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Eu tive um sonho

Cecílio Gomes da Silva*

Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da


Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as
bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe
aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à
margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos
meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas
invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro


dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao
Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo
e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos
– memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé,
subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao
Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas
de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que
ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água
em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo
escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia
rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante
a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos.
Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou
e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o
Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de
Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes
rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os
transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A
Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado
monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao
reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de
Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho
acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na
margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes,
engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé
– único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um
fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito
até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da
Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que
ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S.
João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo
leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso
lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de
S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três
ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a
fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em
turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer.
Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma
as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a
imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens,
mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-
branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção
torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água
cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo
levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das
vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro;
infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização
do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e


mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas
três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas.
Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção
etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por
vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista
mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a
montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem
necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem
computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos
provável de acontecer do que o primeiro.
Dei o alarme – pensem nele
Lisboa, 11 de Dezembro de 1984

*Engenheiro Silvicultor

(Publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no jornal “Diário de Notícias” do Funchal)