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FRANCISCO DE OLIVEIRA critica 4 razio dualista o ornitorrinco Eorre RIAL QESTILO E SECO COMO 0 AGRESTE Peele eM OM ORM PUL Mc ihe Rem Eg parddia — a outvo classico das ciéncias. sociais eee ree ee ETP aa Br eon RU sec Maul at eel eee iste seu meena Loomer aes) Pe Re ee sees once oem) para contemporizar nos rarefeitos debates de entao. Ao identificar 0 subdesenvolvimento como produto da Poe recstoge a USL om TEL Les sc ache ac Creel Bec aan Cuma ence eC cne ke orc ime me Uremic om Pee eee cree rat (ainda vive) a maior parte da populacao da América ei eer Roem RCC aL ee eerie une) pensamento qué procurava explicar a luta contra o See er OR ce cen Re Mts moderne e arcaico, e via os extremos de opuléncia teu enema tcc Ue cia oc Bl oy segundo Chico, reconciliava o-suposio rigor cientifico PSPS peau meagic uel Mulc Ret) Ee Ice Pelee ieecedt Me Me ccny cc Coe eicovei-cscroMoloM- (err Uuelt TOM Unc ATS Rm OLN Occ ECIRCL} Ricillrecmee ec nO MCC lel Mme te Ne cel lel RUM oe: | pee Manele solely eu Resa y Eo Temes un eee Melee me a) ier esi Mee Beck ee aca cee SPCC Re Reuse kum Cn Lm TREE Sle trés décadas depois, é reeditado pela Boitempo. eae Uae ule Roa Rec! DB eieehs ROC Maur uum el te Peuie WeL eMC M aL citete nec(Om Mica Ree|Ue cA) ee eee ee oe eae meen cn pois se 0 subdesenvolvimento, como teoria, deixou Pete meget eset mes CIT (oom CRITICA A RAZAO DUALISTA O ORNITORRINCO Francisco de Oliveira CRITICA A RAZAO DUALISTA O ORNITORRINCO Prefacio Roberto Schwarz Borremrc EerTORTAL Copyright © 2003, Francisco de Oliveira Copyright desta edicdo © 2003, Beitempo Editorial ensaio “A economia brasileira: critica 4 raefo dualista" foi publicado pela primeira vez em Eudes Cebrap n 2, de 1972, recditado em Selegdes Cebrap n* 1, em 1975 ¢ 1976, e transformado em livro pela editora Vozes, em 1981. Revisao Luiz Chamadoira Maria Fethianda Alvares Capa Maringoni ustragao: Avenida Lufs Carlos Berrini, Si0 Paulo, em 1999 foro LC. Leite | AE Projeto grifico editoragio eletrinica Alfredo Carracedo Castillo Editora Ivana Jinkings Assistente editorial Ana Paula Castellani Coordenasi de producto Hliane Alves de Oliveira Fotolitas OESP Impresido e acabamento Grafica Alatide ISBN: 85-7559-036-7 E vedada, nos termos da lei, a reprodugao de qualquer parte deste livra sem a expressa autorizagdo da editora 1 edigao: outubro de 2003 Virager: 3.000 exemplares BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Associados Ltda. Rua Euclides de Andrade, 27 Perdizes (05030-030 Sao Paulo SP ‘Tel./Fax: (11) 3875-7250 / 3872-6869 e-mail: edicora@boirempo.com site: www.boitempo.com Para meus amigos do antigo Cebrap. Para minha tribo e interlocutores do Cenedic: Maria Célia, Cibele, Laymert, Vera, Carla, Ana Amélia, Carmelita, Leonardo, Néia. Para Caico ~ Carlos Fernandez da Silveira , 0 inspirador de “O ornitorrinco” PREFACIO COM PERGUNTAS CRITICA A RAZAO DUALISTA I I Tt. © ORNITORRINCO .... SUMARIO Roberto Schwarz Uma breve colocacio do problema O desenvolvimento capitalista pds-anos 1930 € © processo de acumulagio ... Um intermezzo para a teflexao politica: revolugio burguesa ¢ acumulagéo industrial no Brasil . A aceleragio do Plano de Meras: as pré-condicdes da crise de 1964 A expansio pés-1964: nova revolugdo econémica burguesa ou progressao das contradigdes? .... Concentracio da renda e realizacao da acumulacéo: . 107 as perspectivas criticas oll PREFACIO COM PERGUNTAS Roberto Schwarz Venceu 0 sistema de Babilénia e 0 garcao de costeleta Oswald de Andrade, 1946 © poema em epigrafe condensa, em chave debochada, a decepsio histérica de um poeta modernista ¢ libertério com 0 curso do pés- guerra. As derrotas do nazifascismo na Europa ¢ da ditadura Vargas no Brasil haviam sido momentos de esperanga incomum, que entretanto nao abriram as portas a formas superiores de sociedade. No que nos tocava, a vit6ria ficara com o sistema de Babilénia, quer dizer, 0 capita- lismo, e com o gargao de costeleta, quet dizer, a estética kitsch. O resultado da fermentagao artistica e social dos anos 20 ¢ 30 do século passado acabava sendo esse. Um ciclo depois, guardadas as diferencas de género, os ensaios de Francisco de Oliveira expdem um anticlimax andlogo, ligade ao esgora- mento do desenvolvimentismo, que também vai se fechando sem cum- prit © que prometia. Escritos com trinta anos de intervalo, “Critica & 12 Roberto Schwarz razio dualista” (1972) ¢ “O ornitorrinco” (2003) representam, respec- tivamente, momentos de intervencao e de constatagao sardénica. Num, a inteligéncia procura clarificar os termos da luta contra o subdesenvolvi- mento; nojoutro; elareconheoeo monstrengosadal emiqueyaté segun= da ordem, nos transformamos. Note-se que o primeiro titulo aludia a Gitte cea vteta chialéricas's livia enna Hecenité ent Gise Sarite™ procutava devolver & atualidade o marxismo, a propria dialética ¢ a revolugao, sob aisisnordeuma flosofiardaliberdade: ao passa quetaicomparacsoicom © ornitorrinco, um bicho que nao é isso nem aquilo (um “heréi sem nenhum cardter”?), serve ao critico para sublinhar a feicdo incongruente da sociedade brasileira, considerada mais no que veio a ser do que nas suas chances de mudat. O 4nimo zoogrifico da alegoria, concebida por um petista da primeira hora na propria oportunidade em que o Partido dos Trabalhadores chepa ii Presidéncia: da Repdbilica; nao passatd desperce- bido ¢ fara refletir. O paralelo com Oswald, enfim, interessa também porque leva a recapitular a lista comprida de nossas frustragées histéri- cas, que vém do século XIX, sempre ligadas ao desnivel tenaz que nos separa dos paises-modelo ¢ 4 idéia de o transpor por meio de uma virada social iluminada. ‘Avtransformaéio do Biauil- ii znioiiaies ce damplewis, Sepunde Francisco de Oliveira, com o salto das Forgas produtivas a que assisti- mos'em nossos dias. Ente foi dado pelos outros ¢ nado ¢ fdcid de repetin A Terceira Revolugio Industrial combina a mundializagao capitalista a conhecimentos cientificos e técnicos, os guais estdo seqiiestrados em paten- tes, além de submetidos a um regime de obsolescéncia acelerada, que torna intitil a sua aquisi¢ao ou cépia avulsa. Do ponto de vista nacional, o desejavel seria incorporar 0 processo no seu tedo, 0 que entretanto supée gastos em educagao e infra-estrutura que parecem fora do alcance de um pais pobre ¢ incapaz de investir, Nessas circunstincias de neo- Btfl8Sy o& Hage! RGdladet Uo SUbU@eavelinEats plan PORN desqualificagao suplementar, que compéc a figura do ornitorrinco. * Jean-Paul Sartre, Critica da razdo dialética, wadugdo de Guilherme Joao de Freitas ‘Teixeira, Sao Paulo, DP&A, 2002. (N.E.) Preficio com perguntas. 13 No campo dos trabalhadores, a nova correlagio de forgas leva ao desmanche dos direitos conquistados ao longo da quadra anterior, A extragio da mais-valia encontra menos resisténcia e o capital perde o cfeito civilizador que pudesse tet. A tendéncia vai para a informalizacio do trabalho, para a substituicao do emprego pela ocupagao, ou, ainda, para a desconstrugao da relagao salarial. A liga do trabalho rebaixado com a dependéncia externa, consolidada na semi-exclusao cientifico- técnica do pais, aponta para a sociedade derrotada, As reflexdes do Autor a esse respeito ¢ a respeito das novas feigdes do trabalho abstrato da: pano para discussao, Também do lado da propriedade ¢ do mando ha reconfiguragao, que reflui sobre o passado. Contra as explicagées automaticas pelo inte- resse material imediato ou pela tradicao, 0 acento cai no aspecto conscien- te das escolhas, dotadas de certa liberdade, o que alids s6 Ihes agrava 0 teor. Para o periodo do subdesenvolvimento, Francisco de Oliveira insiste nna opedo das classes dominantes por formas de divisio do trabalho que preservassem a dominagio social corrente, ainda que ao prego de uma posicao internacional mediocre. Retoma o argumento de Fernando Hen- tique Cardoso, que pouco antes do golpe de 1964 dizia, contrariando a voz comum na esquerda, que a burguesia industrial havia preferido a “condigio de sécio-menor do capitalismo ocidental” ao risco de ver contestada a sua hegemonia mais a frente. Diante dessa desisténcia histé- rica, 0 candidato a levar avante 0 desenvolvimento cconémico do pais passatia a ser a massa urbana organizada. “No limite a pergunta serd entao, subcapiralisme ou socialismo?”! A quarenta anos de distancia, Francisco de Oliveira vai catar naquela mesma desisténcia um inespera- do grao de otimismo, mas de otimismo para 0 passado, que por contraste escurece o presente: se houve escolha e decisdo, a “porta da transformacao” estivera aberta*, Mesmo nao aproveitadas, ou deliberadamente recusadas, as brechas do perfodo circunscrito pela Segunda Revolugao Industrial — 1 Fernando Henrique Cardoso, Lmpresériv industrial e desenvolvimento econémico, S40 Paulo, Difusio Européia do Livro, 1964, p. 186-7 Francisco de Oliveira, “O ornitorrinca”, p. 132 deste livro. 14 Roberto Schwarz quando ciéncia ¢ tecnologia ainda nao estavam monopolizadas — exis- tiam. Conforme notou Paulo Arantes num debate sobre “O ornitorrin- co”, o raciocinio alimenta alguma saudade do subdesenvolvimento e de suas lutas, justificada em retrospecto pelo cerco acual. A tese mais polémica e contra-intuitiva do ensaio refere-se 4 forma- cao de uma nova classe social no pais. Como a andlise de classe est fora de moda, nao custa reconhecer o interesse fulminante que lhe € préprio, desde que nio se reduza & recitagio de um catecismo. A partir das “recentes convergéncias pragmiticas entre 0 PT’ ¢ 0 PSDB” ¢ do “apa- rente paradoxo de que o governo de Lula realiza 0 programa de FHC, tadicalizando-o, 0 Autor observa que “nio se trata de equivoco, nem de tomada de empréstimo de programa, mas de uma verdadcira nova classe social, que se estrutura sobre, de um lado, técnicos ¢ economistas doublés de banquciros, nticleo duro do PSDB, ¢ trabalhadores transformados em operadores de fundos de previdéncia, nticleo duro do PT. A identidade dos dois casos reside no controle do acesso aos fundos piiblicos, no conhecimento do ‘mapa da mina’”®. O leitor julgard por conta prépria a forca explicativa da hipétese, as observagées socials e histéricas em que se apdia, as suas conseqiiéncias para uma teoria atualizada das classes, a sua originalidade ¢ coragem intelectual, ¢ sobretudo as implicagdes que ela tem para a politica. De nossa parte, assinalamos apenas a sua ironia objetiva. Para decepgio dos socialistas, 0 centro-esquerda formado na hata contra a ditadura nao resistiu aos anos da redemocratizagao. A divisio ctistalizou-se no antagonismo partidério-eleitoral entre esquerda € cen- tro-direita, acompanhado das correspondentes adjetivagdes reciprocas. Agora, passados dez anos de governo do centro-direita, a vitéria de Lula nas eleigdes pareceria um ponto alto desse enfrentamento. Nao obstante, a luz das primeiras medidas do novo governo, Francisco de Oliveira estima que o nticleo dos partidos adversdrios na verdade compée duas faces de uma nova ¢ mesma classe. Suscitada pelas condigées recentes, esta faz coincidirem os ex-aliados, que no momento da Abertura politica, + Tbidem, p. 147. Prefécio com perguntas 15 diante da tarefa de cotrigit os estragos da ditadura e do milagre econd- mico, se haviam desunido. O reencontro, dentro da maior contrariedade € antipatia mutuas, nao se deve as boas tarefas antigas, mas a uma pauta nova, ditada pelas necessidades presentes e sempre anti-sociais do capital, cujo dominio se aprofunda. Ainda nessa direc4o, 0 Autor observa que os principais fundos de inversio do pais sio propriedade de trabalhadotes, 0 que faria um desavisado imaginar que estd diante de uma sociedade so- cialista, Acontece que 0 ornitorrinco nao dispde de autocompreensio ético-politica e que a economia dos trabalhadores é empregada como se nfo fosse nada além de capital, o que no deixa de ser, por sua vez, uma ops4o. O paralelo se completa com a conversio tecnocratica da intelectualidade peessedebista, vinda — vale a pena lembrar — das lutas sociais contra o regime militar ¢ da anterior militincia de esquerda. Num sentido que mereceria precisdes, 0 ornitorrinco deixou de ser subdesenvolvido, pois as brechas propiciadas pela Segunda Revolucio Industrial, que faziam supor possiveis os indispensdveis avancos recuperadores, se fecharam. Nem por isso cle é capaz de passar para 0 novo regime de acumulagao, para o qual lhe faltam os meios. Restarm- Ihe as transferéncias de patriménio, em especial as privatizagbes, que no so propriamente acumulagao endo diminuem as desigualdades sociais. Trata-se de um quadro de “acumulacao truncada” — cuja mecini- ca econémicieu ndo saboria‘avaliar ear queo palsscdefing peloque ndo & ou seja, pela condiggo subdesenvolvida, que j4 ndo se aplica, e pelo modelo de acumulacéo, que nio alcanca’. Este nao-ser naturalmente existe, embora a sua composi € sua dinamica ainda nao estejam identificadas, razdo pela qual ele ¢ comparado a um bicho enigmédtico ¢ disforme. Seja como for, nao ha interna uma estrada conhecida, ¢ muito menos pavimentada, que leve da posi- s4o atrasada 4 adiantada, ou melhor, da perdedora & vencedora. Se é que o caminho existe, ele nao obedece as gencralidades ligadas a uma nogao universalista do progresso, 4 qual bastasse obedecer. Pelo contrério, é no curso normal deste, em sua figura presente, reduzida a precedéncia dos 4 Thidem, p. 150. 16 Roberto Schwarz preceitos do mercado, que se encontra o motor do desequilibrio. A consideragio dialética do progresso, visto objetivamente pelos varios aspectos que vai pondo & mostra, sem ilusao providencial ou convicg4o doutrindria a seu respeito, sem ocultagao de suas conseqiiéncias regressi- vas, € uma das qualidades deste ensaio. Para fazer a diferenga, lembre- mos que em nossa esquerda ¢ ex-esquerda 0 cardter progressista do progresso € artigo de {é, meio inocente € meio ideolégico. De outro angulo, note-se como ¢ vertiginoso ¢ inusitado o andamento das categori estéo em formacio, j4 perderam a atualidade, nao vieram a set, trocam de sentido, sdo alheias etc. O desencontro é a regra. Uma classe-chave perde a relevncia, entra em cena outta nova, de composi- a0 “chocante”; 0 desenvolvimento das forgas produtivas desgraga uma parte da humanidade, em lugar de salvé-la; o subdesenvolvimento deixa de existir, ndo assim as suas calamidades; 0 trabalho informal, que havia sido um recurso heterodoxo ¢ provisério da acumulacio, transforma-se em indice de desaregacao social, ¢ assim por diante. No estilo da dialética esclarecida, o limiar das mudangas ¢ exato, nao é determinado por uma construcio doutrindria, mas ¢ sim fixado no bojo de uma totalizacio provisdria e heuristica, a qual sc pretende ligada ao curso efetivo das coisas. Trata-s¢ de um raro exemplo de marxismo amigo da pesquisa empirica, O privilégio definitério do presente ¢ forte (“O ceritico precisa ter a atualidade bem agarrada pelos chifres”, Walter Benjamin), mas nao € guiado pelo descjo de aderir correlagio de forcas dorninante, ou de estar na crista da onda, nem muito menos pela vergonha de chorar o leite derramado ou pelo medo de dar murro em ponta de faca (pelo contrdrio, 0 socidlogo no caso tem perfil quixotes- co). © atualismo reflete uma exigéncia tedrica, bem como a aspitagao 3 efetividade do pensamento, como parte de sua dignidade moderna. A sua luz, desconhecer a tendéncia nova ou a data vencida de convicgSes que esto na praca seria uma ignorincia. Nem por isso o presente € 0 futuro so palataveis, ou melhores que as formas ou aspiragdes que perderam o fundamento. As deniincias que as posigdes langam umas contra as outras devem set acompanhadas sem preconceito, como elemen- tos de saber. Esse atualismo sem otimismo ou ilusGes € uma posigao Preficio com perguntas 17 complexa, profundamente real, base de uma consciéncia que nao se mutila, 20 mesmo tempo que é rigorosa. Em certo plano, a definigao pelo que nao € reflete um momento de desagtegacao. Em lugar dos impasses do subdesenvolvimento, com a sua amarragao conhecida e socialmente discutida, organizada em Ambito nacional, vém a frente os subsistemas mais ou menos avulsos do conjunto anterior, que por enquanto impressionam mais pelo que jé nao virdo a ser do que pela ordem alheia € pouco acessivel que passaram a represen- tar. Por outro lado, a situagdo convida a uma espécie de atualismo curto, avesso a preocupagao nacional ¢ & meméria da experiéncia feita, as quais acabam de softer uma desautorizacao histérica. Pois bem, 0 esforgo de Francisco de Oliveira, energicamente voltado para a identificagao da nova ordem de coisas, nao acata esse encurtamento, que seria razodvel chamar positivista, a despeito da roupagem pés-moderna, A resisténcia confere ao “Ornitorrinco” a densidade problemética alta, em contraste com o rosa hitich e 0 “¢ isso at” do progressismo impavido, Trata-se de aprofundar a consciéncia da atualidade através da consideragio encompridada de seus termos, que reconhega a base que eles tém noutra parte, no passada, noutro setor do campo social, no estrangeiro etc. Assim, nao é indiferente que o capital se financie com dinheiro dos trabalhadores, que os operadores do financiamento sejam sindicalistas, que os banqueiros sejam intelectuais, que a causa cristalizadora da nova fragmentacio seja um progresso feito alhures. Séo determinacoes reais, cuja supressio produz a inconsciéncia social, algo daquela indiferenciacao em que Marx via o servico prestado ao establishment pela economia vulgar. Ao insistir nelas ¢ na irracionalidade social que elas tornam tangivel, Francisco de Oliveira procura trazer a consciéncia a altura necessdria para criticar a ordem. Ou procura dar 4 consciéncia razGes claras de revolta, remorso, vergonha, insatisfagao etc., que a inquietem, Numa boa observagio, que reflete o adensamento da malha mundial e contradiz as nossas ilusSes de normalidade, o Autor aponta a marca da “exces permanente” no dia-a-dia brasileiro’. Com perdio dos 5 Ibidem, p. 131 18 Roberto Schwarz compatriotas que nos supdem no Primeiro Mundo, como nao ver que mutirao da casa propria ndo vai com a ordem da cidade moderna (embora na pratica local v4 muito bem), que 0 trabalho informal nao vai com o regime da mercadoria, que 0 patrimonialismo nao vai com a concorréncia entre os capitais, ¢ assim por diante? Ha um inegavel passo a frente no reconhecimento ¢ na sistematizagao do contraste entre 9 nosso cotidiano ¢ a norma supranacional, pela qual também nos pautamos. © avango nos torna - quem diria — contemporineos de Machado de Assis, que jé havia norado no contrabandista de escravos a excecio do gentleman vitotiano, no agregado verboso a exce¢4o do cidaddo compenetrado, nas manobras da vizinha pobre a exce- so da paixio romantica, nos conselhos de um parasita de fraque a excecdo do homem esclarecido. A dinamica ¢ menos incompativel com a estdtica do que parece. Dito isso, hd maneiras ¢ maneiras de enfrentar © desajusce, que a seu modo resume a insercéo do pats (ou do ex-pats, ou semipais, ou regido) na ordem contemporinea. Concebido em espirito de revisdo conclusiva, “O ornitorrinco” nao nega as perspectivas da “Critica 4 razdo dualista’, mas aponta razGes para a sua derrota. A reunido dos dois ensaios num volume representa, além de um novo diagndstico de época, o estado atual das esperangas do Autor: uma prestacio de contas tedrica ¢ uma auto-historicizagao, em linha com o propésito de trabalhar por formas de consciéncia expan- dida. Indicada a diferenga, é preciso convir que a “Critica”, esctita com grande fibra combativa no auge da ditadura militar, em pleno milagre econémico ¢ massacre da oposi¢ao armada, j4 lutava em posto semiperdido. A sua descrigao da barbérie do processo brasileiro s6 nao quadrava com a imagem de um monstro porque vinha animada pela petspectiva de auto-superagao. A tese célebre da “Critica & razo dualista” dizia algo inusitado sobre o padrio primitivo da agricultura brasileira da época, bem como sobre a peculiar persisténcia de formas de economia de subsisténcia no ambito da cidade grande, ou sobre o desmoralizante inchago do tercidrio etc. Para o Autor, contrariando 0 senso comum, estes nfo eram vestigios do passado, mas partes funcionais do desenvolvimento moderno do pais, Prefécio com perguntas 19 uma vez que contribufam para o baixo custo da mdo-de-obra em que se apoiava a nossa acumulagao. O lance era dialdtico e de mestre, com repercussao em duas frentes. Por um lado, a responsabilidade pelo teor precdrio da vida popular era atribufda a dinamica nova do capitalismo, ou seja, a0 funcionamento contemporineo da sociedade, e nao 3 heran- $a arcaica que arrastamos mas que nao nos diz respeito. Por outro, essa mesma precariedade era essencial acumulagao econémica, ¢ nada mais errado que combaté-la como uma praga estranha ao organismo. Muito pelo contritio, era preciso reconhecé-la como parte de um processo acelerado de desenvolvimento, no curso do qual a pobreza quase desva- lida se elevaria ao saldrio decente ¢ a cidadania, e o pais conquistaria nova situagio internacional. A pobreza e a sua superacio eram a nossa chance historical Sem entrar no mérito fatual da hipdtese, a vontade politica que ela expressa, segundo a qual os pobres no podem ser abandonados 2 sua sorte, sob pena de inviabilizar 0 progresso, salta aos olhos. Em lugar do antagonismo assassino entre Civilizacio € Barbirie, que vé os pobres como lixo, entrava a idéia generosa de que o futuro dependia de uma milagrosa integragao nacional, em que a consciéncia social-histérica levasse de vencida o imediatismo. Uma idéia que em seu momento deu qualidade transcendente aos escritos de Celso Furta- do, as visdes da miséria do Cinema Novo, bem como & Teoria da Dependéncia. Com originalidade conceitual ¢ afinidades populares trazidas talvez do Nordeste, no pélo oposto ao progressismo da ditadura, Francisco de Oliveira imaginava um esquema moderno de viabilizagio nacional, que convocava 0 pais & consciéncia inclusiva — por oposigao a excludente -, como momento de autotransformagao. Do ponto de vista econdmico tratava-se de criticar © dualismo da Cepal (Comissio Econémica para a América Latina), que separava a modernizacao ¢ os setores tradicionais da sociedade, embora considerando que os beneficios da primeira, caso houvesse ética, poderiam proporcionar assisténcia humanitaria, remédio ¢ ensino & lescira dos segundos, De passagem, pois 0 adversdrio nao merecia respeito, tratava-se também de refutar os economistas do regime, segundo os quais era preciso fazer crescer 0 bolo do setor adiantado, 20 — Roberto Schwarz. pata sé depois reparti-lo na area do atraso, tese cinica em que nin- guém acreditava. No plano teérico, a “Critica” aderia & apropriagao nao-dogmiatica do marxismo que estivera em curso na Universidade de S40 Paulo desde antes de 1964 ¢ que vinha adquitindo relevancia politica no Cebrap, onde se refugiou durante os anos de chumbo. Politica, economia € classes sociais deviam ser analisadas articuladamente, ao contrario do que pensavam os especialistas em cada uma dessas disciplinas. Nas éguas da Teoria da Dependéncia, Francisco de Oliveira definia o subdesenvolwi- mento como uma posigao desvantajosa (de ex-coldnia) na divisdo interna- cional do trabalho, cimentada por uma articulagdo interna de interesses ede classes, que ela cimentava por sua vez. Dai a importancia atribuida ao entrevero de idéias ¢ ideologias, pois os seus resultados ajudam a desestabilizar, além do infquo equilibrio interno, a posigéo do pais no sistema internacional, permitindo lutar por outra melhor. Vern daf tam- bém a naturalidade pouco usual entre nds com que o Autor critica os seus melhores aliados, de Celso Furtado a Maria da Conceigao Tavares, José Serra e Fernando Henrique Cardoso, num belo exemplo de discus- sio comandada por objetivos que vao além da pessoa. Inesperadamente, ‘9 valor da Iuta de classes ¢ dessa mesma ordem. Francisco de Oliveira nao € balchevique, ¢ a sua idéia de enfrentamento entre as classes € menos ligada ao assalto operdrio ao poder que ao auto-esclarecimento da sociedade nacional, a qual através dele supera os preconceitos ¢ toma conhecimento de sua anatomia e possibilidades reais, podendo entio dispor de si. Nada mais distante do Autor que os sonhos de Brasil-poténcia ¢ que o desejo de passar a perna nos paises vizinhos. Contudo € possivel que, em versio sublimada, o seu recorte permanega tributério do aspecto competitivo dos esforcos desenvolvimentistas. Por outro lado, como nao seria assim? Num sistema mundial de reproducdo das desigualda- des, como néo disputar uma posigio melhor, mais préxima dos vencedo- res ¢ menos truncada? Como escapar a posi¢ao prejudicada sem tomar assento entre os que prejudicam? A reflexio sobre a impossibilidade de uma competi¢ao sem petdedores, ou, por outta, sobre a impossibilidade Preficio com perguntay 21 de um nivelamento por cima — mas que por cima é esse? — impele a questionar a ordem que engendra o problema. Aqui, depois de haver ativado a disposigao politica em Ambito nacional, a reflexao dialética passa a paralisé-la na sua forma corrente, ou melhor, passa a solicitar um tipo de politica diversa, meio por inventar, para a qual a questao nacio- nal érelativa: A’seumodo, a'superconsciénela visida nos esforgos'do Autor, para a qual, audazmente, a iniqiiidade é uma tarefa e uma chance, tem a ver com isso, Assim também as suas reflexdes sobre a desmercan- tilizagao, desenvolvidas no ensaio sobre o “antivalor”’. Um dos eixos do “Ornitorrinco” é a oposico entre Darwin ¢ Marx, entre a selecao natu- ral, pelo jogo imediatista dos interesses, ¢ a solucdo consciente dos problemas nacionais e da humanidade. Ora, na esteira do proprio Marx, os argumentos de Francisco de Oliveira estéo sempre mostrando que nada ocorre sem a intervengdo da consciéncia; porém... Presente em tudo, mas enfeitigada pelo interesse econdmico, esta funciona natural- mente ¢ sustenta o descalabro a que cla poderia se contrapor, caso crescesse ¢ mutasse. Agosto de 2003 Adendo. Transcrevo em seguida um artigo-homenagem de 1992, esctito pot ocasiéo do concurso de Francisco de Oliveira para professor titular da USP’. Sem prejuizo das ironias que 0 tempo acrescentou, espero que combine com o que foi dito até aqui. ‘VALOR INTELECTUAL Além de muito bons, os ensaios de Chico de Oliveira sobre a atuali- dade politica sio sempre inesperados. Isso porque refletem posigdes 6 Francisco de Oliveira, Os direitos do antivalor, Petrépolis, Vozes, 1998. 7 Roberto Schwarz, “Valor intelectual”, Fotha de S. Paulo, Cadetno Mais!, 25 de ou- tubro de 1992. 22 Roberto Schwarz. adiantadas, de que no fundo nao temos o habito, embora as aprovemos da boca para fora. A comegar pelo seu carter contundente, ¢ nem por isso sectério, 0 que a muitos soa como um despropésito. Faz parte da formula dos artigos de Chico a exposigio de todos os pontos de vista em conflito, sem desconhecer nenhum. Mas entao, sc nao ¢ sectario, para que a contundéncia? A busca da férmula ardida no dificulta a negociacao que depois terd de vir? Jé aos que apreciam a caracterizagao virulenta o resumo objetivo dos interesses contrarios parece supérfluo ¢ cheira a tibieza ¢ compromisso. Mas 0 paradoxo expositivo no caso nao denota motivos confusos. Na verdade ele expressa adequadamente as convicgdes de Chico a respeito da forma atual da luta de classes, a qual sem prejuizo da intensidade ndo comporta a aniquilagao de um dos campos. Em varias ocasides Chico acertou na andlise quase sozinho, sustentando posigdes € argumentos contrarios 4 voz corrente na esquerda, O valor dessa espécie de independéncia intelectual merece ser sublinhado, ainda mais num meio gregatio como 0 nosso. Alids, o desgosto pela tradi¢ao brasileira de autoritarismo ¢ baixaria estd entre os fatores da clarividénc’ de Chico. Assim, como no abria mao de levar em conta 0 que estava a vista de todos, o seu prognéstico sobre 0 governo Collor foi certeiro, antes ainda da formagao do primeiro ministério®. Também a sua critica ao Plano Cruzado, publicada cm plena temporada dos aplausos, foi confirmada pouco depois’. Nos dois casos Chico insistia numa tese que the é cara, segundo a qual a burguesia brasileira se aferta a iniciativa unilateral ¢ prefere a desordem ao constrangimento da negociacio social organizada. Ainda nesse sentido, quando tudo leva a culpar 0 atraso de Alagoas pelos descalabtos de Collor, Chico explica 0 “mandato destrutivo” que este recebeu da classe dominante “moderna”, aterrorizada com a hipétese de um metaltirgico na Presidéncia. 8 Cf. Novos Estudos Cebrap, Sao Paulo, n. 26. 2 Folha de S.Paulo, 16 de margo de 1986. Preficio com perguntas 23 O marxismo aguga o senso de realidade de alguns, e embota o de outros. Chico evidentemente pertence com muito brilho ao primeiro grupo. Nunea a terminologia do periodo histérico anterior, nem da luta de classes, do capital ou do socialismo lhe serve para reduzir a certezas velhas as observagdes novas. Pelo contrario, a ténica de seu esforgo esté em conceber as redefinigdes impostas pelo processo em curso, que é preciso adivinhar ¢ descrever. Assim, os meninos venden- do alho ¢ flanela nos cruzamentos com seméforo ndo sio a prova do atraso do pais, mas de sua forma atroz de modernizagao. Algo andlo- go vale para as escleroses regionais, cuja explicagdo nao esté no imobilismo dos tradicionalistas, mas na incapacidade paulista para forjar uma hegemonia modernizadora aceitavel em Ambito nacional. Chico é um mestre da dialética. CRITICA A RAZAO DUALISTA Este ensaio foi escrito como uma tentativa de resposta as indagacGes de cardter interdisciplinar que se formulam no Cebrap acerca do proceso de expansio socioecondmica do capitalismo no Brasil. Beneficia-se, dessa maneira, do peculiar clima de discussio intelectual que ¢ apandgio do Cebrap, a cujo corpo de pesquisadores pertence o autor, O autor agradece as criticas € as sugestées dos seus colegas, particularmente a José Arthur Giannotti, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Tanni, Paul Singer, Francisco Weffort, Juarez Brandao Lopes, Boris Fausto, Fabio Munhoz ¢ Regis Andrade, assim como a Caio Prado Jr. e Gabriel Bolaffi, que participaram de semindrios sobre 0 texto. Fvidentemente, a nenhum deles pode ser imputada qualquer falha ou etto deste documento. UMA BREVE COLOCAGAO DO PROBLEMA A perspectiva deste trabalho ¢ a de contribuir para a revisio do modo de pensar a economia brasileira, na etapa em que a industrializacao passa a ser o setor-chave para a dinamica do sistema, isto é, para efeitos praticos, apés a Revolucao de 1930. O exame que se tentard vai centrar sua atengo nas transformagSes estruturais, entendidas estas no sentido tigoroso da reposigao e recriagio das condigées de expansao do sistema enquanto modo capitalista de producao, Nao se trata, portanto, nem de avaliar a performance do sistema numa perspectiva ético-finalista de satisfagao das necessidades da populagio, nem de discurir magnitudes de taxas de crescimento: a perspectiva ético-finalista muito associada ao dualismo cepalino parece desconhecer que a primeira finalidade do sis- tema é a prépria produgdo, enquanto a segunda, muito do gosto dos economistas consetvadores do Brasil, enreda-se numa dialética vulgar como sea sorte das “partes” pudesse ser reduzida ao comportamento do “todo”, a versio comum da “teoria do crescimento do bolo”, Deve ser acrescentado que a perspectiva deste trabalho incorpora, como varidveis endégenas, o nivel politico ou as condigées politicas do sistema; conforme 0 andamento da anilise, cratard de demonstrar que 30 Francisco de Oliveira as “passagens” de um modelo a outro, de um ciclo a outro, nao sao inteligiveis economicamente “em si’, cm qualquer sistema que revista caracteristicas de dominagao social. O “economicismo” das andlises que isolam as condicdes econémicas das politicas € um vicio metodoldgico que anda de par com a recusa em reconhecer-se como ideologia. Este trabalho se inscreve ao lado de outros surgidos recentemente, que buscam renovar a discussdo sobre a economia brasileira; nesse sentido, 0 trabalho de Maria da Conceigao Tavares ¢ José Serra, “Mas alla del estan- camiento: una discusién sobre el estilo del desarollo reciente del Brasil”*, retoma um estilo ¢ um método de interpretagao que estiveram ausentes da literatura econémica latino-americana durante muito tempo, sepulta- dos sob a avalanche cepalina, ¢ inscreve-se como um marco ¢ um roteiro para as novas indagages. Convém assinalar que, por todos os lados, 0 pensamento socioeconémico latino-americano di mostras de insatisfagao ¢ de ruptura com o estilo cepalino de andlise, procurando recapturar 0 entendimento da problematica latino-americana mediante a utilizagao de um arsenal tedrico ¢ metodoldgico que esteve encoberto por uma espécie de “respeito humane” que deu largas & utilizagao do arsenal marginalista! ¢ keynesiano, estes conferindo honorabilidade ¢ reconhecimento cientifi- co junto ao establishment técnico e académico. Assim, boa parte da intelec- tualidade latino-americana, nas tiltimas décadas, dilacerou-se nas pontas * Trimestre Econémico, n. 152, nov-dez. de 1971, México. [Ed. bras.: “Além da estagnagio: uma discussio sobre o estilo de desenvolvimento recente no Brasil”, in José Serta, América Latina ~ ensaios de interpretacio econémica, Sio Paulo, Paze'Terra, 1976.] (N.E.) 1 Ver, por exemplo, o trabalho de Rolando Cordera ¢ Adolfo Orive sobre lizagsio mexicana, publicado pelo Tase- Botetin del Taller de Analisis Socioeconémico, vol. 1, n. 4, México, Nao é meramente casual a coincidéncia de reinterpretagies, na mesma linha tedrica, de cconomias como a mexicana ¢ a brasileira, marcadas por configuragbes sociocconémicas bastante similares no que se refere a indicadores de estrurura, as quais chegaram por processos politicos bastante dissemelhantes. A coin eidéncia nao casual reside no fato de que ambas as sociedades chegaram a situagdes estruturais semelhantes lato sensu mediante processos cujo denominador comum foi a ampla exploragao de sua forga de trabalho, fendmeno que esté na base da cons- tituigdo de um seleto mercado para as industrias din dmicas ao mesmo tempo que da distribuigao desigualitariamente crescente da renda. dustria- Critica razao dualista 31 do dilema; enquanto denunciavam as miserdveis condicdes de vida de grande parte da populagao latino-americana, seus esquemas tedricos ¢ analiticos prendiam-nos &s discussdes em torno da relag4o produto-capi- tal, propensao para poupar ou investir, eficiéncia marginal do capital, economias de escala, tamanho do mercado, levando-os, sem se darem conta, a construir 0 estranho mundo da dualidade e a desembocar, a contragosto, na ideologia do circulo vicioso da pobreza’. A dualidade reconciliava o suposto rigor cientifico das andlises com a consciéncia moral, levando a proposigdes reformistas. A bem da ver- dade, deve-se reconhecer que o fenédmeno assinalado foi muito mais freqiiente e mais intenso entre economistas que entre outtos cientistas sociais: socidlogos, cientistas politicos ¢ também fildsofos conseguiram escapar, ainda que parcialmente, & tentagao dualista, mantendo, como eixos centrais da interpretacao, categorias como “sistema econdmico”, “modo de produgao’, “classes sociais”, “exploragao”, “dominagio”. Mas, ainda assim, o prestigio dos economistas penetrou largamente as outras ciéncias sociais, que se tornaram quase caudatarias: “sociedade moder- na’-“sociedade tradicional”, por exemplo, é um binémio que, deitando raizes no modelo dualista, conduziu boa parte dos esforgos na sociolo- gia e na ciéncia politica a uma espécie de “beco sem saida” rostowiano. O esforgo reinterpretativo que se tenta neste trabalho suporta-se tedrica e metodologicamente em terreno completamente oposto ao do dual-estruturalismo; nao se trata, em absoluto, de negar o imenso aporte de conhecimentos bebido diretamente ou inspirado no “modelo Cepal”, mas exatamente de reconhecer nele o tinico interlocutor valido, que 2 Um caso tipico ¢ 0 da dentincia de Prebisch sobre os mecanismos do comércio internacional que levam & deterioragio dos termos de intercimbio em desfavor dos paises latino-americanos. Ai estaria a base para uma reelahoragio da teoria do impetialismo; abortada sua profundizasao em direcdo a essa reelahoracdo, a propo- sigio que sai ¢ nitidamente reformista e nega-se a si mesma: Prebisch espera que 98 paises industrializados “reformem” seu comportamento, clevando seus pagamen- tos pelos produtos agropecudrios que compram da América Latina e rebaixando © prego dos bens que vendem, que € em esstncia o espirito das conferén Unetad. A proposisao é altamente ética c igualmente ingénua. 32 Francisco de Oliveira ao longo dos ultimos decénios contribuiu para o debate ¢ a criacao intelectual sobre a economia € a sociedade brasileira ¢ a latino-america- na. Mesmo porque a oposigao ao “modelo Cepal”, durante o perfodo assinalado, nao se fez nem se deu em nome de uma postura tedrica mais adequada: os conhecidos opositores da Cepal no Brasil e na América Latina tinham, quase sempre, a mesma filiagdo tedrica marginalista, neocldssica ¢ keynesiana, desvestidos apenas da paixdo reformista ¢ comprometidos com o status quo econdmico, politico e social da misé- ria e do atraso seculares latino-americanos. Como pobres papagaios, limitaram-se durante décadas a repetir os esquemas aprendidos nas universidades anglo-saxdnicas sem nenhuma perspectiva critica, sendo rigorosamente nulos seus aportes a teoria da sociedade latino-america- na’. Assim, ao tentar-se uma “critica razio dualista”, reconhece-se a impossibilidade de uma critica semelhante aos “sem-razo”. O anterior nao deve ser lido como uma tentativa de contemporizacao: a ruptuta com o que se poderia chamar 0 conceito do “modo de produ- ¢40 subdesenvolvido” ou é completa ou apenas se Ihe acrescentarao detalhes. No plano tedrico, 0 conceito do subdesenvolvimento como uma formagio histérico-econémica singular, constituida polarmente em torno da oposi¢ao formal de um setor “atrasado” € um setor “moderno’, do se sustenta como singularidade: esse tipo de dualidade é encontravel ndo apenas em quase todos os sistemas, como em quase todos os perfo- dos. Por outro lado, a oposicao na maioria dos casos ¢ tao-somente formal: de fato, o proceso real mostra uma simbiose ¢ uma organicidade, uma unidade de contrdrios, em que o chamado “moderno” cresce € se alimenta da existéncia do “atrasado”, se se quer manter a terminologia. O “subdesenvolvimento” pareceria a forma propria de ser das econo- mias pré-industriais penetradas pelo capitalismo, em “trinsito”, portanto, para as formas mais avangadas ¢ sedimentadas deste; todavia, uma tal postulagao esquece que o “subdesenvolvimento” é precisamente uma 3 Nenhum dos economistas conservadores anti-Cepal, na América Latina e no Brasil, conseguiu produrir obra teérica; seus escritos s40 apenas ocasionais, ora de um, ‘ora de “outro lado da cerca”. Critica trando dualista 33 “produgao” da expansao do capitalismo. Em rarissimos casos — dos quais os mais conspicuos so México ¢ Peru -, trata-se da penetragao de modos de producao anteriores, de caréter “asitico”, pelo capitalis- mo; na grande maioria dos casos, as economias pré-industriais da América Latina foram criadas pela expansao do capitalismo mundial, como uma reserva de acumulacao primitiva do sistema global; em resumo, o “sub- desenvolvimento” ¢ uma formacao capitalista ¢ nao simplesmente his- trica. Ao enfatizar o aspecto da dependéncia — a conhecida relagio centro-periferia —, os tedricos do “modo de producao subdesenvolvido” quase deixaram de tratar os aspectos internos das estruturas de domi- nagao que conformam as estruturas de acumulagao proprias de paises como o Brasil: toda a questio do desenvolvimento foi vista pelo Angulo das relagdes externas, ¢ o problema transformou-se assim em uma oposigao entre nagGes, passando despercebido o fato de que, antes de oposigao entre nagées, o desenvolvimento ou o crescimento é um pro- blema que diz respeito a oposigao entre classes saciais internas, O con- junto da teorizagao sobre 0 “modo de produgao subdesenvolvido” continua a nao responder quem tem a predominancia: se sio as leis internas de articulagao que geram o “todo” ou se sio as leis de liga- gdo com o resto do sistema que comandam a estrutura de relacées'. 4 Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto elaboram uma teoria da dependéncia cuja postulagao essencial reside no reconhecimento de que a propria ambigilidade confere especificidade ao subdesenvolvimento, sendo a “dependéncia” a forma cm que os ineresses internos se articulam com 0 resto do sistema capitalista. Afastaram- se, assim, do esquerna cepalino, que vé nas relagées externas apenas apesigio a supostos interesses nacionais globais, para reconhecercm que, antes de uma opostedo global, a “dependéncia” articula os interesses de determinadas classes ¢ grupos sociais da América Latina com os interesses de determinadas classes e grupos sociais fora da América Latina, A hegemonia aparece como @ resultado da linha comum de interesses determinada pela divisao internacional do trabalho, na escala do mundo capitalista. Essa formula- so ¢, a meu ver, muito mais correta que a da tradi¢ao cepalina, embora ainda nao dé-0 devido peso a possibilidade redrica e empirica de que se expanda o capitalismo ‘em paises como o Brasil ainda quando seja desfavorivel a diviso internacional do trabalho do sistema capitalista como um todo. A meu ver, a expansio do capitalismo no Brasil, depois de 1930, ilustra precisamente esse caso. Ver, dos autores citados, Dependéncia e desenvolvimento na América Latina, Rio de Jancito, Zahar, 1970, 34 Francisco de Oliveira Penetrado de ambigiiidade, o “subdesenvolvimento” pareceria set um sistema que se move entre sua capacidade de produzir um excedente que é apropriado parcialmente pelo exterior ¢ sua incapacidade de absorver internamente de modo produtivo a outra parte do excedente que gera. No plano da pratica, a ruptura com a teoria do subdesenvolvimento também nao pode deixar de ser radical. Curiosa mas no paradoxal- mente, foi sua proeminéncia nos tiltimos decénios que contribuiu para 4 nfo-formagao de uma teoria sobre o capitalismo no Brasil, cumprin- do uma importante fungdo ideolégica para marginalizar perguntas do tipo “a quem serve 0 desenvolvimento cconémico capitalista no Bra- sil?”. Com seus estereétipos de “desenvolvimento auto-sustentado”, “internalizacio do centro de decisées”, “integragio nacional”, “planeja- mento”, “interesse nacional”, a teoria do subdesenvolvimento sentou as bases do “desenvolvimentismo” que desviou a atengao teérica e a ago politica do problema da luta de classes, justamente no periodo em que, coma transformacio da economia de base agréria para industrial-urba- na, as condigées objetivas daquela se agravavam. A teoria do subdesenvol- vimento foi, assim, a ideologia propria do chamado perfodo populista; se cla hoje ndo cumpre esse papel, € porque a hegemonia de uma classe se afirmou de tal modo que a face jé nfo precisa de mascara. I O DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA POS-ANOS 1930 E O PROCESSO DE ACUMULACGAO A Revolugao de 1930 marca o fim de um ciclo € 0 inicio de outro na economia brasileira: o fim da hegemonia agrério-exportadora ¢ 0 inicio da predominancia da estrutura produtiva de base urbano-indus- trial. Ainda que essa predominAncia no se concretize em termos da participagao da inddistria na renda interna sendo em 1956, quando pela primeira vez a renda do setor industrial superara a da agricultura, 0 processo mediante o qual a posigao hegeménica se concretizard € crucial: a nova correlagio de forcas sociais, a reformulagio do aparelho e da acdo estatal, a regulamentagao dos fatores, entre os quais 0 trabalho ou e-prece dovtrabalha; téeno significado,.de um ldo, de: desrewipzodas regras do jogo segundo as quais a economia se inclinava para as ativi- dades agrério-exportadoras e, de outro, de eriagdo das condigées insti- tucionais para a expansao das atividades ligadas ao mercado interno. Trata-se, em suma, de introduzir um nove modo de acumulagao, qua- litativa e quantitativamente distinto, que dependerd substantivamente de uma vealizagao parcial interna crescente. A destruigao das regras do jogo da economia agrério-exportadora significava penalizar 0 custo ¢ a rentabilidade dos fatores que eram tradicionalmente alocados para a 36 — Francisco de Oliveira produgdo com destino externo, seja confiscando lucros parciais (o caso do café, por exemplo), seja aumentando 0 custo relativo do dinheiro emprestado & agricultura (bastando simplesmente que o custo do dinhei- ro emprestado a indtistria fosse mais baixo). Nesse contexto, alguns aspectos passam a desempenhar um papel de enorme significago. O primeiro deles faz parte da chamada regulamenta- cao dos fatores, isto é, da oferta e demanda dos fatores no conjunto da economia. A esse respeito, a regulamentagao das leis de relagao entre 9 trabalho e 0 capital é um dos mais importantes, se ndo o mais importante. A chamada legislagio trabalhista tem sido estudada apenas do ponto de vista de sua estrutura formal corporativista, da organizacao dos trabalhadores ¢ da sua possfvel tutela pelo Estado, ¢ tem sido arriscada a hipétese de que a fixacao do saldrio minimo, por exemplo, teria sido uma medida artificial, sem relaco com as condigées concre- tas da oferta e demanda de trabalho: os niveis do salério minimo, para Igndcio Rangel, por exemplo, seriam néveis institucionais', acima daqui- lo que se obteria com a pura barganha entre trabalhadores e capitalistas no mercado, Uma argumentagao de tal tipo endossa ¢ alimenta as interpretagdes dos cientistas politicos sobre o cardter redistributivisca dos regimes politicos populistas entre 1930 ¢ 1964? e, em sua versio gragas a isso (8 legislagéo trabalhista) o padrao salarial tornou-se relativamente independente das condigées criadas pela presenga de um enorme exército industrial de reserva...” Ignacio Rangel, A inflagao brasileira, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1963, p. 44-5. Nao fugiu & percepgao dos cientistas politicos que escteveram sobre o assunto 0 aspecto de “dominagao” para os fins da expansao capitalista que a legistagao trabalhista reveste, quando os amplos setores das massas urbanas passam a desempenhar um papel -chave na estruturagio politica que permitiu a industrializacao. Sem embargo, freqiientemente essa percepeao correta leva no bojo a premissa de que a “doagio” getulista das leis do trabalho dava, em troca do apoio das massas populares, alguma participagao crescente nos ganhos de produtividade do sistema, 0 que ndo encontra apoio nos fatos. O que se discute neste ponto 0 cardter “redistributivista”, do ponto de vista exatamente dos referidas ganhos; sob outros aspecros, principalmente politicos, pode:se falar cm “redistri- butivismo” dos regimes populistas, mas em termos econémicos tal postulacao ¢ intei- ramente insustentavel. 7. Critica & rarao dualista 37 econdmica, faz parte da base sobre a qual se pensa a inflagao no Brasil ¢contribui para a manutengio, no modelo dual-estruturalista cepalino, do distanciamento cumulativo entre os setores “moderno’” e “atrasado”*. As interpretagoes assinaladas minimizam o papel da legislagao traba- Ihista no processo de acumulagao que se instaura ou se acelera a partir de 1930. Em primeiro lugar, é estranha a abstracéo que se faz do papel do Estado na prépria criagdo do mercado: a que mercado se referem, quando dizem que os niveis do saldrio minimo foram ou sao fixados acima do que se poderia esperar num “mercado livre”? Esse “mercado livre”, abstrato, em que o Estado n4o interfere, tomado de empréstimo da ideologia do liberalismo econémico, certamente nao ¢ um mercado capitalista, pois precisamente o papel do Estado € “institucionalizar” as regras do jogo; em segundo lugar, é uma hipétese nunca provada que tais niveis estivessem acima do custo de reproducéo da forza de trabalho, que € 0 parimetro de referéncia mais correto, para avaliar-se a “artificia~ lidade” ou a “realidade” dos niveis do saldrio minimo. Importa nao esquecer que a legislagao interpretou o saldrio minimo rigorosamente como “saldrio de subsisténcia’, isto ¢, de reprodugao; os critérios de fixagéo do primeito salétio m{nimo levavam em conta as necessidades alimentares (em termos de calorias, proteinas etc.) para um padrao de trabalhador que devia enfrentar um certo tipo de produgdo, com um certo 3 Segundo o ponto de vista cepalino, os niveis “artificiais” de fixacao do salatio minimo induziram uma precoce elevagao do capital fixo na composico orginica do capital, estimulando inversdes capital-intensives que cém por efeito — no referido modelo — ditninuir o multiplicador de empregos das novas inversoes, baixar a relagio produto- capital, conduzindo ao estreitamento progressive do mercado e, a longo prazo, & queda da taxa de lucro, e conseqiientemente da taxa de crescimento, reforcando 0 modelo de dualidade da economia, Empiricamente, nao tem sido provada uma peculiar estrutura de inversGes capital-intensives na estructura global das inversécss teoricamente, uma das fontes do erro do modelo est na consideragao estrita das inversées apenas no setor industrial da economia, além da nao-consideracao do efeita das relagdes internacionais sobre a fungao de produgio, que potencializa, através da absorgao de tecnologia (trabalho acumulado ou ttabalho morto do exterior), uma base de acumulaggo razoavelmente pobre. 38 Francisco de Oliveira tipo de uso de forga mecanica, comprometimento psiquico etc. Esté- se pensandovfigotosamence,em tenmus dexsaldio: minimo, /conisea quantidade de forca de trabalho que o trabalhador poderia vender. Nao ha nenhum outro parametro para o calculo das necessidades do traba- lhador; nao existe na legislagao, nem nos critérios, nenhuma incorpo- ragdo dos ganhos de produtividade do trabalho. Sem embargo, esses aspectos ainda ndo sio os decisivos. O decisive é que as leis trabalhistas fazem parte de um conjunto de medidas destinadas a instaurar um novo modo de acumulagio. Para tanto, a populacgao em geral, e especificamente a populagio que aflufa as cida- des, necessitava ser transformada em “exército de reserva”, Essa conversio de enormes contingentes populacionais em “exército de reserva’, adequa- do a reproducao do capiral, era pertinente e necessiria do ponto de vista do modo de acumulacdo que se iniciava ou que se buscava refor- gat, por duas razées principais: de um lado, propiciava o horizonte médio pata 0 céleulo econdmico empresarial, liberto do pesadelo de iin mereads deleonteritatia. perfeita, ind Gual le devesse Gompelit pelo uso dos fatores; de outro lado, a legislagao trabalhista igualava reduzindo — antes que incrementando — 0 prego da forga de trabalho. Essa opceragio de igualar pela base reconvertia inclusive trabalhadores especializados 2 situagio de ndo-qualificados, e impedia — a0 contrario do que pensam muitos — a formagao precoce de um mercado dual de forcade-trabalhio!, Emcourtasipalavian, sévarsalario tose dererminads 4 Uma indagacio pertinente sebre o tema da legislagao trabalhista é a de por que cla sc inspira nas formas juridicas do direito corporativista italiano, Esse problema tem side abordado apenas do angulo do caréter do Estado brasileiro na época: autoritrio mas a0 mesmo cempo de transigio entre a hegemonia de uma classe — a dos proprie- ririos rurais — ¢ a de outra — a da burguesia industrial. Um aspecto nao estudado & © de stra adequagZo como uma ponte, uma jungdo entre as formas pré-capitalistas de certos setores da economia — particularmente a agricultura ~ ¢ © sctor emergente da inchistria. Nesta hipétese, 0 dircito corporativista € a forma adequada para promover a complementaridade entre os dois sctores, desfazendo a0. uniffcar a possivel dualidade que poderia formar no encontro do “arcaico” com o “novo”; essa dualidade, no que respeita & formagio dos salirios urbanos, particularmente na inckistria, poderia realmente por em risco a viabilidade da empresa nascente. Critica 4 razao dualista 39 por qualquer espécie de “mercado livre”, na acep¢ao da teoria da concor- réncia perfeita, € provavel que ele subisse para algumas categorias operdrias especializadas; a regulamentago das leis do trabalho operou a reconversio a um denominador comum de todas as categorias, com o que, antes de prejudicar a acumulagao, bencficiou-a. Uma objecdo que pode ser levantada contra a tese anterior é empirica: nao existem provas de que a legislagéo trabalhista tenha tido tal efeito, rebaixando salérios, Esse tipo de objegio é de uma fragilidade incrivel: para os efeitos da acumulacio, no era necessério que houvesse rebaixa- mento de saldtios anteriormente pagos, mas apenas equalizagdo dos saldrios dos contingentes obreiros incrementais; isto é, da média dos sa- latios. Como no caso da industrializagao brasileira pés-anos 1930 os incrementos no contingente obrcito sio muitas vezes maiores que 0 stock operatio anterior, a legislagao alcangava seu objetivo — nao decla- rado, é verdade, mas isso corresponde a verbalizagao ideoldgica das classes dominantes — de propiciar a formag4o de um enorme “exército de reserva” propicio 4 acumulagao, Além disso, pode-se aduzir, em favor da tese, um argumento que é da ldgica do sistema: se fosse verdade que as niveis do saldrio minimo estivessem “por cima” de niveis de pura barganha num “mercado livre”, 0 que aumentaria demasiada- mente a parte de remuneracio do trabalho na distribuiggo funcional da renda, o sistema entraria em crise por impossibilidade de acumular; © que se viu apés a implantagao da legislagao trabalhista foi exatamente 0 contrério: € a partir daf que um tremendo impulso é transmitido a acumulagio, caracterizando toda uma nova etapa de crescimento da economia brasileira, Uma segunda objecdo retira seu argumento do fato de que comparado ao rendimento auferido no campo (sob qualquer forma, salirio, renda da terra, produto das “rogas” familiares etc.) o salério minimo das cidades era sem duivida superior, o que, dada a extragdo rural dos novos contingentes que afluiam as cidades, tornou-se um elemento favordvel aos anseios de integragao das novas populagdes operarias c trabalhadoras em geral, debilitando a formagao de conscién- cias de classe entre elas. Nao se desconhece 0 efeito que esse fendmeno pode ter tido social politicamente — embora exista certo exagero nas conclusdes -, mas, do ponto de vista da acumulagao, esse fenémeno no teve nem tem nenhuma importancia, j4 que, se as atividades urba- nas, particularmente a industria, paga salarios mais altos que os rendimen- tos auferidos no campo, o parametro que esclarece a relagao favoravel a acumulagio ¢ a produtividade das atividades urbanas; em outras pala- vras, a relagio significativa é a que se estabelece entre salérios urbanos e produtividade das atividades urbanas (no caso, industria), isto é, a taxa de exploracio que explica o incremento da acumulagao é determinada em fungio dos saldrios e dos lucros ou ganhos de produtividade das atividades urbanas. O segundo aspecto refere-se 4 intervencao do Estado na esfera eco- némica, operando na regulamentagao dos demais fatores, além do traba- lho: operando na fixagao de pregos, na distribuicao de ganhos € perdas entre os diversos estratos ou grupos das classes capitalistas, no gasto fiscal com ‘fins direta-ow indiretamente:reprodutivos;na:esfera da, pro= dugao com fins de subsidio a outras atividades produtivas. Aqui o seu papel ¢ 0 de criar as bases para que a acumulagio capitalista industrial, no nivel das empresas, possa se reproduzir. Essa intervenc3o tem um cardter “planificador”, ao modo do Estado inglés que editava tanto o poor law como 0 cereal act, isto é, no “transito”, o Estado intervém para destruir o modo de acumulagao para o qual a economia se inclinava natural- mentey cHiando eectiando:as condicSesdonovormodo de-scumulado, Nesse sentido, substituiam-se os precos do “velho mercado” por “precos sociais”, cuja fungao é permitir a consolidacéo do “novo mercado”, isto é, até que o processo de acumulacao se oriente, com certo grau de automaticidade, pelos novos parametros, que sero 0 novo leito do rio, Os “precos sociais” podem ter financiamento piiblico ou podem ser simplesmente a imposicgo de uma distribuiggo de ganhos diferente entre os grupos sociais, ¢ a diregdo em que eles atuam é no sentido de fazer da empresa capitalista industrial a unidade mais rentavel do conjunto da economia. Assim, assiste-se 2 emergéncia ¢ a ampliagao das fungdes do Estado, num perfodo que perdura até os anos Kubitschek. Regulando o prego do trabalho, jé discutido anterior mente, investindo em infra-estrutura, impondo 0 confisco cambial ao café Orhtca rarao dusaista 41 para redistribuir os ganhos entre grupos das classes capitalistas, rebaixan- do 0 custo de capital na forma do subsidio cambial para as importagdes de equipamentos para as empresas industriais e na forma da expansio do crédito a taxas de juros negativas reais, investindo na produgio (Volta Redonda e Petrobras, para exemplificar), o Estado opera conti- nuamente transferindo recursos e ganhos para a empresa industrial, fa- zendo dela o centro do sistema, A essa “destruigao” € “criagdo” vio ser supetpostas as versdes de um “socialismo dos tolos” tanto da esquerda como da ultradireita, que viam na agio do Estado, “estatismo”, sem se fazer nunca, uns € outros, a velha pergunta dos advogados: a quem serve tudo isso? O processo guarda alguma analogia formal com a passagem de uma economia de base capitalista para uma economia socialista. No periodo de “transigao”, nao apenas nao funcionam os automatismos econémi- cos da base anterior como, mais que isso, néo devem funcionar, sob pena de nao se implementar a nova base. Por essa azo, os mecanismos de mercado devem ser substituidos por controles administrativas cuja missao ¢ fazer funcionar a economia de forma ndo-automdtica. Durante a transigao, proliferam todos os tipos de controle, nao somente na formacio dos pre¢os dos fatores como também no controle do gasto dos consumidores. A tese € perfcitamente ilusttada como o caso do café: deixada entregue as Leis automdticas do mercado, a producio de café no Brasil, apés a crise de 1929, entraria num regime andrquico, ora sendo estimulada, ora sendo violentamente contrafda. Os estimulos ¢ as contracées poderiam representar importantes desperdicios sociais, Foi preciso o controle governamental para fazé-la crescer ou diminuir guardando certa distancia das flucuagdes do mercado, para o que teve- se de recorter ao controle direto (IBC) e aos precos sociais em lugat dos pregos de mercado (0 confisco cambial era um prego social), Ainda quando as perdas do café fossem “socializadas”, transferidas para o contribuinte, conforme Furtado, essa “socializag4o” consistia numa ope- ragao de naio-automaticidade: em quaisquer circunstancias, boas ou mds, isolava-se 0 produtor de café da oferta e procura de fatores, a fim de teorientar a alocagao de recursos em outros setores da atividade econé- ‘ode Oliveira mica. E nesse sentido que se fala de destruigao da inclinagao natural para certo tipo de acumulagio’. © terceiro aspecto a ganhat relevo dentro do processo da nova articulagdo refere-se ao papel da agricultura. Esta tem uma nova ¢ imporcante fungio, nao to importante por ser nova mas por ser qualita- tivamente distinta. De um lado, por seu subsetor dos produtos de exportagao, ela deve suprir as necessidades de bens de capital e intermedia- rios de produgao externa, antes de simplesmente servir para 0 pagamen- to dos bens de consumo; desse modo, a necessidade de manté-la ativa é evidente por si mesma. O compromisso entre manté-la ativa € nao estimulé-la como setor e unidade central do sistema, a fim de destruir 0 “velho mercado”, seré um dos pontos nevralgicos de todo o periodo: ao longo dos anos assiste-se aos booms ¢ as depressdes, os quais afetarao scnsivelmente o ritmo da acumulacio global, mas € possivel dizer que 0 compromisso € logrado, ainda que instavelmente. De outra lado, por scu subsetor de produtos destinados ao consumo interno, a agricultura deve suprir as necessidades das massas urbanas, para nao elevar 0 custo da alimentagio, principalmente ¢ secundariamente o custo das matérias- primas, e nao obstaculizar, portanto, o processo de acumulagio urbano- dade social do sistema industrial. Em torno d ¢ de sua realizacao dependerd a viabilidade do processo de acumulagao pela empresa capitalista industrial, fundada numa ampla expansao do se ponto girard a estab “cxército industrial de reserva”. A solugdo do chamado “problema agrétio” nos anos da “passagem” da economia de base agrdtio-exportadora para urbano-industrial é um +O crescimento das fungoes do Estado implica necessariamente o crescimento da maquina estatal, portanto da burocracia c da tecnocracia. No perfodo da “transigio”, © crescimento desses dais agentes do aparelho estatal é uma fungzo mais estrita da diferenciagao da divisio social do trabalho no nivel da economia e da sociedade como um todo, a0 passo que em periodos mais recentes — principalmente apés os anos iniciais da década de 1960 — o crescimento da burocracia ¢ da tecnocracia é fungao mais estrita da diferenciagio da divisio social do trabalho no nivel elo préprio Esnado, if que na economia como um todo, completada a formagao do “novo mercado”, idade. novas leis restauravam em parte sua automati Critica 4 razao dualista 43 ponto fundamental para a reprodugao das condig6es da expansao capita- lisea. Ela € um complexo de solugdes, cujas vertentes se apdiam no enorme contingente de mao-de-obra, na oferta eldstica de terras € na viabilizagao do encontro desses dois fatores pela agdo do Estado cons- tuindo a infra-estrutura, principalmente a rede rodovidria. Ela é um complexo de solugdes cujo denominador comum reside na permanente expansao horizontal da ocupagao com baixissimos coeficientes de capita- lizagio ¢ até sem nenhuma capitalizagio prévia: numa palavra, opera como uma sorte de “acumulagao primitiva’. O conceito, tomado de Marx, ao descrever 0 processo de expropriagao do campesinato como uma das condigoes prévias para a acumulacio capiralista, deve scr, para nossos fins, redefinido: em primeiro lugar, trata-se de um processo em que ndo se expropria a propriedade — isso também se deu em larga escala na passagem da agriculeura chamada de subsisténcia para a agriculeura comercial de exportagdo —, mas se expropria o excedente que se forma pela posse transitéria da terra. Em segundo lugar, a acumulacao pri- mitiva ndo se dd apenas na génese do capitalismo: em certas condicdes especificas, principalmente quando esse capitalismo cresce por elabora- sao de periferias, a acumulayao primitiva € estrutural e nao apenas genética, Assim, tanto na abertura de fronteiras “externas” como “in- ternas”, 0 processo ¢ idéntico: o trabalhador rural ou o morador ocupa a terra, desmata, destoca, ¢ cultiva as lavouras tempordrias chamadas de “subsisténcia’; nesse processo, ele prepara a terra para as lavouras permanentes ou para a formagao de pastagens, que nao sao dele, mas do proprietério. Hé, portanto, uma transferéncia de “trabalho morto”, de acumulagio, para o valor das culturas ou atividades do proprictério, ao passo que a subtragao de valor que se opera para o produtor direto reflete-se no prego dos produtos de sua lavoura, rebaixando-os. Esse mecanismo é 0 responsivel tanto pelo fato de que a maioria dos gé- neros alimenticios-vegetais (tais como arro7, feiji0, milho) que abaste- cem os grandes mercados urbanos provenham de zonas de ocupacio recente, como pelo fata de que a permanente baixa cotagdo deles tenha contribuido para 0 processo de acumulacao nas cidades; os dois fen6- menos sao, no fundo, uma unidade. No caso das fronteiras “externas”, 44 Francisco de Oliveira o processo se dé mediante 0 avango da fronteira agricola que se expande com a rodovia: norte do Parand, com o surto do café nas décadas de 1940 e 1950; Goids e Mato Grasso, na década de 1960, com a pene- tragio da pecudtia; Maranhao, na década de 1950, com a penetragao do arroz ¢ da pecudria; Belém-Brasilia, na década de 1960; este do Paranda e sul de Mato Grosso nos tiltimos quinze anos, com a produgio de milho, feijéo, suinos, No caso das frontciras “internas”, a rotagio de terras € nao de culturas, dentro do latifiindio, tem 0 mesmo papel: 0 processo secular que se desenvolve no Nordeste, por exemplo, € tipico dessa simbiose. O morador, ao plantar sua “roca”, planta também o algodao, e o custo de reprodugao da forga de trabalho ¢ a varidvel que torna comercializéveis ambas as mercadorias. Chega a parecer paradoxal que a agricultura ‘primitiva” possa concor- rer com uma agricultura que incorporasse a utilizagao de novos insumos, como adubos, fungicidas, pesticidas, préticas distintas de cultivo, e, sobre- tudo, com mecanizagio. Duvida-se teoricamente de que os custos daque- la sejam competitivos ¢ até mais baixos que os possiveis custos desta. No entanto, no Estado de Sao Paulo, em 1964, no municipio de Irapeva, a cultura do milho era economicamente mais rentdvel para os agricul- totes que praticavam uma técnica composta de tragdo animal com uso de pouco adubo em relacio aos que praticavam uma técnica agricola de tragéo motorizada ¢ uso de muito adubo. Enquanto a primeira era uutilizada nas lavouras de 1-4 ¢ 5-8 alqueires, a segunda era praticada pelas lavouras de 40-80 alqueires: a renda liquida por alqueire era de Cr$ 89,742 para as lavouras de técnica mais “atrasada”, enquanto para as lavouras de técnica mais “adiantada” era de Cr$79,654, tudo em cruzeiros de 1964, ainda quando o rendimento por alqueire (economias de escala de prande planta¢io) da técnica “adiantada’ fosse quase 60% mais elevado que © da técnica “atrasada”’, O exemplo, mesmo que possa parecer © Dados do estudo realizado por ©. T: Ettori, “Aspects econdmicos da produgio de milho em Sao Paulo”, recalculados por Ruy Miller Paiva, “O mecanismo de autocontrole no processo de expansio da melhoria téenica da agricultura’, Revista Brasileira de Economia, ano XXII, n. 3, setembro de 1968. Critica a razao dualista. 45 isolado, referente a um sé munic{pio, ¢ vilido para a maior parte da agricultura brasileira de milho, ¢ é mais elogiiente por localizar-se em Sao Paulo, onde presumivelmente varias condigées deveriam favorecer 0 uso de técnicas “adiantadas”. Uma combinacio, pois, de oferta eldstica de mao-de-obra ¢ oferta eldstica de terras reproduz incessantemente uma acumulagéo primitiva na agricultura, dando origem ao que Ruy Miller Paiva chamou de “mecanismo de autocontrole no processo de expansio da melhoria técnica na agricultuta””. O modelo descrito anteriormente, ainda que simplificado, tem im- portantes repercussdes, tanto no Ambito das relagdes agricultura-indus- tria, como no nivel das atividades agricolas em si mesmas. Em primeiro lugar, ao impedir que crescessem os custos da producao agricola em q relagio & industrial, ele tem um importante papel no custo de reprodugao da forga de trabalho urbana; e, em segundo lugar, e pela mesma razo de rebaixamento do custo real da alimentagio, ele possibilitou a forma- gio de um proletariado rural que serve as culturas comerciais de mer- cado interno ¢ externo. No conjunto, o modelo permitiu que o sistema deixasse os problemas de distribuicdo da propriedade - que pareciam criticos no fim dos anos 1950 — ao mesmo tempo que o proletariado tural que se formou nao ganhou estatuto de proletariado: tanto a legis- lagao do trabalho praticamente nao existe no campo como a previdén- cia social nao passa de uma utopia; isto ¢, do ponto de vista das relagdes internas & agricultura, o modelo permite a diferenciacao produtiva ¢ de ptodutividade, viabilizada pela manutencio de baixissimos padres do custo de reproducao da forca de trabalho e portanto do nivel de vida da massa trabalhadora rural. Esta € a natureza da conciliacdo existente entre o crescimento industrial ¢ 0 crescimento agricola: se € verdade que a criagao do “novo mercado urbano-industrial” exigiu um tratamento discriminatério ¢ até confiscatério sobre a agricultura, de outro lado é também verdade que isso foi compensado até certo ponto pelo fato de que esse crescimento industrial permitiu as atividades agropecudrias man- terem seu padrao “primitivo”, baseado numa alta taxa de exploraco da 7 Ruy Miller Paiva, op. cit. 4G Francisco de Oliveira forca de erabalho. Ainda mais, € somente a partir da constituiggo de uma forga de trabalho urbana operdria que passow a existir também um operariado rural em maior escala, 0 que, do ponto de vista das culturas comerciais de mercado interno ¢ externo, significou, sem nenhuma diivi- da, reforco 4 acumulagio. A manutengio, ampliagdo ¢ combinagio do padrao “primitivo” com novas relagées de producio no setor agropecuirio tém, do ponto de vista das repercussdes sobre 0s setores urbanos, provavelmente maior importancia. Elas permitiram um extraordindrio crescimento industrial ¢ dos servigos, para o qual contribufram de duas formas: em primeiro lugar, fornecendo os macigos contingentes populacionais que iriam formar o “exército de reserva” das cidades, permitindo uma redefinigao das relacGes capital-trabalho, que ampliou as possibilidades da acumula- cdo industrial, na forma jé descrita. Em segundo lugar, fornecendo os excedentes alimenticios cujo prego era determinado pelo custo de reprodu- cao da forca de trabalho rural, combinaram esse elemento com o préprio volume da oferta de forca de trabalho urbana, para rebaixar o prego desta. Em outras palavras, o prego de oferta da forca de trabalho urbana se compunha basicamente de dois elementos: custo da alimentagao* — deter- minado este pelo custo de reprodugao da forga de trabalho rural — ¢ custo de bens ¢ servigos propriamente urbanos; nestes, ponderava forte- mente uma estranha forma de “economia de subsisténcia” urbana, que se descteverd mais adiante, tudo forgando para baixo 0 preso de oferta da forca de trabalho urbana e, conseqiientemente, os salérios reais. Do outro lado, a produtividade industrial crescia enormemente, o que, contraposto ao quadro da forca de trabalho ¢ ajudado pelo tipo de intervencio estatal 8 Entre 1944 e 1965, os pregos de atacado dos géneros alimenticios em geral sobem do indice 22 a0 indice 3.198, enquanto os pregos correspondentes dos produtos industriais sobem do indice 52 ao indice 5.163, do que se depreende o argumento utilizado acimna, rejeitando-se o argumento contrdrio, muito da tese cepalina, de que as custos da producio agricola obstaculizavam a formagéo do mercado industrial, Dados da Conjuntura Econémica, citados por Ruy Miller Paiva, “Reflexes sobre as tendéncias da produgdo, da produtividade e dos precos do setor agricola do Brasil”, Revista Brasileira de Economia, ano XX, ns. 2 ¢ 3, junho/setembro de 1966, Critica a razo dualista descrito, deu marge 4 enorme acumulacio industrial das trés tltimas décadas, Nessa combinagao € que est a raiz da tendéncia 4 concentrac4o da renda na economia brasileira. © quadro descrito nada tem a ver com a oposigao formal de quaisquer setores “atrasado” € “moderno”, assim como esté longe de existir a difun- dida tese da inelasticidade da oferta agricola, modelo construido a partir da realidade chilena e generalizado para toda a América Latina pela Cepal, aplicado ao Brasil, repetida ¢ especialmente por Celso Furtado. A indis- tria, como tal, nunca precisou do mercado rural como consumidor, ou melhor dizendo, nunca precisou de incrementos substantivos do mercado rural para viabilizar-se. Nao € sem razao que, instalada ¢ promovida ao mesmo tempo que a produgio de automéveis, a produgéo de tratores engatinhou até agora, nao chegando a uma vigésima parte daquela co- irma; a produgio ¢ o consumo de fertilizantes, que tém experimentado incrementos importantes no ultimo qilinqiiénio, 0 tipo de insumo que nao altera a relacao homem/terra que é a base do modelo “primitivo” da agricultura ou, melhor ainda, intensifica 0 uso do trabalho. Assim, a orientagao da industria foi sempre ¢ principalmente voltada para os mercados urbanos nao apenas por razées de consumo mas, primordial- mente, porque 0 modelo de crescimento industrial seguido é que possi- bilita adequar o estilo desse desenvolvimento com as necessidades da acumulagio ¢ da realizacéo da mais-valia: um crescimento que se dé por concentragao, possibilitando o surgimento dos chamados setores de “ponta’. Assim, nao é simplesmente o fato de que, em termos de produ- tividade, os dois setores — agricultura ¢ industria — estejam distanciando- se, que autoriza a construggo do modelo dual; por detrds dessa aparente 0 dialética. A agricultura, nese modelo, dualidade, existe uma integra cumpre um papel vital para as vircualidades de expansio do sistema: seja fornecendo os contingentes de forca de trabalho, seja fornecendo os alimentos no esquema jé descrito, ela tem uma contribuigéo importante na compatibilizagao do processo de acumulagao global da economia. De outra parte, ainda que pouco represen te como mercado para a industria, esta, no seu crescimento, redefine as condigées estruturais daquela, introduzindo novas relagdes de produgéo no campo, que tora vidvel 48 Francisco de Oliveira a agricultura comercial de consumo interno ¢ externo pela formagio de um proletariado rural. Longe de um crescente ¢ acumulativo isolamento, ha relagdes estruturais entre os dois setores que estdo na légica do tipo de expansao capitalista dos tiltimos trinta anos no Brasil, A tensio entre agricultura ¢ industria brasileiras nao se dé no nivel das relagdes das forgas produtivas, mas se dé ou se transfere para o nivel interno das relagdes de produgdo tanto na indiistria como na agriculrura. A formacao do setor industrial € outro dos pontos criticos do proceso. Trata-se, como jé se salientou paragrafos atrds, de tornar a empresa industrial a unidade-chave do sistema ¢ de criar ou consolidar novos parimetros, novos pregos de mercado, que canalizem ¢ orientem o esforgo da acumulagio sobrea empresa industrial. Para tanto, o Estado deliberadamente interviré, nos pontos e nas formas simplificadamente jd enunciadas. A interpretagio do arranque industrial que se da pés-anos 1930 tem sido exageradamente reduzida & chamada “substituigao de importagées”: a crise cambial encarece os bens até entéo importados e, no limite, a nao-disponibilidade de divisas ¢ a Segunda Guerra Mundial impedem, até do ponto de vista fisico, @ acesso aos bens importados; isso dé lugar a uma demanda contida ou insatisfeita, que serd 0 horizonte de mercado estivel ¢ seguro para os empresdrios industriais que, sem ameaca de competi¢ao, podem produzir e vender produtos de qualidade mais baixa que os importados e a precos mais elevados. Posteriormente, aadogao de uma clara politica alfandegiria protecionista ampliard as mar- gens de preferéncia para os produtos de fabricagio interna. Nao hé duivida de que a descri¢ao corresponde, sinteticamente, & forma do proceso. Segundo o modelo dualista cepalino, nessa forma estaria a raiz da formacio dos dois pélos, o “atrasado” ¢ o “moderno”, ¢ a imposigio de formas de consumo sofisticadas? que debilitariam a propensao para poupar de um lado, ¢ de outro, por serem demandas quantativamente pouco volumosas, obrigariam a indistria a superdimensionar suas unida- 9. Este tipo de argumentacio ¢ ratificado por Celso Furtado em “Dependencia Externa y Teoria Econémica", El Trimestre Econémico, vol. XXXVIII (2), n. 150, México, 1971, Critica a razdo dualista 49 des, adotar técnicas capital-intensives diminuindo o multiplicador do emprego, trabalhar com capacidade ociosa ¢ deprimir a relagao produ- to/capital: a longo prazo, isso redundaria numa deterioragao da taxa de lucro ¢ da taxa de inversio e, conseqiientemente, da taxa de crescimen- to”. J Maria da Conceigao Tavares ¢ José Serra'! demonstraram convin- centemente que os supostos dessa construcao nao se sustentam tanto tedrica como empiricamente, ainda quando se permanega no marco conceitual do modelo cepalino, A verdade ¢ que do modelo cepalino estio ausentes conceitos come “mais-valia”, que séo suficientes para expli- car como, ainda no caso de serem corretos os supostos cepalinos, sua conclusao unidirecional ¢ equivocada, pois podem aumentar a mais-valia rclativa e ainda a mais-valia absoluta (decréscimo absoluto dos saldrios reais € nao apenas decréscimo relativo). Por outro lado, a rentabilidade ou a taxa de lucto podem aumentar ainda quando icamente o capital no seja utilizado integralmente: no somente a varidvel “mais-valia” joga um papel Fundamental nessa possibilidade, como as posigées fionpallaricaUaRiennpies, Clewtuids 8 PRES. dom prOdutod O estilo de interpretagao ao qual se costumou associar a industriali- zagao, tanto na América Latina quanto no Brasil, ¢ que fornece as bases para uma timida teoria da integracao latino-americana"? privilegia as relagées externas das economias capitalistas da América Latina ¢, nesse diapasao, transforma a teoria do subdesenvolvimento numa teoria da dependéncia’, Parece, assim, que a industrializagdo substitutiva de imparvacaes findase muna necewidade do consumo ecnse “nih HE. cessidade da producao, verbi gratiae, da acumulagao; além disso, as formas de consumo impostas de fora para dentro parecer nao ter nada que ver com a estrutura de classes, com a forma da distribuigéo da renda, 10 A forma mais completa desse modelo e sua conclusdo mais radical acham-se formu- ladas por Celso Furtado em Subdesenvolvimento e estagnagio na América Latina, Rio de Janeiro, Civilizacao Brasileira, 1966. 1 Op. cit. 2 Ver ILPES, da brecha comercial y la integracién latinoamericana, México, Siglo XI, 1967. Celso Furtado, “Dependencia Externa y ‘Teoria Econémica’, op. cit. 50 Francisco de Oliveira ¢ so impostas em abstrato: comega-se a produzir bens sofisticados de consumo, ¢ essa producio € que cria as novas classes, € que conforma o padrao de distribuigao da renda, & que “perverte” a orientagao do processo produtivo, levando no seu paroxismo & recriago do “atrasa- do” ¢ do “moderno”. No entanto, a experiéncia histérica muito préxi- ma de nés encarrega-se de demonstrar exatamente 0 contrério do que afirma essa versio da teoria do subdesenvolvimento: a Argentina industrializou-se, no perfodo 1870-1930, em plena fase de crescente integragao com a economia capitalista internacional, em regime pre- ponderantemente livre-cambista, em periodos nos quais dispunha de ampla capacidade de importagao. A que se deve isso? Simplesmente a razdo — que nao € dificil reconhecer s¢ nao se quer complicar o que é simples — de que a industrializagdo sempre se dé visando, em primeiro lugar, atender as necessidades da acumulagio, ¢ nao as do consumo. Concretamente, se existe uma importante massa urbana, forga de traba- tho industrial ¢ dos servicos, ¢ se € importante manter baixo 0 custo de reprodugio dessa forga de trabalho a fim de nao ameagar a inversio, torna-se inevitdvel ¢ necess4rio produzir bens internos que fazem parte do custo de reprodugao da forga de trabalho; o custo de oportunidade entre gastar divisas para manter a forga de trabalho ¢ produzir interna- mente favorece sempre a segunda alternativa e ndo a primeira. No Brasil, também foi assim: comecou-se a produzir internamente em primeiro lugar os bens de consumo nio-duriveis destinados, primordial- richie, do consiimidl dav chaitadas clases Ho palaces (poeabiidudenasal. dada, além de tudo, pelo elenco de recursos naturais do pais) e nao © inverso, como comumente se pensa. O fato de que o processo tenha desembocado num modelo concentracionista, que numa segur da etapa de expansio vai deslocar o eixo produtivo para a fabricagao de bens de consumo duraveis, nao se deve a nenhum fetiche ou natureza dos bens, a nenhum “efeito-demonstragio”, mas & redefinigito das relagoes trabalho-capital, @ enorme ampliagéa do ‘exéreito industrial de reserva’, ao aumento da taxa de explorardo, as velocidades diferenciais de crescimento de saldrios e produtividade que reforgaram a acumula- ¢do. Assim, foram as necessidades da acumulagao ¢ nao as do consumo Critica a razao dualista 51 que orientaram o processo de industrializagdo: a “substituigao de importa- goes” € apenas a forma dada pela crise cambial, a condicio necessdria, porém nio suficiente. Numa segunda etapa, 0 processo ditigiu-se & produgio dos bens de consumo durdveis, intermedidrios ¢ de capital. E. possivel perceber-se, também, que a orienta¢do decorreu mais das necessidades da produ- cdo/acumulagio que do consumo: este € privilegiado sempre no nivel da ideologia “desenvolvimentista” (andlise do Grupo Cepal-BNDE que forneceu as bases para o Plano de Metas do periodo Kubitschek), mas é duvidoso que o melhor atendimento ao consumo fosse mais racional- mente logrado com produtos de qualidade inferior e de precos mais altos. Ainda no nivel do discurso dos planos de desenvolvimento é facil perceber que realmente a varidvel privilegiada & a dos efeitos interindustriais das novas produgées, isto é, a produgio ¢ a acumnulacio. Pouco impor- ta, para a rationale da acumulagao, que os precos nacionais sejam mais altos que os dos produtos importados: ou melhor, ¢ preciso exatamente que os precos nacionats sejam mais altos, pois ainda quando eles se trans- mitam interindustrialmente a outras produgées ¢ exatamente por isso clever também a média dos pregos dos demais ramos chamados “dina- micos”, do ponto de vista da acumulagao essa produgao pode realizar-se porque a redefinigao das relagdes trabalho-capital deu lugar 4 concentra- Gao de renda que torna consumiveis os produtos e, por sua vez, reforca a acumulagao, dado que a alta produtividade dos novos ramos em comparagao com o crescimento dos saldrios d4 um “salto de qualidade”, reforgando a tendéncia & concentragio da renda. © que é absolutamente necessdrio € que os altos precos nao se transmitam aos bens que formam parte do custo de reproducao da fora de trabalho, o que ameacatia a acumulagao, J4 08 prexos dos produtos dos camies chamados “dinmi- cos” podem e até devem ser mais altos comparativamente aos impor- tados, porque a realizacao da acumulacdo que depende deles se tealiza interna ¢ ndo externamente. Em outras palavras, somente tem sentido falar em pregos competitivos quando se trata de produtos que vio a0 mercado externo: para o processo capitalista no Brasil é importante que 0 custo de produgio de café seja competitivo internacionalmente, mas 52 Francisco de Oliveira nenhuma importancia tem o fato de que os automéveis nacionais sejam duas a trés vezes mais caros que seus similares estrangeiros'*. Tendo como demanda as classes altas em uma distribuicao de renda extrema- mente desigualitéria, a produg&o nacional de bens de consumo durdveis, dos quais 0 auromével € um arquétipo, encontra mercado ¢ realiza sua funco na acumulacio tornando as unidades ¢ os ramos fabris a ela dedicados as unidades have do sistema: essas ndo apenas esto entre as mais rentdveis ¢ mais promissoras do setor industrial, como orientam o perfil da estrutura produtiva. Um raciocinio neocldssico-marginalista aconselharia 4 baixa do preco dos automéveis, por exemplo, bascado no suposto de uma alta clasticidade-renda daquela demanda: porém, como para o sistema ¢ as empresas ndo € 0 consumo 0 objetivo, essa manobra apenas significaria vender mais carros sem repercussio favordvel nos lucros, que poderiam até baixar’. © outro termo da equacao urbano-industrial séo os chamados “servigos’, um conjunto hererogéneo de atividades, cuja tinica homogeneidade 14 Quera é a situaggo quando se tenta cxporticlos: entdo é necessirio que cles sejam competitivos; daia razao pela qual o subsidio que o Governo da, hoje, 3s exportagoes de manufaturados se situe em rorno de 40% do prego FOB. Mas essa exportagio é marginal para a-acumulagao ¢, na maioria dos casos, representa, para a economia global, “queima? de excedente, embora possa ser timo negécio para as empresas. 15 No Brasil, recentemente, assiste-se a uma evoltugio paradoxal do ponto de vista da wcoria tradicional, na produgdo de automdveis. A Volkswagen é a tinica produtora nacional de veiculos de passcio que, pelo volume de vendas de um tinico modelo — 0 conhecido “Busca’ —, poderia beneficiar-se de economias de escala, reduzindo, portanto, custo de produgio do seu modelo popular e, segundo a tcoria convencional, ampliando 0 mercado. A politica da Volkswagen tem sida completamente opostaa esse modelo: nos tltimos anos, a empresa diversificou sua linha de produgSo, passando da produgio de uum carro popular para mais de seis modclos diferentes, codos em linha ascensional de precos, buscando, justamiente, competir pelo mercado das classes de alas rendas. O modelo mais sofisticade da Volkswagen sc iguala com os auroméveis da linha Opala, da General Motors, carros evidentemente destinados a uma faixa de mer- cado que ndo pode ser chamada de popular. No limite, a Volkswagen terd — se quiser continuar competindo pelo mercado de altas rendas — que mudar totalmente a concepgao dos seus veiculos, que encontra uma limitag4o muito séria na pequena poréncia do motor, ao contratio dos seus concorrentes no mercado brasileiro, que tendem todos a motores de poréncia similar aos do mercado americano. Critica a razao dualista 53 consiste na caracteristica de nao produzirem bens materiais. O papel ¢ a fungio dos servigos numa economia nao tém sido matéria muito atraente para os economistas, a julgar pela literatura existentc. A obra cléssica de Colin Clark, The Conditions of Economic Progress (As condi- esd: progresso econdmicol® seneowas hasesida modelo empirica de desagregagio do conjunto das atividades econdmicas nos trés setores, Primario, Secundério e Tercidrio. Analiticamente, 0 modelo de Clark tem:servido-de paradigma para'a observacaa: da’participagéo dos trés setores no produto interno bruto, tomando-se a elevacio telativa do produto Secundario (industrial) ¢ do produto Tercidrio (dos servigos) como sinal de diversificagao e desenvolvimento econémico, Sem embar- go, também tem sido usado 0 modelo de Clark num sentido equivo- cado, qual seja o de confundir as relagbes formais entre os trés setores com suas relagdes estruturais, isto é com papel que cada um desempe- nha no conjunto da economia e com o papel interdependente que jogam entre si. O modelo de Clark é, repita-se, empirico-formal: ele assinala apenas as formas da divisao social do trabalho ¢ sua aparicao seqiiencial. Quando ¢ utilizado para descrever uma formagao econémi- co-social concreca ou um modo de produgao, necessério se faz indagat das relagdes estrucurais entre os setores e do papel que cada um cumpre na estrututagdo global do modo de produsio concreto. A utilizagao, em abstrato, do modelo de Clark tem levado, nos modelos analiticos da teoria do subdesenvolvimento, a uma interpreta- ¢40 equivocada que forma parte do que se chamou linhas atrds o “modo de produgao subdesenvolvido”: neste, o setor Tercidrio ou de servigos estaria representado, em termos de patticipaggo no produto ¢ no em- prego, num guantum desproporcional. Em outras palavras, segundo os tedricos do subdesenvolvimento, o sector Tercidrio tem participagdes nos agregados referidos que ainda ndo deveria ter: é “inchado”. Uma das caracteristicas, assim, do “modo de producio subdesenvolvido” é ter um Tercidrio “inchado”, que consome excedente e comparece como um peso morto na formagio do produto, Deve-se convir que um certo * 32 ed., Londres/Nova York, Macmillan/Martin’s Press, 1957. (N.E.) 54 Francisco de Oliveira mecanismo de inspiragdo marxista também contribuiu para essa formula- Ao: os servigos, nessa vertente tedrica, de um modo geral, s40 “impro- dutivos”, nada agregando de valor ao produto social. Essa interpretacdo distingue os servicos de transporte ¢ comunicagoes, por exemplo, dos de intermediagao: os primeiros ainda seriam produtivos, enquanto os segun- dos nao. Conviria perguntar se a produgio de servigos de intermediacao ou de publicidade, por exemplo, nao representam, também, mabalho socialmente necessdrio para a reproducao das condigoes do sistema capita- lista, entre as quais a dimensao da dominagSo se coloca como das mais importantes: dificilmente se poderia contestar que no; ela faz parte, inclusive, da reproducao da mercadoria que distingue o capitalismo de outros modos de produgao: da mercadoria srabatho. ‘A discusséo anterior serve para introduzir a seguinte quest4o: como se explica a dimensao do ‘lerciario numa economia como a brasileira? Entre 1939 ¢ 1969, a participago do Tercidrio no produto interno liquido manteve-se entre 55% ¢ 53%, enquanto a porcentagem da populacdo cconomicamente ativa, isto é, da forga de trabalho, saltava de 24% para 38%; 0 Tercidrio configura-se, assim, como 0 setor que mais absorveu os incrementos da forga de trabalho. “lal absorcdo pode, simplesmente, ser creditada & incapacidade de o setor Primério reter a populagio e, por oposi- ao, 4 impossibilidade de os incrementos serem absorvidos pelo Secundario (induistria)'°? A hipdtese que se assume aqui & radicalmente distinta: 0 cresci- mento do rcidrio, na forma em que se dd, absorvendo crescentemente a forca de trabalho, tanto em termos absolutos como relativos, fax parte do modo de acumulacéo urbano adequado & expansao do sistema capitalista no '6 Muito da teorizagio sobre o Tercidrio “inchado” é meramente conjuntural, Foi a relativa desaceleragdo do incremento da ocupagao na induistria, no intervalo 1930- 1960, que forneceu a base empirica da teorizagio. No entanto, os resultados preliminares do censo demogréfico de 1970 indicam que, no intervalo 1960- 1970, a taxa de crescimento da ocupagao no setor industrial quase dobrou em relagao a década imediatamente anterior E isso num periodo em que, evidencemen- te, a destruigao do artesanato pelo estabelecimento fabril caracteristico jé ¢ irrelevance, totnando mais proxima, portanto, a criagao bruta de empregos da criagio liguida ‘Neste caso, como fica a teorizagao do “inchado”? Critica a razio dualista. 55 Brasil: ndo se estd em presenga de nenhuma “inchagio’. nem de nenbum segmento “marginal” da economia. Explicita-se 0 que funda esta interpretacio. Nas condigdes concretas da expansao do capitalismo no Brasil, o erescimnrito industrial teve que se produzit'sobre uma hase de acumula- g4o capitalista razoavelmente pobre, jd que a agricultura fundava-se, em sua maior parte, sobre uma “acumulagao primitiva’. Isso quer dizer que © crescimento anterior a expansao industrial dos pés-anos 1930 nao somente nio acumulava em termos adequados & empresa industrial, como nio senton as bases da infra-estrutura urbana sobre a qual a expansio industrial repousasse: antes da década de 1920, com excegao do Rio de Janeiro, as demais cidades brasileiras, incluindo-se nelas Sao Paulo, nao passavam de acanhados burgos, sem nenhuma preparagio para uma industrializagao r4pida ¢ intensa. Ora, entre os anos 1939 e 1969, a participagao do produto do Secundario no produto liquide passa de 19% para quase 30%, enquanto a forga de trabalho no setor vai de 10% a 18%. Esses dados sintéticos ajudam a dar conta da intensidade do crescimento industrial. No processo de sua expansao, sem contar com magnitudes prévias de acumulacao capitalistica, 0 cresci menco indusrrial-forgosamente teria que-cenitrarsobre aempieea indlis. trial toda a virtualidade da acumulagio propriamente capitalista; sem embargo, ela nao poderia dar-se sem 0 apoio de servigos propriamente urbanos, diferenciados ¢ desligados da unidade fabril propriamente dita, as chamadas “economias externas”, Era tal a caréncia desses servigos, que a primeira onda de industrializacio assistiu a tentativa de autarquizacéo das unidades fabris, proceso que logo seria substitufdo por uma divisio do trabalho para além dos muros da fibrica. Logo em seguida, com a continuidade da expansio industrial, esta vai compatibilizar-se com a auséncia de acumulacao capitalista prévia, que financiasse a implantacio dos servigos, langando mao dos recursos de mao-de-obra, reproduzindo nas cidades um tipo de crescimento horizontal, extensivo, de baixissimos coelicieates de capitalbacaos em ques funcae de producorsustentase basicamente na abundancia de mao-de-obra. Assiste-se, inclusive, & revivescéncia de formas de produgdo artesanais, principalmente nos chamados setvigos de teparagio (oficinas de todos os tipos). Entre 1940 36 Francisco de Oliveira € 1950, os Servigos de Producao passam de uma participagao de 9,2% para 10,4%, no emprego total, enguanto os Servigos de Consumo Indivi- dual mantém-se praticamente em torno de 6,3%; ja os Servigos de Consumo Coletivo também experimentam clevacao no emprego total: de 4,2% passam a 5,1%. Entre 1950 e 1960, sd se dispde de dados desagregados para os Servigos de Produgao, que continuam a ¢levar sua participagio no emprego total, desta vez para 11,5% e, embora nao cxistam informages desagregadas para os outros tipos de servigo, € possi- vel pensar que estes nao aumentaram sua participagao no emprego total, jd que o total para 0 agregado Terctdrio mantém-se estacionério, quando nao declinante”. Isso quer dizer que, provavelmente, é 0 crescimento dos Servigos da Produgao © maior responsavel, nas décadas sob andlise, pelo crescimento do emprego nos servigos ou no Tercidrio em geral, crescimento diretamente ligado a expansdo das atividades industriais. Em poucas palayras, o fenédmeno que existe nao ¢ 0 de uma “incha- a0” do Tercidrio. O tamanho deste, numa economia como a brasileira, do ponto de vista de sua participag4o no emprego total, € uma questdo estreitamente ligada 8 acumulagao urbano-industrial. A aceleragao do ctescimento, cujo epicentro passa a ser a industria, exige, das cidades brasileiras — sedes por excelémcia do novo ciclo de expansio -, infra- estrutura e requerimentos em servicos para os quais elas nao estavam previamente dotadas. A intensidade do crescimento industrial, que em trinta anos passa de 19% para 30% de participagao no produto bruto, nao permitird uma intensa e simultanea capitalizagéo nos servigos, sob pena de esses concorrerem com a industria propriamente dita pelos escassos fundos disponiveis para a acumulagao capitalistica. Tal contradigo 17 Ver Paul Singer, Forga de trabalho e emprego no Brasil, 1920-1969, Caderno 3, Cadernos Cebrap, S30 Paulo, 1971. Seré no perfodo 1960-1969 que os Servigos de Consumo Individual superario os Secvigos de Produgao, na participagao no emprego total: os primeiros atingirio 15,3%, enquanto os segundos estario em 13% (dados do PNAD, 32trimestre de 1969). Isto ¢, 0 extraordindrio crescimento dos Servigos de Consumo Individual, tradicionalmente considerados como “deps- sito” de mao-de-obra, se dd exatamente quando o Secundario como um todo e, particularmente, a induistria recuperam o dinamismo na criagao de emprego. Critica & razio dualista 57 € resolvida mediante o crescimento nao-capitalistico do setor Tercidrio. Esse modelo nada tem de parecido com o do Tercidrio “inchado”, embora sua descrigao possa coincidir: aqui, trata-se de um tipo de crescimento para esse setor ~ o dos servigos em geral — gue ndo é contraditério com a forma de acumulagao, que ndo ¢ obstdculo 4 expansio global da eco- nomia, que ndo ¢ consumidor de excedente. A razio basica pela qual pode ser negada a negatividade do crescimento dos servigos — sempre do ponto de vista da acumulacao global ~ é que a aparéncia de “inchacao” esconideum mecanismo flindamental diracumulacéoxos.serviqos:realiza: dos & base de pura forca de trabalho, que ¢ remunerada a niveis baixis- simos, transferem, permanentemente, para as atividades econémicas de corte capitalista, uma fragao do seu valor, “mais-valia” em sintese'®. Nao € estranha a simbiose entre a “moderna” agricultura de frutas, hortalicas € outros produtos de granja com 0 comércio ambulante?!” Qual é 18 As ortodoxias de todos os tipos certamente experimentarao cngulhos com essa afirmagio: a ortedoxia do “inchado”, a ortodoxia do fampenproleriat, a ortodoxia neomaltusiana, a ortodoxia ncoclissica marginalista; pois uma proposicao desse tipo nao se coaduna com preconceitos ideolégicos, rampouco com a pobre aritmética que propée redugao da populacdo para aumentar a renda per capita, nem ainda com a teoria dos “desvios” na alocagdo étima de fatores, que vé 0 “preto” da situagao atual como um prentineio das manhis douradas do amanha, quando o sistema poderd “distribuir” o que hoje tem necessidade de concentrar. 19 Uma declaragao do presidente do Sindicato Rural dos Agricultores de So Roque, Estado de Sao Paulo, ao jornal O Estado de S. Paulo, edico de domingo, 19 de margo de 1972, explica bem a relagao existente: falando a respeito da crise surgida na fruticultura, decorrente de uma excelente safta e de um fraco movimento de vendas, ele diz: “... foi um golpe inesperado para 0 comércio de frutas (a proibigio do comércio ambulance pela Prefeitura de Sio Paulo), pois os ambulantes sio imprescindiveis para a colocagao das frutas junto aos consumidores. Sem eles— existem cerca de 600 — houve um colapso no sistema de distribuicéo e os produtores tiveram gue arcar com os prejutzos, enquanto o povo ficou sem condigées de comprat frutas, apesar do prego ‘basico””. Grifos novos. Essa liggo elementar nos diz que: os produrores arcaram com os prejufzos, que ndo decorrem dos pregos “bdsicos”, mas da auséncia fisica do comércio ambulante. Ora, os ambulances nao poderiam aumentar os pregos, 0 que significa dizer que os preju(zos — fracdo da renda dos produtores que ndo foi realizada, depende, para sua realizagao, do trabalho dos ambulantes. Por ai se vé.o mecanismo de iransferéncia posto em agao. 58 Francisco de Oliveira volume de comércio de certos produtos industrializados — 0 grifo € proposital — tais como Liminas de barbear, pentes, produtos de limpeza, instrumentos de corte, um sem-niimero de pequenos objetos, que € realizado pelo comércio ambulante das ruas centrais de nossas cidades? Qual € a relacdo que existe entre 0 aumento da frota de vefculos parti- culates em circulagio ¢ os servicos de lavagem de automéveis realizados bracalmente? Existe alguma incompatibilidade entre o volume crescente da produgio automobilistica ¢ a multiplicaggo de pequenas oficinas destinadas & re-produgiio dos veiculos? Como explicar que todos os tipos de servicos de consumo pessoal crescam mais exatamente quando a industria recupera seu dinamismo na criagao de empregos ¢ quando todo um processo se cristaliza — conforme os resultados do censo demo- grafico de 1970 — numa distribuigdo da renda mais desigual? Esses tipos de servigos, longe de serem excrescéncia ¢ apenas depdsito do “exército industrial de reserva”, sio adequados para 0 proceso da acumulagao global ¢ da expansio capitalista e, por seu lado, reforgam a tendéncia & conecowacio dexenila®” As cidades sao, por definigao, a sede da economia industrial ¢ de servicos. O crescimento urbano é, portanto, a contrapartida da desrura- lizagio do produto, e, nesse sentido, quanto menor a ponderagao das atividades agricolas no produto, tanto maior a taxa de urbanizagio. Portanto, em primeiro lugar, o incremento da urbanizagéo no Brasil 20 Mesmo certos tipos de scrvigos cstritamente pessoais, prestados diretamente ao consumidor ¢ até dentro das familias, podem revelar uma forma disfarcada de exploragdo que reforga a acumulagio. Servigos que, para serem prestados fora das familias, exigiriam uma infra-estrucura de que as cidades nao dispdem e, eviden- temente, uma base de acumulago capitalistica que nao existe. A lavagem de roupas cm casa somente pode ser substituida em termos de custospor lavagem industrial que compita com 0s baixes saldrios pagos 4s empregadas domésticas: 0 motorista par- ticular que leva as criangas & escola somente pode ser substituido por um eficiente sistema de transportes coletivas que nao existe. Comparado com um americano médio, um brasileiro da classe média, com rendimentos monetérios equivalentes, desfruta de um padrao de vida real mais alto, incluindo-se neste todo tipo de servigos pessoais no nivel da familia, basicamen te sustentado na exploragio da mao- de-obra, sobretudo feminina. Critica & razao dualista 59 obedece a lei do decréscimo da participacao da agricultura no produto total. Sem embargo, apenas o crescimento da participagao da industria ou do setor Secundario como um todo néo seria o responsavel pelos altissimos incrementos da urbanizagao no Brasil. Esse fato levou uma boa parcela dos socidlogos, no Brasil e na América Latina, a falar de uma urbanizacio sem industrializacdo ¢ do seu xipéfago, uma urbani- zacio com marginalizagao. Ora, 0 processo de crescimento das cidades brasileiras — para falar apenas do nosso universo — no pode ser enten- dido sendo dentro de um marco teérico onde as necessidades da acu- mulagao impdem um crescimento dos scrvicos horizontalizado, cuja forma aparente é 0 caos das cidades. Aqui, uma vez mais € preciso nao confundir “anarquia” com caos; 0 “andrquico” do crescimento urbano nao € “caético” em relagdo as necessidades da acumulacdo: mesmo uma certa fragdo da acumulacio urbana, durante © longo periodo de liqui- dagao da economia pré-anos 1930, revela formas do que se poderia cchamataudazmenre; de “acumulagso priinidiys", Unato-indipnificans te porcentagem das residéncias das classes trabalhadoras foi construida pelos préprios proprietdrios, utilizando dias de folga, fins de semana ¢ formas de cooperagao como o “mutirao”, Ora, a habitagao, bem resul- tante dessa opetagio, se produz por trabalho no pago, isto é, super- trabalho, Embora aparcntemente esse bem nao seja desapropriado pelo setor privado da produgio, ele contribui para aumentar a taxa de explo- rastoids forcadettraballiovpoisosscu:resultado™atcasa-relerezeanuuma baixa aparente do custo de reprodugao da forga de trabalho — de que os gastos com habitacao sao um componente importante - € para deprimir os saldrios reais pagos pelas empresas. Assim, uma operagao que é, na aparéncia, uma sobrevivéncia de préticas de “economia natu- ral” denice day edad és, Cake ae adeivavelinenite Benn Cons uta prOCE de expansio capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na ismensacexplorayaa da forca de trabalho. O proceso descrito, em seus varios nfveis ¢ formas, constitui o modo de acumulagao global préprio da expansio do capitalismo no Brasil no pds-anos 1930, A evidente desigualdade de que se reveste que, para usar a expresso famosa de Trotsky, é ndo somente desigual 60 Francisco de Oliveira mas combinada, é produto antes de uma base capitalistica de acumulacao razoavelmente pobre para sustentar a expansdo industrial e a conversao da economia pés-anos 1930, que da existéncia de setores ‘atrasado” e “moder- no”. Essa combinagio de desigualdades nao ¢ original; em qualquer cambio de sistemas ou de ciclos, cla é, antes, uma presenga constante. A originalidade consistiria talvez em dizer que — sem abusar do gosto pelo paradoxo — a expansio do capitalismo no Brasil se dé introduzin- do relades novas no arcaico ¢ reproduzindo relagGes atcaicas no novo, um miodo de compatibilizar a acumulagio global, em ques introdugdo das relagdes novas no arcaico libera forga de trabalho que suporta a acumulagao industrial-urbana ¢ em que a reproducao de relagoes arcai- cas no novo preserva o potencial de acumulagao liberado exclusivamente para os fins de expansao do préprio novo. Essa forma parece absoluta- mente necessdria ao sistema em sua expressiéo concreta no Brasil, quando se opera uma transi¢ao tio radical de uma situagio em que a realizacio da acumulagao dependia quase integralmente do setor externo, para uma situag’o em que serd a gravitacao do setor interno 0 ponto critico da realizacao, da permanéncia e da expansao dele mesmo. Nas condigoes concretas descritas, 0 sistema caminhou inexoravelmente para uma concen- tragao da renda, da propriedade e do poder, em que as préprias medidas de intengdo corretiva ou redistributivista — como querem alguns — transformaram-se no pesadelo prometeico da rectiagéo ampliada das tendéncias que se queria corrigit. Il UM INTERMEZZO PARA A REFLEXAO POLITICA: REVOLUGAO BURGUESA E ACUMULACAO INDUSTRIAL NO BRASIL Ao longo das paginas anteriores, algumas questdes permaneccram obscuras. Ainda que se rejeite a demanda de “especificidade global” que est4 implicita na tese do “modo de produg&o subdesenvolvido”, ¢ evidente que a histéria € 0 proceso da economia brasileira no pés-anos 1930 contém alguma “especificidade particular”; isto é, a histéria ¢ 0 proces- so da economia brasileira podem ser entendidos, de modo geral, como a da expansio de uma economia capitalista — que ¢ a tese deste ensaio -, mas essa expansdo nao repete nem reproduz ipsis litteris o modelo clas- sico do capitalismo nos pafses mais desenvolvidos, nem a estrutura que € 0 seu resultado. Incorpora-se aqui, desde logo, a adverténcia contida em numerosos trabalhos de nao se tomar o “classicismo” do modelo ocidental como “regra estructural”. Aaceitagio de que se trata da expansio de uma economia capitalista decorre do reconhecimento de que 0 pés-anos 1930 nfo mudou as relagdes basicas do sistema do ponto de vista de proprietérios ¢ nao- ptoptictérios dos meios de produgao, isto é, do ponto de vista de compradores ¢ vendedores de forga de trabalho; o sistema continua tendo’ por basee norte a realizacao do [ucro; Aqui’se perfila um. ponto 62 Francisco de Oliveira essencial da tes filiagdo da economia brasileira ao sistema capitalista, sua transformagao estrutural, nos moldes do processo pés-anos 1930, passa a ser, predomi- o de que, tomando como um dado a inser¢ao ¢ a nantemente, uma possibilidade definida dentro dela mesma; isto ¢, as relagdes de produgio vigentes continham em si a possibilidade de reestruturagdo global do sistema, aprofundando a estruturagao capita- lista, ainda quando 0 esquema da divisdo internacional do trabalho no proprio sistema capitalista mundial fosse adverso, Nisso reside uma dife- renciacdo da tese basica da dependéncia, que somente vé essa possibi- lidade quando hd sincronia entre os movimentos interno ¢ externo. Do ponto de vista da articulagao interna das forgas sociais interessa- das na reprodugao de capital, hd somente uma questao a ser resolvi- da: a da‘substitui¢io das: Classes: proprietdrias-suraisna cipula da piramide do poder pelas novas classes burguesas empresario-indus- triais. As classes trabalhadoras em geral nao tém nenhuma possibi- lidade nessa encruzilhada: inclusive a tentativa de revolugdo, em 1935, refletiré mais um momento de indecis@o entre as velhas ¢ as novas classes dominantes que uma possibilidade determinada pela forga das classes trabalhadoras. Mas, do ponto de vista das relagées exter- nas com © resto do sistema capitalista, a situagdo era completamente oposta. A crise dos anos 1930, em todo o sistema capitalista, cria 0 vazio, mas nao a alternativa de rearticulag4o; em seguida, a Segun- da Guerra Mundial continuard obstaculizando essa rearticulagio e, nao paradoxalmente, reativard o papel de fornecedor de matérias- primas de economias como a do Brasil. © mundo emerge da guerra com um problema crucial, qual seja o de reconstruir as economias dos paises ex-inimigos, a fim de, entre outras coisas, evitar uma expansio do socialismo nos paises jd desenvolvidos (esse sistema se expandird exatamente na periferia). E essa reconstrug’o nao apenas desvia os recursos que, alternativamente, numa perspectiva prebis- chiana, poderiam ser aplicados nos paises nao industriais do sistema capitalista, como restaura algo da diviso internacional do trabalho do pré-guerra: a reconstrucio das economias devastadas terd a indtis- tria como estratégia central ¢ 0 comércio de manufaturas entre as Crkica eaudo duallce 03 nages industriais’ do sistema serd a condigio de viabilidade da estraté- gia; aos paises nao-industriais do sistema continuard cabendo, por muito tempo, dentro dessa divisio do trabalho, o papel de produtor de ma- térias-primas € produtos agricolas. Nessas circunstincias, a expansio do capitalismo no Brasil repousaré, essencialmente, na dialética interna das forcas sociais em pugna; serao as postibilidades de mudanga no modo de acumulacio, na estrutura do poder ¢ no estilo de dominacao, as determinantes do processo. No limite, a possibilidade significard estagnacao € reversdo & economia primé- rio-exportadora, Entre essas duas tensoes, emerge a revolucio burguesa no Brasil. O populismo seré sua forma politica, ¢ essa € uma das “especificidades particulares” da expansao do sistema. Ao contrério da revolugao burguesa “cldssica”, a mudanga das classes proprictérias rurais pelas novas classes burguesas empresdrio-industriais nao exigird, no Brasil, uma ruptura total do sistema, no apenas por razdes genéticas, mas por raz6es estruturais. Aqui, passa-se uma crise nas relagGes externas com o resto do sistema, enquanto no modelo “classico” a crise € na totalidade da economia ¢ da sociedade. No mode- lo curopeu, a hegemonia das classes proprictarias rurais € total ¢ paralisa qualquer desenvolvimento das forcas produtivas, pelo fato mesmo de que as economias “cldssicas” nao entravam em nenhum sistema que lhes fornecesse os bens de capital de que necessitavam para sua expansio: ou elas produziriam tais bens de capital ou nao haveria expansao do capitalismo, ' © Japao cem sido utilizado, extensamente, na literacura técnica, como um exemplo de pais “subdesenvolvido” que ultrapassou essa barreira, no pés-guerra, através de uma industrializagao dedicada as exportages. Nesse sentido, ele serve como paradigma ranto para demonstrar a possibilidade de industrializagao ¢ desenvolvimento que o sistema capitalista oferece para os que tém “competéncia”, como para demonstrar um caso “sadio” de crescimento “para fora”, expandindo capacidade para importar etc, Aliteratura apologética do caso japonés esquece que o Japio pré-guerra ndo poderia, sob qualquer critério, ser considerado “subdesenvalvido”, pois até Hiroshima ¢ Nagasaki cle se enfrenta, no mesmo nivel tecnolégico, com os Estados Unidos, numa guerra convencional (diferentemente da guerra do Vierna). Além disso, a reconstrugao Japonesa ¢ a agressiva politica de exportagGes foram permitidas como 0 prego que 0 capitalismo teria que pagar para no perder um importante membro do sistema. 64 Francisco de Oliveira enquanto sistema produtor de mercadorias. A ruptura tem que se dar, em todos os niveis e em todos os planos. Aqui, as classes proprietarias parcialmente hegeménicas, no sentido de manter 0 controle rurais das relagies externas da economia, que lhes propiciava a manutengao do padrao de reproducio do capital adequado para o tipo de economia primério-exportadora. Com 0 colapso das relagdes externas, essa hegemonia desemboca no vécuo; mas, nem por isso, ipso ficto entram em agdo mecanismos autométicos que produzissem a industrializagao por “substituigdo de importagées”. Estavam dadas as condigocs necess4- rias mas no suficientes. A condigao suficiente serd encontrar um novo modo de acumulagio que substitua o acesso externo da economia prima- rio-exportadora. E, para tanto, é preciso adequar antes as relagdes de producio. O populismo é a larga operacéo dessa adequagao, que come- ¢a por estabelecer a forma da jungao do “arcaico” ¢ do “novo’, corpo- rativista como se tem assinalado, cujo epicentro serd a fundagao de novas formas de relacionamento entre o capital € 0 trabalho, a fim de criar as fontes internas da acumulacao. A legislacdo trabalhista criard as condiges para isso. ‘Ao mesmo tempo que cria as condigées para a acumulacao necessé- ria para a industrializagio, a legislagao trabalhista, no sentido dado por Weffort?, é a cumeeira de um pacto de classes, no qual a nascente burguesia industrial usard 0 apoio das classes trabalhadoras urbanas para liquidar politicamente as antigas classes proprietarias rurais; ¢ essa alian- ca € nao somente uma derivagao da pressio das massas, mas uma ne- cessidade para a burguesia industrial evitar que a economia, apés os anos da guerra € com o boom dos precos do café ¢ de outras matérias-primas de origem agropecudria € extrativa, reverta a situagao pré-anos 1930. Assim, inaugura-sc um longo period de convivéncia entre politicas aparentemente contraditérias, que, de um lado, penalizam a produgio 2 Ver Francisco Weffort, “Estado ¢ massas no Brasil", Revista Civilizacao Brasileira, ano 1,n. 7, maio de 1966. Rio de Jancito, Civilizagao Brasileira, 1966. Nao se concorda, nna interpretagao de Weffort, com nenhum “distributivismo” econdrnico imputado ac populismo. Critica @ razao dualista 65 para exportagdo mas procuram manter a capacidade de importacao do sistema — dado que séo as produges agropecusrias as tinicas que geram divisas — ¢, de outro, ditigem-se inquestionavelmente no sentido de beneficiar a empresa industrial motora da nova expans&o. Seu sentido politico mais profundo € o de mudar definitivamente a estrutura do poder, passando as novas classes burguesas empresdrio-industriais A posigao de hegemonia. No entanto, 0 proceso se di sob condicées externas geralmente adversas — mesmo quando os presos de exportagio esto em alta - ¢, portanto, um dos seus requisitos estruturais é 0 de manter as condigées de reprodugao das atividades agricolas, nao excluin- do, portanto, totalmente, as classes proprictdrias rurais nem da estructura do poder nem dos ganhos da expansio do sistema. Come contrapartida, a legislacao trabalhista nao afetara as relacdes de producao agraria, pre- servando um modo de “acumulagao primitiva” extremamente adequado pata a expaisao global. Esse “pacto estrutural” preservaré modos de acumulagio distintos entre os setores da economia, mas de nenhum modo antagénicos, como pensa o modelo cepalino. Nesta base ¢ que continuard a crescer a populagao rural ainda que tenha participagao declinante no conjunto da populacao total, € por essa “preservagao” € que as formas nitidamen- te capitalistas de produgao nao penetram totalmente na area rural, mas, bem ao contrétio, contribuem para a reprodugio tipicamente nao-capita- lista, Assim, dé-se uma primeira “especificidade particular” do modelo brasileiro, pois, ao contratio do “cléssico”, sua progressio nao requer a destruigéo completa do antigo modo de acumulagao. Uma segunda “especificidade particular” éa que se reflete na estruturagio da economia industrial-urbana, particularmente nas proporgées da participagdo do Secundario ¢ do Tercidrio na estrutura do emprego, a questao ja discutida da incapacidade ou nao de o Secundério criar empregos para a absorcio da nova forca de trabalho ¢ a conseqiiente “inchacio” ou adequacio do tamanho do Tercidrio. Em primeiro lugar, conforme jd se demonstrou, as variag6es do incremento do emprego no Secundério sio, em boa medida, conjunturais; em segundo lugar, as maiores taxas de incremen- to do emprego nos servicos de Consumo Pessoal - a “inchagdo” — se da 66 — Francisco de Oliveira exatamente quando o incremento do emprego no Secundétio se acelera. Pretende-se haver demonstrado que o crescimento dos dois setores, nas formas cm que se deu no periodo pés-anos 1930, revela condiciona- mentos estruturais da expanso do capitalismo no Brasil. Pretende-se aduzir algo em torno da “especificidade particular’ em relacéo a0 mode- lo “classico”. Convém recuar um pouco na histéria brasileira para apanhar um elemento estrutural do modo de produggo: o escravismo. Sem preten- der refazer toda a interpretacio, € possivel reconhecer que 0 escravismo constitufa-se em dbice & industrializagdo na medida em que o custo de reprodugao do escravo era um custo interno da producao; a industriali- zagio significard, desde entao, a tentativa de “expulsar” 0 custo de teprodugao do escravo do custo de produgo. Em outras palavras, a0 contrério do modelo “cléssico”, que necessitava absorver sua “periferia” de relagbes de producio, o esquema num pais como o Brasil necessitava criar sua “periferia’; neste ponto, o tipo de insercéo da economia do pais no conjunto da divisio intemacional do trabalho do mundo capita- lista € decisivo ¢, portanto, faz-se justiga a todas as interpretagdes — particularmente as de Celso Furtado — que destacaram esse ponto. O longo periodo dessa “expulsio” e dessa “criagdo”, desde a Aboligao da Escravatura até os anos 1930, decorre do fato de que essa inser¢ao favorecia a manutencio dos padrées “escravocratas” de relagoes de produ- ¢a0; serd somente uma crise no nivel das forgas produtivas que obrigaré 4 mudanga do padrio. As instituigdes do periodo pés-anos 1930, entre as quais a legislacao de irabalhiovdescicatse conic: pepcchave, destinamase’a “expulan” 6 custo de reprodugio da forga de trabalho de dentro das empresas indus- triais (recorde-se todo o padrao da industrializagao anterior, quando as empresas tinham suas prdprias vilas operdcias: 0 caso de cidades como Paulista, em Pernambuco, dependentes por intciro da fabrica de teci- dos) para fora: o salério minimo seré a obrigagio maxima da empresa, que dedicard toda a sua potencialidade de acumulacao as tarefas do crescimento da producéo propriamente dita. Por outro lado, a industria- lizacao, erm sendo tardia, se di num momento em que a acumulacao Critica & ravdo dualista 67 é potencializada pelo fato de se dispor, no nivel do sistema mundial como um todo, de uma imensa reserva de “trabalho morto” que, sob a forma de tecnologia, é transfetida aos paises que iniciaram o proceso de industrializagao recentemente. Assim, na verdade, 0 processo de repro- dugao do capital “queima” varias etapas, entre as quais a mais importan- te nao precisar esperar que 0 prego da forca de trabalho se torne suficientemente alto para induzir as transformagées tecnoldgicas que econamizam trabalho, Esse fator, somado as leis trabalhistas, multiplica a produtividade das inversdes; por essa forma, o problema nao € que o crescimento industtial nao crie empregos — questio até certo ponto conjuntural -, mas que, ao acelerar-se, ele pds em movimento uma espiral que distanciou de modo irrecuperavel os rendimentos do capital em relagao aos de trabalho. Seria necessério, para que 0 preco da forca de trabalho crescesse de forma a diminuir a brecha entre os dois tipos de rendimento, uma demanda de forga de trabalho varias vezes superior a0 crescimento da oferta, Por outro lado, se & verdade que a compra de cquipamentos, v. g., de tecnologia acumulada, “queima” etapas da acu- mulagio, ela cambém reduz o circuito de realizacio interna do capital, © que tem, entre outras, a conseqiiéncia de tornar 0 efeito multiplicador real da inversio mais baixo que o efeito potencial que setia gerado no caso de uma realizagio interna total do capital. E ébvio que um dos multipli- cadores afetados, nesse caso, é 0 do emprego dircto ¢ indireto. A razio histérica da industrializagao tardia converte-se numa razio estrutural, dando ao setor Secunditio ¢ & industria participagoes desequilibradas no Produto ¢ na estrutura do emprego. No que se refere as dimensées do ‘lercidrio, € possivel reconhecer também razGes histéricas e outras estruturais, que explicariam uma “especificidade particular” da expansio capitalista no Brasil. Historicamente, uma industrializagao tardia tende a requerer, por oposicao, uma divisao social do trabalho tanto mais diferenciada quanto maior for a contem- poraneidade das indstrias, isto é, quanto mais avangada fora tecnologia incorporada, Assim, todos os tipos de setvigos contemporineos da in- dvistria — no nivel em que ela se encontra nos paises capitalistas maduros — passam a ser exigidos; essa exigéncia choca-se contra a exigitidade 68 Francisco de Oliveira inicial — uma razao estructural — dos fundos disponiveis para acumula- go, que devem ser rateados entre a industria propriamente dita ¢ os servicos. A solugao ¢ encontrada fazendo os servigos crescerem horizon- talmente, sem quase nenhuma capitalizagao, 4 base de concurso quase uinico da forca de trabalho e do talento organizatério de milhares de pseudo-pequenos proprietérios, que na verdade nao esto mais que vendendo sua forca de trabalho as unidades principais do sistema, mediadas por uma falsa propriedade que consiste numa operagao de por fora dos custos internos de produgio fabris a parcela corresponden- te aos servigos. E possivel encontrar, ao nivel da pratica das instituigdes que modelaram o processo de acumulagio no Brasil, transformadas em critérios de priotidades, as razées enunciadas: nfo existe, em toda a legislacao promocional do desenvolvimento, nem nos critérios de atuagao dos diversos organismos governamentais, nenhuma disposigio que contemple prioritariamente a concessio de créditos, a isengao para importa- cdo de equipamentos, a concessio de incentives fiscais, as disposigoes de natureza tarifdria, destinadas a elevar a capitalizacéo dos servigos (com a unica excegdo da Embratur, ha pouco tempo criada); nfo apenas a politica ccondmica geral de um largo periodo, como as disposicdes concretas com que atuam os diversos organismnos puiblicos, sempre con- sideraram que os servigos podem ser atendidos em niveis de capitaliza- do bastante inferiores a industria para o que a oferta abundante de médo- de-obra constituia nao somente garantia mas motivagio; isto é, 0s ser- vigos néo apenas podiam como deviam ser implantados apoiando-se na oferta de forca de trabalho barata. Por sua vez, 0 complexo de relagdes que moldou a expansao indus- trial, estabelecendo desde o inicio um fosso abismal na distribuigao dos ganhos de produtividade entre lucros ¢ salérios, p6s ¢m movimento um outro acelerador do crescimento dos servigos, tanto de producéo como os de consumo pessoal. Criou-se, para atender as demandas nascidas na propria expansio industrial, vista do lado das populagdes engajadas nela, isto:<, urbanfzadas, uma vadta gama de ervigos eépalhados’ clas cidades, destinados ao abastecimento das populagées dispersas: peque- nas mercearias, bazares, lojas, oficinas de reparos ¢ ateliés de servigos Critica 4 razao dualista 69 pessoais. Esses s4o setores que funcionam como satélites das populagdes nucleadas nos subtirbios ¢, portanto, atendem a populages de baixo poder aquisitivo: por esta forma, os baixos saldrios dessas populagées determinam 0 nivel de ganho desses pseudo-pequenos proprietarios (0 que pareceria uma operacao de criagdo de “bolsdes de subsisténcia” no nivel das populagdes de baixo poder aquisitivo); na verdade, o baixo nivel desses ganhos representa custos de comercializagio dos produtos indus- trializados e de produtos agropecudrios que sio postos fora dos custos intetnos de produce ¢ reforgam a acumulacao nas unidades centrais do sistema. E possivel perceber que o elemento estratégico para definir 0 conjun- to das relagdes na economia como um todo passou a ser o tipo de relacdes de produsao estabelecido entre 0 capital ¢ 0 trabalho na indvis- tria. Mas, longe do modelo “cléssico”, em que esse elemento estratégico tende a “exportar-se” para o restante da economia, no caso brasileiro — ¢ € possivel reconhecé-lo em outros paises — a implantacao das novas relacées de produgao no setor estratégico da economia tende, por razdes em primeiro lugar histéricas, que se transformam em razées estruturais, a perpetuar as relacdes nao-capitalistas na agricultura ¢ a criar um padrio ndo-capitalistico de reprodugio ¢ apropriagéo do excedente num setor como o dos servigos. A “especificidade particular” de um tal modelo consistiria em reproduzir ¢ criar uma larga “periferia” onde predominam padrdes nao-capitalisticos de relagdes de produgao, como forma ¢ meio de sustentagio ¢ alimentacéo do crescimento dos setores estratégicos nitidamente capitalistas, que s4o a longo prazo a garantia das estruturas de dominagao e reprodugao do sistema. Vv A ACELERAGAO DO PLANO DE METAS AS PRE-CONDIGOES DA CRISE DE 1964! Perante 0 quadro descrito, 0 periodo Kubitschek forgard a aceleragao da acumulagao capitalistica, com seu programa de avangar “cingiienta anos em cinco”. Do lado da definitiva conversao do sctor industrial ¢ das suas empresas em unidades-chave do sistema, a implantacgao dos ramos automobilistico, construgéo naval, mecanica pesada, cimento, papel ¢ celulose, ao lado da wriplicagéo da capacidade da siderusgia, Pareceria uma questao até certo ponto sccundéria ¢ bizantina a de precisar, no Tempo, a inflexao que tomou a ceonomia brasileira, cujas caracteristicas mais salientes ve cristalizam a partir dos anos 1967/1968. De um lado, poderia parecer que se quer atribuir as “bondacles” do modelo aos pré-1964, roubando aos acuais detentores de poder a “gléria” de haver aleangado to notdveis “performances” na taxa de crescimento global da economia: de outro lado, poderia rambém parecer que se quer atribuir aos pés-1964 — especialmente a0 movimento militar — os evidentes defeitos da estrutura ¢ da vida politica da naggo, assim como as tendéncias concentracionistas de renda ¢ do poder ccondmico que seriam o lado negativo das excepcionais taxas de crescimento logradas, Une tal colocagao antirética pecatia por demasiado maniquetsmo ¢ cairia num didlogo de surdos, contestatério ou apologético, do qual nao se saca nada, Por exsas razdes, a questdo tem importancia excepcional, Em primeire lugar, una 72 Francisco de Oliveira orientam a estratégia; por seu lado, o Estado, cumprindo o papel ¢ atuando na forma jé descrita, langar-se-4 num vasto programa de cons- trugao ¢ melhoramento da infra-estrutura de rodovias, produgao de energia eléttica, armazenagem ¢ silos, portos, a0 lado de viabilizar 0 avango da fronteira agricola “externa”, com obras como Brasilia e a rodovia Belém-Brasilia, O Estado opera através de uma estrutura fiscal primitiva ¢ extremamente regressiva, com 0 que fatalmente incorrerd em déficits crescentes, numa curiosa forma de aumentar até o limite sua divida interna sem mutudrios credores. Por outro lado, a conjun- tura internacional € pouco propicia: numa etapa em que o capitalismo se est4 redefinindo, num sentido policentrista, com 0 auge do Mercado Comum Europeu, sua estratégia politica continuard metida na “camisa- de- aaceleragdo que se tentaré movimentar-se-4 em assincronia com a estratégia ‘orga” das concepgdes maniquefstas de Foster Dulles. Dessa forma, reflexao clementar obriga a reconhecer quc um novo modelo econdmico nao se gesta em trés anos - 1964/1966 — ainda quando esses anos tenham sido carac- terizados por uma avalanche de modificagoes institucionais — leis, decretos etc. por outro lado, ontra reflexdo elementar abriga a reconhecer que nenhuma modificagao institucional fundamental ter-se-ia sustentado se do tivesse bases na estrutura produtivas no scio desta é que deveriam estar atuando as contradigées sobre as quais 0s contendores de 1964 se apoiariam, para desenvolvé-las do ponto de vista dos interesses de classe que cada um representava Assim, a explicagao que os cientistas politicos tentam dar acerea do carter do movimento de 1964 e de seus desdobramentos posteriores sempre seré apenas dedutiva a partir dos resultados e da situagao atual, mas nunca poderd responder até que ponto cla estava predeterminada - dentro de limites mais ou menos amplos ~ se no se reportarem as modificagdes na estructura da economia que se operavam desde anos pretéritos. Por isso, inclusive a correta colocacao do papel dos militares se vé sernpre prejudicada: estes parecem atuar autonomamente, surgem como um deus ex machina ¢ as prospecgées sobre scu papel sao apenas uma grande interro- gacdo. Do mesmo modo, Maria da Conceigio Tavares ¢ José Serra apresentam um quadro de modificagdes profundas na economia, no qual a tendéncia A concentra sao da renda 0 dinamismo dos anos recentes parecem ter surgido pés-1964 por decretos, leis e modificagées institucionais de maior ou menor monta. O transito de uma situagio a outra, que ¢ talvez o mais importante, fica, assim, relegado ¢ destituido de qualquer significagao. Cr ica a razdo dualista 73 politica dos paises centrais, do que resultard quase nenhum financia- mento de governo a governo. Nessas circunstancias, recorre-se ao endi- vidamento externo privado, de prazos curtos, 0 que acarretard pressdes sobre a balanga de pagamentos, numa etapa em que a clasticidade das exportagdes perante 0 crescimento do produto é relativamente nula. Aaceleragao do periodo Kubitschek nao pode ser menos que exagera- da, ¢ suas repercussdes pronto se materializariam. O coeficiente de in- versio — a relagio entre a formac’o de capital e 0 produto bruto — se eleva de um indice 100 no qiiingiiénio anterior para um indice 1222, isto é, em cinco anos, a média anual do coeficiente, comparada com a média anual do qiiingiiénio precedente cresce quase 4, 0 que € um esforco digno de nota para qualquer economia. Nas condigdes descritas no pardgrafo anterior, como compatibilizar esse esforgo, como financid- lo, nos quadros limitados da acumulacao de base capitalistica nacional?} A solucio correrd por duas vertentes: de um lado, a associacio com o capital estrangeiro, nao tanto por sua contribuigéo quantitativa — a poupanga externa nunca passou de uns 5% da poupanga total -, mas sobtetudo pelo fornecimento de tecnologia, isto é, pela acumulagao prévia que podia rapidamente ser incorpotada. © Estado nao entrou no mercado da tecnologia, comprando énow how do extetior para repassé- lo as empresas nacionais; concretamente, no caso brasileiro, os “cin- qiienta anos em cinco” nao poderiam ser logrados sem o recurso ao capital estrangeiro’ — de novo aqui as comparagées com o Japao nao 2 Ver Conjuntura Econémica, “Contas nacionais do Brasil - Atualizacao”, vol. 25, n. 9, 1971. Quadros 1 ¢ 5. 3 Essa base capitalistica limitada nao é contraditéria com a tese exposta em capitulo anterior, do potencial de acumulagdo que tem a economia brasileira. Esse potencial de acurnulagao, conforme o modelo, pode financiar certas fragbes importantes da acu- mulagio, mediante transferéncia de excedente, mas nao pode operar sua transforma- edo direta em capital, cm tecnologia. 4 Oempresariado nacional nunca contemplou essa possibilidade de comprar tecnologia ao Estado, como intermediério entre cle ¢ 0 capital estrangeiro. Entre qualquer associagio com o Estado ¢ com o capital estrangeiro, a segunda possibilidade era sempre a prefetida. Ver Fernando Henrique Cardoso, Empresdrio industrial e desen- volvimento economico, Sao Paulo, Difusao Européia do Livro, 1964. 74 Francisco de Oliveira levam em conta a profunda diferenga entre a classe empresarial japonesa ea brasileira, nem as diferencas quantitativas subjacentes entre os dois processos de industrializagao, o do Japao com pelo menos setenta anos de acumulagio nitidamente capitalista — simplesmente pelo fato de que para.as induistrias-chave do processo o pais nao dispunha da acumulacio prévia necesséria, isto é, nao produzia os bens de capital (incluindo-se processos industriais) que tais industrias requeriam. Pode-se perguntar também por que a aceleragio tinha que ter por base o elenco de indis- trias escolhidas ¢ n4o outras; se ndo se quiser cair numa “metafisica dos bens”, deve-se reconhecer que ha uma estreita correlagao entre a deman- da (determinada pela estrutura da distribuigao da renda) ¢ © tipo de bens fabricados, sem contar que as “necessidades” basicas de consumo ds faicavinrials privilegiadas'da populdeio (alimientaeao,.westiuario. habic tagdo) jé estavam satisfeitas; além dai, qualquer postulacéo de alternati- vas de consumo ou de aumento da propensao para poupar nao é mais que um puritanismo puramente adjetivo que nada tem a ver com estrutura de classe ¢ apropriagao do excedente tipicos da situagao brasileira. Neste ponto, uma reflexdo deve ser feita sobre o papel do capital estrangeito. no Brasil ¢ sobre as relagdes entre um capitalismo que se desenvolve aqui com o capitalismo internacional. Nao hd dtivida que a expansio do capitalismo no Brasil é impensdvel autonomamente, isto &, nao havetia capitalismo aqui se no existisse um sistema capitalista mundial. Nao ha diivida, também, que em muitas etapas, principal- mente na sua fase agrdrio-exportadora, que € a mais longa de nossa histéria econémica, a expansdo capitalista no Brasil foi um produto da expansio do capitalismo em escala internacional, sendo o crescimento da economia brasileira mero reflexo desta. Mas 0 enfoque que se pri- vilegia aqui ¢ o de que, nas transformagées que ocorrem desde os anos 1930, a expatisio capicalista no Brasil foi imuito‘mais o resultado con- creto do tipo ¢ do estilo da luta de classes interna que um mero reflexo das condig6es imperantes no capitalismo mundial. Em outras palavras, com a crise dos anos 1930, 0 vacuo produzido tanto poderia ser preen- chido com estagnagio — como ocorreu em muitos paises da América Latina e de outros continentes de capitalismo periférico — como com Critica & raza dualista. 75 crescimento; este, que se deu no Brasil, péde se concretizar porque do ponto de vista das relagdes fundamentais entre os atores bisicos do proceso existiam condigées estruturais, inttinsecas, que poderiam ali- mentar tanto a acumulacio como a formacio do mercado interno. E claro que estavam 4 disposigzo no mercado mundial as técnicas € os bens de capital necessdrios para que se desse, internamente, o salto em diregao a industrializagao, Mas o que se quer frisar € que os atores atuaram deliberadamente em busca de ampliagio ¢ consolidacao de estruturas de dominac’o capazes de propiciar crescimento. E.impossivel trabalhar com uma variante de “Deus € brasileiro”, “Mao da Providén- cia’ de corte smithiano, mediante a qual se reconheceria que 0 processo de crescimento capitalista no Brasil € 0 resultado inintencional de agdes desconexas, uma racionalidade ex post do irracional. Um pouco de histé- ria econémica ajudard a reconhecer que a estrutura central, a espinha dorsal dos atos de politica econdmica que levaram 4 industrializasio, foi pensada para ter como resultado exatamente a industrializagao que se logrou; pouco importa, para tanto, reconhecer que o Plano de Meras do Governo Kubitschek estava muito longe de qualquer tipo de plane- jamento acabado: o importante ¢ reconhecer que os meios ¢ os fins objetivados ndo apenas eram coerentes entre si, como foram logrados. Prioridade para as industrias automobilisticas, de construcdo naval, para a siderurgia, a reforma da legislagio tarifiria, a concessio de cambio de custo para importagdes de equipamentos, nao podem ser entendidas como acaso, nem como medidas tépicas para equilibrar o balango de pagamentos, que tiveram por resultado a aceleracao da industrializacio. Ao contrétio, elas foram concebidas exatamente para isso. O importante para a tese que aqui se esposa ¢ que tais medidas foram concebidas internamente pelas classes dirigentes como medidas destinadas a ampliar e expandir a hegemonia destas na economia brasileira; para tanto, 0 proceso de reprodugao do capital que viabilizava aqueles desideratos exigia uma aceleragao da acumulagao que concretamente tomava as formas do clenco de induistrias prioritdrias. Vale a pena enfatizar, ainda, que a conjuntura internacional era inteiramente desfa- vordvel as medidas internas. Tomando-se, por exemplo, os paises ou as 76 Erancisco de Oliveira empresas internacionais que concorreram & execugao do Plano de Me- tas, verifica-se que a participagao inicial de empresas do pais capitalista hegeménico — os Estados Unidos — era irriséria: elas nao estiveram presentes na industria de construgao naval, que se montou com capitais japoneses, holandeses ¢ brasileitos, na industria sidenirgica, que se mon- tou basicamente com capitais nacionais estatais (BNDE) ¢ japoneses (Usiminas), nem sequer tinham participasao relevante na propria indis- tria automobilistica que se montou com capitais alemaes (Volkswagen), franceses (Simca) e nacionais (DKW, Mercedes-Benz); as empresas norte- americanas que jé estavam aqui desde hd muito tempo, como a General Motors ¢ a Ford, nao se interessaram pela producao de auroméveis de passeio senfo depois de 1964, ¢ a empresa americana que veio para 0 Brasil, a Willys-Overland, era néo somente uma empresa marginal na produgao automobilistica dos Estados Unidos, como basicamente mon- tou-se com capital nacional, puiblico (do BNDE) ¢ privado (através do langamento de agées ao ptiblico € associagdo com grupos nacionais como o Monteiro Aranha). A posicdo do capitalismo internacional, principalmente a do capitalismo do pais hegeménico, era, muito ao contrario, amarrada 4 antiga divisio internacional do trabalho, em que o Brasil comparecia como produtor de bens primérios de exportagao. Assim, € dificil reconhecer uma estratégia do capitalismo internacional em relagio 4 aceleracao da industrializagio brasileira; foi nas brechas do policentrismo, com a reemergéncia dos paises do Mercado Comum Europeu ¢ a do Japio, que a estratégia nacional encontrou viabilidade. O recorter ao coneurso do capital estrangeiro acrescentard novas forgas 20 processo de acumulagSo, 20 mesmo tempo que coloca, no longo prazo, novos problemas para a continuidade da expansao. Em primciro lugar, incorporando-se rapidamente uma tecnologia mais avangada, a produtividade dard enormes saltos, ainda mais se essa incorporacio se da em condigées das relagées de produgao que potencialmente jd cram, de per si, concentradoras: sobre um mercado de trabalho marcado pelo custo dtrisdrin:da forca:de traballcoyioe eanhos de produtividade logra- dos com a nova tecriologia vio weeletse ainda mais 0 ptocesso de-concens tracio da renda. A acumulagao da, af, um salto de qualidade: a mera Critica & razao dualista 77 transferéncia de tecnologia, isto ¢, trabatho morto externo, potencializa enormemente a reprodugao do capital. Sem essa incorporagio, nao se podia pensar no crescimento da economia nos anos posteriores. Nesse sentido, ela era absolutamente indispensavel ao proceso de reprodusao do capital, pois a pobre base de acumulagio nitidamente capitalistica da cconomia brasileira néo poderia realizar essa tarcfa; pode-se pensar que, assim como o Estado atuou deliberadamente no sentido de privilegiar o capital, poderia ter atuado transferindo tecnologia para as empresas de capital nacional, Tal nao ocorreu, mas uma explicagao meramente ex post nao € suficiente para esgotar o assunto. E preciso pensar que a figura de um Estado onipresente nunca foi pensada, nem era da perspec- tiva ideolégica do empresariado industrial nacional. Nao se encontra nos atos de politica econdmica de todo o perfodo pés-anos 1930 nenhu- ma disposigao tendente a propiciar a transferéncia de tecnologia para empresas nacionais que tivessem a intermediagao do Estado. Inclusive as politicas cientifica ¢ tecnoldgica de instituigdes como as universidades eram completamente desligadas da problemdtica mais imediata da acu- mulagdo de capital. Como se coloca, entéo, o problema do grau de nacionalidade ou de controle da nova estrutura de producao? E inegdvel que se 0 capital estrangeiro entrou sobretudo nos ramos chamados “dindmicos” ¢ se esses ramos sdo os motores da expansio, o capital estrangeiro de certo modo “controla” o processo dessa expans4o; por oposigao, 0 capital nacional “contola” menos a economia brasileira que hé vinte anos. Assim, 0 grau de controle corresponde, em linhas gerais, & possibilidade que tanto um como outro capital tém de inovar a reprodugao; sem embargo, esté-se muito longe do que se poderia caracterizat como “desnacionalizagao do processo de tomada das decisdes”: no fundo, as decisGes so tomadas tendo em vista, em primeiro lugar, o processo interno de reproducao do capital, ¢ as politicas das empresas tentam extrair dessa diretriz bdsica a compatibilidade com seus respectivos processos de reprodugio do capital no nivel dos seus conjuntos supranacionais. Até mesmo porque, com o dinamismo logrado, qual- quer politica de empresa que nao se compatibil ze com a diretriz mais 78 Francisco de Oliveira geral pode significar perda de mercado ou de participacao nas decisées ctuciais sobre o crescimento da economia, A outra vertente pela qual correrd o esforgo de acumulacio é a do aumento da taxa de exploragio da forca de trabalho, que fornecera os excedentes internos para a acumulagao. A intensa mobilidade social do periodo obscurece a significado desse fato, pois comumente tem sido identificada com melhoria das condigées de vida das massas trabalhadoras, que, ao fazerem-se urbanas comparativamente @ sua extragéo rural, esta- riam melhorando. Nao ha diivida que o resultado dessa comparagio ¢ correto, mas ela nao diz nada no que respeita as relagées salério real- custo de reprodugio urbano da forca de trabalho, que € a comparacao pertinente para a compreensao do processo, tampouco as relagées sald- tio real-produtividade, parametro este que no periodo comega a crescer, em termos reais: o diferencial entre saldrio real e produtividade constitui parte do financiamento da acumulagao. Encontra alguma sustentagdo empirica o crescente diferencial entre salatio real ¢ produtividade? O comportamento do salaério minimo real na Guanabara e em Sao Paulo, os dois maiores centros industriais do pais, experimentou uma evolugdo que se expressa no Quadro I. E facil a constatagao, em primeiro lugar, de que 25 anos de intenso crescimento industrial nfo foram capazes de elevar a remuneraco real dos trabalhadores urbanos (pois dos dados sob andlise excluem-se os trabalhadores rurais, os funciondrios publicos ¢ os auténomos), sendo que no Estado mais industrializado o nivel do salério minimo real em 1968 era ainda mais baixo que em 1964! Além disso, podem-se per- ceber claramente trés fases no comportamento do saldrio minimo real: a primeira, entre os anos 1944 ¢ 1951, reduz pela metade o poder aquisitivo do salétio; a segunda, entre os anos 1952 e 1957, mostra recuperagdes ¢ declinios alternando-se na medida do poder politico dos trabalhadores: é a fase do segundo Governo Vargas, que se prolonga até o primeiro ano do Goyerno Kubitschek; a terceira, iniciando-se no ano 1958, € marcada pela deterioracao do salério minimo real, numa ten- déncia que se agrava pés-anos 1964, com apenas um ano de reagao, em 1961, que coincide com o in{cio do Governo Goulart. Critica a razao dualista 79 Quadro I SALARIO MINIMO. REAL — GUANABARA E SAO PAULO ANO | INDICES (base — 1944 = 100) VARIAGAO ANUAL __ Guanabara 7 “Sto Paulo | Guanabara | Sto Paulo 1944 | ~100,0 a 190.0 a ae 1945 84,2 803 | = 15,8 - 19,7 P1946) 1) 7a | a0 Pa | 1947 | 607 33,8 ~ 18,1 “2241 1948 58,0 49,6 -44 - 178 1949 | 55,4 50,4 - 4,5 +16 | 1950 50,9 - 81 I - 5,0 st _ | 106 | 1952 + 135.5 “1953 - 183 1954 + 36,0 1955 + 0,7 1956 +55 1957 + 46 | 1958 | 140.2 - 13,3 1959) 106.3 337 | | 1960 140,2 + 28,6 1961 161,6 +118 “1962 [375 = 153 1963 | 128.6 19641249 “1965 | 19,6 1966 | oz | wer | 1045 | “24 1968 [03.6 8 fe Tomado de: Alberto Mello e Souza, "Efeitos econémicos do salitio minima”, in Apec ~ A economia brasileira ¢ suas perspectivas, Estudes APEC, APEC Editora, Rio de Janeiro, julho de 1971 Fonte dos dados originais: Anudrio Fstatistico do Brasil « Conjuncura Econémica. 80 Francisco de Oliveira No quadro, é interessante verificar que os indices do Estado de Sao Paulo estado sempre abaixo dos correspondentes & Guanabara. Dificil é no se tirar a conclusio de que a caracteristica geral do perfodo ¢ « de aumento da taxa de exploragéo do trabalho, a qual foi contra-arrestada ipenas quando o poder politico dos trabalhadores pesou decisivamente. Em outras palavras, seria ingénuo pensar, como 0 fazem os adeptos da “teoria do bolo”, que os trabalhadores devem primeiro esperar que o “bolo” cresca para reivindicar melhor fatia: nos 25 anos decorridos 0 “bolo”, isto ¢, 0 produto bruto, cresceu sempre, interrompido apenas pela recessdo 1962-1966, enquanto a fatia dos trabalhadores decrescia. Poder-se-ia argumentar que a parcela dos trabalhadores incluidos no salitio minimo é insignificante em relagao & forga de trabalho toral, 0 que significaria dizer que a evolugao demonstrada nao € representativa da situagao da classe trabalhadora urbana. ‘A mesma fonte* ajudard a ddesfazer essa outta ilusdo: até 1967, 33% do total de empregados urbanos registrados no Brasil estavam inclufdos na faixa de remunera- cao de 1 saldrio minimo, entre trabalhadores na industria, no comércio © nos servicos; essa porcentagem variava de um minimo de 8% para 6 Rio Grande do Sul, passando por Sao Paulo com 30,6%, até Minas Gerais com 0 maximo de 50%. Mais grave, no entanto, para os que pensam que a industria remunera melhor sua forga de trabalho € que, para o Brasil como um todo, 67,5% dos que recebiam salério minimo eram trabalhadores industriais, sendo que em $40 Paulo essa porcenta- gem se elevava para 71%, atingindo seu maximo no Rio Grande do Sul, onde 82% dos trabalhadores industriais recebiam saldrio minimo, estando a Guanabara abaixo da média nacional, com 53%. Avangando vy abertura dos olhos dos “orimistas”, pode-se prosseguir demonstrando que, se se consideram as faixas que incluem trabalhadores até 2 salarios minimos, a situagio seria a seguinte: em 1967, 75% dos trabalhadores urbanos tegistrados no Brasil recebiam remuneragao dentro dessa faixa, endo a porcentagem méxima em Petnambuco com 79% ¢ a minima na Guanabara com 70,5%; Sao Paulo tinha 71% dos trabalhadores ‘Alberto Mello € Souza, op. cit, Quadros I ¢ Il. Critica a raza0 dualista 81 urbanos registrados percebendo até 2 saldrios minimos. Assim, 0 leque da remuneragao dos trabalhadores urbanos nio é um leque, mas um pobre galho com apenas dois ramos. Isto quer dizer, conforme jé se enfatizou em item anterior deste trabalho, que o papel da instituciona- lizagao do salério minimo reveste um significado importantissimo para a.acumulagéo do setor urbano-industrial da economia: ela evita, preci- samente ao contrdrio do que supdem alguns, o aparecimento no mer- cado de trabalho da escassex especifica que tenderia a elevar o saldtio de algummas categorias, pela adogao de uma regra geral de excesso global. Em outras palavras, a fixacdo dos demais saldrios, acima do minimo, se faz sempre tomando este como o ponto de referéncia € nunca tomando a produtividade de cada ramo industrial ou de cada setor como o parimetro que, contraposto escassez especifica, servisse para determinar o preco da forga de trabalho. A institucionalizacao do salério minimo faz con- crera, no nivel de cada empresa, a mediagzo global que cle desempenha no nivel da economia como um todo: nenhuma empresa necessita determinar 0 prego de oferta da forca de trabalho especifica do seu ramo, pois tal prego ¢ determinado para o conjunto do sistema. A implantagio des novos ramos industriais, os chamados ramos “dindmicos”, nao altera em muito esse quadro. Uma pesquisa efetuada no municipio de S40 Caetano do Sul, que faz parte da drea metropo- litana de S40 Paulo, revelou, & base de dados do Senai para 1968, que, embora os ramos “dinimicos” da classificagao do Senai sejam os que mais cmpregam mao-de-obra qualificada (artifices, mestres, técnicos ¢ engenheiros) numa proporcao de 32% do numero de empregados, a porcentagem dos nao-qualificados (trabalhadores bragais) ¢ adestrados (semiqualificados) é de 50% sobre o mesmo total; tomando-se apenas © nivel “bragal” (nao-qualificados), os ramos “dinamicos” nao diferem muito dos chamados “intermedidtios” ¢ “tradicionais”: aqueles tinham 11% de sua forga de trabalho como “bragais”, enquanto os seguintes tinham 15% © 13%, respectivamente. Isso significaria dizer que as © Ver GPI, Estudo preliminar para o planejamento integrado do municipio de Sio Caetano do Sul, 1968, Quadro 20. 82 Francisco de Oliveira industrias “dindmicas” nao podendo, até certo ponto, quebrar a “funcio técnica de produgo”, para tanto necessitando de pessoal qualificado, utilizam, logo apds satisfazer aquele requisito, abundantemente, mao-de- obra semi e nao-qualificada, em proporgdes semelhantes as induistrias consideradas tradicionais, servindo-se, assim, do imenso “exército indus- trial de reserva” para os fins da acumulagio. Compatibilizam, dessa forma, os requisitos da “fungao técnica de producio”, relativamente rigida, com a oferta de fatores na economia ¢ realizam, assim, uma performance do ponto de vista da acumulagao mais satisfatéria que as “tradicionais”. O emprego de menores de idade constitui outra forma da “compatibilizagao” aludida: a mesma pesquisa em Sao Caetano reve- lou que as induistrias “dinamicas” empregavam 5,5% de menores em seu total de empregados, enquanto as “intermedidrias” ¢ as “tradicionais” o faziam em porcentagens correspondentes a 10,8% ¢ 7,8%, respecti- vamente, Uma pesquisa do Dieese, realizada em 1971, constatava que no ramo quimico do Estado de S40 Paulo, “moderno” ¢ “dindmico” portanto, o grupo de trabalhadores menores de 16 anos constituia 3,5% do total de trabalhadores quimicos, porcentagem que se eleva a 15,9% se se somam a esses os trabalhadores entre 16 € 20 anos. Sendo essa a situaggo do ponto de vista do crescimento dos saldrios reais da classe trabalhadora, é importante contrapor a evolucao da produ- tividade no setor industrial da economia, com o fim de verificar se a hipdtese da conjugagao da aceleragao dos anos 1950 com a intensificaco da taxa de exploragao do trabalho tem algo que ver com as pré-condi- ges da crise de 1964. Os dados disponiveis, em primeiro lugar, para 0 pais como um todo, revelam que o indice do produto real da industria, isto 6, 0 indice que mostra 0 crescimento em termos reais, deflacionados, com uma base de 1949=100, teve o seguinte comportamento: Crdtica 4 ravdo dualisca 83 [im | Indice Vatagho sf ‘Ano. “| Indice y Variagao s/ ] ano anterior ano antetior 1947 81,5 ' | 1956, 173.6 +69 - was | 907 | +113 | 1957 183,5 +357 | 1949 100,0 + 10,0 1958 213,2 + 162 | 1950 at 3 + 11,3 1959 238,5 +1 19 - 1951 | “1184 - + 64 “T1960 261,4 + 06 P1952 1243, fi 5,0 1961 289,2 : + 10,6 1953 135.1 - + 87 1962 ‘ 311.8 + 8,0 195i | 1468 | +87 | 1903 | 3124 +02 | 1955 162,4 + 10,6 1964 328,5 + 5,2 Fonte: Conjuntura Econémica, vol. 25, n. 9, 1971. Quadto 11. A nio ser no ano 1963, quando a economia jd entrava cm crise, 9 ctescimento do produto real do setor industrial superou sempre ¢ largamente a taxa de absorgao de mao-de-obra pela industria e, compara- do & evolugao do saldrio minimo real em Sao Paulo ¢ Guanabara, constata-se perfeitamente um crescente diferencial entre as duas varié- veis. Além disso, o crescimento do produto real se acelera precisamente no periodo Kubitschek, quando passa de um crescimento médio de 8,1% no qilingiténio 1953/1957 para um crescimento médio de 1 1,2%, isto €, elevando-se cerca de 38% em relagdo ao periodo imediatamente anterior’. Jé se conscatou que o coeficiente de inversio no periodo também se elevou extraordinariamente, cerca de 22% em relacao ao qlinqiénio imediatamente anterior. O crescimento do produto real da Eimtcressante verificar, de passagem, que o perfodo Kubitschek vai reeditar as taxas de crescimento do produto real da industria do perfodo 1947/1951, Governo Dutra, marcado este também por um aumento da taxa de exploragio da forca de trabalho — 0 salério minimo real, relembre-se, em 1951 cra praticamente a metade do de 1944, © entre 1947 © 1951 havia se reduzido em cerca de 12% ~ ¢ movido também por um salto de qualidade na produtividade da induistria, que se reequipava no pés-guerra 84 Francisco de Oliveira industria foi, assim, mais que proporcional ao crescimento da inversio, sendo explicado o diferencial entre as duas varidveis exatamente pela maior produtividade das novas invers6es ¢ pelo aumento da taxa de exploracao da forca de trabalho, A assimetria dos movimentos revela que 0 diferen- cial de produtividade sobre os salarios constitui-se em faror importante na acumulagio e, ainda mais, quea aceleragao do crescimento industrial com a implantagao dos chamados ramos “dinamicos” fundou-se exatamente na profundizacio daquela assimetria. Em outras palavras, para enfatizar uma conclusio pré-esbogada, a aceleragdo da inversio a partir do perfodo Kubitschek, fundada numa base capitalistica interna pobre € nas condi- Ges internacionais descritas, requeria, para sua viabilizacéo, um aumento na taxa de exploracao da forga de trabalho. A aceleragio mencionada afetard profundamente 2 relagio saldrio real-custo de reproducao da forga de trabalho urbana. No periodo de liquidacgo da economia pré-anos 1930 esse conflito ou a cquivaléncia dessa relacdo foi assegurada, de um lado, pela contribuigdo que a agricul- tura “primitiva” dava ao abastecimento das cidades ¢, de outro, pela reprodugao nos contextos urbanos de certas formas de “economia de subsisténcia’, das quais a construgao da casa propria constituia importante parcela daquele custo. Sem embargo, a relagdo comeca a desequili- brar-se no sentido de um saldrio real que nao chegava a cobrir 0 custo de reproducio, da forca de trabalho, simplesmente pelo fato de que, nao somente 4 medida que o tempo passa, mas a medida que a urbanizacao avanga, 4 medida que as novas leis de mercado se impoem, o custo de reproducio da forga de trabalho urbana passa a ter componen- tes cada vez mais urbanos: isto é, 0 custo de reprodugio da forga de trabalho também se mercantiliza ¢ industrializa. Em termos concretos, 9 transporte, por exemplo, no pode ser resolvido pelo trabalhador Sendo pelos meios institucionalizados ¢ mercantilizados que a socicdade oferece, a energia clécrica que ele ¢ sua familia utilizam também nao comporta solugoes “primitivas”, a educagio, a satde, enfim, todos os componentes do custo de teproducio se institucionalizam, sc industriali- zam, se transformam em mercadorias: 0 consumo de certos produtos também passa, necessariamente, pelo mercado, ¢ ainda quando certa visdo Critica a razao dualista 85 romantica do trabalhador ou do operdrio queira exigir destes a resistencia ao consumismo, esta é uma ideologia blasée, que tetminaria por produzir © monstro de uma cuitura ou subcultura operdria: nas condig6es concre- tas do sistema capitalista, para ndo falar em direitos, tanto as classes médias como as classes trabalhadoras tém “necessidade” de consumir e de utilizar os novos meios técnicos, culturais, para sua reproducao; a esse respeito, as diferencas existentes sao diferengas de renda; se 0 comunis- mo € 0 nova fetiche ¢ a nova forma de alienacdo, pedir a classe operdria que desmitifique o fetiche sem ela estar no poder € como pedir “peras ao olmo”. Essa digressao serve para enfatizar a mudanga que ocorria ¢ nido se refletia nos salétios reais ou no preco da forga de trabalho, a qual se sustemtava nas duas vertentes jd assinaladas. Na medida em que o custo de reprodusio da forga de trabalho urbana se desruralizava ¢, pot oposicao, se industrializava, o desequilibrio comegou a agravar-se. Uma medida indireta do desequilfbrio assinalado é dada, por exem- plo, pelas relagdes de pregos entre os produtos agricolas ¢ os produtos industriais, com uma evolugao desfavoravel & agricultura‘, Ora, 0 custo ® O quadro abaixo ilustra o fend meno descrito: ESTADO DE SAO PAULO ~ RELAGOFS ENTRE PREGOS DOS PRODUTOS | INDUSTRIAIS E PREGOS DE ALGUNS PROBDUTOS AGRICOLAS — 1959 © 1968 Produtos Agricolas ‘Anrex. | __ Feijzo Milho 1968 | 1959 | 1968 | 1959 | 1968 Produtos Industriais Superfosfato de cileio simples 0.43 15 | 0,36 | 0.66 | 108 | Gloreto de potissio — 0.56 30 47 | 1,32 a Sulfate de aménio 0.56 | 0.26 | 047 | 116 | 142 | Trator - 30.45 | 42.98 | 13,54 | 36.39 | 60,00 [10948 Arado de 3 discos jar] 3,997 1,38 | 3.38 | 613 | 10.16 Adubadeira 023 | O10 | 0.27 | 0,45 | 0.82 Grade de 28 discos 3.31 1.69 | 2094 [7.50 | 8,85 | 031 014 037 | 061 | ii 0,23, O10 | ore | O45) 0,55 | ntes: a) 1968: Centro de Estudos Agricolas, IBRE/FGY. b) 1959: Agriculeura cm Sio Paulo — janeiro de 1960 ¢ janeiro/feverciro de 1966; Copercotia, Lista de Pregos m. 22-30/IV/1959; © Anudrio Extatistica do Brasil, IBGE, 1960. ‘Tomado de: “Balango de uma década", Conjuntura Econémica, vol, 24, n. 1, 1970, Rio de Janeiro, FGV, p. 12, Quadro XI. 86 Francisco de Oliveira de reproducio da forca de trabalho urbana tinha no custo dos produtos agricolas um importante componente; clevando-se mais rapidamente que esses, os pregos dos produtos industriais transmitiam-lhes inflagao, © que provocava ctoséo no salirio real ¢ elevagao do custo de reprodu- cao da forca de trabalho. Por outro lado, a prépria elevagio dos precos dos produtos industriais elevava 0 custo dos componentes industrializados que jé faziam parte da “cesta” basica de consumo das classes trabalhadoras urbanas. Esse duplo movimento aumentava 0 custo de reprodugao da forga de trabalho urbana € ao mesmo tempo erodia os salarios reais. Tem-se af um aumento da taxa de exploragao do trabalho, sem necesst- dade de que esse aumento fosse ostensivamente dirigido no sentido de rebaixamento dos salarios nominais, objetivo que nao se podia impor & coligacao de forcas politicas do periodo Kubitschek ¢ dos perfodos Janio Quadros ¢ Jodo Goulart, que repousava exatamente na chamada alianga populista. Tomando-se os dados do Quadto 1, é possivel veri- ficar que, no perfodo 1957/1962, a soma das variagGes anuais positivas no saldrio minimo real da Guanabara ¢ do Estado de Séo Paulo ¢ sempre menor que a soma das variagGes anuais negativas, o que quer dizer que no periodo, longe de ter havido melhoria, houve de fato deterioracao do saldtio real. Um argumento que se poderia opor ao anterior € 0 comumente usado pelos monetaristas ¢ pelos autores das politicas econémicas pds-1964, ¢ esgrime o fato de que o Estado subsidiava os precos dos transportes, da energia, do combustivel, do trigo, uma das caracteris- ticas, segundo essa linha de argumentagio, que comprovam 0 carter paternalista e redistributivista dos regimes populistas. A fraqueza do argumento reside em que 0 subsidio nao era dado diretamente ao consumidor, mas mediado pelo aparato produtivo, isto é, pelas empresas; tais subsidios nao poderiam representar, pois, nenhuma carga para as empresas, nem ameagavam a acumulagio destas. Do lado das familias, 0 subsidio cra erosionado pela propria inflacao que arrancava, por meio de uma estrutura tributdria altamente regres- siva, os recursos que o préprio Estado utilizava para subsidiar: dificil é nessas condigdes, reconhecer um pai nos regimes populistas ou Critica a razio dualista 87 facil serd teconhecer um pai freudiano. De um lado, rendas fixas; de outro, rendas varidveis: qualquer economista sabe, nessas condigées, a quem beneficia a inflagao. A crise que se gesta, pois, a partir do perfodo Kubitschek, que se acelera nos anos 1961/1963 e que culmina em 1964, nao é totalmente uma crise cldssica de realizagdo; ela tem mais de uma conotagao. Para dependentes da demanda das classes de renda alguns ramos industri mais baixa, h4 uma crise de realizagio, motivada mesmo pela deterio- ra¢io dos saldrios reais das classes trabalhadoras urbanas, ja assinalada: € 0 caso dos ramos téxteis, de vestudrio, de calgados, de alimentagio, que desde entéo acusam fraco crescimento, atribuido na maioria das andlises convencionais ao cardter pouco dindmico, “tradicional”, de tais ramos, cujos produtos teriam baixas elasticidades-renda de demanda. De passagem, deve ser dito que esse tipo de andlise confunde a “nuvem com Juno”, pois na verdade o fraco crescimento de tais ramos deriva do cardter concentracionista do processo da expansio capitalista no Brasil ¢ nio do “cardter” dos ramos referidos. J4 0 consumo dos bens produ- zidos principalmente pelos novos ramos industriais, bens durdveis de consumo (automséveis, elettodomeésticos em geral), era assegurado pelo mesmo cardter concentracionista, que se gesta a partir da redefinigio das relagées trabalho-capital e pela criagao, como requerimentos da matriz téenica-institucional da produgao, das novas ocupag6es, tipicas da classe média, que vao ser necessdrias para a nova estrutura produtiva. Essas novas ocupagdes nao s4o artificiais, nem constituem a “inchago” de white collars (colarinhos brancos) que corresponderia 4 “inchagio dos marginais”: ambas fazem parte de um continuum estrutural, que tem numa das pontas 0 Tercidrio de baixa produtividade ¢ noutra o Tercidrio de alta produtividade. Além do mais, existe toda a gama de técnicos, enge- nheiros, analistas, executivos, empregados diretamente nas tarefas pro- dutivas, que compéem o quadro das classes médias, Estas tém uma participagao na renda total que em parte deriva da escassez espeetfica desse tipo de mao-de-obra, 0 que lhes eleva os salarios e, em parte, da sua prépria posigdo na escala social global. O incremento mais répido das rendas dessas novas classes médias ¢ um fato anterior a 88 Francisco de Oliveira 1964 e nao decorre, simplesmente, de uma estratégia pés-1964, em- bora seja evidente que tenha se aprofundado desde entao”. A crise que se gesta, repita-se, vai se dar no nivel das relagoes de produgao da base urbano-industrial, cendo como causa a assimetria da discribuigio dos ganhos da produtividade ¢ da expansio do sistema. Ela decorre da elevacao 2 condigao de contradigao politica principal da assimetria assinalada: sero as massas trabalhadoras urbanas que denun- ciarao o pacto populista, j4 que, sob cle, nao somente nao participavam dos ganhos como viam deteriorar-se 0 préprio nivel da participacao na renda nacional que j4 haviam alcancado. A Pesquisa de padréo de vida da classe trabathadora da cidade de Sao Paulo, empreendida pelo Departamento Intersindical de Estatistica ¢ Estudos Sécio-Econémi- cos — Dicese — em 1969, chegou & conclusao de que, entre 1958 € 1969, houve uma reducéo no saldrio real do chefe de familia traba- Ihadora-tipo de 39,3%, enquanto a renda total da familia havia caido 10% no mesmo perfodo; para lograr o precario equilibrio de uma renda real 10% abaixo do nivel de 1958, a familia trabalhadora-tipo havia duplicado a forga de trabalho empregada: de 1 membro ocupa- do em 1958 passou para 2 membros em 1969". A mesma pesquisa constatou que o tempo de trabalho necessério para comprar a maior parte dos alimentos bisicos havia softido os seguintes acréscimos entre 1965 e 1969: A pesquisa jd refetida sobre o municipio de Si Caetano do Sul mostrou que, enquanto o salitio real médio empregado na industria do municipio, entre 1950 ¢ 1962, cresceu 23,5%, a mesma média para os funciondrios administrativos ¢ ndo-operdrios havia crescido 75%. GPI, op. cit. Séo Caetano é mais que repre~ scntativo do ctescimento industrial dos novos ramos industriais 10 Como parece ser o pensamento de M. da C. Tavares ¢J. Serra, op. cit., “La politica del nuevo gobierno militar vino a crear las condiciones pata uma reordenacién del esquema distributive ‘conveniente’ para el sistema, empezando por redistribuir cl ingreso em favor de sectores de las capas medias urbanas y en contra de las clases populares asalariadas”. El Trimestre Econdmico, n. 152, p. 945. 11 Ver Dieese em Resumo, n.3, ano IV, margo de 1970, Informativo do Departamento Intersindical de Estatisticas e Estudos Sécio-Econémicos, Sao Paulo. Critica a razao dualista 89 Quis: | Minutes de trabalho dealimentos i068 ~ 1968 Pao 147, i Arroz. 5. 107 | Feio 95 199 Macano 169 7 184 : Bawa =| 76. | 264 354 | 74 7 Agicar 76 62 Leite (litro) 34 46 E interessante notar que pesquisa semelhante, realizada em 1958, com a qual se compara a de 1969, havia encontrado para aquele ano um salétio médio de Cr$ 8,54 para o trabalhador paulista. Entretanto, © gasto médio de uma familia trabalhadora— os universos s4o 0s mesmos na pesquisa estava em Cr$ 10,15, isto é, 0 salério era insuficiente para cobrir 0 custo de reproducao da forca de trabalho. A familia realizava © equilibrio através de expedientes ¢ do aumento das horas trabalhadas. Perante esses dados, que sio mais elogiientes porque dizem respeito & capital do Estado de Sao Paulo, ¢ muito dificil nao se aceitar a ocor- réncia de um aumento da taxa de exploragao do trabalho. No que se tefere aos gastos com alimentagao, embora os dados sejam de 1969, posteriores, portanto, & crise de 1964, néo constitui um artificio pensar que cles faxem parce de uma tendencia que vem desde os’anos’anterié:- tes: os dados sobre a relagao custo de vida/salério minimo real apontam nessa diregao. Do ponto de vista politico, parece mais importante perguntar se o nivel de vida ou 0 padrao de bem-estar das classes trabalhadoras se deteriorou em alguma medida ou na mesma medida que o saldrio 90 Franscisco de Oliveira real. Essa pergunta tem por base um certo suposto da teoria politica de que o decisivo para a formagio de uma consciéncia de classe é 0 nivel de vida € nao o saldrio, e um nivel de vida que se compara favoravel- mente ao das massas rurais. Algumas pesquisas, inclusive a j4 citada do mesmo Diese, que constataram a existéncia, em intimeros lares de trabalhadores, de eletrodomésticos tais como a geladeira, a televisio, a méquina de costura, 0 ferto de engomar etc., tém ajudado a ques- tionar sc houve, de fato, em termos de padrao de bem-estar, deterio- ragdo da situagéo do trabalhador urbano. Uma vez mais, repita-se, ¢ provavel que tanto a comparacio dos padrées de vida urbanos com os padrées de vida rurais, como a existéncia de tais bens no ativo domi- ciliar das classes trabalhadoras, influam na consciéncia de classe (advir- ta-se, no entanto, que o paradigma dessa comparagao ¢ a consciéncia de classe t{pica do operariado curopeu); sem embargo, € dificil nao reconhecer que a diminuiggo de consumo de certos géneros alimen- ticios ou o seu encarecimento — que é a mesma coisa ~ deteriorem 0 padrao de vida. Ocorrem situagdes em que o trabalhador renuncia ao consumo de certos géneros alimenticios, em face de um saldrio que no cresce, para consumir os tipos de bens assinalados. Para isso, ele é forcado inclusive pelo fato de que assume compromissos de relativo longo prazo na compra dos bens duréveis — com o credidtio ~ dos quais nao pode se furtar, sob pena de ver-se desclassificado para 0 sistema de crédito ¢, no limite, ver ameacado seu emprego. De outro lado, € preciso reconhecer que a familia também € um agente que acumula; se ndo acumula bens de capital, com o sentido da reprodu- co, acumula ativos, ¢ ao longo do tempo essa acumulagao somente tende a crescer, mesmo em presenga de saldrios reais constantes ou até decrescentes. Apenas na ocorténcia de catdstrofes, tais como enchen- tes, incéndios etc., € que ocorre destruigéo dos ativos. Nesse caso, nao hé como surpreender-se com o ctescimento dos ativos em mios das familias trabalhadoras. Portanto, um certo tipo de consciéncia de clas- se, ainda que néo certamente igual ao do paradigma europeu, pode formar-se, aglutinando 0 que antes estava fraturado, ainda quando 0 padrio de vida nao esteja se deteriorando. Coneretamente, no perfodo Critica @ razao dualista 91 assinalado, tem-se a compulsio de mercantilizagao do custo de repro- dugio da forca de trabalho — ¢ nessa compulsio a substituigio de certos bens por outros indicava o sentido geral da mercantilizagao, da industrializagao do custo de reprodugao — com um estancamento e iffna‘detetioracto dos salérias'reais, O ponto a que se quer chegar € que o fato de o conflito assinalado ter se elevado & condigao de contradigao politica principal precipita a crise de 1964. Discorda-se, assim, radicalmente da interpretagao de M. da das expectativas de inversio ¢, mais ainda, de que esta néo tinha Tavares J. Serta de que a crise € motivada pela redugio cond icsesdeicoucredzatese; amexcada pela fulade Rnanclamento ¢ pelo incremento dos saldrios!?. Nenhum dado aponta nessa direcao, ¢ permanecer dentro dela é cair num lamentdvel economicismo que confunde a realidade formal das varidveis da andlise econdmica com © substrato que elas descrevem. Tomar a redugao do nivel da inversio em 1963 comparado a 1962, tal como se vé nas contas nacionais, como indicagao de que esta se havia esgotado, & apenas tomar um dado ex post: é evidente que, nas condigées descritas, quando as classes trabalhadoras tomam a iniciativa politica, tem inicio um perfodo de agitagao social, A lua reivindicatéria unifica as classes trabalhadoras, ampliando-as: aos operarios ¢ outros empregados, somam-se os fun- ciondrios publicos e os trabalhadores rurais de dreas agricolas criticas. {al situagio alinha em pélos opostos, pela primeira vez desde muito tempo, os contendores até entao mesclados num pacto de classes. A uta que se desencadeia que passa 20 primeiro plano politico se da no coragao das relagdes de produg3o. Pensar que, nessas condigées, poder-se-iam manter os horizontes do calculo econdmico, as projecbes de * Op. cit, 12 No que os autores coincidem com o st. Roberto Campos. “A disciplina salarial do Brasil parecia socialmente cruel, mas era o prego a pagar pata restaurar a capacidade de investimentos tanto no setor piblico como ne empresarial.” “A Geografia Louca”, in O Estado de S. Paulo, 19/12/1971, ano 92, n. 29.650. 92 Francisco de Oliveira investimentos ¢ a capacidade do Estado de atuar mediando o conflito ¢ mantendo o clima institucional estavel, ¢ voltar ao economicismo: a inversao cai néo porque ndo pudesse realizar-se economicamente, mas sim porque nao poderia realizar-se institucionalmente'’. M. da C. Tavares e J. Serra, op. cit., caem na tentagao de contestar 0 modelo de Celso Furtado, que explica a crise de 1964 como uma crise de realizacao do consumo devido ao nao-crescimento dos saldrios reais. O modelo de Furtado é, basicamente, o de Arthur Lewis (“Desarrollo Econémico com Oferta Ilimitada de Mano de Obra’, El Trimestre Econdmico, n, 108). Facil seria perecber que, ainda quando os saldrios reais das classes trabalhadoras nao tenham crescido, pressuposto correto de Furtado, nao havia a crise de realizacdo porque o prdprio modelo concentracionista havia criado seu mercado, adequado, em termos da distrib da renda, a realizagio da produgdo dos ramos industriais mais novos. Vv A EXPANSAO POS-1964: NOVA REVOLUGAO ECONOMICA BURGUESA OU PROGRESSAO DAS CONTRADIGOES? O regime politico instaurado pelo movimento militar de marco de 1964 tem como programa econdmico, expresso no Plano de Agio Econémica do Governo — PAEG —, a restauragao do equilibrio monet4- rio, isto é, a contengao da inflagdo, como recriagao do clima necessério A retomada dos investimentos puiblicos ¢ privados. Nesse sentido, hé uma enorme semelhanga formal do PAEG com 0 Plano Trienal do Governo Goulart, formalismo aids que abrange quase todos os planos de combate a inflagao, em todas as latitudes. Qual ¢ 0 primeiro resultado da execucao. do PAEG? Uma forte recessio, que se prolongard até 0 ano de 1967, € que é, em tudo ¢ por tudo, bastante semelhante a breve recessao surgida logo apés a tentativa de execugio do Plano Trienal sob a batuta con- junta Santiago Dantas~Celso Furtado. A identidade do erro deriva da identidade das supostas causas: a de que se estava em presenga de uma inflagio de demanda; 0 remédio era, num como noutro caso, a contengao dos meios de pagamento, 0 corte nos gastos governamentais, ¢ 0 resul- tado foi, numa como noutra experiéncia, a recessao, breve a primeira ¢ prolongada a segunda. Alguns preconceitos ideoldgicos, comuns entre 98 cconomistas, como a quase lei da escassez de capital nas chamadas 94 Francisco de Oliveira economias subdesenvolvidas', constitufam o pano de fundo das abstra- Gées que lastreavam © instrumental de combate A inflagio. Foi somente quando comesou a praticar-se uma politica seletiva de combate a inflagdo, que se retomou a expansio do sistema: 0 termo seletiva nao deve ser confundido com outta quase lei de seletividade derivada de prioridades sociais. A politica seletiva implantada distingue, antes, seletividade de classes sociais e privilegia as necessidades da produ- do. Assim, abandonou-se a perspectiva de contengio de crédito, a de contengio dos gastos governamentais, e a perspectiva global de conten- gio da demanda; a politica implantada, seletiva nesse sentido, passou a set contrdtia 4 anterior: aumento dos créditos, aumento dos gastos governamentais, estimulo & demanda. Foi preciso a recessio para que a situagio de classe abrisse os olhos dos detentores do poder e forcasse 0 abandono da ideologia cconomicista do st. Roberto Campos ¢ scus continuadores, Os instrumentos dessa politica foram uma reforma fis- cal aparentemente progtessiva mas de fundo realmente regressiva, em que os impostos indiretos crescem mais que os diretos, um controle salarial mais estrito, ¢ uma cstrucuragio do mercado de capitais que petmitisse 0 “descolamento” — na feliz expressio de Maria da Conceigao ‘Tavares — do capital financeito € que desse fluidez & circulagao do excedente econémico contido no nivel das familias ¢ das empresas ¢ representativo da distribuigao da renda que se gestara no periodo ante- rior. Em poucas palavras, a politica de combate & inflagao procura transferir as classes de rendas baixas o 6nus desse combate, buscando que as alteragoes no custo de reprodugio da forga de trabalho no se transmitam a produgio, ao mesmo tempo que deixa galopar livremente a inflagio que ¢ adequada & realizacio da acumulacao, através do instiruto da corre¢do monetaria, a prética, jd iniciada em periodos anteriores’, de | Da qual somente conseguiu escapar, entre os economistas latino-americanos, Igndcio Rangel. V. A inflacdo brasileira, op. cit. 2 Ver seu “Natureza c contradigécs do desenvolvimento financeito no Brasil” (mimeo.), 1971 3 Aativagao das letras de cambio ¢ a criacdo das primciras instituigées financeitas nao bancérias remontam a meados da década de 1950. Critica a raxdo dualisa 5 fuga aos limites estreitos da lei da usura. A circulagio desse excedente compatibiliza os altos pregos dos produtos industrializados com a rea- lizagio de acumulagao, propiciada por um mercado de altas rendas, concentrado nos estratos da burguesia c Sobre que estrutura de distribuigao da renda péde apoiar-se a poli- tica desctita? Dispde-se de estudos sobre a distribuigao da renda apenas das classes médias altas. para 1960 e, mais recentemente, para 1970, ambos sobre os dados dos Censos Demogrificos respectivos. Em 1960, segundo Joao Carlos Duarte’, a distribuigdo da renda em porcentagens da populacio de 10 anos € mais que recebiam renda ¢ respectivas porcentagens da renda total recebida era a seguinte: [ POPULAGAO RENDA | % Populagao | % Acumutada °% Apropriada % Acumulada | | 30 | 30 6.37 6.37 | 10 | 40 4,83 11,20 | 10 | 50 6,49 17,69 10 60 7,49 25,18 10 | 70 9.03 34,21 10 | 80 11,31 45,52 10 | 20 15,61 6113 10 | 100 38,87 100,00 5% superiores | 27,35 1% idem 11,72 Os dados demonstram a extrema concentragao na cipula, numa forma em que a proporgéo da renda apropriada pelo 1% superior da escala populacional — 11,72% da renda - é superior, ainda que por * Aspectos da distribuicao da renda no Brasil em 19) issertagao apresentada a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de Sao Paulo (mimeo.). Piracicaba, 1971. Ver Quadro 10. 96 Francisco de Oliveira pequena margem, 4 proporgéo de renda apropriada por 40% da populacao; prosseguindo um pouco, encontrar-se-4 que os 5% supe- riores da escala populacional apropriavam uma parcela da renda ainda maior que a parcela apropriada por 60% da populacdo: 27,35% con- tra 25,18%. Em termos monetdrios, a renda média dos 5% superio- res da populagao correspondia a mais de 15 vezes a renda média de 50% da populacio: Cr$ 56,02 contra Cr$ 3,62, em cruzeiros constan- tes de 19495 resultados do processo de industrializagao, assentou-se a politica econd- mica do pés-1964. Confornie a hipdtese j4 formulada, 0 mercado Sobre esta base, que jf continha em si, parcialmente, os para os produtos industriais dos novos ramos assentava-se exatamente numa distribuigdo extremamente desigualirdria da renda, a qual estava muito longe de constituir-se em obstdculo ao crescimento, como supdem Furtado e todos os seguidores do dual-estruturalismo cepalino. Os altos pregos dos produtos nacionais que substituiam os importa- dos, ances deifrearemvademanda, produzirent capacidade eciosa, baic xarem a relagao produto/capital, cram adequados a distribuicgo da renda e cumpriam o papel de reforgar a acumulacéo, mediante o incremento dos diferenciais saldtios/produtividade. Uma crise de reali- zagao do tipo classico existiria se, mantendo-se altos os precos dos pro- dutos nacionais, a distribuigao da renda fosse mais igualitdria, ¢ nao 0 contrario, Apoiando-se numa tal estructura, a politica econémica pés-1964 avan- cou na progressio em ditegio a uma concentragio ainda mais extrema- da. © mesmo autor’ encontrou, para 1970, a seguinte distribuigéo da renda no Brasil: 5 Jo%o Carlos Duarte, op. cit., Quadro 9. 6 Idem, ibidem, Quadro 8. Critica a razio dualista 97 - POPULACAO _ RENDA | L % Populagio % Acumulada | % Apropriada | % Acurmulada 40 40 9,05 9,05 10 30 4,69 13,74 10 60 6,25 19,99 10 70 7,20 27,19 10 80 | 9.63 36,82 | 10 90, 14,83 51,65 10 100 48,35 | 100,00 | 5% superiores 36,25 | 196 idem 17,77 A primeira observacdo mostra que o grau de concentragdo na ctipula aumentou: enquanto o 1% superior em 1960 se apropriava de 11,72% da renda total, em 1970 essa porcentagem aumenta para 17,77%; os 5% superiores em 1960 detinham 27,35%, enquanto em 1970 passam a reter 36,25%. Em contrapartida, et pour cause, os 40% inferiores da populagao participavam em 11,20% da renda total, enquanto em 1970 sua participagio decai para 9,05%. Resumindo a confrontagao entre os extremos, em 1960 a populagio remunerada correspondente a 60% do. total participava com 25,18% da renda toral, enquanto em 1970 essa participagao decai para 19,99%, Em termos monetérios, os 5% supe- riores da populagdo tinham uma renda média, em cruzciros constantes de 1949, mais de 26 veres superior & renda média recebida por 50% da populacio: Cr$ 96,16 contra Cr8 3,64. Em termos de incremento da renda média real, os primeiros 50% da populacao tiveram, no decénio t4o-somente 1%, tendo o 62 decil 8%, 0 79 decil 3%, 0 8° decil 10%, o 92 decil 23%, o 108 decil 61% c¢ os 5% superiores 72% de incremento; isso quer dizer, vendo por outro lado a dinamica da distribuigao, que 0 crescimento da renda real na economia brasileira durante o decénio — aproximadamente 70% — 98 Francisco de Oliveira foi predominantemente apropriado pelos 5% mais ricos da populacio. E evidente que a massa toral de renda em cada estrato aumentou, pelo simples fato de que 0 numero de habitantes em cada estrato também aumentou; 0 aumento da massa total de renda € que sustentou a demanda dos bens de consumo nao-durdveis, nos estratos de rendas baixas, en- quanto nao somente o aumento de populagao nos estratos de rendas altas, mas principalmente os ganhos de renda real por membro dos esteatos ticos'd queeanstituent a baseide mictcade paia.os bende consumo duraveis — automéveis, eletrodomésticos — cuja demanda aumentou sensivelmente a partir de 1968; por sua vez, a demanda para os bens de capital também péde sustentar-se, j4 que o ritmo de cres- cimento e os precos relativos dos bens de consumo duraveis satisfizeram a condigao de crescimento do departamento de bens de capital, Tal fendmeno estd na base do 22 ¢ do 3° carzo, jé 0 padrio comum na maioria das familias de altas rendas do pais. Os dados provam, abundantemente, que nao houve nenhuma redistri- buicéo para baixo, nem em termos de beneficiamento dos estratos médios, nem muito menos, como é ébvio, dos estratos baixos. Ante tais resultados, sustenta-se alguma hipstese do tipo da formulada por M. da C, Tavares e J. Serra, de que a compressio salarial era necesséria para financiar a inversdo ¢ para redistribuir esse superexcedente para as classes médias? Se com uma estrutura de distribuigéo da tenda do tipo da que foi cons- tatada em 1960 os saldtios reais ndo ameacavam a inversio, por que a dinamica da distribuicao “necessitatia” desse “capricho”? Tanto a distri- buigao proporcional da renda por estrato como os incrementos da ren- da média real, no decénio, nao confirmam nenhuma hipdtese de redistribuigdo intermediaria, teoricamente duvidosa alids, j& que nao existem relagoes de producao entre classes trabalhadoras e classes médias € jf que, necessariamente, qualquer redistribuigao do tipo acima passa pela mediaczo do aparelho produtivo; isto é passa pela propriedade dos meios de producio; a hipdtese ressuma a um “estado do bem-estar” para as classes médias, construido pelo “despreendimento” das classes proprictdrias. A renda das classes medias deriva dos novos requerimentos técnico-institucionais da matriz da nova estrutura industrial e, portanto, Critica & razao dualista. 99 das ocupagées médias que essa matriz cria: € uma “necessidade” da estru- tura produtiva, em seu sentido global, ¢ nao um “estado do bem-estar” das classes médias. Do ponto de vista da demanda, que asseguraria, mediante a redistribuigdo intermedidria, a realizagao da produgéo ¢ da acumulagio, 0 argumento dos autores citados tampouco se sustenta, a nio ser que se acredite que a acumulagao tem preconceitos de classe: 0 consumo poderia ser realizado por operdrios e trabalhadores em geral, pois disporiam de renda para tanto, mas o sistema tem preconceito de classe; somente classes médias ¢ ricas — brancos, em suma — podem consu- mir; trabalhadores — pretos ¢ mulatos — nao podem consumir, ¢ entéo transfere-se a renda para as classes médias, © argumento € extremamen- te especioso, e sua falha reside nao nos preconceitos, mas no simples fato de que a compressio salarial, impedindo o ctescimento dos saldtios, eiainafcre Be gatos da elevacae:daleaale:Valia absoliita, e'relativ’’ para’ pélo da acumulagio e nio para 0 do consumo. Isso nio quer dizer que as classes médias ou os estratos intermedidrios nao tenham sc bencficia- do com a expansio dos tiltimos anos; quer dizer apenas que ndo houve a possibilidade de que esta seja factivel aca- redistribuigao intermedidri baria com todos os problemas do capitalismo. O argumento da “redistribuig4o intermedidria” funda-se, na verdade, na posiggo de que acréscimos infinitesimais na renda das classes mais baixas nao as habilicam ainda comprar os bens de consumo duriveis, cujos precos sio relativamente altos (0 nivel desses pregos é adequado a realizacdo, conforme se demonstrou); assim, a transferéncia de exceden- te, produzida pela compressio salarial, das classes de renda baixa para as classes médias significaria que aqueles actéscimos, infinitesimais para as classes baixas, so expressivos para as classes médias, nao apenas porque se somariam a um montante médio de renda bastante mais elevado, como porque o nimeto de pessoas nas classes médias é bem menor; o resultado seria, com a “tedistribuigdo intermedidria’, um volume de poder de compra mais concentrado ¢ um nivel de renda médio das classes médias mais elevado, 0 que as tornaria capazes de comprar os bens de consumo durdveis. A mecanica do raciocinio é correta, mas falta-lhe consisténcia pela razio de que nao hé relagées de produgio 100 Francisco de Oliveira entre classes trabalhadoras ¢ classes médias e, na auséncia dessas rela- gdes, confere ao aparato do Estado uma racionalidade que ele nao tem, para operar a “redistribuigao intermedidria”, Mais facil ¢ mais verdadeiro € supor que o nivel de renda mais elevado das classes médias decorre das novas ocupagées criadas pela expansio industrial ¢ da posigao que essas novas ocupagées guardam em relacao a estrutura produtiva, em rermos da escala social global. Além disso, se as rendas das classes médias fazem parte da mais-valia, clevd-las significaria debilitar a inversio e nao o contrério. Sem embargo, a repressdo salarial ¢ um fato, Onde vai parar, pois, o superexcedente arrancado aos trabalhadores € a que fins ele serve dentro do sistema? Aqui se pré-esboga sinteticamente a resposta: 0 superexcedente, resultado da elevagao do nivel da mais-valia absoluta erelativa, desempenhard, no sistema, a fundo de sustentar uma supera- cumulagéo, necessdria esta ultima para que a acumulacdo real possa rea- lizar-se. Levado inicialmente pelas exigéncias da aceleragio dos anos 1957/1962 a aumentar a taxa de exploracdo do trabalho, a fim de financiar intcrnamente a inversdo, o sistema carninhou para um contflito entre relagdes de produgio e forgas produtivas, cujo desenlace conhe- cido foi aprofundar, como condigdo polltica de sua sobrevivencia, aque- la exploracao; assim, em primeiro lugar, o superexcedente tem uma fungéo politica de contengao, pata o que, necessariamente, reveste-se de caracteristicas repressivas. Isto é, torna-se indissocidvel a politica da economia, porque a contengio da classe trabalhadora se faz, principal- mente, pela contengao dos saldrios. No entanto, isso seria apenas uma “morbidez” do sistema, se nao fosse um requisito estrutural. Esse requi- sito estrutural j4 aparece no movimento do perfodo 1957/1962: faz-se necessdrio aumentar a taxa de lucros, para ativar a economia, para pro- mover a expanséo, Examine-se mais detidamente esse aspecto. Tendo sido um requisito para a aceleragio dos anos 1957/1962, em condigGes adversas do balanco de pagamento — fato que nao ocorria no perfodo 1947/1952, quando se observou igual aceleragao ¢ repressao sala- rial — a elevagao da taxa de lucros transforma-se numa necessidade permanente para a expansio da economia. Importa aqui considerar que Critica a razio dualista 101 a aceleragao do periodo 1957/1962 introduz uma mudanga qualicativa sumamente importante que encobre uma mudanga quantitativa: a implantagao, nos ramos “dinamicos”, das empresas que requerem uma homogeneidade monopolistica da economia como condigéo sine qua non de sua expansio, Essa necessidade de homogeneizago monopolistica é que serd a determinante principal para os esforcos tendentes a manter altas e elevar, quando possivel, a taxa de lucto dos setores mais capitalistas da economia, verbi gratiae, da industria. Essa necessidade afetard todas as varidveis da reproducao do capital: por ela, mantém-se, por exemplo, uma estrucura de protegéo tarifiria exttemamente alta; por ela, fundam-se todas as formas de incentivo a capitalizagao e de subsidio ao capital, aparentemente paradoxais, quando a economia mostra taxas de expansio também surpreendentemente altas. A homogeneizagio monopollistica é nao somente uma necessidade de protegao de mercados, mas, principal- mente, uma necessidade da expansio das empresas monopolisticas em areas € setores da economia ainda nao sujcitos as praticas da monopo- lizagao. Assim, mantendo-se alta a taxa de lucro e, pelo subsidio ao capital, clevando-se a taxa de lucto potencial nas éreas e setores ainda ndo monopolizados, forma-se um superexcedente nas superempresas que alastram sua influéncia e seu controle as outras dreas da economia. O conglometado, que éa unidade tipica dessa estruturago monopolistica, nao é, ao contrario do que se pensa, uma estruturagdo para fazer circular 9 excedente intramuros do préprio conglomerado, mas uma estruturacio de expansio, A manutengao de taxas de luctos clevadas é a condigao para essa expansio. No entanto, esse processo nao se d4 nem se completa em alguns anos, apesar de toda a avassaladora instrumentagio institucional posta em marcha para tanto: incentivos 4 obsolescéncia precoce do capital, reavaliagdo de ativos, subsidios ao capital nas dreas da Sudene, Sudam, Embratur, IBDEF, Supede etc. E nao se da, nem se completa, inclusive pelo fato de que encontra resisténcias no conjunto das empresas nao- monopolisticas que, na margem, reforgam sua capacidade de resistencia pelo proprio fato de que 0 conjunto de incentives também eleva sua taxa de luctos e, portanto, sua capitalizacao. Para realizar “a frio” a 102 Francisco de Oliveira operagao, os incentives foram intermediados pelo sistema financeiro, pelo chamado mercado de capitais. Assim, 9 superexcedente, que se contabilizava no nivel das familias ¢ das empresas, come poupanca lucros nao-discribufdos, dirigiu-se ao mercado financeiro, para a apli- cagdo cm papéis que, para uns, significavam aumento da renda e, para outros, possibilidade de viabilizar a expansio, 0 controle sobre outras drcas ¢ setores da economia. Um complicado sistema foi montado, com a progressiva assuncio ao primeiro plano dos bancos de investimento, que sio a estruturacao da expansao das empresas monopolisticas. Sem embargo, o mercado financeiro transformou-se cle mesmo em ativo competidor dos fundos para a acumulagio: a aplicagdo meramente financeira comesou a produzir taxas de lucto muito mais altas que a aplicacdo produtiva ¢, de certo modo, a competir com esta na alocagdo dos recursos. Assiste-se, entao, ao dilema em que hoje est4 a econo- mia: para fazer com que as aplicagSes no mercado de capitais ndo sejam um concorrente as aplicagGes na drbita produtiva, € necessério que as taxas de lucro do mercado financeiro se aproximem das taxas de lucro reais, mas essa operagio pode tet como resultado matar a “galinha dos avos de ouro”: as baixas nas cotagées das bolsas afugen- tam as pessoas fisicas do mercado de capitais ¢ diminuem a liquide das empresas, pela enorme retengio de papéis de rentabilidade em declinio. O Governo tenta, enti, manter altas as cotagdes da bolsa, a fim de evitar a fuga de capitais ¢ melhorar a liquidez, mas com essa operagao nao permite a aproximagao das taxas de lucro entre a érbita financeira ea real, ¢ com isso impede que o mercado de capitais exerga o papel de intercambiador de recursos ociosos de umas unidades para outras € aumente a taxa de poupanga do sistema como um todo. Tem-se, entéo, que apesar do incentivo desesperado a capitalizacao todo o movimento dos ultimos anos néo se reflete positivamente ao nivel das contas nacionais na conta de formagao de capital, o que tem sido interpretado por muitos como sinal de poupanga insuficiente do sistema. Em poucas palavras, um mecanismo circular que proporcio- nou o “descolamento” das érbitas financeira ¢ real impede que a pri- meira sirva de fonte de acumulagao para a segunda. O elemento de Critica a razao dualista 103 “confiabilidade” dos papéis passa a ser estratégico nessa conjuntura, quando sua fungo seria meramente acesséria, Em condigées de poupanga crescente, ampliagio do “exército indus- trial de reserva” e salarios reais urbanos deprimidos, o sistema encontra seus limites se ndo transforma essa poupanga em acumulagéo real. Para tanto, necessdrio que a velocidade de crescimento das relacdes interindustriais entre os departamentos 1 ¢ 2 da economia seja mais alta que a velocidade de crescimento da poupanca; caso contratio, o sistema tende a “afogar-se” cm excedente, Aqui, entra em cena um dos fatores limitantes do incremento das relagdes interindustriais, que se configura como uma “dessubstituigio de importayoes” de bens de produsio. Explicitemos a questio. A reromada do crescimento, ocupada a capa- cidade ociosa gerada pela recessio dos anos 1962/1967, exige, imedia- tamente, um aumento da produgao de bens de capital, a fim de aumen- tar a capacidade produtiva instalada. Esses novos requetimentos de bens de produgao sao os que vao alimentar o crescimento do departamento 1 da economia ou mais precisamente da industria; entretanto, seja pela recessio anterior, seja pela orientagao da politica econdmica, a capacidade de produgao do referido departamento nao foi incrementada no perio- do anterior, ¢ esses requetimentos ou sia satisfeitos mediante o recurso as importagées ou o crescimento ¢ bloqueado. O recurso as importa- gGes foi a condi¢ao necessdria para evitar o bloqueio do crescimento: entre 1966 ¢ 1970, as importagdes de bens de capital destinados a inversio interna passaram de US$ 405,6 milhdes para US$ 1.073,9 milhées, isto é cresceram 1,6 vezes, velocidade muito maior que a do crescimento do PNB ¢ que o crescimento do prdprio produto do setor industrial como um todo’. Em outras palavras, o coeficiente de importa- gGes do produto da industria cresceu, invertendo a tendéncia anterior; por essa fornia, boa parte do impulso gerado pelo crescimento do departamento 2 (bens de consumo) nao se transmitiu ao departamento 1 (bens de produgdo), com o que nao se internalizou totalmente a potencialidade de crescimento. A longo prazo, o resultado é que a 7 Ver Boletim do Banco Central do Brasil, novembto de 1971, Quadro VI-104. 104 Francisco de Oliveira possibilidade de manter alta a taxa de erescimento dependerd mais e no menos do crescimento das exportag6es, que é a forma escolhida de abas- tecimento dos bens de capital requeridos pelo crescimento das deman- das do departamento 2. As condigées anteriormente descritas contribuem para determinar, em boa medida, uma gama variada de politicas, cujo objetivo central €0 de nao deixar cair a taxa de lucro. O subsfdio as exportagdes ¢ uma delas. Em primeiro lugar, as exportagdes mais fortemente subsidiadas sdo as de manufacuras, para as quais o pais é um exportador marginal no comércio internacional; mas as manufaturas exportadas nao concor- rem, absolutamente, com as manufaturas exportadas pelos paises mais desenvolvidos: antes, sio exatamente as manufaturas de ramos indus- triais que, sent 0 recurso as exportacdes, entrariam em crise pelo fraco crescimento ou n4o-crescimento da demanda interna, resultado da compressao salarial das classes de renda mais baixas: calcados, téxteis, sucos, carne bovina (nao se subsidiam exportagdes do tipo de minério de ferro, nem café, por suposto). Esse subsidio, numa situaga0 em que os precos internos crescem mais que os precos externas é, de certa forma, uma esterilizacao de capital, viabilizada pela chamada politica de cambio flexivel. Essa esterilizagao de capital aparece na contabili- dade das empresas como lucto, mas na contabilidade nacional ela é uma transferéncia da conta do Governo para a conta de capital das empresas, j4 que € a rentincia a um imposto (no fundo ela é uma transferéncia da conta das familias, intermediada pelo Governo). O incentivo & obsolescéncia do capital, que implica produzir novos bens ou novos modelos de bens é, também, uma forma disfargada de esteri- lizar o capital, aumentando, de um lado, a demanda de novos bens de producio ¢, de outro, “enxugando” o excesso de poder de compra nas maos dos consumidores das classes de rendas altas: a renovacéo de modelos dos principais bens duraveis de consumo atende a esse pro- pésito de compatibilizar a produgao ¢ a realizagao da acumulagio e, para tanto, a evolugao do prosaico Volkswagen para os Galaxies ¢ Dodges, e a introdugao da televisto em cores, por exemplo, cumprem esse papel. Critica a razdo dualista 105 A tentativa de manter clevadas as taxas de remuneragéo do capital que, parcialmente, desembocaram na politica econémica externa j4 relatada cria, a curto prazo, uma capacidade insuspeitada de crescimento, mas a longo prazo reduz a margem de manobra global. Com o subsidio, autmentam-se as exportagdes, buscando melhorar as reservas internacio- nais do pais, a fim de melhorar a capacidade de barganha internacional; mas somente os ingénuos podem continuar acreditando que o comér- cio internacional € realmente multilateral: 0 que ¢ multilateral é 0 sistema de pagamento desse cométcio, mas, no fim das contas, os paises que se abrem para nossas exportacdes esperam tratamento idéntico de nossa parte para as suas. Como resultado, nossas importacées de bens de capital est@o crescendo muito mais que o ritmo de crescimento da industria e da economia como um todo e, a longo prazo, afetando a expansio do proprio setor de produgao de bens de capital da econo- mia bras leira. A fim de incentivar e manter alta a taxa de lucro, o Governo abre mio de parte de suas receitas ¢, para financiar suas inversées, recorre, em niveis cada vez mais altos, ao crédito externo; por outro lado, renuncia também a parte dos impostos, para ativar 0 sistema financeiro, o que comprime ainda mais a capacidade de gasto do Poder Publico, se ndo se recorrer ao crédito externo. De tal forma um elemento da pol{tica alimenta o comportamento do outro, que o sistema ¢ hoje muito mais solidério e, por opasigdo, também muito mais rigido. Em que sentido caminhou o sistema, na sua re-posigao? Longe de haver cortado os “nés gérdios” da acumulacéo primitiva, ele parece continuar explorando-os: a Transamaz6nica no passa de uma gigantesca operacao “primitiva’, reproduzindo a experiéncia da Belém-Brasilia, no que para alguns romanticos “a la Malraux” é uma saga; o Brasil seria, assim, © Unico lugar do mundo — depois da desmoralizagao de Hollywood — onde a vida ainda se desenrola em termos epopéicos, muito préprios para as tomadas em eastmancolor de Jean Manzon. A resolugao das contra- digdes entre relagdes de producdo e nivel de desenvolvimento das fovea pied uttvadie “cesal vida" pelovaprahundanients da explowicaalds tiabalho..A esirutitagéo da éxpansio monopolistica requer taxas de 106 Francisco de Oliveira lucto élevadissimas a forma em que ela se dé (via mercado de capitais) instaura uma competigio pelos fundos de acumulacio (pela poupanga) entre a érbita financeira ¢ a estrutura produtiva que esteriliza parcial- mente os incrementos da prépria poupanga; um crescente distanciamento entre a érbita financeira ¢ a érbita da produgao ¢ 0 prego a ser pago por essa precoce hegemonia do capital financeiro. O sistema evidentemente se move, mas na sua re-criagdo ele nao se desata dos esquemas de acumula cdo atcaicos, que paradoxalmente sao parte de sua razao de crescimento; cle aparenta ser, sab muitos aspectos, no pés-1964, bastante diferencia- do de etapas anteriores, mas sua diferenca fundamental talvez resida na combinagao de um maior tamanho com a persisténcia dos antigos ptoble- mas. Sob esse aspecto, 0 pés-1964 dificilmente se compatibiliza com a inter de-urna’revolucdereccndmica, burpuesa, rnas’Zarals seme: Ihante com o seu oposto, o de uma contra-revolugao. Esta talvez seja sua semelhanga mais pronunciada com 0 fascismo, que no fundo ¢ uma combinagao de expansio econémica ¢ repressio. VI CONCENTRACAO DA RENDA E REALIZACAO DA ACUMULAGAO: AS PERSPECTIVAS CRITICAS Convém discutir, agora, a questo de se 0 estdgio a que chegou a economia capitalista do Brasil, com um grau de concentrago da renda como o detectado pelo Censo Demogréfico de 1970, constitui um problema critico para sua ulterior expansao. Até que ponto, encarando- sc 0 problema estritamente do angulo das possibilidades estruturais ¢ desprezando-se qualquer ética reformista, uma renda extremamente concentrada ¢ benéfica ou é um risco para a expansio capitalista? Aqui se faz.a ligagdo com a questéo da realizagio da mais-valia e da acumula- go: que significado tem, em termos de mercado, uma renda tao concentrada; gera um mercado suficiente para realizar a acumulacao, compativel com o nfvel de desenvolvimento das forgas produtivas? A controvérsia sobre os efeitos da concentragio da renda no desenyol- vimento econdmico nao tem produzido resultados muito positivos, principalmente pelo faro de que a discussdo tem sido muito mais idcoldgica que cientifica. A influéncia ncocldssica de nao reconhecer a distribuigéo como um tema da economia vingou durante muito tem- po, prejudicando sensivelmente a abordagem do assunto e afastando dele os melhores esforgos tedricos. Por outro lado, na discussie ndo 108 Francisco de Oliveira tem predominado um critério de homogeneidade tanto de universo conceitual como de sistemas de referéncia: freqiientemente, s40 propos- tos esquemas de distribuigéo prdprios de um sistema socialista para avaliar o padrao de distribuicao vigente em economias capitalistas; mas, na verdade, esse tipo de discussie coloca falsos dilemas sobre a correla- cao entre distribuigéo da renda ¢ expansio em economias capitalistas. Uma mancira de abordar o tema seria tentar verificar até que ponto a expansido do capitalismo no Brasil reproduz a historia da construcao do capitalismo nos paises centrais. Kuznets, um dos poucos estudiosos sis- teméticos do assunto, assinala’ que os primciros estdgios de industria- lizacao € urbanizacio sao marcados, nos paises centrais, por um incremen- to da desigualdade. Tal incremento se funda, em primeito lugar, pela perda de importancia relativa do produto rural — onde a desigualdade era menor nos paises com forte estrato camponés — no produto total, «, por oposigao, pela maior contribuigio absoluta e relativa do produto nao agricola (indvistria + servigos) onde a desigualdade ¢ maior. A razao de que a desigualdade aumenta na passagem da economia de rural para urbano-industrial, que Kuznets nfo comenta, ¢ evidentemente dada pela ampliagio do “exército industrial de reserva” e conseqiiente aumen- to da taxa de exploragio do trabalho. Os estudos seculares de Kuznets revelam, no entanto, que a desigualdade declina com a continuidade do desenvolvimento nos paises capiralistas, ¢ a razao empirica que ele en- contra - embora nao a elabore teoricamente — é que, a partir de certo momento, a renda real per capita dos estratos mais baixos cresce mais velozmente que a dos demais estratos. Teoricamente, diz Kuznets, essa declinagao ira contra a acumulagio, pois que uma renda concentrada em poucos possuidores, tendo esses possuidores uma alta propensio a poupar, favoreceria a acumulagao; no entanto, sem que seja encontrada uma razio tedrica forte, a tendéncia a diminuigao da desigualdade, longe de causar danos & acumulagao, terminou por conferir dinamicidade ao sistema como um todo. Como se operou a reversio da tendéncia? 1 Ver Simon Kusnets, Crecimiento econdmrico y estructura econdmica, caps. TV ¢ IX, Barcelona, Gustavo Gili, 1970. Critica a razao dualista 109 Segundo Kuznets, ndo hé nenhuma automaticidade no sistema que leve a ela; isto é, a tendéncia intrinseca seria para continuar aumentando a conicentragio'da renda. A reversio, segundo © mesmo autor, operou-se tendo como fator principal a organizacao dos trabalhadores, ea legislagao social de coibigdo dos excessos de exploragao. A razdo tedrica nao aborda- da por Kuznets, mediante a qual 0 capitalismo aproveitou uma reversio de sua tendéncia concenttacionista, reside no fato de que a simples clevacao dos saldrios acabaria por elevar desproporcionalmente ao capi- tal o custo de reprodugao da forga de trabalho e, portanto, ameagaria a prépria acumulagio. A resposta do sistema foi a capitalizacio, mediante a qual outra vez se reduzia o custo relativo de reprodugao da forca de trabalho ¢levando-se a mais-valia relativa e mantendo a proporcionalidade entre essas varidveis, Esse ¢ 0 raciocinio dos classicos em geral, mais claborado pelo préptio Marx. Dessa forma, a elevacao dos salrios reais, que é conseguida mediante o crescente poder de barganha dos trabalha- does, amplia a capacidade de consumo dessas classes € passa a ser um componente estrututal da expanséo do sistema capitalistas daf que cons- titua pedra de toque das politicas econdmicas dos paises capitalistas manter o pleno emprego ou algo muito préximo a cle, nao por qual- quer razio humanitdria, mas simplesmente porque esta ¢ a melhor - Convém acrescen- forma de desempenho de uma economia capitalist tar que a formagio das coldnias, no petiodo de vigorosa expansio capi- talista, € um componente estrututal, mediante o qual os espacos assim conquistados transformam-se na teserva de “acumulagao primitiva” do sistema, que vai contribuir seja diretamente para a acurnulacao, mediante a apropriacao do excedente produzido nas coldnias, seja pela oferta de produtos primarios, que vai contribuir para baixar o custo relativo de reptodugio da forca de trabalho’, Estaria a economia capitalista no Brasil em estégio semelhante ao estudado por Kuznets para as economias capitalistas hoje maduras 2 De passagem, convém notar que essa “transferéncia” do confflito bésico entre relagdes de produgio e forgas produtivas nos paises capitalistas lideres ird desembocar, de um lado, no modelo imperialista da acumulacao e, de outro, no reformismo dos partidos sociais democratas curopeus.