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A liberdade interior

Jacques Philippe A liberdade interior .

.7465 www.br | comercialedicoes@comshalom. 2011.com.org Todos os direitos reservados.Lagoa do Junco CEP: 61. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico. Aquiraz. ISBN: 978-85-7784-002-1 8ª Edição © EDIÇÕES SHALOM.Coordenação Geral: Filipe Cabral Coordenação Editorial: Carolina Fernandes Diagramação: Daniel Garcia da Silva Capa: Leonardo Biondo Rafael Studart Revisão: Keila Maciel Marques Sandra Viana Edições Shalom Estrada de Aquiraz . Brasil.700-000 .Aquiraz/CE | Tel. incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora.edicoesshalom.: (85) 3308.

A afirmação fundamental que desejamos desenvolver é simples. muitas coisas. inevitavelmente. à depressão. estaremos sempre infelizes e jamais experimentaremos a verdadeira plenitude. François-Xavier de Guibert. nossa inteligência. nossa razão. à tristeza. ed. mas nada poderá verdadeiramente nos oprimir nem nos paralisar. mesmo nas circunstâncias exteriores mais desfavoráveis. aí está a liberdade. Esclareceremos de forma concreta como o 1. libertando-nos de nós mesmos para nos apegarmos a Ele. se aprendermos a descobrir em nós esse espaço interior de liberdade. cada um dispõe em si mesmo de um espaço de liberdade que ninguém lhe pode usurpar. . à angústia.|Introdução “Onde está o Espírito do Senhor. pois é Deus a sua fonte e seu fiador. irão nos fazer sofrer. a esperança e o amor se fortificam nele. 2Cor 3. Citado em Uma amizade desejada por Deus.17 2.” Madre Yvonne-Aimée de Malestroit2 Este pequeno livro aborda um tema fundamental da existência cristã: a liberdade interior. o Infinito. à estreiteza de espírito. Pelo contrário.” São Paulo 1 “Ofereceremos a Deus nossa vontade. Seu objetivo é simples: parece-me essencial que cada cristão descubra que. tão contrária à ansiedade. Paul Labutte. mas importante: o homem conquista sua liberdade interior na medida exata em que a fé. Sem essa descoberta. Navegaremos no abandono. Então nosso espírito possuirá esta liberdade preciosa da alma. todo o nosso ser pelas mãos e o coração da Santa Virgem.

possam alcançar a gloriosa liberdade de filhos de Deus.3 4.|A Liberdade Interior dinamismo do que se chama classicamente de “virtudes teologais” é o coração da vida espiritual. 3. pois deles é o Reino dos Céus3. Retomaremos e aprofundaremos alguns temas dos livros precedentes sobre a paz interior. Du temps pur Dieu.4 Neste início do terceiro milênio. Tal virtude só pode desenvolver-se se ligada à pobreza de coração. ed. desejamos que este livro seja uma ajuda para aqueles que desejam fazer-se disponíveis à maravilhosa renovação interior que o Espírito Santo quer operar nos corações. a vida de oração e a docilidade ao Espírito Santo. Recherche la paix et poursuis-la. |6 . À l`Ecole de l`Ésprit Saint. assim. Manifestaremos também o papel fundamental da virtude da esperança no nosso crescimento interior. dês Béatitudes. o que significa que nossa obra pode também ser considerada como um comentário da primeira das bem-aventuranças: Felizes os pobres de espírito. Mt 5. e.

Parte 1 .

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Capítulo 1 |Liberdade e Aceitação .

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Este se propõe. como uma mensagem de liberdade e libertação. entretanto. A cultura moderna é marcada pela busca de liberdade há séculos. com efeito.1 8. Precisamos conhecer qual é a verdadeira natureza desta liberdade. aí está a liberdade6. A lei cristã é chamada por São Tiago de lei de liberdade8. São Paulo afirma: Onde está o Espírito do Senhor. diz Jesus em São João5. Apesar disso. como facilmente se pode constatar. Disso o século XX dá infeliz testemunho. Gl 5. o desejo de liberdade con5. Tg 2.2 6. “liberdade”. como a noção de liberdade suscita ambiguidades e pode conduzir a desvios que têm produzido alienações terríveis e causado a morte de milhões de pessoas. no qual as palavras “livre”.|A busca da liberdade A noção de liberdade pode ser um lugar de encontro privilegiado entre a cultura moderna e o cristianismo. Para convencer-se disso. 2Cor 3. é suficiente abrir o Novo Testamento. Jo 3.12 11| . “libertar” são utilizadas com frequência: A verdade vos libertará.17 7. Sabemos. e mais adiante: É para sermos verdadeiramente livres que Cristo nos libertou7.

tão forte no homem contemporâneo. O ser humano manifesta tamanha sede de liberdade porque sua aspiração mais fundamental é a de felicidade e ele percebe que não existe felicidade sem amor nem amor sem |12 . econômico. Esta é sua grandeza e. pode até mesmo ser uma simples manifestação do egoísmo do homem moderno. Evidentemente. fechada em um espaço estreito. tal desejo permanece insatisfeito. de certa forma. ao fato de que. o que se deve. mesmo que traga em si uma boa dose de ilusão e se realize. |Liberdade e felicidade É preciso ressaltar que essa aspiração à liberdade. O livro do Gênesis o diz explicitamente. tem-se a impressão de que o único valor que goza ainda de alguma unanimidade neste início de terceiro milênio é o da liberdade: todos estão. psicológico. sem dúvida. o homem não foi criado para ser escravo. O confinamento lhe é insuportável. sua infelicidade. mesquinha. por caminhos errôneos. No plano moral. trata-se de um valor mais teórico do que real (o liberalismo ocidental torna-se cada vez mais autoritário ao seu modo). simplesmente porque foi criado à imagem de Deus e.|A Liberdade Interior tinua a manifestar-se em todos os domínios: social. assim. político. Foi criado para viver livre. Na verdade. para o qual o respeito da liberdade de cada um seria menos o reconhecimento de uma exigência ética que uma reivindicação individualista: “que ninguém se meta a me impedir de fazer o que eu bem quiser!”. algumas vezes. tem em si uma necessidade irrepreensível de absoluto e de infinito. de acordo sobre o fato de que a liberdade é uma norma ética fundamental. por vezes. Não foi feito para levar uma vida inexpressiva. traz em si algo de muito justo e nobre. mas para dominar sobre a criação. apesar de todo “progresso”.

Para o homem moderno. o que é perfeitamente correto. tem toda a razão! Mas como atingir essa liberdade que permite o desabrochar do amor? Para ajudar aos que desejam atingi-lo. . ainda que confusa. egoisticamente. frustra-se. dessa verdade que faz com que o homem dê tamanha importância à liberdade e. das quais ninguém está imune. um local de encontro entre o cristianismo e a cultura moderna. mas as quais são necessárias abandonar para gozar de uma verdadeira liberdade. e o amor é a condição fundamental da felicidade. conforme dissemos. Muito menos se compra. e. talvez o ponto em que eles divergem de maneira mais radical. a ideia de liberdade pode ser. por um lado. Precisa sempre de algo para amar. o homem não saberia viver sem amar. ou do interesse. assim. Se é verdade que somente o amor pode preencher o homem. Diálogo. Pressente-se. 13| |Liberdade e Aceitação liberdade. Só existe o amor verdadeiro e. O amor não se aprisiona. pois somente um amor autêntico pode preenchê-lo. Como diz Santa Catarina de Sena9. começamos por evocar algumas ilusões bastante disseminadas. portanto.|Liberdade: reivindicação de autonomia ou acolhimento de |uma dependência? Se. ou somente da satisfação de uma necessidade. frequentemente. ama a si mesmo. também. não merece este nome. e só encontrará a felicidade ao amar e ser amado. O homem foi criado por amor e para amar. Não há dúvida de que é a intuição. Seu problema vem do fato de que. assim. ele ama de forma equivocada. nesse ponto de vista. pois ela é feita de amor e é por amor que eu a criei”. Téqui. ed. capítulo 51. é também verdade que não há amor sem liberdade: um amor que venha da opressão. “A alma não pode viver sem amor. o valor extraordinário da liberdade: ela é o preço do amor. feliz entre pessoas que dispõem livremente delas mesmas para dar-se uma à outra. é. ser livre 9.

recebido na medida em que nos colocamos em uma dependência de amor diante do nosso Criador e Salvador. mas que levamos tempo para compreender: enquanto nosso sentimento de maior ou menor liberdade depender de circunstâncias exteriores. uma evidência muito simples. nossa liberdade é.25 12. na obediência da fé. aqui. A experiência de vida dos santos encoraja-nos: eles se entregaram a Deus sem reservas. |Liberdade exterior ou interior? Outra ilusão fundamental com relação à noção de liberdade é a de fazer desta uma realidade exterior. colocando-a confiantemente nas mãos de Deus. mas quem aceitar “perdêla”. como um maravilhoso presente da ternura divina. Para o Cristianismo. na verdade. é sinal que não somos ainda verdadeiramente livres. Rm 1. mas quem perder sua vida por minha causa. preservar e defender sua liberdade vai perdê-la. em troca.5 11. que nada no mundo lhes poderia roubar. só se pode encontrar a liberdade em uma submissão a Deus. Aí se manifesta plenamente o paradoxo evangélico: Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la. frequentemente. |14 . e não uma realidade antes de tudo interior12. Como veremos. é um dom gratuito de Deus. Em outras palavras: quem quiser. mais que uma conquista do homem. razão de sua intensa felicidade. desejando fazer unicamente a sua vontade e. Há. Mt 16. salvá-la-á: ela lhe será restituída infinitamente mais bela e profunda. receberam progressivamente o sentimento de gozar de uma imensa liberdade. a todo preço. um fruto do Espírito Santo. vai salvála11.|A Liberdade Interior significa. A verdadeira liberdade. poder desembaraçar-se de todo limite e de toda autoridade: “Nem Deus nem patrão”. Como isso é possível? Vamos tentar compreender passo a passo. ao contrário. proporcional ao amor e à confiança filial que nos unem ao nosso Pai do Céu. da qual nos fala São Paulo10. dependente das circunstâncias. 10.

esta ou aquela limitação da qual somos prisioneiros com relação ao nosso físico. as obrigações de todo tipo que os outros colocam sobre nós. certas limitações que precisam ser corrigidas ou barreiras a serem ultrapassadas para que se conquiste a liberdade. dessa forma. Quanto ressentimento acumulamos. Podemos nos libertar de alguns deles. Há. encontramos outras logo adiante. certamente. Mesmo se tudo o que consideramos impedimento à liberdade em nossas vidas viesse a desaparecer. Dessa forma. 15| |Liberdade e Aceitação Neste domínio. Para encontrar nossa liberdade. Encontraremos sempre limites dolorosos. Confissões. Expliquemo-nos. isso não seria nenhuma garantia de encontrarmos a plena liberdade à qual aspiramos. ao nos fixarmos na problemática que descrevemos acima. arriscamos a nos embrenhar em um processo sem fim e em uma insatisfação permanente. Nem bem ultrapassamos uma barreira. como em muitos outros. Quando nos sentimos cerceados pelas circunstâncias que nos aprisionam. etc.13. seria preciso. sob pena de jamais gozar da liberdade verdadeira. temos a impressão de que o que limita nossa liberdade são as circunstâncias que nos cercam: os limites impostos pela sociedade. etc. eliminar essas barreiras e limitações. . mas será apenas para encontrarmos outros maiores: as leis da física. então. um lado de verdade. a vida em sociedade. nossa saúde. Mas há também uma grande dose de ilusão que é necessário desmascarar. os limites da condição humana. livro 10. atribuímos nosso incômodo às instituições ou pessoas que nos parecem causá-lo. reproduzimos o drama experimentado por Santo Agostinho: “Tu estavas dentro de mim e eu estava fora e era fora que eu te procurava”13. Frequentemente. algumas vezes. para com tudo o que não está de acordo com nossa vontade e nos impede de ser livres como desejaríamos! Essa maneira de ver as coisas tem.

Imaginamos encontrar a liberdade tentando sempre ultrapassar nossas possibilidades. acaba por segui-los. frequentemente.|A Liberdade Interior |Libertação ou suicídio? O desejo de liberdade que habita o coração do homem contemporâneo traduz-se. lançamo-nos no alpinismo radical. ele se condena à morte certa! Quantos jovens mortos pelos excessos de velocidade ou overdose de heroína por causa de uma aspiração à liberdade que não soube encontrar os caminhos autênticos para realizar-se! Mas será que a liberdade não passaria de um sonho ao qual seria melhor renunciar para contentar-se com uma vida medíocre e sem graça? Certamente não! É preciso descobrir a verdadeira liberdade em si mesmo e em um íntimo relacionamento com Deus. assim. fascinado pela liberdade de movimento dos golfinhos nas profundezas do oceano. Isso se aplica a todos os domínios da existência. mais depressa. O filme deixa de dizer o que é evidente: ao fazê-lo. Queremos ir cada vez mais longe. Não contente de praticarmos o alpinismo convencional. gostaria de contar uma pequena experiência |16 . |A estreiteza está em vossos corações Para ajudar a compreender a natureza deste espaço de liberdade interior que cada um traz em si e que ninguém pode usurpar. até o dia em que vamos longe demais e a excitante aventura acaba em uma queda mortal. ter um poder cada vez maior de transformar a realidade. Este lado suicida de certo tipo de busca de liberdade é evocado de maneira significativa pela cena final do filme Le grand Bleu: o herói do filme. por uma tentativa desesperada de ultrapassar os limites dos quais se considera prisioneiro. Cremos que seremos mais livres quando o “progresso” da biologia nos permitir escolher o sexo dos filhos.

ao final de sua vida.. não se . Ofereci-me como voluntário para a agradável tarefa e isso me deu uma oportunidade inesperada de entrar no claustro do Carmelo de Lisieux e descobrir. Percebi a que ponto ela havia vivido em um mundo bastante reduzido aos olhos humanos: um pequeno Carmelo no interior. Santa Teresinha tem sido uma amiga muito cara e. aprendi enormemente em sua escola de simplicidade e confiança evangélicas. O grande campo de feno que eu havia imaginado. pessoalmente.. os locais onde Teresinha viveu: a enfermaria. Na visita. Há dois anos. o coro. a lavanderia. dez anos! No entanto – e este é o paradoxo que me impressionou – quando se leem os escritos de Teresa. em uma das primeiras ocasiões em que suas relíquias deixariam o Carmelo para veneração nas cidades que as haviam solicitado (creio que na cidade de Marseille). Um exemplo: Teresinha. um clima no qual o sol nem sempre aparecia. eu me encontrava em Lisieux. era do tamanho de um lenço de bolso! A evidência inesperada da pequenez dos locais onde havia vivido Teresinha me fez refletir muito. cultura e maneiras frequentemente deixavam a desejar. entretanto. evoca com humor suas irmãs que passavam e faziam questão de dar-lhe uma palavrinha quando iam recolher o feno. uma pequena comunidade formada de religiosas cuja educação. um jardim minúsculo. de uma arquitetura banal. Locais que eu conhecia através dos escritos da santa em seus Manuscritos Autobiográficos. Há muitos anos. com alegria e emoção.17| |Liberdade e Aceitação que tive com Santa Teresinha do Menino Jesus e que me fez crescer bastante. E uma existência tão breve neste monastério. um detalhe me impressionou: os locais eram bem menores do que eu havia imaginado. As irmãs carmelitas haviam pedido a irmãos da comunidade Beatitudes para ajudar a transportar o pesado e precioso relicário até o carro que o conduziria a seu destino. o jardim com a alameda de nogueiras.

mas tudo isso é ultrapassado e transfigurado pela intensidade da vida interior. de forma alguma. uma impressão de amplitude. de caridade para com as irmãs. “torrentes de misericórdia” e assim por diante. é muito revelador. Muito pelo contrário. Abraça a Igreja e o mundo inteiro com uma ternura de mãe. Por que o mundo de Teresa. “oceanos de graça”. dá a impressão de ser tão amplo e dilatado? Por que tal impressão de liberdade se difunde de sua descrição da vida do Carmelo? Simplesmente porque Teresa ama intensamente. Ela é como uma rainha que não |18 . humanamente tão estreito e pobre. pelo amor. em sua sensibilidade espiritual. O amor transfigura tudo e dá um toque de infinito às coisas mais banais. de maravilhosa dilatação. em sua maneira de exprimir-se. Ela está abrasada do amor por Deus. assim como a monotonia do sacrifício. Eis o seu segredo: ela não se sente prisioneira em seu pequeno convento porque ama. Naturalmente. Todos os santos fizeram a mesma experiência: “o amor é um mistério que transfigura tudo o que toca em coisas belas e agradáveis a Deus. Teresa vive em horizontes muito largos: os da misericórdia infinita de Deus e de seu desejo ilimitado de amá-lo. Sente-se como uma rainha que tem o mundo inteiro a seus pés. o sofrimento também está presente em seus escritos. Se ultrapassarmos certas limitações do seu estilo. O manuscrito B. estar em todos os pontos do universo onde um missionário necessite de sua oração e de seus sacrifícios! Seria necessário um estudo filológico sobre a importância dos termos que em Teresinha exprimem a dimensão iluminada do universo espiritual no qual ela se move: “horizontes infinitos”. “desejos imensos”. a impressão de uma vida passada em um mundo estreito. em particular. uma vez que ela tudo pode obter de Deus e. perceberemos. “abismos de amor”.|A Liberdade Interior tem. O amor de Deus faz a alma livre. no qual Teresa conta a descoberta de sua vocação no coração da Igreja.

às vezes.14. o verdadeiro problema (assim como a solução) está em nós mesmos. ed. p. Acusamos o ambiente. Quem não sabe amar se considerará sempre injustiçado e se sentirá pouco à vontade onde quer que se encontre. devendo assim mudar. sem liberdade em uma determinada situação. Mas creio que bem frequentemente desenvolvemos certa ilusão. porém. 2Cor 6. Eis o que me ensinou Teresinha. aprender a amar e deixar-se transformar pelo Espírito Santo. veio-me à mente uma frase de São Paulo aos cristãos de Corinto: Não é estreito o lugar que ocupais em nós. Além disso. Não quero dizer que não haja. Se escolhermos amar sempre. é o vosso íntimo15. exclama Santa Faustina em seu Diário Espiritual14. no entanto. sim. Petit Journal.12 19| |Liberdade e Aceitação conhece o peso da escravidão”. O problema. enquanto a verdadeira questão está em outro lugar. sentimo-nos mal. 319. talvez esteja em outro lugar: é em nosso coração que não nos sentimos bem. em nossa família. Estreito. Nossa falta de liberdade vem de uma falta de amor: pensamos ser vítimas de um contexto desvantajoso e. ela me fez compreender outra coisa importante. em nosso ambiente. da qual falaremos mais tarde: nossa incapacidade de amar vem muitas vezes da nossa falta de fé e de esperança. o amor dará dimensões infinitas à nossa vida e não nos sentiremos mais aprisionados. 15. Refletindo sobre isso. não nos sentimos livres. Santa Faustina Kowalska. É nosso coração que está prisioneiro de seu egoísmo ou de seus medos. . Quem sabe amar não se sentirá mal ou pouco à vontade em lugar algum. circunstâncias opressoras ou angustiantes que precisem ser remediadas para que o coração desfrute de uma real liberdade interior. É nele que está a origem da nossa falta de liberdade. Jules Hovine. Este é o único meio de sair do sentimento de mal-estar e da falta de liberdade que nos invade. situações objetivas a serem mudadas. Muito frequentemente.

Du Seuil. uma jovem judia morta em Auschwitz em setembro de 1942. tranquilo. os cartazes proíbem os judeus caminhar pelos pequenos caminhos que dão acesso à natureza. |20 . Nada. em um tempo muito diferente e muito próximo do de Teresinha do Menino Jesus e que muito me tocou. Oportunamente citaremos mais algumas passagens de seus escritos. tirar-nos alguma liberdade de movimento exterior. Sua “história de uma alma” desenrola-se na Holanda no momento em que se intensifica a perseguição nazista contra os judeus. Podem nos tornar a vida dura. contornando de bicicleta o Stadionkae. Em todo lugar. Etty Hillesum. Graças a um amigo psicólogo. É impressionante constatar como essa jovem. No momento em que todas as liberdades exteriores lhe são progressivamente retiradas. 1985. transcrevemos um texto muito significativo de sua experiência espiritual: “Esta manhã. também judeu. mas somos nós mesmos quem nos despojamos de 16. Trata-se do testemunho de Etty Hillesum. No momento. Abaixo deste trecho de estrada que nos resta. Une vie bouleversée. mas animada de por uma forte exigência de verdade quanto a si mesma. ela descobre (sem jamais se tornar explicitamente cristã) valores profundamente cristãos: a oração. fiquei encantada de ver o vasto horizonte que se descobre nas fronteiras da cidade enquanto respirava o ar fresco que ainda não conseguiram racionar.|A Liberdade Interior |Um testemunho para o nosso século: |Etty Hillesum Gostaria de contar brevemente outro testemunho mais recente de liberdade interior. nos despojarem de certos bens materiais. o céu é imóvel. Journal (1941-43) ed. cujo diário foi publicado em 198116. a presença de Deus no seu interior e o convite evangélico a abandonar-se confiantemente à Providência. aplica-se a viver esses valores. descobre nela mesma uma felicidade e uma liberdade interior que ninguém lhe poderá tirar. Ninguém pode fazer nada de mal contra nós. afetivamente frágil.

17. 18. A fé. Em mim há céus que se alastram tão vastos quanto o firmamento.. nem o presente nem o futuro. 132. op. Creio em Deus e creio no homem. oprimidos.) Sou uma mulher feliz e canto os louvores desta vida – sim – no ano do Senhor – agora e sempre do Senhor – 1942”17. nem as forças das alturas. nem os anjos nem as dominações. da possibilidade de crer. cit. E. nem as potências. a esperança e a caridade são soberanamente livres.38s 21| |Liberdade e Aceitação nossas melhores forças por uma atitude psicológica equivocada ao nos sentirmos perseguidos.|A liberdade interior: |liberdade de crer. . ao experimentarmos ódio. nem as das profundezas. aquela liberdade soberana de quem crê consiste em que se disponha em toda circunstância graças à assistência do Espírito Santo. de esperar e de amar. Rm 8. que vem em socorro de nossa fraqueza18. Considero a vida imensamente bela e sinto-me livre. Nenhuma circunstância no mundo poderá jamais me impedir de crer em Deus. eu tenho certeza: nem a morte nem a vida. a ideia que desejo desenvolver agora é: a verdadeira liberdade. de amar Na linha do que viveu Teresinha e Etty. p. a verdadeira espoliação somos nós mesmos quem nos infligimos. nosso Senhor19. de vez em quando. de esperar. Temos o direito de estar tristes e abatidos. de amá-lo de todo o meu coração e de amar meu próximo. nada poderá separar-nos do amor de Deus..26 19. ouso dizer sem falsa vergonha (. pelo que nos fazem suportar: é humano e compreensível. Sim. manifestado em Jesus Cristo. nem outra criatura alguma. fazendo-nos de corajosos para esconder nosso medo. no entanto. Rm 8. Ninguém jamais poderá impedi-lo. de colocar nele toda a minha confiança. humilhados.

pensa-se frequentemente que o único exercício verdadeiro da liberdade consiste em escolher entre diferentes possibilidades aquela que mais convém. uma vez que aquele que a compreende e pratica atinge uma liberdade soberana. a partir de diferentes pontos de vista. têm o poder de nos alimentar exatamente daquilo que a elas se opõe! Se. tenho sempre a possibilidade de perdoar os meus inimigos e transformar a situação de opressão em um amor ainda maior. minha morte se torna a mais bela confissão de fé que se possa conceber! O amor. e somente ele. na esperança e no amor é a única via de acesso à liberdade. é capaz de vencer o mal pelo bem. A medida de nossa liberdade seria. |A liberdade em ação: escolher ou acolher? Devido à visão inadequada sobre a liberdade que acabamos de descrever.|A Liberdade Interior pois. o tipo de trabalho. examinemos um ponto importante concernente às diferentes modalidades segundo as quais a liberdade pode ser exercida concretamente. que cedo conduz a impasses e contradições. Pensa-se. proporcional à amplitude deste leque de opções possíveis. através da perseguição. Antes de aprofundar esse assunto. portanto. seu sexo e a cor de seus olhos. mais se é livre. Essa noção de liberdade. querem me impedir de amar. se estão bem enraizadas em nós. Gostaríamos. e tirar do mal o bem. é muito presente inconscientemente. em todas as situações da vida. O crescimento na fé. Sonhamos com a vida como uma espécie de imenso supermercado no qual cada prateleira apresenta um grande estoque de possibilidades e onde se pode pegar à vontade o que é do nosso gosto |22 . uma ilustração dessa verdade tão preciosa. Escolher onde passar as férias. assim. Todos os capítulos que se seguem querem ser. o número de filhos. que quanto mais amplo for o leque de opções. de ter a oportunidade de escolher. Se querem abafar minha fé tirando-me a vida.

porque se o celibatário escolhe renunciar a todas as mulheres. Vem-me à lembrança uma brincadeira que diz que a escolha do celibato pelo Reino e a do casamento cristão são. o que não significa. Há uma multidão de aspectos absolutamente fundamentais de nossa vida que não escolhemos: nosso sexo. portanto. em verdade eu te digo. mas o mero fato de elas se apresentarem já reduz. a gama de possibilidades disponíveis..23| |Liberdade e Aceitação e deixar o resto. verdadeiramente. Entre parênteses. É preciso. Os elementos da existência que escolhemos são de uma importância bem menor que aqueles que não escolhemos. a vida apresenta-se diante de nós como um leque largamente aberto de possibilidades entre as quais escolher. de fato. aquele que se casa renuncia também a todas as mulheres.. gostaríamos de escolher nossa vida como se escolhe uma roupa em um espesso catálogo de venda por correspondência. Que o uso de nossa liberdade nos leve frequentemente a optar entre diferentes possibilidades é verdade e isso é bom. No entanto.. a cor de nossos olhos. por si. . exceto uma. não é uma diferença significativa! Quanto mais avançamos em idade. se. muito próximas. nosso temperamento. amarravas o teu cinto e ias para onde querias. excluir todas as outras.. Mas isso não é um mal. uma escolha. seria perfeitamente irrealista tudo analisar a partir desse ângulo. Além disso. afinal de contas. nossos pais. quando eras jovem. fazer escolhas. com o passar do tempo. e isso. do ponto de vista numérico. poderíamos nos perguntar se verdadeiramente escolhemos a mulher com quem nos casamos: o mais frequente é nos casarmos com aquela por quem nos apaixonamos. no momento da adolescência. nossa língua materna. menos dispomos de possibilidades de escolha: Em verdade. é preciso reconhecer que este leque tende a fechar-se.. Casar-se é escolher uma mulher e.. Para tomar outra imagem bem atual.

|A Liberdade Interior quando ficares velho. implacável. compreender que existe também outra maneira de exercer sua liberdade. as escolhas definitivas. entretanto. bem mais cheia de vida e revestida de uma fecundidade humana e espiritual imensa. ao máximo. A atitude com respeito ao casamento ou outras formas de compromisso é significativa: retardam-se. na verdade. sem que as tenhamos escolhido. O homem manifesta a grandeza de sua liberdade quando transforma a realidade. O ato mais alto e mais fecundo da liberdade humana reside antes na acolhida que na dominação. pois cada uma é percebida como uma perda de liberdade. Resultado: não se ousa decidir. Trata-se de não somente escolher. logo. sob a pena de nos expormos a dolorosas desilusões.18 |24 . mas também acolher aquilo que não escolhemos. é fundamental. pois o tempo passa. mas o faz mais ainda quando a acolhe com confiança da forma como ela se apresenta dia após dia. mais pobre. É uma forma menos grandiosa à primeira vista. estenderás as mãos e um outro atará o teu cinto e te conduzirá para onde não quiseres20. apresentam-se de uma forma agradável e prazerosa. |Ser livre é também acolher aquilo que não escolhemos Se o exercício da liberdade como escolha entre duas coisas possíveis tem seu valor. É natural e fácil acolher as situações que. não se vive. Quero evidenciar como essa forma de exercer a liberdade é importante. O que ocorre é que a vida escolhe em nosso lugar. O problema ocorre quando nos defrontamos com 20. Jo 21. mais humilde. O que sobra de nossa liberdade se nossa visão for a da “liberdade de supermercado” que descrevemos há pouco? Essa falsa concepção da liberdade tem repercussões profundas sobre o comportamento dos jovens de hoje. mas.

No texto acima. escapa a toda tentativa de controle”.22 21. por vezes. 25| |Liberdade e Aceitação aquilo que nos causa desprazer. que nos faz sofrer. “A grande ilusão do homem é o desejo de controlar a própria vida. Por exemplo: eu não me aceito tal como sou. por sua própria natureza. Viens vers le Père ed.|Revolta. referimo-nos à revolta como recusa do real. No entanto. a vida é um dom que. nossa situação. a “escolher” aquilo que não desejamos e que. A revolta nem sempre é negativa. 172 22. é justamente aí que somos chamados a nos tornar verdadeiramente livres. acolhida Antes de continuar. p.. No entanto. A palavra revolta pode ter. a verdade é a seguinte: as situações que verdadeiramente nos fazem crescer são exatamente aquelas sobre as quais não temos controle21. nossa pessoa. Existe aí uma lei paradoxal da existência: só nos tornamos verdadeiramente livres quando aceitamos não ser sempre livres! Eis o ponto que desenvolveremos agora e que tem uma grande importância: aquele que quer conquistar uma verdadeira liberdade interior deve exercitar-se em aceitar em paz e de bom grado coisas que parecem contradizer sua liberdade: acolher seus limites pessoais. que nos faz agir positivamente com motivações justas e meios legítimos e proporcionais. desde que não se paralise aí. . contra a vida que permitiu este ou aquele acontecimento. há três atitudes possíveis. suas fragilidades. Veremos muitos exemplos concretos desta realidade. que nos contraria. de l’Emmanel. sua fraqueza. também. etc. Ora. Jean-Claude Sagne. Pode ser uma primeira reação psicológica inevitável em certas situações de sofrimento brutal. resignação. Temos dificuldade em fazê-lo porque temos horror espontâneo a situações sobre as quais não temos controle. daquilo que consideramos negativo. contra a sociedade. etc.. revolto-me contra Deus que me fez desta forma. . A primeira é a da revolta. um sentido positivo: a recusa de uma situação inadmissível. é bom esclarecermos: diante daquilo que nos desagrada em nossa vida. esta ou aquela situação que a vida impõe. não desejaríamos de forma alguma.

Posso. À revolta pode vir a suceder a resignação: ao dar-me conta de que não posso mudar uma situação ou a mim mesmo. Porém. A resignação pode representar certo progresso se comparada à revolta quando conduz a uma atitude menos agressiva e mais realista. a partir da minha pobreza. ela é insuficiente. Comparada à resignação. acabo por resignar-me. porque tenho confiança de que. do bem e do mal que encontra em mim”23. a acolhida leva a uma disposição interior completamente diferente. de violência e de ressentimento. A acolhida me faz dizer “sim” a uma realidade percebida em um primeiro momento como negativa. por exemplo. mas basta um pouco de bom senso para entender que nada de grande ou de positivo jamais foi construído a partir da revolta: seu único efeito é propagar ainda mais o mal que deseja remediar. 53. o Senhor é capaz de fazer coisas maravilhosas. A resignação pode até ser uma virtude filosófica. o problema é que ela nunca resolveu nada adequadamente. No entanto.|A Liberdade Interior A revolta é frequentemente a primeira reação diante do sofrimento. mas se não passa disso. para citar Teresinha. pois lhe falta a esperança. A resignação é uma confissão de impotência. |26 . mas não é uma virtude cristã. É fonte de desespero. então. é estéril. 23. porque me vem o sentimento de que algo positivo pode surgir da situação. Tudo o que consegue é somar um mal a outro mal. A atitude conveniente é a da acolhida. Posso dizer sim à realidade mais pobre e decepcionante no plano humano porque creio que “o amor é tão poderoso em obras que sabe tirar proveito de tudo. Há. Ela pode ser uma etapa necessária. Nada mais. Ver Manuscrito autobiográfico A. uma perspectiva de esperança. Certo romantismo literário fez a apologia do revoltado. dizer sim ao que eu sou apesar dos meus desafios porque sei que sou amado por Deus.

mesmo que a realidade objetiva na qual me encontro continue idêntica. A presença da fé. cedo ou tarde. A graça de Deus jamais deixa de dar frutos quando é acolhida. de esperança e de amor. já que existem a fé. pois confiar em alguém é amá-lo. há. disponibilidade à graça divina. Por exemplo. efeitos positivos. pois já é habitada pelas virtudes de fé. Pelo contrário. há. ainda que em estado embrionário. acolher minha pobreza é confiar em Deus que me criou como sou. como não nos cansaremos de dizer. fé em Deus. pois. amor. é sempre extraordinariamente fecunda.27| |Liberdade e Aceitação A diferença decisiva entre a resignação e a acolhida vem do fato de que. Neste ato de consentimento. então. portanto. da esperança e da caridade faz com que a acolhida adquira um valor e fecundidade muito grandes. a atitude do coração é muito diferente. . automaticamente. a esperança e a caridade. confiança nele e. no consentimento. acolhida desta graça e.

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