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THE INTERNATIONAL JOURNAL OF PSYCHO-ANALYSIS “CONFLITO E DÉFICIT” Implicações para a técnica (1989) volume 70 - Part 1 Oslo Killingmo

INTRODUÇÃO Na psicanálise tradicional a psicopatologia é conceitualizada em termos de conflito intersistêmico. Isso implica em vários padrões de oposição entre as três estruturas do sistema da personalidade, id, ego, superego e realidade. Outrossim, a principal fórmula do desenvolvimento patológico se processa assim: impulsos e desejos edípicos ---- repressão ---- regressão ---- formação de sintomas. Esta maneira de conceitualizar patologia pressupõe um certo grau de diferenciação estrutural. Antes de tudo, os sistemas que se supõe em conflito um com o outro devem estar separados. Em segundo lugar, uma diferenciação relativamente estável entre representação do self e representação de objeto (constância) tem que ser estabelecida para ser experimentada a constelação interpessoal triádica da situação edípica. Em terceiro lugar, o indivíduo deve ter alcançado um nível de desenvolvimento estrutural que permita utilizar a repressão como principal mecanismo de defesa. Entretanto, tanto a experiência clínica, como os desenvolvimentos teóricos, especialmente nos últimos vinte anos, parecem solicitar uma revisão ou ao menos uma extensão da teoria clássica. Primeiramente, uma enorme quantidade de evidências clínica tende a apontar para o surgimento de patologia antes que a mencionada diferenciação estrutural tenha se estabelecido (Coll, 1980). Segue que os fatores determinantes no processo patológico não parecem ser sempre primariamente de natureza pulsional (libidinal ou agressivo). Também necessidades do desenvolvimento (Tolpin, 1978), como a necessidade de fusão simbiótica (Mahler, 1975), ou necessidade de afirmação de sentimentos básicos do self (Kohut, 1977), podem jogar como parte independente, como forças motivacionais em fenômenos patológicos (Killingmo, 1985). Finalmente, os mecanismos da patologia não parecem ser sempre compostos de forças ativamente opostas entre si, como colocado na teoria tradicional. Também pode tratar-se de sofrimento ou trauma passivo.

A contribuição patogênica do ambiente não é primariamente a condenação moral se

opondo aos desejos instintivos da criança. Antes, é uma questão de falha, de um objeto não

sendo emocionalmente responsivo e adequado às necessidades da fase do desenvolvimento que

a criança atravessa. Então temos, a partir deste princípio, que falar em dois mecanismos separados de

patologia, a do conflito e a do déficit. Diferentemente da patologia típica, baseada no déficit e caracterizada por falhas intra- sistêmicas como estruturas defeituosas do self, falla de constância objetal, difusão de identidade, splliting e falta de capacidade para relacionar-se com objetos (Kernberg, 1975). Isso quer dizer que o desenvolvimento da estrutura total do ego foi lesado.

O amplo espectro da psicopatologia mencionada acima é principalmente o resultado de um

desenvolvimento teórico dentro da psicologia das relações objetais e da psicologia do self. Obviamente, essa nova perspectiva altera o estado de monopólio que o conceito de

conflito ocupou na teoria tradicional. Grosseiramente três posições teóricas em relação ao status do conceito de conflito parecem prevalecer na psicanálise contemporânea.

1. O conflito é concebido como existente desde o nascimento. Ao final, toda psicopatologia

é baseada no conflito intrapsíquico. Em princípio, a psicanálise como procedimento de tratamento

é aplicável a toda gama de patologia. Esta é a posição kleiniana.

2. O conflito ficaria restrito ao tradicional intersistêmico. O tratamento psicananalítico se

restringiria à patologia baseada no conflito. Déficits (deficiências) do desenvolvimento pertencentes aos estágios precoces indiferenciados do desenvolvimento estritamente falando cairiam fora do domínio teórico específico da psicanálise. Essa parece ser a posição de Anna Freud (1981).

3.

O conceito de conflito poderia ser suplementado pelo conceito do déficit em uma ampla

teoria do desenvolvimento estrutural. A psicanálise na sua forma clássica falha em lidar com a ampla gama das patologias estruturais encontradas na prática clínica. Um espectro ampliado da técnica analítica é necessário para isso. Esse terceiro ponto de vista parece ser, se não colocado abertamente, pelo menos implicitamente por vários teóricos contemporâneos (Gedo, 1981;

Robbins, 1983; Töhkä, 1984). Este também é o ponto de vista do presente autor (Killingmo, 1985).

O terceiro ponto de vista implica em que a estrutura da personalidade deve ser avaliada

por inteiro em cada caso individual. O analista poderá derivar sua estratégia terapêutica do entendimento de uma única caracterização estrutural do paciente e formular e aplicar suas intervenções de modo que elas abranjam a estrutura como um todo. Para executar tal tarefa de forma consistente, o analista* necessitaria um teoria que permitisse uma detalhada descrição das desigualdades estruturais, isto é, variando as constelações de detenção (paradas) do desenvolvimento e de conflito com sua organização segura e estruturação hierárquica. Equipado com tal instrumento para o entendimento de dados clínicos, o analista estaria em posição de ampliar suas intervenções mais exatamente ao estado do ego em um determinado

momento da terapia. Talvez esse seja um estado ideal, uma situação que jamais alcançaremos. Por outro lado, será sempre possível refinar a avaliação estrutural e as intervenções terapêuticas, bem como nosso entendimento do relacionamento entre os dois. O propósito do presente trabalho é duplo.

O primeiro é discutir como a distinção conceitual entre déficit e conflito pode contribuir para

um entendimento mais aprimorado e para o manejo terapêutico de variedades de padrões estruturais, isto é, variações de um paciente para outro ou num mesmo paciente de uma área para outra de sua personalidade. O segundo objetivo é discutir como esse espectro ampliado do entendimento da psicopatologia irá afetar a abordagem psicanalítica standard. Dentro destas perspectivas os seguintes problemas serão discutidos mais especificamente:

1. Que diferenças na estratégia terapêutica trará a distinção entre conflito e déficit?

2. Como é afetada a transferencia pelo conflito e pelo déficit, respectivamente?

3. Como se apresentam os derivados do déficit no material clínico?

4. O conceito de déficit por interferência envolve modificações da atitude analítica?

DUAS ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS

Conforme mencionado acima, o conceito de conflito intersistêmico pressupõe algum grau de diferenciação entre os sistemas do id, ego, superego. Além disso, uma diferenciação deve ter acontecido dentro do próprio ego. Isso inclui certas habilidades de representação como:

1. relacionamento entre causa e efeito a ela circunscrito;

2. o self como desencadeador de pensamentos e ações;

3. o self como separado de outros objetos e acontecimentos.

Dadas estas bases estruturais nós podemos imaginar uma criança sendo capaz de experimentar que certo acontecimento mau ocorre por alguma razão e que ela própria tem algo a ver com isso, simultaneamente sabendo que não era totalmente responsável pelo fato (Myerson, 1981). O ego desenvolveu até um nível onde é capaz de experenciar e representar a intencionalidade primária. Isto é, a representação do self tendo sido constituída como um centro responsivo dos sentimentos, ações e impulsos próprios da criança. Essa criança, estando capacitada, mesmo de forma rudimentar, a conceber-se como agente de sua própria vida, também terá capacidade de temer suas próprias más intenções. Consequentemente, o ego instituirá significados de decepção consigo próprio, principalmente “repressão”, para evitar descobrir porque sente o quê. Podemos

então conceitualizar a essência da patologia baseada no conflito como a do significado oculto.

A principal diferença entre conflito e déficit pode ser formulada em termos de significado

das intenções. Assim, o déficit se referirá à patologia onde a intencionalidade primária estiver faltando. Devido tanto a uma estimulação excessiva quanto inadequada ou deprivação, o ego foi lesado numa época (fase) em que a capacidade de representar causa e efeito e a capacidade de

* Nota: Neste trabalho o termo analista é usado mesmo se as intervenções técnicas utilizadas caiam fora daquilo que é comumente considerado psicanálise standard.

sentir o self como centro estratégico não se desenvolveram ainda. O resultado dessa falta de diferenciação do ego é um estado de confusão e sentimentos amorfos de vergonha e culpa. Portanto, a patologia baseada no déficit não é uma questão de defender-se contra ansiedades relacionadas a intenções negativas, isto é, necessidades proibidas dirigidas ao objeto, como é o caso na patologia por conflito. No caso da patologia por déficit existem ansiedades primárias de fragmentação, isto é, de perder os próprios sentimentos de identidade. Que implicações acarreta essa diferenciação entre conflito e déficit para a estratégia terapêutica e o tipo de intervenção? Como se viu anteriormente, na patologia do conflito, a tarefa do analista é assistir o ego na arriscada aventura da confrontação de impulsos e afetos arcaicos em direção às representações internalizadas de objeto que são projetadas no analista. Tal empreendimento pressupõe uma aliança entre analista e paciente para uma descoberta, isto é, a procura de um significado oculto. No que concerne à patologia do déficit, a conduta terapêutica não é primariamente de revelar significados reprimidos, mas antes de assistir o ego experenciar significados em si mesmo. Não se trata de descobrir alguma coisa, mas de sentir que alguma coisa tem qualidade de existir ( ser).

Quando trabalha dentro do domínio de material baseado em conflito, o analista espera que o paciente seja seu aliado em investigar tanto o conflito quanto a resistência contra a conduta investigatória em si. A perspectiva terapêutica será primariamente topográfica e as intervenções de natureza interpretativa de acordo com a fórmula: “o que você está desejando e ao mesmo tempo lhe

Mesmo se sentindo

amedronta e o faz sentir culpa e por isto tem resistido em fazer é

desconfortável o paciente estará apto a aceitar o convite de procurar os significados latentes

numa atitude básica de cooperação como o analista. Já ao trabalhar com os derivativos de déficit, o analista não pode esperar que o paciente

experencie seu convite para investigar como um ato de ajuda benevolente. É mais provável que seja interpretado em termos de crítica, provocação ou ataque. Isto enfraquecerá a aliança de trabalho e ameaçará a continuidade da terapia. Então, no que concerne ao material baseado em déficit, a perspectiva terapêutica não é primariamente topográfica, mas de:

”.

1. correção e separação de representações de self objeto distorcidas ou difusas

2. produzir estruturação de aspectos de relações de objeto, que não foram bem concluídas

no desenvolvimento prévio. Com esses propósitos as intervenções do analista não devem ser de

natureza interpretativa, mas sim afirmativa. Quais são as características de uma intervenção afirmativa? Os quatro elementos listados por Cissna e Sieberg parecem estabelecer a essência psicológica do conceito:

1. o elemento da existência

2. o elemento de relação

3. o elemento de importância (mérito-valor)

4. o elemento de valide de experiência.

Uma intervenção afirmativa não inclui sempre todos os elementos, mas pode enfatizar algum. Algumas vezes a validade da experiência será a qualidade experiencial urgente a ser confirmada. Uma intervenção pertinente seria a seguinte: “o que você está sentindo faz um bom sentido. Nesta situação você não teve escolha. O melhor que você podia foi exatamente o que você fez”. A qualidade afirmativa pode ser formulada em intervenções de complexidade lógica e contextual diferentes, variando de colocações simples como :”o que você viu deve ser muito confuso para você”, até reconstruções mais compreensivas dirigidas com o objetivo de desfazer falsas conexões tanto emocionais quanto cognitivas. Várias denominações têm sido usadas referindo-se a outras intervenções que não as tradicionais. Ornstein e Ornstein falam de interpretação reconstrutiva empática, Tähkä (1984) de explicação empática, enquanto outros parecem usar o termo “reconstrução” para a outra ampla categoria de intervenções próximas à interpretação (Sandler, 1984). Eu sugeriria que todos estes termos fossem reunidos sob o título de intervenções “afirmativas”. Na minha opinião, essa categoria deveria incluir termos como continente (Bion, 1962) e holding (Modell, 1976; Winnicott, 1965). Mesmo que tais termos tenham outros aspectos e

mesmo que se refiram a aspectos mais implícitos do comportamento do analista, eles contribuem

para estabelecer uma vivência de significado. Certamente a qualidade afirmativa não depende das palavras. Ela pode ser transmitida ao não se dizer nada de maneira certa. Concluindo, a princípio, podemos distinguir entre dois tipos de estratégia terapêutica:

1. revelando significados

2. estabelecendo significados; o primeiro sendo primariamente relevante no contexto do

conflito e o segundo no contexto do déficit estrutural. Para o propósito de revelação de significados o tipo importante de intervenção é a interpretação; enquanto estabelecer significados

é alcançado por intervenções do tipo afirmativa.

DOIS PADRÕES DE TRANSFERÊNCIA

Seguindo o raciocínio apresentado acima, torna-se uma importante tarefa para o analista decidir quando o material que obtém é primariamente baseado sobre conflito ou sobre déficit. Ao tomar essa decisão, aspectos qualitativos de transferencia podem servir de guia. Dentro da tradição kohutiana, deve ser feita uma distinção entre transferencia objetal e transferencia de self-objeto (Ornstein e Ornstein, 1980). A grosso modo, a primeira se refere à transferencia que se deriva do conflito, enquanto a outra se refere aos derivativos do déficit. Entretanto, para o presente propósito, a utilidade do conceito de transferencia de self-objeto pode ser questionada. Referindo-me somente aos três padrões de transferencia narcísicos, “idealizadores” e “especulares” e tipo gemelar (Kohut, 1984), o conceito parece muito restrito para englobar todos os tipos de transferência das relações de objetos distorcidas conectados com a patologia do déficit, como por exemplo transferencia simbiótica (Hedges, 1983). Além disso, não apenas o conteúdo da transferencia é de interesse clínico, mas também aspectos formais como coerência, diferenciação, rigidez e estabilidade da transferência são altamente relevantes. Esses aspectos, que contém informações sobre o nível da organização estrutural, não estão sublinhados nos termos kohutianos. Outra objeção é que o conceito de transferencia de self-objeto como conceituado por Kohut dá a noção do analista somente como instrumento de construção de estrutura. Negligenciando sua posição como objeto também para ações relacionadas a impulsos e afetos (Curtis, 1983). Finalmente, o analista não serve apenas como meio ambiente para o nascimento de uma coerente representação do self, ele também é modelo para uma ampla variação de funções do ego. Assim, nós necessitamos mais conceitos e no que segue eu usarei os termos transferencia de conflito e transferencia de déficit, respectivamente*. Qual a diferença entre transferencia de conflito e de déficit? Corresponde ao elaborado nível de diferenciação estrutural envolvido no conflito, a transferencia aí originada será também de uma natureza diferenciada. No conflito nós lidamos com impulsos e afetos dirigidos a representações internalizadas de objetos emocionais precoces importantes da história da vida da pessoa. Essas representações e as várias necessidades ligadas a elas são inconscientemente projetadas no analista com a expectativa que ele os gratifique. Formalmente, eles constituem representações de objetos interiores separados e específicos embebidas em complexos padrões de relações objetais. Além disso, são estruturas sob o impacto do principio da realidade, assim que não perturbarão severamente a aliança terapêutica ou lancem sombras sobre o aspecto de realidade da situação terapêutica. Através dos aspectos internalizados do objeto transformados em estruturas permanentes impessoais, fazem com que o indivíduo obtenha relativa independência da presença direta ou gratificação do objeto. Assim, a dependência compulsiva da aprovação do objeto vai diminuindo tanto quanto as funções afirmativas do objeto são estruturadas. Se a internalização das representações de objeto e função objetal não se complementarem, o indivíduo permanecerá prevalentemente em uma relação de objeto pré- estrutral. Isso é a essência da transferencia que se origina do déficit. Diferentemente da transferência de conflito, transferência de déficit não é carregada com conteúdos representacionais específicos. É antes um problema de externalização direta ou repetição de

*Nota: Essa distinção corresponde à de Tähkä, entre a transferência estrutural e pré-estrutural

(1984).

estruturas distorcidas ou subdesenvolvidas.

Em princípio, a transferência de conflito refere-se à repetição de necessidades diretamente

em relação a representações de objeto, enquanto transferência de déficit refere-se à repetição de

necessidades em relação a objetos que não foram internalizados. Clinicamente, entretanto, estruturações deficientes diferem em grau e extensão. Assim, a pessoa permanece numa relação pré-estrutural com certas funções ou aspectos do objeto, enquanto outros foram “suportados” numa base estrutural.

Do ponto de vista terapêutico podemos dizer que o paciente em transferência de déficit é

uma pessoa com necessidades de um objeto capaz de provar as condições próprias para a correção de representações distorcidas de objeto e de internalização de funções de objeto. Isso é

pré-condição para que uma posterior diferenciação estrutural possa ocorrer. A discussão acima pode deixar a impressão de que transferencia de conflito e transferencia de déficit são fenômenos psicológicos diferentes. Entretanto, a diferença é mais a

nível conceitual que a nível de observação clínica. Por definição, transferência de déficit refere-se

a uma orientação emocional sem conteúdo dirigido especificamente a objeto. Ainda na prática

clínica isso não surgirá assim. Como a transferência de conflito, a de déficit será carregada com significado que é projetada no objeto. A razão para isso é que na vida psíquica um processo organizador está sempre acontecendo (Killingmo, 1985). Através deste processo, defeitos estruturais originários em traumas precoces serão organizados dentro de futuras estruturas de origem conflituosa e isto adquire significado em

contextos continuamente cambiantes. No adulto o processo organizador transcorreu por longo tempo combinando derivativos de déficit e conflito nos complexos padrões de caráter – devido a isso é quase impossível distinguir claramente um do outro.

O que eu chamarei intencionalmente secundária pode servir como exemplo. A

intencionalidade primária foi introduzida anteriormente referindo-se a uma habilidade rudimentar

do ego da criança de experimentar a representação do self como responsável por necessidades e sentimentos. Esta estruturação diferencial é supostamente a pré-condição para o desenvolvimento

de patologia a nível de conflito. Entretanto, patologia que se origina a nível de déficit pode também apresentar a qualidade da intencionalidade – mas aqui como um fenômeno secundário. Inicialmente a criança não tem participação intencional no trauma, mas como um ato de uma organização mais tardia ela pode transferir intenções más de outras relações conflituosas ao trauma de maneira a preencher outras experiências confusas ou terroríficas com significado. Depois de tudo, isto pode tornar o mundo mais tolerável para o pequeno menino que a mãe abandonou por ser ele mau, do que encarar o fato de que ela simplesmente o abandonou. Além disso essa realidade tão clara provavelmente traria a tona uma raiva de natureza tão danosa que

é mais seguro colocar a culpa em si mesmo. Podemos então falar de dois tipos de sentimento de culpa:

1. um baseado nas más intenções que são inicialmente percebidas como pertencentes a si

mesmo,

2. o outro baseado em intenções más que são impostas ao self mais tarde para eliminar

confusões. As duas tem fontes diferentes, mas a nível clínico elas podem surgir lindamente semelhantes e ter efeitos dinâmicos comparáveis. Somente através de sutis aspectos da transferencia é que a diferença na origem pode ser traçada. Dependendo de como o processo organizador procede, diferentes combinações de conflito

e déficit podem surgir. A intencionalidade secundária demonstra como o déficit adquiriu significado sendo interpretado em termos de conflito. Derivativos do déficit podem também criar ou iniciar conflitos como quando a agressão é estruturalmente tão indiferenciada (não neutralizada) para formar um compromisso com as restrições parentais normais ou quando privações anteriores deixaram para trás uma fome por objetos de tal intensidade que não será capaz de encontrar gratificações em relações amorosas com mutualidade.

De uma forma geral, o déficit estrutural terá a tendência a intensificar conflitos normais do

desenvolvimento. A ansiedade de castração do conflito edípico pode adquirir dimensões desastrosas ou a falha total de um self previamente fragmentado e adicionado ao quadro. Tanto derivativos do conflito dinâmico quanto derivativos de defeitos estruturais são organizados em padrões complexos, eles não poderiam ser vistos como aspectos diferentes de

um fenômeno uniforme. Esse ponto de vista pode alinhar-se com Wallerstein: “Em lugar do fluxo corrente do material clínico analítico nós andamos em geral no mundo dos ‘ambos/e’. Nós lidamos constantemente e em turnos com o complexo de édipo onde existe um self coerente e o pré- edípico onde pode não haver self coerente; com regressões defensivas e com as paradas do desenvolvimento; com transferencias defensivas e com a reconstituição de traumas precoces e estados traumatizados” (1983, p.564). Seguindo esse modo de pensar, a aguda diferença entre transferencia de conflito e de déficit deveria ser cancelada também. Ao serem aplicadas em situações clínicas parece mais relevante visualizá-las como expressando qualidades diferentes de transferencia do que formas diferentes de transferência.

IMPLICAÇÕES CLÍNICAS

As implicações terapêuticas da distinção entre déficit e conflito fazem do ouvir do analista o mais importante. Além disso, para selecionar o material clinico na linha de buscar significado inconsciente, o terapeuta deve deixar constantemente passar o material por um processo de avaliação do grau de diferenciação estrutural que ele reflete. Certamente este não é um processo decidido conscientemente. Para o clínico experiente, é uma maneira altamente automática de perceber que faz parte da atenção flutuante. Entretanto, mesmo um clínico experiente pode facilmente perder pontos sutis de derivação de déficit. Aparentemente o material pode parecer originário de conflito levando o analista a intervir em um nível que é muito alto se considerarmos o nível do centro no qual o material está organizado. Ao agir assim, o analista não permanece útil ao paciente que não poderá usufruir destas intervenções. Como já foi colocado, a distinção entre transferencia de conflito e de déficit pode ser útil como instrumento conceitual para avaliar o material disponível. A questão permanece: como estão os derivativos do déficit refletidos no nível clínico, que sinais clínicos o terapeuta deve considerar. Segue-se uma seqüência curta de um diálogo terapêutico. O propósito desta ilustração clínica é iluminar o problema de adequar a intervenção terapêutica ao nível estrutural do paciente e de demonstrar algumas características de transferencia por déficit. A paciente, uma mulher de 28 anos, veio a tratamento devido a um sentimento crônico de vazio e falta de alegria. Funciona de uma forma muito competente em sua profissão como enfermeira. Entretanto, não tem relações íntimas com homens e mesmo que tenha muitas amigas, nenhuma delas é emocionalmente próxima e ela tem um sentimento constante de solidão. Ela é a mais velha de cinco crianças e desde cedo esperou dela que cuidasse de seus irmãos menores, sem que isso lhe trouxesse nenhum crédito ou privilégio como retorno. A mãe foi muito egocêntrica a não confiável, tendo pouco afeto por seus filhos, ao mesmo tempo que impunha uma rígida disciplina. A paciente nunca teve certeza de contar com a aprovação materna. Tão logo a mãe se sentisse insatisfeita com seus filhos, especialmente com esta filha, que era a mais velha e se supunha que deveria cuidar-se de si mesma, ela podia repentinamente sair de casa. Deixava as crianças numa expectativa ansiosa por seu retorno, sem saber se e quando isto aconteceria. A paciente esteve em psicoterapia de orientação psicanalítica por três anos. O que transcrevemos aqui é material de uma fase da terapia, onde se deu um ponto de estagnação. Sessão por sessão, a paciente insistia repetidamente que o analista devia lhe dizer o que ele estava pensando sobre ela quando ele estava silencioso. Em numerosas ocasiões e de diferentes formas, o analista comentou a insistência de seu pedido e a encorajava a achar quais as necessidades que estariam expressas por esta atitude. Esses comentários, entretanto, eram regularmente experimentados pela paciente como rejeição, o que por sua vez resultava em maiores solicitações. A seqüência escolhida para ilustração se

segue: 1.

A: O meu convite é que juntos examinemos o que está acontecendo dentro de você nessa situação. Parece que esta perspectiva (de examinar) está perdida.

2. P: Sim, e está. Eu sinto apenas que você a captou para mim.

3. A: É proveitoso que isto surja, não é? Antes de tudo isso demonstra quão insegura você está comigo, como se sente pressionada, tanto que a perspectiva que tínhamos de trabalho se perdeu. Imagino que o mesmo ocorra fora do tratamento também.

4.

P: Sim, mas fora eu não me importo. Aqui tudo é diferente. Aqui tudo está pressionado ao limite.

5. A: Sim, e isso não é útil? Isso nos dá a oportunidade de trabalhar isso aqui.

6. P: Sim, mas me torna muito insegura.

7. A: Você não acha que é produtivo deixar isso surgir e trabalharmos este sentimento?

8. P: É, mas ao mesmo tempo isso me dá uma desvantagem.

9. A: Desvantagem?

10. P: É, você está pensando: ”Oh! Meu Deus! Todo esse tempo que ela tem vindo aqui e ainda mostra (que isso) é tudo que ela pôde conseguir”.

11. A: Vocês ainda não está segura de que posso aceitá-la.

12. P: E o fato de você usar a palavra “convite”. Você andou usando isso na última consulta também – que “eu estou convidando você” para alguma coisa. Em primeiro lugar eu não entendo o que é um convite – você vê? Eu não vejo isso como um convite. Para mim isso é uma provocação e um ataque – porque você entendeu de uma maneira totalmente diferente – xeque mate!

13. A: Sim, eu entendo. Isso é como você me sentiu.

Anotações*:

No. 1) Ao usar a palavra convite, A pressupõe que P está motivada para descobrir algo. Ele também supõe que P tinha tanto a capacidade quanto o desejo de suportar desprazer com a

finalidade de alcançar um objetivo maior postergado. Isso implica funcionamento de ego num nível de organização bem complexo. No. 2) As respostas de P não refletem aliança terapêutica, indicando que o ego não está funcionando no nível esperado. Assim, o que é proposto como um acordo na suposição de A, é experimentado por P como um ato malicioso. Esse é um exemplo claro de confusão estrutural. No. 3) Entretanto, A não percebe não estar mais emocionalmente disponível para P. Ao

contrário,

* Somente aspectos do material relevantes ao conflito/déficit serão comentados. Problemas de

resistência e contratransferência que também aparecem no material, serão rejeitados. introduzindo a palavra “proveitoso” A espera que P adote uma atitude instrumental requerendo funções de ego no mesmo nível ou até em um nível superior. Assim, aumenta a pressão e A torna-se emocionalmente distante de P. No. 4) P responde abertamente o quanto o relacionamento com A é matéria de vital importância. Nada mais importa, é como se P tocasse o alarme. No. 5) Ainda assim o sinal não é recebido por A . Ao insistir na atitude instrumental (ver No. 3), ele se exime de compreender um grito subjacente desesperado de P: “se você me abandona tudo está perdido”. No. 6) P não se resignou. Ela ainda tenta romper através de sua mensagem: ”Você não deve me abandonar”. Entretanto, a palavra mas indica que o desespero alcançou um sabor mais agressivo. Eventualmente isso pode ameaçar a última aliança terapêutica. No. 7) Em réplica, A também adota a palavra mas. Isso intermedia um atitude argumentativa que adiciona um elemento agressivo e gerador de culpa à situação. Certamente a relação entre A e P não é mais de cooperação, mas de confrontação. No. 8) Na sua réplica, P escolhe um termo especial: “desvantagem”. De início isso soa

impreciso. Dinamicamente, entretanto, esta falta de precisão pode ser um ponto de importância. É que isso serve como cobertura para um risco mais sério – possivelmente o de suicídio – mesmo que isso seja inconsciente em P*. No. 9) Obviamente, a metocomunicação intermediada pela palavra “desvantagem” deixou

A

confuso e fez com que ele mudasse o nível de intervenção. Ele agora abstém-se de pressionar

P

a colaborar primeiro e se restringe a colocar uma simples questão. No. 10) Em resposta, P expressa abertamente seu medo de ser abandonada por A . No. 11) Mesmo que a palavra ainda possa comunicar uma certa reaproximação de A, a

mensagem de P parece ter atravessado. A agora satisfaz a aguda necessidade de P de ter seus sentimentos imediatos confirmados. Isso é forçado por A simplesmente colocando como P está experimentando a situação. Por aí ele conduz um entendimento e aceitação daquilo que pode estar se passando com P.

No. 12) A passagem mais prolixa que segue, mostra como o tom afirmativo da intervenção de A diminui a tensão de P. Ela agora é capaz de tomar alguma distância de suas necessidades e isso dá uma forma mais coerente ao modo como experencia seu relacionamento com A . Isso seria uma demonstração de como uma afirmação melhora o funcionamento do ego. No. 13) A está agora plenamente consciente da confusão estrutural. De acordo com isso ele mudou sua intervenção de reveladora de significados para intervenção tipo constituição de significado. Ele está novamente disponível emocionalmente para P. Nesse exemplo, nós testemunhamos um analista intervindo a um nível muito alto para a atual capacidade estrutural da paciente. O analista pressupõe a paciente como aliada numa atitude compartilhada de “encontrar algo”. Ele não captou que o material na verdade derivava de déficit e não de conflito. A paciente não teria assim como encontrar alguma coisa. Essa atitude não tinha realidade psíquica para ela. Sua motivação funcionava a um nível mais indiferenciado. Ela estava necessitando experimentar uma qualidade de “ser”. Essa necessidade constitui o centro emocional do momento. Nós podemos descrever o relacionamento entre P e A por uma metáfora: P está batendo na entrada da casa de A, enquanto A abre a janela do segundo andar. Assim ele não deixa a paciente entrar. O convite para procurar significados implica em uma atitude de contínuos esforços mentais dirigidos a um objetivo. Entretanto, para uma pessoa na linha de déficit, tal atitude não tem atrativo. Não é experimentada como uma aventura excitante, estimulante ou mesmo perigosa. Basicamente é experimentada como uma poderosa aflição que se é compelido a carregar ou um serviço supérfluo que se tem de pagar enquanto se espera desesperadamente pela coisa real que está por vir. Em termos metafóricos, a pessoa do déficit está sempre esperando Codot. Ao mesmo tempo, devemos enfatizar quando se fala em paciente do déficit que isso não se refere à personalidade como um todo, somente àquela parte da apresentação psicológica que deriva do déficit. Nem mesmo a nível hipotético seria razoável conceber um indivíduo totalmente sem conflito. Chegamos agora à terceira questão colocada na introdução deste trabalho. Que sinais permitem ao analista decidir quando o material clínico em mãos é baseado primariamente no déficit ou no conflito? Na discussão precedente foi afirmado que a qualidade da transferência pode ser de ajuda para a identificação do nível estrutural envolvido. Falando nestes termos, podemos dizer que A, na ilustração anterior, perdeu certas dicas que poderiam dizer a ela que estava frente não a uma transferência de conflito mas de déficit. Voltando ao diálogo, que dicas importantes podem ser extraídas da maneira que a paciente fala ao analista? Primeiro existe uma qualidade de persistência monótona nas demandas da paciente. Ela não varia o tema nem faz delicadas distinções emocionalmente ou cognitivamente. É como tocar uma melodia simples num instrumento de poucas cordas. Provavelmente isto é uma reflexão de uma qualidade profunda de setores predominantemente sem objeto da vida mental originários no déficit. A variedade de afetos e o colorido das fantasias que acompanham o pleno desenvolvimento orientado para o objeto está faltando. Segundo, existe uma qualidade especial de falta de direção no estilo e escolha de palavras. É a fraqueza da pessoa que nada tem a esconder e por isso de forma obstinada pressiona seu ponto de vista sem arriscar a aflição da evidência voltar-se contra ela mesma. Essa atitude é semelhante à reflexão da ausência da intencionalidade primária na patologia do déficit. Ela

* Isso se refere não somente ao material aqui apresentado, mas é baseado em material prévio. tem sua origem no sentimento básico de ser injustamente tratado, não por objetos específicos numa relação mútua de amor e ódio – mas pelo impacto impessoal da realidade. Em terceiro, o colorido emocional é uma oscilação entre esperança desesperada e resignação, não deixando espaço para uma posição moderada intermediária. Tanto a habilidade por si mesma e a qualidade extremada dos objetos sugerem que se trata de assunto de vital importância. Provavelmente o que vemos é o reflexo de uma subjacente antecipação de catástrofe conectada com fragmentos da estrutura do self.

Finalmente, poderemos observar que o paciente usa palavras como insegurança e ataque

ao descrever seu relacionamento com o analista, palavras que colocam a pessoa mais como vitima de um assalto do que como participante de um diálogo.

O paciente do conflito também pode descrever o relacionamento com o seu analista em

termos negativos, mas ao mesmo tempo aqui existe uma qualidade de responsabilidade

compartilhada. Inconscientemente, o paciente do conflito sabe que ele próprio contribui para o enredo colocando reivindicações que são primariamente suas próprias. Por isso, em criticismo crescente, ele vai tomar medidas tais que sua própria contribuição não é ativada ou revelada. Assim, ele vai exercer controle sutil deslocado por indiretas, diplomacia, vagueidade e deslealdade no seu relato ao analista.

O paciente do déficit, entretanto, não sentindo essas necessidades, pode sem aviso prévio

tomar a posição de vítima. Supondo que A, na ilustração anterior, tivesse entendido a dica mais cedo, o que teria sido uma intervenção mais apropriada? O ponto ótimo parece ter sido após o No. 2. Obviamente aqui P não está se sentindo apenas rejeitada, mas também profundamente insegura e está também em uma necessidade quase desesperada de confirmação de seus sentimentos. Ao mesmo tempo, a agressão não foi completamente mobilizada. Uma intervenção possível poderia ser: “Sim, você tem boas razões para sentir-se insegura quando eu não lhe respondo. É bem assim que se sentia quando sua mãe não lhe respondia quando você era pequena e necessitava desesperadamente saber o que ela na verdade pensava sobre você. Agora você me sente como a ela e pensa que

vou abandoná-la”. Lógico que não poderemos estar certos de que esta intervenção, construída retrospectivamente, teria sido ótima. Talvez devesse ser verbalizada em maior acordo com a “dialética emocional” da paciente para que funcionasse clinicamente. Este tipo de intervenção mostra alguns aspectos relevantes da afirmação:

1. Objetivando. Ao transmitir uma qualidade experimental como “eu posso sentir o que é,

como você sente”, A contribuiu para tornar o estado do sentimento de P menos privado. Esse sentimento se torna algo que tem forma, pode ser compartilhado com outra pessoa e

eventualmente colocado em palavras.

2. Justificando. Ao introduzir uma relação de causa e efeito, o estado do sentimento é

entendido num contexto de eventos naturais razoáveis. Por isso, tanto a confusão e os limites da

culpa secundária diminuirão.

3. Aceitando. Incluindo o contexto histórico, A dá o termo para o seu entendimento. Isso

trará a P uma impressão mais segura de uma pessoa que realmente entende. Ao endereçar seu entendimento ao nível infantil, A também facilita para P a aceitação do analista a ela, apesar da culpa e decepção que por outro lado podem atingir sua auto-imagem presente. Os objetivos das afirmações afirmativas como exemplificado são:

1. Restaurar a disponibilidade do analista.

2. Criar um estado emocional ótimo para que as falhas empáticas do analista possam

funcionar como motivação para internalização 3. Reduzir a dependência compulsiva da aprovação do analista. Se espera que isso recoloque a demanda do paciente em uma posição de examinar as demandas em si. Isto é, por ter a necessidade imediata de significado resolvida o ego estará apto a melhorar seu nível de funcionamento e a adotar uma atitude investigatória – pelo menos por algum tempo. A ênfase na patologia do déficit em anos recentes pode ter levado a um uso exagerado de técnicas afirmativas às expensas da interpretação da intencionalidade ativa. Exagerando o aspecto afirmativo, a complexidade estrutural pode ser facilmente subestimada. Em primeiro lugar, como já foi sublinhado, na personalidade dos adultos, derivativos de déficit e conflito, respectivamente, são indissoluvelmente organizados juntos nos complexos padrões do caráter. Em segundo lugar, mesmo que um padrão de caráter patológico seja baseado primariamente não no conflito mas no trauma estrutural causado pelo ambiente, é a interpretação da pessoa àquele trauma que objetivamos na terapia. A realidade psíquica do acontecimento é construção própria do paciente. Assim, mesmo quando o componente do déficit domina apresentação psicopatológica e de acordo com isso uma qualidade afirmativa deve ser construída na maioria das intervenções, isso não será suficiente. Também intervenções analíticas serão necessárias para desvendar resistências e explorar as fantasias em termos de como o paciente interpretou a realidade. Como foi colocado por Longs: reconhecendo as realidades dos traumas precoces (Khan, 1963) sofridos por estes pacientes, não devemos subestimar suas fantasias e

componentes distorcidos do trabalho subsequente e da reinterpretação destas experiências precoces, nas quais fantasias inconscientes e introjeção exercem uma função importante. Terceiro, a privação infantil não permanecerá como uma condição não complicada de falta esperando por um “refil” (preenchimento). Desapontamento, raiva e vingança levarão a mudanças nas próprias necessidades. Elas se estruturarão como necessidades ambivalentes caracterizadas pela pessoa, sendo ao mesmo tempo tanto desejosa como não desejosa daquilo que lhe é oferecido.

A propriedade do desenvolvimento mencionada acima representa resistências estruturais

que impedem o acesso direto de déficit original. A única maneira de modificar o estado infantil, seja ele baseado no déficit ou no conflito: é através da análise das transformações estruturais dos

trauma originais. Ao lado dessas resistências originais existem existências dinâmicas também. No caso ilustrado acima, um desesperado pedido por reconhecimento do analista originado de uma falha empática da mão foi proeminente. Entretanto, existe mais do que isso neste estado de deprivação e pedido de preenchimento.

A qualidade insistente da solicitação da paciente também tem um elemento agressivo de

demonstração da incapacidade do analista de ajudá-la. Inconscientemente ele é identificado com

a mãe da paciente. Levando a terapia ao fracasso, a paciente pode triunfalmente vingar-se da

mãe. Poderia ter sido um fracasso se esta resistência agressiva não tivesse sido demonstrada e interpretada a ela. As implicações clínicas da discussão podem ser resumidas através da ilustração acima. Passando pela “lente conceitual” da transferência de conflito/déficit, o material clínico se divide em duas direções. Quando o material aponta principalmente para a direção do conflito, a estratégia será a de revelar significados através de intervenções de tipo interpretativo. Quando o material apontar para a direção do déficit, a estratégia será a de estabelecer significados através de intervenções de tipo afirmativo. Em cada paciente nós podemos falar de “Lurning point”, ponto de vista estrutural. Isto é onde a transferência de conflito se vai e a transferência de déficit toma lugar. Passado esse ponto,

a atitude investigatória não mais acompanha o nível estrutural do paciente e o analista precisa

mudar a estratégia. Caso contrário, sua intervenção parecerá atuar como um ataque contra a representação do self do paciente. Isto é amplamente ilustrado no exemplo clínico anterior. A última colocação de P (no. 12) demonstra em palavras simples que a adoção de uma atitude investigatória, que pode ser percebida por outros pacientes como um convite, é percebida por P como um ataque. P está funcionando abaixo do ponto de virada estrutural assim falando. Poderia também ser lembrado que a qualidade de transferência pode estar próxima do ponto de virada estrutural e assim estar apto a mudar rapidamente. De acordo com isso o analista deveria estar em um estado constante de receptividade para a oscilação entre as duas posições estratégicas. Freqüentemente, um “aglomerado” emocional deve ser inicialmente interpretado na base conflitual. A seguir, elementos deste mesmo “aglomerado” têm que ser respondido de forma afirmativa até, por fim, o padrão como um todo é novamente interpretado como expressão de conflito. Essa oscilação na estratégia reflete a profunda interação e estruturação hierárquica de material derivado de conflito e déficit, respectivamente. A necessidade de oscilação na estratégia terapêutica descrita acima é fundamentada na elaboração teórica de dados relativamente recentes. Como foram manejados esses problemas antes de se dispor nova distinção conceitual? Existem boas razões para supor que muitas análises foram conduzidas a nível estrutural sem contato com o nível onde as emoções centrais do paciente tinham se organizado. As duas análises de Mr. Z (Kohut, 1979) colocam este problema. Indo estruturalmente muito alto, afetos baseados no déficit não terão sido captados pelo processo analítico. Ao contrário, eles permanecem intocados e, mais ainda, isolados, constituindo uma corrente subterrânea de desapontamento e infelicidade crônica. Em parte isso se deve a uma aderência rígida do analista ao conceito clássico como único princípio da patologia. Por outro lado, temos razões para crer que análises foram concluídas com sucesso mesmo quando houveram óbvios elementos de déficit na apresentação psicológica dos pacientes. A razão para isso é que bons terapeutas, sejam eles analistas clássicos ou psicoterapeutas, sempre adaptaram sua técnica sensitivamente à mistura específica déficit/conflito do paciente individual, mesmo se isso não foi articulado teoricamente ou mesmo conscientemente realizado.

Uma última questão permanece: a extensão do entendimento patológico e da técnica terapêutica mencionada acima levará ao abandono ou à modificação da tradicional atitude analítica? Assim como o analista muda sua estratégia, também terá de mudar sua atitude tradicional em relação ao paciente. O paciente necessitará, quando o material baseado no déficit é ativado, suporte emocional além dos aspectos do holding em geral incluídos na atitude analítica? (Modell, 1976). Terá o analista que adotar uma maneira mais “quente”, “próxima”, mais “empática” de se relacionar com o paciente? Por que é relevante levantar estas questões? A discussão que se segue e a revisão da teoria clássica podem levar a certas dúvidas sobre precisão de conceitos quanto à atitude analítica. Especialmente as últimas formulações teóricas de Kohut (1984), colocando que toda patologia tem que ser conceitualizada em termos de estrutura do self deficiente e que mesmo o adulto maduro é dependente da continuação de resposta empática de objetos do self, dão a impressão de que o analista tem que atuar como um self objeto do paciente. Isto é, o analista assume o papel de provedor de algo que o paciente não teve de bom, ou pelo menos suficientemente bom de seus objetos de self originais, seja amor, aprovação ou empatia. Embora o próprio Kohut pareça ser de opinião que a interpretação é a técnica principal também no que se refere à patologia do déficit, isto é, ao corrigir e reparar estruturas de self deficientes sua visão psicológica geral parece por implicação clarear o caminho para uma orientação de suprir. Obviamente, tal orientação é contrária à técnica analítica tradicional. Para colocar o problema concernente à atitude analítica, tem que se partir do pressuposto que a qualidade da relação terapêutica é decisiva em promover o progresso terapêutico. Um conceito útil nesta conexão parece ser o de disponibilidade emocional. O conceito de disponibilidade do analista foi referido em diversas ocasiões na discussão precedente. Agora ele poderia ser colocado no lugar adequado. Sendo emocionalmente disponível, um sentimento de não ser isolado é mediado pelo paciente. Se presume que essa qualidade experencial é condição fundamental para que qualquer mudança ocorra. Assim, disponibilidade emocional é tão importante quando se trabalha na área de conflito, quanto quando se lida com derivativos de déficit. O analista tem que ser sempre disponível para que a terapia progrida. Entretanto, a qualidade relacional que faz o analista disponível a nível de conflito, não necessariamente o torna disponível quando o paciente está funcionando a nível de déficit, como foi demonstrado na ilustração clínica acima. Por isso, através do ouvir cuidadosa e empaticamente, o analista tem que entender as qualidades específicas das relações de objeto refletidas na transferência a ajustar sua intervenção de acordo. Tomando o principio da disponibilidade emocional como partida, a questão é: O que faz o analista disponível ao nível de déficit? É uma quantidade extra de amor, cuidados e aprovação necessária? Na minha opinião, a resposta não segue a linha do suprir. Tentar tornar-se disponível satisfazendo necessidades do paciente parece repousar na suposição de que é possível obter acesso direto às necessidades infantis no adulto. Por razões que foram mencionadas antes neste mesmo trabalho, esta é uma suposição insustentável. Ela falha ao levar em conta as transformações estruturais complexas que fixaram necessidades infantis e relações de objeto que submergiram durante o desenvolvimento que se sucedeu. Na paciente referida anteriormente, poderiam ter surgido sérias complicações se o analista respondesse a seus pedidos de aprovação oferecendo a ela uma real avaliação positiva. Primeiro, devido a um forte sentimento de culpa, não seria aceitável para ela tal presente. Inconscientemente, o sentimento de culpa aumentaria. Segundo, receber um presente seria muito mais ameaçador para essa mulher devido a que sua inteira identidade está construída sobre o conceito ”aquela que não é reconhecida”. É essa história que a paciente quer que o analista confirme no presente, não o reconhecimento dos objetos do self originais. Assim, dando aprovação em vez de comentar sobre o pânico da paciente por estar numa posição de receber (de carente), o analista na realidade, ficaria mais distante dela. A terapia do “suprir” parece falhar em distinguir claramente entre ser objeto do self e estar em transferencia como objeto do self. A qualidade empática do encontro terapêutico ativa transferências de experiências de objeto de self fixadas no paciente. Entretanto, o analista não responde a isso se dirigindo para uma posição de supridor do self-objeto infantil. O que ele faz é confirmar a necessidade do paciente por, e o direito de ser confirmado. Isto é, ele dá seu entendimento empático de como deve ter sido não ter sido recebido nos seus desejos, por reconhecimento, quando era tão necessário e corretamente esperado,

assim justificando que o paciente sinta o que sente. Confirmando com exatidão o que o paciente está sentindo, o analista refere-se às necessidades mais urgentes do paciente, derivado do déficit, que é a necessidade de sentir que “eu sou” e que “tenho o direito de ser”. Mediante a exata qualidade de experenciação, o analista pode tornar-se emocionalmente disponível e o processo pode prosseguir com o paciente expressando sua perda e seu ódio e explorando em seguida como bloqueou seus sentimentos e se colocou fora do contato íntimo. Ao mesmo tempo, essa maneira de lidar com a transferência do self objeto pode ser conceitualizada como uma representação de self-objeto madura. Assim, o analista atua tanto na transferência do self-objeto e como um novo self-objeto, este último estimulando a construção da estrutura.

A experiência deste self-objeto maduro em contraste com os prévios self-objetos infantis

prepara o terreno para que o paciente cuide da auto regulagem destas funções em vez de depender da falível empatia ótima do analista. Entretanto, se esta internalização transformante difere a princípio da internalização que acontece na análise clássica, fica por ser esclarecido.

Falando de um modo geral nas duas situações, o analista serve de modelo para aprender atitudes mais diferenciadas de ego. Até agora nenhuma mudança na atitude analítica é indicada. Os elementos de objetividade, paciência, estabilidade e tolerância – todos embebidos na atitude analítica – parecem ser mais produtivos no trabalho com derivativos do déficit do que na esfera do conflito. Nenhuma qualidade de participação especial ou extra é necessária. Um fato, porém, característico da atitude analítica, é o focar no encontrar significados (Schafer, 1983). De acordo com o modo de pensar delineado neste trabalho, este foco circunscrito tem pouca ou nenhuma realidade psíquica para os pacientes de déficit. Até onde vai este elemento é necessário modificar a técnica analítica obviamente. Entretanto, isenção do elemento investigatório não é a mesma coisa que menosprezar toda a atitude analítica. A atitude analítica é um meio complexo de relacionamento emocional e cognitivo constituído por vários elementos entre os quais existe também o elemento afirmativo (Schafer, 1983). Assim, tanto o modo investigatório quanto o afirmativo são, em princípio, incluídos na atitude analítica e devem receber prioridade alternativamente. Existe um denominador comum subjacente a ambos modelos, que poderia ser definido como básico na formação dos elementos da atitude analítica? Na minha opinião, tal elemento comum existe e pode ser formulado como princípio: “deixar

o paciente ser”. Isso não deve ser confundido com neutralidade emocional. Ao contrário, ele contém um profundo respeito pelos direitos do paciente em ganhar experiência através das próprias premissas e confiança na usa capacidade de assim proceder se lhe for dada a oportunidade. Essa qualidade de liberdade que nunca deveria ser dispensada da terapia é talvez o melhor suporte que o analista pode dar ao paciente na sua caminhada para a autonomia.

E o conceito de neutralidade analítica? Deve o analista desprezar este velho e famoso

elemento da atitude analítica? Nenhum dos princípios analíticos parece ter sido tão mal entendido

e distorcidamente construído pelos críticos da psicanálise do que o principio da psicanálise

colocado por Freud nas recomendações técnicas (1912). Antes de tudo deveria ser colocado que neutralidade é apenas um aspecto da atitude analítica. Depois, neutralidade não exclui a qualidade humana de simpatia como tom básico permeando todo o projeto da psicanálise. Recentemente, Hoffer (1985) colocou uma visão de neutralidade que parece coincidir bem com a linha de raciocínio do presente trabalho. De acordo com Hoffer, o objetivo principal do analista é identificar, definir e engajar o paciente em relação a seus conflitos conscientes e

inconscientes. Com esse ponto de partida, neutralidade é definida como a posição ótima de onde

o analista pode observar conflitos específicos. Assim, neutralidade não é uma descrição conduta

geral, mas uma maneira de identificar um conflito. De fato, existe uma conexão entre empatia e neutralidade, entendido como um apreciação genuína do analista em relação aos dilemas e conflitos do ponto de vista do seu paciente. Assim, os conceitos de neutralidade e empatia são mutuamente reforçados, não são antitéticos. Hoffer notou que no adulto, o conflito é freqüentemente experimentado em torno de esforços para esconder o déficit ou os sentimentos de necessidade que o paciente associa com ele. No paciente adulto, o déficit estrutural surgirá clinicamente em contextos de conflito e correntemente terá que ser abordado inicialmente pelos meios analíticos. Resumindo: a atitude analítica é uma maneira cognitivo-emocional complexa de relacionar- se, composta de vários elementos, todos convergindo num tom fundamental de simpatia. A posição tomada aqui é a de que uma oscilação entre uma estratégia interpretativa e afirmativa pode ter lugar dentro da atitude analítica forçando alternativamente em partes diferentes de

elementos do grupo de atitudes. Nenhuma alteração na atitude básica parece necessária, nem teórica, nem clínica.

RESUMO Uma das tarefas teóricas mais desafiantes hoje em dia é integrar a psicologia do déficit com o conceito tradicional de conflito. Neste artigo se propõe que esta integração deveria ter lugar dentro de um marco de organização estrutural. Julgando a qualidade de transferência, o analista tem que decidir se um determinado material clínico se deve considerar principalmente como expressão de conflito ou de déficit. Este artigo ilustra o modo como os derivados do déficit surgem no diálogo terapêutico. Quando estes parecem dominar, o analista deve mudar sua estratégia e em lugar de revelar um significado deve constituí-lo, utilizando para isso intervenções do tipo afirmativo. Dado que o nível estrutural flutua em um mesmo paciente de um tempo a outro e de uma área da personalidade para outra, o analista tem que estar em constante estado de receptividade para oscilar entre essas duas posições estratégicas. O autor conclui que mesmo que a psicanálise tenha que estender tanto o seu conceito de psicopatologia como sua estratégia terapêutica, não parece necessário fazer mudanças na atitude analítica básica.