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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA

PROGRAMA DE MESTRADO EM DIREITO INTERNACIONAL ECONÔMICO

OS SENHORES DO CRIME – AS NOVAS MÁFIAS CONTRA A DEMOCRACIA

Resenha apresentada para


conclusão da disciplina
“Criminalidade Organizada
Transnacional” cursada entre
agosto e novembro de 2007.

Mestranda: Maíra Tito


Professora: Dra. Arinda Fernandes

Brasília
2008
O autor JEAN ZIEGLER explora, na obra “Os Senhores do Crime – As Novas
Máfias contra a Democracia”, o universo do crime organizado contemporâneo,
abordando também aspectos históricos da constituição e funcionamento das máfias,
além de apontar as principais conseqüências de sua existência em nível global.
Primeiramente é feita a sociogênese da máfia siciliana. ZIEGLER acredita que a
palavra “máfia” tem raiz árabe e significa “destemor, coragem, autoconfiança,
arrogânica”, tendo sido utilizada primeiramente pelas organizações sicilianas do fim do
século XVI. Os mafiosos eram conhecidos como “homens de honra”, constituindo
sociedades secretas para resistir ao decreto do rei de Nápoles que visava reduzir os
poderes dos senhores feudais em nome da união de seu reino. De sociedade secreta
torna-se força de resistência ao invasor do norte, o piemontês, ganhando popularidade
entre os civis. No fim do século XIX e início do século XX a máfia emigra e torna-se
transcontinental. As associações mafiosas têm seu poder reconhecido até mesmo pelos
Estados. Em 1943 os Estados Unidos utilizam mafiosos como cooperadores para a
invasão da Sicília e durante a Guerra Fria aliam-se à máfia siciliana contra os
comunistas. Hoje a máfia perdeu a relação com e população e a terra, funcionando na
lógica capitalista onde o que importa é conquistar o mercado. Outra característica
contemporânea marcante é a luta ferrenha entre famílias mafiosas.
As principais correntes culturais mafiosas italianas são:
1) Cosa Nostra – máfia da região da Sicília, a mais poderosa entre as italianas,
composta por uma cúpula e cerca de 180 clãs;
2) Camorra – máfia da região de Nápoles composta por cerca de 145 clãs;
3) Sacra Corona – máfia da região da Puglia composta por cerca de 1.000 homens;
4) N’Dranghetta – máfia da Calábria com cerca de 80 clãs.
Hoje não há distinção entre máfia e crime organizado, mas a diferença entre a
máfia e a criminalidade comum é facilmente observada. As máfias fazem acordos entre
si, mas nunca com criminosos comuns. As máfias infiltram-se nas instituições estatais e
garantem, desta forma, sua impunidade. Uma das principais características da
criminalidade organizada transnacional é que ela elimina seus opositores. Contra o
exercício da violência não é eficaz o exercício da palavra, portanto as organizações
criminosas não podem ser combatidas somente no âmbito da discussão acadêmica. Esta
violência é exercida por unidades que têm como tarefas principais garantir a segurança
física de seus operadores, assegurar a disciplina interna e eliminar e concorrência. A
violência é fator de ascensão nas estruturas hierárquicas dos cartéis.
Outra característica significativa da máfia é o etnocentrismo. A consciência
coletiva baseada na identidade étnica é impregnada de crenças que motivam, encorajam,
cegam e contribuem para que a organização seja poderosa, mobilizadora e praticamente
indestrutível. Como exemplos de forte etnocentrismo temos as máfias chechenas, patas
(Afeganistão e Paquistão) e os aluítas.
É crença comum que os cartéis são estruturas sociais complexas com estruturas
bem azeitadas e cujos sistemas de acumulação obedecem à rigorosa racionalidade. Na
realidade, entretanto, reina no crime organizado a paixão humana, a selva onde
contratos não são respeitados e os escalões mais baixos das organizações agem
instintivamente, atrapalhando os planos “racionalmente” estabelecidos pelos escalões de
comando. O ódio e a vaidade determinam o curso das ações das máfias mais que
qualquer outro motivador, afirma o autor.
Na segunda parte do livro, Jean Ziegler inicia uma descrição mais detalhada das
principais organizações criminosas contemporâneas.
A máfia russa é apontada como a mais antiga e violenta ainda em atividade.
Com a morte de Stálin e a conseqüente diminuição da repressão, os cartéis cresceram e
ganharam força. Durante a abertura econômica realizada no governo de Gorbachev, o
niilismo tomou conta da população russa, e os chefes do crime são os únicos capazes de
fazer frente ao capitalismo e sustentar o resguardo das origens. A máfia russa floresce
no “tecido social dilacerado”. A economia ruim, com excesso de especulação e pouca
produção, a relação problemática dos russos com o dinheiro (devido à passagem direta
do feudalismo ao regime socialista), a expectativa de vida baixa, entre outros fatores,
contribuiu para a desestabilização da sociedade e conseqüente expansão do crime
organizado. Durante os processos de privatização, cerca de 85% das empresas no setor
comercial, bancário, industrial e de serviços foram adquiridos por organizações
criminosas. Na Rússia, o petróleo é a maior fonte de renda da máfia, que cobra taxas
altas pela “proteção” do transporte do produto. A Interpol estimou em 1997 que 40% do
PIB russo provém de cartéis criminosos. A guerra, antes ferrenha, entre as famílias
mafiosas, tem se acalmado na medida em que as fronteiras estão hoje estabelecidas e
com o domínio do mercado, todos têm poder.
Na Terceira Parte do Livro o autor explora a fonte que abastece a máfia russa de
soldados. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) apresenta dados
demonstrando que a Rússia é campeã de tráfico de seres humanos, que se tornam
escravos pedidores de esmola na Europa. Os implacáveis matadores russos são
recrutados entre ex-oficiais do Exército Vermelho, que até 1985 era poderoso e a partir
de 1990 começa a desmoronar. Com a desmobilização das unidades em condições
humilhantes, formou-se um reservatório de capangas e gângsteres para a máfia. A
Interpol estimou, em 1996, que há cerca de 5700 cartéis da máfia russa em atividade.
A partir de 1990 surge a expressão “criminalidade nuclear”. Do desmontado
exército russo surge o tráfico de plutônio, urânio, ósmio e mercúrio vermelho. As
substâncias são obtidas de duas maneiras: mediante furto, violência e corrupção ou
criando empresas oficiais e solicitando aos laboratórios que certifiquem a autenticidade
das substâncias. Graças à Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em
Viena, já é possível localizar com bastante precisão de onde vêm os materiais oferecidos
no Ocidente. Auxílio econômico de outros países, principalmente dos Estados Unidos,
permite hoje que as Forças Armadas russas resistam às propostas da máfia.
Investimentos vultuosos também são feitos para garantir a segurança nos depósitos do
antigo Exército Vermelho. Ainda assim, em 1997 foi revelado pelo próprio governo
russo que o exército havia perdido o controle sobre pelo menos 100 ogivas. A porta
giratória por onde passam as substâncias a caminho do ocidente é a Suíça, com suas 26
províncias soberanas judicialmente.
Durante os quase dez anos de ocupação soviética no Afeganistão, alguns oficiais
do Exército Russo estabeleceram um eficiente esquema de tráfico de heroína, morfina e
derivados, apoiando as plantações e laboratórios locais. A Nigéria e seus governos
ditatoriais controla as rotas da Rússia para a Europa Ocidental. Em 1995, a Nigéria
sofreu severa sanção, sendo excluída da Comunidade Britânica das Nações e tendo
relações diplomáticas rompidas com muitos outros países. Então Vladivostok, na
própria Rússia, passou a controlar o tráfico para a Europa, com suas taxas elevadíssimas
de crimes e consumo de drogas vinte vezes maior que a média nacional.
Na parte IV do livro é revelada a história de Agha Hasan Abedi, o Monsenhor,
fundador do Banco de Crédito e Comércio Internacional. O banditismo bancário é
grande aliado do crime organizado, e o BCCI está entre as maiores máquinas de lavar
dinheiro da história. Durante sua existência, de 1972 a 1991, perpetuou-se o mito de que
o banco teria sido criado visando atender a populações asiáticas e do terceiro mundo,
com sua característica de localmente aculturado, salvando os pobres da exploração dos
bancos ocidentais. Assim atraiu somas vultuosas, de trabalhadores e de governos, sendo
que o chefão Agha Hasan Abedi conservou até após sua morte a fama de “salvador” e
de “bode expiatório” do sistema financeiro ocidental. Um organograma preciso e
detalhado do BCCI foi traçado nas investigações que sucederam sua queda em 1991.
Finalmente, na quinta e última parte do livro, o autor faz um alerta sobre a
impunidade. A impunidade, sustenta Ziegler, deve ser examinada atentamente, na
medida em que operações criminosas de tão ampla escala não podem ter passado
despercebidas diante dos serviços secretos ao redor do mundo. Algumas vezes, como se
observou durante a ocupação soviética no Afeganistão, as máfias e milícias tiveram
apoio dos governos ocidentais. A impunidade trocada por interesses políticos.
O medo do crime nas sociedades democráticas é, muitas vezes, alimentado pelos
governos para que as populações aceitem mais e maiores restrições à sua liberdade,
impostas em nome da proteção. Essa observação não tem como objetivo minimizar a
nocividade das máfias, mas sustentar que a democracia está viva e o crime organizado
pode ser combatido pelo Estado. A ação estatal é, contudo, dificultada na medida em
que existem processos e leis penais diferenciados em cada Estado. As fronteiras detém
as ações dos juízes, mas não dos criminosos. Enquanto os países se integrados sob
variados aspectos, em termos judiciais eles continuam isolados em suas soberanias.
Uma das soluções que têm sido aplicadas é a cooperação judiciária recíproca. Já a ajuda
recíproca selvagens utilizada individualmente pelos juízes, não é eficaz. Os sistemas
devem desenvolver cooperação eficaz se quiserem superar a impunidade ocasionada
pela demora nos processos e a prescrição.
A cooperação entre as diversas policiais dos países também enfrenta
dificuldades. A Europol, por exemplo, não dispõe de agentes armados. A International
Law Enforce Academy continua se deparando com obstáculos burocráticos. Na
realidade estatal que vivemos, com os aparelhos judiciário e policial extremamente
fracionados, a internet aparece como um presente dos Deuses para o crime organizado,
na medida em que permite eficaz comunicação e troca de informações muitas vezes
indecifráveis.
As redes têm vantagens extraordinárias como ferramentas de organização em
virtude de sua flexibilidade e adaptabilidade inerentes, características essenciais para se
sobreviver e prosperar num ambiente em rápida mutação. É por isso que as redes estão
proliferando em todos os domínios da economia e da sociedade, desbancando
corporações verticalmente organizadas e burocracias centralizadas e superando-as em
desempenho. Nas duas últimas décadas, as organizações criminosas vêm estabelecendo,
cada vez mais, suas operações de uma forma transnacional, aproveitando-se da
globalização econômica e das novas tecnologias de comunicações e transportes. A
estratégia utilizada consiste em instalar suas funções de gerenciamento e produção em
áreas de baixo risco, nas quais detêm relativo controle do meio institucional e voltar a
atenção, como mercados preferenciais, às áreas com a demanda mais afluente, de modo
que possam cobrar preços mais elevados. Essa internacionalização das atividades
criminosas faz com que o crime organizado dos mais diversos países estabeleça alianças
estratégicas para cooperar com transações pertinentes a cada organização, em vez de
lutar entre si, mediante acordo de cooperação e ‘joint ventures’. Neste aspecto, as leis
que regulam comércio e utilização de programas de criptografia têm extrema
importância.
A vigilância eletrônica por meio de escutas telefônicas e microcâmeras também
se demonstra eficaz na prisão de membros do crime organizado transnacional. Porém a
vigilância eletrônica generalizada não é eficaz, até porque as polícias não dispõem dos
recursos necessários para adquirir equipamentos no nível que o crime organizado tem.
Por isso, na guerra contra a criminalidade organizada transnacional, os homens e
mulheres, magistrados e policiais, que estão na frente da linha de combate são tão
importantes. Os agentes infiltrados são da mesma forma essenciais. Apesar das críticas
a este tipo de atuação, a necessidade do Estado de Direito defender-se eficientemente
contra o crime organizado, sobrepõe-se. É importante também dispor de métodos que
façam os réus falar em juízo, como os benefícios concedidos aos “pentito”. É necessário
ainda uma maior aproximação entre juízes e procuradores para que possibilite luta de
igual para igual contra os brilhantes advogados contratados pelo crime.
O perigo maior do crime organizado, porém, não é o ato criminosos em si, mas a
influência que tem na sociedade, propagando corrupção e influenciando a vida
econômica, social e a própria administração pública. Desta forma, é necessária a adoção
de reformas legislativas urgentes. O calcanhar-de-aquiles da criminalidade organizada
transnacional é a lavagem de dinheiro. Porém a criminalidade organizada é como uma
hidra, cortando-se sua cabeça, nascem outras. E por isso ela só será derrotada com um
trabalho Hercúleo, quando a sociedade democrática ocidental recuperar o senso de
destino coletivo e os comportamentos baseados na solidariedade e na justiça.
Esta obra apresenta grande concentração de informação sobre a criminalidade
organizada transnacional, informação esta que, geralmente, não é colocada à disposição
da população pelas instituições estatais de combate ao crime ou pelas polícias mundo
afora. Porém o livro aparenta não seguir uma seqüência lógica de raciocínio, o que pode
confundir o leitor, pois ora o foco está no aspecto histórico das máfias, ora na forma de
atuação de alguma máfia específica e por vezes a narrativa desenrola-se por vários
capítulos focada num único personagem da criminalidade organizada transnacional. Tal
fato não impede o autor de apresentar ao final o que parece ser a conclusão à sua ampla
observação do fenômeno; a exaltação do papel daqueles que dedicam sua vida ao
combate ao crime organizado e um apelo à integração dos sistemas judiciários do
planeta como forma de obter sucesso neste combate. Se a intenção do livro é alertar
sobre a extensão da atuação das máfias e sua influência na sociedade nos dias de hoje,
bem como esclarecer aspectos do funcionamento das mesmas, o autor obtém sucesso.
Como estudo acadêmico, entretanto, a obra tem mais caráter de curiosidade, abordando
diversas, interessantes e tristes histórias das máfias contemporâneas.

REFERÊNCIA:

ZIEGLER, Jean. Os Senhores do Crime – As Novas Máfias contra a Democracia;


tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro; Record, 2003.