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RIDENTI, Marcelo. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança.

Tempos revolucionários Anos 60: revolução, mais que pensar cidadania e democracia revolução em todos os sentidos. Pensamento tão vigente que os próprios golpistas usaram. Conceito romantismo revolucionário de Michel Löwy e Robert Sayre. Alternativa 3º Mundo: construir o homem novo: “buscava-se no passado uma cultura popular autêntica para construir uma nova nação, ao mesmo tempo moderna e desalienada, no limite, socialista.” [p. 136] Romantismo revolucionário: versões de esquerda para as representações da mistura do branco, do negro e do índio na constituição da brasilidade, não mais no

sentido de justificar a ordem social existente, mas de questioná-la (

só tempo suas raízes (do povo) e a ruptura com o subdesenvolvimento.” [p. 136] Esse romantismo revolucionário estava diretamente ligado aos movimentos do romantismo revolucionário no mundo e não deixava de “beber na fonte” do movimento da Semana de Arte Moderna de 22, ou seja, buscavam uma identidade brasileira, mas já em outro contexto: da chamada “modernização conservadora, associada à modernidade capitalista. Era contra essa modernização que artistas e intelectuais se mobilizaram (contra o Estado autoritário e as políticas implantadas por ele com o golpe de 64). Artistas da revolução brasileira O autor explica como foi essa busca pela brasilidade nas artes, principalmente no teatro e no cinema. 1955: Teatro Paulista do Estudante (TPE) formado por filhos de militantes do PCB que tinham como objetivo politizar seus colegas da União Paulista dos Estudantes Secundaristas. Florescimento cultural: buscar identidade, vinculação cultura e política que se estende até o AI-5, de 1968. TPE se junta ao Arena (que atua desde 1953) em 1956: renovação dramaturgia nacional:eles não usam Black-tie, 1958, cotidiano dos trabalhadores, teatro participante e autenticamente brasileiro. Teatro Oficina: influenciado pelo Arena. Apesar das divergências que surgiam, todos estavam preocupados em vincular arte e política, buscando no teatro uma forma de expressão das ideias de identidade e revolução.

buscava-se a um

)

Dissidentes do Arena + UNE= CPC, que gerou o UNE Volante, levando para os

4 cantos do Brasil, numa época em que nem todos tinham TV e principalmente para os centros universitários, propostas de intervenção na política nacional, reformas de base.

Os poetas ligados ao CPC enfocavam, em seus poemas, a liberdade no sentido

utópico romântico do povo-nação, regenerador, redentor da humanidade: “os poetas

engajados das classes médias urbanas insurgentes elegiam os deserdados da terra ainda no campo ou migrantes nas cidades, como principal personificação do caráter do povo

brasileiro (

melancólica de uma comunidade mítica já não existente e a busca do que estava

perdido, por intermédio da revolução brasileira.” [p. 140-1] A abstração se ancorava na insurgência dos movimentos de trabalhadores. Os artistas representavam esses movimentos insurgentes como uma busca de uma identidade brasileira pela revolução, pois naquele contexto era viável. Cinema novo Glauber Rocha, Caca Diegues. “O cinema estava na linha de frente da reflexão

sobre a realidade brasileira, na busca de uma identidade nacional autêntica do

cinema

Mesmos propósitos do teatro. Defesa de uma arte nacional-popular que

Pairava no ar a experiência de perda da humanidade certa nostalgia

).

”.

colaborasse para a desalienação das consciências, destacando, contudo, a autonomia estética da obra de arte. A reação cultural e política ao golpe de 1964

O que Ridenti destacou anteriormente foram as ações políticas e culturais

tomadas no pré-1964. A partir desse subtítulo ele passa a destacar o movimento político cultural que ocorreu nos anos 1964 em diante em relação ao golpe militar. Contexto de despolitização dos movimentos populares e sindicais, melhores condições de organização política apenas para a classe média intelectualizada (estudantes, artistas, etc). Esquerda forte na cultura, “hegemonia cultural” da esquerda (Schwarz).

Aproximação teatro e MPB (criação do termo). Classes populares, migrantes nordestinos e classe média podiam se juntar para mudar situação. Destaque para o teatro Opinião influência para resistência artística à ditadura. Oficina: estudantes da Sanfran (1958), ligação com o Arena. Influências de Oswald de Andrade ao encenarem a peça dele O rei da vela revolução ideológica e formal.

Naquele momento, tomavam espaços as discussões a respeito do que se poderia fazer contra o regime que se implantava. Não se pensava mais apenas naquela retomada às origens, a busca da identidade nacional, mas também “uma maneira nativa para se comunicar a realidade do país”, seu papel (do Brasil), naquele momento, como dependente econômico. “Problemática romântica permanece numa outra perspectiva: encontrar o homem brasileiro pela regressão antropofágica ao índio devorador dos representantes da cultura ocidental.” [p. 145] Se pretendia mobilizar as classes médias (público que tinha acesso àquela cultura), fazendo com que ela reconhecesse seus privilégios. Esse novo movimento que advinha do pós-64 foi chamado de Tropicalismo. Tropicália O tropicalismo foi um movimento que repercutiu entre os anos 67-68, principalmente com a música popular. Seus integrantes, em sua maioria, estavam antenados com os acontecimentos internacionais: movimento contra cultura, contexto guerra Vietnã e o que os artistas internacionais produziam. A tropicália seria uma tentativa de criar “uma verdadeira cultura brasileira, característica e forte, expressiva ao menos, essa herança maldita européia e americana terá que ser absorvida, antropologicamente, pela negra e índia de nossa terra.” [p. 147] Como se percebe, o tropicalismo se diferenciava da cultura nacional-popular, pois ele se voltava contra as Belas-Artes, que se caracterizava, segundo os tropicalistas, pela reprodução cultural feita pela indústria. Além disso, eles não estavam procurando embasamento no marxismo e na revolução, naquele momento estavam mais a esquerda da esquerda, como disse Caetano Veloso, apesar de não se desvincularem da procura pela identidade. Tentavam explicar e propor soluções para os problemas humanos e mundiais tendo o Brasil e o Terceiro Mundo como objeto. Assim, havia dois pólos culturais distintos, mas que se entremeavam pela década de 60: os nacionalistas populares da MPB e os tropicalistas da MPB e sua guitarra elétrica. Eles não queriam romper com o nacionalismo, mas ampliavam seu contexto para a escala mundial. Em dezembro de 1968 foi baixado pelo regime civil militar, o AI-5, chamado de “golpe dentro do golpe”, o qual censurou todos os meios de comunicação e colocou um

fim à agitação política e cultural. Muitos artistas, estudantes, intelectuais foram presos, torturados, exilados. Coordenadas históricas do florescimento cultural e político (argumentos para as diversas formas de resistência Contexto interno: movimentos libertários; contexto nacional e internacional:

urbanização, consolidação modos de vida e cultura metropolitanas. Brasil (anos 50-68): luta contra o poder remanescente das oligarquias rurais e suas manifestações políticas e culturais; um otimismo modernizador com o salto na industrialização a partir do governo JK; impulso revolucionário, alimentado por movimentos sociais e portador de ambigüidades nas propostas de revolução brasileira, democrático-burguesa. [p.154] Os anos pragmáticos O autor fala em “derrota das esquerdas brasileiras” nos anos 70. “Perdeu-se a proximidade imaginativa da revolução social, paralelamente à modernização conservadora da sociedade brasileira e à constatação de que o acesso às novas tecnologias não correspondeu às esperanças libertárias no progresso técnico em si.” [p.

154].

Incorporação dos artistas e intelectuais à nova ordem, feita as avessas do que se pretendia na década anterior. Profissionalização da arte. Cultura de massas, florescimento indústria cultural. Para Ridenti, os anos 70 frustraram as artistas, intelectuais, estudantes do período anterior, que tentavam propor uma contra cultura e agora precisavam se enquadrar à modernização conservadora importa pelo regime. Parece que os anos 70 foram anos ruins, nesse sentido, que só levaram à mercantilização cultural colocada pela nova ordem e que não teria mudado muito, mesmo após a ditadura. Nada será como antes. Nada? Visão pessimista sobre a década de 70, que parece para o autor como “década perdida”. Nos anos 80 surgiriam reivindicações: revalorização da democracia, individualidade, liberdades civis, luta das minorias. Partidos políticos mobilização: o autor destaca Eder Sader e seu livro Quando novos personagens entram em cena, de 1988. No campo cultural, o intelectual engajado daria lugar ao profissional, com a profissionalização da vida cultural.

Todos os artistas seriam acoplados pela nova ordem e enquadrados em respectivos campos e aquele artista indignado dos anos 60 se via frustrado. O autor não destaca bem o contexto dos anos 80, ele mais o compara com os 60 e suas representações culturais, sendo um pouco pessimista com os rumos tomados nas artes. “A vivência das contradições da modernidade pode levar o intelectual e o artista ao engajamento na mudança, ou a preferir adaptar-se à ordem em transformação constante, aceitando o “destino”, livre do dilaceramento existencial. Em vez do intelectual revoltado contra o mundo, ou revolucionário a propor um novo mundo típico dos anos 60 -, consolida-se o intelectual reconciliado com o mundo, no qual reconheceria o eterno e inevitável movimento em que deve se inserir e não combater ” [p. 160] A profissionalização da vida cultural, a institucionalização de intelectuais e artistas, o distanciamento físico (das universidades) e “mental” (individualismo) fez com que eles se despolitizassem. Para o autor não se pode reviver o passado, mas retomar suas esperanças, fazer projetos coletivos de transformação social, que desarticulem a hegemonia burguesa são necessários, como o movimento Arte contra Barbárie.