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A prática da leitura se faz presente em nossas vidas desde o momento em que começamos a "compreender" o mundo à nossa volta. No constante desejo de decifrar e interpretar o sentido das coisas que nos cercam, de perceber o mundo sob diversas perspectivas, de relacionar a realidade ficcional com a que vivemos, no contato com um livro, enfim, em todos estes casos estamos, de certa forma, lendo - embora, muitas vezes, não nos demos conta.

A atividade de leitura não corresponde a uma simples decodificação de símbolos, mas significa, de fato, interpretar e compreender o que se lê. Segundo Angela Kleiman, a leitura precisa permitir que o leitor apreenda o sentido do texto, não podendo transformar-se em mera decifração de signos linguísticos sem a compreensão semântica dos mesmos.

Nesse processamento do texto, tornam-se imprescindíveis também alguns conhecimentos prévios do leitor: os linguísticos, que correspondem ao vocabulário e regras da língua e seu uso; os textuais, que englobam o conjunto de noções e conceitos sobre o texto; e os de mundo, que correspondem ao acervo pessoal do leitor. Numa leitura satisfatória, ou seja, na qual a compreensão do que se lê é alcançada, esses diversos tipos de conhecimento estão em interação. Logo, percebemos que a leitura é um processo interativo.

Quando citamos a necessidade do conhecimento prévio de mundo para a compreensão da leitura, podemos inferir o caráter subjetivo que essa atividade assume. Conforme afirma Leonardo Boff,

cada um lê com os olhos que tem. E interpreta onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender o que alguém lê, é necessário saber como são seus

olhos e qual é a sua visão de mundo. Isto faz da leitura sempre um releitura. [ assim, fica evidente que cada leitor é co-autor.

]

Sendo

A partir daí, podemos começar a refletir sobre o relacionamento leitor-texto. Já dissemos que ler é, acima de tudo, compreender. Para que isso aconteça, além dos já referidos processamento cognitivo da leitura e conhecimentos prévios necessários a ela, é preciso que o leitor esteja comprometido com sua leitura. Ele precisa manter um posicionamento crítico sobre o que lê, não apenas passivo. Quando atende a essa necessidade, o leitor se projeta no texto, levando para dentro dele toda sua vivência pessoal, com suas emoções, expectativas, seus preconceitos etc. É por isso que consegue ser tocado pela leitura.

Assim, o leitor mergulha no texto e se confunde com ele, em busca de seu sentido. Isso é o que afirma Roland Barthes, quando compara o leitor a uma aranha:

[

...

]

o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste

tecido - nessa textura -, o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela

mesma nas secreções construtivas de sua teia.

Dessa forma, o único limite para a amplidão da leitura é a imaginação do leitor; é ele mesmo quem constrói as imagens acerca do que está lendo. Por isso ela se revela como uma atividade extremamente frutífera e prazerosa. Por meio dela, além de adquimirmos mais conhecimentos e cultura - o que nos fornece maior capacidade de diálogo e nos prepara melhor para atingir às necessidades de um mercado de trabalho exigente -, experimentamos novas experiências, ao conhecermos mais do mundo em que vivemos e também sobre nós mesmos, já que ela nos leva à reflexão.

E refletir, sabemos, é o que permite ao homem abrir as portas de sua percepção. Quando movido por curiosidade, pelo desejo de crescer, o homem se renova constantemente, tornando-se cada dia mais apto a estar no mundo, capaz de compreender até as entrelinhas daquilo que ouve e vê, do sistema em que está inserido. Assim, tem ampliada sua visão de mundo e seu horizonte de expectativas.

Desse modo, a leitura se configura como um poderoso e essencial instrumento libertário para a sobrevivência do homem.

Há entretanto, uma condição para que a leitura seja de fato prazerosa e válida: o desejo do leitor. Como afirma Daniel Pennac, "o verbo ler não suporta o imperativo". Quando transformada em obrigação, a leitura se resume a simples enfado. Para suscitar esse desejo e garantir o prazer da leitura, Pennac prescreve alguns direitos do leitor, como o de escolher o que quer ler, o de reler, o de ler em qualquer lugar, ou, até mesmo, o de não ler. Respeitados esses direitos, o leitor, da mesma forma, passa a respeitar e valorizar a leitura. Está criado, então, um vínculo indissociável. A leitura passa a ser um imã que atrai e prende o leitor, numa relação de amor da qual ele, por sua vez, não deseja desprender-se.

Importância da Leitura: do conhecimento à prática social

O discurso do que fazemos deve estar coerente com a nossa prática. Nosso discurso incoerente com a nossa prática vira puro palavreado (Freire, 1998). Esse discurso, oriundo de nossos conhecimentos e atos provenientes da leitura que fazemos tanto do mundo como das palavras, formará o conhecimento e poderá ser usado ou não para a construção de nossa vida e de nossa sociedade.

A leitura, portanto, quebra mitos, desvela suposições e retira a opacidade de nossas mentes quanto a uma realidade educacional abalada (Fleuri, 1997). Para professores e profissionais que ensinam a ler, a leitura do seu ato de ensinar e a leitura de conhecimentos para sua própria atualização fazem com que abarquem uma forma mais ampla e direcionada desse ato frente a seus alunos para não torná-lo um ato meramente mecânico, mas sim um ato prazeroso e de descobertas.

A leitura torna-se um instrumento social de libertação de um povo, em específico do povo brasileiro, de fundamental importância para a reconstrução de nossa sociedade, de conscientização e politização para combater a ignorância e a alienação impostas pelo

regime dominante (Silva, 1995) que construiu o Brasil de cima para baixo, de forma autoritária. A leitura faz com que o reinventemos em outros termos, libertando dessas amarras autoritárias (Freire, 1998). A Unesco reconhece, desde 1972, que a capacidade de ler é essencial à realização pessoal e ao progresso social e econômico de um país (Bamberger, 1977). Ela provoca o crescimento interior (Yunes, 1984) e o desenvolvimento individual, ou seja, "a vivência da leitura propicia o desenvolvimento do pensamento organizado, capaz de levar o jovem a uma postura consciente, reflexiva e crítica frente à realidade social em que vive e atua" (Cattani; Aguiar, 1991). Ela passa a ser o elo entre as sociedades, conectando os homens com diferentes tipos de registros.

Pelo seu valor histórico-cultural marcante e transformador, segundo o professor Ezequiel Theodoro da Silva (1996), ao experimentar a leitura o leitor executa um ato de compreender o mundo. Dessa forma, conhecendo o mundo e transformando-se, o leitor passa também a executar espontaneamente uma práxis voltada à sua realidade e ao seu cotidiano de forma consciente, a partir do que fora lido. E, tantas vezes quantas for lida a obra, novas formas de interpretá-la e de contextualizá-la surgirão (Silva, 1996).

Sendo diretamente proporcional ao ato de ler, a escrita também adquire forma contextual, concreta e amplamente rica com a quantidade e diversidade de textos e livros que o leitor lê. É sabido que quem pouco lê escreve pouco e possui vocabulário pobre em termos, palavras e abstrações de ideias, o que, consequentemente, acentua a incidência de erros gramaticais. Esse fenômeno de "escrever mal" é encontrado frequentemente nos níveis do Ensino Médio e marcantemente no Ensino Superior. Os alunos, por não terem o hábito de ler, frequentemente acabam chegando às universidades com tal carência que custa a ser sanada. No entanto, a língua falada, mesmo que nela estejam contidos elementos gramaticalmente incorretos, não implica dizer que o falante está realizando uma oralidade errônea, pois na linguagem verbal são permitidos erros e variações nas palavras. Porém, o mesmo não é permitido na linguagem padrão, formal ou na escrita (Mandyr; Faraco, 1987).

As dificuldades e soluções para incentivar o hábito de ler

A consciência é um atributo estritamente humano que possibilita ao homem descobrir e alargar as suas representações do mundo (Silva, 1995). Por isso, o acesso aos livros nunca fora democratizado em nossa sociedade, por ser um meio gerador de consciência. Aliada a isto, a proliferação dos meios de comunicação, principalmente com o surgimento da televisão, em 1950, ocasionou a decadência do hábito da leitura e hoje é quase desestimulada por esse pacote pronto de imagem, som e "informação" – muitas vezes desinformação –, aliado ao domínio da propaganda para o aumento do consumo de produtos pela sociedade. Atualmente surgiu um novo opositor à leitura, a internet. Porém esse novo veículo de informação é domínio de uma camada mais favorecida e está contribuindo acentuadamente para o afastamento da leitura (Silva, 1995; Yunes, 1984). Coligado a tudo isso, temos o agravamento do crescente analfabetismo, devido a uma gama de condições desfavoráveis à população carente que a impedem de entrar e de estar na escola, tornando-se uma barreira inadmissível ao hábito de ler (Freire,

1997).

Por sua vez, os livros, que deveriam ser de acesso a todas as camadas sociais, estão longe de ser um objeto do cotidiano dos cidadãos, devido a uma indústria que visa o econômico, tornando-o de acesso difícil e caro, principalmente às camadas menos favorecidas da sociedade. Com mais esse agravante para frear a leitura, a nossa cultura, calcada numa visão mecanicista, consumista e autoritária, está mais voltada para a involução de nosso hábito de ler do que para sua estimulação e evolução (Silva, 1996), pois, há uma infinidade de obras disponíveis no mercado que abrangem os mais diversos temas e campos do conhecimento humano, podendo, como afirma o dito popular, "agradar a gregos e troianos".

Necessitamos é incentivar o hábito da leitura em todos os níveis de ensino, em todas as camadas sociais, democratizando o acesso aos livros e aos textos, para podermos então ter uma sociedade leitora, consciente, atuante, informada e que tenha prazer ao realizar esse ato tão imprescindível ao desenvolvimento humano (Silva, 1995). E quando existir leitura, haverá carências, apetite e desejo por resolver problemas pessoais, sociais, culturais e políticos (Bellenger, 1987). Haverá mudanças e crescimentos nas diversas direções, alargando os horizontes de nossas vidas.

O ser humano é movido por perguntas e navega no vasto mar do conhecimento para buscar as respostas necessárias que acalmem e desvelem as suas indagações. Sendo assim, "a inquietação gera a dúvida; a dúvida pede respostas; as respostas geram a reflexão" (Silva, 1996). Como as ações geram também respostas, novos "porquês" retomam à mente dos afortunados que leem. Daí a importância ao estímulo de tão glorioso ato, que tem início biologicamente na anatomia cerebral de nossos agrupamentos de neurônios (Holmes, 1954, apud Silva, 1996; Smith; Carrigan, 1959,apud Silva, 1996).

A escola, por seu turno, deve atuar para gerar não só alunos aptos a ingressar no ensino de nível superior, mas alunos leitores e cidadãos, que amem os livros e vejam neles uma forma de lutar, de obter soluções e de alargamento das fronteiras do saber (Chartier et al., 1996), para desenvolver as capacidades não só intelectuais, mas também às espirituais para progredir e aprender (Bamberger, 1977). Sem educação não há leitura, não há construção do saber, não há liberdade para viver os horizontes da cultura e não há sociedade (Silva, 1996; Libâneo, 1994). A leitura, quando realizada nos estabelecimentos de ensino, é feita com a manipulação mecanicista de sentenças e capítulos, sem nenhuma preocupação com o entendimento crítico e global do texto (Kleiman, 1989). "O texto constitui, na escola, o lugar instituído do saber e, por isso mesmo, funciona pedagogicamente como objeto onde se inscreve objetivamente a verdade, que parece temporal e definitiva, verdade essa a ser decifrada e assimilada pelo aluno" (Coracini, 1995). Com isto, "o livro didático interessa a uma história da leitura porque ele, talvez mais ostensivamente que outras formas escritas, forma o leitor" (Lajolo; Zilberman, 1998). Portanto, a crise da leitura tem sido considerada também, devido a crise do sistema de ensino, uma crise da escola, em que "as afinidades entre escola e leitura se mostram, a partir da circunstância de que é por intermédio da ação da primeira, que o indivíduo se habilita à segunda" (Zilberman, 1991). Sendo assim, um texto só existe na medida em que se constitui um ponto de encontro entre quem escreve e quem lê (Lajolo, 1991).

A solução desse problema está na realização de mudanças em nossos hábitos culturais, mudando nossa sociedade e nosso modo de vida (Yunes, 1984). O hábito da leitura teria que ser desenvolvido no berço familiar, com a aquisição de livros pelas famílias brasileiras (Alliende; Condemaring, 1987).

Além de tudo isso, o Estado deve exercer papel fundamental na criação de bibliotecas:

bibliotecas escolares para incentivar e criar esse hábito desde a pré-escola (Bamberger, 1977), com leituras de acordo com as afinidades de cada criança, sem forçá-las a ler apenas o que queremos que elas leiam, mas incitar o desejo do conhecimento e da aprendizagem individual (Yunes, 1984); bibliotecas populares, para estimular os populares a escrever, com a criação de horas de trabalho em grupos, formando assim leitores; e bibliotecas para trabalhar na pesquisa da leitura e das tradições culturais do seu entorno e das comunidades (Freire, 1998). Precisamos de professores, de bibliotecas e de cidadãos comprometidos e que dali em diante sejam criadoras de tão sublime ato, que é o ato de ler.

Conclusão

Ler é a forma mais concisa de o ser humano conseguir realizar mudanças em sua vida e na sociedade, melhorando a qualidade de ensino, a qualidade de formação de nossos futuros cidadãos e a nossa própria qualidade de vida. E não simplesmente ler, meramente como um ato mecânico, mas ler conscientemente, interpretativamente, criticamente e vivenciando as experiências e pensamentos do autor para buscar a partir de nossa realidade um meio para pôr em prática o que fora lido. Por isso, instruir e direcionar esse hábito são deveres de todos nós, como pais, cidadãos, professores e membros de nossa sociedade, pois enquanto houver leitura haverá busca, desejo por saber, por aprender e para mudar algo e desenvolver nossa própria humanidade.

REFERÊNCIAS

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A literatura tem função? É didática, pedagógica, prazerosa, psicológica? Em que medida ela nos afeta a ponto de usarmos expressões como “me atingiu em cheio” ou “caiu como uma luva” e “vestimos a carapuça”? A arte da representação veio antes dela. As ferramentas que o homem aprendeu a fazer para se virar no meio da selvageria (aquela mais primitiva do que a atual), serviram também para fazer representações do mundo, até então sem espelhos. Os primeiros homens faziam arte nos momentos de folga para extravasar ou para agradar seus pares? Estão aí as pinturas nas cavernas. Era para ensinar as crianças como viam as plantas e os animais? Era uma representação de si mesmos? E depois da escrita? Passou a ser para quê? E depois do dinheiro, passou a ser para quê? Ou não alterou nada o que ainda sequer consigo encontrar resposta? O hábito da leitura deixou de ser solitário aqui nesses tempos de on-line pra cá, on-line pra lá. No computador (e aqui incluo os blogs) a gente lê ao mesmo tempo em que está dialogando com o autor. Então, não creio que a imensa maioria dos que se aventuram na escrita estejam apenas fazendo um desabafo intimista sem querer uma voz do outro lado

da linha, esteja ela em sua própria casa ou no Tibet , se lá receber e enviar sinal para a rede mundial. Os comentários que fazemos nos textos são os ecos que saem de nosso sentido provocado pelo teor da mensagem. Seja poesia, crônica, conto, artigo, frase, pensamento, enfim, a locução que foi utilizada. Cada uma com suas peculiaridades ficcionais ou reais estabelecem contatos imediatos de primeiro grau, feito um parentesco às avessas entre o escritor e o leitor. Sentidos: alegria, raiva, identificação, discordância,

aceitação, deleite

Até

cópia tem gente que não resiste e faz, pensando-se esperto ou

... julgando-se incapaz de produzir algo que saia de sua própria cabeça, sem admitir publicamente. Muito bem! Isso aqui é uma divagação sem intenção de respostas definitivas. Reflexões apenas sobre o ato de ler, escrever e mergulhar no mundo da palavra escrita. E a literatura para mim tem essa função além do prazer e do aprendizado que vem depois, como uma refeição bem aproveitada pelo organismo. Não sou bovino, mas engordo ou emagreço com o que me alimento e rumino o que não me serve para o fortalecimento do espírito, pois é ele que a literatura alimenta.

A LITERATURA É O ÚNICO INSTRUMENTO REALMENTE CAPAZ DE MUDAR O HOMEM

Antes que falemos de Literatura propriamente, há um fator que antecede que é oportuno mencionar. A Literatura, antes mesmo das inscrições rupestres e das escritas cuneiformes, já existia em sua forma oral. É fácil imaginar o Homo sapiens, ainda na era das cavernas, no fim do dia, início da noite, ao redor do fogo, narrando suas façanhas de caçador. Certamente aquele que tivesse a melhor estratégia narrativa acabava por angariar vantagens competitivas naquela civilização incipiente. Poderia exercer algum posto de liderança e comando, reivindicar as melhores glebas de caça e coleta de alimentos, reservar para si as mulheres mais saudáveis e gerar as proles mais bem sucedidas. É razoável crer que pela prevalência do mais apto, somos descendentes diretos de uma linhagem de trogloditas contadores de histórias. As linhagens sem aptidões narrativas se perderam pelo caminho.

Mas o registro literário desde a escrita rupestre, passando pela escrita cuneiforme, pelo papiro, pelo pergaminho, pelos incunábulos dos escribas dos mosteiros medievais, sempre permeou a vida da humanidade. Mas só o suporte de papel, em um chumaço impresso e encadernado, numa técnica desenvolvida por Gutenberg, no século 15, vulgarmente conhecido como livro, permitiu a disseminação massiva dos conteúdos literários.

A propósito, quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias de hoje em dia, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.

Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há, ainda hoje, certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, sutis. Como a força do Papa, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas, ao longo da história, conseguiu interferir em muitas guerras e questões relevantes para o mundo. São forças não passíveis de avaliação imediatamente em números, peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, nem no superávit primário, mas são primordiais. Como o ar que respiramos, que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preço às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção humana, no desenrolar da cultura em seu processo civilizatório. Seja como for, valendo-me inclusive de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:

1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luís de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que impérios que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu, como o vasto império Mongol de Genghis Khan, o maior em extensão territorial da história.

2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente.

3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores acumulados pelo processo civilizatório e universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha dentre eles ou até de rejeitá-los.

4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das ideias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente, proporciona a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro — pré-condição para a existência da ética na sociedade), prevenindo as pessoas contra o sectarismo político, ao fanatismo, à submissão cega a líderes maliciosos, a ideologias e a religiões.

5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, aguça a sensibilidade, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo- nos da fauna geral, onde gosto não se discute.

6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho retilíneo desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício de amadurecimento para o enfrentamento das frustrações reais impostas pela vida de fato, às quais é bom que resista e supere.

7º — A Literatura, como toda arte, estimula o cruzamento de informações, possibilita a sinergia do pensamento, amplia a visão da realidade e até cria realidade nova.

8° — Pelo que foi listado, a Literatura não é uma panaceia — remédio para todos os males —, mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade portadora de um clima onde pessoas de boa vontade possam ver implantados seus ideais de paz, respeito, leveza, cordialidade, lisura, honestidade, preservação e desenvolvimento sustentado.

Certamente o leitor verá na Literatura “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas.

No Paiol Literário, um evento que leva a Curitiba escritores para uma entrevista pública, há uma pergunta clássica e recorrente: “A literatura é capaz de transformar o mundo?” Ela vem entrelaçada a uma outra: “Qual é a importância da literatura na vida cotidiana de cada um?”. Quem criou essas duas perguntas no início do projeto, em 2006, foi José Castello – jornalista, crítico literário, escritor e uma das pessoas mais gentis que andam por esse mundo. Depois, Luís Henrique Pellanda, também jornalista e escritor, seguiu com elas ao substituí-lo no posto de entrevistador.

Perguntei a Pellanda se ele poderia emprestar algumas respostas colecionadas ao longo dos anos para publicar aqui nesta coluna. E ele, que também é um homem muito gentil, me enviou sete. Eu escolhi as três que mais me cutucaram com um dedo delicado, mas incisivo, para compartilhar com vocês nessa conversa de virada de ano. Acho que são respostas que dão coceira na alma. E coceiras da alma, na minha opinião, só se resolvem com arte. Com literatura.

Sérgio Sant’Anna, autor, entre outros, de Um Crime Delicado e O Voo da Madrugada, ambos publicados pela Companhia das Letras, respondeu que a literatura dá ao leitor uma possibilidade imperdível: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário. E não é só o escritor que tem isso. O leitor também tem. Ele é um cara que vive dupla ou triplamente”.

E, em seguida: “A literatura é um ato de prazer, que não deve ter segundas intenções. Ela dá aos leitores um espaço muito maior. Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com ele — algo que, na televisão, não existe. Na TV, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente de anúncios e de segundos interesses. É muito ruído.”

Silviano Santiago, autor, entre outros, de O Falso Mentiroso e Anônimos, ambos editados pela Rocco, diz que todo leitor é também escritor. Ele afirma: “É inegável que a literatura tem uma função, assim como todas as artes têm. O primeiro cuidado a ser tomado, se a gente fala da função da literatura, é não fazer uma divisão entre produtor e consumidor. Ou seja, não fazer distinção entre escritor e leitor. Acho que a literatura tem a mesma função para ambos. Não existe um escritor que não seja leitor. Todo leitor é, por sua vez, um produtor de texto. Nós, escritores, escrevemos em uma folha de papel ou na máquina ou no computador, enquanto o leitor escreve naquilo a que os jesuítas chamavam de ‘folha de papel em branco da mente’”.

Santiago diz também que, ao ler, o leitor se apropria daquele mundo e o torna seu. Não apenas seu por estar dentro dele, mas seu como ele mesmo. “O processo de leitura é um exercício de alteridade. É você entrar em um determinado mundo que não é o seu, no qual se entra muitas vezes por um processo de surpresa. Você não esperava aquilo de maneira alguma e, de repente, entra e se encanta com aquele mundo. Quanto mais se entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo. O leitor sensível, inteligente, sempre conseguirá ver as relações estreitas entre aquilo que está lendo e a possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e, sobretudo, de si próprio.”

A literatura nos dá muito. Mas não promete nada. É o que disse Luís Henrique Pellanda, autor de O Macaco Ornamental(Bertrand Brasil), ao trocar de lado e responder a uma pequena entrevista para esta coluna. “A literatura não promete felicidade alguma — pelo menos não do tipo clássico, ou seja, o tipo imaginário — e não nos oferece garantias de finais felizes, nada disso. Ela nos amplia a vista de casa, nos mostra o outro — igual e diferente de nós — e exige que nos comparemos a ele, que nos analisemos e, de alguma forma, promovamos reformas internas”.

Ao responder à sua própria pergunta sobre o poder de transformação da literatura numa crônica recente, Pellanda disse lindamente: “Literatura, para mim, pode ser simplesmente a maneira como reordenamos, há milênios, as mesmas histórias, fabulação sobre fabulação, mentira sobre mentira, verdade sobre verdade, e o uso pessoal — íntimo, social, político, intelectual, espiritual — que fazemos delas. Se a literatura é capaz de mudar o mundo? Eu diria que o mundo em que vivemos, bom ou ruim, já é o mundo da literatura. Só ela dá conta das nossa

Beatriz Bracher, autora, entre outros, de Antonio e Azul E Dura, ambos publicados pela Editora 34, respondeu à mesma pergunta em duas etapas. Na primeira, no Paiol Literário, ela disse: “A arte pode transformar o mundo ou não, como muitas outras coisas, como as ideias e a política. Mas não acho que ela tenha uma proeminência nesse aspecto. Ela pode

transformar o mundo simplesmente por fazer parte dele. Ela está aí. Agora, essa crença de que a arte transformaria radicalmente o mundo, que criaria um novo homem, que nos traria uma espécie de iluminação — não acredito nisso”.

“Por que é importante ler?” – ela pergunta a si mesma. “Não sei. Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados. Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira. Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz foi para casa e continuou provocada pela pergunta. Enviou então um email a Pellanda. E um bem bonito: “Por que é importante ler? No nono e último círculo do Inferno, de A Divina Comédia, estão os traidores de seus hóspedes. Dante conta que eles estão perpetuamente imersos no gelo apenas com a cabeça de fora e os rostos voltados para cima, impedidos de continuarem a chorar, pois as lágrimas do ‘primeiro pranto, qual viseira de cristal’, congelam-se depois de inundar ‘do olho a cava inteira’. Fiquei pensando se a literatura também não é a possibilidade de abaixar o rosto e chorar de olhos fechados. Desprender-se de uma só dor e poder chorar, inclusive, a dor de muitos outros”.

Como se pode abrir mão de algo assim? Viver sem essa possibilidade? É Pellanda quem nos sacode: “Não ler, em muitos casos, é sintoma de preguiça e falta de condicionamento. Um mal prosaico. Muita gente não lê por levar uma espécie de vida mental sedentária. Aceitam que sua fome tão humana de fabulação seja alimentada pela TV ou pelos blockbusters e, com isso, apenas engordam sua passividade. Digo, de cara, que quem não lê perde a chance de se mostrar ativo em relação ao seu mundo e ao seu tempo. Perde vitalidade. Perde uma ótima oportunidade de se treinar para uma vida mais rica e, quem sabe, feliz”.

No Brasil, um país onde se lê tão pouco e onde metade dos adolescentes tem dificuldades para interpretar um texto, acredito que é preciso profanar a literatura. Aprendi isso com o poeta Sérgio Vaz, criador da Cooperifa, o maior sarau de poesias do país. Os livros precisam deixar de ser sagrados e virar matérias das ruas, tocados por muitas mãos, marcados por lágrimas, suor e gordura. Antes de iniciar a leitura, é preciso apalpar, cheirar, bolinar o objeto que contém a história – ainda que isso seja feito virtualmente. É importante perder o medo dos livros, um excessivo respeito. Incinerar para todo o sempre a ideia de que a literatura é território restrito dos que supostamente sabem mais e torná-la matéria permanente das nossas vidas. Espécie de feijão e arroz da alma.

Não importa o que você lê nesse primeiro movimento, importa que você comece a ler. Leia por prazer. Leia por temor. Leia por coragem e por inocência, fingindo desconhecer que não será o mesmo depois do ponto final. Ninguém precisa começar lendo Proust – nem mesmo precisa ler Proust alguma vez na vida, embora eu ache que vale a pena. Leia aquilo que lhe dá prazer – ainda que seja um prazer vindo do incômodo – e crie uma história só sua com os livros, movida pela sua própria busca. Vá à livraria ou à biblioteca como se fosse a uma festa de gente desconhecida – e até esquisita – e veja com quem tem afinidade, quem lhe sorri, mostra a língua ou um naco da coxa.

O melhor da literatura é que ela não nos dá nenhuma resposta. Nos dá algo muito melhor:

nos dá novas perguntas. Perguntei a Pellanda de onde veio a indagação que motivou este texto. Ele respondeu: “De onde vem uma pergunta? De nossa compulsão por saber das coisas, uma compulsão imortal, que nunca será saciada, pois jamais saberemos de nada. E não é ela, essa incerteza sedutora, que nos leva a escrever e a ler? Já se tornou um clichê dizer que a boa literatura não nos responde coisa alguma, e que somente nos faz mais perguntas, apenas perguntas, e irrespondíveis. É um lugar-comum, ok, mas está correto. A

última frase de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, é uma pergunta e a usei como epígrafe de meu primeiro livro de ficção. Depois de mais de oitocentas páginas, não se conclui nada, e o narrador de Mann se pergunta: ‘Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?’. Será? Não sabemos. Não há resposta possível, nunca houve. E a literatura é isso, fazer as perguntas difíceis, às vezes as constrangedoras. Como aquelas que as crianças nos fazem”.

Para mim não há vida sem literatura. E mais tarde, num outro dia, darei minha própria resposta à pergunta maior do Paiol Literário. Por enquanto, desejo a você que, em 2011, se arrisque mais. Leia. Se já tem intimidade com os livros, aprofunde-a. Tente um território novo. Fale sobre livros em vez de falar mal do chefe, do vizinho, do colega. Faça um favor a si mesmo: prometa que, no novo ano, jamais dirá que não tem tempo para ler.

Talvez a gente nunca saiba se a literatura é capaz de transformar o vasto mundo de fora. Mas podemos nos arriscar a descobrir – e esta é uma tarefa pessoal e intransferível – se a literatura é capaz de transformar o nosso mundo. O meu, o seu. Acredito profundamente que sim. Se tivermos a coragem de tentar, o mundo de dentro vai se alargar. E andaremos por aí carregando nosso próprio horizonte.

Termino com mais algumas ótimas frases de Luís Henrique Pellanda. E as pego emprestadas como meus votos de Ano-Novo:

– Quer dizer, você sabe ler e não lê? Onde é que você está com a cabeça? Achou seu espírito no lixo? Leia. Aproveite.

Este é o mundo em que vivemos, banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem”, escreve Ferreira Gullar (1989, p.15). Como poeta, ele acredita poder contribuir para isso. Será que a literatura pode também pode ajudar a humanizar os homens e mulheres? Em que medida, nos perguntávamos em outra oportunidade[1], a literatura pode contribuir para a formação humanística e intelectual dos indivíduos? A obra literária tem significado pedagógico e político? Na verdade, a resposta estava inscrita nos próprios pressupostos do nosso projeto de pesquisa intitulado “Política e Literatura: o significado político-pedagógico da literatura e sua contribuição à formação acadêmica na perspectiva da emancipação humana”. Esta percepção aparece no texto“Política, Literatura e Educação”, cujo objetivo era apresentar e publicizar, ainda que de forma sintética, este projeto. O pressuposto encerra uma visão otimista sobre a capacidade que teria a literatura em contribuir para a “elucidação da realidade sociopolítica”. Para nós, o uso da literatura também se revelava “um recurso pedagógico, sociológico e político fundamental”. E, quase que à guisa de conclusão, escrevemos: “A literatura, enfim, pode contribuir para a formação intelectual dos educadores e educandos, numa perspectiva que supere o conteúdismo, o ensino decoreba e a “educação bancária”.

Como o leitor pode observar, o nosso ‘olhar’ é o olhar predominantemente sociológico e político. Para afirmar ou negar nossos pressupostos, porém, foi necessário fazer um exercício de leitura, estudo e reflexão multidisciplinar. O nosso “olhar” precisou se estender para outras ‘paisagens’ e ‘quadros”, como a Teoria e Crítica Literária, a História, a Filosofia, a Psicanálise, etc. Nossa inserção por estas áreas do conhecimento humano não se deu à maneira do especialista. Trata-se, muito mais, do olhar de quem se aventura a incursionar por terras desconhecidas; de uma atitude típica do amadorismo, no sentido de Edward Said.[2]

Esta é parte da tarefa que nos propomos. Para cumpri-la de forma minimamente satisfatória, precisamos nos colocar – ou repor – algumas questões como: que é literatura? Em que consiste a concepção humanista sobre esta? Ler nos torna melhores? Faz bem ou mal?[3] Em que medida, enfim, ela pode contribuir para a educação do nosso intelecto e sentimentos?

O que é literatura?

Há anos que adoto literatura nos cursos que trabalho na universidade. Em vez de aplicar a “prova tradicional”, peço aos discentes que escolham um dos livros indicados e façam uma

reflexão sobre a obra escolhida, tomando como referência os autores e as teorias políticas estudadas. Partia do pressuposto de que todos sabiam exatamente o que é literatura, ou seja, que compreendiam claramente que com este termo me referia às obras ficcionais, isto é, romances. Percebi, porém, que não era bem assim. Certa feita, para a minha surpresa, o trabalho do aluno era sobre o ensaio “A desobediência civil”, de Henry D. Thoreau. “Teria sido esperteza?”, pensei. De repente, ele já havia lido esta obra e adotou a lei do menor esforço. Mas, não. Parece-me que foi mesmo uma confusão sobre o que é literatura e, claro, não entendimento do que foi solicitado. A incompreensão sobre o caráter da literatura se repetiu em outros momentos.

As vezes as coisas nos parecem tão simples que nem pensamos que possa ter sido diferente ou que alguém não entenda. De certa forma, ocorre uma naturalização. A experiência e as minhas leituras me fizeram ver que a compreensão sobre o que seja literatura é uma construção histórica-social. Por outro lado, há uma hierarquização, fundamentada no cânone, que define e distingue a boa e má literaturas. Dessa forma, não adianta gostar de ler, mas é preciso saber o que vale a pena ler.

Aliás, essa discussão é mais antiga do que parece. Outro dia, por acaso, encontrei um livro de um autor do século XII, época do florescimento da “cultura livresca” e da formação das escolas ancestrais das universidades modernas. Em Didascálicon da arte de ler, Hugo de São Vítor ensina: “São três as regras mais necessárias para leitura: primeiro, saber o que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, ou seja, o que ler antes, o que depois; terceiro, como se deve ler”. É preciso, portanto, não apenas selecionar bem o que ler, mas também ordenar e ter um método de leitura. “Parece-me que o estudante não deve tomar menos cuidado em não gastar tempo em estudos inúteis quanto em ficar desinteressado diante de um objetivo bom e útil. É mal fazer o bem com negligência, mas é pior gastar muitas energias inutilmente”, enfatiza São Vítor. Daí, ser essencial o papel do professor enquanto orientador das leituras, pois “nem todos possuem este discernimento para entender o que lhes é proveitoso” (DE SÃO VÍTOR, 2001, p.45 e 139).

Para Hugo de São Vítor, a escolha do que deve ser lido e a leitura bem feita, segundo um método adequado, tem como objetivo a Sapiência, ou seja, o “bem perfeito”. “A Sapiência ilumina o homem para que conheça a si mesmo, ele que, quando não sabe que foi feito acima das outras coisas, acaba achando-se semelhante a qualquer outra coisa”, escreve. Assim, vemos o “quanto é inconveniente ao homem procurar coisas fora de si, uma vez que poderia ser-lhe suficiente aquilo que ele próprio é” (id., p. 47).

O homem medieval almeja atingir a “sabedoria divina” (Sapiência), pela leitura disciplinada, metódica e orientada pela experiência do mestre. O começo é o ato de ler, o qual leva à reflexão e contemplação. O homem moderno segue-o, ainda que compreenda a “sabedoria” num sentido laico. Chega-se à sabedoria pela leitura dos clássicos canônicos, incluindo o texto sagrado. Literatura, nesta perspectiva, não é qualquer “literatura” mas sim aquela merecedora da nossa dedicação. Não devemos, lembremos o conselho de São Vítor, desperdiçar energias. Se é desaconselhável e humanamente impossível ler tudo, temos que nos ater ao essencial. Quais obras, porém, constituem “o essencial”? Como selecioná-las? Em outras palavras, e parafraseando o renomado crítico literário Harold Bloom, “Onde encontrar a sabedoria?”

Este raciocínio hierarquiza a literatura. Harold Bloom, perguntado se os livros da série Harry Potter não seriam “uma boa porta de entrada, um meio de despertar nas crianças o interesse

pela literatura”, responde: “Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não”. O entrevistador insiste: “Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?”. Ele afirma: “Li apenas uma das obras dessa

autora. A linguagem é um horror. (

...

)

A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os

lados – dos pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco saudável”. [4]

Poderíamos insistir: por que não ler gibis, literatura de cordel, fotonovelas, literatura infanto- juvenil, a “literatura cor-de-rosa”, etc.? Por que não, enfim, ler Harry Potter? Se a leitura é o início do saber, vale a pena ler tudo. Não me parece que a leitura de textos e livros não incluídos no índex canônico seja determinante para a não leitura dos clássicos. E, de qualquer forma, é preciso perguntar-se: o que é um clássico? Como de deu a sua canonização?

Harold Bloom ironiza a “Escola do ressentimento” – neste rótulo ele inclui toda a literatura crítica ao cânone ocidental, isto é, a literatura feminista, pós-colonialista, multiculturalista, etc. Será que as obras com esse viés não merecem a qualificação de literatura? Raciocínios como

estes tendem a abstrair a história e a despolitizar a literatura, como se esta tivesse uma essência em si, independente de fatores sociais, culturais, políticos, econômicos e históricos.

O escritor Antonio

Fernando

Borges

negativamente sobre a literatura:

corrobora

esta

tese.

Para

ele

a

política

influi

“O resultado pode ser visto nos balcões da livrarias e nos suplementos literários: cada vez mais, as questões metafísicas e estéticas que sempre tiveram na arte seu habitat ideal vem cedendo terreno ao imediatismo das “questões político-sociais”. A literatura se traveste em denuncismo naturalista e os escritores vão se tornando presunçosos “colecionadores de injustiças”. Cada vez se produzem mais panfletos e menos obras literárias, sendo que no Brasil, como é de hábito, as coisas vão ao exagero: a pretexto de se “dar voz aos excluídos”, eleva-se à condição de literatura o discurso dos rappers e funkeiros, malandros e contraventores da periferia das grandes cidades. O território antes livre da criação literária ganha assim uma geografia delimitada – quer dizer, limitada –, enquanto a arte vai virando literalmente um caso de polícia” (BORGES, 2008).

Essa postura reduz a literatura à identificação com o cânone. É preciso, porém, levar em conta o processo histórico no qual a literatura especializa-se e consolida-se enquanto conceito e prática social. Raymond Williams, em “Marxismo e Literatura”, analisa o processo histórico no qual a literatura especializa-se e consolida-se enquanto conceito e prática social:

“Em sua forma moderna, o conceito de “literatura” não surgiu antes do século XVIII e não se desenvolveu plenamente até o século XIX. Mas as condições para o seu aparecimento se vinham desenvolvendo desde o Renascimento, A própria palavra começou a ser usada em inglês no século XIV, seguindo precedentes francês e latino: sua raiz foi littera, do latim, uma letra do alfabeto. A literatura era então uma situação de leitura: ser capaz de ler e de ter lido. Estava, com freqüência, próxima do sentido moderno da palavra inglesa literacy [alfabetização, estado de alfabetizado], que só surgiu na linguagem do século XIX, tendo sua introdução se feito necessária em parte por ter a palavra literature adquirido um significado diferente. O adjetivo normalmente associado a literature era literate [em inglês moderno, alfabetizado]. Literary apareceu no sentido de capacidade e experiência de leitura, no século XVII, e não adquiriu sem significado especializado senão no século XVIII.

Literature, como uma nova categoria, foi portanto uma especialização da área antes categorizada como retórica e gramática: uma especialização de leitura e, no contexto material do desenvolvimento da imprensa, da palavra impressa e em especial do livro” (WILLIAMS, 1979, p. 51-52).

A literatura, aqui, se identifica com o romance. A compreensão deste gênero pressupõe a contextualização histórica e até mesmo o resgate etimológico. Konder (2005, p. 24), nota que:

“A palavra romance vem do advérbio latino romanice. Na idade média, o latim era a língua da cultura, o idioma dos intelectuais, dos clérigos, da Igreja. Os iletrados é que não falavam latim e se expressavam nos dialetos vulgares que viriam a ser as línguas neolatinas. Os iletrados falavam romanice.

Os intelectuais escreviam em latim, uns para os outros. O povo não sabia ler nem escrever. Por isso, ninguém escrevia romanice. Compreende-se, então, que tenha surgido para um público “popular”, marcado pela presença de peregrinos e mulheres, uma literatura oral”.[5]

O termo “romance”, no sentido que usamos atualmente, só se consagrou no final do século XVIII. É interessante observar que, em sua gênese, o romance foi marcadamente popular, expressando a língua do povo. O romance moderno rompe com a tradição oral e surge como uma literatura dos poucos que tinham condições culturais e econômicas – Bourdieu diria, capital simbólico e econômico, isto é, habilidade de ler e possibilidade de adquirir os livros. Ian Watt (1996, p. 40), analisando o surgimento do romance e seu público leitor, mostra que:

“o preço do romance só estava ao alcance dos abastados: Tom Jones, por exemplo, custava mais do que um trabalhador ganhava em média por semana. Com certeza o público leitor de romances pertencia à camada mais representativa da sociedade – ao contrário, por exemplo, do que ocorreu com as platéias do teatro elisabetano. Só os indigentes não podiam gastar um penny de vez em quando para ir ao Globe Theather: o ingresso não custava mais do que uma cerveja. Em contrapartida o que se pagava por um romance podia sustentar uma família por uma ou duas semanas. Isso é importante. No século XVIII o romance estava mais próximo

da capacidade aquisitiva dos novos leitores da classe média do que muitas formas de literatura e erudição estabelecidas e respeitáveis, porém estritamente falando não era um gênero popular”.

A publicação do romance em formato folhetim, e o conseqüente barateamento do livro, possibilitou a ampliação do número de leitores. A “popularização” do romance-folhetim, porém, deve ser relativizada. Num país como a Inglaterra, a sociedade mais desenvolvida da época, a leitura permanecia proibitiva para as camadas sociais com menor poder aquisitivo e, majoritariamente, analfabetas. “Entretanto houve acréscimos, provenientes sobretudo dos grupos sociais cada vez mais numerosos e prósperos, engajados no comércio e na indústria” (Id., p. 44).

A expansão desse tipo de literatura ainda encontrava resistências em círculos intelectuais vinculados à tradição literária anterior ao romance moderno. O próprio conceito do que podia ser identificado como “literatura” estava em disputa. Como observa Eagleton (1997, p. 23):

“Na Inglaterra do séc. XVIII, o conceito de literatura não se limitava, como costuma ocorrer hoje, aos escritos “criativos” ou “imaginativos”. Abrangia todo o conjunto de obras valorizadas pela sociedade: filosofia, história, ensaios e cartas, bem como poemas. Não era o fato de ser “ficção” que tornava um texto literário – o séc. XVIII duvidava seriamente se viria a ser literatura a forma recém surgida do romance – e sim sua conformidade a certos padrões de “belas letras”.

Nestas condições históricas, como definir “literatura”?

“Os critérios do que se consideravam literatura eram, em outras palavras, francamente ideológicos: os escritos que encerravam os valores e “gostos” de uma determinada classe social eram considerados literatura, ao passo que uma balada cantada nas ruas, um romance popular, e talvez até mesmo o drama, não o eram” (Id.).

Parece-nos que, ainda hoje, os critérios sobre o que é ou não é literatura são histórica e ideologicamente determinados. A acusação de “ideologização” da literatura, e sua conseqüente identificação restrita ao cânone, é também uma postura ideológica – embora tão legítima quanto a crítica ao caráter machista, colonialista e pretensamente universal deste.[6] Ora,

“Em qualquer estudo acadêmico selecionamos os objetos e métodos de procedimento que nos parecem os mais importantes, e nossa avaliação de sua importância é governada por interesses que têm raízes profundas em nossas formas práticas de vida social. Os críticos radicais não diferem quanto a isso: apenas têm uma série de prioridades sociais da qual a maioria das pessoas atualmente tende a discordar. É por isso que tais críticos são habitualmente rejeitados como “ideológicos”, porque “ideologia” é sempre uma maneira de se descreverem os interesses dos outros, e não os nossos” (Id, p. 290).

Recepção da leitura

“O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor” (Milton Hatoom, 2007, p. 44).

“Nunca se obrigue a ler um livro – é um esforço perdido” (Arthur Koestler, 1947, p. 60)

“O que está em pauta, no ato da leitura?”, pergunta Terry Eagleton (1997, p. 103). Eis uma questão difícil de responder. As tentativas de análise do leitor são várias e rendem muitas palavras impressas e discussões. Os teóricos da “estética da recepção” (JAUSS, ISER, STIERLE, GUMBRECHT, BARTHES, entre outros) têm o mérito de enfocar o papel do leitor e nisso são originais. Muito antes deles, porém, Sartre colocava uma pergunta importante: “Para quem se escreve?”. Como observa Eagleton:

“Um estudo histórico mais detalhado da recepção literária é Qu’ est-ce que la littérature?, escrita por Jean-Paul Sartre, em 1948. Esse livro deixa claro que a recepção de uma obra nunca é apenas um fato “exterior” a ela, uma questão contingencial de resenhas e vendas nas livrarias. É uma dimensão construtiva da própria obra. Todo texto literário é construído a partir de um certo sentimento em relação ao seu público potencial, e inclui uma imagem daqueles a quem se destina: toda obra encerra em si mesma aquilo que Iser chama de um “leitor implícito”; inclui em todas as suas atitudes o tipo de público que prevê. O “consumo” tanto na produção literária como em qualquer outra, é parte do processo de produção” (Id, p. 115).

A recepção literária e, inclusive, a definição do cânone literário, tem muito a ver com a universidade e a escola em todos os níveis. No ambiente escolar, desde o ensino fundamental ao universitário, a influência do(a) professor(a) é considerável. Suas opiniões, indicações, comentários, etc., podem influir positiva ou negativamente para a escolha de determinadas obras e exclusão de outras. Esse poder de influenciar pressupõe, da parte do docente, uma proximidade e gosto pela literatura. Se os(as) professores(as) não lêem, como poderão comentar, opinar, sugerir leituras aos seus alunos? Talvez isto explique a proeminência da instituição universitária, em especial os cursos de Letras, enquanto fator formador e legitimador de preferências literárias. A instituição acadêmica faz uma espécie de inventário de obras a serem lidas e, claro, isso supõe a exclusão de outras. “É indubitável a existência de uma instituição acadêmica que determina, com rigidez, quais as leituras geralmente possíveis; e a “instituição literária” inclui editores, organizadores literários e comentaristas, bem como as academias”, nota Eagleton (1997, p. 122). É preciso também considerar o contexto histórico de cada época e o poder dos editores e outros agentes que ganham com o comércio dos livros. Nós que amamos os livros não sejamos ingênuos a ponto de esquecer que este é “valor de uso”, mas principalmente “valor de troca”, isto é, mercadoria.

A experiência da leitura é essencialmente individual, sempre única e nova. Parafraseando Rousseau, que afirmava ser a vontade intransferível, ninguém pode sentir os meus sentimentos, as minhas emoções e viver da mesma forma a minha experiência ao ler, por exemplo, A Mãe (Gorki), Pais e Filhos (Ivan Turguéniev), Anna Karenina e A morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), Os Demônios (Dostoievski), Germinal (Émile Zola), Eugenia de Grandet e Ilusões perdidas (Balzac), A Revolução dos Bichos e 1984 (George Orwell), O zero e o infinito e Ladrões nas trevas (Arthur Koestler), Zorba, o grego (Níkos Kazantzákis), A leste do Éden (John Steinbeck), Pai patrão (Gavino Ledda), História do cerco de Lisboa, Ensaio sobre a Lucidez, Ensaio sobre a cegueira, A Caverna (José Saramago), Incidente em Antares (Érico Veríssimo), Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) e tantos outros.

Como expor em palavras o que senti ao ler cada um deles? Qual a influência que tiveram sobre a minha vida? Transformaram o meu ‘olhar’ sobre o mundo, a forma de relacionar-me com a realidade objetiva, comigo e com as pessoas próximas e as mais queridas? Contribuíram para a minha formação política? Influíram em minha práxis docente? Tornaram-me alguém melhor, mais observador e sensível diante da miserabilidade da condição humana? Certamente, sim. Esta, porém, é uma resposta que expressa a minha maneira de conceber a literatura e a relação que tenho com a leitura desde a mais tenra idade – quando lia, à luz do candeeiro, na cidade de Poção (PE), literatura de cordel.

Um dos aspectos essenciais da literatura é que ela nos fala diretamente, sem a necessidade de conceituação e análise interpretativa. Deixemos à teoria e crítica literária e à sociologia da literatura a tarefa de analisar e tirar conclusões.[7] Então, estamos no campo do leitor especializado, e não do leitor que simplesmente vivencia a experiência da leitura. É uma leitura desinteressada, mas que também produz emoções, as quais podem nos marcar por toda a vida.

É interessante que não recordo das leituras na escola, indicadas por meus professores – provavelmente não indicaram livros. A lembrança que tenho não é muito alentadora. Estava já no colegial, como dizíamos naquele tempo, e nos foi solicitada a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Na verdade, era uma tarefa, uma obrigação a cumprir. Talvez por isso, foi uma experiência desastrosa e sofrível. Nem recordo se consegui ler até o final. A minha impressão sobre a sua obra foi péssima e muitos anos se passaram até que, por livre e espontânea vontade, li Memórias póstumas de Brás Cubas. Foi impactante! Suas palavras iniciais, por exemplo, tornaram-se parte da minha filosofia de vida, pois elas sintetizam a condição humana mortal e o absurdo das vaidades – tituladas ou não.[8] Um dos melhores livros que li em minha vida. Tornei-me um admirador do autor e li seus contos e outras obras, como O Alienista.[9] Confesso, porém, que até hoje não retomei a leitura de Dom Casmurro.

Claro, a vida nos ensina muitas coisas – basta disposição para aprender e esforço. Aprendi, então, a escolher melhor os livros para ler. Os melhores foram os que li pelo simples prazer de ler. As leituras, porém, nem sempre podem ser feitas apenas pelo prazer – muito do que li no período recente está vinculado ao meu trabalho como docente e pesquisador; a diferença é que consegui transformar isso num trabalho prazeroso.[10] Esta, porém não é a regra geral! O paradoxo é que alguns leitores precisam ser “incentivados” e a “obrigação” acadêmica de ler, por exemplo, pode dar resultados positivos. Penso que a indicação de livros, em certos

contextos, acompanhados de um certo “estímulo” e “convencimento”, aumenta a probabilidade disso ocorrer. Mas será que contribui para transformar os leitores em indivíduos melhores e cidadãos responsáveis?

Caráter político-pedagógico da literatura

Romancistas comprometidos com temas políticos não têm necessariamente que chegar a conclusões políticas: em geral é melhor que não tentem fazê-lo” ( Irving Howe, 1998, p. 197).

A arte é “uma das poucas atividades que resgatam a estupidez”, afirma Alfredo Bosi (2006, p.30). Mas como mensurar isto? Como identificar se o indivíduo humanizou-se pela leitura de obras literárias? Como ter certeza de que isto o tornou um ser humano melhor? E se ocorreu o contrário, a leitura corrompeu-o moralmente, como sabê-lo? A literatura tem realmente este poder? O que ela acrescenta em nossas vidas?

Há quem considere que a literatura faz bem, e os que dizem que faz mal; outros imaginaram que a leitura desvirtua os valores morais e desencaminha as pessoas; há, também, quem pense que certos romances tem caráter político subversivo e representam ameaça à formação mental dos jovens; os que têm receiam os livros, por desculpas morais ou políticas, terminam por querer queimá-los – e aos autores. Se uns receiam os livros por seu potencial subversivo e corruptor da boa moral, outros os vêem como sedimentadores da ordem política e social e dos bons costumes.

O tema é polêmico, mas, para o bem ou para o mal, as distintas argumentações indicam que a literatura tem sim um papel político pedagógico. É o que demonstra Valéria Augusti (2000), num artigo que resgata e analisa a polêmica sobre o caráter político e pedagógico da literatura, em suas origens européias e também no Brasil. A discussão incide sobre os efeitos, morais e/ou políticos, que a leitura pode provocar. Ela chama

“a atenção a atenção para o fato de a forma narrativa do romance moderno ter permitido que os leitores não apenas acreditassem que os personagens eram reais, como também procurassem conduzir suas vidas em consonância com a deles. Queremos dizer com isto que o romance parece ter servido de guia de conduta, ou seja, ter sido investido de um caráter pedagógico. Tal caráter, a nosso ver, sustentou-se, fundamentalmente, sobre a possibilidade de os leitores identificarem-se com os personagens. Essa possibilidade de identificação, alicerçada no caráter “realista” desse tipo de narrativa, acabou por gerar a polêmica em torno do efeito da leitura dos romances sobre os valores e as formas de conduta do público leitor” (AUGUSTI, 2000, p.91-92).

Outra autora, analisando o universo das leitoras no Brasil do século XIX, mostra como os homens, guardiães dos bons costumes, intentavam controlar o que as moças liam:

“Controlar as leituras ao alcance das mulheres era uma extensão das prerrogativas masculinas na vã ilusão de controlar seus sonhos e fantasias. [11] Esses depoimentos ressaltavam bem o papel assumido pelos pais e maridos de protetores da inteligência e da moral das mulheres. O acesso aos livros de literatura era limitado e não passava, muitas vezes, do livro de orações, que servia também de iniciador das mulheres na página impressa. Tal situação estava bem de acordo com o provérbio português registrado por Charles Expilly (1935): “Uma mulher já é bastante instruída, quando lê corretamente as suas orações e sabe escrever a receita da goiabada. Mais do que isso seria um perigo para o lar” (MORAIS, 1998).

Ainda sobre o caráter político-pedagógico da literatura, Eagleton (1997, p.32) mostra como a literatura na Inglaterra foi concebida como uma forma de apaziguamento dos conflitos sociais:

“À medida que a religião deixa paulatinamente de proporcionar o “cimento” social, os valores afetivos e as mitologias básicas pelas quais uma turbulenta sociedade de classes pode encontrar uma unidade, a “literatura inglesa” passa a ser vista como o elemento capaz de carregar essa carga ideológica a partir da era vitoriana”.

E, mais adiante (p. 33-34):

“Como atividade liberal, humanizadora, [a literatura] podia proporcionar um antídoto poderoso ao excesso religioso e ao extremismo ideológico. Como a literatura, tal como a conhecemos, trata de valores universais e não de trivialidades históricas como as guerras civis, a opressão das mulheres ou a exploração das classes camponesas inglesas, poderia servir para colocar numa perspectiva cósmica as pequenas exigências dos trabalhadores por condições decentes

de vida ou por um maior controle de suas próprias vidas; com alguma sorte, poderia até mesmo levá-los a esquecer tais questões, numa contemplação elevada das verdades e das belezas eternas”.

Para o bem ou para o mal, o que está implícito nestes argumentos é o potencial transformador da literatura, a sua capacidade de mudar os indivíduos. Na Inglaterra do século XX, F. R. Leavis e seu grupo (Scrutiny) acreditavam a literatura poderia melhorar as pessoas. Eles desenvolveram uma espécie de cruzada moral e cultural para levar a literatura ao povo e estabeleceram uma espécie de cartografia literária, um mapa da literatura sobre o que deveria ser lido nesta perspectiva político-pedagógica (eis um fator que mostra como é estabelecido o cânone). Eles “esperavam desenvolver uma sensibilidade rica, orgânica, em pessoas selecionadas aqui e ali, que poderiam então transmitir essa sensibilidade a outros”. Os partidários de Leavis,

“iam às escolas e Universidades travar batalhas, procurando alimentar, por meio do estudo da literatura, as reações ricas, complexas, maduras, seletivas, moralmente sérias (expressões muito ao gosto da Scrutiny) que permitiram ao indivíduo sobreviver numa sociedade mecanizada de romances ordinários, trabalho alienado, anúncios banais e meios de comunicação de massa vulgarizadores” (Id, p. 45).

“Ler os melhores escritores – digamos Homero, Dante, Shakespeare, Tolstoi – não vai nos tornar melhores cidadãos”, afirma Harold Bloom. Ele diverge da fé humanista – liberal ou radical – no poder transformador da literatura, isto é, na sua capacidade pedagógica de transmitir, favorecer e consolidar sensibilidades:

“Se lermos o Cânone Ocidental para formar nossos valores morais, sociais, políticos ou pessoais, creio firmemente que nos tornaremos monstros de egoísmo e exploração. Ler a serviço de qualquer ideologia é, em minha opinião, não ler de modo algum. A recepção da força da estética nos possibilita aprender a falar de nós mesmos e a suportar a nós mesmos. As verdadeiras utilidades de Shakespeare ou Cervantes, de Homero ou Dante, de Chaucer ou Rabelais, é aumentar nosso próprio eu crescente. Ler a fundo o Cânone não nos fará melhor ou pior, um cidadão mais útil ou nocivo. O diálogo da mente consigo não é basicamente uma realidade social. Tudo o que o Cânone Ocidental pode nos trazer é o uso correto de nossa solidão, essa solidão cuja forma final é o confronto com nossa mortalidade” (BLOOM, 1995, p.

36-37).

Essa postura é tão ideológica e legítima quanto as que o autor de “O Cânone Ocidental” batizou de “Escola do ressentimento”. Se é verdade que a literatura comporta uma experiência individual única e original, também é fato de que nem ela nem o seu leitor encontram-se suspensos no ar. Livros são criações humanas produzidos em determinadas contextos políticos, culturais, sociais, econômicas, etc. Da mesma forma, os leitores são determinados historicamente e, portanto, a própria leitura e, inclusive, os processos de canonização dos textos. Sem desmerecer o valor humano de uma obra canônica, é preciso pensá-la numa perspectiva não apenas individualista, a-histórica e mesmo egocêntrica.

Por outro lado, é também uma postura elitista e conservadora, na medida em que desqualifica outras “literaturas” não incluídas no cânone. Pelo menos, Harold Bloom não dissemina a ilusão de que a literatura, per se, transforma o mundo. Ora, quem transforma o mundo são indivíduos de carne e osso e estes tanto podem ser leitores, como não leitores; e, se lêem, a literatura tanto pode contribuir positiva quanto negativamente. Pode, inclusive, contribuir para isolá-los do mundo real e mantê-los em um “mundo” cuja referência são os livros.

A literatura não é, necessariamente, um divisor de águas no que diz respeito à capacidade intelectual e moral dos indivíduos. Ela não nos torna, necessariamente, pessoas moralmente boas e cidadãos exemplares. E, afinal, a maioria da população, por vários motivos, não lêem literatura. Isso os tornam piores dos que os “devoradores dos livros”?

Ao analisar estas questões e apontar os limites do idealismo implícito na perspectiva humanista liberal, mais precisamente com o grupo da Scrutiny, Terry Eagleton (1997, p. 47) escreve:

“Sem dúvida era reconfortante achar que ler Henry James significa colocar-se na vanguarda da própria civilização. Mas o que acontecia com todas as pessoas que não lessem Henry James, que nunca ouvissem falar dele, e que sem dúvida seriam enterradas na ignorância pacífica de que ele jamais existira? Essas pessoas eram sem dúvida a esmagadora maioria da sociedade; seriam elas moralmente indiferentes, humanamente banais e imaginativamente falidas? Tais

pessoas poderiam ser nossos próprios pais e amigos e, portanto, era necessário cautela. Muitas delas pareciam ser moralmente éticas e bastante sensíveis; não revelavam nenhuma tendência para sair matando, saqueando ou roubando; e mesmo que o fizessem, seria pouco sensato atribuir isso ao fato delas na terem lido Henry James. A argumentação deScrutiny era inevitavelmente elitista: revelava profunda ignorância e desconfiança da capacidade dos que não tinham a sorte de ter estudado inglês no Downing College. As pessoas “comuns” pareciam aceitáveis, se fossem pastores do séc. XVII, ou campônios australianos “cheios de vida”.

Por outro lado,

“nem todos os que tinham esse conhecimento eram moralmente puros. Havia muitas pessoas que de fato estavam mergulhadas na alta cultura, mas cerca de uma década após o nascimento de Scrutiny evidenciou-se o fato de que isso não as impedia de praticar atividades tais como supervisionar o assassinato de judeus na Europa central” (Id.).

A resposta a “Por que literatura?” não pode desconsiderar a história dos homens e mulheres reais, concretos. E essa história não é feita apenas de altruísmo e fundada em valores pacíficos e em prol da sociedade. Muito pelo contrário: é o individualismo possessivo, o egoísmo desenfreado e a violência explícita e simbólica que destrói e constrói o mundo que nossos antepassados viveram, o que vivemos e o que as futuras gerações viverão. Se tirarmos a literatura do chão social em que se encontra, em cada momento histórico específico, abrimos mão da reflexão crítica e até mesmo da possibilidade de que a literatura possa contribuir para formarmos pessoas melhores e um mundo melhor. Como alerta Eagleton:

“Por que literatura?” A resposta, em suma, era a de que tal leitura tornava as pessoas melhores. Poucas razões poderiam ter sido mais persuasivas. Quando, alguns anos depois da criação de Scrutiny, as tropas aliadas chegaram aos campos de concentração para prender comandantes que haviam passado suas horas de lazer com um volume de Goethe, tornou claro a necessidade de explicação. Se a leitura de obras literárias realmente tornava os homens melhores, então isso não ocorria de maneira direta imaginada pelos mais eufóricos partidários dessa teoria” (Id., p. 47-48).

Concluindo

“Chegamos a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor.” (DOSTOIEVSKI, 1992, p. 185).

“Os grandes textos literários levam o leitor a interrogar a relação de uma vida com uma obra, mas isso é esquecer que se trata também danossa vida” (MANNONI, 1999, p. 39-40).

A literatura fala a nós, de nós, da humanidade. A literatura, em especial os clássicos, coloca ao alcance do leitor a possibilidade de refletir sobre si, de ler-se e conhecer-se, pois, na medida em que trata das inquietações humanas e descreve o que há de mais profundo e obscuro na alma humana em sua universalidade, é também a mim, a ti e a nós que ela nos fala. Em outras palavras, a literatura contribui para que conheçamos melhor e mais profundamente o gênero humano e, assim, para nos conhecermos a nós mesmos e nos humanizarmos.

A leitura é importante, mas não mais que a vida. O mundo dos livros, é verdade, nasce da mente imaginativa e criadora que habita o mundo real, mas não é idêntica à realidade dos homens de carne e osso, que sangram, sofrem, alegram-se, amam, odeiam, etc. Palavras não sentem, não sofrem, não sangram! [12] A mente prodigiosa de Dostoievski (1992, p. 185-186) percebeu claramente os riscos acarretados pelo fetiche do livro:

“Deixa-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós, é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma idéia.”.

Com efeito, é mais fácil amar o homem e a mulher universais, enquanto abstrações conceituais, do que o homem e a mulher singulares e reais próximos a nós. A literatura pode ajudar a que conheçamos melhor os seres humanos e, portanto, a nós mesmo. É preciso, contudo, voltar-se para a vida real, suas contradições limites. Assim, é possível superar tanto o

fetiche do livro quanto o humanismo universalizante, porém abstrato. O importante, nesta perspectiva, é manter o olhar crítico, para além da obra e das discussões tão ao gosto de certos intelectuais cujo mundo restringe-se ao umbigo ou à torre de cristal. É preciso perder as ilusões e reconhecer as limitações humanas. Então, a leitura poderá contribuir para o nosso crescimento intelectual e, assim, quem sabe, possamos nos tornar indivíduos mais humanos e melhores. Então, a literatura terá cumprido, efetivamente, sua função educativa.

Referências

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* Docente na Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais.

[1] SILVA, Antonio Ozaí da e PRAXEDES, Walter. Política, Literatura e Educação. REA 68, janeiro de 2007, disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/068/68ozai_praxedes.htm

[2] “O intelectual hoje deve ser um amador, alguém que, ao considerar-se um membro pensante e preocupado de uma sociedade, se empenha em levantar questões morais no âmago de qualquer atividade,

por mais técnica e profissional que seja. (

...

)

Além disso, o espírito do intelectual como amador pode

transformar a rotina meramente profissional da maioria das pessoas em algo mais intenso e radical; em vez de se fazer o que supostamente tem que ser feito, pode-se perguntar por que se faz isso, quem se beneficia disso, e como é possível tornar a relacionar essa atitude com um projeto e pensamentos originais” (SAID, 2005, p.86-87).

[3] Muito antes de elaborarmos o projeto de pesquisa acima informado, e a partir da nossa experiência e da observação empírica do cotidiano, nos impúnhamos o desafio de refletir sobre esta questão. Ver: SILVA, Antonio Ozaí da. Ler faz bem ou mal? REA 35, abril de 2004, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/035/35pol.htm

[4] Harold Bloom em entrevista à revista Veja, de 31 de janeiro de 2001. Disponível em http://veja.abril.com.br/310101/entrevista.html

[5] “Era uma literatura que não nascia no papel e não era feita para ser lida, e sim para ser declamada e ouvida. Nada mais natural, por conseguinte, que essa literaturaromanice se servisse de versos, que ajudavam o declamador a decorar as composições, além de produzir belos efeitos sonoros capazes de impressionar o público. Os “romances” medievais”, então, não eram romances no sentido moderno do termo: eram poemas”, escreve Konder (2005, p.24). Donaldo Schüler (1989, p.5), confirma que “os moradores dos antigos domínios romanos usavam o latim à sua maneira. Falavam romanice, romanicamente donde se derivam romance (em Portugal), romanzo (na Itália), roman (na França). Romance era primitivamente o latim do povo”.

[6] A ideologia é um aspecto a considerar, mas não o único. Como ressalta Edward W. Said (1995, p.23): “Não acredito que os escritores sejam mecanicamente determinados pela ideologia, pela classe ou pela história econômica, mas acho que estão profundamente ligados à história de suas sociedades, moldando e moldados por essa história e suas experiências sociais em diferentes graus. A cultura e suas formas estéticas derivam da experiência histórica”.

[7] Não estou entre os que, de certa forma, sacralizam a literatura e resistem a aceitar que ela também está sujeito à interpretação teórica e sociológica, isto é, que constitui um objeto de estudo. A propósito, observa Bourdieu (1996, p.12): “Por que tantos críticos, tantos escritores, tantos filósofos põem empenho em professar que a experiência da obra de arte é inefável, que escapa por definição ao conhecimento racional; por que se apressam assim em afirmar sem luta a derrota do saber; de onde lhes vem essa necessidade tão poderosa de rebaixar o conhecimento racional, esse furor de afirmar a irredutibilidade da obra de arte ou, numa palavra mais apropriada, sua transcendência”.

[8] “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”, escreve o autor.

[9] Até me aventurei a escrever sobre a obra. Ver: O Alienista: Literatura, Ciência e Poder. REA nº 72, maio de 2007. Disponível em:http://www.espacoacademico.com.br/072/72ozai.htm

[10] Ver a relação dos livros em http://antoniozai.blogspot.com Este blog está vinculado ao projeto de pesquisa “Política e Literatura: o significado político-pedagógico da literatura e sua contribuição à formação acadêmica na perspectiva da emancipação humana”.

[11] Não apenas os homens, mas também as mulheres adultas e bem-instruídas faziam parte dessa cruzada pela moral e os bons costumes. A autora cita D. Ana Ribeiro de Góes Bettencourt (1885), para quem os romances A dama das camélias (1852) do escritor francês Alexandre Dumas, e Lucíola (1862), de José de Alencar, “não eram modelos de vida para os códigos de moral do século XIX, pois eram leituras prejudiciais à juventude e pouco proveitosas como fonte de conhecimento”. Outra personagem citada é a professora norte- rio-grandense Izabel Gondim, autora de Reflexões a minhas alunas (1910): “Esse livro, oferecido ao governo dos Estados Unidos do Brasil, dirigia-se à educação nas escolas primárias do sexo feminino e nele a professora aconselhava as moças a absterem-se de leituras de livros considerados perniciosos em que a boa moral fosse preterida. A escritora referia-se aos romances da escola realista como “incendiários do coração da mocidade, cujas paixões dissimuladamente exaltam por meio das fantásticas criações de personagens desmoralizados postos em evidência, sob as mais belas e atraentes formas”. Ela conclui sua análise afirmando que não será difícil ouvir a apreciação a respeito desses livros por parte de pessoas sensatas (talvez referindo-se a si própria) a quem as alunas deveriam recorrer a fim de ouvir-lhes a opinião antes de empreender a leitura de obras desse gênero” (MORAIS, 1998).

A Literatura é a arte da palavra. Podemos dizer que a literatura, assim como a língua que ela utiliza, é um instrumento de comunicação e de interação social, ela cumpre o papel de transmitir os conhecimentos e a cultura de uma comunidade.

A literatura está vinculada à sociedade em que se origina, assim como todo tipo de arte, pois o artista não consegue ser indiferente à

realidade. A obra literária é resultado das relações dinâmicas entre escritor, público e sociedade, porque através de suas obras o artista transmite seus sentimentos e idéias do mundo, levando seu leitor à reflexão e até mesmo à mudança de posição perante a realidade, assim a literatura auxilia no processo de transformação social. A literatura também pode assumir formas de crítica à realidade circundante e de denúncia social, transformando-se em uma literatura engajada, servindo a uma causa político-ideológica.

Podemos dizer que o texto literário conduz o leitor a mundos imaginários, causando prazer aos sentidos e à sensibilidade do homem. A literatura transformou-se, em várias partes do mundo, em disciplina escolar dada a sua importância para a língua e a cultura de um país, assim como para a formação de jovens leitores.

A mensagem literária dirige-se hoje para um homem que vive numa época de especialização, que exige o culto às ciências naturais como o único digno de si. Partindo dessa premissa, uma evidência nos aponta: encontramos médicos, engenheiros e advogados, mas não o “homem” inserido nessas profissões. Essa especialização diferencia-os do resto da humanidade. Submergidos em suas atividades estes não têm oportunidade para serem no meio dos homens, “iguais entre iguais”.

A especialização é o signo de nossa época. O gigantesco desenvolvimento do conhecimento nas ciências naturais, a centralização de esforços dos Institutos Universitários em torno das pesquisas físicas longe de prescindirem de um sentido humano à sua atividade, colocam-no com mais dramaticidade.

É o espantoso desenvolvimento das ciências naturais que revela o fato do homem achar-se num período de transição. Os velhos valores fenecem e os novos não foram ainda encontrados. Esse vácuo é preenchido pela incerteza do homem quanto ao seu destino. [1]

Numa época de especialização [2], a literatura define os ideais de um período de crise e transição. Daí toda grande obra literária ser de um período de transição (veja-se a importância da mensagem de Dante, Dostoievski ou Kafka).

Pois é nesses períodos que se põe dramaticamente ao homem essa interrogação: qual o sentido de sua vida, qual a significação do mundo que o cerca?

O médico, engenheiro, advogado, encarnam especializações necessárias ao exercício de suas atividades, mas têm em comum, um atributo, o de serem humanos e o de enfrentarem idênticos problemas numa sociedade em transição.

Somos filhos de uma sociedade individualista e liberal e caminhamos para um outro tipo de sociedade planificada. Como dar-se-á tal mudança? Quais os agentes desse processo? Não o sabemos. O que sabemos é que assistimos a um espetáculo de crise, de transição, onde os velhos quadros sociais desaparecem e os novos ainda não se estruturaram.

A literatura é

uma forma de resposta

a essa interrogação. Ela,

pelos escritos de Homero transmitia-nos uma mensagem

corporificando um tipo de homem: o cavaleiro e o nobre; pela

pena de Hesíodo, transmitia-nos uma ética

do trabalho

e

sua

dignificação como sentido da vida. [3] Os escritos de Joyce, Kafka

e Faulkner, constituem uma mensagem adequada aos tempos novos: as formas clássicas do romance estão fenecendo; cabe ao homem descobrir uma nova linguagem para exprimir novas experiências de uma nova vida. [4]

De todas as formas de arte a literatura é a mais próxima da vida e a mais sintética, pois reúne a arquitetura, quando no processo de composição do romance, a música, na estrutura melódica da frase, a pintura, no traçar o caráter dos personagens, a filosofia, ao definir seus ideais de vida. Daí sua importância para a cultura.

Sendo ela acessível aos diferentes especialistas, poderá formular novas formas de ação ética e padrões morais. Como um sismógrafo poderá ela captar o sentido interno da mudança que se

opera no mundo. Para tal, conta com a intuição artística, que faz

com que as mudanças sejam pressentidas

possuidores, passando conhecimento.

depois

aos

campos

antes pelos seus

sistemáticos

do

A transição do século XIX e XX foi assinalada, em primeiro lugar, pelos impressionistas, pelo naturalismo literário e posteriormente pelos teóricos de política, economia e filosofia.

A literatura pertencendo a um dos campos assistemáticos do conhecimento tem esse poder. Pode auscultar as mudanças que se

operam no mundo e pela imaginação de seus grandes nomes, definir ao homem comum, novos caminhos.

Se não conseguir formulá-los com nitidez, pelo menos servirá como testemunho de uma época. A época que produz Camus, Kafka e Faulkner[5], já escolheu seu destino: eles testemunham por ela.

Na época moderna à literatura cabe um papel integrador. O papel de superar o abismo existente entre a arte e a vida, arte e ciência, na medida em que ela mesma é concebida como uma forma de conhecimento dessa totalidade, que é o homem.

Cabe ao escritor viver plenamente sua época, pois só atinge a grandeza, aquele que sentiu seu próprio tempo. Este é o segredo da universalidade de um Goethe, Balzac ou Cervantes.

Nessa tentativa de traçar com lucidez os quadros do mundo, onde se desenrola o drama humano, num período de transição, é que a literatura deixará de ser o “sorriso da sociedade”, para ser testemunho de uma época, uma mensagem acessível a todos, que permitia ao homem independente de sua especialidade sentir-se junto ao seu semelhante, como “igual entre iguais”, cumprindo um sábio preceito chinês.

Se as profissões diferenciam o homem, cabe à arte uni-lo em torno de ideais comuns. Isso ela pode fazê-lo, pois sua linguagem é universal e a condição humana idêntica em toda a face da terra.

__________ * Trabalho premiado – prêmio Graciliano Ramos – no concurso de literatura para os universitários do país, instituído pelo Ministério de Educação e Cultura e pela revista O Cruzeiro, conforme sua publicação de 2-1-60. Fonte: Separata da Revista de História

44 (FFCL – USP), São Paulo. Publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 07, dezembro de 2001. Disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/007/07trag_literatura.htm ** Licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de

São

Paulo.

[1] A respeito da incerteza do homem quanto ao seu destino individual, num mundo em

mudança, existe uma vasta bibliografia, cujos pontos de vista mais relevantes aparecem

expostos

 

em:

S.

Freud

Civilization

and

its

discontents.

Londres,

1930.

J.

Ortega

y

Gasset

La

rebelión

de

las

massas.

Madri,

1930.

Huizinga – Entre

las sombras Del mañana. Madri, 1936.

Niebuhr – Moral

and imoral

society. A study

in ethics

and politics.

Nova York, 1932.

Os trabalhos acima estão pautados por uma visão romântica e pessimista ante os problemas

da técnica numa sociedade de massas e suas repercussões morais, políticas e econômicas. Uma posição mais construtiva e realista em relação aos mesmos fenômenos se encontrará em:

Karl

Mannheim

Libertad

y

Planificacion

Social.

México,

1946.

Karen

Horney

The

neurotic

personality

of

our

time.

Londres,

1937.

Erich

Fromm

Psicanálise

da sociedade contemporânea. São Paulo, 1959.

[2] A respeito da tendência irrecorrível de nossa civilização à especialização, veja-se Gerth e

Mills

“From

Max Weber”, cap. Science as vocation. Londres, 1955.

[3] Sobre a importância da literatura como “formação do homem” em Homero e Hesíodo,

veja-se, Werner

Jaeger

Paidéia

I

Volume,\

págs.

53-93. México, 1955.

[4] O “tipo ideal” de romance construído arquitetonicamente é o de Balzac. “La Commedie Humaine” representa o ideal linear do romance do século XIX. Com “Lês Faux Monnayeurs” de A. Gide, este esquema de desenvolvimento linear da ação do romance deixa lugar à simultaneidade das ações. Esta ruptura com a construção tradicional de romance é salientada por Claude Edmonde-Magny quando escreve: “en écrivant “Les Faux Monnayeurs”, ce modèle de “sur-roman”, Gide refuse la conception traditionelle du genre, avec une vigueur, à peine moins grande, que celle de son ami Paul Ambroise” in “Histoire du roman français depuis de 1918, pág. 229.” Paris, 1950. Joyce representa uma nova experiência construtiva utilizando um tema clássico. Diferentemente dos modernos é introspectivo. O monólogo interior é a razão de Dédalo, é uma forma de existência. Joyce lançou essa técnica já descoberta anteriormente por um francês, Edouard Dejardin. Antes de Joyce, já o inglês Stephen Hudson dele já fazia uso. Até o nosso semiconhecido Adelino Magalhães já o usava. [5] Em Faulkner o diálogo não é uma relação entre duas consciências, é uma relação com vistas à ação. Ele não exclui inteiramente o monólogo, como por exemplo em “Tandis que j’agonise”. Nota Claude Edmonde Magny, que “chez Faulkner l’analyse intérieure alterne perpetuellement avec l’énoncé des comportements” in L’Age du roman americain, pág. 50. Paris, 1948. No entanto, sua obra, como a de Hemingway, Dos Passos e Caudwel estrutura- se sob modelos behaivoristas inspirados na técnica do cinema norte-americano. A respeito das influências do cinema no romance americano e franc6es após-guerra, veja-se as pertinentes observações de Magny, ob. cit., pág. 11.

A literatura como fator humanizador

Para considerarmos o poder humanizador da literatura, devemos esclarecer o que entendemos aqui por humanização. Compartilhamos da concepção de Antonio Candido, que a define como o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. (CANDIDO, 2004, p.180) Aristóteles, por exemplo, já havia reconhecido uma função pedagógica nas tragédias, que teriam o poder de purificar as paixões do ser humano. O filósofo considerou, inclusive, que a poesia “encerra mais filosofa e elevação do que a História; aquela enuncia verdades gerais, esta relata fatos particulares” (ARISTÓTELES, 1981, p.28), ou, em outras palavras, a história diz respeito ao que aconteceu e a poesia ao que poderia acontecer, indo esta muito além da primeira. Assim sendo, ainda que outros filósofos a tivessem reconhecido como perigosa para a ordem, como o já citado Platão, Aristóteles reconhece sua importância na formação dos seres, principalmente no que se refere à educação do sentimento. 6 Seguindo nossa proposta de comparação entre o mundo grego antigo e o mundo moderno, é importante ressaltarmos que, a partir do século XVIII, quando o domínio da ciência se ampliava e o da arte se tornava cada vez menor, o ideal alemão da Bildung foi proposto como o meio mais eficaz de formação do indivíduo. A palavra alemã significa “formação”, e designa uma metodologia ideal para a educação do ser humano que valorizaria a arte e a cultura, retomando o ideal de educação da Paideia grega. Podemos perceber, portanto, que da mesma maneira com

que foi temida, a literatura foi também reconhecida como essencial na formação das pessoas nas diversas fases de desenvolvimento da humanidade. Tendo em vista os principais poderes positivos da literatura ressaltados por Antoine Compagnon (2009) – o poder de instruir deleitando, o combate à fragmentação da experiência e a possibilidade de ir além dos limites da linguagem comum – fica evidenciado que a literatura “dota o homem moderno de uma visão que o leva para além das restrições da vida cotidiana” (COMPAGNON, 2009, p.36). A educação que inclui a leitura do texto literário proporciona, assim, uma sensibilidade ao indivíduo que possibilita o desenvolvimento contínuo de uma visão crítica. Assim, podemos imaginar o mundo sem a literatura como sendo “incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo” (LLOSA, 2010), e o mesmo podemos dizer do indivíduo que não tem contato com a literatura. Nosso contato com o mundo da fantasia, entretanto, é garantido pelos nossos próprios mecanismos psicológicos através dos sonhos e devaneios, atestando sua importância para o equilíbrio psicológico do ser humano. Nesse sentido, Candido (2004) defende sua ideia da relação da literatura com os direitos humanos, pois a leitura do texto literário corresponderia a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade (CANDIDO, 2004, p.186). Além disso, a literatura nos possibilita não apenas uma visão mais ampla, mas visões múltiplas do mundo, o que é muito importante para a formação crítica humana justamente porque “quanto mais facetada se educar a receptividade, quanto mais móvel for, quanto mais superfície oferecer aos fenômenos, tanto mais mundo o homem percebe” (SCHILLER, 1991, p. 81- 82). Assim sendo, fica atestada a importância de se rever o espaço da literatura na educação, que se 7 restringe sempre mais, e de aliar a educação humanista à técnica, formando seres humanos completos, e não apenas partes de uma engrenagem. Conclusão Buscamos explicitar nas reflexões propostas a importância da literatura na educação do ser humano, no sentido de formar seres mais críticos e que superem ao máximo a fragmentação imposta desde o advento da modernidade. Para que vivencie plenamente sua humanidade, é necessário recuperar a natureza da qual se afastou, harmonizando-a com a cultura, equilíbrio este possível de ser alcançado através da literatura. O estímulo à leitura de textos literários, como procuramos mostrar neste artigo, resulta em uma educação que desperta não necessariamente conhecimentos específicos, mas uma sensibilidade que permite o questionamento do mundo e o desejo de mudança da condição de mediocridade a que o ser humano é muitas vezes submetido. Sem a literatura as pessoas se tornam mais passíveis de conformismo com situações insatisfatórias estabelecidas por outrem, e justamente por isso ela não recebe o estímulo dos governos despóticos. Portanto, o ser humano deve, antes mesmo de buscar viver plenamente a democracia, a vivência plena de sua própria humanidade, através da superação da fragmentação a que é submetido nas sociedades modernas. A literatura tem esse poder, propiciando o resgate daquela totalidade vivenciada pela antiga civilização grega, quando a educação não formava indivíduos especialistas, mas cidadãos com suas diversas potencialidades

desenvolvidas, sem a separação antagônica entre sua razão e sua sensibilidade. ABSTRACT: This article proposes some reflections on literature as a humanizing tool in education. So will be considered, mainly, the ideas proposed by Schiller about the harmony between nature and culture through aesthetic education, that would allow to the fragmented modern people the return to all human civilization represented by the ancient Greek, and the idea proposed by Antonio Candido about literature as an inalienable right of human beings. Key words: Literature; Education; Humanization. 8 Referências ARISTÓTELES. Arte Poética. In: ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Editora Cultrix, 1981, p.19-52. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 4ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004, p. 169-191. COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. LLOSA, Mario Vargas. Em defesa do romance. In: Revista Piauí. N. 37. Out. 2010. P. 64-69. Disponível em:

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romance. aspx Acesso em: 13/10/2010. ROSENFELD, Anatol. Introdução. In:

SCHILLER, Friedrich. Cartas sobre a educação estética da humanidade. São Paulo: E.P.U., 1991, p. 07-34. SCHILLER, Friedrich. Cartas sobre a educação estética da humanidade. São Paulo: E.P.U., 1991. TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009.

Há textos e coisas que são funcionais, ou seja, têm uma função social definida: você lê um manual, uma bula ou uma receita para se orientar; você lê uma notícia para se informar; lê um artigo para conhecer a opinião de outra pessoa sobre um assunto de seu interesse e para formar a sua própria; lê um contrato para conhecer os aspectos legais de uma transação qualquer. Da mesma forma, você compra uma garrafa térmica, uma cadeira, um sapato ou um alimento com objetivos muito específicos. Há outros textos que não são funcionais: os literários estão entre eles. Você não precisa ler textos literários para aprender, para se orientar ou para se informar. Você pode passar a sua vida inteira sem ler qualquer texto literário e ainda assim ser uma boa profissional (pense num engenheiro, por exemplo), uma boa amiga, uma boa filha. O mesmo ocorre com a arte em geral: você também pode passar a sua vida inteira sem adquirir ou apreciar um objeto de arte, como um quadro ou uma estatueta. Entretanto, a arte - e o texto literário especificamente - tem um outro tipo de função:

uma função humanizadora. Como diz Antônio Cândido, a literatura "confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua no subconsciente e no inconsciente." Segundo o autor, a humanização é um processo que confirma no homem aqueles traços que julgamos essenciais: "o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor". Ao consumir literatura, tornamo-nos mais compreensivos, mais sensíveis; abrimo-nos para o mundo, para a natureza, para os nossos semelhantes.

ENSINO DE LITERATURA: A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA E SUAS FUNÇÕES

Para melhor compreendermos a importância da literatura e suas funções faz-se necessário conceituarmos literatura. Desde conceitos atribuídos na teoria literária, é possível compreender que não

há como separá-la da vida do homem, visto que, esta se constrói a partir do universo do próprio homem,

reproduzindo de forma ilustrativa, aspectos humanos. Como ilustra Moisés (1997, p. 25), "[

]

... sinteticamente, e duma forma como se vulgarizou o pensamento Aristotélico: literatura é 'imitação' (mimese) da realidade." Mediante este primeiro conceito, percebemos que, desde a antiguidade, a literatura se entrelaça a vida do homem porque a mesma se realiza num universo paralelo ao seu.

Sobre o conceito de literatura Moisés (1997, p. 27) ressalta ainda:

Admitindo a literatura como para-realidade, resta examinar o modo como a realidade paralela se organiza. O mundo para-real em que o texto se constitui é latente: o texto não o contém,-evoca-o; não o encerra, - sugere-o; não é o universo para- real, - mas o sinal que aponta e a matéria que o enforma. O universo para-real não esta no texto, o que seria confundir com esse enquanto objeto, mas num espaço que o texto engendra com a cumplicidade do leitor.

A partir da leitura de uma obra literária há, inevitavelmente, um intercâmbio das informações apreendidas com a experiência vivida e real. Essa relação processa- se pela intuição deste leitor, o qual acolherá o texto segundo sua subjetividade. Percebemos, então, que uma das características da literatura que a torna mais ampla é a possibilidade de várias interpretações num mesmo texto. Trata-se da plurisignificação, um magma literário que encontra em cada sujeito um espaço diferente. Temos uma realidade que é construída pelo próprio homem, permitindo, assim, uma aproximação do artista para com o receptor da obra criada. Mesmo que esta não relate fatos de sua vida ele acaba se prendendo ao texto por sua natureza humana. Porque um texto não ilustra fatos particulares de um dado sujeito, mas explora sempre assuntos inerentes ao ser humano e habita no homem a necessidade deste elo com o imaginário, com o fictício.

Numa conceituação distinta, porém, complementar, Pound (2002, p. 33) diz que a "[

...

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literatura é

linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível." Neste sentido o autor de debruça principalmente, numa análise da linguagem do texto literário quanto ao seu poder de persuasão e de encantamento através das palavras. Factualmente, a linguagem literária possui uma especificidade, construindo- se diferente de outros textos e isso é um dos aspectos que contribui para que a literatura se distinga. Podemos considerar, que o primeiro impacto que o texto literário exerce sobre o leitor concretiza- se pela linguagem.

Adiante Eagleton (2001, p. 2) em representação a corrente formalista manifesta o seguinte:

Talvez literatura seja definível não pelo fato de ser ficcional ou 'imaginativa', mas porque ela emprega a linguagem de forma peculiar. Segundo essa teoria, a literatura é a escrita que, nas palavras do russo Roman Jakobson, representa uma 'violência organizada contra a fala comum'.

Nessa perspectiva, Eagleton (2001) também aborda a literatura no seu aspecto diferencial quanto à linguagem. O mesmo ressalta a peculiaridade da linguagem literária e especula a possibilidade do texto

literário entreter mediante este diferencial. Torna-se pertinente mencionar que o autor não despreza o fato da ficcionalidade e do caráter imaginário do texto literário, aliás estas são características que tornam o texto, literário, e , portanto, não poderiam de fato, serem ignoradas.

Não obstante acrescentamos o que Castagnino (1969, p. 209), buscando conceituar literatura afirma que a mesma trata- se de:

Uma arte postiça adquirida unicamente pelo domínio externo de uma técnica, como alguma vez se concebeu com critério estático ,antes obedece a um ditame profundo do ser- criador ou receptor- que

procura expressar-se. É um pouco do espírito do homem que, com ânsia de buscar contato com outros

seres ou de prolongar-se a si mesmo, de firmar-se em seu ambiente ou evadir-se dele [

...

]

Torna- se bem evidente nas considerações do autor as diversas possibilidades com que o escritor cria e como o leitor recepciona o texto. Nessa abordagem Castagnino (1969) volta-se tanto para a natureza imaginaria do texto literário quanto a sua técnica quanto ao uso da linguagem. E ressalva o caráter expressivo do texto literário que se realiza na necessidade do homem de vivenciar algo novo. Por meio da evasão, permitida pela literatura o homem sacia seu desejo de experimentar emoções diferentes. Mesmo o leitor , que apropria- se de um texto que não é seu, busca por estas experiências e portanto, o mesmo ilustra a obra mediante uma visão própria.Muitos autores falam em 'co- autoria', pra representar para justificar que o leitor dá fim ao texto conforme suas expectativas,seu conhecimento.

Mediante a consideração de Constagnino (1969) e as demais citadas anteriormente é perceptível a relação que a literatura mantém com suas funções faremosadiante uma exposição d função psicológica, educativa e social. Ressaltamos, porém, que estas não se esgotam nestas atribuições. Aliás, assim como é inconcebível um único conceito para literatura, da mesma forma é inviável limitarmos suas funções.A única verdade ou evidência explícita é seu vínculo com o homem, as demais considerações, quanto a conceitos, funções, características, dentre outros prismas irão oscilar conforme o teórico.

Torna- se pertinente esclarecermos que embora enfatizando nesse estudo a função psicológica, a educativa e a social da literatura existem outras funções e outras atribuições a estas que focaremos a seguir. As mesmas são relacionadas por Candido (2006) meio a sua importância quanto à literatura e é mediante as idéias deste autor que lançaremos as discussões seguintes.

Atribuindo à literatura seu valor estético ressaltamos seu vinculo com a vida do ser humano, aliás, com o próprio ser humano que através de sua sensibilidade consegue evadir- se a um universo fictício, saciando assim sua aspiração por novas experiências ou diferentes de sua realidade.

A função psicológica da literatura está relacionada à ânsia do homem em vivenciar novas experiências como forma de evasão a uma realidade cruel e pálida. Acrescentamos, então, a importância deste ensino não ser apresentado numa perspectiva mecânica e em outra hipótese como um conjunto de obras que se enquadram num dado estilo de época. A literatura eleva-se a estas considerações e nem pode limitar-se a essa abordagem meramente pedagógica que exclui, na maioria das vezes, seu valor artístico. Evidentemente, em consonância a sua estrutura, os dados históricos, ideológicos e morais de uma obra

não podem ser desprezados, são aspectos que não podem ser privilegiados, visto que, a literatura deve ser concebida como objeto estético e não histórico ou moral.

Braga (2003, p .01)coloca o seguinte:

É importante pontuar que o texto literário dialoga e poetiza a história social, mas nunca a reproduz fielmente . Sendo assim, é preciso promover o ensino de Literatura focalizando-a enquanto produção estética, e não enquanto retratos históricos articulados por uma linguagem bem elaborada: e, ainda evidenciar que sua função é promover antes da formação moral, a experiência estética.

Observamos, a partir deste fragmento, que a literatura vista como arte proporciona, num primeiro momento, o prazer estético que é produzido simplesmente quando o leitor consegue interagir com o texto. Desta interação consolida-se a função psicológica, baseada na aspiração do homem em abstrair-se a um mundo fictício, imaginário, o qual se evoca, muitas vezes, por um desejo do inconsciente. Salientamos que existem outras formas de satisfazer esta necessidade de evadir- se, fugindo de sua dura rotina ou na ânsia de vivenciar outras experiências. Porém, enfatizamos a importância da literatura como via imprescindível e espontânea para que esta necessidade humana se concretize.

Sobre a imaginação, Guerra (1947, p. 2) expõe que esta se trata da "faculdade de representar, sob uma forma sensível, os objetos ausentes." Esta representação referida é o espaço que o leitor dimensiona, atribuindo-lhe características evocadas conforme sua subjetividade e sensibilidade.Nestas circunstâncias, destacaremos o conceito de sensibilidade, segundo o próprio Guerra (1947 , p .18). Esta reforçará as colocações feitas anteriormente ao dizer que "a sensibilidade o mesmo é que o poder de sentir.Compreende as sensações, ou percepções dos sentidos corporais,e os sentidos internos da alma, tais como a alegria, a tristeza, o desejo, o temor, a ira, a esperança".

Num prisma literário, a sensibilidade permite ao sujeito dar vida e movimento às coisas, pois, somente a partir desta é que o universo literário poderá ser sentido e, prazerosamente, desfrutado. A partir do momento em que isto acontece, a imaginação frui e o fictício passa a ter novas linhas, novos contornos advindos de quem o invade através da leitura. Colocamos assim, que esse contorno ao universo fictício agrada o homem e satisfaz uma necessidade do seu psicológico.

Segundo expõe Cândido (2002, p. 81) :

Por via oral ou visual, sob forma curtas e elementares, ou sob complexas formas extensas, a necessidade de ficção se manifesta a cada instante; aliás, ninguém pode passar um dia sem consumí-la, ainda que sob a forma de palpite na loteria, devaneio, construção ideal ou anedota.

Conhecendo a necessidade diária do homem de experimentar novas sensações e emoções através do fictício. Ressaltamos que existem outros meios que satisfazem este desejo humano, de isolar- se do mundo real. No entanto são meios que entretêm na medida em que alienam , a partir do momento que não permitem ao sujeito o uso de seu conhecimento, não na proporção que a literatura possibilita. Esteschegam ao acesso das pessoas de forma mais fácil. Por isso e que é preciso que a literatura seja

compreendida como um objeto de valor estético, o qual o leitor irá recepcionar e interferir no texto

usufruindo de seus conhecimentos de mundo. Como nos afirma Martins (2006, p. 87) "[

...

]

o texto literário

é plural, marcado pela inter-relação entre diversos códigos (temáticos, ideológicos, lingüísticos, estilísticos etc.)". Nesta perspectiva ressaltamos a intervenção coerente do leitor no texto literário que por sua natureza multidisciplinar recepciona várias dimensões em um mesmo tecido.

É bem verdade que aspectos sociais, históricos e morais, não podem ser desprezados por completo, no entanto, não devem tornar-se foco, visto que, o valor estético da literatura não pode ser abandonado. Antes de tudo, ela deve ser difundida como arte. A história, a sociedade e a moral apenas apropriam-se da sua magnitude. Caberá ao educador atribuir um valor a cada abordagem na sua prática docente. Neste sentido, a literatura é uma das formas mais espontâneas e ricas para que o homem satisfaça sua necessidade de evasão, de vivenciar algo diferente de sua realidade, postulada com elementos peculiares à sua sensibilidade. Pois ela permite ao indivíduo uma experiência única de mundo, recriada além da sua percepção, mas concretizada pela sua intuição. A literatura trabalha coma sensibilidade do homem e é em função desta atividadeque o mesmo consegue identificar-se, pela exploração de seus sentidos e uso de suas emoções. Muitas vezes essa identificação se estende no momento em que pelo texto literário o homem perpassa um universo fictício adornado por alguns elementos da realidade factual.

Podemos agregar ou acrescentar ao estudo da função psicológica da literatura, a sua função lúdica, a qual vincula- se diretamente com os pontos até aqui mencionados.

Sobre isso, Constagnino ( 1969, p. 86) afirma:

A religião, a ciência, o direito, a guerra, de acordo com Huizinga, nascem também na esfera do jogo. Mas, pouco a pouco, nas formas mais organizadas da sociedade parecem perder seu contato com o jogo. A criação literária, ao contrário, nascendo como ela na esfera lúdica permanece sempre ali.

Neste sentido afirmamos que a função lúdica da literatura delibera-se mediante o texto literário que se distingue dos demais quanto à linguagem, a forma, o ritmo, o contexto que como salientamos não é fixo, estabelecido, mas edificado pelo artista e em extensão pelo leitor que conclui o que já havia sido iniciado. Conclusão mutável de leitor para leitor, bem como do leitor para com ele mesmo, todavia vivenciado um novo contexto e desenvolvido novos conhecimentos.

Por fim, não poderíamos omitir a função catártica que é inerente à literatura.Visto que, através da catarse o sujeito isola-se do mundo real, tendo como refúgio o universo fictício alimentado de todos os seus desejos e apesar de unido aquele que designamos "real", constrói-se passivamente. A catarse aproxima- se bastante da evasão, sendo a catarse ligada a expulsão de sentimentos, pensamentos e, portanto, realizada a partir de uma fuga para uma realidade idealizada. O expurgo estaria bem mais ligado ao escritor, mas não se esquiva o leitor, como co-autor do texto, de expulsar tudo que lhe sufoca em seu cotidiano.

A partir das colocações já realizadas, podemos dizer que a Literatura atua na formação do homem, mas não deve ser utilizada como um instrumento meramente pedagógico, na intenção de estabelecer normas,

comportamentos e ideologia. Segundo Candido (2002) ela reafirma a humanidade do homem. Não "edifica" nem "corrompe" princípios, mas integra a realidade do sujeito a outra que se estabelece num plano construído segundo o que este já conhece. E nesta apreciação de reconhecer o texto literário como instrumento para educar, mediante uma seleção de obras que trazem exemplos de uma boa conduta e princípios morais, na maioria das vezes, perde seu valor estéticoe é reproduzido apenas numa perspectiva pragmática. Antes de tudo, literatura é arte e como tal "proporciona uma espécie de enquadramento que coloca fora do mundo da realidade a afirmação contida na obra." ( WELLEK; WARREN, 1971 p. 30).Portanto, deverá ser apreendida, fundamentalmente, nesta concepção estética. Não podemos negar a influência de uma obra literária e não seria lícito negar ao homem esta influência visto que, por meio da interação com a obra o leitor entrelaça informações do universo fictício para com o mundo real. Ou seja, nova experiência vivida e portanto novo conhecimento adquirido.Faz-se necessário enfatizar que a função de educar da literatura dá-se mediante o próprio leitor, educação que seconcretiza apenas quando este interage com o texto. Para Martins (apud) (2006, p. 91)"o estudo da literatura poderia ser justificado por sua habilidade para ajudar os alunos a compreenderem a si próprios, sua comunidade e seu mundo mais profundamente."

Candido (2002, p. 83) direciona o seguinte:

A literatura pode formar, mas não segundo a pedagogia oficial, que costuma vê-la ideologicamente como um vinculo de tríade famosa - o verdadeiro, obom, o belo,definidos conforme os interessados dos grupos dominantes, para reforço da sua concepção de vida. Longe de ser um apêndice da ilustração moral e cívica, ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela- com altos e baixo, luzes e sombras.

A literatura, longe de servir como manual de virtude e boa conduta, forma na medida em que atua sobre o sujeito. E como nos sugere o fragmento acima, ela atua como impacto no processo de formação do homem, a partir do momento em que o mesmo consegue usufruir do texto como objeto estético. Neste sentido, podemos salientar que não serão apenas as obras literárias que trazem em seu enredo personagens que representam um bom comportamento e uma série de virtudes, que irão formar, positivamente, o homem. Aliás, o 'usufruir' se descreveria, também, pelo prazer e estranhamento que causa uma determinada obra. Porque a reflexão, mesmo que despercebida pelo sujeito de seu universo, dá-se no instante em que a obra consegue penetrar no sujeito com todo seu teor artístico. Ou, digamos que: no instante que o sujeito passa a descobrir na obra elementos peculiares a sua vida ou estranhos a ela e, portanto, passíveis a uma indagação e reflexão.

O lapso que se encontra no ensino de Literatura descreve-se, paradoxalmente, a esse ponto de vista: sua utilização como instrumento que educa severamente através de 'modelos' ou como suporte para o ensino de outros conhecimentos. Na verdade, a literatura não impõe nada a nenhum sujeito, pelo contrário, a ela proporciona através de sua linguagem a construção de um universo singular, construído de forma diferente conforme cada leitor mediante sua cultura, sua formação, sua concepção de mundo e, essencialmente, sua sensibilidade. Ressaltamos, então, a participação do leitor como co-autor do texto e, portanto, considerando esta afirmação, cada cenário fictício, mesmo que seja de uma mesma obra, constitui-se de peculiaridades.

Os próprios PCN (2000, p. 60) se debruçam nesta perspectiva:

O texto literário é por excelência polissêmico, permitindo sempre mais de uma interpretação, e se admitimos que cada leitor reage diferentemente em face de um mesmo texto, pensamos que o passo inicial de uma leitura literária seja a leitura individual, silenciosa, concentrada e reflexiva. Esse momento solitário de contato quase corporal entre leitor e a obra é imprescindível, porque a sensibilidade é a forma mais eficaz de aproximação com o texto.

Podemos observar através do fragmento extraído dos PCN (2000) que o caráter polissêmico do texto literário se eleva e portanto, é uma via para o educador trabalhar a sensibilidade de seus alunos e explorar nos mesmos, formas de expressar sua sensibilidades e aptidões. É viável indicar então, que os próprios PCN (2000)orientam o educador em sua prática e enfatizam a literatura como instrumento para reflexão e construção do conhecimento que a literatura não prescreve, mas integra.

Salientamos, desde então, que o caráter da obra literária como objeto artístico deve ser empreendido e valorizado. O prazer, o ato de criação de um universo para-real, o uso dos sentidos contribuem imensamente para a formação do sujeito e mais importante, de forma agradável. É neste sentido que a literatura pode educar. Na medida em que estimula o sujeito a um ato reflexivo, proporcionando ao mesmo, através de uma livre interpretação, experimentar emoções e sensações de outro universo.

Segundo Zilberman (1988, p. 94) :

Da mesma fora que os falantes se uma língua só podem atribuir significado a frases nesta língua por compartilharem de sua gramática, os leitores de literatura só podem atribuir significado literário às obras que lêem porque compartilham de certas atitudes, habilidades, normas, expectativas e conhecimentos que respondem pelo sentido literário de um determinado texto.

Neste sentido,compreendemos que qualquer atribuição de valor ou significado de um texto literário,apenas será viável quando o leitor compartilhar sua experiência com este texto. Podemos então considerar que a abstração do texto influencia o sujeito na medida em que ele propicia uma interação. Na literatura o sujeito contempla, uma figuração do objeto sendo na maioria das vezes ele mesmo o objeto visualizado.

Como ressalta Zilberman (1988, p. 88) sobre o sujeito, este "contempla-se contemplando e contemplado, numa espécie de reduplicação infinita que, quanto mais próxima fica da relação possível com o objeto da reflexão sobre literatura: o texto, que não tem em si, mas somente em outro."

Consideramos, então, que o sentido do texto se constrói mediante a interação do leitor com a obra. Sem a relação de um para com o outro tornam- se apenas esferas isoladas. Desta forma não será pertinente a exclusão de uma obra em decorrência dos exemplos nela contidos. Por mais que a literatura seja admitida como uma para-realidade, seja construída com aspectos da vida do homem, não se atribui para essa, a função de educar. Em controvérsia, esta educação acontece, mas não em uso dos textos literários

como manuais de boa conduta, e, sim, na medida em que o sujeito reflete, recebe e constrói informações, vivencia novas experiências.

Na abordagem da função social da literatura, ressaltamos que é viável observarmos que as demais funções já mencionadas mantêm uma relação intrínseca com a vida do homem e mais, precisamente, com sua posição dentro de um contexto social. Contudo, nos bastará dentro do texto que se segue compreender de forma mais nítida a respeito desta função. Porque embora tenhamos afirmado que ela se manifesta numa representação à vida do homem, mesmo que de forma enigmática, como presenciamos através da literatura fantástica. Tais representações são sugeridas pela realidade de quem escreve ou pela realidade do leitor.

Candido (2006, p. 85) afirma o seguinte:

A obra literária significa um tipo de elaboração das sugestões da personalidade e do mundo que possui autonomia de significado; mas que esta autonomia não a desligue das suas fontes de inspiração no real, nem anula a sua capacidade de atuar sobre ele.

Então, podemos avaliar que a literatura torna-se relativa mediante as possibilidades de atuação sobre o sujeito. Pois sendo a literatura considerada como arte tem por finalidade maior entreter, jogar com o lúdico, tornando-se impar a cada sujeito que dará a sua leitura traços peculiares de acordo com sua cultura e vida em sociedade.

Face ao fragmento de Samuel (1985, p. 14) temos:

A arte não só reproduz a realidade, mas dá forma a um tipo de realidade. E aliteratura não substitui a sociedade e a política como maneiras de explicar a sociedade. A arte não obedece ao princípio da imitação da realidade estabelecida, mas ao princípio da negação desta realidade, que não é meramente negação, mas transposição da realidade para superar os problemas. Como parte da sociedade, a literatura está imanente à realidade (está nela). Mas como ficção, como imaginação, ela transpõe essa imanência, criando uma realidade possível para opor à realidade concreta.

Através do exposto, é possível estabelecermos a princípio que a realidade do homem em sociedade é evocada através da arte. Detendo-nos, aqui, nestas evocações manifestadas através da literatura,que se constrói a partir do que o homem vivencia. Como exemplo, compete-nos focar que algumas manifestações literárias que através dos estilos de época que retrataram sentimentos de uma dada época, marcada pela revolta como o Romantismo, pelo decadentismo como é ocaso do simbolismo ou dos modernos que se manifestaram no desejo de reforma. Em ênfase citemos o regionalismo, que enquadra uma dada região, através da linguagem, cultura entre outras expressões, o que muitas vezes suscita um conteúdo documentário. È bem verdade, que as obras deste tipo de literatura não podem ser apreciadas simplesmente face ao seu valor histórico. Não é função de a literatura divulgar esses fatos, embora muitos destes venham a ser transmitidos dentro do texto literário. Ela apenas contribui para historia ,como para a pedagogia, para psicologia entre outras áreas do conhecimento, e caracteriza-se com elementos sugestivos de uma cultura às vezes em menor ou maior intensidade.

Deduzimos, então, que em decorrência de sua natureza e construção, a literatura possui uma função social. Podemos partir da seguinte frase: o homem é um produto do meio. E o meio é a sociedade. Neste sentido, a partir do momento que há uma ação sobre esse "produto", o meio, inevitavelmente será modificado.Destacamos que essa ação acontece de forma muito agradável. Porque ela, entendida como arte,ainda assim "educa", sem molduras, sem prisões, pois é característica da literatura o uso pleno da liberdade, na medida em que proporciona ao sujeito o livre arbítrio pra interpretações e possíveis reflexões.

Samuel (1985, p. 16), afirma o seguinte:

O mundo fictício contém mais verdade do que a realidade cotidiana mistificada pela necessidade natural. Quando a realidade concreta parece falsa, ilusória, é quando nos libertamos dela. Essa destruição se dá por amor à vida. E desta maneira se estabelece a relação entre a literatura e a sociedade.

Propomos através do título deste capítulo tratar da função social da literatura, analisando – a como manifestação de conhecimento do mundo e do ser. Assim como o homem vincula-se diretamente a sociedade , assim o conhecimento se voltará sempre para o ser humano. Numa instância artística, homem que produz arte e outro que descrevemos como aquele que possui uma co-autoria na criação. A partir do ponto como este visualiza a produção, em usufruo do que já sabe , viveu e deseja.

Mediante este ensejo, consideramos que a função social da literatura consiste na identificação do ser com o texto literário, seja para aquele que escreve quanto para quem lê, pois, para aquele que constrói o texto será reflexo do que ele sabe, percebe, indaga e conhece. Para aquele que lê, além de um encontro com as idéias do autor, oferece ao tecido literário um novo contorno, recriado conforme seu conhecimento de mundo e aprendizagens adquiridas , historicamente, ao longo de sua vida.

REFERÊNCIAS

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WELLEK, René .WARREN, Austin. Teoria da Literatura.2 ed. Nova York:Publicaçoes Europa-

América,1971.

NATUREZA E FUNÇÃO DA LITERATURA Eliane Maria de Oliveira GIACON PG/ASSIS/UEMS/FINAN Resumo: A literatura é um termo que suscita várias definições desde a raiz dessa palavra: Littera até a seleção do que é e do que não é literatura de um país. Se definir literatura é algo complexo até para teóricos como Culler e Eagleton, há uma segunda via, que não passa pela definição pura e simples, mas que toca em dois pontos importantes: o que é e para que serve literatura. O que é refere-se à natureza da literatura e para o que serve centra-se na questão das funções da mesma. A natureza pode ser normativa ou descritiva e as funções são de estética, lúdica, cognitiva, catártica e pragmática. Sabendo o que é e para o que serve é um bom ponto de partida para o estudo da literatura. Palavras-chaves:

literatura, natureza, função. A origem da palavra literatura remonta ao lexema latino litteratura, que deriva do radical littera, que significa saber relativo à arte de escrever. Entre os autores cristãos do século XVI, como Cassiano e S. Jerônimo houve uma distinção entre “literatura” – corpus de textos pagãos e “escritura”, referente a textos sagrados. Esse exemplo serve de imediato para que seja possível ao leitor deste texto perceber que embora todos falem, estudem, escrevam e discutam sobre literatura, sua definição pura e simples é um tanto complexa. E este trabalho não pretende fechar a definição de literatura, nem tão pouco contrapô-la com escritura, mas em linhas gerais encontrar pressupostos para um estudo sobre a natureza e a função da literatura. Antes do século XIX, segundo Culler (2000), as pessoas escreviam todo tipo de texto, que recebiam a denominação de literatura, sendo eles desde tratados de Medicina e Ciências Naturais até os poemas de Homero, pois tudo significava texto escrito. Hoje a mudança é substancial e textos como Eneida de Virgílio ou Odisséia de Homero recebem um tratamento diferenciado. Esse sentido moderno de literatura foi atribuído por Madame Staël, no final do século XVII, na obra Sobre a Literatura comparada e suas Relações com as Instituições Sociais. Essa obra algumas perfectivas quanto ao que pode ser considerado como literatura e como os textos literários devem ser tratados. Depois dessa fase em que o Romantismo colocou as pilastras da modernidade sobre o que era a literatura e como a literatura de cada povo deveria ser tratada. Surgiram vários estudos e agora na Contemporaneidade é interessante notar com Culler(2000) que alguns textos são literatura de acordo com a concepção que cada sociedade faz dele. 1 Assim há um exemplo prático na Literatura Brasileira que ocorre no livro História da Literatura Brasileira de Silvio Romero, na qual ele considerou como Literatura Brasileira as primeiras cartas dos viajantes, os poemas de Gregório de Matos, os contos da oralidade brasileira e ensaios de Direito Civil. A seleção do crítico levou em conta o conceito anterior a Staël, que define literatura como produção escrita. Outros críticos brasileiros fizeram escolhas diferentes da de Silvo Romero. É possível perceber numa leve passada pelas obras sobre Literatura Brasileira, que em 1912, Estudos de Literatura Brasileira, José Veríssimo restringe o conceito de literatura em arte literária e se preocupa com a estética e seleciona textos para a obra citada, que foram escritos por brasileiros ou estrangeiros, que criam obras

com intenção de ser arte de acordo com os conceitos da época; Antônio Cândido em Formação da Literatura Brasileira, 1964, determina o início da Literatura Brasileira a partir do ano de 1750 com um conjunto de obras com temas brasileiros, pois segundo ele o escritor/ poeta desse período estava empenhado em criar uma literatura nacional. Cândido se preocupa com a tradição. E para ele o que ocorreu antes foram manifestações esparsas. Assim para ele Gregório de Matos por traduzir Gôngora e Quevedo traz muitos reflexos desses poetas em suas obras. Araripe Junior (1963) sobre a poética barroca de Gregório de Matos diz que a obriubilação brasílica melhorou o poeta, pois segundo ele ao passar pelo Equador sofreu transformações pelo meio ambiente. Posições a parte o que é possível perceber nos estudos sobre formação da literatura brasileira seja com Antônio Cândido, Haroldo de Campos, Alfredo Bosi ou Afrânio Coutinho, é que a tentativa preliminar destes foi selecionar de acordo com suas concepções estéticas e filosóficas quais obras seriam representativas para comparem a Literatura Brasileira. E assim pode-se dizer que textos que em determinada época não são considerados literatura passam a sê-los em outras. Tomando por base as observações acima e procedente uma leitura de Terry Eagleton (2001), Roberto Acízelo de Souza (2000) e John Culler (2000) podemos verificar que eles formulam conceituações de literatura, e todas elas passam por estudos críticos da história da literatura de muitos países. E em todos os casos a definição do conceito de literatura é de difícil delimitação, contudo é interessante observar como eles encontram formas de tentar definir literatura. Para Culler (2000) “ a literatura é uma instituição paradoxal porque criar literatura é escrever de acordo com fórmulas já existentes” (p. 47), fórmulas estas que segundo Eagleton (2001, p. 2)

“intensificam a linguagem comum” sugerindo algo diferente da linguagem usual. Então se a linguagem é intensificada, logo são necessários mecanismo para 2 dizer o que é e para que serve a literatura, portanto para estuda literatura é necessário explicar sua “ origem, natureza e função” (SOUZA, 2000, p. 9). Em linhas gerais Souza diz: “a origem da literatura é o ensinamento dos deuses; sua natureza consiste em ser uma narrativa dotada de especial poder de encantamento sua função é reconstituir as ações dos heróis. (2000. p. 10)” de tal forma que seja possível dividir estes dois conceitos finais de natureza e função em seus desdobramentos. Assim a natureza da literatura pode ser normativa ou descritiva e as funções podem ser de estética, lúdica, cognitiva, catártica e pragmática. A natureza normativa diz como ela é e como ela deve ser julgada. Para tanto são necessários conceitos e orientações sobre a produção dos poetas e prosadores e em consonância com estes pressupostos, uma obra deva ser

estudada em comum acordo com “[

...

]propriedades

ou traços específicos.”

(CULLER, 2000, p. 35). Por seu lado a natureza descritiva diz o que a

literatura “[

...

]

é e como ela deva ser julgada [

...

],

numa atitude [

...

]

que

favoreça uma espécie de especulação aberta.” (SOUZA, 2000, p. 13). A partir desta divisão proposta por Souza podem ser os cinco pontos sobre a natureza da literatura propostos por Culler: literatura como colocação em primeiro plano a linguagem; literatura como integração da linguagem; literatura como ficção; literatura como objeto estético; literatura como com

construção intertextual e reflexiva. Segundo Eagleton (2000, p. 2) a literatura é mais o emprego da linguagem do que ficção ou imaginação. E com Culler observa-se que a literatura tem natureza de ser linguagem e ao

mesmo tempo a integração desta com uso de melopédia como rimas, ritmo, metrificação, que são marcas relevantes da literariedade, Portanto “o objeto da ciência da literatura não é a literatura, mas a literariedade” (JAKOBSON 1971, p. 15), que assegura a definição de uma obra como literatura. Um exemplo disso ocorre com poema do modernista Manuel Bandeira: “Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos Clowns de Shakespeare”. Observa-se que a métrica dessa estrofe é irregular, que não há rimas externas, mas

então como é dizer que é literatura? Por um fator importante que se refere à linguagem, pois o poeta, nesse caso usou a anáfora para repetir a palavra lirismo a ponto de dessacralizá-lo; usou os ritmos ternário e quaternário para criar um efeito de dissonância com as estéticas anteriores como o Simbolismo e o Parnasianismo. Esses artifícios fazem com que esse texto tenha natureza de literatura, contudo há a propaganda e alguns textos jornalísticos, que utilizam a Função Poética para causar efeitos de estranhamento da linguagem. Portanto para definir literatura é necessário atentar para a sua natureza, no tocante a linguagem e integração desta no texto. 3 Além da linguagem a literatura tem como natureza ser ficção, num evento lingüístico que de forma ordenada, utilizando os dêiticos (traços de orientação) em relação à personagens e narrador, a fim de promover dois pontos de articulação um que se refere ao contexto da narrativa e outro das múltiplas interpretações possíveis. Assim na obra Recordações do escrivão Isaias Caminha (1909), Lima Barreto se identifica com o personagem, um jornalista mulato humilhado no mundo dos brancos. Esse contexto sugere múltiplas interpretações como a de Silviano Santiago (1989, p. 11), que coloca no mesmo patamar personagem e autor, no prefácio da edição

francesa de Memórias do Escrivão Isaias Caminha ao dizer que[

...

] Machado

de Assis, Lima Barreto e Isaias Caminha acabam por retirar de suas

sucessivas experiências, tristes e decepcionantes, de seus anos de

formação e de seus primeiros anos de vida profissional [

]” Num sentido

... mais amplo, ele coloca no mesmo patamar o autor Lima Barreto, o personagem Isaias Caminha e um outro escritor mulato, nesse caso machado de Assis.Portanto, é possível dizer que o artefato literário deixa em aberto a relação da obra com o mundo, de tal forma que múltiplas interpretações possam ser dadas, de acordo com as leituras e de acordo com os leitores de épocas diferentes. Longino, no século II a. C. escreveu o tratado do Sublime, no qual ele levanta alguns pontos sobre o belo para uma obra de arte, Immanuel Kant, no século XIX, define objeto estético como obras literárias por estas conterem um combinação de formas e de conteúdo espiritual, podendo segundo Culller “juntar o material e o espiritual”(2000, p. 39). E o texto como objeto estético reside sua finalidade na construção harmônica das partes seja de um poema ou de um texto nem prosa. Estes artefatos literários abrem perspectivas que exortam o leitor a considerar a relação entre a forma e o conteúdo. A literatura tem natureza de ser uma construção intertextual e auto-reflexiva. A prioridade, no momento, é mister distinguir quando ela é intertextual e quando ela é autoreflexiva. Ser intertextual não é uma característica nova da literatura, pois em Os Lusíadas de Camões percebe-se a presença a obra Odisséia de Homero. A intertextualidade é, portanto, a presença de uma obra dentro da outras e que pode ocorrer de várias formas com a inserção de uma obra dentro da outra ou a alusão a um outro texto. Assim no poema Poética de

Manuel Bandeira, citado acima, ele faz referência aos palhaços de Shakespeare. Neste mesmo poema num trecho anterior, o poeta faz uma auto-reflexão sobre a literatura e o uso a linguagem como forma de criar a literariedade: “ Abaixo os purista/ todas as palavras sobretudo os barbarismo universais/ Todas as construções sobretudo a sintaxe de exceção/ Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis”. 4 Essa reflexão sobre a arte de escrever, faz com que a literatura volte-se sobre si mesma para fazer se auto avaliar. Tanto a intertextualidade como a auto-reflexão não são algo novo na literatura, mas vêm sendo mais estudados na contemporaneidade. A literatura além de ter uma natureza, ela também tem função, ou melhor funções e desde a antiguidade, Aristóteles enaltecia a função da literatura, que para ele centrava-se no grau catártico. E segundo D’Onofrio (2002) as funções as literatura são “estética [arte da palavra e expressão do belo], lúdica [provocar um prazer], cognitiva[forma de conhecimento de uma realidade], catártica [purificação dos sentimentos] e pragmática[pregação de uma ideologia] (p.23). Das funções da literatura,

a estética é aquela, que cumpre o papel de fazer o ato de escrever literário diferente dos outros. Considera-se um texto como literário se ele cumprir a função de representar de forma artística o real. Na arte em geral a estética de um quadro ou de uma pintura depende da forma com que o artista combina as cores e as formas. Na literatura, combina-se forma e conteúdo. Para tanto o artista literário utiliza os mecanismos de cada gênero. Um gênero lírico distingue do dramático, não apenas por nomenclatura, mas pela forma e pelo conteúdo. No lírico há o emprego da percepção do eu poemático em relação ao real, em contrapartida no dramático some o eu- poemático e entra em cena a falas dos personagens.A função estética muitas vezes ocorre pelo estranhamento que uma obra causa. Observe os

exemplos abaixo: “ Discreta e formosíssima Maria/[

...

]

Em tuas faces a rosa

Aurora/[

]

Oh não aguardes que a madura idade/Te converta essa flor, essa

... beleza/ Em terra, em cinza, em pó, em sombra/ em nada”. Nesse excerto do poema lírico A Maria de Povos, sua futura Esposa de Gregório de Matos é possível perceber a descrição da beleza feminina como forma estética, que se decompõe com o tempo.Contratando a vida e a morte. No próximo texto de Guimarães Rosa, a função estética ocorre pelo tom filosofante, que a linguagem roseana adquire e que pode ser observada nesse excerto da obra Grande Sertão: veredas(1956). “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece de religião: para se desendoidecer, desdoidar”. (p. 54) Tom este que discute temas universais e a função da religião para que o prefixo des seja elemento modificador do homem. Pela negação da verdade real, o homem utiliza o místico (religião). Os dois textos citados são exemplos de como a literatura defini-se não apenas como conceito, mas sim por funções que ela pode exercer como ocorre com a função lúdica. Função lúdica da literatura ocorre por meio de um jogo, no qual o artista executa a literatura por prazer, que pode ser como forma de trabalho ou até mesmo como um 5 passatempo, e o leitor sente o prazer de ler um texto. Essa via de mão dupla necessita de dois componentes: o emissor e o receptor para se realizar e eles não convivem simultaneamente. Contudo entre os dois ocorre um pacto. As vezes o autor se distancia do leitor, em outras ele o traz para bem perto de si como ocorre com Machado de Assis, que em várias passagens diz ao leitor que a escrita é uma forma de passar o tempo. Ao

mesmo tempo em que ele diz ser um jogo a arte de escrever, ele convoca o leitor para que este seja um leitor ruminante e possa assim digerir um texto de forma totalizante. Se um o leitor rumina um texto, logo abrir-se-á perspectivas cognitivas para o texto literário e uma das funções da literatura é ser cognitiva. A função cognitiva evidencia que a alta literatura produz um certo grau de conhecimento, que é passado ao leitor, este por

sua vez o incorpora no seu fazer diário, de tal forma que com o passar do tempo, sendo essas histórias matéria ficcional, elas não deixa de ser um conhecimento a ser repassado. Um exemplo desse tipo de função da literatura ocorre nesse excerto de O Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915): A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a

intelectual, nem a política que julgava existir, havia[

...

]

E, bem pensando,

mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a

sua vida norteado por uma ilusão[

]

(p. 245). O conhecimento sobre o

... personagem e a relação deste com o discurso sobre pátria não seria um saber a mais a ser incorporado pelo leitor? Seria sim e tanto que é feito que o discurso de Quaresma via carnavalização dos discursos de identidade passa a ser incorporado pelo leitor, abrindo várias perspectivas de leitura de uma obra. Às vezes a obra, além de despertar o leitor para o conhecimento, também executa uma outra função: a catártica. A função catártica ou catarse, apontada por Aristóteles, é aquela que faz com que o leitor purifique os seus sentimentos ao se defrontar com uma obra literária. Isso ocorre por vários fatores e depende muito da vivência de leitura do leitor e da capacidade do escritor de aguçar a imaginação do leitor. Nas peças teatrais e no cinema, essa função atinge seu grau máximo pelo uso das faculdades de visão e audição, contudo nos textos literários é necessário que o escritor faça o leitor percorrer um caminho tortuoso até o conflito para tingir o máximo do grau catártico de uma obra. Alguns contos fazem isso como é o caso de Pai contra mãe de Machado de Assis, no qual para salvar o seu filho da fome, um caçador de recompensas entrega uma negra grávida e fugitiva. Ele a joga com tanta violência aos pés do dono, que ela ali na frente deles aborta a criança. 6 O efeito de catarse no leitor faz com que este avalie os valores referentes ao direito à vida e as ideologias que são pregadas pela humanidade. A função pragmática refere-se a uma outra característica da literatura que se centra na questão da capacidade da arte literária em pregar uma ideologia. Pregar uma ideologia em Literatura Brasileira tem ocorrido com mais freqüência do que os leitores e críticos possam imaginar. Obras do Romantismo como Iracema (1857) de José de Alencar, cujo projeto era fazer um romance que contasse a origem do povo cearense, em termos do mestiço, o brasileiro, a fim de escrever um discurso de identidade nacional via entrelaçamento entre branco e índio. Nesta composse ideológica, o negro por ter transplantado e não elemento autóctone, não é figura nas obras de Alencar de fundação da nacionalidade brasileira. No Modernismo a obra Macunaíma (1928) de Mário de Andrade prega um discurso ideológico voltado para a brasilidade via bricolagem das etnias e da cultura dos negros, brancos e índios, centradas em Macunaíma, que viaja pelo Brasil em busca de uma pedra mágica, ao mesmo tempo que encontra-se frente a frente com a descoberta de um Brasil discursivo centrada em lendas e contos sobre a terra e seus mistérios. Macunaíma não desvenda mistérios como os heróis medievais, mas os absorve, a fim de ser

tudo e tudo ser ele. A procura do significado da palavra literatura, talvez passe segundo Eagleton (2001) não pelo fato dela ser ficcional ou imaginativa, mas porque ela “transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana”. (p.2). Talvez seja por este caráter motor, que a literatura não necessita de definição, mas sim de mecanismos que demonstrem o que ela é e o que ela faz com temas, com ideologias, com as palavras e com a arte do homem em mimetizar o real. O processo de transformar o real em ficcional passa pela natureza da literatura e das funções a ela atribuídas em cada situação. Em termos comuns seriam a massa e as formas, que se encaixam para a produção do alimento do espírito do homem, o texto. BIBLIOGRAFIA AGUIAR E SILVA, V. M. Teoria da literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1991. 7 CAIRO, L. R. V. “ História da Literatura Comparada e Crítica Literária: Frágeis Fronteiras disciplinares.” In: Revista de Literatura comparada. México: Ciudade Universitária, 1997. CULLER, J. Teoria literária. São Paulo: Beca, 1999. D’ONOFRIO, S. Teoria do texto: prolegômenos e teoria da narrativa. 2.ed. São Paulo: Ática, 2002. EAGLETON, T. Teoria da Literatura: uma introdução. 4.ed. Trad. Waltensi Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2001. MOISÉS, M. A Literatura Brasileira através dos textos. 23. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. PROENÇA FILHO. D. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 2000. RODRIGUES, A Medina (et alli) Antologia da Literatura Brasileira: textos comentados do classicismo ao pré-modernismo. São Paulo: Marco Editorial, 1979. SANTIAGO, S. Memórias do escrivão Isaías Caminha. 2. ed. São:

Edusp. 1989. SOUZA, R. A. Teoria da Literatura. 8.ed. São Paulo: Ática, 2000. TAVARES, H. Teoria Literária. 12. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002

A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA

1.1 A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA

Ao considerarmos a literatura um testemunho histórico por apreender a dinâmica social, conseqüentemente somos levados a entender também o escritor como um produto de sua época e de sua sociedade. Portanto, é esse entrelaçamento entre a literatura, o escritor, a sociedade e a história, que possibilita o surgimento da interdisciplinaridade, entendida aqui como diálogo que serve de reflexão sobre as relações culturais na literatura. Pegaremos então como ponto de partida, a visão de literatura aqui defendida na primeira parte deste trabalho, ou seja, literatura como produto cultural. Logo é inevitável refletir sobre o que é cultura e qual a relação entre cultura e sociedade, essa reflexão servirá para uma compreensão melhor e de embasamento sobre a função social da literatura e seu entendimento como produto cultural. Considerando que a noção de cultura é complexa, recorremos nesse início de conversa a uma definição dicionarística, segundo Aurélio (1993):

Cultura sf. 1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2.Fig. O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidas coletivamente, e típicas de uma sociedade. 3.Fig. O conjunto dos conhecimentos adquiridos em determinados em determinado campo. ( p.156 ). Dessa definição, podemos concluir primeiro que cultura não é algo inato, ou seja, natural no

homem, mas algo que deve ser transmitido, portanto, que deve ser cultivado; segundo se é algo a ser adquirido, isso implica então, um processo de formação do indivíduo e terceiro se é um complexo padrão de comportamento que envolve crenças, podemos então entender cultura como diversidade que explica a pluralidade existente nas sociedades humanas. Ora, se cultura é essa pluralidade e essa diversidade, então não podemos entendê-la como um conjunto harmônico, e sim como cenário de conflitos e disputas que caracterizam por sua vez a sociedade. Logo, essa reflexão nos conduz a olhar a literatura não como espelho da sociedade, mas como um meio transmissor de informações, cuja função social é facilitar ao homem a compreensão desses conflitos em sua pluralidade e diversidade, e assim emancipar-se dos dogmas que a sociedade lhe impõe. Para realçar nosso ponto de vista citamos Facini (2004):

A literatura não é espelho do mundo social, mas parte constitutiva desse mundo. Ela expressa visões de mundo que são coletivas de determinados grupos sociais. Essas visões de mundo são informadas pela experiência histórica concreta desses grupos sociais que as formulam, mas são também elas mesmas construtoras dessa experiência. Elas compõem a prática social material desses indivíduos e dos grupos sociais aos quais eles pertencem ou com os quais se relacionam. Nesse caso, analisar visões de mundo e idéias transformados em textos literários supõe investigar as condições de sua produção, situando seus autores histórica e socialmente.

(p.25).

Como vemos não podemos desprezar o elemento histórico na leitura da obra literária e de sua análise, dessa forma se faz necessário situarmos autor e obra em seu tempo, pois, enquanto representação da cultura de um povo, portanto, um ato social , a literatura funciona em mão

dupla, ou seja, assim como sofre a ação do meio em que é produzida, sobre ele age, atuando como elemento de reflexão crítica dos valores sociais. È nessa ótica que Cândido (2000) afirma que a literatura desempenha o papel de instituição social, pois utiliza a linguagem como meio específico de comunicação e a linguagem é criação social. Observa ainda, que o conteúdo social das obras em si próprias e a influência que a literatura exerce no receptor fazem dela um instrumento poderoso de mobilização social, diz ele:

A arte é social nos dois sentidos: depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos

valores sociais.[

]

Na medida em que a arte é - um sistema simbólico de comunicação inter-

... humana, ela pressupõe o jogo permanente de relações entre os três, a obra, o autor e o

público, que formam uma tríade indissolúvel. O público dá sentido e realidade à obra, e sem ele

o autor não se realiza, pois ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto

criador.[

...

]

Mas (a) verdade básica é que o ato completo da linguagem depende da interação

das três partes, cada uma das quais, afinal, só é inteligível (

...

)

no contexto normal do conjunto.

(p.19, 33-34). Nessa perspectiva, podemos dizer que sendo a literatura uma construção social, ela está ligada aos valores ideológicos vigentes que o escritor utiliza nos seus temas, considerando esse fato, a obra somente está completa quando reflete algo em alguém, ou seja, quando se dá a interação entre o autor, o texto e o leitor. Assim, somente com o estabelecimento desse diálogo é que a obra literária participa como elemento constitutivo de uma sociedade, por conseguinte, como elemento social de expressão de identidade cultural. É dessa interação que nos fala Yunes e Ponde(1998): "Um dos papéis da arte na vida social é a formação de um novo homem, uma nova sociedade, uma nova realidade histórica, uma nova visão de mundo." (;p.10). Nesse sentido é que o estudo das relações culturais na literatura leva em conta a discussão entre o texto e o contexto. Desse modo, o texto, como forma de permanência cultural é, ao

mesmo tempo, produtor e produto da cultura e como tal expressa as visões de mundo conflitantes, que se encontram e se chocam nesse amplo diálogo. Por isso mesmo é que a literatura é uma arte, cujas dimensões culturais são capazes de dar ao homem condições para seu desenvolvimento; como diz Barthes (2004), na literatura encontramos todos os saberes:

O saber que a literatura mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe

alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que ela sabe algo das coisas ? que

sabe muito sobre os homens. [

]

Porque ela encena a linguagem, em vez de, simplesmente,

... utilizá-la, a literatura engrena o saber no rolamento da reflexividade infinita: através da

escritura, o saber reflete incessantemente sobre o saber, segundo um discurso que não é mais

epistemológico mas dramático. [

]

A Literatura tem a força da representação e ela é

... categoricamente realista, na medida em que ela sempre tem o real como objeto de desejo.

(p.19,23).

Esses saberes a que se refere Barthes é o mundo social que a literatura imprime em suas páginas através da linguagem, que se faz comunicação entre o autor, a obra e o público, indissoluvelmente ligados em seus papéis sociais como já nos disse Antônio Cândido, assim, mais uma vez recorremos a este autor para complementar nosso raciocínio:

A literatura é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só

vivem na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. [

...

]

A obra

de arte só está acabada no momento em que se repercute e atua, por quê sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana. Ora, todo processo de comunicação pressupõe um comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que é o público a que se dirige; graças a isso define-se o quarto elemento do seu processo, isto é, o seu efeito. (CÂNDICO.2000;p.36). Como se pode ver Antônio Cândido dá ênfase ao poder transformador da literatura, este poder é a representação da ficção como fonte inesgotável de conhecimentos que o leitor mais atento apreende em cada leitura, pois, é nas entrelinhas, é nas teias que são abertos os caminhos para a configuração de novos sentidos, estimulados previamente pelas experiências individuais de cada receptor, uma vez que entrar em contato com o texto literário é entrar em contato com a vida e com a história de toda uma sociedade.

Essa, é pois a função social da literatura, estimular o leitor para uma maior percepção do mundo que o cerca, fazer este leitor perceber o mundo em sua pluralidade e diversidade, assim isso implica dizer que leitor e leitura atuam na construção de um processo social de mão dupla, desenvolvendo um tipo de ação que se dá em espaço bastante amplo, pois os inumeráveis sentidos atribuídos a um texto literário e dele também absorvidos entram em consonância com

a história de vida de cada um, e ainda, em consonância com o imaginário pessoal e coletivo do indivíduo. Então é nesse entrelaçamento de magia e encantamento, portanto nessa afinidade, que a literatura se confirma como um elemento de construção social que desestabiliza o leitor, quando lhe propõe novas indagações e conseqüentemente novos questionamentos, enfim, inquietações e perplexidades. Seguindo esse raciocínio Carvalho ( 2006) comenta::

O processo de leitura da literatura contribui para a formação do sujeito não só enquanto leitor, mas, sobretudo como indivíduo historicamente situado, uma vez que a interação texto-leitor promove o diálogo entre o conjunto de normas literárias e sociais presentes tanto no texto

literário quanto no imaginário do sujeito.[

]Isso

significa a ampliação de horizontes, visto que a

... incompleta identificação obra-leitor, a partir do embate de diferentes normas literárias e sociais, obriga o indivíduo a pensar sua condição sociohstórica, tendo como conseqüência uma possível mudança de postura diante da sociedade. ( p. 127 e 128). Podemos então dizer que a literatura contribui para incitar o homem, enquanto sujeito social, a

uma maior compreensão do mundo e de sua história, pois ao decifrar signos este homem interpreta as imagens que recebe através da ficção que cria e recria a realidade, trazendo em sua história a história que também é do leitor, realidade e história repletas de sabores, pois cada palavra tem seu gosto e seu saber profundo e fecundo, pois como arte tem a literatura essa liberdade, assim fala Gonçalves (2000):

A arte é uma outra realidade dessa realidade primeira que está aí a nos incomodar a todo instante. Ela instaura uma outra paisagem que se sobrepõe à paisagem do nosso quotidiano, mas não se separa dele, porque emerge de seus temas. A leitura "mal feita" dessa paisagem fantástica é que responde por nossas lacunas gerando sombras e fomentando as ideologias que nos alienam do real. ( p.67). Logo, a literatura ao inquietar o homem tira-o da alienação imposta pela sociedade e ao mesmo tempo ocupa seu espaço como pratica cultural, colocando-se não apenas como objeto de conhecimento, mas de questionamentos. Daí que na leitura crítica do texto literário o tem-se o texto do mundo, a história de todos nós, pois a criticidade é o caminho para que o homem alcance sua cidadania, daí a responsabilidade de uma sociedade que domine a leitura e a escrita ter por obrigação estender e garantir politicamente o domínio de tais atividades a todos os seus cidadãos, através da educação e da escola, é pela escola e pela educação que formamos leitores críticos,indivíduos com pertencimento, com múltiplos olhares capazes de trilharem pela diversidade. Permanentemente há um jogo de relação entre os três elementos citados por Cândido, o público que dá sentido e realidade a obra, esta que reflete as imagens criadas pelo autor e nesse movimento está cravada a inscrição da linguagem como arte que cria e recria sentidos, propiciando magia e encantamento dentro da pluralidade e diversidade cultural que nos são transmitidas pela literatura. Dessa forma, a representação da identidade cultural de um povo é visível na obra de arte, é dessa visibilidade que surge a questão do imaginário, ato de consciência como modo de perceber o mundo que nos circula. Daí a importância da literatura tanto fora como dentro da sala de aula, pois ela traz pela linguagem, ora de forma explícita, ora implícita as cores de cada sociedade, expressando sua cultura, seus conflitos, seus traços, sua história, enfim como disse Rosa o sertão em cada um de nós. Mas para que tudo isso se torne realidade é necessário o envolvimento como já dissemos da escola e da sociedade. E falando em escola e literatura, tema que será abordado posteriormente, é importante colocar aqui antes de iniciarmos, as quatro premissas básicas apontadas pela UNESCO como eixos estruturais da educação contemporânea: aprender a ser; aprender a fazer; aprender a conhecer e aprender a aprender. Esses eixos requerem como se vê, comprometimento dos que fazem a educação e dos que detêm o poder, cada um assumindo o fazer como tarefa social e política. Pois para que o ler e o escrever favoreçam a cidadania é necessária a inclusão dentre outros elementos, da literatura como texto que mantendo um diálogo com a história abre caminhos para o homem aprender a se conhecer, aprender a se ver e principalmente ver o outro, portanto aprender a ser

Existe uma música do Raul Seixas, chamadaEu Sou Egoísta, que diz: “… Minha espada é a guitarra na mão”. Eu nunca toquei guitarra na minha vida e, para falar a verdade, mal sei segurar uma. Contudo, eu também tenho uma espada, que uso para atacar e para me defender: a literatura.

Em minha opinião, existem dois tipos diferentes de literatura: uma serve para distrair; a outra, para incomodar. E é somente quando a literatura incomoda que ela deixa de ser apenas um passatempo, e passa a assumir uma função social das mais importantes.

Devo dizer que, pessoalmente, não tenho nada contra a literatura de entretenimento. Não a desqualifico e nem a ridicularizo, como muitos costumam fazer. Inclusive, conheço e admiro autores que escrevem com o único objetivo de distrair o leitor. Não se aprofundam em nenhum assunto que possa gerar polêmica, limitando-se a contar uma historinha divertida sobre uma situação corriqueira.

Não podem ser considerados textos ruins só por que são comportados e convenientes. Alguns são até muito bons e extremamente divertidos; mas dez dias depois de lê-los você nem se lembra mais do que leu.

Creio que a literatura atinge sua maturidade, e cumpre seu papel social plenamente, quando tira o leitor do lugar onde ele confortavelmente está, e perturba, questiona, instiga o raciocínio, obriga a pensar sob outro ponto de vista. Falo de textos que, anos e anos após sua leitura, você ainda se lembra claramente, por que exigiram um esforço ao qual não estamos acostumados – e quando digo esforço, não é esforço para entender o que um autor confuso e rebuscado quis dizer, mas sim o esforço de sair do lugar-comum onde o leitor está muito bem, obrigado. Ou acha que está.

É esta peneira que define quais títulos ficarão na minha estante, e quais serão passados adiante. Por que os livros que me incomodaram eu sei que acabarei relendo e relendo e relendo, e a cada releitura eles me mostrarão uma nova porta, um novo caminho, um detalhe que eu não havia percebido antes. E incomodarão ainda mais.

Eis a mágica da maturidade literária.

No entanto, a maioria dos novos autores ainda produz literatura de recreação. Escrevem livros bons, de relativa qualidade, mas que são apenas isso: bons e de relativa qualidade.

E não é por que o novo autor não tem capacidade ou condições de escrever um texto instigante e incomodativo; é por que, geralmente, o novo autor quer da literatura somente confetes sobre a cabeça, e textos que instigam e incomodam são mais fáceis de serem descartados pela grande mídia e pelo grande público – que é formado, infelizmente, por leitores muitas vezes limitados e facilmente manipulados.

Não acho que o objetivo final do escritor deva ser a fama. Pois, quando é mais importante ser conhecido do que ser reconhecido, as chances de se tornar um autor medíocre e irrelevante aumentam substancialmente.

Ademais, para escrever um livro que obrigue o leitor a pensar é necessário que o próprio autor pense sobre o que irá escrever antes de escrever – e são poucos os que trabalham assim. A maioria senta na frente do computador e passa a digitar com frenesi, pois, ingenuamente, acredita que literatura é mais inspiração do que transpiração.

Todavia, devo dizer que não são somente os novos autores que costumam produzir literatura de entretenimento. Muitos escritores renomados, e alguns até consagrados, e que publicam

através de grandes selos e em grandes veículos de comunicação, são, também, autores que não pretendem incomodar ninguém. Querem apenas contar uma boa história e depois ir para casa, dormir em paz. Muitos construíram uma carreira invejável escrevendo livros que o leitor esquecerá dez dias depois de lê-los.

Não estou dizendo, naturalmente, que eu sou uma escritora que perturba; que o meu texto já atingiu sua maturidade social, e deixou de ser apenas entretenimento. Bom se fosse! Mas posso garantir que é o que eu procuro, incansavelmente. Não foi nem uma e nem duas vezes que ouvi de amigos e familiares: “Não escreva sobre isso, Jana”. “Tu só vai se incomodar se tocar neste assunto”. “Melhor não mexer no vespeiro”. “Fica na tua, guria!”.

Nunca dei ouvidos para estes amigos e familiares. Porque, se não é para escrever sobre o que eu não devo escrever; se não é para incomodar; se não é para mexer no vespeiro; qual a razão de escrever?

A literatura mansa e politicamente correta tem o seu valor, sem dúvidas. Mas é a literatura indomada e politicamente incorreta que faz a diferença, e distingue os grandes dos médios e pequenos.

Pense nisso quando for escrever, amigo autor.

Não se esqueça de que a literatura é, provavelmente, a única espada que você possui para se defender, e também para atacar. E se você entregar esta espada ao inimigo, ou se a pendurar na parede como um enfeite bonitinho, eu pergunto: o que sobrará para você?

Talvez não venham os aplausos que você tanto espera, pois muitos leitores ficam tão desconfortáveis por serem arrancados de seus respectivos sofás, que passam a ignorar o autor – apesar de dificilmente esquecê-lo.

Talvez você nunca escreva para grandes veículos de comunicação, por que poucos deles estão dispostos a assumir colunistas capazes de dar uma opinião concreta, consistente, sem maquiagem (“afinal, o anunciante pode não gostar”).

Talvez você nunca publique por uma grande editora, pois elas também preferem livros de entretenimento, que vendem mais e incomodam menos.

Mas eu acho que este é um preço baixo a se pagar.

Caro é escrever somente o que os outros querem ler, e falar apenas o que os outros querem ouvir, e ser nada além do que os outros querem que você seja: pacífico, obediente, domesticado.

Já existem muitos escritores e artistas fazendo exatamente o que esperam que eles façam. Não precisamos de mais do mesmo.

Então, caro amigo autor: não abra mão de usar a espada que tem nas mãos.

Porque, como disse o escritor Fausto Wolff, “Antes de voltar a escrever, eu quero poder escolher o meu lado do ringue”.

O ato da leitura é muito mais do que simplesmente ler um artigo de revista, um livro, um jornal. Ler se tornou uma necessidade, é participar ativamente de uma sociedade, desenvolver a capacidade verbal, descobrir o universo através das palavras, além do fato que ao final de cada leitura nos enriquecemos com novas idéias, experiências. Através de um livro, milhares de crianças podem descobrir um universo de aventuras, um mundo só seu, repleto de magia que é concedido nas páginas de um livro. A leitura é uma atividade prazerosa e poderosa, pois desenvolve uma enorme capacidade de criar, traz conhecimentos, promovendo uma nova visão do mundo. O leitor estabelece uma relação dinâmica entre a fantasia, encontrada nos universos dos livros e a realidade encontrada em seu meio social. A criatividade, a imaginação o raciocínio se sobrepõem diante deste magnífico cenário, criando um palco de possibilidades. Cada leitor ao fazer uma leitura, trava um contato direto com o texto, trazendo para o seu objeto de

leitura as suas experiências pessoais, suas ideologias, seus conceitos, é isto que faz o ato de ler tão importante. O leitor se tornará um co-autor do texto, deixando suas características e impressões, segundo Josef Soares 16 , “cada leitura é uma nova escritura de um texto. O ato de criação não estaria, assim, na escrita, mas na leitura, o verdadeiro produtor não seria o autor,

mas o leitor”. Ler não é descobrir o que o autor quis nos dizer, “[

...

] ao ler, o

leitor trabalha produzindo significações e nesse trabalho que ele se constrói leitor. Suas leituras prévias, suas histórias como leitor, estão presentes como condição de seu trabalho de leitura e esse trabalho o constitui como leitor e assim sucessivamente”17 . Passamos a reconstruir, por exemplo, quadros complexos, envolvendo personagens, ações, fatos, criamos situações, mundos diversos e particulares, onde cada indivíduo passa ser o mentor da sua própria imaginação. São várias as qualidades despertadas pelo hábito da leitura nas crianças, como por exemplo, a criatividade à medida que lhe proporciona oportunidades de conhecer alternativas para questões reais e cotidianas. A visão de mundo, o conhecimento de culturas, situações, pessoas e idéias diferentes, tais conceitos nos auxiliariam, por exemplo, no combate ao preconceito, abrindo assim a mente para o diferente. O vocabulário de uma pessoa que tem o hábito de ler é amplo, pois a aptidão para ler com proficiência é o mais significativo indicador de bom desempenho lingüístico, permitindo ao leitor ter uma quantidade de informações sobre quase todos os domínios do conhecimento, sabendo hierarquizá-las, estabelecendo as devidas correlações entre elas e discernindo as que se implicam das que se excluem, utilizando-as apropriadamente como recursos argumentativos para sustentar suas idéias. A capacidade de compreensão adquirida pela interpretação é fundamental. No Brasil, o número de analfabetos funcional é alarmante, trata-se daquelas pessoas que sabem ler e escrever, mas que não compreendem o que estão lendo. O hábito de leitura neste ponto é primordial, pois quanto mais se lê, mais aumenta a capacidade de compreensão do mundo de cada indivíduo, lembrando que isso vale para qualquer tipo de leitura, desde os célebres e clássicos romances como a leitura diária de uma crônica num jornal.

Outro dos pontos principais que não podemos deixar de citar é a família, pois é através dela que normalmente surge o primeiro contato com a leitura. Porém, em uma sociedade em que a maioria dos pais trabalha fora, ou não tiveram acesso a leitura, o tempo para dedicar-se à formação de

seus filhos como leitores é cada vez menor. Então, resta à escola a responsabilidade de desenvolver esta habilidade em seus alunos, ressaltando que no âmbito escolar, é o seu caráter interdisciplinar o traço de maior relevo, já que interfere decisivamente no aprendizado de todas as demais matérias do currículo. A escola, dessa forma, toma como prioridade a aprendizagem da leitura, „aprender a ler‟ para, então „ler para aprender‟, quer dizer, apropriar-se de uma competência para compreender os diferentes tipos de textos, existentes no seu contexto social, e também fora dele.18 Devemos motivar os alunos para que vislumbrem as diversas e diferentes razões para lermos. Lemos para obter informações, para receber instruções, para obter e aprofundar conhecimentos, para passatempo, por prazer, por gosto, para estabelecer comunicação com outrem, para melhor compreender o meio em que vivemos, para encontrar, à distância, com quem trocar idéias sobre tudo aquilo que pensamos do mundo exterior e interior. Nesse sentido, a leitura tem uma função ao mesmo tempo social e individual. E é neste universo que a criança deverá ser „convidada‟ a se integrar.

A maior parte das pessoas hoje não tem por hábito a leitura diária de um jornal, uma revista, como fim de manter-se atualizado e integrado com as diversas notícias que surgem a cada instante. Tais pessoas mantêm suas vidas restritas apenas a comunicação oral e dificilmente ampliam seus horizontes. Por terem opiniões parecidas com as suas, como uma conversa informal entre amigos, forma-se um grande círculo vicioso, onde as informações ficam restritas, não havendo uma opinião focada crítica e concreta, somente dados expostos de formas simples e sem julgamentos. Segundo Scarpa19, “é nos livros que temos a chance de entrar em contato com o desconhecido”. É primordial em meio à globalização incentivar a formação dos leitores, garantindo assim uma convivência pacífica com as diversidades que nos cerca. Quando lemos um bom livro e nos deixamos ser transportados para uma realidade paralela, onde à medida que cada página é virada, o leitor é submetido a universo único, repleto de descobertas, encantamento e diversão. Não nos limitamos a um só tipo de leitor, ou o que cada leitor está lendo e sim o prazer que ele mantém ao ler tal livro ou tal poesia. O papel da escola é fundamental nesse processo, e o professor é seu o maior mediador. Nem sempre ele se disponibiliza, além de não dispor, às vezes, de recursos adequados para realizar tais atividades, ou simplesmente não sabem como implementá-las. Em um país que ainda sofre com a deficiência no ensino público e com o alto índice de analfabetismo funcional, todas as tentativas que incentivem e transformem nossos brasileiros em leitores são extremamente bem-vindas. Segundo as estatísticas apresentadas pela Revista Nova Escola, o último Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgado no início de 2008 pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, revela que apenas 28% dos brasileiros com idade entre 15 e 64 anos têm domínio pleno da leitura e da escrita, conseguem ler textos longos, relacionar os assuntos abordados, ou menos comparar os dados apresentados e os 72% possuem habilidades básicas e rudimentares limitando-se à compreensão de títulos, frases e textos curtos.20 Uma das maiores dificuldades encontradas pelos adolescentes está na forma de ler. O livro oferece uma mensagem elaborada a ser decifrada e compreendida, porém para obter este saber é

necessário decifrar os signos escritos e compreendê-los. Acontece que maioria dos casos os alunos somente „passam os olhos‟ sobre o texto e não compreendem o que está sendo proposto pelo autor.

Muitos estudantes lêem sem compreender, decifram o texto sem compreender o que o texto realmente traz de informatividade. É importante salientar que, para um leitor capacitado, a principal proposta da leitura é compreender qual é a mensagem, com o objetivo de buscar analisar todos os pontos abordados pelo autor de uma forma coerente e ágil. Já para um leitor inexperiente, como por exemplo, uma criança, quando aprende a ler, cuja principal tarefa é decifra as letras, sua leitura será, provavelmente, mais lenta, antes da compreensão da mensagem, ela deverá discriminar e identificar as letras, combinando-as entre si, reconhecer o seu significado, relacioná- las e por fim compreender a mensagem daquele texto. Podemos estimular estas crianças, fazendo uma leitura em voz alta dos textos trabalhados, mostrando a elas modelos de leitura, pois o professor é o modelo de leitor. Desta forma elas podem se orientar melhor, inclusive guiando-se com o dedo, e aos poucos as frases serão entendidas. Logicamente, devemos relacionar a leitura com bons hábitos, o estímulo deve começar cedo, pois são importantes para o desenvolvimento de relações produtivas como o saber garantindo assim um melhor aprendizado. O fracasso na leitura pode ocasionar diversos problemas na vida social e escolar do indivíduo, e neste contexto, de modo geral, a leitura ainda é entendida como uma simples compreensão do sentido literal das palavras, ou seja, do sentido contido no dicionário e atribuído aos signos do texto. E como toda palavra é referência lingüística ao mundo, o educador acaba se contentando com a leitura da mensagem literal do texto e com os efeitos empíricos desta mensagem, podendo gerar como conseqüência o mau rendimento escolar. Mesmo na vida social, a criança ou adolescente não possuirá um senso crítico, não compreenderá o mundo em que vive, será o que se entende por analfabeto funcional. Ler, de fato, não é tarefa simples, pois exige do leitor o trabalho sensível e inteligente de desconstrução do texto, ou seja, de reconhecimento do jogo complexo dos signos, tornando aquilo que parece trivial aos olhos de um leitor pouco crítico num modo simbólico e profundo de revelação particular da realidade humana. No entanto, o leitor ideal existe; e este não pode restringir o ato da leitura ao movimento único de decifração lingüística da mensagem do texto, mas deve completar este movimento receptivo pelo reconhecimento do uso social e ideológico dos signos, ativado pelo autor, na construção desta mensagem. Assim, autor e leitor, sujeitos históricos inseridos num determinado contexto, momento e espaço sociais, são elementos igualmente determinantes dos efeitos de sentido de um texto. Em outros termos, relacionar os signos de um texto com os sujeitos interlocutores implica competência intelectual do leitor para ler não só o conteúdo literal da mensagem, mas, sobretudo para descobrir as estratégias e mecanismos sociais de construção do sentido final da mensagem. Diversos fatores nos levam a concluir que vários sujeitos possuem hábitos inadequados de leitura. 1.4 O que a literatura pode resgatar e nos ensinar? A leitura por si só nos traz um universo todo especial, e é por este tato que tentamos reconhecer o mundo que nos cerca e a nossa própria essência dentro de um simples texto. A experiência da leitura é a nossa aventura, a história

romântica que vivemos pelo simples ato de abrir um livro, algo do encanto da descoberta da infância permanece em cada livro, em cada troca de página. Para muitos a leitura é sinal de felicidade. Quanto há de lúdico em uma breve leitura? Basta observar os desacertos das crianças no emprego correto das palavras. Quando a criança, ao começar a ler, ela seleciona cada palavra, cada som, e brinca com eles, ela se arrisca reordenando as frases e os sons de acordo com sua realidade, conforme o seu desejo. A experiência da leitura tem um poder estranho, uma energia única que cerca cada leitor, acende a imaginação, despertando em cada um a capacidade de imaginar o como seria e o que poderia ser. Dentre muitos poetas e pensadores, podemos nos reportar ao primeiro autor que referiu-se à leitura como sinônimo de alegria e felicidade.

Os benefícios que a leitura promove em sua sociedade são inúmeros, o resgate da cidadania, desenvolvimento de um olhar crítico e competências, a integração social, a ampliação de seus horizontes e de seu vocabulário além de profissionais capacitados e competentes. A leitura deve complementar o domínio da escrita e cabe ao professor e aos pais a estimular o pensar, o refletir, o participar e o agir destes indivíduos. A leitura é um dos meios mais importantes para as novas aprendizagens, possibilitando a construção e o fortalecimento de idéias e ações, ninguém se torna um leitor por obrigação, ninguém nasce gostando de leitura. A influência dos adultos, ou seja, os pais, são muito importantes à medida em que eles são vistos lendo ou escrevendo perto dos pequenos.

Na Literatura, o homem, por meio da palavra e de sua capacidade criadora, recorta parte da realidade, cria o texto por meio do qual se manifesta o seu discurso, que está presente na obra de arte. A Literatura é a arte da palavra, ou melhor, dizendo, a palavra é a matéria-prima da Literatura. Na Literatura, a obra, por meio da palavra, traz um olhar do belo. Assim, os diversos textos passam a ter várias atribuições no seio da vida social. São vistos como ficcionais, despertam emoções, suscitam o prazer do texto e constituem, geralmente, não imitações da vida, mas metáforas da vida, que conduzem a uma melhor compreensão desta. A tarefa prazerosa de um leitor, não pode sustentar-se no simples reconhecimento da história lida ou contada, mas deve expandir-se e concentrar-se na apreensão da complexidade e sedução da leitura, que aguarda o leitor, como um observador capaz de dividir com o autor um nível profundo de comunicação intelectual, filosófica e emocional, em que a cada „lambida de dedo‟ para virar uma página se constitua num espetáculo de descobertas e emoções. Concluímos que a leitura, desde sempre formou seus pilares dentro da sociedade, e é sem sombra de dúvida, fonte de inspiração, sabedoria e conhecimento. É assim que queremos e acreditamos que sejam os leitores que pretendemos formar.

Formar leitores não é tarefa fácil. É preciso que família e escola trabalhem em conjunto. O interesse pela leitura deve ser estimulado desde a infância, na família, pois é a primeira instituição, seguida pela escola. Está previsto na Lei 8069, no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre outros direitos, o direito à

cultura. Infelizmente tanto família quanto escola têm falhado com esta obrigação. É preciso que a leitura também seja adequada à idade, envolvente para que desperte a magia, a curiosidade e o prazer por ler. Jogar os livros obrigatórios em uma mesa de sala de aula não é a melhor forma, ao contrário, a má vontade e a obrigatoriedade não geram prazer.

O hábito da leitura é um processo longo quando não criado na infância, e o que se vê em muitas escolas públicas é o descaso em relação à formação de leitores. Cabe aos pais e professores criar esse hábito, buscar os meios e as formas, ao invés da omissão, para despertar o interesse da criança e do adolescente. Segundo José Breves Filho “uma boa leitura restaura a dimensão humana e atua como um organizador da mente, nutrindo o espírito e aguçando a sensibilidade“. É dado mais valor à gramática do que ao pensamento do aluno. Eu já presenciei isso: um aluno escreveu uma história fantástica e teve nota baixíssima pela quantidade de erros de português. O professor deve ser sensível ao lado literário. Não que a correção gramatical não seja importante, mas é preciso valorizar para não deixar marcas profundas. Um bom exemplo de valorização é a obra de Ziraldo com “Uma professora muito maluquinha“.

O professor tem que ser um desafiador. Ensinar o aluno não só a ler, mas a escrever suas idéias, pensamentos, como no filme “Escritores da Liberdade“. Piaget diz que é na adolescência que o ser humano tenta dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Defendo a leitura como ponto de partida para uma vida adulta normal, prazerosa, na convivência com a sociedade. Saber driblar com as diferenças, pois a leitura transforma o indivíduo e sua possibilidade de escolha é bem mais racional. A função da literatura é formar a criança em um adulto capaz de enfrentar a vida. É na infância que a criança aprende a fazer suas escolhas, e uma boa literatura vai lhe dar sustentabilidade. Primeiro ela é ouvinte, e é perceptível o prazer que sente ao ouvir uma historinha, querendo participar. Quando aprende a ler, procura por conta própria a que lhe agrada. Na primeira fase os pais são responsáveis por este futuro leitor, e a preguiça de contar uma história pode ter resultados surpreendentes na vida adulta.

Se os pais se utilizarem da literatura, que é vasta, para o crescimento cultural e na formação de um cidadão, com certeza não estarão na adolescência de seus

filhos em consultórios psiquiátricos, clínicas para drogados entre tantas outras desgraças. Um simples gesto transformador (que é o de contar uma história, mostrar o caminho da literatura e transformá-lo num leitor) pode ser crucial na formação do filho. Vejo na literatura um remédio para uma sociedade doente como é a nossa. Um remédio natural, e sem contra indicações, que deve ser oferecido à criança com prazer e dedicação. Jamais como obrigação, pois a literatura é indispensável para o desenvolvimento.

É urgente a necessidade de uma nova proposta de ensino de literatura nas escolas, além de banir de vez o sistema arcaico, de leituras impostas. Descobrir o que o aluno quer ler é fundamental, pois cada leitor é único em suas experiências. É na literatura que tudo é permitido. Se você ama seu filho, faça com que ele seja um leitor. A criança é como uma esponja: dependendo do que apresentarmos a ela é que será o que vai absorver: “água suja ou água limpa”.

filhos em consultórios psiquiátricos, clínicas para drogados entre tantas outras desgraças. Um simples gesto transformador (que

O PAPEL DA LEITURA NA FORMAÇÃO DO CIDADÃO - por Inajá Martins de Almeida

Não consigo ver um cidadão completo, que não saiba ler e interpretar as situações que o rodeiam; em minha concepção, leitura não significa simplesmente o quê os textos nos apresentam, mas qualquer percepção que tivermos no nosso cotidiano:

das conversas entre amigos, da fala do professor a nossa frente, da interpretação de um filme – o quê os personagens nos transmitem através da tela – dos homens de Deus nos púlpitos ao ministrar a Palavra aos fiéis. Alberto Manguel, escritor argentino, entende a leitura como forma de decifrar sinais, interpretar códigos e se expressa:

Eu vejo a leitura não apenas como um modo de entender textos, mas também de decifrar sinais. O ser humano é um decifrador de sinais. Nós interpretamos até mesmo códigos que não são feitos para serem lidos, como o relevo, o céu, o rosto das pessoas. (1)

Nas Cartas que o apóstolo Paulo enviava às igrejas e cidadãos da sua época – esta aos Coríntios – uma passagem em especial me chamou a atenção. Escrita há dois mil anos atrás, exortava o povo a se expressar de forma clara, dizendo que:

se com a língua não falardes palavras bem distintas, como se entenderá o que se diz? Estareis como que falando para o ar” e acrescenta dizendo que “há infinidade de sons e contudo nenhum sem sentido, e que se não soubermos

...

interpretar esses sons, seremos como bárbaros para o que fala assim como bárbaro para o que ouve. (1Cr 14:9-11) (2)

Nada mais atual – essa não é a realidade que vivemos?

Pesquisas mostram que a pessoa que não lê, e quando lê não consegue fazer uma análise do que leu, tem dificuldade de se relacionar, de se expressar no convívio social e profissional; torna-se pobre de vocabulário. Não foi exatamente isso que nos disse o apóstolo Paulo?

Quando nos deparamos com índices de alfabetização me pergunto: ser alfabetizado simplesmente dá ao indivíduo o pleno domínio de interpretação? Ou lhe dá conhecimentos vagos para decifrar códigos esparsos.

Claro que o processo de alfabetização não se dá de um minuto para outro; demanda anos e anos de aperfeiçoamento e, contudo, não chegamos a abarcar todo o conhecimento, ainda que vivamos longa vida. O mesmo Manguel afirma que “quanto mais você lê, menos você conhece”. (1)

Vemos que o universo informacional é deveras complexo – essa também é uma leitura: a complexidade do conhecimento – e não basta ser profundamente conhecedor de um assunto e, em contra partida, não poder interagir com as pessoas em nosso cotidiano; não se permite olhar apenas para um lado do conhecimento, é necessário olhar para todos os lados. No equilíbrio é que devemos nos apoiar.

Ainda que quanto mais lemos menos conheçamos, imperioso se faz continuar essa busca incessante por conhecer, por abrir horizontes. Percebo que quanto mais leio, mais sinto necessidade de novas leituras: para mim leitura é hábito, é vício, é deleito, é prazer.

A Internet trouxe-nos uma oportunidade impar, pois ela faz com que naveguemos de um assunto para outro, formando uma verdadeira colcha de retalhos; com ela a leitura chega a nossos lares, os livros estão mais accessíveis às nossas mãos, as informações chegam mais rapidamente ao nosso conhecimento. Quando muitos achavam que com o advento dos computadores, da Internet, a leitura iria ser relegada a segundo plano, percebo que temos mais chance de buscar assuntos e dos mais variados possíveis, mas este é tema para outro momento, devido ao fascínio que nos envolve.

O início da alfabetização se dá de forma semelhante para todas as pessoas, foi para mim e não será diferente para os demais, mas o que difere o simplesmente alfabetizado – aquele que tem o básico conhecimento das letras – é que, há os que

vão além; tomam posse desse conhecimento e passam à análise e à crítica; querem, portanto, estar presentes no processo de criação, de verbalização; querem sim participar e não apenas serem partícipes de mudanças.

A experiência nos diz que, quanto mais lemos, mais gostamos de ler, e quanto mais nos aprimoramos na leitura, mais autonomia temos para buscar nos livros a fonte de prazer e conhecimento.

Ler é tomar posse do livro. Livro que nos fala por meio das palavras. Palavras que vão tomando forma e cor, aos olhos atentos do leitor. Palavras que podem descobrir as vozes dos enredos, as cenas que desfilam através das entrelinhas do texto.

Jean Paul Sartre, extasiado com a interpretação que sua mãe fazia, ao contar-lhe histórias para embalar-lhe o sono, premia-nos com o texto As palavras, onde nos transporta, também, para aquele rosto que transformava-se a cada fala; para aquela voz que ele desconhecia e por fim, para aquela resposta aos porquês daquela performance:

daquele rosto de estátua saiu uma voz de gesso. Perdi a cabeça: quem estava contando? O quê? E a quem? Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de conivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava. (3)

Ler é reler, compreender e interpretar; pousar em cada palavra e desvendar seu mundo mágico.

Se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes a partir de uma palavra que, ao me encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve. (4)

Interessante notar a fala do autor. As palavras que vão se entrelaçando e formando o texto. Tive a oportunidade de conhecer o autor, numa palestra proferida para crianças de 2ª e 3ª séries do ensino fundamental. Naquele momento as crianças queriam tocá-lo, senti-lo, pois ele era real para elas. Ele havia saído do papel e estava ali presente – de carne e osso. Um dos meninos disse que gostava de escrever e que iria ser escritor quando crescesse. Ele achava que escritor era só aquele que já tinha morrido; não imaginava uma pessoa viva, ali na sua frente. Isso foi muito interessante, ao que o próprio autor disse assim pensar quando criança.

Sim, quando iniciamos no mundo mágico das letras, para nós o escritor é algo que não conseguimos perceber, se é real ou fantástico, pois a impressão que nos passa, através das histórias, representa a fantasia de nossa mente. Feliz o autor que consegue prender a atenção do leitor e fazer com que ele tenha gosto para nova leitura e outras tantas.

Na minha infância, Monteiro Lobato era o que nos encantava com seu personagem Emília. Ela ainda não havia saído do papel e ocupado as telas. Tive a grata satisfação de conhecer o sítio do pica-pau amarelo em Taubaté e realmente é deslumbrante; aí sim você começa a entrar dentro da história e fazer a sua própria.

Hoje as crianças vivem um mundo diferente; parece que as coisas já estão mais prontas; elas não precisam fabricar, quebrar a cabeça, sonhar, como as crianças no passado, onde as dificuldades eram maiores, mas a satisfação da conquista muito maior ainda. Eu sou desse tempo; a televisão entrou em minha residência quando eu tinha 9 anos de idade, e que maravilha que era: a família reunida vendo aquelas imagens em preto e branco. O silêncio, o fascínio pairava no ar. A expectativa da hora em que a emissora iria entrar no ar. Hoje ela permanece 24 horas ininterruptas e, muitas vezes, com programação inexpressiva. Não havia tanta preocupação com a formação do cidadão, mas havia cidadãos de verdade; homens, chefe de família realmente íntegros, dignos: – o que aconteceu então; aonde foi que nos perdemos, aí fico com a palavra de Machado de Assis quando diz: mudaria o natal ou mudei eu (15)

Por ser bibliotecária, e muitas vezes estar envolvida com milhares de livros para catalogar, para analisar, para comprar, para indicar, faço uma leitura rápida – leitura técnica como chamamos - porém, muitas das vezes separo-o para poder lê- lo mais tarde.

Nessas minhas observações, nesse universo informacional que me rodeia, pude então perceber que cada um lê com os olhos que tem, e interpreta a partir de onde pisam seus pés e que: “cada ponto de vista é a vista de um ponto” (5) e que o “valor de um livro está em quantas maneiras de leitura ele permite, nos diferentes níveis que ele pode ser lido”(1). Isso denota o período em que foi escrito e as gerações que ele ultrapassou. Vemos então autores que são lidos de época em época, seus temas transformados em novelas, mini séries: são eternos.

Deparei-me então com Milo, um garoto que resolve fazer uma viagem, a qual se transforma num passeio incomum. Na sua andança, passa por uma cidade, cuja economia se baseava única e exclusivamente na produção e comércio de palavras, assim, conhece a Doce Rima e a Razão Pura. Mantém contato com a família

especializada em pontos de vista: descobre que o pai prevê as coisas, a mãe revê as coisas, o irmão entrevê as coisas, o tio vê o outro lado de todas as coisas e a irmã Alice, vê o que existe por debaixo das coisas, assim Milo não tem como não ver as coisas de outra maneira. (6)

Ao estar agrupando informações para compor este texto, percebi então que uma leitura remete a outra e ao prazer de outras mais; pude entender – a proeza que o autor conseguiu – que, ao jogar com palavras, fez com que seu personagem mudasse a idéia do lugar. Isso também tem que acontecer conosco, e de qual maneira podemos chegar a esse ponto senão através de várias leituras? Como vamos então discordar de Alberto Manguel quando nos ensina que a leitura é a mais civilizada das paixões e que sua história é uma celebração da alegria e da liberdade. (7)

Todavia, para conseguirmos entender como alguém lê, necessitamos saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo: como vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.

Nesse sentido, cada leitor se torna um co-autor, interpretando, recontando a leitura, sob seu ponto de vista, fazendo com que os livros tenham seu próprio destino. Não há, portanto, história que não possa ser contada de diferentes formas; ao recontarmos uma história, mostramos nossa percepção e nosso ponto de vista, sem contudo nos distanciarmos do tema principal.

Costumo dizer que em tudo vejo a leitura. A leitura da natureza, quando apreciamos uma árvore: como são seus galhos, suas folhas, se frondosa, se esguia, se encorpada; a leitura das expressões do cachorro que aguarda nossa chegada; seus olhos que brilham, seu rabo que acena, ainda que seja curto, quase imperceptível como é o caso do meu Tutti – seus pulos, que expressam alegria, sua corrida para lá e para cá, querendo dizer: – como estou feliz com sua chegada. Puxa como você demorou!

A leitura daquela receita deliciosa e que lentamente vamos seguindo, a fim de compor o prato desejado. A leitura daquela cena que vimos na rua e que tanto nos encantou: o sorriso daquela criança que veio ao nosso encontro, sem ao menos nos conhecer, mas que se aproximou e feliz nos mostrou seu vestido novo. Ah! Que sensação boa interpretar o que aquela criança pensou naquele momento; e seus olhos como brilhavam e seus lábios mostravam aqueles dentinhos brancos, num sorriso radiante.

Justino Alves Lima diz que:

Ler é olhar o mundo para enxergar mais além do que o nosso interior. É entender o processo coletivo. É observar a tribo para analisar a globalização. É ler imagens para ultrapassar a aventura. É aventurar-se pelos escaninhos mais recônditos do subconsciente para entender a lucidez dos discursos que untados em votos (eletrônicos para serem modernos) prometem zerar qualquer coisa. (8)

E vai mais além ao afirmar que “leitura é essencial. Não mata a fome, sequer a de espírito como se insinua pois espírito não tem fome, mas mata a falta de lucidez, cria consciência”.(8)

Paulo Freire diz que:

o estudo sério de um livro como de um artigo de revista, implica não somente numa penetração critica em seu conteúdo básico, mas também numa sensibilidade aguda, numa permanente inquietação intelectual, num estado de predisposição à busca. (9)

Não é em vão que pessoas letradas tanto batalham em prol de um maior número possível de leitores, como é o caso de Otaviano Di Fiore, que preocupado com a questão da leitura em nosso país enfatiza:

precisamos nos tornar uma nação leitora, porque o cidadão comum de uma nação moderna, é alguém que chega à vida adulta, capacitado para ler e entender manuais, embalagens de produtos, instruções de uso e advertências, relatórios, poesias, formulários, atlas, contos, gráficos, tabelas, artigos de jornal e revista e todas as demais formas da escrita cotidiana impressa ou eletrônica. (10)

Depreendemos então que o direito que temos pela leitura é que nos faz desenvolver nossa capacidade intelectual e espiritual de aprender e progredir. De minha parte, não consigo ver a vida sem a leitura, tanto que formamos a ONG Educare est Vita – Educação é Vida, a qual trabalha com projetos vários e mostra que somente através das diferentes leituras que venhamos a fazer, é que poderemos agir e interagir no espaço que ocupamos.

Estamos vivendo o melhor período da humanidade; estamos em plena Era da Informação, razão pela qual temos que agir mais com o nosso intelecto, deixando, portanto, a força bruta de lado.

A arte de ler e de escrever foi durante milhares de anos monopólio sagrado de pequenas elites. Por volta de 1750, no dealbar da revolução industrial, haviam decorrido quase 5 mil anos sobre o aparecimento dos primeiros rudimentos da arte

da escrita. Contudo, mais de 90% da população mundiaI não tinham acesso à arte.

(11)

A partir do texto citado, percebemos que a leitura não era domínio de todas as pessoas; apenas uma minoria privilegiada tinha acesso aos livros, e podiam desvendar o mistério dos símbolos que envolvem as letras e a escrita.

Hoje, porém, a leitura considerada um dos meios mais eficazes para o desenvolvimento da aprendizagem, permite romper barreiras educacionais.

Qual o técnico que não tem necessidade em ler um manual ao instalar uma máquina; a dona de casa ao instalar um aparelho eletrônico; a criança ao contato com o vídeo game, o celular, o computador, em tudo temos de buscar antes conhecer as instruções do fabricante. Até a necessidade de nos informarmos com as bulas contidas nos medicamentos. Assim, nada justifica a ausência de leitura: os jornais e revistas nas bancas, as publicidades espalhadas pela cidade, o letreiro dos ônibus. Vemos assim que em nosso cotidiano a leitura está presente em todos os momentos.

Hoje, o leitor tem muito mais acesso à palavra escrita, aos meios informacionais do que no passado, seja através da escola, através dos produtos de consumo e dos meios de comunicação. Na televisão, essencialmente imagem, ela está presente em anúncios, títulos dos programas, muito embora esses contatos limitam-se a mera identificação, não levando à leitura critica e reflexiva.

Alberto Manguel, por diversas vezes citado no texto, por ser uma das maiores expressões no mundo da leitura, em seu livro Lendo Imagens diz que ler não é apenas interpretar textos. Nele o autor reúne autores como Picasso, Carvaggio e Aleijadinho, a fim de “ressaltar a necessidade de entender elementos iconográficos nas sociedades dominadas pelo visual que se espalham pelo mundo inteiro”. (7)

Depreendemos então que quanto mais nos aproximamos da leitura, mais condições temos de perceber a diferença entre um texto e outro; mais facilidade encontramos para interpretar o mundo e as pessoas que nos cercam.

Contudo, embora sabedores que somos de que hoje as condições para a leitura e informação são muito mais eficazes do que outrora, presente em anúncios nas ruas, na televisão, através da imagem, todo esse contingente de comunicação não leva o leitor a uma reflexão crítica, logo não pode criar subsídios para que o mesmo venha a transformar a realidade que o cerca.

O que fazer então? Temos, sim, que pensar na leitura que inquieta, provoca sensações, desperta senso crítico; torna-nos partícipes de uma transformação

intelectual, material e espiritual, e porque não dizer: leitura que nos dê prazer, que nos seduza, que nos faça viajar “por mares nunca dantes navegados”. (12)

Voltamos ao questionamento de Ottaviano quando diz que: “se o Brasil deseja ser uma nação leitora, também precisará produzir seus leitores em larga escala”. (10).

Bem sabemos que apenas saber ler, ou mais precisamente, ser alfabetizado, não significa um convívio constante com a leitura.

Para se formar uma massa crítica, é necessário que o hábito da leitura se forme desde tenra infância; que os alfabetizadores transmitam o prazer de ter um livro em nossas mãos, manuseá-lo, sentir o cheiro do papel, extasiar-se com as cores das gravuras, deleitar-se com as letras que formam uma a uma o conteúdo, e nos remete ao imaginário.

O alfabetizador tem o dever de mostrar que “o livro é a maior invenção da história e a base de todas as outras conquistas da civilização”, como nos fala Darcy Ribeiro. (10). E que:

dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da vista; o telefone é extensão da voz; temos o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. (13)

De minha parte só posso dizer que sendo nós os maiores beneficiados desse legado – o livro – porque então não tomarmos posse daquilo que nos pertence de fato e direito; se o momento é este, se o momento é o agora, vamos fazer a diferença começando por criar em nós o hábito pela leitura, e nos tornar essa nação leitora que nos exorta Ottaviano.

E já que o assunto versado é o papel da leitura na formação do cidadão, muito mais poderia discorrer; citar outros tantos textos; falar de pessoas, porém, caro leitor – que ficou comigo até este momento – quero deixar que você faça a sua própria leitura; quero deixar que você crie, invente, conte uma história, ou quem sabe até a sua própria história; que você leitor passe para seu interlocutor as suas impressões, assim como, por esses breves momentos quis registrar as minhas próprias, e você verá como é bom e gratificante, como o foi para mim.

Que você leitor, saia da sua área de conforto, saia do seu lugar comum e leve consigo um pedaço de papel e uma caneta e comece a registrar tudo o que aparece a sua frente; faça uma leitura e a partir daí transporte-a para o papel, ou divida com alguém: fale, seja compreendido, você verá que tudo depende do primeiro

passo.

Geraldo Vandré na década de 60 – Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores (14) – em plena ditadura militar, falando de flores, alertava o povo sobre a opressão que os soldados armados impunham, mas que caminhando e cantando, seguindo a nossa canção interior poderíamos sim ensinar uma nova lição; mudar o curso da vida; contar a nossa própria história: sermos, enfim a própria história.

Pra não dizer que não falei das flores

Caminhando e Cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não Nas escolas, nas ruas, campos, construções Caminhando e Cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora que esperar não é saber Quem sabe faz a hora não espera acontecer Vem, vamos embora que esperar não é saber Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Pelos campos a fome em grandes plantações Pelas ruas marchando indecisos cordões Ainda fazem da flor seu mais forte refrão E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não Quase todos perdidos de armas na mão Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição De morrer pela pátria e viver sem razão

Nas escolas, nas ruas, campos, construções Somos todos soldados armados ou não Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão A certeza na frente, a historia na mão Caminhando e cantando e seguindo a canção Aprendendo e ensinando uma nova lição

Textos citados

(1) ALVES, Rodrigo. Atrás das imagens, as palavras. jbonline.terra.com.br - Jornal do Brasil. 4 de setembro 2001 (entrevista com Alberto Manguel – escritor argentino). Acesso em agosto de 2002

(2) PAULO – 1ª Carta aos Coríntios cap. 14 versículos 9 à 11 (Bíblia Sagrada)

(3) SARTRE, Jean Paul – As Palavras. In: LOPES, Vera e LARA, Anésia: Tudo dá trama: língua portuguesa: manual pedagógico 8ª série. Ed. Dimensão. Págs. 43-45.

(4) QUEIRÓZ, Bartolomeu Campos: - Diário de Classe. São Paulo, Moderna – citação da folha de rosto

(5) BOFF, Leonardo – A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis, Vozes, 1997. pág. 9

(6) JUSTER, Norton - Tudo depende de como você vê as coisas. São Paulo, Cia. Das Letrinhas, 1999. (catálogo Editora Cia. das Letrinhas - 2005)

(7)

MANGUEL, Alberto - Uma história da leitura. São Paulo, Companhia das

Letras, 1997. (catálogo da Editora Cia.das Letrinhas - 2005)

(8) LIMA, Justino Alves: Leitura Zero - Artigo publicado no Jornal da Cidade, Coluna Opinião, B-2, Aracaju, 01.03.2003 (Internet http:www.ofaj.com.br). acesso em agosto de 2002.

(9) FREIRE, Paulo – citação texto esparso, não encontrado fonte

(10) DI CROPANI, Ottaviano De Fiore – Livro, biblioteca e leitura no Brasil. Secretário de Política Cultural do Ministério da Cultura. Brasília, 12 de agosto de 1998 (texto extraído da Internet - (www.minc.gov.br/textos/of01.htm). Acesso em agosto de 2002.

(11) Ensino da Leitura I, Ed. Stampa, Portugal, 1973, citado no texto de Elisabeth D’Angelo Serra: Um olhar sobre a cultura brasileira: livro e leitura (www.minc.gov.br/textos/olhar/literaturainfantil.thm)

(12) CAMÕES, Luis Vaz – Os Lusíadas

(13) BORGES, Jorge Luis - conferência pronunciada na Universidade de Belgrano em Buenos Aires, em 24 de maio de 1978 sobre O Livro (citação no catálogo da Editora Cia.das Letrinhas - 2005)

(14) VANDRÉ, Geraldo - Pra não dizer que não falei das flores (letra e música popular brasileira década 60 – texto extraído da Internet)

(15) ASSIS, Machado de – Soneto de Natal. (http://www.fesalata.hpg.ig.com.br/html/soneto_de_natal.htm). Acesso em agosto de 2002.

(16) ALMEIDA, Inajá Martins de - (Bibliotecária, Consultora da iMa - Consultoria da Informação e Informática Especializada)

As tecnologias do mundo moderno fizeram com que as pessoas deixassem a leitura de livros de lado, o que resultou em jovens cada vez mais desinteressados pelos livros, possuindo vocabulários cada vez mais pobres.

A leitura é algo crucial para a aprendizagem do ser humano, pois é através dela que podemos enriquecer nosso vocabulário, obter conhecimento, dinamizar o raciocínio e a interpretação. Muitas pessoas dizem não ter paciência para ler um livro, no entanto isso acontece por falta de hábito,

pois se a leitura fosse um hábito obra literária, por exemplo.

as pessoas saberiam apreciar uma boa

Muitas coisas que aprendemos na escola são esquecidas com o tempo, pois não as praticamos. Através da leitura rotineira, tais conhecimentos se fixariam de forma a não serem esquecidos posteriormente. Dúvidas que

temos ao escrever poderiam ser sanadas pelo hábito de ler; e

talvez nem as

teríamos, pois a leitura torna nosso conhecimento mais amplo e

diversificado.

Durante a leitura descobrimos um mundo novo, cheio de coisas desconhecidas.

O hábito de ler deve ser estimulado na infância, para que o indivíduo aprenda desde pequeno que ler é algo importante e prazeroso, assim ele será um adulto culto, dinâmico e perspicaz. Saber ler e compreender o que os outros dizem nos difere dos animais irracionais, pois comer, beber e

dormir até eles sabem; é a leitura, no entanto,

que proporciona a

capacidade de interpretação. Toda escola, particular ou pública, deve fornecer uma educação de qualidade incentivando a leitura, pois dessa forma a população se torna mais informada e crítica.

1. A INSTRUÇÃO E O TIROCÍNIO DA LEITURA

Sabe-se que, o objetivo da leitura é justamente uma atividade de compreensão, sendo avaliada e utilizada para as necessidades do leitor, embora este, muitas vezes nem perceba o seu grande valor, pois, através da leitura é possível abrir caminhos para ter uma visão diversificada, buscando informações e interagindo até mesmo numa

simples conversa, já que é falando e ouvindo que se consegue um bom aprimoramento no vocabulário.

Deste modo, alunos teriam mais disposição em ler livros se fosse incentivado desde as séries iniciais, colocando-os a serem mais observadores, críticos e idealizadores, para que assim cresçam psicologicamente e tornem bons cidadãos leitores, já que a leitura é uma proposta bastante enriquecedora para acumular conhecimentos. Diante disso, seria importante o mediador explicar para o educando a necessidade do por que de ler, mostrando que através da mesma é possível desvendar o lado fantasioso do aluno, fazendo com que desperte sua imaginação, ou melhor, incentivando a "enxergar" que é possível acreditar em si próprio. Como Antunes (2009, p. 206) descreve:

acredito que, se desde o início, for dada aos alunos a oportunidade

... da leitura plena (do livro e do mundo) – aquela que desvenda, que revela, que lhes possibilita uma visão crítica do mundo e de si mesmos - , se lhes for dada à oportunidade da leitura plena, repito, uma nova ordem de cidadãos poderá surgir e, dela, uma nova configuração de sociedade.

Assim, a escola é o principal ambiente que possa proporcionar e priorizar a leitura, reservando tempo para que se aprenda ler e principalmente a gostar de ler, procurando de alguma forma analisar o que os alunos gostam, quais as informações que lhes chamam atenção, ou seja, suas curiosidades, participando e ouvindo o que eles dizem, por mais que às vezes sejam bobagens, mas é dando-se atenção e ensino que se pode dizer o que fazer ou como se expressar, na qual levará o discente a descobrir que está na escola não só para passar de ano, de uma série para outra, mas sim de perceber que é capaz de argumentar, decidir e produzir. Dessa forma, Antunes (2009, pp. 204-205) relata:

Não deveria parecer estranho nem perda de tempo que a escola destinasse grande parte de seus horários à leitura. A escola é lugar de leitura. Assim como a igreja é lugar de oração, e o estágio é lugar de jogo. O que deveria parecer muito estranho é que a escola não priorize a leitura que não seja ela a assumir a promoção do gosto pelos livros, pela informação escrita, pela produção literária.

De acordo com Antunes, muitas escolas perdem mais tempo se ocupando com situações irrelevantes do que com futuro dos jovens. Partindo do pressuposto, seria bem mais proeminente se a escola "abrisse as portas" e cativasse com interação junto com as famílias, ampliando "o seu mundo" com várias possibilidades de praticar o que realmente rodeia o ser, isto é, levando o aluno a presenciar o mundo e buscando a realidade para dentro da sala de aula, sendo que "falta, ... uma aliança entre escola e família, para que a leitura ocupe, sem desconfianças, o lugar que, legitimamente, lhe cabe na formação da pessoa". Antunes (2009, pp. 73 e 188).

Mediante o que foi exposto, para dar uma boa educação para os jovens, não basta apenas à escola ter a preocupação de "conservar" o hábito pela leitura. É necessário também ter todo apóio, da família e do corpo docente, já que a família, assim como o professor é o "espelho" em que o aluno se ver no decorrer do seu desenvolvimento, pois, os mesmos percebem cada detalhe do que ocorre ao seu redor, mas não analisa que isso é também uma leitura, mas uma leitura fotográfica, em que os discentes são os públicos e os professores ou as famílias são os atores e com isso "fotografam" o que lhes convém adquirir.

E o mais interessante de tudo, é que tem tantas propostas metodológicas para "explorar" a leitura que muitos professores nem se quer tem o prazer ou a disponibilidade de pesquisar ou até mesmo nem gostam de ler, e ainda reclamam de que seus alunos não têm o

interesse pela leitura. Como Neves (2001, p. 17) ratifica: "

professores

...

,

nós,

... em vez de nós limitarmos a choramingar que nossos

alunos não têm o hábito da leitura, devemos nos dedicar a

proporcionar muitas e muitas oportunidades muito interessante".

...

que ler é uma atividade

Sendo assim, uma dessas propostas, por exemplo, são as histórias em quadrinhos, as charges, as tiras dentre outras, que muitos alunos gostam até pelo fato de ser divertido e conhecido, e principalmente por

ter o "papel" fundamental que é de levar o discente a raciocinar e interpretar. E quando é estabelecido que leiam alguns livros, os

mesmos "preferem ler

de estrutura mais simples; escolhem pelo

... tamanho das letras, pelo número de páginas, etc.". (GERALDI, 2005,

p. 10).

2. LEITURA E ESCRITA

Como já mencionado anteriormente, ler é algo significante, buscando o "gosto" pela leitura, é ainda mais diligente, dessa forma, com a criação de ideias e de leituras só restará numa boa produção de texto.

Assim, a escrita não exerce um papel sozinho, são necessárias ambas, ou seja, leitura e escrita, "andarem" sempre juntas, pois uma depende da outra, sendo a escrita mais dependente, já que através de informações é possível construir textos de acordo com cada conhecimento. Mais é necessário enfatizar que, a escrita melhora cada vez mais de acordo com seu hábito, sempre buscando notícias, novidades, enfim aprimorando sua leitura, para que quando for colocada em prática, ou melhor, ao produzir um texto, o aluno esteja "rodeado" de argumentos para que assim não faltem palavras, já que este é um dos sérios problemas enfrentado na sala de aula, a dificuldade de elaborar um texto com suas palavras. Tal que Antunes (2007, p. 153) salienta:

Lembremos que a maior dificuldade de alguém para escrever está justamente em ter o que dizer. Ou seja, não se fala ou não se escreve bem quando não se tem o que dizer, o que fundamenta, sem sombra de dúvida, todo esse empenho por ampliar o repertório de dados e informações.

Observa-se com isso justamente, a ausência de conhecimento e incentivo também, pois, muitas vezes o aluno tem "medo" de escrever por achar que só escreve-se bem ao saber as regras gramaticais, por julgar o "certo" e o "errado", dessa forma tem receio de produzir textos. Mas o que falta na verdade, são bons esclarecimentos, sendo primeiramente evidenciado, que ao escrever é necessário sim encontrar palavras adequadas de forma mais culta, já que nem tudo que é falado é também manuscrito. No entanto, nada impede de ser trabalhado nos próprios textos dos alunos, pois o importante de tudo é deixá-los à vontade para escrever, conhecer até mesmo a sua própria escrita, deixando o mesmo a descobrir que tem capacidade de redigir em vez de "prendê-los" em determinada regra. À vista disso, Koch (2010, p. 32) exposita:

Se, em sala de aula, perguntarmos aos alunos o que pensam sobre a escrita, certamente, ouviremos que, para escrever – e fazê-lo bem -, é preciso conhecer as regras gramaticais da língua e ter um bom vocabulário, e que são esses os critérios utilizados na avaliação da produção textual.

Pois como se sabe, escrever é algo indispensável que o ser necessita principalmente no mercado de trabalho, e os que têm mais desempenho e estudo são os selecionados e quase ou sempre excluídos os analfabetos. Porém, observa-se com isso que, muitos

jovens ainda persistem em não querer aprender, aprimorar sua escrita ou exercitar sua leitura, mas com certeza sentirá falta mais tarde e perceber o quanto é fundamental está sempre em busca de novas aprendizagens, adquirindo e ampliando conhecimentos.

Segundo Koch (2010, p. 41), a mente é como se fosse um dicionário, no qual abrange uma lista de dados informativos que são obtidos no convívio social e que quando precisá-los será despertado para recorrer a tal lista, e assim colocado em prática, seja na argumentação ou na escritura. Do mesmo modo relata:

Em nossa atividade de escrita, recorremos constantemente a conhecimentos sobre coisas do mundo que se encontram armazenados em nossa memória, como se tivéssemos uma enciclopédia em nossa mente, constituída de forma personalizada, com base em conhecimentos de que ouvimos falar ou que lemos, ou adquirirmos em vivências e experiências variadas.

Por isso, é importante está sempre dialogando, trocando experiências e lendo e escrevendo por conta própria, para assim tornar-se um leitor crítico.

3. A LEITURA COMO MECANISMO CRÍTICO

Com a prática da leitura é possível ter uma visão divergente, expondo o seu ponto de vista, isto é, sendo um leitor mais crítico que possa discernir as variedades de temas ou assuntos tratados, isso fazendo com que desperte e desenvolva o psicológico do educando.

Um leitor crítico primeiramente deve saber que não se faz leitura apenas de texto, mais também de qualquer gênero, e conhecer a grandiosidade até mesmo de um simples objeto e através deste analisar ou descrever, pois, dessa forma vai-se fazendo uma leitura, na qual o leitor passa a ter um olhar mais observador e principalmente crítico. Dessa forma acredita-se que é trabalhando com o raciocínio dos alunos para que eles possam interagir e dialogar assuntos diversificados e atualizados, levando-os a vivenciar e manter o contato direto com os livros, fazendo com que descubra o "eu" que existe em si.

É perceptível ocorrer muitos debates na sala de aula com tema irrelevante que o próprio discente desconhece e não compreende e

com isso a aula fica cada vez mais monótona e o estudante sem

interesse de argumentar, já que é "

uma atividade incapaz de

... suscitar no aluno a compreensão das múltiplas funções sociais da leitura (muitas vezes, o que se lê na escola não coincide com o que se precisa ler fora dela)". Antunes, (2003, p. 28). Pois, atividades propostas bem utilizadas despertarão os interesses na participação e empenho, aguçando o que todos têm, falta às vezes desvendá-la, a opinião.

Prosseguindo nesta visão, Koch (2008, p. 11) menciona que "a leitura é uma atividade na qual se leva em conta as experiências e os conhecimentos do leitor", assim sendo, cabe o mesmo buscar subsídios para compreender determinado assunto, através de recursos, como por exemplo, o dicionário, pesquisando os significados de certas palavras e também o interesse em conhecer a biografia do autor, para ter a possibilidade de desenvolver e organizar as suas próprias idéias, pois um leitor crítico é também um pesquisador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em virtude dos fatos mencionados acredita-se que, a leitura querendo ou não está sempre presente no meio social, que leva ao individuo a capacidade de comunicação e informação, basta este por sua vez ter vontade de descobrir um "novo" mundo e perceber o quanto o ato de ler é prazeroso, dinâmico e concretizador.

Com isso é sempre relevante abordar um tema como este sobre a leitura, para que não caia em desuso, isto é, focando o quanto, as crianças, jovens e adultos podem adotá-la e alcançar o seu objetivo, pois, para muitas pessoas leitura pode até não ser nada, mas sem ela é impossível ter uma visão divergente e o que pode acontecer, é a pessoa está sempre concordando com o próximo, já que não tem ideias formadas ou conhecimentos que lhe possa ser útil para expressar-se.

Mediante isso, é de suma importância, educadores e instituições estarem sempre renovando suas propostas metodológicas, mostrando um outro caminho que possibilita aos discentes a estudarem com prazer de aprender, já que muitos desprezam a leitura justamente por não ser motivado e se deparem talvez todos os dias com assunto e exercício, sempre na mesma rotina, não conhecendo as grandiosidades que muitos livros proporcionam com boas leituras e que infelizmente em algumas escolas, tais livros só servem para ficar guardado. Isso engloba também os pais, que com certeza querem o melhor para seus filhos, mas precisa estar presente na vida do educando para que o mesmo perceba que está caminhando rodeado de pessoas que querem o seu melhor.

Portanto, este trabalho possibilitará aos educandos e educadores o sabor da descoberta e que seja benéfico na construção do conhecimento na prática, para que aprenda não só ler, mas também ser bom um leitor crítico, capaz de argumentar e tornar-se um profissional capacitado e competente. Com isso, a partir de hoje em

diante, todos possam usufruir da leitura e que leiam por satisfação, nem que seja uma simples frase no Outdoor, pois, nunca é tarde pra (re) começar.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. 4 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Editorial, 2007.

GERALDI, João Wanderley (org.). O texto na sala de aula. 3. ed. São Paulo: Ática, 2005.

NEVES, I. C. B. et al. (org.). Ler e escrever: compromisso de todas as áreas. 4. ed. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001.

KOCH, Ingedore Villaça. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2. ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2008.

KOCH, Ingedore Villaça. Ler e escrever: estratégias de produção textual. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

LEITURA E CONHECIMENTO PRÉVIO

A leitura não pode ser concebida única e exclusivamente como um processo de decodificação. Embora haja decodificação, não é o suficiente para que a leitura se concretize. Segundo Scott (1983), “a leitura não é a habilidade de decodificar palavras, mas sim de se extrair o significado, o implícito e explícito do texto escrito. É um processo seletivo e ao mesmo tempo, um jogo de adivinhação psico-lingüístico que envolve uma interação entre pensamento e linguagem”.

O texto, neste sentido, faz a mediação para a comunicação ou interação entre dois contextos: o do autor e o do leitor. É neste sentido que autor e leitor interagem atribuindo significados ao texto. Como afirma Koch (2002a:160): “a atividade de interpretação do texto deve sempre fundar-se na suposição de que o produtor tem determinadas intenções e de que uma compreensão adequada exige, justamente, a captação dessas intenções por parte de quem lê: é preciso compreender-se o querer dizer como um querer fazer.”

Dessa forma, a leitura é um processo cognitivo que depende da participação do leitor, o qual atua dotado de sua própria “bagagem” cultural,

participando também da construção do significado. E nessa relação com o texto, em busca das intenções do autor, o leitor torna-se participante da interação comunicativa. E essa interação comunicativa ocorre porque “a leitura não se

configura como um processo passivo (

).

Por exigir descoberta e re-criação, a

... leitura coloca-se como produção e sempre supõe trabalho do sujeito-leitor ( ), ... então o leitor, além de partilhar e re-criar referenciais de mundo, transforma-se num produtor de acontecimentos, em função do aguçamento da compreensão e de sua consciência crítica”. (Silva, 1991:25)

O processo de leitura é considerado ativo porque inclui predição, elaboração de hipóteses, previsões a respeito do texto e o leitor observa os recursos visuais, gráficos e sonoros (título, ilustração, gráfico, silhueta, tipo de letra etc) e levanta uma série de hipóteses e começa a testá-las. Como afirma Leffa (1996:14), “a qualidade do ato da leitura não é medida pela qualidade intrínseca do texto, mas pela qualidade da reação do leitor”.

Para Kleiman (1989:27), “(

...

)

leitura implica uma atividade de procura

pelo leitor, no seu passado de lembranças e conhecimentos, daqueles que são relevantes à compreensão de um texto, que fornece pistas e sugere caminhos, mas que certamente não explicita tudo o que seria possível explicitar”.

Para a referida autora, a leitura é um processo interativo, pois resulta da interação de diversos níveis de conhecimento – o conhecimento lingüístico, o conhecimento textual e o conhecimento

de mundo. Para compreender um texto, o leitor utiliza o conhecimento prévio que é constituído por todo o conhecimento reunido ao longo de sua vida.

O processo cognitivo de leitura pode ser melhor compreendido quando se tem um conhecimento mais abrangente sobre as estratégias de leitura e sobre os recursos argumentativos, o que possibilita uma participação mais crítica do aluno-leitor.

1.3 ESTRATÉGIAS DE LEITURA

Kleiman

(1996) vê

a

leitura

como

um processo

cognitivo e procura

delinear seu processamento. Trata especificamente dos aspectos ligados à relação entre o sujeito-leitor e o texto enquanto objeto, entre linguagem escrita e compreensão, memória, inferência e pensamento.

A leitura começa na percepção do objeto pelos olhos através de um movimento não linear. Grande parte da mensagem daquilo que lemos é inferida ou adivinhada, levando a crer que a leitura é um “jogo de adivinhações”, como afirma Goodman (1991).

Independentemente do objetivo de leitura e do tipo de tarefa, os leitores utilizam estratégias de leitura, operações utilizadas para abordar o texto, as quais podem ser cognitivas (operações inconscientes) e metacognitivas (passíveis de controle consciente, pois partem do senso comum). São as estratégias que particularizam a construção do sentido da leitura, uma vez que ler exige a ativação de diferentes competências e esquemas apropriados. Trata-se do conhecimento de cada leitor trabalhando de forma ativa e determinando como o texto será compreendido.

A inferência é uma estratégia cognitiva muito utilizada na leitura. Segundo Koch e Travaglia (1993:70), inferência é “aquilo que se usa para estabelecer uma relação, não explícita no texto, entre dois elementos desse texto”. É resultante da ativação dos esquemas do leitor e permite que este infira, com base no conhecimento prévio, a respeito do desconhecido. A inferência permite ao leitor “construir novas proposições a partir de outras já dadas”. (Marcuschi, 1984:25)

Por ser uma operação cognitiva, o processo de inferência pode variar muito de indivíduo para indivíduo, já que depende do nível de conhecimento que o leitor tem armazenado na memória (conhecimento prévio).

Outra estratégia cognitiva utilizada na leitura é a previsão. É constituída pela habilidade do leitor em prever e antecipar o que ainda está por vir. Baseia-se tanto nas informações explícitas como nas inferidas, de modo que o leitor, no decorrer do processo, dificilmente tem consciência se determinado conteúdo estava explícito ou se foi inferido.

  • 2. RELAÇÃO ENTRE INTERTEXTUALIDADE E CONHECIMENTO PRÉVIO

Quando um texto retoma o conteúdo de outro(s), ocorre uma intertextualidade, ou seja, eles “dialogam” entre si. Um aspecto relevante no modo de interagir com um texto é o conhecimento partilhado entre autor (texto) e leitor. Para realizar uma leitura eficiente, o leitor precisa compartilhar das informações que o autor empregou e aliar a própria visão de mundo à realidade transmitida pelo texto. A cada leitura realizada, mais conhecimento prévio o leitor armazena, o que favorece a construção de sentidos dos textos.

Como diz Koch (2004:145), essa “(inevitável) presença do outro naquilo que dizemos ou escrevemos”, ou seja, a intertextualidade, é um recurso argumentativo que pode estar explícito ou implícito, mas que certamente requer a ativação do texto-fonte na mente do leitor no intuito de orientar a compreensão daquilo que se lê.

Nos exemplos a seguir, percebe-se, claramente, que um dos objetivos dos produtores desses textos é que o leitor/ouvinte seja capaz de reconhecer a presença do intertexto pela ativação do texto-fonte em sua memória discursiva. Assim, a construção dos sentidos estará parcialmente garantida pelo reconhecimento do texto-fonte que deu origem ao novo texto.

No primeiro exemplo, um dos objetivos de Mauricio de Sousa é mostrar o “grande dilema existencial” que a comilona personagem Magali vive: comer ou não comer, eis a questão! A capa do gibi remete o leitor, imediatamente, ao texto- fonte: Hamlet, de W. Shakespeare: “To be or not to be, that’s the question!”, ou seja, “Ser ou não ser, eis a questão!”.

Nos exemplos a seguir, percebe-se, claramente, que um dos objetivos dos produtores desses textos é que

No segundo exemplo, o quadrinho

de Fernando Gonsales – Níquel

Náusea – retoma a fábula “A cigarra e a formiga”, por meio de uma paródia. O leitor necessita reconhecer o texto original para compreender a tirinha e perceber o humor.

No segundo exemplo, o quadrinho de Fernando Gonsales – Níquel Náusea – retoma a fábula “A

No

terceiro

exemplo,

o

anúncio

publicitário

utiliza a expressão

idiomática “ter o rei na barriga”, sugerindo que a mulher gestante ofereça ao seu bebê, a quem ela considera a pessoa mais importante (“rei”), produtos da marca e qualidade Lillo.

É importante ressaltar a diversidade de gêneros textuais presentes nos exemplos em análise: HQ, capa de

É importante ressaltar a diversidade de gêneros textuais presentes nos exemplos em análise: HQ, capa de gibi, anúncio publicitário, fábula, dito popular e teatro clássico. Isso comprova que uma multiplicidade de textos deve circular em sala de aula, uma vez que os textos veiculados socialmente requerem do leitor conhecimentos anteriores e, principalmente, porque interagimos por meio de diversos gêneros discursivos.

CONCLUSÃO

Enquanto lê, o indivíduo interage, dialoga com o texto que tem à sua frente, ativando uma série de operações mentais e estratégias de leitura. Formar um leitor crítico requer um trabalho

diferenciado por parte dos professores. O material selecionado deve ser adequado ao interesse dos alunos e deve estimular o gosto pela leitura. O professor, antes de tudo, deve ser um leitor crítico e capacitado a ensinar. Assim, o processo de ensino-aprendizagem terá um obstáculo a menos a ser vencido. Para Jolibert (1994): “Ensinar é ajudar alguém em seus próprios processos de aprendizado”. Se ensinar é ajudar alguém em seus próprios processos de aprendizado, o professor de língua portuguesa deve, então, ter em mãos um material adequado ao ensino de leitura e compreensão textual.

Como antecipa a referida autora, “não se ensina uma criança a ler”: é ela quem se ensina com a ajuda do professor, de seus colegas, dos instrumentos da aula e também de seus pais. Cada criança possui seus próprios processos, seus obstáculos e dificuldades a vencer.

A leitura implica uma interação entre o conhecimento prévio do leitor e os dados fornecidos pelo texto. Conscientes disso, os alunos compreenderão suas próprias estratégias de leitura, ou seja, “o quê” e “como” fizeram para alcançar a compreensão de um texto.

“Leitor maduro é aquele para quem cada nova leitura desloca e altera o significado de tudo o que ele já leu, tornando mais profunda sua compreensão dos livros, das gentes e da vida”. (Lajolo: 1993).

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Ler é atribuir sentido ao texto, relacionando-o com o contexto e com as experiências previas do leitor. Para Kleiman (2002), a leitura é um processo que se evidencia através da interação entre os diversos níveis de conhecimento do leitor: o conhecimento lingüístico; o conhecimento textual e o conhecimento de mundo. Sendo assim, o ato de ler caracteriza-se como um processo interativo. Apesar de hoje já ter se tornado evidente a importância da leitura enquanto prática social, ainda é bem comum observarmos crianças que freqüentam classes regulares de escolas públicas de ensino fundamental afirmarem não gostar de ler. Isso se torna algo ainda mais evidente na medida em que procuramos fazer uma análise reflexiva acerca do ensino de leitura no Brasil desde o século XIX até os dias atuais. Para tanto, faz-se necessário conhecermos um pouco sobre os materiais de leitura que vem sendo oferecidos pelos professores aos alunos do ensino fundamental, como também, é importante conhecermos algumas práticas leitoras que estão sendo desenvolvidas nas salas de aulas das escolas públicas de ensino fundamental, que atendem prioritariamente a uma clientela de alunos oriundos das classes populares, alunos esses que já não encontram em seu ambiente familiar um contexto de letramento que favoreça a ampliação de seus recursos lingüísticos e a formação do hábito de ler. Segundo Molina (1992), a partir do momento em que se reconhece o papel da escola na formação do leitor, apesar de todos os limites concretos, torna-se possível uma mudança de práticas, com o objetivo de dar ao aluno a competência em utilizar a leitura como um instrumento útil em sua vida, além da escola. Nesse sentido, observa-se que a escola poderá exercer um importante papel na formação de um leitor mais competente. Com base na visão de leitura enquanto prática social que deverá ser promovida pela escola, porém exercida pelo aluno além da vida escolar, em suas múltiplas relações que entrelaçam a cadeia do mundo globalizado é que foi elaborado este trabalho com o objetivo de demonstrar a importância da leitura como fonte de informação e disseminação de cultura, reconhecendo o papel da escola como mola propulsora na formação do desejo e hábito de ler nos alunos. Vale a pena ressaltar que pretende-se com este trabalho fazer uma breve reflexão acerca de alguns aspectos mais relevantes presentes na relação que há entre a escola, a leitura e os sujeitos leitores, no que diz respeito não só a simples decodificação do código escrito que se caracteriza formalmente como leitura, mas ao sentido mais amplo que se refere ao ato de 3 ler, pois, “a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto”. (FREIRE, 1997, p.11). Nesse sentido caberá a escola enquanto espaço formal de articulação e promoção das práticas leitoras possibilitar ao educando condições favoráveis para que ele possa exercer o ato de ler de forma plena, sendo capaz de praticá-lo com autonomia e criticidade, no sentido de saber estabelecer múltiplas relações entre texto e contexto de uma forma dinâmica e construtiva. 2. Leitura como prática social: uma porta aberta na formação do cidadão O conceito de leitura enquanto prática social vai muito além da simples decodificação da linguagem verbal escrita, pois nele está inserido a idéia de que ler é atribuir sentido ao texto, relacionando-o com o contexto e com as experiências prévias do sujeito leitor. Nesse sentido cabe afirmar que esse tipo de leitura sempre será precedida de uma finalidade concreta, que atenderá a um objetivo presente no contexto real em que o leitor está inserido. A leitura como prática social

é um meio que poderá conduz o leitor a resolver um problema prático, responder a um objetivo concreto ou a uma necessidade pessoal. Pensar em leitura enquanto prática social pressupõe pensar nas múltiplas relações que o sujeito-leitor exerce na interação com o universo sócio-cultural a sua volta; é pensar em um leitor apto a usar a leitura como fonte de informação e disseminação de cultura, pois, Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é. (FOUCAMBERT, 1994, p.5). Portanto, para que o sujeito leitor possa fazer o uso social da leitura não bastará apenas que ele seja alfabetizado, no sentido de apenas ter adquirido as habilidades necessárias para saber decodificar a linguagem escrita, porém se faz necessário que além de ser alfabetizado ele seja também letrado. Segundo Soares (1999), passamos a enfrentar uma nova realidade social em que não basta apenas saber ler e escrever é preciso também fazer uso do ler e do escrever, para saber responder às exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente, daí surge o termo letramento, ressignificando a idéia principal que se tinha do saber ler e escrever, buscando definir um novo padrão de usuário da língua que se mostre apto a atender às demandas da sociedade contemporânea. Quando afirmamos que um individuo além de alfabetizado precisa ser letrado estamos incorporando a ele valores que definem a maneira que esse individuo interage com a complexidade lingüística e cultural do mundo a sua volta, pois 4 dessa forma ele passará de um mero decodificador da língua escrita a um usuário ativo da mesma. Em nossa sociedade os conteúdos informacionais circulam quase exclusivamente via meios escritos, através da Internet3 , da televisão, dos outdoors com informes publicitários, dos jornais, das revistas, dos panfletos, dos catálogos e muitos outros veículos de comunicação. Sendo assim, o processo de apropriação da informação e da construção de novos conhecimentos se configura como um processo ativo que está intimamente ligado à leitura. Por isso, o uso social da leitura é algo contextualizado que acontece em diferentes espaços e não obedece a nenhuma regra específica e nem a um padrão sociolingüístico pré-definido. Quando estamos em um ponto de ônibus a esperar o transporte que irá nos conduzir a um determinado lugar e conseguimos ler e compreender o itinerário do coletivo que se aproxima estamos, mesmo que inconscientemente, fazendo o uso social da língua; quando lemos a bula de um medicamento a fim de verificar se sua indicação coincide com a prescrição feita pelo nosso médico, estamos fazendo o uso social da língua; quando procuramos uma vaga de emprego nos anúncios classificados de um jornal ou até mesmo quando verificamos se o nome de um amigo consta na lista de aprovados do vestibular, estamos fazendo o uso social da língua. Sendo assim, a leitura enquanto prática social adquire um caráter dinâmico que se incorpora de uma forma natural às atividades cotidianas dos indivíduos. Segundo Kleiman (1998), ao lermos um texto, qualquer texto, colocamos em ação todo o nosso sistema de valores, crenças e atitudes que refletem o grupo social em que se deu nossa sociabilização primária, isto é, o grupo social em que nascemos e fomos educados. Por isso, podemos afirmar que a leitura enquanto prática social é algo bastante complexo, pois está intimamente ligado às nossas raízes sócio-culturais e conseqüentemente à formação da

nossa cidadania. Nesse sentido é importante fazermos algumas definições acerca da palavra cidadania. A palavra cidadania deriva-se da palavra cidadão. No sentido etimológico a palavra cidadão deriva-se de civitas, que em latim significa cidade. Segundo Ximenes (2000, p.170), “cidadania é a condição de cidadão” e “cidadão é o individuo no pleno gozo de seus direitos políticos e civis”. Quando falamos a palavra 3 Rede mundial de computadores interligados por meio de programas especiais, servidores e provedores de acesso, e que oferece serviços de e-mail, acesso a sites diversos, download de programas, educação a distancia, etc. 5 cidadania estamos interligando a ela a idéia de construção da consciência crítica, política e social do individuo, pois, A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. (DALLARI, 1998, p. 14) Sendo assim, a leitura e uma porta aberta na formação do cidadão e conseqüentemente na construção da cidadania, uma vez que através da leitura o individuo terá a possibilidade de construir novas relações com as informações presentes no espaço global de uma forma dinâmica, crítica e autônoma, tornando-se sujeito construtor de sua própria história e da história coletiva de seu país. Formar o cidadão não significa ‘preparar o consumidor’. Significa capacitar as pessoas para a tomada de decisões e para a escolha informada acerca de todos os aspectos na vida em sociedade que as afetam, o que exige acesso à informação e ao conhecimento e capacidade de processá-los judiciosamente, sem se deixar levar cegamente pelo poder econômico ou político. (TAKAHASHI, 2000, p. 45) Segundo Takahashi (2000), com a universalização de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TICs) surgiu um novo paradigma global no qual o acesso aos serviços informacionais tem se tornado, cada vez mais, condição necessária para inserção social dos indivíduos como cidadãos. Vale ressaltar que a maioria dos conteúdos informacionais que são disseminados diariamente via Internet são prioritariamente documentes escritos e por isso requer do leitor um mínimo de conhecimento lingüístico e textual para ter acesso a eles. Isso torna ainda mais evidente a importância da leitura como prática social na construção da cidadania.

A leitura é um dos pilares da educação escolar, pois é prioritariamente no ambiente escolar que as práticas de leitura e escrita são sistematizadas formalmente. Sendo assim, “a escola pode colaborar na formação do leitor, e sua colaboração será maior ou menor na dependência dos pressupostos que fundamentam o seu currículo” (MOLINA, 1992, p.12). Constatamos que as práticas leitoras desenvolvidas pela escola fundamental refletem diretamente na formação do leitor, uma vez que muitos dos alunos que freqüentam classes regulares do ensino fundamental só encontram no ambiente escolar espaço propicio para realizar o ato de ler de forma plena, ou seja, interagindo de forma consciente com o texto escrito. 9 Mas muitos professores do ensino fundamental continuam ignorando a necessidade de fazer com que a leitura na escola se torne algo prazeroso, capaz de motivar o aluno a desejar ter um maior contato com a prática da leitura além do ambiente escolar. Isso ainda acontece porque muitos desses professores não dispõem de uma formação adequada para o ensino de língua

portuguesa que os possibilitem criar uma outra concepção acerca do ensino de leitura. As práticas desmotivadoras, perversas até, pelas conseqüências nefastas que trazem, provêm, basicamente, de concepções erradas sobre a natureza do texto e da leitura, e, portanto, da linguagem. Elas são práticas sustentadas por um entendimento limitado e incoerente do que seja ensinar português, entendimento este tradicionalmente legitimado tanto dentro como fora da escola. (KLEIMAN, 1998, p. 16) Porém observamos que já existem professores efetivando uma prática diferenciada no ensino de leitura na educação fundamental brasileira, visando despertar nos alunos o gosto pela leitura e mostrando a eles a importância da leitura como fonte de informação e disseminação de cultura. Esses professores mostram-se conscientes de que a formação do leitor reflete diretamente na construção

de sua cidadania e a construção da cidadania traz grandes impactos políticos e sociais para o nosso país. Uma vez que um cidadão consciente de seus deveres e direitos políticos e civis poderá trazer mudanças sociais significativas para a macro-estrutura político-governamental de seu país. O uso da leitura como prática social tem caráter relevante no processo emancipatório do sujeito, vez que os conteúdos informacionais que circulam diariamente na cadeia global são prioritariamente escritos, por isso um sujeito que não tenha acesso a esses conteúdos provavelmente ficará a margem da informação e do conhecimento. Segundo Takahashi (2000, p. 45) “a educação é o elemento-chave na construção de uma sociedade baseada na informação, no conhecimento e no aprendizado”, considerando que a leitura é um dos pilares da educação urge a necessidade de se reconhecer o papel da escola na formação do leitor, pois é através da leitura que o individuo terá acesso a uma enorme gama de informações e conhecimentos que possibilitará a ele interagir na sociedade de forma crítica, autônoma e consciente, exercendo plenamente seu papel de cidadão. O estudo que possibilitou a elaboração desse artigo tem caráter preliminar, pois servirá de subsídio para novas pesquisas acerca da temática relacionada a: leitura, escola e cidadania, uma vez que no novo paradigma educacional, impulsionado pelas TICs essa temática assume um caráter relevante e com inesgotáveis possibilidades de novos estudos e pesquisas. 10 REFERÊNCIAS BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de leitura. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1995. DALLARI, Dalmo. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 1998. FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 46ª ed. São Paulo: Cortez, 1997. GALVÃO, A. M. O.; BATISTA, A. A. G. A leitura na escola primária brasileira: alguns elementos históricos. In.: Projeto memória de leitura. São Paulo, v. 2, 2002. Disponível em:

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