Alexandra Machado

Catarina Lopes
Gabriela Figueiredo

T19

ROTEIRO

INTRODUÇÃO
Este podcast trata da obra Os Problemas da Estética, de Luigi Pareyson.
Apresentação e roteiro de Catarina Lopes, Gabriela Figueiredo e Alexandra
Machado.
Edição: Carolina Lopes.

Inicialmente, colocamos como questão:
O QUE É ESTÉTICA?
Objeto de reflexão do homem desde as origens do pensamento filosófico, a
estética – o significado da beleza e a natureza da arte – somente começou a
configurar-se como disciplina filosófica independente no século XVIII, com a obra de
Kant. Tendo como temas principais a gênese da criação artista e da obra poética, a
análise da linguagem artística, a conceituação de valores estéticos, as relações
entre forma e conteúdo, a função da arte na vida humana e a influência da técnica
na expressão artística, a estética foi primeiramente desenvolvida pelos gregos como
a “ciência do belo” e posteriormente, desenvolvendo-se e restringindo-se à reflexão
e à pesquisa sobre os problemas da criação e da percepção.

PAREYSON E SUA VISÃO DA ESTÉTICA
Considerado um dos maiores filósofos italianos do século XX, a obra de Luigi
está ligada à Filosofia da Existência, à Hermenêutica, à Filosofia da Religião e à

Para o filósofo. deve permear o fazer artístico. onde a interpretação está sempre presente a partir da experiência do artista. Definição da arte. OS PROBLEMAS DA ESTÉTICA Escrita em 1966 por Pareyson. entre outros assuntos. Para Pareyson antes de mais nada. Colocando-a como produção e formatividade. traçando parâmetros com a produção artística moderna. Pareyson apresenta os princípios fundamentais de sua reflexão. sob a ótica da formatividade. A matéria artística. p. onde todos os seus aspectos são considerados desde o início da criação. DESENVOLVIMENTO A seguir serão tratados três capítulos da obra. desenvolveu um pensamento original. Capítulo IV: Conteúdo e Forma 1 NAPOLI. Arte e história. coloca os seguintes temas em discussão: Natureza e tarefa da estética. Conteúdo e forma. abrangendo uma gama de questões. Dividido em dez capítulos bem estruturados. Nesta teoria. o autor propõe que a obra está em permanente formação. mas a filosofia inteira concentrada sobre os problemas da beleza e da arte1. O processo artístico e a Leitura da obra de arte. a Estética não pode ficar no plano especulativo. obra de arte e realidade. como a relação entre obra de arte e sociedade. Seu pensamento elabora uma estética da produção. denominado por ele como “teoria da formatividade”. 16 . Luigi Pareyson e a estética da formatividade: um estudo de sua aplicabilidade. Pessoalidade e Sociedade da arte. Autonomia e funções da arte.Estética. sendo que nesta última. a estética não é parte da filosofia. conceito desenvolvido pelo próprio autor. Os Problemas da Estética é uma obra que problematiza questões do campo da estética. Questões sobre o conteúdo da arte. obra de arte e biografia.

deve ser entendida como uma espécie de organismo que contém elementos dispostos de modo harmônico e sempre singular 2. A obra de arte só existe enquanto feita. inventar e descobrir. mas também é configurado como seu espiritualizador. Seus ready-mades abrem uma série de questões sobre o próprio fazer artístico e dão vazão a uma gama de problematizações que surgirão na arte moderna e contemporânea. sempre pleiteando a perfeição para atingir autossuficiência e êxito. sua criação. p. seja para com o todo. Duchamp alinha questões sobre a formatividade.Conteúdo e forma são conceitos que coexistem e complementam-se. Pareyson escreve que o conteúdo nasce como tal no próprio ato em que nasce a forma. A arte contém a vida de onde emerge. 56 . é a forma como quer ser entendida. 32 3 PAREYSON. O próprio fazer artístico é colocado em cheque. Os problemas da estética. onde execução e invenção tem uma relação de simbiose. O “como” ela faz isso. não despertando qualquer reflexão estética – não são bonitos ou feios. sendo singular. p. Nos famigerados ready-mades. É criação orgânica e autônoma. Conteúdo já teve sua significação ligada ao tema ou motivo da arte. faz dela conteúdo. Seus objetos advêm do cotidiano e nos são comuns. O conceito de obra de arte. mostram-se desinteressantes 2 Idem. trazendo à tona questões e pragmáticas internas e externas ao artista. A produção do artista Marcel Duchamp oferece um paralelo interessante acerca dos conceitos elaborados há pouco. realização de um projeto. usando-se da representação ou da expressão. regida por regras próprias. comercialização e institucionalização são questionados através de obras elaboradas pelo artista. O formar é executar. distinguindo-se assim das outras atividades. Ela é ideia concretizada. seja para com suas próprias partes. formada e pensada. e a forma não é mais que a expressão acabada do conteúdo3. na estética de Pareyson. A forma.

fazendo dos sentimentos algo tão importante como seu conteúdo ou sua forma. o sentimento não é um equivalente à obra. A Antiguidade Clássica. adquirem outro aspecto: transformam-se em arte que critica a própria arte. vemos a arte como perfeição formal. ao serem endossados como obras de arte e institucionalizados em um museu numa atitude niilista e criadora por parte do autor. aspirações políticas. e todos esses pontos têm menor valor se comparado ao conteúdo da obra. que dá forma ao que era então invisível ao olhar do outro. “uma arte lírica. já que está versa muitas vezes de forma não compreensível para a maioria das pessoas) é o sentimento. religiosas e morais. geralmente. seria aquilo que expressa o amor pela arte. ou concomitante e contido. Mas. nela está contida também ideias. um ato primitivo de um “ânimo perturbado e comovido”. já o segundo. sem dúvidas. nutrida de sentimentos e de emoções”. Pareyson analisa os sentimentos pensando que há um antes e um depois do surgimento da obra. é claro. algo particular ao indivíduo. é a inspiração. a paixão pelo ato da arte. transformando-o em arte – forma. Criou-se assim uma poética própria de Duchamp. Os teóricos vêm o sentimento na arte. . De objetos produzidos em larga escala industrial e destituídos de aura. O antes. enquanto a segunda visão nos fará lembrar todo a Arte Moderna e Contemporânea. parte da intuição do que faz surgir a obra. unindo a ação inventiva do artista e sua reflexão – conteúdo –. Capítulo V: Questões sobre o conteúdo da arte Um dos temas de discussão da estética que sempre encontrou certa dubiedade entre os estudantes das artes (principalmente a plástica. a singularidade potencial de uma obra. alcançada pela racionalidade. em sua essência. pelo exercício contínuo do artesão em seu culto a forma. Os estudos de Croce apontam que está exatamente nos sentimentos. o ready-mades passam a possuir conteúdo e forma. de duas maneiras: na primeira.– no entanto. ao fazer artístico presente na escolha e apropriação do material. pode ser enquadrada na primeira visão de sentimento.

O rumor da língua. Por que deveriamos tratar de maneira tão displicente o leitor da arte? Assim se revela o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas. mas há quem acredite que esses sentimentos nada tem a ver com a arte. but would feel the rush of life in them. saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo. Barthes traça sua visão sobre a importância do leitor dentro da literatura. como se tem dito até aqui. mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne. é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem. Enquanto o segundo grupo usa-se de poéticas que findam em reações diversas. todas as citações de que uma escrita é feita. dessa vez o leitor é indiferente a criação da obra. como é possível ter a comoção do leitor como um fim da própria arte. a unidade de um texto não está na sua origem. a existência de um outro olhar era fundamental para o propósito da sua obra. (BARTHES. em contestação. ou seja. mas sua existência não pode ser tampouco ignorada. mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história. Pareyson acredita em uma visão equilibrada. O primeiro grupo cria técnicas e persegue experiências que possam levar o leitor a certa comoção ou reação. em que os sentimentos advindos do leitor não podem ser o fim da arte. Vincent's passionate belief was that people wouldn't just see his pictures. . que pode trazer compreensões diversas sobre o que vê. sem que nenhuma se perca. mas no seu destino. essas pouco importantes a arte e ao artista. em paródia. sem biografia. ou seja. o leitor é uma peça importante.O depois do surgimento da obra também traz discrepâncias na literatura: há quem acredite que a arte existe para suscitar sentimentos. é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito. Colaborando com este ponto de vista. como uma finalidade própria da obra.) Podemos também pensar sobre as obras de Van Gogh. sem psicologia. Ele é um ser com seu próprio repertório discursivo. e esse lugar não é o autor. that by the force of his brush and dazzling colour they'd experience those fields. Roland. através da análise de Simon Schama.

Pensando ainda em Van Gogh. 4 A apaixonada crença de Vincent era que não apenas veriam suas pinturas. a continuidade de um estilo do artista. é que a obra não revela necessariamente um punhado de fatos ao redor da vida do artista. Garchet. pelo fato do artista viver pela arte que produz. pode a biografia colaborar para a compreensão da arte? Há vários indícios que colaboram com a ideia de que biografia e obra falam uma sobre a outra. a obsessão pelos mesmos temas ou a maneira repetitiva. Será realmente possível ver todos esses traços biográficos citados por Schama apenas analisando sua obra? O que. I feel he got what he wanted. como. It wasn't the art crowd he was after. ele queria abrir os olhos e corações de todos que vissem suas pinturas. Eu sinto que ele conseguiu o que queria. por exemplo. His art would reclaim what had once belonged to religion . mas também podemos ver a vida do autor alterando sua obra. O que Pareyson aponta. suas vivências. como.faces and flowers in ways that nothing more polite or literal could ever convey. podemos notar a existência de uma flor em um copo com água. (Tradução nossa). . que pela força de seu pincel e cores deslumbrantes elas viveriam aqueles campos.consolation for our mortality through the relish of the gift of life. he wanted was to open the eyes and the hearts of everyone who saw his paintings. entretanto. esta flor era uma forma de tratamento da época para distúrbios psicológicos. Podemos ver a vida do autor presente em sua obra. Croce separava a personalidade artística da humana com o argumento de que não se pode depreender da obra uma descrição factual da vida do autor. Há quem enxergue uma separação entre vida e obra. mas sentiriam o fluxo da vida nelas. sua necessidade de experimentar dentro de poéticas e. mas sim sua personalidade. de fato. 4 (SCHAMA.consolação da nossa mortalidade através do prazer do dom da vida. principalmente. Simon. todos de alguma maneira transfigurados em arte. no quadro Retrato do Dr. por exemplo. Não era a turma da arte que ele estava atrás. Sua arte reivindicaria o que uma vez pertenceu à religião .) Podemos partir dessa declaração de Schama e entrar em uma segunda discussão fruto dos estudos de Pareyson. Power of Art. rostos e flores de forma que nada mais formal ou literal pudesse transmitir. arte esta que precisa também ser pensada em como era vista pelo seu próprio criador.

por muito tempo. É certo que a arte é o fruto de um ser social cercado de influências de seu tempo. a primeira resposta aponta para a definição clássica da arte como imitação da natureza. Outra antinomia que aparece na história da estética apresentada por Oliveira é da arte como criação ou como descoberta. é resolvida. o uso da cor amarela pode não ter sido arbitrária. Na série sobre girassóis. Surge. . Mas o pré-romantismo já tinha razão quando pensava outra relação com arte e a beleza. então há traços de seu autor. discente do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). esse define a lei geral da arte como regra individual da obra a ser feita. mas decorrente do uso excessivo de absinto. o processo artístico pode ser criação e descoberta ao mesmo tempo. na medida em que o artista se configura como criador no mesmo ato de dar vida a uma forma independente que se impõe ao seu autor. Mas aos poucos. mas assinalando que a arte é a beleza da maneira como se dá a representação. pois a atenção estética é dirigida para o interior da artista e a arte concebida como expressão da interioridade. de uma só vez. Pode-se dizer que a beleza também foi. este. decorrente de uma vida única. no entanto. essa definição vai ganhando cada vez mais contornos de poéticas e programas de arte do que de estéticas. O problema da formação da obra já se resolve nesse contexto. Mas para Pareyson. terá suas particularidades. partindo da pergunta sobre qual é a lei da arte. não podemos esquecer. assim. ela não foi desprendida e jogada ao mundo. Capítulo IX: O processo artístico Segundo Oliveira. substitui-se o Ideal de beleza pela beleza da expressão. a lei da arte.quase agressiva como Van Gogh pintava seus quadros. somente a inventividade do artista. pensando a representação de objetos belos como característicos de determinadas poéticas. O autor busca demonstrar que parece não existir uma lei geral para a arte. independente de sua exuberância. Com o romantismo. A obra de arte é. mas ressalta que a arte precisa obedecer a algum rigor que defina sua especificidade. lei e resultado de sua formação. uma antinomia. que.

o não-acabado é o que se deseja atingir na obra. quando. portanto. nesse caso. acabado. uma vez que essas duas posições se situam em diferentes programas de arte. 1-7. que muitas vezes projeta sua obra como um processo infinito. Mas aí novamente não se pode confundir programas de arte com estética. ao contrário. bem como existem aqueles que concebem a obra de arte como inseparável do processo artístico. mais uma vez é falsa ou limitada. é que ele se compõe pela inspiração ou pelo trabalho. 5 OLIVEIRA. não se podem inferir duas teorias estéticas diversas desse dualismo. é o seu acabamento formal. E mesmo essas concepções não contradizem o acabamento da obra enquanto perfeição formal. Mas essa oposição. a reflexão filosófica permeia todos os âmbitos da vida do homem. pois. A posição que autor defende e afirma que trabalho e inspiração não divergem. L. ela também deve se revelar como inserida em um processo. p. a estética está sempre presente na arte. mas ressalta o cuidado que deve ser tomado. . Todo o processo de invenção é pensado. Pareyson considera válido o processo artístico do primeiro plano – lugar da obra de arte –.5 CONCLUSÃO Concluindo nosso pensamento. aberto. incompleto? O autor conclui que a concepção de arte como abertura costuma apelar para a intenção do artista. Assim. bem como em rótulos dos diferentes artistas durante a história. Há aqueles que consideram que o processo artístico não interessa para a avaliação de uma obra. e assim o faz também na criação artística. da elaboração do artista à suscitação de questões pelo observador final. ou seria algo aberto. mas convergem enquanto aspectos necessários do processo artístico. Mas a obra de arte existiria somente como a conclusão de um processo ou ela própria seria um processo? Ela seria algo definitivo.Um outro problema a respeito do processo artístico. Questões Fundamentais da Reflexão Filosófica acerca da Arte: resenha de Os problemas da Estética de Luigi Pareyson. na medida em que essa concepção pode tornar parcial a compreensão da obra se essa própria é tomada exclusivamente como um produto acabado.

ano 6. Forma artística e obsessão: a biografia de Van Gogh nas sextinas de Geraldino Brasil.Todo fazer humano é formativo. Martins Fontes: São Paulo. 2008. edição 3.revistas. Artes e Cultura. Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação.uk/arts/powerofart/vangogh. portanto. Acesso em: 17 de agosto de 2015. ambas de caráter essencialmente conceitual. Universidade Federal de Ouro Preto. Renata. L. TAVARES. oferecendo subsídios essenciais para a reflexão estética. 2013. . Resumo. em conjunto com a finalidade de sua ação. 2008. a formatividade de Pareyson revela-se como chave para o entendimento da arte moderna e contemporânea. Tese (Mestrado em Filosofia) – Instituto de Filosofia. Roland. Disponível em: <http://www. F. 1. pp. jan/jul 2012. vol.shtml>. Questões Fundamentais da Reflexão Filosófica acerca da Arte: resenha de Os problemas da Estética de Luigi Pareyson. São Paulo. L. Intersemiose – Revista Digital. 2004. Disponível em: <http://www. NAPOLI. SCHAMA.usp. Simon. é a adequação do que ele propõe alcançar com o que ele mostra. e a maneira como este age. 3ª ed. Luigi Pareyson e a estética da formatividade: um estudo de sua aplicabilidade à poética do ready-made. sua invenção. 55-77. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES. 57-65. Ouro Preto. Acesso em: 20 de agosto de 2015. 1. PAREYSON. 181-198. n. São Paulo: Martins Fontes. arte e dignas de reflexões e problematizações estéticas. Power of Art. Ano 1. Necessária tanto à fruição artística quanto à criação. As problemáticas da estética são muitas. Uma obra de arte é um diálogo entre a reflexão do artista. 83-95.co. OLIVEIRA. Maria.bbc. 120 f. Cidade Universitária. p. 7 p. mas a obra as desnuda de maneira didática. Os problemas da estética. NINO. O que fará suas elaborações belas e.br/anagrama/article/viewFile/52407/56401>. In: Rumor da Língua. A Morte do Autor. 2001. Universidade Federal de Pernambuco.

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