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RELATÓRIO TÉCNICO

TELECENTRO CAMINHOS DO ROSA - CURVELO / MG


DEZEMBRO / JANEIRO / FEVEREIRO / MARÇO
2005 / 2006

INTRODUÇÃO

O Projeto Telecentro Comunitário é um programa de inclusão digital realizado por meio de uma
parceria entre o Banco do Brasil S/A, prefeituras municipais e Ongs, que tem como objetivo promover a
cidadania pela inclusão digital. Em Curvelo, ele é coordenado pelo Centro Popular de Cultura e
Desenvolvimento (CPCD) e tem o apoio da Prefeitura Municipal e do Banco do Brasil.

O Telecentro “Caminhos do Rosa” vai além. Se Guimarães Rosa diz que Curvelo é a capital de sua
Literatura1, o “Caminhos do Rosa” é um espaço para que essa literatura seja acessível a toda a
comunidade, a partir de exposições, rodas de bate-papo, contação de histórias, algibeiras e de um
acervo cultural sobre a vida do autor (obras, fotos, documentários) e o sertão de Minas Gerais.

“Em todos êles, o CURVELO vive, Curvelo se faz presente, como se fôsse bem um de seus centros -
sede, núcleo, pólo de cristalização de sua área de paisagens: "cidade capital" da minha literatura.”
João Guimarães Rosa

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Citado no livro “Joãozito – A infância de João Guimarães Rosa”, de Vicente Guimarães, em uma carta que ele
escreveu em agradecimento a um convite para a Semana da Comunidade em Curvelo.

Telecentro Caminhos do Rosa - Curvelo/MG 1


ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

Todas as atividades têm o objetivo de contribuir para fazer de Curvelo uma “Cidade Rosiana”.
Pensando em ter este objetivo mais próximo, a equipe do CPCD identificou quatro dimensões de
trabalho: Apropriação Cultural, Identidade Sertaneja, Consciência Ambiental Rosiana e Cidadania
Sertaneja.

Dessas dimensões, duas foram escolhidas – Apropriação Cultural e Identidade Sertaneja – para
nortear as atividades que serão desenvolvidas pelo Telecentro “Caminhos do Rosa” junto com o
projeto “Ser Criança” e com a “Cooperativa Dedo de Gente”.

• Prosa na Praça

A partir da dimensão “Identidade Sertaneja”, a equipe do Telecentro teve a idéia de promover uma
roda de conversa com uma “personalidade” – que pode ser escritor, músico, poeta, trovador,
professor, benzedeira, parteira, quitandeira ou outros – com o intuito de estimular nas pessoas a
curiosidade por seu ofício, pela cidade, pela cultura local e, principalmente, fazer com que elas se
identifiquem nas histórias que são contadas.

Uma vez por semana, acontece uma roda com uma “personalidade”, que fala um pouco de sua vida
na cidade, de seu trabalho e de como tudo começou. O encontro acontece na praça em frente ao
Telecentro e toda a comunidade é convidada através da Rádio Comunitária, de cartazes espalhados
em pontos estratégicos da cidade, divulgação nas escolas, convites pessoais, além do boca a boca
entre os freqüentadores do Telecentro.

Já participaram das rodas as seguintes personalidades: Dôra Guimarães (contadora de histórias), Sr.
Hermes Veloso (trovador), Sr. Edson Gandra (poeta), Mestre Belão (Mestre de Capoeira), Conceição
Drumond (escritora), Sr. Alcides e Sr. Zezé (Músicos), Maria de Fátima Coelho e Castro (presidente do
Circuito Guimarães Rosa).

• Algibeiras Culturais

Foi confeccionada uma Algibeira Cultural abordando vários assuntos: Poesias (escritores e poetas da
região), Curiosidades (informações sobre medicina e científicas, encontros realizados etc.), Causos
(muitos dos que escutávamos quando éramos pequenos e que hoje ficaram deixadas de lado, histórias
interessantes etc.), Dicas (saúde, culinária, moda etc.), Entre Aspas (pensamentos escritos por pessoas

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da comunidade ou de alguém já conhecido), Adivinha (charadas, o que é?), Mão na Massa (receitas
feitas por pessoas que gostam de cozinhar, receitas antigas e novas) e Piadas (piadas interessantes e
construtivas).

A finalidade desta algibeira é promover maior integração da comunidade curvelana com o Telecentro,
de forma que cada um possa buscar novos conhecimentos e também deixar algum para outras
pessoas. Ela é andarilha: numa semana, está no Projeto Ser Criança; na outra, ela volta para o
Telecentro e depois vai para a Prefeitura Municipal, para o Fórum.

• Algibeira Rosiana

Junto com o Banco do Livro S/A, foi montada uma algibeira com 10 exemplares de livros escritos por
Guimarães Rosa – “Grande Sertão: Veredas”, “Sagarana”, “Primeiras Estórias”, “Ave, Palavra”, “A
Hora e a Vez de Augusto Matraga”, “Estas Estórias”, “No Urubuquaquá, No Pinhém”, “Manuelzão e
Miguilim”, “Noites do Sertão” e “Tutaméia” – e algumas reportagens sobre os 50 anos de “Grande
Sertão: Veredas” e “Sagarana”. Esses livros são emprestados para a comunidade, para que as pessoas
possam conhecer as obras do escritor.

• Criação do acervo literário, fotográfico e informativo

Este acervo ficará à disposição de toda a comunidade para pesquisas e visitas. A idéia é catalogar
informações sobre Guimarães Rosa e Curvelo, seja com reportagens e fotos, seja com vídeos, músicas
e outras fontes. Nos computadores, já existem algumas informações e os usuários são incentivados a
abrir os arquivos para conhecer um pouco da história de Guimarães Rosa.

O envolvimento da comunidade está sendo particularmente importante. Duas pessoas têm contribuído
muito para a criação deste acervo. Uma é a Fargnoli, que já trabalhou no Banco do Livro S/A e é uma
“apaixonada” pela obra de Guimarães. Ela tem emprestado documentos para o Telecentro, como
livros e alguns recortes de jornais. A outra pessoa é o sargento Raimundo, que trouxe para o
Telecentro duas fotos especiais: uma de Guimarães Rosa junto com Mário Pena e Jucelino Kubitschek,
na época em que eles eram médicos da Polícia Militar, e outra de um vapor que fazia o transporte das
tropas da Polícia, que tinha o nome de Curvelo.

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• Utilização dos computadores

O Telecentro Caminhos do Rosa tem hoje 10 computadores à disposição da comunidade. Para que o
maior número possível de pessoas tivesse a oportunidade de utilizá-los de uma maneira que
contribuísse para o seu crescimento pessoal, foram criadas algumas regras: toda pessoa tem o direito
de escolher dois horários de 45 minutos por semana para ter acesso – sites de jogos, de conteúdos
violentos ou pornográficos foram bloqueados – e deve dedicar 10 minutos de seu tempo para acessar
alguns sites sugeridos pelos educadores.

O Telecentro atende, em média, 85 pessoas por dia. Além de prestar o serviço de impressão, cobra
0,15 por folha e figura simples para a própria manutenção da impressora.

Conciliar a inclusão digital com a valorização da cultura representa um desafio para os educadores,
pois os usuários do Telecentro já chegam decididos a entrar em salas de bate-papo, orkut, páginas de
novelas e outros. Geralmente, o conteúdo dessas páginas é muito pobre diante do mundo de
informações que a Internet pode oferecer. Para os usuários aproveitarem melhor o seu horário, foram
feitos cartões com sugestões de sites para serem visitados.

PRÓXIMOS PASSOS

• Exposição “Correspondências”

Foram selecionadas do livro “Joãozito – A Infância de João Guimarães Rosa”, de Vicente Guimarães,
oito cartas escritas por Rosa, que foram divididas entre os projetos Ser Criança e Fabriquetas. A idéia é
que, após a leitura e discussão das cartas, as crianças e adolescentes façam produções, que juntas
formarão a exposição. Nela, os visitantes poderão escrever cartas e colocá-las na caixa dos correios,
que também fará parte da exposição.

• Sala de Vídeo

Para divulgar as obras de Guimarães Rosa, está sendo montada uma sala de vídeo no Telecentro, que
irá também contribuir para trabalharmos as dimensões do PTA. Serão feitas sessões abertas à
comunidade e a grupos restritos – escolas, projetos, associações – e os filmes a serem exibidos
envolvem a literatura rosiana, a cultura, o meio ambiente do sertão e do cerrado, entre outros.

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Com a contribuição da Associação dos Amigos do Museu Casa de Guimarães Rosa –
Cordisburgo/MG, o Telecentro montou uma lista de filmes relacionados às obras de João Guimarães
Rosa e está pesquisando outros filmes.

GERENCIAMENTO DO PROJETO

O projeto é coordenado pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) e por uma
funcionária da Prefeitura Municipal de Curvelo.

DESEMPENHO DOS EDUCADORES

Disponibilidade, espontaneidade, agilidade, criatividade são características da equipe. E isso tem


facilitado o trabalho até certo ponto, pois quando essas características são exacerbadas, acabam
atrapalhando. Essa tem sido a pauta nas rodas de avaliação da equipe, que tem experimentado
alguns avanços.

Observa-se entre os educadores uma resistência difícil de ser quebrada em relação ao atendimento
aos usuários do Telecentro. É preciso fazer com que eles aproveitem ao máximo o uso dos
computadores e da Internet. Mas, como os educadores não são professores de informática, na hora de
orientar, eles se sentem inseguros.

ENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO

Há uma grande procura do Telecentro para o uso dos computadores. O Telecentro atende uma média
de 850 pessoas por mês, desde crianças menores até pessoas já idosas. Mas a comunidade também
participa das atividades externas: ”Prosa na Praça” e “História na Praça”, pois todos são convidados
através da Rádio Comunitária, cartazes espalhados em pontos estratégicos da cidade, divulgação nas
escolas, convites pessoais e boca a boca entre os freqüentadores do Telecentro.

Entre os usuários, alguns se mostraram bem interessados em colaborar com o trabalho e foram
convidados a participar como voluntários, para auxiliar as pessoas na utilização dos computadores.

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• Envolvimento com outras entidades

O Telecentro tem recebido o apoio da Rádio Comunitária para a divulgação de suas atividades. Além
disso, as crianças do projeto Ser Criança, os adolescentes do projeto Fabriquetas e os alunos da Escola
Municipal Dr. Virato Mascaranhas e da Escola Estadual Ministro Adauto Lúcio Cardoso têm participado
das rodas.

AVANÇOS OBTIDOS

• Índices qualitativos

- Conhecimento sobre o passado da cidade.


- Conhecimento sobre a vida de Guimarães Rosa.
- Conhecimento sobre o trabalho dos convidados para a “Prosa na Praça”.
- Trocas de experiências.
- Aceitação da Algibeira Cultural.
- Empenho da equipe do Banco do Livro e do Telecentro para a confecção da Algibeira, do Bornal de
Livros e da organização das atividades externas.
- Boa relação com outras instituições (escolas, projetos, rádio).
- Colaboração da comunidade para a arrecadação de informações.
- Visitas ao Telecentro para pesquisas.
- Boa utilização da Internet e dos computadores.
- Aceitação das sugestões de sites pelos usuários.

• Índices quantitativos

- Média de 85 pessoas por dia.


- Média de 850 pessoas por mês utilizam os computadores.
- 90 pesquisas escolares e profissionais feitas por semana.
- 460 pessoas cadastradas.
- Média de 25 pessoas por encontro.
- 12 livros de Guimarães Rosa.
- 6 voluntários.

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DIFICULDADES ENCONTRADAS

- Problemas em duas máquinas.


- Dificuldades com o programa Linux. Como na cidade não há técnico especializado, o Telecentro
ficou durante dois meses sem Internet e sem impressora.
- Bloquear sites de jogos pornográficos, violentos e outros.
- Gravar um arquivo em disquete.

REFLEXÃO

“Comecei com novas perspectivas de crescimento neste novo trabalho, tentando transformar algumas
dificuldades em desafios. Temos que convir que passamos e ainda passaremos por momentos difíceis
nessa nossa jornada.

Vejo este projeto como uma roseira podada, que ficou furtada da água da chuva e não floriu como
devia. Se tivesse oportunidade de questioná-la, ela me responderia com humildade:
- Enriquecer a terra é o meu dever. E, se quero evoluir, necessito aprender. Vejo tratores retalhando o
solo, dinamites na serra a parti-la de todos os lados. Árvores venerandas a cair.... E se busco entender
a dor do campo?

Se questionarmos sempre, veremos que este é o nosso ponto de partida. Será que existe uma maneira
de planejamento para que as horas do dia se multipliquem em atividades diversas e possamos
planejar cada um dos nossos objetivos?

Claro que sim. E aqui está a maior prova disso: o nosso Telecentro “Caminhos do Rosa”, que está se
fortalecendo com os erros, que foram se transformando em acertos. E pode-se dizer com toda a
convicção: ‘ele’ está se tornando uma árvore frondosa, com tronco largo e galhos longos e fortes.”
Simone Paula Costa - Educadora
Telecentro Caminhos do Rosa

“Desenvolver uma atividade para a ‘minha’ cidade é mais importante do que certas formalidades e
padrões. Só de estar em Curvelo me motiva. Mesmo assim, tem os seus desafios a serem superados.
O principal é fazer um projeto para todos na área de inclusão digital e principalmente na valorização

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da cultura do sertão e do conhecimento da literatura de Guimarães Rosa. O Caminhos do Rosa
precisa desenvolver atividades mais concretas e se tornar mais popular, para beneficiar mais pessoas e
atingir os seus objetivos.”
Washington Rodrigues - Coordenador
Telecentro Caminhos do Rosa

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ANEXOS

• Citações sobre Curvelo nas obras de Guimarães Rosa

“E essa moça era noiva – o noivo estava por mais um ano no Curvelo, purgando por crime, prisioneiro
de prisão.”
Corpo de Baile - Conto: O Recado do Morro

“O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais
a fora, a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto
e do Curvelo, então o aqui é dito sertão?”
Grande Sertão Veredas

“O fazendeiro que vendeu o gado pediu a seu Saulinho para trazer, para entregar a um irmão, no
Curvelo, e seu Saulinho prometeu...”
Sagarana – Conto: O Burrinho Pedrês

“Dizia tudo alegre – aquela voz livre, firme, clara, como por aí só as moças de Curvelo é que têm.”
Corpo de Baile – Conto: Dão-lalalão (O Devente)

“O senhô bebia café com eles. Era o doutor José Lourenção, do Curvelo.”
Corpo de Baile – Conto: Campo Geral

• Depoimentos

“O Prosa na Praça é um momento de descontração e de aprendizagem que reúne crianças, jovens e


adultos para conhecer sobre a história de um escritor, de um poeta, esportista, contador de causo,
pessoas que fizeram e fazem parte da nossa história.

Um bom exemplo foi a presença do professor Belão, de capoeira, que encantou a todos com a sua
música, batuque, ginga e com as histórias de suas viagens ao exterior, pela Europa. Todos ficaram
fascinados, envolvidos e agradecidos por sua contribuição à nossa cultura. Mestre Belão, como é
chamado, ainda nos contou que pretende desenvolver um projeto com as crianças, envolvendo-as
num ambiente cultural onde aprenderão a capoeira com expressão corporal.

Outro exemplo foi a presença da Fátima, moradora do Morro da Garça e que é a presidente do

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Circuito Guimarães Rosa. Fátima nos engrandeceu com as histórias e a vida de Guimarães Rosa. Além
de despertar a curiosidade para conhecer melhor a vida e a obra de um dos gênios da literatura que
tanto nos ensina e encanta, nos chamou a atenção para a importância da nossa participação e da
cidade no circuito Guimarães Rosa.”
Aline Esteves Alves – Educadoras
Banco do Livro

• Poesias

Curvelo

Curvelo, alvissareira,
linda “Princesa do Sertão”,
és orgulho da gente mineira,
és um pedaço do meu coração.

Curvelo, dos tempos idos,


da vida construindo a vida,
de tantos nomes queridos,
que a gente guarda em guarida.
Curvelo, tão querida,
de São Geraldo a Basílica;
da praça com amor construída,
dos sonhos nunca adormecidos.

Curvelo, intrépida e formosa,


um misto de fascínio e bondade;
és a terra mais gostosa,
cheia de encanto e saudade...

Conceição Drummond

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Intimação O senhor Hermes Veloso
Favor comparecer
Às cinco horas da tarde
Acordei muito desanimado Para alguém reconhecer
Minha família perguntou: Caso contrário tenho
- Porque o senhor está calado? Que lhe mandar prender.
Respondi com um sorriso, Leve um bom advogado
Para não ficar envergonhado. Para te defender
Esta data ficou escrita Senão ficará preso
E ficou bem marcado Enquanto o senhor viver.
Nove horas da manhã
Eu fui intimado. O advogado foi justo
O acontecido contou
Nove horas da manhã Um homem nesta idade
Quando o telefone tocou, Confesso que nunca errou
Era uma intimação Era uma hora da tarde
Veja quem me intimou O julgamento começou
Três horas da tarde Às quatro horas da tarde
No portão alguém chamou O julgamento terminou
Ninguém calcula o susto Só não fui preso
Que este velho levou. Porque a juíza acreditou
Era uma jovem bonita
A intimação entregou.

Hermes Veloso
22/12/2005

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Acróstico

Santo, por excelência Santo


Augusto nome que é glória da pobreza,
O humilde Apóstolo na sua realeza!

Viveu o Amor e teve a verdadeira vida


Inclinada a socorrer a indigência!
Crendo no Mestre, de cabeça erguida
Evangelizou, com toda a clemência,
Nascida do sabor da fé,
Torrente de luz que aclara
Entre o céu e a terra: o horizonte!

Edson Gandra
Curvelo, julho de 2002

T e l e c e n t r o C a m i n h o s d o R o s a - C u r v e l o / M G 12
História

A Moça Tecelã
Por Marina Colasanti
Contada por Dôra Guimarães

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo se
sentava ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios
estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois, lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios
cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de
prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas, se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros,
bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e
para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe
estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o
tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas, tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez
pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a
entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi
aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava
justamente acabando de entremear o último fio do ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

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Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma e foi entrando em
sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar
ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas, se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque
tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou, a não ser nas coisas todas que ele poderia
lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu
que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa
acontecer.

Mas, pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

- Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente,
ordenou que fosse de pedra, com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e
poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha
tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando
o ritmo da lançadeira.

Afinal, o palácio ficou pronto. E, entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais
alto quarto da mais alta torre.

- É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: —
Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso, tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de
moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio, com todos
os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

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Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E
descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz
de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as
estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E
novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta.
Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés
desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o
emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar
entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

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