentos como se fizessem parte de um mesmo tecido. mas continuou a ouvi-lo (CALVINO.fatos novos poderiam surgir. p. O fragmento acima é fruto de uma ficção. porque passa pela ideia de que um passadopronto está na opacidade esperando que lancemos luz em sua direção.] cada notícia a respeito de um lugar trazia à mente do imperador o primeiro gesto ou objeto com o qual o lugar fora apresentado por Marco. p. Por causa desse processo. p.. 9). utilizando-se da metodologia da história oral8. v. não se sabe até que ponto o imperador dos Tártaros acreditava nas descrições das cidades visitadas pelo jovem veneziano. p. São Paulo: Letras e Voz. p. Revista Espacialidades [online]. n. preenchendo lacunas (ALBUQUERQUE JÚNIOR. ISSN 1984-817X . 8). Se Kublai Khan não pôde conhecer todo o seu território.

8. Um emblema. como diz Marco Polo. ISSN 1984-817X . Uma alteridade de outro tempo (PESAVENTO. 2005. dando conta de explicar o real e o não-real. E o que nos fará ter acesso aos emblemas não são as vozes dos narradores. Analisar as sensibilidades requer um olhar que nunca está pronto. ritos.] o passado do viajante muda de acordo com o Revista Espacialidades [online]. p. porque. Marco Polo proferiu a seguinte frase: “[. por terem vivido uma experiência citadina que ficou no tempo passado. o pressentido e o inventado (PESAVENTO. As várias cidades de Picos que se projetaram no passado. mas somente imagens dentre muitas outras que se formaram. Um tempo que nem sempre é descontínuo. O historiador precisa (re)educar o seu escutar. dentre muitos que foram criados. 2015. 2011. A saudade é evocada porque não houve a quebra entre passado e presente. A linha da continuidade não é quebrada porque a saudade impede o corte e a ruptura.construção literária é um belo retrato do fazer do historiador que lida com a história oral. quem comanda a narração não é a voz. 2008. Para se fazer um estudo das sensibilidades. O que nos fará ter acesso será o nosso ouvir. Só assim respeitaremos o narrar e o silêncio alheio.. v. p.. Alguns picoenses. o sabido e o desconhecido. a nossa busca também é pelas sensibilidades. preferem a primeira à segunda. Em outra conversa sobre o passado. Assim como os emblemas narrados por Marco Polo. 1. 128). Afinal de contas. palavras e imagens. p. p. é preciso seguir os rastros que expressam-se em atos. 58). é o ouvido (CALVINO. A partir de todos os sentimentos partilhados nas conversas sobre a cidade de Picos do passado. n. a nossa busca é pelos emblemas que os narradores criaram sobre o passado. 2006. 136). 123). Hoje a saudade da cidade de Picos de anos passados é evocada. e por estarem conhecendo esta cidade que se apresenta na contemporaneidade. O passado é reinserido no presente (ALBUQUERQUE JÚNIOR. as imagens de Picos (re)criadas pelos narradores não nos mostraram completamente as cidades das décadas de 1950 e 1960.

2004.]” (CALVINO. 1. a mãe e uma irmã.. por parte de pai. que tiveram como inspiração o Rio Guaribas.. as memórias giraram em torno do deslocamento que algumas famílias fizeram de outras localidades próximas à cidade de Picos. ditaram o ritmo de consumo dos espaços citadinos. a urbe serviu como um imã (ROLNIK. Revista Espacialidades [online]. Maria das Graças. tendo em vista que na temporalidade analisada. Por parte da mãe eram dezesseis tios. que estão vivos moram no entorno da cidade de Picos. Imã das práticas econômicas e de lazer. e agora. na década de 1950. do século passado. No caso dos narradores que emprestaram suas lembranças para compormos o rosto desta trama. tomando como base o tempo em que estão vivendo para construírem os eventos que farão parte do futuro. com o trajeto feito. por isso ela também contribuía nos trabalhos agrícolas. modeladas pelos filtros das construções culturais. vivem em constantes transformações. ficando a 18 km desta. estão redescobrindo outros espaços construídos em forma de saudade. fazem seleção dos acontecimentos passados. p. nasceu na Baixa do Curral. Assim como outras famílias picoenses. Nas suas lembranças. 9 Bocaina foi distrito da cidade de Picos. por diversas formas e motivos. mas todos já faleceram. que hoje pertence à cidade de Bocaina9 e era filha de agricultores. 12). 2015. Veio morar em Picos com a avó. 8. E os tios. Os sujeitos que lembram. Obteve sua emancipação política no ano de 1963. ISSN 1984-817X . a sua família era dependente da agricultura no Rio Guaribas para viver. recepcionando muitas famílias. v. n. As lembranças.itinerário realizado [. 28). desejando melhorar de vida. por não se esgotarem em si mesmas. e das práticas de sociabilidades que. O pensamento de Marco Polo se encaixa na cidade de Picos que se apresenta a alguns citadinos. 2011. a sua família veio morar em Picos “porque era a salvação da lavoura”. p. tendo em vista que diversos viajantes picoenses percorreram a cidade durante as décadas de 50 e 60.

os jovens não pareciam aproveitar. mas minha mãe nunca mandou eu estudar”. naquele período. 17 de fevereiro de 2012. afirma. como o de Josino de Barros. Quando tinha forró que eu ia pra lá ajudava a comer o amendoim. como também pra botar nós pra estudar” (NETO. a selecionar e ajudava a contar [. 1. que tem o mesmo significado de povoado. também era filho de agricultor. Picos (PI). n. em sua opinião. né. 2012). dos anos 1950. Francisca das Chagas de Sousa. os pais não estavam preocupados com a educação escolar dos filhos e afirmou: “eu tiro por mim. Ajudava a separar o alho. referindo-se à “currutela”10 em que morava e que hoje faz parte da cidade de Bocaina. ajudava arrancar o alho. ajudava a arrancar a batata.] (RODRIGUES. Vieram de Bocaina para Picos em 1950. Conta que naquele período. A sua família. mas no mês de outubro ajudava a aguar.. era composta por seu pai. Vantagem que. Entrevista cedida a José Elierson de Sousa Moura e Larice Íris Marinho Moura. Os três moravam em localidades 10 Variação da palavra “corruptela”. Apontou que este aspecto pode ser considerado como a “vantagem” do presente em que se deu a sua narrativa. tendo sido o fator relevante do seu interesse em fixar moradia em Picos. sendo que a posteriori nasceram mais dois irmãos. Veio morar aqui com a avó. Josino de Barros. Nos trechos das três entrevistas narradas. porque aqui era perto do rio. Outro narrador. sua mãe e mais sete irmãos. 8. não no período da plantação que era no mês de maio e eu estava estudando. eu estudei porque eu quis. expressou-se. 2012). ajudava a tirar a raiz do alho. porque seu pai e sua mãe tinham a intenção “tanto de plantar alho.. “porque naquele tempo lá era atrasado”... Francisca das Chagas também teve a sua família envolvida pela cidade de Picos. um tio e três primos. ISSN 1984-817X . que tinha que tirar a raiz. Por ser professora.] Eu ajudava. tanto de Maria das Graças e de Francisca das Chagas. algumas informações se cruzam. v. destacou a oportunidade que teve de estudar como fundamental para seu crescimento. utilizada por Francisca das Chagas e outros citadinos (ROCHA. Revista Espacialidades [online].[.). 2015.

Era possível. aproveitando as condições naturais de rios e riachos perenes (DUARTE. ela também encontrou a oportunidade de estudar. Os banhos no Rio Guaribas eram divididos em duas áreas. contudo. contou-nos Maria das Graças. Já os das mulheres. No período em questão. e os “poços das mulheres”. Mesmo estudando no período da manhã. segundo as memórias dos narradores. 2015. n. Picos não é mais a mesma que os atraiu. Assim. Os “poços dos homens”. Renato Duarte afirma que os “poços dos homens” possuíam profundidade que encobria um homem em pé. a cerca de 30 km de Picos. a cidade de Picos funcionava como um polo agrícola. algumas famílias se deslocaram até Picos. o que a fez permanecer na cidade. Muitos citadinos trabalhavam pela manhã e estudavam à tarde. porque as escolas funcionavam em três expedientes: de sete às dez. v. Francisca das Chagas disse-nos que tomava banho “pra debaixo da ponte”. pensassem igualmente no acesso dos filhos à formação escolar. Maria das Graças veio porque a família queria melhorar de vida com os trabalhos agrícolas. sendo conhecidas como “poços”. pela tarde. As sociabilidades e o lazer também marcaram presença nas lembranças dos narradores. de dez às duas e de duas às cinco. que ficavam na “roça” de Dagoberto Rocha e próximo ao matadouro. ao contrário dos pais de Maria das Graças. nas lembranças destes indivíduos. motivos para que estas famílias se deslocassem e que. 8. onde eram vendidos os diversos produtos cultivados às margens do Rio Guaribas.que hoje pertencem à cidade de Bocaina. passados alguns anos. já que a cidade não possuía energia elétrica. Josino de Barros veio pelo mesmo motivo. 1991. tendo grande dinamicidade por conta da feira. 1. onde a água era bem “alvinha”. Podemos perceber que a cidade de Picos daquele período ofereceu. 2011). p. embora seus pais. ISSN 1984-817X . Josino tinha que ajudar a família nas plantações. que na verdade eram trechos rasos do rio que garantiam a privacidade das mulheres. que preferiam banhar-se em áreas de Revista Espacialidades [online].

simplesmente.cultura de vazante. era simplesmente porque gostavam da profundidade. além dos reisados. Maria das Graças diz que a Praça Félix Pacheco. apresentava sessões todos os dias. bang bang e os cristãos (OLIVEIRA. mas também no entorno da Praça Félix Pacheco. tocava enquanto as crianças brincavam. 19. Renato. aos finais de semana. tanques. as moças também flertavam. outro local de lazer. p. Maria das Graças relatou a presença da Banda de “seu Raelson”. namorar. arborização. poço artesiano. Recife: Liber. quando não havia homens se banhando. além da área comercial (DUARTE. tendo como gêneros: romance. 1991. bancos. esperar o horário dos filmes no Cine Spark ou. namoravam e paqueravam. v. isso representou uma quebra sexista contra a determinação de locais de banho para homens e locais de banho para mulheres. Mesmo que de forma não intencional. à tarde e à noite. quando terminava a missa. 8. 2011. já que os “poços das mulheres” não eram poços de fato. Maria das Graças. A Praça Félix Pacheco era um local de agrupamento de pessoas porque possuía o único jardim público da cidade. iam flertar. se as mulheres se banhavam no poço dos homens. gramados. ficava “fervilhando” de gente. o coreto. Porém. para conversar. Francisca das Chagas e Josino de Barros não trazem suas memórias ao presente trilhando o caminho da 11DUARTE. p. local em que a mocidade se reunia para flertar. Maria das Graças informou que nunca se banhou nos poços dos homens. esse negócio todo”. 1. que. que ela “corria léguas” para assistir quando sabia que estava acontecendo em alguma casa da cidade. canteiros. Picos: os verdes anos cinquenta. mas algumas amigas destinavam seus banhos àquele local. Revista Espacialidades [online]. O Cine Spark. porque não sabia nadar. O lazer em Picos não ocorria somente no Rio Guaribas. 1991. 37). p. 31-32). n. tinham profundidade bem menor11. “Os rapazes iam paquerar. As lembranças dos três narradores citados em parágrafos anteriores só foram possíveis porque as lembranças são coletivas. pela manhã e à noite. 2015. ISSN 1984-817X . suspense. aos domingos.

2010. tinha tempo para tudo. Hoje tudo compra. com o boom pós-moderno. v. Não tinha energia. Então a vida era boa.. Os narradores são permeados de outras vozes que os ajudaram a construir os quadros de memórias recordados (HALBWACHS. elas eram egoístas. 407) e. o “lembrar” permanece coletivo. 26). já que as pessoas não possuíam “tempo de nada”. mas não havia “violência”. tinha que pisar arroz. São inspiradas em conversas que estes tiveram com outras pessoas.. Na maneira de retratar o passado. formou-se também a não identificação com os valores e espaços de sociabilidades da cidade do tempo em que as narrativas foram formadas. Maria das Graças referiu-se ao presente do ano de 2012. como a falta de energia elétrica. Muitas das lembranças dos narradores não são originais. A gente brincava a vontade. 2015. mas não tem tempo de nada (RODRIGUES. Naquele tempo a gente brincava muito. n. 1. tinha que pisar sal. de tão egoísta que é. 2012). Tornaram-se histórias dentro deles (BOSI. Acontece dessa forma porque os olhares nem sempre estão voltados para o novo. Ao falar do tempo em que ela viveu. mas as brincadeiras de infância são rememoradas como um momento vivo. Naquele tempo não. ISSN 1984-817X . A sensação do tempo que se volatiliza por entre a vida dos citadinos e o individualismo são características que acompanham o cotidiano das pessoas desde a década de 1960. há questões que se fazem presentes não importando a época (REZENDE. Entenderam-na de forma estranha. [. 1994. p. misturadas à percepção de que vivia um período em que o tempo parecia se acelerar. Para ela. Revista Espacialidades [online]. 1990. O tempo não é descontínuo. o tempo passou. mas em compensação não tinha violência. mas tinha tempo para brincar. junto com a construção dos quadros de memórias e das histórias.individualidade. Tinha que pisar café. 2). p. 8. Fizeram-se presentes. Mesmo tendo sido situações vivenciadas individualmente. definiu o tempo que estava vivendo. p. As décadas de 1950 e 1960 tinham os seus defeitos.] As crianças de hoje disputam até o espaço que respira. disputando até “o espaço que respira”.

A principal característica desses tempos de mudanças rápidas e constantes é que Tudo o que é sólido desmancha no ar (BERMAN. p. 8. Revista Espacialidades [online]. v. Se o passado. A individualização moderna substituiu as comunidades solidamente unidas e as corporações. apesar de o período narrado ser denominado de “muito difícil” para viver. O individualismo é pai da insegurança moderna. Um dos motivos de o tempo ser percebido assim é a falta que sentimos do outro. deixa transparecer um sentimento de medo que lhe atormenta no presente. não fazia medo”. 16). A falta dos banhos no Rio Guaribas só se manifestou porque no presente da narrativa os banhos não aconteciam.Com o advento da pós-modernidade. 1998. As pessoas parecem ter tempo somente para individualizar as suas necessidades. a sua relação com os outros e com os espaços. acompanhado de um sentimento de vazio (SANTOS. Referiu-se ao passado como um tempo distante e que não lhe pertencia mais. 2015. a maneira como este roubou a cena no presente de Maria das Graças é com um sentimento de lamento pelo tempo que passou. fez-se presente na fala de Francisca das Chagas e de Maria das Graças. chamado por Zygmunt Bauman de mixofobia. porque “naquela época. deslocando-as e ocupando seu espaço (BOSI. 102). Esse sentimento. implantou o dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo. A primeira. n. assumindo características de um narciso dessubstancializado que prima pelo amor a sua imagem. ao tratar da importância do Rio Guaribas. que é o medo de misturar-se. utilizando-se da memória. preencheu o presente. contudo acabou trazendo-o para a cena do presente. sofreram profundas transformações. o passado vem à tona nas águas presentes. 1. ISSN 1984-817X . 1986). Através da memória. plantou o medo em toda parte (BAUMAN. Lembrou que sua família acordava às quatro horas da manhã para tomar banho. p. 46-47). 1994. que é o medo dos crimes e criminosos. 2009. o comportamento do ser humano. p. O tempo assume uma velocidade e parece se desmanchar.

fosse evidenciado. por exemplo. 8. mas complexa e diversa. que viveu em uma cidade onde os valores eram bem definidos. já tinha os componentes para que o medo de se misturar. no sentido de quem está deixando a cidade rumo ao norte do estado do Piauí. a definição de família não é única. passou por uma desreferencialização do real (SANTOS. deixando posições sexistas. segundo Maria das Graças. 1998. que ficava em casa. nem a mesma. por exemplo. 2012). local onde predominavam moradias Revista Espacialidades [online]. agora tinha aquela vantagem. Maria das Graças. Na forma como os filhos eram criados pela mãe. Hoje em dia um casal tem um filho e não aguenta o filho. ao conviver com a “nova” forma de criar os filhos. 1. E a mulher ficava em casa criando os filhos. Já a “desvantagem” é que no tempo de formação do relato. A Avenida Severo Eulálio. O medo aparece como um companheiro de quem perdeu a segurança em um referencial sólido. Ao não se “achar” na “realidade”. Maria das Graças e Francisca das Chagas moravam no bairro São Vicente.. os valores da instituição família não apareciam mais como consistentes. E a cidade de Picos naquele ano de 2012. Por outro lado. desempenhando outros papeis sociais. por isso que eram tudo educado. gerando espaços que nem todos os citadinos podiam ter acesso. Por esse motivo. p. É capaz de apanhar dele não é? Então essa era a vantagem (RODRIGUES. sabe? Tudo brincava a vontade. Mais o pai de família que tinha dez filhos ele trabalhava só e sustentava a família. 18). 2015. Como é? Como é que se diz? Deixa eu ver aqui. A cidade passava por um crescimento em parte do seu espaço urbano. Sabe por quê? Tá certo que tinha menos gente né? A população era pequena.. A “vantagem”. acabou sentido um estranhamento. A educação começava de pequeno. ISSN 1984-817X . estava presente nos valores.. v.Rapaz eu acho que era melhor de que hoje. Não é aquela questão de tá todo mundo. todo mundo era educado. tendo em vista que o significado da família e o papel dos pais mudam na atualidade. n. mas que hoje também ganha as ruas. Numa bolha de vidro não. Na atualidade. possuía alguns condomínios que foram pensados e criados como forma a salvaguardar aqueles que podiam pagar pelo isolamento..

Revista Espacialidades [online]. E o futuro. Mediante o surgimento da indefinição de passado e futuro. Maria das Graças. São Paulo: Brasiliense. v. enquanto um refúgio para o presente em que estavam vivendo. Nem por isso. Se o passado se apresentou a Maria das Graças e Francisca das Chagas dessa maneira. n. ISSN 1984-817X . 2002. a cidade que as atraiu é a que as (des)atraiu. Assim.populares. 8. como uma cidade que “não tinha” violência. sentiram-se desabrigadas na cidade na qual deveriam abrigar-se. O que é pós-moderno. 13). permanente e seguro (NUNES. 1998. 2009. O sujeito que se percebeu dentro das três temporalidades foi nomeado por Martin Heidegger como o Dasein. assume uma indefinição. mesmo assim. por ter ganhado outros significados durante a vida. por não estar amparado por um cotidiano conhecido. expressão que também foi 12 SANTOS. por causa do medo da violência. p. que mais parecem “fortalezas”. 102. Jair Ferreira dos. O Dasein torna-se passado sem deixar de ser presente. que é o ente que compreende o ser. O passado. livres da violência que se encontrava fora do seu espaço privado. 18 ed. Se os tempos pós-modernos contém um “des”12. O paradoxo é que moramos nas sociedades consideradas as mais seguras que já existiram. 19). 2002. 2015. surge a angustia do Dasein desabrigado. Maria das Graças e Francisca das Chagas. CONSIDERAÇÕES FINAIS As lembranças de Francisca das Chagas. de Josino de Barros e de Patrícia Barros compartilharam a ideia de que a cidade de Picos é a “cidade do já teve”. 25). p. p. esses condomínios eram locais onde as pessoas se sentiam completamente seguras. 1. e o passado antecipa-se ao futuro (NUNES. é sinal de que a cidade de Picos das décadas de 1950 e 1960 foi ressignificada na memória dos narradores. não tem o seu conceito pronto. p. Ser angustiado significa não mais se sentir em casa e ter a subjetividade abalada. Moradias que não possuíam a segurança “vendida” pelos condomínios. mas. o medo do outro nos apavora (BAUMAN.

2011. nº 49. p. (OLIVEIRA. As sombras do tempo: a saudade como maneira de viver e pensar o tempo e a história. ou que sofriam pelo desprezo de parecerem ausentes. Existiu. n. lazer. da saudade de lugares e vivências que não mais existiam naquele presente de formação dos relatos.31. 11. Brasília: Paralelo 15. pois a cidade possuía espaços sociais. por não se identificarem com a cidade que lhes era apresentada. O prazer do historiador. 15 ALBUQUERQUE JÚNIOR.analisada por Karla Oliveira13. ainda assim. Revista Brasileira de História. a partir das falas dos narradores. São Paulo. lembranças que escorregaram por entre os dedos daqueles que fizeram o esforço de lembrar. ISSN 1984-817X . gênero e sociabilidades em Picos na década de 1960. 2015. 25. que não existe mais. Desejaram o retorno.). A geografia dos desejos: cidade. 19. 2006. 2005. A história das sensibilidades busca identificar a produção dos sentidos na formação de imagens do outro 14. direcionando o sentir dos citadinos para o saudosismo de espaços urbanos que não existiam mais. uma alegria que trouxe dor.). É uma saudade da “possibilidade”. Maria das Graças não podia pagar para assistir os filmes. Portanto. assim. 1. v. 12. 14 CORBIN. sentiu saudades da sala de cinema. 8. Alain. um viver que falava de uma condição de seres mortais. Karla Íngrid Pinheiro de. O (re)memorar dos sujeitos tornou-se. como o cinema. uma orientação cultural. 117. (Org. Durval Muniz de. p. lembranças que foram passageiras. entendemos que a imagem construída de Picos. 2011. 80f. a expressão é usada pelos habitantes da cidade para referir os diversos lazeres que Picos possuía durante os anos 1960. 117. 13 Para Karla Oliveira. considerados como o período áureo da cultura picoense pelos entrevistados. O Cine Spark é um exemplo possível. uma tristeza que buscou a esperança perdida. v. História e Sensibilidade. p. Revista Espacialidades [online]. p. p. um tempo por aproveitar que possuía um fim15.139. para quem sabe um dia usufruir. Picos. foi representada pelo sentimento da ausência. do ter por perto. Esta saudade algumas vezes foi direcionada para espaços que nem todos frequentavam. In: Maria Haizenreder Ertzogue e Temis Gomes Parente. Acesso em: 10 de agosto de 2012. um prazer de (re)lembrar a cidade de outrora. Com o passar do tempo. Monografia (Curso de Licenciatura em História) – Universidade Federal do Piauí.

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