Desde 1933 uma peleja se estende no chamado sistema Confeaq/Crea: quem está

apto a elaborar um projeto de instalação elétrica sobretudo em baixa tensão? Esta é
uma confusão antiga que envolve engenheiros eletricistas, civis e arquitetos e em
grande parte está atrelada à má redação de decretos e leis, a começar pelo conhecido
"Decretão". Mendonça. O Decreto Federal nº 23.569, de 1933, tinha como função
regular o exercício das profissões de engenheiro, arquiteto e agrimensor.
Em sua redação, o decreto afirmava:
Art. 28 – São da competência do engenheiro civil:
b) o estudo, projeto, direção, fiscalização e construção de edifícios com todas as suas
obras complementares.
Art. 30 – Consideram-se da atribuição do arquiteto e engenheiro-arquiteto: a) estudo,
projeto, direção, fiscalização e construção de edifícios, com todas as suas obras
complementares.
Quando o decreto utilizava a expressão "obras complementares", criava margem para
uma série de interpretações. Dentre elas, a de que o projeto de instalação elétrica é
uma obra complementar, assim como é garagem coberta ou uma edícula, por
exemplo.
De acordo, com a interpretação de cada um, a instalação elétrica, do ponto de vista do
decreto, podia ser classificada como complementar, argumento contestado pelo
engenheiro eletricista e ex-conselheiro do Crea-SP, Paulo Barreto, pois, caso assim
fosse, a instalação elétrica poderia ou não ser obrigatória em um prédio, mas sem ela,
o edifício ficaria impróprio para utilização.
Durante 30 anos, uma série de atribuições profissionais próprias dos engenheiros
eletricistas foi estendida a civis e arquitetos. Até que em 1966 entrou em vigor a Lei nº
5.194, que não estabelece atribuições profissionais por modalidade, como era o
decreto. A lei trata apenas do exercício legal da profissão e passa a competência de
atribuição ao órgão federal, único habilitado para esta função.
A questão, entretanto, também não ficou bem resolvida com a Resolução nº 218, de
1973, do Confea, que sustentou ruído de comunicação semelhante ao existente no
decreto no que se refere à expressão "obras complementares”:
Art. 7º - Compete ao engenheiro civil ou ao engenheiro de fortificação e construção: I –
o desempenho das atividades 01 a 18 do artigo 1º desta Resolução, referentes a
edificações, estradas, pistas de rolamentos e aeroportos; sistema de transportes, de
abastecimento de água e de saneamento; portos, rios, canais, barragens e diques;
drenagem e irrigação; pontes e grandes estruturas; seus serviços afins e correlatos.
Novamente, segundo Barreto, o legislador introduziu ruído em seu próprio documento.
"Desde quando instalação elétrica tem afinidade ou correlação com tijolo, cimento, ou
ferragem? A expressão 'serviços afins e correlatos' não é definida e, por isso, é
apropriada por aqueles que se julgam capazes de projetar um sistema de instalação
elétrica. A redação do ‘decretão’ e em parte da resolução nº 218 foram as
responsáveis, em certa medida, por esta discussão com a qual estamos lidando há
tanto tempo dentro da profissão e do Sistema Confea/Crea", avalia o engenheiro.
Excluindo os termos que podem dar dupla interpretação, o que se tem hoje dentro do
Confea, no âmbito da Resolução nº 218, “não deveria dar margem para
sombreamento entre as profissões”, na visão de Barreto. O engenheiro civil, o
arquiteto, ou qualquer outra modalidade profissional, não possui atribuições na área da
energia elétrica e isso pode ser fundamentado inclusive por decisões plenárias e
judiciais, ao longo dos anos, que colocam claramente a responsabilidade de qualquer

“Como engenheiro eletricista e conselheiro federal. de mecânica. Para o engenheiro eletricista e conselheiro do Confea. em 2008. cabeamento adequado. mas com conteúdo informativo. duas disciplinas de 30 ou 40 horas de instalações elétricas obrigatórias aos engenheiros civis e arquitetos. Mas ele também tem aulas de ar condicionado. concreto armado. para alguns.000 Volts sem limite de tensão. mas quem "projeta" a instalação é um mestre de obra ou eletricista sem formação nenhuma. a questão envolve muito mais ética que qualquer outra coisa. Um exemplo recente destas confusões deu-se em 2008. do Crea-BA. a partir do momento que as engenharias se especializam. Para o conselheiro. no máximo. Todas estas decisões são colocadas nas mãos de um leigo que não tem conhecimento técnico para o assunto. de acordo com o projeto pedagógico de seu curso. mas não há ombreamento. quando você assume a responsabilidade por um projeto que não existe". o que fazia as disciplinas de cada área serem ministradas de maneira mais abrangente e formativa. “Não há como a resolução configurar o sombreamento. A concessionária também padece porque instalações fora das normas ficam sobrecarregadas. não tenho essa dúvida. Até 1973. A primeira vitória veio dentro da própria plenária do Crea e depois ganhamos a ação na plenária do Confea. é necessário prever um possível aumento de carga. nas mãos única e exclusivamente dos engenheiros eletricistas. o engenheiro civil assina a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART). quando o Confea decidiu pelo cancelamento da Instrução de Serviço n. a dúvida sobre o direito de elaborar e executar projetos de instalações elétricas. futuras manutenções e reformas. que o qualifica para prestar determinados serviços. E . a instrução de serviço permitia que engenheiros civis se responsabilizassem por projetos de instalações elétricas de até 1. etc. desde a baixa tensão. se estamos comparando cinco anos de universidade para o engenheiro eletricista com uma ou. Segundo ele. os civis continuam assinando ART na área elétrica e a fiscalização não dá conta de impedir esta ilegalidade". Esta questão é mais ética que técnica”. O autor da ação contra a CEEC foi o engenheiro eletricista Marcos Roberto Borges.sistema elétrico. e é daí que vêm as atribuições profissionais – do currículo escolar. opina Góes. de elétrica. Então perde a população em termos de segurança. e quase sempre ministradas por professores sem competência técnica para tal”. Porém. Borges prossegue afirmando que cada instalação é projetada para durar ao menos 15 anos. O engenheiro civil tem aulas de cálculo estrutural. a grande questão que envolve este embate é o próprio conceito de atribuição profissional. e a ética é deixada totalmente de lado. o currículo fica dividido entre disciplinas informativas e disciplinas formativas. a principal questão dentro desta irregularidade é que muitas obras não possuem sequer um projeto específico para instalações elétricas. Para Borges. disciplinas indispensáveis para sua formação técnica. Eduardo Delmondes Góes. Então. então. pela necessidade de as engenharias dialogarem para a execução dos projetos. Mesmo assim. com ou sem restrições de tensões. as engenharias eram unificadas. desabafa Borges. perdem os engenheiros eletricistas porque possuem uma profissão regulamentada que é precarizada. "O que este profissional faz é um acobertamento perigoso porque eletricidade envolve riscos para quem trabalha com ela e para quem vai viver ou trabalhar naquele edifício". a legislação que regulamenta as profissões ligadas à engenharia e arquitetura realmente deixa. de forma prática. A atividade de elaborar e executar projetos de instalações elétricas é exclusivo de profissionais com formação na área elétrica. critica Goés. Além de uma má redação de decreto e lei. que determinava que engenheiros civis graduados possuíam atribuições nas áreas de eletricidade. da Câmara Especializada de Engenharia Civil (CEEC). "Entrei com processo junto ao Crea e levamos dois anos para derrubá-la. 01/2004.

Ficou decidido pelo Confea que as atribuições são concedidas por meio de análise curricular. explica. pela obviedade. a ABEE teve total atendimento do judiciário nos seus requerimentos. Há muitos profissionais que imaginam ter conhecimento suficiente para projetar instalações elétricas e se responsabilizarem por conta de suas disciplinas informativas. o perfil de sua formação e o projeto pedagógico dos cursos. "Historicamente. as pessoas não têm isso em mente. a maioria é da modalidade da engenharia civil. conseguimos impedir que profissionais não habilitados preencham ART com códigos de natureza e atividades da área elétrica. Vários prazos tiveram de ser cumpridos para registro da ABEE-SC no sistema Confea.como se definem as atribuições? Segundo Barreto. Daí conclui-se. agronomia e todas as engenharias. O site do Crea SC ficou obrigado a bloquear qualquer profissional que não seja engenheiro eletricista a assinar códigos da área de engenharia elétrica com nossos códigos". . Na prática. afirma Rohden. Este é um dos grandes problemas dentro do sistema Confea/Crea. isso não é ensinado e. Hélio Rohden. Uma questão que faz parte desta discussão é a quem cabe realizar atribuições técnicas. sua responsabilidade civil e criminal em jogo. Infelizmente. há muitos Creas realizando atribuições. como o caso já citado da Bahia. normalmente. em Lages (SC). pois há mais votos do outro lado". O Confea tem o seu poder legislativo. No entanto. a ABEE–SC deu um claro exemplo a ser seguido. Nós resolvemos recorrer à Justiça e reclamar o fato de profissionais sem atribuição estarem atuando em nossa área e esta entendeu perfeitamente a angústia dos profissionais da área elétrica. Este poder legislativo chama-se “Plenária” e é composto por profissionais das mais diversas categorias profissionais e que tem como uma de suas funções principais decidir sobre projetos de resolução destinados a regulamentar o exercício profissional. membro conselheiro do Confea. considerando-se somente as matérias que dão conhecimento específico profissionalizante. A ação foi protocolada em abril/2009 na Justiça Federal. quando as matérias de interesse de ambas as modalidades vão para a Plenária. afirma Eduardo Goés. pois ele é composto por profissionais de todas as áreas abrangidas por esse sistema – arquitetura. A primeira reunião que originou esta ação ocorreu em 7 de junho de 2003. somente o Confea faz atribuições profissionais. pois o Crea efetuou todos os recursos possíveis sem lograr êxito. exorbitando de suas funções". Ideia semelhante compartilha o presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas (ABEE – SC). Na prática. porém. o Confea e os Creas têm sido comandados por engenheiros agrônomos e civis por serem estes a maior parcela dos profissionais do Sistema Confea/Crea. Para Goés. Foi por conta destes entraves dentro do sistema que nasceu a Associação Brasileira dos Engenheiros Eletricistas (ABEE) e a unidade catarinense foi responsável por uma ação inédita no país. dentro dos próprios Creas. o que significa que os assuntos de interesse da engenharia elétrica. A análise curricular fica a cargo da câmara especializada – câmaras que compõem os Creas – inerente à atividade que está sendo requerida. Ainda não temos o desfecho. apenas com as disciplinas de cunho formativo. explica Barreto. que é impossível que a determinação do direito pela elaboração e execução de projetos de instalações elétricas exclusivas de profissionais com formação na área elétrica seja originada no Sistema Confea/Crea". explica Rohden. "Dentre as profissões ali presentes. ou seja. entendendo isso como a estrutura curricular do profissional. A associação tem conseguido sucesso no seu intento e deveria ser seguida por todas as entidades de classe dos profissionais da área elétrica. É um despreparado que coloca seu nome. após os associados juntarem documentação suficiente para a ação. caso resolva apoiar a elétrica. são preteridos e a presidência do sistema fica numa situação delicada. a maioria vence a votação. Fui conselheiro do Crea durante quatro anos e levei tempo para ter este conhecimento.

levar à desregulamentação da profissão. pode ser considerado um infrator pelo Código de Ética e responder a processo por negligência. porque um engenheiro civil que queira trabalhar com instalações elétricas. tem melhores condições de discernir entre as aparentes possibilidades. se o profissional não se sentir capacitado para determinada tarefa. pois ele atribui de forma legal a possibilidade de engenheiros civis e arquitetos elaborarem e executarem projetos de instalações elétricas. porém. . em se tratando de Confea. não nos sentimos à vontade para atuarmos naquelas áreas. ou outra que seja. sem estar preparado. são os engenheiros eletricistas os especialistas. a resolução poderia resolver o problema. neste caso. Na contramão desta possibilidade. é óbvio que quem estudou profundamente um determinado assunto. À legislação. 1. cabe atribuir quem pode desempenhar determinadas atividades. um dia. separação é sinônimo de enfraquecimento. "Caso faça o serviço. mesmo sob o amparo da lei. Tivemos neste ano a saída dos arquitetos do Sistema Confea/Crea e temos ouvido rumores de outras categorias que querem também a separação. Para Barreto. Eis aí o problema de fato. Enfraquecimento este que pode. da área elétrica. acredita Góes. Apesar de termos estudado disciplinas de outras áreas.A questão das disciplinas formativas e informativas também toca em dois pontos que Barreto julga serem muito importantes: o "poder fazer" e o "saber fazer". entendo que. mestrado ou doutorado registrados no Crea. Para Rohden. Acreditam que esta seja a solução de todos os problemas existentes hoje no sistema. relata Barreto. engenheiros eletricistas. imperícia e imprudência". de repente. o mesmo é válido para um engenheiro eletricista que queira. haja vista que já se ouviu isso no Congresso Nacional. a Resolução nº 1.010/2005 do Confea concede extensão de atribuição profissional a engenheiros que façam cursos de especialização. ele não deverá fazê-la. Sem querer denegrir a engenharia civil ou a arquitetura. Góes vê a Resolução n.010 como o "tiro de misericórdia” nos engenheiros eletricistas e afins. nós. Para ajudar a resolver o problema de sombreamento. poderia fazer um curso de especialização e pedir extensão de atribuição. Enfim. esta celeuma não tem previsão para acabar. trabalhar com questões da área mecânica. Ledo engano.

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