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TEORIAS TAOISTAS NA BASE DA MTC Edelcio Mostaço Uma singular diferença entre o modo chinês

TEORIAS TAOISTAS NA BASE DA MTC

Edelcio Mostaço

Uma singular diferença entre o modo chinês de pensar, quando colocado em contraste com o ocidental, diz respeito ao seu caráter sintético; quando sabemos que o nosso foi, genericamente, articulado com feição analítica. Enquanto no Ocidente as primeiras manifestações filosóficas mostraram-se ligadas à definição ou intelecção do que é o Ser (daí resultando, inclusive, aquelas apreensões em torno da idéia de Estática e Imobilidade), o pensamento chinês ocupou-se, acima de tudo, com a percepção e compreensão das manifestações da Natureza, dela procurando extrair ensinamentos.

É neste sentido que a idéia de Mutação, expressa pelo ideograma "I" no nome do livro " I Ching", constitui-se

num dos pilares do modo chinês de conjeturar e filosofar, observável em todos os domínios de suas criações intelectuais. Neste modo de entendimento "o humano, em particular, não vive separado do resto do universo, mas em harmonia com ele. Do macrocosmo ao microcosmo, as mesmas leis regem a vida e a morte e exprimem o

princípio universal: o Tao."

Uma grande quantidade de textos cosmológicos legados pelo taoismo nos informa sobre um Sopro primordial, denominado Qi (ou Chi), preexistente à formação do céu e da terra. Em seu capítulo 42 diz o Tao Te King:

O Tao gera o Um

O Um gera o Dois

O Dois gera o Três

E o Três gera todas as coisas.

Todas as coisas dão as costas ao escuro,

Dirigindo-se para a luz.

A energia que entre eles flui lhes fornece a harmonia.

Qi, como se observa, pode ser compreendido em dois níveis: representa, de um lado, o Um, o caos original concebido como Sopro sem organização ou direção, de onde originar-se-á a dupla articulação de Yin e Yang, os princípios polares e complementares que lhe fornecerão o primeiro impulso de manifestação. Yin e Yang, de outro lado, produzem os três Sopros ou energias fundamentais: o puro, o impuro e a mistura de ambos que, amalgamando-se, irão constituir o Céu, a Terra e o Homem. Como adverte J. Schatz "para os Antigos, o envoltório do céu e da terra, o céu e a terra, o intervalo céu/terra e todos os seres que aí tiveram uma efêmera moradia formam apenas um amontoado de sopros, sem interior, sem limites, senão precários e relativos."

Para o taoismo esta correspondência entre os fenômenos naturais é responsável, ademais, pela sua visão global

de homem e, consequentemente, da medicina que veio a engendrar - a MTC. O corpo, nesta acepção taoista

reflete, em seu interior, a mesma topologia apreendida do exterior: montanhas, vales, rios, lagos, planícies e

estuários, conformando não apenas os acidentes do meio ambiente resultantes das manifestações de Qi, seja em seus aspectos Yin ou Yang como, na mesma medida, no organismo humano, que surgirá configurado com uma assemelhada topologia. Razão pela qual os pontos de acupuntura serão nomeados em acordo com esta paridade, pelo que representam enquanto localização e influência, seja na superfície seja no interior das estruturas corporais.

Para se conhecer o homem portanto, a partir destas concepções cosmológicas, deve-se ficar atento à sua própria natureza e à natureza circundante, o meio ambiente que nos sustenta e abriga; uma vez que o microcosmo (homem) é uma representação diminuta de todo o Universo (macrocosmo), regendo-se pelas mesmas leis e sofrendo o influxo dos mesmos fenômenos.

O Su Wen, em seu capítulo 66, notifica esta interrelação ao afirmar que "na imensidão do espaço há uma energia

essencial, primitiva, que dá nascimento a todos os seres e neles se integra." Os sopros mais ligeiros e leves

elevaram-se formando o céu, de características mais Yang; enquanto aqueles mais densos e pesados abaixaram-

se e comprimiram-se, conformando a terra, de características mais Yin. O homem, produto localizado entre o

céu e a terra, possui seus sopros derivados deste mesmo influxo energético, vinculado que está ao céu (através dos troncos celestes) e à terra (por intermédio dos ramos terrestres), sofrendo a ação não apenas dos ciclos sazonais como, notadamente, das mesmas leis da mutação, o "I" que rege a dinâmica das mutações energéticas.

Para a medicina esta noção é primordial: ela regulará não só as divisões entre Zang e Fu (Órgãos e Vísceras) ou

os Jing Luo (Canais e Colaterais), como influirá decisivamente sobre as características das nosologias, seja agrupando-as em manifestações Yin ou Yang, seja oferecendo a chave para os diagnósticos e prognósticos.

Observamos aqui também outro pioneirismo do pensamento chinês, ao articular em modo pregnante matéria e energia. Ao contrário do Ocidente, onde tais noções são relativamente modernas, os orientais acertadamente

distinguiram-se pela vinculação entre os dois conjuntos de fenômenos, apreendendo, desde os primórdios, a síntese bionergética. Enquanto no Oeste a noção de energia sofreu lenta evolução (combustiva, a vapor, elétrica, eletrônica, atômica etc), havendo ainda alguma relutância na aceitação de uma energia própria dos seres vivos -

a bionergia - ; o Leste as vinculou desde sempre, concebendo energia e matéria como fenômenos em interação,

uma vez que o Qi possui tanto qualidades abstratas e etéricas quanto concretas e materiais. Tudo o que existe -

vivo ou não - é, em definitivo, uma manifestação desta indissolubilidade. Para o Su Wen, cap. 66, "quando um ser toma forma isto quer dizer que a energia se transforma. Quando a vida material desaparece , isto corresponde a uma mutação da energia."

Yin e Yang, como verificado, provém da divisão do Um primordial. Constituem-se em princípios gnoseológicos, noções ligadas quer ao Espaço quer ao Tempo, conforme ensina M. Granet. Um aforismo clássico, atribuído a Hi Ts'eou, aduz:

"Um Yin, um Yang, eis o Tao" - enigmático modo de formular uma definição para a mentalidade analítica ocidental. Sua tradução não é nada fácil, pois aquelas duas ordens de ocorrências necessitam ser contempladas, o que nos oferece esta dupla alternativa:

1)

2)

Tao.

Uma vez Yin, na outra Yang

/

Um tempo Yin, um tempo Yang

Aqui é Yin, lá é Yang - eis o Tao.

/

Um lado Yin, outro lado Yang - eis o

Referindo-se ao Tempo, as duas noções adequam-se às circunvoluções do sol e da lua, base primária para a fixação dos transcursos entre os povos antigos. Referindo- se ao Espaço, evidenciam as distinções entre o vale e a montanha, o alto e o baixo, o aqui e o acolá, o lado ensolarado e o sombrio de um monte ou acidente geográfico, inscrevendo-se, quer numa dimensão quer noutra, na observação da mutabilidade da Natureza.

Referências antiquíssimas no seio da cultura chinesa, Yin e Yang surgem vinculados desde as mais remotas documentações preservadas, como expressões associadas à astrologia (em seu aspecto temporal) e ao feng shui , a arte dos arquitetos que buscavam as mais favoráveis emanações do Qi para a construção de casas ou cidades (em seu aspecto espacial). Mas, sobretudo, Yin e Yang encontram-se amalgamados na concepção intrínseca do I Ching, famoso livro oracular que ordenou os 64 Kuas (signos/figuras), as diversas possibilidades de arranjo resultantes destes dois princípios básicos.

Opostos e complementares. É preciso ficar atento à conjunção de ligação e; que fornece o aspecto ligamentar das duas energias. Se apenas opostas, Yin e Yang poderiam ensejar uma irreconciliável separação de forças, antitéticas e oponentes entre si; quando, em realidade, além de uma dinâmica centrípeta conformam também elas um liame integrativo centrífugo: um não subsiste sem o outro. Ou seja, assim como é impossível conceber-se Yin sem Yang, cada qual possui em seu interior o germe do outro, manifesto graficamente no pequeno círculo contrário que cada um ostenta: o círculo branco representando o jovem Yang no interior do velho Yin e o

círculo escuro representando o jovem Yin no interior do velho Yang. Daí resulta a lei que prescreve que todo Yin irá transformar-se em Yang, e vice versa. A fita de Moebius, tão tardiamente desenvolvida no Ocidente, já estava implícita nesta concepção oriental há alguns milhares de anos; pois o símbolo do Tai Chi nada mais é que sua

forma gráfica bidimensional:

.
.

A mutação, pois, não é uma transformação ocorrida apenas a partir do exterior, mas também um

desenvolvimento interno implícito, ditado pelo curso próprio da Natureza; o que reforça aquela noção trazida pelo e : oposto e complementar. Vale lembrar alguns aspectos médicos importantes destas noções: os Zang Fu (Órgãos e Vísceras), os Jing Luo (Canais e Colaterais) e a utilização dos pontos de acupuntura (tonificação ou sedação), por exemplo, surgem inscritos dentro desta dupla articulação, subsistindo enquanto estruturas

energético-orgânicas graças à ação de Yin e Yang, um conjunto de inter-relações que amplifica quer seus aspectos topológicos (complementaridade de padrões subida/descida energética entre os Zang Fu) quer temporais (a evolução da concentração energética percorrendo o relógio cronobiológico).

Do ponto de vista dos padrões energéticos deve-se atentar para esta oposição e complementaridade fundamental:

Yang significa os Sopros Essenciais, enquanto Yin significa Sangue. Cada estrutura corporal (osso, órgão, tecido, célula etc) possui uma dada proporção de Yin e Yang, nas múltiplas acepções que estas Essências e este Sangue adquirem e exprimem no contexto da MTC, bastante diversos das noções ocidentais análogas.

Já foi observado como o Um engendra o Dois, através da repartição Céu/Terra; e como este Dois origina o Três,

o Homem. Este, por seu turno, propiciará o nascimento do Quatro, modo tradicional de configurar-se a fixação

das direções espaciais, surgidas do posicionamento deste homem localizando à sua frente o Sul, às suas costas o Norte, à esquerda o Leste e à direita o Oeste. Note-se que o Sul chinês encontra-se acima, na direção da estrela Polar, uma vez que será ela a guia de referência neste sistema que ordenou as constelações.

Estas quatro direções, associadas aos trânsitos lunar e solar, conformarão a noção das estações, as repetições sazonais que, anualmente, apresentavam um número assemelhado de fenômenos, sugerindo a noção de ciclos no tempo. Sol e Lua, Yang e Yin, regem tais ciclos, tornando os transcursos - seja do calendário, seja das estações - uma combinação de ambos os sistemas cronológicos. Para o taoismo o corpo humano, além de um microcosmo, é também um país. "O Príncipe e seu reino não formam senão um só corpo", aparece no Kong-yang Tchouan, Chuang, 4 , oferecendo aqui não apenas uma metáfora como, também, uma constatação: assim como o Príncipe era alimentado com os frutos sazonais da terra, vestia as cores das estações e habitava uma das alas do palácio imperial propícia ao período que atravessava, era de seu corpo que emanava a harmonia universal, a estabilidade do meio ambiente. "Quem governa seu corpo, governa o país", escreveu Sseu-ma tch'eng em 711 d.C. a um imperador dos Tang , reportando, ainda uma vez, o arcaico vínculo e velha crença de necessária harmonia entre o interior e o exterior. No Su Wen, III, cap. 8, a correlação entre os órgãos internos é verificada como segue: "o coração possui a função de príncipe e governa pelo Shen, os pulmões são os oficiais de ligação e "

promulgam as resoluções; o fígado é um general e inventa as estratégias etc

As estações conformam um anel circundante e mutável, mas possuem um centro, um núcleo estabilizador, representado pelo imperador, disposto como um quadrado fixo. Esta é a razão pela qual a doutrina do Wu Xing

- ou teoria dos cinco movimentos - nasce da verificação desta interface estabelecida entre o núcleo e a periferia. Wu significa "cinco"; Xing quer dizer "caminhar, agir, avançar alternativamente com os pés". Os Cinco Movimentos (não muito apropriadamente traduzidos no Ocidente tempos atrás como Cinco Elementos) derivam-se deste conjunto de observações: cada estação possui suas características intrínsecas, atributos e qualidades, conformando um todo orgânico em relação ao centro. Primitivamente eram representadas como um

sinal em cruz

especificidades; em período posterior esta representação adquiriu o formato de uma estrela

deslocado como uma das pontas do polígono. Fixou-se então a tradição que associou em definitivo alguns componentes, como verificados no quadro abaixo:

alguns componentes, como verificados no quadro abaixo: , onde cada braço tocava inapelavelmente o centro,

, onde cada braço tocava inapelavelmente o centro, demarcando, em seu prolongamento, suas

o centro, demarcando, em seu prolongamento, suas , sendo o centro PRIMAVERA VERÃO OUTONO INVERNO

, sendo o centro

PRIMAVERA

VERÃO

OUTONO

INVERNO

5º ESTAÇÃO

Madeira

Fogo

Metal

Água

Terra

Verde

Vermelho

Branco

Preto

Amarelo

Leste

Sul

Oeste

Norte

Centro

Gan/Fígado

Xin/Coração

Fei/Pulmão

Shen/Rim

Pi/Baço

Constituindo-se num sistema de referência organizador de um Universo, os Cinco Movimentos passaram a influir decisivamente sobre o conjunto da vida política, social, doméstica, pessoal; atingindo, evidentemente, o território da medicina, da higiene, da alimentação etc. O movimento Terra, sendo o Centro, intermedia o fluxo dos demais. É por isso que neste sistema cronométrico regulado simultaneamente pelos ciclos solares e lunares, ajustes periódicos necessitavam ser realizados, tarefa essa ao encargo de astrônomos e astrólogos da Corte, uma vez que competia ao Imperador emanar a ordenação do tempo. A vida do império dependia destes ajustes. As colheitas, as festas, as cerimônias e ritos públicos e privados, os tributos e toda a organização material e espiritual deste Império do Centro estavam no encargo deste imperador e regente coronário que, como no organismo, comandava os demais.

As estações chinesas são compostas de 73 dias, havendo períodos intermediários de 18 dias entre uma e outra que formam, em seu conjunto, a quinta estação. Tendo o Pi (Baço) como Zang (Órgão) destacado, esta estação, intercalada entre as demais, representa uma relativa dominância desse órgão sobre seus pares; explicável em conseqüência do refluxo energético de distribuição ali realizado neste período intervalar. Para a Acupuntura esta é uma noção importante, advertindo que qualquer tratamento efetuado sobre um outro Zang Fu (Órgãos e Vísceras) deve sempre realizar sua harmonização com o Pi (Baço).

Outras implicações decisivas para a terapêutica estão ligadas, ainda, ao Wu Xing: aquelas estabelecidas pela lei da criação e pela da destruição.

O ciclo Sheng, na primeira, indica a geração sucessiva dos movimentos, onde Fogo gera Terra, Terra gera Metal,

Metal gera Água, Água gera Madeira e esta o Fogo. Cada movimento ocupa a localização relativa de Mãe do movimento seguinte (que, portanto, é seu Filho) e, concomitantemente, de Filho em relação ao movimento que o antecede; conformando uma existência dinâmica e interrelacionada de energia entre eles. Uma sutil correspondência entre cada estação e seu movimento próprio encontra-se estabelecida nesta primeira lei ou ciclo Sheng, onde:

A Madeira, na Primavera, responsabiliza-se por colocar em movimento, dar nascimento à Energia. Ela vem

A Madeira, na Primavera, responsabiliza-se por colocar em movimento, dar nascimento à

Energia. Ela vem do Yin e dirige-se para a culminância do Yang, para o Fogo, uma vez que nasce no

Leste, estando associada ao levante do Sol e sua ação de exteriorização, de amadurecimento;

do Sol e sua ação de exteriorização, de amadurecimento; O Fogo característico do Verão, expande essa

O Fogo característico do Verão, expande essa Energia, espalhando-a e impelindo-a para todo o

organismo. Yang absoluto, ele "queima" aquilo que recebeu da Madeira, reduzindo-a a "cinzas",

matéria prima do movimento seguinte;

a "cinzas", matéria prima do movimento seguinte; A Terra emerge neste conjunto em dois níveis:

A Terra emerge neste conjunto em dois níveis: constituindo-se no Centro e intermediária entre

duas Mutações, encarrega-se ela da distribuição da Energia criada; de outro lado, sua ação culmina ao final do Verão (período das chuvas quentes, a quinta estação), propiciando a saturação da Energia, período em que o Yang recebido já está se transformando novamente em Yin;

recebido já está se transformando novamente em Yin ; O movimento Metal qualifica o Outono e

O movimento Metal qualifica o Outono e a função de coletar, ajuntar a Energia orgânica, em

molde nitidamente Yin, período em que o Pulmão a faz descender de modo mais evidente.

em que o Pulmão a faz descender de modo mais evidente. A Água, caracterizando o Inverno,

A Água, caracterizando o Inverno, representa a concentração máxima da Energia, período onde

o Yin adquire sua mais acabada fisionomia.

Como é facilmente dedutível, este fluxo ditado pela lei da criação no Wu Xing segue o movimento horário. Ele é mantido contínuo, entretanto, pela outra lei que opera em sentido oposto, a do controle/dominação mútua, expresso pelo ciclo Ke. Com este novo conceito os chineses figuravam os contra-fluxos energéticos, atentos ao fato de que, na Natureza, tudo se cria e se auto-controla (ou se domina). O ciclo Ke não deve ser entendido como um "mau" ciclo, mas tão somente como uma lei natural, uma das decorrências de Yin e Yang. Segundo ele a Madeira controla a Terra, a Terra controla a Água, a Água controla o Fogo, o Fogo controla o Metal, e este controla a Madeira. A relação, agora, não é mais entre uma Mãe e um Filho, mas entre um Avô e um Neto, onde cada Movimento ocupa simultaneamente ambos os papéis, dependendo da incidência verificável.

Um ciclo de lesão, entretanto, igualmente pode configurar-se no organismo, ao desencadear-se a inversão deste ciclo Ke, denominado Xiang Wu. Geralmente caracterizando estágios avançados das nosografias, ele instala-se em decorrência dos grandes Vazios/Plenitudes, propiciando períodos de tumultos energéticos acentuados. Desse modo pode-se verificar uma lesão da Terra sobre a Madeira, desta sobre o Metal, deste sobre o Fogo, deste sobre a Água e dela sobre a Terra.

O tratamento de base da Acupuntura, quando efetuado com a técnica dos Cinco Movimentos, deve ater-se em

modo preciso à mutabilidade destes ciclos energéticos, com a utilização dos pontos Shu ou Antigos. Assim denominados por se constituírem não apenas nos mais antigos pontos terapêuticos registrados mas porque representam eles os locais de comando do fluxo energético. Abrir ou fechar um destes pontos implica em direcionar a energia, atuando seja para escoá-la, estancá-la ou direcioná-la para um outro nível ou Movimento

através dos Jing Luo (Canais e Colaterais), cuja rede capilar cobre todo o organismo humano.

Su Wen - ou Livro Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo; o mais antigo tratado de medicina ainda hoje preservado, base várias vezes refeita ao longo dos tempos e, ainda hoje, a referência principal para a acupuntura tradicional.

Este texto utilizou-se basicamente das seguintes obras:

GRANET, M - La Pensée Chinoise, Albin Michel, Paris, 1988.

SCHIPPER, K. - Le Corps Taoïste, Fayard, Paris, 1997.

MASPERO, H. - Le Taoïsme et les religions chinoises, Gallimard, Paris, 1990.

et les religions chinoises , Gallimard, Paris, 1990. A Medicina Tradicional Chinesa - a MTC e

A Medicina Tradicional Chinesa - a MTC e a acupuntura - constituem o braço terapêutico de uma cultura

milenar. Informações seguras registram seu emprego na China desde 5.000 anos antes da era cristã. Ela é denominada tradicional porque, mesmo possuindo um desenvolvimento contínuo no tempo histórico e tendo incorporado, sucessivamente, as mais recentes tecnologias da área de saúde, rege-se ainda pelos seus milenares princípios de ação. O fundamento básico da medicina chinesa apoia-se sobre a existência de duas forças opostas e complementares, denominadas Yin e Yang. Estes dois princípios são responsáveis não apenas pela existência de todas as formas de vida como, igualmente, a manifestação dos demais fenômenos do Universo - sejam eles físicos ou não.

O fenômeno da Vida, neste sentido, é entendido como uma interação permanente destas duas forças que, em seus

vários desdobramentos, estão na origem de todas as substâncias.

O corpo humano é compostos de uma série Órgãos (zang, regidos pelo Yin) e Vísceras (fu, regidos pelo Yang),

Sangue e Energia, Líquidos Orgânicos e outros componentes, assim como seus respectivos shen (entidades viscerais). Interligando todo este conjunto estão os Canais e Colaterais (chamados de meridianos), igualmente

divididos em parelhas Yin/Yang.

A MTC objetiva, acima de tudo, favorecer o equilíbrio entre o meio externo (natureza) e o meio interno

(organismo), por intermédio da regulação Yin/Yang. Através do uso de agulhas inseridas em pontos determinados do corpo, busca o acupunturista regular o fluxo energético do indivíduo, quando este se encontra

alterado seja por carência ou excesso. Existem mais de 1.500 pontos conhecidos, embora cerca de 64 sejam os mais utilizados, denominados Pontos Shu, responsáveis pela abertura ou fechamento deste fluxo energético que circula nos meridianos.

Esta regulação harmônica é considerada primordial para a existência de saúde num indivíduo e - nos casos de alterações - será o fator básico a ser recuperado pelo acupuntor. Os desequilíbrios (que tornam-se, nesta acepção, a origem das diversas doenças) podem ser internos (originados no próprio organismo) ou externos (provocados ou adquiridos no meio ambiente). Na maior parte dos casos verifica-se que um fator externo só prejudica um interno se este, por razões diversas, já encontrava-se anteriormente desregulado e sujeito, portanto, a sofrer o impacto da ação exterior.

A MTC opera a partir de um princípio de energia biológica, nascido das atuações de Yang e Yin. Não existe Yin

sem Yang e vice-versa.

Esta energia biológica é determinante para qualquer tratamento pela MTC e a acupuntura.

Toda a carga e a descarga (elétrica) do organismo encontra-se regulada por diversos mecanismos corporais: o metabolismo basal, o sistema endócrino, o sistema sangüíneo, os mecanismos proprioceptivos etc. Cada um deles mantêm estreita correlação com órgãos, vísceras e funções corporais. Metade dos meridianos é de natureza Yin, a outra metade de natureza Yang, funcionando em pares coordenados.

Nos termos simbólicos empregados na MTC obedecem eles um ciclo de geração contínua - denominado Ciclo Cheng - e reproduzem os movimentos e princípios ativos do Fogo, Terra, Metal, Água e Madeira. Cada elemento regula uma parte do sistema global, produzindo esta energia determinada e controlando eventuais desarranjos das demais. Cada um possui seu aspecto saudável e sua patologia, os efeitos resultantes de um excesso ou

carência energéticos. Assim o Vento, o Fogo, o Frio, a Umidade, a Secura e a Fleuma (os aspectos corpóreos que eles adquirem) constituem as mais comuns causas de patologias, tratáveis através da regulação geral do sistema.

Cada ser humano possui uma dada constituição - ou seja, seu modo próprio de efetuar esta regulação orgânica e conviver com seu fluxo.

Identificar qual a constituição de um dado indivíduo é um passo fundamental num diagnóstico oriental (denominado Ji Sen; zheng), razão pela qual são empregados procedimentos diversos: a tomadas dos pulsos (existem 28 formas diferentes de pulsos energéticos), a inspeção da língua, a palpação, a olfação, a verificação dos pontos Mu (pontos de alarme), a escuta dos sons e palavras do paciente.

A busca principal do Ji Sen; zheng é identificar a origem do desequilíbrio energético e vibracional - chamado de

a raiz do problema de saúde daquele indivíduo.

Terapêutica energética e vibracional, a MTC presta-se admiravelmente para solucionar problemas crônicos, quase sempre considerados intratáveis pela medicina ocidental.

sempre considerados intratáveis pela medicina ocidental. Edelcio Mostaço Neste texto será inicialmente realizada

Edelcio Mostaço

Neste texto será inicialmente realizada uma abordagem ocidental da questão do estresse e,

posteriormente, a oriental. Cada uma delas possui pressupostos bastante distintos e, portanto, deve

o leitor ficar atento às circunstâncias quer de uma quanto de outra abordagem. Observe-se que a

partir de pressupostos distintos cada medicina maneja diferentemente seus recursos em relação à mesma nosografia.

O estresse costuma ser descrito pela fisiologia e pela etiologia ocidentais como uma resposta

orgânica à uma situação adversa, interna ou externa, qualquer que seja sua natureza, constituindo-

se numa reação de defesa e adaptabilidade do organismo à mesma. Neste raciocínio obedece ele três fases ou estágios:

alarme - primeiros sinais ou sintomas (podem ser inespecíficos); - primeiros sinais ou sintomas (podem ser inespecíficos);

resistência - o organismo como que dá um salto, adquirindo maior desempenho do que na pré-estresse; - o organismo como que dá um salto, adquirindo maior desempenho do que na pré-estresse;

fase

exaustão - incapaz de continuar neste nível, entra ele em depleção e há uma quebra do - incapaz de continuar neste nível, entra ele em depleção e há uma quebra do estágio anterior.

ele em depleção e há uma quebra do estágio anterior. O estresse está equacionando, sempre, uma

O estresse está equacionando, sempre, uma relação entre o dentro e o fora do organismo ou o

que, no campo da fisiologia, é descrito como a regulação entre o meio interno e o externo. Costuma ser percebido e/ou avaliado pelo indivíduo como uma ameaça configurada contra sua integridade

física, emocional ou psíquica, ensejando um panorama onde tais pressões sobrepujam largamente suas possibilidades de suportá-las ou refrea-las. O grau de estresse será dimensionado, então, menos em função da gravidade ou concretude da ameaça mas, sobretudo, pela avaliação das possibilidades do indivíduo em lidar com ela.

A glândula adrenal é a responsável em ordenar estas respostas orgânicas nas situações de

alarme, perigo, fuga ou luta; enquanto que a córtex circundante organiza estas reações em prazos

mais longos e mantêm a durabilidade das atitudes tomadas. Neste conjunto de reações destacam-se:

aumento de atividade de sistema nervoso parassimpático, da atividade cardíaca e da circulação periférica, possibilitando um esforço físico imediato;atitudes tomadas. Neste conjunto de reações destacam-se: liberação, em continuidade, dos hormônios adrenalina e/ou

liberação, em continuidade, dos hormônios adrenalina e/ou noradrenalina pela adrenal para aperiférica, possibilitando um esforço físico imediato; circulação sangüínea, fornecendo apoio às atividades

circulação sangüínea, fornecendo apoio às atividades metabólicas (aumento da pressão sangüínea,

constrição dos vasos sangüíneos superficiais; e mobilização das energias estocadas no fígado, com a liberação da glicose armazenada).

Se a situação impor-se, contudo, como persistente e de longo alcance, o sistema de resposta da córtex da adrenal será cada vez mais solicitado, com requerimento acentuado de ACTH (hormônio adrenocorticotrófico) pela pituitária. Será a persistência desse quadro que conformará, do ponto de vista fisiológico, o estresse.

que conformará, do ponto de vista fisiológico, o estresse. Uma clara relação está aqui configurada com

Uma clara relação está aqui configurada com a ansiedade. Estará ela presente na totalidade dos quadros de estresse, sejam eles desencadeados por agentes orgânicos, emocionais ou psíquicos. Vejamos, rapidamente, alguns dos mais notórios sintomas de ansiedade: disposição ansiosa (antecipação do pior, apreensão, irritabilidade), medo (do escuro, de estranhos, de ser deixado sozinho, de grandes ou pequenos animais, de trânsito, de multidões, etc), intelectual (perda de memória, de concentração), ânimo deprimido (perda de interesse, ausência de prazeres, depressão), sensações orgânicas (zumbido nos ouvidos, escurecimento da visão, fluxos de calor ou frio, sensação de fraqueza, coceiras), sintomas respiratórios (pressão ou constrição do peito, asfixia, suspiros, respiração difícil), sintomas gênito-urinários (freqüência e/ou urgência de micção, períodos menstruais suprimidos, sangramentos excessivos num período menstrual, frigidez, ejaculação precoce, perda de ereção, impotência), comportamentais (tremor nas mãos e pálpebras, testa enrugada, faces contraídas, palidez, soluços, eructação, transpiração espontânea), tensão (sensação de peso ou contraturas musculares, fadiga, incapacidade de relaxar, resposta assustadiça, choro fácil, tremores de pernas, joelhos ou cotovelos, rilhar de dentes), insônia (dificuldade para dormir, sono interrompido ou insatisfatório, fadiga ao acordar, sonhos, pesadelos, terrores noturnos), cardíacos (dor no peito, palpitações, taquicardia, palpitação dos vasos sangüíneos, falha nos batimentos cardíacos), sintomas gastrintestinais (dificuldade para engolir, gases, dispepsia, dores pré ou pós prandiais, azia, eructos, ruídos abdominais, frouxidão intestinal, perda de peso, constipação) e sintomas inespecíficos (boca seca, rubor, palidez, suores, tontura ou vertigem, queda ou embranquecimento de cabelos).

O emprego da Medicina Tradicional Chinesa para o tratamento dos quadros de estresse tem se revelado extremamente eficaz, uma vez que efetiva uma abordagem psicossomática do indivíduo, tratando os diferentes níveis do organismo atingido. Para um melhor entendimento da utilização da MTC, entretanto, uma compreensão mais alargada de seus fundamentos torna-se indispensável. Engendrando um tratamento energético, opera ele a partir de postulados bem diferenciados em relação a seus congêneres contemporâneos e ocidentais.

A MTC atua a partir de padrões energéticos de desempenho e não, como

faz a medicina alopática ocidental, a partir da fisiologia. Isto significa que ela

irá mobilizar os diversos "corpos" superpostos no ser humano, distinguindo níveis entre si. Cada um desses corpos possui sua realidade própria, um nível vibratório diferenciado e uma organização fisiológica específica. Corpo energético, aqui, possui uma estrita acepção material: os chineses não concebiam nada semelhante ou parecido ao conceito de alma, tal como esta noção é entendida no Ocidente.

A partir do encontro entre um espermatozóide e um óvulo tem início um

incomensurável ciclo de transformações que envolvem, desde o início, a matéria e a energia. Utilizando a matéria celular como veículo conformam- se seus canais de circulação, os vínculos entre as polaridades negativa e positiva, o yin e o yang. Os primeiros canais ou meridianos de energia a se desenvolverem são os chamados Extraordinários, ainda no estágio celular. À medida que o embrião cresce vão surgindo os demais, dando forma à arquitetura vibracional dos canais e colaterais, denominados jing luo em chinês, por onde irá circular o Jing (Sopro/Essência) em suas diversas morfologias. Esta extensa rede de meridianos permitirá ao feto e ao futuro ser humano conformar-se, nascer, viver seu tempo e morrer.

Através do Wu Xing, a teoria dos Cinco Movimentos, os chineses concebiam o engendramento de todas as coisas existentes no Universo, o Tao. Assim, o Fogo gera a Terra, a Terra gera o Metal, o Metal gera a Água, a Água gera a Madeira e esta gera o Fogo, num ciclo constante que prevê seu contra-fluxo de controle e sua agressão mútua se, por algum motivo, a

gera o Fogo, num ciclo constante que prevê seu contra-fluxo de controle e sua agressão mútua

harmonia for rompida.

Cada um destes Movimentos está associado à uma parelha de componentes internos, composta por um órgão sólido (parenquimatoso) e uma víscera (vazia) e denominados Zang Fu, num total de dez conjuntos. Duas funções orgânicas, não associadas a órgãos ou vísceras, completam este circuito de 12 meridianos Principais, onde temos:

elemento

FOGO

METAL

TERRA

ÁGUA

MADEIRA

órgão

Xin/Coração

Fei/Pulmão

Pi/Baço

Shen/Rim

Gan/Fígado

Xinbao/Pericárdio

 

Shiaochang/Int.

       

víscera

Delg.

Dachang/Int.

Wei/

Pangguang/

Dan/ Ves.

Sanjiao/Triplo

Grosso

Estômago

Bexiga

Biliar

Aquecedor

"alma"

Shen

Po

Yi

Zhi

Hun

direção

sul

oeste

centro

norte

leste

caract.

calor

secura

umidade

frio

vento

Cada denominação acima corresponde a um sistema energético da MTC e não, como se poderia pensar, às noções similares que possuímos nas ciências ocidentais. Assim, Xin/Coração pressupõe não apenas o órgão coronário, como igualmente sua função; Wei/Estômago inclui o esôfago, piloro e início do duodeno etc. O Triplo Aquecedor constitui-se numa função corporal sem analogia entre nós, uma vez que abarca três distintos locais de trocas químicas: o superior (envolvendo o fenômeno da respiração); o médio (o da fermentação estomacal); e o inferior (a absorção da uréia e conseqüente expulsão da urina). Ele envolve, portanto, o Pulmão, o Estômago e o Rim/Bexiga. O Pericárdio (também conhecido como Circulação-Sexo) é conformado pela cárdia e seus ramos arteriais, estando ligado a diversos processos endócrinos e psíquicos.

Os Cinco Movimentos designam, também, certas características morfológicas das coisas, sejam elas materiais ou

Os Cinco Movimentos designam, também, certas características morfológicas das coisas, sejam elas materiais ou imateriais, nascidas das atuações de Yin e Yang, como desdobramentos da emanação do Tao. Cada Movimento possui igualmente seu vetor de ação, por assim dizer, que lhe garante uma direção, um modo de manifestação. Desse modo o Fogo é ascendente e gera o Calor; a Terra é centralizadora e gera a Umidade; o Metal é descendente e gera a Secura; a Água é descendente e gera o Frio; sendo a Madeira ascendente e gerando o Vento. Cada uma destas qualidades está presente também no homem, cumprindo importantes funções de equilíbrio interno. Equilíbrio que poderá ser rompido, seja por razões metabólicas ou ação das energias do meio ambiente, vindo a causar as patologias. Sendo o homem considerado um microcosmo à semelhança da organização do macrocosmo, estas intensas relações entre o meio externo e interno são observáveis todo o tempo no âmbito da MTC.

Serão estas associações clássicas empregadas para designar as síndromes energéticas na MTC. Assim:

"Vento Frio Acometendo o Aquecedor Superior", refere-se a um ataque simultâneo de Vento e Frio sobre as vias respiratórias, qualificando seja um resfriado seja uma pneumonia. Por Fogo são designados costumeiramente os quadros inflamatórios, por Vento os infecciosos, por Úmidos os que apresentam edema ou congestão de líquidos orgânicos etc.

O aspecto mental, a base do corpo anímico e emocional, exprime-se sob forma bem mais ampla que seus correlatos ocidentais. Os chineses desenvolveram o conceito de shen para designar aquilo que podemos, na ausência de melhor tradução, denominar Mente. Deve-se compreender por Mente o conjunto formado pelo Cérebro, as Medulas, o Fogo Ministro (ou Mingmen) sediado no Rim e a coordenação geral auspiciada pelo Xin/Coração, tomada enquanto conjunto de características que evidenciam a vivacidade existencial. O shen revela, assim, o estado interior e exterior da pessoa, desde sua apresentação até suas reações típicas, sejam elas físicas, emocionais ou psíquicas. Este conceito também significa inteligência, entendida como a capacidade de síntese deste indivíduo, somando a memória, raciocínio, aprendizado, capacidade de cálculo. Um indivíduo tem bom Shen se exterioriza tais características em modo desenvolto, ágil, vivaz; refletindo em sua aparência um shenming - o brilho do Shen.

Mas há ainda uma instância, que podemos denominar como etérica, coabitando o organismo, cujo entendimento apresenta-se ainda menos óbvio para nós. Originário das práticas xamãnicas que estão nas origens da MTC, é ele formado pelas entidades corporais alojadas em cada um dos Zang. Constituem tais entidades espécies de almas vegetativas, denominadas shen, destinadas a fazerem funcionar cada um dos Zang. Estes shen possuem uma dada natureza vibracional, expressa através do sabor, direção, cor e natureza/temperatura, classificáveis sob diversas rubricas de yin e yang. Cada Zang possui um Sentimento específico a ele agregado; que uma lesão ou um contra-fluxo poderão transformar no seu contrário. Temos, então, as seguintes correspondências: Shen (ao Coração/Alegria), Yi (ao Baço/Preocupação), Po (ao Pulmão/Tristeza), Hun (ao Fígado/Furor) e Zhi (ao Rim/Vontade).

O Shen (enquanto Mente), o Xin (Coração) e o Jing (Sopro/Essência) ocupam papel central nesse

sistema etérico, não apenas por possuírem uma ação junto à esfera neurológica e à homeostase interna mas porque, especialmente, todos os demais meridianos atingem, seja em modo direto ou através de sub-ramos e prolongamentos, o coração e o cérebro. A sede do corpo etérico, entretanto, é o Gan/Fígado; o armazém de Sangue orgânico, a ele estando associada a capacidade de adaptação do indivíduo ao mundo, assim como o sentimento de cólera, de furor, de relações mantidas com o meio ambiente.

O Po/Pulmão é aquilo que podemos entender como o Inconsciente, essa ânsia selvagem que

morde, devora, trincha nos dentes os pedaços de realidade que consegue alcançar. Inspirar o ar é não apenas captar gás como, especialmente, torná-lo nosso gás, absorvendo-o seja com o intuito de sobrevivência e nutrição como de posse, razão pela qual Po está diretamente associado à captação, ao

canibalismo.

Yi/Baço rege nossa capacidade de ruminação, de pensamento, de articulação das experiências vividas; enquanto Zhi/Rim delineia-se como a Vontade, a persistência nos objetivos, a determinação mental em cumprir metas e propósitos. Seu estado de Vazio irá produzir o Medo, o Temor, ou ainda, a ausência de Vontade.

Estabelecido este sumário sobre algumas das bases da MTC, voltemos à nossa

questão do estresse para observar como pode ser ele dimensionado à

sua luz.

O mecanismo adrenal, como antes verificado, é o primeiro a ser solicitado quando situações estressantes são desencadeadas. Para a MTC isso envolve, sobretudo, um ataque ao Shen/Rim. Do ponto de vista etiológico a energia pode encontrar-se em plenitude ou deficiência num meridiano, sendo a ação terapêutica sua regularização. Se esta ação equilibradora tarda e o meridiano continua sofrendo o impacto quer de uma ou outra ocorrência irá, aos poucos, influindo sobre seu sistema. Assim poderemos detectar tanto uma Plenitude ou uma Deficiência, verificadas quer num meridiano quanto num sistema energético. No caso do Shen/Rim não existe a noção de Plenitude (quando esta manifesta-se é em virtude de uma ascensão do Fogo Ministro (Mingmen) sobre o Xin/Coração), mas poderemos ter uma Deficiência, ou seja, um Vazio.

mas poderemos ter uma Deficiência, ou seja, um Vazio. Numa situação de prolongada demanda operada sobre

Numa situação de prolongada demanda operada sobre o Shen/Rim, fazendo exaurir seu padrão usual de desempenho, e em acordo com as transformações energéticas ensinadas pelo Wu Xing, são as seguintes as configurações possíveis:

um Vazio de Shen/Rim Yin que faz extravazar o Fogo Ministro, alcançando o Xin/Coração e o alto do corpo;

sendo Mãe da Madeira, não mais possuirá energia para nutrir o Gan/Fígado, que sofrerá um desabastecimento;Ministro, alcançando o Xin/Coração e o alto do corpo; estando em Vazio, solicitará muita energia de

para nutrir o Gan/Fígado, que sofrerá um desabastecimento; estando em Vazio, solicitará muita energia de sua
para nutrir o Gan/Fígado, que sofrerá um desabastecimento; estando em Vazio, solicitará muita energia de sua

estando em Vazio, solicitará muita energia de sua Mãe, que é o Metal/Fei/Pulmão, debilitando-o;

estando em Vazio de Yang, não poderá controlar o Pi/Baço, que ficará em Plenitude, alterando os demais sistemas aos quais encontra-se relacionado, notadamente o Gan/Fígado, o Dachang/Intestino Grosso e o Xiaochang/ Intestino Delgado;

o Dachang/Intestino Grosso e o Xiaochang/ Intestino Delgado; Em tal quadro de desequilíbrios energéticos, temos os

Em tal quadro de desequilíbrios energéticos, temos os seguintes sintomas verificáveis, todos eles comumente identificáveis nos quadros de estresse:

eles comumente identificáveis nos quadros de estresse: " Vazio de Shen/Rim Yin e Yang ": Vontade/ânimo

"Vazio de Shen/Rim Yin e Yang": Vontade/ânimo debilitados, medo, pânico, freqüência de micção, urgência de micção, sangramentos menstruais, impotência, perda de ereção, ejaculação precoce, zumbidos, vertigem, queda e embranquecimento de cabelos;

zumbidos, vertigem, queda e embranquecimento de cabelos; " Excesso de Pi/Baço ": boca seca, sensação de

"Excesso de Pi/Baço": boca seca, sensação de constrição torácica, suspiros, tremor nas mãos, diarréia, palidez, preocupação e obsessões crescentes;

diarréia, palidez, preocupação e obsessões crescentes; " Vazio de Gan/Fígado ": eructos, gases, perda da

"Vazio de Gan/Fígado": eructos, gases, perda da adaptabilidade ao mundo, incapacidade de relaxar, tremor nas pálpebras, testa enrugada, crises de Furor;

tremor nas pálpebras, testa enrugada, crises de Furor; " Xin/Coração atingido pelo Fogo ": pesadelos,

"Xin/Coração atingido pelo Fogo": pesadelos, falta de concentração, perda do elã vital, inquietude, insônia, taquicardia, palpitações, arritmia, falta de coordenação orgânica;

palpitações, arritmia, falta de coordenação orgânica; " Vazio de Fei/Pulmão ": dificuldades

"Vazio de Fei/Pulmão": dificuldades respiratórias, sensação de desmaio, sudorese, espírito

assustadiço, asfixia, coceiras, perda ou ausência de investimento sobre o real.

Do ponto de vista mental observaremos uma diminuição do shenming, do brilho na apresentação da pessoa, e responsável pelas amnésias, dificuldades de articular estratégias, diminuição da acuidade intelectual, dificuldades com cálculos, dados memorizados. O Vazio de Hun evidenciar-se-á pela cada vez menor adaptabilidade do indivíduo ao mundo, perda do investimento sobre os empreendimentos, dificuldades cada vez mais intensas em lidar com o passado, as experiências acumuladas e seu histórico de vida, desconectando o sujeito de sua trajetória existencial. O Vazio de Po causará um afastamento ou uma dificuldade cada vez maior em assegurar sua razão de ser, sua persistência quanto à existência, sua canibal dentada na maçã que chamamos Vida.

A Plenitude de Yi, ao contrário, engendrará alguns conhecidos excessos que marcam os

estressados: a ruminação das desilusões, a incapacidade de amar e ser amado, a obsessiva exigência de ordem, limpeza ou cumprimento de horários, uma vez que Yi é o responsável por estes traços organizacionais que martelam com insistência a Mente.

A MTC age, ao tratar um indivíduo, no seu conjunto energético, regularizando e assentando

todos os desequilíbrios existentes, sejam eles do corpo físico, etérico ou anímico. Uma rigorosa

avaliação, denominada zheng, passa pela pulsologia, auscultação, interrogatório e inspeção da língua, podendo ainda recorrer a outros modos de aferir as condições do indivíduo, seja a cinesiologia aplicada, a iridiologia, toques, etc.

Entre os recursos terápicos mais freqüentes encontram-se as agulhas e moxas. As primeiras são hoje em dia descartáveis, reduzindo praticamente a zero a possibilidade de doenças transmissíveis. As moxas são confeccionadas sob o formato de bastão com lã de artemísia, uma erva destinada a aquecer os pontos acupuncturais. Agulhas e moxas podem ser substituídas pela estimulação elétrica ou a laser, dispondo o mercado de uma série de instrumentais com esta finalidade.

mercado de uma série de instrumentais com esta finalidade. O emprego da fitoterapia chinesa vêm crescendo

O emprego da fitoterapia chinesa vêm crescendo cada dia mais, não apenas em função de sua maior divulgação como pela disponibilidade de produtos já manufaturados no Brasil. Até poucos anos atrás só dispúnhamos das fórmulas magistrais importadas e pouco uso era feito das ervas isoladamente. Recorrendo à acupuntura, moxas, fitoterapia e dietoterapia encontra-se a MTC preparada para enfrentar os quadros de estresse em modo desenvolto e eficiente, colocando-se como instrumento privilegiado entre as opções terápicas quando de tais ocorrências.

entre as opções terápicas quando de tais ocorrências. Texto-base da aula ministrada no Curso " O

Texto-base da aula ministrada no Curso "O Meio Ambiente Como Causa de Estresse e Algumas Formas de Tratamento", dentro do V Congresso

Latino-Americano de Psiquiatria - Saúde Mental e Hospitalidade: Uma Visão Para o 3º Milênio. SP,

1999.