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IRA J. TANNER

SOLIDÃO:

MEDO DO AMOR

Tradução de A. B. PINHEIRO DE LEMOS

EDITORA RECORD

À minha esposa, June, e minhas quatro filhas, Kathy, Connie, Kristi e Mary Beth, cada uma das quais poderia, talvez, escrever um livro sobre solidão/isolamento, dado o tempo que passei afastado delas escrevendo este livro.

Índice

Prefácio

Introdução

1

solitários 2. As paredes que as pessoas erguem em torno de seu medo

3

Partimos

Como

escapamos

à

responsabilidade

por

nossa

solidão

4

5

Sentir-se

compreendido é sentir-se amado Como

a

mudança afeta a nossa solidão .

6

Tirando

o

máximo proveito de estar só

7

Assumindo

a

responsabilidade por amar

8

Solidão

e tempo

9

Solidão

no

casamento e na família

10.A solidão e o isolamento das pessoas idosas

11

religião

Solidão

e

Prefácio

Além da minha clínica particular, nos últimos anos tenho trabalhado também com o Instituto de Análise Transacional de Sacramento, Califórnia, fundado pelo Dr. Thomas A. Harris, que é também o presidente da instituição. Alguns leitores, já familiarizados com esse novo ângulo do campo da comunicação humana, podem reconhecer muita coisa da linguagem da Análise Transacional, aqui aplicada à doença da solidão. Para outros, este livro será uma introdução. Sinto-me profundamente grato a inúmeros colegas, com os quais tenho trabalhado ao longo dos anos: Dr. Harris, Dr. Gordon Haiberg, vice- presidente do Instituto, Mare Kluender e Russell Osnes. Alguns dos conceitos deste livro foram desenvolvidos a partir de contatos que tive no Ins- tituto. A parte maior, no entanto, provém do trabalho com indivíduos na minha clínica particular. Alguns, ao saberem que eu estava escrevendo este livro, foram de grande ajuda, escrevendo ou relatando verbalmente seus sentimentos e experiências de solidão. Com a devida permissão, mas sem citar nomes, incluí nesta obra algo do que eles partilharam comigo. Todos os problemas que os pacientes me apresentaram e tudo o que aconteceu em minha vida, ao longo dos últimos 20 anos, ressaltou não apenas a necessidade de escrever este livro mas, também, o tema escolhido. Tudo contribuiu para isso: minha carreira, meus relacionamentos, am-

plos e diversificados, a experiência que só o passar dos anos pode trazer. Portanto, o fato de eu haver escolhido a solidão como tema não foi apenas acidental.

IRA J. TANNER

Introdução

Depois de gastar cerca de dois minutos para consertar a caldeira de uma casa no subúrbio, um

bombeiro cobrou a quantia de 30 dólares por seu trabalho. O dono da casa ficou furioso, lançando-se

a um discurso interminável, vociferando uma série

de coisas, da inflação à desonestidade do bombeiro. Você limitou-se a dar uma olhada na caldeira e depois bateu uma única vez com o martelo! — berrou ele. É isso mesmo — reagiu o bombeiro, tranqüilo e

confiante. — Cobrei cinco dólares pela visita e 25 dólares por saber onde bater.

E recebeu seu dinheiro.

Costumamos entregar muito dinheiro às pessoas por saberem onde bater, mesmo se algumas vezes não passa de um único golpe com o martelo. A mesma coisa acontece com a imensa variedade de males humanos, quer sejam de natureza emocional, física ou espiritual. Mas com a doença que se chama solidão nem sempre temos sabido onde bater. A solidão é a experiência pessoal mais comum a todos nós, mas, apesar disso, é também a menos compreendida. Geralmente, seu diagnóstico,

quando ocorre, é vago ou positivamente enganoso. Atualmente, in contáveis multidões estão sofrendo dessa doença e não recebem qualquer tratamento, simplesmente porque ignoram a natureza do mal. Até que o problema seja compreendido e devidamente diagnosticado, não pode haver qualquer prescrição eficaz para a cura. Uma das razões pelas quais a doença atingiu agora proporções epidêmicas é o fato de que freqüentemente permanece oculta, sob o disfarce de muitas outras experiências da vida. Se insistirmos em chamar de solidão tudo o mais, exceto o que realmente o é — SOLIDÃO — continuaremos a tatear às cegas, em busca da cura. Às vezes usamos a palavra solidão para designar nostalgia ou melancolia. Mas não são absolutamente a mesma coisa. Também usamos a palavra para descrever os sentimentos que caracterizam determinados períodos da vida, es- pecialmente a velhice. Nosso maior erro é não distinguir entre "estar só" ou "isolamento" e "solidão". Nossos períodos de isolamento, se permitirmos que aconteçam naturalmente, podem figurar entre os mais gratificantes da vida. É possível estar sozinho e não sentir solidão. Somos solitários por causa do nosso medo do amor. Um homem disse, ceticamente:

—Medo do amor? Você deve estar brincando! Como as pessoas podem sentir medo da única coisa que faz o mundo girar, da coisa mais

desejada por todos os homens, mulheres e crianças? Não, isso não faz sentido. Concordo. Intelectualmente, não faz o menor sentido. É mais compreensível, por exemplo, dizermos ter medo de cobras, de altura ou talvez do assustador carrossel do parque de diversões. Mas ter medo de amor? É como ouvir alguém anunciar:

—A cobertura mais saborosa para sorvete de creme é mostarda. Para alguns, portanto, não faz sentido dizer que o medo de amor e solidão são a mesma coisa. Contudo, sempre que tomamos coragem para revelar a alguém que nos sentimos solitários, é justamente isso que estamos declarando, por mais ilógico que possa parecer. É porque as duas pala- vras, medo e amor, usadas juntas, parecem tão incompatíveis que nem sempre compreendemos a solidão como o que realmente é. Uma mulher divorciada, que optou por um trabalho no turno da noite como meio de atenuar sua solidão, declarou:

—Às vezes, passo por diversos graus de solidão, num só dia. Posso experimentar apenas um pouco de medo de amor pela manhã, mas, à tarde, num ambiente diferente, com pessoas diferentes, o medo assume proporções de puro terror e entro em pânico. Nossa compreensão da solidão depende principalmente da perspectiva pela qual encaramos o amor. De um modo geral, consideramos o amor sob quatro pontos de vista diferentes.

"Não mereço ser amado e provarei isso." Eu não estou ok — Você está ok. "Não confio em pessoas que prometem dar amor e provarei isso." Eu estou ok — Você não está ok. "Desisti de tentar dar ou receber amor." Eu não estou ok — Você não está ok. Essas três atitudes vitais são caracterizadas pelo medo do amor. Nossa esperança está na quarta posição: Eu estou ok — Você está ok. Depois de nela vivermos por períodos sempre mais prolongados, começamos a nos erguer acima do medo do amor e gradativamente nos afastamos de nossa solidão básica. A natureza do medo do amor é também moldada pela crença relativa à natureza básica do homem:

será que é "bom" ou "mau"? Expressa mais vigorosamente na crença religiosa, especialmente na doutrina que encara o homem como um pecador, a maneira pela qual a solidão e a religião estão relacionadas é analisada no Capítulo 11 deste livro. A razão pela qual muitos de nós jamais conseguem romper os grilhões da solidão é porque insistimos em atribuir aos outros a responsabilidade pelos nossos temores em relação ao amor. Isso pode ter sido uma atitude natural quando éramos crianças indefesas e dependentes. Mas assumir papel de vítima depois da infância possibilita que se passe a vida meramente reagindo a outras pessoas e acontecimentos, sem jamais assumir a responsabilidade pessoal por agir. Se é esse o caso, a solidão é fabricada pela própria pessoa.

A vasta maioria dos americanos vive atualmente

em áreas metropolitanas. Setenta por cento

habitam apenas dois por cento do nosso território.

A impressão que se tem é de que; ao se

agruparem desse jeito, as pessoas estão en- contrando a resposta para a solidão. Mas não é isso o que acontece. A companhia de outras pessoas não nos torna imune à doença. Freqüentemente, na verdade, quando estamos cercados por outras pessoas, o medo do amor, já presente em nós, pode ser agravado até o desespero, o pânico ou mesmo uma solidão ainda mais profunda. A solidão não conhece limites. E sentida pelos

ricos e pelos pobres, por pessoas famosas e por gente desconhecida casados' e solteiros, homens e mulheres, crianças e velhos, nas cidades e nos campos. É como assinala a novelista Faith Baldwin: "Não acontece apenas nos dias sombrios. Pode nos dilacerar como uma faca afiada numa linda manhã de primavera ou numa tarde dourada

de verão, onde quer que estejamos, o que quer

que façamos." Refletindo sobre a persistência obstinada e insidiosa da solidão, um paciente internado num hospital comentou:

— A solidão está sempre à espreita, aguardando o

momento de dar o bote e nos dominar. Depois que o faz, é muito difícil nos livrarmos dela. É preciso muito trabalho, um tremendo esforço, uma reação árdua. Uma das maiores revelações que já tive, como conselheiro matrimonial e familiar, foi a descoberta de que a solidão mais intensa

encontra-se justamente dentro do lar e no seio da família, quando a comunicação está em processo de rompimento ou já foi inteiramente destruída. Por trás da falta de comunicação, há quase sempre um medo do amor, um medo que se expressa por muitas atitudes e comportamentos diferentes.

se expressa por muitas atitudes e comportamentos diferentes. A linguagem simplista da Análise Transacional proporciona

A linguagem simplista da Análise Transacional proporciona os meios para que possamos compreender mais facilmente o que vem a ser personalidade e comunicação. O conceito de personalidade Pai-Adulto-Criança é particular- mente aplicável à doença da solidão. A posição de Criança Não-ok, dentro de cada um de nós, é uma posição de medo, um medo que se

manifesta mais prontamente nos sentimentos de solidão. Nas páginas seguintes, iremos analisar a natureza do problema, a partir da infância e através dos diversos estágios da vida.

1. Partimos solitários

"É a solidão que produz o ruído mais alto. Isso se aplica tanto aos homens quanto aos ca- chorros. "

— ERIC HOFFER

Em nossa cidade, quando se disca para um determinado telefone, há um silêncio momentâneo, logo quebrado por uma agradável voz feminina, evidentemente gravada, que anuncia regularmente:

—São exatamente A companhia telefônica talvez não saiba, mas há pessoas que discam para esse número constantemente, sem o menor interesse pela hora, querendo apenas ouvir uma voz; contentam-se melancolicamente com uma voz gravada, que comunica de forma automática, algo de tão impessoal quanto a hora. Uma pessoa nessa situação, refletindo os sentimentos de muitas outras, comentou:

—Sinto uma necessidade tão intensa de ouvir o som de uma voz humana adulta, especialmente durante as horas solitárias da noite, que ligo para

o serviço de hora certa e fico escutando durante

algum tempo. Isso ajuda, a princípio. Mas depois sinto vergonha por ter que recorrer a tal expediente.

Não resta a menor dúvida de que existem hoje em dia outras pessoas, em muitas outras cidades, cujo medo do amor colocou em situações tão angustiantes que também elas recorrem (e temporariamente se contentam com) a expedientes tão patéticos quanto telefonar para uma gravação ou ligar o rádio, a fim de se manter em contato com outros seres humanos. Solidão. A própria palavra, talvez mais do que

qualquer

outra tem um som triste, se não mesmo lúgubre.

Alguém

já muito idoso, sentado num banco de praça, a

expressão

melancólica, observando os jovens e a vida a

passarem?

Talvez. Mas pode ser também alguém que é sempre o primeiro a oferecer seus serviços como treinador de uma equipe esportiva amadora, o aluno da escola que é escolhido como o mais

provável vitorioso na vida, o vendedor do mês ou o homem do ano. "Desgaste nervoso — estafa — colapso”. Tais casos raramente são diagnosticados como

conseqüências

do medo do amor, mas com freqüência, é

esse

justamente

o caso, ao invés de excesso de trabalho, desculpa

sempre

apresentada. Atinge aquelas pessoas que parecem ser as candidatas menos prováveis, porque estão sempre cercadas por outras pessoas. A nossa reação costumeira, ao sabermos que essa determinada pessoa foi internada na; ala psiquiátrica de um hospital, é comentar:

—Mas isso não pode ter acontecido com Bob! Ora, ele sempre foi a alma da festa, o primeiro a chegar, recebendo todos os demais na porta, o último a sair! Há muitas pessoas como Bob, as quais, impelidas

pelo

medo do arrror e a solidão, ultrapassam seus

físicos

e emocionais, num esforço para se fazerem

apreciadas por todos.

Pensem no caso de Evelyn, uma elegante mulher

de cinqüenta e poucos anos, três vezes divorciada.

limites

—Mas o que há de errado comigo? — murmura ela, numa repetição monótona, em meio à neblina alcoólica. Marcada pela dor que pode ser causada pela

interação humana, ela já passou pelo sofrimento de ter amado e perdido muitas vezes. Atormentada pela necessidade persistente de beber, não tinha consciência de haver tomado uma decisão, num ponto qualquer do caminho:

—Não vale à pena amar. Não posso mais correr o risco de ser magoada e sofrer.

O dilema dela, um medo angustiante do amor,

somado a uma necessidade ainda intensa do mesmo, que não conseguia afogar em álcool, foi simbolizado por um dócil periquito chamado David,

alojado numa elegante gaiola, ao lado de sua

cama. Ela treinou David a dizer, a uma ordem sua:

— Eu te amo.

David era o único ser vivo de quem ela aceitava ouvir tais palavras. O periquito era um objeto de amor seguro, pois não iria magoá-la nem rejeitá-la.

Nossa solidão básica: quando começa

A pessoa que diz "Eu nunca me sinto solitária", ou não compreende o significado da palavra ou está enganando a si mesma. Este livro não pretende fazer com que as pessoas que não têm consciência

da solidão se sintam solitárias. Mas é preciso dizer

que a solidão é algo que todos nós temos de enfrentar, em um momento ou outro de nossas vi- das. Não há privilegiados e não existe qualquer imunização contra a doença. Na verdade, sem exceção, toda pessoa pequena é solitária. A solidão tem seus primórdios na infância, entre as idades de um e três anos. Trata-se de uma con-

dição básica, da vida e ê , durante esses anos pós- embriônicos que começamos a experimentar dúvida quanto ao valor do nosso eu. Algumas pessoas são mais solitárias do que outras. O sentimento depende da intensidade do nosso medo do amor. Isso não é uma acusação a quem quer que seja, como também não é um sinal de fraqueza. Mas é totalmente irresponsável não se tomar providência alguma. Sempre se pode fazer alguma coisa com relação à solidão.

A pessoa pequena, embora freqüentemente se

sinta rejeitada, raras vezes é realmente rejeitada.

O sentimento de rejeição, no entanto, é o infortunado estado da infância. Quando procura o amor e não encontra retribuição, a criança não compreende intelectualmente as razões da ausência de resposta; na verdade, não pode compreender. Pode ser que o pai e a mãe estejam por demais ocupados (ou pensem estar), sintam-se indispostos, não tenham ouvido ou percebido, talvez até eles próprios tenham medo do amor. Mas a única maneira pela qual a criança pode interpretar essa ausência de reação é duvidar do próprio valor do seu eu, concluindo que deve haver algo em si que a torna indigna de amor. À medida que tais incidentes vão-se acumulando e as dúvidas aumentam, a criança começa a experimentar as primeiras pontadas de medo. Além disso, descobre ao mesmo tempo que sempre há um risco quando procura por amor - às vezes, a reação atende às suas necessidades, mas em outras ocasiões é angustiosamente inadequada. E se a pessoa crescer e viver até os 75 anos, isso irá sempre acontecer. No amor, há sempre um elemento de risco. Nesse período, entre um e três anos de idade, em seu esforço desesperado para resolver a batalha pendente que se trava dentro de si, "Sou ou não digna de amor?", a criança chega à firme conclusão de que "Eu não sou digna de amor". Tudo começou com a dúvida sobre o valor do seu eu. Dada a incapacidade de raciocinar intelectualmente, resulta uma visão errônea do valor do próprio eu, baseada no medo do amor.

H. L. Mencken resumiu o problema: "A única emo- ção permanente do homem inferior é o medo." Como os sentimentos de inferioridade, baseados no medo do amor, constituem uma das condições básicas da infância, ninguém escapa à solidão.

Como a solidão básica se compõe

A nossa solidão básica já seria bastante dolorosa por si mesma. Mas, como uma bolha no calcanhar que é agravada até ficar em carne viva pelo roçar do sapato, assim também as condições e situações da vida vão continuamente roçando em nossa solidão, até deixá-la em carne viva, intensificando o medo do amor. À medida que a criança vai crescendo e passa a fazer mais perguntas e a expressar sua individualidade sob a forma de especulação, curiosidade e espontaneidade, os adultos, inconscientemente, aplicam julgamentos de valor a tudo o que a criança expressa. Isso contribui para aprofundar ainda mais a solidão básica. Pode ser que digam à criança que sua raiva é imprópria, que seus temores são sinal de fraqueza, que seu choro e tristeza indicam ausência de personalidade. A criança pode ficar desolada ao descobrir que certos aspectos de sua curiosidade, expressados sob forma de perguntas, são rotulados de indecentes, estúpidos ou infantis, levando-a a perguntar-se:

— Será que realmente compensa querer pensar por conta própria? As crianças são também bombardeadas com um variado sortimento de chavões, recomendações e

ordens,

a

maioria

dos

quais

se

baseia

nas

palavras:

Não, Sempre, Nunca. Não comece nada que não possa terminar Não desperdice coisa alguma Não faça perguntas; faça exatamente o que lhe está sendo dito (não existe essa coisa de não posso) Não beba a água da cumbuca de gelo Não fale com estranhos Não me deixe jamais ouvi-la dizer isso novamente Não fuja de uma briga Nunca mais volte para casa chorando Não fale com as mãos Não confie nos cristãos Não aceite goma de mascar de ninguém, pois pode estar misturada com alguma coisa perigosa Não se masturbe ou seu pênis vai murchar e acabar caindo Não corra, pois não fica bem para uma menina educada Não assovie, pois não fica bem para uma menina educada Sempre use boas roupas de baixo ao fazer uma viagem, pois pode sofrer um acidente Sempre diga "Obrigado", "Sim, senhor" e "Não, senhor" Sempre limpe o assento do vaso antes de sentar Sempre termine os seus deveres de casa antes de ir brincar Sempre seja bem-educada com as amigas de sua mãe

Sempre cuide de sua própria vida Sempre trate bem os animais Sempre mantenha os joelhos juntos Nunca se vire para olhar para ninguém na rua Nunca esqueça que a higiene é fundamental Nunca esqueça que está sendo observada pelas outras pessoas Nunca aceite comida ou balas de um estranho Nunca toque nas meninas pequenas Nunca se esqueça de escrever para sua mãe uma vez por semana, quando estiver fora de casa Nunca deixe nada na conta; sempre pague em dinheiro

Acrescentem a isso verdadeiras jóias preciosas da sabedoria adulta, como "espero que tenha filhos tão ruins quanto você", "Os meninos só pensam numa coisa: sexo" e "Não faça caretas na frente do espelho ou seu rosto ficará para sempre desse jeito". Com tudo isso, não é de surpreender que a bola de neve de tais comentários leve a criança a concluir que sua personalidade possui dois lados:

um lado bom e um lado mau ou um lado forte e um lado fraco. O lado ruim, deduz a criança, será constituído pelos pensamentos e sentimentos que manifestou a outros e que encontraram desaprovação. O lado bom é aquele que os outros aceitaram e elogiaram. Isso acentua o medo do amor na criança, que chega à conclusão de que, para permanecer nas boas graças dos pais e não perder o amor deles, terá que tentar suprimir o seu lado "mau" ou "fraco".

Mas a renúncia "dói", porque a criança está-se despojando de componentes da Criança Natural Interior. É nesse momento que entra em cena a Criança Adaptada Interior. O que se deixa de expressar, por puro medo, são justamente as partes mais gratificantes: grande parte da curiosidade, espontaneidade e audácia; provavelmente a raiva e até mesmo a alegria. Um destacado líder cívico expressou o problema muito bem:

Um destacado líder cívico expressou o problema muito bem: — Algo do meu eu está faltando.

— Algo do meu eu está faltando. Tenho tentado, por tanto tempo, fazer-me agradável e simpático a todas as pessoas desta comunidade, que perdi por completo o contato com aquilo que outrora

era agradável para mim, aquilo que eu gostava de fazer.

É como um disco cujo furo não está exatamente

no centro. Em conseqüência de uma pequena

diferença, a agulha não está em harmonia com os sulcos e as palavras saem distorcidas. Todos os medos experimentados nos esforços frenéticos para nos fazermos merecedores de amor resultam num deslocamento interior na criança. O fluxo natural de comportamento, através do qual ela reagiria espontaneamente aos estímulos externos, gradativamente cede lugar ao comportamento conforme o qual sente que Deve e Tem de reagir, caso deseje manter o amor dos pais. O resultado é a desarmonia interior e a perda do contato com o sistema central próprio de valores. A solidão universal experimentada pelas crianças parece deixar os pais em má situação. É como se

os pais, intencionalmente, compelissem os filhos

a se transformarem em trêmulos robôs,

insistindo para que se tornem cópias em carbono de si mesmos. Os pais, freqüentemente, são fa- risaicos e preconceituosos, comunicando tanto

verbalmente como não-verbalmente que "meu jeito é o único jeito" e "não se atreva a contestar minha sabedoria". Mas muitos atos e atitudes dos pais são também educativos e compreen- sivos, determinados pela preocupação com o bem-estar físico e emocional da criança.

É basicamente por causa da posição da criança

na vida, impotente e dependente, que ela começa a se dissociar do seu próprio sistema de

valores. Mesmo que os pais reagissem de forma individual a cada necessidade expressa pela criança, haveria ocasiões em que esta continuaria a interpretar o som de suas vozes, uma postura, um tapinha na mão ou uma atitude descuidada na hora da alimentação, como sinal de falta de amor. Seria diferente se a criança pudesse compreender, por exemplo, que a atitude aparentemente descuidada com que a mãe a segurava ao colo não era indicativa de desamor, mas sim de que já eram duas horas da madrugada e a mãe estava inclinada num ângulo de 45 graus, tentando verificar com a outra mão se a mamadeira já estava suficientemente quente. Mas a criança ainda não possui esse tipo de dado em seu Adulto, sobre o qual possa raciocinar. Em sua confusão, a criança só pode tirar daí uma conclusão: "Ser segurada desse jeito indica que não sou amada." A partir do momento em que essa interpretação de um acontecimento exterior foi "gravada" pela criança, fica permanentemente registrada em seu cérebro.

As "velhas gravações" e a solidão atual

Nosso Pai interior é sempre baseado nas informações que nos foram alimentadas no primeiros anos, por fontes externas, isto é, os pais e outras figuras de autoridade. Porque o Adulto na criança — sede da opção, avaliação, experimentação da realidade, estimativa das probabilidades, consciência das conseqüências —

não começa a emergir antes dos dez meses, não há meio pelo qual as informações canalizadas para o Pai, de fontes externas, possam ser objeti- vamente analisadas e avaliadas. Mesmo depois que o Adulto na criança é ativado pela primeira vez, permanece incapaz de efetuar o trabalho necessário, em termos de lidar adequadamente com a quantidade opressiva de dados no Pai interior. Ao mesmo tempo em que esses acontecimentos exteriores estão sendo gravados no cérebro, nossa Criança interior está reagindo a eles de maneira particular. Tais reações, sob forma de sentimentos, ficam gravadas na Criança interior e podem ser reproduzidas, a qualquer momento, no futuro. O que devemos recordar, contudo, é que a maioria dessas reações foi gravada pela perspectiva do medo em nossa Criança Interior Não-ok. Eis por que a nossa solidão. O problema é que, tendo uma vez concluído que ser segurado de uma maneira negligente significa desamor, podemos descobrir, dez ou vinte anos depois, desolados, que a mesma velha fita está sendo novamente tocada, quando um amigo, parente ou amante nos abraça, segura ou toca, de uma maneira determinada. "Ser segurado ou tocado dessa maneira só pode significar uma coisa: não sou amado." E o pânico pode se instalar: "O que fiz eu, neste relaciona- mento, para não ser amado?" Se isso acontece quando o nosso Adulto está alerta, operante, em condições de computar as informações, irá interferir e perguntar: "Espere

um pouco! Qual foi a transação original?" Talvez não sejamos capazes de recordar a transação original per se, da primeira vez em que nos sentimos dessa maneira. Há ocasiões, porém, em que isso é possível. Mas mesmo que não seja, podemos nos certificar, depois de esclarecermos as dúvidas com a outra pessoa e verificarmos que a amizade continua sólida, que nosso sentimento atual de não ser amado é apenas a repetição de uma velha gravação um "diálogo", entre nossos Pai e Criança interiores. Estamos assumindo agora a responsabilidade pelo medo do amor, porque não atribuímos a culpa às circunstâncias presentes, mas sim a "lá atrás", ao lugar a que pertence por justiça. Nosso Adulto será então ativado, a ponto de se tornar capaz de diminuir o volume do nosso medo atual.

Deve ser evidente, portanto, que o nosso medo do amor em relação a alguém no

Deve ser evidente, portanto, que o nosso medo do amor em relação a alguém no presente nem sempre é resultado de alguma coisa que a outra pessoa disse ou fez. Pode ser que uma antiga gravação de "Não sou amado" tenha sido reativada, em reação a um acontecimento exterior, algo que alguém faz ou diz agora. Pode ser o tom de voz, a maneira de dar de ombros, de sacudir a cabeça, de contrair os lábios, de abrir os braços. Pode ser praticamente tudo. É triste, mas é verdade: quando nossos medos do amor são convocados do passado por

tais acontecimentos, ficamos impedidos de apreciar o amor no presente. Muitas pessoas que se casam por impulso, freqüentemente como uma reação decorrente de uma primeira união destruída, não deixam passar o tempo necessário entre os casamentos para "atualizar" as gravações de sentimentos, reforçadas no primeiro relacionamento. Daí porque ficam aturdidas por medos irracionais do amor, que se desenvolvem até algo próximo à paralisia total, no segundo casamento. A velha gravação interior de "desamor" pode voltar a tocar à menor provocação, acompanhada por lamentos dolorosos:

— Oh, não! Não posso acreditar! Já vai começar tudo novamente! Pode haver sérios problemas se um dos lados do relacionamento encontrar-se em tal situação. Mas se os dois lados carregam as cicatrizes de combate de casamentos anteriores, então haverá dois gravadores a trombetearem em cantos opostos da sala. A minha experiência mostra que a razão básica para o fracasso dos segundos casamentos é uma incapacidade ou relutância em lidar Agora com as gravações do primeiro casamento. O volume dessas gravações anteriores se torna alto demais, abafando tudo o mais no presente, semeando a suspeita, a desconfiança e, acima de tudo, um medo do risco inerente ao dar e, receber amor. É desnecessário dizer que, se houve solidão no primeiro casamento, essa solidão será duas vezes mais dolorosa no segundo.

Sintomas de solidão

A solidão encontra um meio de contaminar cada fibra do nosso ser: nossas esperanças, ambições, sonhos, vitalidade, desejos, anseios, assim como os nossos corpos físicos propriamente ditos. Os atos de comer e dormir são frequentemente afetados. A obesidade e a ganância podem muito bem ser sintomas de solidão, embora o emagrecimento excessivo possa ser também identificado com o desespero inerente ao sentimento de não ser de importância ou valor para ninguém, nem mesmo para nós próprios. A angústia da solidão pode-se manifestar em dores (imaginárias ou reais) no corpo. A fraqueza nas pernas não é sintoma incomum, derivando do fardo pesado do medo que carregamos nos ombros. Os ombros encurvados, os cantos da boca caídos, um andar vagaroso e sofrido, o

silêncio e o alheamento

tudo isso indica a

presença da doença. Disse uma mulher:

—Sinto uma pontada de dor no fundo do estômago, meus braços e ombros doem

terrivelmente, ansiando por um abraço

vontade que alguém me diga que sou realmente amada pelo que sou Mas nossos olhos contam a verdadeira história. Freqüentemente, a tristeza da nossa solidão é mais facilmente percebida neles. Mas é possível se deixar enganar. Muitas pessoas, como Bob, tornam-se hábeis em exibir uma fachada jovial, a cabeça erguida, sempre sorrindo, eternamente

de

divertidos, "a alma da festa". Por esse motivo, não se pode diagnosticar a solidão por qualquer um ou por uma combinação dos sintomas mencionados, exclusivamente. Alguns dizem que a dor da solidão pode ser ainda mais terrível que a verdadeira dor física. Mas não há qualquer medicamento para curá-la, não há ungüento que possa aliviá-la. O recurso ao álcool é uma tentativa de esquecer, mas o alívio é breve, entorpecendo o medo apenas por algum tempo. —O álcool não acaba com a minha solidão — admite um alcoólatra. — Mas serve para irrigá-la temporariamente. Contudo quando a dor se torna insuportável, não há outro recurso se não buscar algum alívio, mesmo ilusório, como o álcool. O uso de diversas drogas constitui também uma "solução", que milhões de pessoas se receitam diariamente. Mas isso também proporciona apenas um alívio temporário do medo. Milhares de americanos cometem suicídio todos os anos. E muitos mais o tentam. Nosso medo de amor é difícil de diagnosticar, porque, desde a infância, idealizamos muitos meios de encobri-lo e habilmente conseguimos disfarçá-lo. Essa montanha de defesas deve ser antes removida. Quando isso acontece, sempre encontramos na base o medo do amor. Nossa proposição central é: O medo do amor é a causa fundamental de cada atitude e forma de comportamento que nos separa uns dos outros. O indício mais patente da nossa

fragilidade humana — nosso medo — é difícil de determinar, às vezes até mesmo de sentir, porque nem sempre está caracterizado por um ataque súbito de tremedeira, suor nas palmas das mãos, um nó no estômago. Sendo uma condição básica da vida, é um componente inerente de nossa condição humana. ( À medida que envelhecemos, o medo do amor é mascarado por diversas atitudes e formas de comportamento, como a fuga, o ciúme, narcisismo, esnobismo, competição, mentiras, roubo e assim por diante. A raiva é um recurso freqüentemente utilizado para lidar com uma ameaça temida, imaginária ou real, à imagem que fazemos de nós mesmos. No aconselhamento de casais em dificuldades conjugais, as queixas iniciais são geralmente sintomas de superfície, relacionados a uma causa mais profunda, um medo do amor.

Ele tenta me dominar.

Ela nunca me deixa pensar por mim mesmo.

Ele se recusa a ouvir.

As coisas sempre têm de ser como ele quer.

Ela não mais me atrai. Se os clientes não cessam as visitas no momento em que o medo está prestes a ser revelado, descobrem que suas queixas podem invariavelmente ser identificadas com um medo do amor, isto é, de dar e receber amor. Uma parte ou todo o elemento de risco desaparecem. Há medos de magoar, de ser magoado, de compreender mal ou ser mal compreendido, de criticar ou ser criticado, de ser alvo de risos, de

receber conselhos, de parecer desajeitado, de ser julgado. E também o medo de chorar, ofender, de rejeição, abandono e até mesmo de violência física. Uma pessoa queixou-se, com toda razão:

—Sempre que eu arrisco partilhar meus sentimentos, posso prever que um ou dois minutos depois meu marido irá dormir ou me deixará falando sozinha. E eu já não posso mais correr o risco de tal rejeição. - Não importa qual seja o ângulo pelo qual analisemos o problema, o medo do amor é a causa da comunicação deficiente ou da ausência de comunicação entre as pessoas.

Paralisado no meio do caminho

Meu jovem amigo estava sentado numa cadeira à minha frente, caído para um dos lados, exibindo todas as características de um garoto de doze anos, a prova de muitas aventuras ao ar livre na blue jeans remendada e desbotada. Com os olhos pregados no chão, ele falava, a voz suave e às vezes hesitante. O pai saíra de casa para viver com outra mulher, largando à própria sorte a mãe, a ele e a um irmão de seis anos. Embora guardasse boas recordações do relacionamento com o pai, chegou o momento em que ergueu a cabeça, fitou-me nos olhos e declarou furioso:

—Mas eu nunca mais quero ver novamente o meu pai!

Começou a chorar. Depois que as lágrimas cessaram, falou-me a respeito das visitas que o irmão menor fazia à nova casa do pai, da aparente inocência do garoto, à luz do divórcio que desfizera a família. E, mais tarde, acres- centou:

—Se eu tivesse seis anos, como meu irmão, não teria que compreender. Mas já tenho doze anos e compreendo tudo! Sua dor estava na consciência da mágoa profunda, nos sentimentos de rejeição e no medo de assumir um risco. Contudo, ele também queria voltar aos braços do pai. Em meio ao dilema, ficara paralisado, congelado num estado de profunda solidão. Tinha medo da coisa que mais desejava: amar e ser amado. Quando extirpamos todo o elemento de risco do amor, a única alternativa é "congelarmos". Nossa solidão sempre nos encontra "congelados" em algum ponto do meio do caminho: querendo amar, mas fugindo do amor ao mesmo tempo. É uma espécie de morte. —Passo uma boa parte do meu tempo

procurando ficar aturdida

— explicou uma mulher, que se

sente solitária há muito e muito tempo. — Passo

muito tempo chorando

ou melhor,

paralisada

soluçando de verdade

Depois, sempre tenho uma terrível dor de cabeça. E isso só serve para piorar tudo. Acontece freqüentemente que, diante de uma perspectiva de amor, viramos as costas e saímos correndo, em pânico. É arriscado demais. Não podemos ser responsáveis pela mágoa pessoal e

pelos sentimentos de rejeição, se a dádiva de nós mesmos não for aceita e apreciada
pelos sentimentos de rejeição, se a dádiva de
nós mesmos não for aceita e apreciada pelo que
é. Quanto menos estamos dispostos a arriscar,
mais solitários nos tornamos.
Por causa desse medo do amor, contentamo-nos,
sofridamente e às vezes de má vontade, em
estar com as pessoas apenas num sentido físico.
No entanto, ao mesmo tempo, estamos à
espreita, à espera do momento em que seremos
capazes de assumir riscos e ir além das
amenidades polidas e formais, a fim de amar e
ser amado.
Quando nossa solidão nos encontra nesse estado
de congelamento, qualquer movimento para nos
afastarmos é melhor descrito pelo verbo
"degelar". Não que nos tornemos menos
solitários, mas nossa solidão vai-se degelando, à
medida que saímos do ponto morto.
A
solidão
diz:
"Se
ele
viesse
a
me
conhecer
"
— Tenho certeza de que, se ele viesse a me
conhecer mais a fundo, não iria gostar de mim
iria encontrar alguma coisa que desaprovasse
iria concluir que não sou digna de amor.
Quando decidimos pelos outros,
antecipadamente, concluindo que isso ou aquilo
vai acontecer numa determinada amizade,
conseguimos, através do nosso medo do amor,
manter uma distância segura e necessária em
relação às outras pessoas. É uma defesa
astuciosa utilizada pelos eternos solitários. Mas

tais decisões de nossa parte contribuem para re- pelir pessoas que poderiam apreciar intensamente a nossa companhia e que poderiam vir a nos conhecer melhor, se lhes fosse dada a oportunidade, chegando à conclusão de que somos realmente uma pessoa ok. Estamos roubando às outras pessoas o direito de tomarem a decisão por si mesmas. Mas isso é apenas outra faceta da filosofia de não-risco, a que nos apegamos em nossa solidão.

Solidão e papéis

À medida que vamos crescendo, descobrimos

uma atitude de indiferença no mundo exterior, que contribui para intensificar ainda mais a

nossa solidão básica. E isso serve para confirmar

a conclusão já estabelecida: "Não sou amado pelo que sou." Alguém, refletindo sobre a impessoalidade da vida, observou:

Para o médico, eu sou um paciente Para o advogado, sou um cliente Para o editor, sou um assinante Para o lojista, sou um comprador Para o educador, sou um estudante Para o industrial, sou um consumidor Para o político, sou um eleitor Para o banqueiro, sou um depositante Para os dirigentes esportivos, sou um torcedor Para as empresas aéreas, sou um passageiro

Para o padre, sou um fiel Para os militares, sou um número ou um soldado

Isso é o bastante para nos deixar tristes, furiosos ou assustados. Tais rótulos nem sempre levam em consideração nossa individualidade, nossos talentos e capacidade, o que dói bastante. Esses rótulos podem provocar uma repetição do velho diálogo interior entre Pai e Criança. "Eu não sou digno de amor". Mas a verdade é que essa impessoalidade é um fato objetivo da vida, a respeito do qual muito pouco podemos fazer. Além disso, não queremos nem precisamos da compreensão de todos. Ter uma única pessoa que nos compreenda, estime e aprecie a nossa individualidade já é, muitas vezes, o suficiente. Se sentimos que não temos ninguém a quem possarnos dar e de quem possamos receber amor (nessa ordem), então somos realmente solitários. Freqüentemente, porém, tal sen- timento é baseado numa decisão: a de que nunca mais correremos o risco de amar. Uma das premissas deste livro é a de que ninguém precisa jamais ficar em tal situação. Enquanto estivermos dispostos a correr o risco do amor, haverá sempre ocasiões em que a resposta virá preencher nossas necessidades de amor e haverá um degelo da solidão. Tais reações podem partir de pessoas das quais jamais esperaríamos uma resposta. Mas isso faz parte do risco, da própria emoção de amar.

Por ser menos arriscado, deixamos que os outros percebam nossa solidão através de meios indiretos e velados:

Não me sinto à vontade no meio de muitas pessoas. Gostaria de conhecê-lo melhor. Não sei o que dizer às pessoas depois que somos apresentadas. Eu gostaria que pudéssemos ser mais íntimos. Não me sinto à vontade em festas.

Todas essas declarações estão relacionadas com o medo: ou o medo do amor ou o medo de que os outros não estejam dispostos a correr o risco de nos amar. Quando estamos solitários, é muito importante fazer essa distinção. Poucos de nós admitimos abertamente que estamos nos sentindo solitários. Hesitamos em dizê-lo de maneira tão brusca, não apenas porque freqüentemente ignoramos a natureza da nossa "angústia", mas também porque isso nos torna vulneráveis ao julgamento e incompreensão dos outros. E também porque não queremos que os outros nos julguem fracos, um fator igualmente importante. Em outras ocasiões, podemos não querer correr o risco de desapontar as pessoas, já que, no passado, talvez tenhamos nos esforçado arduamente para disfarçar a solidão, na presença delas. Apa- rentando independência, segurança e confiança, atraímos amigos (e também companheiros ou companheiras), que estão mais interessados em

nos usar para apoiar seus egos claudicantes do que em amar-nos. Dizer "eu me sinto solitário" é expressar uma necessidade de compreensão e amor. Em tais momentos, nossos amigos dependentes podem ficar chocados, assustados, podem sentir-se impotentes, incapazes de fazer qualquer coisa a respeito. Podemos então tomar

a decisão de fazer novos amigos, que estejam

mais interessados em nos compreender e amar do que os anteriores, que pensavam apenas em usar-nos.

Parece-nos também bastante difícil transmitir em palavras a angústia da solidão. Bem que tentamos, mas, de alguma forma, as palavras não conseguem exprimir adequadamente sentimentos; e a solidão é um sentimento. Um homem, quando lhe foi pedida uma definição pessoal, disse:

—A solidão é um sentimento e um fato e tem muitos graus.

A maioria de nós, como foi dito anteriormente,

refere-se à solidão por meios indiretos. Solidão é medo — e o medo é um sentimento difícil de intelectualizar, de exprimir em palavras. Quando o nosso medo do amor e a solidão conseqüente se ampliam até o pânico, fazemos às vezes coisas que desafiam a lógica e parecem irracionais. Uma mulher solteira, de vinte e poucos anos, disse:

—Faço muitas coisas que normalmente jamais faria, talvez até coisas insensatas, como abordar pessoas estranhas e falar-lhes. Ou contar a pessoas que mal conheço fatos muito pessoais a

meu respeito. Essa atitude, certamente, nada tem de sensata ou lógica e, às vezes, resulta até em sofrimento para mim. Mas, a essa altura, eu já não estou realmente pensando. Sinto apenas

um pânico terrível, insuportável, desesperado quando me vejo nessa situação, quase sempre

faço qualquer coisa

pensar na possibilidade de rejeição. E ela acrescenta mais adiante:

—Tenho feito longas caminhadas a pé. Quando chego a um ponto deserto de alguma estrada, paro e começo a debater comigo mesma, em voz alta, alguns dos meus sentimentos e idéias. Isso ajuda bastante, especialmente quando uma das minhas vozes parece amadurecida e confiante. Mas isso é também um risco, já que pareço ter adquirido o hábito de falar sozinha, o que perturba e afasta algumas pessoas, quando lhes conto.

nem mesmo paro para

e

Solidão circunstancial

A solidão circunstancial está relacionada com um período da vida em que se agrava a nossa solidão básica. Os adolescentes, as donas-de- casa e as pessoas idosas se enquadram nessa categoria. Por causa da situação em que se en- contram na vida, a angústia da sua solidão pode ser multiplicada. Uma adolescente explica sua solidão circunstancial nos seguintes termos:

—Sou jovem demais para sair com namorados e velha demais para sentar no colo do papai.

Durante os anos da adolescência, uma diminuição do contato físico com os outros contribui para aumentar a angústia da solidão. Nada alivia e atende mais à nossa necessidade de amor do que o contato físico. A brusca redução do contato freqüentemente deixa o adolescente num estado de medo intensificado, querendo ser amado dessa maneira, mas ao mesmo tempo fugindo dela, por causa de sentimentos de embaraço e constrangimento. Mas a angústia maior acompanha o medo de ser mal interpretado. É nesse período da vida que mais freqüentemente somos mal entendidos. Embora os adolescentes não queiram partilhar todos os seus sentimentos com os adultos, quan- do decidem fazê-lo, acalentam a esperança de que a mãe e o pai irão tentar compreender como se sentem, que esse dar de si mesmos será aceito incondicionalmente. Se tal não acontece, os adolescentes se retraem, decidindo ser mais cautelosos na próxima vez. Acima desse retraimento, os sinais de solidão dos adolescentes são a depressão, consumo de drogas, delinqüência, fracasso nos estudos e, algumas vezes, o suicídio. Não fiquei surpreso ao ler recentemente um relatório oficial dos escoteiros, revelando que 40 por cento de adultos jovens, entre dezoito e vinte e dois anos de idade, e 31 por cento, na faixa entre quinze e dezessete anos, acham que não possuem um único amigo em quem confiar. Eis algumas frases de jovens que recorreram às drogas:

As drogas me dão uma sensação agradável, uma espécie de substituto do sentimento de felicidade que eu experimentaria se tivesse um amigo íntimo. As drogas me introduziram num novo mundo,

mesmo que

todos sejam viciados. A dona-de-casa experimenta um tipo de solidão circunstancial similar. Por um lado, as fontes de amor e atenção dela estão limitadas, confinando- se freqüentemente àqueles que vivem em sua casa* E se a atenção básica de que ela necessita não for atendida dentro do próprio lar, a dona- de-casa não terá escoadouros. A mesma coisa não ocorre com o marido, que, trabalhando fora, tem muitas fontes de atenção. À medida que os filhos crescem e a dona-de-casa vai se sentindo cada vez menos necessária, os sintomas mais dolorosos da angústia da solidão começam a emergir, levando-a a cultivar amizades fora do círculo doméstico, talvez até mesmo impelindo-a a trabalhar fora. Ela também vive seu papel mais do que o pai. Enquanto ele freqüentemente é chamado pelo nome pelos amigos e colegas de trabalho, ela é tratada de mãe, mamãe, querida, meu bem e assim por diante. É constantemente lembrada de seu papel, de sua função. E se for uma mulher conscienciosa, provavelmente fará todo o possível para corresponder. Mas representar um papel pode ser uma experiência solitária. No processo de dispender todas as suas energias nesse sentido, ela pode negligenciar ou

proporcionaram-me novos amigos

subestimar os seus próprios interesses pessoais, hobbies, anseios e necessidades. A menos que ela arrume algum tempo para fazer algumas das coisas que a tornem a pessoa individual que é, irá gradativamente morrendo para eles. Mas as mulheres tendem a ser mais importantes, aos olhos do pai e das crianças, pelo que fazem, do que pelo que são. É perfeitamente previsível, se os pais tiveram dificuldades de comunicação ao longo dos anos, os medos individuais do amor irão se tornar mais agudos e mais patentes depois que o último filho sair de casa. Até esse momento, a preocupação com as crianças ajudou-os a evitar o reconhecimento da falta de comunicação e a conseqüente solidão no re- lacionamento entre os dois. Se ambos estiveram tentando esconder-se de seus medos do amor, isso ficará agora patente, de uma maneira ou de outra. Isso também é solidão circunstancial, porque é uma solidão peculiar a esse estágio da vida conjugal. Se houve um acúmulo de mágoas e ressentimentos não manifestados, provavelmente estes irão agora aflorar à superfície. Pode ser um momento de crise. Cada um dos cônjuges pode tomar a decisão de agravar a situação, com a esposa procurando abrigo fora de casa, arrumando um emprego; o marido, por sua vez, pode marcar cada vez mais encontros e reuniões até horas avançadas da noite, quando normalmente estaria em casa com a esposa. A perspectiva de confronto é por demais assustadora. Se as defesas em torno

desses medos foram consolidadas, às vezes é praticamente impossível penetrá-las. Mas são as pessoas idosas que experimentam a mais profunda solidão circunstancial, quando descobrem terem sido, às vezes, simplesmente esquecidas ou abandonadas por suas famílias. Há muitos medos que se manifestam no pro- cesso de envelhecimento: medo de doença, de perda de identidade pessoal, independência, um trabalho ou a morte do cônjuge. Um termo relativamente novo, doença da aposentadoria, descreve o que freqüentemente acontece durante os quatro primeiros meses da aposentadoria. É nesse período que há uma probabilidade maior de derrames e ataques cardíacos, relacionados com o trauma de uma ampla variedade de perdas. No Capítulo 10, o problema da velhice e da solidão é abordado em detalhes, pois esse tipo de "solidão circunstancial" é uma perspectiva que todos deveremos um dia enfrentar.

2. As paredes que as pessoas erguem em torno de seu medo

Lembro-me de como meu pai reagia às coisas vivas. Um dia, num bosque, eu o vi passar a mão lentamente, quase carinhosamente, sobre a casca de uma bétula. Não me recordo exatamente das palavras, mas sei que disse algo a respeito da beleza da textura. Nunca mais vi ninguém fazer algo parecido.

A solidão está sempre relacionada à maneira

pela qual reagimos às pessoas e acontecimentos. Algumas vezes, nós o fazemos com irritação, medo, sentimento de culpa, tristeza e angústia;

em outras ocasiões, com risos e alegria. Isso acontece especialmente com as pessoas de quem gostamos. Nem sempre se compreende que o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença. Quanto mais gostamos de alguém,

mais incisivamente reagimos a tudo o que essa pessoa é, faz e diz.

O amor e a confiança não são ensinados, são

apreendidos. Nós, pais, não ensinamos nossos filhos a confiarem em nós pondo-os no colo e dizendo: — Quero que confie em mim! Na medida em que os filhos observam a maneira pela qual os pais confiam um no outro e também confiam neles, irão por sua vez aprender a confiar. Todos nós provavelmente concordamos que nenhuma coisa viva pode sobreviver por si mesma. Uma árvore só pode existir em seu relacionamento com a atmosfera, a água e o solo. Um peixe vive apenas no relacionamento com os alimentos e a vida que existe na água. Da mesma forma, um passarinho só existe dentro do contexto das árvores, plantas e insetos, dos quais extrai sua subsistência. As pessoas também vivem e crescem num contexto de relacionamentos. Por si mesmas, a introspecção e a auto-análise são becos sem saída. Crescemos através da interação com outras pessoas. Elas nos trazem

continuamente a vida, através de sua compreensão de nós, de sua confiança em nós, de seu amor por nós, assim como fazemos o mesmo por elas. — Assim, todos nascem com a capacidade de exercer influência. Até mesmo o bebê, cuja manha se transforma numa choradeira lancinante, de abalar os nervos de qualquer um, está exercendo uma acentuada influência sobre os outros membros da família, que se põem a tamborilar com os dedos de irritação, quando não a dar socos na mesa. Os outros estão sempre despertando algo em nós. Você provavelmente já disse a respeito de alguém:

—Ele desperta o que há de pior em mim. Provavelmente, você procura permanecer longe dessa pessoa. A proximidade dela causa apenas sentimentos desagradáveis dentro de você. Mas, por outro lado, você certamente também já disse a respeito de outras pessoas:

—Ele desperta o que há de melhor em mim. Na presença dessas pessoas, os seus "bons" sentimentos afloram à superfície. Em ocasiões ruins, murmuramos para nós mesmos:

—Quem precisa de outras pessoas? É mais do que provável que essas sejam as ocasiões em que mais sentimos o medo do amor e por isso batemos em retirada, retirando não apenas o corpo físico como também a confiança. Temos medo de arriscar novamente. Quem precisa das outras pessoas? É como se uma árvo-re dissesse:

Quem precisa do solo? Ou um peixe que clamasse:

Quem precisa da água? De um jeito ou de outro, nós precisamos das outras pessoas, mas delas precisamos por diferentes razões. E o motivo pelo qual precisamos delas está relacionado com o motivo pelo qual precisamos de afagos, de demonstrações de afeto. E essa necessidade, por sua vez, depende de nossa posição na vida.

Afagos

Quando um médico, gentilmente, dá uma palmada nas nádegas de um bebê recém- nascido, pode doer. Mas essa é uma ocasião na vida da criança em que uma palmada pode fazer algo mais. Para alguém que está há apenas uns poucos segundos num mundo novo e inóspito, esse primeiro contato, esse afaga, também desencadeia a vontade de viver. Assim "resgatada", esse afago inicial também assinala para a criança o início da "fome de afeto", uma necessidade contínua que, para o próprio desenvolvimento ou destruição da criança, terá que ser atendida. Cada um de nós carrega consigo um "balde de afagos" — e quando não um, são dois os baldes, um em cada mão —, sempre à procura de meios e modos de mantê-los permanentemente cheios. Diferentes afagos para diferentes pessoas. Antes de examinarmos essa questão,

detalhadamente, vamos relacionar os diferentes tipos de afagos:

Afagos físicos. Nossos primeiros afagos na vida são físicos: ficar no colo, ser embalado, ter a cabeça acariciada. Diz-se que uma das razões pelas quais os marinheiros adoram o mar é porque o balanço das ondas traz recordações da infância, do tempo em que eram embalados por

suas mães. É muito boa a sensação de ser

embalado. Para muitos, os afagos físicos são os que fazem sentir melhor, não importa a idade que tenham. Afagos verbais. Entre as idades de um e três anos, os afagos físicos vão gradativamente

sendo substituídos pelos afagos verbais. E como

a criança não pode compreender

intelectualmente a razão para a transferência, a solidão de base aflora. Sem compreender que está se tornando muito pesado para ficar no colo, especialmente quando se contorce, ela se pergunta:

— O que aconteceu? O que há em mim agora que é indigno de amor? Auto-afagos. Há diversos tipos, sendo que um deles é o sentimento que experimentamos depois de termos utilizado os nossos próprios recursos e empregado as mãos e a mente para

criar Para meninos e homens, isso pode significar construir um bote, um armário, uma casa na árvore; para meninas e mulheres, pode ser tricotar um suéter, fazer alguma renda ou preparar um prato que os outros apreciem. Assim

que terminamos, o que quer que seja,

experimentamos um sentimento de valor e importância. Outros auto-afagos são do tipo desesperado, procurados por pessoas que se sentem solitárias, ao ponto de entrarem em pânico. Uma mulher admitiu, com alguma relutância:

— Houve ocasiões em que me senti tão solitária e carente de afeto que cheguei a entrar numa loja e escolhi e comprei os cartões de cumprimentos que desejaria estar recebendo de outras pessoas. Cheguei a ter uma grande cole- ção de cartões. Em outra ocasião, comprei um buquê de flores para usar no vestido e passei a exibi-lo. Nessa ocasião, eu me sentia particularmente negligenciada e abandonada por meu marido. De certa forma, foi uma ajuda, pois eu achava que merecia as flores. Mas muitos sentimentos negativos estavam envolvidos. Quando, por exemplo, eu usava o buquê e as outras pessoas pensavam que tinha sido um

presente e achavam aquilo maravilhoso

sabia que não era bem assim. Quanto aos cartões, não era tão ruim, pois eu não tentava enganar a ninguém com eles, exceto talvez a mim mesma e não me importava. Eu queria ape- nas me sentir melhor. E agora, ao pensar nessas coisas, sinto-me um tanto tola. Outra mulher, vivendo num vácuo de afeto, afagava a si mesma recortando cupões de revistas e remetendo-os, à espera das prometidas amostras grátis e folhetos. Isso lhe assegurava pelo menos receber alguma correspondência de vez em quando,

Mas eu

proporcionando-lhe algo para esperar. É um

afago

mas da variedade desesperada.

Afagos vaporosos. São atitudes vazias, sem substância, freqüentemente manifestas mais com vistas à retribuição do que por outro motivo qualquer. Algumas pessoas são campeãs em afagos vaporosos, distribuindo elogios a torto e a direito, como confete numa festa de carnaval. Mas os afagos vaporosos podem ser também da variedade física, em que não se empenha o coração de quem os dá. Halford Luccock conta a história de Dorcas, "uma mulher sempre empenhada em boas ações", que, recolhendo roupas para enviar para a Coréia, recebeu em diversas ocasiões casacos de mulher cujos botões tinham sido arrancados. Evidentemente, as doadoras de bom coração achavam que os botões ainda estavam bons e arrancavam-nos para usarem em outras roupas, estragando assim a doação que faziam. "O presente em que o doador não põe o coração não faz sentido", observa Luccock corretamente. Ainda não consegui perdoar de todo o locutor de rádio que, antes de um recente Dia das Mães, sugeriu:

— Por que não dar à mamãe um jogo de pneus, em seu grande dia? Esse primor de afago vaporoso seria terrível se houvesse apenas um carro na família. Mas tenho procurado dar o benefício da dúvida ao locutor, pensando que ele talvez tivesse a intenção de acrescentar, “desde que a mamãe tenha o seu próprio carro".

Afagos condicionais. Distribuídos pelo pai, esses afagos sempre encerram condições implícitas:

"Eu vou amar você se obedecer à mamãe "

quando eu quiser

for um bom menino

quero

fizer

como

eu

São dados apenas quando o

desempenho corresponde aos nossos padrões e valores. Por isso, pode-se dizer que as pessoas que distribuem tais afagos estão fazendo uma chantagem emocional. Afagos incondicionais. Dados simplesmente porque gostamos da pessoa, sem pensar em retribuição, são os afagos mais preciosos. Afagos escritos. Na minha escrivaninha, há uma pasta com a referência de Arquivo de Afagos. Eu me refiro a ela como a minha caixa de afagos, porque ali guardo todos os tipos de cartas, cartões e bilhetes que recebi de minha esposa, filhos e amigos. Nas ocasiões em que os afagos que recebo de fontes exteriores são poucos (inclusive de minha família), costumo folhear o arquivo, experimentando novamente os sentimentos confortáveis que tive nos momentos em que recebi aqueles afagos. Afinal de contas, tais afagos, muito embora eu esteja apenas revivendo os antigos, são melhores do que nada. Afagos delegados. É o ato de dar e receber afagos por intermédio de uma terceira pessoa. Às vezes, é acertado diretamente com a terceira pessoa; outras vezes, o "mensageiro" é inconscientemente manipulado. Uma mulher, precisando completar o seu segundo balde de afagos, providenciou a sua própria festa-surpresa de aniversário, com uma amiga cooperativa.

Se eu pagar todas as despesas, você cuidaria de tudo? Poderia ligar para as outras pessoas, dizendo que se trata de uma festa-surpresa para mim?

A festa foi bem-sucedida. E quando a

aniversariante entrou "por acaso" no local

previamente acertado para a festa, os convidados reunidos se puseram a gritar entusiasticamente:

— Surpresa! Surpresa! Naquela noite, a mulher encheu até as bordas o

seu

segundo balde de afagos.

Em

outras ocasiões, não se trata apenas de uma

questão de encher ambos os baldes. Se duas pessoas, solitárias e com medo do amor, não se afagam uma à outra diretamente, quer verbalmente ou não-verbalmente, podem mani- pular afagos através de alguém mais, por puro desespero. Esse método indireto de produção de afagos ganhou validade para mim há pouco tempo, quando uma jovem dona-de-casa, solitária porque o marido tinha medo do amor, contou a maneira pela qual se tornara hábil em

utilizar o filho de seis anos para trazer-lhe afagos

do pai, que de nada suspeitava. Ela manda o

menino até a garagem ou o quintal dos fundos, onde o marido parece passar a maior parte do tempo. Às vezes, ela instrui o menino a fazer alguma pergunta específica e trazer-lhe a resposta; em outras ocasiões, o menino simplesmente fica por perto do pai, recolhendo frases e palavras, que depois transmite à mãe. O marido raramente demonstra o seu afeto para

com ela diretamente; freqüentemente, transmite mais ao filho suas idéias e sentimentos, do que o faz com a esposa. As migalhas que ela recebe dessa maneira indireta, através de um intermediário, são melhores do que nada. Enquanto o filho cooperar, esse esquema pode satisfazer às necessidades de atenção dela, mas quando o menino se cansar de bancar o intermediário e o balde de afagos da mãe estiver vazio, certamente haverá uma crise. Algumas pessoas descobrem que, em virtude de seu trabalho, posição ou papel (especialmente as esposas de profissionais liberais e autoridades públicas), são usadas como mensageiras de afagos. Algumas podem ficar ressentidas com isso depois de algum tempo, mas outras vicejam, porque assim se sentem necessárias, alguém depende delas, fazendo com que também se sintam afagadas.

CENÁRIO: Uma escola secundária suburbana, na manhã seguinte ao Baile da Primavera. LINDA — Mary, diverti-me um bocado com Alex no baile de ontem. Será que há alguma maneira de você descobrir se ele realmente gosta de mim? MARY — Hoje, na hora do almoço, vou ficar perto dele. E depois das aulas contarei tudo a você. Vamos nos encontrar na porta do ginásio. Neste caso, Mary pode levar para Linda um afago positivo. —Ele acha você espetacular.

Mas há também a possibilidade de ser negativo, um golpe terrível. —Ele simplesmente resmungou e afastou-se. Os intermediários, tendo que transmitir afagos negativos, podem ficar tão deprimidos quanto os amigos diretamente envolvidos, dependendo da intensidade do golpe. As esposas de clérigos freqüentemente são portadoras de afagos, uma responsabilidade que faz parte do contrato não-verbal de casamento. —Querida, alguém fez algum comentário a respeito do meu sermão desta manhã? Ninguém falou nada comigo. Se o balde de afagos que ela transporta para o marido está vazio nessa tarde de domingo, poderá provocar uma depressão nele (e possivelmente nela também), que irá se estender pelo resto do domingo e entrará pela segunda- feira. A intensidade da depressão coincidirá com o número de horas que o clérigo empenhou nos preparativos do sermão. Em outros domingos, se ela achar que pode correr o risco, talvez leve de vez em quando um afago negativo, esperando que isso possa ser útil ao marido:

—Martha me disse que achou o sermão um pouquinho comprido. Ou:

—Herb falou que, em determinado momento, você estava gritando demais. A reação dele irá indubitavelmente afetar a disposição dela em transmitir tais críticas no futuro.

Mas nos dias em que ela pode apresentar um balde cheio de afagos, provavelmente isso será suficiente para fazer com que os dois atravessem felizes aquela semana e talvez mesmo também a semana seguinte. Um afago positivo de uma pessoa importante pode satisfazer a nossa fome de afagos por meses. Os carteiros, portadores de afagos sob a forma de cartas, encomendas e comunicações de todos os tipos, são freqüentemente recebidos por pessoas ansiosas por notícias de um filho no exército, um bilhete de uma filha na universidade ou uma palavra qualquer de pais que estão longe. Cartões de aniversário, convites de casamento, presentes de Natal e revistas também são afagos, alguns com valor maior do que outros. Freqüentemente, essas pessoas agradecidas receberão o carteiro na porta, numa manhã quente de verão, com um copo de limonada ou num dia frio de inverno, pode haver um convite para tomar café. Afagos negativos. São do tipo necessário e procurado quando sentimos que não somos amados; serão discutidos abaixo. Como são da variedade "agrida-me", cumprem seu objetivo: o de confirmar que somos não-ok. Afagos circenses. São provocados por trajes ou comportamentos sensacionais: mulheres fumando charuto em reuniões públicas, homens carregando bolsas ou usando jóias extravagantes, exibindo notas de 100 dólares, crianças intencionalmente arrotando durante as refeições (o que constitui tanto um afago

circense como negativo, mas que atrai a atenção que elas querem e necessitam), blasfêmias e vul- garidade em círculos onde tais coisas não são bem aceitas.

Os viciados em afagos são aqueles que parecem jamais conseguir encher seus baldes. A razão mais provável disso é o fato de que, pela nossa situação de não-ok, estamos sempre menosprezando os afagos que recebemos. Às vezes, peço a meus clientes o que chamo de uma lista de afagos. Dou-lhes uma folha de papel e peço que anotem os nomes das pessoas a quem podem procurar para dar afagos e recebê- los. —Mas isso não é por demais, superficial? — perguntam muitos. Não acho que seja. Embora todos nós gostássemos de viver apenas situações em que só receberíamos afagos espontâneos, quando isso não ocorre devemos simplesmente ir procurá-los. O Dr. Thomas A. Harris, ao dar uma indicação sobre o valor dos afagos, disse:

—Quando em dúvida, afague sempre. Um dos afagos mais positivos que podemos oferecer é o de chamar as pessoas conhecidas por seus primeiros nomes. Encontrar alguém a quem se viu apenas uma única vez, dez ou quinze anos antes, e ouvi-lo chamar-nos, depois de todo esse tempo, por nosso nome, é um afago sem paralelo. Embora o ego de profissionais possa ser agradado pelo tratamento de Doutor,

Juiz e assim por diante, freqüentemente tenho a impressão de que a maioria gostaria de correr o risco de dizer:

não me

—Vamos esquecer o título

chama pelo primeiro nome e me trata de você?

por que

As três paredes

Somos solitários porque erguemos paredes, ao invés de pontes. Eu não estou ok — Você está ok. "Eu não sou

e vou demonstrá-lo." Embora a

criança manifeste raiva, sofrimento, tristeza, alegria, júbilo, a emoção mais forte e dominante é o medo, que ofusca todas as outras. Embora, com a expansão da consciência e do conheci- mento, possamos reduzir o volume desse medo, não há meio de garantir que possa ser desligado permanentemente. Nossa esperança, contudo, está no fato de que poderemos gradativamente reduzir o volume com o nosso Adulto. Nessa posição universal, há uma necessidade de provar que somos indignos de amor. E assim, inconscientemente, manipulamos os outros, a fim de que confirmem para nós os nossos próprios medos do amor. Há, em nossa Criança Não-ok, uma máquina de reciclagem de afagos bastante complexa, projetada para interceptar afagos positivos e reformulá-los de tal maneira que o produto acabado sejam afagos negativos. A máquina está em funcionamento do nascer ao pôr-do-sol, manejada em dois turnos, de oito horas de

digna de amor

duração cada, sem turno da noite, porquê essa é a ocasião em que estamos dormindo.

A coisa funciona da seguinte maneira: Quando

um elogio genuíno é dado, não importa por que motivo, é interceptado pelo não-ok em nossa criança e imediatamente posto na máquina de reciclagem, de modo que um afago do tipo "Harry, aprecio o excelente trabalho que você realizou nos dois últimos meses", possa sair do lado oposto da máquina como algo negativo:

"Ora, qualquer um poderia fazer a mesma coisa." Uma vez que a máquina está projetada para reduzir ou menosprezar o valor dos afagos (porque isso é algo que a criança não-ok tem de

fazer) e, às vezes, até mesmo rejeitá-los, o rótulo no produto acabado diz sempre: "Eu não valho realmente nada." A máquina, portanto, está projetada para o objetivo de reafirmar continuamente o valor que nos damos: Eu não sou digno de amor. "Eu gostaria muito de conhecê-lo melhor", ao ser reciclado dá como resultado "Se ele realmente soubesse o que eu sou, não diria isso". O rótulo

é: Eu não sou digno de amor.

Se a nossa criança não-ok não está ocupada em reciclar afagos positivos que recebemos, então estará ocupada em manipular os outros para receber os diretamente negativos. Essas frases lhe parecem familiares?

Eu estou sempre errado. Não consigo fazer coisa nenhuma. Sei que não posso fazer isso.

Você sempre ganha. Você é mais inteligente do que eu. Você está sempre certo. Você sempre impõe a sua vontade. Você é tão eficiente. Você sempre faz as coisas. Você é tão organizado.

E as

"agressões"

formas:

nos

voltam

nas

seguintes

Mas, afinal, o que há de errado com você? Não consigo suportar sua atitude derrotista. Acha que pode algum dia alcançar o sucesso? Como pode ser tão negativo?

Nós ganhamos quando perdemos. As "agressões" que recebemos servem para manter os nossos medos ativos e a nossa auto-imagem negativa. Ganhar seria assustador; simplesmente não saberíamos como lidar com quaisquer bons sentimentos a respeito de nós mesmos.

Nessa posição vital, os afagos positivos não se registram, não têm a menor chance. Isso nos leva a outra coisa muito importante a respeito dos afagos. Nem todos os elogios e agrados do mundo poderão fazer com que nos sintamos mais ok, até assumirmos essa posição básica dentro de nós mesmos. Um exemplo é o caso

do marido confuso e aturdido que disse à esposa:

—Você parece vicejar com a minha piedade. Mas por que não pode aceitar os elogios que quero lhe dar?

Ela precisava da piedade dele e das "agressões" (afagos negativos); era o meio que tinha de levar o marido a reafirmar para ela que "eu não sou digna de amor". Não se tratava apenas de uma mulher assustada e solitária, mas também estava compelindo o marido a uma situação si- milar. Ele também era solitário, porque, embora quisesse dar-se, ela era incapaz de aceitar. Ele estava sendo privado da alegria de dar, tornando-se cada vez mais relutante (e receoso) de dar o que desejava. Os dois eram solitários. Numa tentativa desesperada de lidar com os medos opressivos de "eu não sou digno de amor", podemos erguer uma segunda parede e assumir a posição inversa do Eu sou ok — Você não é ok. —Não confio em ninguém que possa querer demonstrar que se preocupa comigo. (O que há por trás dos agrados?) As pessoas freqüentemente assumem essa posição como meio de auto-preservação. Se os nossos sentimentos de não sermos dignos de amor se tornam insuportáveis (com a con- seqüente solidão), assumimos, num esforço desesperado para detê-los, uma posição furiosa de "se não fosse pelo mundo". Enquanto pudermos atribuir a culpa ao que existe "lá fora", não temos que experimentar a angústia da nossa própria solidão. As pessoas nessa posição dão a impressão de segurança, arrogância, superioridade, mas é uma atitude projetada para manter os outros a distância, não confiando em ninguém, muito menos naqueles que querem nos

dar amor. Mas por baixo dos escárnios, insultos, ira e beligerância, há um angustiante medo do amor. De todos os sentimentos em nosso arsenal, a raiva é o mais previsível. Podemos estar razoavelmente certos de como alguém reagirá se

ficarmos furiosos; provavelmente, os outros irão ficar furiosos também. Porque sabemos disso antecipadamente, no momento da comunicação em que reagimos com crescente ressentimento ou sentimentos de rejeição e medo, ficaremos às vezes furiosos. É um meio de encarar o diálogo e

a possibilidade de mais sentimentos abalados.

Em certas ocasiões, todos nós usamos a raiva como arma defensiva, mas outros, cujo medo do amor se tornou insuportável, apegam-se a essa posição. Não mais conseguem suportar ter de enfrentar seu medo do amor. Esse modo de ser lhes permite vencer, o que devem fazer a

qualquer custo, nem que para isso tenham que recorrer até ao homicídio. Mas a vitória é apenas temporária. Ao final, tais pessoas sempre termi- nam perdendo, porque os outros são continuamente colocados na posição de errados

e "culpados" por tudo, o que gera alienação e

solidão.

O brigão nunca permite que os outros saibam o

que está pensando ou sentindo. A raiva que ele projeta encobre todos os seus sentimentos interiores, especialmente o medo. Nesse sentido, ele sempre permanece um estranho para nós; podemos sondar e fazer perguntas, mas será sempre em vão. Essa é a parede mais difícil de

se penetrar. As pessoas que usam o poder como meio de controlar os outros estão entre as mais solitárias, embora nunca o admitam. Quanto mais furiosas se tornam, mais solitárias são, porque as pessoas sentem cada vez mais medo delas. No momento em que uma pessoa assim puder admitir seu medo do amor (Eu não estou ok), terá dado o primeiro passo na direção da cura. Até então, toda sua energia será dispendida no uso do poder e controle num esforço para provar a si mesmo e aos outros que está ok (mais ok). Mas há também uma terceira parede, uma parede de desespero: Eu não estou ok — Você não está ok. É a posição de "rendição"; uma incapacidade de dar ou receber afeto. O medo de amar degenerou em paralisia. Há uma extrema e sombria solidão. Ao assumir a posição Eu estou ok — Você está ok, começamos a nos afastar da posição de simples reação para a posição de atuação responsável. Contudo, antes de podermos dizer que os outros estão ok, devemos chegar a essa conclusão a respeito do nosso próprio valor. Na infância, a avaliação do nosso próprio valor foi uma conclusão baseada somente em sentimentos. Agora, é uma opção baseada num acúmulo de informações. A posição ok não é um porto a que chegamos e onde ancoramos permanentemente, mas sim uma estrada que estamos sempre trilhando, avançando um pouco para recuar mais adiante, mas a cada momento ganhando um pouco mais,

sentindo-se mais ok. A luta prossegue pela vida inteira e nossa atitude quanto ao seu valor é que determina o grau de nossa solidão.

3. Como escapamos à responsabilidade por nossa solidão

Há muitos mitos a respeito da solidão. Alguns são o resultado direto do desconhecimento de sua natureza, mas a maioria constitui uma tentativa de escapar à responsabilidade por nosso medo do amor. A maior parte da solidão que sentimos foi criada por nós mesmos. As conclusões a que chegamos, como crianças, foram baseadas em nossa ignorância. De certa forma, fomos vítimas então, dispondo apenas da capacidade de reagir. Mas é possível continuar através da vidjj praticamente da mesma maneira. Vamos a uma ilustração. Os jogos mais populares da infância são "Se não fosse por você", "Veja o que você me fez fazer" e "É tudo culpa sua"; são todos jogos que situam "lá fora" a responsabilidade pela dor, os medos ou os erros. (Culpar os outros por nossos problemas permite- nos fazer algumas coisas em relação a eles. E sempre temos que fazer alguma coisa. Uma criança faz tudo, menos as coisas úteis, como meio de lidar com um sofrimento que não pode compreender intelectualmente. Por causa de sua inconsciência (o Adulto interior ainda está vacilante e desamparado), a criança reagirá ao problema da única maneira a seu alcance: atri-

buindo às pessoas grandes a culpa de tudo, desde o copo de leite derramado com o cotovelo ("Se não tivesse posto o meu copo tão perto da beira da mesa") e as dores de barriga ("Mamãe, se você não me tivesse feito comer tanto"), até o medo do amor ("Por que você é sempre tão ruim comigo?"). Em Games People Play 1 , Eric Berne deixou de observar que o primeiro jogo e o predileto, "Se não fosse por você" foi originalmente praticado na ocasião da criação. Tal irresponsabilidade é tão antiga quanto o próprio tempo. Na história bíblica de Adão e Eva, Deus disse aos dois que não deveriam comer de uma única árvore no jardim, a "árvore do conhecimento". Mas por causa da mesma compulsão que impele os meninos a riscarem fósforos que são advertidos para não riscarem e às meninas a tocarem nas chapas quentes do fogão que são advertidas para não tocarem, Eva não se conformou. Sua curiosidade acabou prevalecendo e ela colheu o que fora instruída a não colher. E como a miséria adora companhia, ela tratou então de envolver Adão. "Tome aqui, coma um pouco". Quando Deus, depois disso, perguntou a Eva o que acontecera, ela prontamente tratou de atribuir a culpa à serpente, que a tentara. "Ela me fez fazer isso". Quando Adão, por sua vez, foi interrogado por Deus, ele tratou de disparar uma carga dupla: "Foi o Senhor quem a deu a mim e ela me fez fazer isso". Dupla irresponsabilidade. Os dois fizeram o melhor possível para se esquivar às

conseqüências de uma opção que haviam tomado como indivíduos: "Nós somos vítimas."

A reação parece ter-lhes ocorrido tão

naturalmente naquele tempo, como nos ocorre

até hoje. Quando o comediante Flip Wilson se

explica, "Foi o diabo que me levou a fazer isso", todos nós nos identificamos. Culpar os outros por

nossos sofrimentos, medos, erros, julgamentos falhos e infortúnios nos permite, como adultos, fazer alguma coisa em relação a eles. A única diferença é que a desculpa de uma pessoa de quarenta anos é provavelmente mais sofisticada

que a de uma criança de cinco anos. Podemos

justificar nossa amargura e medo bancando o

papel de vítimas: "Veja o que você me fez fazer". As pessoas grandes que ainda insistem em bancar as vítimas, no entanto, continuam a viver

o mesmo papel que desempenharam quando

eram crianças desamparadas.

Vítimas

Como vítimas, portanto, não estamos dispostos a assumir a responsabilidade por nossas decisões, sentimentos e comportamento. A perspectiva é apavorante. Estamos sempre balbuciando:

— Se não fosse por eles

Mas por trás desse tema repetido interminavelmente, há um medo de aceitar a responsabilidade pessoal por nossas decisões Sempre deixamos uma pequena válvula de escape, pela qual possamos nos esgueirar, se as coisas ficarem pretas. Não estamos dispostos a

você

ela

ele

dar um sim ou não firme e incisivo a qualquer coisa ou qualquer pessoa; caracterizados por declarações vacilantes como "Vou tentar", "talvez", "acho que sim" e "é o que eu espero", somos capazes de qualquer coisa para evitar um comprometimento definido. Bancando a vítima, tememos também nossos próprios sentimentos, respondendo apenas com sentimentos que estão em consonância com o que as pessoas esperam e querem que sintamos, embora freqüentemente negando o que realmente existe dentro de nós — raiva, sofrimento, tristeza, medo, até mesmo alegria. Deixando-nos constantemente ser feridos, ban- camos os mortos quando se trata de fazer alguma coisa em relação aos nossos ferimentos. Remoendo nossas feridas por dias, meses ou anos, criamos o que é chamado de chantagem emocional. A dor e a raiva sobre as quais não pretendemos tomar qualquer providência permitem-nos sentir o que precisamos sentir:

sempre rejeitados, magoados ou amedrontados. "

"Por que você não

chantagem emocional comum (e jogo) da pessoa solitária. Embora freqüentemente solicite conselhos ao médico, sacerdote ou outro

profissional, o que na superfície parece constituir atitude Adulta, de especulação sobre como superar um determinado sofrimento, ela sempre reage cautelosamente a cada sugestão ou opção

um jogo que se desenvolve ao

longo de quatro estágios.

com "Sim, mas

?"

"Sim,

mas

é uma

",

ARMADILHA

— Doutor, tenho esse problema. Sherry

e nos

acostumamos a ficar juntos. Mas ela parou de me chamar. Mas, afinal, o que há comigo? (Adulto.)

costumava chamar-me

MANOBRA

Uma discussão animada, focalizando as possíveis

opções: "Por que você não

?"

(Ainda Adulto.)

TRUQUE

—Sim,

já tentei o que está sugerindo.

Parece que não dá certo porque

Ou então:

—Isso simplesmente não me pareceu possível. Provavelmente a resposta vencedora, entre todas as possíveis, é "Você simplesmente não me compreende". Essa súbita transferência do Adulto para Criança acontece porque a "vítima" verbaliza o que a sua Criança Não-ok interior es- tava querendo manifestar desde o início: uma necessidade de atribuir a alguém mais a responsabilidade por seus sentimentos de não ser digna de amor; neste caso, o médico.

DESENLACE

A pessoa pode ainda conquistar mais uma

mágoa. Além de sentir o desamor dos vizinhos e

amigos, pode agora sustentar que seu médico

também não a aprecia o bastante para reunir a compreensão pela qual ela estava procurando. —Nem ele me compreende! A pessoa pode assim continuar com a sua chantagem. Quando se trata de pensar em novas desculpas

para não executar uma sugestão ou opção sugeridas, o jogador viciado do "Por que você "

pode chegar às raias do puro

gênio. Mas quanto mais joga o "Sim, mas ", mais solitário vai ficando.

não?" "Sim, mas

Como começar: a escada do risco

A partir do momento em que temos certeza de que queremos nos livrar da chantagem emocional, o melhor é começar por assumir pequenos riscos, com os nossos sentimentos e decisões. Se começarmos pelos grandes e as coisas saírem erradas, podemos não ser capazes de assumir a responsabilidade pela reação dolorosa. Devemos começar da mesma maneira como um banhista verifica a temperatura do mar, pondo apenas o dedão do pé na água; depois, ele entra na água até os tornozelos, até a cintura, até os ombros, dando tempo para que seu corpo se ajuste à mudança de temperatura. O mesmo se aplica a nossa solidão. Se começamos com pequenos riscos e a resposta nos provoca uma reação de sofrimento ("Lá vamos nós novamente!"), é mais fácil reagrupar as forças interiores para prosseguir.

Jim um marido solitário e cerceado, teve a ideia certa. Começou por decidir que telefonaria do trabalho para a esposa todos os dias, por volta de meio-dia. Ele estava cansado de seu "Eu não sou digno de amor" e como há muitos anos estava na posição Eu não estou ok — Você está ok em relação à esposa, ele sempre se deixava ficar magoado por quase tudo que ela dizia, somente raramente arriscando, em troca, uma expressão de seus próprios sentimentos. Ao se tornar consciente da maneira como estava meramente reagindo à esposa, ele decidiu que o meio mais seguro e responsável de começar a confiar novamente em seus sentimentos seria falar com ela pelo telefone. Um dos motivos pelos quais nos amedrontamos com a; perspectiva de partilhar nossos sentimentos é que qualquer expressão negativa (imaginária ou real) no rosto do interlocutor é freqüentemente interpretada como desgosto, desaprovação, incompreensão ou rejeição. Essas reações físicas podem perfeitamente inflamar nossos medos novamente e fazer-nos bater em retirada. Jim sabia que, inicialmente, ficaria à espreita (como sempre estivera) de qualquer reação negativa no rosto da esposa. Mas no momento em que descobriu que a esposa estava disposta a escutar tudo pelo telefone, ele deu o passo seguinte, passando a expressar seus sentimentos por escrito. Novamente, ele não teria que falar com a esposa frente a frente, mas, pelo menos, estava expressando seus sentimentos. E, no processo, aprendia

lentamente a confiar neles novamente. Sempre que possível, deixava que as palavras fluíssem para o papel, não procurando imaginar antecipadamente o que ia escrever. Ensaiar o que vamos expressar pode facilmente sufocar um fluxo livre de sentimentos.

O medo de que não pareça aceitável nem soe

bem é que nos leva a ensaiar. No caso de Jim, ele sentia que a esposa era mais inteligente. Foi uma

verdadeira vitória para ele elevar-se acima de seu medo de não se expressar de maneira

inteligente para a esposa, deixando simplesmente que as palavras fluíssem para o papel. A princípio, ele rasgava os bilhetes assim que terminava de escrevê-los. Ainda combatendo

o medo de não ser compreendido, não podia

arriscar-se à reação antecipada. ("Se ela realmente vier à saber como eu sou, certamente não vai gostar de mim.") Mas, com o tempo, passou a entregar os bilhetes à esposa. E, novamente, ela compreendeu. Ironicamente, ela sempre estivera esperando que uma coisa assim acontecesse, de modo que ficou encantada. Quando Jim descobriu que a esposa não apenas aceitava plenamente seus sentimentos, mas estava igualmente deliciada pelo fato de ele não mais sentir-se um estranho junto dela, o seu próprio medo de amor começou a dissipar-se, a degelar. Agora está começando a falar diretamente com a esposa a respeito de seus sentimentos. Tendo galgado lentamente a ladeira do risco, ele está na posição de ser mais responsável por seus sentimentos, de confiar

mais neles e, por conseguinte, de ter menos medo do amor. Quando começamos a assumir pequenos riscos, iniciativa é a palavra-chave: tomar a iniciativa e cumprimentar um estranho antes que ele fale, correr o risco de convidar um novo (ou velho) vizinho a tomar um café informalmente, assumir o risco de puxar conversa com alguém sentado a seu lado no ônibus, trem ou avião. Um homem solitário decidiu que o primeiro risco real que iria assumir seria dizer “Olá” a todos os estranhos numa convenção a que deveria comparecer. Ele voltou exultante. Ninguém ficara olhando para ele num silêncio desconcertado (o que era parte do risco assumido); todos lhe disseram alguma coisa em resposta. Não há, contudo, qualquer garantia de que os pequenos riscos não sejam um tiro a sair pela culatra. — Se estou me sentindo um pouco solitário, sempre posso falar pelo telefone com um amigo — diz alguém. — Mas aqui também há um risco. Talvez o amigo não tenha tempo para conversar ou não esteja com disposição. Se estou me sentindo apenas um pouco solitário, posso então aceitar isso e sentir-me melhor, por ter feito o esforço, passando inclusive a ter um sentimento de simpatia pelo problema do amigo. Da mesma forma, posso correr o risco de animar alguma outra pessoa, visitando uma pessoa idosa ou alguém que possa estar solitário.

Como os riscos podem perturbar o equilíbrio dos relacionamentos

Quando as pessoas solitárias e amedrontadas começam a assumir pequenos riscos com seus sentimentos e decisões, podem às vezes perturbar o equilíbrio de seus relacionamentos.

Esposas, maridos, colegas de trabalho, filhos e amigos podem não apenas ficar aturdidos, como também beligerantes. Nunca tendo visto antes esse lado da pessoa, a mudança pode produzir um efeito terrível sobre a própria segurança e papel. Ver alguém mudar de um sapo (a imagem de um perdedor para Eric Berne) para um príncipe ou uma princesa nem sempre estimula as pessoas ao aplauso. A natureza, humana sendo o que é, a mudança dos outros pode ser uma ameaça para nós. —Quem Al está pensando que é, dizendo-me que não gosta de trabalhar além do expediente? — pode dizer o chefe irritado. — Ele sempre trabalhou antes, sem receber qualquer pagamento extraordinário. Ou então:

—Margaret sempre aceitou minhas sugestões e

idéias. Não sei o que deu nela agora ficando tão independente!

O ajustamento terá que se processar pelos dois

lados. Uma pessoa que está apenas começando

a confiar em seus sentimentos e decisões, a

menos que seja compreendida pelos outros, regredirá. Inversamente, a pessoa terá também

Está

que compreender que seu lado anteriormente não expresso (um lado que lhe era estranho, por ter sido sempre o seu lado "mau") pode desconcertar, assustar, ameaçar e irritar aqueles que o cercam, na vida cotidiana. Mas o fato é que não temos de ser vítimas. Assim que nos tornamos conscientes de que somos responsáveis pela natureza de nossas opções e pela maneira de manipular nossos sentimentos, começamos a amadurecer. E o que é ainda mais importante: nossa solidão começa a degelar. Num cômputo final, nada podemos alcançar de duradouro através da sorte, do acaso ou por acidente. Esperar um golpe de sorte é o auge da irresponsabilidade. Se fracassamos, é porque carecemos da capacidade, habilidade, jul- gamento, energia interesse ou vontade de assumir os riscos por uma coisa específica que nos propusemos a fazer. Sentir que a vida nos logrou, que outros foram injustos ou cruéis ou que alguém não nos apoiou como deveria, é atribuir a culpa aos outros pelo nosso quinhão miserável da vida. O importante não é o que acontece conosco, mas sim a maneira pela qual reagimos ao que nos acontece. Nem sempre podemos controlar questões como doenças que nos acometem, amigos íntimos que se afastam, dispensas no trabalho, perda de um companheiro ou parente pela morte ou perda de propriedade por causa de um furacão ou uma inundação. Mas temos opção quanto à determinação da maneira como vamos reagir numa base constante a esses acon-

tecimentos. Às vezes, os outros não nos tratam com justiça ou com muita consideração. Nessas ocasiões, ficamos deprimidos e propensos a sentir rejeição. Mas raramente as pessoas fazem alguma coisa deliberadamente para nos magoar ou rejeitar; o fato é que o nosso Não-ok sente uma necessidade de tudo interpretar como rejeição. A opção é nossa. Se os outros estão cansados, irritados (freqüentemente com outras pessoas que não nós), sentindo-se fisicamente esgotados ou até mesmo eles próprios com medo do amor, a tendência natural é supor que a indiferença ou falta de reação é sinal de uma rejeição intencional. E, novamente, surge o "Eu não sou digno de amor". "Mas a verdade é que os outros me magoam", você pode dizer. Ninguém pode negar que os outros nos magoam. O que eles dizem a nosso respeito e para nós pode, muitas vezes, magoar- nos terrivelmente. Mas felizmente, temos uma opção quanto ao modo de lidar com os nossos sentimentos de mágoa iniciais, depois que nos tornamos conscientes deles. Nossa primeira reação ao que alguém disse ou fez, parte do fundo de nós; não temos qualquer controle sobre isso. Mas a partir do momento em que nos tornamos conscientes da nossa reação (Adulto), somos responsáveis, pela maneira por que vamos tratar o problema, daí por diante. Em outras palavras: nós temos uma opção. Uma opção é se retrair com a mágoa, retirar-se e meditar, remoer por dias, meses ou anos. Retraindo-nos, ficamos com um medo do amor

ainda maior, por causa de nossa certeza de que, se voltarmos a amar novamente, seremos outra vez magoados. Podemos tentar apagar nossa mágoa mergulhando numa ronda interminável de atividades ou bebendo ou tomando drogas Nós nos colocamos no centro da ação, a fim de Tentarmos esquecer. Mas os sentimentos não expressos simplesmente se recusam a desaparecer; transformam-se em negócios inacabados para o futuro. Podemos nos tornar, como diz o Dr. William Glasser, "historiadores", mantendo um arquivo de mágoas não expressas. Podemos lidar com os nossos sentimentos de uma maneira exterior, quando são experimentados, simplesmente manifestando nossa reação imediata, sem qualquer tentativa de atribuir aos outros a responsabilidade por tal reação. Em outras palavras, podemos arriscar — mas com alguma semelhança de responsabilidade. Arriscar é compreender e amar o que um pavio representa para uma vela, o seu próprio centro. Esse tipo de risco nos proporciona oportunidade de nos experimentarmos mais plenamente. Além disso, permite aos outros verificarem se a nossa reação coincidiu com as intenções deles. No processo, passamos inclusive a nos conhecer melhor. Mas será que os outros sempre querem conhecer as nossas reações? Os meros conhecidos provavelmente não se importam com isso. Além do mais, nada serviria. Mas podemos descobrir

também, desolados, que os parentes mais chegados nem sempre querem saber de nossas reações. Se amigos e parentes as rejeitam, então é evidente que não estão interessados em nos conhecer. Há situações em que não é sensato partilhar nossas reações com outros. Se o seu chefe disse ou fez alguma coisa que o irritou, reagir com raiva, dizendo "estou aborrecido com você", pode pôr o seu emprego em perigo. Esse tipo de risco não vale a pena. Assim, é mais sensato procurar outros meios de liberar a raiva. Alguns homens fazem isso ao baterem com toda a força numa bola de golfe, empenhando-se numa vigorosa partida de tênis ou até mesmo jogando pedras contra uma cerca. — Faço melhor o serviço de casa quando estou furiosa com o meu chefe — explica uma dona-de- casa, que trabalha em meio-expediente. "A raiva, se deve ser dissipada, tem que ser enfrentada com a ação. Um jogo de tambores para um menino, embora o barulho possa deixar os pais malucos, é um excelente escoadouro para a raiva. Até mesmo o tiro ao alvo proporciona uma válvula de escape, pois o som dos estampidos contribui para dissipar a raiva. Vários dos mitos a respeito da solidão certamente lhe parecerão familiares. 1. "É impossível experimentar a solidão, enquanto eu estiver na companhia de outras pessoas." É possível sentir-se mais solitário no meio de uma multidão do que no alto de uma montanha.

Se temos medo do amor, a presença de outras pessoas, até mesmo a expectativa dos momentos em que estaremos com elas, pode servir para intensificar nossos temores, fazendo- nos ainda mais solitários. Sempre que dou algum curso sobre Solidão numa universidade, é inevitável que diversas pessoas procurem travar antes um diálogo comigo. A conversação segue um padrão previsível, mais ou menos assim:

Sr. B. — Ei, ouvi dizer que vai começar outro ciclo de conferências sobre Solidão na universidade. I. T. — Isso mesmo. E a primeira será dentro de duas semanas. Está interessado? Sr. B. — Ando tão envolvido com pessoas em atividades cívicas e religiosas que solidão é a única coisa que não tenho. Da mesma maneira como vivemos com a ilusão de que braços ou pernas fraturados, terríveis acidentes de carro e morte súbita são coisas que acontecem com os outros, mas jamais conosco, assim também encaramos a solidão. É algo que acontece com as outras pessoas, segundo o mito. Mas o ponto central de nossa análise da solidão é a crença inabalável de que um programa cheio de compromissos comunitários, anotados no calendário da cozinha, não constitui por si só uma garantia de imunidade contra a doença. A recíproca, de fato, é mais verdadeira. Uma das razões básicas para o ritmo acelerado da vida atual é que estamos fugindo da solidão. Nunca as pessoas se mostraram mais ativas fora de casa

do que atualmente; contudo, nunca tantas pessoas exibiram como atualmente os sintomas da solidão. A questão é saber: estamos correndo para ou de alguma coisa? Em minha opinião, a segunda hipótese é a verdadeira. Se você já ficou sozinho numa cidade grande, provavelmente sabe o que é esbarrar em dezenas de estranhos, olhar por um momento nos olhos deles e pensar que "talvez pudéssemos ser amigos”, o que é logo "seguido por um senti- mento opressivo de desconfiança e medo. Não é por acaso que personalidades famosas cometem suicídio. Muitas delas, sentindo medo do amor (as pessoas acham isso difícil de acreditar), descobrem que tornar-se popular, ver seu nome nos cartazes, significa ser subitamente empurrado para o primeiro plano, cercado por multidões admiradoras e agressivas. Em conseqüência, o medo do amor já existente é agravado ao ponto de desespero, pânico e, finalmente, suicídio. A dor gerada por esse medo torna-se insuportável. A solidão está relacionada não com o número de amigos que nos cercam, mas com a qualidade de nossa amizade. U m amigo compreensivo irá preencher uma necessidade nossa que uma multidão ruidosa de mil pessoas jamais poderá atender. 2 . "Nunca escolhi ser solitário." Outro mito. Algumas pessoas, por causa de seu medo do amor, mantém-se às vezes a distância. Podemos tentar uma aproximação, mas será em vão. Não devemos concluir, automaticamente, que há

alguma coisa em nós que não é digna de amor. O medo do amor das outras pessoas é um problema que elas devem resolver e pelo qual são responsáveis. Isso não significa que devamos ignorá-las; pelo contrário, deveríamos, se possível, dar a entender que gostaríamos de compreendê-las, pois é essa compreensão que poderá fazer com que elas saiam de trás de suas paredes protetoras. Se as julgarmos, isso só servirá para alargar o abismo que as separa de nós. 3. "É importante trabalhar arduamente para não ser solitário." Se isso significa trabalhar arduamente para ser popular, para ser um constante centro das atenções, para ser amado por todos, então trata-se de um esforço exaus- tivo. O medo está por trás dos nossos esforços frenéticos para nos fazermos apreciados por todos. 4. "Apenas algumas pessoas parecem conseguir fazer alguma coisa com relação a sua solidão." De um jeito ou de outro, todo mundo faz alguma coisa em relação à angústia de sua solidão. É um sentimento terrível demais para que não se tome alguma providência a respeito? Se não recorremos às alternativas positivas, com alguma compreensão, iremos continuar, por ignorância e inconsciência, a empregar as técnicas de manipulação utilizadas desde que éramos crianças. A única diferença será a de que, sendo agora adultos, as técnicas serão provavelmente mais sutis. Descontar nas outras pessoas é um desses métodos destrutivos. Exige

muita astúcia e planejamento, especialmente quando podemos saber antecipadamente as ocasiões em que as circunstâncias nos colocarão junto com as pessoas em quem descontamos, nas mesmas horas e nos mesmos lugares, como a missa aos domingos, a festa de Natal anual da companhia ou a reunião de pais e professores. Os encontros inesperados é que são desconcertantes para aquele que desconta. Não há pânico que se iguale ao de uma mulher que subitamente avista "aquela pessoa" num corredor de supermercado, empurrando o carrinho de compras em sua direção. Mas se a mulher for calejada, saberá evitar a confrontação, nem que tenha de verificar 25 pés de repolho no balcão das verduras, ao invés dos dois ou três habituais. Por razões como essa e porque a atitude de "descontar" exige mais que um simples dispêndio de energia, essas pessoas se descobrem em variados graus de esgotamento emocional, o que significa que lhes resta bem pouca energia para realmente se importarem com as outras pessoas. Também recorremos aos boatos como meio de repartir a angústia da nossa solidão. E sempre falamos a respeito das pessoas que nos magoaram. Uma técnica bastante popular é fazer perguntas aparentemente inocentes sobre o caráter dessas pessoas; ao invés de um ataque aberto e ostensivo ao caráter de alguém, fazemos perguntas "inocentes" a respeito. Basta deixar uma sombra de dúvida nas mentes dos

"Ouvi dizer

que

5. "Há uma relação entre a solidão e o ambiente em que vivo." Nossa solidão não está relacionada com o lugar em que vivemos, quer seja urbano ou rural, nem com a qualidade de nossos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho. A solução para a nossa solidão seria bastante fácil se bastasse fazer as malas e mudar-se para outro bairro ou procurar um novo emprego. Os vizinhos que não respondem às nossas iniciativas de amizade podem nos deixar furiosos e aprofundar o nosso medo do amor. Mas onde quer que se vá, sempre haverá quem não responda à nossa amizade. Uma mudança de ambiente pode nos proporcionar alívio temporário e algum excitamento, mas se as coisas saírem erradas novamente — e não há qualquer garantia de que isso não aconteça —, poderão facilmente degenerar num ciclo interminável de inquietação e mudança, com a ilusão permanente de que se estará melhor em algum outro lugar. A manipulação do ambiente que nos cerca não constitui solução duradoura para a solidão. Novamente, estaremos atribuindo a responsabilidade pelos nossos sentimentos de solidão a fatores externos, a qualquer coisa que não nós mesmos. Estamos culpando a cidade, a vizinhança, o emprego, a cultura, a escola, a política, a igreja, o sacerdote e assim por diante. Não há qualquer meio de justificarmos ou de- fendermos nosso medo do amor e solidão. Somos sempre os responsáveis.

interlocutores: "É verdade que "

?"

"Você acha que

?"

O tédio é comumente encarado, erroneamente, como solidão. As pessoas que moram em zonas rurais, especialmente, tendem a ligar as duas coisas. 9 — A solidão aqui no quartel é terrível — queixou-se um militar, destacado para servir num quartel remoto, pouco mais que uma clareira aberta entre um mar de cactos. No seu caso, ele não estava se sentindo solitário, mas sim entediado, sem saber o que fazer e como passar as suas horas de folga. A solidão é sempre equiparada ao medo do amor. Esse militar terá, por mais difícil que seja, que se esforçar para encontrar novos meios de passar o tempo. Algumas vezes, no entanto, o tédio é resultado direto da solidão. Se nos retraímos, por meio do amor, o problema surge: E o que vamos fazer agora para passar o tempo? Diversas pessoas já me disseram que, embora se sintam pouco à vontade na companhia dos outros, gostam de observá-las; sentam num banco de parque e ficam observando uma solteirona dar comida aos pombos, um garoto que assovia enquanto engraxa sapatos, dois namorados em outro banco, um velho cavalheiro excêntrico que desfila de um lado para outro levando um cartaz feito em casa, onde se lê: Arrependa-se Agora, O Fim Está Próximo. Observar as pessoas pode não ser muito gratificante em termos de preencher a nossa necessidade do amor, mas pelo menos proporciona uma válvula de escape contra o tédio. Portanto, o tédio pode estar

vinculado à solidão, mas apenas se for conseqüência do nosso afastamento das pessoas, devido ao medo do amor. 6. "Solidão e estar só são a mesma coisa." É o mito mais comum e mais enganador. É possível estar só e não ser um solitário. Algumas pessoas vivem só, por opção, como estilo de vida. O caçador de peles embrenhado nas flores- tas, o guarda-florestal, o garimpeiro, o faroleiro, o rancheiro e o fazendeiro geralmente vivem sós, mas aparentemente nunca se queixam de solidão. Mas, essas pessoas à parte, estar só também se relaciona com sentimentos de perda, seguindo-se a uma separação física de lugares e pessoas familiares e queridos. É nessas ocasiões que estar só representa uma experiência intensamente vivida, especialmente se a separação não constitui escolha nossa. Todos nós, em uma ocasião ou outra, escolhemos separar-nos do trabalho, amigos e família, a fim de pensar, refletir e avaliar tudo, na quietude de um lugar isolado. Eu próprio já fiz isso por diversas vezes, retirando-me para a nossa cabana de verão, nas montanhas. Quer esteja cortando lenha, andando ou sentado à beira do lago, é sempre bom experimentar o que acontece quando estamos isolados. Às vezes, pode ser doloroso, mas, o saldo é sempre positivos Depois de alguns dias, normalmente fico inquieto e acabo voltando para casa, para a minha família. Precisamos ficar a sós, mas precisamos também da intimidade e da

compreensão dos outros. Há um tempo e um lugar para as duas coisas. Mas quando a separação física dos outros não se deu por nossa escolha e sim através de uma seqüência natural de acontecimentos, o isolamento súbito pode nos deixar atordoados num desespero doloroso. Isso acontece especialmente quando nos separamos dos entes amados pela morte. Pode acontecer numa fração de segundo. Billy Graham lembra-nos que "todo mundo está a apenas uma batida de coração da

não importa o quão saudável seja". Tal

declaração não possui uma intenção lúgubre, mas é uma realidade, a qual esquecemos com a maior facilidade. A separação dos entes amados, pela morte, pode ocorrer nos momentos mais inesperados. Não escolhemos esse tipo de separação. Há separações que podemos lamentar durante anos. Em outras ocasiões, somos mais capazes de aceitá-las. Quando isso acontece, usamos recursos que existem dentro de nós e com os quais tínhamos perdido contato ou aos quais jamais havíamos recorrido, novas descobertas e avaliações. Estar só se refere ao sentimento de perda que se segue a uma separação física daquilo que é familiar e amado, quer sejam pessoas, lugares ou animais de estimação. Um velho solteirão, lamentando a perda de um cachorro que fora seu companheiro por quinze anos, assim se expressou: — Aquele cachorro era toda a minha vida. Ele não estava apenas dizendo que sentia

morte

saudades do cachorro, mas que a realidade de

seu isolamento era agora mais dolorosa e nítida.

A solidão é totalmente diferente. Não é a

separação das pessoas num sentido físico, mas a

separação emocional. É estar perto fisicamente,

mas sentir-se distante emocionalmente

causa do medo do amor. 7. "Eu me sinto mais solitário em determinadas épocas do ano." É muito fácil confundir solidão com sentimentos de nostalgia ou melancolia. Nossos momentos de nostalgia geralmente coincidem com certas épocas do ano: aniversá- rios, feriados, datas especiais, ocasiões e acontecimentos que resultam numa repetição de sentimentos bons ou tristes, emergindo do passado. O cheiro das folhas sendo queimadas no outono

ou de pão feito em casa pode provocar nostalgia,

bem como a contemplação de um pôr-do-sol

por

deslumbrante, num fim de tarde do verão. Até mesmo sons, como o vento a farfalhar as folhas

de um salgueiro ou o barulho de grilos durante a

noite, podem provocar melancolia. Em nosso isolamento nesses momentos, podemos sentir falta da presença física de alguém, com quem partilhamos antes esses instantes serenos e ternos. Num esforço para experimentar

plenamente nossa nostalgia, podemos nos retrair por um momento, chegando mesmo a chorar. Uma parte da nossa nostalgia está relacionada com entes queridos que não mais estão conosco, mas há ocasiões em que está vinculada a lugares

e incidentes, quando ficamos profundamente

comovidos pela beleza ou pela tragédia. Mas quero reafirmar o que já disse antes: a solidão está sempre vinculada ao medo do amor. Em nossa nostalgia, podemos algumas vezes dizer que estamos solitários. Mas continua a ser nostalgia e não devemos confundi-la com solidão.

Ter mais de um cesto

"Pôr todos os ovos em um único cesto" significa que nos concentramos em uma única pessoa como fornecedora de todas as nossas necessidades de atenção. Embora isso possa ser lisonjeiro para a outra pessoa, por algum tempo, é mais do que provável que a carga de tal responsabilidade termine se tornando pesada demais, ao ponto de se transformar em ressentimento. As pessoas solitárias, cujo medo do amor não lhes permite arriscar muita coisa com muitas pessoas, têm propensão a utilizar apenas um "cesto"; é mais seguro assim. Mas tal decisão poderá ser desastrosa, se e quando essa única fonte de atenção se afastar ou morrer. Nesse momento, não teremos mais ninguém a quem recorrer. Por esse motivo, é sempre bom ter diversos amigos. Não gostamos de duas pessoas exatamente da mesma maneira. Isso permite que gostemos de duas, três ou dez pessoas ao mesmo tempo. O amor que sentimos por nossos companheiros é diferente do amor que sentimos por nossos filhos. Às vezes, podemos nos sentir culpados ao

dizer "Eu adoro você" a um amigo. É quase como se estivéssemos sendo infiéis para com maridos, esposas, filhos, quase como um tipo de traição. Eu gostaria de sugerir que não amamos nossos amigos da mesma maneira como amamos o homem ou mulher com quem partilhamos a vida. Isso não é uma afronta a qualquer um dos dois; é um elogio. O que estamos dizendo é que amamos a ambos, mantendo a nossa crença de que não existem duas pessoas iguais.

Tenha dez desejos

Quando nos sentimos solitários, tendemos a colocar os desejos e anseios dos outros em primeiro lugar, deixando os nossos para o fim. Quando isso acontece, é bem provável que terminemos perdendo o contato com os nossos anseios. Por esse motivo, freqüentemente peço a meus pacientes que relacionem, em ordem de preferência, as dez coisas que sua Criança Natural Interior mais deseja, naquele dia. Se nos sentimos indignos de amor, provavelmente estamos investindo uma dose maior de energia em nos fazermos dignos de amor — super compensando, prometendo demais, trabalhando demais — o que sempre resulta, por sua vez, em beber demais, fumar demais, comer demais. Essa autoprivação é facilmente racionalizada como "sacrifício", sendo classificada como atitude nobre, exemplo do humilde servidor. Em nossa solidão, é difícil determinar o momento em

que o sacrifício degenera em "Eu não mereço" ou martírio. Uma lista de desejos de uma mulher pode incluir qualquer coisa. Como exemplo, aqui vão dez desejos:

1. Ter menos medo dos meus sentimentos

2. Divertir-me mais com meu marido

3. Saldar todas as dívidas dentro de dois

anos

4. Escrever um conto

5. Fazer uma viagem com meu marido ao

redor do mundo nos próximos dez anos

6. Esforçar-me para ter mais amigos

7. Dar afeto e receber mais afeto

8. Emagrecer até 55 quilos

9. Fazer um curso noturno de costura

10. Aprender a pilotar um avião

Depois de fazer a sua lista de dez anseios, pede- se à mulher que analise o primeiro e avalie cuidadosamente a maneira pela qual vai proceder para realizá-lo.

1. Quem e por que — Avaliar quem está querendo, o Pai, o Adulto ou a Criança, e por que cada um está querendo. 2. Informações — Quanto irá custar? Quem será envolvido? Responda ao máximo de informações possíveis sobre o desejo. 3. Preço — Que preço o seu Pai, Adulto e Criança deve pagar? Se a sua Criança alcançar esse desejo, seu Adulto será forte o bastante para

evitar que seu Pai "surre a Criança interior"? Se seu Pai quer se poupar para algo grande, a Criança pagará o preço de se privar daquelas pequenas coisas que tornam a Criança feliz? 4. Opções — Essa parte amplia os itens de sua lista de anseios. A esta altura, depois de acumular dados, você pode estar consciente de muitas outras opções para realizar esse anseio. Deve também avaliar cada uma dessas opções e a maneira pela qual afetam os preços que serão pagos. 5. Tempo de Começar/Parar — Quando você vai começar e parar de trabalhar nesse anseio? Quando pretenderealizá-lo? Como esse dado irá afetar os preços a serem pagos? 6. Recompensas — Quais são alguns dos benefícios secundários que você irá obter, além de realizar o anseio específico? 1

você irá obter, além de realizar o anseio específico? 1 1 Lista de Anseios compilada pelo

1 Lista de Anseios compilada pelo Dr. Thomas A. Harris e seus associados.

Todos nós possuímos anseios e desejos que são somente nossos; não há duas pessoas que tenham os mesmos anseios. Mesmo que sejam sonhos, continuam a ser anseios. A persistência com que perseguimos os nossos sonhos cons- titui, às vezes, uma indicação de quanto valor atribuímos a nós mesmos.

4. Sentir-se compreendido é sentir-se amado

Para quem você se sente importante hoje? Com

um alto grau de precisão, pode-se dizer que nos

sentimos importantes para as pessoas que se esforçam em compreender-nos. É que sentir-se compreendido é sentir-se amado. "Tudo o que peço é que você compreenda como

me sinto." Isso não parece ser pedir demais. Mas

a compreensão é o presente mais dispendioso que alguém pode nos dar. Evidentemente, não se trata de custo em dinheiro ou em coisas, mas

na dádiva de si próprio. Em relação aos outros, o oposto da solidão é a compreensão: nada degela

a solidão mais rapidamente do que a

compreensão. Tais ocasiões são de curta duração. Quer seja por um minuto, dez minutos ou uma hora, nesses momentos ficamos no outro lado da solidão. Se a freqüência e a duração dessas ocasiões vão aumentando, isso significa que estamos gradativamente nos afastando da solidão.

Para consternação de mais do que apenas uns poucos, o amor entre duas pessoas não se caracteriza por um acordo total ou semelhança de estilo de vida. Nem sempre insistimos veementemente para que aqueles que nos são mais chegados sacudam a cabeça em concordância com tudo o que dizemos. A base de um relacionamento saudável é a capacidade de discordar, mas comunicando a mensagem de compreensão. No processo de procurar compreensão de alguém, três coisas necessariamente acontecem:

1. Damos à outra pessoa o presente de nós

mesmos. — Papai, o que você me trouxe desta vez? — perguntou Mary Beth, minha filha de quatro

anos, ofegante, quando voltei de uma pequena viagem. —Querida — respondi, com alguma apreensão — desta vez eu não lhe trouxe chocolate nem

brinquedo

Ela imediatamente se retirou zangada para o quarto. O presente do "eu" nem sempre é apreciado, aceito e compreendido pelo que é. Compreensivelmente, as crianças de vez em quando encontram dificuldades para, escolher

entre chocolate e pessoas, entre coisas e seres humanos. Mas o mesmo acontece com os

adultos, só que num nível mais sofisticado

e

por razões diferentes. Não podemos dar nada mais pessoal a alguém que os nossos sentimentos e fantasias. Dar-se

apenas eu.

significa dar o que está vivo em nós no momento, nossas idéias, opiniões, gostos, desgostos, preferências, desejos, sonhos, fantasias (que são as coisas mais difíceis de partilhar, porque as pessoas podem julgar-nos esquisitas) e também expressar tristeza, sofrimento, medo, raiva, alegria, riso ou provocar algum contato. Depois das fantasias, a coisa mais pessoal que existe em cada um de nós são os sentimentos. Os pensamentos e idéias que partilhamos estão freqüentemente sujeitos a jul- gamento e incompreensão, de modo que a perspectiva de tal reação pode às vezes fazer- nos hesitar em partilhá-los. Mas há uma relutância ainda maior em dar nossos senti- mentos. Partilhá-los é partilhar o componente mais pessoal de nossa pessoa: os sentimentos estão no fundo do nosso ser. Não existe em nós nada de mais pessoal, de mais delicado. Eles compreendem o que é chamado de nossa Crian- ça Natural Interior, a parte de nós que, além disso, aprecia a beleza nas coisas e nas pessoas. Mas é também a parte que pode ser mais facilmente magoada sendo por isso que não queremos partilhar nossos sentimentos com qualquer um; somos seletivos, escolhendo cuidadosamente as pessoas com quem correremos o "risco". Uma dona-de-casa transtornada, suplicando por compreensão do marido na defensiva, gritou:

—A raiva, mágoa, medo, tristeza ou alegria que eu lhe dou é simplesmente a minha maneira de reagir a você no momento!

Ela suplicava que a sua maneira fosse aceita e compreendida. Nossa reação imediata aos outros não é boa nem má, ceita ou errada. É simplesmente a nossa reação, para melhor ou para pior. Ao expressar reações, estamos permitindo que os outros nos conheçam; se nos retraímos (particularmente com as pessoas de quem gostamos), então permaneceremos estranhos uns para os outros. Nossa intenção ao dar não é magoar os outros, embora isso algumas vezes possa acontecer. Em vez disso, nós damos na esperança de que nossas reações sejam compreendidas e a partir do momento em que nos sentimos compreendidos, passamos de bom grado para um diálogo mais profundo, focalizando a natureza das nossas reações. Não há duas pessoas que reajam a um acontecimento com a mesma qualidade ou intensidade de sentimento. Isso pode levar ao ressentimento ou ao encanto num relaciona- mento. Levará ao segundo se houver interesse e curiosidade em saber como a outra pessoa reagiu, mas levará ao ressentimento se houver uma crença de que as reações diferentes e a discórdia implicam desamor. Uma, avaliação das diferenças é fundamental, num relacionamento que se caracterize pela compreensão. Quando damos a nossa reação, é com a esperança de que outros reconheçam e apreciem o valor do nosso presente. Se eles o depreciam, medindo-o do ponto de vista de suas próprias experiências ou se o comparam com as reações de outros, então é porque não nos

aceitaram pelo que somos no momento. É nessas ocasiões que decidimos se vale ou não a pena continuar a partilhar. Por medo, podemos decidir que será mais seguro no futuro substituir por coisas, em vez de nos darmos — não mais a nossa angústia ou alegria, as nossas idéias,

opiniões ou raiva, mas sim chocolate, roupas e outros presentes. Mas podemos também nos transferir para crianças ou animais de estimação. Uma mulher, paciente minha, comentou:

— Quando estou particularmente com medo dos

adultos, posso procurar uma criancinha para brincar. As crianças raramente me rejeitam. Ou talvez eu recorra a um animal de estimação, um cachorro ou um gato, conversando com ele, agradando-o. Os animais estão sempre dispostos

a partilhar afeto. É claro que o afeto que se

partilha com um animal não é muito profundo, mas, por outro lado, o risco é também pequeno. Quando tomamos a decisão de que os animais de" estimação são mais afetuosos que as pessoas, estamos negando a necessidade básica de sermos compreendidos e recuamos ligeiramente pela estrada da solidão. 2. Ao darmos o presente de nós mesmos, ficamos mais cheios de vida, estamos em contato maior com os nossos sentimentos. Mas se a motivação do dar é insultar os outros, agredir-lhes o caráter ou, por algum meio, torná- los responsáveis por nossas reações, fazemos então um mal uso do presente e mostramos que somos irresponsáveis e meramente vítimas. Mas se o nosso motivo foi um desejo de

compreensão, então descobriremos que a nossa própria experiência interior foi esclarecida para nós. Tenho um amigo norueguês que veio para a

América há 25 anos. Embora ele hoje fale inglês fluentemente, com um sotaque delicioso, diz que, a menos que de vez em quando converse em norueguês com a esposa, irá perder o contato com a sua língua nativa. E ele não quer que isso aconteça. Ficamos mais vivos, mais em contato com nossos pensamentos e sentimentos, arriscando-nos regularmente a expressá-los com alguém que sentimos que irá esforçar-se para compreendê-los. Retrair-nos é experimentar uma insensibilidade gradativa. E como já foi detalhadamente explicado antes, é exatamente isso a nossa solidão básica: uma alienação dos nossos pensamentos e processos de sentimentos. Se um homem está morrendo para

si mesmo, então ele não mais existe.

3. As outras pessoas que nos escutam não apenas estão se dando em troca a nós como também estão sendo levadas à viver mais plenamente. A natureza do dar dessas pessoas é conflituosa, porque, ao escutarem, elas tentam pôr de lado suas inclinações, preconceitos e noções prévias a nosso respeito, num esforço

para se identificar com a nossa maneira de sentir

e de pensar. Pôr-se em nosso lugar, exige que

elas sacrifiquem toda a tendência a julgar, dar conselhos, fazer preleções, bancar as moralistas, criticar ou interpretar erroneamente. Elas sabem como é importante para nós sermos aceitos e

apreciados pelo que somos. Não querendo macular a nossa unicidade, elas descobrem que, no processo de se esforçarem para nos compreender, novas energias começam a fluir nelas também. E elas entram em maior contato com seus próprios sentimentos. Além disso, experimentam a felicidade de serem profundamente apreciadas e amadas, porque aceitaram o presente do "eu" incondicio- nalmente. No processo, portanto, as duas pessoas passam a viver mais intensamente, aprofundando o contato com seus próprios recursos interiores.

5 . Como a mudança afeta a nossa solidão

A vida começa com uma, separação — o

nascimento. E termina com uma separação — a morte. Entre esses dois extremos, experimentamos outras incontáveis separações. Em uma única frase: nada que é vivo permanece

o mesmo de um minuto para o seguinte e essa mudança exerce um efeito sobre a nossa solidão. Há algum tempo atrás, tive uma demonstração disso, de efeito altamente dramático. Um homem

de negócios, fazendo uma conferência para nós a

respeito da mudança das coisas, começou por tirar uma maçã muito vermelha do bolso do paletó (assim, satisfazendo a minha curiosidade sobre o volume que eu já tinha notado). Ninguém sabia se ele ia dar a maçã a alguém da audiência ou comê-la pessoalmente; mas ele surpreendeu

a todos, usando um canivete para cortar uma

lasca da maçã. Sem dizer nada, colocou-a em seguida no lado da banqueta do orador. Perce- bendo que a curiosidade da audiência crescera

durante toda a conferência, ao final, com um brilho divertido nos olhos, ele pegou a maçã e

disse:

Podem ver o que aconteceu

com ela durante a conferência?

— Ah, sim, a maçã

Durante aqueles trinta minutos, a parte exposta da polpa da maçã começara a ficar escura.

O tempo provoca uma mudança nas coisas vivas.

Mais especificamente, o tempo traz uma mudança em nossa aparência, com o princípio das rugas, que deixa a muitos angustiados. O medo de envelhecer impele muitas pessoas a dedicarem uma boa parte de suas energias a es- forços frenéticos para manter uma aparência de juventude, recorrendo inclusive a cirurgias

plásticas faciais. Na velhice, nosso ritmo se torna um pouco mais lento e às vezes somos obrigados

a pedir, um tanto constrangidos, que alguém re- pita o que acabou de nos dizer; nossa audição não é mais a mesma. Há também a possibilidade

de que nossos ombros, outrora sempre erectos, fiquem encurvados pela fadiga.

A natureza? É também um constante estado de

mudança. As quatro estações do ano são assinaladas por variações na paisagem e no tempo. Em seu refúgio no alto de uma montanha, nas Sierras da Califórnia, o falecido Arthur Robinson escreveu: "Não se pode viver mais perto da criação do que estou. É como

contemplar o oceano: a gente jamais cansa da vista e ela nunca parece duas vezes exatamente a mesma coisa." É possível contemplar o mesmo panorama todos os dias e descobrir sempre algo diferente, algo que mudou.

E como somos freqüentemente recordados, por

meios

súbitos e dramáticos, nosso próprio pequeno

mundo

também passa por mudanças contínuas. Periodicamente, nossas raízes, afundadas no solo da familiaridade, são arrancadas bruscamente, pela separação, de lugares e pessoas. Mas algumas das separações mais dolorosas são

aquelas que o tempo acarreta dentro de nossas famílias. Os pais ficam ao mesmo tempo felizes e tristes quando os outros comentam:

—Ei, como seus filhos estão crescidos.

O ritmo vertiginoso com que as crianças passam

da leitura de Charles Brown para a de compêndios de curso superior é provavelmente o fenômeno que nos leva a dizer:

—Mas como o tempo voa! Freqüentemente, e muitas vezes sem qualquer

aviso prévio, a morte acarreta mudanças súbitas, que deixam os outros membros da família atordoados de tanto sofrimento. Separação, uma

E quando mal

começarmos a nos ajustar a uma. sobrevêm outra. Mas a natureza de nossos relacionamentos também está mudando continuamente. E isso porque dois indivíduos em contato estão sempre

separação constante

pessoal

mudando. Não existe um permanente "eu". Há dez mil "eus" verdadeiros, porque mudamos a cada dia que passa. Há um eu real hoje, e haverá outro eu real amanhã: em conseqüência, a compreensão e o amor entre duas pessoas estão sempre se aprofundando ou regredindo. Isso significa que o grau e a intensidade de nossa solidão individual está eternamente num estado

de fluxo. Em nossas relações com cônjuge, filhos,

pais e amigos, estamos sempre experimentando um grau maior ou menor de solidão hoje, em

comparação com ontem. John Powell escreveu: "Descubro que não posso contar a você de uma vez por todas quem eu sou. Devo contar-lhe continuamente quem eu sou e você deve contar-me continuamente quem é, porque nós dois estamos continuamente evoluindo”. 2 Ele tem toda razão.

A menos que as pessoas íntimas se digam

diariamente quem são, em relação a lugares, acontecimentos e pessoas, irão gradativamente

se tornando estranhas. A pessoa com quem você

falou ontem não é a mesma que encontra hoje. O tempo também muda a qualidade das nossas experiências. É impossível reconstituir ou recriar exatamente a mesma disposição, excitamento ou atmosfera de uma experiência determinada, agora pertencente ao passado. Não podemos, de jeito nenhum, revivê-la agora, da mesma forma como a experimentamos. Podemos tentar, é verdade, mas, de alguma forma, a qualidade da

2 John Powell, Why Am I Afraid to Tell You Who I Am? (Chicago, Peacock Books, 1969).

experiência será diferente. O tempo é que assim

o determina. Pensem em todo o tempo e esforço

que desperdiçamos na tentativa de reviver acontecimentos passados emocionantes e memoráveis. Quando penso nos momentos maravilhosos que nossa, família desfrutou ao longo dos anos, verifico que essas ocasiões felizes nem sempre foram planejadas antecipadamente. Muitas vezes, elas simplesmente aconteceram. Um preparativo meticuloso do que está para acontecer pode facilmente sufocar a espontaneidade e criatividade que fazem da vida uma aventura. Quando o nosso modo de vida se torna previsível, perde-se um certo espírito de aventura. Por exemplo: quando tentamos reviver uma ocasião passada memorável, a situação

torna-se artificial; estamos mais envolvidos com

o passado do que com o presente.

Vários anos atrás, minha esposa, nossas quatro filhas e eu passamos uma semana à beira-mar, na Califórnia Meridional. Foi no mês de agosto. Os que dizem que as ondas estão em seu esplendor nessa ocasião estão absolutamente certos Havia muitas pessoas fazendo surf, sem prancha, flutuando na água como rolhas de cortiça, manobrando para pegar a crista espumante de uma onda e deslizar com ela ate à praia. Às vezes,' os surfistas calculavam mal e eram arremessados no fundo do oceano. E quando voltavam à superfície, tinham a pele avermelhada pelo roçar com a areia. Tentei também e o resultado que consegui foi cair

várias vezes e ser embrulhado pelas ondas. Mas

ainda acho que foi a coisa mais divertida que já

fiz em muito tempo. Para dizer a verdade, foi tão

divertido que decidimos voltar à mesma praia no

ano seguinte. Mas, desde o início, foi tudo diferente. A princípio, tivemos grandes

esperanças. O lugar era o mesmo, as ondas eram quase tão altas, mas a qualidade da experiência foi diferente. Ficamos desapontados, se não mesmo deprimidos. Voltando para o carro, muito tristes, concluímos em conjunto que era inútil tentar reviver um prazer anterior.

O tempo muda as coisas; o tempo muda as

pessoas;

tempo muda a natureza das nossas disposições e expectativas individuais. "Momentos preciosos e memoráveis não devem ser revividos ou reconstituídos. E isso serve a um pro-pósito:

permite que aquele momento permaneça para sempre único e incomparável. Da mesma forma, é impossível pretender que as pessoas tenham a mesma disposição de quando as deixamos, quer tenham sido cinco anos ou cinco dias antes. Lembramos delas de uma maneira, mas, nesse meio tempo, todos nós mudamos. Recentemente, numas rápidas férias, reunimo- nos com velhos amigos, a fim de renovar o nosso relacionamento. O que aconteceu no primeiro dia foi algo que não havíamos planejado: um partilhar profundo, uma grande intimidade. A intimidade, se genuína, nunca é antecipada; ape- nas flui espontaneamente, atendendo às nossas

o

necessidade no momento. Pouco antes do jantar, decidimos nos separar, mas combinando antes voltarmos a nos reunir no dia seguinte. — Será divertido recomeçar onde paramos hoje — comentou alguém. Quando a ocasião do novo encontro chegou, eu ainda estava me deliciando com os bons sentimentos da reunião anterior. Mas o que aconteceu no segundo encontro foi o que considerei como uma repetição monótona dos acontecimentos do primeiro dia. Na realidade, provavelmente nada teve de monótono, mas como eu estava concentrado em reconstituir a magia do primeiro encontro, não entrei em sintonia com a disposição do momento. Cada experiência de intimidade possui uma qualidade própria e única. O tempo determina uma mudança nesse sentido. Dietrich Bonhoeffer, um clérigo que passou

vários

anos

num campo de concentração na Alemanha,

II

durante

Guerra Mundial, escreveu em seu livro Letters

and

from Prison que não há nada que possa

vácuo

preencher

quando estamos longe daquele a quem amamos,

seria

e

um erro tentar. Falamos de sua experiência pessoal, ele disse que nem mesmo Deus pode preencher o vácuo. Falta de religião? Alguns podem dizer que sim. Mas o fato é que nenhuma pessoa pode ser substituída; é impossível

a

Papers

o

que

encontrar uma duplicata exata. Se isso fosse possível, alguma coisa seria subtraída da unicidade do relacionamento original. Vocês podem estar perguntando o que esse tipo

de mudança tem a ver com estar só e a Solidão.

Ao longo dos anos, somos separados de bons

amigos; entes queridos e lugares familiares. Muitas vezes, essa separação acarreta uma experiência inesperada, súbita e desconcertante de estar só. A cada separação, há um tipo de experiência de estar só que é única para uma pessoa ou lugar em particular. É assim que deve ser. O valor de um momento ou relacionamento memorável é preservado apenas na medida em que não tentamos reconstituí-lo com outra pessoa no presente.

A separação daqueles a quem amamos

profundamente acarreta mudança. Mas essa mudança não significa que a dor da separação deva ser aliviada pela tentativa de esquecer. Viver no passado não é uma boa coisa, mas quando as recordações transbordam, o mais sensato é nos permitir o luxo de aceitá-las. Mas em tais separações, por acontecimentos naturais, também pode haver uma grande solidão ou um medo de amar novamente. Às vezes, quando amamos profundamente, há a decisão de nunca mais voltar a passar pelo sofri- mento da separação. "Todo o amor sempre acaba em sofrimento." 3 Quando amamos, a morte da outra pessoa termina o relacionamento.

3 Clark E. Moustakas, Loneliness (Englewood Cliffs, N.J., Prentice-Hall, Inc., 1961), pag. 101.

Isso significa sofrer e uma experiência de estar só. Mas pode evoluir para solidão, se decidirmos que nunca mais voltaremos a amar. Para muitos de nós, há muito o que dar, testar, sondar, arriscar e investigar no processo de fusão que está envolvido num crescente relacionamento de confiança. Somente depois de um período assim é que finalmente confiamos o bastante para podermos dizer:

— Aqui estou eu, abrindo-me para você, porque agora confio em lhe entregar tudo o que sou. Esse processo de sondagem e exploração é às vezes prolongado. Em outras ocasiões, é bastante rápido. Passamos por ele muitas vezes na vida. Se há repetidas separações de pessoas em quem confiamos e a quem amamos, podemos chegar à conclusão de que todo o esforço dispendido para alcançar a intimidade é inútil. A dor da separação (ou a perspectiva dela) é grande demais. Escolhemos não amar novamente. Será uma opção responsável se não ficarmos chorando as conseqüências, isto é, se não bancarmos o "coitadinho" Mas se nos tornarmos solitários e atribuirmos a culpa aos outros pelo nosso fato, a opção será então irres- ponsável. Há sempre uma coisa que se pode fazer: podemos escolher correr o risco de amar novamente.

6. Tirando o máximo proveito de estar só

"Fico sozinho às vezes, mas raramente me sinto solitário”. Ser capaz de fazer a distinção entre essas duas realidades é a base sobre a qual começamos a assumir a responsabilidade por nossas vidas. De todas as situações humanas em que nos encontramos, estar só é geralmente encarada como a que possui o valor menor. O "eu", especialmente se não gostamos dele, pode ser a mais tediosa das pessoas, se não mesmo a mais assustadora, com que podemos nos defrontar. Não é raro sentir medo de ficar só, o que nada tem de surpreendente. Por quê? Porque então tudo o que temos é a nós mesmos. Isso pode significar ter que enfrentar sentimentos desagradáveis de culpa, raiva, medo, descontentamento, impotência e desamparo. Se estamos fugindo dessas partes de nossa pessoa, a perspectiva de ficar só será mal acolhida, possivelmente assustadora.

É verdade que precisamos de um companheiro

ou amigo de confiança, alguém com quem possamos partilhar amor, mas a intimidade deve ser contrabalançada, pelo estar só. As opções e decisões que tomamos nos momentos em que estamos só são nossas e exclusivamente nossas.

Recorremos a nossos próprios recursos interiores

e tomamos decisões que somente nós podemos

tomar, dessa forma passando a confiar cada vez mais em nossos próprios recursos.

Nossa primeira experiência de estar só

A experiência do nascimento é a nossa primeira experiência de estar só. É bom destacar: não solidão, mas simestar só Separados fisicamente,

não somos mais tarde capazes de recordar o

momento do nascimento. Mas freqüentemente revivemos depois os sentimentos de ansiedade e desamparo que acompanharam a primeira experiência de estar só. As separações físicas repetidas, que ocorrem na seqüência natural da vida, podem continuar a provocar essa an-

siedade inicial. Através da auto-compreensão e da consciência, podemos reduzir o volume desses sentimentos. Mas não há condições de se garantir que poderemos extirpá-los de uma vez

por todas. Compreender isso, é um fator

importante para nos ajudar a não entrar em pânico, se enfrentarmos um estado de ansiedade, em seguida a uma separação.

Ansiedade da separação

A familiar "ansiedade da separação",

experimentada pelas pessoas, tanto crianças quanto adultos, é um ataque que ocorre depois das separações físicas de lugares, pessoas, coisas e animais, familiares e queridos, de qualquer coisa, em suma, à qual estejamos intimamente ligados, Granger Westberg, em seu pequeno livro Good Grief 4 , descreve os estágios

4 Granger E. Westberg, Good Grief (Filadélfia, Fortress Press, 1962).

da ansiedade e da tristeza que acompanham qualquer tipo de perda. A natureza de nossas separações pode variar. Algumas são por opção, outras não. Por exemplo: por desejarmos viver mais perto de parentes ou amigos íntimos ou porque queremos viver num clima mais do nosso agrado, podemos, como uma família, decidir uma mudança. Em outras ocasiões, podemos ter que mudar porque nosso emprego assim o exige. Uma promoção, um salário maior, uma casa maior são perspectivas saborosas. Contudo, a mudança não é da nossa escolha. Há também a separação de um emprego, aposentadoria, perda de uma casa por incêndio ou inundação, perda de vista ou audição, separação através da morte. Tudo isso pode despertar aquele sentimento inicial de ansiedade e estar só que acompanha a experiência do nascimento. Quando a criança procura meios de enfrentar a ansiedade da separação, não é difícil compreender que irá se prender a coisas e lugares, comumente indicados como raízes. O "cobertor de segurança" familiar é uma dessas compensações. Pode-se encontrar também um tipo de segurança numa boneca, no próprio polegar, num brinquedo qualquer. Nisso reside também o valor de um animal de estimação: na companhia dele, abaixamos o volume do nosso medo de abandono e separação. Em nosso isolamento, associamos a segurança a lugares. Uma criança logo se torna familiarizada com seu próprio quarto, seus cheiros e ruídos (o

vento na janela, os galhos das árvores batendo na parede da casa, o barulho do tráfego lá fora). Muitos garotos, arrancados dessas experiências familiares por uma mudança, são acometidos por ansiedade e desespero, por meses a fio. Birdman of Alcatraz 5 conta a história de um homem, sentenciado à prisão perpétua em confinamento celular, e de como escolheu passar o seu tempo de isolamento. Os pássaros não apenas lhe proporcionaram um tipo de companhia, como também, ao lidar com eles, o homem de Alcatraz contribuiu com novas e importantes informações científicas a respeito da vida dos pássaros. Tal criatividade, progressos e descobertas desse tipo, freqüentemente, resultam da aceitação e uso do isolamento. Logo depois da separação de um marido ou esposa pela morte, é comum o cônjuge remanescente viajar ao local em que o outro nasceu, onde se conheceram e namoraram, onde casaram ou passaram os primeiros anos juntos. É outra tentativa de retornar a um lugar onde, em outra ocasião, houve sentimentos de grande segurança. Voltar a lugares familiares e outrora amados é uma maneira de enfrentar a ansiedade de estar só. Será ilusório imaginar que se pode encontrar alguma segurança duradoura num lugar, objeto ou animal de estimação, mas é preciso reconhecer o valor temporário desses elementos. Contudo, à medida que descobrimos, lenta-

5 T. E. Gaddis, Birdman of Alcatraz (Nova York, Random House, 1955).

mente, que a segurança está dentro e não "lá fora", num lugar ou numa coisa, descobrimos também que o nosso medo de abandono e a severidade dos ataques de ansiedade ficam bastante atenuados. Tive recentemente uma experiência extremamente agradável, ao visitar a pequena cidade na pradaria em que passei os meus anos de Huckleberry Finn. Uma das minhas primeiras visitas foi ao celeiro onde eu tantas vezes brincara e ao velho de oitenta anos, que muito admirara quando era menino. Com os pés em cima da mesa, ele pôs as mãos atrás da cabeça, refletiu por um minuto e disse:

—Sabe de uma coisa? Eu nunca tive um carro em toda a minha vida. Como se isso não fosse difícil de compreender, ele continuou a falar, dizendo que naquela cidade pequena era possível ir a pé até à

mercearia, à igreja, aos acontecimentos cívicos e esportivos, até mesmo ao local de trabalho. —Sempre me senti contente por fazer apenas isso. Umas poucas vezes, com um dos filhos, ele se havia aventurado a sair da cidade, de trem ou de carro. Mas, de um modo geral, sentia-se contente em simplesmente desfrutar os lugares e pessoas familiares, que conhecera e amara durante a sua longa vida. Alguns podem dizer que ele carecia de uma certa curiosidade e do espírito que torna

a vida uma aventura. Mas quem somos nós para

julgar? Cada homem tem o privilégio de escolher

o que lhe dá maior contentamento e paz.

Diz-se que uma das razões para o aumento das doenças mentais atualmente é a crescente mobilidade do povo americano. Uma em cada cinco famílias se muda uma vez por ano, se não mesmo para o outro lado do país, pelo menos para outra parte da cidade ou do Estado. Isso significa que estamos continuamente sendo arrancados do que nos é familiar. Tais separações produzem uma parcela considerável de ansiedade e depressão. Os que vivem isolados

Muitas vezes temos dificuldades em compreender as pessoas que vivem isoladas, que escolhem deliberadamente esse modo de viver. Por diversas vezes perguntei a pessoas assim:

— Como consegue suportar viver tão isolado? Perguntei isso a fazendeiros cujas casas ficavam afastadas de todos os caminhos. Perguntei certa vez a um faroleiro ao norte do Lago Superior, em Minnesota. Em outra ocasião, perguntei a um idoso pastor de cabras, de rosto todo vincado, a mostrar a passagem do tempo. Dia após dia, fosse qual fosse o tempo, chuva copiosa ou sol escaldante, ventos gelados ou calor sufocante, ele podia ser visto sozinho nos campos, a tratar de suas cabras. Às vezes, ele e seu pequeno rebanho passavam diante da janela do meu es- critório. Quando os animais paravam para comer, ele parava também e esperava pacientemente. Dera um nome a cada cabra e podia-se ouvi-lo falando com elas, como se fossem seus filhos. As cabras, por sua vez, reagiam a ele como crianças

cordatas, que sabiam serem amadas. Num dia de chuva, quando ele parou debaixo de uma árvore, com o costumeiro cajado na mão, chamei-o e perguntei:

— Como consegue suportar ficar só durante todo o tempo?

A resposta foi um sorriso

com o cajado para as "crianças" que o cercavam. Parecia estar dizendo que a companhia de qualquer ser vivo pode atenuar a nossa angústia de estar só. Talvez seja essa a razão pela qual o fazendeiro sente uma espécie de realização. Ao arar o solo e contemplar as colheitas a crescerem, ele está fazendo com que novas coisas adquiram vida. Você pode se recordar de algumas experiências de estar só em sua primeira infância? aSe pode, é capaz de relembrar o que aprendeu ou descobriu, se é que alguma coisa, durante esses momentos? é> Uma das recordações particularmente vívidas da minha infância é a da manhã em que desci a escada para encontrar o meu peixinho dourado boiando no aquário, morto. Eu tinha cinco anos. O peixinho se tornara meu amigo; eu o alimentara fielmente durante dois anos e divertia-me bastante ao encostar o dedo na beira do aquário e vê-lo abrir a boca como se tentasse pegar. Nos dias em que o peixinho se deslocava em ziguezague de um lado para outro do aquário, parecia saber que eu estava observando a sua exibição. Quando ele morreu, fiquei arrasado. A súbita separação foi um golpe terrível. A princípio, meus pais

enquanto apontava

tentaram consolar-me, mas de nada adiantou. Na minha dor solitária, pus o peixinho dentro de uma caixa de charutos e enterrei-o num buraco atrás da garagem, que escavara com dificuldade na terra congelada de Minnesota. Mas, em decorrência dessa experiência de separação, surgiu posteriormente uma nova curiosidade a respeito da morte, com perguntas que eu provavelmente não teria feito, se não tivesse experimentado essa primeira separação. Se o permitimos, é nos momentos em que nos sentimos sós aue novos pensamentos, descobertas e considerações podem surgir. Também tenho recordação do dia em que, du- rante a II Guerra Mundial, meu melhor amigo, Clinton, junto com a família, embarcou num trem

e seguiu para a sua nova casa, na Costa do Pacífico. Naquele dia temido, ficamos parados na plataforma, falando, por entre lágrimas, sobre o dia em que tornaríamos a nos encontrar. Fiquei observando o trem se afastar e começar a serpear pela pradaria e fui subitamente inundado pelas recordações de todas as nossas aventuras juntos. Quando eu já não mais podia avistar o trem no horizonte, restando apenas como sinal de sua passagem uma tênue trilha de fumaça, tive a sensação de que meu pequeno mundo pessoal fora novamente destruído. Outra

separação que eu teria de suportar

senti-

mentos de abandono

Mas do período prolongado de isolamento e sofrimento que se seguiu, terminou emergindo uma nova avaliação de amizade, não apenas

isolamento

estar só

com aquele amigo em especial, mas amizade com todas as pessoas. Em e através de nossas muitas e variadas experiências de separação, quer por opção nossa ou não, pode surgir uma consciência gradativa e freqüentemente dolorosa de que a (segurança não será encontrada num lugar, coisa ou objeto, fora de nós mesmos. A volta ao passado pode servir para reviver sentimentos e recordações agradáveis, mas não há nada de duradouro nisso. Nas ocasiões em que somos capazes de melhor aceitar e experimentar mais plenamente ficar só, não importa de quem ou do que fomos separados, se por opção nossa ou não, as descobertas resultantes podem acrescentar novas dimensões a nossas vidas. Em última análise, os outros podem ajudar-nos, só até um certo ponto. Podem ajudar-nos ao longo do caminho, estimular-nos a analisar as diversas opções diante de uma decisão importante. *Mas depois teremos que aceitar a realidade de estar só e compreendermos que ninguém, a não ser nós mesmos, pode tomar a decisão que precisa ser feita. Os que ocupam posições de grande responsabilidade são obrigados a ter freqüentemente a consciência dessa realidade. Podem estar cercados por um bando de assessores de valor (homens brilhantes, com os quais podem buscar orientação e conselho), mas, ao final, apenas uma única pessoa pode tomar a decisão.

As mães sozinhas

Um subproduto do crescente índice de divórcio em nosso país, na década de 1970, é a situação de mães tentando superar as frustrações de criar filhos sozinhas. Enquanto a discriminação social e econômica contra elas vai sendo eliminada, o que é muito pior e mais doloroso é a inexistência de outro adulto na casa com quem partilhar as preocupações e decisões. Um recente artigo no Bee, de Sacramento, relata o novo esforço pioneiro no sentido de reunir mães sozinhas, na esperança de que possam encontrar juntas alguma espécie de solução. Numa reunião em Berkeley, alguns dos problemas delas foram estudados. Um dos mais importantes é o fato de que o comprometimento total com os filhos é frustrante para muitas mães sozinhas, que freqüentemente sentem-se incapazes e inadequadas para educá-los sem qualquer ajuda. Devem tratar os antigos maridos como ex- marido, amigo ou pai dos filhos? Qual desses relacionamentos seria de maior benefício para as crianças? Judy, uma divorciada com dois filhos, disse:

—Se eu estivesse vivendo com meu marido, talvez as crianças fossem mais calmas. Essa é uma preocupação que está sempre comigo. Estabelecer um relacionamento com um novo homem pode se tornar bastante difícil. —O relacionamento com outro homem é totalmente diferente — disse uma mulher. — É um relacionamento geralmente sexual, não

platônico. Os homens pensam que somos uma presa fácil. É preciso dizer-lhes, ao conhecê-los, que temos filhos. Por esse motivo, os homens mais fáceis de se estabelecer uma relação são os casados, que também tenham filhos. Não importa o quanto se goste de um homem, é realmente importante que ele goste dos nossos filhos. Não se pergunta se ele pode se ajustar à minha vida, mas sim à nossa vida. Se existe uma mãe sem marido numa rua, os filhos dela serão provavelmente culpados por todas as confusões, simplesmente porque não há pai. Cada vez que uma lata de lixo é derrubada, meus filhos são responsabilizados — conta uma mãe, furiosa.

E há também as preocupações financeiras. As

mães sozinhas ganham menos que os homens. Outra mulher divorciada conta:

—Quando se vive sozinha, fica-se ansiando por uma companhia adulta, por qualquer pessoa

para se conversar, de noite, depois que os filhos vão deitar.

A solução: duas ou mais mães sozinhas estão

experimentando

um meio de partilhar a responsabilidade pelos

encontrando

morando juntas

filhos

—Não há competição. Somos duas pessoas adultas. Não existe o atrito homem-mulher e não se precisa representar nenhum papel, como acontece na maioria dos casamentos, quando as crianças estão presentes.

desfrutando a companhia uma da outra.

Sumário

Quase tudo na vida se articula para a união entre as pessoas, não importa o quanto superficial ou artificial possa ser. Não nos damos muito tempo para experimentar o fato de estar só. Ter a nós mesmos apenas é ter nossos pensamentos e sentimentos; se gostarmos deles e os aceitarmos, tiraremos o maior proveito de estar só. Se não gostarmos, ficar só será sempre uma experiência assustadora. O que um homem pensa e sente é exclusivamente seu e ele tem o direito de experimentar isso plenamente. Isso pode significar estar sozinho numa campina, inclinando-se para cheirar uma rosa silvestre e simplesmente deixar que reaja como quiser o que existe dentro de nós. As recordações e sentimentos que acompanharam a descoberta original dessa beleza tão simples na infância podem começar a fluir. O resultado? Uma apreciação revigorada das coisas simples e básicas da vida. Mas se as experiências de estar só não são escolha nossa, mas derivam do fluxo natural dos acontecimentos, sobre os quais não temos qualquer controle, há duas opções: a) ao nos recusarmos a aceitá-las, a separação pode abalar-nos e deixar-nos num estado de desespero irresoluto pelo resto de nossas, vidas, com, a decisão de que nunca mais correremos o risco de amar novamente: b) ao aceitarmos as nossas experiências de estar só, conseguimos,

análise, fazer

em

última

emergir as nossas melhores possibilidades. Estar

pode

dar-

nos

o

tempo

necessário

para

avaliar

nossos

objetivos, a qualidade do nosso trabalho, valores

nova

apreciação do marido ou esposa, de amigos ou

e

fé.

Pode

levar-nos

também

a

uma

Deus.

7. Assumindo a responsabilidade por amar

—Quando é que você vai crescer? — é a acusação que os pais formulam contra os filhos adolescentes que regularmente deixam seis camadas de roupas em cima da cadeira do quarto. Os filhos adolescentes podem reagir com as seguintes palavras:

—Papai, você certamente age como uma criança

sempre esperando que

mamãe o atenda. A maturidade, outra dessas palavras que parecem desafiar uma definição simples, pode ser encarada por uma menina como o dia em que lhe permitem, pela primeira vez, usar maquilagem. Um menino pode considerá-lo como o dia em que os pais lhe permitem pela primeira vez tirar o carro da família da garagem. Para a pessoa adulta, a maturidade é mais freqüentemente medida pelo número de ani- versários que já teve. Contudo, muitos homens

a maior parte do tempo

de 40 anos são tão irresponsáveis e dependentes como o filho de 15 anos. De um modo geral, associamos maturidade à idade cronológica. Juntamente com isso, adquirimos mais responsabilidades e privilégios. O termo ritos de passagem foi inventado para descrever os acontecimentos e marcos na vida em que damos a nossos filhos maior responsabilidade e privilégios. A confirmação é um desses ritos de passagem. É uma ocasião que geralmente merece o nosso primeiro terno, quase sempre mal ajustado, ou um vestido caro e possivelmente saltos altos. Um rapaz encarou a confirmação como seu primeiro passo gigantesco na direção da virilidade. Assim que a cerimônia terminou, ele se encaminhou para os fundos da igreja e, diante de diversos colegas impressionados, tratou de acender o primeiro cigarro, queimando os dedos no fósforo, ao fazê- lo. Continuando na escalada, outro rito de passagem ocorre quando completamos 16 anos. Temos permissão então de tirar a carteira de motorista e podemos de vez em quando usar o carro da família. Aos 18 anos, os jovens, com emoções confusas e as malas arrumadas, saem de casa, alguns para servirem ao exército, outros para ingressarem na universidade ou trabalharem. Mas todos já podem agora votar. Por causa da nossa concepção errônea de que a maturidade é simplesmente uma questão de acrescentar anos à vida, nem sempre compreendemos que o sofrimento e a frustração

acompanham o processo de crescimento. Se a maturidade fosse apenas uma questão de somar o número de velas de aniversário que sopramos em nosso bolo a cada ano, juntamente com os novos privilégios adicionais, seria uma coisa relativamente indolor. Mas não é. Talvez um pouco desse sofrimento esteja refletido na frustração do menino de sete anos que, depois de receber ordem de ir sentar no canto por ter batido na irmã menor, murmurou:

— Mamãe, posso estar sentado por fora, mas continuo de pé por dentro. Uma das maneiras pelas quais crescemos é deparar com 2 obstáculos que exigem avaliação, luta e risco. Se tentamos escapar às conseqüências desses riscos, permanecemos crianças desamparadas e dependentes Se quer fantasiar comigo por um momento, pense numa ilha pequena e desabitada, no meio do Oceano Pacífico. Os homens que primeiro desembarcam em suas praias estão na dependência de ajuda exterior para se manterem vivos. Alimentos e outros suprimentos são enviados a eles regularmente. Mas, lentamente, os novos habitantes da ilha começam a desenvolver seus próprios recursos, plantando e colhendo, num trabalho árduo. No processo, eles vão se tornando menos dependentes da ajuda exterior para seu sustento. Esse é o tipo de transição dolorosa que acompanha o crescimen- to, com o afastamento da dependência quanto aos recursos exteriores para a dependência e confiança nos nossos próprios recursos.

O crescimento humano, portanto, é o afastamento gradativo da posição da criança dependente, cuja necessidade é ser amada para a posição de adulto, que quer dar amor. Esse movimento se desenvolve no correr da vida inteira. Ao longo do caminho, envolve ser magoado, magoar, sentir-se incompreendido, julgado, criticado, conhecer o fracasso, a inquietação e a rejeição. Mas no processo de aprender e correr o risco de dar amor, começamos lentamente a nos erguer acima de alguns dos angustiantes medos do amor. Manobrando desesperadamente, alguns tentam escapar ao sofrimento do crescimento,

procurando atalhos e caminhos para contornar a luta. Eles acham que, em virtude de sua boa aparência, personalidade, posições, status, relações, dinheiro, experiência ou idade, as coisas lhes deveriam vir sem qualquer luta, disciplina, frustração ou sofrimento. É fácil esquecer que poucas reformas importantes foram realizadas num só dia; poucos grandes homens descobriram todo seu poder numa única

e brilhante realização; poucas invenções

funcionam bem na primeira tentativa. (A lenta experimentação, o fracasso freqüente, protelações,oposição e Obstáculos estão ao longo da estrada para o sucesso, realização e desenvolvimento humanos.)Esses incidentes são lembretes constantes de que adquirimos

personalidade através do crescimento, mais que

das recompensas materiais.

Erich Fromm, em The Art of Loving 6 , diz que a criança, até a idade de dez anos, apenas reage agradecida ao fato de ser amada. Nesse ponto, ela começa pela primeira vez a criar amor por algo que faz. Podemos discordar quanto ao momento exato em que essa transição ocorre na vida da criança, mas não resta a menor dúvida de que chega um momento na vida em que ela começa a criar amor "por alguma coisa que faz. Ainda me lembro quando nossas filhas, começaram a trazer para casa os desenhos toscos e poeminhas que faziam no jardim-de- infância. Era com grande satisfação e expectativa que nos davam, observando atentamente as nossas reações. Os rostos delas se iluminavam sempre que pregávamos algum desenho na geladeira ou em nosso quadro de avisos. Em momentos assim, a criança se torna consciente do fato de que, quando se cria amor por algo que se faz e dá, há um subproduto que é o de receber de volta alguma coisa — um afago na cabeça, uma palavra de elogio, um obrigado, um sorriso ou uma expressão de prazer; nem sempre, é claro, mas na maioria das vezes. Se as criações dos nossos filhos são ignoradas ou não plenamente apreciadas, a mágoa poderá impeli- los a se retraírem novamente. Esse tipo de decisão, cada vez que é tomada, contribui para uma renovação de seu medo do amor, com a conseqüente solidão.

6 Erich Fromm, The Art of Loving (Nova York, Harper, 1956).

Os super bons sujeitos

Todos nós possuímos um genuíno "bom sujeito" interior. É a parte de nós que ama as pessoas sem qualquer outro motivo que não o de simplesmente querer amá-las. Não há o menor pensamento de obter alguma coisa em troca, não existe "O que vai ganhar com isso?", não estamos tentando nos fazer dignos de amor. Mas os super bons sujeitos são diferentes. A motivação deles, no trato com os outros, é se fazerem dignos de amor. A Emoção subjacente é o medo, provavelmente um sombrio senso de dever e talvez sentimentos quase mutuantes de responsabilidade. O lema é: Ser amado a qualquer custo. Os super bons sujeitos raramente têm a coragem de manifestar o que têm dentro de si, receando assim tornarem-se indignos de amor. Através da história, tais pessoas jamais inventaram qualquer coisa, nunca lideraram uma revolução ou desafiaram o status quo. Necessitando constan- temente da segurança de sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas, sentem desesperadamente que devem ser amados por todos. E podem se gabar:

— Alguns dos meus melhores amigos são negros. Mas tratam de vender a sua casa se um preto se muda para a casa ao lado. A possibilidade de serem despedidos de um emprego é remota. Não têm coragem de se levantar e defender quaisquer ideais: isso poderia balançar o barco e eles não podem correr esse risco. Sobrevivem

apenas através das escoras para o ego, representadas por esposas pacientes ou membros da família, que sabem quando e como aplicar os lenitivos. Eles desfilam por um caminho enfeitado até à morte, com um sorriso no rosto (um sorriso permanente, que usam por toda a vida), alcançando ao final a única missão que tiveram na vida: que todos lhe cantassem elogios. Os super bons sujeitos conquistam seus objetivos de amor coletivo, às expensas do mundo, que pagou caro pelas necessidades deles, enquanto homens de verdade lutaram e morreram. De certa forma, eles sempre são insípidos e previsíveis, suas reações são automáticas e sempre de acordo com o que se espera deles. Pensando em si mesmos como ouvintes atentos, ouvem apenas as palavras dos outros e são incapazes de identificar os sentimentos por trás das palavras. Isso acontece porque estão preocupados com seus próprios sentimentos de medo. Uma típica "transação de super bom sujeito" pode transcorrer da seguinte maneira:

Ao escutar, Jeff está tão preocupado com seu próprio diálogo interior que seu Adulto não

Ao escutar, Jeff está tão preocupado com seu próprio diálogo interior que seu Adulto não está sintonizado ou consciente da resposta. A reação dele, emanada de seu Pai, é programada, ritualista e impensada, em sua natureza. O que ele imagina ser uma ardente compaixão por Joe não passa de outro esforço frenético para satisfazer a sua própria necessidade insaciável de ser amado. Todo o seu estilo de vida, modo de vestir-se, maneiras e fala são projetados com um único propósito em mente: Tenho que me fazer digno de amor.

O super bom sujeito, portanto, é ao mesmo tempo amedrontado e solitário. Ele jamais abandonou

O super bom sujeito, portanto, é ao mesmo tempo amedrontado e solitário. Ele jamais abandonou o status de garotinho assustado que foi um dia. A lenta transição de precisar ser amado para querer amar envolve sofrimento, frustração e risco. Muito depende da disposição, capacidade e presteza dos outros em receber. Nas ocasiões

em que a reação é pouca ou nenhuma, podemos nos sentir incompreendidos ou rejeitados, mesmo que não seja esse o caso. Novamente são as velhas gravações que voltam a tocar.

Amar e suas responsabilidades

O amor não é realmente amor até que seja dado, mas não se trata meramente de uma questão de amar. Também envolve aprender a responsabilidade que acompanha o amar. A natureza dessa responsabilidade é tal que, quando amamos, sempre levamos em consideração a reação, da maneira como acontece. Nunca podemos prever antecipadamente a reação. Quando amamos, isso freqüentemente é acompanhado por uma fantasia sobre a maneira pela qual gostaríamos de ter nosso presente recebido ou o modo pelo qual gostaríamos de ser amados em troca. Mas, ao amar, não estamos conscientemente à espreita de um tipo particular de reação, nem imaginamos de antemão a maneira pela qual o amor nos deva ser retribuído. Dessa maneira, se a reação é fraca ou mesmo inexistente, não seremos arrasados nem interpretaremos como rejeição. É simplesmente um risco que assumimos, por nenhum outro motivo que não o de querer amar. O amor não precisa de razões para amar. Se acontece haver uma reação positiva ao nosso amor, sob a forma de um sorriso retribuído, uma palavra de apreciação, um abraço de gratidão ou

o surgimento de um sinal qualquer de vida nova, então é uma surpresa agradável. Num certo sentido, qualquer reação ao nosso amor deve sempre ser uma surpresa agradável. A extensão em que isso ocorre determina o grau em que podemos ter imaginado as nossas expectativas. Isso acontece até mesmo com os entes queridos. Nunca há qualquer garantia de que o amor será retribuído, mas quando é, descobrimos o que está no fundo de amar; dando alguma coisa de nós mesmos que é retribuída, como um subproduto, nossa necessidade de ser amado é também misteriosamente atendida. É esse o paradoxo de amar. Assim, ao amar, somos às vezes amados em retribuição, mas nem sempre. O nosso dar ocasionalmente encontra hostilidade, ressentimento, indiferença, suspeita, ingratidão e incompreensão. Mas quando é aceito e apreciado, a reação automaticamente preenche a nossa necessidade de ser amado. Essa é a natureza da posição Eu estou ok. É uma ilusão pensar que somos solitários somente quando não estamos recebendo bastante atenção. Esse é o sentimento da criança, que experimenta solidão quando sente que não está obtendo o amor de que necessita. Mas sentir, como adultos, que não recebemos amor suficiente, provavelmente significa que estivemos sentados e esperando, na esperança de que outros tomarão a iniciativa, virão a nós para apresentar cumprimentos, elogios,

estímulos e apoio. Na verdade, não estamos dando de nós mesmos, porque temos medo de assumir o risco. Ou somos indolentes, ou nada sabemos de dar amor. Ainda pensando em nós mesmos como o centro do universo, em torno do qual todo mundo deve querer se agrupar, nosso interesse gira em torno de meios de atender às nossas próprias necessidades e não às neces- sidades dos outros. As pessoas solitárias são as que decidiram parar de amar. Isso mesmo, é uma opção: somos nós mesmos que assim fazemos. Podemos às vezes dizer que temos boas razões para fazê-lo, mas sempre que isso ocorre, é porque temos nos permitido ser magoados ao ponto de realmente acreditarmos que "é tudo culpa deles". As vítimas sempre se sentem solitárias. Enquanto continuarmos a justificar ou defender nossa posição, não há qualquer esperança de dar aquele primeiro passo. Conta a lenda que um comandante militar, à frente de seus soldados, atacou uma fortaleza murada na Inglaterra. Usando escadas, eles escalaram as muralhas e caíram do outro lado. O comandante, que foi o último a subir, empurrou todas as escadas, cortando assim qualquer possível caminho de retirada. Os homens teriam que conquistar a fortaleza ou morrer na tentativa. O crescimento humano é o processo de gradativamente derrubar todas as escadas pelas quais podemos bater em retirada da responsabilidade pessoal por nossas decisões,

sentimentos e comportamento. Enquanto bancarmos a vítima, culpando os outros, os acontecimentos e circunstâncias por nossa solidão, continuaremos a precisar da escada da irresponsabilidade. Independentemente da maneira pela qual reagimos aos acontecimentos e pessoas no passado, somos responsáveis agora, hoje. Por esse motivo, hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

8. Solidão e Tempo

Dentro de cada um de nós, há uma fome de estrutura que deve ser satisfeita. Se não for, irá produzir tédio, depressão e solidão. Essa fome se torna mais patente na pergunta que formulamos

a nós mesmos e aos outros:

— O que faço comigo mesmo até o próximo programa de televisão, às nove horas da noite,

até a hora de dormir, até o reinício das aulas na próxima segunda-feira, até que meu marido volte para casa do trabalho, até que as férias terminem, até que o inverno acabe?

E assim por diante.

O adolescente, chegando em casa, de volta da escola, pode perguntar à mãe:

—O que há para fazer até a hora do jantar? Pode ser que ela tenha planejado alguma coisa para seu filho ou filha fazer, alguma missão no centro da cidade, alguma tarefa pela casa. Dependendo da disposição ou necessidade do

adolescente no momento, a sugestão pode levar ao ressentimento ou ao alívio; ressentimento se não teve qualquer momento de folga durante todo o dia, mas alívio se o adolescente não tinha

a menor idéia de como poderia passar as próximas horas.

A maior parte do nosso tempo é estruturada para nós por outras instituições: escola, trabalho e igreja. É quando temos tempo livre nas mãos que

perguntamos:

—E agora, o que vou fazer comigo mesmo até ? As crianças descobrem que o grosso de seu tempo está devidamente estruturado para elas. Na escola, o programa determina um certo número de horas de aula por dia; o recreio é o único momento em que pode se apresentar o problema de encontrar meios de passar o tempo. Se há um medo de amor, a criança pode se retrair nesse momento. Outros irão se dedicar

vigorosamente a um jogo de bola enquanto muitos preferirão conversar tranqüilamente com os colegas. Tudo depende das disposições, necessidades e sentimentos de cada um, no momento.

O tempo da dona-de-casa também está bem

estruturado para ela. Em seu duplo papel de esposa e mãe, há sempre uma variedade de tarefas que exigem sua atenção e ocupam seu tempo; ela não pode ser despedida por desleixo. O que pode às vezes surpreendê-la, até mesmo espantá-la, é o fato de que, quando surgem os momentos tão ansiados em que seu tempo se torna livre, ela pode sentir-se perdida. "Tenho

e como diabo vou gastá-lo?"

Ela pode até mesmo descobrir que o tempo será

melhor dispendido a dormir. O grosso do tempo do marido está também devidamente estruturado. Contudo, trabalhando fora, ele possui um tipo de diversidade que a esposa não encontra em casa. Portanto, pode não experimentar, como a esposa, o tédio da mesmice. O alcoólatra é alcoólatra em parte porque não sabe como estruturar seu tempo. Enquanto os outros estão estruturando para ele, em casa ou no trabalho, ele pode permanecer sóbrio; o mesmo acontece com suas horas de recreação:

esse tempo livre

quando as pessoas estão a distraí-lo, ele não se sente entediado. Mas ao final de tudo, quando o último vendedor terminou de exibir suas mercadorias e o último jogador deixou a quadra,

ele

se sente desorientado novamente.

—E

agora, o que vou fazer comigo mesmo?

É nesse momento que ele se encaminha para um bar. Mas também falamos em nos sentirmos entediados com outras pessoas:

—Jane me cansa mortalmente. Se passamos a maior parte das nossas horas de trabalho com outras pessoas, provavelmente precisaremos passar o nosso tempo livre sozinhos — pintando, lendo ou trabalhando

tranqüilamente, numa oficina de carpintaria. Se a competição e o individualismo no escritório esgotaram as nossas energias, podemos querer

e necessitar experimentar intimidade com

pessoas durante as horas que passamos longe do escritório. Portanto, em nossos momentos não- estruturados, não estaremos fazendo as mesmas coisas que nos momentos estruturados. A natureza de nosso trabalho, nossos temperamentos individuais, situação de família, idade e saúde determinam o que melhor atende às nossas necessidades emocionais e físicas, nas horas livres. Fazer as mesmas coisas, em nossos momentos não estruturados, pode também acarretar o tédio. Algumas pessoas sempre vão jogar tênis, outras vão ao cinema. Há os que gostam de ficar em torno da mesa de bilhar de suas casas. As pessoas que assim agem podem gostar do que estão fazendo, mas se tiverem mais que uma opção durante seus momentos não-estruturados, as pessoas podem provocar o fluxo de muitos recursos interiores — criatividade, espírito de aventura, curiosidade e espontaneidade. Temos várias opções de meios que podemos escolher para estruturar nosso tempo. A maioria dela proporciona-nos meios de estar com outras pessoas. Para alguns, isso ê suficiente, especialmente se temos medo do amor. Outros, porém, vão querer ir além das amenidades formais, entrando no terreno da intimidade.

PASSATEMPOS

Os passatempos proporcionam-nos um meio de estar com pessoas, tanto recebendo como dando

afagos. A "conversa fiada", o "matar o tempo" geralmente giram em torno de assuntos "seguros", muitas vezes de natureza apreciativa. Embora os afagos sejam lançados de um lado para outro, provavelmente são da variedade vaporosa. Mas são melhor do que nada. Algumas pessoas são ótimas em matéria de passatempo e inclusive possuem a reputação.

— Mas como fala!

Outras detestam a chamada "conversa fiada" e suas apreensões aumentam na medida em que

começam a minguar os temas dos acontecimentos atuais, boatos, esportes, filhos etc. A conversa vai-se reduzindo dolorosamente

e pode até cessar abruptamente

momento de silêncio o mais temido pelos que são péssimos em matéria de passatempo. Eles temem os momentos de silêncio, as oca- siões em que ninguém está dizendo coisa alguma. Um motivo para isso é o fato de se sentirem responsáveis não apenas pela manutenção da conversa, como também por tor- ná-la interessante. Isso significa que eles serão interessantes para os outros. Durante os mortificantes momentos de silêncio, com os olhos pregados no chão ou de vez em quando encontrando o olhar do interlocutor, ele descobre que, ao invés de desfrutar o silêncio, um diálogo tenso é desencadeado entre seu Pai e Criança interiores. "Aposto que ele realmente está pensando agora que sou um estúpido. Aqui estou com a boca fechada, sem ter mais nada para dizer."

e é esse

"Se eu não tivesse começado a falar, em primeiro lugar, não teria me metido nessa confusão. Como é que vou sair dessa?" O silêncio e o diálogo interior resultante que irrompe dentro dele apenas confirmam, mais uma vez, o que sentia e temia durante todo o

tempo — EU SOU REALMENTE INDIGNO DE AMOR.

Os passatempos são sempre de natureza superficial. Contudo, são importantes porque podem ser meios de levar a algo mais pessoal e íntimo. Por outro lado, isso pode jamais acontecer. Duas pessoas, às vezes até mesmo no casamento, podem jamais ir além da conversa superficial. Eternamente se esquivando ao "risco", marido e mulher podem passar o dia à espera da hora que terão juntos depois do jantar; mas nesse momento o marido se refugia atrás do jornal e a mulher vai conversar ao telefone. Pessoas assim são solitárias, não há qualquer risco envolvido nos passatempos. As pessoas envolvidas limitam a conversa a frases polidas, as quais geralmente não acarretam qualquer possibilidade de julgamento, crítica ou mágoa.

RITUAIS

Os rituais são diferentes dos passatempos. Um ritual é um meio fixo ou definido de passar o tempo. Alguns dos mais familiares são os rituais de cumprimentos. Podem ser da variedade mais simples:

Bom dia, Anne. Você está com ótima aparência, John.

Esse é um ritual de afago mútuo. Muito embora Anne e John estejam apenas se cruzando na rua, esse diálogo de dois segundos proporcionou um meio de passarem esse breve momento e trocarem afagos, não da variedade mais precio- sa, mas, não obstante, afagos. Cada pessoa possui o seu estoque de rituais de cumprimento, quase sempre os que foram observados, ouvidos a aprendidos dos pais. Outros podem preferir manifestar o reconhecimento através de um beijo ou um

abraço; isso se tornou um ritual. A mesma coisa pode-se dizer do aperto de mão: não raramente, proporciona o único contato físico que temos com pessoas. É seguro por sua natureza. Se nos sentimos assustados com a perspectiva de tocar ou abraçar um bom amigo ou parente, o aperto de mão pelo menos proporciona um meio de experimentar os bons sentimentos que decorrem

do contato físico. Resquício da infância, os afagos

físicos parecem sempre satisfazer melhor as

nossas necessidades de atenção.

Pode-se imaginar a desolação que haveria se, numa determinada manhã de domingo, o ministro de uma igreja anunciasse:

Hoje, vou dispensar o aperto de mão à saída

da

igreja, ao término do serviço.

O

aperto de mão com o ministro, um ritual

antigo, freqüentemente proporciona o único meio seguro pelo qual os membros da igreja podem tocar em seu ministro. Para o leigo, o "valor do afago" inerente no aperto de mão, baseado numa escala de valores de zero a 100 por cento,

provavelmente se situa em torno dos 95 por cento. Pensem em todos os tipos diferentes de rituais:

os rituais da noite de sábado, rituais da manhã de domingo, rituais do fim-de-semana, rituais da oração, rituais do banheiro, rituais de comer, rituais das férias. Se não temos suficientes rituais diários, precisamos criar alguns. Alguns casais fazem questão de jantar fora todas as sextas- feiras. Uma dona-de-casa pode aguardar ansiosamente que chegue a uma hora da tarde, porque pode então se acomodar em sua poltrona predileta, tomar um café e assistir a seu pro- grama de televisão predileto. É um ritual. É particularmente importante ter rituais quando estamos de férias. Muito embora conversemos a respeito e planejemos as nossas férias com bastante antecedência, mesmo assim freqüentemente ficamos surpresos ao descobrir que, no meio das férias, estamos nos sentindo entediados. O problema pode ser decorrente de não haver suficientes rituais. Ainda me recordo dos rituais do meu tempo de menino em nossas férias de um mês na cabana de verão. Eles não variaram ao longo de muitas décadas: uma geração parecia herdar os rituais da geração anterior. Havia o caminhão de sorvete que vinha ao acampamento todas as tardes, exatamente à uma e meia. Esperávamos na ponte e subíamos no caminhão quando passava por nós; às vezes, o sorveteiro deixava- nos ajudá-lo a arrumar os sorvetes. Às três horas da tarde, a garotada seguia para a praia. Nossas

mães, por sua vez, vestiam seus trajes de verão e reuniam-se para um kafeeklatsch, a cada dia numa nova cabana. Às sete horas, muitas pessoas saíam de casa para um passeio, tro-

cando amenidades ao se cruzarem, na estrada, sob as árvores frondosas. O ritual final do dia era

a reunião dos membros de nossa família,

sentados no alpendre, com as luzes apagadas, a contemplar o pôr-do-sol, através de uma grande

janela instalada especialmente para esse fim. Muitas vezes continuava-se sentado ali até muito depois do sol já ter desaparecido, escutando as aves no lago, conversando sobre os acontecimentos do dia ou revivendo algum fato

do passado.

— Lembram quando

Esse tipo de passatempo é particularmente necessário nas férias. Sem os passatempos, ficaríamos entediados. Os rituais, não importa o quão tediosos, são melhores do que se limitar a ficar sem nada para fazer.

?

RETRAIMENTO

O retraimento é outra opção que fazemos quanto ao passar do tempo. Algumas vezes, retraímo- nos das pessoas, a fim de experimentar o isolamento; em outras ocasiões, porque estamos com medo do amor. Warren Harding, o intrépido alpinista, que escalou a face escarpada do El Capitan, no Vale Yosemite, refere-se aos benefícios decorrentes

dos momentos em que decidimos nos retrair. Falando de sua experiência, ele disse:

É tão diferente lá em cima! Estamos distantes e isolados. Ê como se desaparecessem as coisas com as quais realmente não nos importamos; ou pelo menos foi o que aconteceu comigo. Penso muito nas coisas com as quais me importo; as pessoas a quem amo, as pessoas de quem gosto, as coisas que gostaria de fazer; as coisas que não nosso fazer neste momento em particular. Senti muita saudade de minha garota. Senti muita saudade de meus amigos. Senti saudade até mesmo de meu carro. Há coisas que notamos, como os gaviões. Um dia, até mesmo fiquei contemplando uma águia, voando alto. Ouvimos' rãs coaxando. Elas vivem aqui em cima, nas rochas. Pequenas coisas assim Os 27 dias que ele passou em El Capitan foram um retraimento por livre escolha. Muito embora estivesse em companhia de outro alpinista, pareceu experimentar plenamente a sensação de estar só. James Cross, o diplomata britânico seqüestrado que passou dois meses nas mãos de terroristas canadenses, disse o seguinte a respeito de sua experiência de isolamento: "Uma coisa que esse período terrível me proporcionou foi um senso da importância das pequenas coisas comuns, nas quais mal reparamos — conviver com a família, conversar com os amigos, respirar ar fresco." Às vezes, o isolamento nos é imposto. Contudo,

mesmo em tais circunstâncias, podem emergir uma nova consciência e novas avaliações. Mas também nos retraímos porque temos medo do amor. Quando o fazemos, podemos pensar:

"Não quero realmente que as coisas sejam assim." Mas nossos medos são tão opressivos que ficamos literalmente num estado de de- samparo, às vezes de terror.

TRABALHO

O trabalho é outro meio de passar o tempo. Já que o trabalho é freqüentemente realizado junto com outras pessoas, proporciona também um meio de dar e receber afagos. Mas é possível também tornar-se um viciado em trabalho. Os viciados em trabalho nem sempre querem trabalhar; na verdade, alguns chegam a odiá-lo. Mas têm que trabalhar. Não que outros exijam que eles o façam; eles próprios é que exigem de si mesmos. Conhecidos como pessoas conscienciosas, diligentes e trabalhadoras no emprego, são às vezes as pessoas mais entediadas durante os seus momentos não-

estruturados, inquietas, censuradas

e queixan-

do-se. Como se sentem culpadas a menos que sejam produtivas, lançam-se ao trabalho até ficarem esgotadas, num esforço para obter os afagos de suas Crianças Não-ok necessitam. Os viciados em trabalho são quase sempre vi- ciados em afagos. Mas a entrada de afagos não se registra com os viciados em trabalho — a máquina de reciclagem de afagos de sua Criança

Não-ok cuida disso. Como tão freqüentemente eles têm medo do amor, o trabalho lhes pro- porciona um meio de estar com pessoas, de ser afagado. Mas mesmo que eles sejam afagados freqüentemente, nunca há afagos suficientes para encher o balde principal, muito menos o auxiliar.

JOGOS

O conceito de jogos foi inicialmente delineado

por Eric Berne, pioneiro da Análise Transacional. Nos termos mais simples, um jogo é uma série de transações entre duas pessoas, levando a um desfecho definido — sentimentos de rejeição, desapontamento, raiva, culpa ou mágoa. O tipo de jogo em que nos empenhamos depende da nossa posição na vida que, por sua vez, determina o tipo de desfecho necessário. Berne diz que a questão não é determinar se os jogos estão certos ou errados e sim, se são a melhor opção nessa situação, no momento. Às vezes são. Na Prisão Estadual de Folsom, onde trabalhei durante algum tempo, como conse- lheiro voluntário, os jogos são freqüentemente a melhor opção, se se quer permanecer vivo.

— Se eu não topar uma porção de jogos neste

lugar, é provável que termine com uma faca enfiada nas costas qualquer dia, debaixo do chuveiro — confidenciou-me um detento, apreensivo.

Na posição Eu não estou Ok — Você está Ok,

os jogos "Pobre de mim" e "Não é terrível" têm

como desfecho mais sentimentos de culpa, rejeição e mágoa, além de reforçar o sentimento

de não merecer amor.

Eu estou Ok — Você não está Ok. Nessa

posição, os jogos "Se não fosse por você", "Veja o que você me levou a fazer" e "É tudo culpa sua" levam a um desfecho final de raiva, de forma a que o jogador possa reforçar a sua própria desconfiança das pessoas. Eu não estou Ok — Você não está Ok. Qualquer jogo nessa posição, leva a um desfecho

de mais desespero e retraimento continuado.

Eu estou Ok — Você está Ok. A posição do jogo livre, que há uma coleção de bons sentimentos.

É verdade que, se temos medo do amor e intimidade, os jogos proporcionam meios de passar o tempo com as pessoas, embora

cessando antes de qualquer intimidade. A maio-

ria do nosso tempo é ocupada com passatempos,

trabalho, retraimento, rituais e jogos. Eles podem ser prelúdios para a intimidade, mas não

o são necessariamente. Podemos escolher. O que devemos lembrar é que o medo freqüentemente subestima as transações nessas cinco maneiras de usar o tempo. Embora elas sejam muitas vezes necessárias, podemos empacar no meio do caminho, nunca nos atrevendo a assumir o risco

da intimidade.

A intimidade pode ser intensa ao ponto de

exaustão; contudo, é uma exaustão estimulante.

Qualquer tentativa de prolongar tais momentos além de seu curso natural, no entanto, pode facilmente ter o efeito de anular toda a ex- periência. Há muito bom senso em saber quando se esgotou o nosso tempo de intimidade. Devemos deixar que termine, acreditando que haverá outro tempo no futuro.

9. Solidão no casamento e na família

De um ponto de vista lógico, o lugar menos provável para se encontrar a solidão seria um ambiente em que as pessoas vivessem juntas, debaixo do mesmo teto — no casamento e na família. Isso está de acordo com o mito de que a solidão significa não estar cercado por outras pessoas. Mas, em nossa sociedade, a doença da solidão assume grandes proporções justamente dentro da família onde, além disso, o aspecto congelado da solidão é mais agudamente sentido. A reunião física contínua contribui para consolidar as mágoas e o medo não solucionados. Tais sentimentos, na realidade, podem-se atenuar nos momentos em que os membros da família estão separados, por causa do trabalho ou de alguma diversão. Esse é o motivo pelo qual os fins-de-semana freqüentemente constituem período de crise, nos lares em que existe o medo do amor. Vamos en- frentar a verdade: 48 horas na companhia de alguém com quem não podemos ou não queremos nos comunicar, por causa da reação

antecipada, de incompreensão ou rejeição, é a solidão em seu estado mais congelado. Não é verdade que sempre esperamos mais dos outros membros da família em matéria de compreensão? Quando isso não acontece, a nossa solidão pode se tornar terrível. A intensidade de nossas reações às pessoas está na razão direta ao grau de nossas expectativas:

se esperamos que um conhecido nos compreenda e descobrimos que isso não acontece, podemos ficar desapontados. Mas quando um membro de nossa própria família deixa de nos compreender, nossa solidão pode- se aprofundar até um nível extremamente doloroso. Às vezes, nossas expectativas em casa são tão elevadas que não levamos em consideração a "fragilidade humana" dos outros membros da família. É preciso não esquecer que as pessoas que nos amam são também humanas. Há dias em que a saúde, o tempo, problemas de trabalho ou dos afazeres domésticos contribuem para a fadiga, tornando difícil, se não mesmo impossível, compreender os outros membros da família, muito menos a nós mesmos. Quando isso acontece, talvez o melhor seja dar algum indício verbal. Por exemplo:

— Querida, por favor, estou tão tenso por causa de algumas coisas que aconteceram no escritório que simplesmente não me sinto com disposição para ouvi-la. Podemos deixar para depois?

Agindo assim, estamos sendo francos e sinceros e os outros, por sua vez, nao esperarão de nós mais do que podemos dar nesse momento. Estar fisicamente unido, mas com medo do amor, é um dilema que a maioria de nós não consegue suportar por muito tempo. De um jeito ou de outro, acabaremos fazendo alguma coisa, quer seja de uma forma construtiva quer seja de maneira destrutiva. Marido e mulher que ainda se falam, que ocasionalmente se tocam e se olham, mas cada um sentindo-se mais e mais distante do outro, estão experimentando a angústia da solidão típica do casamento. É um tormento indescritível viver sob o mesmo teto, comer na mesma mesa, sentar na mesma sala e partilhar a mesma cama, mas sentir medo do amor. Esse tipo de solidão ficou refletido vividamente nas palavras de uma dona-de-casa, ao dizer que, sempre que "acidentalmente" roçava no marido ao passarem pelo corredor, sentia-se dilacerada pela vontade que sentia de abraçá-lo e, ao mesmo tempo, de correr em pânico. O contato físico servia para agravar os medos dela, ao ponto do pânico; não podia se arriscar ao amor, com medo da reação dele. Ser rejeitada mais uma vez seria a última gota d’água, risco que ela não podia correr. Numa ocasião ou outra, todas as pessoas casadas provavelmente já experimentaram esse tipo de solidão. Sentados diante um do outro, durante uma refeição, os olhos podem se encontrar por alguns segundos — olhar por mais

tempo significaria fazer-se vulnerável. Nossos olhos dizem praticamente tudo o que estamos sentindo. Ou quando entram juntos no carro da família, para uma longa viagem ou simplesmente para ir à mercearia da esquina, as palavras cautelosas contribuem apenas para aumentar a tensão, que a cada momento vai-se tornando mais e mais insuportável, para ambos. Você pode ter pensado nesses momentos como uma boa ocasião para partilhar seus sentimentos e arriscar "alguma coisa", o que quer que seja. Mas, ao mesmo tempo, você fica duplamente apavorado com a possibilidade da confrontação, sem a certeza de que pode se arriscar à reação que talvez não seja o que você esperava e queria.

, ovos" um com o outro. Não podemos dizer nada sem primeiro ensaiar cada palavra de antemão. Podemos ofender. Pode ser a coisa que irá derrubar de vez um relacionamento já vacilante. O outro irá aceitar se lhe contarmos o nosso so- frimento? Teremos a coragem de reagir ao que o outro disser? A outra pessoa irá rir, se revelarmos a nossa tristeza agora? Seremos repelidos, se estendermos a mão num pedido de socorro? Se manifestarmos a nossa apreciação, isso não seria mais tarde usado contra nós? Assim é o estado congelado de solidão no casamento; duas pessoas querendo arriscar, mas paralisadas ao pensarem em fazê-lo. Já não fico mais surpreso ao descobrir que, freqüentemente, duas pessoas desejam secreta

mas fugir. Isso significa "pisar em

Querer

e desesperadamente a mesma coisa, mas cada uma está esperando que a outra assuma o
e desesperadamente a mesma coisa, mas cada
uma está esperando que a outra assuma o
primeiro risco.
Casando com uma fantasia
"Cada homem ama duas mulheres: uma é
produto de sua imaginação e a outra ainda está
para nascer." 7
Se você planeja casar ou já está casado, é certo
que tinha uma fantasia preconcebida de sua
companheira ou companheiro ideal ou do
casamento perfeito. Depois de algum tempo, no
entanto, você pode ter começado a compreender
que a fantasia a que se apegava e a pessoa que
escolheu estão divergindo cada vez mais. Nesse
momento, diversas coisas podem acontecer.
Você começa a separar-se da companheira ou
companheiro. Ou então, esquecendo que
somente Deus pode criar uma árvore, você se
empenha num programa de reforma; você
interpreta erroneamente as palavras da
cerimônia de casamento "E os dois irão se tornar
um", achando que sua companheira ou
companheiro deve tornar-se igual a você e à sua
fantasia. Quer que sejam um em gostos,
preferências, interesses, hobbies, idéias, até
mesmo em reações e sentimentos: os seus. "E os
dois irão se tornar um" não indica qual dos
cônjuges; a unidade no casamento não é a
semelhança ou igualdade em questões de idéias
7
454
Everyman,
Synergisms,
Minnesoaa
Street,
601,
São
Francisco,
Califórnia.

e sentimentos, mas sim a identidade da

compreensão. Qualquer tentativa de moldar a pessoa que é a nossa companheira, para que se ajuste às nossas

fantasias, é pretensão da nossa parte e um insulto ao outro; divide, gera a raiva e provoca uma solidão ainda maior, Embora seja verdade que nunca podemos moldar

ou

refazer outra pessoa, podemos "permitir" que

ela

mude. É a nossa compreensão do outro que o

permite tornar-se o que é. Insistir para que o outro se ajuste a nossos valores ou gostos pode indicar que, por medo, ele esteja tentando. Você pode pensar que o outro está mudando e dizer para si mesmo: "Acho que está dando certo." Mas é apenas o comportamento exterior que está mudando — por dentro, a pessoa está mais assustada do que nunca com você. E pro- vavelmente também muito zangada.

Renunciar às fantasias no casamento é bastante difícil. Nossas fantasias, baseadas no que nos foi ensinado e no que observamos desde a infância, são muitas vezes uma parte tão grande e forte de nós que preferimos terminar um relacionamento ao invés de renegá-las ou modificá-las. Freqüentemente, um marido ou esposa recém- casada pode dizer:

Mal posso acreditar

exatamente como meu pai

Encontrei um marido

e era justamente

isso o que sempre procurei. Casei com uma mulher que é o oposto de minha mãe, exatamente o que eu procurava.

Nada mais natural. É impossível nos dissociarmos da influência e modelo de exemplos passados, e não precisamos necessariamente fazê-lo. Mas, se nos atermos a isso demasiadamente, podemos não chegar a perceber que a escolha de um companheiro ou companheira não foi baseada na apreciação de sua individualidade, mas sim na crença de que podemos moldá-la ou forçá-la a mudar. No casamento, duas pessoas jamais irão se conhecer umas à outras enquanto insistirem sutilmente em tentar moldarem uma à outra. E nunca se conhecendo, irão se sentir separadas, defensivas e, acima de tudo, solitárias. É a nossa co,preensão que permitirá à outra pessoa desabrochar dia a dia. No casamento, portanto, podemos desfrutar a emoção de desempenhar um papel essencial nesse processo de nascimento e crescimento.

Os negócios inacabados e as adivinhações

Os "negócios inacabados" constituem uma das principais causas da solidão no casamento. São os sentimentos não manifestados e não resolvidos do passado, particularmente de mágoa e raiva, que preferimos esconder, cada um por alguma razão específica. Mas o problema é que, a partir do momento em que tentamos sufocar um sentimento assim, ele se transforma num "negócio inacabado" para o futuro. Não esquecemos os "sentimentos"; podemos esquecer o incidente em si (o tapa, o insulto, a

negligência), mas os sentimentos que o acompanharam, que o cercaram, não irão se evaporar. Eles sempre encontram um meio de permanecer e se inflamar. Só e quando acumulamos uma quantidade considerável de negócios inacabados, achamos

que temos direito a trocá-los por um preço. E vem a separação, o divórcio, depressão, uma ida ao hospital, um acesso de compras, uma bebedeira, farra. Às vezes, pode até mesmo ocorrer um suicídio ou homicídio. Tudo depende do tipo de sentimentos que estivemos acumulando. Não é de surpreender que duas pessoas com negócios inacabados se transformem em estranhas uma para a outra. Nenhuma das duas talvez tenha consciência do que está acontecendo, pois sempre ocorre de forma sutil. Cada uma, procurando manter a paz a qualquer custo, sente medo de se arriscar a ofender ou irritar. Confundindo a ausência de conflito exterior com harmonia no casamento, cada uma está sendo sufocada por uma quantidade crescente de resíduos, sob a forma de sentimentos não expressos. Sem saber o que a outra pessoa está realmente sentindo ou pensando, tentamos adivinhar:

— Sei que você está zangada comigo. Por que não sai do casulo e diz logo o que é?

Os adivinhadores às vezes estão certos

mas

, nem sempre. Mas não é essa a questão. Pressupor o que nossa companheira ou companheiro está pensando ou sentindo, sem ter

perguntado antes, é declarar que o conhecemos melhor do que ele. E com isso estaremos fazendo com que o outro fique ainda mais intimidado. Quando um casal entra em meu consultório, uma das minhas primeiras providências é promover um contrato, no qual uma das cláusulas mais importantes é que nenhum dos dois falará ou pensará pelo outro. Declarações como "nós achamos" ou "ela sente" estão definitivamente excluídas. "Eu penso" e "eu acho" terão que ser as expressões usadas. Se uma pessoa começa a falar pela outra, peço imediatamente que pare e recomece tudo novamente, usando "eu" ao invés "

de "você". "Eu estou furioso porque

"Você me deixa furioso". Assim fazendo, estamos assumindo a responsabilidade por nossos próprios sentimentos e reações. Os cônjuges com negócios inacabados descobrem que, por mais tempo que os referidos negócios permaneçam em suspenso, maior será a desconfiança mútua, mais altos serão os muros de medo e solidão. Tentativas de adivinhação irão provavelmente se multiplicar, o que serve apenas para aumentar os medos e a atitude defensiva de cada um. Embora possam ocorrer momentos de confrontação, por causa de questões de momentos, raramente duas pessoas poderão tratar de problemas do presente se ainda estiverem presas ao passado. E pode chegar o momento em que o acúmulo de negócios inacabados atinja tal proporção que os dois serão incapazes de lidar com o presente de forma construtiva. Nesse ponto do casamento, os

e nunca

cônjuges estarão terrivelmente separados, vítimas de uma solidão implacável. Se não há qualquer compreensão das necessidades e sentimentos do presente, então não existe absolutamente nada.

Descarregar

Descarregar é o método mais comum de tratar de negócios inacabados no seio da família. As pessoas procuram descarregar suas mágoas ou raiva não expressas anteriormente em membros inocentes da família, que não estavam absolutamente envolvidos no atrito original (ou transação). Se Mamãe tem um negócio inacabado com Papai, ela pode provocar Mary, de dez anos, a se comportar mal, a fim de descarregar na menina a raiva anterior não expressa. Alguém tem que arcar com isso e Mary parece ser a mais apta a assumir a raiva. Da mesma forma, Tim, de quinze anos, que está com raiva do pai, mas receia expressar por medo de represálias, pode descarregar na mãe, a qual ele julga estar disposta a arcar. E se ele sentir que a mãe parece disposta a manter a paz dentro da família a qualquer custo para si mesma, ela provavelmente será o alvo predileto de toda a família. Se os membros da família não podem lidar diretamente com os negócios inacabados, no momento presente ou num futuro imediato, possivelmente acabarão envolvendo e alienando

membros inocentes da família. Ao final, a solidão de cada um terá sido intensificada.

Os pais que responsabilizam os filhos por sua solidão

Quando os filhos sentem a incompreensão e a solidão entre a mãe e o pai, freqüentemente assumem a responsabilidade por isso e procuram se punir. Uma menina de onze anos assim descreve a situação:

—Não quero me arriscar a contar à mamãe os meus problemas, porque sei que ela já tem problemas seus suficientes, tentando fazer com que papai compreenda as suas mágoas. Essa menina está carregando um fardo duplo, o seu próprio e o da mãe. Às vezes, as crianças sentem que, por causa de algo que disseram ou fizeram, são responsáveis por uma incompreensão que vêem desenvolver- se entre os pais. Uma mãe transtornada, cuja fadiga crescente e perturbação emocional estavam provocando uma grande tensão no relacionamento com o marido, disse sem pensar à filha:

—Você foi um engano. Nós só queríamos ter cinco filhos. A menina era o sexto filho do casal. Falando assim, a mãe estava, de certa forma, atribuindo a responsabilidade por sua solidão àquela filha adolescente.

Embora os filhos algumas vezes sejam as vítimas de uma luta pelo poder entre os pais, raramente são a causa direta da discórdia. O pai pode dizer:

— Se você se comportasse melhor, Rhonda, sua mãe e eu não estaríamos tão separados um do outro. Qualquer tentativa de atribuir aos filhos a responsabilidade pela solidão que os pais experimentam irá apenas aumentar a solidão de todos os envolvidos.

Adolescentes:

a

incompreendido

solidão

de

sentir-se

Como os adolescentes sentem as coisas com intensidade, qualquer incompreensão pode magoar profundamente. "Mas como eu posso fazer com que meu filho adolescente partilhe seus sentimentos comigo?", perguntam os pais

frustrados. "Levo meus filhos para jantar fora sozinhos, na esperança de que conversem

falem

livremente sobre tudo

adianta." Isso acontece porque os adolescentes escolhem eles próprios a ocasião e o lugar em que irão revelar e partilhar seus sentimentos. Encaram qualquer tentativa de coagi-los (articulando situações óbvias de confidência) como violação de sua personalidade. A razão pela qual os adolescentes nem sempre partilham seus sentimentos com os pais não é por estarem com

comigo

mas simplesmente não

digam

o

que

os

perturba

raiva deles ou por medo de não serem compreendidos. Guardar os sentimentos para si mesmo, nessa época da vida, é muitas vezes uma parte do processo de separação. Por causa disso, os adolescentes provavelmente estarão mais dispostos a partilharem o que sentem com

os amigos do que com os pais. Mas porque a

mãe e o pai provavelmente interpretarão essa atitude como falta de,confiança ou perda de

controle, eles podem continuar a se intrometer, afastando ainda mais os filhos adolescentes. Os segredos, durante a adolescência, são um meio de dizer às pessoas grandes: "Escute, certas coisas são minhas. Não tenho que partilhar todo o meu eu com você." É assim mesmo que tem

de ser, isso contribui para o senso crescente de

identidade pessoal do adolescente. Até mesmo nos relacionamentos mais íntimos há uma comunicação seletiva. Muitas vezes, podemos preferir guardar para nós mesmos algumas fantasias e sonhos. Isso nos permite manter a nossa individualidade.

Duas coisas contribuem para o tipo de solidão circunstancial que os adolescentes experimentam. É a época da vida em que a probabilidade de incompreensão é provavel- mente maior. Os adolescentes estão começando

a assumir mais responsabilidade por suas

decisões e sentimentos; se isso representa uma ameaça para os pais, pode facilmente ocorrer uma luta pelo poder, na qual os pais sempre sentem a necessidade de sair vencedores. Qualquer confrontação em que os sentimentos e

a sabedoria dos adolescentes sejam reduzidos, ignorados ou subestimados é destrutiva para o relacionamento e para o adolescente. Ver a nossa sabedoria desdenhada, não importa qual seja a nossa idade, é sempre uma experiência terrível para o ego. É também experimentar a solidão do julgamento e da incompreensão. Uma escassez de afagos também contribui para a solidão dos adolescentes. Embora eles continuem a afagar e abraçar as crianças, sentem-se constrangidos em demonstrar afeto para os membros mais velhos da família. Da mesma forma, os pais podem sentir-se constrangidos a abraçar "nossos adolescentes tão grandes". Em algumas famílias, quando os filhos entram na adolescência, os abraços e carícias podem ser substituídos por brincadeiras mais rudes, como fazer cócegas um no outro e simular brigas. Isso é ótimo, porque assim o contato físico continua, sem que os adolescentes ou os pais se sintam embaraçados e constrangidos. Além disso, é quase sempre divertido. E quando o afago e a alegria surgem simultaneamente, temos uma combinação insuperável. Além do decréscimo de atenção física, os adolescentes são freqüentemente postos de lado em conversas nas quais os participantes são basicamente adultos. Isso também agrava a solidão. Aos quatorze ou quinze anos de idade, é constrangedor ser visto a conversar com crianças de sete ou oito anos, de modo que, os adolescentes se vêem paralisados no meio do

caminho, não querendo ou sendo incapazes de relacionamento com os mais moços e com os mais velhos. É por isso que eles precisam buscar atenção fora de casa, com os colegas, através da prática de esportes, brincadeiras coletivas, posições de liderança na escola e na igreja. Os animais de estimação para os adolescentes, especialmente gatos peludos, podem proporcionar excelentes alvos de afagos.

Alternativas

família

para

a

solidão

dentro

da

SABER OUVIR Em nenhum lugar é mais necessário saber ouvir do que no ambiente familiar. E saber ouvir envolve não apenas os ouvidos, mas também cada parte de nossa pessoa. Algumas vezes nós escutamos, mas não estamos realmente ouvindo; escutamos as palavras, mas não somos capazes ou não queremos perceber os sentimentos que estão por trás delas. Se um membro da sua família está apenas escutando as suas palavras, você provavelmente se sente frustrado e solitário. Mas se, por outro lado, ele está se esforçando para identificar os sentimentos, então você se sente compreendido. Paul Tournier nos recorda: "A fim de realmente compreender, precisamos ouvir, não replicar. Para ajudar alguém a abrir seu coração, temos que dar-lhe tempo, fazer apenas algumas perguntas, tão cuidadosamente quanto possível, a fim de ajudá-lo a melhor explicar sua

experiência. Acima de tudo, não devemos dar a impressão de que sabemos melhor do que a pessoa aquilo que ela deve fazer, do contrário estaremos forçando-a a se retrair." 8

RECONHECIMENTO DA UNIDADE INDIVIDUAL Você já reparou que não há duas folhas numa árvore que sejam exatamente iguais, em tamanho, formato ou cor? Há sempre alguma coisa que diferencia uma folha da outra. Não há dois flocos de neve, duas rosas ou duas impressões digitais que sejam exatamente iguais. Cada coisa é por si mesma uma entidade única. Da mesma forma, cada um de nós é único. Se casou com alguém que achou ser igual a você, pode ter certeza de que estava apenas se enganando. E mesmo que tal coisa fosse possível, seria o relacionamento mais tedioso do mundo. A diferenciação é particularmente ameaçadora no contexto da família. Lembro de um pai, mãe e filho que ficaram sentados em silêncio por um longo tempo, em meu consultório, aparentemente incapazes de se relacionar. Final- mente, o pai disse a respeito do filho adolescente:

O garoto é como eu. Também acha difícil falar a respeito de seus sentimentos. Nesse momento, o filho reagiu pela primeira vez. Pulando da cadeira, ele gritou:

8 Paul Tournier, To Understand Each Other (Richmond, Virginia, John Knox Press, 1970), pag. 25.

— Pelo amor de Deus, papai, quer parar de

tentar fazer com que eu seja igual a você?

Comecei a perceber o que estava acontecendo.

O pai, usando o seu poder, estava sempre

dizendo que o filho era igual a ele. O filho, por sua vez, sentia-se ao mesmo tempo irritado e assustado; irritado por ser comparado ao pai, mas assustado diante da perspectiva do que poderia acontecer, se não tentasse, de algum meio, ser o que o pai achava que ele deveria ser. Porque o pai não estava disposto a expressar seus sentimentos, sempre que a mãe começava a se arriscar a partilhar os dela, ele a fazia calar- se, interrompendo-a, com um grunhido ou um resmungo de impaciência. No fundo, ele tinha medo dos seus próprios sentimentos; os esforços para controlar o resto da família eram tentativa de evitar a necessidade de enfrentar o seu próprio medo do amor. Não havia aceitação ou reconhecimento da unidade individual naquela família.

A fronteira entre o poder e a autoridade

Os Analistas Transacionais diriam que a necessidade dos pais de exercerem poder sobre os filhos reside em seu próprio Pai Arcaico Preconceituoso interior.

Há uma fronteira definida entre poder e autoridade. O poder é o abuso e o desvirtuamento da autoridade, empregado com uma necessidade de controlar, vencer e estar certo. Tal poder freqüentemente está dentro do Pai Arcaico Preconceituoso, o estado do ego não-pensante, programado e ritualista. Mas o poder não é característica apenas do Pai Arcaico Preconceituoso. Pode também se insinuar no Pai Arcaico Educativo. Embora este esteja preocupado com as necessidades físicas e emocionais das crianças, dispostas a escutar e tentando compreender, nem sempre está consciente dos limites desse envolvimento ou super proteção, do ponto em que o "Deixe-me fazer por você" começa a tornar a criança desamparada, cada vez mais dependente e menos disposta a exercer suas próprias capacidades. Por esse motivo, o Pai Arcaico Educativo freqüentemente degenera num Pai Salvador, manipulando a criança a fim de manter um rela- cionamento de dependência. Eis uma ilustração:

Os protetores, ao invés de encorajar as crianças a se tornarem cada vez mais responsáveis

Os protetores, ao invés de encorajar as crianças a se tornarem cada vez mais responsáveis pelo uso dos seus próprios recursos interiores, indiretamente desestimulam tal responsabilidade. Não é raro o Pai Arcaico Preconceituoso ser incapaz de distinguir entre "ajudar" e "salvar". "Billy precisa da minha ajuda" pode realmente significar "Billy não pode fazer sem mim". Há uma diferença. Se alguém procura apontar essa necessidade de superproteger, a resposta veemente pode ser: "Mas você é muito insensível. Será que não compreende que devemos ajudar os outros?" Os super-protetores têm dificuldade em perceber que sua atitude é um insulto ao protegido; no fundo, a mensagem é: "Sozinho, por sua própria conta, você não é nada." Assim, a atitude de super proteçção sempre ajuda mais ao protetor do que ao protegido. Proporciona

ao primeiro o sentimento de poder de que necessita. Manter os outros dependentes faz com que a pessoa se sinta mais Ok, mais importante, mais digno de amor. Mas para uma criança, a proteção persistente dói mais do que uma bofetada no rosto. É como dizer: "Você não é nada." O P-A-C atualizado é o seguinte:

não é nada." O P-A-C atualizado é o seguinte: Esse processo de atualização dura a vida

Esse processo de atualização dura a vida inteira. O Adulto deve sempre estar numa posição de avaliar e examinar as informações (círculo superior) que constituem o Pai Arcaico Educativo e Preconceituoso. E deve estar em condições

também de avaliar as "chantagens emocionais" na Criança Arcaica Adaptada (círculo inferior). O estado de ego Adulto Saudável (círculo do centro) consiste numa coexistência feliz de todos os três estados de ego atualizados — como eles continuarão a ser por toda a vida. Para os propósitos que aqui temos em vista, como estamos avaliando a necessidade de poder, o Pai Educativo atualizado no Adulto operante tem consciência do ponto em que sua atenção envolvente começa a se tornar prejudicial para as crianças.

A manifestação construtiva de ressentimentos e avaliações Ao invés de usar a palavra raiva, prefiro

A

manifestação

construtiva

de

ressentimentos e avaliações

Ao invés de usar a palavra raiva, prefiro dizer ressentimento. Quando duas pessoas se gostam, haverá certamente momentos de ressentimento. O fato de ocasionalmente reagirmos dessa maneira com as pessoas de quem gostamos é prova de que gostamos. No meu trabalho com casais em

dificuldades, costumo pedir, logo no início, que cada um só arrisque a dizer o que ressente e o que aprecia no outro; dá ótimos resultados misturar as duas coisas. A regra básica é de que, enquanto um está falando, o outro não pode responder nem defender-se, devendo esperar até que o primeiro termine. Depois que ambos expressaram plenamente seu ressentimento e apreciação, peço a cada um qúe fale sobre o que pensa que o outro disse e também sentiu. Não deve apenas repetir, como um papagaio, as palavras do outro, mas também procurar refletir os pensamentos. Esse sumário permite ao outro saber que há compreensão. E uma vez que isso é percebido, há um relaxamento, as defesas são baixadas e os dois podem então travar tranqüilamente uma discussão intelectual, a respeito de sua discórdia. Mas se é difícil e assustador para um casal exprimir o que um ressente no outro, é ainda mais difícil expressar a apreciação. Há duas razões para isso. Uma delas é que, se houver algum negócio inacabado entre os dois, descobrirão ser muito difícil, se não mesmo impossível, expor no momento a sua apreciação. Em segundo lugar, muitas vezes achamos difícil manifestar a nossa apreciação por causa do medo do amor; o medo do embaraço, da falta de jeito, constrangimento, choro. Uma expressão da apreciação por pequenas coisas pode significar muito. Uma esposa transmitiu bem essa idéia ao dizer que o marido, com uma regularidade surpreendente, cumprimentava-a pela maneira como passava a

ferro e depois dobrava os lenços dele, guardando- os em seguida na gaveta, pela consideração dela em que ele tivesse sempre uma toalha limpa no banheiro, pela atenção ao passar manteiga em suas torradas. Nos estágios iniciais das sessões, um dos cônjuges tentará fazer com que o outro se sinta responsável pela falta de comunicação. "Ela me deixa furioso" ou "Ele está sempre tentando magoar-me" são acusações bastante comuns. Quando isso acontece, peço a ambos que reformulem esses ressentimentos de maneira mais responsável, começando com "Eu". Observem a progressão abaixo, em termos de gradativamente assumir a responsabilidade pessoal por nossa própria reação.

"Você adora insultar." "Você me insultou." "Aquilo foi um insulto." "Eu me senti insultada." "Eu estou sofrendo."

No último degrau, assumimos plena responsabilidade por nossa reação ao que foi dito, não culpando o outro pela nossa resposta. Fazer os outros responsáveis por nossa reação coloca-os imediatamente na defensiva e, a partir desse momento, está perdida qualquer esperança de comunicação significativa. Se cada um está-se esforçando sinceramente para compreender o outro, não há manipulação de modo que um fique

na posição de ter que se defender ou justificar o que foi dito. Uma comediante muito famosa disse que ela e o marido resolveram que nenhum dos dois iria se deitar de noite sem primeiro expressar qualquer ressentimento que pudessem estar acalentando. —A partir desse momento — conta ela, sombriamente, — passamos três semanas sem dormir.

É divertido, mas se sabemos o que leva nosso

companheiro ou companheira a reagir com raiva,

estaremos nos familiarizando com uma parte muito importante da outra pessoa.

Ocasiões apropriadas para partilhar

A esposa de um destacado líder cívico contou que,

em determinada ocasião, ela e o marido estavam

a caminho de uma reunião muito importante no

country club. Ao saltarem do carro, ele a olhou de alto a baixo e depois disse:

—Querida, esse vestido simplesmente está curto demais para uma reunião como esta. Ele podia estar sendo sincero em sua reação, mas era o momento errado para dizê-lo. Teria sido melhor que ele tivesse notado e feito o comentário quando estavam se preparando para sair de casa. Num relacionamento que se caracteriza pela compreensão há uma consciência do momento exato em que o outro está pronto para dar e receber. Mesmo que ele tivesse achado que o vestido da esposa estava curto demais, teria sido melhor que guardasse a opinião para si mesmo,

depois de já terem chegado ao clube, quando nada mais se podia fazer.

Os limites da intimidade

Temos analisado neste livro a importância dos riscos e de partilhar os nossos sentimentos. Mas há limites para a intimidade. Numa época em que

se dá ênfase a "ser franco", a sinceridade pode ser uma forma de crueldade, um meio de a pessoa livrar-se de seu próprio sentimento de culpa. Uma mulher deve confessar ao homem com quem está prestes a casar todas as experiências sexuais que teve com namorados anteriores? Isso pode atenuar o sentimento de culpa dela, mas à custa

e do próprio relacionamento. É

possível que tal sinceridade esteja encobrindo um recado: "Você simplesmente não se compara com "

fulano

pela raiva. As pessoas podem usar a comunicação franca como um meio de agressão mútua. Revelar continuamente as coisas que sabemos que irão magoar é um meio de punir a pessoa a quem se ama. A sinceridade total pode ser também uma forma de chantagem emocional, insinuando: "Se eu lhe digo tudo a meu respeito, então você tem a obrigação de me contar tudo a seu respeito." É preciso, portanto, haver uma comunicação seletiva. Embora a sinceridade, seja importante no casamento e na família, não tem que haver a obrigação infantil de contar tudo. Haverá ocasiões em que devemos ter a coragem de dizer:

da confiança dele

A confissão é muitas vezes sublinhada

— Por favor, pare! Não quero mais ouvir coisa alguma a esse respeito!

10. A solidão e o isolamento das pessoas idosas

—É muito difícil envelhecer com dignidade. Quem disse isso não foi alguém já aposentado, mas um homem de 47 anos, não tão velho como consideramos a velhice. Mas, como todos nós, ele está envelhecendo. —Ninguém deveria viver além dos 70 anos — refletiu um cavalheiro de cabelos brancos. — Se um homem não pôde fazer em 70 anos tudo o que pretendia, não vai ter muita chance de consegui-lo depois dos 70 anos. Mas é uma questão de opinião, atitude e modo de vida individuais. —A cada dia que passa — disse uma mulher de 76 anos, cheia de jóias, num vestido vermelho brilhante que parece refletir o seu otimismo contagiante — sempre encontro alguma coisa, algo novo na vida. Sempre encontrei e continuo a encontrar. Se eu me sentisse triste, não duraria por muito tempo. Contemplando lentamente a sala de estar cheia de sol do sanatório onde estávamos conversando, ela continuou:

—Está vendo aquelas mulheres? Todos os dias eu tento convencê-las a se arrumarem, usarem jóias, vestirem as suas melhores roupas e passarem alguma maquilagem, abandonando os roupões e

chinelas. Afinal de contas, a vida ainda não acabou. Evidentemente, a pessoa idosa é o que sempre foi, só que de maneira mais acentuada. Se dissemos "sim" à vida nos anos anteriores, se fomos flexíveis, abertos às mudanças, sabendo ajustar- nos aos desapontamentos, reveses e perdas, provavelmente assumiremos a mesma atitude ao envelhecermos. Mas se a nossa atitude foi de um sonoro "não" a vida empregando todos os esforços e energias para nos debatermos contra ela, isso significa que há rigidez e ausência de disposição para se curvar ao fluxo natural dos acontecimentos. E tudo indica que envelheceremos com essa mesma atitude, só que mais acentuada. Hans Selye situou na perspectiva correta o papel do stress. Ele define o stress como o esgotamento do corpo, indicando que mantém uma relação estreita com o processo de envelhecer. Usando o termo "energia adaptável", ele observa que cada um de nós herda uma certa quantidade de energia adaptável, à qual nada pode ser acrescentado. O índice com que a gastamos é que determina o nosso processo de envelhecimento. Ressaltando que muitos distúrbios nervosos e emocionais estão relacionados com a velocidade de autoconsumo ou à medida que a nossa energia adaptável é esgotada, ele diz que a nossa idade verdadeira depende da devastação do tempo. "Em todas as minhas autópsias (e não foram poucas as que realizei), nunca encontrei um

homem sequer que tivesse morrido de velhice. Para dizer a verdade, não creio que ninguém

jamais tenha morrido de velhice

velhice significaria que todos os órgãos do corpo

teriam se desgastado proporcionalmente, simplesmente por terem sido usados por tempo

demais. Mas isso nunca acontece. Invariavelmente, morremos porque uma parte vital do nosso corpo se desgastou prematuramente, em

Há sempre uma parte

que se esgota primeiro e arruína toda a maquinaria humana, porque as outras partes não podem funcionar sem ela. A teoria dele faz sentido. O segredo estaria em nossa disposição e capacidade de envelhecer com dignidade. Um modo de vida rígido não dá margem a mudanças, espontaneidade, flexibilidade ou variedade; em conseqüência, o stress é maior. Se não podemos nos curvar ou considerar e avaliar novas idéias, métodos* descobertas e fórmulas, à luz de mudanças e de revelações, esse tipo de rigidez afeta diretamente o processo de envelhecimento.

Morrer de

relação ao resto do corpo

Os idosos e o "vácuo de afagos"

Seria impossível calcular a porcentagem dos idosos, na população, que são simplesmente esquecidos, mas é uma proporção considerável. Eles são postos de lado sem nenhuma razão objetiva, certamente não porque a família ou a sociedade sejam intencionalmente cruéis. Não é isso; apenas são esquecidos, abandonados. Eu me

atreveria a dizer que são descartados como geladeiras e automóveis velhos, que já perderam a sua utilidade e propósito. Numa pequena aldeia costeira, morando numa casa perto o bastante do mar para que o barulho das ondas penetrasse pelas paredes 24 horas por dia, havia um pescador aposentado, semi-aleijado pelo artritismo, mas sofrendo muito mais porque estava só, do que pela doença. As persianas viviam fechadas e a única companhia dele era um aparelho de TV de 12 polegadas, preto e branco,

obviamente precisando de reparos. Como antigo capitão de um barco de pesca, seu rosto refletia 50 anos de exposição diária ao ar salgado e ao sol. Numa voz quase inaudível, ele murmurou:

— Nasci e fui criado aqui

minha vida. Meus velhos companheiros de pesca costumavam passar por aqui. De vez em quando também aparecia um clérigo. Mas agora não vem

mais ninguém. Não sei o que aconteceu

que simplesmente me esqueceram. Nem todas as pessoas idosas se arriscariam a dizer isso, mas muitas o sentem: Foram esquecidas. Mas, às vezes, o problema não é apenas o esquecimento dos idosos pelas pessoas mais chegadas. Muitas vezes, devido à real situação dos idosos, as fontes de atenção podem ser praticamente inexistentes. É comum os filhos esta- rem muito longe, o cônjuge doente, incapacitado ou morto — assim como muitos antigos amigos íntimos e colegas de trabalho. Os problemas de saúde restringem a mobilidade que permitiria à

acho

passei aqui toda a

pessoa idosa procurar companhia. No caso dos homens, a aposentadoria aos 65 anos lança-os bruscamente na situação difícil de ser separado dos colegas de trabalho com os quais convivia diariamente. Os sintomas da angústia da solidão podem se caracterizar pelo desespero. É possível alguém morrer por causa de um coração ferido e os corações podem sucumbir quando todas as fontes anteriores de atenção e amor desaparecem. Para outros, no entanto, a situação não é tão desesperançada. Alguns nunca renunciam ao amor. Sem as fontes costumeiras de amor e afagos, eles recorrem a outros métodos de obtenção de afago; como escrever cartas, por exemplo. — No último Natal, escrevi 70 cartões com mensagens pessoais, que mandei para velhas amigas e parentes — conta uma mulher de 78 anos. Viúva, ela passa duas ou três horas por dia a responder à pequena e constante montanha de correspondência que se acumula em sua caixa para cartas. O método de escrever cartas não apenas lhe proporciona um meio de obtenção de afagos, mas também uma maneira de preencher as horas do dia, que poderiam ser extremamente vazias. Algumas pessoas idosas também encontram um imenso prazer na atenção das crianças. Os que têm netos colhem geralmente uma porção generosa de afagos, embora seja baixo o nível de tolerância deles aos gritos, brigas e confusão geral que acompanham tais afagos. Em outras palavras:

chega o momento em que as brincadeiras ruidosas excedem o valor dos afagos que estão recebendo. Nem todos poderão alcançar a fama de uma Vovó Moses, mas o vigor e o entusiasmo com que ela começou a pintar, depois de velha, atraiu a atenção do mundo inteiro. Estamos falando agora dos auto-afagos. Muitas pessoas idosas ficam surpresas quando, ao tentarem algumas coisas novas, descobrem recursos interiores cuja existência ignoravam. Não importa o quão idoso esteja alguém, há sempre alguma coisa nova que pode tentar, experimentar, explorar, pela primeira vez:

esculpir em madeira, procurar pedras de formatos

e variedades raras, aulas de piano, cultivar flores ou até mesmo, como fez um velho e corpulento ex-lutador aposentado, esculpir em argila. Nossos novos meios de passar o tempo (e afagar a nós mesmos) podem divertir os amigos e vizinhos, até mesmo causar estranheza. Afinal de contas, há de parecer um tanto estranho que um antigo lutador belicoso vire escultor. Um dos aspectos do trauma da aposentadoria é:

"E agora o que eu vou fazer com o meu tempo até "

Para aqueles que estão fisicamente

que

capazes, o trabalho voluntário em hospitais, igrejas e outras instituições pode ser uma solução. — Farei qualquer coisa para sentir que ainda sou útil para a sociedade — diz uma enfermeira aposentada. Ela tinha sido a enfermeira-chefe do turno do dia no hospital local. Agora, trabalhando de graça,

empurra alegremente o carrinho cheio de material de leitura de um quarto para outro. Dow Coffman, gerente do Hearthstone Manor, em Folsom, Califórnia, um centro para aposentados, classifica a instituição como "um acervo de memórias". Os passatempos, como já mencionamos antes, são outra opção que temos e que provavelmente irão se tornar ainda mais importantes para os idosos. Quer num banco de parque no centro da cidade, em companhia de um amigo, quer numa casa de repouso para idosos, numa área suburbana, podemos nos empenhar "

sempre em diversas

formas de "lembra quando

O envelhecimento e a perda da identidade

Num fenômeno que desafia a compreensão, o envelhecimento é também acompanhado pela perda gradativa da nossa identidade; de certa forma ela nos é tomada, a unicidade sendo substituída pelo enquadramento numa categoria genérica. Passamos a ser um dos velhos, os veteranos. Os idosos se ressentem profundamente disso. Uma vigorosa e bem disposta nova residente de um centro de aposentados relatou uma experiência aparentemente típica:

-— No primeiro domingo depois que fixei residência no centro, compareci à igreja local pela primeira vez. Depois do serviço, alguém me estendeu a mão e disse gentilmente: "Seja bem- vinda. Você deve ser do lar de pessoas idosas lá da estrada."

Ela diz que foi a sua primeira experiência do trauma da aposentadoria. Ser chamado pelo nosso nome, mesmo que vivamos até os cem anos, é recordar a nossa individualidade, distinta e única. É verdade que tratamos as pessoas idosas como se fossem entidades sem a menor importância. Ou então, como se, queixou um velho ainda vigoroso, com um tipo de gentileza irritante, de maneira muito parecida com o feito de afagarmos as criancinhas.

O neto provavelmente está agindo com as

melhores intenções do mundo quando diz para a avó: "Por favor, não precisa se levantar. Continue sentada." Mas a avó não apenas pode se levantar para saudar o neto de 25 anos, que tem 20 quilos de excesso de peso, como também seria capaz de vencê-lo numa maratona de caminsada. As pessoas idosas apreciam ser tratadas como todos

os demais, sem qualquer preocupação especial

decorrente da idade.

O

independência

envelhecimento

e

a

perda

da

O envelhecimento é acompanhado não apenas por uma freqüência crescente de perdas reais, mas também pelo medo de perdas antecipadas. Um dos medos mais perturbadores gira em torno da compreensão gradativa de que nossos corpos estão perdendo sua vitalidade. Quando os músculos começam a perder seu vigor, o tônus e as reações químicas do corpo passam a decrescer, a perspectiva de perder nossa independência pode

lançar-nos a um desespero crescente. No momento em que os reflexos, a visão ou a audição decrescente exigem que desistamos de guiar e vendamos nosso automóvel, perde-se outro aspecto da independência. Um dia, um velho de 86 anos exibiu-me, com o orgulho ardente de um adolescente, o que considerava a sua última possessão de grande valor: a carteira de motorista. Muito embora não guiasse um automóvel há muitos anos, ele se recusava a jogar fora a carteira de motorista; ainda a levava para onde quer que fosse, em sua carteira de notas. Para ele, simbolizava um aspecto de uma independência que outrora conhecera e à qual ainda se apegava desesperadamente, muito embora fosse agora apenas um símbolo. Para uma pessoa idosa, o momento em que a esperança vacila, representa também o momento em que morre a vontade de viver. — É terrível ficar tão velho como eu — comentou tristemente um homem preso a uma cadeira de rodas, fumando um cigarro atrás do outro. — Tudo o que me resta esperar é recuperar a capacidade de andar novamente. Não parecia muita coisa para se esperar, mas era pelo menos alguma coisa. Uma mulher com quem conversei num sanatório disse que perdera a sua última esperança, na prolongada batalha para manter pelo menos uma aparência de independência, depois que caíra e quebrara a bacia. Agora, dependia do filho para tudo. Para alguém que sempre levara uma vida

intensa,

independência, tal situação resultara na perda de todo o incentivo para viver.

a

desfrutando

a

boa

saúde

e

O

e o isolamento final

Com o envelhecimento, a realidade do nosso isolamento individual torna-se ainda mais aguda. "Casamos dois a dois, mas morremos um a um". Em anos mais jovens, com sua vitalidade inerente, a presença dos filhos e a promessa de um futuro alegre fazem com que o isolamento final pareça bastante remoto. Mas as perdas sucessivas que acompanham o processo de envelhecimento forçam-nos, de um jeito ou de outro, a enfrentar essa realidade. Os medos se cristalizam no momento em que morre o nosso companheiro ou companheira. Não importa o quão preparados pen- semos estar para esse momento, não há condição de escapar ao trauma e ao sofrimento que acompanham a constatação de que estamos realmente sozinhos. Uma mulher de 75 anos, que perdera o marido, seu' companheiro durante 45 anos, disse que as horas mais terríveis eram entre cinco e sete da tarde, o período que costumava passar ao lado do marido, comendo e discutindo os acontecimentos do dia. Sentia o isolamento ainda mais intenso ao ver outros homens passando diante de sua casa, seguindo ao encontro de suas esposas, para o jantar. Além disso, os aniversários e outras datas especiais eram outras ocasiões extremamente

difíceis para ela, quando muitas recordações e sentimentos tornavam-se ainda mais intensos. Quanto mais damos de nós a uma pessoa e quanto mais dela recebemos, mais intensos serão os nossos sentimentos de isolamento e sofrimento quando nos separarmos pela morte. Quando alguém nos compreende, absorve uma parte de nós; o outro é capaz de sentir o que sentimos, a ponto de realmente o assimilar à sua pessoa. Nós

vivemos na outra pessoa e ela vive em nós. Isso é

a

"unidade" da compreensão. Não há limites para

o

grau de compreensão que duas pessoas podem

atingir num relacionamento. Quanto mais tempo "nos absorvemos um ao outro", mais unidos e um só nos tornaremos. A unidade física é sempre secundária, em relação à unidade da compreensão. Quando a morte nos separa, o falecido leva consigo para a sepultura uma parte de nós. O nosso senso de perda é, portanto, duplo. Estamos separados daquela pessoa a quem amamos por sua personalidade única; mas estamos também subitamente separados de uma parte de nós que nela investimos. Esse investimento é feito com maior freqüência em nosso cônjuge. Por esse motivo, a dor do isolamento é maior nas pessoas idosas quando o cônjuge morre. É que o investimento foi muito maior. Na ocasião da morte, o que absorvemos da outra pessoa, em recordações e sentimentos, também se torna mais vívido. Embora haja uma imensa tristeza na constatação de que nunca mais irá viver outra pessoa como aquela que está morta,

há ao mesmo tempo um sentimento de alegria: a unicidade do outro é agora mais plenamente apreciada. Embora possa ter havido uma compreensão gradativa disso durante os anos passados juntos, essa apreciação irá subitamente assumir novas dimensões. Sempre que dizemos "Nunca haverá outro como ele ou ela", estamos expressando ao mesmo tempo uma tristeza e uma alegria. Há dois fatores importantes aqui: a) isso nos ajuda a recordar a pessoa amada com uma apreciação ainda maior; b) permite que amemos a outros sabendo que não poderá haver a mesma qualidade ou intensidade de amor. Por esse motivo, não estaremos traindo a pessoa amada que morreu. Uma ativa viúva de 80 anos pode ter expressado os sentimentos de muitas pessoas idosas em relação ao casamento, ao dizer:

— Creio que todo mundo ama profundamente apenas uma única vez na vida. Instada a falar mais, ela disse que, ao perder o marido, não se sentiu incapaz de amar a algum possível pretendente, mais sim relutante em fazê- lo. Se o nosso investimento num cônjuge foi total e completo ao longo de alguns anos, uma espécie de reverência pode cercar o relacionamento. No caso dessa viúva inteligente e vibrante, as razões de sua relutância em amar profundamente outra vez não são importantes. Ela fez uma escolha responsável. Ainda sentia afeto pelas outras pessoas, embora não com a intensidade que experimentara somente uma única vez. Ela não era uma solitária.

Pode acontecer que nossa lealdade e devoção ao morto nos leve a sentir que estamos traindo esse amor, se nos atrevermos a amar novamente no futuro — se houverem possibilidades de amor. Como ficou dito no capítulo anterior, se escolhermos não amar novamente e se pudermos assumir as conseqüências pela responsabilidade dessa opção, então estaremos sendo responsáveis. Mas se nos mostrarmos relutantes em procurar o amor novamente, então a solidão resultante será uma decorrência de nossa própria atitude. Os outros podem nunca substituir uma pessoa amada, mas podem ajudar, cada um à sua maneira única, a preencher uma necessidade que temos enquanto vivermos, de amar e ser amado.

Infantilidade — diversão e envelhecimento

Com o envelhecimento, podemos deixar de lado aquelas características que são infantis (mau humor, egocentrismo, dependência e irresponsabilidade), mas não precisa ocorrer também uma perda das qualidades típicas da infância (espontaneidade, vontade de saber tudo, curiosidade insaciável). A maneira pela qual nos permitimos continuar a exercer essas características é que determina o espírito com que envelhecemos. Uma coisa é certa: somos concebidos num momento de profunda satisfação. Nascidos do divertimento, nós nascemos para ele. Cada contorção, fungada, bocejo, qualquer movimento desencadeia uma nova sensação dentro de nós.

Sons incompreensíveis nos cercam: são arrulhos, rangidos, estalidos. À cada hora, novas coisas são entrando em foco. O divertimento está simplesmente no fato de existir.

À medida que a criança cresce, vai tirando o má-

ximo proveito de tudo que está à mão, quer seja um grampo ou um papel de bala. As crianças possuem a imaginação para transformar um papel de bala numa coberta de bebê e um grampo num bebê. Enquanto a criança simula, deixa sair o que está dentro de si, alheia ao que os outros possam pensar ou sentir a respeito da tolice de tal comportamento. A criança ainda está intacta, confiando em seus próprios recursos interiores. Pode fazer as coisas mais absurdas num impulso súbito, não sentindo a menor compulsão em

continuar uma atividade além do momento em que cessa de lhe proporcionar prazer. Está sempre pronta para uma nova aventura. Mas, com a idade,

a Criança Natural em nós tende a ser bloqueada

pela Criança Adaptada ou "Submissa". À medida que vão se acumulando os temores de nos tornarmos indignos de amor, começamos a parar de brincar da maneira que os outros possam não aprovar. Diversas injunções dos pais, verbais e nao-verbais, aceleram essa mudança. 1. "Você é mais importante para mim quando está fazendo e não simplesmente sendo." O trabalho torna-se muito mais importante do que a diversão. Não é que o trabalho não seja importante, mas é que se torna mais importante. Todos nós precisamos nos divertir pelo menos uma hora e

meia a cada dia da semana e duas horas nos fins- de-semana. Deve haver uma coexistência feliz entre os trabalho e a diversão, se desejamos permanecer em contato com a nossa Criança Natural. 2. "Qualquer coisa que mereça ser feita deve ser feita bem." Ao invés de simplesmente nos deixarmos "sentir" e desfrutar nosso divertimento, nós nos concentramos em aperfeiçoá-lo, contribuindo assim para aumentar o nosso stress. Não precisamos ter razões para nos divertir, não tem que haver um propósito por trás da diversão. Para quase tudo o mais que fazemos na vida tem de haver um propósito: na escola, em casa, na igreja e no trabalho. Mas não para a diversão. Alguns consideram que caminhar pelas manhãs, fazendo exercícios, é divertido. Mas se nos concentramos em melhorar a cada dia o nosso desempenho, podemos ficar mais preocupados com a aceleração do pulso do que com o calor do sol em nosso rosto ou o canto dos passarinhos nas árvores. Se o condicionamento do corpo é o subproduto da nossa diversão, isso é ótimo. Mas se o condicionamento do corpo torna-se a preocupação fundamental, então é um pouco menos divertido. — Tenho que fazer 50 flexões antes do café da manhã, de qualquer maneira, mesmo que chegue atrasado ao trabalho. Discordo daqueles que dizem que "meu trabalho é divertido". O trabalho sempre acarreta uma determinada parcela de planejamento, programação, horário, estafa e determinação. O

trabalho pode ser agradável e gratificante, mas uma boa parte do prazer da diversão pura está em nossa capacidade de deixar de lado toda e qualquer programação, fazendo apenas o que sentimos que é melhor para nos. Com base no P-A-C, falamos em diversão como sendo aqueles momentos em que deixamos "o garoto sair", o nosso garoto interior. Mas, não é apenas uma questão de deixar o garoto sair. A

menos que o nosso Adulto esteja consciente dos limites até onde o nosso garoto pode ir, é possível que o garoto escape ao controle, exagere, para em seguida sentir-se culpado, deprimido e jogar o "bata em mim". Se estamos começando a aprender a nos divertir novamente, depois de termos esquecido como, também podemos deixar o garoto ir longe demais. Mais tarde, castigando- nos porque gastamos dinheiro demais ou roubamos muito tempo ao trabalho ou tivemos alguma aventura extraconjugal, nossa "culpa" pode ter o efeito de nos deixar mutilado por algum tempo. Nosso Adulto, então, torna-se consciente da extensão em que a nossa Criança Natural pode se expandir hoje. 3."É importante vencer." Se a diversão se torna competitiva, aliada à necessidade de vencer,

então

uma fuga àquilo que freqüentemente nos enerva

mundo

do trabalho cotidiano, ou seja, a competição e a

manipulação. Uma menina de cinco anos pediu à

no

nunca

mãe

com ela um novo jogo, confessando em seguida:

que

jogasse

— Mamãe, não sei como jogar esse jogo, mas vou descobrir uma maneira.

E ela descobriu. A necessidade de ganhar tira toda

a diversão da diversão. Se estamos na posição Eu estou Ok — Você não está Ok, provavelmente teremos a necessidade de vencer. Mesmo na diversão, teremos que controlar os outros. 4."A diversão é algo que se tem de perseguir; é sempre encontrada em algum outro lugar." É essa

concepção

errada que nos leva a pensar que, a fim de nos

divertirmos,

devemos atravessar a cidade, o país ou o oceano.

Divertir-

se é estar alerta a tudo que acontece ao nosso

redor

momento, com a capacidade de reagir. Muitas pessoas dirão que suas férias mais tristes foram aquelas em que dirigiram por cinco mil quilômetros, em menos de duas semanas, num carro sem ar-condicionado, através de desertos, sob temperaturas altíssimas, a fim de acampar em locais onde as barracas ficavam separadas por menos de cinco metros. Muitas pessoas já renunciaram hoje ao ritmo frenético do turismo em que um mês é comprimido em apenas uma semana. Bill Emerson, escrevendo no Saturday Evening Post, comentou o tipo de diversão a que estamos voltando, com a era do jato. "Quando uma pessoa

no

retorna à bicicleta cachorros novamente

chuva; um vale próximo volta a ser algo pessoal e

os cachorros tornam-se e mordem a nossa capa de

chegar lá torna-se a coisa mais divertida do mundo." Acompanhando a idéia de que diversão é algo que devemos procurar longe de nós, está a crença de que "divertir-se é ser entretido". Com a idade, podemos ser acometidos de "espectadorite"; nas arquibancadas, mas raramente no campo. Divertir- se pode facilmente significar a satisfação de consumo, de coisas como produtos, lutas, comida, bebida, cigarros, pessoas, conferências, filmes e livros. Engolimos tudo vorazmente. O mundo pode se transformar num imenso objeto com o qual saciamos nosso apetite, uma gigantesca maçã, um seio incomensurável. As pessoas mais bem pagas na América e no mundo são aquelas que nos proporcionam entretenimento. Estamos dispostos a gastar muito amtieiro a Um de que outros nos divirtam. À medida que vamos envelhecendo, precisamos continuamente atualizar nossa Criança Natural. Uma maneira de fazê-lo é escrever uma lista de diversões.

25 maneiras pelas quais você se criança

10 maneiras gratuitas pelas quais pode se divertir

hoje

10 maneiras dispendiosas pelas quais você se diverte hoje

divertia em

10

maneiras de divertir-se sozinho

10

maneiras de divertir-se na companhia de outras

pessoas

Guardei uma série de listas de diversões que meus pacientes me deram. Aqui vão algumas coisas que eles faziam para se divertir quando eram crianças. Será que algumas não lhe trazem recordações?

Brincar com a massa que sobrou do bolo feito por mamãe. Passear na chuva de verão. Pôr cartões na roda da bicicleta para fazer barulho. Andar com latas achatadas presas aos sapatos. Sentar debaixo de uma árvore para ouvir o farfalhar das folhas. Ser enterrado sob folhas secas. Descer uma encosta coberta de neve em cima de um pedaço de papelão. Ficar chutando latas depois do anoitecer. Balançar de uma corda presa numa árvore para dentro da água. Nadar debaixo d’água com os olhos abertos. Ficar observando um ninho de passarinho. Chupar gelo. Comprar balas com algumas moedas. Pular amarelinha a caminho da mercearia. Nunca pisar em formigas na calçada, a menos que quisesse que chovesse. Brincar de esconde-esconde nos campos, pouco antes do anoitecer. Pescar no lago de noite. Empinar pipas. Brincar no sótão num dia de chuva, examinando o conteúdo de velhos baús. Observar uma porca ter cria, a primeira lição.

Andar sobre os dormentes da linha férrea, procurando pregos grandes soltos, pelos quais o ferreiro pagava algumas moedas. Jogar pedrinhas na superfície do lago. Fazer o enterro de uma boneca, debaixo das árvores. Beber leite quente no estábulo, logo depois que a vaca foi ordenhada. Correr debaixo do varal com o vento enfunando as roupas penduradas. Abrir portas. Pular valas. Sujar-se depois do banho. Conversar com os animais no jardim zoológico. Ir ver se havia alguma coisa na caixa de correspondência. Correr por entre os esguichos de irrigação num gramado. Andar descalço em cima das folhas caídas, no outono. Recordar as diversões que tivemos em criança é o primeiro passo para explorar os recursos da nossa Criança Natural. Há alguns adultos que ainda são jovens o bastante para gostar de fazer algumas das coisas absurdas que faziam quando eram crianças: andar sobre os dormentes das linhas férreas, fazer pedrinhas ricochetearem na superfície de um lago, observar ninhos de passarinhos e assim por diante. Os adultos que são capazes de se divertir dessa maneira podem estar envelhecendo na idade cronológica, mas não estão envelhecendo em espírito. Porque envelhecer é freqüentemente acompanhado por perda de agilidade e resistência, a natureza da nossa diversão terá que se alterar.

Talvez não sejamos mais capazes de andar sobre os dormentes ou pular valas, mas há muitas outras coisas que podemos continuar a fazer. A diversão adulta de "espectadorite" geralmente envolve gastar dinheiro.

Comer fora. Ir ao teatro. Receber amigos Praticar esqui aquático. Jogar golfe. Praticar tiro ao alvo. Fazer camping. Beber Ir às boates.

Comprar roupas novas. Comparecer a concertos. Redecorar uma sala ou a casa. Fazer os cabelos no salão de beleza. Jogar boliche. Comprar jóias.

Qualquer tipo de atividade em que não empreguemos os nossos recursos naturais pode dar-nos "prazer", mas não é diversão no sentido de que utilizamos nossa própria criatividade e espontaneidade. Aqui estão algumas das coisas que os adultos podem fazer para se divertir, sozinhos (a maioria das quais são gratuitas):

Tomar um banho quente. Escrever cartas.

Dar um passeio a pé. Sonhar de olhos abertos. Deitar ao sol. Observar as pessoas nos concertos. Andar debaixo da chuva. Assistir televisão na cama. Pensar. Desenhar projetos para a casa de seus sonhos. Olhar velhas fotografias. Contemplar o rio. Resolver quebra-cabeças. Apreciar os odores num bosque. Assoviar. Limpar a gaveta em que guardamos todas as quinquilharias. Brincar com cachorros e gatos. Ler os anúncios de precisa-se. Tentar imaginar como se poderia viver depois da aposentadoria. Fazer leituras não-profissionais. Planejar viagens na base de "se eu tivesse dinheiro". Ler jornais de outras cidades. Observar a mudança das estações. Dar telefonemas interurbanos. "Sentar diante dá lareira acesa, com as luzes apagadas. Andar pela praia. Fazer intervalos para um cafezinho. Conhecer novas pessoas. Segurar bebês no colo. Tomar sorvete. Andar de bonde.

Rir Mandar cartões engraçados para os amigos. Dormir tarde. Satirizar os comerciais de televisão. Falar consigo mesmo. Observar e escutar uma tempestade. Ficar escutando o tamborilar da chuva no telhado.

Enquanto vivermos, podemos nos divertir. É apenas a natureza dos nossos brinquedos que irá mudar. Costumamos ler que é uma atitude sensata começar a preparar-se cedo para a aposentadoria, aos 45 anos. Mas preparar-se para a aposentadoria é mais do que um plano — em termos monetários ou outro qualquer — que ideali- zamos numa determinada idade e depois envidamos todos os esforços para realizar. É um estilo de vida, uma atitude, a arte de envelhecer com dignidade e satisfação.

11. Solidão e religião

Com um sentimento que beira o orgulho, a maioria de nós pensa em si mesmo como religioso ou não- religioso. O sentimento de orgulho está baseado num amálgama de coisas. "Mas todo mundo é religioso." Como religião e política continuam a ser os dois temas da vida que ateiam as nossas discussões mais acaloradas, essa afirmativa tácita pode muito bem lançá-lo a um acesso de raiva. Mas é provável que, se você tem orgulho em se julgar religioso, exiba um sorriso de

satisfação e use a frase como mais uma munição contra um amigo ou vizinho que desdenha as pessoas devotas ("São os piores hipócritas") e a religião organizada ("Tudo o que a igreja quer é arrancar o dinheiro das pessoas"). Tentar fazer com que duas pessoas concordem numa definição simples de religião é quase tão difícil quanto fazer com que concordem sobre o vencedor do torneio nacional de beisebol, antes da temporada estar pelo menos no meio. É simplesmente impossível. Por esse motivo, este capítulo pode levantar mais questões do que respostas para muitas pessoas. Não é de surpreender, portanto, que nossas definições de religião sejam amplas e variadas, constituindo, às vezes, julgamentos de valor. Com grande freqüência, a incapacidade em concordar resulta num jogo de "a minha é melhor do que a sua". Jogado com grande brilho e entusiasmo entre pessoas religiosas e não-religiosas, o jogo gira em torno da idéia de que a vida é uma espécie de competição para ser bom:

— Sou tão bom quanto Charley, que se intitula um cristão e vai à igreja todos os domingos. Outro grupo encara a religião como uma adesão aos rituais estabelecidos:

—Ted e Alice são muito religiosos. Já notou como eles sempre fazem uma oração antes das refeições? Outros ainda se apegam à idéia de que a religião é um amplo sortimento de nãos. —Ralph é a pessoa mais religiosa que eu conheço. Ele não bebe, não pragueja, não joga.

Ao que os não-religiosos podem responder:

—Mas, afinal, que diabo Ralph faz? Nunca tenho muita certeza do que alguém está realmente querendo significar ao dizer, freqüentemente por entre os dentes semicerrados:

—Chega desse negócio de religião para mim. Já me empurraram demais esse negócio pela goela abaixo, quando eu era garoto. Tenho a impressão de que tal atitude provavelmente decorre do que ocorreu na infâmia da pessoa, quando pais bem-intencionados, em nome da religião, lhe impuseram um código rígido de coisas que podia e não podia fazer. Há uma grande competição entre religiões organizadas, no mundo inteiro: "A minha é melhor do que a sua." "Vamos para o céu e vocês não." "Mas como pode dizer, Sr. Calhoun, que os budistas também são religiosos?" Religião, uma ilusão, escarnecia Freud. Ele a comparava à "neurose obsessiva" encontrada nas crianças, "tendo sua origem no desamparo do homem ao enfrentar as forças da natureza, exteriores, e as forças instintivas interiores". 9 Como a criança não pode usar sua razão, ela controla e reprime a curiosidade pelo uso de determinadas forças emocionais e desenvolve o que Freud chamou de uma "ilusão". Em adulto, quando confrontado pelas mesmas forças perigosas, incontroláveis e incompreensíveis, dentro e fora de si mesmo, a pessoa recorda da atitude anterior e "regride para uma experiência

9 Citado em Erich Fromm, Psychoanalysis and Religion (New Haven e Londres, Yale University Press, 1950), pag. 10.

que teve em criança, quando se sentia protegida por um pai a quem julgava superior em sabedoria e força e cujo amor e proteção deveria conquistar, obedecendo às ordens e evitando as transgressões àsproibições impostas". 10 Não é de surpreender, assim, que Freud encarasse a religião como uma ilusão; algo a que o homem deve renunciar, se deseja enfrentar o seu isolamento e insignificância no mundo. Mas Erich Fromm pergunta: "Que espécie de religião?" "Não existe ninguém sem uma necessidade religiosa, necessidade de ter uma estrutura de orientação e um objeto de devoção; mas tal declaração não nos diz coisa alguma a respeito do conteúdo específico em que se manifesta essa necessidade religiosa. O homem pode cultuar animais, árvores, ídolos de ouro ou de pedra, um deus invisível, um homem puro ou líderes diabólicos; ele pode cultuar seus ancestrais, sua nação, classe ou partido, dinheiro ou sucesso; sua religião pode conduzir para o desenvolvimento da destrutibilidade ou do amor, da dominação ou da fraternidade." 11 Será que existe algum terreno comum no qual possamos nos basear? Eu gostaria de sugerir que a religião é a soma total da direção a que fomos levados por nossos esforços individuais, para assumir a responsabilidade por duas condições básicas da

10 Ibid, pág. 11.

11 Ibid, pág. 25.

existência: nosso isolamento final e nossa solidão. A própria palavra religião vem do latim religare, que significa "reunir". Assumir a responsabilidade por nosso isolamento e solidão é simplesmente procurar as respostas ao "como" e "por que" do nosso envolvimento com o universo e com os outros. Essa procura começa quando somos pequenos, toma direções diferentes e encontra expressão em diferentes modos e objetos de culto. Isso torna a todos nós religiosos. E à medida que nos tornamos religiosos depende de quão vigorosamente procuramos e descobrimos respostas que nos satisfaçam e preencham as nossas necessidades. Entre as muitas coisas que experimentamos, em nosso isolamento, está um tipo de descontentamento, cuja natureza procura uma estrutura de orientação cada vez mais ampla, para o todo da existência. Embora seja verdade que os animais estão felizes contanto que tenham o suficiente para comer e gozem de boa saúde, nós não nos satisfazemos com isso. "O homem é o único animal que pode ficarentediado, que pode sentir-se descontente, que pode sentir-se expulso do paraíso. O homem é o único animal para quem a própria existência é um probema que deve ser resolvido e do qual não se pode escapar." 12 Nietzsche expressa a mesma idéia: "Aquele que tem um porquê para viver, pode suportar praticamente qualquer como.

12 Ibid, pag. 23.

Viktor Frankl, ao se referir à necessidade de satisfazer o "porquê" da vida, cita o exemplo de dois prisioneiros que estiveram juntos por trás de cercas de arame farpado, durante a II Guerra Mundial. Os dois, pensando em suicídio, não conseguiam mais encontrar qualquer razão para continuar vivendo. Mas, em conversa com Frankl, cada um chegou à compreensão de que possuía responsabilidade no futuro; um para com um filho que o esperava num país estrangeiro; o outro para com uma série de livros que ainda estavam para

ser acabados.

"O homem que se torna consciente da responsabilidade que tem em relação a outro ser

humano que o espera afetuosamente ou para com um trabalho inacabado, jamais será capaz de acabar com a própria vida." 13

No

fundo de nosso descontentamento, portanto,

uma necessidade de que o nosso Ok seja

confirmado pelas pessoas, mas que se estende além disso, a fim de determinar se a nossa existência individual tem ou não algum propósito ou valor em relação ao processo cósmico global — uma espécie de Eu estou Ok — Você está Ok dentro da estrutura do próprio universo.

A natureza do nosso descontentamento

O descontentamento das pessoas, em seu

isolamento, é experimentado de duas maneiras, começando quando ainda são pequenas.

13 1 3

Ibid., pag. 126.

Que é o mundo? Quem o fez? Que causa a mudança das estações? Por que o oceano não congela?

Os animais conversam entre si?

Como uma mosca pode andar no teto sem cair? Por que uma vaca continua a mastigar, mesmo quando não está comendo?

Todas

essas

questões

focalizam

o

"como"

da

criação:

Como eu estou envolvido no mundo? Como meu irmãozinho consegue sair com papai mais do que eu? Quando há trovoadas, isso significa que Deus está zangado comigo? Por que as cobras olham para mim? Será que eu vou ter verrugas por causa dos sapos? Por que o sol queima a minha pele? Como eu posso sentir medo de Jane?

Aqui, a curiosidade flui de uma estrutura em que o Eu está no centro. Não apenas pergunta "O que é

o mundo?"; também pergunta "Que valor, se

algum, tem minha existência, em relação a tudo isso?" Embora a busca por respostas ao "porquê" do nosso envolvimento seja realizada com o propósito de estabelecer a maneira pela qual estamos relacionados com o todo, nunca é com um desejo de ser nele absorvido; ao invés disso,

procuramos continuamente realçar o nosso senso de unicidade e valor individual em relação ao todo. Cada coisa viva torna-se nosso irmão e irmã: as plantas, insetos, animais e pessoas. Quer seja um copo de água dado a um vagabundo sedento, a diligência com que a servente da escola varre o chão e lava os quadros-negros da escola, a fidelidade de um menino dando comida a seu ca- chorro ou a ternura de uma menina a cuidar de um passarinho de asa quebrada, até que fique bom, cada ato é encarado como tendo algum valor em relação ao que Alan Watts se refere como a "interminável união da natureza" 14 — isto é, o inter-relacionamento de todas as coisas vivas. Em todas as civilizações, é inegavelmente claro que, na procura das respostas para o "porquê" do nosso envolvimento, o homem nunca teve uma visão muito precisa de seu lugar ou papel no universo. O medo tem desempenhado papel preponderante no desenvolvimento das religiões (o medo de forças da natureza, terremotos, inundações, furacões etc., sendo o medo mais forte o medo da morte. Mas Joseph Gaer recorda- nos que a crença dominante tem sido sempre a de que a vida tem um propósito. É por isso que o "porquê" está no centro do nosso descontentamento. "Ao adotarem essa crença, os homens, por toda parte, estabeleceram códigos de comportamento e se equiparam com os rituais e credos apropriados, que diferem uns dos outros na prática, mas que são similares na teoria,

14 Alan Watts, Nature, Man and Woman (Nova York, Vintage Books, 1970), pag. 10.

especialmente em seu ponto de partida. E os mandamentos foram formulados para manter os crentes em harmonia e dedicados aos conceitos básicos dos propósitos da vida." 15 Não podemos tolerar o pensamento de uma existência sem propósito, num mundo sem propósito. Não é isso o que estamos querendo dizer quando falamos "Eu me sinto à vontade com você" ou "Eu me sinto à vontade neste lugar?" Dizer que nos sentimos à vontade com alguém significa que sentimos que, de alguma forma, nossas vidas se tocam, se entrelaçam, são interdependentes. Não é raro viajarmos por grandes distâncias só para estarmos com alguém em cuja companhia nos sentimos à vontade.

O abuso do "como"

Em nossa busca de compreensão do "como" do universo, há sempre o perigo de exagerarmos a aplicação da razão, o que acontece constantemente. No processo de querer compreender o universo, temos tentado controlá-lo e dissecá-lo por fora, interferindo com sua sabedoria natural interior. Esquecendo que o propósito mais elevado da natureza é simplesmente existir, nada mais e nada menos, temos procurado sondá-la com instrumentos. E Alan Watts, por exemplo, acredita que, como a ciência insistiu em estudar a natureza

15 Josenh Gaer, What the Great Religions Believe (Nova York, Dodd, Mead and Co., 1963).

por partes, o resultado final foi o de que passamos a encarar o controle do universo damesma forma — em retalhos. Ele' adverte que, se a nossa preocupação básica for com a classificação rígida e minuciosa da natureza em espécies, "pássaros ou peixes, elementos químicos ou bacilos", a ciência se transforma em tecnologia e "os homens começam a estender seu controle sobre o mundo". 16 E ele continua:

"O cientista, como cientista, não vê absolutamente a natureza; ou melhor, ele a vê tão somente por meio de um instrumento de medição, como se as árvores só se tornassem visíveis para o carpinteiro a partir do momento em que as serrasse em pranchas ou as medisse com sua trena. Mais importante do que isso: o homem como ego não vê absolutamente a natureza. Pois o homem como ego é o homem se identificando, ou à sua mente, sua perpecpção total, com ó tipo de atenção restrito e exclusivo a que chamamos de consciência." 17

O fenômeno da admiração

Embora as crianças como os adultos, queiram respostas para o "como" da criação, a fim de satisfazer sua curiosidade intelectual, há um momento em que parecem preferir que o desconhecido seja deixado em paz, não necessi- tando compreendê-lo.

16 Watts, Nature, Man and Woman, pág. 60

17 Ibid., pág. 66.

O pai pode dar uma boa explicação ao filho sobre

o "como" da papoula da Califórnia, especialmente

a maneira pela qual dobra as suas pétalas no final

da tarde, como a dizer boa noite ao mundo. Mas haverá momentos em que a criança vai simplesmente querer ficar só, apagar-se intelec- tualmente e experimentar o fenômeno desse prodígio. Há uma grande beleza no mistério, no desconhecido. Um adolescente, refletindo sobre o fenômeno dos prodígios da natureza, como Voltaire fez antes dele, disse:

— Se não existisse um Deus, eu teria que inventá- lo. Deus, assumindo muitas formas e com muitos no- mes, é freqüentemente um subproduto desse fenômeno da admiração. Não enxergamos a diferença entre o medo do desconhecido e o respeito pelo desconhecido. "Os corajosos são aqueles que não apenas sondam o desconhecido como também sabem em que ponto devem simplesmente respeitá-lo." 18 Um avô que é capaz de experimentar um senso de espanto e admiração, juntamente com os netos, na contemplação dos movimentos de uma lagarta peluda, conservou um ingrediente necessário de sua personalidade. O mesmo avô, compreendendo tudo a respeito do sol, da atmosfera e da rotação da terra, ainda será capaz de experimentar uma sensação de espanto diante do fenômeno do pôr- do-sol em si.

18 Md., pág. 83.

Há uma grande sabedoria em saber quando respeitar o desconhecido, parando de raciocinar para simplesmente apreciar a existência de uma coisa. Isso não significa que devamos nos tornar intelectualmente preguiçosos ou pararmos de pensar: mas devemos conhecer o momento em que a nossa racionalização deve ceder lugar à necessidade de experimentar uma sensação de admiração pura e simples em face do desconhecido. Albert Schweitzer criou o termo "barreiras invisíveis" para descrever o ponto além do qual é uma insensatez continuar a sondar:

"Quanto mais tentamos ver o desenvolvimento das coisas em cada campo, qualquer que seja, mais nos tornamos conscientes de que, a cada época, há certos limites para o conhecimento, diante dos quais tem que ocorrer uma parada, sempre no momento mesmo em que aparentemente iríamos nos elevar a um conhecimento superior e decisivo, que parecia ao nosso alcance. A verdadeira história do progresso na física, filosofia e religião, mais especialmente na psicologia, é a história das interrupções incompreensíveis de concepções que se tornaram inatingíveis em determinada época, apesar de tudo o que aconteceu para levar até lá — a história de pensamentos não-pensados, não porque não se pudesse, mas porque houve alguma imposição misteriosa para que não se o fizesse. Da mesma forma, a história da arte é a história das barreiras invisíveis e insuperáveis, que somente caem quando chega o momento apropriado, sem que ninguém compreenda por que isso acontece

exatamente quando acontece, não antes, nem depois." 19

Uma parcela considerável da emoção que marido e mulher sentem na antecipação do nascimento de um bebê está no próprio mistério da experiência da gravidez em si. Embora possa ser divertido tentar adivinhar o sexo do bebê, será uma infelicidade se a experiência em si servir apenas para inquirições e racionalizações. Verificar as batidas do coração ("Se for uma menina, o coração bate mais devagar"), calcular o tamanho do útero ("Se for um menino, será maior") e o momento da concepção ("Em determinadas épocas do ano há uma probabilidade maior de que a concepção resulte num menino"), pode ofuscar a simples sensação de admiração diante do fenômeno da gravidez. Eu ficarei muito triste quando chegar o dia (e certamente chegará) em que a ciência for capaz de prever acuradamente o sexo de um bebê. Não é de surpreender, portanto, que os nossos temores decorrentes da maneira com que nos preocupamos com o amanhã deixem-nos infelizes hoje. O amanhã deve sempre permanecer um mistério. No momento em que tentamos abrir a porta do amanhã, vislumbrando o que pode acontecer ou certamente acontecerá, não apenas iremos nos tornar por demais ansiosos, como a nossa preocupação com que está à frente irá

19 Charles R. Joy, Albert Schweitzer: An Anthology (Boston, Beacon Press, 1947), pág. 22.

contaminar a nossa percepção (Adulto) da beleza e do prazer de agora. Mas não precisamos planejar para o amanhã, pensar no futuro? Somente se nosso planejamento deixar margem para que o mistério do amanhã possa desabrochar livremente. Isso pode significar que a doença, o tempo, a promessa quebrada de alguém, um acidente, até mesmo a morte são coisas que participam da estrutura desse mistério e irão alterar ou mesmo impedir que realizemos nossos planos. O melhor preparativo para o futuro não consiste em pensar a respeito dele ou planejá-lo, mas em fazer o trabalho de hoje. O futuro é apenas um desdobramento do presente. O fazendeiro de bom senso perde muito pouco tempo a pensar na colheita por ocasião da semeadura; sua única preocupação é espalhar as sementes pela terra, nas melhores condições possíveis, proporcionando em seguida os melhores cuidados. Na medida em que ele pode controlá-lo, o futuro será uma decorrência de seu trabalho cotidiano. Spengler, o filósofo alemão, disse: "As nações começam a degenerar quando o povo deixa o solo." Há sempre esse perigo. A partir do momento em que começamos a nos afastar do solo, há uma tendência para a intelectualização, uma idolatria da razão, um distanciamento do fenômeno da admiração. Talvez Abraham Lincoln tenha aludido a isso, num pensamento poético que formulou certa ocasião. No princípio de sua carreira, muito antes de ser eleito Presidente, Lincoln era advogado em

Springfield, Illinois. Sentindo necessidade de visitar novamente uma fazenda perto de Gentry, que fora seu lar durante a adolescência, ele percorreu a pé os campos outrora familiares. Depois dessa experiência, escreveu: "Foi ali que cresceu o pão que formou meus ossos. Como é estranho, ó meus velhos campos, que em vós eu esteja de pé, sentindo-me como uma parte integrante." Lincoln parece estar dizendo que ele precisava voltar ao solo, experimentar a "sensação" de terra sob os pés, redescobrindo um senso de relacionamento com o todo. O contato com a terra proporciona às crianças uma experiência fundamental, particularmente na faina de plantar uma horta. Escavar o solo, plantar sementes, tirar as ervas daninhas, observar o primeiro verde a sair da terra, decidir quando é o momento para a colheita — todas essas coisas proporcionam um aprendizado para as crianças que não existe em nenhum outro tipo de experiência. Não apenas é divertido observar uma horta crescendo, mas também o senso de envolvimento pessoal e inter-relacionamento com outras forças invisíveis da natureza proporcionam à criança um sentimento básico de identidade, de valor pessoal em relação a todo o processo cósmico de geração de vida: uma experiência Eu estou Ok — Você está Ok com o universo. Lembro-me da minha horta quando eu era criança. Um dia, não pude mais resistir à tentação e arranquei diversos rabanetes para verificar se já estavam grandes o suficiente para serem comidos. Não estavam. Tratei então de enfiá-los novamente

na terra, cuidadosamente. Mas foi o fim daqueles rabanetes. Quando se perturba as forças invisíveis da natureza, as mesmas forças que operam o crescimento dos rabanetes, eles simplesmente param de crescer. Milhões de crianças hoje em dia, crescendo num ambiente de concreto e tijolos, nunca terão a oportunidade de escavar a terra com as próprias mãos. Embora possa parecer uma terrível sujeira, as crianças estão satisfazendo uma necessidade básica quando pisam — ou pulam — numa poça de lama. Não há sensação igual à de sentir a lama subir por entre os dedos dos pés. Nossa busca das respostas para o "porquê" do nosso envolvimento uns com os outros e com o universo deve não apenas