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Legislação criação e detenção de Equídeos – Portaria 634/2009 de 9 de Junho »


A importância das fibras na dieta dos equinos

A importância das fibras na dieta dos equinos

Um mínimo de aporte alimentar de fibras é indispensável ao cavalo a fim de assegurar,


ao mesmo tempo, uma perfeita higiene mental, uma fonte de lastro (ligada à porção
indigestível que garante a limpeza digestiva) e um aporte energético.
É fundamental ter em mente que o cavalo é um animal herbívoro, que se alimenta
especialmente de vegetais, normalmente chamados de volumosos, ou simplesmente
“verde”.
Para preservar o equilíbrio psicológico e neurovegetativo do cavalo, é importante a
manutenção de uma quantidade mínima de 5 kg de Matéria Seca (alimento sem água)
por dia por animal (de 500 kg), em manutenção ( o que equivale a aproximadamente 5,5
a 6 kg de feno ou 16 a 18 kg de capim fresco).
A ocupação alimentar é para o cavalo um fator de tranqüilização. Por isso as fibras, que
aumentam a duração da ingestão e da digestão dos alimentos, são tão importantes para a
integridade do cavalo.
O aparelho digestivo do cavalo possui particularidades onde são exigidos altos teores de
fibras na dieta para que ele possua uma ótima digestão.
Em primeiro lugar, o estômago do cavalo é relativamente pequeno em relação ao
restante do aparelho digestivo, o que o obriga a se alimentar por longos períodos (cerca
de 15-18 h por dia) em regime de pastagem. A capacidade estomacal é de apenas 9% do
volume total, isto é, se o volume total do aparelho digestivo tiver capacidade para 130
litros (média para um cavalo de 500 kg), o estômago terá capacidade para apenas 12
litros de alimento, incluindo sucos gástricos, gases e o próprio alimento. Esta “pequena”
capacidade do estômago limita consideravelmente a ingestão de concentrados (rações)
que não possuem as denominadas fibras longas, essenciais ao bom funcionamento do
aparelho digestivo do cavalo.
As rações concentradas, devido às suas características, principalmente de fibras mais
curtas, são digeridas principalmente no estômago e porções iniciais do Intestino
Delgado, tendo um baixo aproveitamento nas porções finais do aparelho digestivo (ceco
e cólon).
O limite de ração na dieta é de 2,5 kg por refeição, sendo o ideal ao redor de 1,5 a 2,0
kg (cavalo de 500 kg de peso). Havendo necessidade de complementar a dieta com
volume superior, devemos administrar em várias refeições ao dia (ex.:para 6,0 kg
diários, são necessárias 03 a 04 refeições; havendo necessidade de um maior volume de
ração, devemos fracionar mais ainda ou procurar rações de melhor qualidade), para
evitar quadros de cólicas, tão traumáticos para o animal.
As necessidades de fibras longas na alimentação do cavalo são especialmente para o
bom trânsito do alimento através do aparelho digestivo. Fibras longas são aquelas
provenientes de volumosos não triturados em pequenas porções, isto é, para uma boa
digestão do cavalo, devemos administrar o alimento na forma mais natural possível.
O efeito de lastro das fibras possui uma relação inversa à sua digestibilidade. As fibras
indigestíveis estimulam o peristaltismo (movimento de alças intestinais), contribuindo
fortemente para evitar indigestões e autointoxicações.
Os alimentos volumosos têm sua digestão essencialmente na porção final do aparelho
digestivo (ceco e cólon), local denominado de câmara de fermentação, pois é onde
ocorre uma ação mais intensa da flora intestinal, digerindo o volumoso, aproveitando
mais intensamente seus nutrientes (Ácidos Graxos Essenciais – fonte energética -,
proteínas e minerais).
A quantidade e a qualidade das fibras na alimentação do cavalo é determinante para o
bom funcionamento deste órgão digestivo, cuja capacidade é de 70% do volume total
(90 litros para um cavalo de 500 kg).
A consistência das fezes do cavalo, principal indicador da saúde digestível do animal,
está diretamente ligada ao teor de fibra na alimentação.
Capins muito novos, recém rebrotados ou plantados, normalmente provocam quadros de
diarréias leves devido aos baixos teores de fibra em sua composição. O mesmo ocorre
com uma alimentação muito rica em concentrado (rações, milho, trigo, etc., superior a
50 % da dieta total), onde as fezes ficam semelhantes às de vaca, pastosas, sem
consistência firme, indicando um baixo aproveitamento dos alimentos.
Por outro lado, volumosos muito secos também podem causar quadros de desconforto
digestivo devido a uma aceleração exagerada do peristaltismo, devido ao elevadíssimo
teor de fibras indigestíveis na dieta.
Uma boa consistência de fezes, nem pastosas nem ressecadas, indica que o alimento
ficou tempo suficiente no aparelho digestivo para ter seus nutrientes aproveitados ao
máximo pelo animal.
É sempre conveniente ajustar os aportes alimentares em fibras quanto à sua taxa e
natureza, para assegurar conjuntamente uma boa digestibilidade e uma excelente
higiene digestiva.
As taxas são variáveis em função da categoria em que se encontra o animal: reprodução,
crescimento, trabalho ou manutenção.
Os alimentos industriais (rações concentradas) são relativamente pobres em celulose
(fibras) e devem ser considerados como um complemento das forragens volumosas.
As necessidades mínimas de fibra bruta são estimadas em 15 a 18% da dieta total.
Cada categoria possui necessidades diferentes, sendo algumas mais exigentes que
outras, principalmente no que diz respeito a energia, proteína, vitamina e minerais. Para
se suprir estas necessidades, não é possível a utilização exclusivamente de volumosos,
pois a capacidade de ingestão do cavalo é inferior às suas necessidades, devido ao alto
grau de especialização e seleção que o homem impôs ao cavalo. Por isso é que devemos
utilizar as rações concentradas para complementar as necessidades do cavalo.
Esta complementação não deve ultrapassar 50% do volume total de alimento ingerido
por dia por animal, e deve ser adequada às suas reais necessidades.
Lembramos que a relação volumoso/concentrado deve variar conforme a qualidade do
volumoso e também do concentrado: quanto melhor a qualidade de um, menor será a
quantidade de outro. Devemos sempre priorizar um concentrado de melhor qualidade
para que possamos reduzir consideravelmente sua quantidade.
Na Tabela abaixo, os níveis mínimos, máximos e ideais de Fibra na Dieta dos Eqüinos.

Ótimo Mínimo Máximo


Fibra Bruta (FB) 17 15 30
FDN 20 18 30
FDA 13 10 20
Tabela 1: Necessidade em Fibras do Cavalo (%/dia)

Não importa o tipo de esporte que estamos falando, seja Salto, Provas de Trabalho e
Rédeas, Enduro, CCE, etc., quando queremos alimentar um cavalo de esporte,
nutricionalmente falando, as bases de sua dieta são as mesmas. O que vai diferenciar é a
quantidade de nutrientes, principalmente energéticos, e a qualidade dos suplementos que
devemos oferecer ao animal.
A alimentação do cavalo de esporte deve ser adaptada conforme as exigências. A dieta
deve ser balanceada e equilibrada, suprindo as necessidades do cavalo sem deficiências nem
excessos.
Partindo-se sempre da disponibilidade de volumoso com quantidade e qualidade
adequados, água fresca e limpa e sal mineral específico à vontade, devemos escolher qual o
complemento e suplemento adequados às necessidades de meu cavalo, que serão diferentes
conforme o esporte e o cavalo como indivíduo.
Aqui, os fatores individuais devem ser levados em consideração de forma mais acentuada,
quando da determinação das necessidades de cada animal. Mesmo através da utilização de
tabelas de necessidades específicas conforme o esforço do animal, o oferecimento de uma
suplementação concentrada deve ser feito levando-se em consideração:
Ø Raça do Animal: algumas raças têm aproveitamento mais eficiente que outras (raças
pesadas possuem melhor conversão alimentar que raças mais leves)
Ø Temperamento: animais com temperamento mais nervoso possuem necessidades
maiores que animais mais calmos.
Ø Digestibilidade Individual: variação de indivíduo para indivíduo. (ate 20% de variação)
Ø Clima: 10 a 20 % de variação.
Ø Baia ou pastagem: animais estabulados têm restrição no fornecimento de volumoso, o
que pode aumentar as necessidades de concentrado.
Ø Estado Geral: muito importante ao se avaliar as necessidades do animal em função
também do peso, pois se o animal estiver muito magro devemos superestimar suas
necessidades até ele obter o peso ideal. O contrário também ocorre, isto é, se o animal estiver
acima do peso, devemos fazer com que emagreça até o peso ideal e estimarmos novamente
suas necessidades.

As necessidades específicas do trabalho são de Água, Energia (mais sob a forma de


gordura -óleos- e menos amido -grãos-) e Sais Minerais (mais especificamente os eletrólitos:
Ca, Mg, K, Na e Cl).

ÁGUA: Para animais de trabalho ela é fundamental no treinamento, antes da competição,


durante esta (em provas de longa distância) e ao final. Ou seja, sempre que o animal tiver
sede, devemos disponibilizar água fresca e limpa.
O cavalo pode perder toda sua gordura corporal e até metade de sua proteína, porém se
perder 15% de sua reserva hídrica pode ser fatal.

ENERGIA: As necessidades energéticas são as muito importantes, pois é a base


fundamental para uma boa performance esportiva.
Devemos fornecer uma quantidade adequada de energia, de fonte facilmente assimilável
pelo cavalo, isto é, que não gaste muita energia para ser aproveitada (Energia Líquida Alta). A
quantidade de energia a ser fornecida é variável, dependendo principalmente da quantidade do
esforço a que o cavalo é submetido (horas/dia). Em animais de esforço intenso, as
necessidades energéticas dobram em relação às de manutenção.
Devemos priorizar o fornecimento de rações de alta energia, com extrato etéreo elevado
(acima de 4%) dependendo da intensidade do esforço. Rações com alta energia têm a grande
vantagem de serem oferecidas em menor quantidade, sobrando mais espaço para o
fornecimento de volumoso, o que evita uma sobrecarga gástrica e intestinal.
O volumoso deve variar de 70 a 50% do total da dieta, sendo que a ração deverá ser de
30 a 50% da dieta total (sempre levando em conta somente a matéria seca do alimento).
Caso a quantidade de concentrado não seja suficiente para o cavalo desempenhar a função
desejada, deve-se utilizar uma ração mais energética ou um suplemento energético, mas
jamais o concentrado deverá ultrapassar os 50% da dieta, sob riscos de cólicas.
Uma menor quantidade de volumoso diminui o preenchimento do volume intestinal,
diminuindo a quantidade de peso que o animal sustenta, o que pode ser favorável para o
exercício de curta duração.
Por outro lado, em exercícios de longa duração, deve fornecer uma maior quantidade de
volumoso, pois a forragem aumenta os consumos hídricos, eletrolíticos e de nutrientes, o que
aumenta a disponibilidade durante o exercício.
Devemos tomar cuidado com o aporte vitamínico suficiente para absorção dos ácidos
graxos (energia) contidos na alimentação. A utilização de uma dieta muito rica em energia
aumenta também as necessidades vitamínicas do cavalo, já elevadas pelo exercício físico.
Nas transições alimentares, devemos evitar o aumento excessivo de energia através de
gordura na ração nas três semanas que antecedem uma competição, pois é necessário um
período mínimo de trinta dias para que o animal esteja adaptado ao novo alimento.
Rações muito ricas em energia, como com cereais (muita aveia ou milho) com 60-70% de
amido acarretam enormes problemas. O intestino delgado não pode digerir todo o amido
contido nos cereais, é o intestino grosso que recupera o excesso podendo a levar a
complicações como: Fermentações Microbianas, Timpanismo / Formação de Gases, Diarréia /
Queda do Tônus Digestivo, Dilatação do Ceco – Cólicas, Degeneração Cardíaca, Hepática e
Renal e Dismicrobismo – Laminite.
Além disso, o excesso de ácidos graxos essenciais (energia) na alimentação impede a
absorção normal de Magnésio, mineral responsável pelo relaxamento da musculatura.
Portanto, em dietas muito energéticas para animais que não necessitem de tanta energia,
haverá indisponibilidade de Magnésio, dificultando o relaxamento da musculatura deste animal.
O animal “trava” a musculatura.
Devemos tomar certos cuidados no fornecimento de energia ao animal para que esta não
esteja em excesso, pois pode prejudicar o desempenho do animal.
MINERAIS: Além do sal mineral, específico para eqüinos que deve ser deixado em um
cocho à parte, os minerais necessários em quantidade mais elevada e que devem ser
suplementados na alimentação são os eletrólitos (Cloro, Sódio, Potássio, Cálcio e Magnésio).
Esta suplementação depende da intensidade do esforço e varia de animal para animal, mas
sempre deve ser fornecida com água à vontade.

PROTEÍNA: Em primeiro lugar devemos ressaltar que o trabalho muscular não é


condicionado ao consumo de proteína, mas de energia.
Estamos falando de animais de esporte, portanto animais adultos, já formados e não em
reprodução. Portanto sua dieta deve ter um limite de proteína para que não haja queda na
Performance Esportiva.
As necessidades protéicas dos cavalos de esporte são pequenas (1000 a 1400 g/dia)
quando comparadas às necessidades de éguas em reprodução, que podem chegar a 2000 a
2800 g/dia.
Lembre-se que os excessos de proteína podem comprometer a boa performance do
animal.
Muita atenção deve ser dada à escolha do alimento, devendo-se evitar confundir qualidade
de proteína com excesso. Devemos ainda evitar as matérias primas ricas em proteína, como
soja e alfafa.
Uma complementação concentrada ideal não deve jamais ultrapassar os 12% de proteína
bruta e a dieta total não devendo ultrapassar os 14% de proteína bruta.
Em todos estes casos, devemos valorizar o fornecimento de alimentos de alta qualidade,
onde possamos administrar uma menor quantidade de alimento para suprir as necessidades do
animal.
A grande dificuldade de se avaliar realmente os malefícios dos excessos (energéticos,
protéico ou mineral) é que isto não ocorre da noite para o dia, mas demora certo tempo (6 até
18 meses), o que dificulta o correto diagnóstico de erro no manejo alimentar.

Manejo Alimentar na Competição


Ø Evitar alterações bruscas na dieta nas três semanas que antecedem competição;
Ø Não oferecer alimentos a base de grãos nas 2 a 3 horas que antecedem uma competição.
Esta alimentação eleva a concentração de insulina sangüínea, diminuindo a utilização de
gorduras. Este alto valor de insulina sangüínea, levará a uma hipoglicemia no início da
competição, quando o animal deverá ter maior disponibilidade energética, diminuindo a
resistência e a velocidade, com conseqüente queda na performance.
Ø Os grãos devem ser oferecidos, no mínimo, 4 a 5 horas antes da competição.
Ø Se a competição for de longa distância (CCE, Enduro, etc.) manter o animal com água e
volumoso à vontade. A forragem aumenta o consumo hídrico, de eletrólitos e nutrientes,
aumentando a disponibilidade durante o exercício de longa duração, auxiliando na performance
do animal.
Ø Se a competição for de curta distância (corrida, trabalho, rédeas, salto, etc.) manter o
animal somente com água à vontade. A diminuição da disponibilidade do volumoso neste
momento, diminui o preenchimento intestinal, diminuindo a quantidade de peso que o animal
sustenta, auxiliando na performance do animal. Claro que se o animal for ficar o dia todo em
um local de competição, não podemos privá-lo totalmente de se alimentar, mas devemos fazê-
lo com ponderação.