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DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA

NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


relatório de pesquisa

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 1


INSTITUIÇÕES EXECUTORAS

FAERJ - FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E PESCA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


Rodolfo Tavares - Presidente

SEBRAE-RJ - SERVIÇO DE APOIO AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS


Rodolfo Tavares - Presidente
Sergio Malta - Superintendente
Evandro Peçanha - Diretor

INSTITUIÇÕES PARCEIRAS

SENAR-RIO
Maria Cristina Teixeira de Carvalho Tavares - Superintendente
Carla Ribeiro Valle - chefe do Depto Técnico
Marcos André Ravizzini Lima

REDETEC - REDE DE TECNOLOGIA DO RIO DE JANEIRO


Paulo Alcantara Gomes
Armando Clemente
Paula Gonzaga
Teresa Trinckquel

UFRJ - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


LABORATÓRIO DE BIOLOGIA E TECNOLOGIA PESQUEIRA DEPTO. BIOLOGIA MARINHA
Prof. Dr. Marcelo Vianna - coordenador
Beatriz Corrêa de Freitas
Márcio Luis Chagas Macedo
OUTROS AUTORES
Ana Luísa de Souza Soares
Ana Maria Torres Rodrigues
Antônio Olinto Ávila da Silva
Daniela Sarcinelli Occhialini
Fernando Antonio Sampaio de Amorim
Fernando Augusto Galheigo
Mauricio A. Nepomuceno de Oliveira
Paula Ritter
Rafael Botelho Duarte Coelho

DIAGRAMAÇÃO, IMPRESSÃO E ACABAMENTO


Editora Populis

PROGRAMAÇÃO VISUAL
Raquel Sacramento

REVISÃO
Alexandre Rodrigues Alves

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

D526
Diagnóstico da cadeia produtiva da pesca marítima no Estado do Rio de Janeiro : relatório de
pesquisa / organizador Marcelo Vianna - Rio de Janeiro : FAERJ : SEBRAE-RJ, 2009.
il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-87533-09-8

1. Pesca - Aspectos econômicos - Rio de Janeiro (Estado). 2. Pesca - Aspectos sociais - Rio
de Janeiro (Estado). 3. Política pesqueira - Rio de Janeiro (Estado). 4. Recursos pesqueiros
- Rio de Janeiro (Estado). I. Vianna, Marcelo. II, Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca
do Estado do Rio de Janeiro. II. SEBRAE/RJ.

09-1746. CDD: 338.3727098153


CDU: 338.43:639.2(815.3)

14.04.09 24.04.09 012176


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APRESENTAÇÃO

O Diagnóstico do Setor Pesqueiro do Estado do Rio de Janeiro é o resultado de mais uma parceria entre a Faerj e o
Sebrae-RJ, que tem como visada a qualificação dos problemas da pesca, para que, através do conhecimento, tenhamos
a coragem de enfrentá-los, junto com o poder público e a sociedade fluminense.

A estratégia de unir a pesquisa científica ao conhecimento empírico tem produzido resultados excelentes na
transferência de tecnologia aos atores das cadeias produtivas do estado, trabalhadores e empreendedores.

É justo, portanto, registrar nossos agradecimentos ao Prof. Dr. Marcelo Vianna, coordenador do Depto de Biologia
Marinha da nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro, e demais técnicos que integraram a equipe da Rede de
Tecnologia.

Fica aqui o desafio para a nossa geração: olharmos o território do Estado do Rio de Janeiro com a inclusão da zona
econômica exclusiva marítima, por sua importância, para o desenvolvimento e o progresso do Estado e do País.

Esse trabalho é uma homenagem da Faerj/Sebrae-RJ aos homens do mar, na saudosa memória de Ignácio Baltazar do
Couto, eterno presidente do Sindicato dos Armadores de Pesca do Estado do Rio de Janeiro - Saperj.

Rodolfo Tavares
Presidente - Faerj

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SUMÁRIO
Prefácio 9

1 Pesca Fluminense: História, Sociologia e Perspectivas 13

2 A Produção Pesqueira do Estado do Rio de Janeiro 47

3 O Mercado e a Cadeia Produtiva do Pescado Fluminense 61

4 Análise da Frota Pesqueira do Estado do Rio de Janeiro 91

5 Infraestrutura Costeira Ligada à Atividade Pesqueira Fluminense 123

6 Bases Legais para a Atuação da Pesca Fluminense 141

7 Panorama Atual e Perspectivas para a Pesca Industrial do Estado do Rio de Janeiro 181

Os autores 189

Pesquisadores e Instituições que Atuam na Pesca no Estado do Rio de Janeiro 191

Bibliografia 195

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PREFÁCIO

Apesar de o Brasil não apresentar proporcionalmente um alto consumo per capita de pescado, a balança comercial
brasileira apresenta-se geralmente deficitária neste item. Invariavelmente importamos mais pescados dos que
exportamos. Este déficit mostra a existência da demanda nacional para o produto. Importamos não só pescados que
não encontramos na costa brasileira - como o salmão e o bacalhau - mas também produtos típicos de nossas águas
- como as pescadas e as sardinhas - para suprir o mercado interno. Mesmo a costa brasileira não sendo uma região
predominantemente rica em pescado, a produção nacional poderia ser maior. Pesquisas com dados históricos mostram
uma redução drástica na captura de pescados com grande importância econômica destinados à exportação, como, por
exemplo, o camarão-rosa do sudeste/sul.

A manutenção da pesca como atividade econômica viável e autossustentável ecologicamente tem grande importância
social e cultural, pois qualifica os membros de comunidades tradicionais em áreas afins à sua história de vida, impedindo
que estes sejam incorporados a outras atividades secundárias, que acabam por promover uma descaracterização
cultural. Este processo geralmente resulta na marginalização dessas populações, causando sérios problemas em curto
prazo. Entretanto, é consenso que, se estas atividades estiverem relacionadas à história de vida dessas comunidades,
facilita a implantação e absorção das técnicas necessárias para a boa execução.

A queda na produção nacional de pescarias tradicionais é devida em grande parte à degradação das áreas costeiras
de criadouro, como os manguezais e os estuários, e ao gradativo aumento da sobrepesca incidindo sobre boa parte
dos recursos pesqueiros costeiros. Em consequência disto, boa parte da atividade pesqueira está em crise e tem
necessitado uma maior atenção, para fazer com que o setor se torne mais eficiente e competitivo. Medidas como censo
pesqueiro, capacitação da mão-de-obra, agregação de valor ao pescado capturado, redução dos custos de operação,
direcionamento da pesca incidindo sobre recursos pouco explorados, fomento à criação de pescados em cativeiro
e adequação da infraestrutura de desembarque, são urgentes para o setor. Ou seja, uma ampla administração da
atividade baseada em conceitos técnicos e científicos.

A característica interdisciplinar da atividade pesqueira, como suas inúmeras interfaces com a economia, sociologia,
antropologia, biologia, engenharia e diversas outras ciências, faz com que o setor só seja passível de ser analisado
através de um estudo que atue em todas as etapas da cadeia produtiva. É exatamente neste ponto que a proposta
deste estudo se insere, diagnosticando as demandas e propondo atuações em conjunto entre o poder público, o
empresariado e a comunidade pesqueira fluminense.

Segundo o Art. 36, para os efeitos de Lei de Crimes Ambientais (n.º 9.605, 12 de fevereiro de 1998), considera-se pesca
todo ato tendente a retirar, extrair, coletar, apanhar, apreender ou capturar espécimes dos grupos peixes, crustáceos,
moluscos e vegetais hidróbios, suscetíveis ou não de aproveitamento econômico, ressalvadas as espécies ameaçadas
de extinção, constantes nas listas oficiais de fauna e flora.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 9


MAS O QUE É PESCA ? Legalmente, pesca é uma atividade muito maior do que se supõe.

É a retirada de qualquer organismo vivo (animal ou vegetal) da água por


qualquer pessoa.

Outra questão importante quando se trata da pesca é a heterogeneidade da atividade. Quem exerce essa atividade?
Quais são as categorias de pesca? Uma forma de responder a essas perguntas é dividirmos a atividade em categorias:

• esportiva/recreativa (amadora);
• subsistência (amadora); e
• comercial (profissional) - a que nos interessa nesse estudo.
Mas mesmo a pesca comercial também pode ser subdividida e analisada de forma distinta, segundo a sua escala de
atuação, como:

• pequena (artesanal);
• média (empresarial/industrial); e
• grande (empresarial/industrial).
Apesar de extremamente interessante, diagnosticar os entraves ao desenvolvimento do setor pesqueiro não é tarefa
fácil. Por ser uma atividade basicamente extrativista, descentralizada e cercada de grande informalidade, um dos
principais problemas da pesca é a quantificação da sua importância econômica e social.

As ações desenvolvidas neste estudo têm se destacado como sendo uma boa estratégia a ser adotada na identificação
da relevância do setor pesqueiro, no gerenciamento da produção de pescados e na ocupação de áreas litorâneas. A
atividade pesqueira, quando bem planejada, mantém a ocupação ordenada da zona costeira, fornece produtos de boa
qualidade, estimula o turismo litorâneo e ajuda a conservar o meio ambiente. Principalmente em um estado com as
características ambientais e culturais como o Rio de Janeiro, cujo povo tem orgulho de ter sua história relacionada
ao litoral. Entretanto, se a atividade for tratada de forma errada ou mal planejada, pode resultar em sérios problemas
sociais pelo uso competitivo do espaço costeiro, além de ser inviável do ponto de vista econômico e com sérias
consequências ambientais.

Este estudo tem por objetivo promover, utilizando uma linguagem de fácil compreensão ao público não especializado,
um diagnóstico do setor pesqueiro do Estado do Rio de Janeiro, identificando entraves ao desenvolvimento e lacunas
de conhecimento.

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A análise integrada final propõe uma serie de orientações e medidas a serem implementadas, através de ações viáveis
de serem exercidas em curto e médio prazo e com respostas rápidas.

A proposta do estudo é obter informações que possam servir para subsidiar políticas públicas em âmbitos federal,
estadual e municipal, orientando o setor produtivo atual e possíveis investidores. A intenção não é simplesmente
aumentar a captura de pescado, mas propor caminhos e alternativas para o setor aumentar a rentabilidade econômica
da pesca.

O escopo deste documento se restringe à pesca extrativa comercial - realizada em escala empresarial no ambiente
marinho. Não contempla a pesca de subsistência, esportiva/recreativa e artesanal. Tampouco considera a atividade de
maricultura.

Distintos enfoques acadêmicos (sociológicos, econômicos, biológicos e outros) foram adotados no presente estudo,
respeitando-se o caráter interdisciplinar da atividade pesqueira. Estes enfoques contribuíram para a elaboração
do diagnóstico, que a análise integrada consolida, propondo estratégias futuras para o desenvolvimento da pesca
fluminense.

A Sociologia da Pesca
Traz o levantamento do perfil sócio-econômico-cultural do pescador - caracteriza a história da atividade, levanta a
legislação trabalhista regente, diferencia sociologicamente as distintas categorias produtivas, a estruturação das
organizações representativas de classe e outros aspectos relacionados.

A Economia da Pesca
Trabalha a conceituação da cadeia produtiva da pesca fluminense, tece considerações históricas sobre a balança
comercial, descreve a cadeia produtiva do pescado e o panorama do mercado, realizando uma análise do panorama
econômico futuro da pesca fluminense.

A Biologia da Pesca
Trata da contextualização da pesca fluminense, posição atual e perspectivas da atividade. A situação histórica da pesca
Marinha no Brasil, costa sudeste e comparação do Rio de Janeiro com outros estados brasileiros. Identifica os principais
recursos pesqueiros capturados no estado pelas distintas frotas, nível atual de exploração dos respectivos recursos e
orienta quanto a recursos potenciais sobexplotados em áreas mais afastadas da costa.

A Tecnologia da Pesca
Elabora o perfil tecnológico e desenhos conceituais da frota. Faz uma descrição tecnológica dos diferentes tipos de
unidade produtiva, seus petrechos e fainas, a estimativa da frota atuante nas diferentes modalidades e a análise do
estágio tecnológico da frota fluminense. Permite considerar o quanto o estado está defasado tecnologicamente,
quando comparado a referências nacionais e estrangeiras, quais são os diferenciais competitivos.

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O Estudo Situacional
Identifica, referencia geograficamente e descreve, em todos os municípios da costa fluminense, a infraestrutura de
apoio e suporte disponível ao setor pesqueiro empresarial no Rio de Janeiro. Identifica a distribuição dessa estrutura
de apoio à pesca ao longo da costa do Estado.

As Bases Legais da Pesca


Analisam toda a legislação pesqueira vigente, que foi levantada, mapeada e analisada quanto à abrangência e órgão
instrutor, observando a pertinência das normativas.

A Análise Integrada
Apresentada no final do documento discute e agrega as informações levantadas. Faz proposições de estratégias para
o desenvolvimento da pesca no Rio de Janeiro, com sugestões de medidas para a orientação de políticas públicas para
o setor.

Prof. Dr. Marcelo Vianna


Organizador

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PESCA FLUMINENSE: HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E PERSPECTIVAS
1
Paula Ritter e Fernando Augusto Galheigo

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INTRODUÇÃO

A atividade pesqueira envolve uma série de fatores (histórico-culturais, ambientais, sociais, políticos e econômicos) e,
nesse sentido, coloca-se a necessidade de articular conhecimentos, saberes e ciências para propiciar uma visão mais
integrada da pesca e perceber a riqueza e as nuances deste universo.

Este texto não pretende dar conta da diversidade que envolve a pesca, pescadores e pescarias. Também não tem
como objetivo fornecer respostas às inúmeras questões de todos os atores envolvidos com a temática. Contudo,
através da articulação entre os conhecimentos, práticas e demandas do setor, pretende realizar uma reflexão crítica
que possibilite e estimule o diálogo entre os diferentes atores, vislumbrando uma gestão articulada e de acordo com
as particularidades fluminenses.

Em um primeiro momento, realizaremos uma sistematização do histórico da pesca, no Brasil e sua influência no Estado
do Rio de Janeiro. Inúmeros pesquisadores já se debruçaram sobre o tema, contribuindo para o melhor entendimento
do atual cenário da pesca. Enfocaremos as políticas públicas direcionadas à pesca, as quais auxiliam a compreender os
diferentes espaços reservados à atividade no país, nos diferentes momentos ao longo da história. Além dos instrumentos
legais, existem outras perspectivas que ficam restritas ao universo dos antropólogos, sociólogos e historiadores. Neste
texto, procuraremos nos apropriar de alguns destes elementos, para ampliar as possibilidades de reflexão, entendendo
a pesca enquanto atividade produtora de divisas, de formas de sociabilidades, de categorias produtivas e de classes.

Na segunda parte deste capítulo, a análise será direcionada para os pescadores fluminenses e suas condições
de trabalho. A partir dos dados apresentados, teremos elementos que permitirão compreender a importância das
políticas públicas e sociais, como benefícios previdenciários e o seguro-desemprego para o pescador, que podem ser
considerados grandes conquistas desses trabalhadores. A partir de dados secundários, apresentaremos e discutiremos
questões que têm marcado o cenário da atividade, que necessitam ser esclarecidas e debatidas conjuntamente, no
sentido buscar soluções que possibilitem o avanço e o desenvolvimento da pesca fluminense.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 15


PESCA NO BRASIL E NO RIO DE JANEIRO
Breve resgate histórico
A pesca é uma das mais antigas atividades econômicas realizadas pelo homem. No litoral brasileiro, os diferentes
grupos já a praticavam como forma de subsistência antes do “descobrimento” do país (Diegues, 1983). A presença de
“sambaquis” em diversas localidades de nosso litoral corrobora esta afirmação. O estudo do sambaqui de Camboinhas
(Niterói) permitiu identificar os hábitos dos grupos que habitavam a região da Baía da Guanabara e mostrou uma
predominância da atividade de pesca, seguida da coleta de mariscos (Kneip e Pallestrini, 1984).

No Brasil, a atividade pesqueira foi influenciada por diferentes culturas, principalmente a portuguesa e a espanhola.
Este legado permitiu o surgimento de culturas litorâneas regionais ligadas à pesca, entre elas: a do jangadeiro - no litoral
nordestino (do Ceará até o sul da Bahia); a do caiçara - no litoral entre o Rio de Janeiro e São Paulo; e do açoriano - no
litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Diegues, 1999). A influência de outras culturas e suas técnicas pesqueiras
vem acontecendo ao longo da história. Como exemplo, podemos mencionar a pesca do bonito-listrado com vara
e isca-viva, provenientes de Cabo Verde, na década de 1980 (Martins, 2006)1 . Recentemente, em 2000, a pesca de
emalhe industrial foi introduzida no Brasil, por embarcações espanholas, direcionadas para o peixe-sapo (Wahrlich et
all., 2004). Em 2002, foi introduzida a pesca de polvo com pote, inicialmente no Estado de São Paulo (Tomás e Ávila da
Silva, 2006).

Durante o período colonial, a pesca representava a base alimentar das comunidades estabelecidas no litoral. Ela
era realizada pelos indígenas, no quadro da policultura litorânea, e também como uma atividade marginal nos
latifúndios para abastecer a mesa dos senhores-de-engenho (Diegues, 1983). Nessa época, as atividades manuais eram
desvalorizadas, assim como a pesca, e, portanto, eram realizadas pelos escravos. Neste sentido, Silva (1998) aponta que,
no Rio de Janeiro, em 1872, antes da Abolição, “o segundo maior grupo de escravos trabalhava nos ofícios marítimos e
o terceiro era o dos pescadores escravos”.

1 Esta informação é corroborada pelo depoimento de um migrante português, hoje proprietário de embarcação vinculada ao Sindicato dos

Armadores de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Saperj), que indica que nos anos 1970 a pesca com vara e isca-viva do atum já era
realizada na Ilha da Madeira.

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No Rio de Janeiro, a pesca era praticada principalmente nas lagoas litorâneas e nos fundos das enseadas pelos
indígenas e pelos primeiros povoadores europeus, destacando-se, marinheiros, militares foragidos e fugitivos da
justiça (Bernardes, 1958). Ao longo do litoral fluminense, os índios tupinambás utilizavam canoas, pirogas cavadas em
tronco de árvore e também piperis (igapebas), jangadas feitas de paus amarrados, na pesca e coleta (Diegues, 1999).
Os indígenas praticavam a pesca de linha, utilizando espinhas presas a linhas de tucum, e os europeus introduziram
a rede, empregada inicialmente em praias, onde trabalhavam escravos e homens brancos assalariados. Estes
formavam pequenos vilarejos ao redor das lagoas que, posteriormente, originariam as cidades de Saquarema, Maricá,
Mangaratiba, Cabo Frio e Macaé. Devido à miscigenação entre indígenas e europeus, nas populações do entorno das
lagoas litorâneas predominam os tipos que revelam claramente traços indígenas, sendo raros os pescadores com
descendência unicamente portuguesa (Bernardes, 1950 e 1958).

No Estado do Rio de Janeiro, a contribuição dos portugueses e espanhóis em relação às artes de pesca marítima
também foi bastante significativa. Eles introduziram técnicas como as redes de cerco e o arrasto de portas na região
da Baía da Guanabara. Além da sua tradição, a “piscosidade” da baía e a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro
contribuíram para o desenvolvimento da pesca no entorno, onde se formaram diversos núcleos pesqueiros (Bernardes,
1958). Algumas destas comunidades pesqueiras se localizavam em plena área urbana, como na Ponta do Caju e na
Praça XV de Novembro. Outras estavam distribuídas ao longo de praias e ilhas no interior da baía - Ilha do Governador,
de Jurujuba, de Maria Angu, de Inhaúma e de São Gonçalo (Bernardes, 1958).

Portugueses da região da cidade do Porto, mais especificamente, de Póvoa do Varzim, denominados poveiros, foram
os primeiros pescadores do nosso litoral a se aventurar no mar aberto, fazendo com que se especializassem na pesca de
linha ao largo. Eles pescavam nos Parcéis dos Abrolhos e do Mar Novo (no litoral da Ilha Grande), utilizando embarcações
motorizadas de aproximadamente 50 toneladas, transportando inúmeros caíques, que eram descarregados nos parcéis,
um a um. Semelhante ao que ocorre hoje em dia com a pesca de caíco, também conhecida como linha de caída. Este
grupo se instalou, principalmente, na Praça XV e em Jurujuba. Bernardes (1958) afirma que, em 1958, os poveiros eram
proporcionalmente mais numerosos nestas duas localidades, dedicando-se prioritariamente à pesca ao largo.

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Os núcleos de pescadores de Paquetá, Ilha do Governador, Piedade, Magé, Maria Angu e Inhaúma dedicavam-se à pesca
na baía e nas desembocaduras dos rios que nela deságuam, utilizando aparelhos direcionados principalmente para a
captura do camarão, como a tarrafa, puçá, balão2 , rede arrasto e, até mesmo, os currais – apesar de proibidos na época.
Já aqueles mais próximos das zonas urbanas, como Jurujuba, Ilha da Conceição, São Gonçalo, Ponta do Caju e Praça
XV de Novembro, apresentavam maior diversificação. A Ilha da Conceição, São Gonçalo e Ponta do Caju destacavam-
se pelas atividades de pesca do camarão na baía - e de traineiras, ao largo. Passaram por grande crescimento com
a expansão da pesca de sardinha pelas traineiras, sobretudo pelo aumento paulatino da potência dos barcos e do
tamanho da rede.

Dentre estes núcleos, destaca-se a Ponta do Caju como principal centro de difusão de tecnologia de captura. A
comunidade encontrava-se em plena área urbana do Rio de Janeiro, sendo formada por elevada parcela de portugueses
ou filhos de portugueses, espanhóis e, em menor número, brasileiros - vindos principalmente do Espírito Santo. Diante
da importância desta região no que concerne à pesca do camarão e da sardinha, optamos por apresentar estas duas
modalidades de pesca separadamente, a fim de facilitar a sua compreensão.

A PESCA DO CAMARÃO

Apesar de numericamente menos importante, foram os espanhóis que desempenharam função destacada na expansão
do núcleo do Caju, no início do século XX, principalmente no serviço do camarão. Eles inseriram, em 1955, as duas
portas, para propiciar que apenas uma canoa realizasse a pesca de arrasto de camarão, utilizando redes em forma de
saco, em miniatura às do arrastão de alto-mar, adaptadas pelos portugueses cinco anos antes, que necessitavam de
duas canoas para o arrasto. Dois anos depois, em 1957, os portugueses criaram o “mancinho” ou “rede de arco”, com
uma armação de ferro que sustenta a boca aberta, empregada preferencialmente nos fundos pedregosos, porque
apresentava na base um longo pau que protegia o fundo do saco. Porém, atualmente, não observamos a utilização
desta rede em nosso litoral.

A introdução destes dois novos tipos de redes provocou uma verdadeira revolução na vida do Caju, passando o
“serviço do camarão” a ser um bom negócio. Esse fato desencadeou um aumento no número de redes, chegando a
200, entre portas e mancinhos. Um exemplo da importância do Caju para a pesca fluminense se reflete na quantidade
comercializada em 1956. Foi registrada a venda de 329.221.700 kg de camarão para o Centro do Rio de Janeiro,
desconsiderando o realizado diretamente aos comerciantes do mercado ou a outros fregueses (Bernardes, 1958). Além
do camarão, o Caju também foi o principal ponto das traineiras da Baía da Guanabara que se dedicavam à pesca da
sardinha.

2 Típico da Guanabara, empregado pela primeira vez em 1900 e que permaneceu inalterado por no mínimo 50 anos, consistia de uma rede,
o balão, sustentado por dois longos cabos, presos a uma canoa em movimento; propiciava rendimento muito mais superior ao puçá e outras
técnicas.

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A PESCA DA SARDINHA

Até o final do século XIX, a sardinha não tinha importância econômica. Existiam vários aparelhos utilizados em sua
captura, contudo, sem nenhuma especialização e de baixa eficiência. Entre as artes de pesca para a sardinha, menciona-
se a tarrafa e o alvitranas. O alvitranas consistia em um cerco de emalhar e era a arte mais empregada3 . O cenário se
reverteu nas primeiras décadas do século XX, quando a atividade pesqueira assumiu uma escala comercial de grande
importância, principalmente com a pesca da sardinha na Ilha Grande e na Baía da Guanabara. Foi só por volta de 1910
que apareceu pela primeira vez no Rio de Janeiro uma rede de traineira, trazida pronta por pescadores espanhóis. Esta
rede era semelhante à empregada, na época, na Costa Norte da Espanha e também na França. Esta pesca utilizava
barcos com uma grande rede de cerco, chamada de traina4 , e acabou nomeando este modelo de embarcação como
traineira. As traineiras utilizavam entre 15 e 20 homens e, em 1958, diversas traineiras já apresentavam motores de até
120 HP, variando sua tripulação de 12 a 24 pescadores.

Com a criação do Entreposto de Pesca da Praça XV, na cidade do Rio de Janeiro, e as facilidades de implantação
de fábricas de sardinha em conserva, a pesca de traineiras se modernizou, passando por progressivas melhorias
na motorização e equipamentos de apoio. Este processo resultou em uma diminuição dos barcos a remo, que
predominavam até os anos 1930. Nesta década, foram fundadas duas fábricas de enlatamento de pescado em São
Gonçalo - a Rubi, em 1934, e a Coqueiro, em 1937. Este incentivo às empresas de processamento de pescado indica que
já existiam políticas de desenvolvimento da atividade pesqueira. Entretanto, elas só foram sistematizadas na década de
1960, mais especificamente, conforme Martins (2006), após o ano de 1967, um marco na história da atividade pesqueira.
Por isso, na próxima seção faremos a apresentação das principais normas legais que influenciaram a atividade pesqueira,
nos diferentes períodos históricos do País.

POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS PARA A ATIVIDADE PESQUEIRA

O primeiro investimento no setor pesqueiro pela Coroa Portuguesa se deu em relação à pesca da baleia. Segundo
Oliveira e Carignatto (2003), a pesca da baleia foi introduzida no Brasil em 1602, pelos bascos (espanhóis)5 . Em 1614,
a Coroa Portuguesa determinou que a baleia fosse o peixe real e instituiu o monopólio de sua pesca, impedindo,
assim, a livre pesca (Castellucci-Junior, 2005). Este autor ainda afirma que eram os portugueses e bascos que tinham

3 Quando cercado, o cardume de sardinha assustava-se com a batida de uma poita na água e o peixe ficava emalhado. O cerco, como
era feito em Portugal, nunca foi empregado no Brasil. A rede de espera de emalhar, chamada de sardinheira, foi experimentada, mas não
chegou a ser adotada.
4 Por vários anos, dois espanhóis controlaram a comercialização de redes no Brasil, até que alguns portugueses começaram a encomendá-

las da Espanha, posteriormente de Portugal e do Japão. Apenas em 1950 é que um espanhol instalou uma fábrica de redes de traineiras em
São Paulo, passando a fornecer este material para os pescadores.
5 O autor aponta que o primeiro impulso conferido ao monopólio da pesca da baleia, no Brasil, foi resultado de uma política empreendida pelo

Marquês de Pombal, aliado à burguesia mercantil do Reino.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 19


a concessão para realizar tais pescarias. No Sul do Brasil-Colônia, as primeiras armações6 foram fluminenses, seguidas
das de São Paulo e, no século XVIII, as de Santa Catarina. Os contratos de concessão eram estabelecidos a partir de
uma lógica que procurava favorecer e resguardar os interesses da Coroa. Os contratadores, pelo período contratado,
pescavam as baleias e industrializavam os produtos sem pagamento anual de impostos.

Os produtos das baleias tinham diversas finalidades, entre elas pode-se citar a utilização do óleo, que servia para a
iluminação das casas, dos engenhos e das próprias armações. O óleo era ainda utilizado como ligante na argamassa
destinada à construção de prédios, igrejas, fortalezas e casas. As ossadas utilizadas na decoração, residencial e pública.
A carne, por sua vez, era considerada produto depreciado e ordinário e, por isso, era destinada à alimentação dos
escravos que trabalhavam nas armações, posto que os pescadores que realizavam o trabalho eram principalmente
os escravos e/ou os negros libertos (Diegues, 1999; Castellucci-Junior, 2005). Devido à competição com os pescadores
norte-americanos, em meados do século XIX as armações tiveram que encerrar suas atividades, tendo o término da
pesca da baleia ocorrido apenas nos anos 1970, com o fechamento da última empresa japonesa em Cabedelo/PE.

Em 1845, foi criada a Capitania dos Portos e Costas e dos Distritos de Pesca e a responsabilidade administrativa pela pesca
foi atribuída à Marinha. Neste cenário, foi determinada a obrigatoriedade da matrícula para os pescadores profissionais
que, ao se registrarem, não precisariam servir à Guarda Nacional - somente quando a Marinha os convocasse. Em 1912,
a responsabilidade administrativa da pesca foi transferida para o Ministério da Agricultura, com a criação da Inspetoria
de Pesca.

Em 1920, a Marinha novamente passou a ter tutela sobre os serviços de pesca. O principal fator que levou a Marinha
a assumir a responsabilidade pela gestão da atividade pesqueira foi a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Naquele
momento, o Estado precisava redobrar os esforços para defender o litoral, sendo os pescadores o grupo mais indicado
para tal tarefa, uma vez que tinham um conhecimento profundo sobre o universo marinho (Moraes, 2001). Em 1923, o
Ministério da Marinha implantou a Missão do Cruzador José Bonifácio, que reunia as preocupações: social, econômica,
ecológica e, enfaticamente, militar (Callou, 2007). Esta missão correspondeu à primeira intervenção concreta do
Estado brasileiro na atividade pesqueira, organizando os serviços de pesca e saneamento do litoral, estimulando a
matrícula dos pescadores e sua organização em colônias cooperativas7 . Ela também procurou desenvolver a instrução
profissional, estimulou a fiscalização da pesca predatória, incentivou os pescadores na defesa da costa, e os considerou
reservas da Marinha de Guerra. Além de estimular o combate à verminose, à malária e ao alcoolismo (Callou, 2007). Nas
6 Faziam parte das armações, as embarcações, a fábrica, os alojamentos, os armazéns, as fornalhas, os tanques, as caldeiras, os escravos,

as terras, os apetrechos de pesca e de manufatura do azeite, que representavam o capital investido pelo armador monopolista (Castellucci
Junior, 2005).
7 As colônias de pescadores, quando fundadas, não tinham o objetivo de representarem uma classe de trabalhadores, não assumiam

as características de uma organização de classe. A missão era representar todos os profissionais envolvidos na temática (pescadores,
comerciantes, ”comissários”, armadores, grandes empresários e pescadores embarcados). A criação das cooperativas, da instalação de
frigoríficos e da organização do mercado e da grosseira conversão dos pescadores-lavradores em pescadores exclusivos, pretendia-se
destruir uma noção de trabalho anterior, de modo a propiciar a emergência de uma outra, mais afeita a grupos que se assemelhavam a uma
consciente e emergente burguesia industrial (Silva, 2004:42).

20
colônias eram mantidas escolas para os filhos dos pescadores, serviços de saúde e, através da política governamental
que era basicamente assistencialista, os pescadores eram providos com equipamentos de pesca, como as embarcações
e redes. Este trabalho resultou na criação de 800 colônias de pesca, 1.000 escolas primárias8 e na organização de
grupos de escoteiros do mar9.

No primeiro período de governo de Getúlio Vargas, o gerenciamento da atividade pesqueira passou para o Ministério
da Agricultura, que criou a Divisão de Caça e Pesca (Decreto 23.134/33). Em 1934, foi publicado o primeiro Código de
Pesca. Neste cenário, foram fundadas as primeiras escolas de pesca com o objetivo “tirar a pesca do seu primitivismo,
modernizando-a”. Na década de 1930 foi fundada a escola de pesca do Estado de São Paulo e, em 1939, a Escola de
Pesca Darci Vargas10, na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro (Motta, 2003).

Em 1934, foi fundado o Entreposto Federal de Pesca da cidade do Rio de Janeiro (Decreto nº 23.348), na Praça XV, que
substituiria o velho mercado que comercializava tanto pescado como produtos agrícolas. O entreposto fez renascer
o interesse pela pesca, uma vez que os pescadores se viram livres da dependência dos comerciantes do Mercado
Municipal (também na Praça XV), os quais muitas vezes eram donos dos barcos ou das redes (Bernardes, 1958). Cabe
ressaltar a importância do entreposto, já que todo o desembarque e a comercialização de pescado eram realizados
no local. Além disso, tendo em vista a centralização das atividades, era possível realizar o levantamento da produção
desembarcada para o Rio de Janeiro. O mercado da Praça XV foi desativado nos anos 1990, em função dos preparativos
para a RIO-92, tendo influência direta nos processos de comercialização e levantamento de informações11. Com
o fechamento do Mercado da Praça XV, houve uma pulverização dos pontos de desembarque em torno da Baía da
Guanabara. Atualmente, existem aproximadamente 32 locais que atendem à pesca artesanal (Jablonsky et al., 2006 ). A
descarga das embarcações de maior escala se deslocou para a Ilha da Conceição, no local da antiga fábrica de Sardinhas
88, em Niterói, e sua comercialização direcionada para o Entreposto de Pescados da Ceasa, no bairro de Irajá. No estado,
os principais pontos de desembarque da pesca industrial, além de Niterói, estão em Cabo Frio e Angra dos Reis.

Ainda nos anos 1930, ampliaram-se as facilidades para a instalação de indústrias, armazéns e de financiamento
concedido pelos representantes dos fabricantes europeus para a aquisição de motores para as embarcações (Decreto
Lei 291/38). Este decreto estabeleceu uma taxa “Expansão da Pesca”, que recaía sobre os produtos industrializados
da pesca procedentes do exterior. Ele determinou o recolhimento de 5% do valor total das vendas em leilão, nos
entrepostos federais de pesca. Este recurso era revertido para o desenvolvimento da pesca, das indústrias, ao amparo
8 Callou (2007) relata que em 1925 existiam 246 escolas pertencentes às colônias de pescadores, as quais frequentavam 5.374 crianças.
Porém a unificação do ensino nas comunidades pesqueiras ocorreu apenas em 1928, o que pode ter elevado, consideravelmente, o número
de crianças nas escolas.
9 Estas escolas eram denominadas Escoteiros do Mar, com finalidade de militarização e treinamento para os jovens, além do cultivo ao

civismo (Moraes 2001).


10 Em 1965 a escola estava praticamente extinta e a Restinga da Marambaia foi entregue à administração da Marinha Brasileira, onde foi

implantado o Centro de Adestramento da Marinha (Cadim). Nos anos 1970, a Escola Darcy Vargas já não funcionava mais e a Marinha
ocupou suas instalações, desativando a fábrica de gelo e a de sardinha. Com isso, funcionários da escola deixaram a ilha, enquanto os
antigos moradores permaneceram em suas antigas casas, trabalhando em suas roças e nas suas embarcações (Motta, 2003) e a partir de
então uma serie de conflitos se estabeleceram mantendo-se até os dias atuais.
11 Até os anos 1980, o IBGE realizava este trabalho, mas, com a criação do Ibama, somente levantamentos de produtividade pesqueira

passaram a ser realizados pela Sudepe.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 21


da classe pescadora e a ampliar o Serviço de Caça e Pesca (Paiva, 2004). Estas medidas contribuíram para o forte
desenvolvimento das indústrias do Rio de Janeiro e de Angra dos Reis.

Em 1938, foi adotado o novo Código de Pesca, que inovou ao desvincular a caça da pesca. Era o início do período
ditatorial e o novo código aumentou o controle sobre os pescadores e suas associações de classe, restringindo alguns
aparelhos e embarcações de pesca. No ano de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), a Marinha passou
novamente a controlar a atividade (Decreto-Lei 4.890) (Moraes, 2001). Tal fato indica que, em momentos estratégicos,
a Marinha passava a ter o controle da atividade. Semelhante ao acontecido nos anos 1920, intensificou-se um processo
que resultou no fortalecimento institucional e garantia da presença da Marinha, mesmo que “simbólica”, ao longo de
todo litoral brasileiro (Callou, 2007).

Na década de 1950, no governo de Juscelino Kubitschek, o Estado passou a investir em áreas como petróleo,
siderurgia, transporte e comunicação. Nota-se que neste período pouca atenção governamental foi dada à atividade
pesqueira, por conta dos interesses políticos nacionais. Destaca-se apenas a formação da Patrulha Costeira (Lei 2.419/55),
que, em colaboração com o Serviço de Caça e Pesca (Ministério da Agricultura), tinha a função de defender a fauna
marítima, a flora aquática e fiscalizar a pesca no litoral brasileiro; prestar assistência médica, profilática e farmacêutica
aos habitantes das zonas litorâneas desprovidas de recursos; e ministrar instruções sistemáticas a bordo dos navios da
Patrulha Costeira.

A partir dos anos 1960, o Brasil adotou um projeto desenvolvimentista visando o aumento de sua infraestrutura
(estradas); realizando obras de saneamento (barragens e retificação de rios); formando complexos industriais e
cidades de médio e grande porte12; e estimulando a agricultura extensiva (utilização de maquinaria e de fertilizantes).
Esse momento político teve grande influência no setor pesqueiro, sendo marcado por políticas para expansão e
modernização da atividade.

Em 1961 foi criado o Conselho de Desenvolvimento da Pesca (Codepe) (Decreto-Lei 50.872), que incentivava a pesquisa,
o planejamento, a promoção de transformações estruturais, a formação de recursos humanos e a expansão dos
mercados. Este apresentava um caráter normativo, dando orientação única à política de desenvolvimento pesqueiro,
em contraposição à pulverização de competências até então observada.

A Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) foi criada em 1962 (Lei Delegada 10/62), estando vinculada
ao Ministério da Agricultura, quando da extinção da Divisão de Caça e Pesca, do mesmo ministério. A Sudepe tinha
como objetivos promover, desenvolver e fiscalizar a atividade pesqueira, bem como prestar assistência aos pescadores
na solução de seus problemas econômicos e sociais, através da definição de uma política de pesca suportada por planos
de desenvolvimento reajustáveis às novas condições, considerando os diferentes aspectos naturais e econômicos
das regiões. Para isto, seria fundamental um diagnóstico da situação existente para a definição das estratégias, a
reformulação da velha legislação e a adequação técnica e administrativa necessária à execução das atribuições
decorrentes deste mesmo processo de desenvolvimento planejado (Paiva, 2004).

12 Nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo este processo atraiu pessoas de diferentes regiões do país, que buscavam postos

de trabalho nos mais diversos setores. Muitos migrantes passaram a trabalhar na cadeia produtiva da pesca.

22
No ano de 1966, a pesca é incluída como indústria de base e recebeu recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico (BNDE), através do Decreto 58.696. No ano seguinte foi criado o Programa de Pesquisa e Desenvolvimento
Pesqueiro do Brasil (PDP) (Decreto 60.401), em decorrência do convênio realizado entre o Governo do Brasil e o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Meschkat, 1975). Já em 1967, foi publicado o Decreto 22113,
considerado o novo Código de Pesca, o qual vigora até os nossos dias. Este decreto estabeleceu normas para o exercício
da atividade pesqueira e, através de mecanismos como incentivos fiscais e isenção de impostos, buscava atingir divisas
para o país, com a modernização da atividade pesqueira, principalmente a industrial14. Este documento legal também
dispôs sobre a estrutura organizacional dos pescadores, instituindo a criação de cooperativas de pesca nos núcleos
pesqueiros. A partir deste código houve uma reestruturação do setor produtivo, com consequências diretas, tanto em
termos ecológicos como também no âmbito social. As concessões de incentivos fiscais à pesca propiciaram a abertura
de fábricas de processamento de pescado15, ampliação da frota de embarcações para o aumento da produção e da
consequente exportação de produtos (Abdallah e Bacha, 1999).

O Decreto 65.005 (1969) regulamentou as operações para a pesca comercial, e tratava das autorizações para
embarcações pesqueiras, operações de embarcações de pesca, empresas pesqueiras e o Registro Geral da Pesca. Neste
mesmo ano ficou estabelecida16 , pela primeira vez, a necessidade de preenchimento do Mapa de Bordo, resultando
em um importante avanço na administração pesqueira nacional.

Em 1974 foi criado o Fundo de Investimento Setorial para a Pesca (FISET/Pesca) - (Decreto-lei 1376), controlado pela
Sudepe, com os objetivos de controlar a alocação de recursos dos incentivos fiscais, de forma mais centralizada, e
ajustar o desequilíbrio no mercado destes incentivos - identificado no decorrer da vigência do Decreto 221/67 (Abdallah
e Bacha, 1999). Os mesmos autores (Abdallah e Bacha, 1999) ressaltam que entre 1967 e 1974 foram concedidos R$
793,49 milhões (preços de 1994) para a atividade pesqueira, que permitiram um grande aumento na produção nacional
de pescado. Contudo, afirmam que, dos R$ 688 milhões investidos entre 1967 e 1972, cerca de 70% foram direcionados
para a indústria e captura do pescado. Nenhum recurso foi investido em pesquisa e levantamento de dados sobre
estoques pesqueiros. No período de 1975 a 1982, os incentivos para fomentar a pesca foram insuficientes para manter
o crescimento da produção pesqueira nacional, pois a Sudepe teria priorizado realizar o saneamento financeiro das
empresas.

13 Cabe dizer que ele foi instituído em pleno AI-5, no regime militar.
14 Entre os mecanismos para desenvolver a atividade pesqueira, o Decreto 221 inclui a isenção de impostos e taxas federais de qualquer
natureza sobre produtos de pesca industrializados ou não; a isenção do Imposto de Importação, do Imposto de Produtos Industrializados
(IPI), de taxas aduaneiras e impostos de qualquer natureza sobre embarcações de pesca, equipamentos, máquinas, aparelhos, instrumentos
e acessórios para captura, comercialização, industrialização e transporte de pescado, desde que importados de acordo com projetos
aprovados pela Sudepe; isenção do Imposto de Produtos Industrializados sobre redes e partes de redes destinadas exclusivamente à pesca
comercial ou científica.
15 No Estado do Rio de Janeiro em 1965, segundo dados do IBGE (Martins, 2006), existiam 39 fábricas de processamento de pescado,

localizadas em Angra dos Reis (22), Niterói (03), São Gonçalo (05) e Cabo Frio (09). Destas, 22 indústrias eram de preparação e conserva
de sardinha e 08 comercializavam peixe fresco e refrigerado além de realizarem salga e secagem, as quais estavam concentradas em Cabo
Frio.
16 Portaria Sudepe nº 395, de 04 de novembro de 1969, e Portaria Sudepe nº 483, de 10 de novembro de 1972.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 23


Ao analisar a ação da Sudepe, Giulietti e Assumpção (1995) afirmam que os resultados obtidos ao longo dos anos pela
política do órgão foram distintos dos objetivos iniciais. Houve um incremento de embarcações especializadas em um
tipo de recurso, como, por exemplo, no camarão-rosa e na sardinha. O principal destino do camarão era a exportação;
o da sardinha, as indústrias de beneficiamento. Tal fato favoreceu a sobrexplotação destes recursos17 . No caso da
sardinha, ela sustentava as indústrias localizadas principalmente em Niterói e São Gonçalo (Neiva, 1990). As fábricas
passaram a ter capacidade de processamento superior ao abastecimento de matéria-prima e, por isso, nos anos 1980
as importações de pescado do país aumentaram (Abdallah e Bacha, 1999). Tal medida foi necessária para atender à
demanda industrial incentivada nos anos anteriores.

Neiva (1990) destaca o total abandono dos pescadores artesanais nos processos políticos. O direcionamento equivocado
ao incentivar a produção com vista às exportações e não ao consumo interno; o estímulo à captura de alguns recursos
pesqueiros acarretou a sua sobrepesca e o seu colapso; a “entrada” de empresários sem compromisso com a pesca,
que visavam vantagens e lucros, contribuiu para o aumento da corrupção, da degradação ambiental e redução dos
estoques pesqueiros. Paiva (2004), por sua vez, enfatizou que o enfraquecimento setorial, gerado principalmente
pela “prostituição da política de incentivos fiscais e financeiros”, levou à extinção da Sudepe e à sua fusão ao Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) (Lei 7.735/1989)18. Com a migração da Pesca para o
Ibama, o autor avalia que a administração pesqueira incorporou a componente ambiental e acabou fragilizada pelas
outras inúmeras atribuições decorrentes da absorção das competências de quatro grandes órgãos públicos extintos19.

Neste contexto, foi criado o Grupo Executivo do Setor Pesqueiro (GESPE), subordinado à Câmara de Políticas dos Recursos
Naturais, do Conselho de Governo da Presidência da República e secretariado pelo Ministério da Marinha. A criação do
GESPE é apontada como uma alternativa encontrada pelo governo para atender aos anseios dos representantes do
setor que solicitavam o retorno de posições governamentais mais favoráveis às suas demandas (Dias-Neto, 2008). Sua
desativação se deu em 1998, concomitantemente à criação do Departamento de Pesca e Aquicultura (DPA), vinculado
ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O DPA foi criado dentro do Ministério da Agricultura
e do Abastecimento (Decreto 2.681/1998)20 com a competência de gerenciar a produção e fomentar as atividades
pesqueiras, enquanto as políticas de preservação, conservação e uso sustentável dos recursos naturais permanecem na
pasta do Ibama/MMA. Sobre esta estruturação, Dias-Neto (2002) afirma que, além de ter aumentado a disputa no Poder
Executivo, provocou a ineficiência na gestão e fiscalização, e trouxe reflexos negativos para todos os envolvidos.

O Decreto 2.840 (10/11/1998) atribuiu ao DPA a competência para estabelecer padrões referentes aos recursos
pesqueiros, no que concerne às espécies migratórias e as que estejam sub-explotadas ou inexploradas. Dias-Neto
(2002) analisa que, em termos conceituais, é difícil estabelecer o monitoramento das pescarias que permitam definir o
status dos recursos pesqueiros. Isto é, o momento em que as espécies passem de subexplotadas a sobre-explotadas.
O DPA permaneceu com suas atribuições até a criação da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (SEAP/PR) (Medida
Provisória 103 de 01/01/2003), vinculada à Presidência da República.
17 A redução dos estoques pesqueiros levou a uma série de medidas posteriores, como os períodos de defeso e exigência de permissionamento/

licença para as embarcações capturarem as espécies mais vulneráveis.


18 Com a incorporação da Sudepe pelo Ibama, o patrimônio, os recursos humanos e orçamentários também foram transferidos.
19 Os quatro órgãos absorvidos pelo Ibama foram o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), a Superintendência da Borracha

(SUDHEVEA), a Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) e a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema).
20 Regulamenta a Lei nº 9.649, de 27 de maio de 1998, que dispõe sobre a organização da Presidência da República.

24
POLÍTICAS PÚBLICAS CONTEMPORÂNEAS

O que observamos, nos dias de hoje, é o ordenamento pesqueiro dividido, principalmente, entre dois órgãos
governamentais, com objetivos e linhas de conduta bem distintos: a SEAP/PR e o Ibama.

A Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca

A SEAP/PR (Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca) tem o objetivo de assessorar o Presidente da República na
formulação de políticas e diretrizes para o desenvolvimento e fomento da produção pesqueira. Em especial, promover
a execução de programas e projetos de apoio ao desenvolvimento da pesca artesanal e industrial. Entretanto, a
gestão dos recursos pesqueiros sobrexplotados ou ameaçados de extinção permanecem sob a responsabilidade do
Ibama. Paiva (2004) já previa que a SEAP/PR nasceria com as mesmas competências que as do DPA, o que sugeriria a
continuação de conflitos institucionais com o Ibama, o que de fato veio a ocorrer.

Entre as ações desta Secretaria podemos citar o investimento na frota com construção, reforma e nacionalização
das embarcações (Pro-Frota); incentivo na infraestrutura de desembarque (Cipar e TPP21); monitoramento por
satélite; subvenção do óleo diesel; melhoria nas condições de trabalho através da estruturação das comunidades
pesqueiras (fábricas de gelo, obras nos atracadouros), além de outros programas, como Pescando Letras, Telecentro
Maré, Valorização do Pescador Profissional (Registro Geral da Pesca/RGP). Diante do cenário da pesca fluminense,
apresentamos na Tabela I algumas observações acerca destas ações.

O Ibama e a Pesca

Compete ao Ibama o gerenciamento pesqueiro das espécies em risco de extinção e das sobre-explotadas ou ameaçadas
de sobre-explotação, estabelecidas por necessidade de definição pela IN Ibama nº 05/04. Grande parte dos recursos
pesqueiros, alvo de inúmeras pescarias e algumas das principais espécies da fauna acompanhante estão relacionados
nesta instrução normativa, o que concede ao Ibama a responsabilidade e poder de gerenciar a operação e área de
atuação de quase a totalidade22 das modalidades de pesca costeira existentes em nosso litoral.

21 Centro Integrado para a Pesca Artesanal (CIPAR) e Terminal Pesqueiro Público (TPP)
22 Destaca-se como exceção o Ordenamento de Atuns e Afins, que é de responsabilidade da SEAP/PR.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 25


Tabela I - Considerações do setor acerca dos principais programas governamentais23

Observamos, nestes últimos anos, uma adequação das medidas do Ibama ao estabelecido no Artigo 187 da Constituição
Federal, que define que toda política pesqueira seja planejada e executada com a participação efetiva do setor de
produção. Esta adequação se desenvolve principalmente em planos de gestão de alguns recursos, ou pela abertura
de representação do setor em diferentes comitês e grupos de estudo. Esta nova postura é bem-vista e valorizada pelo
setor produtivo, que solicita, rotineiramente, pequenas adequações na sua representatividade nestes comitês e grupos
de trabalho e na abrangência da pauta “pesqueira” sobre outros temas, como o licenciamento de empreendimentos e
atividades marítimas, o controle de poluição e principalmente sobre a fiscalização ambiental.

23 Estes posicionamentos foram registrados a partir da participação dos autores em diferentes reuniões com o setor, bem como divulgados

na publicação do Saperj, a Revista Pesca e Mar.

26
Este último tema é um dos mais assinalados pelos pescadores, pesquisadores ou governo como a base estrutural para
a reformulação da consciência pesqueira, exigindo comprometimento político com a destinação de recursos para
as atividades de fiscalização específicas para o setor, adequação da legislação ambiental e pesqueira (atualmente
desconhecidas ou ineficazes) e incentivo para a pesquisa pesqueira.

PESCADORES FLUMINENSES E SUAS CONDIÇÕES DE TRABALHO

A problemática de conceituação e caracterização do setor

A pesca marítima no Brasil pode ser classificada, segundo sua


finalidade ou categoria econômica em:

- Pesca amadora;
- Pesca de subsistência;
- Pesca artesanal (ou de pequena escala); e
- Pesca empresarial/industrial.

A pesca amadora tem a finalidade de turismo, lazer ou desporto, e


seus produtos não podem ser comercializados ou industrializados. A
pesca de subsistência visa à obtenção do alimento e é praticada com
técnicas rudimentares, não tendo como objetivo a comercialização.
A pesca artesanal é aquela com o objetivo comercial, praticada com
finalidade de subsistência e de comercialização, ou ainda realizada
como atividade alternativa sazonal (Dias-Neto, 2002).

Diegues (1983), por sua vez, faz uma caracterização da atividade e


de seus trabalhadores. Ele distingue a atividade pesqueira em:

a) produção de autossubsistência;
b) produção realizada nos moldes da pequena
produção mercantil; e
c) produção capitalista.

A produção realizada nos moldes da pequena produção mercantil


engloba a produção dos pescadores-lavradores e a dos pescadores

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 27


artesanais. Já na produção capitalista, o autor identifica outras duas formas de organização, a produção dos armadores
e a das empresas de pesca.

Maldonado (1993) aponta que a diferença entre a pesca artesanal e a industrial, em países cujas políticas públicas
enfatizam a pesca profissional - como é o caso do Canadá e países escandinavos – é que os pescadores conseguem
modernizar suas atividades, incorporando equipamentos eletrônicos e de segurança náutica, o que favorece a redução
da dicotomia pesca simples/pesca industrial, mantendo-a mais nas relações sociais de produção do que no nível
tecnológico das pescarias. Já em países asiáticos e da América Latina, as diferenças encontram-se nestes dois âmbitos,
o tecnológico e o social, que é assinalado pela autora como a medida catalisadora de conflitos na evolução da pesca
nestes países.

Apesar da frequente categorização da pesca em artesanal e industrial, o que se observa é que a atividade apresenta um
dinamismo próprio, dificultando uma classificação precisa, tanto da atividade quanto dos trabalhadores nela envolvidos.
Em função deste cenário, vários atores têm optado por se referir à atividade pesqueira como de pequena, média e
grande escala. Cabe dizer, também, que não existe uma classificação ou lei que defina claramente características para a
pesca artesanal e para a industrial. O que encontramos na legislação é a classificação dos pescadores em profissionais,
amadores ou científicos, que podem atuar na pesca industrial ou artesanal.

Quando se trata dos pescadores, mencionamos a classificação da SEAP/PR e da Previdência Social. A Instrução Normativa
03 (12/5/2004) (SEAP/PR), que dispõe sobre o Registro Geral da Pesca (RGP), categoriza os pescadores profissionais em
artesanais e industriais. Pescador Profissional é a pessoa maior de 18 anos que faz da pesca sua profissão ou meio
principal de vida, podendo atuar no setor pesqueiro industrial ou artesanal.

Pescador Profissional Industrial: é aquele que tem vínculo empregatício e exerce sua atividade em embarcações
pesqueiras de armadores de pesca ou de indústrias.

Pescador Profissional Artesanal: é aquele que, com meios de produção próprios, exerce sua atividade de forma
autônoma, individualmente ou em regime de economia familiar, ou com o auxílio eventual de parceiros, sem vínculo
empregatício.

A Previdência Social, além dos aspectos mencionados, faz referência à embarcação. Caso o pescador artesanal utilize
embarcação, esta deverá ter até seis toneladas de arqueação bruta (TAB). Ainda que, com auxílio de parceiro, na
condição exclusivamente de parceiro outorgado, utilize embarcação de até 10 TAB.

Em termos sociológicos e antropológicos, encontramos uma vasta bibliografia acerca das práticas artesanais, enquanto
os pescadores industriais, aparentemente, não têm sido objeto de estudo nesta área do conhecimento. Uma possível
explicação é que os pesquisadores das ciências humanas se dedicam, em grande medida, às práticas culturais das
populações tradicionais. Verificamos algumas referências aos trabalhadores da pesca industrial nas publicações
referentes à gestão dos recursos pesqueiros, realizadas, entre outros, por biólogos e ecólogos. Este fato dificulta o
entendimento das particularidades desse segmento profissional. Tendo em vista a importância do tema, e para que
possamos nos apropriar de elementos já existentes, tomaremos como fio condutor desta seção fundamentalmente as
ideias propostas por Diegues (1983).

28
PESCADORES E SUAS PESCARIAS

Diegues (1983) afirma que, em linhas gerais, a pesca realizada nos moldes da pequena produção mercantil (pescadores-
lavradores e pescadores artesanais) pode ser definida como aquela que, na captura e desembarque de pescado, os
pescadores se organizam para o trabalho baseado na família (nuclear ou extensa) ou pelas relações de amizade e
compadrio. Os equipamentos de pesca (embarcação e petrechos) são de propriedade familiar ou individual. A
embarcação não é somente um meio de produção, mas é, também, um meio de transporte. O proprietário da
embarcação é, normalmente, um dos pescadores que participa como os demais de toda a atividade de pesca. Os
barcos geralmente têm pouca autonomia e as artes de pesca apresentam reduzida capacidade de captura, trabalhando
principalmente em águas costeiras e abrigadas.

Para o autor, os pescadores-lavradores são aqueles que têm na agricultura sua atividade principal, sendo a pesca
realizada como atividade complementar nos períodos de maior abundância de pescado. A família, ao mesmo tempo
que lida na terra, se organiza nas pescarias, principalmente os homens, ficando as mulheres com as tarefas realizadas
em terra. As embarcações geralmente não são motorizadas e sua atuação é restrita. Por isso, as artes fixas, como
curral e cerco, são as utilizadas. Este fato também condiciona que a atividade seja realizada em locais abrigados. Os
conhecimentos que viabilizam as pescarias (confecção dos petrechos de pesca, a identificação dos cardumes) são
passados de geração a geração. O intermediário é o mesmo que compra o excedente agrícola e revende o pescado nas
cidades e vilarejos próximos.

Nesta categoria podemos incluir as populações caiçaras24. Os caiçaras tiveram sua origem na economia agrícola.
Embora, com a introdução das tecnologias para a pesca (barco a motor) e o desenvolvimento do país (estradas
e formação dos grandes centros), entre as décadas de 1930 e 1950, tenha surgido, nos anos 1970, a concepção do
caiçara como pescador tradicional ou embarcado, que tem na agricultura uma atividade complementar (Adams, 2000).
Assim, a combinação entre a pesca e a agricultura, mesmo que em diferentes intensidades e regularidades, parece ter
garantido a sobrevivência dessas populações. Existem comunidades caiçaras que se dedicam mais à pesca e outras
mais às atividades na terra (seja agricultura ou extrativismo) e, por esta razão, há dificuldade de consenso acerca de
uma classificação para pescador-lavrador como um agricultor que pesca ou um pescador que planta.

Seguindo a classificação feita por Diegues (1983), na produção da pesca artesanal cabe mencionar algumas
características que os diferenciam dos pescadores-lavradores. Neste caso, a pesca passa a ser a atividade principal e,
portanto, a principal fonte de renda. As embarcações geralmente são motorizadas, e, consequentemente, têm maior
autonomia - que lhes permite pescarias mais longas, com a utilização de redes de náilon e aparelhos semimecanizados.
Para Haimovici (1997), as embarcações têm até 20 toneladas de registro bruto (TRB) e utilizam diversas artes de pesca em
águas interiores, estuarinas ou costeiras25. O pescado capturado é destinado à venda e sua comercialização é realizada

24 O termo caiçara tem origem no vocábulo tupi-guarani caá-içara, que era utilizado para denominar as estacas colocadas em torno das

tabas ou aldeias, e o curral feito de galhos de árvores fincados na água para cercar o peixe. Com o passar do tempo, passou a ser o nome
dado às palhoças construídas nas praias para abrigar as canoas e os petrechos dos pescadores e, posteriormente, passou a ser o nome
dado a todos os indivíduos e comunidades do litoral dos Estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro (Adams, 2000:146).
25 Esta capacidade da embarcação também é utilizada pelas estatísticas oficiais (Cardoso, 2001).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 29


para firmas e, em menor escala, pelos atravessadores. Estes, em alguns casos, se apropriam de grande parte da renda
dos pescadores. A família, enquanto grupo social de trabalho, já não é tão representativa. Exigem-se conhecimentos
especializados (tripulação mais especializada) e as novas formas de partilha introduzidas (remuneração por partes
sobre o valor da captura e os pescadores recebem em dinheiro) podem sugerir que nem sempre é interessante ter
um parente como camarada. Assim, a igualdade social observada para os pescadores-lavradores já não existe mais na
pesca artesanal, podendo ou não o proprietário dos meios de produção participar das pescarias.

Para Diegues (1983) existem aspectos caracteristicamente relacionados à pesca artesanal, entre eles, os conhecimentos
adquiridos com a experiência e com histórias de gente mais experiente. Isto diferencia o saber–fazer e a sabedoria
destes pescadores. A sabedoria não é simplesmente saber usar/manusear os petrechos, mas, fundamentalmente,
quando e onde utilizá-los. A amizade e o companheirismo são fundamentais enquanto elementos de coesão do grupo
envolvido na atividade, pois, além de terem carteira de pescador e de estar associado a uma entidade representativa
de classe, ser pescador é ter vocação e fazer parte de um grupo que domina os segredos do mar. O domínio da arte
exige qualidades físicas e intelectuais conseguidas somente com a experiência, como, por exemplo, conhecer as áreas
de pesca e saber lidar com os perigos do mar. Manter em segredo a localização de um bom pesqueiro é fundamental
para guardar a propriedade do local de pesca. Dias-Neto et al. (2008) em pesquisa na Lagoa Feia (RJ) fazem alguns
comentários acerca do sigilo dos pesqueiros. No caso estudado, os pescadores são donos de um segredo legítimo, o
local de um pesqueiro. Portanto, têm o direito de protegê-lo, seja pelo silêncio (omissão) ou pela dissimulação (mentira).
Se a mentira literalmente é o engano dos sentidos e o ato de dizer mentiras é a indução ao erro, inventar histórias
enganosas sobre onde, como e quanto se pescou, parece ter um sentido bastante peculiar. Os autores mencionam que,
dentro da política do sigilo, o direito de mentir é garantido.

Diegues (1983) também identifica a pesca industrial como a produção capitalista dos armadores e das empresas de pesca.
Em ambos os casos, eles visam converter o total da produção em mercadoria (Adams, 2000). Na produção capitalista dos
armadores26, as embarcações são motorizadas, com maior autonomia e dispõem, ainda, de equipamentos auxiliares à
pesca, como equipamentos para identificação dos cardumes. Isto exige algum treinamento formal para determinadas
funções. Os armadores são proprietários das embarcações e dos petrechos de pesca, e não participam de modo direto
do processo produtivo - função que é delegada ao mestre do barco. Entretanto, no Rio de Janeiro, em alguns casos, os
armadores participam do processo, seja na função de mestre ou como responsável pela descarga e comercialização
do pescado. Entre as diferentes atribuições dos pescadores, Diegues (1983) cita o motorista (responsável pela casa de
máquinas); o cozinheiro (encarregado pela alimentação); os homens de convés (com responsabilidade pelas redes e
captura propriamente dita) e o gelador.

Conforme o autor, geralmente, o mestre é proveniente da pesca artesanal e detém o conhecimento dos pesqueiros
do melhor momento de fazer um lance. Ele é responsável pela navegação (deve conhecer as cartas de navegação, as
leis de tráfego marítimo e ler os símbolos dos equipamentos de navegação). A ele é delegado o poder de gerenciar a
pescaria e, por conta disso, há um certo isolamento, sendo uma figura quase mística. Atualmente, o mestre deve possuir
carteira de patrão de pesca, obtida através de curso de capacitação a cargo da Marinha. O motorista é responsável por
manter o funcionamento do barco e sua função é considerada a segunda mais importante. O gelador cuida do bom
andamento da conservação do pescado. O cozinheiro é quem prepara as refeições. Os demais trabalhadores, os do
convés, são responsáveis por lançar, recolher a rede e descarregar o pescado. Em alguns casos exige-se treinamento
formal, contudo isso não substitui completamente o saber-fazer dos pescadores e, sobretudo, o do mestre. O sistema
de remuneração se dá por partes; entretanto, alguns cargos são remunerados por salário.

26 Os armadores de pesca podem ser pessoas físicas ou jurídicas e podem ter uma ou mais embarcações.

30
Na pesca industrial empresarial, a empresa é proprietária das embarcações e dos petrechos de pesca. A empresa
geralmente está organizada em diversos setores e, em alguns casos, congrega as etapas de captura, beneficiamento e
comercialização do pescado. As embarcações dispõem de mecanização não só para deslocamento, mas também para o
desenvolvimento das fainas de pesca, como o lançamento e recolhimento das redes. Ainda contam com equipamentos
para localizar os cardumes e auxiliar na navegação27. Diegues (1983) ainda afirma que a mão-de-obra é recrutada entre
pescadores de pequena escala ou nos barcos de armadores (necessitando de treinamento específico para a operação
da maquinaria disponível). Neste sentido, Adams (2000) refere-se a um estudo de 1979, em Santa Catarina, no qual a
pesca embarcada garantia a continuidade da pesca artesanal, na medida em que o recurso obtido na pesca de grande
escala era investido na pesca artesanal. Maldonado (1993) relata as experiências, frustrações e aprendizados de um
mestre da pesca artesanal paraibano na pesca industrial da sardinha, entre São Paulo e Santa Catarina, na chamada
“pesca de português”. Aponta que esta migração/recrutamento de mão-de-obra é compreendida pelos mestres
artesanais como uma busca de novas técnicas, novas experiências em novos mares, que termina por incorporar outras
relações sociais em sua comunidade.

Os trabalhadores também são remunerados por partes (calculadas sobre o valor global da produção), apesar de
ser comum o regime de salário mensal ou semanal (salário fixo) para as funções de motorista e cozinheiro, que não
participam diretamente da captura de pescado. O percentual recebido depende de cada função na embarcação. Pode
variar conforme acordado entre patrão e empregado e, também, conforme a modalidade de pesca. Para Diegues
(1983), na equipe de trabalho das grandes embarcações já não existe mais o grupo de companheiros, pois eles podem
ser contratados de diferentes locais e não constituem um grupo permanente. Para alguns pescadores provenientes da
pesca artesanal, estar na pesca de grande escala pode representar a desqualificação de sua profissão. Uma vez que o
conhecimento empírico, que constitui o cerne do seu trabalho, é “substituído” pelos equipamentos, como aqueles que
permitem a identificação de cardumes. Há registros de que nos anos da introdução destes equipamentos (ecosonda e
piloto automático) alguns mestres os destruíam com medo de serem substituídos por eles.

A classificação feita por Diegues (1983), apesar de antiga, ainda é utilizada inclusive como referência nos documentos
oficiais. Contudo, seria importante um esforço no sentido de verificar se atualmente ela ainda dá conta das
particularidades da pesca fluminense. Existem dados dos trabalhadores e das formas de operação, mas é necessário
sistematizá-los e/ou reforçá-los através de levantamentos da frota. Somente a partir do conhecimento e da reunião
destas informações seria possível estabelecer critérios regionais que permitissem classificar a pesca artesanal e
industrial e/ou de pequena, média e grande escala. As dificuldades de classificações, por conta da escassez de
informações sistematizadas, resultam também na dificuldade de identificação das prioridades para o direcionamento
das ações públicas. O cenário exposto nas próximas seções ilustrará a realidade fluminense, que reforça a urgência de
ações direcionadas e em consonância com as particularidades estaduais.

Trabalhadores da Pesca no Rio de Janeiro

Os dados do Recadastramento Nacional dos Pescadores do Brasil (SEAP/PR, 2006) indicaram que o Rio de Janeiro era
o 10º estado com maior número de pescadores registrados no RGP, sendo 3,4% do número total de pescadores do
Brasil28. Na região Sudeste a concentração de pescadores registrados no RGP está em São Paulo (16.167 pescadores
27 Diegues (1983) afirma que o rádio passou a ser um instrumento de comunicação importante para controlar, por terra, o processo de

captura. Contudo, atualmente, as embarcações industriais estão equipadas com rastreadores por satélites.
28 O Rio de Janeiro ficou atrás dos Estados do Pará (77.133; 19,74%), Maranhão (45.726; 11,70%), Bahia (36.851; 9,43%), Santa Catarina

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 31


ou 33,05%), seguido do Rio de Janeiro (13.305 pescadores ou 27,20%). Conforme a SEAP/PR (2006), são 11.064 homens
(83,16%) e 2.241 (16,84%) mulheres envolvidos na atividade no Estado do Rio de Janeiro (Figura 1). Dados mais recentes
apresentados pela SEAP/PR, em Brasília, por ocasião da 2ª Oficina de Trabalho para o Desenvolvimento do Plano
Nacional de Monitoramento da Pesca, em 2008, demonstraram um total de 14.874 pescadores registrados no Rio de
Janeiro.

Figura 1
Distribuição por região dos pescadores ao longo do território brasileiro.

Adaptação SEAP/PR (2006). Resultados do Recadastramento Nacional dos Pescadores do Brasil.

A Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj) realizou um levantamento preliminar junto às colônias
de pesca do estado e registrou aproximadamente 32.187 pescadores que estariam concentrados nas regiões da Baía da
Guanabara e Região dos Lagos (Tabela II29) (SEAP/Ibama/Prozee, 2005). Entretanto, estima-se que existam cerca 60 mil
pescadores no Estado do Rio de Janeiro, entre os trabalhadores no segmento artesanal e industrial; contudo, não há
registros oficiais que confirmem estes números.

(24.922; 6,38%), Amazonas (22.760; 5,82%), Rio Grande do Norte (19.934; 5,10%), Rio Grande do Sul (16.467; 4,21%), São Paulo (16.167;
4,14%), Ceará (15.094; 3,86%).
29 Os dados da Fiperj foram levantados em 2008, através de contato telefônico com as lideranças das colônias de pescadores, que

representam o setor artesanal. Cabe mencionar que há casos em que não há registros ou não foi possível contatar o representante ou os
mesmos não informaram o número de associados. Estes dados representam uma estimativa, pois de modo geral não existem informações
precisas acerca dos pescadores cadastrados.

32
Tabela II - Estimativa do número de pescadores vinculados às colônias de pescadores do Estado do Rio de Janeiro.
Informações levantadas pela Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj), em 2008.

Apesar dos esforços empreendidos pela SEAP/PR, no Rio de Janeiro, o trabalho de cadastramento e recadastramento
dos pescadores ainda não está concluído. Isto se deve à falta de recursos humanos da instituição e à dificuldade de os
pescadores acessarem o único escritório da SEAP/PR (por ele estar localizado na capital fluminense). Assim, parcerias
institucionais poderiam auxiliar na ampliação do número de pescadores registrados junto a SEAP/PR. Outra questão
que ainda dificulta o acesso ao RGP é a falta de documentação básica (RG e CPF) dos pescadores.

A SEAP/PR (2006) divulgou informações acerca da escolaridade dos pescadores brasileiros. A partir destes dados,
observamos que a situação é muito similar, a nível nacional, inclusive naqueles estados que contam com maiores
incentivos para a pesca, Santa Catarina e São Paulo, como pode ser observado na Tabela III.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 33


Tabela III - Grau de instrução baseado no número de pescadores, com Registro Geral da Pesca (RGP), nos Estados do
Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Fonte: Adaptação SEAP/PR (2006). Resultados do Recadastramento Nacional
dos Pescadores do Brasil.

Este cenário indica que os pescadores carecem de educação básica, como a maioria da população brasileira. Apesar
de existirem programas de alfabetização específicos, como o Programa Pescando Letras (SEAP/PR)/Brasil Alfabetizado
com certa flexibilidade de horários e intensificação da carga horária durante os períodos de defeso, estes não
encontram público no grupo dos pescadores. Entre os principais limites temos que certas categorias de pescadores
passam semanas no mar. Outras, ao final de uma pescaria, precisam se dedicar a diferentes atividades, mesmo que seja
o descanso ou lazer, e não dispõem de tempo para uma rotina em sala de aula. Cabe mencionar também que ainda
é forte a expectativa de assistencialismo. Não é raro os pescadores terem expectativa de receber algum beneficio
financeiro (bolsas) para se engajar em programas de cunho social. Carvalho e Callou (2008) observam que, o fato de o
programa Pescando Letras estar ligado ao Programa Brasil Alfabetizado, faz com que os pescadores não distingam ou
não privilegiem a proposta do Programa da SEAP/PR. Os autores ainda discutem que o Pescando Letras perde sentido
quando há diferentes públicos assistindo a um curso, pois a junção de dois programas poderia intimidar a participação
dos pescadores em programas não específicos para a pesca. Para Carvalho e Callou (2008: 70), o resultado de tal junção
só colabora com a não inclusão educacional proposta pelo Pescando Letras, já que o cumprimento das exigências
formais não é levado em consideração. O grau de instrução dos trabalhadores da pesca tem consequência direta tanto
nas condições de trabalho como no que concerne à profissionalização e legalização da atividade.

CONDIÇÕES DE TRABALHO NA PESCA FLUMINENSE

Conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a pesca se caracteriza por ser uma das profissões mais
perigosas. Cerca de 24.000 pescadores e pessoas ligadas ao setor morrem a cada ano (Colucci e Souza, 2001). Por
conta das condições de trabalho (muitos dias de mar, o reduzido espaço de circulação, a falta de manutenção dos
equipamentos e a realização de movimentos repetitivos), os pescadores se envolvem em acidentes e podem desenvolver
doenças ocupacionais (Santanal et al., 2006). Além disso, as condições de instabilidade da atividade, tanto em termos
sociais quanto materiais, se traduzem em um estado de tensão físico e psíquico permanentes, como apontam Pimenta
e Vidal (2000).

34
Esses autores argumentam que o estresse relacionado com o trabalho na pesca é um problema organizacional, não uma
fragilidade do indivíduo, sendo necessário identificar e reduzir as principais causas desse estresse, através da melhoria
da planificação do trabalho e das condições de vida a bordo, o que pode reduzir o risco de doenças relacionadas. Neste
contexto, o álcool e outras drogas estão, em certa medida, incorporados à cultura dos trabalhadores da pesca, uma
vez que, conforme a análise de Mariz (2003), o álcool dá coragem e ajuda as pessoas a enfrentar as situações de risco
e de medo, assim como a religião. O álcool é também um elemento de socialização, tanto em terra quanto quando
embarcados. Entretanto, o uso de substâncias que alteram os sentidos pode ampliar os riscos de acidentes quando
embarcados.

Vários outros fatores podem levar os trabalhadores a sofrer injúrias, como por exemplo, cortes e perfurações devido à
utilização de facas, redes, anzóis; queimaduras pelos mecanismos de defesa dos animais marinhos; machucados por
espinhos e dentes do pescado. Entre as doenças que os pescadores podem desenvolver, destacam-se a labirintite,
dores de cabeça, tonturas, insônias, problemas de visão e até mesmo cegueira por conta da radiação solar. A perda de
audição, em função dos ruídos do motor, bem como desmaios e tonturas, por conta da inalação dos gases provenientes
da queima de óleo, também são frequentes (SEAP/PR, 2007). Devem-se mencionar os riscos ergonômicos resultantes
de empurrar e lançar o barco no mar, tirar a rede, pegar a caixa de gelo do chão, carregar caixas de pescado, tambores
de água e galões de óleo. Outras atividades como a confecção de redes, a limpeza de camarões e o trabalho das
descarnadeiras e desconchadeiras podem causar lesões por esforço repetitivo (LER), conhecidas no passado como
“doenças de velho”, por serem as pessoas mais velhas que se dedicavam a estas atividades (SEAP/PR, 2007).

Com a redução da qualidade ambiental da região costeira e a consequente queda na produção, a pressão por retorno
financeiro levou as pequenas embarcações, que geralmente atuavam próximo à costa, a se deslocar para locais mais
distantes. Isto significa dizer, em áreas não autorizadas pelas Capitanias dos Portos, criando um cenário ampliado
de risco aos embarcados. Apesar das tecnologias atualmente disponíveis, a maioria das embarcações de pequeno
porte não possui equipamentos fundamentais para a segurança do trabalho e do trabalhador, com exceção dos
barcos maiores que contam com algum investimento dos proprietários (armadores e empresas). Na pesca artesanal,
os acidentes de trabalho acontecem por as embarcações não possuírem equipamentos de segurança e salvatagem
(rádio-comunicador VHF, coletes salva-vidas, boias e sinalizadores) (SEAP, 2007), também pelo fato de os pescadores
não estarem capacitados a utilizá-los e/ou consertá-los.

Outro fator que amplia as possibilidades de acidentes é que a frota pesqueira é antiga e não acompanhou a modernização
das normas de segurança do trabalho. Além disso, é comum as embarcações terem passado por reformas em que
mudaram sua estrutura para atender a uma pescaria diferente daquela para a qual foram originalmente construídas.
Freitas (2000) assinala que não houve investimento no sentido de trocar as embarcações mais antigas, de madeira,
pelas de aço. O autor verificou que no Sudeste brasileiro, nos anos 1990, a idade média das embarcações era de 21 anos,
sendo, na sua maioria, de madeira. Estes dados são reforçados ao observarmos a Tabela IV, que mostra o atual cenário
das embarcações industriais associadas ao Saperj.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 35


Tabela IV - Composição da frota vinculada ao Saperj.

Fonte: Saperj (2008), Documento com colaborações para adequação do PROFROTA.

Pimenta e Vidal (2000) realizaram uma pesquisa na região de Cabo Frio (RJ), entre 1995 e 1998, onde foram registrados,
pela Estação Costeira Cabo Frio Rádio, 40 acidentes de trabalho. Na área, a frota pesqueira é composta, principalmente,
por embarcações de pequeno e médio porte, apresentando uma minoria de barcos de grande porte ou industriais. Dos
40 acidentes, seis (15%) ocorreram com embarcações de capacidade maior ou igual a 20 TAB e 34 (85%) com barcos de
capacidade inferior. O número de mortes e de feridos registrados foi de 34 em ambos os casos, com uma média de 10
acidentes/ano.

Ainda segundo o estudo de Pimenta e Vidal (2000), o tipo de “acidente” mais frequente (n=24, 60%,) foi relativo a
problemas nas máquinas (motores, alternadores, bateria, falta de óleo, perda de hélice etc.), evidenciando a falta de
manutenção dos equipamentos. Os naufrágios (n=3) e emborcamentos (n=3) (7,5%) totalizaram, respectivamente,
12 e 20 feridos e 7 e 12 mortes. Os albaroamentos (n=2), encalhes (n=2), desaparecimentos (n=2) e derivas (n=2) de
embarcações ocuparam o terceiro lugar em número de ocorrências (5%). A queda de um pescador na água e o ferimento
de um tripulante teve uma ocorrência cada, a frequência foi de 2,5%, sendo que as duas pessoas morreram. No que
diz respeito ao número de feridos e mortes em cada tipo de acidente, esta pesquisa mostrou que os albaroamentos
tiveram cinco feridos; os encalhes perfizeram dois feridos e duas mortes; os desaparecimentos contabilizaram 10
mortes e os barcos que ficaram à deriva resultaram na morte de um tripulante. Entre as causas de cada modalidade de
acidente, os autores apontam para as más condições climáticas e do mar (naufrágios); à falta de estabilidade do barco
ocasionada, em sua maioria, por transformações das embarcações de uma arte de pesca para outra (emborcamentos e
desaparecimento de embarcação), navegar na rota da frota da Marinha Mercante e não possuírem equipamentos como
refrator de radar e rádio a bordo (albaroamento); a problemas técnicos, condições climáticas desfavoráveis e deriva em
local inadequado.

A qualificação profissional é o melhor caminho para reduzir os acidentes de trabalho, contribuindo também para a
formalização e profissionalização do setor. Pimenta e Vidal (2000) apontam para o fato de muitos acreditarem que
os acidentes da pesca são inerentes à atividade, concepção esta que deve ser re-elaborada, trocando a posição de
indiferença para a de formação em seguridade. Atualmente, existem normas que deveriam ser seguidas e opções de
qualificação profissional. Muitos dos cursos oferecidos e exigidos, como os da Marinha, exigem primeiro grau completo,
acabando por não possibilitar que o pescador tenha acesso à documentação necessária para o exercício da atividade,
e continue assim na ilegalidade. A formação, a capacitação e a atualização dos pescadores em relação às condições

36
de trabalho, uso de sondas, sonares, GPS, rádios, manutenção e conserto de equipamentos, primeiros socorros são
fundamentais para evitar os acidentes no setor pesqueiro. Entretanto, também ficam limitadas por conta do nível de
instrução da categoria e da possibilidade de aquisição destes equipamentos.

Assim, fica clara a urgência de estimular as categorias profissionais de pescadores no sentido de atender aos programas
de educação básica. Além disso, é preciso um programa de qualificação continuada e de qualidade que permita à
classe destes trabalhadores ter acesso às novas tecnologias. Contudo, vale sinalizar para o fato de que programas de
qualificação perdem sentido se não estiverem vinculados a estratégias de aquisição de equipamentos necessários para
as melhorias das condições de trabalho, especialmente quando se trata da pesca artesanal.

Entre as possibilidades de captação de recursos, temos os editais públicos de seleção de projetos e as linhas de
crédito. Entretanto, é pertinente que se façam algumas considerações. No que diz respeito aos editais, uma questão
a ser levantada está centrada no acesso à informação e a segunda é que a elaboração de projetos fica limitada por
conta do grau de instrução da grande maioria dos pescadores. Em relação às linhas de crédito menciona-se a falta de
esclarecimentos e as limitações impostas em função do índice de inadimplência. Não se poderia deixar de mencionar
as dificuldades enfrentadas em relação ao gerenciamento dos empreendimentos viabilizados por estes ou outros
recursos. Pescadores que já foram beneficiados mencionam a dificuldade no pagamento das taxas que são impostas a
partir da nova realidade. Por um lado, é preciso investir em um trabalho de sensibilização e de estímulo, que permita ao
pescador vislumbrar as possibilidades de mudança de sua realidade; por outro, é fundamental que os pescadores saiam
da posição atual, herança de muitos anos, de uma política assistencialista, em que esperam receber gratuitamente do
poder público os bens para melhoria das condições de trabalho, para um posicionamento ativo, de atores sociais,
participativos e corresponsáveis.

A partir do cenário apresentado, podemos dizer que as relações de trabalho na pesca são marcadas pela informalidade
e que a falta de sistematização de informações e de qualificação dos pescadores dificulta que políticas públicas sejam
concebidas e implementadas. Caberia assinalar, também, que em grande medida os pescadores não tem acesso às
proteções trabalhistas e previdenciárias, ou mesmo às normas de segurança e saúde no trabalho, tanto por falta de
conhecimento como pela falta de investimento dos donos das embarcações.

Os pescadores fluminenses, através de suas entidades representativas30, apontam para uma série de demandas.
Na ocasião do I Encontro Estadual de Gestores e Representantes das Comunidades Quilombolas, Assentamentos,
Acampamentos, Indígenas e Pescadores Artesanais, em 2008, entre as demandas dos pescadores está a necessidade:

1) de um cadastro estadual das doenças decorrentes da atividade pesqueira, inclusive em função da


poluição que afeta a saúde dos pescadores e consumidores habituais de pescado;
2) da eficiência da estatística pesqueira, a fim de se conhecer a produção pesqueira/PIB da pesca;
3) do resgate e valorização da cultura e educação; e
4) da redução da burocracia no acesso ao Pronaf.

30Os pescadores fluminenses estão organizados em 25 colônias, congregadas na Federação das Colônias de Pescadores do Estado do Rio
de Janeiro (Feperj); associações ligadas à Federação das Associações dos Pescadores Artesanais do Estado do Rio de Janeiro (Fapesca) e
à União das Entidades de Pesca e Aquicultura (UEPA); 3 cooperativas de pesca e Sindicato dos Pescadores dos Estados do Rio de Janeiro
e Espírito Santo.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 37


Além disso, já em 1998, durante o I Encontro Nacional sobre Segurança e Saúde na Atividade Pesqueira (Cabo Frio), o ex-
presidente do Saperj, Sr. Ignácio Balthazar do Couto, declarou: “1) Todos os barcos deveriam ser cadastrados e identificados.
Precisamos saber quantos somos e quem somos; 2) A partir do momento que exista registro e cadastramento, poderá existir
uma fiscalização real, eficiente e saneadora. Com isso, conseguiremos tirar a pesca da clandestinidade. No momento o mar é
um grande camelódromo; 3) É necessário facilitar a matrícula do pescador para acabar com a clandestinidade; 4) É urgente
uma parceria confiante, transparente, franca e honesta entre as autoridades e a atividade pesqueira. Somos cidadãos
conscientes de novos deveres e de nossos direitos. Temos responsabilidade social. É preciso um diálogo permanente entre a
atividade pesqueira, a Marinha e todas as autoridades governamentais. Só assim poderemos tirar a pesca da clandestinidade”
(Couto, 2000:131).

As demandas do setor para a melhoria das condições de trabalho na pesca, seja ela artesanal ou industrial, são antigas,
contudo, permanecem bastante atuais, indicando que apesar dos esforços implementados o cenário não apresentou
melhorias significativas. Cabe dizer também que os trabalhadores da pesca foram sendo incorporados a programas
sociais específicos, como as proteções trabalhistas e o seguro-desemprego, os quais serão analisados na seção
seguinte.

DIREITOS E BENEFÍCIOS SOCIAIS DOS PESCADORES PROFISSIONAIS

Benefícios previdenciários

Entre os benefícios da Previdência Social podemos citar aqueles referentes a aposentaria, auxílios maternidade,
doença, acidente, pensão por morte, entre outros, concedidos pelo Ministério da Previdência e Assistência Social
(MPAS). Existem particularidades conforme a categoria à qual pertencem os pescadores. De acordo com a legislação
previdenciária os segurados são classificados como obrigatórios ou facultativos. Os obrigatórios são as pessoas físicas
que trabalham como empregado, empregado doméstico, contribuinte individual, trabalhador avulso e segurado
especial. Os facultativos são aqueles que se filiam à Previdência Social por vontade própria. O contribuinte individual
presta serviços de natureza urbana ou rural, em caráter eventual, a uma ou mais empresas, sem relação de emprego,
ou, exerce, por conta própria, atividade econômica remunerada de natureza urbana, com fins lucrativos ou não. O
segurado especial é o produtor, o parceiro, o meeiro e o arrendatário rural, o pescador artesanal e o assemelhado,
que exerçam essas atividades individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com auxílio eventual
de terceiros, bem como seus respectivos cônjuges ou companheiros e filhos maiores de 16 anos de idade ou a eles
equiparados, desde que trabalhem, comprovadamente, com o grupo familiar respectivo.

Garrone-Neto et al. (2005) afirmam que os profissionais da pesca se dividem em quatro categorias: o empresário
empregador, o empregado, o pescador artesanal e o cooperado. É preciso que o empregado tenha a Carteira de
Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada e sua contribuição é feita pela empresa onde trabalha; o empresário e
o cooperado recolhem para a Previdência Social como contribuintes individuais. O pescador artesanal é considerado
segurado especial, contribuindo para a previdência conforme a comercialização do seu produto, e o pescador industrial
se enquadra como empregado regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

38
PESCADOR ARTESANAL ENQUANTO SEGURADO ESPECIAL

Os documentos legais que orientam a questão dos direitos e benefícios dos pescadores artesanais são: a Lei Federal
8.213 (24/07/1991), a Lei Federal 8.212 (24/07/1991) alterada pela Lei Federal 11.718 (20/06/2008), o Decreto Federal 3.048
(06/05/1999) e a Instrução Normativa 95 (07/10/2003).

Pelo Decreto 3.048/99, que regulamenta os Benefícios de Previdência e Assistência Social, considera-se pescador
artesanal31 aquele que exerce suas atividades individualmente ou em regime de economia familiar, fazendo da pesca
sua profissão habitual ou meio de vida, respeitando os critérios de utilizar embarcação. Caso utilize embarcação, esta
deverá ter arqueação bruta de até seis toneladas de arqueação bruta (TAB), ainda que com auxílio de parceiro. Na
condição exclusivamente de parceiro outorgado, utilize embarcação de até 10 TAB. O pescador que trabalha em regime
de parceria, meação ou arrendamento em embarcação maior a 6 TAB é classificado como contribuinte individual. A Lei
11.718 (2008) apresentou alguns avanços no que diz respeito à possibilidade de contratação de pessoal para auxiliar
no trabalho familiar, que antes não estava previsto: “O grupo familiar poderá utilizar-se de empregados contratados
por prazo determinado (...) em épocas de safra, à razão de, no máximo, 120 (cento e vinte) pessoas/dia no ano civil, em
períodos corridos ou intercalados ou, ainda, por tempo equivalente em horas de trabalho”.

Tendo em vista que para fins da legislação a atividade se realiza nos moldes da economia familiar, todos os membros
da família do pescador são registrados sob um único cadastro (Cadastro Específico do INSS ou matrícula CEI) ou ainda
pelo Número de Inscrição do Trabalhador (NIT). Para realizar este registro os pescadores devem apresentar a carteira
de identidade e o CPF.

A característica deste grupo de segurados é que suas contribuições serão mais uma forma de comprovar a atividade,
para fins da sua aposentadoria, do que propriamente a base de cálculo para o recebimento dos benefícios. De modo
geral, os benefícios previdenciários são da ordem de um salário mínimo e a carência é de um ano. O segurado especial
deve contribuir baseado na comercialização do seu produto. Conforme o montante comercializado, há um percentual
de 2,3%32 que deve ser pago no banco através de formulário específico. O valor mínimo aceito pelas agências bancárias
é de R$ 29,00. Isto significa que o segurado especial deve comercializar em torno de R$ 1.265,00 por mês para poder
pagar a referida taxa bancária. Contudo, em inúmeros casos, o segurado especial não consegue comercializar este
montante durante o mês. Assim, as contribuições não precisam ser mensais, mas cumulativas até perfazerem o valor
mínimo de recebimento.

31 Conforme a Lei 11.718 (20/06/2008), a definição legal de segurado especial é “a pessoa física residente no imóvel rural ou em aglomerado

urbano ou rural próximo a ele que, individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com o auxílio eventual de terceiros a título
de mútua colaboração, na condição de: (...) pescador artesanal ou a este assemelhado, que faça da pesca profissão habitual ou principal
meio de vida; e cônjuge ou companheiro, bem como filho maior de 16 (dezesseis) anos de idade ou a este equiparado, do segurado (...) que,
comprovadamente, trabalhem com o grupo familiar respectivo“.
32 Deste percentual, 2,0% são direcionados para a Seguridade Social; 0,1% da receita bruta proveniente da comercialização é destinado

para o financiamento dos benefícios em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do
trabalho (SAT); e, 0,2% para o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 39


O pescador precisa comprovar sua atividade para fazer jus aos benefícios, especialmente no caso da aposentaria. Esta
comprovação pode ser realizada inclusive através de documentos que já perderam a validade. Por isso, é fundamental
guardar documentos e carteiras antigos, pois irão comprovar que o pescador exerceu a atividade no período. Além
destes documentos para fim da aposentadoria, para os demais benefícios previdenciários outros documentos também
são aceitos, tais como:

a) declaração fundamentada de colônia de pescadores;

b) bloco de notas do produtor rural;

c) notas fiscais de entrada de mercadorias emitidas pela empresa adquirente da produção, com indicação do
nome do segurado como vendedor;

d) comprovantes de recolhimento de contribuição à Previdência Social decorrentes da comercialização da


produção.

PESCADORES PROFISSIONAIS INDUSTRIAIS

Por não atenderem os requisitos característicos de pescadores artesanais, os demais pescadores profissionais são
automaticamente classificados como pescadores industriais, usufruindo alguns benefícios e direitos. Estes profissionais
se enquadram como empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na pesca, os contratos de
trabalho são divididos em Vínculo Empregatício e Contrato de Parceria.

O Vínculo Empregatício é firmado entre alguns armadores/indústria com alguns funcionários de terra, denominados
encarregados, que são responsáveis pelo apoio logístico de suprimentos para a embarcação, pela formação de
equipe de trabalho e pelo acompanhamento: da descarga, manutenção, higienização, abastecimento e despacho
da embarcação. O Contrato de Parceria é firmado principalmente com a tripulação embarcada, sempre de maneira
complementar à anotação da Carteira de Trabalho e da Previdência Social (CTPS), respeitando todos os direitos
decorrentes. Normalmente, os pescadores entram apenas com sua força de trabalho, conhecimento e experiência,
não participando ativamente da administração das despesas de armação da embarcação, salvo algumas exceções
concedidas ao patrão-de-pesca (mestre da embarcação) ou cozinheiro para a compra do rancho, montagem de
equipamento e escolha de alguns fornecedores de insumos.

Os principais direitos dos pescadores profissionais com o vínculo de emprego são que apresentam CTPS anotada e
assinada e registro, na forma da CLT; remuneração mínima conforme estabelecido na Convenção Coletiva de Trabalho;
13º salário; férias anuais remuneradas de 30 dias acrescidas de 1/3; alimentação na embarcação; seguro contra acidentes
pessoais e FGTS, praticamente como os demais trabalhadores abrangidos pela CLT.

40
SEGURO-DESEMPREGO

O seguro-desemprego é um benefício integrante da seguridade social para os trabalhadores formais e tem por
finalidade promover a assistência financeira temporária ao trabalhador desempregado, em virtude da dispensa sem
justa causa. O valor varia com a faixa salarial e pode ser pago em até cinco parcelas, dependendo da situação do
beneficiário. Na pesca, o pescador artesanal tem direito a uma modalidade especial de seguro-desemprego, que é
o seguro-defeso33, enquanto os profissionais da pesca industrial têm direito ao seguro-desemprego, nos moldes do
trabalhador formal.

No caso dos pescadores artesanais, o seguro-defeso (Lei 10.779 de 25/11/2003) ou simplesmente “defeso”, está
diretamente associado aos períodos em que determinadas espécies estão mais vulneráveis, os quais são estabelecidos
pelo Ibama através de instrumentos legais. O número de parcelas pagas por este benefício corresponde ao período de
duração do período de defeso. O pescador pode iniciar o processo de requerimento a partir do 30º dia que anteceder o
início do defeso até o seu final. Entretanto, não são raras às vezes em que o pescador só recebe o seguro-defeso depois
de findado o período do defeso, fato que o leva a exercer a atividade de forma ilegal. Os critérios para a concessão do
seguro-desemprego aos pescadores artesanais foram estabelecidos pela Resolução Codefat 468 (21/12/2005) e estão
listados abaixo:

I. Ter registro como pescador profissional devidamente atualizado no Registro Geral da Pesca - RGP como pescador
profissional, classificado na categoria artesanal, emitido pela Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da
Presidência da República, com antecedência mínima de um ano da data do início do defeso;

II. Quando pescador profissional que opera, com auxilio de embarcação, na captura de espécies Marinhas, apresentar
cópia do Certificado de Registro da Embarcação, emitido pela SEAP/PR, comprovando que a permissão de pesca
concedida é direcionada para a captura da espécie objeto do defeso;

III. Possuir inscrição no Instituto Nacional do Seguro Social - INSS como segurado especial;

IV. Possuir comprovação de venda do pescado a adquirente pessoa jurídica ou cooperativa, no período
correspondente aos últimos doze meses que antecederam ao início do defeso;

V. Não estar em gozo de nenhum benefício de prestação continuada da Previdência Social, ou da Assistência Social
exceto auxílio-acidente e pensão por morte;

VI. Comprovar o exercício profissional da atividade de pesca artesanal objeto do defeso e que se dedicou à pesca,
em caráter ininterrupto, durante o período compreendido entre o defeso anterior e o em curso;

VII. Não ter vínculo de emprego ou outra relação de trabalho, tampouco outra fonte de renda diversa da decorrente
da atividade pesqueira.
33O período de defeso é a estratégia de controle de esforço de captura dos recursos pesqueiros mais susceptíveis, utilizada no gerenciamento
pesqueiro. Esta política tem ampla aceitação do setor produtivo, pois existe a compreensão da necessidade de se permitir um estoque
mínimo das espécies para a manutenção das futuras pescarias.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 41


Os pescadores industriais não têm direito ao seguro-defeso, mas sim ao seguro-desemprego, comum a todos
os trabalhadores regidos pela CLT. Em 2005, foi proposto o Projeto de Lei 5596/05, que ampliava o seguro para os
pescadores vinculados às indústrias, quando demitidos sem justa causa, em razão da interrupção da atividade
no período da paralisação. Contudo, ainda existem limitações para que os pescadores tenham acesso ao seguro-
desemprego. O intervalo entre os períodos de defeso (mesmo que de um ano para outro), geralmente são inferiores
aos 12 meses de contribuição previdenciária, fato que inviabiliza que os pescadores sejam contemplados pelo seguro-
desemprego, em anos consecutivos. Se, por exemplo, o trabalhador da pesca de arrasto direcionada ao camarão rosa
for demitido a cada período de defeso, ele terá sua carteira assinada somente por oito meses ao longo de um ano, fato
que compromete o tempo de serviço/contribuições para fins da sua aposentaria.

A partir destas informações faremos algumas considerações em relação ao acesso aos benefícios sociais aqui tratados.
Os pescadores, de modo geral, carecem de informações sobre estes benefícios e sobre os procedimentos de acesso.
A título de exemplo, o INSS instituiu o Programa de Educação Previdenciária, com técnicos que proferem palestras
visando promover a ampliação do acesso aos benefícios. Contudo, a maioria dos técnicos da Previdência que lidam
com segurados especiais ainda entende a pesca como análoga à atividade agrícola. Este fato tem consequências
diretas e negativas para o trabalhador da pesca, uma vez que a pesca e a agricultura têm características diferenciadas
e, portanto, necessitam ser tratadas de acordo com suas particularidades. Neste sentido, ainda podemos ressaltar a
importância dos técnicos prestadores de assistência técnica direcionada aos pescadores, os quais devem ser sensíveis
às particularidades da pesca e dos trabalhadores.

No que concerne aos documentos necessários, a fim de comprovar o exercício da atividade, mencionamos a declaração
das colônias de pesca. A Constituição de 1988 já previa o direito à livre associação, indicando que os pescadores
artesanais não seriam obrigados a estar afiliados às colônias de pesca para acessarem tais benefícios. Entretanto, isso
não tem acontecido e atualmente ainda são as colônias que emitem esta declaração. O Supremo Tribunal Federal
entendeu (em outubro de 2008) que atrelar o recebimento do seguro-defeso à vinculação às colônias de pesca viola
o princípio da livre associação prevista na Constituição. Não há como negar a disputa de poder entre as colônias e
as associações de pescadores enquanto entidades representativas de classe, e nesse jogo de poder pode ocorrer de
lideranças fornecerem a referida declaração como forma de garantir seu mando político. Caberia ainda dizer que estas
relações estão fortemente vinculadas ao legado histórico e cultural e, como afirmam Carvalho e Callou (2008), a forma
vertical e autoritária como as colônias de pesca foram institucionalizadas acarretaram repercussões históricas negativas
na vida dos pescadores.

As colônias foram as primeiras instituições representativas dos pescadores e, originalmente, foram lideradas por
pessoas sem vínculos culturais com a pesca, como servidores da Marinha, proprietários rurais, comerciantes e outros
profissionais. Para Carvalho e Callou (2008), os pescadores ainda enfrentam, no âmbito da participação social e política,
problemas não apenas dentro das colônias, com representações alheias à categoria, mas, sobretudo, nos processos
decisórios das políticas públicas para o desenvolvimento da pesca artesanal. Durante o processo de democratização do
país surgiram as associações de pescadores (Silva, 2004), um processo iniciado pela Comissão Pastoral dos Pescadores
(CPP), liderado por Frei Alfredo Schnuettgen, a partir de 1968, no Nordeste (Callou, 2008), que se irradiou para vários

42
estados, entre eles o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro foram criadas várias “associações livres”, como por exemplo
Arraial do Cabo, Itaipu e Piratininga (Lobão, 2006) e em Jurujuba, seguindo uma lógica política distinta daquelas das
colônias. As associações fluminenses nem sempre representam uma ruptura com as colônias de pesca. Além disso,
os representantes das colônias de pescadores fluminenses, além da Feperj (Federação dos Pescadores do Estado
do Rio de Janeiro) também podem manter articulações com uma das duas principais entidades representativas dos
pescadores artesanais (Fapesca – Federação dos Pescadores Artesanais e Uepa – União Estadual dos Pescadores
Artesanais). Neste sentido, podemos dizer que a identidade dos pescadores não é fixa. Os pescadores buscam formas
organizativas em função de interesses que são dinâmicos, estando em constante construção, marcando distinções
e mesmo agrupando pessoas as quais poderiam buscar identidades mais sedutoras (Bauman, 2003). Ao entrar em
contato com diferentes grupos de interesse e novas formas culturais, abre-se um campo de possibilidades em que
cada indivíduo pode se identificar, ao menos, temporariamente, propiciando novas formas de articulação e a criação
de novas identidades ou identidades múltiplas (Hall, 2001). As evidências sugerem que os pescadores artesanais, por
serem proprietários dos seus meios de produção, seriam mais engajados e organizados politicamente, reivindicando
suas demandas através de movimentos sociais. A organização e a representatividade dos pescadores industriais se dão
através dos sindicatos. Dias-Neto (2002) observou que os pescadores embarcados, por ficarem períodos prolongados
no mar, teriam uma consciência de classe reduzida, assim como a sua sindicalização, o que contribui em grande parte
para seu enfraquecimento como setor e sua exploração como mão-de-obra.

Muitos pescadores ainda não possuem documentação básica como RG, CPF e título de eleitor, dificultando sua
inscrição como profissional da pesca nos órgãos públicos, como a SEAP/PR e Previdência Social, o que inviabiliza o
recebimento do seguro-defeso e dos benefícios previdenciários. Desde a criação do Registro Geral da Pesca (1967)
não era realizado um recadastramento dos pescadores. A SEAP/PR, desde sua criação (2003), tem investido no
cadastramento e recadastramento (2005) destes trabalhadores. O recadastramento visa excluir do registro pessoas que
estavam cadastradas como profissionais da pesca e não atuam no setor34, “falsos pescadores”. Os dados divulgados pelo
Ministério do Trabalho (Tabela V) demonstram o incremento no número de segurados, mas também uma discrepância
entre o total de requerimentos e o de segurados, indicando que muitas pessoas requerem os benefícios sem ter
direito a eles. Apesar dos esforços empreendidos pela SEAP/PR, os “falsos pescadores” ainda recebem, indevidamente,
o seguro-defeso. Uma das medidas implementadas a partir do resultado do recadastramento foi a publicação da
Portaria 212 (10/09/2008), da SEAP/PR, cancelando os registros e as carteiras de 95 “falsos pescadores” do Rio Grande
do Norte. Devem-se mencionar também as formas de comercialização do pescado proveniente da pesca artesanal,
em que não há comprovação das transações comerciais (notas fiscais), fato que dificulta tanto o controle de insumos
comercializados como também a comprovação da atividade.

A exigência da Permissão de Pesca vem sendo alvo de críticas, pois sem este documento o seguro-defeso não é
repassado para o pescador artesanal. A maioria das embarcações atualmente empregadas pela pesca artesanal não
tem este documento. Isto se deve ao desconhecimento da necessidade de renovação anual do mesmo, pelo elevado
custo de sua renovação (para as condições financeiras de algumas pescarias), ou pela construção ilegal de embarcações,
um reflexo claro da grande falta de fiscalização sobre o setor. Sabe-se que existem experiências interessantes, como a
permuta das licenças, consistindo na transferência das licenças de embarcações inoperantes para as que estão ativas,
34 Entre os falsos pescadores mencionamos donos de restaurantes, instrutores de mergulho, taxistas, funcionários públicos e pessoas que

já contam com algum beneficio governamental etc.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 43


mas isto só é possível através de informações que permitam saber quais embarcações estão ativas e as que não operam
mais. Apesar de este tipo de ação não resolver o problema na sua totalidade, demonstra que estratégias intermediárias
são possíveis até que se definam propostas que atendam ao máximo os interesses dos pescadores e a preservação
dos recursos pesqueiros. Cabe também enfatizar a necessidade de esforços para que os pescadores entendam que o
pescado não é infinito e, portanto, esta é uma estratégia necessária para a conservação das espécies, especialmente,
as mais vulneráveis.

Tabela V - Evolução do Desembolso do Seguro Defeso para todo o Brasil (1995 – 2004). Fonte: DISED

fonte: DISED

44
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do exposto, verificamos que, se almejamos o desenvolvimento da atividade pesqueira do Estado do Rio de
Janeiro, é preciso investir em ações que permitam a melhoria do gerenciamento da pesca. Não é possível definir e
investir em políticas públicas condizentes com a realidade fluminense diante da lacuna de informações existentes.
É urgente o levantamento de dados, sistematização e divulgação daqueles já existentes, especialmente no que
concerne às informações acerca dos pescadores e da frota, estatísticas de produção, acidentes e doenças vinculadas ao
trabalho. Somente a partir da análise deste tipo de informação seria possível estabelecer critérios que permitissem uma
possível distinção da pesca artesanal da industrial, direcionando as políticas públicas específicas para cada segmento.
Sabe-se que, apesar de a pesca industrial receber maior incentivo governamental, a pesca artesanal é significativa
em termos sociais e econômicos. Entretanto, ela continua não recebendo a atenção merecida dos gestores públicos,
principalmente devido à ausência de uma política efetiva de desenvolvimento, envolvendo a captura, distribuição e
comercialização, como afirmaram Dias-Neto (2002) e Paiva (2004)35.

A interlocução efetiva dos órgãos gestores das diferentes esferas com os setores produtivos, universidades e outras
formas organizativas se faz premente e fundamental. A interação destes atores, a discussão e a harmonização dos
diferentes instrumentos legais, um trabalho de sensibilização e informação acerca dos programas já existentes, o
envolvimento dos setores produtivos, ampliando sua corresponsabilidade, poderão conferir maior efetividade e
legitimidade aos processos decisórios, sendo, portanto, prioritário.

35 A pesca artesanal, apesar não contar com levantamento de dados estatísticos sistemáticos, tem sido responsável por grande parte da

produção do país. Cardoso (2001) afirma que, em 1997, ela foi responsável por 54,81% da produção nacional. Em 2006 (Ibama, 2008)
contribuiu com 48,3% da produção nacional, enquanto a pesca industrial, com 25,8%. Na região Sudeste, a participação da pesca industrial
e artesanal foi de 45,3% e 34,0%, respectivamente. Já no Estado do Rio de Janeiro, 67,8% da produção foram provenientes da pesca
industrial e 24,5% da artesanal. Conforme o documento do Ibama (2008) os dados foram coletados pelas prefeituras municipais de Cabo
Frio, Arraial do Cabo, Angra dos Reis e São João da Barra. Estas localidades contam com maior estrutura de desembarques (SEAP, Ibama,
Prozee, 2005) e, portanto, haveria uma tendência das embarcações maiores desembarcarem seu produto nestas localidades. Este fato
explicaria a tendência fluminense da produção proveniente da pesca industrial ser mais representativa. Cabe reforçar que ainda não existem
instrumentos que demonstrem a verdadeira importância da pesca artesanal em termos estatísticos no Estado do Rio de Janeiro.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 45


É importante relembrar que, na esfera federal, o Ibama e a SEAP/PR são responsáveis pelo gerenciamento dos
recursos pesqueiros, e instituições como o Ministério do Trabalho e o INSS têm atribuições que garantem, em termos
sociais, a manutenção do pescador e sua família. Na prática, aparentemente, estas instituições não têm conseguido
atender de forma satisfatória o grupo dos pescadores, seja pela falta de diálogo interinstitucional, assim como com
os setores produtivos da pesca. Além disso, seus técnicos nem sempre estão preparados para lidar com um grupo
que apresenta características diferentes dos demais trabalhadores e, portanto, deveriam ter acesso a informações
que lhes permitissem ampliar os conhecimentos deste grupo de trabalhadores, possibilitando um atendimento mais
eficaz ao público-alvo. Já no âmbito estadual, a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj) e a
Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), que realizam ações importantes junto aos pescadores, como
a qualificação profissional, deveriam ter uma articulação mais sólida com as instituições federais, objetivando uma
maior eficácia no desenvolvimento das políticas públicas.

É preciso identificar o cenário almejado para o futuro da pesca no estado e assim planejar estratégias a serem
seguidas. Somente a partir de parcerias institucionais e ações articuladas e convergentes em prol da pesca e dos
pescadores atingiremos níveis comparáveis e competitivos com outros estados brasileiros. Deve-se atentar para que
os investimentos estejam em consonância com os interesses da maioria dos atores, não haja sobreposição de ações,
evitando desgastes de recursos (humanos e financeiros); estimular as ações em parceria que fortaleçam o segmento,
tanto em relação aos órgãos gestores, mas fundamentalmente, entre o setor produtivo.

46
A PRODUÇÃO PESQUEIRA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
2
Antônio Olinto Ávila da Silva e Marcelo Vianna

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 47


48
INTRODUÇÃO

O Estado do Rio de Janeiro possui 25 municípios costeiros e um total de 25 colônias de pescadores, além de inúmeras
associações, cooperativas e outras instituições classistas representando os diferentes segmentos do setor. Sua costa
Marinha, de 640 km, é a terceira mais extensa do País.

Com a média de produção extrativa pesqueira Marinha anual de 62 mil toneladas, no período 2002-2006, coloca-se na
terceira posição na lista dos maiores produtores de pescado do país e na primeira posição dentre os estados do Sudeste
brasileiro. Estima-se que, em termos de preço de primeira comercialização, a atividade pesqueira no Estado gere uma
receita anual de aproximadamente 180 milhões de reais (Ibama, 2004a, 2004b, 2005a, 2007, 2008).

A atividade pesqueira fluminense é variada, assim como os ecossistemas ao longo de sua costa. Entre a desembocadura
do Rio Itabapoana, divisa norte com o Estado do Espírito Santo, e a Ponta de Trindade, na divisa sul com o Estado de
São Paulo, situam-se diversas ilhas costeiras, baías, estuários, lagunas, praias arenosas e costões rochosos. Diariamente
são lançados ao mar redes de arrasto e de cerco, menjoadas (tipo de rede de emalhe), linhas e anzóis para a captura de
diversos peixes, moluscos e crustáceos.

De acordo com o Censo Estrutural da Pesca Artesanal Marítima e Estuarina (Prozee, 2005) existem no estado fluminense
cerca de 20 mil pescadores e 3.023 embarcações cadastradas. As maiores concentrações de pescadores encontram-se
na Baía da Guanabara e Região dos Lagos. As localidades pesqueiras dos municípios de Magé, Rio de Janeiro, Niterói
e São Gonçalo, às margens da Baía da Guanabara, destacam-se por possuírem 69% das embarcações cadastradas no
estado. As localidades do Rio de Janeiro/Niterói, Cabo Frio e Angra dos Reis têm grande importância em termos de
produção pesqueira desembarcada (Prozee, 2005).

A PRODUÇÃO PESQUEIRA MARINHA DO RIO DE JANEIRO

De forma geral, a pesca Marinha no Brasil apresentou um rápido crescimento a partir da década de 60, fruto da política
de desenvolvimento pesqueiro adotado pelo governo federal, com a criação da Superintendência do Desenvolvimento
da Pesca – Sudepe, em 1962, com a publicação do Código de Pesca (Decreto-Lei nº 221 de 28 de fevereiro de 1967) e
pela concessão de incentivos fiscais (Paiva, 2004).

A atividade pesqueira no Estado do Rio de Janeiro, assim como no Brasil, atingiu seu ápice na década de 80. No ano de
1985 a produção pesqueira Marinha do País atingiu a marca de 760 mil toneladas (Dias-Neto, 2003), enquanto no Rio de
Janeiro foi registrada a descarga de cerca de 200 mil toneladas de pescado (Fiperj, 2008). Após esse período observou-
se uma acentuada tendência de queda nas capturas. A produção desembarcada de sardinha-verdadeira (Sardinella
brasiliensis), que historicamente é a principal espécie nos desembarques do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina,
já se encontrava em declínio desde 1973, quando atingiu a marca recorde de 228.037 ton (Dias-Neto, 2003).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 49


Ao longo da década de 90, a produção pesqueira no Brasil flutuou entre 400 e 500 mil ton anuais. A tendência de
incremento das capturas, observada a partir de 1998, provavelmente também está associada à adoção de políticas
públicas para o setor pesqueiro. Nesse ano foi criado o Departamento de Pesca e Aquicultura (DPA), vinculado ao
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Decreto 2681 de 21/07/1998), que, com sua política de fomento às
atividades pesqueiras, estimulou a realização de arrendamentos de embarcações estrangeiras e a expansão das novas
áreas de pesca.

A produção pesqueira do Estado do Rio de Janeiro tem se mantido estável, em torno de 62 mil toneladas (Figura 1).
Desse montante, cerca de 75% vêm da produção de embarcações de médio e grande porte, categorizadas como frota
industrial (Ibama, 2004a, 2004b, 2005a, 2005b, 2007, 2008).

Figura 1
Produção desembarcada (mil toneladas), pela pesca marítima no Brasil, nas Regiões Sudeste e Sul (ES, RJ, SP, PR, SC, RS)
e no Estado do Rio de Janeiro de 1991 a 2006.

Fonte: Ibama

A produção extrativa das frotas pesqueiras do Estado do Rio de Janeiro possui características distintas das observadas
em outros estados do Sudeste-Sul brasileiro. A Tabela I traz os valores da produção das principais categorias de pescado
desembarcadas no Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, nos anos de 2002 até 2006, de acordo com
as publicações oficiais do Ibama.

50
Tabela I - Lista das principais categorias de pescado desembarcadas nos portos pesqueiros dos Estados do Espírito
Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, no período de 2002 a 2006, com indicação do peso total registrado
em valores absolutos (ton) e relativos (%).

Fonte: Ibama

Os dados de produção do Estado do Rio de Janeiro (Ibama 2004a, 2004b, 2005a, 2007, 2008) mostram que sua pesca é
fortemente direcionada para espécies pelágicas como as sardinhas - principalmente a sardinha-verdadeira e a sardinha-
boca-torta (Cetengraulis edentulus) - o bonito-listrado (Katswonus pelamis), o peroá (Balistes spp.), a cavalinha (Scomber
japonicus), o xerelete (Caranx latus), o dourado (Coryphaena hippurus) e a albacora-de-laje (Thunnus albacares). Embora
os desembarques no Estado do Espírito Santo tenham como principais categorias de pescado os pelágicos, dourado
e atuns (Thunnus spp.), espécies como peroá, camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri), cioba (Ocyurus chrysurus e
Lutjanus chrysurus) e pargo-rosa (Pagrus pagrus) também figuram entre as principais capturas.

Como já mencionado, assim como no Estado do Rio de Janeiro, sardinha-verdadeira também é a espécie mais
desembarcada em São Paulo e Santa Catarina. Neste último estado os desembarques de bonito-listrado também são

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 51


relevantes. As demais espécies desembarcadas são, em sua maioria, demersais ou bentônicos, como diversas espécies
da família Sciaenidae, com destaque para a corvina (Micropogonias furnieri), o goete (Cynoscion jamaicensis), o papa-
terra ou betara (Menticirrhus americanus e M. littoralis) e a castanha (Umbrina canosai), assim como a abrótea (Urophycis
brasiliensis e U. mystacea), a cabra (Prionotus punctatus e P. nudigula) e os camarões sete-barbas e barba-ruça (Artemesia
longinaris).

Em sua maior parte, as espécies desembarcadas em toda a região Sudeste-Sul são costeiras e têm sido alvo de pescarias
tradicionais durante, pelo menos, seis décadas. Seus estoques encontram-se totalmente explotados ou em estado de
sobrepesca (Cergole et al., 2005; Haimovici et al., 2006; Rossi-Wongtschowski et al. 2006; Valentini & Pezzuto, 2006).

ASPECTOS REGIONAIS DAS PESCARIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Ao longo da costa do Rio de Janeiro observa-se uma variação na composição das capturas e nas características dos
petrechos de pesca. Dada a característica multifrota-multiespécie das pescarias da região Sudeste-Sul do Brasil, é
comum algumas espécies serem capturadas por mais de um petrecho de pesca.

No norte do estado, entre a Barra de Itabapoana e Macaé, há uma importante pesca dos camarões sete-barbas, barba-
ruça e branco (ou legitimo, Litopenaeus schimitti), com pequenas embarcações de arrasto de portas. Também são
utilizadas menjoadas e redes de caída (tipos de redes de emalhar) e linhas de mão para a captura de corvina, goete,
dourado, peroá, peixe-batata (Lopholatilus villarii), namorado (Pseudopersis numida), pargo-rosa (Pagrus pagrus), espada
(Trichiurus lepturus) e sororoca (Scomberomus spp.).

Descendo em direção ao sul, na região que compreende os municípios de Cabo Frio, Arraial do Cabo e São Pedro da
Aldeia (Região dos Lagos) há atividade intensa pesqueira no complexo lagunar de Araruama e em mar aberto.

Em Cabo Frio, ocorrem importantes capturas de sardinha-verdadeira e de outras espécies pelágicas como a cavalinha,
o xerelete, a enchova (Pomatomus saltatrix) e o xixarro (Trachurus lathami) com redes de cerco. O pargo-rosa, o cherne-
verdadeiro (Epinephelus niveatus), as garoupas (Epinephelus spp.), o peixe-batata, o namorado, o dourado e a albacora-
de-laje são capturados com técnicas de pesca de linha e anzol (linha-de-mão, pargueira, espinheis, corricos). As redes
de emalhe são utilizadas para a pesca de corvina e outros cianídeos de fundo de areia ou lama. Assim como na área ao
norte, as redes de arrasto são utilizadas para a captura de camarões. Estima-se que o município de Cabo Frio contribua
com aproximadamente 15% de toda a produção do estado (Prozee, 2005).

A região lagunar possui concentrações de pescadores artesanais em Arraial do Cabo, Araruama, Iguaba Grande, São
Pedro da Aldeia e Saquarema. O camarão-rosa (Farfantepenaeus paulensis e F. brasiliensis) é capturado com ganchos
(redes fixas com currais) e arrasto de trolha (redes de cerco móveis). Os carapicus (Eucinostomus spp.), carapebas
(Diapterus spp.), pirumbebas (Pogonias cromis), tainhas (Mugil platanus) e paratis (Mugil curema) também são pescados
através da utilização de ganchos, redes de emalhe e pequenos cercos.

52
Um pouco mais ao sul, na região entre Maricá e Itaipu, também há pesca em mar aberto e na área abrigada da Laguna
de Maricá. São capturados camarões, corvinas, tainhas, robalos (Centropomus spp.), garoupas, badejos (Mycteroperca
spp.) e chernes, com ganchos, redes de espera e linhas-de-mão.

Na Baía da Guanabara, apesar da sua intensa utilização por outras atividades e da poluição doméstica e industrial, é
registrada uma importante atividade pesqueira. A baía é margeada pelos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí,
Guapimirim, Magé, Duque de Caxias e Rio de Janeiro e conta com um total de 61 pontos de descarga de pescado
(Prozee, 2005), sendo 32 considerados de maior relevância comercial (Ibama, 2002; Jablonski & Moreira, 2006).

A produção total de pescados descarregada na baía, no período de abril de 2001 a março de 2002, foi estimada em
19 mil toneladas, sendo as principais espécies a sardinha boca-torta, a sardinha savelha (Brevoortia spp.), a sardinha-
verdadeira e o grupo das tainhas e paratis. As descargas de bagres (Ariidae), espadas e dos camarões rosa e legítimo
também merecem destaque. As indústrias pesqueiras situadas em São Gonçalo e Niterói recebem aproximadamente
65% da produção (Ibama, 2002; Jablonski & Moreira, 2006). Estes municípios, além do Rio de Janeiro, possuem
comparativamente boa infraestrutura, constituída por empresas de pesca, estaleiros, fábricas de gelo e mercado, para
o apoio à pesca industrial.

Levantamentos realizados indicam a existência de 1.400 a 2.150 embarcações pesqueiras na região. A maior parte
destas embarcações opera com redes de emalhar. Pescarias com redes de cerco, linhas de mão e com arrasto de portas
também comportam uma parcela significativa do número de barcos. A pesca com currais (tipo de cerco fixo) é uma
importante atividade da pesca artesanal no fundo da Baía da Guanabara, principalmente nas proximidades de Mauá,
no Município de Magé.

No sul do estado encontram-se as Baías de Sepetiba e da Ilha Grande, que abrigam uma intensa atividade pesqueira de
pequena, media e grande escala.

Na Baía de Sepetiba, os principais portos pesqueiros encontram-se na Pedra de Guaratiba e Sepetiba (Município do
Rio de Janeiro) e em Mangaratiba. Nestas localidades são desembarcadas pescadas (Cynoscion leiarchus, Isopisthus
parvipinnis), corvinas, tainhas e paratis e robalos - capturados com redes de emalhe - e camarões dos tipos legítimo,
rosa e sete-barbas - capturados com pequenas redes de arrasto. Na parte abrigada próxima à Restinga de Marambaia
ocorre a pesca com currais.

No entorno da Baía da Ilha Grande estão os municípios de Angra dos Reis e Paraty. Em Angra dos Reis existe uma
importante pesca com cerco voltada para a captura da sardinha-verdadeira, que chega a contribuir com 50 a 90% das
descargas anuais de pescado no município. A produção dessa espécie corresponde de 85 a 90% do total registrado
para o Estado do Rio de Janeiro (Prozee, 2005). Outras espécies apanhadas com cerco são as sardinhas, bandeira
(Opisthonema oglinum) e savelha, o peixe-galo (Selene setapinis) e a cavalinha. Nesse município ocorre também a
pesca com arrasto de portas, que tem como principais espécies capturadas o camarão-rosa, o goete e a maria-mole
(Cynoscion guatucupa).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 53


No município de Paraty, capturas dos camarões sete-barbas, rosa e legítimo, e dos cianídeos corvina, goete, maria-mole
e betara são realizadas com arrastos de fundo, principal petrecho utilizado. A captura de dourado - com pequenos
espinheis de superfície - também é expressiva no município.

A PRODUÇÃO PESQUEIRA INDUSTRIAL

Pesca industrial
É responsável por cerca de 75% da produção pesqueira do Estado do Rio de Janeiro, de acordo com as estatísticas
disponibilizadas pelos órgãos oficiais. No entanto, deve-se considerar que muito provavelmente a pesca profissional
de pequena escala e baixa mobilidade, considerada artesanal, é subdimencionada devido às dificuldades no
monitoramento de seus desembarques, bastante dispersos ao longo da costa.

A Tabela II apresenta a produção pesqueira das principais espécies desembarcadas pelas frotas industriais fluminenses,
nos anos 2004 a 2006, com indicação dos petrechos de pesca normalmente utilizados para sua captura.

Tabela II - Lista das principais categorias de pescado desembarcadas pelas frotas industriais, no Estado do Rio de
Janeiro, no período de 2002 a 2006, com indicação do peso total registrado em valores absolutos (ton), relativos (%) e
dos aparelhos de pesca utilizados na captura.

54
Pesca com rede de cerco, também chamada de pesca com traineira
É tradicional nas regiões Sudeste e Sul e sua utilização é reportada desde a década de 40 (DPA, 1945). Tem características
marcadamente industriais e direciona suas capturas para pequenas espécies pelágicas, em especial a sardinha-
verdadeira. No entanto, o estado crítico do estoque deste recurso e a consequente queda de produção nas últimas
décadas (Cergole, Ávila-da-Silva & Rossi-Wongtschowski, 2005) levaram a frota de cerco a diversificar suas capturas. A
partir da década de 90 os desembarques da espécie apresentaram grande variação interanual (Figura 2). Peixes como
a tainha, a enchova, a savelha e o peixe-galo passaram a ser desembarcados com frequência por essa frota (Valentini &
Pezzuto, 2006). Peixes demersais, como a corvina, também já foram alvo de suas capturas.

Figura 2
Produção desembarcada (mil toneladas) de sardinha-verdadeira (Sardinella brasilensis), nas Regiões Sudeste e Sul (ES,
RJ, SP, PR, SC, RS) e no Estado do Rio de Janeiro, de 1991 a 2006.

Fonte: Ibama

Pesca industrial de arrasto de fundo


A pesca industrial de arrasto de fundo do Estado do Rio de Janeiro atua na captura de camarões (principalmente o
rosa), de peixes demersais (corvina e outros cianídeos, linguado e peixe-sapo, Lophius gastrophysus), além de lula (Loligo
spp.) e do polvo (Octopus vulgaris).

Pesca do camarão-rosa
É realizada sobre a porção pré-adulta em áreas estuarinas e lagunares, pela pesca de arrasto artesanal; e sobre a porção
adulta, em áreas oceânicas, pela frota arrasteira industrial (Valentini, 2005). No Estado do Rio de Janeiro, a produção
da espécie tem-se mantido ao redor de 330 ton anuais (Figura 3), sendo que pesca industrial é responsável por
aproximadamente 58% deste valor (Tabela I).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 55


Figura 3
Produção desembarcada (toneladas), de camarão-rosa (Farfantepenaeus paulensis e F. brasiliensis), nas regiões Sudeste
e Sul (ES, RJ, SP, PR, SC, RS) e no Estado do Rio de Janeiro, de 1991 a 2006.

Fonte: Ibama

Tomás & Cordeiro (2007), já no biênio 97/98, identificaram que cerca de 43% das embarcações arrasteiras da frota
industrial fluminense direcionavam suas capturas para peixes. A tendência de diversificação das capturas se acentuou
nos anos posteriores (Valentini & Pezzuto, 2006). As principais espécies costeiras capturadas pelos arrasteiros estão
todas completamente explotadas ou em estado de sobrepesca. Algumas espécies de plataforma externa e talude, como
a merluza (Merluccius hubbsi), a abrótea-de-profundidade e o peixe-sapo, apresentam potencial pesqueiro limitado e já
têm sido alvo de intensa captura (Cergole, Ávila-da-Silva & Rossi-Wongtschowski, 2005; Rossi-Wongtschowski, Ávila da
Silva, Cergole, 2006; Haimovoci et al., 2006).

Pesca do peixe-sapo
Apresenta-se como um exemplo da capacidade de adaptação das frotas pesqueiras para a exploração de novos
recursos. A espécie era normalmente capturada em operações de arrasto, mas, por não ter valor comercial, era
descartada a bordo. Com início das exportações da espécie, fruto da política de arrendamento de embarcações,
ocorreu a chamada "corrida do ouro". Seus desembarques na região saltaram de 793 t em 1999, para 7.094 ton em 2001,
caindo abruptamente nos anos subsequentes, para cerca de 2.500 ton (Figura 4). Estudos apontam que uma extração
anual sustentável de biomassa de seu estoque não deveria ultrapassar 1.500 ton (SEAP, 2007).

56
Figura 4
Produção desembarcada (ton) de peixe-sapo (Lophius gastrophysus), nas regiões Sudeste e Sul (RJ, SP, PR, SC, RS) e no
Estado do Rio de Janeiro, de 1999 a 2006.

Fontes: Ibama /SEAP/Instituto de Pesca / Univali.

A pesca com vara e isca-viva


Direcionada para o bonito-listrado foi iniciada em 1979, no Rio de Janeiro. Apenas em 1981 o Estado de Santa Catarina
começou a desenvolver sua frota. Nesse ano também iniciaram as pescarias por atuneiros japoneses arrendados. Desde
seu início foi considerada uma pesca de alta rentabilidade. Sua frota doméstica cresceu rapidamente, passando de 7
embarcações, em 1979, para 97 em 1982. Em 2000 havia 39 embarcações em operação, que apresentavam um porte e
um poder de pesca superiores aos barcos da década de 80 (Lin, 2005).

Sua espécie-alvo, o bonito-listrado, é uma das poucas em que não se observa indícios de sobreexplotação. Outras
espécies capturadas com vara e isca-viva são o bonito-cahorro (Auxis thazard), o bonito-pintado (Euthynnus alletteratus)
e a albacora-laje. A expansão desta pescaria depende, em muito, da diminuição da relação custo/benefício e da solução
do problema de obtenção da isca-viva (juvenis de sardinha-verdadeira) (Lin, 2005; Andrade, 2006).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 57


Pesca com espinhel-de-fundo e outras técnicas de linha e anzol
Também são tradicionais e consideradas umas das mais antigas do Brasil. Na região entre os paralelos 22° e 26°S,
conhecida como a área de "pesca do Mar Novo", são capturados peixes demersais como o cherne-verdadeiro, o peixe-
batata, o namorado, o pargo-rosa, o olho-de-cão (Priacanthus arenatus) e outras espécies de fundos rochosos. Em
meados da década de 90, com a introdução do espinhel com cabo e aço, houve um aumento excessivo do esforço
pesqueiro e o comprometimento de seus estoques nas regiões Sudeste e Sul do país (Ávila-da-Silva, Bastos & Tutui,
2001; Ávila-da-Silva & Arantes, 2007).

O Estado do Rio de Janeiro é o maior produtor deste grupo de espécies. Sua produção agrupada de cherne, peixe-
batata e namorado tem variado entre 1000 e 1500 ton/ano, o que corresponde a 75% do total do Sudeste-Sul brasileiro
(Figura 6). A pesca industrial responde por 90% da produção do peixe-batata e por 60 a 70% da de cherne-verdadeiro
e namorado.

Figura 5
Produção desembarcada (ton) de bonito-listrado (Katsuwonus pelamis), nas regiões Sudeste e Sul (RJ, SC, RS) e no
Estado do Rio de Janeiro, de 1999 a 2006.

Fonte: Ibama

Fonte: Ibama

58
Figura 6
Produção desembarcada (ton) de cherne (Epinephelus niveatus), peixe-batata (Lopholatilus villarii) e namorado
(Pseudopersis numida), nas regiões Sudeste e Sul (ES, RJ, SC, RS) e no Estado do Rio de Janeiro, de 2001 a 2006.

Fonte: Ibama

Pesca do pargo-rosa
Pela frota industrial, de significativo valor econômico, também tem se mantido estável em cerca de 720 ton/ano. Este
montante corresponde a aproximadamente a 60% da produção da espécie no estado.

Pesca com rede de emalhe (ou malhadeira)


Possui grande diversidade e pode estar associada a outras fainas de pesca, como o espinhel e o arrasto. No Estado
do Rio de Janeiro, alguns recursos importantes capturados com este petrecho são a tainha, o espada, a sororoca, a
corvina e outros cianídeos como os goetes, as pescadas e a betara. A pesca do peixe-sapo deve, preferencialmente,
ser realizada com a utilização de um tipo específico de rede-de-emalhe, por embarcações devidamente licenciadas. As
redes-de-emalhe de superfície capturam enchova, bonitos e cações diversos.

O espinhel-de-superfície, também utilizado na pesca de atuns, no litoral fluminense é utilizado sazonalmente na


captura do dourado, cujas capturas têm mostrado tendência de aumento (Tabela I).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 59


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como ficou demonstrada ao longo do texto, a produção pesqueira do Estado do Rio de Janeiro é uma das principais do
Brasil e a primeira na região Sudeste, e sua frota industrial tem expressiva participação (75%) nas descargas anuais de
pescado marinho. O histórico recente de seus desembarques indica a estabilidade de produção das principais categorias
de pescado e, de forma geral, uma pequena tendência de incremento. No entanto, estas pescarias são tradicionais,
realizadas sobre espécies costeiras que, em sua maioria, apresentam-se plenamente explotadas ou em situação de
sobrepesca. Desta forma, não são esperados incrementos importantes na produção a curto ou médio prazo.

As pescarias de profundidade desenvolvidas nos anos 2000, como a multiespecífica de quebra de plataforma e talude,
do peixe-sapo, dos caranguejos-de-profundidade (Chaceon ramosae e C. notialis) e dos camarões de profundidade
(família Aristiidae), mostraram-se limitadas e devem ser desenvolvidas seguindo planos de manejo adequados à
conservação das espécies, que de forma geral têm alto valor econômico (Haimovici et al., 2006; SEAP, 2007).

O desenvolvimento de um sistema de informações - que possibilite a adequada orientação de políticas públicas


para o setor pesqueiro e efetiva aplicação de instrumentos de ordenamento já existentes - deve ser visto como uma
oportunidade para a manutenção da produção extrativa pesqueira em níveis sustentáveis e, eventualmente, para a
ampliação das capturas de determinadas espécies.

A adequação de portos de descarga de pescado e de embarcações, para possibilitar a manutenção da qualidade


do pescado e sua rastreabilidade, pode ensejar um melhor aproveitamento das capturas e proporcionar melhores
rendimentos econômicos.

60
3
O MERCADO E A CADEIA PRODUTIVA DO PESCADO FLUMINENSE
Ana Lúcia de Souza Soares

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 61


62
INTRODUÇÃO

A atividade pesqueira tem seu desenvolvimento e sua dinâmica determinados por parâmetros biológicos, ecológicos,
socioculturais, econômicos, institucionais e tecnológicos. As interações ocorridas entre esses parâmetros tornam essa
atividade complexa e envolvida numa série de riscos e incertezas. Porque nem os indivíduos que nela atuam nem o
Estado podem obter amplo controle sobre as condições necessárias para o desempenho econômico adequado ou
desejável da atividade. Como expõe Diegues (1983), a organização da produção e dos mercados está condicionada pela
mobilidade dos recursos pesqueiros e pela complexidade do ecossistema; e a atividade caracterizada como extrativa
tem no mar suas “condições naturais de reprodução”.

A pesca como atividade econômica no Estado do Rio de Janeiro teve sua origem no século XIX, tendo sido introduzida
por imigrantes portugueses e espanhóis, que encontraram em sistemas lagunares e estuarinos as condições naturais
para o seu desenvolvimento. Em 1930, mudanças tecnológicas expressivas, com a introdução das traineiras, permitiram
as capturas em larga escala e a estruturação industrial da atividade, com o surgimento das primeiras fábricas de
conservas e entrepostos de pesca. A ampliação dos mercados ia tornando a organização da indústria mais complexa,
estabelecendo os elos produtivos necessários à produção e comercialização de pescado, principalmente de sardinhas
(Diegues, 1983).

No fim dos anos 60 e ao longo dos anos 70 as políticas de desenvolvimento do setor pesqueiro implementadas pela
Superintendência de Desenvolvimento da Pesca - Sudepe, através de isenções fiscais e crédito subsidiado, resultaram
numa maior concentração da indústria na região Sudeste, que já possuía infraestrutura de terra e a cultura voltada à
atividade pesqueira.

Conciliando investimentos produtivos superdimensionados ao aumento dos esforços de pesca, falta de regulamentação
de uso e acesso aos recursos pesqueiros - e o abandono de medidas de regulação e normatização do setor nas
décadas posteriores, pela sucessão de crises econômicas presentes na economia brasileira - teve-se como resultado
a reorganização da indústria pesqueira nacional pela seleção natural dos mercados. Sendo que, permaneceram em
atividade aquelas empresas que conseguiram obter o ajuste de suas capacidades produtivas, a disponibilidade de
recursos pesqueiros, a busca pela localização com maior proximidade as áreas de pesca e dos mercados consumidores,
e na luta contínua de redução dos custos operacionais, principalmente aqueles vinculados à captura.

A atividade pesqueira é reconhecida por sua importância socioeconômica, principalmente no que se refere à geração
de emprego e renda em comunidades litorâneas e ribeirinhas. Porém, em termos de agregados econômicos, a
importância dessa atividade numa economia com base produtiva tão diversificada, como a brasileira, praticamente se
dilui. Muito provável é que esse fato, somado à dificuldade de socialização das informações pelo setor produtivo e à
falta de uma política de desenvolvimento eficiente da atividade pesqueira nacional, limite as possibilidades de análise
técnico-econômica da indústria.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 63


Mas, partindo do pressuposto que o mercado é um dos determinantes para a concentração e dinâmica da atividade
pesqueira em determinado espaço, busca-se identificar qual o grau de concentração e dispersão da atividade pesqueira
no Estado do Rio de Janeiro, observando os principais elos produtivos, que seriam os setores de captura, beneficiamento
e comercialização de pescado. Na tentativa de encontrar evidências que possam contribuir para a explicação de seu
desenvolvimento, ao longo dos anos de 1996 a 2006, e para a orientação de políticas voltadas ao setor.

O MERCADO FLUMINENSE PARA PRODUTOS PESQUEIROS

O mercado para pescados, assim como para produtos agrícolas, apresenta uma série de especificidades relacionadas:
a perecibilidade do produto e sua qualidade, a sazonalidade da oferta e disponibilidade de matéria-prima para a
indústria, seu baixo valor unitário e flutuações nos preços. Esses produtos também são classificados como inelásticos,
pois os consumidores seriam pouco sensíveis a redução dos seus preços para que haja um aumento nas quantidades
demandadas.

A oferta de pescado nos mercados é determinada pelo valor comercial dos recursos pesqueiros, que vai condicionar
uma maior ou menor explotação de determinadas espécies, também pelos estoques desses recursos disponíveis na
natureza, que embora caracterizados como recursos renováveis são limitados, devendo ter seus parâmetros biológicos
respeitados para que a manutenção da biomassa seja garantida, assegurando, assim, o abastecimento da cadeia
produtiva e do mercado consumidor.

A demanda, ou consumo, por pescado assume características bem específicas, uma vez que aspectos relacionados
à qualidade e à inocuidade do alimento são preocupações constantes nos indivíduos que compram e consomem
pescados, bem como das instituições públicas que - através da busca pela segurança alimentar - definem a situação
em que todos os indivíduos devem ter assegurado o acesso físico e econômico a alimentos seguros e nutritivos, em
quantidades suficientes para saciar suas necessidades nutricionais e preferências alimentares, possibilitando uma vida
produtiva e saudável (FAO, 1996).

A OFERTA DE PESCADO

A oferta de pescado nos mercados esta condicionada pela abundância e diversidade de espécies, que variam em
função de aspectos biológicos e ecológicos de cada região. A manutenção e/ou crescimento da oferta, por sua vez,
depende de decisões econômicas e institucionais que garantam minimamente a explotação sustentável dos recursos
e a adoção de tecnologias seletivas.

A seguir apresentam-se as informações relacionadas à oferta primária e aparente de pescado, observando que só será
consumido o que de fato estiver sendo ofertado, o que desmistifica informações oficiais que colocam o consumo
nacional per capita bem acima do que, de fato, ele pode se apresentar.

64
OFERTA PRIMÁRIA DE PESCADO
No Brasil, a oferta primária de pescado, que corresponde à totalidade dos desembarques realizados, atingiu em
2006 cerca de 1.000.000 toneladas (Ibama, 2008). Observa-se que desde 1998 a oferta primária brasileira cresce,
principalmente em função dos investimentos realizados na aquicultura, que permitiram o aumento da oferta
(Figura 1).

Entre 1991 e 2006, dos desembarques brasileiros 28,49% foram realizados na região Nordeste, 26,48% na Região Sul,
23,94% na região Norte, 18,01% na região Sudeste e 3,08% na região Centro-Oeste.

Na região Sudeste entre 1998 e 2004 a oferta primária sofreu uma série de flutuações. Em 1998 houve uma redução na
oferta de 18%, em 1999, 7,58%. Nos dois anos consecutivos a oferta se recuperou, com incremento de 25,44% em 2000
e 1,9% em 2001. Voltando a reduzir 2,56% em 2002 e 3,57% em 2003, e mais uma vez se recuperando em 2004 com
incremento de 8,67%. E em 2006 observa-se um incremento na produção de 11,05% em relação a 2005 (Figura 1).

Figura 1
Oferta primária de pescado, nas grandes regiões - 1991-2006 (ton).

Na região Sul as flutuações na oferta primária foram ainda mais acentuadas. Em 1995 observou-se uma redução na
oferta de 24%. Nos anos consecutivos, 1996 e 1997, a oferta aumentou, respectivamente em 17,16% e 13,01%. Em 1999
o decréscimo foi da ordem de 17%, aumentando em 2000 em 14,66% e 17,5% em 2001. Em 2003, a oferta voltou a
reduzir em 5,81% e 3,07% em 2004. Com recuperação de 0,86% em 2005 e 5,66% em 2006 (Figura 2).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 65


Figura 2
Oferta primária, no Sudeste, Sul e estados selecionados - 1991-2006.

Fontes: Ibama 2007, 2008: Oliveira, 2005

A participação relativa na oferta primária brasileira, acumulada entre 1991-2006, do Estado de Santa Catarina foi de
15,88%, sendo a participação deste na oferta da região Sul de 59,98%; Rio Grande do Sul participou com 8,6% da oferta
brasileira e com 32,49% da região Sul, enquanto o Rio de Janeiro teve participação relativa de 7,82% na oferta primária
acumulada brasileira e 43,42% da oferta da região Sudeste; e São Paulo participou com 7,15% da oferta brasileira, e com
39,71% da região Sudeste.

Os pescados fluminenses provêm basicamente da pesca costeira, em média 95%, no período abordado; 1,6% da
pesca continental e 3,87% da aquicultura continental. A pesca costeira demonstra-se instável no estado fluminense.
Expressivas flutuações na oferta são observáveis. As mais bruscas ocorreram em: 1998, com uma redução da oferta de
32,89% em relação ao ano anterior; a recuperação expressiva da oferta em 2000 na ordem de 22,29%; novo decréscimo
em 2002 de aproximadamente 10,65%, e a recuperação em 2004 de 33,73% (Figura 3).

A produção aquícola continental fluminense também apresentou uma série de flutuações. Em 1995 houve um
incremento na oferta de 548,83% em relação ao ano anterior, e em 1998 o incremento foi na ordem de 240,9%. Em 1999
a oferta decresceu cerca de 12,84%, com significativa recuperação no ano seguinte, incremento de 310,6%. A partir
desse ano até 2002 a oferta se manteve estável para em 2004 apresentar um novo decréscimo de 76,55% (Figura 3).

66
Figura 3
Oferta primária de pescado, no Estado do Rio de Janeiro - 1991-2006.

Fontes: Ibama 2007, 2008: Oliveira, 2005

OFERTA APARENTE DE PESCADO

A disponibilidade real de pescado ofertado nos mercados pode ser medida pela oferta aparente, obtida do somatório
da oferta primária às importações e subtraídas as exportações. Essa medida é um valor estimado, uma vez que se tem
um viés metodológico, já que a oferta primária é definida como pescado em peso vivo, e as importações e exportações
são os pescados em suas várias formas de comercialização em peso líquido.

Ao longo do período de 2000 a 2006, a oferta aparente per capita de pescado no mercado fluminense foi superior a do
mercado brasileiro (Figura 4). No período a oferta aparente per capita de pescado fluminense foi da ordem de 6,678 kg/
hab/ano, enquanto a brasileira foi de 5,932 kg/hab/ano.

As flutuações na oferta primária fluminense são compensadas com um grande volume de importações de pescado,
como será visto mais à frente. Porém, o cumprimento das regulamentações quanto à captura de espécies costeiras
faz-se necessária para a recuperação dos estoques e a regularização da oferta.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 67


Figura 4
Oferta aparente per capita, de pescado, para o Estado do Rio de Janeiro e o Brasil - 2000-2006 (kg/hab/ano).

Fontes: Ibama 2002, 2008: MDIC, 2008

A DEMANDA POR PESCADO

A demanda por pescado, assim como para qualquer produto, é determinada pelos gostos individuais dos consumidores,
pelo preço do bem, pela presença de bens substitutos no mercado e pela renda dos consumidores.

No Brasil os padrões de consumo de pescado variam a cada região em função da diversidade sociocultural, e de uma
série de especificidades inter e intrarregionais que influenciam os hábitos alimentares (Soares, 2007).

A caracterização da demanda e de padrões de consumo no território nacional pode ser feita com base na Pesquisa
de Orçamento Familiar (POF), do Instituto de Geografia e Estatística – IBGE. A POF é realizada a cada cinco anos e,
por discriminar aproximadamente 300 produtos alimentares, permite que se estabeleçam pontos de referência para a
avaliação do mercado e consumo.

OS PADRÕES DE CONSUMO POR PESCADO

Em relação aos gostos e preferências individuais como determinantes do consumo de pescado, identifica-se que os
consumidores avaliam uma série de atributos como: sabor, valor nutritivo, probabilidade de deterioração, coloração,
tempo e temperatura de refrigeração, uniformidade na qualidade e regularidade da oferta (Barros, 2001).

68
São facilmente identificáveis nos mercados dois grupos de consumidores. O primeiro grupo é representado por
aqueles consumidores que não apresentam restrições ao consumo de pescado congelado, pois veem nessa forma
de comercialização menores possibilidades de deterioração do produto. Esses consumidores atribuem importância à
regularidade na oferta de pescado e tendem a adquirir o pescado em supermercados. O segundo grupo de consumidores,
que é de fato predominante nos mercados para pescado, é caracterizado por consumidores que atribuem a qualidade
do pescado aos aspectos sensoriais (cheiro e frescor, entre outros). Esses consumidores tendem a consumir o pescado
da safra presente. Não é determinante de sua demanda a regularidade da oferta e observam o tempo percorrido entre
a captura e a comercialização - pois preferem o pescado fresco ou refrigerado. Esses consumidores tendem a adquirir
o pescado em mercados públicos, peixarias e feiras (Barros, 2001).

Sendo o pescado um produto perecível, a preferência pelo produto fresco e a observação de aspectos sensoriais, na
concepção dos consumidores, seria a garantia de inocuidade. O que nem sempre é correto, por causa dos erros no uso
do frio e na manipulação do pescado ao longo da cadeia produtiva até a comercialização final. Em tempos de mercados
mais amplos e diversificados, dar ao consumidor maior possibilidade de escolha é importante - nas inovações nos
produtos e em suas formas de apresentação.

A PRESENÇA DE BENS SUBSTITUTOS

Nos centros urbanos, ou em locais de grande concentração demográfica, a oferta de alimentos é bastante diversificada.
No Brasil, o fornecimento de proteínas de origem animal é abundante, o que eleva a competição do consumo de
pescado com as demais fontes de proteína animal.

A participação relativa das proteínas de origem animal no total de calorias na aquisição alimentar domiciliar brasileira
(POF 2002-2003) foi de 12,82%, sendo que deste valor (12,82%) as carnes bovinas tiveram participação relativa de
4,82%, no total de calorias. Carnes suínas tiveram 0,87%; aves, 3,55%; pescados, 0,59%. Ovos, embutidos e outros
representaram 2,99% (IBGE, 2007).

Além da disponibilidade abundante de diversas fontes de proteínas de origem animal, o preço dessas, principalmente
carne suína e aves, vêm sofrendo uma redução expressiva em decorrência do aumento da oferta, enquanto o preço
dos pescados, principalmente aqueles com grande aceitação no mercado, tem seus preços em elevação (Soares, 2007).
Tal elevação é reflexo da redução dos estoques pesqueiros e aumento dos custos de captura, uma vez que esta se
desenvolve em áreas de pesca mais longínquas da costa.

O CONSUMO DE PESCADO COMO FUNÇÃO DA RENDA

Na média nacional, as famílias com renda mensal entre R$ 401,00 e R$ 600,00 foram as que consumiram maior
quantidade de pescado, cerca de 6,114 kg/hab, seguidas das famílias com renda mensal até R$ 400,00, cujo consumo
domiciliar per capita foi de 5,765 kg/hab. As famílias com rendimentos mensais mais elevados apresentaram o menor
consumo per capita domiciliar, sendo de 3,563 kg/hab para aqueles com renda mensal entre R$ 601,00 e R$ 3.000,00, e
3,887 kg/hab para aqueles com renda superior a R$ 3.000,00 mensais (IBGE,2007).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 69


Na região Sudeste, esse cenário se inverte: as famílias com rendimentos mensais menores consomem menos pescado
que as famílias com maiores rendimentos (Figura 5). As famílias com rendimentos mensais superiores a R$ 3.000,00
apresentaram um consumo per capita domiciliar de 3,144 kg/hab, as com rendimentos entre R$ 401,00 e R$ 600,00
apresentaram consumo domiciliar per capita de 1,261 kg/hab.

Figura 5
Aquisição alimentar per capita de pescado, por classe de rendimentos mensais (R$), para a região Sudeste - 2002-2003

A diferença que há entre o consumo per capita de pescado no Brasil e na região Sudeste, com referência às classes
de rendimentos mensais, deve-se ao fato de que, considerando o consumo brasileiro, a região Norte tem o maior
consumo de pescado do país, e ali a população tem rendimentos menores, menores concentrações demográficas
e a pesca de subsistência contribuem para a elevação do consumo, principalmente naqueles estados com parcelas
significativas da população em áreas ribeirinhas. A pesca de subsistência também eleva o consumo de pescado entre
as parcelas da população com menores rendimentos na região Nordeste. Já nas regiões Sudeste e Sul aqueles com
maiores rendimentos apresentam maior consumo de pescado, como opção a uma alimentação mais saudável, e pela
possibilidade econômica de maior diversificação da cesta de alimentos.

Nos últimos anos, as políticas públicas de inserção social e redução dos níveis de pobreza obtiveram êxito, atribuindo
ganhos reais de renda para uma parcela significativa da população. A educação alimentar dessa população poderia
com êxito aumentar os gastos realizados na aquisição de pescado, promovendo uma alimentação mais saudável e
de qualidade, melhorando consideravelmente a saúde de modo geral. Principalmente entre gestantes e crianças na
primeira infância, pela importância do consumo de lipídios, especificamente ômega 3 e 6 - abundantes em pescados
- para o desenvolvimento humano.

70
A DEMANDA DOMICILIAR POR PESCADO NO RIO DE JANEIRO

O Rio de Janeiro apresenta a maior demanda domiciliar per capita por pescado dentro da região Sudeste. Segundo a
POF 2002-2003, esse consumo foi de 3,757 kg/hab, enquanto a demanda domiciliar per capita no Brasil foi de 4,587 kg/
hab e a da região Sudeste de 2,171 kg/hab (Figura 6).

Figura 6
Aquisição domiciliar per capita de pescado, para Brasil, região Sudeste e Rio de Janeiro - 2002-2003.

A aquisição domiciliar no Brasil, levantada pela POF 2002-2003, representa 78,77% da oferta aparente brasileira no
mesmo período. Para o Rio de Janeiro, a aquisição domiciliar de 3,757 kg/hab representa 61,74% da oferta aparente,
sendo que os outros 38,25% ofertados foram consumidos em bares, restaurantes e hotéis, entre outros.

Os pescados com maior aquisição per capita foram: corvina fresca (0,853 kg/hab), sardinha fresca (0,234 kg/hab),
pescadinha fresca (0,202 kg/hab), sardinha em conserva (0,119 kg/hab) e pescada fresca (0,106 kg/hab).

Enquanto o consumo fluminense apresentou-se como sendo de 3,757 kg/hab, este representou apenas 0,59% do
consumo total de calorias pela população do estado, pois os pescados possuem um baixo teor calórico, contribuindo
para uma alimentação saudável. Entre os pescados mais consumidos pelos fluminenses destaca-se que: corvinas assadas
apresentam 69 Kcal, sardinhas em conservas, 285 Kcal; sardinhas cruas, 76,6 Kcal; pescada, 107 Kcal e pescadinha, 76
Kcal (dados referente a uma porção de 100 g comestíveis) (NEPA/Unicamp, 2006).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 71


A BALANÇA COMERCIAL DO PESCADO

O Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comercio Exterior – MDIC é o responsável por processar e divulgar as
informações sobre as exportações e importações brasileiras. Esses dados são importantes, pois através deles pode-se
identificar a competitividade de produtos brasileiros no mercado externo, o volume de produtos que são negociados,
suas características e valores, entre outros aspectos.

Porém, quando se trata da negociação em mercados externos de pescados, a estatística brasileira, gerada pelo MDIC,
o órgão oficial, apresenta uma série de problemas. Os pescados são discriminados numa lista chamada Nomenclatura
Comum do MERCOSUL – NCM, sendo que muitas vezes observa-se que os nomes comuns de comercialização dizem
respeito a espécies que não são explotadas no Brasil. Os recursos pesqueiros de alto valor de mercado podem ser
agregados, na estatística, sob a nomenclatura Outros peixes, impedindo o reconhecimento das espécies e uma
avaliação mais exata da sua negociação no mercado externo.

Em função dos problemas na estatística oficial, na avaliação dos dados tem-se que considerar a subestimação das
negociações realizadas no mercado externo, pela precariedade e pouca confiabilidade dos dados, impedindo
a avaliação da geração de divisas e impostos gerados no comércio externo e a impossibilidade de estabelecer
instrumentos políticos de desenvolvimento do comércio pesqueiro (Soares, 2008).

A BALANÇA COMERCIAL DE PESCADO BRASILEIRA

A balança comercial de pescado brasileira foi predominantemente deficitária (gastos com importações maiores que as
exportações), ao longo do período de 1996 a 2007 (Figura 7). O maior salto nas exportações ocorreu no ano de 2000,
quando o valor monetário teve um acréscimo de 81,13% em relação ao ano de 1999. Nos anos seguintes, entre 2001 e
2005, a balança comercial tornou-se superavitária, com o crescimento das exportações.

Porém, em 2006 as importações tornaram a aumentar, revertendo o quadro de superávit comercial. O período de
superávit comercial para produtos pesqueiros coincide com a atuação de inúmeras embarcações arrendadas operando
na Zona Econômica Exclusiva, explorando comercialmente recursos demersais de profundidade e atuns e afins.

72
Figura 7
Balança comercial de pescado, para o Brasil - 1996-2007 - US$.

Considerando o volume exportado de pescado pelo Brasil, no período de 1996 e 2007, entre os estados das regiões
Sudeste e Sul, Santa Catarina teve a maior participação relativa no período, com 14,58% do volume físico e 6,78%
do valor monetário, seguida pelo Rio Grande do Sul, que participou com 6,83% do volume físico e 2,73% do valor
monetário, e São Paulo participou com 4,75% do volume físico e 3,63% do valor monetário. A participação das
exportações de pescado procedentes do Rio de Janeiro no volume total exportado pelo Brasil foi bastante reduzida no
período de 1996 a 2007. Em média, a participação fluminense foi de 4,12% no volume físico (peso líquido em kg), e de
2,6% no valor monetário (US$ FOB).

Nas regiões Sudeste e Sul, o Estado de Santa Catarina se apresenta como o maior exportador, em função de sua
proximidade com importantes áreas de pesca, e pela presença de infraestrutura adequada para exportação de carga
frigorífica pelo Porto de Itajaí. E também pela concentração significativa de empresas do setor pesqueiro, que faz do
estado o maior em número de empresas e emprego como será descrito mais à frente.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 73


AS EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES FLUMINENSES DE PESCADOS

No ano de 2001 foi observado o melhor desempenho das exportações de pescados procedentes do Rio de Janeiro.
Foram exportados 3.745.930 kg de pescados em suas diversas formas de comercialização, volume que gerou US$
9.753.823,00. As exportações do Rio de Janeiro predominantemente foram de peixes na forma frescos ou refrigerados
(78,29%), seguido de peixes congelados (14,66%) (Figuras 8 e 9), porém, apresentando forte declínio, ao longo do
período analisado.

Figura 8
Exportações de pescados procedentes do Estado do Rio de Janeiro, no período 1996-2007 (kg).

Fonte: MDIC, 2008

Em média, 96,62% do volume físico dos peixes frescos exportados foram agregados na Nomenclatura Comum do
MERCOSUL (NCM), sob a partida 03026990 - outros peixes frescos e refrigerados.

74
Figura 9
Exportações de pescados procedentes do Estado do Rio de Janeiro, no período - 1996-2007 (US$ FOB).

Fonte: MDIC, 2008

Entre os peixes discriminados na NCM destacam-se na exportação fluminense - na forma fresca e refrigerada:
cavalas e cavalinhas, sardinhas e sardinelas e garoupas (Tabela I). A exportação de atuns frescos e refrigerados foi
também expressiva na pauta de exportações fluminense. Com destaque para: atuns brancos e albacoras ou atuns-de-
barbatanas-amarelas.

Nas regiões Sudeste e Sul predominantemente as exportações são realizadas através do modal marítimo. Porém, no
Rio de Janeiro 80,10% das exportações do estado escoaram através de via aérea e apenas 18,37% por via marítima,
entre 1996-2007. O pescado fresco ou refrigerado exige a exportação por modal aéreo. As flutuações e o declínio das
exportações sob essa forma de comercialização podem ser um indício de dificuldades logísticas para comercialização
desse tipo de carga, que se caracteriza por valores de mercado superiores a outras formas de comercialização.
Deficiências na infraestrutura aeroportuária podem ter inibido a permanência de empresas exportadoras no mercado
externo com esse tipo de produto.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 75


Tabela I - Exportações de peixes frescos e refrigerados, procedentes do Estado do Rio de Janeiro, no período 1996-
2007.

Fonte: MDIC, 2008

As importações de pescado pelo Estado do Rio de Janeiro foram predominantemente de pescado congelado, em
média 55,27% do volume físico, seguido de filés de peixes 21,3%, e de pescados salgados e secos, com 19,20%, para o
período de 1996-2007 (Figuras 10 e 11).

A balança comercial de pescados do Rio de Janeiro manteve-se deficitária entre 1996 e 2007 (Figura 10, Tabela II). As
importações foram significativamente maiores que as exportações, principalmente nos anos do início e fim do período
analisado.

76
Figura 10
Importações de pescado, no Estado do Rio de Janeiro, entre - 1996-2007 (kg).

Fonte: MDIC, 2008

Tabela II - Balança comercial de pescado, para o Estado do Rio de Janeiro (US$).

Fonte: MIDC,2008

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 77


Figura 11
Importações de pescado, no Estado do Rio de Janeiro, entre - 1996-2007 (US$).

Fonte: MDIC, 2008

Em 1996 o déficit foi de US$ 98.290.133,00. Esse déficit foi reduzindo ao longo do período e atingiu seu menor valor em
2002, quando alcançou US$ 28.990.245,00. A partir desse ano o montante do déficit voltou a aumentar e atingiu US$
95.946.783,00 em 2007 (Figura 12, Tabela II).

Figura 12
Balança comercial de pescado, para o Estado do Rio de Janeiro, no período - 1996-2007 - US$.

78
Entre os recursos exportados, aqueles com expressivo valor de mercado foram principalmente crustáceos e moluscos.
Em 2006, o polvo foi exportado ao preço médio de US$ 10,91; caranguejos congelados foram exportados em 2007
ao preço médio de US$ 15,87, enquanto atuns foram exportados em 2007 ao preço de US$ 6,31. Já os filés de merluza
foram importados ao preço médio de US$ 1,68.

Das 289 empresas fluminenses que compõem a cadeia produtiva de pescado, apenas 10 estão habilitadas para exportar
junto ao DIPOA/MAPA. As flutuações no volume e espécies exportadas foram expressivas e não podem ser explicadas
exclusivamente por variações cambiais.

Quanto às importações, observa-se claramente que os recursos importados vêm suprir o mercado local com produtos
que não são produzidos no mercado nacional, no caso dos bacalhaus salgados, ou produzidos não em quantidade
suficiente para o abastecimento local, no caso dos filés de merluzas e peixes congelados. As importações de sardinhas
no Brasil vêm suprir as empresas de conservas, uma vez que os estoques de sardinhas sofreram as pressões do excesso
de esforço de pesca ao longo dos anos. A redução das capturas leva a esse tipo de procedimento para manter a
regularidade de oferta à indústria e não comprometer o funcionamento das empresas.

A CADEIA PRODUTIVA DE PESCADO


A cadeia produtiva é composta por todas as
atividades econômicas que relacionam-se, à
montante e à jusante (para frente e para trás), no
fornecimento de bens e serviços a um determinado
mercado. Ou seja, são empresas articuladas
verticalmente no fornecimento e aquisição de bens
e serviços, de vários segmentos industriais, que
possibilitam a produção e comercialização de um
determinado produto.

Na cadeia produtiva de pescado tem-se três


segmentos importantes relacionados. A captura,
o beneficiamento e a comercialização de pescado,
a partir dos quais se pode obter o número de
empresas e empregos diretos vinculados à
atividade. A representação da cadeia produtiva e
do mercado de pescado pode ser visualizada no
fluxograma.

Através dos dados gerados pelo Ministério do


Trabalho e Emprego – MTE – e disponibilizados no
banco de dados da Relação Anual de Informações
Sociais – RAIS, torna-se possível caracterizar a
cadeia produtiva de pescado quanto ao número
de empresas e empregos formais (que são aqueles
em que o trabalhador tem vínculo empregatício
com o empregador e são garantidos os direitos
trabalhistas e de seguridade social (INSS, FGTS)).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 79


Para a caracterização da cadeia produtiva, consideram-se os seguintes segmentos industriais:
i) pesca e serviços relacionados (classe 05118-CNAE), que compreende as atividades de captura e recolhimento
de recursos aquáticos vivos;
ii) preparação e preservação do pescado e fabricação de conservas de pescado (classe 15148-CNAE), que representa
o segmento de beneficiamento de pescado, incluindo sua preservação frigorificada e congelada; e
iii) o comércio atacadista de pescado (classe 51357-CNAE) fresco, frigorificado, congelado e pescado preparado
e enlatado.

Com esses dados é possível visualizar os movimentos de concentração e dispersão industrial em regiões específicas.
Mas seriam necessários estudos econômicos aprofundados, com levantamento de dados junto às empresas de cada
segmento ou setor, para identificar as razões que levam a esses movimentos e permitir estabelecer o diagnóstico
técnico-econômico da indústria. Porém, esses estudos não existem para a indústria pesqueira brasileira.

CONCENTRAÇÕES DA INDÚSTRIA PESQUEIRA NO BRASIL

O número de estabelecimentos na cadeia produtiva de pescado brasileira em 1996 era de 1.735 empresas e, em 2006,
de 2.010 empresas. Em 10 anos o número de estabelecimentos aumentou 15,71%, e observa-se também um movimento
de maior concentração regional em direção aos Estados de Santa Catarina e Pará, com o descréscimo do número de
estabelecimentos nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em relação ao número de empregos gerados na cadeia produtiva brasileira, em 1996 foram registrados 26.582
empregos formais, e 26.738 em 2006. Em 10 anos, os empregos formais mantiveram-se, com apenas 156 novos postos
de trabalho.

Em 1996, o setor de pesca e serviços relacionados concentrava-se nos Estados do Rio de Janeiro (23,10% dos empregos
formais), Santa Catarina (21,42%) e São Paulo (17%). Já em 2006 o setor concentrava-se em Santa Catarina (35,55% dos
empregos formais), Pará (19,29%) e São Paulo (14,93%) (Tabela III).

Os empregos no setor de beneficiamento de pescado, em 1996, concentravam-se no Rio de Janeiro (34,24%), Santa
Catarina (13,52%) e São Paulo (15,64%). Em 2006 as maiores concentrações do setor estavam nos Estados de Santa
Catarina (29,67%), Rio Grande do Sul (21,75%) e Pará (11,07%)(Tabela III).

Enquanto o setor de comércio atacadista de pescado, em 1996, concentrava-se nos Estados de São Paulo (27,24%),
Rio de Janeiro (19,71%) e Pernambuco (12,04%). Já em 2006, as maiores concentrações estavam nos Estados de Santa
Catarina (23,53%), São Paulo (22,98%) e Rio Grande do Sul (9,56%) (Tabela III).

80
Tabela III - Empregos na cadeia produtiva de pescado, para o Brasil e estados selecionados - 1996-2006.

Fonte: MTE,2008

O Estado do Rio de Janeiro em 1996 concentrava 21,2% dos estabelecimentos brasileiros dos três setores da cadeia
produtiva de pesca (368 empresas), e, 10 anos depois, 14,37% (289 empresas). Em relação aos empregos formais, em
1996 o Rio de Janeiro respondia por 27,37% dos empregos da cadeia produtiva brasileira, e em 2006 essa participação
se restringiu a 8,7%

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 81


Todos os setores da cadeia produtiva fluminense passaram por drasticas reduções no nível de emprego em 10 anos. O
setor de pesca e serviços relacionados reduziu os postos de trabalho em 51,9%, o setor de beneficiamento em 82,52%
e o comércio atacadista em 42,95%.

Em 1996 havia 32 empresas de beneficiamento de pescado no Estado do Rio de Janeiro. Dessas, 74% eram micro e
pequenas empresas, classificadas como micro quando funcionam com até 19 funcionários, e pequenas quando operam
com 20 a 90 funcionários. Seis empresas eram de médio porte, com 100 a 400 funcionários, localizadas em Niterói e São
Gonçalo. Duas grandes empresas, com mais de 500 funcionários, estavam localizadas em Niterói e Três Rios. Em 2001 o
total de empresas do setor de beneficiamento foi reduzido para 15 empresas, sendo 66% micro e pequenas empresas,
quatro empresas de médio porte e uma grande empresa. Em 2006, o número total de empresas passou a 20, sendo
85% delas micro e pequenas empresas; as empresas de médio porte deixaram de existir e uma empresa de grande
porte operava no município de São Gonçalo.

CONCENTRAÇÕES LOCAIS DA ATIVIDADE PESQUEIRA FLUMINENSE

As aglomerações espaciais de uma atividade econômica são condicionadas pela disponibilidade de recursos naturais,
pela estruturação de um mercado de trabalho especializado e flexível, pelo caráter industrializante do povo e das
instituições sociais e políticas. A disponibilidade de infraestrutura comum que garante às empresas a obtenção de
externalidades positivas, principalmente vinculadas às economias de escopo, a redução de custos de transação e
informação, também são determinantes das aglomerações.

Na distribuição espacial da pesca artesanal predominam aspectos culturais, geográficos e biológicos das espécies alvo
das pescarias. Em torno desta, pelo processo econômico de acumulação de capital e pela implementação de políticas
públicas, ao longo do tempo, vai sendo construída uma rede de atividades complementares e especializadas que
possibilitam a estruturação da atividade industrial, ou ainda a coexistência dessas duas formas de produção, artesanal
e industrial.

O número de pescadores artesanais, segundo dados obtidos junto à SEAP/PR no Registro Geral de Pesca, o Estado do
Rio de Janeiro, em 2006, totalizava 13.471 trabalhadores. A distribuição espacial de pescadores artesanais mostrou
grandes concentrações nas regiões: Metropolitana, com 5.398 pescadores artesanais, Norte, com 3.693 artesanais,
Baixada Litorânea, com 2.788, e Baixada da Ilha Grande, com 1.179 pescadores artesanais. Os municípios com maiores
concentrações de pescadores artesanais são apresentados na Tabela IV.

82
Tabela IV - Distribuição de pescadores artesanais por municípios fluminenses – 2006.

Fonte: SEAP-PR

Dado o número de empresas identificadas, pela RAIS 2006 (MTE, 2008) no Rio de Janeiro, a cadeia produtiva pesqueira
concentrou-se nas regiões: Metropolitana, na Baixada Litorânea, na Região Norte e na Baia da Ilha Grande, sendo que
cada uma dessas concentrações apresentou características e comportamentos distintos ao longo dos anos de 1996 a
2006 (Tabela V).

Na Região Metropolitana identificou-se a presença de empresas de todos os segmentos da cadeia produtiva, sendo
essa a principal concentração da cadeia produtiva pesqueira fluminense. Essa região foi amplamente contemplada
por políticas públicas na constituição de infraestrutura pesqueira e por incentivos fiscais à constituição de empresas
do setor ao longo da década de 60 e 70, o que elevou o Estado do Rio de Janeiro a uma das principais concentrações
nacionais de pesca industrial e um grande fornecedor de pescado ao mercado nacional. As mudanças ocorridas nas
políticas nacionais de desenvolvimento da atividade pesqueira, as pressões de ocupação espacial urbana são fatores
que explicam o declínio da atividade nessa região.

O maior entendimento da dinâmica dos recursos pesqueiros e a necessidade de ampliar a eficiência produtiva,
conciliando a capacidade de produção instalada nas empresas à disponibilidade de recursos pesqueiros, levaram a
reorientação das empresas pesqueiras no espaço. As empresas, de modo a reduzir os custos operacionais com captura
e desembarque e manter a regularidade de abastecimento de matéria-prima (pescados), passaram a se localizar
próximo às áreas de pesca com maior abundância de recursos ou buscando reduzir a distância dessas áreas com seu
posicionamento em terra.

Na Região da Baixada Litorânea também foi possível observar a presença de todos os segmentos da cadeia produtiva
pesqueira. Nessa região observou-se o aumento no número de empresas no segmento de pesca industrial e de
beneficiamento de pescado e o decréscimo do número de empresas do setor atacadista de pescado. Essa região
apresentou a maior dinâmica de concentração da cadeia produtiva pesqueira entre 1996 e 2006. No Brasil, a atividade
pesqueira apresenta a característica de verticalização das atividades de captura, beneficiamento, distribuição e
comercialização de pescado, onde empresas de um segmento acabam por atuar em outros. Esse comportamento tem

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 83


por um de seus objetivos a manutenção e/ou a obtenção de regularidade da oferta (Soares, 2007). Essa tendência à
verticalização das atividades pode estar se configurando na Baixada Litorânea, reduzindo o número de intermediários
na distribuição e comercialização do pescado entre empresas do setor, prática essa muito comum na atividade
pesqueira fluminense.

A Região Norte caracteriza-se principalmente pela alta concentração da pesca artesanal e do setor atacadista de pescado.
Essa combinação de atividades indica que o número de intermediários no processo de distribuição e comercialização
seja elevado, bem como uma infraestrutura pesqueira deficiente, com prejuízos aos pescadores artesanais no processo
de negociação do pescado, que recebem preços baixos pelo produto de suas capturas.

Na Região da Baía da Ilha Grande a cadeia produtiva esteve composta por pesca artesanal e industrial e empresas
atacadistas de pescado, sendo perceptível o decréscimo no número de empregos e empresas no segmento de captura
industrial.

84
Tabela V - Número de empresas e empregos na cadeia produtiva de pescado fluminense – 1996-2006.

Fonte: MTE,2008

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 85


DETALHAMENTOS DOS SETORES DA CADEIA PRODUTIVA DE PESCADO FLUMINENSE

Setor de pesca e serviços relacionados

Em 1996 identificava-se a operação de 234 empresas no setor de pesca e serviços relacionados (classe 05118-CNAE). Ao
longo dos anos esse número foi reduzindo, sendo que em 2006 o Estado do Rio do Janeiro concentrava 183 empresas,
ou seja, uma redução no número de empresas de 21,79%. Em relação aos empregos formais no setor, em 1996 havia
2.258 trabalhadores, e em 2006 o número de trabalhadores formais era de 1.086, um decréscimo decréscimo de 51,9%
(Tabela VI).

Em 2006, a RAIS passou a discriminar as atividades de pesca de água salgada e pesca de água doce. O número de
empresas no segmento pesca de água doce foi de cinco empresas, e o número de empregos formais, de sete. Assim, o
número de empregos formais no setor de pesca e serviços relacionados, em 2006, totalizou 1.086 trabalhadores.

Observa-se, na Tabela VI, que na Região Metropolitana do Rio de Janeiro ocorreu uma redução de 58,46% no número
de empregos formais no setor, na Região da Baía da Ilha Grande a redução foi da ordem de 26,28%, enquanto, na
Região Litorânea o número de empregos teve um incremento de 3,59 vezes.

Tabela VI - Número de empresas e empregos no setor de captura de pescado, no Estado do Rio de Janeiro.

Fonte: MTE,2008

Entre as ocupações no setor, destacam-se aquelas diretamente vinculadas à captura (Tabela VII); os pescadores
industriais corresponderam a 32,45% dos trabalhadores formais do setor.

Segundo informação obtida junto à Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca – SEAP/PR, o número de pescadores
artesanais cadastrados no Registro Geral de Pesca em 2006 era de 13.471.

86
Tabela VII
Número de empregos formais por ocupação e número de pescadores artesanais, no Estado do Rio de Janeiro-2006.

Segundo os dados da RAIS, predominou no setor a contratação de trabalhadores do sexo masculino. Mulheres
representaram apenas 2,17% dos vínculos de trabalho em 2006. O número de jovens contratados foi bastante restrito,
apenas 18% dos trabalhadores tinham idade até 29 anos, sendo que 28,7% tinham idade entre 40 e 49 anos, 25,7%
idade na faixa dos 50 a 64 anos, e 24,6% na faixa dos 30 a 39 anos. Dos trabalhadores, 36,34% possuíam como educação
formal a 4ª série completa ou incompleta, e 58,43% o segundo grau completo/incompleto, 99,74% dos trabalhadores
do setor tinham contratos de trabalho com carga horária semanal entre 41 e 44 horas. A remuneração média mensal
foi de até dois salários mínimos para 59,3% dos trabalhadores, e de 2,01 a quatro salários mínimos para 30,26% dos
trabalhadores.

Cabe salientar, mais uma vez, que o número de empregos obtidos junto ao MTE é de postos de trabalho formais;
o número de pescadores industriais deve ser maior devido à condição de trabalho autônomo ou informal nas
embarcações.

SETOR DE BENEFICIAMENTO DE PESCADO

O setor de beneficiamento, preparação e preservação do pescado e fabricação de conservas de pescado (classe 15148-
CNAE), em 1996, possuía 32 empresas que geraram 4.097 empregos formais; já em 2006 o número de empresas reduziu
para 20 e os postos de trabalho formais foram de 716. Ou seja, o número de empresas fluminenses que processavam
pescados reduziu, em 10 anos, em 37,5%, e os trabalhos formais em 82,52% (Tabela VIII).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 87


Tabela VIII - Número de empresas e empregos - setor de beneficiamento no Estado do Rio de Janeiro.

Fonte: MTE,2008

O número de empresas, ao longo do período, reduziu em 54,5% na Região Metropolitana, e os empregos formais
no setor reduziram em 66,83%. Já na Região da Baixada Litorânea, o número de empregos formais no setor de
beneficiamento aumentou 11 vezes.

Dos empregos formais gerados no setor de beneficiamento em 2006, 47,76% dos postos de trabalho foram ocupados
por homens e 52,23% por mulheres. Trabalhadores com até 29 anos representaram 30% do total de empregados. Entre
a faixa etária de 40 a 49 anos encontravam-se 25,98% dos trabalhadores.

Nesse setor a totalidade dos contratos de trabalho foi na faixa de 41 a 44 horas semanais e 78,1% dos trabalhadores
receberam até dois salários mínimos mensais; 56% desses trabalhadores possuíam ensino formal entre a 5ª e a 8ª
séries completo ou incompleto; 24,44% ensino de primeiro grau, e apenas 14,8% apresentavam o 2º grau completo
ou incompleto.

COMERCIO ATACADISTA DE PESCADO

No comércio atacadista de pescado (classe 51357-CNAE), em 1996, havia 102 empresas que geravam 922 postos de
trabalho formais. No ano de 2005 o número de empresas foi de 86, e o número de empregos de 526. Uma redução de
15,68% no número de estabelecimentos e de 42,95% nos empregos formais do setor (Tabela IX).

88
Na Região Metropolitana e na Baixada Litorânea ocorreram reduções expressivas no número de trabalhadores formais,
entre 1996 e 2006, tendo sido de 42,25% e 67,98%, respectivamente, enquanto na Região Norte observou-se um
incremento de 32,43% no número de empregos formais.

Tabela IX - Número de empresas e empregos no setor atacadista no Estado do Rio de Janeiro.

fonte: MTE, 2008

Dos 526 empregos formais gerados no setor em 2005, 76,62% dos postos de trabalho foram ocupados por homens,
e 23,38% por mulheres. Desses, 34,6% tinham idade na faixa dos 30 a 39 anos, 30,23% até 29 anos, e 20,72% entre 40
e 49 anos. 54,75% dos trabalhadores tinham escolaridade entre a 5ª e 8ª série, e 27,56% o segundo grau completo/
incompleto

Os contratos de trabalho foram predominantemente na faixa de 41 a 44 horas semanais, 93,34%. 71,86% dos
trabalhadores formais recebiam até dois salários mínimos mensais e 23,19% tinham salários mensais na faixa de 2,01 a
quatro salários mínimos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capítulo se caracterizou o mercado e a cadeia produtiva de pescado fluminense, buscando-se evidências das
formas como o mercado poderia estar condicionando a dinâmica da indústria, de modo a propor alternativas para um
maior dinamismo empresarial e intervenções públicas mais eficientes.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 89


O mercado consumidor dá as condições necessárias para um melhor desenvolvimento industrial; porém, a indústria
pesqueira fluminense ainda passa pelo processo de ajuste aos erros das políticas de desenvolvimento de décadas atrás
que a superdimensionaram - e ajustes inevitáveis à disponibilidade de recursos pesqueiros, principalmente aqueles
com grande aceitação no mercado e que encontram-se sobre-explotados ou plenamente explotados.

O mercado para produtos pesqueiros no Rio de Janeiro apresentou grandes flutuações na oferta primária e um grande
volume de importações de pescados. O consumo concentrou-se nas classes de rendimentos mais altas da população,
sendo que esses consumidores não apresentam restrições quanto ao consumo de pescado congelado, e prioriza de
alguma forma a regularidade da oferta.

Promover novas formas de apresentação e comercialização do pescado é importante para elevar o consumo per capita,
bem como promover o pescado como fonte de alimentos saudáveis. Os mercados para produtos alimentícios são
competitivos, e a agregação de valor aos produtos e a introdução de inovações é fator de atração e fidelização de
consumidores.

As possibilidades tecnológicas para inovar nos produtos, introduzindo diferenciações quanto às formas de preparo
e embalagens, podem tornar esses produtos mais atrativos ao consumidor. Esse processo, dentro das empresas de
beneficiamento, permite um novo impulso de dinamização das praticas produtivas e comerciais, trazendo vantagens
competitivas importantes para a manutenção e ampliação de seus mercados de atuação, inclusive o mercado
externo.

As estratégias empresariais de exportação de pescado fresco e refrigerado devem ser reavaliadas, pois é importante
que se busque a regularidade de atuação no mercado externo, permitindo o fortalecimento dos vínculos comerciais
que resultem em cooperação técnica e transferência de informações, também importantes para inovar. A identificação
de gargalos logísticos para distribuição e comercialização de cargas frescas e refrigeradas deve ser feito criteriosamente,
pois o pescado sob essa forma de comercialização possui alto valor de mercado e pode beneficiar a balança comercial
de pescado fluminense, que veio apresentando-se deficitária e com grandes flutuações nas quantidades físicas e
monetárias negociadas no mercado externo.

A adoção de instrumentos políticos na reorganização da cadeia produtiva tem que permitir a transferência de
informações e tecnologias para exploração de recursos com potencial de explotação, além de reduzir descartes e
perdas de pescado ao longo da cadeia produtiva, por investimentos na formação de uma infraestrutura eficiente,
principalmente referente ao uso do frio, de modo a ampliar a demanda por pescado no mercado local.

O declínio da atividade pesqueira fluminense ocorreu num processo acelerado, com forte impacto no mercado de
trabalho pela eliminação expressiva de postos de trabalhos formais. Na cadeia produtiva pesqueira ficou evidenciada a
baixa escolaridade e remuneração dos trabalhadores. Ações de valorização e qualificação profissional são importantes
para possibilitar práticas produtivas mais eficientes quando ao manejo do produto, a qualidade e inocuidade, reduzindo
perdas ao longo da cadeia e promovendo a segurança alimentar.

90
ANÁLISE DA FROTA PESQUEIRA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
4
Mauricio A. Nepomuceno de Oliveira
Rafael Botelho Duarte Coelho
Fernando Antonio Sampaio de Amorim

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 91


92
INTRODUÇÃO
O objetivo deste capítulo é discutir a tecnologia pesqueira, em especial a situação da frota fluminense. As embarcações
de pesca têm um papel fundamental na cadeia produtiva, sobretudo no que se refere aos custos econômicos e
ambientais da captura. Esses custos não são pequenos. Os gastos com investimentos em barcos e equipamentos, bem
como os custos de operação com combustível, gelo e manutenção, são quase a totalidade dos custos de captura, e sua
redução possibilitaria uma margem de retorno maior para os pescadores e, eventualmente, a redução do preço para
os consumidores. Os custos ambientais não são pequenos: sobrepesca, pesca predatória, caracterizada por descartes
muito elevados que resultam da utilização de técnicas de captura inadequadas, que sacrificam espécies sem valor
comercial, que são pouco seletivas e degradam o meio ambiente marinho.

O aumento da margem de retorno não é uma questão secundária. Significa o aumento de renda dos pescadores,
dos empreendedores e das empresas que atuam na atividade pesqueira. Basta se aproximar das comunidades de
pescadores para perceber que, em sua grande maioria, vivem na pobreza, apesar de utilizarem equipamentos e
recursos materiais de grande vulto em relação à riqueza de suas famílias e de gerarem uma renda muito significativa
na ponta da comercialização.

No caso das embarcações industriais, o aumento do retorno pode resultar na redução do preço na ponta de
comercialização - o que é fundamental para o aumento do consumo - e na ampliação das possibilidades de
reinvestimento em medidas que possam resultar em mais eficiência - sobretudo no que se refere à incorporação de
novas tecnologias.

As pequenas embarcações evoluíram muito nos últimos anos. Tanto na técnica de construção, linhas do casco, seleção
de hélice, como nos materiais. No entanto, as embarcações de pesca brasileiras sofreram poucas alterações nos últimos
100 anos. A tecnologia de construção das embarcações de pesca em madeira está baseada na tradição, que remonta
à chegada dos primeiros colonizadores portugueses, sendo as poucas alterações incorporadas por construtores
que jamais receberam qualquer tipo de qualificação ou educação técnica formal e sistemática. Constituíram seu
conhecimento a partir da tradição oral, tendo como mestres, na maior parte dos casos, seus pais ou avós. A construção de
embarcações é um dos principais elos da cadeia produtiva da pesca. É essencial para a preservação e desenvolvimento
de toda a atividade pesqueira. Também os terminais e portos de pesca são essenciais. Estas instalações praticamente
desapareceram, e as poucas existentes estão espremidas pelo desenvolvimento das cidades.

Há muitos anos não existem políticas públicas amplas tendo como objetivo o desenvolvimento da atividade pesqueira.
Apesar desse quadro, a atividade de pesca é responsável pelo emprego de dezenas de milhares de pessoas, contribui
de forma significativa na produção de alimentos, estimula o turismo em diversas regiões do país e é uma atividade
econômica das mais importantes no Estado do Rio de Janeiro.

A ausência do Estado na formulação de políticas públicas começou a ser revertida com a criação da SEAP - Secretaria
Especial de Aquicultura e Pesca e de secretarias estaduais e municipais de aquicultura e pesca. A criação destas instituições
vem estimulando o surgimento de programas com os mais diferentes objetivos: realização de diagnósticos, projetos
com objetivos de promover a modernização da frota pesqueira, técnicas de manejo e processamento de pescado,

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 93


introdução da aquicultura, formas mais eficientes de gestão dos empreendimentos. Enfim, medidas que, embora ainda
incipientes, apontam para uma gradual modificação do quadro atual de marginalização e desestruturação da atividade
pesqueira.

Outro aspecto importante é a crescente participação de universidades em estudos e pesquisas visando o


desenvolvimento de todas as atividades relativas à cadeia produtiva da pesca. Esta participação vem sendo estimulada
e consolidada pelo surgimento de fontes de financiamento. A intervenção do Estado é extremamente necessária
para regular a atividade pesqueira como um todo, medida fundamental para reverter o quadro de desarticulação que
caracteriza toda a sua cadeia produtiva.

O impacto ambiental provocado pela pesca, que hoje ameaça a própria atividade, é um ponto importante a se avaliar.
Em que medida a embarcação de pesca e as tecnologias de captura e manejo contribuem para a degradação ambiental,
a redução dos estoques pesqueiros e a poluição dos mares e águas internas?

O primeiro impacto está relacionado à atividade de construção. A maioria dos barcos é construída em madeira. Muito
raramente essa madeira vem de produtores certificados que produzem a madeira de reflorestamento ou de manejos
ambientalmente sustentáveis. Tanto na pesca artesanal quanto na pesca industrial, são poucos os barcos construídos
em outros materiais. Na segunda metade dos anos 1970, até meados dos anos 1980, a Sudepe, junto com a Sunamam,
formulou e realizou um programa de construção de embarcações de aço. A maior parte acabou sendo exportada,
porque o programa visava mais o interesse dos construtores do que a necessidade dos armadores de pesca brasileiros.
Algumas poucas unidades foram vendidas a armadores nacionais e estão em operação até hoje. A Sudepe, através do
FINAME, financiou também a construção de barcos em madeira. Foi o último programa de estímulo à renovação da
frota pesqueira. Desde então, os barcos novos são construídos sem financiamento ou qualquer outro tipo de apoio
financeiro, apenas com a poupança dos proprietários.

Os construtores de embarcações pesqueiras, em sua grande maioria, localizam-se próximo às comunidades tradicionais
de pescadores. Nas grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro, acabaram por ser desalojados pelo processo de
expansão das cidades. No interior, ainda resistem. No Estado do Rio de Janeiro existem ainda importantes comunidades
de construtores em Paraty, Angra dos Reis, Macaé, Atafona e Farol de São Tomé, sendo estas duas últimas as principais.
Todos os construtores adquirem madeira em distribuidores locais ou regionais, que em sua grande maioria não operam
com madeiras produzidas em áreas reflorestadas com certificação de origem e manejo. As indústrias madeireiras têm
encontrado dificuldade de conseguir matéria-prima e migrado de região. Este quadro aponta para uma provável
instabilidade da atividade de construção de embarcações tradicionais de pesca. A construção de embarcações em
madeira é uma atividade nobre para a utilização da madeira. Mesmo utilizando tecnologias ancestrais, ainda produzem
barcos baratos e seguros. Nesta atividade, os barcos são construídos um de cada vez, por um construtor com alguns
ajudantes ou profissionais autônomos que realizam partes específicas do processo construtivo, como, por exemplo,
o calafeto. Neste caso, é possível imaginar uma evolução para tecnologias que utilizem placas de compensado, com
elementos estruturais em madeira maciça, associado à fibra de vidro, que reduziria o custo de construção e manutenção.
Esta tecnologia poderia ser transferida para construtores tradicionais, a partir de um rápido processo de qualificação.
Embora o volume utilizado, atualmente, na construção de embarcações represente um pequeno percentual do volume
de produção de madeira, é importante buscar formas mais racionais e eficientes de utilizar este importante recurso
natural renovável.

94
Os impactos ambientais da captura podem ser avaliados por diferentes pontos de vista. Por exemplo, por vezes a
pesca de determinadas espécies subexplotadas não é realizada pela falta de tecnologia para captura em grandes
profundidades (falta de equipamento ou segurança da embarcação). A principal consequência é a permanência de
grande parcela de barcos e pescadores atuando em estoques que estão em sobrepesca.

Técnicas de captura inadequadas ou pouco seletivas são responsáveis por descartes muito elevados, que comprometem
os estoques - porque matam muitas espécies juvenis e destroem a fauna associada. O descarte é feito no mar, o que
acaba por aumentar a poluição. A solução passa por incorporar novas tecnologias, o que significa investimento em
barcos, equipamentos e qualificação.

Outro problema complexo é o excesso de barcos operando numa mesma área, uma das causas da sobrepesca. O
problema é complexo porque é o resultado de um amplo feixe de causas sociais e econômicas, como a migração e o
crescimento desordenado de muitas cidades costeiras, o que coloca a pesca como uma alternativa para a mão-de-obra
de baixa qualificação - constituindo, desta forma, um círculo vicioso de crescimento desordenado e desestruturado
da atividade pesqueira. A solução, no entanto, não é assim tão complexa. Passa pelo zoneamento e pela renovação da
frota com a qualificação dos pescadores.

A PESCA

A pesca é a atividade de captura de peixes e outros organismos aquáticos. A captura dos mamíferos em geral é chamada
caça. A caça e a pesca são das atividades mais antigas realizadas pelo homem. Como propósito de subsistência, a pesca é
encontrada em diversos povos antigos que tinham alguma proximidade com mares, rios e lagos. As técnicas de captura
acabaram encontrando soluções semelhantes em locais e épocas diferentes e, apesar dos avanços tecnológicos, as
ferramentas de captura continuam sendo conceitualmente as mesmas, com poucas exceções.

i- Coleta - Atividade das mais simples, mas realizada até hoje. Ato de retirar com a mão os crustáceos e moluscos.
Há alguma complexidade na pesca de lagosta, porém em outros casos, como na coleta de mariscos, mexilhões
e ostras, se mantém da mesma maneira há milhares de anos;
ii- Arpões, flechas e lanças - A pesca com arpões, flechas e lanças tem origem no desenvolvimento das ferramentas
em pedras lascadas e em osso de animais. Pouco utilizada atualmente nos mares. Alguns exemplos ainda
encontram-se na pesca submarina e na caça às baleias;
iii- Armadilhas - Criam mecanismos para apreender espécies aquáticas. Primeiramente utilizadas em cavidades
naturais adaptadas pelo homem que, aproveitando a variação da maré, capturavam alguns peixes. A construção
de armadilhas evoluiu com fibras vegetais, argila e hoje também se utilizam materiais sintéticos. Esta tradição
permanece até hoje e é muito usada na pesca do polvo, do caranguejo e de outras espécies;
iv - Os anzóis - Existem imagens em pinturas rupestres de 10000 a.C. Foram produzidos em madeira, pedra, ossos e
metais. Hoje os anzóis ainda são usados com varas, em espinhéis, linhas longas (longlines) e pescas de mão;
v - As redes - Muito antigas - feitas em fibras vegetais - e hoje fabricadas em materiais sintéticos. São usadas na
pesca de arrasto, emalhe e cerco.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 95


Estas ferramentas são o resultado de um longo processo de evolução ainda em aberto. A todo o momento podem ser
observadas evoluções, que, no entanto, não modificaram o seu conceito original. Os materiais das diversas ferramentas
foram sendo substituídos por outros mais resistentes ou mais baratos. Porém, o conceito original na sua essência
permaneceu inalterado. A quantidade capturada aumentou, pois se incorporaram às ferramentas algumas técnicas. O
desafio de desenvolvimento destas ferramentas não pode ser olhado separado das técnicas de captura. Algumas delas
começam em beiras de praia ou em rios e lagos: o ato de arrastar redes na praia, colocar redes de espera na corrente de
rios ou em lugares por onde passam cardumes, lançar anzóis, cercar cardumes.

a- Rede de espera, emalhe - Nestas técnicas os peixes são capturados após colidirem com a rede e ficarem
emaranhados, embolados, presos. A rede fica esticada no mar ou nos rios e lagos, no fundo, à meia água ou na
superfície;
b- Cerco - Esta técnica opera com redes que cercam os cardumes pelos lados e por baixo. Em sua ampla maioria
se trata de pesca de superfície. As redes podem operar com cabos no fundo para fechar o saco ou sem cabos
onde a rede se fecha passando uma asa (lateral da rede) para cada lado;
c- Arrasto - As redes são rebocadas e possuem um corpo cônico com um saco no fundo, em geral são utilizadas
para a pesca de fundo, mas podem ser utilizadas em pesca de meia água ou superfície. Na pesca de pareja
(ou parelha) são utilizadas duas embarcações. Existem embarcações que utilizam braços laterais (tangones)
arrastando duas ou até quatro pequenas redes. Existe também o arrasto de uma única rede lançada pela
popa. Em geral utiliza portas para mantê-las abertas e no fundo, mas pode utilizar varas. Possui roletes e pesos
quando para o arrasto de fundo;
d- Espinhel - Os espinhéis são linhas onde serão fixados diversos anzóis. Estas linhas podem ficar na horizontal
ou na vertical em relação à superfície do mar. Quando na horizontal, podem ser largados no fundo ou na
superfície. Em espinhéis longos de fundo se utilizam cabos de aço para fixar os diversos anzóis e podem possuir
longas extensões. Os anzóis podem levar iscas vivas ou mortas;
e- Varas e pesca de mão - Cada pescador lança um ou mais anzóis no mar, podendo capturar peixes na superfície
ou no fundo. Os maiores exemplos da pesca na superfície são as pescas de bonitos-listrados (vara e isca-viva),
albacoras e lulas. Quando utilizando linhas de fundo, os pescadores ficam em pequenos botes ou caíques
deixados no meio do mar por um barco maior. Varas também são muito utilizadas na pesca esportiva;
f- Armadilhas - usadas para capturar peixes, crustáceos ou moluscos. Possuem uma ou mais entradas, que, no
entanto, não permitem a saída. São lançadas no fundo do mar, com uma boia de sinalização e iscas. Nestes
cabos podem estar amarradas uma ou várias armadilhas. Podem ser feitas de argila, madeira, trançados ou
matérias sintéticos.

EMBARCAÇÕES

São os veículos que conduzem os pescadores e seus petrechos até os sítios de pesca. São usados como plataforma
para o lançamento e recolhimento desses petrechos na captura dos pescados e transportam o resultado do trabalho,
de volta, até os portos de desembarque.

96
Sempre foi assim. Evoluíram de canoas escavadas em troncos, jangadas, a embarcações com estrutura de madeira
revestidas com couros de animais, curtidos com látex e outras técnicas utilizando resinas e ceras vegetais ou animais.
Os barcos foram crescendo, ganharam velas e passaram a pescar em sítios mais distantes.

Durante muitos séculos as embarcações de pesca navegavam pouco e eram construídas com a mesma tecnologia
das embarcações mercantes. As embarcações têm seus principais avanços ligados à defesa do território nacional e ao
transporte de mercadorias. Pois esses avanços são imediatamente incorporados e permitem o alcance de locais de
pesca mais distantes e a captura em maior quantidade. Na Idade Média, muitos povos começaram a pesca em sítios
bem distantes. Os portugueses e espanhóis, por exemplo, pescavam em águas do norte e a caravela era originalmente
um barco de pesca que foi desenvolvido para explorar a costa ocidental da África, por suas características de manobra,
fruto do arranjo vélico e da geometria do casco.

A articulação das ferramentas, das técnicas e das embarcações induz amplas modificações na atividade pesqueira.
Promove, também, mudanças na organização social e nas relações de produção da sociedade. Sobretudo, na estrutura
social que se processa na Europa a partir do crescimento do mercantilismo e da ascensão da burguesia a classe
dirigente.

Na Idade Média, o comércio não estava amplamente desenvolvido e a pesca se mantinha como uma atividade de
subsistência, sem rupturas com a tradição. Com a entrada do mercantilismo, as embarcações tiveram um amplo
desenvolvimento e ficou evidente a ligação de codependência entre o desenvolvimento das relações econômicas
e sociais, o avanço tecnológico e o crescimento da pesca. O aumento da população das cidades, estimulado pela
migração dos camponeses, criou novos problemas para os quais a tradição não tinha respostas. Era preciso alimentar
uma população, que até então era autossuficiente e produzia seus próprios alimentos. O desafio de trazer mercadorias
do Oriente estimulou a construção de embarcações capazes de navegar nos oceanos com ondulações maiores e em
viagens mais longas. O crescimento das cidades estimulou a produção de alimentos, a mudança e o crescimento da
pesca.

A mais significativa mudança da atividade de pesca foi consequência da Revolução Industrial, que marcou a supremacia
da forma industrial do capitalismo. O desenvolvimento tecnológico estimulado pelas revoluções industriais dos séculos
XVIII e XIX criou diversas possibilidades para a construção de embarcações. A produção de aço em larga escala e
propriedades mecânicas permitiram a sua utilização na construção do casco. No fim do século XIX, o aparecimento das
máquinas alternativas a vapor e, posteriormente, da turbina a vapor e dos motores de combustão interna estimulou
a modernização dos barcos de pesca e o aumento de sua eficiência. A implantação da ferrovia e o desenvolvimento
da tecnologia de refrigeração criaram a possibilidade da formação de redes de comercialização para o pescado que
ampliaram e intensificaram a comercialização em regiões distantes dos centros de produção e beneficiamento. A
Revolução Industrial empurrou a pesca, assim como muitas atividades tradicionais - com forte raiz na atividade de
subsistência - para a produção de mercadorias em uma escala muitas vezes superior ao estágio anterior. Essas
mercadorias entram no mercado capitalista com todas as vantagens e desvantagens. Esse processo é longo e ainda está
por concluir. Não é difícil encontrar vestígios na pesca artesanal de relações econômicas e de produção pré-capitalistas.
As ferramentas se ajustam às novas características dos barcos. O arrasto e o cerco saem das praias e migram para os
mares. As redes ganham formas sofisticadas.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 97


No Brasil, a pesca tem muitas tradições: dos povos indígenas, dos portugueses, dos demais europeus e asiáticos
que migraram nos últimos dois séculos. Os povos indígenas eram nômades, mas desenvolveram muitas técnicas
de captura, inclusive armadilhas - principalmente aqueles que ocupavam o litoral. O processo de colonização criou
populações, como os caiçaras no litoral sudeste e sul, que promoveram sínteses das tradições indígenas com a tradição
portuguesa e, mais recentemente, com a de outros migrantes. A canoa caiçara é escavada no tronco das árvores da Mata
Atlântica. No século XVII, a caça da baleia em todo litoral brasileiro, e em particular no Rio de Janeiro, cresceu muito
significativamente. A caça era realizada com pequenos barcos a remo, de 8 a 12 metros, com casco trincado e geometria
simétrica. Uma vez abatida, a baleia era rebocada para a praia, onde era dissecada e salgada. Esta atividade também era
realizada ao largo da costa por escunas e outros veleiros que transportavam as baleeiras e as desembarcavam quando
encontravam as baleias. No século XIX a caça da baleia experimenta grande redução, como consequência do grande
declínio das suas populações. A atividade artesanal se mantém com poucas modificações, mas com grande diminuição
no volume abatido.

No inicio do século XX, a traineira é introduzida no litoral do Rio de Janeiro (Bernardes e Bernardes, 1950). Surgem as
redes de arrasto de camarão, em 1900, as redes de cerco, em 1910 (Brito apud Soares, 2003). Apesar de terem se passado
quase cem anos da chegada desses barcos, esta tradição pouco se modificou. Os construtores brasileiros copiaram
essas embarcações e em lugares diferentes surgem pequenas diferenças de forma, mas com muitas características
semelhantes.

Desde a chegada das traineiras, a pesca passou por diversos movimentos políticos para regular, incentivar e fomentar
a atividade. Os que tiveram impactos mais expressivos sobre a tecnologia pesqueira foram: a política da Sudepe; parte
dos planos dos anos 1950 a 1970; Plano de metas, 1956; I Plano Nacional de Desenvolvimento, 1965, e II Plano Nacional
de Desenvolvimento 1970. Com o subsídio à construção, alguns estaleiros do Brasil compraram projetos estrangeiros
de embarcações de aço e passaram a produzir diversas unidades. Com o passar dos anos, a maioria dos estaleiros
mudou de especialidade, passando a construir embarcações de grande porte. Com o choque do petróleo e o fim do
milagre, os grandes planos desapareceram e as políticas públicas tenderam a se liberalizar. Para a atividade pesqueira,
esta mudança de curso foi muito ruim, porque a maior parte dos empreendedores, sobretudo armadores de pesca,
não tinha condições econômicas para ter acesso aos mecanismos de financiamento. Apesar disto, duas empresas
surgiram nos anos de 1980 e construíram barcos de pesca com o casco em aço: a Corena, em Itajaí (SC), e o Inace, em
Fortaleza, no Ceará. No entanto, devido às restrições de acesso ao crédito, estas empresas migraram para a construção
de embarcações de recreio, patrulha ou de apoio marítimo. Também havia linhas de financiamento para a construção
de barcos de madeira em pequenas unidades de produção. Esta política acabou por consolidar a traineira de madeira
como o principal modelo de barco de pesca. A descontinuidade destas políticas afetou, sobretudo, esses pequenos
construtores, que têm muita dificuldade de migrar para outros mercados. Quase sempre estão estruturalmente
associados às comunidades de pescadores. Atualmente, a maioria das construções são autofinanciadas. A frota
pesqueira, em grande medida, foi constituída por essas políticas derivadas dos planos dos anos 1950 a 1970.

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A FROTA FLUMINENSE

Características Estruturais da Frota Pesqueira

A frota fluminense é antiga e mal dimensionada. Apenas 25% das embarcações possuem menos de 20 anos, como
pode ser observado na Figura 1.

Figura 1
Idade atual da frota pesqueira atuante no Estado do Rio de Janeiro.

Estes dados são uma forte evidência de que a forta fluminense é antiga e obsoleta. Porém, observamos nas visitas a
construtores e armadores que as embarcações de madeira construídas nos últimos cinco anos possuem uma concepção
de “projeto” muito semelhante aos de 60 anos atrás. Também as embarcações de aço são muito semelhantes às
construídas nos anos 1970 e 1980, há 20 ou 30 anos. Não poderia ser diferente. Neste período não existiram políticas
públicas para renovação e modernização da frota, tampouco programas de transferência de conhecimento e tecnologia
dos inúmeros centros, universidades e intituições que foram criados ou passaram a trabalhar com a pesca. O processo

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 99


de desenvolvimento dessas embarcações caminha, no Brasil, a passos muito lentos. Embarcações muito antigas têm
custo de manutenção alto, o que agrava o custo do pescado que capturam. No entanto, a questão central se refere
ao desenvovimento da tecnologia de captura como um todo. Barcos, petrechos, tecnologia de manejo do pescado
a bordo e terminais pesqueiros (se é que se pode chamar desta forma a maioria dos pontos de desembarque), que
progridem muito lentamente e ainda têm como elemento central a repetição da tradição.

Para validar a afirmação de que a frota está obsoleta, e de que boa parte das embarcações novas repetem e reproduzem
soluções também obsoletas, vamos analisar o conceito de projeto das embarcações de pesca. Estas precisam ser
eficientes porque respondem direta ou indiretamente pelos principais custos da atividade pesqueira. Os custos podem
ser divididos em custo de capital e custo operacional. O custo de capital é o custo de aquisição da embarcação e de seus
equipamentos (máquinas, guinchos e petrechos). O custo operacional é o custo de manutenção somado ao custo de
armação: óleo, gelo e rancho. Os custos com salários e encargos também compõem os custos de operação. No entanto,
na maioria das embarcações, tanto na pesca artesanal como na pesca industrial, os pescadores recebem por partilha.

Um “bom barco” é um barco seguro, estável, rápido, fácil de manejar e manobrar e barato de operar. Os custos de capital
e manutenção são funções do método construtivo, que por sua vez depende do material e da estrutura do casco, do
conjunto motor, redução e propulsor, e do arranjo dos equipamentos de convés - porão de carga, compartimento de
máquinas, casaria com acomodações e cabine de comando - e dos equipamentos utilizados no manejo dos petrechos
de pesca. A maior parcela do custo de operação é o combustível. O consumo de combustível depende:

i) da potência instalada, geometria e deslocamento do casco; e


ii) da combinação do casco com a redução e o propulsor.

Um levantamento realizado, com dados ainda não publicados, pela equipe do professor Marcelo Vianna (Laboratório
de Biologia e Tecnologia Pesqueira – IB – UFRJ), indica que a frota pesqueira fluminense efetivamente em atividade
com comprimento acima de 12 metros é composta por cerca de 400 embarcações (Figura 2).

A frota não possui um padrão de dimensões. Existem barcos de diversos tamanhos. As embarcações menores de 14
metros existem em quantidades significativamente maiores.

Em conversa com construtores e armadores, observa-se que não existe um esforço para dimensionar as embarcações
em relação ao que o proprietário pretende realizar, buscando uma configuração mais segura e eficiente. A definição do
comprimento do barco e das relações comprimento/boca e boca/calado máximo são muito importantes para o projeto
e construção de um barco mais eficiente, com custos baixos em relação aos competidores.

100
Figura 2
Comprimento total das embarcações de pesca do Estado do Rio de Janeiro, acima de 12 metros.

Para definir um barco eficiente existem decisões muito importantes, que dependem do perfil de atividade que o
proprietário do barco pretende realizar:

- O barco irá atuar na pesca artesanal ou industrial?


- Que tipo de peixes e artes de pesca pretende utilizar?
- Quantos dias permanecerá no mar?
- Quantos tripulantes?
- Qual a capacidade do porão e facilidades que pretendem ser instaladas no barco, como: refrigeração ou
frigorificação dos compartimentos de carga, equipamentos para manobra e manejo dos petrechos?
- A que velocidade vai operar vazio?
- E carregado?

O conjunto destas perguntas constitui o que se chama, em engenharia, de problemas de projeto. Na tentativa de
encontrar respostas para essas perguntas surgirão muitas outras, como por exemplo:

- Quais as dimensões e relações adimensionais do casco?


- Qual o deslocamento?

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 101


- Qual o material do casco?
- Que tipo de solução se pretende utilizar para a propulsão?

Responder a todas essas perguntas significa tomar uma série de decisões e analisar as escolhas utilizando métodos de
análise para cada um dos elementos de projeto em jogo.

Encontrar o barco mais eficiente significa iniciar um processo interativo, que parte das decisões de caráter mais geral
- como a escolha das dimensões, da geometria e da estrutura do casco - e de um arranjo inicial que será analisado
exaustivamente, reprojetado em novos ciclos até que o projetista ou a equipe fiquem satisfeitos com a solução
e estejam em condições de apresentá-la e discuti-la com o proprietário. Dessa negociação sairá o conceito de
projeto que será refinado e detalhado para a construção. Esta é a visão contemporânea do processo de projeto em
engenharia. A maioria dos barcos fluminenses não foi projetada e construída desta forma. Mesmo os barcos de aço
tiveram o projeto básico comprado pelos estaleiros e os barcos-forma adquiridos pelo governo, através da Sudepe
ou da Sunamam, e depois de prontos vendidos aos armadores ou empresas de pesca. Na aquisição dos barcos de
madeira, os proprietários tiveram mais liberdade. Escolheram os construtores e discutiram com eles os ajustes que
pretendiam introduzir nos seus barcos. Em geral, a escolha de uma dimensão e de um construtor define o conceito do
barco e a técnica de construção. Na tradição artesanal de construção, o conceito básico do barco quase não muda ou
esta mudança é muito lenta, incorporando pequenas modificações. Neste contexto, o comprimento define o barco e
suas características fundamentais, que frequentemente estão associadas a um grupo de construtores que atua numa
determinada região.

As decisões dos proprietários na aquisição de uma embarcação de madeira sempre giram, portanto, em torno da
escolha do construtor e do comprimento da embarcação. Esta decisão pode parecer exclusivamente intuitiva ou
baseada apenas em fatores subjetivos como simpatia ou relações familiares. No entanto, segue a racionalidade da
tradição, que afirma ao longo do tempo modelos e padrões de sucesso e fracasso. Por essa razão, as mudanças são
lentas e os construtores, avessos a inovações.

Tanto a pesca quanto a construção das embarcações de pesca ficaram marginalizadas e estagnadas por décadas.
O quadro apresentado expressa eloquentemente esta situação de estagnação e marginalização. Faltam políticas
públicas e regulação para pesca. A agricultura e a pecuária são apoiadas por uma grande quantidade de ações, que vão
desde a criação de instituições de pesquisa (como a Embrapa), com programas de fomento para os grupos e centros
pesquisa e extensão das universidades; programas de crédito subsidiado para a aquisição de máquinas, equipamentos,
implementos e custeio da safra; rodovias e instalações para o escoamento da produção. Na pesca, há várias décadas,
tudo fica por conta dos pescadores e empreendedores que atuam no setor. Foram criadas instituições como a SEAP e as
secretarias municipais e estaduais, formulados planos e programas, mas os resultados ainda são muito pequenos. Em
relação às embarcações, houve um grande avanço no plano mundial. No Brasil, os reflexos desta evolução são quase
imperceptíveis.

Qual o problema de o barco ser um pouco maior ou mesmo não incorporar avanços importantes na tecnologia de
construção e operação? Um barco que tenha 20 metros e um porão de seis toneladas quando retorna da pesca com
uma tonelada levou uma quantidade de material imensa para “passear” em sua pescaria. Esse “passeio” saiu caro,

102
consumiu combustível, gastou gelo, poluiu a atmosfera com gases de efeito estufa. O excesso de carga impediu que
andasse em velocidade um pouco mais elevada, economizando tempo, que poderia resultar em aumento de receita.
A questão é que esse quadro ocorre com muita frequência. Muito mais do que seria aceitável, o que indica que boa
parte dos barcos poderia ser menor, com deslocamento menor, mais rápido e com custos significativamente menores
de combustível e gelo.

Enfim, questões como quantos dias a embarcação vai ficar no mar ou quanto vai levar de gelo e combustível precisam
ser respondidas com precisão. Desta forma, reduz-se a possibilidade de levar peso morto para passear. Todas essas
questões serão discutidas a partir dos vários tópicos do projeto das embarcações de pesca da frota fluminense, com o
objetivo de apontar solução para um futuro mais promissor.

A frota fluminense poderia ser dividida em embarcações de madeira e de aço. Guardando algumas pequenas exceções,
podemos dizer que temos estes dois tipos de conceito de projeto e vamos analisá-los em suas várias características.

FORMA

A embarcação de pesca construída em madeira,


no Brasil, mantém inalteradas algumas de suas
características desde a época em que as primeiras
traineiras chegaram ao Brasil, no início do século
XX. São elas: as relações entre o seu comprimento
e a boca (L/B). Por exemplo, uma embarcação de 12
metros de comprimento tem 4 metros de boca; uma
de 9 metros tem 3 metros. Uma relação L/B de 3 para
1. Outras relações também se mantêm, como a relação
entre a boca e o pontal (B/D). O desenho da seção
mestra é muito semelhante em todas as embarcações
construídas na costa brasileira. O que tem variado é o
desenho da proa. Em geral essas diferenças se devem
mais às características do mar na região onde o barco
é construído do que às condições de mar que o barco
vai enfrentar no cotidiano da região onde irá operar.
A proa com mais volume reage melhor a condições
mais severas, com ondas mais altas, porque o volume
adicional assegura uma maior força de restauração da
posição de equilíbrio e evita o embarque de água. O
desenho da popa quase não varia.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 103


A grande maioria das traineiras tem na popa uma peça plana, transversal ao plano longitudinal que
passa pelo centro da embarcação, apoiada na quilha, que se chama espelho de popa. O espelho de
popa tem praticamente a mesma boca (largura) do barco. Muitas das embarcações de madeira mais
antigas têm uma popa arredondada. Esse desenho de casco tem menos reserva de flutuabilidade;
portanto, a força de restauração criada pelo volume de popa também é menor. A área de convés para o
trabalho na popa também é inferior à área disponível num barco com as mesmas dimensões e dotado
de espelho de popa.

As embarcações de aço, em sua maioria, têm 3 ou 4 tipos de geometria do casco, referentes aos projetos comprados na
época da Sudepe. Quando aparece um novo comprador esses cascos ainda são reproduzidos.

SISTEMA PROPULSIVO

O que compõe o sistema propulsivo da embarcação é: motor, hélice e caixa redutora. O motor dessas embarcações
é normalmente um motor de caminhão marinizado. Nesse caso, a refrigeração pela água será feita não mais pelo
radiador, mas por uma serpentina de cobre colocada embaixo do barco, onde a água de resfriamento circula e volta ao
motor para um novo ciclo de refrigeração. Esse sistema é mais eficiente quando o barco está em movimento. Quando

104
está parado, ou em baixa velocidade, o sistema perde eficiência e pode superaquecer. Qualquer vazamento pode
levar o motor a se danificar rapidamente, pois a água salgada irá alcançar a região de resfriamento, levando à oxidação
rapidamente. No motor marítimo a refrigeração é em ciclo aberto, que é mais eficiente e não tem perdas quando o
barco está parado ou em baixa velocidade.

A embarcação utiliza uma caixa redutora, pois a rotação do motor é muito alta para o hélice. Se a rotação
é alta o hélice tende a perder potência. E um hélice eficiente significa um ganho de energia para a
embarcação. Por exemplo, se o motor entrega 100 cavalos de potência e o hélice tem uma eficiência
de 40%, a embarcação entrega para a água 40 cavalos. Os hélices mais eficientes estão operando um
pouco abaixo dos 70%. Este aumento levaria a motores menores e mais baratos, além da redução do
consumo.

As embarcações costumam utilizar soluções semelhantes para diferentes artes de pesca. Esta afirmação serve para
todas as características do barco. Um casco construído no Estado do Rio de Janeiro ou em Itajaí pode ser utilizado
para a pesca de arrasto, cerco, espinhel, atuneiro etc. Porém, em vários aspectos vamos observar que essa decisão
compromete o desempenho da embarcação. Por exemplo, quando se realiza pesca de arrasto a embarcação tem
utilização da potência diferenciada. No projeto do hélice de uma embarcação de arrasto é preciso considerar a força
que realiza para arrastar a rede na escolha do hélice e do motor, o que torna o seu hélice diferente do utilizado em
outras pescas.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 105


ESTRUTURA

As embarcações de madeira possuem uma estrutura composta por uma viga longitudinal, que é a quilha, e diversas
vigas transversais, que são as cavernas. Este esqueleto é fechado pelo tabuado. O tabuado transfere a força resultante
da pressão da água, garante a estanqueidade e contribui para a resistência estrutural do casco. Existem duas questões
que incomodam nesse arranjo estrutural. Primeiro, a estrutura está superdimensionada, acarretando excesso de
peso para a embarcação. O aumento do peso faz com que a embarcação necessite de mais potência para se deslocar,
consumindo assim mais combustível - recurso mais dispendioso na operação da embarcação. Este fato também implica
um custo maior para construir a embarcação, na medida em que se utiliza mais material do que o necessário.

A segunda questão se refere ao arranjo estrutural. Ele não é o mais eficiente para embarcações de pequeno porte.
O conceito para estrutura de embarcações de pequeno porte mais eficiente é o de casca. Conceito muito antigo,
mas muito utilizado em pequenas embarcações e em diversas outras aplicações de engenharia. No caso da tradição
ancestral, que é dominante na construção de embarcações de pesca, foi perdido. As canoas de tronco escavado, que
foram uma das primeiras embarcações a surgir em diversas partes do mundo, já se utilizavam desse conceito, uma
estrutura que tem unidade e que distribui melhor as tensões. Esse conceito já é utilizado em veleiros e lanchas. O
tabuado destas embarcações descarrega os esforços sempre nas cavernas. Não existe nenhuma ligação estrutural
entre as tábuas. Com isso, boa parte da rigidez das tábuas não é utilizada na resistência mecânica das embarcações.

Para validar o argumento do excesso de peso da estrutura, considerou-se um barco de 13 metros. Comparando-se
o peso da estrutura no barco construído em madeira, na forma tradicional, com o de uma embarcação semelhante,
construída em fibra de vidro, e uma terceira versão, com a estrutura em madeira construída na mesma tecnologia
calculando-se os elementos estruturais de forma racional, para a construção em madeira foi analisada apenas a
redução de peso por dimensionamento das cavernas, elementos longitudinais e tabuado. Para a construção em fibra
de vidro o projeto estrutural foi todo refeito. Em ambos os casos, a regra utilizada para o cálculo estrutural foi a do livro
The elements of Boat Strenght, de Dave Gerr. Com alterações significativas no espaçamento e espessura das cavernas,
e pequenas alterações no chapeamento do casco e convés, foi possível reduzir o peso total do conjunto em 25%.
Alterando-se a tecnologia para construção em fibra de vidro, a redução de peso chega a 40%. O sobrepeso, por sua vez,
reduz a capacidade de carga e requer mais potência (e combustível) para a mesma velocidade de navegação.

MATERIAIS DO CASCO

Atualmente, as embarcações podem ser construídas em aço, alumínio, madeira, fibra de vidro ou outros materiais
pouco usuais. Observa-se que a escolha do material de construção está restrita à tecnologia disponível e às instalações
dos estaleiros. Não há no Rio de Janeiro estaleiro com foco em embarcação de pesca que construa em material
diferente de madeira, como mostra a Figura 3. Da mesma maneira, não é comum o uso de projetos para a construção
das embarcações. Esta prática poderia reduzir significativamente os custos de construção, manutenção e operação dos
barcos, independente do material do casco.

106
Figura 3
Materiais utilizados na construção do casco das embarcações da frota pesqueira do Estado do Rio de Janeiro.

O aço apresenta relação entre resistência mecânica e preço muito atrativa, porém a construção de barcos com formas
arredondadas requer um estaleiro com instalações avançadas. A utilização de formas facetadas, barcos quinados, é a
mais comum, exatamente pela facilidade construtiva. Porém, este tipo de casco é menos eficiente hidrodinamicamente
que um casco redondo. Isto é, as quinas atrapalham o escoamento da água, aumentando o esforço para embarcação se
deslocar. A grande desvantagem das embarcações de aço é a corrosão. O aço enferruja e perde material com o passar
dos anos. Essa redução de espessura do chapeamento e de elementos estruturais compromete a integridade estrutural
e estanqueidade do barco. Este problema é contornado pelos construtores com a utilização de uma sobre-espessura
na construção do barco. Ou seja, as chapas são mais espessas que deveriam para compensar a perda corrosiva que
ocorrerá com o passar dos anos. Os resultados são barcos pesados, com consumo excessivo de óleo combustível. Há
necessidade constante de manutenção e, consequentemente, menos autonomia de dias no mar e na pesca.

A utilização do alumínio para construção de embarcações de pesca é praticamente inexistente no Brasil. O alumínio
propicia embarcações mais leves e, consequentemente, mais econômicas, além de não sofrer corrosão como o aço.
Assim como os barcos de aço, a dificuldade de construção de barcos redondos é maior, não apenas pelas instalações
físicas do estaleiro, mas também pela necessidade de um projeto, visto que a expansão das partes curvas do barco em
uma chapa plana de metal não é um processo trivial. Cabe lembrar que esta dificuldade também existe nas embarcações
de aço. Um barco de alumínio bem construído necessita de muito pouca manutenção; até a pintura do costado, acima
da linha d’água, pode ser descartada. O grande complicador da utilização desse material é a tecnologia de construção
e o custo. Ao contrário do aço, o alumínio naval é difícil de ser encontrado, principalmente no Brasil. Este material é mais
sucessível a eletrólise que o aço. Isto é, o alumínio, quando em contato com alguns outros tipos de metal e a água, tem
perda de material por corrosão eletrolítica acelerada. A mão-de-obra qualificada para corte e solda de alumínio ainda

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 107


é muito escassa e, consequentemente, cara. A construção em alumínio requer ainda locais completamente protegidos
da chuva e do vento, pois a solda precisa ser feita com presença de gases específicos.

A figura mostra que a grande maioria das embarcações operando no litoral fluminense é de madeira.

A madeira é um material mecanicamente


interessante e eficiente, porém o fato
de não possuir a mesma resistência em
todas as direções dificulta que todo
material utilizado no casco seja eficiente
estruturalmente. A madeira possui ainda
problemas de perda de material devido
a pragas; isto caracteriza um risco para as
embarcações, visto que alguns elementos
estruturais podem estar ocos e falhar
quando a embarcação estiver navegando.
Existem inúmeros métodos de construção
em madeira. A construção tradicional
requer que a união entre as tabuas do
casco recebam um outro material para
tornar o casco impermeável (calafate).
Ocorre que muitas vezes o calafate não
está bem conservado e surgem diversos pontos de alagamento. Alguns não causam risco de naufrágio, mas acabam
por apodrecer a tábua, tornando o ponto um possível local de falha estrutural. Barcos de madeira necessitam de
constante manutenção e ficam diversos dias parados. A vantagem da madeira é a facilidade de construção. A técnica
é simples e requer poucas instalações no estaleiro. As embarcações de madeira são construídas a partir da quilha, que,
colocada no piso, vai ser o ponto de apoio de toda a construção, fazendo não haver necessidade de um piso nivelado.
Após a produção da quilha, segue o encaixe das cavernas, que antes eram moldadas com vapor de água quente. Hoje
essa tecnologia se perdeu e as cavernas são emendadas com parafusos. As cavernas moldadas no vapor permitiam
um menor desperdício de madeira e ainda garantiam maior resistência ao conjunto. As primeiras cavernas a serem
encaixadas são as da seção mestra, depois as do corpo de proa e popa e, com a ajuda de uns virotes, o construtor
vai definindo as demais cavernas. Com o esqueleto pronto, segue a colocação do tabuado que será calafetado.
Antigamente o calafate era realizado com pixe; hoje é realizado com resina epóxi. O casco é coberto com massa acrílica
para corrigir algumas imperfeições. Os reparos também são simples de serem feitos em qualquer ponto do litoral
brasileiro; porém, como a perda de material é muito grande pelo ataque de pragas, é necessária a troca de parte do
tabuado de ano em ano.

A fibra de vidro é um material razoavelmente moderno. Começou a ser utilizada em larga escala para construção de
embarcações nos anos 50. A construção em fibra de vidro é muito simples, desde que se tenha um molde. Apesar de não
ser fundamental para a construção de uma embarcação utilizando esse material, o molde é um grande facilitador para
a construção em série, podendo fabricar vários barcos com um mesmo molde (fôrma). Isto reduz consideravelmente

108
o custo final dos barcos. O custo do molde torna o processo construtivo pouco interessante para a construção de um
único barco. Neste caso, o construtor deve optar para um método construtivo que não necessite molde, o que aumenta
consideravelmente o tempo de construção. A fibra de vidro permite a construção de embarcações leves, resistentes,
de baixo custo de manutenção e construção e longa vida útil, se bem construídas. Estaleiros de fibra de vidro não
necessitam de grandes instalações. O material é facilmente encontrado e possui características interessantes, como
fácil reparo/manutenção. Não é corrosivo e é um bom isolante térmico, fato relevante para embarcações de pesca, pois
a conservação da baixa temperatura das urnas diminui o custo com gelo. Há ainda a possibilidade de construção em
sanduíche, onde um núcleo de espuma rígida e espessa é inserido entre duas camadas de fibra de vidro. Este tipo de
construção é extremamente leve e termicamente isolante, podendo ser aplicado em áreas de menor abrasão, como
casaria e interior, diminuindo peso e aumentando o conforto da tripulação (Tabela I).

Tabela I - Análise comparativa entre diferentes materiais que podem ser empregados na construção de embarcações
pesqueiras.

ARMAZENAGEM DO PESCADO

As embarcações de pesca do Estado do Rio de Janeiro armazenam o pescado em grandes urnas. O primeiro pescado
colocado no porão recebe o peso dos outros peixes capturados, somados ao gelo. Essa combinação danifica o pescado
que está por baixo. Além disso, não existe um sistema de refrigeração que garanta a preservação do gelo. A redução do
gelo transportado garantiria uma redução de custo de viagem. Menos gelo, menos peso e, logo, menos área molhada
e menos combustível consumido.

As prateleiras são uma solução que demanda mais espaço, mas garantiriam um pescado de maior qualidade.

ESTABILIDADE E ACIDENTES DE PESCA

Em um levantamento dos principais acidentes ocorridos com embarcações pesqueiras na região de Cabo Frio, foi
observado que a maioria dos acidentes ocorre por falha de máquinas, apresentando baixo número de vítimas. Foram
elencadas ainda algumas possibilidades para os acidentes com bateria, óleo, motor e perda do hélice. Podemos

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 109


observar que dificilmente o motivo foi falha de projeto. O que é muito comum é a utilização de equipamentos antigos
e mal conservados ou a falta de qualificação dos trabalhadores, que não são capazes de resolver problemas simples
de manutenção durante a viagem. No caso da perda do hélice algumas causas aparecem como as mais prováveis: a
colisão com o fundo, falhas por fadiga do material do eixo ou das conexões do hélice com eixo, que são provocadas
por vibração excessiva.

O segundo acidente mais comum é o naufrágio, onde a principal causa levantada é o estado de mar. Estes acidentes
possuem um número considerável de vítimas fatais. Não é possível avaliar se os naufrágios foram causados por
problemas de estabilidade da embarcação ou por falha humana na condução ou na operação da embarcação. A
presença de um serviço de meteorologia que seja capaz de informar aos navegantes a situação do mar reduziria os
acidentes. Outros naufrágios foram indicados por ter ocorrido mudança de petrecho da embarcação. Neste caso, vale
lembrar que uma embarcação de arrasto possui o mesmo casco de uma embarcação de espinhel de fundo, e que a
estabilidade do tangoneiro é afetada pelos equipamentos instalados no convés, que tem peso alto se comparado ao
deslocamento da embarcação, o que move o centro de massa para cima, reduzindo a estabilidade.

As embarcações que transportam isca-viva operam com as tinas com água sobre o convés, para evitar que os peixes
morram. A causa alegada pelos pescadores para a morte das iscas é a falta de luz solar quando os compartimentos
estão abaixo do convés. Este caso deve ser estudado, pois o prejuízo da embarcação em termos de estabilidade é muito
elevado; a tina no fundo melhoraria consideravelmente o desempenho.

Outra parte dos acidentes é por abalroamento, que em sua maioria ocorre quando uma grande embarcação de carga
“atropela” uma embarcação de pesca em sua rota durante a noite. As embarcações de pesca possuem pouca sinalização
e os defletores de radar são ineficientes. Esses acidentes poderiam ser reduzidos com uso de radar, ou de transponder,
ou ainda defletores de radar mais eficazes, fazendo com que as embarcações mercantes “enxerguem” os pequenos
barcos de pesca em alto-mar. Algumas embarcações ficaram à deriva, o que pode ser atribuído a falhas no motor de
propulsão, ou à perda do propulsor, ou do leme, ou, quando for o caso, da máquina do leme. O desaparecimento de
embarcação pode ter quase todos os motivos levantados acima.

Existem também muitos casos de tripulantes que caem no mar. As causas também são diversas. Uma das hipóteses mais
comuns se refere à ergonomia de operação dos aparelhos e dos petrechos de pesca da embarcação. Outra hipótese é
a falta de banheiro dentro da embarcação. Ferimento de tripulantes nas operações de pesca também tem produzido
vítimas fatais. Existem causas complexas e diversificadas, mas podem ser vinculados à má utilização ou a inadequação
dos petrechos.

Não se pode afirmar quantos acidentes ocorrem por falta de estabilidade. Porém, é possível perceber algumas falhas
que comprometem a estabilidade da embarcação. Na foto a seguir, no terceiro convés da embarcação são carregados
seis bujões de gás. Em quase todas as embarcações esta situação se repete, ou outras semelhantes, como carregar água
de banho acima da casaria, água potável no convés principal ou acima, sempre em quantidades expressivas. Outro fato
é a quantidade imensa de gelo no porão, que, quando a embarcação retorna com um peso elevado, a sua borda livre
é muito pequena, o que resulta em uma reserva de flutuabilidade também muito pequena. Desta forma, o barco tem
menos volume para criar uma força de restauração da condição de equilíbrio quando enfrenta as ondas ou no caso do
embarque de água. Este gelo poderia ser reduzido se o porão fosse refrigerado.

110
EMBARCAÇÕES PESQUEIRAS EM OPERAÇÃO

O arranjo das embarcações pesqueiras depende da modalidade de pesca praticada. Veja a seguir uma lista com as
porcentagens de cada atividade (Figura 4).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 111


Figura 4
Proporção das modalidades de pesca da frota industrial atuante, sediada no Estado do Rio de Janeiro

ATUNEIRO - VARA E ISCA-VIVA

Estas embarcações operam em sua maioria na pesca do


bonito-listrado e das albacoras. Para realizar a pesca lançam
anzóis em varas e linhas. Estes anzóis não carregam isca e
permitem que o peixe, quando puxado para dentro do barco,
se solte do anzol. Em algumas partes do barco, esse peixe
é arremessado pelas varas e cai sobre uma rede esticada,
na vertical na direção proa-popa. Amparado pela rede
escorre por um tabuado para dentro do porão. Para atrair
o cardume, estes barcos seguem lançando sardinhas vivas
no mar, junto com esguichos de água, enquanto realizam a
pesca. Portanto possuem tinas em seu convés e no interior
do casco para transportar uma boa quantidade de peixe.
Normalmente esta isca é capturada pelo proprio atuneiro,
que realiza um cerco. Para tal, precisam transportar um bote.
Para manter o peixe vivo nas tinas é necessário trocar a água
o tempo todo; portanto, a embarcação possui um arranjo de

112
válvula e tubulações situado sobre o convés da embarcação.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 113


Desenho esquemático de uma embarcação padrão
que opera com vara e isca-viva
ESPINHEL
Existe o espinhel de fundo e o de superficie. O
espinhel de fundo é feito com cabos de aço, podendo
usar iscas salgadas (geralmente lulas ou pequenos
polvos). No espinhel de fundo da frota estudada são
utilizados grandes guinchos para lançar e recolher
o cabo de aço, e os anzóis são colocados na linha
apenas na hora do lançamento, com a ajuda de

114
petrechos mostrados abaixo.
O lançamento do petrecho é feito pela popa com ajuda de roletes de
aço, e apenas no fim da popa são colocados os anzóis. O recolhimento
é feito pela proa. O espinhel de superficie costuma usar isca-viva
(geralmente pequenos peixes) na captura do dourado. Os anzóis já
estão fixados na linha e não são utilizados guinchos.

Desenho esquemático de uma embarcação padrão que opera com espinhel

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 115


TANGONEIRO - ARRASTEIRO
Os barcos de arrasto mais comuns operam na captura
de pescados do fundo do mar. O barco de arrasto pode
operar com uma ou duas redes. O mais comum, no Rio de
Janeiro, é o arrasto com duas redes (tangoneiro) mostrado
nas fotos. Esta embarcação opera preferencialmente na
captura do camarão. O arrasto de uma rede só pela popa
é mais usado na coleta de peixes de profundidade. Na
pesca de arrasto existem dois aranjos comuns, o uso
da casaria na popa ou na proa. Em conversa com os
pescadores, foi levantado que a casaria na proa facilita
o lançamento da rede, além de diminuir as chances da
enroscar com o hélice. Após lançadas, para manter as
redes abertas no fundo, são utilizadas as portas. Para
recolher a rede são utilizados dois guinchos. A estrutura
de aço para puxar e manter a rede afastada do casco
precisa ser estaíada na popa e na proa para distribuir os
esforços no casco.

116
Desenho esquemático de uma embarcação padrão que opera com arrasto duplo

CAÍCO

Esta modalidade de pesca é realizada


com uma embarcação maior, que
carrega alguns barcos pequenos
(caíques ou caícos) que serão lançados,
em determinadas posições do mar,
junto com um homem e um linha de
fundo, com cerca de 30 a 50 anzóis.
Para lançar os caíques é feita um
abertura na borda falsa mostrada ao
lado. Este caíque passa o dia no mar e
só retorna à embarcação grande para
buscar alimentação e deixar o pescado
capturado.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 117


Porém, este caíques são muito pesados, em torno de
150 kg, sendo necessários seis homens para lançá-lo.
Além disso, os caíques não são estanques e fazem
muita água, obrigando o pescador a bordo a retirá-la
constantemente. Não têm reserva de flutuabilidade.
Significa que, quando estão carregados, têm muito
pouca restauração. Desta forma, quando o mar está um
pouco mais agitado embarcam água com facilidade e
acabam por afundar. Esta pesca é considerada muito
perigosa e é comum a perda de pescadores durante a
atividade. O grande problema desta modalidade é a
grande precariedade dos caíques, que poderiam ser
mais leves e seguros.

118
Desenho esquematico de uma embarcação padrão que opera com caícos

TRAINEIRA - CERCO

A pesca de cerco é realizada para a captura de diversas


espécies. Porém, a sua maior atuação é na pesca da
sardinha-verdadeira. Primeiro se localiza o cardume
a ser capturado. Depois é lançado o bote com uma
ponta da rede, em seguida a rede com os seus pesos.
A embarcação maior segue contornando o cardume;
quando completa o cerco e encontra o bote, o fundo da
rede é fechado por um cabo, que é puxado e corre por
várias anilhas localizadas no fundo. A maior parte da
rede é recolhida e os peixes ficam todos em um espaço
pequeno da rede na água, onde é verificada a espécie
e o tamanho dos individuos. Caso seja interessante o
embarque da captura, os peixes são retirados com a
ajuda de um pórtico.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 119


Desenho esquemático de uma embarcação padrão que opera com cerco

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As embarcações de pesca do Estado do Rio de Janeiro têm se desenvolvido lentamente, pois as últimas grandes
mudanças nas embarcações de madeira têm no mínimo 50 anos. As embarcações de aço, apesar de terem surgido mais
tarde, dentro de uma nova concepção de engenharia, também cristalizaram uma nova tradição, na qual o conceito de
projeto praticamente não se alterou e vem sendo reproduzido ao longo dos anos. Pouca coisa foi feita na direção de
aumentar a eficiência das embarcações de pesca. Outras embarcações têm seu projeto modificado rapidamente ao
longo dos anos. Por exemplo, o projeto de um veleiro de competição se torna obsoleto rapidamente, em alguns casos
de um ano para outro. Mudam concepções de arranjo, da geometria do casco, materiais e outros importantes elementos
que compõem o conceito de projeto. Enfim, nos últimos 20 anos muitas categorias de embarcações passaram por
grandes transformações. Navios de cruzeiro, navios de carga de contentores e, sobretudo, as instalações de exploração
de petróleo e embarcações de apoio a esta atividade são exemplos notáveis. Os barcos de pesca não mudaram tanto,
mesmo nos principais centros da indústria de pesca mundial. O que tem diferenciado o desenvolvimento tecnológico
dos barcos de pesca dos demais?

120
A tradição tem elementos positivos e negativos. É conservadora e avessa a mudanças. No entanto, paradoxalmente,
foi a tradição que assegurou a continuidade da pesca no Brasil, sobretudo da pesca artesanal. Foi a ligação entre as
comunidades tradicionais de pescadores e os construtores tradicionais que garantiu que os pescadores pudessem
manter seus barcos em condições de pescar e, eventualmente, construíssem embarcações novas. O desaparecimento
das políticas de apoio à construção de novas embarcações deixou como única saída a autoconstrução ou a construção
financiada diretamente pelo proprietário pescador. Desta forma, a relação cultural entre comunidade de pescadores e
comunidade de construtores tem sido fundamental.

Em diversos segmentos da indústria de construção naval a inovação é um elemento fundamental na formação de uma
imagem pública de sucesso e eficiência, mesmo quando as mudanças não são tão profundas e radicais quanto se quer
fazer crer. Nestes segmentos, este estímulo garante que um grupo de construtores, projetistas e pesquisadores atuem
na busca de inovações e aperfeiçoamentos. Na Europa, sobretudo, este trabalho é sistemático e articulado por centros
de pesquisa estatais ou universitários. No Brasil esse trabalho não é nem tão sistemático nem tão articulado e bem mais
recente. Porém, existe uma busca pela melhoria e pela modificação.

As ferramentas de captura, apesar de conceitualmente as mesmas há muitos anos, ainda são eficientes no sentido
econômico. Algumas também o são no sentido ambiental. Mas todas elas podem ser aperfeiçoadas para se tornarem
mais eficientes.

A pesca é uma atividade muita antiga. Muitas soluções estão consolidadas pela prática de séculos de experiência
acumulada, considerada bem-sucedida. Pode melhorar. É possível imaginar um processo no qual tanto as embarcações,
quanto as ferramentas evoluam rapidamente, sem, no entanto, romper com o conceito básico. Esse processo ocorreu
na Europa e no Oriente. Pode ocorrer no Brasil, mas precisa de estímulos e políticas públicas. Certamente de estímulos
e políticas públicas diferentes das que foram implantadas nessas regiões, adequadas às necessidades e a desafios da
pesca no Brasil e no Rio de Janeiro.

As técnicas de captura experimentaram mudanças lentas, mas extremamente importantes. Existem grandes discussões
sobre as técnicas menos impactantes e mais rentáveis. Essas discussões são relevantes. No norte do País, com um
movimento político, foi possível criar mudanças importantes na captura da lagosta.

Em todos os lugares observa-se uma preocupação com a preservação da tradição na atividade pesqueira, que não
deve ser perdida. Porém não é possível fazer dos pescadores personagens de museus vivos. Também não se pode
condená-los à pobreza eterna. O desenvolvimento tecnológico deve estar centrado na busca de eficiência no sentido
de garantir o aumento de renda dos pescadores. As políticas públicas devem visar também à preservação da tradição
e da identidade cultural das comunidades de pesca.

A renda dos pescadores está fortemente vinculada à embarcação. Promover aumento de renda quase sempre significa
buscar aumentar a eficiência dos barcos, reduzindo seus custos e ampliando as formas de crescer as receitas com
a captura do pescado, sem comprometer os estoques pesqueiros. Nesse sentido, existem muitas perspectivas de
inovação que estão se abrindo na indústria marítima. Uma das mais importantes é a utilização de motores elétricos,
que são hoje mais leves, mais confiáveis e simplificam muito o sistema de propulsão e governo com a utilização de

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 121


propulsores azimutais, que também melhoram significativamente a “manobrabilidade” das embarcações. Também
permitem uma melhor utilização do espaço interno, na medida em que não existem eixos atravessando a embarcação
e os geradores podem ser instalados no local mais conveniente do ponto de vista operacional. A utilização de mais de
um gerador torna a embarcação mais confiável e facilita a utilização de refrigeração para conservar o gelo ou mesmo
de porões frigorificados. A utilização de motores elétricos também permite a utilização de formas alternativas de
energia, com bancos de baterias alimentados por painéis solares, geradores eólicos ou mesmo pilhas combustíveis.
Várias destas soluções já estão em uso.

Na pesca artesanal estão surgindo novos conceitos para pesca de um dia, com embarcações rápidas capazes de alcançar
25 nós, mesmo com os compartimentos de peixe carregados. O casco é semelhante ao de lanchas de planeio e tem
capacidade de transportar cerca de uma tonelada em compartimentos refrigerados. São barcos entre 8 e 12 metros,
com motor de popa, o que facilita a manutenção, permitindo inclusive que o motor seja trocado rapidamente por um
sobressalente enquanto o principal fica em reparo. Estes barcos utilizam equipamentos hidráulicos para o manejo
das artes e ferramentas, o que assegura a operação por apenas um tripulante. Também têm todos os equipamentos
eletrônicos necessários a uma pesca segura e eficiente. Estes modelos foram projetados para a pesca artesanal e já
estão em uso em quase toda a Europa.

122
INFRAESTRUTURA COSTEIRA LIGADA À ATIVIDADE PESQUEIRA FLUMINENSE
5
Marcio Luis Chagas Macedo
Marcelo Vianna

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 123


124
INTRODUÇÃO

O ato de pescar, apesar de ser realizado no mar, tem seu maior ou menor sucesso dependendo diretamente do suporte
logístico oferecido em terra. Como é muito comum em todas as etapas da cadeia produtiva do pescado, muito dessa
estrutura de apoio é informal e desconhecida de boa parte do poder público. Essa realidade dificulta enormemente
qualquer política de desenvolvimento ou gerenciamento do setor pesqueiro, como a importante atividade econômica
que é. Ao longo de toda a costa do Estado do Rio de Janeiro, as estruturas - que fazem parte do apoio à atividade do
setor pesqueiro - estão sob diversas formas de pressão, como a imobiliária e a de geração de energia (petróleo e gás),
que tomam espaços que anteriormente eram ocupados pelo setor, dificultando ou tornando mais custoso o acesso ao
mar. Essa queda na oferta de apoio logístico em terra encarece as operações de armação, descarga e manutenção das
embarcações de pesca, diminuindo a qualidade do pescado que chega ao mercado consumidor, além de geralmente
torná-lo mais caro.

Um ponto importante de ser observado é a fragmentação das entidades de classe tradicionais, as colônias de pesca, com
o surgimento de inúmeras capatazias, associações, cooperativas e outras organizações classistas. Isso vem acontecendo
por causa do enfraquecimento das colônias e de suas lideranças ou pela inexistência de representatividade em suas
regiões. Divergências políticas também são fatores responsáveis por essa diversidade de entidades, que dividem seus
participantes e em alguns casos inviabilizam simplesmente sua existência. Ainda a falta de vinculação com entidades
agregadoras, tais como federações, promove a falta de unicidade.

O objetivo deste capítulo é realizar um levantamento de campo da infraestrutura utilizada como apoio à atividade
pesqueira industrial no Estado do Rio de Janeiro. Todos os municípios costeiros do estado foram amostrados e as
instalações de apoio identificadas, visitadas, georreferenciadas e tiveram um questionário preenchido. As informações
contidas neste levantamento foram condensadas em tabelas e gráficos e apresentam um panorama real da
infraestrutura disponível.

ESTABELECIMENTOS DE APOIO A ATIVIDADE PESQUEIRA

Nas Tabelas I, II e III a seguir encontram-se os dados levantados das estruturas de apoio à atividade pesqueira industrial,
com nome, nome fantasia, endereço, município, localidade, telefone, CNPJ, coordenadas e tipo de relacionamento
com o setor. Quanto ao tipo de relacionamento, eles foram divididos em pontos de desembarque (Des), locais de
comercialização (Com), postos de abastecimento náutico (Abs) - nesse caso foi registrada sua capacidade máxima de
fornecimento -, frigoríficos (Fri), empresas de beneficiamento (Ben), estaleiros de barcos de pesca (Est), lojas de apoio à
pesca comercial (Lj), entidades de representação (Etr) e manutenção de embarcações (Man).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 125


Tabela I - Relação e localização da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio de Janeiro

126
Tabela I - Relação e localização da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio de Janeiro
(continuação).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 127


Tabela I - Relação e localização da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio de Janeiro
(continuação).

128
Tabela II – Relação, CNPJ e coordenadas da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio
de Janeiro.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 129


Tabela II – Relação, CNPJ e coordenadas da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio de
Janeiro (continuação).

130
Tabela II – Relação, CNPJ e coordenadas da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no Estado do Rio de
Janeiro (continuação).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 131


Tabela III – Relação, capacidade e tipo de relacionamento da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial
no Estado do Rio de Janeiro.

132
Tabela III – Relação, capacidade e tipo de relacionamento da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no
Estado do Rio de Janeiro (continuação).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 133


Tabela III – Relação, capacidade e tipo de relacionamento da infraestrutura de apoio à atividade pesqueira industrial no
Estado do Rio de Janeiro (continuação).

134
DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 135
Os resultados mostram que os pontos de desembarque pesqueiro encontram-se concentrados na costa norte do Estado
do Rio de Janeiro. Essa dispersão é resultado de um maior número de empresas particulares de pesca, em sua maioria
de pequeno ou médio porte, que possuem entrepostos privados, e da ausência do poder público no fornecimento
de uma infraestrutura pública de qualidade, que pudesse concentrar esse desembarque. Essa realidade modifica-se
no litoral sul com a existência de um terminal pesqueiro público em Angra dos Reis, que congrega boa parte dos
desembarques da frota industrial da região. Uma realidade semelhante ocorre na Região Metropolitana do estado,
onde um grupo de armadores de pesca concentram seus desembarques no antigo Cais da Fábrica da Sardinha 88, na
Ilha da Conceição, no município de São Gonçalo (Figura 1).

A distribuição dos postos de abastecimento marítimo não leva em consideração os postos que abasteciam basicamente
embarcações de lazer ou esportivas. Nesse quesito, o mesmo padrão encontrado para os pontos de desembarque
se mantém para os pontos de abastecimento. Com a região da costa norte fluminense possuindo concentração no
município de Cabo Frio, foram encontradas inúmeras firmas que fornecem esse tipo de apoio (Figura 2).

Em relação às unidades frigoríficas, destinadas ao congelamento de pescado, diversas empresas de pequeno e médio
porte estão se instalando na região da costa norte, mais precisamente no município de Macaé, para o atendimento
às empresas do ramo de petróleo e gás, fornecendo produtos congelados para embarcações de apoio e plataformas
(Figura 3).

Figura 1
Distribuição das estruturas de desembarque pesqueiro industrial, por região, para o Estado do Rio de Janeiro.

136
Figura 2
Distribuição das estruturas de abastecimento de combustível marítimo para a frota pesqueira industrial, por região,
para o Estado do Rio de Janeiro.

Figura 3
Distribuição das câmaras frigoríficas destinadas à produção do desembarque pesqueiro industrial, por região, para o
Estado do Rio de Janeiro.

O beneficiamento do pescado segue o mesmo perfil observado para as firmas frigoríficas, uma vez que, em sua
maioria, essas empresas frigoríficas de pequeno e médio porte também realizam o beneficiamento primário, filetando
e cortando em postas os peixes ou descascando os camarões antes do congelamento (Figura 4).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 137


Figura 4
Distribuição das empresas de beneficiamento pesqueiro, por região, para o Estado do Rio de Janeiro.

Os demais itens abordados, como estaleiros, lojas de apoio à pesca e manutenção das embarcações, encontram-se
espalhados. Ocorrem próximo às áreas de desembarque, porém não de forma setorizada. No caso dos estaleiros,
sua maioria é composta por carpinteiros autônomos. Todos aqui listados têm capacidade não só de reparos como
também de construção de embarcações pequenas e médias. As lojas de apoio à pesca comercial estão, da mesma
forma, espalhadas pelo entorno dos pontos de desembarque. Quanto à manutenção, ela é realizada em sua maioria
por profissionais autônomos que não possuem vinculação exclusiva com o setor, e normalmente se dá nos estaleiros
ou nas regiões de atracamento.

138
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atividade pesqueira fluminense tem associada a ela uma grande rede de empresas e profissionais autônomos que
prestam serviços ao setor. Entretanto, uma parte considerável está na informalidade, com empresas sem CNPJ ou com
serviços autônomos.

A regionalização da infraestrutura representa a realidade da atividade pesqueira local. O sul do estado, com uma pescaria
direcionada basicamente à captura de sardinha-verdadeira e camarão-rosa, tem os desembarques concentrados em
locais onde a produção de sardinha tenha facilidade de ser transportada, em grandes quantidades, aos caminhões
e encaminhadas às indústrias de enlatados na Região Metropolitana e os barcos sejam rapidamente abastecidos de
gelo para retornar à pescaria. Já a pescaria de camarão e sua fauna acompanhante, em volumes bem menores, são
absorvidas pelo mercado local (principalmente durante as temporadas turísticas) ou conduzidas para São Paulo e
CEASA.

A Região Metropolitana comporta a pesca mais empresarial, com um número mais reduzido de empresas, mas
constituído por empreendimentos de maior porte. A frota atua sobre camarões, sardinhas, atuns e afins e peixes
diversos. Essa pescaria sustenta a indústria de enlatados de sardinhas e atuns, abastece o mercado local, atende a parte
do mercado externo e é comercializada na CEASA.

A Região Norte apresenta particularidades municipais. A pesca de Cabo Frio é direcionada principalmente a peixes de
fundo duro e dourados. Nesta região encontramos diversas pequenas e médias empresas, com uma boa infraestrutura
associada. Esse pescado de alto valor agregado está assim distribuído: parte fica no mercado local (principalmente na
temporada de turismo), parte é exportada por via aérea e o excedente transportado para ser comercializado na CEASA.
Essas empresas possuem uma boa infraestrutura instalada, que atende não só a frota local como também embarcações
do Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina e da Região Metropolitana do estado. Em Macaé a frota desembarca espécies
capturadas em mar aberto, tais como dourados, meças e espadas. Essa produção é beneficiada por empresas locais e

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 139


encaminhada para atender o mercado off shore das embarcações e plataformas ligadas à atividade de exploração de
petróleo e gás. Mais ao norte, em Atafona, existe uma forte pescaria realizada por uma frota que opera com redes de
emalhe, que captura peixes de fundo lamoso e arenoso e quando trabalha boiada pesca espécies pelágicas, tais como
enchovas e sororocas. Essa produção é endereçada ao mercado de Vitória (ES), Salvador (BA), consumida no comércio
local (também com maior demanda em épocas de turismo) e em parte conduzida a CEASA.

Podemos observar que não existe um plano de políticas publicas visando o desenvolvimento do setor pesqueiro como
uma atividade da relevância que deve ter o Rio de Janeiro. A infraestrutura existente de apoio à pesca é resultado de
iniciativas particulares de empresários e profissionais que veem no setor um negócio promissor.

140
BASES LEGAIS PARA A ATUAÇÃO FLUMINENSE
6
Ana Maria Rodrigues
Beatriz Corrêa de Freitas
Daniela Sarcinelli Occhialini
Marcelo Vianna

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 141


142
ÓRGÃOS PÚBLICOS
Os órgãos do governo relacionados nesta seção atuam para promover a gestão dos recursos pesqueiros brasileiros. Esse
processo tenta conciliar os objetivos ligados à produção e à conservação. Em outras palavras, os recursos pesqueiros são
bens ambientais da União, ou seja, de domínio público, sendo sua conservação responsabilidade do Estado brasileiro,
que se torna o gestor desses bens, em prol dos interesses da sociedade, através de seus órgãos e instituições.

A cada instituição são delegadas competências que envolvem, entre outras ações, a elaboração de medidas que
regulamentam o exercício da pesca (ordenamento pesqueiro) bem como a implementação de outros instrumentos de
gestão, tais como o licenciamento de profissionais, o permissionamento de embarcações, a fiscalização da atividade
pesqueira e a aplicação de punição às infrações previstas pela legislação vigente.

Ministério do Meio Ambiente (MMA)

O Ministério do Meio Ambiente foi criado durante o governo do presidente José Sarney, no ano de 1985, sendo então
chamado de Ministério do Desenvolvimento Urbano e do Meio Ambiente. A denominação atual só foi estabelecida
em 1999. Ao Ministério do Meio Ambiente cabe fiscalizar e propor políticas públicas de preservação, conservação e
utilização sustentável dos ecossistemas naturais e recursos ambientais.

Sede
Esplanada dos Ministérios, Bloco B, do 5º ao 9º andar – Brasília-DF
Site: www.mma.gov.br

Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)

O Conselho Nacional do Meio Ambiente foi instituído pela Lei nº 6.938, de 1981, sendo criado como órgão consultivo
e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), que tem como órgão executor o Ibama. Entre as
responsabilidades do Conama está a de estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção
da qualidade do meio ambiente, objetivando o uso racional dos recursos ambientais.

Site: www.mma.gov.br/port/conama

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis é um órgão vinculado ao Ministério do
Meio Ambiente, sendo responsável pela preservação e conservação dos recursos naturais. Suas principais atribuições
relacionadas à atividade pesqueira são: avaliação de impactos ambientais e suas consequências para os estoques;
fiscalização do meio ambiente e aplicação das penalidades administrativas; monitoramento dos recursos pesqueiros
classificados como sobre-explotados e ameaçados de extinção, definição de normas, critérios e padrões para o uso
sustentável dos recursos pesqueiros.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 143


Sede
Ibama - SCEN Trecho 2 - Ed. Sede
Cx. Postal nº 09870 - CEP 70818-900 - Brasília-DF
Telefone: (61) 3316-1212
Site: www.Ibama.gov.br

Superintendência Estadual/RJ

Praça XV de Novembro, 42/10º andar - Centro - Rio de Janeiro-RJ


Telefone: (21) 3077-4287 / 3077- 4284
Site: www.Ibama.gov.br/rj

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)

Este é o mais novo órgão ambiental do governo brasileiro, tendo sido fundado em agosto de 2007. O Instituto Chico
Mendes está vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, sendo responsável pela gestão das unidades de conservação
brasileiras. Assim, é de sua competência implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as unidades de conservação
instituídas pela União.

Sede
EQCW 103/104, Bloco C, Complexo Administrativo, Setor Sudoeste - CEP: 70670-350, Brasília – DF
Telefone: (61) 3341- 9101
Site: www.icmbio.gov.br

Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (CEPSUL)

O Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul era um centro especializado do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), atualmente redirecionado para integrar a
estrutura do recém-criado Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O CEPSUL desenvolve
pesquisas e estudos relacionados à biologia pesqueira, ecossistemas marinho-costeiros, bioestatística, áreas protegidas,
espécies ameaçadas, dentre outras, em apoio à gestão pesqueira, com o objetivo de estimar os limites de explotação
que permitam manter a sustentabilidade no uso do recurso. Tem por objetivo assessorar o Ibama e o ICMBio na
elaboração e implementação das medidas de gestão para os recursos pesqueiros marinhos e estuarinos, visando tanto
sua conservação quanto a preservação.

Sede
Av. Ministro Victor Konder, 374 - Centro – CEP: 88301-700 - Itajaí – Santa Catarina
Telefone/Fax: (47) 3348-6058
e-mail: cepsul@cepsul.sc.gov.br
Site: www.Ibama.gov.br/ recursos pesqueiros

144
Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA)

Criada para servir à sociedade no combate aos crimes ambientais. Cabe à Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente
fazer cumprir as legislações ambientais em vigor através da investigação policial e da abertura de processo criminal
para aqueles que cometerem crime ambiental.

Sede
Largo da Cancela, 275 – São Cristóvão – Rio de Janeiro-RJ
Telefone: (21) 3860-9030

Ministério da Agricultura e do Abastecimento (MAA)

Com a edição da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003, o Ministério da Agricultura e do Abastecimento passa a ser
denominado Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). As mudanças vão além do nome, e o MAPA
passa a não ser mais responsável por assuntos ligados à gestão pesqueira, os quais entre 1998 e 2003, passaram a ser
coordenados pelo seu extinto Departamento de Pesca e Aquicultura (DPA) no que se refere às questões de fomento
à atividade, até que suas atribuições fossem repassadas à Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da
República (SEAP/PR), em 2003.

Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República (SEAP/PR)

Criada no ano de 2003 com o objetivo de assessorar o presidente da República na formulação de políticas e diretrizes
para o desenvolvimento da produção pesqueira e aquícola. Entre suas competências estão: promover medidas,
programas e projetos de desenvolvimento e apoio à pesca artesanal e industrial; coordenar o Registro Geral de Pesca;
gerenciar os recursos pesqueiros altamente migratórios, além daqueles recursos considerados subexplotados ou
inexplorados e orientar as atividades referentes à infraestrutura de apoio à produção e circulação do pescado.

Sede
Esplanada dos Ministérios, Bloco D – Distrito Federal – Brasília
Telelefone: (61) 3218-3838
e-mail: comunicacao@seap.gov.br
site: www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/seap

Escritório Estadual
Av. Rodrigues Alves, 129 sala 904/906 – Centro – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2233-3321 / 2213-3321 ramal 1901
e-mail: pesca-rj@agricultura.gov.br

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 145


Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT)

A Secretaria de Inspeção do Trabalho é um órgão vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego, tendo como principais
competências fiscalizar o cumprimento das legislações trabalhistas, inspecionar os locais de trabalho e promover o
cumprimento de normas que garantam a saúde e a segurança do trabalhador.

Sede
Esplanada dos Ministérios, Bloco F, 1º andar, Sala 176 – Distrito Federal – Brasília
Telefone: (61) 3317-6174 / 3317-6273
Site: www.mte.gov.br

Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe)

A Superintendência do Desenvolvimento da Pesca foi criada em 1962 com o objetivo de fomentar a pesca nacional.
Em 1989, a Sudepe foi extinta, tendo sido repassadas suas atribuições ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que em 1998 compartilhou parte dessas competências, como já mencionado,
com o Departamento de Pesca e Aquicultura (DPA) do antigo MAPA. A partir de 2003, estas atribuições foram transferidas
para Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (SEAP/PR).

A PESCA E A GESTÃO DOS RECURSOS PESQUEIROS

A PESCA

A pesca é a prática da captura de seres vivos no ambiente aquático marinho, estuarino ou continental, denominada de
explotação, quando com fins econômicos (comercial) é realizada por pescadores profissionais (industriais ou artesanais).
Quando ocorre com fins desportivos ou de lazer por pescadores amadores, é classificada como pesca amadora ou não-
comercial. A categoria não-comercial também inclui a pesca com fins científicos e a por necessidade de alimentação
ou subsistência. Logo, conforme demonstrado pelo esquema abaixo, a pesca sempre empreende certo esforço para a
obtenção do produto. Assim, de forma bem simplificada, podemos considerar que:

Pesca => Captura => Esforço => Rendimento


Captura/Esforço = Rendimento (kg/h; kg/lance; kg/nº anzóis)

146
A GESTÃO AMBIENTAL E DOS RECURSOS PESQUEIROS

A Constituição Federal de 1988 (art. 225) corresponsabilizou o Estado e a sociedade quanto ao dever de defender e
preservar o meio ambiente. Em outras palavras: embora seja atribuição de Estado a elaboração e a execução das políticas
públicas, a realidade atual possibilita que diferentes grupos de interesses interfiram no processo e desempenhem
papel significativo nas decisões assumidas. Logo, a construção de medidas reguladoras do uso de recursos ambientais,
que incluem os recursos pesqueiros e a ocupação do espaço natural no Brasil, deve ocorrer a partir de acordos político-
institucionais - a chamada co-gestão (Rodrigues, 2007). O processo, apesar de legítimo, é complexo, especialmente em
função de implicar, fundamentalmente, na construção de um modelo cooperativo entre os diversos níveis e setores do
governo e deste com a sociedade (Brasil, MMA, 2006).

A Constituição Federal veda a privatização dos recursos pesqueiros como um todo, mas permite sua apropriação
privada, quando da utilização de suas partes, por serem necessárias à reprodução social e material da sociedade
brasileira e isto é feito por meio do licenciamento dos produtores (Marrul-Filho, 2003). A permissão ou licença é o ato
precário e discricionário pelo qual o Estado autoriza um produtor privado a produzir, a partir de bens ambientais que,
por força constitucional, pertencem ao Estado.

Segundo Sachs (1994), a noção de gestão está relacionada à tentativa de conciliar os objetivos ligados à esfera da
produção e aos da conservação da natureza e envolve um conjunto de problemas que dizem respeito tanto a uma
relação de apropriação do objeto da gestão (recurso renovável, gleba cultivada, ecossistema etc.) quanto à dimensão
das finalidades atribuídas ao esforço de gestão (produção, lucro, conservação etc.).

Para Sem & Nielsen (1996), o processo de gestão de recursos pesqueiros nada mais é do que o arranjo político-
institucional em que as responsabilidades pela regulação de sua utilização são compartilhadas entre os próprios
usuários e o Estado.

Assim, a análise histórica do processo de legalização da atividade pode ser facilmente associada ao momento político
vivido pelo País. Entre as décadas de 60 e 80, a pesca extrativa viveu um momento de euforia, quando foi criada a
Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe), por meio da Lei Delegada nº 10/62. Posteriormente, foi
publicado o Decreto-Lei nº 221/67, que previu a adoção de uma Política Pesqueira Nacional, incluindo mecanismos
de incentivos fiscais, por ser então considerada uma prioridade de governo. Entretanto, a visão meramente
desenvolvimentista prevaleceu durante muitos anos, favorecendo o aumento do esforço de pesca aplicado sobre os
recursos, e os primeiros problemas e conflitos foram detectados, o que possivelmente contribuiu para o fracasso das
políticas públicas adotadas para o setor no período.

Posteriormente, no final da década de 80 e durante os anos 90, ocorreram algumas mudanças significativas no quadro
político nacional, com a definição de um conjunto de macropolíticas que reorientaram a prática das atividades que
eram operadas no país de forma ampla, incluindo a pesca, especialmente com a promulgação da Constituição Federal
de 1988 e a abordagem contida em seu Artigo 225.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 147


Outras medidas, como a definição das Políticas Nacionais de Meio Ambiente (Lei nº. 6.938 de 31 de agosto de 1981), de
Gerenciamento Costeiro (Lei nº 7.661, de 16 de maio de 1988) e a Lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação da Natureza – SNUC, Lei nº 9.985 de 18 de julho de 2000, também merecem destaque. Além delas, outras
igualmente balizadoras foram também definidas, como o estabelecimento de normas e critérios para o licenciamento
ambiental, dispostos na Resolução Conama nº. 237, de 19 de dezembro de 1997, a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº.
9.605, de 12 de fevereiro de 1998) e o Decreto que a regulamentava (Dec. nº 3.179, de 21 de setembro de 1999), recém-
revogado e substituído pelo Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008. A Lei nº 9.537, de 11 de dezembro de 1997, e o
Decreto nº 2.596, de 18 de maio de 1998, que a regulamenta, estabelecem os critérios para a segurança do tráfego
aquaviário em águas jurisdicionais brasileiras; a Lei nº 8.617, de 04 de janeiro de 1993, e os Decretos nº 4.810, de 10 de
agosto de 2003, e 4.983, de 10 de fevereiro de 2004, ambos relacionados à soberania nacional, incluem em seus critérios
as questões relacionadas às áreas onde a pesca é praticada.

As listas que indicam as espécies ameaçadas de extinção, chamadas de listas vermelhas, também funcionam como
ferramenta legal essencial para a preservação das espécies. Elas constituem um importante instrumento de política
ambiental ao possibilitar o estabelecimento de programas prioritários para a proteção da biodiversidade, fornecendo
subsídios para a formulação de políticas de fiscalização, criação de unidades de conservação e definição sobre a
aplicação de recursos técnicos, científicos, humanos e financeiros em estratégias de recuperação da fauna e flora
ameaçadas.

No caso dos recursos pesqueiros, a Instrução Normativa MMA nº 05, de 21 de maio de 2004, alterada pela Instrução
Normativa MMA nº 52, de 8 de novembro e 2005, ambas baseadas em compromissos assumidos pelo Brasil junto à
comunidade internacional relacionados à conservação da vida aquática, como signatário que é da Convenção sobre
Diversidade Biológica - CDB, promulgada pelo Decreto n° 2.519, de 16 de março de 1998; e da Convenção sobre o
Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção - CITES, promulgada pelo
Decreto n° 92.446, de 7 de março de 1986, são exemplos da mudança de paradigma que lentamente ocorria no seio da
nação brasileira.

Algumas espécies de peixes, entretanto, apesar de exibirem grande vulnerabilidade, não foram incluídas no anexo
I das referidas Instruções Normativas, o que lhes concederia o status de ameaçadas, tornando sua captura proibida.
Neste caso, o Ibama as incluiu em normas específicas, que também impedem sua exploração legal. Os exemplos mais
conhecidos são os meros (Epinephelus itajara), protegidos pela Portaria Ibama nº 42, de 19 de setembro de 2007, por
cinco anos, e os chernes poveiros (Polyprion americanus), protegidos pela Instrução Normativa MMA nº 37, de 06 de
outubro de 2005, por dez anos.

Os princípios e as diretrizes para a implementação da Política Nacional da Biodiversidade, são constantes do Decreto n°
4.339, de 22 de agosto de 2002, e ainda da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar, de 10 de dezembro
de 1982, de natureza multilateral e abrangência global. No caso brasileiro, a adesão se deu ainda em 1982, mas o
ano de entrada em vigor foi em 1995, a partir da publicação do Decreto nº 1.530, de 22 de junho de 1995. O objetivo
principal foi estabelecer um novo regime legal abrangente para os mares e oceanos e, no que concerne às questões
ambientais, estabelecer regras práticas relativas aos padrões ambientais, assim como o cumprimento dos dispositivos
que regulamentam a poluição do ambiente marinho; promover a utilização equitativa e eficiente dos recursos naturais,
a conservação dos recursos vivos e o estudo, a proteção e a preservação do meio marinho.

148
No conjunto, todas estas compõem o arcabouço legal, dentre outras medidas existentes de abrangência nacional, que
balizam a ocupação e a utilização de espaços e dos recursos naturais em território nacional, sendo de certa forma, todas
também aplicáveis à pesca.

Entretanto, apesar de avanços legais significativos para a área ambiental, desde o final da década de 80 (Tabela I),
nos últimos anos da década de 90, verifica-se nova mudança de tendências e o quadro político predominante se
altera, aumentando o acirramento de posições entre usuários dos recursos que buscam formas de reaver os subsídios
governamentais perdidos e outros grupos da sociedade. Em função disso, uma abordagem dicotômica foi adotada
para a gestão de recursos pesqueiros no Brasil (Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003, e Decreto nº 5.583, de 16 de
novembro de 2005), caracterizando o conflito de paradigmas neste processo, o que favoreceu um cenário de disputa
institucional e de visões diferenciadas no controle da gestão, inicialmente, entre Ibama/MMA e DPA/Mapa e, a partir de
2003, entre Ibama/MMA e SEAP/PR.

Tabela I – Legislação federal ambiental, com aplicação à pesca.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 149


Tabela I – Legislação Federal ambiental, com aplicação à Pesca (continuação).

150
O ORDENAMENTO PESQUEIRO

Um dos instrumentos de gestão ambiental, o ordenamento pesqueiro pode ser definido como um processo de
formulação do conjunto de medidas normativas (base legal), que definem os regramentos para a prática da atividade,
instrumentalizando o Poder Público (Estado) de meios legais para interferir na exploração destes recursos, de forma a
promover sua conservação. Em outras palavras, para estabelecer os limites que possibilitem que sua utilização se dê
dentro de níveis ecologicamente equilibrados, socialmente justos e economicamente viáveis (Rodrigues, et al., 2003).

Estas ações tanto podem propiciar o início ou a expansão de uma pescaria, isto quando o recurso encontra-se levemente
“explotado” (subpescado), quanto à retração, através da diminuição do esforço de pesca sobre aquela pescaria em que
o recurso encontra-se intensamente capturado (sobrepesca).

Vários métodos podem ser utilizados para realizar esta tarefa, porém cada um deve ser aplicado de acordo com
o conhecimento científico que se tem sobre o comportamento biológico da espécie em questão, do contexto
socioeconômico envolvido e dos propósitos a serem atingidos. Os métodos não são distintos, sua eficácia depende da
interação das ações.

As seguintes medidas são usualmente propostas:

1. Fechamento de estação de pesca (defeso);


2. Áreas de pesca (áreas de exclusão / unidades de conservação);
3. Tamanhos máximos ou mínimos;
4. Restrição aos aparelhos de pesca (petrecho);
5. Limitação da pesca por cotas de capturas (global ou individual);
6. Limitação do esforço de pesca (registro e permissão).

FECHAMENTO DE ESTAÇÃO DE PESCA (DEFESO)

O período de proibição da pesca, vulgarmente, conhecido como “defeso”, tem como objetivo proteger parte
selecionada de um estoque de grupos de espécies ou de uma dada espécie que se encontra em um período vulnerável
de seu ciclo de vida, ou seja, normalmente, quando estudos ou observações evidenciam ocorrer o pico de desova ou
de recrutamento. Recrutamento é o nome dado ao período em que os descendentes juvenis de uma espécie se juntam
aos adultos, agregando-se à biomassa reprodutiva, e passam a contribuir com a reposição dos estoques.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 151


Infelizmente, por razões diversas, alguns dos períodos de defesos estabelecidos não
correspondem à lógica de serem definidos dentro dos momentos críticos dos ciclos
de vida das espécies. Neste caso, passam a servir ao processo, se bem fiscalizado,
apenas para proporcionar uma redução do esforço de pesca sobre os estoques.
Dentre as razões supramencionadas, na maioria dos casos, prevalecem as de
interesses econômicos, impulsionadas por pressão política, que utiliza o apelo social
para sensibilizar em seu favor a opinião pública. Os referidos problemas ocorrem, em
função de o processo de gestão dos recursos pesqueiros envolver a complexa etapa
de negociações entre Estado e usuários dos recursos, como anteriormente descrito,
que também está relacionada aos acordos em função dos citados interesses.

No Sudeste e Sul do Brasil, os períodos de defeso em vigor estão discriminados na


Tabela II. Tais medidas sofrem frequentes ajustes, tanto em função de reavaliações
técnicas sobre a situação dos estoques quanto devido às referidas pressões oriundas
do setor produtivo.

Quando a parada obrigatória da pesca é aplicada às espécies de águas continentais


que ocorrem nas bacias hidrográficas brasileiras, esta é denominada piracema
(migração rio acima das espécies de peixes para desova).

152
Tabela II – Períodos de defesos vigentes para as espécies Marinhas e estuarinas no Sudeste e Sul do Brasil.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 153


ÁREAS DE PESCA (ÁREAS DE EXCLUSÃO / UNIDADES DE CONSERVAÇÃO)

No Brasil, áreas de exclusão à pesca caracterizam-se por serem regiões ou locais, com restrição total ou parcial à atividade
pesqueira no ambiente costeiro-marinho ou oceânico, onde o manejo adota o enfoque ecossistêmico e não voltado
a determinada espécie. Visam tratar as pescarias e outras atividades desenvolvidas na região, de forma integrada ao
meio, considerando as relações intrínsecas dos ecossistemas, como as áreas de berçários; as trocas de matéria e energia
entre os sistemas costeiro e oceânico, que condicionam os processos de migrações reprodutivas sazonais, exportação
e importação de ovos, larvas, a proteção da diversidade de organismos, responsáveis pela manutenção do equilíbrio
ecossistêmico, o que, além de garantir e aumentar o rendimento pesqueiro, contribuiu também para potencializar
outras atividades econômicas, dentre as quais, o turismo (Brasil, Ibama, 2009).

Estas áreas protegidas podem ser definidas por meio de portarias ou instruções normativas que estabelecem regras
de ordenamento pesqueiro, pela decretação de unidades de conservação ou inclusive por leis e decretos que as
regulamentam, como é o caso da implementação de planos de gerenciamento costeiro estaduais. Assim, unidades de
conservação (UCs) podem ser criadas por qualquer uma das esferas de poder executivo (federal, estadual ou municipal),
sendo que as restrições à pesca ou às outras atividades, dentro de sua área de abrangência, dependem de seu plano
de manejo e da categoria de proteção definida pelo decreto de criação, ou seja: a unidade de conservação pode ser
classificada nas seguintes categorias: “proteção integral” ou de “uso sustentável”, conforme estabelece o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação - SNUC (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

Linhas de projeção dos limites territoriais dos estados nas águas sob jurisdição brasileira também definem áreas para
fins de monitoramento e de gestão pesqueira, como o controle das operações da frota. Tais critérios encontram-se
definidos em norma específica de abrangência nacional (IN Ibama nº 122, de 18 de outubro de 2006).

Para o Estado do Rio de Janeiro, são as seguintes áreas de exclusão à pesca atualmente vigentes, mapeadas pelo CEPSUL,
por modalidade e região do litoral fluminense, e disponíveis no site www.Ibama.gov.br/recursos-pesqueiros/areas-
tematicas/areas-de-exclusão/ (Tabela 3). A visualização dos mapas pode ser feita acessando-se o sítio em referência.

154
Tabela III – Áreas de exclusão à pesca no Rio de Janeiro por região e modalidade/petrecho.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 155


TAMANHOS MÁXIMOS OU MÍNIMOS DE CAPTURA

O estabelecimento de tamanhos mínimos e máximos de captura constitui outra técnica para proteção de parte
selecionada do estoque, ou seja: quando adotada, a medida pretende proteger respectivamente ou os juvenis, para
que tenham a possibilidade de contribuir com a reposição do estoque pelo menos por uma vez durante a vida, ou os
maiores indivíduos existentes naquela coorte (amostra de uma população relacionada aos indivíduos de uma mesma
classe etária ou evento reprodutivo), por serem os melhores reprodutores. No caso dos juvenis, estes tamanhos são
estabelecidos com base em estudos biológicos que identificam o comprimento total em que cerca 50% dos exemplares
das amostras analisadas (LC 50) atingem o tamanho de primeira maturação sexual.

No Brasil, a definição de tamanho mínimo de captura é amplamente adotada pelas normas de ordenamento
pesqueiro. A definição de um tamanho máximo, ao contrário, não se tem notícia de ter sido colocada em prática em
nossa região. Existem casos de adoção da medida, associada às cotas para peixes ornamentais de águas continentais
da Bacia Amazônica. Para o litoral Sudeste e Sul do Brasil, a Instrução Normativa MMA nº 53, de 22 de novembro de
2005, estabelece o tamanho mínimo de captura de peixes marinhos e estuarinos, sendo que excluem dessa proibição
as capturas de juvenis realizadas pelas modalidades da pesca de arrasto e as efetuadas pelos praticantes da pesca
amadora, quando das competições oficiais de pesca desportiva. Neste caso, apenas para os listados no Anexo II da
referida Instrução Normativa.

Tais exceções merecem alguns esclarecimentos, pois, no caso da admitida ao arrasto, esta somente foi adotada devido
à baixa seletividade exibida pelo aparelho de pesca, que captura grandes volumes de indivíduos juvenis de inúmeras
espécies, especialmente quando operam em baixas profundidades. Assim, embora seja justificável a exceção para
esta modalidade, torna-a questionável pelos demais usuários, do porquê que o poder público, gestor do patrimônio
natural, não proíbe a pesca com o emprego de redes de arrasto ao invés de criar exceções desta natureza. A resposta,
é que o referido petrecho é muito eficiente, especialmente na captura dos camarões, recurso que possui elevado valor
de mercado, o que nos remete às questões relacionadas às pressões econômicas e políticas que permeiam o processo
da gestão ambiental. No entanto, a modalidade promove depredação do ambiente marinho e as discussões sobre as
exceções admitidas sempre geram muitos conflitos que dificultam a implementação da medida.

Para a pesca desportiva, apesar de comparativamente corresponder a volumes de captura insignificantes frente à
atividade da frota comercial, o tratamento diferenciado concedido neste caso também provoca descontentamentos,
pois a maioria dos pescadores profissionais não admite ter que repartir com o usuário amador o direito de uso do
recurso, embora o mesmo seja de domínio público.

Outras medidas vigentes, além da citada, também definem o tamanho mínimo de captura, incluindo as definidas para
águas continentais (Tabela IV).

156
Tabela IV – Medidas que estabelecem tamanho mínimo e máximo de captura, dentre outras, com abrangência nacional
e regional.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 157


RESTRIÇÃO AOS APARELHOS DE PESCA (MODALIDADE/PETRECHO)

Espécies:

Para restringir a eficiência dos barcos, tentando reduzir as capturas de juvenis e o esforço de pesca aplicado sobre
determinadas espécies, principalmente as consideradas “sob controle”, são definidas medidas para o emprego dos
aparelhos de pesca (comprimento e alturas máximas, largura de malha das redes e ensacadores, pesos das tralhas) e/
ou modalidades, incluindo as áreas onde operam.

Áreas:

Restrições sobre as áreas de operação para certos aparelhos dependem da declividade do litoral, da largura da
plataforma continental, das características das áreas estuarino-lagunares, rios e lagoas. Em função destas condições
dentre outras, a atividade é proibida ou em alguns casos limitada, como no caso da pesca de arrasto, cuja proibição
legal entre 1 a 3 milhas náuticas da costa encontra-se definida para embarcações acima de 10 TAB, ou seja, esta distância
representa uma área de exclusão à pesca de arrasto industrial no Sudeste e Sul do Brasil.

Outros exemplos de restrições que fazem esta associação (petrecho / área) vêm sendo comumente aplicadas. Assim,
durante a safra de tainhas, por exemplo, para a frota industrial, na modalidade cerco, também foi definida uma área
de exclusão variando entre 3, 5 e 10 milhas náuticas, respectivamente para os Estados do Rio de Janeiro, de São Paulo
a Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já os artesanais estão proibidos de fixar redes de espera nas desembocaduras de
estuários no mesmo período (Portaria Ibama nº 171/2008).

As restrições para emprego de aparelhos/petrechos por área também incluem o respeito às regras específicas das
unidades de conservação marinho-costeiras. O regramento para a prática da atividade pesqueira admitida nas UCs
encontra-se definido em seus decretos de criação e planos de manejo. O ordenamento do uso do espaço marinho,
por meio dos trabalhos do gerenciamento costeiro, também define restrições para algumas modalidades de pesca ao
longo do litoral brasileiro, com normatizações específicas, além das que definem critérios para a pesca pelos órgãos
gestores.

A Tabela V apresenta as principais normas vigentes de âmbito nacional e regional, relacionadas às restrições aos
petrechos de pesca às espécies e áreas, de âmbito nacional ou regional. As de âmbito estadual, incluindo aquelas
relacionadas às UCs, já foram anteriormente discriminadas na Tabela III.

158
Tabela V – Normas de abrangência local, regional ou nacional relacionadas aos petrechos e ou modalidades de pesca,
relacionadas às espécies capturadas e áreas de operação.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 159


Tabela V – Normas de abrangência local, regional ou nacional relacionadas aos petrechos e ou modalidades de pesca,
relacionadas às espécies capturadas e áreas de operação (continuação).

160
LIMITAÇÃO DE COTAS DE CAPTURA

A limitação de cotas de captura ou de comercialização por espécies, famílias, grupos de peixes ou outros organismos
aquáticos costuma ser sugerida como uma alternativa justa de divisão de direitos para exploração dos recursos
pesqueiros. No Brasil, os casos em que tal medida tem sido adotada estão relacionados principalmente à pesca amadora
ou aos peixes capturados com fins ornamentais e de aquariofilia.

A eficiência deste instrumento depende da capacidade do Estado em exercer o controle da atividade (fiscalização),
o que ainda não é a realidade na pesca do País. O amadurecimento das relações entre usuários e os órgãos gestores
também deverá conduzir à maior qualidade dos acordos e resultados na aplicação das medidas de gestão. Assim,
embora, em tese, este se constitua um instrumento interessante para a gestão pesqueira, ainda é pouco utilizado. A
Tabela VI apresenta algumas normas que estabelecem cotas de captura vigentes no país.

Tabela VI – Normas de abrangência nacional e regional que definem alguma espécie de cota de captura, tanto para a
pesca profissional como para a amadora.

LIMITAÇÃO DE ESFORÇO DE PESCA


REGISTRO E PERMISSÃO DE PESCA COMERCIAL

Um dos principais instrumentos de gestão pesqueira, que permite ao Estado o exercício do controle do esforço de
pesca aplicado sobre os estoques e áreas, é o Registro e a Permissão de Pesca. Portanto, a atividade deve ser autorizada,
e a permissão de pesca, como já dito, constitui ato administrativo discricionário e precário condicionado ao interesse

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 161


público, pelo qual é facultado ao proprietário, armador ou arrendatário operar com embarcação de pesca, devidamente
identificada, nas atividades de captura, extração ou coleta de recursos pesqueiros (IN SEAP nº 03/2004).

A atividade com fins comerciais só pode ser legalmente exercida após obtenção da Permissão de Pesca requerida
mediante inscrição da pessoa física ou jurídica no Registro Geral de Pesca (RGP). O Registro e a Permissão de Pesca são
concedidos pela Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República (SEAP/PR), por meio de seus
escritórios estaduais, e são divididos nas seguintes categorias: Aprendiz de Pesca, Pescador Profissional, Armador de
Pesca, Embarcação Pesqueira, Indústria Pesqueira, Aquicultor e Empresa que Comercia Organismos Aquáticos Vivos.

Para obter o Registro e a Permissão de Pesca o interessado deve dirigir-se ao escritório estadual da SEAP/PR do estado
em que reside, portando os documentos necessários, além de pagar uma taxa que varia de acordo com a categoria
de registro. O Registro e a Permissão de Pesca devem ser renovados anualmente ou a cada dois anos, dependendo da
categoria inscrita. Maiores informações sobre o Registro Geral de Pesca e a Permissão de Pesca estão disponíveis em
http://www.presidencia.gov.br/ estrutura_presidencia/seap/registro. As principais normas listadas abaixo (Tabela VII).

Tabela VII - Normas relacionadas ao registro, permissionamento de frota, permissão e controle de métodos aplicados
à pesca.

162
Tabela VII - Normas relacionadas ao registro, permissionamento de frota, permissão e controle de métodos aplicados
à pesca (continuação).

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 163


Tabela VII - Normas relacionadas ao registro, permissionamento de frota, permissão e controle de métodos aplicados
à pesca (continuação).

164
REGISTRO E PERMISSÃO DE PESCA AMADORA E OUTRAS MODALIDADES
CLASSIFICADAS COMO NÃO COMERCIAL

A pesca amadora é classificada por categoria:


• desembarcada (A);
• embarcada (B); e
• subaquática (C).

É aquela praticada por brasileiros ou estrangeiros com a finalidade de lazer, turismo ou desporto, sem finalidade
comercial (Art. 3º da Portaria Ibama nº 30, de 23 de maio de 2003). A Licença de Pesca amadora é concedida pelo Ibama,
através de seu Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora – PNDPA.

O limite de captura e transporte por pescador amador é de 10kg (dez quilos) mais 01 (um) exemplar para águas
continentais e 15kg (quinze quilos) mais um exemplar para pesca em águas Marinhas ou estuarinas, respeitando-se
os defesos, áreas protegidas e tamanhos mínimos e máximos estabelecidos em normas federais e estaduais. No caso
de transporte interestadual de pescado, o pescador amador deverá providenciar o comprovante de origem, junto aos
órgãos competentes. O produto das pescarias realizadas na forma desta Portaria não poderá ser comercializado ou
industrializado (Portaria Ibama nº 30/2003). A Tabela VIII discrimina as principais normas relacionadas aos critérios para
a prática da pesca amadora em âmbito nacional ou para alguma localidade específica no estado do Rio de Janeiro.

Tabela VIII - Legislação relacionada à pesca amadora em âmbito nacional e local.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 165


FROTA
Um problema comum nas pescarias dos países de terceiro mundo é a falta de informação sobre a própria estrutura da
pesca (número de barcos e pescadores, tipos de artes de pesca, entre outros), bem como das estatísticas básicas de
desembarque e esforço de pesca (Reis, 1992). No Brasil, uma das formas de monitoramento destas frotas é realizada
a partir de informações oriundas de Mapas de Bordo (Instrução Normativa Interministerial n° 26/2005), onde todas as
embarcações são obrigadas a disponibilizar informações de pesca.

A gestão pesqueira necessita das informações básicas que são fornecidas pelas avaliações dos estoques para então
obter informações para que seja realizado um bom ordenamento pesqueiro, que tem como função a regulamentação
da atividade, mediante implementação de medidas de administração (defesos, tamanhos mínimos, controle do
número de barcos, dias de pesca, tipo de artes, quotas de captura etc.) tendo como consequência a conservação do
recurso em níveis sustentáveis de produção ótima (Castello, 2007). Por isso, destaca-se a importância em realizar com
eficiência o controle da frota em operação. Inúmeras normas vigentes em âmbito nacional buscam estabelecer este
efetivo controle, conforme destacado na Tabela IX.

Tabela IX – Normas vigentes em âmbito nacional que têm relação com o controle da frota permissionada em
operação.

166
A Tabela X discrimina as principais normas vigentes de abrangência regional que definem algum tipo de controle ou
limitação sobre a frota permissionada para operar no litoral Sudeste e Sul do Brasil.

Tabela X – Normas vigentes em âmbito regional, que têm relação com o controle da frota permissionada em
operação.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 167


Tabela X – Normas vigentes em âmbito regional, que têm relação com o controle da frota permissionada em operação
(continuação).

REPRESENTAÇÕES INTERINSTITUCIONAIS PARA A GESTÃO

A gestão ambiental envolve, por princípio, o processo participativo em todas suas etapas, desde o planejamento
até as ações efetivas. Por participativo entende-se ser o processo no qual os indivíduos de diferentes setores da
sociedade (atores) contribuem de alguma forma na sua consecução, assumindo, compartilhadamente, os direitos, as
responsabilidades, os problemas e os esforços advindos de sua implementação.

Assim, o modelo adotado mundialmente visa garantir este direito do cidadão nos processos de negociação e tem por
princípio a representação dos diferentes segmentos sociais mediada pelo Estado.

Para ser sustentável, deveria haver compromisso entre todos os representantes dos segmentos sociais envolvidos com
os processos de gestão ambiental, incluindo a dos recursos pesqueiros, com a tomada de decisões viáveis, a partir
de acordos que priorizassem sua conservação, para que fossem adotadas medidas que oferecessem garantias de
perpetuação do patrimônio público e que servissem às presentes e futuras gerações.

Assim, definiram-se inúmeros formatos e arranjos interinstitucionais formalizados em conselhos, câmaras técnicas,
grupos de trabalho, comitês, instituídos para objetivos específicos, de acordo com o tema tratado. A Tabela XI discrimina
várias destas organizações e seus propósitos.

168
Tabela XI – Lista de Grupos de Trabalho Interinstitucionais (Conselhos, Comitês, Câmaras, GTTs, dentre outros)
relacionados com a gestão ambiental.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 169


Tabela XI – Lista de grupos de trabalho interinstitucionais (conselhos, comitês, câmaras, GTTs, dentre outros) relacionados
com a gestão ambiental.

INCENTIVOS AO DESENVOLVIMENTO DA PESCA

Réveret (1991) defende a tese de que os recursos renováveis implicam não só no conjunto, in situ, dos elementos que
se tornam objeto de exploração (peixe = estoque), mas também, no conjunto da cadeia trófica alimentar, necessária
à continuidade da exploração. Entretanto, a política pesqueira atual do Governo Federal, hoje representada pela
Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República – SEAP tem por objetivo revisar e aprofundar
as políticas em andamento para os setores da pesca costeira, continental e oceânica e para a aquicultura, com a
abordagem de implementar ações que permitam a inclusão social das comunidades pesqueiras, oferecendo incentivos
tanto à pesca artesanal, familiar e de micro e pequenos armadores, e à micro e pequena aquiculturas, quanto aos
industriais. Considera que o setor pesqueiro no Brasil representa aproximadamente 0,4% do PIB e que este percentual
poderá ser ampliado consideravelmente.

Ambientalistas questionam a meta de aumentar a produção pesqueira, pois consideram os riscos aos estoques, que
na sua grande maioria já se encontram na situação de sobrepesca. Mesmo assim, a SEAP acredita em perspectivas
positivas e investe na pesca oceânica e aquicultura, como forma de atingir seus objetivos. A Tabela XII demonstra
uma série de programas e sistemas que buscam auxiliar o processo de fornecer meios para que a frota nacional e os
aquicultures tenham melhores condições para ampliar seus rendimentos.

170
Tabela XII – Normas que oficializam programas e sistemas para dar assistência, incentivo e ampliar o controle sobre a
pesca e aquicultura, desde meados da década de 90.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 171


CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com Pomeroy (1998), a implementação da gestão participativa opera quatro componentes: manejo dos
recursos, desenvolvimento socioeconômico, capacidade de suporte e suporte institucional. Envolve várias parcerias,
"acordos e graus de poder compartilhado". Constitui-se na integração do local com os sistemas de administração do
governo centralizado, devendo ser entendida como uma técnica administrativa flexível, na qual um fórum ou estrutura
age na participação, confecção de regras, administração de conflitos, divisão de poderes, lideranças, diálogo, tomada
de decisões, geração e divulgação de conhecimentos.

O processo, como pode ser observado, evolui no tempo, sofre adaptações permanentes e gera um arcabouço legal
para permitir o controle, que, na prática da experiência brasileira, está distante de realizar o que se propõe em teoria.
A análise histórica do processo de legalização da atividade pesqueira exibe muitos avanços e retrocessos. Atualmente,
ainda prevalece um cenário de divisão de competências, visões e de interesses, e este quadro conduz à produção de
uma parafernália de regramentos, na tentativa de atingir objetivos divergentes.

Tal situação conduz ao caos no processo de gestão, impossibilitando que os usuários se mantenham atualizados e que
o próprio Estado consiga fazer cumprir as medidas que edita, utilizando os meios de fiscalização disponíveis. As normas
são múltiplas, complexas, abordam variados aspectos da atividade e muitas se sobrepõem ou até se contradizem,
existindo casos em que novas medidas são publicadas sem que as anteriores sejam revogadas, passando a haver duas
abordagens legais em vigência sobre o mesmo tema e, às vezes, opostas.

A afirmação apresentada pode ser constatada quando se analisam as inúmeras normas e ementas exibidas nos itens
anteriores deste capítulo. Em resumo, a legislação ambiental e pesqueira se constitui numa ferramenta fundamental
e de grande utilidade para auxiliar no processo de gestão, visando à sustentabilidade da atividade e à conservação
dos ambientes naturais. Contudo, para que possa cumprir esse papel, e efetivamente ser aplicada, como balizadora
dos limites a serem respeitados por uma sociedade que preza os direitos de seus cidadãos, é necessário haver rápido
amadurecimento dos usuários dos recursos, bem como a unificação responsável das diretrizes que orientam os
processos em andamento e a urgente revisão do conjunto de normas que trata do tema, na tentativa de reduzi-las em
número e complexidade, com maiores investimentos para levá-las ao conhecimento público.

172
MAPAS DAS NORMATIVAS PLOTADAS PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO

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174
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176
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178
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180
PANORAMA ATUAL E PERSPECTIVAS PARA A PESCA INDUSTRIAL
7
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Marcelo Vianna

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 181


182
PANORAMA ATUAL

A pesca é a última atividade econômica baseada no extrativismo animal que é desenvolvida atualmente em escala
industrial. Essa aparente divergência entre extrativismo e indústria é um dos motivos que a tornam tão complexa, e
essa complexidade se intensifica em um estado com as características do Rio de Janeiro.

A análise histórica confirma o importante papel da atividade pesqueira para o Estado do Rio de Janeiro. Local onde
surgiram as primeiras armações de pesca do Brasil, no inicio do século XVII, direcionadas ao peixe-real, que nem
peixe era, e sim baleia. Cronologicamente, a pesca fluminense era realizada pelos índios (em caráter de subsistência),
passando a ser exercida já de forma comercial pelos escravos libertos; posteriormente, agora em escala industrial, por
imigrantes europeus (principalmente portugueses e espanhóis), chegando aos dias de hoje. Essa atividade contribuiu
de forma consistente para a ocupação do território do estado e a fundação de diversas cidades no entorno das lagunas
e baías. Atualmente a pesca representa uma das principais atividades econômicas de diversos municípios litorâneos,
empregando inúmeros fluminenses, em todas as etapas da sua cadeia produtiva.

Durante várias décadas o Estado do Rio de Janeiro foi o principal polo pesqueiro industrial do Brasil. Desembarcando
inicialmente as baleias e, a partir dos anos de 1970, camarões e sardinhas. O Entreposto Público da Praça XV teve um
papel importante nesse contexto, concentrando o desembarque e a primeira comercialização. Quanto à produção
pesqueira recente, o Estado do Rio de Janeiro faz jus à terceira maior costa marinha do Brasil. O desembarque de pesca
fluminense apresenta uma receita anual de cerca de 180 milhões de reais, na primeira comercialização, e corresponde
ao terceiro estado brasileiro em produção de pescado e o primeiro da região Sudeste, com destaque para a pesca
industrial, que corresponde a cerca de 75% da produção estadual. A captura pesqueira nos últimos anos está estável,
tendo até um pequeno aumento, sendo baseada em pescados pelágicos, tais como a sardinha-verdadeira e o bonito-
listrado. O quadro apresentado parece ser bem positivo para o setor pesqueiro, mas não é o que os dados oficiais
mostram.

Ao analisarmos a economia pesqueira formal fluminense, observamos uma grande redução no numero de empresas,
empregos, valores de exportação e recursos num intervalo de 10 anos. Essa queda reflete os erros das políticas
publicas passadas, desenvolvimentistas, que superdimensionaram o segmento industrial da pesca fluminense sem se
preocupar com a matéria-prima (o pescado) nem com o mercado consumidor. Mas poderia mostrar também a perda
de competitividade do pescado em comparação com outras fontes de proteína animal, em função da elevação do
preço do pescado, devido à queda da produtividade pesqueira e à elevação dos custos de captura, em detrimento
da redução do preço da carne de aves e suínos. Entretanto, isso não parece ser verdadeiro, o Rio de Janeiro importa
pescados para suprir a oferta primária e outros estados, como por exemplo Santa Catarina, traçaram caminho inverso,
com aumento, no período, nos mesmos quesitos da economia formal onde o Rio de Janeiro teve perda. Apesar de
o panorama econômico histórico ser desfavorável, o mercado consumidor fluminense parece ser promissor para a
atividade pesqueira industrial. Diferente da média nacional, quem consome pescado no estado são as classes mais
abastadas, à procura de um alimento saudável e pouco calórico. O Rio de Janeiro tem, se não a maior, uma das maiores

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 183


demandas per capita de pescado do Brasil, o consumo de pescado fluminense é preferencialmente direcionado ao
pescado de origem Marinha extrativista. A exportação de pescado do estado é basicamente feita por transporte aéreo
e é essencialmente de peixes frescos ou resfriados, com maior valor agregado.

O que podemos observar é que a queda na captura de recursos tradicionais como a sardinha-verdadeira e o camarão-
rosa certamente contribuíram para o declínio histórico registrado, assim como o aumento nos custos da captura e no
transporte aéreo dos produtos exportados. Além disso, as perspectivas não são promissoras, pois as demais capturas
estão em declínio, pois são baseadas em pescarias costeiras tradicionais, que operam sobre estoques totalmente
explorados ou já sobrepescados, tais como os camarões e os peixes costeiros. Mudar essa tendência não é um trabalho
fácil com o perfil tecnológico da frota pesqueira estadual.

A análise tecnológica da frota e de petrechos de pesca fluminenses mostram que a atividade está baseada em
materiais e tecnologias antigas. A frota atuante é em sua maioria proveniente de construções realizadas nos planos de
desenvolvimento da pesca dos anos de 1970. Não houve no estado um programa de transferência de conhecimentos
das universidades e centros de pesquisa para o setor produtivo. A tecnologia presente na pesca hoje, em grande parte,
ainda é a que os imigrantes portugueses e espanhóis trouxeram. As embarcações são predominantemente de madeira
não certificada e usam o mesmo projeto básico, independente da arte de pesca ou distância da costa que opere.

O levantamento da infraestrutura de apoio em terra que está disponível para a pesca industrial confirma uma
reclamação antiga do setor produtivo. Os principais pontos de desembarque pesqueiros do estado têm associado uma
série de serviços que atendem a atividade pesqueira. Entretanto, a esmagadora maioria representa iniciativa pessoal
de pequenos empresários e profissionais autônomos, muitos dos quais na informalidade. A presença do poder público
quase não é notada, refletindo claramente a falta de políticas públicas de apoio ao setor produtivo da pesca.

Para complicar, quando analisamos a legislação que regulamenta a atividade pesqueira observamos que existe um
excesso de normativas, o que dificulta tanto o usuário a se manter atualizado quanto o estado a efetivamente fazer
cumprir essas regulamentações. Entretanto, o exagero no número de normas não representa eficiência. Ao contrário,
existem regras sobrepostas, contraditórias e que quando publicadas não revogam a vigência das anteriores.

PERSPECTIVAS

Apesar do panorama negativo apresentado, as perspectivas para a pesca industrial fluminense podem ser promissoras.
Para isso faz-se necessária uma maior participação do poder público como verdadeiro gestor da atividade e a melhor
utilização dos diferenciais do Estado como produtor de um pescado de qualidade.

A costa fluminense, além de ampla, contém características geomorfológicas e oceanográficas que propiciam elevada
produção pesqueira. No litoral do estado ocorre o único fenômeno de ressurgência costeira do Brasil, junto a Cabo
Frio, fenômeno esse que enriquece com nutrientes a água superficial, propiciando o aumento na produção de peixes.
O Rio de Janeiro apresenta uma costa entrecortada por diversas lagoas costeiras que servem de criadouro para peixes

184
e camarões, tais como Araruama, Saquarema e Maricá, para citar só as maiores. Possui três importantes baías estuarinas
com manguezais no fundo, Guanabara, Sepetiba e Ilha Grande, que também funcionam como berçário para peixes, siris
e camarões. O estado dispõe ainda de um complexo sistema de pequenos rios que deságuam no mar, continuamente
oferecendo nutrientes, além do grande Rio Paraíba do Sul, que possui uma importante pesca realizada em águas
costeiras em frente à sua foz. A diversidade de fundos junto à costa também é grande. O Rio de Janeiro possui áreas
alternadas de fundos duros e moles ao longo de todo o litoral.

As particularidades ambientais da costa fluminense explicam por que o estado é um importante produtor de sardinhas
e peixes do grupo dos atuns (bonitos, albacoras etc.) e é o maior produtor nacional de peixes de fundos duros. Esses
pescados possuem alto valor agregado e apresentam grande aceitação no mercado nacional e internacional. O que
não é exportado é totalmente absorvido pela indústria local de enlatados.

Mas, concretamente, o que é registrado é o declínio da pesca industrial, com a perda de investimentos para outros
estados. A degradação ambiental das lagoas costeiras, baías, estuários, manguezais e rios litorâneo, certamente
contribui para o esgotamento dos recursos pesqueiros tradicionais. O decaimento dos estoques pesqueiros costeiros
faz com que a tensão a bordo dos barcos de pesca aumente, assim como a necessidade de se afastar mais da costa à
procura de produção. Isso geralmente a bordo de embarcações inadequadas e com pescadores com baixa escolaridade
e despreparados para a lida em águas desabrigadas. A ausência do poder público se faz notar a todo o momento e
medidas emergenciais devem ser tomadas de modo a reverter o panorama negativo para a pesca como uma atividade
econômica empresarial formal.

PROPOSTAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO SEGMENTO INDUSTRIAL

As proposições apresentadas a seguir são direcionadas ao desenvolvimento do segmento industrial da pesca


fluminense, mas muitas delas, se implementadas, também têm ação direta sobre a melhoria do setor artesanal e da
maricultura.

• Não se pode falar em desenvolvimento do setor pesqueiro, com intervenção no processo de declínio dos
estoques pesqueiros costeiros, sem tratar da degradação do litoral. Iniciativas de redução da poluição, como
aumento do saneamento básico, recuperação de áreas degradadas e controle de efluentes doméstico e
industrial, devem ser imediatas e ininterruptas.

• Ficam claras ao longo deste documento a baixa qualificação e a desvalorização dos profissionais envolvidos na
pesca. Fazem-se necessárias ações de qualificação e valorização deste profissional. O pescador deve ser mais
bem capacitado e ter a Carteira de Trabalho assinada e regida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), seja
por vínculo empregatício, seja por contrato de parceria, com todos os direitos trabalhistas assegurados.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 185


• Além dos pescadores, os técnicos prestadores de assistência técnica também devem ser capacitados, para que
entendam as particularidades da pesca em relação à agricultura.

• O empresariado deve reavaliar as estratégias de exportação de pescado fresco e resfriado, orientando a pauta
para outros produtos beneficiados e por meio marítimo, que são mais rentáveis, ampliando o mercado externo
e interno com produtos diferenciados mais atrativos ao consumidor.

• O Estado deve promover a diversificação da captura, diminuindo a importância sobre recursos tradicionais
sobrepescados como o camarão, a sardinha e outros peixes costeiros, direcionando as pescarias para recursos
de águas mais profundas e afastadas da costa, explorando recursos com maior potencial de explotação.

• A frota pesqueira deve passar por uma renovação tecnológica, com projetos navais mais modernos, visando à
construção de embarcações com materiais mais leves, que tornem o gasto de combustível menor; com desenhos
específicos para cada tipo de arte de pesca, de modo a que a pescaria fique mais segura e eficiente; com a
mecânica adequada para cada faina; e a substituição das urnas do porão por prateleiras de congelamento.

• O Estado deve investir em uma infraestrutura de apoio mais eficiente, com a construção de terminais pesqueiros
públicos, onde uma diversidade de serviços seja oferecida e que concentre o desembarque e primeira
comercialização dos pescados.

• Um trabalho deve ser feito no sentido de diminuir a informalidade das empresas, das distintas etapas da cadeia
produtiva do pescado, fazendo com que a arrecadação de impostos aumente e os números oficiais sejam mais
representativos.

• A legislação que regulamenta a pesca deve ser revista, de modo a torná-la mais enxuta, objetiva, fácil de
ser cumprida e fiscalizada. Normativas de abrangência regional devem ser elaboradas considerando as
particularidades da pesca fluminense.

• Faz-se necessário o fortalecimento das instituições estaduais que atuam junto ao setor pesqueiro, fomentando
uma maior articulação com as instituições federais e do setor produtivo, de forma que, em um sistema de
gestão compartilhada, levantem as lacunas para o desenvolvimento do setor.

• A atividade pesqueira fluminense deve ser respeitada pelo poder publico e empresariado como uma fonte
importante de divisas e empregos para o estado. Entretanto isso só vai ser possível se os dados de produção
pesqueira desembarcada forem monitorados e disponibilizados regularmente para o setor produtivo e
gestores.

186
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesca industrial é uma importante atividade econômica para o Estado do Rio de Janeiro. A liderança do estado no
panorama da pesca nacional é um passado recente que se torna cada vez mais distante, em função da degradação
ambiental do nosso litoral, políticas publicas equivocadas, declínio das pescarias tradicionais, tecnologias obsoletas,
informalidade do setor empresarial e descaso das autoridades governamentais. Entretanto, essa perspectiva pode ser
mudada, pois as características geográficas privilegiadas do Rio de Janeiro e o mercado consumidor local receptivo
suportam essa transformação.

A inversão da tendência de declínio pode ser realizada com uma serie de medidas factíveis de serem implementadas
em um espaço de tempo não muito longo. Somente com novas e urgentes diretrizes nas políticas públicas do estado e
a efetiva participação do empresariado da pesca esse quadro será possível.

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 187


188
OS AUTORES

Ana Luísa de Souza Soares


Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Catarina; Mestre em Ciências Econômicas
pela Universidade Federal da Bahia.
Instituição: Universidade do Vale do Itajaí, pesquisadora do Grupo de Estudos Pesqueiros - GEP/UNIVALI. Membro
do Subcomitê Científico do Comitê Permanente de Gestão de Recursos Demersais de Profundidade - SEAP/
PR. Consultora da FAO no Projeto Melhoramento dos Mercados para Produtos Pesqueiros na América Latina e
Caribe.
E-mail: analuisa@univali.br

Ana Maria Torres Rodrigues


Bacharel em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Especialização Lato Sensu em
Ciências Ambientais pela Universidade Gama Filho; Mestrado em Engenharia Ambiental/Área de Concentração:
Proteção de Ecossistemas Costeiros pela Universidade Federal de Santa Catarina; Doutorado em Engenharia
Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Instituição: Centro de Pesquisas e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (CEPSUL) - Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Telefone: (47) 3348-0937
E-mail: ana.rodrigues@icmbio.gov.br

Antonio Olinto Ávila da Silva


Biólogo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Especialista em Tecnologia de Pesca pelo Centro
Internacional de Treinamento em Pesca de Kanagawa, da Agência de Cooperação Internacional do Japão.
Mestrado e Doutorado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Membro do Subcomitê Científico do Comitê Permanente de Gestão de Recursos Demersais de Profundidade -
SEAP/PR. Atualmente é pesquisador e diretor técnico do Centro APTA Pescado Marinho, do Instituto de Pesca,
Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios.
Instituição: Centro APTA Pescado Marinho, Instituto de Pesca.
Telefone: (13) 3261-8080
E-mail: aolinto@pesca.sp.gov.br

Beatriz Corrêa de Freitas


Bióloga pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Instituição: Laboratório de Biologia e Tecnologia Pesqueira do Departamento de Biologia Marinha do Instituto
de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2562-6362
E-mail: bea@uninet.com.br

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 189


Daniela Sarcinelli Occhialini
Oceanógrafa formada pela Universidade do Vale do Itajaí.
Instituição: Centro de Pesquisas e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (CEPSUL) - Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Telefone: (47) 3348-0937
E-mail: daniela.occhialini@icmbio.gov.br

Fernando Antonio Sampaio de Amorim


Professor do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formado
pelo mesmo departamento, com mestrado e doutorado em Engenharia Naval e Oceânica.
Instituição: Laboratório Pólo Náutico, Rua Mauricio Joppert da Silva s/n°, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro – RJ, e
Núcleo Interdisciplinar UFRJ-Mar.
Telefone: (21) 3866-6926
E-mail: fernando@peno.coppe.ufrj.br

Fernando Augusto Galheigo


Oceanógrafo formado pela Fundação Universidade Federal de Rio Grande. Assessor Ambiental Pesqueiro e
Auditor Ambiental
E-mail: fagalheigo@gmail.com

Marcelo Vianna
Biólogo Marinho pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestrado em Zoologia pelo Museu Nacional do Rio
de Janeiro; Doutorado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos, Especialização
em Artes e Métodos de Pesca pela Agência de Cooperação Internacional do Japão, Pós-Doutorado pela Fundação
Universidade Federal de Rio Grande. Membro do Subcomitê Científico do Comitê Permanente de Gestão de
Recursos Demersais de Profundidade - SEAP/PR.
Instituição: Laboratório de Biologia e Tecnologia Pesqueira, do Departamento de Biologia Marinha do Instituto
de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2562-6362
E-mail: mvianna@biologia.ufrj.br

Márcio Luis Chagas Macedo


Bacharelando em Biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Instituição: Laboratório de Biologia e Tecnologia Pesqueira, do Departamento de Biologia Marinha do Instituto
de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2562-6362
E-mail: morcego@biologia.ufrj.br

Mauricio A. Nepomuceno de Oliveira


Engenheiro Naval e Oceânico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando em Ciências da Natureza
e Desenvolvimento Socioambiental.

190
Instituição: Laboratório Pólo Náutico Rua Mauricio Joppert da Silva s/n°, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro – RJ e
Colégio Municipal de Pescadores de Macaé.
Telefone: (21) 3866-6926
E-mail: mauricio.a.n.oliveira@gmail.com

Paula Ritter
Bióloga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutora em Psicossociologia de Comunidades
e Ecologia Social (Programa EICOS) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estágio no Centre de
Recherches sur le Brésil Contamporaine na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris.
Instituição: Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, Coordenadoria de Pesca Marítima. Alameda
São Boaventura, Fonseca 24120-191, Niterói, Caixa Postal: 68020
Telefone: (21) 3601-5822 Ramal: 209
E-mail paula.ritter@gmail.com

Rafael Botelho Duarte Coelho


Engenheiro Naval e Oceânico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando em Engenharia
Mecânica.
Instituição: Laboratório Pólo Náutico Rua Mauricio Joppert da Silva s/n°, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro – RJ,
Telefone: (21) 3866-6926
E-mail: rafael.hcrj@gmail.com

PESQUISADORES E INSTITUIÇÕES QUE ATUAM NA PESCA


NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Ana Paula Madeira Di Beneditto


Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Laboratório de Ciências Ambientais. Av. Alberto
Lamego, 2.000 - Parque Califórnia 28013-602 - Campos dos Goytacazes, RJ – Brasil
Telefone: (22) 2726-1469

Antonio Mateo Sole Cava


Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia, Departamento de Genética. Sala A2-98 - Bloco A -
CCS - Ilha do Fundão - 21941-490 - Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2562-6389

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 191


Cassiano Monteiro Neto
Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Departamento de Biologia Marinha. Outeiro de São
João Batista – Valonguinho - Centro 24001-970 - Niterói, RJ - Brasil - Caixa-Postal: 100644
Telefone: (21) 2717-2041

Dalcio Ricardo de Andrade


Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal. Av.
Alberto Lamego, 2000, CCTA sala 112. - Horto 28015-620 - Campos dos Goytacazes, RJ – Brasil
Telefone: (22) 2726-1634

Daniel Shimada Brotto


Universidade Veiga de Almeida, Departamento de Ciências da Saúde, Curso de Ciências Biológicas. Rua Ibituruna,
108 Tijuca 22460-030 - Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2567-1172 Ramal: 132

Erica Maria Pellegrini Caramaschi


Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia, Departamento de Ecologia. Av. Mal. Trompowski,
s/n CCS Bloco A - Ilha do Fundão - 21941-590 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil - Caixa-Postal: 68020
Telefone: (21) 2562-6376

Francisco Gerson Araújo


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia, Departamento de Biologia Animal. Km 47,
Antiga Rodovia Rio - São Paulo - 23851-970 - Seropédica, RJ – Brasil
Telefone: (21) 3787-3983

Ilana Rosental Zalmon


Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Laboratório de Ciências Ambientais. Av. Alberto
Lamego 2000 – Horto Centro - 28013-620 - Campos dos Goytacazes, RJ – Brasil
Telefone: (22) 2726-1470

José Policarpo de Mendonça Neto


Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais. Outeiro São João Batista, s/n. Valonguinho.
Valonguinho - 24001-970 - Niterói, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2629-2261

Karina Annes Keunecke


Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Prof. Rodolpho P. Rocco, CCS - Bl. A - Ilha do Fundão - 21949-900 - Rio
de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2562-6302

192
Lidia Miyako Yoshii Oshiro
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Estação de Biologia Marinha. BR 465, km 7- Seropédica -
Universidade 23851-970 - Seropédica, RJ – Brasil
Telefone: (21) 3787-3975

Marco Antonio da Silva Mello


Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Departamento de Antropologia e Universidade
Federal do Rio de Janeiro.

Magda Fernandes de Andrade-Tubino


Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia, Departamento de Biologia Marinha. Av. Prof.
Rodolpho Rocco, 211 CCS - Bloco A - LAB. A0-056 - Ilha do Fundão - 21949-570 - Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2562-6373

Maria de Fátima Moraes Valentim


Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, Coordenadoria de Pesca Marítima. Alameda São
Boaventura - Fonseca 24120-191 - Niterói, RJ - Brasil - Caixa-Postal: 68020
Telefone: (21) 3601-5822 Ramal: 209

Paulo Alberto Silva da Costa


Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Escola de Ciências Biológicas, Departamento de Ecologia e
Recursos Marinhos. Laboratório de Dinâmica de Populações Marinhas - Av. Pasteur, 458 - Prédio da ECB, sala 410
Urca 22290-240 - Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2244-5639

Philip Conrad Scott


Universidade Santa Úrsula, Instituto de Ciências Biológicas e Ambientais, Laboratório de Aquicultura e Sistemas
de Informação Geográfica. Rua Jornalista Orlando Dantas 59 - sala 202 - Botafogo - 22231-030 - Rio de Janeiro,
RJ – Brasil
Telefone: (21) 2553-4310

Rafael de Almeida Tubino


Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Departamento de Biologia Marinha. Outeiro São
João Batista s/n - Centro - 20748-900 - Niterói, RJ – Brasil

Ricardo Cavalcanti Martino


Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, Diretoria de Pesquisa e Produção, Unidade de Tecnologia
do Pescado - Utpo. - Av. das Américas, 31501 - Guaratiba - 23032-050 - Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Telefone: (21) 2410-7002

DIAGNÓSTICO DA CADEIA PRODUTIVA DA PESCA MARÍTIMA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 193


Sergio de Oliveira Lourenço
Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Instituto de Biologia. Outeiro São João Batista, s/n -
Centro 24020-140 - Niterói, RJ - Brasil - Caixa Postal: 100644
(21) 2629-2307

Sidney Lianza
Engenharia de Produção (COPPE) - Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rede Solidária da Pesca

194
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