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Instituto Superior de Ralações Internacionais Curso de Relações Internacionais e Diplomacia Maputo TRABALHO DE FIM

Instituto Superior de Ralações Internacionais Curso de Relações Internacionais e Diplomacia Maputo

TRABALHO DE FIM DE CURSO

Tema

A Instrumentalização das Identidades Étnicas e Religiosas como Factores de Conflitos e Insegurança em África:

Caso dos Muçulmanos e Cristãos na Nigéria

Autor: Vicente Simeão Mahoche

Supervisor: Dr.Emílio J. Zeca

Maputo,2015

TRABALHO DE FINAL DE CURSO A SER SUBMETIDO AO INSTITUTO SUPERIOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS COMO UM DOS REQUISITOS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE LICENCIATURA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DIPLOMACIA

Tema

A Instrumentalização das Identidades Étnicas e Religiosas como Factores de Conflitos e Insegurança em África:

Caso dos Muçulmanos e Cristãos na Nigéria

Autor

Vicente Simeão Mahoche

Supervisor

Dr.Emílio J. Zeca

ÍNDICE GERAL

Declaração de Autoria….…….……………………………………………………

…………………… Dedicatoria………………………………………………………………………………………………… Agradecimentos……………………….………………………………………………………… Lista de Abreviaturas

……………… …………………………………………………………………

………….i

……… ii

iii

………….iv

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1

ENQUADRAMENTO TEÓRICO E DEFINIÇÃO CONCEPTUAL

3

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1.1 Referencial Teórico

1.1.1. Primordialismo

1.1.2. Construtivismo

1.1.3. Instrumentalismo

1.2 Conceitos Chave

1.1.2.

1.2.2.

1.2.3.

1.2.4.

1.2.6.

1.2.7 (In) Segurança

Conflito Identidade Identidade Étnica Identidade Religiosa

Instrumentalização/ Politização de Identidade

CAPITULO 2

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DAS IDENTIDADES ÉTNICAS E RELIGIOSAS COMO FACTORES DE CONFLITOS E INSEGURANÇA EM ÁFRICA

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2.1. Os Conflitos Étnicos e Religiosos em África

2.1.1. Instrumentalização das Identitários Éticas e Religiosas no Sudão

2.1.2. Intrumentalização das Identidades Étinicas no Ruanda

2.1.3 A Etnicidade

2.5 Conflitos Identitários e a Segurança Nacional em África 2.3. Mecanismo de Prevenção, Gestão, Resolução de Conflitos Identitários Étnicos e Religiosos

e conflito em Moçambique

CAPÍTULO 3

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA IDENTIDADE RELIGIOSA ENTRE CRISTÃO E MUÇULMANOS COMO FACTOR DE CONFLITO E INSEGURANÇA NA NIGÉRIA

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3. 2. Aintrumentalizção da religião protagonizado pelo Grupo islâmico Muçulmano do Boko Haram como Factor

3.1. A Geopolítica da Nigéria

3.1.2. Causas do conflito entre Muçulmanos e Cristãos na Nigéria

3.1.3. Estágio do Conflito e Processo da sua Resolução

de Insegurança na Nigéria e na Região

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TERMO DE AUTORIA

Eu Vicente Simeão Mahoche, declaro por minha honra que este trabalho de diploma para a obtenção grau de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia nunca foi apresentado para obtenção de qualquer grau académico ou de outro tipo. O trabalho é produto de uma investigação pessoal assente em fontes bibliográfico, indicadas no texto, bem como comentários e sugestões do supervisor.

Vicente Simeão Mahoche

DEDICATÓRIA

O presente trabalho dedico a toda família Mahoche em especial aos meus pais Simeão Foloco Mahoche e a minha Mãe Antonieta Bande, por terem dado todo o poio financeiro, amoroso, esperança, fé para todo processo da minha formação.

AGRADECIMENTOS

Muitas pessoas contribuíram directa ou indiretamente para o processo da minha formação e elaboração deste trabalho. A toda essa gente vai o meu profundo agradecimento. Agradeço especialmente ao meu supervisor, Dr. Emílio Jovando Zeca, pela orientação recebida, pelos concelhos pela força encorajamento, pela paciência e pela compreensão nos momentos de dificuldade. Tudo isso me permitiu delimitar a pesquisa e concluir o trabalho.

Ao colectivo dos professores do Instituto Superior de Relações Internacionais, pelo conhecimento que me transmitiram, especialmente vai para Dr. Gaspar, Dr. Calton Cadeado ,Dr. Patrício, Dr. Aly Jamal, Dr. Emílio Zeca, Paulo Wache, pela forma como ajudaram na interpretação de várias matérias. Os meus agradecimentos se estendem para todos meus colegas da turma de 2011 de curso de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia, em especial ao Dionísio Nhachego, Jorge Uqueo, Lúcia Matola, Luiz Chongo, Fáusia Uqueio, Anália Venâncio, pelo apoio incondicional que proporcionar na disponibilização de meio de transporte, livros, ideias e carinho no processo de formação. Para todos o meu muito obrigado.

Os meus agradecimentos se estendem a família Mahoche em partícula aos meus pais Simeão Foloco e Antonieta, que de forma incondicional financiaram o meu curso. A todos meus amigos e amigas vai os meus muito obrigados.

ABREVIATURAS

CEDEAO- Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental

EUA-Estados Unidos de América

FRELIMO-Frente de Libertação de Moçambique

JEM- Justice and Equality Movement- Movimento pela justiça e Igualdade

MPLPS- Movimento de libertação do povo sudanes

MRND- Movimento Revolucionáio Nacional para o Desenvolvimento

NA-Assembleia Nacional

ONU-Organização das Nações Unidas

PCN -Partido do Congresso Nacional

PDP- Partido Democratico do Povo

PPD-Partido popullar Democratico

RPF - Rwandan Patriotic Front Frente Patriotica ruandesa

SLA/M- Sudan Liberation Army/Movement -Exercito/Movimiento de Libertação do Sudão

UA-União Africana

URSS-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

INTRODUÇÃO

O presente estudo versa sobre a instrumentalização das identidades étnicas e religiosas como factores de conflitos e insegurança em África. O mesmo faz um estudo específico do caso dos muçulmanos e cristão na Nigéria. De acordo Huntington (1996:17-21), os anos que se seguem à Guerra Fria 1 , constatou-se mudanças espectaculares nas identidades dos estados e dos povos, nos símbolos dessas identidades e, consequentemente, na política mundial. Neste período, as distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou económicas. Elas são culturais. As pessoas se definem em termos dos antepassados, religião, idioma, história, valores, costumes e instituições. Elas se identificam com grupos culturais: tribos, grupos étnicos, comunidades religiosos, nações e, em nível mais amplo, civilizações. Neste mundo, os conflitos mais abrangentes, importantes e perigosos não se darão entre classes sociais, ricos e pobres, ou entre grupos definidos em termos económicos, mas sim entre povos pertencentes às diferentes identidades culturais.

Durante a guerra fria os estados combatiam-se entre si, agora grupos, clãs etnias e facções combatem-se ou contestam o próprio Estado. As guerras inter- estatais dão lugar às guerras étno- políticas. Estes tipos de conflitos envolvem o Estado e actores não- estatais, ou grupos sub- nacionais em que estes últimos não só se combatem entre si, como também contestam e combatem o próprio Estado, facções, étnicas que procuram manter ou obter o controlo do território e do poder político e económico (David, 2001:107-111).

No período pós-guerra fria vive-se um cenário de conflitos designados Intra-Estatais 2 . Estes são conflitos em que as partes beligerantes são definidas pelo comportamneto de algumas semelhanças culturais comums, seja a lingua, relegião, simbolos, ou etnia. As razões das disputas entre os grupos são políticas, económicas e sociais. Os grupos demandam acções do

1 Guerra Fria é atribuída ao conflito político-ideológico entre os Estados Unidos (EUA), defensores do capitalismo, e a União Soviética (URSS), defensora do socialismo, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial e a extinção da União Soviética. É chamada "fria" porque não houve qualquer combate físico, embora o mundo todo temesse a vinda de um novo conflito mundial por se tratarem de duas potências com grande arsenal de armas nucleares. Norte-americanos e soviéticos travaram uma luta ideológica, política e econômica durante o período de 1947-1989 com a queda do muro de berlim e ou 1991 com o clapso da URSS (Araújo,2012:11).

2 Conflitos intra-estatais podem ser entendido como sendo todos conflitos cuja as partes principais são construídas por actores domésticos de um determinado Estado. Eles ocorrem na arena doméstica dos Estados envolvendo subgrupos nacionais que lutam contra o seu governo e entre si, devido a incompatibilidade dos objectivos interesses ou visões da organização politica, económica, social e cultural ( Zeca,2011:15).

governo central, lutam contra a discriminação e a desigualdade (Lunardon,2010:9-11). Estas acções são caracterizado por violências entre grupos onde os líderes instrumentalizam as identidades étnicas e religiosas com objectivos de satisfazerem os interesses políticos e económicos.

Olhando para os casos de Ruanda, Libéria, Sudão, Burundi, Nigéria, República Democrática do Congo, Serra Leoa, Quênia, e outros, mostram que os conflitos intra-estatais que estão a viver têm a dimensão étnica e religiosa, onde os líderes instrumentalizam as identidades para a satisfação dos interesses políticos e económicos. Como sustenta Sodipo (2013:4), o caso da Nigéria mostra que as profundas divisões étnicas e religiosas tanto no norte como no sul impediram a construção de uma identidade genuína nigeriana. Esta divisão encoraja os líderes a lutarem pela dominação do poder político e económico instrumentalizando as populações civis para a satisfação dos seus interesses.

A intrumentalização étnica e religiosa trazem consequências negativas para a unidade nacional a estabilidade actual da Nigéria, levantam questões muito profundas sobre a coesão do Estado. A afirmação islâmica constituem uma ameaça e a fragilidade do Estado Federal da Nigeria. A expansão da lei da Sharia 3 é uma das questões mais divisionista da política e das relações sociais dentro do Estado nigeriano, tendo agravado drasticamnete as identidades sectoriais e tensões religiosas e étnicas (Lewis,2012:7-8). Portanto, está ficando mais claro que os conflitos de hoje no continente africano tem a dimensão interna que envolve a instrumentalização das identidades étnica e religiosas e que ameaçam a segurança e a sobrevivência dos Estados.

1.Delimitação Espacial e Temporal

O trabalho tem como caso de estudo Nigéria, desenvolvido nos períodos compreendido entre 1999 e 2014. O ano de 1999 e escolhido por ter sido o ano da implementação da democracia e da nova constituição com poderes executivos, legislativos e judiciárias também permiteu os muçulmanos a seguir sharia, ou lei islâmica (uma dotrina de direitos e deveres islamicas). Esta lei foi ofcializada em 12 Estdos do norte da Nigeria. A oficialização foi o motivo e início de muitos protestos e conflitos violentos entre Cristãos e Muçulmanos. O ano 2014 é escolhido por

3 Sharia é uma conjunto de leis baseadas no livro Islã sagrado que é o alcorão. É uma lei dentro da qual os aspecros públicos e privados da vida de um fiel islamico são reguladas (Rosa,2012:338).

que foi em 14 de Abril, em que o grupo terrorista Boko Haram sequestrou 329 meninas num internato em Chibok, nordeste da Nigéria como forma de dissuadir o governo para criar um Estado Islâmico baseado num fundamentalismo islâmico, tendo a sharia como lei interna do Estado. Esta acção foi motivo que ganhou muitos protestos a nível internacional que levou muitos países a traçarem medida no sentido de combater o grupo Islâmico do Boko Haram.

2.Contexto

O trabalho enquadra-se num contexto de confltos intra-estatal da dimensao étnica e religiosa que Nigéria vive desde a independência em 1960. Estas identidades são instrumentalizadas pelas elites políticas para a satisfação dos interesses políticos e económicos. Como pode se perceber com Bamidele (2012:34), Nigeria desde a indepedencia em 1960, golpes militares, tensões étnicas e religiosas caracterizam o Estado nigeriano. O Estado mantem-se num Estado-Nação mult-étnico pertencente a várias seitas religiosas. Portanto, o país tem tentado lhe dar com problemas de etnia por um lado e de outro lado a religião. O Estado é essencialmente heterogénico com duas religiões distintas Cristã e Muçulmana que tem sido grandes fontes de conflitos no país (Gombe,2012:129).

Nigéria enfrenta um processo de intrumentalizacao de identidades religiosas. Esta intrumentalizaçao, frequentemente sobreposta à identidades étnicas, também levou em alguns casos, a divisões físicas e geográficas. Portanto, em Kaduna, após as revoltas Sharia, de 1999 Muçulmanos fugiram de áreas dominadas por Cristãos para distritos predominantemente Muçulmanos. De modo análogo, Cristãos residindo em áreas dominadas por Muçulmanos se mudaram massivamente para partes mais “receptivas” da cidade (Luciani, 2011:35). A intrumentalização da religiosa protagonizada por muçulmanos e cristão ameaça a estabilidade democrática na Nigéria, pois, a instigação feita por ambas as religiões tem incitado crescente tensões e violência desde o retorno da democracia em 1999. As instituições democráticas e os líderes eleitos não conseguem resolver as tensões comunitárias e, em muitos casos exacerbam conflitos para fins políticos e económicos (Lewis,2012:5).

Devido esta instrumentalização, no norte da Nigéria vive-se num ambiente de medo. Muitos receiam pronunciar sequer o nome “Boko Haram”, que se tornou um sinónimo de violência e destruição. O grupo tem vindo a lançar desde Julho de 2009 centenas de ataques coordenados em

toda a região setentrional do país, que causaram a morte de muitas pessoas e a fuga de milhares.

Os principais alvos do Boko Haram são os membros das forças de segurança nigerianas, os

cristãos e os muçulmanos acusados de cooperar com o governo. Os numerosos atentados que tem levado a cabo atingiram esquadras de polícia, instalações militares, igrejas, escolas, redacções de jornais e o edifício das Nações Unidas na capital Abuja (Sodipo,2013:1).

3.Problematização

A Instrumentalização da identidade religiosa protagonizada pelos Cristão e Muçulmanos coloca

em causa a sobrevivência cria instabilidade e ameaça a segurança do Estado nigeriano. O grande

desafio da segurança nacional da Nigéria é a contenção de diversas manifestações de violência liderados por vários grupos dentro do Estado (Nwozor,2013:1). A insurreição no norte da

Nigéria constitue uma ameaça a segurança, não apenas para Nigéria mas para toda a região subsaariana e a comunidade internacional. Um das grandes ameaça da seguranca na Nigéria é o Boko Haram, este grupo tem vindo a crescer em termos dos meios utilizados bombistas, suicidas e dispositivos explosivos improvisados (Sodipo,2013:2).

O grupo do Boko Haram tem grandes apoios e simpatias dos jovens sem educação,

desempregados e pobres no norte da Nigéria. Além disso, o grupo tem grande capacidade de mobilização religiosa para a satisfação dos interesses políticos e económico. Muitos fatores podem ser identificados como preponderantes destes conflitos: a radicalização dos Muçulmanos, bem como movimentos religiosos Cristãos; o debate da sharia e sua implementação em 12 Estados do Norte desde 1999; a inépcia do Estado em lidar com a violência e negociação de disputas; disputas entre “nativos” e “assentados”, manipulação política; privação económica (Luciani,2011:17-18). Partindo destas reflexões importa questionar: Até que ponto a

Instrumentalização das Identidades étnica-religiosas colocam em causa a sobrevivência e segurança nacional nigeriana?

4.Objectivos do Trabalho

4.1. Objectivo Geral

Reflectir sobre a instrumentalização das identidades étnicas e religiosas como factores de conflitos e insegurança na Nigéria.

4.2. Objectivos Específicos

Reflectir sobre a instrumentalização das identidades étnicas e religiosas como factores de conflitos e insegurança no continente africano.

Analisar a forma de instrumentalização da identidade religiosa protagonizada pelos Muçulmanos e Cristão na Nigéria.

Perceber a instrumentalização da religião e a insegurança protagonizada pelo grupo Islâmico do Boko Haram na Nigéria e na Região.

5. Hipóteses do Trabalho

As identidades étnicas e religiosas podem constituir factores de conflitos e insegurança quando instrumentalizadas pelas lideranças para a satisfação dos interesses políticos e económicos.

A Identidade Religiosa pode ser uma umbrela usada pelas elites Muçulmanas e Cristãs na Nigéria para a satisfação dos interesses políticos e económicos.

A Instrumentalização da religião protagonizada pelo grupo Islâmico do Boko Haram pode constituir uma ameaça a segurança e a sobrevivência do Estado nigeriano e de outros Estados da região.

6. Metodologia da Pesquisa

Para elaboração do presente trabalho de investigação científica, foram utilizados os métodos Histórico, Monográfico e Comparativo, que foram associados as técnicas de Entrevista e documental.

Método Histórico: de acordo com Marconi e Lakatos (2009:91) consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma actual por meio de alterações de suas partes componentes ao longo do tempo, influenciadas pelo contexto cultural particular de cada época. Para Castilho at al (2011:12) o método histórico consiste em investigar os acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma actual através de alterações de suas partes componentes. No presente trabalho o método histórico permitiu analisar a história dos conflitos étnicos e religiosos na Nigéria e perceber até que ponto estes reflectem o passado histórico.

Método Monográfico: de acordo com Marconi e Lakatos (2009:92) consiste no estudo de determinados indivíduos, profissões, condições, instituições, grupos ou comunidade, com a finalidade de obter generalizações. Para Gil, (2008:18) o método monográfico parte do princípio de que o estudo de um caso em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou mesmo de todos os casos semelhantes. Esses casos podem ser indivíduos, instituições, grupos, comunidades etc. No presente trabalho, o método permitiu analisar os conflitos das identidades étnicas e religiosas Nigéria permitindo perceber que os outros países como Ruanda, República Centro Africano, Burundi, Serra leão, Libéria e outros países tem a mesma característica com a da Nigéria

Método Comparativo: este método realiza comparações, com a finalidade de verificar sirnilitudes e explicar divergências. O método comparativo é usado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de desenvolvimento (Marconi e Lakatos,2003:107). Para Castilho at al (2011:12) o

método Comparativo consiste no estudo das semelhanças e diferenças entre os diversos tipos de grupos, sociedades ou povos. Contribui para uma melhor compreensão do comportamento humano. Este método realiza comparações com a finalidade de verificar similitudes e divergências. O método permitiu fazer a comparação entre muçulmanos e cristãos quem mais faz a instrumentalização da religião, permitiu também comparar entre as duas religiões qual é que constitui factor de insegurança na Nigéria.

Técnica Documental: Gil (2008:109) defende que é uma técnica na qual o pesquisador busca (embora de maneira indirecta) dados concretos em forma de documentos, como livros, jornais, papéis oficiais, registos estatísticos, fotos, discos, vídeos, etc. Para Marconi e Lacatos (1979:29) 4 citado por Zeca, (2011:7) a técnica documental consite na recolha e revisão das fontes secundarias. No presente trabalho, esta técnica foi importante na medida em que permitiu a recolha de documentos como: livros, jornais, revistas, artigos relacionado com conflitos identitários para dar mais robustez cientifico na analise do trabalho.

Técnica de Entrevista: de acordo com Selltiz (1967) 5 Citado por Gil (1967:273) entrevista é uma técnica de coleta de dados, é bastante adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, crêem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes. Para Castilho at al (2011:13), é o encontro de duas pessoas com o objetivo de obter informações a respeito de um determinado assunto, mediante uma conversa natural ou programada de forma profissional. A conversa é efetuada frente a frente com entrevistado e entrevistador, de forma sistemática e metódica, possibilitando assim, obter informações necessárias do entrevistado para realização do trabalho. No presente trabalho, permitiu entrevistar académicos, docentes do ISRI para melhor perceber sobre a instrumentalização das identitários étnicas e religiosas em África e na Nigéria em particular.

4 Lakatos, Eva e Maria Marconi (1979) Sociologia Geral,3ª Edicao , Editora Atlas S.A, São Paulo. 5 Selltiz, Claire et al (1967) Métodos de pesquisa nas relações sociais, Editora Atlas 5ªed. São Paulo

Estrutura do Trabalho

O presente estudo é estruturado em 3 capítulos. O primeiro capítulo faz um debate teórico e

conceitos-chave usados no trabalho. O segundo capítulo procura analisar os novos conflitos que o continente africano vive, no sentido de perceber até que ponto são factores de instrumentalização e que ameaça a segurança nacional. Neste capítulo, procura-se analisar as causas dos conflitos identitários em África; procura-se analisar a relação entre os conflitos identitários e a segurança nacional; por fim procura-se analisar as formas de prevenção, gestão e resolução deste tipo de conflitos. No terceiro capitulo, faz se uma analise mais

profunda sobre a instrumentalização da identidade religiosa na Nigéria entre Muçulmanos e Cristão. Neste capítulo, procura analisar o passado e o presente histórico dos conflitos étnicos

e religiosos na Nigéria; por fim procura-se analisar a instrumentalização da religião protagonizada pelo grupo Boko Haram e que ameaça a sobrevivência e a segurança do Estado nigeriano.

CAPÍTULO 1

ENQUADRAMENTO TEÓRICO E DEFINIÇÃO CONCEPTUAL

O presente capítulo faz uma análise de algumas teorias sobre os estudos dos conflitos identitários

e etnicidades. O Construtivismo, Primordialismo, e o Instrumentalismo são as teorias que foram usadas para análise do presente estudo. Entretanto, a teoria instrumentalista é que foi mais importante para o presente trabalho. Em segundo lugar, neste capítulo faz- se analise dos conceitos chave. Os conceitos possuem um alto grau de complexidade académica pelo que não se pretende esgotar a sua discussão neste trabalho. Assim, faz se um breve panorama nos conceitos para servirem de parâmetros a discussão no trabalho. No presente trabalho, temos os seguintes conceitos: Conflito, Identidade, Identidade Étnica, Identidade Religiosa, politização/ instrumentalização das Identidade e (In) Segurança.

1.1 Referencial Teórico

O tema foi lido à luz dos pressupostos das escolas dos estudos da identidade e etnicidade. Desta

feita, primordialismo, construtivismo e o instrumentalismo foram as três referências teóricas

usadas para a reflecção do presente trabalho.

1.1.1. Primordialismo

A escola primordialista dos estudos da identidade e etnicidade emergiu no seio de Antropologia

cujos pressupostos teóricos assentam no pluralismo e essencialismo cultural. Esta escola

defende a tese de que menbros de um grupo étnico tem um vinculo “primordial e essencial” com

o passado, o qual determina a criação de identidade pessoal e transforma o grupo numa

comunidade, preservando características anteriores (ancestrais) da formação do Estado-Nação. Tendo em conta que as características se moldam lentamente, que a etnicidade se altera devagar ou ainda que muito dificilmente ele se molda, conclui-se que identidade étnica pode permanecer vários e longos anos em estado dormant. Ele desperta quando é estimulada através de mobilização levado a cabo pelos movimentos identitários étnicos. Esta escola argumenta que a etnicidade constitui parte de alguns aspectos de natureza humana profundamente enraizados, que se formam e se moldam através de realidades históricos, cultural, social, psicológico e até biológico (Zeca, 2013:170).

Esta escola postula ainda que diferenças religiosas levam a um conflito, devido ao papel central que a relegião desempenha na construção de identidade tanto individual assim como do grupo. O primordialismo defende a ideia de que as estruturas religiosas são ameaçadas pela simples presença de diferentes comunidades religiosas. A maneira como os grupos religiosos se define em relação aos “outros” (Stein,2011:22). Desta forma, mesmo que durante algum período, por via de mediação, conciliação ou de arranjos institucionais de equilíbrio, seja possível conter o conflito étnico ele retornará inevitavelmente (Mathe,2001:32). Portanto, do ponto de vista de análise conflitual, esta teoria repara para as diferenças como elementos propensos para a ocorrência de conflitos.

1.1.2. Construtivismo

O Construtivismo é uma escola dos estudos da identidade e etnicidade que defende que a etnicidade não é um atributo individual, mas um fenómeno social, daí que a identidade dos indivíduos transcenda a escolha ou controlo (Mathe,2001:33). A escola reconhece que as elites egoístas podem as vezes procurar explorar as estruturas religiosas a fim de legitimar as campanhas violentas. No entanto, em contraste com o instrumentalismo, o construtivismo vêm um limite até onde as tradições religiosas podem ser manipuladas. Para ela as estruturas religiosas não são tão manipuláveis aos interesses das elites como afiguram o instrumentalismo, porque as estruturas religiosas contem recursos simbólicos que podem ser usadas para promover tanto conflito assim como a paz (Stein,2011:25).

O construtivismo baseia-se em três grandes argumentos: as identidades étnicas ou religiosas são socialmente construidas; são dinâmicas e as suas fronteiras flexiveis e mutaveis; e a filiação étnica ou religiosa e determinada ou/e construida pela sociedade. Sugere-se, assim, que as diferenças étnicas ou religiosas nada são eminentimente conflituais, mas que em certos contextos esse tipo de identidade pode passar de um principio organizativo relativamente neutra a um poderoso instrumento para mobilização e legitimação de violencia (Nacimento,2012:28)

Nesta logica, os conflitos estão muito diretamente associados a certas estruturas cognitivas (como a ideologia, o nacionalismo, a etnicidade ou a religiao), através das quais se atribuem aos actores sociais determinadas concepções valorativas de si mesmos, afectando assim o seu comportamento dentro da sociedade. A religião torna-se, portanto, uma variavel interveniente,

importante num determinado conflito, mas com um impacto potencialmente ambiguo, na medida em que tanto pode reduzir a possibilidade e risco de ocorrencia de violencia, como torna-la menos provavel (Nascimento, 2012:28). Portanto, esta escola é mais moderada na concepção do conflito.

1.1.3. Instrumentalismo

O instrumentalismo emerge da política e não se baseia em obrigações de ordem moral e

psicológico. Ele refere que as identidades são fontes de conflito quando instrumentalizados pelas elites e lideranças. Nesta escola, os conflitos ocorrem com a influência de uma mão externa das elites que funciona como elemento instigador e que desperta as diferenças entre as partes. Ele entende a etnicidade como um instrumento à disposição das elites para formar, mobilizar grupos

de pessoas para fins políticos, económicos, religiosos. Para esta escola, a etnicidade constitui

uma das várias formas ou meios à disposição dos líderes ou elites para perseguem os seus

interesses e objectivos (Zeca,2013:170).

De acordo com (Yang,2000:46-47 e Nascimento,2012:28), o instrumentalismo vê a etnia e religião como um mecanismo ou ferramentas estratégicas para ganhar recursos. As pessoas fazem um apoio moral e material fornecendo redes étnicas e religiosas para ganhos políticos. Portanto, para que a etnia e a religião possam ser importantes é preciso que haja uma capacidade das lideranças na mobilização das populações.

O Instrumentalismo postula que, a filiação étnica ou religiosa é simplesmente uma manobra para promover os interesses políticos e econômicos, e que as pessoas estão prontas para mudar (Llobera,1999: 6). Esta escola explica que as elites exploram a religião em tempos de conflitos. Em primeiro lugar, a organização coletiva e mobilização para o conflito geralmente requerem alguma missão de unificação ou de identidade que é suficientemente poderosa para motivar as massas para matar e ser morto em larga escala. Desta forma, a religião pode proporcionar para todo o grupo uma segurança da sua estrutura religiosa, identificado como um bem comum

(Stein,2011:23).

Em segundo lugar, quando os conflitos são enquadrados como sendo sobre valores religiosos, não aos interesses é mais provável que os combatentes consideram o uso da violência como

moralmente justificado. A religião pode ser usada para desumanizar o inimigo, exaltar as virtudes de martilho e auto-sacrifício. Leva os combatentes acreditarem que estão lutando por uma causa transcendental. Em terceiro lugar, a campanha violenta sucedido também depende do nível de apoio político. Os movimentos que invocam a religião são capazes de alinhar-se como o que é considerado moral na sociedade, mesmo que os seus objectivos tenham pouco ou nada a ver com a religião (Stein,2011:24).

O Instrumentalismo tem os seguintes precursores: Petterson Orlando (1975) 6 assume uma

abrangência e viabilidade de bases identitárias étnica e religiosa, pois para ele são determinantes

e são usadas para servirem interesses políticos e económicos. Estes incluem preocupações que permitem desenhar uma identidade na política que pode levar ao essencialismo cultural e etnocêntrico, que as minorias vão manipular para o ganho estratégico.

Bacal, A. (1990) 7 e Brass P. R (1991) 8 Têm uma visão de que a etnia é um instrumento estratégico de uma determinada comunidade para fazer valer os seus interesses. A etnia é definida por um determinado grupo (por motivos de quaisquer critérios) que serve como uma construção para fins específicos que não tem sentidos em si.

De acordo com Abner Cohen (1969) 9 (1977 10 ) e Paul Brass (1991) 11 os dados de identidades

étnicos e religiosos são fluidos e podem ser alterados de acordo com as circunstâncias. Portanto,

as identidades étnicas e religiosas podem mudar e serem abertas a uma manipulação consciente das elites em uma competição política e económica.

Azar (1990) 12 trás uma abordagem de que os grupos dominantes usam suas posições de Governo para cumprir interesses próprios a custa dos outros grupos. As elites costumam usar táticas e estratégias de identidades exclusivas seguido pelo processo de contra- identificação de grupo

6 Patterson, Orlando. (1975). Context and Choice in Ethnic Allegiance: a Theoretical Framework and Caribbean Case Study.In Glazer and Moynihan.

7 BACAL, A (1990).: Ethnicity in the Social Sciences. A View and a Review of the Literature on Ethnicity. Centre for Research in Ethnic Relations, University of Warwick.

8 BRASS, P. R., (1991) Ethnicity and Nationalism. Theory and Comparison. Sage publications. New Delhi/Newbury Park/London.

9 Cohen, Abner.(1969) Custom and politics in urban Africa: A study of Hausa migrants in a Yoruba town. Routledge& Kegan. London

10 Cohen, Abner (1974) Two-dimensional man: An essay on power and symbolism in complex society. Routledge& Kegan Pau. London 11 Brass, Paul. 1991. Ethnicity and Nationalism: Theory and Comparison. Sage Publication London:

12 Azar, E. (1990). Protracted international conflicts: ten propositions. International Ineractions.

aflito. Estes grupos deformam o sistema político, enfraquecem a sua legitimidade e a capacidade para o cumprimento das necessidades básicas.

A teoria é importante na medida em que mostra que os conflitos identitários na Nigéria e em África no geral são instrumentalizados pelas lideranças para a satisfação dos seus interesses políticos e económicos. Esta teoria traduz a ideia de que as identidades étnicas e religiosas tornam-se fontes de conflitos em África e na Nigéria em particular porque são instrumentalizados pelas elites Muçulmanas e Cristãs para a satisfação dos interesses politicas e económicas. Olhando para os conflitos no Sudão, República Centro Africana, Ruanda, Burundi, Libéria, Serra Leoa, Somália, Guiné-Bissau, Nigéria e outros países tem como a característica a instrumentalização das identidades étnicas e religiosas.

1.2. Conceitos Chave

Os conceitos foram discutidos de formal conceptual e operacional, para facilitar o seu enquadramento na leitura do tema. Os mesmos estão organizados em termos de relevância e importância, para a compreensão do tema.

1.1.2. Conflito

Existem vairias definições de conflito, mas há duas concepções básicas e importantes dentro das quais as diferentes definições se enquadram. Primeiro, temos a concepção subjectiva definido por Burton (1991:20), onde ele postula que o conflito resulta de um percepção errada de uma realidade objectiva. Ele faz uma abordagem psicológica sustentando que os conflitos intencionais são subjectivos porque, são uma função da percepção das partes conflituantes. A segunda concepcao é objectiva que é defendida por Boulding (1962:22), suscentando que conflito pode ser entendido como uma situação de competição na qual as partes estão conscientes das incompatibilidades das potenciais posições futuras e nas quais cada parte deseja ocupar uma posição que é incompatível com os desejos da outra.

De acordo com Sousa (2005:47) o conflito é a rivalidade ou antagonismo entre indivíduos ou grupos de uma sociedade. O conflito pode ter duas formas: uma, ocorre quando há um confronto de interesses entre dois ou mais indivíduos ou grupos; a outra acontece quando há pessoas ou colectividades envolvidas em luta directa com outras. Por seu turno, Gaspar (2004:33) refere que

conflito é uma situação social em que duas ou mais pessoas lutam, conscientemente, para obtenção ao mesmo tempo de recursos escassos. Esta situação (conflito) resulta da diferença de opiniões, sentimentos, perspectivas, aspirações e até das percepções sobre determinadas coisas

ou assunto.

Os conflitos podem ter motivações sociais, politicas, ideológicas, identitárias e territoriais. Os conflitos sociais fundam-se sobre a diferença de percepção, pensamento, ideias, desejo ou sentimentos dos indivíduos ou grupos de indivíduos. No contexto político os conflitos emergem

da disputa sobre: (i) recursos, em que se luta pelo acesso ao poder económico e o acesso aos

recursos naturais; (ii) governação e autoridade, disputa-se pelo poder político e pela participação

no processo político; (iii) campo ideológico, as rivalidades se centram sobre aspectos ideológicos

e sistemas de valores; (iv) identidade, as rivalidades étnicas, religiosas, comunitárias e de grupos de interesse visa garantir o acesso ao poder político, económico e justiça social (Gaspar, 2004:34). Para o presente estudo, o conceito que prevalece é subjectiva, onde pode ser percebida como uma situação social na qual num mínimo de dois actores (partes) lutam para adquirir, ao mesmo tempo, um conjunto de recursos escassos que estejam disponíveis.

1.2.2. Identidade

A identidade é um conceito muito discutido no campo da Antropologia e Sociologia. Para

(Castells,1996:6), a identidade é uma construção de significado nas bases culturais e atributos

que um grupo prioriza em detrimento do outro. Na perspectiva de Huntington (2002:21) Identidade é um produto de consciência própria, de que eu ou nós possuímos qualidades distintas como uma entidade que me diferencia de ti e deles. De acordo com Zeca (2013:168) identidade refere-se à forma como as pessoas percebem e moldam o mundo; e quando percebem as ameaças conta si, individual ou colectivamente. A identidade incide sobre a forma como as pessoas formulam em conjunto os seus objectivos, como enfrentam as suas dificuldades, como processam e disseminam a informação e como selecionam as suas estratégias de sobrevivência e

de

luta para salvaguarda dos seus interesses e objectivos.

O

conceito de identidade está ligado a três aspectos importantes: Consciência, definição e

sentido. No que se refere à consciência os grupos tem as suas identidades de forma consciente e

pré-concebida. Quanto a identidade como auto-definição, o individuo define-se em relação ao

que o rodeiam (próximos) e em função do seu grupo de pertença e dos papéis públicos (profissionalismo, actividade, associados). Quanto ao sentido de individualidade, a identidade é a fonte de “sentido ou significado” e experiencia de pessoas ou grupos. Exemplo: não há pessoa sem nome, língua ou cultura e sem distinção entre elas e outras pessoas entre “nos e eles

(Zeca,2013:166).

As fontes de identidades podem ser: Atribuições que tem haver com questões ligadas à idade, ancestrais, género, raças laços familiares e consanguinineios, etnicidade (definidas como família alargada); cultura, que tem haver com questões como clã, tribo, etnicidade (definida como forma de vida) língua, nacionalidade, religião e civilização; territorial; que tem haver com a vizinhança, vila, cidade, província, Estado, pais, ária geográfica, continente, hemisfério; e a política, que tem haver com partido, líder, facção claque grupo de interesse, movimento, causa ideológica, Estado (Zeca,2013:166). Para o presente estudo, identidade tem haver com as marcas usadas por grupos para a prossecução de interesses e objectivos e que acabam criando situações de conflitos e insegurança.

1.2.3. Identidade Étnica

A identidade étnica é um tipo de identidade que geralmente é baseada na combinação de vários fatores descritivas de natureza tangível e intangível. Estes incluem, entre outros, uma cultura comum (incluindo valores e normas comuns), uma língua comum, uma religião comum, assumem laços de sangue (parentesco), ascendência genética (raça), uma consciência de solidariedade de grupo e destino histórico, e um compromisso emocional sobre território partilhado, história (Hall,2001:16).

Segundo Rotheram e Phinney (1987:3), identidade étnica refere-se a auto-identificação como membro de um grupo, sentimentos de pertença e de compromisso com um grupo, atitudes positivas ou negativas perante o grupo, sentimento de partilha de atitudes e valores, tradições e práticas étnicas específicas como: a língua, comportamentos e costumes que englobam por exemplo a linguagem, relações de amizade, religião, preferências alimentares e costumes tradicionais. Portanto, o auto-conceito traduz-se na forma como o indivíduo se vê, se valoriza e se relaciona. Este é composto por aquilo que pensamos que somos, o que pensamos que

conseguimos realizar e o que pensamos que os outros pensam de nós, e igualmente de como gostaríamos de ser (Afonso,2009:7).

De acordo com (Giddens,2012:453), os membros de um grupo étnico se consideram culturalmente distintos dos outros grupos e, em retorno, também são considerados diferentes. As características diferentes podem servir para distinguir os grupos étnicos, mas as mais comuns são a língua, historia ou ancestralidade (real ou imaginaria), a religião, o estilo de roupa ou adornos. As diferenças étnicas são totalmente aprendidas, uma questão que aparece evidente até lembremos que alguns grupos são considerados “ nascidos para governar” ou naturalmente “preguiçosos” pouco inteligentes e assim diante. De facto, não existe nada inato, na etnicidade, ela é um fenómeno puramente social, que é produzido e reproduzido ao longo do tempo. Por meio de socialização, os jovens assimilam os estilos de vida, normas e crenças das comunidades étnicas. Todavia, o que normalmente isola os grupos étnicos é o uso de “dispositivos de exclusão”, como a proibição de casamentos cruzados que servem para manter os limites culturais estabelecidos.

Neste trabalho, a identidade étnica é uma auto- definição que grupos tendo em conta marcas étnicas e religiosos na Nigéria se identificam como membro de um grupo, sentimentos de pertença e de compromisso com um grupo, atitudes positivas ou negativas perante o grupo, sentimento de partilha de atitudes e valores, tradições e práticas étnicas e religiosas.

1.2.4. Identidade Religiosa

A identidade religiosa é um conceito operacional que resulta da combinação entre o conceito de identidade e religião. Resulta do uso de marcas identitárias como meio para distinguir grupos ou indivíduos. Para Hall (1999: 55-56) a identidade religiosa é um conjunto de significados que são representados numa cultura religiosa. A formação de uma cultura religiosa contribui para criar padrões de comportamento moral, ético, político, econômico, etc. As culturas religiosas são compostas de símbolos e representações. A identidade religiosa refere-se a uma imagem institucional necessária e demonstra a materialidade da religião e a representação pela qual o indivíduo e o grupo se identificam. Todavia, ao destacarmos a identidade religiosa, também estamos diante de uma construção que remete à materialidade histórica, à memória coletiva, à espacialidade da própria revelação religiosa processada em determinada cultura (Gil,2008:83).

Desse modo, o emprego da memória na construção da identidade religiosa buscará nas representações e no espaço elementos que conectem as memórias individuais às memórias do grupo. Dentre eles, a paisagem pode fornecer a base para que as memórias se construam e perpetuem-se. As paisagens da memória, portanto, constroem-se a partir das experiências,

vivências e valores compartilhados pelas pessoas, o que abarca os processos que envolvem tanto

o indivíduo, como também a coletividade. O espaço religioso é um dos espaços que

proporcionam tais compartilhamentos, visto que nele os fiéis freqüentadores compartilham experiências e memórias e atribuem sentidos e significados a elas, o que contribui para a construção da identidade do grupo e da religião, e também para a construção da ideia de mundo, pois os fatos e momentos compartilhados no espaço religioso somam-se às demais experiências pessoais do cotidiano (Torres, 2013: 104-105).

O discurso do religioso, ao tentar constituir um universo possível de significação, permite ao

sujeito dar sentido a si mesmo e a tudo mais que o rodeia. A linguagem que engendra o discurso religioso/sobre o religioso fornece categorias de pensamento, conceitos e termos a partir dos quais é possível ao sujeito narrar e explicar-se a si mesmo, suas necessidades vitais e as suas relações (Rocha,2005:12).No presente trabalho, a identidade religiosa é conceptualizado como

um conjunto de comportamentos de definição que se estabelece entre Cristão e Muçulmanos na Nigéria que criam padrões de comportamentos para se identificar como muçulmanos ou cristãos.

1.2.6. Instrumentalização/ Politização de Identidade

A instrumentalização e politização de identidades são conceitos discutidos no âmbito em que a

identidade é usada para prossecuções de fins e objectivos políticos. De acordo com (Nilsson,2001:229), politização da identidade é um processo de baixo para cima, no qual grandes

segmentos da população interpretam, de forma crescente, as causas do seu sofrimento, e formulam as suas exigências políticas, em nome de uma identidade que corresponde aos sofrimentos sentidos. Assim, para os indivíduos que partilham o sofrimento, os efeitos da privação relativa 13 , a identidade aparece como uma força de união, um denominador comum.

13 Privação relativa é a diferença entre o que as pessoas percebem que estão obtendo da sociendade e o que eles acham ter como direito (Gurr,1970:20). Portanto, há privação relactiva quando há dissonância na nossa percepção, entre o que achamos ter por direito e a capacidade de satisfação do Estado e das instituições.

Há politização de identidade quando uma grande parte de uma população vive em condições precárias; ou sente que a sua sobrevivência ao longo tempo está ameaçada; ou está cultural e religiosamente marginalizada; ou talvez sente que a sua dignidade humana está seriamente ameaçada. Quando estas ameaças são dirigidas contra um grupo razoavelmente grande com uma identidade de grupo comum, ou capaz de conceber essa identidade, e quando as ameaças podem ser interpretadas pelo individuo como sendo especialmente dirigidas a ele ou a ela porque pertence a este grupo, então as exigências politicas provocadas por estas ameaças podem apresentadas em nome dessa especifica identidade. A identidade torna-se assim politizada. Consequentemente, esta politização é o processo que parte de baixo para cima na sociedade

(Nilsson,2001:230).

De acordo com (Abrahamson e Nilsson,1995:43-44) a politização de identidade acontece quando uma grande parte duma população vive sob condições precárias; ou sente a sua sobrevivência a longo prazo está ameaçada; ou vive numa marginalização cultural e religiosa; ou até sente a sua dignidade humana profundamente ameaçada. Caso essas ameaças sentidas se dirijam a um grupo considerável com a identidade do grupo comum e, também, se essas ameaças puderem ser interpretadas pelo indivíduos como sendo dirigidas por ele pertencer especificadamente a esse grupo, pode surgir, em nome do grupo étnico, regional ou provincial, exigências políticas para ultrapassar essas ameaças. Assim, a etnicidade (ou qualquer outra identidade do grupo) torna-se politizado.

Fernandes (2013:18) refere que instrumentalização de identidade pode ser percebida como uma prática agressiva da busca pela representatividade de uma minoria. Os grupos lutam em questões de representatividade onde um Estado é incapaz de satisfazer às suas demandas, por consequência, o choque no combate físico e armado como meio de luta por direitos inerentes às identidades dos indivíduos em questão. Portanto, é a forma como o grupo islâmico do Boko Haram faz para ensinar nas escolas islâmicas para priorizarem os valores islâmicos.

De acordo com (Nilsson,2001:231), instrumentalização é um processo que ocorre no seio das elites que são marginalizados, ou sentem ameaçadas a sua auto-afirmação e participação como elites nas esferas politica económica sociais e culturais da sociedade. A instrumentalização ocorre no seio de elites cuja percepção é de forma afastadas da possibilidade de afirmação

politica e económica, e que acham que não tem nenhuma possibilidade de cumprir com as elites

de poder consolidado dado que as regras básicas do sistema não são suficientemente congruentes

com a realidade socio-económica e cultural.

Para o presente trabalho, instrumentalização/politização de identidade é percebida como a forma que os islâmicos do grupo Boko Haram usam a religião como umbrela, fazendo a mobilização as populações islâmicas e não islâmicas para a satisfação dos interesses, religiosos, políticos e económicos.

1.2.7 (In) Segurança

A segurança é um conceito polissémico que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. O conceito de segurança é um debate teórico entre os realistas que tem uma visão restrita e os liberais que tem uma visão mais alargada na concepção do mesmo. Quando falamos de segurança há que perceber três perguntas extremamente importantes: Segurança para quem? Sob que ameaças? E contra que valores? Em jeito de resposta, David Baldwin (1997:12-17) postula que a segurança é sempre referente a um sujeito que pode ser o individuo, o Estado ou um Sistema. As ameaças à segurança podem ser de caracter militar e não militar. E por último, a segurança envolve valores principais e centrais para a sobrevivência e existência do sujeito ou referente de segurança.

Walfers (1962:27), 14 Citado por Zeca (2013:139), define a segurança nos sentidos objectivo e subjectivo. No sentido objectivo, a segurança é medida pela ausência de ameaças aos valores adquiridos. No sentido subjetivo, a segurança é a ausência de medo de que estes valores sejam ameaçados. Portanto, a proteção dos valores engloba tanto do Estado assim como dos cidadãos.

David (2001:27) define segurança como sendo a ausência de ameaças militares e não militares que possam por em causa os valores centrais que uma pessoa, uma comunidade ou Estado querem promover, e que impliquem um risco de utilização de força.

O realismo centra-se na violência inter-estadual. Tradicionalmente, a palavra segurança era

empregue na teoria e na prática das relações internacionais em questões como a guerra, a paz e o

14 Wolfers, Arnold(1962) National Security as an ambiguous symbol, Discard and collaboration7, Baltimore, johan Hopkins University press.

equilíbrio de poder. Durante a maior parte da Guerra Fria, a segurança foi concebido como segurança militar contra o poder militar de outros Estados. Realismo identifica o poder militar como ferramenta primária e principal na manutenção da soberania de um determinado Estado e segurança nacional (Booth,2005:2).

Os realistas têm um argumento principal da responsabilidade dos Estado em proteger os cidadãos contra ameaças internas e externas. No entanto, os realistas procuram servir o interesse nacional e da segurança nacional, através do qual a força pode ser demostrado quando a ameaça está eminente (Sheehan,2005:44). Nesta dimensão realista, Solomon (1998:1) entende a segurança como a capacidade de Estado evitar ou afastar qualquer ameaça militar externa contra os valores adquiridos por si. Portanto, uma nação está segura na medida em que não esteja em perigo de sacrificar os valores centrais.

A leitura realista que se resume em aspetos militares, amaças externas foi criticado por estudioso Berry Buzan na sua obra “People, States and fear”. Ele quebra a perspectiva realista de segurança. Buzan introduziu uma abordagem mais alargada de segurança. Ele refere que para além de segurança militar, deve incorporar a segurança humana societal e ambiental.

Buzan (1991:19) sustenta a ideia de que os tradicionais conceitos de estudos de segurança são cada vez mais irrelevantes, especilamente na era pós-geurra fria. Defende a importância de introduzir a noções de dilemas da segurança da sociedade em termos de etnia, nacionalismo e identidades religiosas. Ele explica que os perigos que as inseguranças sociais representam para a estabilidade de um Estado, são mais graves do que as ameaças externas. Ele argumenta que a insegurança social é uma das principais ameaças para o Estado. As outras dimensões são: militar, político, económico, segurança ambiental. Ele sustenta que a responsabilidade do Estado é proteger a sociedade contra as ameaças externas e internas.

Na mesma perspectiva alargada do conceito de segurança, Show (1994:62) postula que os estudos de segurança devem ter uma abrangência destinada a identificar outros domínios. O primeiro, a segurança não é para ser limitada ao discurso militar, deve incorporar os aspetos económicos, sociais, ambientais, e o domínio político que são ambas causas e efeitos de segurança. Em segundo lugar, as questões que precisam ser abordadas não devem ser apenas

referentes ao Estado,

comunidade internacional.

mas também para o

povo, os sectores não- governamentais

e

da

Insegurança ocorre quando um grupo étnico ou religioso particular captura o Estado, ou um grupo é negado o acesso ao Estado, pode ser ainda suceptivel a dominação do grupo. Quando um grupo étnico ou religioso controla todo o aparelho do Estado, todos outros grupos étnicos serão ameaçados, já que não pode mais ter um árbitro imparcial das disputas ou um protetor imparcial. Os recursos do Estado podem ser usados contra grupo étnico ou religioso fora do poder a favor de quem está no poder (Saideman, 1998:136). Quando os governos não mais conseguem atender

às demandas sociais que já estão diversificadas e difusas, grupos menores tendem a se politizar e

buscar o poder para legitimar e assegurar os direitos de seus grupos específicos,

(Fernandes,2013: 21). Para o presente trabalho, a insegurança ocorre quando existe a percepção

de presença de meaças e vulnerabilidades contra valores centrais e neste caso étnicas e religiosas.

A tensão entre o Estado e o seu sub-grupo mina a integridade territorial e autonomia política do

Estado, bem como a identidade da sociedade. Os confrontos sociais desestabilizam a segurança política e legitimidade do Estado. Os Estados multi-étnicos são mais propensos a enfrentar os conflitos intra-sociais. Estes conflitos podem levar ao colapso do Estado. Também podem levar à

intervenção estrangeira e limpeza étnica, podem fazer propaganda de terrorismo, podem criar situações de refugiados, danos ambientais e o declínio económico (Saleh,2010:234). No presente trabalho segurança é percebida como ausência e liberdades de ameaças contra valores centrais e que colocam em causa a integridade, existência, soberania do Estado e grupos étnicos e religiosos.

CAPITULO 2

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DAS IDENTIDADES ÉTNICAS E RELIGIOSAS COMO FACTORES DE CONFLITOS E INSEGURANÇA EM ÁFRICA

O presente capítulo procura abordar sobre os conflitos intra-estatais da dimensão étnica e

religiosa que o continente africano vive no período pós-guerra fria. Procura-se analisar até que ponto estes conflitos foram ou são factores da instrumentalização por parte das lideranças.

Analisa-se neste capítula, as causas dos conflitos identitários da dimensão étnicos e religiosos no continente; dá-se exemplos dos países como Sudão, Ruanda que viveram os conflitos identitários

da dimensão étnica e religiosa. Analisa-se de igual modo, a dimensão étnica e religiosa em

Moçambique. Procura-se analisar a relação que se estabelece entre a segurança e os conflitos

identitários; por fim procura-se analisar as formas de Prevenção, Gestão e Resolução dos conflitos identitários em África.

2.1. Os Conflitos Étnicos e Religiosos em África

África é um continente multiétnico e multicultural. Desde o fim da guerra fria, o continente está a viver um cenário de conflitos intra-estatais, um novo padrão de conflitos que tem sido descrito como “interno” que envolvem choques de identidades étnicas e religiosas que muitas vezes transbordam as fronteiras nacionais e afectam outros estados (Young,2004:44). Nas últimas décadas, existe forte onda de movimentos sociais (negros, indígenas, feministas, homossexuais, religiosas, grupos étnicos) que usam questões identitárias para afirmação das suas singularidades e reivindicação de direitos sociais e políticas, historicamente negados (Santos 2011:142).

As minorias exigem os seus direitos específicos que sejam culturais ou religiosos. As manifestações são protagonizadas por grupos que revindicam a acomodação dos seus direitos ou

proteção das suas identidade (Eisenber,2009:1). A exigência dos direitos é protagonizada pelas lideranças que usam a identidade religiosa ou étnica na população, com objectivos de satisfizer interesses políticos e económicos. Os líderes fornecem dinheiro, prometem terras, fornecem instrumentos de guerra, fornecem comida para a população para a edificação da sua identidade e

se

identificar com a causa. Por exemplo, o caso do Boko Haram que tem escola que tem a função

de

recrutar crianças e jovens para a prossecução dos valores religiosos islâmicos. Incutem nos

jovens que a melhor forma de viver e priorizar os valores baseados na lei Islâmica que é Corão, e contra tudo que vem do Ocidente. O caso dos Hutos e Tutsis no Ruanda mostra que os Hutos forneceram bens como terras, comida, dinheiro a população civil para poder lutar contra as “Baratas” a forma pejorativa que chamavam os Tutsis. Através da radio e televisão criaram estereótipos para poder influenciar todos os Hutos para identificarem-se com a causa.

Nesta vertente, a etnia e religião assumem assim um carácter instrumental e não primordial, ou essencialista. Ou seja, eles ganham maior significado quando instrumentalizada para práxis política, enquanto forma de mobilização/acção colectiva. Essa instrumentalização é fruto da acção de grupos ou elites em luta pelo controlo do poder político ou economico, a nível nacional ou do Estado. Esta visão apresenta um carácter excessivamente verticalista, ou top-down, na medida em que nos sugere que as elites são capazes de exercer essa mobilização sobre uma massa que se limitam a seguir e agir segundo as orientações superiores (Florêncio,2002.12). É preciso salientar que, as pessoas não se matam uns aos outros por causa de diferenças étnicas ou religiosas; eles matam-se uns aos outros quando essas diferenças são promovidas como a barreira para o progresso e oportunidade (Kwaja,2011:2).

Olhando os conflitos no Burundi, Libéria, República Democrática do Congo, Serra Leoa, Somalia, Ruanda, Guine-Bissau, Sudão, Nigéria, e outros a marca indelével destes conflitos é que estão ligadas à identidades étnicas e religiosas (Hall,2007:12). O continete africano está preso a um ciclo interminável de conflitos étnicos e religiosos. A perceção é de que a complicada diversidade étnica e religiosa deixa o continente permanentemente vulnerável à conflitos internos. Portanto, as questões identitárias são grandes factores de conflitos e instabilidade no continente africano (Apengnuo,2010:1).

Olhando na dimessao de segurança em África está ameaçada. Novos desafios são colocados devido a instrumentalização das identidades étnicas e religiosa. Nesta perispectiva, a segurança deve ser percebido na perispectiva alargada. A segurança deve incorporar novos actores, porque os indivíduos organizados em grupos passaram a ser uma ameaça a segurança nacional, devido ao uso das identidades para a prossecução dos seus direitos. O caso do Boko Haram mostra que este é um grupo que está a colocar em causa a segurança nacional, o caso dos Hutos e Tutsis no Ruanda mostram que a segurança nacional dos estados ficou ameaçada devido ao nível de

violência usada por grupos na prossecução dos seus direitos. Na mesma perispectiva, o Sudão mostra que os conflitos entre cristãos e muçulmanos foram grandes desafios a segurança nacional. Portanto, há uma necessidade de criar mecanismos para prevenir o recrudescer da violência vindo dos grupos étnicos e religiosos que colocam em causa a segurança nacional no continente africano.

Os conflitos associados às identidades étnicas e religiosas em África tem causas multifacetadas. Estes conflitos tem causas históricas, políticas, económicas e culturais. Na perispectiva de (Willams,2008:269) os conflitos étnicos estão relacionados com a disputa pelo poder. Muitos conflitos envolvem grupos minoritários que querem formar o seu próprio Estado, ou ter a sua autonomia regional; outro factor é por que os grupos étnicos querem governar são os casos dos Hutus e Tutsis no Ruanda; outro factor é porque alguns líderes querem impor princípios religiosos, e outros factores são meramente económicos, pobreza, má governação.

Na perspectiva de Abrahamson (1994:270) a maior parte dos conflitos étnico tem como componente económico. Certas regiões dum país podem ser prejudicadas economicamente, os recursos naturais podem ser explorados em benefício de um grupo. Os conflitos étnicos podem também surgirem de contradições relativas à identidade cultural, por exemplo, a relação entre uma língua oficial e varias línguas locais. De acordo com Cadeado Calton (2015) 15 Os conflitos identitários étnicos e religiosos tem a natureza política, económica e cultural. Na dimensão política fala-se do acesso, manutenção e controlo do poder. Há uma disputa do poder político porque há uma percepção de que o acesso ao poder político é uma pré-condição ao acesso ao poder económico. Acredita-se que o poder político e o privilégio económico estão a ser negados na base de identidade étnica rácica e religiosa. Outras causas são de natureza culturais, mas não sãos causa por si, são instrumentos para expressar os objectivos de acesso ao poder político e económico.

Na perspectiva de Lundim Iraê (2015) 16 as causas dos conflitos identitários em África têm como base a exclusão de uns e inclusão de outros. Isso deve-se, por um lado, ao factor do Ocidente ter criado Estados africanos sem respeitar as fronteiras culturais, muito menos religiosas. Os

15 Cadeado Calton (2015) Docente do (ISRI) docente de Estudo de paz e Conflito, Estudo de Segurança, entrevistado no dia 12 de Março. 16 Lundim Iraê (2015) Docente do (ISRI) Regente de Metodologia de Investigação Cientifica. Entrevistada no dia 16 de Março de 2015.

conflitos acontecem quando indivíduos não podem ter acesso aos recursos porque pertencem a determinada etnia ou religião. Mas, também, existem factores internos e externos que são importantes para esses conflitos. A nível interno podem existir grupos que procuram ter acesso aos recursos fazendo a instrumentalização. A nível externo podem existir países que podem instrumentalizar grupos de um determinado país para ter acesso aos recursos económicos. O caso da Nigéria mostra que o Muçulmanos sente-se excluído dos processos políticos e económicos por isso estão a reivindicar.

De acordo com Wache Paulo (2015) 17 , Uma das principais causas dos conflitos identitários é histórico. Os colonos quando chegaram em África dividiu as etnias e as religiões para poder satisfazer os seus interesses. No caso do Ruanda mostra que a Bélgica beneficiou os Tutsis em detrimento dos Hutus, na Nigéria beneficiou os Cristão em detrimento dos Muçulmanos. Essas diferenças criaram rivalidades no período pós-independência. Outros factores políticos estão relacionados ao acesso, controle e manutenção do poder político. As elites usam o poder político para o alcance ao poder económico. Entretanto, as identidades tanto étnicas ou religiosas não são por si só causas de conflitos, eles se tornam causas de conflitos quando instrumentalizados pelas elites para alcançar o poder politico e económico.

Portanto, existem várias causas que concorrem para eclosão de conflitos de natureza étnica e religiosa em África com destaque como aconteceu na Ruanda, Sudão, Quénia, Republica Democrática do Congo, Burundi, Nigéria e outros países. Estes conflitos têm como consequência violência politica 18 , violência cultural 19 e secessão do Estado 20 .

17 Wache Paulo (2015) Docente do (ISRI) nas cadeiras de Geopolítica, Estudos de União europeia, entrevistado no dia 9 de Março.

18 Violência política refere à destruição de ataques físicos visando, a escolha de alvos ou vítimas, implementação e ou efeito tem um significado político tendem a alterar o comportamento dos protagonistas em uma situação de negociação. A violência política se expressa também fora de um conflito armado, por exemplo, através do controle social pelo Estado ou por uma de suas respostas, a ameaça de violência contra si mesmo (Lopes:32:2015).

19 Violência cultural refere-se aos aspectos da cultura, ao “âmbito simbólico da nossa existência (materializado na religião e ideologia, língua e arte, ciências empíricas e ciências formais lógica, matemáticas), que são utilizados para justificar e legitimar a violência, seja ela pessoal ou estrutural (Galtung,1996:261). 20 Secessão do Estado refere-se à expressão política da vontade de separação de uma região pertencente a uma estrutura política existente, e que, não raras vezes, degenera em conflito ou guerra civil, Os desejos de secessão poderão ser entendidos como indicadores de rejeição de algumas das normas mais básicas do sistema de Estados em favor do nacionalismo, relacionado com ideias de consanguinidade e etnicidade políticas centrais a resistir-lhe (Sousa,2005:167). Por exemplo a guerra de cessao entre a Etiópia e Eritreia em 1993, e do Sudão em 2011.

2.1.1. Instrumentalização das Identitários Éticas e Religiosas no Sudão

O Sudão se tornou um país independente do domínio britânico em 1956, e passou a ser

governado por uma minoria árabe muçulmana, concentrada no norte do país, a qual, detinha uma

influência desproporcional nas tomadas de decisões políticas e na definição da identidade nacional do Sudão em relação aos povos habitantes do sul do país. O conflito étnico e religioso

no Sudão foi protagonizado pelo próprio domínio colonial Anglo-egípcio entre1898 e 1956, onde

implementou uma política distinta entre o norte e o sul. No norte foi implementado uma política

de administração civil, com a substituição dos governadores militares por agentes civis britânicos, enquanto ao sul foi implementado um modelo de administração central nativa, com a separação dos vários grupos étnicos de modo a evitar conflitos e controlar a população

(Nascimento,2012:1).

Os britânicos procuraram modernizar o norte (árabe) através de aplicação de tecnologias europeias para o desenvolvimento das suas economias, substituíram as instituições autoritárias para instituições mais liberarias. Enquanto isso o sul Cristão recebia pouca atenção. Após a independência em 1956, o Sudão mergulha quase que automaticamente numa situação de instabilidade política e conflito interno entre norte e sul que viria a se prolongar por mais de quatro décadas. As diferenças religiosas entre a população do norte, maoriariamente muçulmana, e do sul, maoritariamnete cristã e animista, rapidamente se tornaram um instrumento facilmente aproveitado e usado por ambas as partes em especial após a imposição em 1983, da lei islâmica a todo o território sudanês por parte do governo liderado por Gaafar Nimeiri (Nascimento,2012:1).

Após a independência, muitas guerras apareceram entre o norte e o sul. Por exemplo, em 1956 houve confrontos liderados por Anyanya, uma milícia rebelde com sede no Sul. Em 1983 o presidente Nimieri introduziu a lei islâmica de Sharia em todo Sudão. Um jovem do sul chamado John Garang reagiu reformando o exército popular de Libertação do Sudão para lutar pela reforma secular e preservar o Sudão. Em 1985 após agitação popular, Nimieri foi retirado do poder por um grupo de oficiais, e um Conselho Militar de Transição foi criado para governar o país. Em 1989, Omar al-Bashir assumiu a presidência num contexto de muitas violências em

Darfur. 21 . A guerra no Sudão é geralmente caracterizada como um conflito entre o Governo islamita árabe do Norte, sedeado em Cartum, e os rebeldes negros do Sul, essencialmente cristãos e animistas (European Parlament,2007:1).

O conflito atingiu a escalada em 2003 quando grupos rebeldes, sentindo-se marginalizados e

excluídos numa altura em que o Sudão começava a usufruir dos lucros do petróleo, lançaram ataques contra instalações do Governo. Inicialmente existiam duas formações rebeldes principais: o Exército/Movimento de Libertação do Sudão (SLA/M), Sudan Liberation Army/Movement e o Movimento pela Justiça e Igualdade (JEM) Justice and Equality Movement,

este último mais influenciado pela ideologia islâmica (Europian Parlament,2007:2).

Em 2005 foi assinado um acordo geral de paz entre Movimento Popular de Libertação do Povo Sudanês e do Partido Omar al-Bashir do Congresso Nacional (NCP) em Cartum, trazendo um fim da guerra. Em 2011 foi realizado um referendo para legitimar a autonomia do sul. Mais de 99% da população do Sul optou pela independência. Em 9 de junho de 2011 o Sudão do sul ganhou a independência do Norte levando cerca de um terço do território do Sudão. Como o sul ganhou a condição do Estado as questões cruciais continuam como a demarcação das fronteiras, a partilha das divisas do petróleo, bem como a utilização do gasoduto do Norte permanecem sem solução.

Neste contexto de violência disseminada, pode-se considerar a relação entre conflito norte-sul e o conflito em Darfur como decorrente, em parte, de uma crescente e indiscutível polarização e instrumentalização desses conflitos em torno das ideias de raça etnia e religião (Nascimento,2012:2 )

Os conflitos étnicos e religiosos do Sudão nos mostram que esses grupos tem objetivos políticos e económicos. Estas por sua vez, tem um papel fundamental ao possibilitar a mobilização dessas populações. Sendo assim, a etnia e religião tem um papel fundamental na explicação de como

esses conflitos evoluem e são vivenciados, pois permitem que essas objetivos políticos consigam

as bases populares de apoio necessário (Schneider,2008:64). Nesta vertente a etnia e a religião foi fundamental na instrumentalização da população para a satisfação dos interesses.

2.1.2. Intrumentalização das Identidades Étinicas no Ruanda

O conflito no Ruanda é resultante de um complexo processo político, social, e cultural em que a

história do país vive e as suas várias interpretações. Os primeiros habitantes da região hoje correspondente ao Ruanda foram os Twa, Pigmeus semi- nómadas; depois chegaram os Hutus, que se dedicavam a agricultura, e mais tarde dos Tutsi, que se dedicavam a pastorícia. Entre 1897 e 1916, o Ruanda estaria sob o domínio colonial da Alemanha; na sequência de derrota alemã na I guerra Mundial, o território do Ruanda passaria a estar sob autoridade belga.

(Amanda,2011:5-6).

A Bélgica como estratégia de dominação, decidiu em 1932 pela divisão oficial das duas etnias

através do documento de identidade étnica, e cedeu aos Tutsis o status de elite, tendo estes privilégios cargos do comando. Os belgas, concederam à minoria Tutsi status de elite, calculado em critérios físicos como, por exemplo, o tamanho do crânio e o formato do nariz. Essas eram características políticas administrativas de diferenciação que acabaram por perpetuar tais categorias identitárias. Esta estratégia da Bélgica de divisão acirrou em muito os sentimentos de diferenças e de aversão entre as etnias. Os Tutsis permaneceram no comando do Estado até a retirada da Bélgica em 1962 (Hitjens,2001:2).

Com esta diferenciação entre as duas etnias, os tutsis tiveram uma projeção social maior e diversas vantagens em relação aos hutus, pois conseguiam empregos melhores, tinham mais acesso aos escassos bens do Estado, tinham mais oportunidades na área da educação e, consequentemente, viviam em condições superiores aos vizinhos hutus. Obviamente, isto deflagrou uma enorme insatisfação hutu que culminou em uma série de revoltas no ano de 1959. Cerca de 20 mil tutsis foram mortos durante os conflitos e milhares se refugiaram em países como Tanzânia, Burundi e Uganda. Após independência, os Hutus revoltam-se e tomam o poder logo em seguida. O cenário doméstico de Ruanda foi sempre de perseguições, ora dos Hutus pelos Tutsis, ora o contrário (Resende at al,2011:4-6)

Em 1973, Juvenal Habyarimana, um Hutu e o Chefe do Estado Maior, deu um golpe bem sucedido, usurpando o presidente democraticamente eleito Kayibanda, também um Hutu. Uma vez no poder, o partido de Habyarimana, o Movimento Revolucionário Nacional para o Desenvolvimento (MRND), cristalizou os Hutus na dominação e sentimento anti-tutsi. Os

Hutus criaram a sua própria estação de rádio e televisão, Rádio Televisão Libre des Milles Collines, para transmitir suas mensagens de ódio. Habyarimana tentou consolidar seu poder político, não só através da obtenção de apoio Hutu em um ódio comum para Tutsis, mas também revertendo tendência de Ruanda rumo à uma ditadura de partido único. Para esses fins, Habyarimana dissolveu a Assembleia Nacional (AN), dotou a presidência com seus antigos poderes, e aboliu todos os partidos políticos, exceto o MRND. Ele reveu a Constituição ruandesa para que toda a actividade política fossem organizado pela MRND, incluindo nomeações para os candidatos presidenciais de tal forma que o presidente do MRND fosse o único candidato elegível para a presidência do Ruanda (Hall,2001:72).

Os meios de comunicação tiveram grande influência na expansão do conflito. Estações de rádio encorajavam hutus a matarem todas as “baratas” (maneira ofensiva pelo qual os Hutus chamavam os Tutsis) que infentavam o país (Resende at al,2011:7). Durante seu governo o Estado

a sua perfomace economica começou a piorar, diminuindo o prestígio do presidente. Nesse mesmo

período, se formava em Uganda um movimento Tutsi, com apoio de hutus moderados, que tinha como objetivo derrubar do presidente e o retorno desses povos à Ruanda, sua terra natal. Tal movimento era conhecido como Rwandan Patriotic Front (Frente Patriótica Ruandesa), ou (RPF), liderado por Kagame.

O presidente Habyarimana usou a ameaça como protesto para trazer dissidentes hutus de volta para seu

lado. Os tutsis que viviam em Ruanda já eram considerados aliados do RPF, e, portanto, traidores do

governo (Resende et al ,2011:6).

A intrumentalização étnica não pode ser vista como a única causa para os conflitos em Ruanda. Factores como alta taxa de crescimento populacional, grande número populacional num espaço limitado, péssimas condições de vida e outros podem ser considerados como fatores chaves para o conflito. Apesar de falarem a mesma língua, viverem nas mesmas áreas e seguirem as mesmas tradições, hutus e tutsis se diferenciam pela aparência física, ou seja, os tutsis são mais altos, de pele mais clara e traços do nariz e do crânio mais finos, diferentemente dos hutus. Os twas compõem a minoria da população (Resende et al ,2011:5).

Em Agosto de 1993, um acordo de paz conhecido como Acordo de Paz de Arusha foi assinado entre Habyarimana e o RPF, como tentativa de diminuição dos ataques e das tensões. Mas no início de abril de 1994, o avião do presidente Juvenal Habyarimana foi atacado no aeroporto da capital ruandesa, Kigali. A partir de então, houve um surto catastrófico de violência e ataques

como planos de vingança e retaliação aos tutsis. Ataques que duraram cerca de 100 dias e configurou o conflito como o maior genocídio de toda a África (Resende et al,2011:6).

Neste momento, iniciou uma campanha de vingança incitando diversos recrutas militares, políticos e homens de negócios a dar início aos crimes no país. Com o tempo, até mesmo a população civil de origem hutu estava sendo intrumentalizada, assassinar aqueles que fossem de origem tutsi. Além da morte de líderes da oposição do governo, iniciava-se a morte maciça de tutsis e hutus moderados. Aqueles que não eram obrigados a participar do massacre eram incentivados por outros meios como, por exemplo, doação de comida, pagamentos em dinheiro, e, até mesmo, promessas de posses de terra dos seus vizinhos mortos tutsis (Resende et all ,2011:6). Os conflitos entre os Tutsis e Hutus se dão em ciclos de vingança, perpetuando o desentendimento entre os dois grupos. Acredita-se que o modo como os dois grupos interpretam os acontecimentos pós-coloniais é determinante na perpetuação dos ciclos de violência de um contra o outro, motivados sempre pelo sentimento de impunidade e o desejo por vingança,

(Andreotti,2013:8-9)

Devido a instrumentalização que sofreu desde sua colonização Ruanda é um país desestruturado e pautado por violentos conflitos sociais. A estratégia de colonização adotada pela Bélgica consistiu em ressaltar diferenças e persuadir grupos criando separações étnicas artificiais e assim submetendo uma etnia à outra. Em termos de reconstrução o actual governo ruandês estabelece políticas que visam promover o desenvolvimento do país e o crescimento econômico. Para tal o principal programa de políticas públicas para o desenvolvimento é “Visão 2020”, cuja principal estratégia é a eliminação da pobreza e a modificação de Ruanda para um país de renda média. O princípio primordial para recuperação desta nação é a justiça e o fim do divisionismo (Andreotti,2013:10). O conflito entre Hutos e Tusis mostram de foram clara que os lideres políticos fizeram a instrumentalização do povo usando a etnia para poder satisfazer os interesse políticos e económicos. Os Hutus forneceram dinheiro os jovens, deram comoda, terra para a população civil para combater as “baratas” forma pejorativa que chamavam os Tutis.

2.1.3 A Etnicidade

e conflito em Moçambique

Moçambique, África do Sul, Namíbia são uns dos poucos Estados que não viveram situações de conflitos violentos de dimensão étnica assim como religiosa. De acordo com Abrahamson

(1994:270), a discussão sobre a etnicidade e sobre conflitos étnicos em Moçambique foi, durante todo o período de independência, quase um tabu. O mais importante era a ambição de construir uma nação unida do Rovuma ao Maputo. Muitos conflitos étnicos nos países do terceiro mundo relacionam-se com o desenvolvimento verificado após a independência. Especialmente em sociedades mult-étnicas, o processo de construção da nação criou frequentemente tensões entre diferentes partes dos países.

No período póscolonial, a Frente de libertação de Moçambique (FRELIMO) definiu a discriminação com base na cor, tribo ou religião como um dos seus combates prioritários. As palavras de ordem eram “abaixo o racismo, o tribalismo, o regionalismo, o divisionismo”, etc. A Frelimo defendia o partido único em detrimento de pluralismo político e social por medo de exacerbar ou particularismos identitários, e por temer que cada grupo étnico criasse seu próprio partido. A Frelimo negava todo tipo de diversidade: religiosa, étnica, racial, politica. Nesta vertente, a negação resultava da experiência dos conflitos étnicotribais que este partido tinha conhecido durante a luta anti-colonial, e era feita em nome de uma ideologia que defendia a criação do “Homem Novo” 22 , o qual devia estar livre dos seus “maus hábitos”, que punham em causa a moçambicanidade (Chichava,2008:7-8).

Nesta vertente, a Frelimo sentia a necessidade de construir uma identidade nacional, enquanto factor de legitimação da sua dominação, identidade essa que seria construída a partir dos princípios do “socialismo científico”, acarretando com isso a aniquilação de todas as expressões identitárias infra-nacionais, de cariz étnica ou outras, e a desestruturação das organizações políticas, económicas, religiosas e culturais locais. Esta negação da construção de identidade religiosa, rácica, tribal, étnica, foi por causa da experiência adquirida no período antes de independência, onde tivemos guerra etno-politica. Portanto, no período pós-independência era preciso fazer a desmobilização etno-política (Florêncio,2002:10).

Para elite na direção da FRELIMO, a construção de uma nação unida era uma condição para todo o processo de formação do Estado. A elite da FRELIMO, era composta por varias elites, com aceitação diferente em diferentes partes do país. O sistema uni-partidário e a economia planificada facilitaram a criação de alianças entre essas elites diferentes, tendo o grupo menos

22 ” homem novo” preconizava a gradual convergência das identidades dos diferentes grupos etnolinguísticos numa realidade modernizada. (Cabaço,2010: 284).

dominante aceitado a construção de um estado nação em troca de uma participação activa no exercício do poder. Para a Frelimo, o procjeto de construção de uma nação significou sempre a unidade da população do Rovuma, no norte, a Maputo, no sul. Com auxílio do desenvolvimento

e com a modernização as necessidades materiais e sociais da população seriam satisfeitas as

contradições étnicas e de clã seriam suavizadas e as formas tradicionais de exercício de poder seriam acabadas (Abrahamson,1994:270).

Pode se perceber que a robustez das elites moçambicanas da FRELIMO desempenharam um papel extremamente importante na construção da nação moçambicana. Esta robustez fez com que não surgissem conflitos de natureza étnica e religiosa no país. Entretanto, os conflitos eles existem mas não na dimensão violenta como em outros países. Existem no pais um cenário de criação de estereótipos de grupos étnicos e religiosos que priorizam os seu valores em detrimento dos outros mas não há violência etno-política.

Como Sustenta Cadeado Calton (2015) 23 é preciso distinguir o conflito étno-político e a violência étno-política, porque a forma de manifestação é diferente. Não há conflitos étnicos e religiosas na dimensão violênta em, o que há é a mobilização das pessoas usando a etnicidade e a religião. O factor religioso ou étnico pode ser um instrumento para algumas pessoas para o acesso ao poder político e económico. Em Moçambique temos conflitos étno-políticos, mas não temos violência étno-politica. Em Moçambique há disputa do poder, grupos que querem controlar o poder. Temos os casos dos Macuas e Macondes em Nampula. Do ponto de vista religioso não temos conflitos, temos uma competição de espaço entre Cristão e Muçulmanos. Os

Muçulmanos querem ocupar na arena cultural, na construção de mesquitas, de escolas, assim como os cristãos tem esses benefícios na construção de igrejas e escolas, universidades. Portanto

é preciso ter atenção a esta revolução de ideias pode nos trazer problemas a curto ou a longo prazo Como em outros países.

Lundim Iraê (2015) 24 refere que não temos conflitos étnicos muito menos religioso na perispectiva violenta, muito mais por causa da lideranca que tivemos na contrução do Estado moçambicano. Entretanto, é preciso ter muita cautela porque antes tínhamos madeira e camarão, agora com a descoberta de recursos minerais como carvão, petróleo, gaz, podem existir países

23 Cadeado Calton (2015) docente do ISRI, entrevistado no dia 12 de Março de 2015 24 Lundim Iraê (2015) docente do ISRI, entrevistada no dia 16 de Março.

estrangeiros interessados na aquisição desses recurso e pode instrumentalizar a população usando

a identidade étnica ou religioso.

2.2. Conflitos Identitários e a Segurança Nacional em África

Na dimensão de segurança nacional, as ameaças ao Estado podem vir dos indivíduos, grupos ou outros estados. A segurança nacional versa sobre a capacidade de os estados em manter a sua identidade independente e a sua integridade funcional; visa garantir a existência e a sobrevivência do Estado. O estado pode sofrer ameaças de diversos tipos: ameaças militares, que tem a ver com guerra e sublevação militares; ameaças politicas, que tem a ver com criação de instabilidade que mina a ordem politica e governamental; ameaças societal, que refere a coesão social e a unidade nacional; ameaças económica, que afecta a maquina económica e a sobrevivência material da população e por ultimo, a ameaça ecológica que cria danos da base física do Estado e dificulta o seu funcionamento como é o caso de tremor de terra, furacões, cheias, entre outros desastres naturais (Zeca, 2013:144).

Como se pode perceber, existem vários aspectos que contribuem para a necessidade de segurança nacional nos estados africanos. Nesta dimensão, segurança nacional deve ser percebida na perispectiva liberal, onde deve-se garantir a segurança do individuo e o seu bem-estar, porque em certos casos pode colocar em causa a segurança e a sobrevivência de um Estado.

Os conflitos identitários étnicos e religiosos criam uma situação de insegurança para os Estado onde elas nascem e tem um efeito spill over para a região e até a nível internacional. Como se pode perceber com Cadeado Calton (2015) 25 existe relação entre o conflito identitário e a

segurança nacional. Os conflitos identitários tem um grande perigo que é de fragilizar a coesão socio-político principalmente os de natureza étnico e religioso. Os conflitos identitários étnicos e religiosos são vistos como um princípio para cristalizar as ideias de secessão a médio e a longo prazo do Estado. Tem um potencial que ameaça a sobrevivência do Estado, isto é, põe em causa

a coesão sociao- político, a segurança nacional, porque a sobrevivência do Estado a integridade do Estado estará ameaçada.

25 Cadeado Calton (2015) Docente do (Isri) entrevistado no Dia 12 de Marco de 2015.

De acordo com Wache Paulo (2015) 26 Existe uma relação entre o conflito identitário e a segurança nacional, porque enquanto haver conflitos identitários o Estado não está seguro. De forma indirecta haverá epill over porque de ponto de vista económico aquilo que era o fluxo económico de compra e venda vai reduzir porque as pessoas vão se deslocar, aumentam a população em países vizinhos que não tem esses conflitos identitários. O caso do Boko Haram nasce na Nigéria mas tem um efeito a nível regional e global. Porque há outros grupos que se simpatizar com o Boko Haram.

De acordo com David (2001:94), os conflitos identitários constituem factor de insegurança interna, regional e internacional porque criam deslocações dos grupos étnicos ou religiosos. A questão dos refugiados e deslocados representa um exemplo perturbador dos efeitos da segurança societal para o Estado e suas populações. As deslocações internas e o fluxo migratório, causados nomeadamente pela violência intra-estatal e pela impulsão de Estado, reconfiguram por vezes radicalmente a distribuição e a geografia étnica e religiosa. Movimentos importantes de população provocam problemas políticos económicos humanitários graves e são o resultado de uma grave insegurança. A insegurança estende-se para outros Estados, regiões, ou para o Estado de acolhimento.

De acordo com (Giddens,2001:459-460), existem três perspectivas de integração dos imigrantes para evitar conflitos étnicos nos Estados de acolhimento: Assimilação, Melting Pot e Pluralismo cultural. Assimilação significa que os imigrantes abandonam seus costumes e práticas originais, moldando seu comportamento com forme os valores e normas da maioria. Uma abordagem de assimilação exige que os imigrantes mudem sua língua, vestimenta, estilo de vida perspectivas culturais como parte de integração a uma nova ordem social. Os segundo é Melting pot postula que envés dos imigrantes de si dissolver em favor aos dominantes entre as populações preexistentes, eles são mesclados e formam padrões culturais novos e envolvidos. À medida que os grupos étnicos se adaptam aos ambientes sociais, também se cria diversidade. O terceiro modelo é Pluralismo cultural no qual as culturas étnicas tem validade plena existir separadamente, mas devem participara da vida económica e política da sociedade maior. Um subproduto recente e importante do pluralismo é o multiculturismo, que se refere as políticas que incentivam grupos culturais ou étnicas a viverem em harmonia uns com outros.

26 Wache Paulo(2015) docente do ( ISRI) entrevisdo no dia 9 de marco de 2015.

2.3. Mecanismo de Prevenção, Gestão, Resolução de Conflitos Identitários Étnicos e Religiosos

A história de África dá uma visão de que diferentes identidades étnicas e religiosas viveram

juntos em uma relativa paz durante muitos anos. Mas, Hall (2001:150), mostra que a história recente da África ilustra o contrário visto que, estas identidades têm um potencial conflito que pode resultar da instrumentalização por algumas lideranças. Portanto, há uma necessidade de se traçar medidas de Prevenção, Gestão e Resolução de conflitos identitários no continente africano.

A prevenção de conflitos refere-se aos esforços para evitar a eclosão da violência. A prevenção

de conflitos deve centrar-se, preferencialmente, não apenas na contenção de uma situação potencialmente violenta, mas também no tratamento das causas fundamentais do conflito

(Nações Unidas,2001:7). Na perispectiva do Cadeado Calton (2015) 27 para prevenir conflitos identitarios étnicos e religiosos é preciso haver medidas claras de partilha de poder político. No caso da Nigéria mostra que há partilha do poder entre Muçulmanos e cristão, mas não é um factor suficiente para prevenir conflito. É preciso haver a partilha do poder económico, mas também é preciso alargar a partilha do desenvolvimento. Olhando para Nigéria, a zona sul é mais rica do que a zona norte, porque detém grandes recursos de petróleo. É preciso haver programas para paz permanente; é preciso fazer a desmobilização da etnicidade; é preciso promover diálogo

da dimensão religiosa e étnica.

A gestão de conflitos é um processo e esforço para gerir as implicações e manifestações

negativas de conflito. Nela, os sintomas do conflito são tratados e seus efeitos são controlados.

Consiste no desencadeamento de uma série de acções de caracter político, militar ou diplomático ou ainda a combinação de todas ou apenas de duas delas, para controlar e a tendência do mesmo.

(ONU,2001:7).

De acordo com Cadeado Calton (2015) para gerir conflitos identitarios é necessário a criação programas de reconciliação continua; é preciso que haja um espaço de debate bem aprofundado sobre as etnias e as religiões; é preciso haver um aprofundamento da democracia, isto é um espaço de debate de natureza étnica e religiosa. É preciso haver partilha do espaço público para a manifestação das identidades. No caso da Nigéria existe esta partilha do espaço público entre

27 Cadeado Calton(2015) entrevistado no dia 12 de Março de 2015

Cristão e Muçulmanos, porque onde encontramos uma mesquita por perto existe uma Igreja. Encontramos escola Cristã e escolas muçulmanas. É preciso haver programas permanentes de unidade nacional com grandes valores políticos para a percepção da população; é preciso promover acções de miscigenação de grupos étnicos religiosos.

De acordo com (Fetherston,1994:105) 28 Citado por David (2001:284) a resolução de conflitos e geralmente entendida como” a aplicação não coerciva dos métodos de negociação e de mediação, por terceiros, com vista a desarmar o antagonismo entre adversários e a favorecer entre uma cessação durável da violência”. As soluções propostas devem assim conduzir a um entendimento que satisfaça plenamente as partes envolvidas.

Para a sua resolução de conflitos identitários, uma das alternativas é a integração inter-étnica alicerçado no relativismo cultural e em desarmamento dos grupos étnicos. Uma das consequências dos conflitos étnicos e religiosos é a secessão do Estado. De acordo com (Gurr,1993:6) a secessão pode ser considerado importante quando a separação do Estado multi- étnico for resultar na criação de duas regiões homogenias. Mas também tem aspecto negativos porque os grupos que se separam e criam novo Estado, podem entrar em conflitos entre si, se as minorias não superarem a secessão da região. Em segundo lugar a secessão geralmente produz violência, e pode até agravar a situação inicial. A secessão pode mudar um conflito intra-estatal em um conflito entre dois Estados independentes. Outro problema é que a secessão pode levar ao estabelecimento de um Estado pobre economicamente.

Um dos exemplos de secessão é o caso da Eritreia que se separou da Etiópia em 1993. A Eritreia tinha sido administrado separadamente da Etiópia e que tinha sido colonizada pela Itália enquanto o resto da Etiópia tinha sido colonizada pela Grã-Bretanha. Assim a Eritreia argumentou que era uma ex-colónia e deveria ser concedida a independência. Mesmo depois da secessão entre os dois Estados, continuam em conflitos permanentes (Mayall,1999:491). Outro exemplo de secessão é o caso do Sudão onde em 9 de junho de 2011, o Sudão do Sul foi proclamada independente, mas o novo pais está em guerra civil. Portanto, a secessão pode ser uma das formas de resolução de conflitos mas tem as suas consequências negativas

28 Fetherson(A.B) (1994) Towards a theory of United Nations peace keeping, London, MacMillan.

De cordo com Wache (2015) para a resolução de conflitos relacionado com identidades éticas e religiosas depende do tipo de conflito. Há conflitos que se podem resolver com partilha do poder, há conflitos que se podem resolver com a liquidação do inimigo, há conflitos que não se podem resolver que só podem ser geridos apenas que serão intermitentes onde uma em uma faze são resolvidos e em outras fazes podem ressurgirem. A resolução de cada um deles depende da vontade das partes envolvidas e do uso da força das partes.

CAPÍTULO 3

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA IDENTIDADE RELIGIOSA ENTRE CRISTÃO E MUÇULMANOS COMO FACTOR DE CONFLITO E INSEGURANÇA NA NIGÉRIA

O presente capítulo pretende fazer análise da instrumentalização da religião na Nigéria. Em

primeiro lugar, analisar-se-á a geopolítica da Nigéria em segundo lugar analisar-se-á o desenrolar do conflito entre os Cristão e Muçulmanos na Nigéria desde 1999 até 2014. Outro assunto que irá se debater neste capítulo é sobre o grupo fundamentalista islâmico do Boko Haram, no sentido de perceber até que ponto as acções terroristas protagonizadas por este grupo colocam o Estado nigeriano e a região numa situação de insegurança.

3.1. A Geopolítica da Nigéria

Nigéria é um dos Estados mais extenso e mais populoso de África com cerca de 170 milhões de habitantes abrangendo 356.668 quilómetros quadrados de extensão territorial. O país tem como

capital Abuja. Nigéria está localizado na África Ocidental faz fronteira a oeste com a República

de Benim, com Chad e Camarões a leste com Níger ao Norte. Sua costa encontra-se ao sul, no

golfo da Guiné, no Oceano Atlântico (Falola e Heaton, 2008: 2).

Politicamente, Nigéria é uma república federal com um sistema presidencial. A Constituição prevê a separação de poderes entre os três ramos do governo. Um executivo forte, uma legislatura eleita, e um judiciário independente. Embora a Constituição proclama a liberdade pessoal e um Estado secular, ele também permite os muçulmanos a seguir sharia, ou lei islâmica. O poder executivo é exercido pelo presidente, que é simultaneamente chefe de Estado e chefe de governo. O presidente é eleito para dois mandatos de quatro anos. O Conselho Executivo Federal, ou gabinete do presidente, inclui representantes de todos os 36 Estados.

As eleições gerais realizadas em Fevereiro de 1999, marcaram o fim de 15 anos de regime militar e o início do governo civil com base em uma democracia multipartidária. As eleições gerais foram realizadas pela segunda vez consecutiva em abril de 2003. Em ambas as eleições, o Presidente Olusegun Obasanjo e seu partido, o Partido Democrático do Povo (PDP), foram vitoriosos. Em 21 de Abril de 2007, uma eleição presidencial com a vitória de Umaru Musa

Yar'Adua e tambem o seu Partido Popular Democrático (PDP). De 5 de maio de 2010 até 2015 foi eleito o presidente Goodluck Jonathan e seu partido Partido Democrático Popular (PDP). 29

Em termos económico, Nigéria ocupa um importante posição estratégica no sistema internacional. O país mais populoso da África, é detentora de grandes reservas de recursos naturais (petróleo e gás) que despertam vários apetites, a Nigéria é um poder regional essencial (Luciani,2011:1). A geografia da Nigéria apresenta variedades de recursos naturais. A riqueza natural inclui grandes depósitos de carvão, ferro, estanho, bem como chumbo, cobre e zinco. Foram descobertos também pequenas quantidades de ouro, prata e diamantes em vários lugares do país. A Nigéria apresenta uma grande reserva de petróleo, no entanto localizado no delta do Níger. Desde 1970, o petróleo tornou-se o produto mais importante na economia da Nigéria (Folola e Heaton, 2008:2-3).

Em 2010, a Nigéria foi a 10° maior produtor de petróleo do mundo, produzindo 2,458 milhões de barris por dia e possuindo a 10ª maior reserva de petróleo do mundo (37,2 bilhões de barris) anos 70, o preço do petróleo no mercado mundial subiu e a parcela de receita nacional que o petróleo representava foi de 5% em 1965 a 26% em 1970, 43% em 1971 e cresceu em até 80% em 1980. O petróleo na região do Delta do Rio Níger representou o motivo de muitos conflitos. As discussões sobre como a receita do petróleo deveria ser alocada e distribuída tem sido lidada por meio do Princípio da Derivação (Rustad,2008:39).

Historicamente, o petróleo não foi a força motriz das economias das comunidades nigerianas. Até há poucos anos, a agricultura foi a base da atividade econômica e estilo de vida da maioria dos nigerianos. Nigéria possui uma grande variedade de paisagens agrícolas, produzindo uma ampla gama de produtos agrícolas. As culturas alimentares incluem inhame, mandioca, bananas, arroz, milho, milheto, frutas cítricas, amendoim, cacau e produtos de palma azeite, amêndoas e vinho (Falola e Heaton,2008:3).

Culturalmente, Nigéria apresenta uma diversidade da população composta por mais de 200 diferentes grupos étnicos linguísticos. Três principais grupos étnicos compõem a maioria da população. O Hausa, localizado nas savanas do norte, representam por cerca de 21% da

população, enquanto o Yoruba, localizado na parte sudoeste do país, constituem 20 %, e o Igbo do sudeste 17 %. Outros grupos étnicos com relativamente grandes populações incluem o Fulani , o Ijaw da região do delta do Níger, o Kanuri da região do Lago no Chad, Ibibio , no sudeste, e do Nupe e Tiv da região cinturão meio. Embora mais de 250 línguas indígenas diferentes são faladas na Nigéria, Inglês foi a língua oficial do país desde 1960 (Falola e Heaton, 2008:4).

Nigéria é um complicado mosaico étnico, dividido pelas religiões mais difundidas: O Islamismo com 50% e o Cristianismo com 40%. O restante dos 10% se divide em seitas locais e outras religiões, (Rosa et al,2012: 338). Esta divisão geográfico compreende na zona Norte são predominantes os Muçulmanos nos Estado de (Sokoto, Zamfara, Borno, Yobe, Katsina, Kano, Kebbi, Jigawa, Bauchi, Taraba, de Gombe e Adamawa) e na zona sul que tem predominacia dos Cristãos temos os Estados de (Imo, Enugu, Anambra, Abia, Ebonyi, Delta, Edo, Bayelsa, Rivers, Cross River e Akwa Ibom) e na oeste e centro, tem um equilibrio rasuavel de Muculumanos e cristãos que compreendem os Estados de Lagos, Oyo, Ogun, Ondo, Ekiti, Osun, Kaduna, Niger, Plateau, Nassarawa, Benue, Kogi (Terwase,2012:105).

3.1.2. Conflito entre Muçulmanos e Cristãos na Nigéria

Existem vários aspectos que contribuíram para a eclosão do conflito na Nigéria. Estes conflitos são de naturezas étnicas, religiosas, regionais, tribais. Estes conflitos têm como causas históricas, políticas, económicas, sociais e até culturais. O colonialismo foi o factor importante na cristalização das identidades na Nigéria. Os britânicos fomentaram um mau desenvolvimento socio-ecónomico, político e uma má integração de vários povos nigerianos. Os britânicos como melhor forma de administração usaram a política de “dividir para reinar” (Osaghae e Suberu 2005:16). O colonialismo britânico valorizou a religião Cristã em detrimento dos Muçulmanas. Essa divisão criou um sentimento de exclusão e marginalização no seio do povo nigeriano.

Com o andar do tempo as disconfianças religiosas comesaram em diferentes partes do país. Esta consciencia tornou-se mais preponderante no norte da Nigéria, os simpatizantes do cristianismo e do islamismo começaram a falar do controlo politico através da filiação religiosa. As oportunidades de emprego, recrutamento para as forças armadas, e de admissão em instituições de ensino superior gradualmente assumiram dimensão religiosa. Esta consciência criou uma roptura na relação entre cristão e Muçulmanos (Ushe,2012:14). Portanto, pode se

perceber que a religião passou a ser um elemento importante e um instrumento para fins políticos e económicos.

Como consequência, no período pós-independência as rivalidades étnicas e religiosas tomaram proporções mais violentas entre os povos que já estavam divididas. Portanto, desde a independência em 1960, o governo nigeriano está vivendo uma instabilidade fruto de uma instrumentalização protagonizada por Cristão e Muçulmanos. As identidades regionais, étnicos e religiosos tornaram-se fortemente politizada. Extem vários episódios de conflitos religiosos entre Muçulmanos predominantes da zona Note que são dominados por Cristãos da zona sul (Falola e Heaton, 2008:8).

Tanto os muçulmanos assim como os cristão procuram transmitir os seus valores principais nas populações, eles incutem nos jovens e crianças a necessidade de preservar os valores religiosas para matar e ser morto, mas preservando os valores. Portanto, os muçulmanos que fazem mais a instrumentalização, explicam aos jovens desempregados sem educação que estão sofrendo porque cristão estão fazendo a corrupção que o governo está lhes roubando o que é deles por direito e que a melhor forma é lutar para poder satisfazer os direitos.

Estado nigeriano encontra-se fragmentado sob ponto de vista étnica, religiosa e tribal. O colonialismo britânico construiu o Estado nigeriano numa situação bastante fragmentada. Desde a independência, existem rivalidades da dimensão religiosa, étnica, que fragilizam ameaça a sobrevivência e a segurança do Estado. Estes conflitos são instrumentalizados por grupos étnicos, grupos religiosos que procuram satisfazer os seus interesses políticos e económicos. Estes conflitos têm como partes principais o governo cristão e por outro lado os Muçulmanos do Boko Haram. Os países da região como Camarões, Níger, Benim, Chade estão apoiando o governo nigeriano para resolver o conflito. A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Organização das Nações Unidas (ONU), União Africa (UA), União Europeia (EUA) Estados Unidos de América (EUA), Franca, Inglaterra, são as partes que estão traçando Mecanismos de resolução de conflitos religiosos na Nigéria.

Os conflitos na Nigéria manifestam-se em forma de guerra e violenta física com grande incidência em 1999 com ondas de manifestações entre Muçulmanos e cristãos. Mas, esta violência vem desde a incidência em 1960. Esta violência cria uma situação de insegurança

dentro do Estado nigeriano. A partir da década de 1980 vários conflitos étnicos e religiosos caracterizaram o Estado nigeriano. Exemplos proeminentes de conflitos religiosos partem do movimento Maitasitine que começaram em Kano em 1980 e continuaram em Bulunkutu (1982), Rigasa (1982) Jimeta (1984) e Gombe (1984) estes conflitos foram de natureza inter-religiosos, que culminaram em mais de 50000 mortos. Outros conflitos entre cristão de Ilori e Muçulmanos em 1986, o caso de Kafanchan em 1987, os conflitos de Bauchi em 1991, o Kano (Bonke) em 1991, Kaduna a cise de sharia em 1999-2000, a crise religiosa em Jos em 2001 e Kaduna em 2001, os tumultos em 2004 em Yelwa-Shendam, massacre de Cristão em fevereiro de 2006

(Akanji,2011:26).

Ainda na violência entre os Cristão e Muçulmanos (Sampson (2012:106-168) aponta alguns episódios de conflitos violentos. Em 1999 os fundamentalistas Kwara atacaram e destruíram 14 igrejas em Ilori destruíram vários imoveis. Em 2000 novo confronto entre cristão e Muçulmanos em Abas, Kaduna, Kano estes conflitos tiveram como causa a introdução da lei da Sharia, mas de 21000 pessoas foram mortas e muitos ferido, várias infra-estruturas foram destruídas. Em 2002 houve conflitos em Kaduna, em 2004 houve conflito em Bachama, e 2006 houve conflitos em Barno e Madruguei, em 2007 houve conflitos em Gombe cerca de 1750 pessoas foram mortas, igrejas, mesquitas destruídas e queimadas, muitos deslocados e muitos refugidos.

Em 2008, houve violência em Plateau e Jos, em 2009 em Makama, Bauchi, Barno, Kano, Yobo, Bauchi, mais de 3200 pessoas foram mortas, o grupo do Boko Haram foi suspeito pelos ataques, igrejas e mesquitas foram queimadas, e muitos refugiados. Em 2010 houve mais confrontos entre os Muçulmanos e Cristãos na aldeia de Dogo Nahawe, a aldeia de cristãs em Berom, houve assalto em Plateau em Bauchi em Jos estes ataques foram protagonizados pelo novo grupo islamita do Boko Haram e pelos cristãos , mais de 400 pessoas foram mortas e milhares foram deslocados. Em 2011 houve confortos entre Cristãos Muçulmanos em Rukuba, Farin, Abuja, Pastiskum, Damaturu e Madruguri, no Níger, ataque a sede das Nações Unidas. O grupo do Boco Haram foi o culpado e também os cristãos, mais de 200 pessoas foram mortas e 70 foram feridas e milhares de deslocados. Em 2012 suspeitos homens do Boko Haram invadiram uma reunião de cristão em Igbo, matando mais de uma dúzia e ferindo outas. Em 2013 o grupo Boko Haram actou em três Estado Borno, Yobe e Adamawa. Em 2014 o grupo do Boko Hram sequestrou mais de 329 estudantes em chiboko (Sampson,2012:169-201).

3.1.3. Causas do conflito entre Muçulmanos e Cristãos na Nigéria

Existe uma multiplicidade de causas de conflitos entre os Muçulmanos e cristão não Nigéria. O colonialismo, as disputas politica, económicas, sociais, a intolerância religiosa, disputas étnicas a falta de unidade nacional, privação relativa são algumas das causas do conflito entre as duas partes.

No que diz respeito a relações de poder entre as partes, pode se verificar que os Cristão do Sul detém um grande poder político e económico, em detrimento dos Muçulmanos do Norte. Os muçulmanos afirmam que nunca aceitarão um cristão como Presidente. Sempre que um cristão assume a presidência os muçulmanos começam a agitar para derrubar o governo. Aconteceu em 1999, quando foi eleito o general Olusegun Obasanjo, que era do sul e cristão. Quando os muçulmanos assumem o poder, ninguém reivindica a lei islâmica sharia. Isso só acontece quando há um Chefe de Estado cristão. Durante a presidência de Alhaji Umaru Yar’dua, quase não se verificaram ataques. Os confrontos recomeçaram com a eleição de Goodluck Jonathan. O Norte sente-se excluido, e tenta regressar ao poder desestabilizando o governo liderado por um cristão do sul 30 .

Do ponto de vista económico, o Sul cristão detém mais poder económico porque controla os benefícios do petróleo e gás em detrimento dos Muçulmanos do norte. Do ponto de vista militar, os Muçulmanos tem grandes capacidades de armamento bélico como Bombas, armas de grande calibre, fazem sequestros, fazem distrições a igrejas infra-estruturas, queimão casas, matam muitos cidadãos indefesos em detrimento dos cristãos que apesar de terem apeio ocidental não conseguem lutar de igual forma.

De acordo com Wache Paulo (2015) as causas do conflito entre Cristãs e Muçulmanos na Nigéria estão associados ao factor históricos, políticos e económicos. Do ponto de vista histórico, os do sul cristãos foram mais beneficiados pelos britânicos e por isso foram mais educado em detrimento dos Muçulmanos do norte. Os governos foram sempre do sul e os do norte sempre contestaram essa acção o que sempre gerou conflitos. Do ponto de vista politico, há uma disputa do acesso, controle e manutenção do poder político. Do ponto de vista económico, sendo o sul

e+feridos.shtml, acessado no dia 19 de Março de 2015 Maputo.

mais educado, dá mais acesso aos recursos do petróleo e gaz em detrimento do Norte, isso leva com que as elites do norte revindiquem a distribuição equitativa do poder económico.

Torty Livinus (2009:20) refere que as questões como a lei islâmica Sharia e a natureza secular do Estado nigeriano são tidas como causas do conflito entre cristãos e muçulmanos. Os muçulmanos defendem a introdução da lei Sharia, porque percebem como um aspecto integral

da maneira muçulmana. Os cristãos se opoem a Sharia em razão de que a Nigéria é um Estado

secular e defendem o não-envolvimento do governo em questões religiosas. Esta posição baseia-

se no princípio da separação de Estado e Igreja. Os muçulmanos, por outro lado, dizem que tal

principio da natureza secular do Estado nigeriano é fundada com basis anti-islâmico e pró- cristã. Os cristão veem a sharia como uma ameaça à unidade nacional e estadual, a meaça a paz e a coexistência harmoniosa. Também consideram a sharia como uma ameaça para as práticas da

fé, bem como uma ameaça para a democracia e desenvolvimento nacional (Awojobi,2004:6).

As questões sócio-político, económicos e a governação são factores que levam a conflitos religiosos na Nigéria que estão associados a negligência do Governo, opressão, dominação, exploração, vitimização, a descriminação, a marginalização, o nepotismo a intolerância, a instrumentalização da religião, corrupção, o aumento da desigualdade entre os ricos e pobres, contextuação sobre a terra, a violação dos direitos humanos, a fragilidade das instituições do Estado em termos de gerir e resolver os conflitos (Terwase,2012:113).

3.1.4. Estágio do Conflito e Processo da sua Resolução

O real estágio do conflito na Nigéria é de escalada de violência, caracterizado de grandes

hostilidades entre as duas partes rivais. As partes não mostram cedência para possíveis negociações. Estas situações do conflito são caractacterizados por violência física que é

protagonizado pelo grupo muçulmana extremista do Boko Haram. Por exemplo, ele diz que quer dividir a Nigéria em dois, norte e sul, mas também que toda a Nigéria deve vir sob a lei sharia e

se converter ao islamismo. Ele também exigiu que Goodluck Jonathan deve se converter ao

islamismo. Eles exiegem que os seus menbros que foram presos pelo governo devem ser libertos

e devolver todos os bens que foram tirados. Devem ser presas as pessoas responsaveis pelo assassinato de Mohammed Yusuf (Walk,2012:11). O governos também não cede a estas posições

do grupo islâmico, no posicionamento de que o estado é secular não pode funcionar com base nas leis religiosas.

De acordo com (Awojobi,2004:10) as propostas de resolução de conflitos entre Muçulmanos e Cristão na Nigéria incluem a promoção de compreensão religiosa e de educação; estabelecimento de um diálogo religioso; promoção da paz religiosa. Os líderes religiosos devem dar orientações correctas sobre as doutrinas religiosas que irão promover a coexistência pacífica entre os dois grupos. As escolas devem ensinar e promover a tolerância religiosa e da paz na sociedade. Além disso, deve haver o estabelecimento de diálogo inter-religioso para resolver os conflitos religiosos. O diálogo religioso se refere a discussões formais ou oficiais entre os dois grupos. O diálogo não deve ser destinado para conversar, mas para facilitar o melhor relacionamento entre os simpatizantes das religiões; explorar a forma como os recursos espirituais da religião podem contribuir para alguns dos desafios comuns que a sociedade enfrenta diariamente; propor formas práticas de cooperação entre os simpatizantes religiosos especialmente Cristão e Muçulmanos.

As preocupações centrais para a resolução de conflito devem envolver a desmarginalização, e inclusão política e socio-econômica destas populações. Intervenções militares e ingerências externas devem ser descartadas, visto que encorajam o extremismo e o radicalismo doméstico. Melhor distribuição de recursos naturais e financeiros, inclusão política e socio-econômica e negociações políticas de longo prazo são fundamentais para que se alcance a paz e se promova a reconstrução social da região (Woods, 2013:2).

3. 3. A instrumentalização da religião do Grupo Muçulmano do Boko Haram como Factor de Insegurança na Nigéria e na Região

O grupo Islâmico do Boko Haram é uma das grandes ameaças que cria instabilidade, ameaça a soberania, a integridade territorial a segurança e a sobrevivência do Estado nigeriano. Em língua Hausa 'Boko' significa livro (especialmente Ocidental ou estrangeiras), enquanto 'Haram' é uma palavra árabe que significa "proibido", "ímpio" ou "pecaminoso". Assim Boko Haram significa rejeição pura de educação da cultura e da ciência ocidentais moderna. O grupo defende a propagação e estreita adesão ao Islão em sua forma mais pura. Portanto, o grupo procura islamizar a Nigéria por todos os meios à sua disposição e a qualquer custo humano

(Forest,2012:103).

O grupo para instrumentalização da população recorre ao suborno de crianças e jovens para que

denunciem vizinhos que não perfilham as suas ideias e obriga os prisioneiros que liberta a

integrarem as suas fileiras, quer estes partilhem ou não a sua ideologia. O grupo tem apoio dos jovens pobres e marginalizados muçulmanos que se identificam com a causa do Boko Haram transformando o norte num centro de instabilidade. Este facto tem graves implicações de segurança e económicas para a região em geral e para os parceiros internacionais

(Sodipo,2013:2).

O grupo islâmico do Boko haram fundou uma escola, onde matricularam muçulmanos pobres da

Nigéria e da região para aprender os valores religiosos muçulmanos. Esta escola tornou-se um centro de recrutamento de jovens que sente-se excluído dos possessos políticos, onde são transmitidos os valores religiosos muçulmanos e radicalizando todos os ideias cristã e tudo que vem do ocidente. Portanto, a priorização dos valores muçulmanos passaram a ser um instrumento usado por líderes para a satisfação dos interesses. O grupo tem influência no norte da Nigéria onde a maior parte da populcao é pobre sem educação são desempregados e não tem oportunidades económico. As crianças pobres são mandadas pelos sus familiares para estudar o Islão, e depois são arrastados para confrontos religiosos (Sodipo,2013:4).

O grupo tem feito ataques bombas nas esquadras de polícias, igrejas, quarteis, prisões,

instituições públicas, assassinato em massa, queimam carros, faz sequestros. Em contra partida, o governo tem sido pouco eficiente para responder as acções do grupo, colocando o Estado numa vulnerabilidade. O ponto de escalada de violência foi a 14 de Abril 2014 com o sequestro de mais de 329 meninas, num internato em Chiboko, no nordeste da Nigéria. Este sequestro ganhou grandes interesses a nível internacional no sentido de repudiar (Ajayi 2012:105),

As pessoas estão vivendo em um clima de medo e insegurança, vulnerável a ataques do grupo

islamico do Boko Haram. Como cosequencia Piter (2014:4), centenas de pessoas estão mortas, milhares de famílias foram separadas e centenas de milhares de pessoas fugiram dos Estados afetados e foram buscando refúgio em países vizinhos ou foram deslocados internamente. O grupo do Boko Haram é um desafio a segurança, na Nigéria. O uso da força para resolução de conflito funcionou no passado (visão realista) mas revela-se ineficiente para o caso do Boko Haram. Isto deve-se a alguns factores: O Boko Haram al- Qaeda usam estratégia que fazem atentados suicidas, assassinatos e usam a estratégia de guerrilha para desencadear a violência na

comunidade politica; o segundo ponto tem haver com sistema de liderança difusa, o que torna impossível para iniciar um dialogo (Nwozor,2013:1).

Oficialmente o Boko Haram alega que luta pela Sharia, combate a corrupção do Governo, a falta de pudor das mulheres, a prostituição e outros vícios. Segundo eles os culpados por esses males são os cristãos, a cultura ocidental e a tentativa de ensinar algo a mulheres e meninas. O grupo não concorda com o regime político nigeriano, porque é corrupto. O norte da Nigéria é uma região pobre, o sul é rica por causa do petróleo e gás, e em muitos estados há sempre essa disputa de lugares onde há recursos. O Boko haram detém o controlo de vários estados do norte que tem o nível de escolaridade baixo, alta taxa de pobreza, e onde a educação religiosa islâmica é um dos elementos de instrumentalização e politização (Zeca,2015:1-2).

O Boko Harm é uma grande ameaça à segurança do Estado nigeriano é também uma ameaça a

segurança regional, continental e até mesmo global. Este grupo cria instabilidade e insegurança devido ao seu modus operand que concentra-se em ataques terroristas, sequestros e intimidações. Devido as incursões levadas a cabo pelo movimento Boko Haram, o processo governativo, na Nigéria entrou para uma situação de crise. O Estado nigeriano sente dificuldades em fazer face a este grupo. Quase sempre que as Forças de Defesa e Segurança foram solicitadas para intervir com vista a fazer face a uma situação em que o grupo agiu teve dificuldades de trazer resultados positivos (Zeca,2015:2-3). As acções do Boko Haram extrapolam as fronteiras nigerianas e passam a fectar estados vizinhos como Camarões, Costa de Marfim e Chad. Estes avanços colocam em perigo vários estados da região do Sahel, com a agravante de que no Corno de África e Africa Ocidental existir o grupo terrorista Al Shabab que semeia terror, instabilidade e insegurança naquela região

De acordo com Cadeado Calton (2015) 31 as acções do grupo Islâmico do Boko Haram ameaçam

a segurança pública pelo nível de violência que usam. Este grupo cria intranquilidade,

perturbação a ordem, cria destruições a propriedades públicas e privadas. Estas acções estão ater um reflexos económicos e sociais nas regiões onde eles atacam. Cria ameaças a segurança do

Estado, na medida em que está alargar as árias geográficas de actuação. Ele está actuar na zona norte da Nigéria mas por causa do seu alargamento de actuação a curto ou a longo prazo pode

31 Cadeado Calton(2015) docente do (ISRI) entrevistado no dia 15 de Março

reclamar o secessionismo do Estado. Sob ponto de vista regional, temos a regionalização do Boko Harm que esta a criar um efeito spill over. Tem células que estão a criar em outros Estados. A nível internacional existem Estados que estão interessados em resolver o conflito como os casos dos Estados Unidos de América (EUA), Franca, União Africana (UA), então o assunto acaba sendo internacionalizado.

Tudo indica que uma espécie de negociação, com a tentativa de perceção das reiais motivações terroristas, pode ajudar na resolução de um conflito desta natureza. A partir desta via, podem desenhar-se políticas públicas de integração destes grupos, para que não olhem o terrorismo como meio para a obtenção, e controlo, do poder. Esta dimensão toma o caracter multidisciplinar, implicando coordenações de acções de nível multilateral e multissectorial envolvendo o exército, polícia, serviços de inteligência, antropólogos, juristas e técnicos de resolução de conflitos para pacificar e propor mecanismo alternativos ao uso da força (Zeca,2015:6). Portanto, a instrumentalização da religião protagonizada pelo grupo islâmico do Boko Haram constitui grande ameaça a segurança nigeriana a região e o mundo no geral. O Grupo ameaça a sobrevivência e ao colapso do Estado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O período pós-guerra fria mudou o paradigma de conflitos inter-estatal para intra-estatal.

Durante a guerra fria, os Estado conflituavam-se uns com outros mas no período pós guerra fria,

os conflitos são intra-estatais, isto é são conflitos que acontecem dentro dos Estado e que tem

actores internos do Estado. Os conflitos do pós-geurra fria deixaram de ser predominatimante geopoliticos e geostrategicos, não são mais entre ricos e pobres, mas sustentam-se nas bases identitarias. Neste periodo, há um recrudescer das rivalidades éticas, religiosas, rácica, tribal, linguística, sexo, entre os povos pertencente ao mesmo Estado.

Analisado no contexto africano, muitos Estados africanos surgiram estes conflitos identitários no período pós-independência. Um dos factores foi Ocidente em que em alguns Estados africanos dividiu o povo em diversas etnias e religiões, dando primazia a alguns em detrimento de outros. Nesta vertente, depois da independência povos pertencentes a certas religiões e etnias sentiram-

se excluídos dos processos políticos, económicos, sociais e culturais o que culminou em guerras, golpes, tensões políticas, conflitos violentos entre povos do mesmo Estado.

As identidades étnicas e religiosas não são por si só fontes de conflitos, elas se tornam fontes de

conflitos quando instrumentalizados pelas lideranças para a satisfação dos interesse quer sejam politicas, económicas e até culturais. Olhado para o caso do Sudão aqui analisado, mostra que os lideres Muçulmanos e Cristãos instrumentalizaram a religião para a satisfação dos interesses tanto políticos assim como económicos. Na mesma perspectiva, o Ruanda mostra que a instrumentalização da identidade étnica entre os Hutos e o Tutsis tem como objectivo final o alcance, manutenção e controle do poder político. O caso de Moçambique é diferente, apesar de apresentar uma diversidade étnica e religiosa, estas não são factores de conflitos, isso pode estar

associado a construção robusta do Estado/Nação.

Olhando para a situação na Nigéria, mostra que o país teve grandes dificuldades na edificação do Estado/Nação. Os britânicos usaram um sistema de governação distintiva privilegiando a minoria cristã do sul em detrimento da maioria muçulmana do norte. O sul teve mais privilégios de ensino, com uma economia mais forte e sempre estiveram a controlar o poder político e económico. No período pós-independência, Nigéria viveu um cenário instabilidade

acompanhado de conflitos, golpes, tensões étnicas, violência entre as populações que sentiram-se marginalizadas na participação política, económica e social do país.

Os líderes religiosos na Nigéria usam um realismo de uso do poder coercivo para a satisfação dos interesses políticos e económicos. A religião passou a ser o meio da instrumentalização da população a favor dos líderes nigerianos. Portanto, esta instrumentalização da religião está a criar insegurança nacional e regional; dificulta a coesão socio-politica e socio-económica; fragiliza unidade nacional. Os regimes dos presidentes Olusegun Obasanjo, Yar Adua, e Goodluck Jonathan, formam desafiados por grupos militares que querem controlar o poder político e económico desde a implemantação da democracia, em 1999.

O grande desafio da seguranca nacional da Nigeria é a conteção de diversas manifestações de

violência liderado pelo grupo Boko Haram, desde 2009. O grupo usa a religião islâmica para mobilizar a população islâmica e civis ao combate em protesto da privação relativa. O grupo tem protagonizado uma vaga de violência fazendo ataques, sequestros, assassinato, ataques bombas

as esquadras da polícia em muitos Estados nigerianos. O grupo tem ganhado grandes simpatias

dos jovens analfabetos sem emprego, vulneráveis que identificam-se com a causa e lutando pelos seus direitos. O grupo cria uma situação de terror, medo, tensão, guerra, fragilizando a

integridade e a soberania do Estado. Um dos problemas que se coloca é a inépcia do governo em resolver a questão do conflito interno.

O governo precisa de traçar estratégias de curto e longo prazo que possam resolver os conflitos

violentos na Nigéria. O governo deve promover medidas claras de inclusão e partilha do poder política, económica e cultural; deve promover diálogo forte da dimensão étnica religiosa; é preciso promover o desenvolvimento económico equitativo; é preciso promover a paz e reconciliação religiosa; é preciso promover espaços de debates da dimensão religiosa. É preciso incutir nos líderes religiosos para disseminaram acções que possam reconciliar os fiéis das religiões cristã e muçulmanas a necessidade de aceitarem-se mutuamente; o governo precisa fazer desmobilização étnica, religiosa e tribal, para trazer uma paz efectiva dentro do estado nigeriano.

Portanto, chega-se a constatação de que as identidades étnicas e religiosas constituem factores de conflitos e insegurança quando instrumentalizadas pelas lideranças para a satisfação dos interesses políticos e económicos; a identidade religiosa é uma umbrela usada pelas elites muçulmanas e cristãs na Nigéria, para a satisfação dos interesses políticos e económicos; a instrumentalização da religião protagonizadas pelo grupo Islâmico do Boko Haram constituem uma ameaça a segurança e a sobrevivência do Estado nigeriano e de outros Estados da região.

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http://www.nigerianrome.org/about-nigeria/government-politics. acessado no dia 22 de Março de 2015.

Entrevistas

CADEADO, Calton (2015) docente de Estudos de Paz e conflito, Estudos de Seguranca no ISRI, entrevistado no dia 12 de Março de 2015 em Maputo.

LUNDIM, Iraê (2015) Regente de Metodologia e investigação Cientifica no ISRI, entrevistada no dia 16 de Março de 2015 em Maputo.

WACHE, Paulo (2015) Docente de Geopolítica e União Europeia no ISRI entrevistado no dia 9 de Março de 2015 em Maputo.