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Lucas Elias Silva 147007

Prof. Dr. Rafael Alves da Silva

HZ854A - Tópicos Especiais em Sociologia VIII

Ethos empresarial:
criação do homem-máquina e dissolução da consciência de classes

A ideia do ethos empresarial e juntamente com ele a noção de capital humano,
surgem para ajudar a cobrir as limitações do sistema de produção taylorista/fordista, e
promovendo ideias cada vez mais individualistas, pessoalizando o fracasso ou sucesso,
e de certa forma minando uma consciência de classe existente e que facilmente podia
ser vista de forma externada na força dos sindicatos que existiam na era
taylorista/fordista.
Com o ethos empresarial e a ideia de capital humano assimilada pela
sociedade como um todo e não apenas pelo meio empresarial a qual foi restrito na
sua concepção, a forma do homem se perceber e passar a ser representado ganham
formas totalmente econômicas, e tal como uma máquina ou um software o homem
precisa de contínuos investimentos a fim de se atualizar e não se tornar obsoleto para
o mundo do trabalho e da produção, e além dessas atualizações o homem também
passa a trabalhar no ritmo das máquinas existentes, se transformando num verdadeiro
homem-máquina.
Na busca pela melhora da máquina humana o que antes eram coisas, gastos,
relações cotidianas passam a serem calculadas e se transformam em investimentos
que visam a atualização do homem-máquina, “atualizações” estas, que não são feitas
para satisfazer os desejos humanos e sim para maximizar e potencializar a
produtividade das atividades realizadas em seus empregos ou em seus networks, que
giram em torno somente de aspectos econômicos.
“Também se investe, contudo, ao fazer um curso de idiomas, ou uma
pós-graduação em administração, investe-se em desenvolver a própria
carreira e se investe na amizade ou na relação com os filhos. Tudo ou quase
tudo se torna objeto de investimento, algo no que se pode ou, muitas vezes,
se deve investir.” (LÓPEZ-RUIZ, Osvaldo Javier, 2007, p.5)

assim como em qualquer tipo de investimento que busca retornos no futuro. as suas técnicas e habilidades. que da lugar a um pensamento basicamente meritocrático defendido pelas classes dominantes. que assimilam a ideia de capital humano. transformando os indivíduos em objetos técnicos que se sujeitam a investimentos para a sua atualização. toda a nossa sociedade – que assimilou a ideia do ethos empresarial. ambientais entre outros. acumulariam um capital de conhecimento e que futuramente os beneficiariam. sem levar em consideração diversos aspectos sociais. mesmo que inconscientemente e passa acreditar que através de investimentos em si próprio poderá alcançar condições de vida melhores. Ethos empresarial e a formação do “homem-máquina” Em seu artigo Da ética protestante ao ethos empresarial: ”capital humano” e “empreendedorismo” como valores sociais.Portanto se cada vez mais as pessoas começam a se entenderem sobre uma lógica empreendedora e consequentemente individualista – já que de acordo com essa lógica tudo que acontece ou deixa de acontecer em sua vida profissional se deve as suas escolhas e não a uma estrutura que controla e mantêm uma certa ordem social. O pensamento de se investir em capital humano a principio foi difundido em setores de alto escalão como o de administradores e executivos de grandes empresas. desde os altos executivos – que foram os “pioneiros” na adoção desse ethos. Osvaldo Javier López-Ruiz mostra toda a evolução da ideia do capital humano e de uma ética empreendedora na sociedade em geral. Assim. numa ideia de estar sempre atualizando os seus conhecimentos. as pessoas passam a fazer investimentos para se atualizarem constantemente como se fossem softwares ou .a consciência de classes vai se perdendo gerando uma desarticulação da classe trabalhadora. até trabalhadores que vivem em situações totalmente precarizadas em seus trabalhos. criando uma busca por atividades que enriqueceriam.passa a vigorar sobre ideias meritocráticas. O ethos empresarial e consequentemente o capital humano desenvolvidos nos gerentes do capital no começo da segunda metade do séc. individualizando o sucesso e o fracasso das pessoas. Com o pensamento de aumentar o capital humano.. XX foi se espalhando de forma a alcançar toda a sociedade do trabalho.

Individualismo e a consciência de classe perdida Um reflexo direto na sociedade estrutural do trabalho advinda desse ethos empresarial. que é em sua essência individualista e meritocrático. . do homem máquina. possuir mais chances na busca de um melhor posicionamento nos mercado de trabalho. quase sempre gastando uma boa parte dos seus salários para pagarem os cursos e faculdades em que estudam. é exclusivamente de responsabilidade dele próprio.máquinas para que não entrem obsolescência. e que depositam uma enorme esperança numa possível melhora de vida. os sindicatos. Perdendo uma grande essência do humano. é a dissolução da consciência de classe e consequentemente o enfraquecimento dos antigos representantes dos trabalhadores. já que o seus capitais humanos. uma pessoa a ser derrotada com as técnicas que possuo e que adquiri investindo e aumentando meu capital humano. os seus “softwares” estão se atualizando. eles quase sempre terão a ideia de que a situação em que ele se encontra. e se agrava ainda mais quando a noção de que o outro trabalhador é o meu semelhante. Buscam cursos técnicos e faculdades sempre na pretensão de aumentar o seu próprio capital humano e consequentemente. profissão se torna um concorrente. a noção de classe vai sendo perdida. Como a premissa básica do ethos empresarial é o de que cada um é responsável pelo seu próprio fracasso ou pelo seu sucesso. Dessa forma o outro trabalhador que antes era companheiro de ofício. é substituída por uma lógica de competição entre os trabalhadores. e transformando-se em uma verdadeira máquina voltada para o trabalho. por isso. Com todas essas atualizações e necessidades de estarem sempre ou trabalhando. afim de que sua produtividade não decresça – toda a vida das pessoas passa a girar em torno de cálculos para a vida no trabalho. por piores que forem as suas condições de vida. que tem função única de reduzir o desgaste do trabalhador. muitos deles trabalham longas horas durante o dia e buscam algum tipo de qualificação durante a noite. se atualizando ou até mesmo em manutenção – é o caso de investir em qualidade de vida. Por mais precarizado que sejam os trabalhadores.

além de disseminar a uma ideologia meritocrática e individualista.Portanto. . portanto. com o crescimento de uma ideologia individualista e meritocrática. os trabalhadores da segunda metade do séc. já que o outro trabalhador é um adversário dentro do mercado de trabalho e ao contrário de épocas anteriores. E para derrotar esses adversários é necessário o investimento desses trabalhadores em si próprio. é este outro trabalhador que representa os seus antagonismos e não o seu patrão.e sim como indivíduos que competem entre si. XX passaram e se reconhecerem não mais como uma classe operária/trabalhadora – não no sentido estrito de classe que trabalha em fábricas mas sim na classe que vive de um trabalho assalariado. já que não os enxergam mais como companheiros de classe e sim como seus adversários. para que possam estar sempre atualizados e não cair na obsolescência e consequentemente estar fora do mercado de trabalho. Além de conseguir graças a essas atualizações manter uma produtividade no trabalho digna de um “homem-máquina”. juntamente com a decadência dos antigos sindicatos. transformando-os em competidores. O ethos empresarial. competidores que buscam na sua atualização de homem-máquina. ajudou também a minar a organização dos trabalhadores. a todo custo se sobressair dos demais competidores/trabalhadores.