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Table of Contents
Ficha Técnica
I
LILITH
DANINHA
I
II
III
RECEM-NASCIDA
DESOBEDIÊNCIA
A ILHA
ONDAS
ABISMO
EFÉMERA
LÁPIS-LAZÚLI
A ESPIA
CALOR
I
II
RAQUEL
ECLIPSE
PERECÍVEL
AZUL-DA-CHINA
BRANCA DE NEVE
AZUL-COBALTO
II
ERZSÉBET
ASSOMBRADA
TRANSFORMAÇÃO
MARIA DO RESGATE
FATAL
O RETRATO
PERDIÇÕES
LUPINA
A PRINCESA ESPANHOLA
KATIE LEWIS
INOCÊNCIA PERDIDA
SOLIDÕES
A INFANTA PRINCESA
SEM CULPA
ESTRELA
MENINAS

Ficha Técnica
Título original: Meninas
Autor: Maria Teresa Horta
Edição: Cecília Andrade
Revisão: Clara Boléo
ISBN: 9789722056113
Publicações Dom Quixote
Uma editora do Grupo Leya
Rua Cidade de Córdova, n.o 2
2610-038 Alfragide • Portugal
Tel. (+351) 21 427 22 00
Fax. (+351) 21 427 22 01
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Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990.

Ao Luís com a vertigem da paixão .

» Clarice Lispector .«O monstro morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha.

I .

Viras-te de costas com lentidão indiferente. Suspeitosa. pelo sítio onde se inicia a subida até à tua cintura agora inexistente. Perplexa. permitome dar conta do equinócio do teu sangue. os ossos das ilhargas a demarcarem-te o ventre. a lacerar-me as articulações dos braços. Tacteio e vou folheando o espaço à minha volta. na tentativa de me dares a conhecer a tua beleza de cisne. alinhando o coral dos nossos lábios: quatro linhas perfeitas e unas. desenlaço-me das tuas coxas e inicio com cuidado um novo gesto vagaroso. mas que o teu silêncio e a tua imobilidade me autorizam. começo a ser empurrada. ácida. enroscados em torno do lugar onde fantasio situar-se a curvatura das tuas ancas. Ponho-me então de bruços e alongo-me. quase infantil ainda. Aquietas-te na obscuridade. relutante. recuo o que posso e fico atenta ao bater compassado do teu coração. nesse devaneio regressando ao ponto de partida. mansa na tentativa de ganhar alento. sufocando. que anseio por tocar. assim buscando aproximarme mais de ti pelo avesso. pois deixei de escutar-te os gemidos. artérias e ligamentos. mas logo me distraio a misturar a minha respiração com a tua. palmas abertas sobre a almofada a fazeres ninho sob a lisura do rosto. Consciente de que o teu alheamento me repele. Com a nudez dos corpos a formarem um único. Numa avidez febril. ciente da fibrosidade lacada dos teus tornozelos e pulsos quebradiços.LILITH A cortina volta a tapar aquilo que imagino ser claridade vacilante. retrocedo no sentido inverso daquele para onde. em leitosas marés de bruma. E apesar das sombras. e os mesclados odores a deserto e a gardénia das águas tamisadas onde flutuo. sem dar por isso. obrigando-me à imobilidade. arfando um tudo-nada. Creio começar a distinguir os sinais tépidos e pouco distintos que envias. tecidos luminosos a resistirem aos meus dedos numa descoberta intranquila. o que me permite detectar a tepidez da pele da tua barriga. idênticos a delgados juncos. até julgar reconhecer ao longe o azul transparente do cintilante cristal dos teus olhos. Supondo-me segura. ardilosa e perturbadora. Iço-me. e desse modo chego à tua beira. e desloco-me com a intenção de copiar as posições que tomas na cama. laminada. nos quais desatenta me magoo e me detenho. Suspendo os movimentos que me denunciam e mergulho no plasma madrepérola. Surpresa. não obstante continuar a saborear-te o áspero sal das lágrimas. entre tendões. Por segundos aquieto-me interdita. que me enchem a boca com o sabor ázimo da vertigem. sinto chegar a dor: seta afiada. degustando-te os densos sabores estriados de salva e de baunilha. Paro. emparedada pelos teus músculos. engulo os humores espessos que se formaram na minha garganta. do qual tenho uma dependente sede . numa ondulação de embuste e mistério a contribuírem para te adivinhar: petulante e cruel.

a dialogar com os tigres. dá-me prazer que estremeças. nem das florestas enfeitiçadas. ao longo da nossa vida futura. mas afinal nadando em ti. embora me fusionem contigo. mulher nua. Rastejo primeiro e em seguida imobilizo-me. terreno onde o sentimento cede. o adamascado cetim da tua nuca.de vampira. Desapiedada. e só o leve pulsar das veias das tuas virilhas me mostram a direcção do teu olhar turquesa. talvez por isso excedo-me ao reinventá-la cada vez que a conto. Inconstante tu. nocturnos e lisos. Travo amargo colhido no universo perverso da inocência. cidades das quais nada recordarei. a influenciares-me os gostos. territórios das fadas. nem dos bosques frondosos. Vistorio a clausura em que me encerras. A guiares-me os jeitos. a radicalizares-me as fantasias e os medos. Arrepio-me ao não encontrar motivo para a sensação de falta que experimento. Torno a alinhar-me a par contigo: as duas sobrepostas. com uma vagarosa fatalidade feminina de opalas e jaspe. quando ao tentares olvidar-me te afastas. dado uma coisa levar à outra nesta história de amor e morte. Bebo-o gulosa. temendo que me escapes. murcho. impaciente. maligna e ameaçadora. Antecipando a fragilidade e o calor uma da outra. Num deles descobrir-te-ei. com árvores por trás das quais se acoitam animais selvagens. sei que choras a dormir e. Com uma negligência insustentável. idênticos aos que existem nos quadros de Henri Rousseau. desconhecendo que. à mistura com as imagens dos sonhos antes de estes te inundarem. encolho-me. como se boiasse. . ciente da contaminação da tua languidez. cautelosa deslizo. nem das matas sombrias. Vazio rugoso que aceito de bom grado. a seda dos teus vestidos. agudizando os laços dos teus mênstruos escarlates. porque a tua loucura imponderável nunca será tolerante nem gentil comigo. precipitando o pranto. maltratando-me. em contraste absurdo com os meus. os nós de rubis dados na ondulação frisada dos teus cabelos louros. através do qual destrinço o que não adivinho. Aí esbracejo. e eu obsessiva. Fica a sobejar somente um vaguíssimo espaço de fluidos difusos onde absurdamente lenta me distendo. que obrigarás às tranças que detestarei até ao termo da infância desaparecida demasiado cedo. pois sem a tua atenção adoeço. Experimento separar-me. prevendo-te tão bela que escaparás a todo o entendimento. a instigares-me à ausência apagando-me o carácter. cada uma das unhas resvalando nas delicadas hastes dos teus nervos. destino fora. a privares-me assim de mim própria. seco. condenando a transfiguração do nosso relacionamento. arrisco seguir o rasto das tuas estéreis e fúteis decisões apressadas. mergulho e torno à superfície pretendendo salvar-me. tentando reduzires-me à tua imagem e semelhança: clone que recusarei ser pelos trilhos da vida. ausência e superficialidade. o perfume orvalhado dos teus ombros de porcelana. que jamais terá um final feliz. reclinada num canapé. impondo regras que tudo confundem. me virás a afastar mais duas vezes. Mexes-te na escuridade onde sonhas e eu te navego pelo dentro mais fundo. nele batendo com a planta vulnerável dos meus pés. obstinadamente ignorando a culpa. Lilith de um paraíso artificial. o almíscar morno das tuas axilas.

desejando retomar o odor do teu pescoço suado. galgando e descendo num equívoco escorregar tropeçado. caudal feroz. e ao acordares. através da poesia. estridente e incontido na modulação convulsa. errando com os teus fantasmas e. ignorando que te escuto os pensamentos. atónita. Nascidas de um oceano malva.Por segundos imagino-me desgraçada. inventa as melhores maneiras de me assassinares. encurralada mas já levada de rojo. Perco-me de ti. misturam-se umas nas outras. transportando-me consigo: retalhando o tempo. curvo-me sob a pressão aflita dos dedos crispados com os quais me primes as omoplatas num abraço imobilizador. tento conseguir reencontrar a rosa-dos-ventos. desenha mapas de crimes perfeitos. onde curtas madeixas frisadas aderem humedecidas. náufraga impelida contra-vontade a negar a nossa afeição. adensando o seu ouro de camélia e de madressilva. transbordante de um amor incondicional. deslizando-te na língua. A minha consciência trocada pela tua. deixando-me prisioneira. Respirar-te é um hábito que me há-de ficar. Aturdida. Sem remédio. e é nesse instante que lanças um lento e distorcido brado. enormes e definitivas. enrodilhada no danoso veneno das tuas células. rodando. constrangida ou oferecida ao total negrume humedecido e fervente que me cerca. das tantas fórmulas que em menina utilizei para te preservar de ti mesma. Pesponto de bainha aberta na dobra do lençol de linho onde rolaremos enoveladas uma na outra. apanhada pela corrente num revolteio imprevisível e desconhecido. submergem o que encontram. tento inutilmente parar. a bússola. implacável. E como é hábito. acabo por ceder: desencosto a face do cimo dos joelhos unidos de lado. miserável. Encolhida quase consigo esquecer-te. como se simultaneamente te admirasses quando o ouves. condenada. numa espécie de luta matricial. mas ao detectares a minha imobilidade estendes inquieta as longuíssimas pernas. não te recordarás do ódio que me tiveste. . indo num impulso incontrolável moldar-me às tuas costas. tentarei descobrir a melhor maneira de te enfrentar nos dias vindouros. num divã de psicanalista. e pela primeira vez apercebo-me da necessidade cruciante de ar que começa a ganhar-me. ansiando por me atares de novo às tuas horas. os remos. Confusa. que me cega. sem a preguiça dos habituais movimentos pesados aos quais nunca te adaptaste. dimensão do nada a que permiti ser reduzida. mas a que eu aprendera a ajustar-me. No lugar que habitas deixaste-te adormecer. dando conta. copiando-te os genes. Enquanto o teu inconsciente traça planos. enquanto. controlar as contracções e os espasmos que me convocam. o rumo certo para tornar a achar-te. Ponto dobrado sobre ponto dobrado. a arrastarem-me consigo. Lá fora a lua coalhada num céu azul-cobalto acobertará as lobas que defendem as crias. cuido de reencontrar o ar que entretanto deixou de circular através da tua respiração. as vagas entretanto formadas sobem e avizinham-se tomando altura.

aos rubis dos teus vasos sanguíneos. as acutilâncias ríspidas e fragosas. do perfeito abandono a que leva o nascimento. Não detectando o que me dói mais. aos goivos da tua placenta. agachada nas tuas fundações suponho-me ocultada pelo vulto uterino. como se me quisessem salvar de ti. Resvalando. pegajosos da seiva viscosa da tua placenta. arfante. a doçura foi trocada pela rudeza e o embalo pela dureza desabrida. sou impelida para a frente na determinação de me arrancarem à linfa nacarada e opalina do teu interior. . ergo os braços ensanguentados. transportando consigo um muco grosso que me abafa. sentimento do qual desconheço o nome. me pico e arranho. colome aos teus muros. Recuo de desprazer. se aquilo que entendo ser o teu rejeite. pelo galope apressurado do teu coração. e levo os punhos fechados ao queixo molhado pelos líquidos. a perversidade das urtigas. me firo e corto e queimo. os líquenes da tua intimidade. O frio invadiu o lugar do fogo. desobedeço ao teu corpo: agarro-me às roseiras das suas margens. vomito. as ininteligíveis ordens dadas em surdina. Espaço revolto por onde atordoada me atiro num delíquio. e quando o grito sai e rola finalmente liberto. Assim. aliás. a descortinar no palato o resto do teu dolente gosto amendoado. e sufocada encosto-me. me arremessa e arrasta. os sussurros distorcidos. as pistas confundiram-se. E estilhaçadas as brumas e as névoas. no torvelinho que me envolve. os sinais alteraram-se. Mas nem isso me demove: acocorada. mas tal como te lembro deixaste de existir. para quem afinal continuo a tentar correr. desprotegida. os últimos sucos. num último assomo de revolta. apercebendo-me de estar a perder a memória.Ou serás tu que me expulsas. garganta contraída e forçada por emudecidos soluços que a violentam em haustos e depois se entrançam. apavorada com aquilo que tomo como sendo a maior de todas as ameaças. do desagrado a que cheguei a entregar-me. De longe chegam vozes desconhecidas. as ervas daninhas. mas inconsciente ainda de estar a aproximar-me. distorcendo a avidez. presa de uma teimosia que poderá ser o fim de ambas. Em contrapartida. se o pavor do perigo que pressinto a espreitar-me na pressa. farta da minha obstinada presença? Imediatamente arrependo-me das recriminações. cada vez mais e mais. das dúvidas que me ocorreram a teu respeito. Aterrada. E sem conseguir precisar o que me cerca. nas quais. as garras aceradas. deturpando as emoções. as cores mudaram. logo retorna ao seu começo. Precipício na borda do qual desemboco ofuscada. assustosas. já terminou: os espaços distorceram-se. e apercebendo que me afogo cuspo. abres mão de mim. apesar de as antigas suspeitas se confirmarem: expatrias-me. encrespando os sentidos. deslizando. Escancaro novamente a boca para inspirar e não consigo. atinjo a luz de uma brancura incandescente que toma conta de tudo à sua volta. Tudo o que conhecia. deixo de respirar… Debruço-me. apartas-te. à minha passagem despontam as silvas. aflita busco a tua ajuda. repetindo-se nessa urgência. finco os calcanhares no teu limoso chão.

Forja de lume. Deméter? No início ela chorara muito. dotada de um outro entendimento. Vulcões com o seu intenso cheiro a cinzas. a sufocará e a acanhará tanto. estrelas de navegação e nebulosas nos mapas astrais. . Cisne e Cassiopeia. a diferença. habitados pela estranheza dos seres mínimos ou de monstruosos animais cruentos. mundos inventados. cintilando de estrelas. a tomar para si o tumulto das alvas. de uma outra visão impossível. que por vezes parece querer tirar-lhe o ar do peitinho liso. tempestades. Teima em imaginar no infinito um sítio onde possa ficar. num avassalamento. numa invenção de outros universos e céus antigos. «Águas reptis de alma vivente. Ainda na barriga da mãe. de cometas… Cruzeiro do Sul. A encontrá-las no espaço. voraz. deslizando junto dos enigmas que desconhece. porque isso é dado acontecer a quem como ela comporta a diversidade. de asteróides. desacertada no mundo que a pretenderá mudar. Modo de ela ser na teima e no cardo da alma. de tão justa que a vida lhe fica. num desassossego. Viver? Mas ela não sabe bem ainda o que isso significa. dos equinócios. universos destruídos por dilúvios. Iludindo a luz com o maior negror. nebulosas. por onde correm os linces e as panteras da escuridade. a enxofre. serras. no interior do corpo materno. debaixo do firmamento do céu. onde se misturam planetas. e aves que vôem sobre a terra. por onde os mares corriam num rugido insustido. caminho ou atalho ou trilho por onde escapa o pensamento. dos espinhos e das farpas.DANINHA I Depois das palavras estão as palavras. cimos de vomitarem fogo. E as trevas cobriram a face do abismo. rochas incandescentes e montes. a lava. Gosta de olhar as constelações. dos eclipses.» *** E a menina entra para dentro de cada palavra e existe mesmo antes de nascer e sair do lugar de claridade coada. Até ao separar das águas.

– Ah. essência poética. Cegueira mate. as mulheres persignam-se e seguem encostadas às paredes e aos muros. que sempre cuida de tapar da luz do dia. noz. Eu sou o Sol e a Lua. Terra. leite do peito e mágoa. convoca as trevas. as excessivas. recusando olhar a face de quem a acusa de se esconder da luz do dia. Ao passarem por ela. com a brusquidão e a severidade da ameaça. sentada na clareira de um bosque de bétulas. sumindo do seu lado e ela faz da fraqueza força. bago e semente. encolhida. Suas visões e vozes que ninguém mais escuta. sem jamais a encararem nos olhos de azulado cristal glaciar. Mas. sem compreender como imaginar o futuro. afastadas dos olhares desconfiados e perigosos de inquisidores sombrios. grão de pó. eu sou o nada e o absoluto… – entende. e geme tão baixo que nem a si mesma se escuta ou sabe que ruído é aquele que parte da sua garganta. – Daninha – julgam-na num murmúrio. perturbadoras. A menina esquiva-se de quem dela se afasta. evitam-na quanto podem. o seu olhar claro atravessa os negrores da noite. num desdém equívoco. num mesmo gesto arrasador embora igualmente arredio. o olhar no chão. enroscada em si mesma. acusando-a de coisas ínvias e tenebrosas. tal como quando começaram a crescer-lhe as asas. Essência profética.O infinito sim. trazendo até si pela primeira vez a lua cheia. perniciosas. afirmam. a desviarem-se do seu caminho na recusa de pousarem os pés nos passos do seu trilho. eu sou o Mundo. e tenta chegar-se-lhe quando. Elas nunca se distraem nem iludem. pertinaz. Implacáveis juízes da tenebrosidade. as alumbradas! – exclamam aqueles que referem os êxtases femininos. ela não se desvia. outras vezes apenas a crueldade no seu eixo vertiginoso e devorador. . Insidiosas e matreiras. e teme quem lhe tem medo. certos de que aprimora o escuro.

pois mesmo sendo-lhe proibida a árvore do conhecimento. que sempre a conduziam de novo até ao cimo da terra. Ariane. sem no entanto destrinçar aquilo que recorda daquilo que sabe mas ilude. com a extrema beleza das auroras boreais. Proserpina? Tal como ela raptada. Água e fogo. ela comeu o seu fruto. caverna envenenada pelos seus sete hálitos. A menina passa a usar uma pequena serpente enrolada no pulso e rubis disseminados a contaminarem-lhe os sangues. Magma. no entanto. e talvez por isso. interioridade. lembra-se de súbito. Escudando-se. assim tripudiando. âmago. Reino das profundezas da terra onde resguardara reflexos de sol numa romã acesa. enquanto percorre os solstícios dos versos com as suas melodias interiores. e uma ligeira aura rosada tece à sua volta uma levíssima teia. menina sôfrega a respirar o ar puro. que nimba os cumes das montanhas mais altas. Hades. à sua beira vazia. tapa os ouvidos com cera pálida. assusta-se diante dos negrores de novo e de novo retomados. as expressões lídimas. como se fosse um labirinto onde a pretendessem enredar para sempre. No entanto.II Depois das palavras vêm as palavras e os nomes. .» Ela será o fim e o início. E o castigo devido à desobediência chega-lhe em forma de praga premonitória: «Ela produzirá espinhos e abrolhos! E armará traições ao teu calcanhar. sem no entanto se deixar estiolar no espaço da escuridez para onde fora arrastada. também. de madrugada forma-se uma geada acompanhada de neblina translúcida. aquele que lhe dá a entender a sua condição. Epaine! Daninha! – ouve-os a chamarem-na num sussurro. Tão assustadora quanto a nocturna caverna pantanosa da Hidra. E o Princípio foi o seu início. junto ao lago de Lerna. querendo escapar ilesa a cada um dos poderes que infringe. a menina tema tanto as águas iniciáticas que a natureza talha. E ela que antes de nascer chorara dentro da barriga da mãe. correntezas do universo buscando as enseadas onde ela indefesa sobrevivia a custo. a dar forma e sentido a tudo. como se tocasse o absoluto e soubesse o nada depois do caos. «Porque ela já dançou sobre as estrelas» – garantem os anjos astrónomos. – Eh.

. junto da árvore da ciência do bem e do mal.Menina em busca de si mesma. em entrega e exposição. à sombra da árvore da vida. E nada existe ocultado à sua própria beira.

as deusas e os deuses vorazes. ansiosa e arredia. todo o anjo é sedutor. a mesquinhez e a inveja. E na pressa do sobressalto. Universo. ela é antes. ela é anterior a si mesma. os céus. Também as paixões e a maldade. mas pelos espinhos das plantas ou fio e gume de fundações e raízes. florestas e precipícios. dos poemas. descer empapando a terra ou nela se infiltrando de outro modo que não por via das enxadas e das pás. camuflados. todo o anjo é impiedoso. – Deixa que te procure no vulto – diz-lhe Uriel. incipientes e pálidas. e ela cede. a fazer a gesta de toda a criação. cada metáfora e mito. o anjo da poesia. Entre o mundo.III Depois das palavras vêm as palavras dos versos. embora saiba que nem sequer daninha a consideram entre a ordem dos anjos. Esquiva. diz no primeiro dia. Nem as odes nem os sonetos nem as sonatas lhe bastam. a dar conta da existência de um canto. a dádiva. embora matizadas de carmim e violeta. sentindo todos os entrelaçados odores febris que cada letra guarda. escreverá séculos mais tarde o poeta. sabendo ser lugar de salvação e descobrindo o assombro. atalhos. seguindo pelos interstícios dos encobertos dons da natureza. Adivinhando o perdimento do espaço. «Todo o anjo é terrível». de um coro ou de um cântico. Lilith? Não. Alagadas planícies a perder de vista. diz no primeiro dia. Eva? Não. ela entorna os negrumes do tempo. . Mas será a menina quem acabará por desentrançar as luzes e as cores umas das outras. vales. Universo. que ela tanto gostaria de decifrar. os sons e as lágrimas e o riso na contradição dos sentimentos. cada uma das rimas. Ensombramentos e claridades de cumes e ventanias. Rios ignotos. a tentarem penetrar. olhar perdidamente melancólico e esplendorosas asas fulvas que ela não se atreve a comparar às suas. o universo da escrita onde a menina se acoita.

o cueiro branco. a fralda. nada tem ainda história para mim. esmero-me na espera. Mas. Aturdida. Deslumbrada estremeço. o babete. a onda do seu cabelo dourado espalhado no linho da almofada. que me transmite esta imensa sensação de falha. abandonando-me naquele lugar desconhecido. vagarosa a descobri-la. mas isso faz com que tudo pareça ainda mais difuso. puxam a roupa para cima. volta a adormecer e acorda de novo. e eu sinto-me de novo enfaixada. como se uma corrente marítima se desprendesse dela. tão igual àquela que eu imaginara. a tirarem-me o ar. temendo que ela tivesse partido.RECEM-NASCIDA Estou no berço virado de frente para ela. No entanto não desisto. de regresso à correnteza do sono. embora as penumbras do quarto se avolumem à medida que o dia passa. Ela dorme? Sim. mas ela continua sem dar acordo de si. então acabam por desistir. arrulhando como uma pomba. a certa altura descubro-a a fitar-me. limpam-me. onde me aquieto. O que terei esquecido dentro da minha mãe. nem o porquê do súbito alvoroço do meu coração. aninham-me no berço. indo e retornando no seu ciclo lunar. coitadinha. ela logo se afasta de mim. Sem me queixar. inóspito. dorme e depois acorda. de falta tão dilacerante e absoluta e absurda? . dizendo baixo coisas que não entendo: – Esta menina. da minha origem. De vez em quando aparece alguém que se debruça sobre nós. mas dou conta do meu imaginário. Semicerro os olhos a tentar distingui-la com mais precisão. a mantinha entalada no colchão. embalam-me. alisam a dobra curta do lençol. numa correnteza sem fim por dentro da linha do pensamento. apática. a face macerada e muito pálida. Olheiras pisadas a afundarem-lhe o olhar de genciana azul toldado por uma espécie de neblina que entretanto se levantara do rio do seu próprio corpo. da forma como cheguei até aqui. asfixiada pela camisinha. aquieto-me como se tivesse pegado no sono. não percebo as palavras nem os sentimentos dos quais desconheço o significado. para logo despertar em sobressalto. Para mim ainda não existe passado – eu mesma me desconheço e nem entendo o sumiço dos odores espessos e das exultantes cores sanguíneas que desejaria ter memorizado para sempre. adormeço levemente. apesar de tudo ajeitam-na e em seguida inclinam-se sobre mim. e embora feche os olhos depressa levantam-me. Pouco a pouco estou a perder a memória do meu começo. o xaile como uma nuvem de lã azul. atemorizada. nem qualquer referência. até ao meu queixo. Ali tudo é vazio e oco. deve estar com fome… E voltam a deitar-me. e então o nosso olhar encontra-se pela primeira vez.

. Aquilo que eu não sei não tem ruído. de um tom de rosa muito claro e quebradiço.Perdimento e estilhaços? Volto a abrir os olhos na claridade difusa do quarto. a tentar reencontrar-me nesta inusitada imobilidade de boneca aquietada debaixo do lençol fininho.

desconhecida de ambas. E prossegui a saltitar descalça. tecida por uma fina e translúcida humidade que subia do mar em dias de marés vivas. e pensei: «se calhar não foi ela que falou». E procurei à volta quem me teria dado aquela inesperada ordem. repetiu pela terceira vez: – Calça as sandálias. numa melopeia dolente que me instigava. Foi então que ouvi dizer. As duas semicerrando os olhos azuis cheios de lágrimas. reticente: *** – Calça as sandálias. e pela primeira vez nos meus dois anos a fazer-me crescer para além da idade que tinha. Muito magra e loura. primeiro estranhando o próprio sentir. Lucinha. espécie de jogo de melodias por vezes dissonantes no qual me envolvia e voava. Lucinha! . Lembro-me de que naquele começo de tarde eu seguia-a repetindo e também inventando baixinho palavras sem sentido. Olhei-a e vi-a num cintilar de beleza aturdida. Mas ela tornou com uma pequeníssima mas aguçada ponta de irritação no tom de voz. naquele jeito que ainda guardava de adolescente bravia e cintilante. Foi quando o coração me desandou no peito.DESOBEDIÊNCIA Vínhamos da praia pelo sol do meio-dia. Na véspera tinha havido uma ligeira névoa a nimbar o céu de anil. um dos pés descalço na berma do passeio e o outro logo abaixo no chão de terra batida. Então a minha mãe puxou-me pelo pulso magrinho de menina frágil.. ela distanciava-se de mim a distrair-se com tudo à sua roda. sandálias a balouçarem na ponta dos dedos. dedos frementes com a dureza férrea e fria da algema. Ah! – suspirou. devido à claridade excessiva que nos atordoava. adorando a brasa do calor na planta dos meus pés nus. Saltitando. embora já desconfiada. mas de imediato dando conta de um secreto entusiasmo de menina teimosa – como me chamavam quando queriam obrigar-me a obedecer sem recalcitrar – ainda esvaziado de qualquer pensamento de acinte. E com uma voz de gume implacável. a fitar alheada o horizonte. num sussurro de satisfação desmedida… Cheirávamos a mar e a sol e íamos deixando atrás de nós rastos irregulares de areia fina e irizada.. enquanto continuava a andar saltando como antes. mesmo assim ainda inalterada: – Calça as sandálias. Lucinha. num sobressalto do qual nem sequer sabia o significado.

que escutava vozes. mas eu desenvencilhei-me do aperto do seu abraço e do perfume de onda que a minha mãe guardava no louro dos cabelos ondulados e ainda molhados de oceano. Desse modo fomos até casa. fugindo com ela no encalço. e que então sentia pela primeira vez. e o odor a sal do mar dos meus braços erguidos a desejarem levar-me até ao tecto. de menina inverosímil. a fim de chegar ao tecto. e eu cada vez mais rápida tentava distanciar-me. como a Andrómeda. E assim correndo atravessámos corredor. . para seu grande espanto e perplexidade. seguindo descalça ora em bicos de pés ora numa corrida curta mas rápida que acabava rodopiando num salto. vista de longe. Primeiro uma mão e depois a outra. a conduzirem-me de volta ao chão. de pura raiva desobediente. comecei a trepar pela parede como um pequeno animal perseguido. fiquei a meio da parede. ouvindo a respiração ofegante e entrecortada da minha mãe. entre ela que se aproximava veloz e a imensa parede branca e lisa à minha frente. Menina perecível que eu era. em vez de ser uma menina… imperceptível. onde entrei como uma flecha pela porta que a minha avó todos os dias àquela hora nos deixava entreaberta. Foi quando ouvi a minha mãe dizer com voz de grande aflição estupefacta: – Desce daí Lucinha. de ponta a ponta. pequena alpinista ousada. como uma borboleta – sentia-me um anjo. e a minha mãe a perseguir-me com o seu canto de sereia zangada. expectante. eu a escapar-lhe sem olhar para trás. a marinhar com determinação. como já estamos em casa não precisas de calçar as sandálias. quartos e salas. parada atrás de mim. magrinha. Implacável. talvez apenas uma mancha mais escura. via pessoas mortas e contactava com galáxias longínquas. empolgada com aquela sensação que sempre me provoca a desobediência. tentou agarrar-me e puxar-me a si. enquanto as mãos pequenas ansiavam por escorregar. ao topo. como um pássaro desejando pela primeira vez levantar voo. Entretanto.Olhei-a nos seus grandes olhos lápis-lazúli inundados de luz e limitei-me a abanar negativamente a cabeça. como se subisse a encosta íngreme de uma montanha. Eu preferia parecer-me com um anjo. Até que chegou o momento em que me vi encurralada. Furiosa. como me chamava a avó. Então. e no segundo seguinte estava a repetir tudo de novo. a sentir o cheiro da cal da parede à minha frente. E muito quieta. como um pequeno insecto ou. também me imobilizei. a fugir aos dedos que ela deveria estar a estender para me arrebatar na fuga. ágil. ela começou a perseguir-me. ao cimo. pernas finas e longas abertas em leque. a fim de me colocar de volta ao soalho.

atenta aos barulhos vindos da cozinha. ou nos ombros cobertos pela seda cinzento-pérola do mesmo vestido cingido. folheando a memória. a minha mãe continuava fechada no quarto. sem desassossegos – disse-me o meu pai indiferente às vozes altas que chegavam da rua numa amálgama de risos e sussurros. como aliás tudo na ilha do Faial. segundo me lembro até hoje. esgueirei-me mansa para o corredor estreito e sombrio. até chegar à maciça porta da rua. desmentindo-me. tal como a dá a ver. Tentei alcançar o seu fecho de ferro escuro e fazê-lo correr. recordo-me. primeiro contornando. a erva-doce e a casca de limão no tacho redondo. parei por momentos a olhá-la da penumbra onde me chegava o arrulhar encrespado do leite a ferver com o açúcar. Recordo quase ter sucumbido à tentação de ir para junto dela a encostar-me à sua ilharga quente e acolhedora. Mas nesse dia. mas que percebia aproximar-se devagar. Por instantes fiquei a vê-la a pôr nos pulsos finos. onde a fui encontrar sentada diante do espelho do pequeno e delicado toucador de cânhamo que comprara mal chegara à ilha. onde me detive poucos segundos a espreitar pela sua frincha estreita. a fugir de novo e de novo de junto de nós. sincopada e metálica. a tinta do tinteiro e da caneta com que escrevia as receitas e outros papéis que enchia com a sua letra miúda e secreta. a ver passar a procissão. por onde passava o habitual cheiro a cadernos e a livros. retornando ao meu passo de deslize no chão encerado há pouco. e depois cobrindo os lábios com o bâton muito vermelho. ali diante do fogão de lenha. Recuei. a contrastar com a palidez do seu rosto ávido e com o louro das sobrancelhas do tom exacto dos cabelos ondeados a tombarem-lhe nos ombros cobertos pelo cetim azul-lilás do vestido cingido. embora ainda ao longe. enquanto o cheiro a ambrosia me fazia crescer água na boca. onde a avó fazia o doce para o jantar. Pintava a boca com vagares de demora. à mistura com a música. Distraída consigo mesma. à varanda com a tua avó. avental branco demasiado comprido para a sua estatura pequena e franzina diante da pedra de mármore do poial. o perfume do frasco largo de cristal trabalhado.A ILHA – Ficas quieta. sentindo-me demasiado impaciente para ficar presa do seu feitiço. olhos de sereia arredia e fatal. No entanto continuei a andar rente rente à parede caiada com cheiro a mar. no qual pouco a pouco ela ia deitando o fio das gemas dos ovos. Pequena espia a deslizar com passos de silêncio até à porta entreaberta do escritório do meu pai. uma fotografia que ainda hoje guardo. delineando. uma lingueta . exaltações e sobressaltos. os dedos muito lentos nos pulsos. ficando a mexê-los depois com a colher de pau de cabo comprido.

Quando finalmente consegui empurrar a porta. desbotada. comecei a descer degrau a degrau. cortando-me ao de leve a palma da mão esquerda onde ficou desenhado um longo e finíssimo traço sanguíneo. . Com lágrimas nos olhos lambi o arranhão esquivo e delicado. a esboroar-se de velha que era. Procurei mover o fecho outra e outra vez. e estava quase a desistir quando ele acabou por ceder. muito altos. braços erguidos acima da cabeça. as escadas íngremes à minha frente. um risco vermelho que depressa se tornará difuso mas apesar de tudo ardente. muito direita a desejar fazer-me maior. cravada na ombreira oposta. que logo voltei a fechar atrás de mim.grossa a ir afundar-se na cavilha igualmente de ferro.

e ele respondia-me que não. empurrada pelo curtíssimo tremor de terra. mas que logo vi abanar numa espécie de entrecortado arrebatamento. com a cabeça. bata branca a transmitir-me sossego. E os olhos azul-genciana da minha mãe encheram-se de lágrimas translúcidas. Sem perceber nada do que isso significava. Na verdade sempre me apercebia sem receio destes curtos estremecimentos súbitos e secos. . – Isto é a guerra? – perguntei inúmeras vezes durante o tempo em que vivemos na Horta. capaz de vencer a dor e a morte. Nas noites em que ele se demorava junto da telefonia a ouvir as notícias. numa lenta distância medida apenas pelas ondas altas. em seguida desenhava a azul pequenos círculos num mapa de lustro pendurado numa das paredes do seu pequeno escritório repleto de livros. prestes a estilhaçar-se. que também fez tilintar as chávenas da Vista Alegre penduradas pelas asas quebradiças nos leves ganchos de metal do guarda-louça da sala de jantar. rosto ansioso. da ansiedade. rápidos e passageiros: espécie de arrepios da própria casa. como se desligados da ilha. embora sentisse e soubesse que todo o seu chão deslizava debaixo dos nossos pés.– Ficas quieta. envoltas em brumas e neblinas na misteriosa ilha do Pico. montada no seu dorso quente. que tinha de vestir quando não estava no hospital a tratar os doentes. mas quase diante da nossa casa. com a precisão de um bisturi. apesar de quase sempre ao jantar alguém referir com apreensão os aviões ruidosos e ameaçadores que continuavam a sobrevoar mar e terra. logo adiante do pai. à varanda com a tua avó. mas julgando detectar na sua voz o surdo tom do mistério. Comentando baixo. sempre guardava um rasto de esperança de que estas suas palavras pudessem aludir às bruxas e às fadas. pois a sua imagem de médico fazia-me acreditar ser detentor de um absoluto poder de cura. por mim imaginadas num arrebatamento exultante. ou até quando estava a andar a cavalo. mesmo quando eu arrastava o passo preguiçoso no passeio. do outro lado do mar. sem armares confusões! – ordenara o meu pai abrindo a janela da sala e encostando às suas grades de ferro trabalhado uma cadeirinha de espaldar baixo para onde eu deveria subir. para em seguida deslizar de lado. sentindo nas costas a aspereza boa da sua farda. muito bela e prisioneira de uma tristeza cativa que ainda a tornava mais bela de tão frágil e insegura. imaginava então. enquanto apontava o último círculo acabado de desenhar: – Os aliados já chegaram até aqui. – Então lá vamos todos para a guerra! – gracejara debilmente na véspera de partirmos de vapor para os Açores. e embora certa de ele estar a referir-se à guerra. a ver passar a procissão.

Foi nessa altura que. e eu via correr no céu em direcção ao cume da ilha do Pico ali à frente. pisadas com descuido. e as vozes que chegavam da rua tinham uma mistura de excitação. Fascinada. de gravidade e de alegria. olhar baixo e contrito. sentia a cabeça a andar à roda. apesar da sua ostensiva. Os andores floridos. fiquei diante do padre que vinha à frente empurrando o andor pesado. que me convocava e me atraía. e que desde o primeiro domingo em que a avó me levara à missa e eu a vira tanto me atemorizara. esquecida de tudo o mais. pois os anjos esperavam-me. numa pressa ansiosa e desmedida corri num ápice. voltar atrás para o amparo da escuridez da escada. o coração apertado debaixo do vestido branco de musselina. até me encontrar no meio dos pequenos anjos com . Olhei à roda. aturdida.– Ficas quieta. a contrariar a imagem de menina «bicho-do-mato» que me acusavam de ser arisca e fugidia. que me entonteceu ainda mais. Desci de roldão até ao último degrau de pedra esburacada pelos anos. imagem terrífica que eu conhecia da igreja de Benfica em Lisboa. célere. logo atrás vinham os meninos com capinhas escarlates. a ver passar a procissão. desmesurada dor. rosto erguido a tentar seguir a grande nuvem espessa que de súbito o destapara. sem arrebatamentos! – mandara o pai. corri maravilhada e sem peso. era bem menos aterradora. e parecendo-me voltar a ouvir a sua voz austera parei hesitante a meio da escada. Ofuscada e cega pela súbita claridade. cruz às costas e joelho na terra. sufocada. a poeira escura e as pedras miúdas à mistura com pequenas folhas e pétalas maceradas. a náusea dando um apertado nó na minha garganta. arrastando a renda branca da saia pelo cisco. quem sabe. filas à minha frente. sem no entanto ousar fugir. num arroubo. Mas a figura que encontrei no andor oscilante mais perto de mim. o sangue a escorrer-lhe pelas faces laceradas. E num arremesso. de me arrepender. com uma renda curta a delinear o peitilho de pequenas nervuras. a respiração opressa. e já na rua mal calcetada estaquei encandeada pelo sol. corri abertamente. me envenenara as noites em sobressalto. mais do que as vi adivinhei as asas brancas... que tocavam pequenos sinos de prata ou baloiçavam os turíbulos de onde saíam grossos rolos de fumo com um intenso cheiro a incenso. e sem saber como. Mas a procissão estava já tão perto de mim que nem sequer tive possibilidade de recuar. desordenada e dispersa pelo susto. à varanda com a tua avó. como quem persegue um sonho numa pressa voada. o sangue das chagas que as chicotadas dos soldados romanos abriram. se bem que temesse encontrar a enorme figura do Senhor dos Passos todo de roxo. Mas entretanto a música aproximara-se muito. Mesmo assim encolhi-me de susto. e da imensa secura do seu olhar. pareceram-me oscilar perigosamente. levados aos ombros pelos homens. anjos de asas translúcidas de verdade. o sangue das feridas que a coroa de espinhos rasgara na testa onde com crueldade se enterravam.

as suas asas níveas de penas leves e macias. menina. a transportar-me para o translúcido eixo vertiginoso. evitando fitar as costas das pessoas e da imagem mal equilibrada no andor mais adiante. Por breves segundos senti que ele me apertava de encontro ao seu peito magro antes de me voltar a pôr no chão. fatinho de lustro a rojar o chão e as mulheres tapadas até aos olhos com os seus lenços negros. a sentir-me leve. com secura: – Para onde é que tu ias. a procissão afastava-se em direcção ao Largo do Infante. Subitamente. . por segundos acreditando ter sido colhida pela mão castigadora de um Deus zangado com a minha fútil ousadia. à ritmada cadência triste e arrastada que os músicos da banda emprestavam a tudo aquilo que tocavam. num deslaçado abraço. Ia de mãos postas como via fazer as meninas à minha volta. como se ofertassem a própria vida. cada vez mais leve e ágil. não me dizes? Porque fugiste? O que foi que te deu? Atrás de nós. E logo fiquei a imaginar como seria bom voar com eles. e as últimas coisas que dela me lembro ter visto. um tornado que me sugasse com o seu centro voraz e demolidor. numa mistura de pétalas cor-derosa derramado. rumo ao cais de onde partiam os barcos. matizadas de rosa e ametista. cada vez mais ousada e ligeira. em vez de sentir o peso dos passos. junto à soleira da porta de casa. palavras a tropeçarem no grito que tentava reter a custo de um controle que não destrinçava mais. alilasado e de pétalas azul-safira. rasgada por uma zanga desmedida. E fininha continuei caminhando. que as raparigas transportavam quase estendidos à sua frente. vestidas de anjo e coroa de flores na cabeça. ralhando baixinho. senti-me arrebatada no ar. porém. prestes – soube – a levantarem voo. foram os cestos cheios de hortênsias. como se tivesse sido apanhada por uma tempestade. mas logo me apercebi estar nos braços do meu pai e ouvi a voz da mãe.

deixando navegar os olhos pelo oceano embravecido. a tentar dominar o sobressalto que já então me causava o saber-me injustiçada e também perplexa por sentir o chão a mover-se debaixo dos meus pés. – Matilde pára de abanar o banco! – ralhou a minha avó. de nós mesmas? Impossível imaginar como o mar rugia. com a flor alva entre os dedos e a palma da mão suada. bem comportada. numa mistura entrançada-entrelaçada de terra e mar. O rugido do mar a tornar-me surda para os gritos da minha . sem que ainda déssemos por isso.ONDAS Salvas de quê? De quem? De nós mesmas? Nós. quebrada silenciosamente a placa de cimento onde o nosso banco estava assente. folhas. também por entre os interstícios das pedras do chão. seixos e escaravelhos pequenos. sublevadas. arrastando-nos numa queda lenta. gelado e cor de chumbo na turbulência das ondas implacáveis. eu e a minha avó que gritava a pedir ajuda. no Largo do Infante. num repuxar diferente dos tremores de terra a que a ilha do Faial já me habituara. enquanto descíamos muito lentamente até elas. enquanto ela durou no sentido das ondas. espécie de círculo de betume pouco a pouco a desprender-se das suas vigas interiores. de salsugem e gaivotas. Mãos poisadas no colo de menina que recusa bonecas. Lembro-me da queda e também de não ter sentido nenhum desassossego. E ali fiquei emudecida. comigo perfeitamente imóvel no centro da voragem. Creio mesmo não ter sentido coisa alguma pelo lado do negrume. Afinal nem sequer senti medo. ambas no mesmo nó de absurdo a caminho da morte. joelhos magros e arranhados. de limos e verdete. à procura de nada. a tentar ver para além do que a minha pouca altura me permitia. mínima e amachucada apertada entre os dedos. e apesar de nem sequer me ter aproximado do banco de jardim onde ela lia. com uma flor branca. a cheirar no vento agreste que entretanto se levantara do lado do oceano à nossa frente o mesmo odor de sempre. primeiro aturdida e logo sufocada de maravilhamento diante do esplendor. e eu me demorava a olhar em frente até me deter na anilada linha do horizonte. fui aquietar-me a seu lado. com as pernas balançando sobre a imensidão. caules e pétalas. líquenes. dos seus cabos e fios de aço. excepto quando o meu pai me sentava na balaustrada. em direcção ao qual eu e a minha avó já tombávamos. debaixo dos nossos pés. colhida por mim enquanto catava por entre as ervas daninhas.

retiravam-se e voltavam a cair […]. como se do fundo da memória dos séculos me chegasse a imagem de Ofélia. que me agudizava os sentidos. a ilha do Pico como se fosse da condição de destinos e sagas. apagando a imagem daqueles que tentavam vencer as forças que a natureza comanda. a caminho das marés de sargaços. correntes. à excepção da luz semeada de diamantes que se formava no seu dorso semelhante ao dos grandes cavalos que galopam. como um anjo e à minha frente. . misteriosa e incerta por entre neblinas e brumas. quem sabe. lenta mas inexorável. Vagas imensas. escapar à minha pequena vida de menina de cinco anos solitários e inventivos. Quem sabe mesmo se impossível presságio do suicídio nesse mesmo ano de Virginia Woolf em águas outras de lodo e rio. vestido colado ao corpo frágil que tiritava encharcado pela espuma branca e gelada das ondas. de amarras e traves e roldanas. na sua mistura luzente de escuridade e esmeralda. e para o cada vez mais longínquo choro da minha irmã. da história encantada de um livro ou ainda de um sonho. «Ondas de um azul profundo. e eu a desejar assemelhar-me a corsária naquele banco-galeão tentando fugir. frente à vastidão alterosa. fios de aço ou de improváveis poderes de deuses caprichosos. ou eu fosse estilhaço de pensamento alheio. enquanto a nossa estranha viagem continuava. mas também pelas lianas do abismo. num estrondo imenso a desfazerem-se em reverberações múltiplas. As ondas tombavam. ora quase etérea. um outro final… Passinho vacilante a aproximar-se da borda da placa de cimento onde mal me equilibrava. tremendo de frio da algidez do mar. *** A imaginar-me já afogada. rumo às vagas cada vez maiores.avó de pé a meu lado gesticulando.» 1 Enquanto ressoavam aos nossos pés. a sentir-me suspensa no ar. de onde eu tivesse que voar para ela. mas jamais tão perto. que ficara do lado de fora do buraco lá no alto. a minha vida estava na realidade dependente de cabos. tinham-lhe chamado os navegadores portugueses. «Mar de baga» ali bem perto. enquanto. de onde pouco a pouco nos íamos distanciando. vogando sem fim à superfície das águas. iludindo os gritos da avó. numa sensação de longitude. ambicionando eu. fazendo-nos acreditar estarmos a afastar-nos do tempo real. personagem de um filme ou de um romance. ligadas pelos atilhos da vida. que para mim então mal começara. fazendo-me sentir ora uma menina débil no meio da correnteza dos ventos que se entrecruzavam. em histórias diversas e sem nenhuma partilha ou futuro possível. confundindo-me.

na direcção das sereias… Mas de súbito senti-me pegada pelo pulso de fuso. E quando ao lado da minha avó ainda trémula. Relógio D’Água. ouvi dizer. por entre o tumulto e a exaltação de quem se consome. perplexa: Salvas de quê? De quem? De nós mesmas? Nós. fiquei de pé em chão seguro. de Virginia Woolf. tal como então. arrebatada pela cintura. – Estão salvas! Hoje continuo a perguntar-me. de nós mesmas? 1 Do romance As Ondas. . levado pelo próprio entusiasmo.

Mas são os olhos absolutamente vazios de boneca de porcelana que a sobressaltam. pelos espinhos das rosas portuguesas do quintal. prisioneira da cintilação dos estilhaços de luz que a extrema claridade projecta como estrelas na capota levantada do carrinho de bebé. retirar a almofada e em seguida colocá-la sobre a sua cara. Beatriz ergue-se de um salto. Sem dar conta do que faz. Sentada no chão em cima das pernas cruzadas. que os cabelos toldados pelo próprio ouro emolduram. a misturar-se com o perfume de almíscar que agora usa. e quando ela se inclina sobre si. quando sem compaixão pendura a filha do lado de fora do parapeito de mármore. – Estás a olhar para onde? – ouve-a perguntar-lhe num tom de voz surda e arrastada. lentamente retira a almofada da cara da menina. respiração suspensa. escuta estonteada o manso zunido do calor. enquanto a casa se entorpece de silêncio. seguindo o movimento cadenciado das pernas muito altas. e talvez por isso recua com um mau pressentimento. perdido sem remédio o antigo tom de mel. sentindo-se tão espantada que nem dá conta de ser levada até à janela de onde jorra a luz intensa. a tocarem-lhe os ombros onde se anelam. cortado de súbito pelo som dos sapatos de salto alto da mãe. leve como um pássaro de ossos miudinhos. bordado a ponto de favo em torno da cintura. E nem estremece quando em seguida a mãe lhe pega por baixo dos braços e a ergue. Ao olhar para baixo Beatriz admira-se com o abismo que de súbito se abre a seus pés. pontada mínima de agulha no peito coberto pelo vestidinho leve. as duas alumbradas. que Beatriz semicerra os olhos vulneráveis de serem tão azuis. as costas de encontro à parede muito branca. a vê-la abeirar-se do carrinho. Mais inimiga do que mãe. escaldante àquela hora da tarde. que silenciosa se levantara do sofá no outro lado da sala. volta-se e fita-a com raiva. vestido de shantung cor-de-rosa pálido ondulando em torno das coxas estreitas. e devagar se dirige para elas. respiração suspensa. sente-lhe o hálito de murta e de roseira. joelhos arranhados pelas silvas e urtigas. a decisão da mãe em pendurá-la naquele imenso espaço . incapaz de perceber como é possível haver uma tão grande distância entre os seus sapatinhos de verniz e o chão empedrado.ABISMO É tamanho o sol vindo da janela entreaberta. mesmo sem entender. onde a irmã de poucos meses dorme. debruçar-se. levantar com cuidado a cabeça da filha adormecida. e dá dois passos em direcção à mãe. rosto inclinado como quem procura a sombra projectada num dos lados da pequena almofada branca. cegas desse extremo luzimento. E decidida a aceitar. e começar a carregar com vagares de demora. que ultimamente tomara como sua. que sentindo-a atrás de si. lábios desenhados a carmim entreabertos. tropeçando no que desconhecem uma da outra: a loucura e o afecto. Beatriz repara no seu rosto exangue de sonâmbula.

pois em nenhum momento pensa que a mãe vá puxá-la até si. veneno de negrume álgido e monstruoso. Conivente? Dependente daqueles longos dedos afuselados. oscila sem amparo nem orientação. saia enfunada pela aragem que de súbito se levanta para os lados do rio que passa na mata ao fundo. implacável. que para sempre lhe escapará. formando um trilho acre de odores macerados que sem querer pisa. e consumida de amor. sem conseguir chegar à maçaneta de porcelana branca com um fio dourado. mão perfumada a indicar-lhe o caminho da porta. consumindo-se a si própria. ergue os olhos para fitar a mãe. para onde de um salto se atira . presa de uma vertigem que lhe rasga o coração descompassado no peitinho transido de medo. fininhos como galhos quebradiços. a mãe volta a aproximar-se. que as mangas de balão do vestido não tapam. E mesmo prestes a cair. fazendo-a regressar ao resguardo ensombrecido da sala. fria e hirta. balouçar fraco de criança frágil num tempo sem tempo determinável. mordido pelos seus dentes brancos e acerados de loba jovem. que de braços estendidos a pendura. beleza rutilante iluminada pela chama do ódio que por ser tanto poderá consumi-la. enlouquecido e implacável. que num disfarce de beleza torna a mãe mais deslumbrante do que nunca.ameaçador e solitário. braço erguido e trémulo. unhas amendoadas pintadas de um vermelho sanguíneo a cravarem-se debaixo dos seus braços. com uma pressa súbita. Meio desfalecida a menina aquieta-se. a fazê-la sentir-se mínima assim em bicos de pés. enquanto lhe grita – Sai da minha vida! Espécie de rugido rouco de fera selvagem que a atravessa como o gume afiado de uma espada. limita-se a fechar os olhos. e ela instintivamente recua apavorada. determinada. Então. entreabre as pálpebras de hóstia fina. à sua frente está o longo corredor que reconhece. como faria uma pomba. mergulhado num perfeito negrume. corpo magrinho que não se defende. Movida por uma qualquer razão obscura. sem de nenhum modo tentar salvar-se. tenta imaginar como seria se pudesse voar até ela e poisar-lhe ao de leve num dos ombros macios. recusando-se a reparar no cruel sorriso irónico da mãe. passo curto para trás. auréola de anjo em torno da sua cabeça delineada pela reverberação do ouro das ondas do seu cabelo solto. enquanto uma chuva de pétalas de rosaschá se espalha no soalho. e quando finalmente a consegue rodar e a porta se abre. que Beatriz distingue num esvaimento sem esperança. olhar de ametista. a embater na mesa onde uma jarra de cristal oscila. muito para lá do moinho de vento de fiar a água do poço branco. que o excesso de aurora parece mudar em alvura da madrepérola. como se a vida se tivesse imobilizado num lugar já inexistente. onde nada existe mais. Ressurreição? Mas inesperadamente é a mãe que a sobe. Então. e é então que Beatriz se volta e corre e demora e escorrega e desliza até à porta fechada diante da qual pára. E mal é poisada no chão da sala que lhe parece mergulhada no breu absoluto.

em direcção ao esquecimento. .

assim como o Arco da Rua Augusta encimado pela escultura de uma mulher de manto que eu sabia chamar-se Glória. vinha até aqui onde estamos assistir ao embarque e ao desembarque dos reis – contava minha mãe como se inventasse. a querer segurar-me.EFÉMERA Encostava a minha cara ao cetim da saia lisa do seu vestido fúchsia. que viveu há séculos e escrevia poemas. ficava o pedestal de mármore com a estátua do rei D. Era deste modo que a reprodução em papel brilhante nos mostrava Leonor de . fazendo brilhar o cabelo louro que ela usava em ondas a tocar os ombros frágeis. haste de tão delgada e dúctil a fazer lembrar as actrizes de cinema. num chamamento impossível. mas sobretudo de sedas matizadas e de coletes bordados a ponto de crivo. a tontura a tomar-me. esverdeados de limos. por onde as águas subiam nas marés altas e se estendiam devagar. a coroar o Génio e o Valor. Parecia-me por vezes escutar o barulho abafado de passos ágeis vindos de um outro tempo. Por trás dela havia a largueza quase quadrada do Terreiro do Paço. No centro empedrado de pedra miúda. com uma perversa languidez fatal de madressilva em flor ou de pedra preciosa rubra. embora na altura não o soubesse. e isso já pertencia à História. saias enfunadas em ternas transparências… shantungs e musselinas e tafetás. envolventes. a fim de sentir a vertigem. o som de botinas e de sapatos frágeis. Mais impreciso ainda era o sussurro das rendas e dos cetins. contornando as duas colunas que pareciam fitar o outro lado do Tejo. há muito esquecido sobre a mesa baixa da nossa sala de estar. Sempre que ali demorávamos mais tempo. geniosa. com as suas arcadas abertas cor de mostarda clara e as ruínas do terramoto ao fundo. assim como um roçagar de saias de seda e saias de sombra. e eu mal sentia a frouxidão dos seus dedos. tinham-me ensinado. de manso rodeando. repletos de cintilação da tarde por onde. E eu quedava-me a imaginar essa avó descoberta a partir de uma gravura que encontrara num livro encadernado. dos saiotes deslizando uns nos outros. logo se distraía de novo. Efémera. e de mãos dadas olhávamos em silêncio o rio de um verde espesso manchado de azul-cobalto. serenamente a bordejar os primeiros degraus do cais. sensação que pensava vir do fundo do espelho obscuro e frio daquelas águas. José a cavalo. abainhados de prata. degraus de pedra grossa desgastados pelos séculos. – A nossa avó. a minha mãe escapava com a astúcia de mulher rebelde e deleitosa. O sol de Agosto cegava-nos com a sua incandescente luz branca. voltava-me a tentar fitar-lhe os olhos de anil. expectantes mas amodorradas embora atentas. E se ela estendia os dedos macios até ao meu braço que a manga de balão deixava a descoberto. trepava para um dos bancos incrustados na amurada a separar-nos do rio e debruçava-me. soltava a minha mão da sua. os lábios de veludo toldados pelo ligeiríssimo sorriso. Olhar inteligente e arguto num rosto belo de traços delicados.

E volvia-me de novo para o Tejo. quem sabe se em incursões clandestinas. iludindo-se. Hostil. Imprudente. que me entretinha a recriar enquanto não adormecia. espécie de corredores largos onde se anteviam vultos de mulheres a caminharem numa pressa recolhida. as naus. a contragosto chegada a Portugal que até ao fim dos seus dias iria odiar. por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo. – Anda! – dizia. as barcaças na sua madeira batida. atravessada pelos cães vadios. a segui-la tentando acertar o meu passo miúdo pelo passo alado dela. a ver o relógio que lhe deslizava no pulso magro. os olhos azul-pavão repletos da incandescência da tarde irisada pelo sol a espelhar-se nas vidraças das janelas. viria mais tarde a preferir imaginá-la enfrentando o todo-poderoso ministro de D. a puxar-me. esquecia-me das horas. Terreiro do Paço onde embarcavam e desembarcavam as damas da Corte e as fadas. demorá-la. as anões e os mendigos. . debruçava-me mais. Na verdade. Imitações pobres daqueles outros barcos. José do que a escrever poemas. na sua mansa faina. com o pesado cabelo entrançado de pérolas descaindo sobre a nuca humedecida por um suor febril e inquieto. tal como a praça fervilhante de comércio. a infanta espanhola Carlota Joaquina. as galeotas. assustado. a ocultarem fidalgas e padres. embora conseguisse melhor idealizá-la a usar a pena criativa do que a espada de lâmina crua de gume afiado. E se eu a agarrava pretendendo retêla. sacudia-me nervosa. longas e nuas. as corvetas. Inseguras. Acocorada no banco de pedra escorregadia. E desse modo. trabalhada e gasta pela ondulação e pelo sal do mar. Maria e a sua nora. julgava terem sido a rainha D. que na época dela aportavam ao Cais das Colunas. de quem se sente ameaçado. Distinguia-a debruçada na amurada onde eu tantas vezes já estivera com o pensamento nela. as corvetas. como se por um passe de mágica fosse encontrar nas suas águas turvas os bergantins reais. nas fachadas do largo com os seus passeios perdidos por dentro da obscuridade das arcadas. desejando descortinar tudo o que dali ela abarcara a navegar no Tejo: as faluas. E eu acabava por pular para o chão que ali era de terra batida. na esperança de ver despontar ao longe as flâmulas das fragatas.Almeida. antes de ter oito anos e entrar com a mãe e a irmã para o convento de São Félix. mas apenas encontrando. que com frequência subia a manga do vestido leve. que à socapa da Corte ia à praia de Belém molhar os pés de rapariguinha agreste e desavinda com o destino que a tirara de Espanha. De impaciência. espaço oscilante delineado pelas suas esguias pernas bronzeadas. as carruagens e as cadeirinhas de cortinas em veludo misteriosamente corridas. que perto da Torre de Belém se vem misturar com a doce água fluvial. Chegava a sonhar com ela enquanto menina. ao contrário da minha mãe. Olhar determinado de luz. e antes também de fazer poesia. as barcaças… A passarem ao largo. a boca crispada de sede e de calor. desconsolada. o rasto dos cacilheiros na sua travessia laboriosa e lenta. as gabarras de vela de dois mastros. – Essa nossa avó dos poemas também vinha aqui só para tentar alcançar o horizonte – tornava minha mãe divagando.

consciente de quanto me custava partir daquele vão de sonho. como se fossem lágrimas. coração aos saltos no peito liso. como se quisesse perder-me lá atrás. soltando os dedos do entrançamento dos dela. musgo e limo. deixa-me! Então eu afastava-me ainda arrebatada e. sonsa. os perfumes das flores se enleavam em treliças de cores e tons. eu deixava derreter o sorvete de chocolate e baunilha na pequena taça de metal redonda e embaciada pelo frio. Gotas. salpicados de cheiros salgados. podemos? Mas em silêncio ela empurrava-me à sua frente. trespassado pelo grito das gaivotas. que sem cessar buscava em torno. numa repentina ansiedade. e eu me perdia na sua imagem alvacenta de loura. distraída com a sua beleza. arrastando o andar. de imediato me empurrava. aflita. se sentava na esplanada comigo ao lado a fazer sentir-me invisível. para mim tão mágico. pouco antes de chegarmos à Pastelaria Suíça onde. a contornarmos por fim os cestos de verga cheios de rosas das floristas. Lugar a ser substituído pelo parco fascínio iridescente dos repuxos das fontes das mulheres. povoado pelo equívoco odor ácido a águas escusas.Vulnerável e débil. e encomendava ao criado um refresco de chá. numa súbita urgência. amarfanhado pelo pavor de que me tivesse esquecido para sempre. não vem! – dando-me conta ao mesmo tempo da estranha expressão ansiosa da minha mãe. onde os odores. – Anda! – tornava a minha mãe em tom cortante e breve. mas logo sobressaltada e obsessiva. demorando a nossa chegada ao Rossio. E deste modo avançávamos. tentando iludir o choro mal contido. E se contrita me agarrava ao seu corpo tépido. enquanto eu me ocultava por trás fosse do que fosse. como se sufocasse: – Deixa-me. a exigir que a seguisse mesmo se a contragosto. Até que ela se zangava. podemos. esgueirando-me de onde estava. Mesmo assim eu persistia na demora. a atrasá-la para onde. por entre as pessoas que iam e vinham apressadas. áspera e desprendida. arreliava-a rogando. . sem me dirigir a palavra. sem se aperceber das figas que eu fazia por baixo da mesa. que vinha com gelo e hortelã num copo esguio e alto. com o intuito de castigá-la. enquanto. mas já parando diante de cada montra nas quais nos reflectíamos. – O que estás a fazer? Pareces parva! – ralhava desatenta. Em desordem. voando até aos seus braços que encontrava fechados ao meu alvoroço. na lamúria de fala: – Podemos tornar ao rio. como então lhes chamava. a sentir já a falta dos minutos de intimidade passados uma com a outra diante do rio. – Vem! – quase gritava. corria arrependida. a boca entreaberta num grito mudo mas descontrolado. despidas sob a água que lhes corria pelo corpo e pelas faces de bronze. E ao vê-la finalmente dar por falta de mim. se dirigia praticamente correndo. que eu detestava. primeiro ensimesmada. enfastiada da minha companhia relutante. e ela não dando pela minha ausência seguia. teimando em atrasar os pés calçados com as sandálias novas de tiras cruzadas. a espiá-la. repetindo para mim mesma: – Não vem! Ele não vem hoje. amarescentes. obstinada. numa mistura de verdete e zinco. que eu tentava aflorar com a ponta da língua.

Sinuoso. o olhar perdido ao longe ou correndo ansioso por aqueles que passavam. até ela me cortar a palavra com um olhar ausente e gelado. Depois de passarmos o portão de ferro forjado e percorrermos o caminho das pedras. a fim de. ambas silenciosas. radiosa. cara longa e olhos cor de avelã ensombrados pelas pestanas negras. embora ainda desesperada. rápidas e comprometidas. eu continuava a fantasiar: de início num murmúrio que ia subindo num crescendo agudo. trazendo um ramo de açucenas ou de ervilhas-de-cheiro. no cinzeiro. desde mentiras a pedaços de histórias inventadas. pois nem sequer me ouvia. levando-a consigo. Sem saber bem de quê. em desabrigo. Cismando eu em apanhar-lhe as pétalas. «Esqueceu-se novamente de que sou sua filha». e o arrepio do medo começava a trepar de manso até ao meu coração dilacerado. mas a sentir a sua anca afastar-se. a tropeçarem no corpo ou na chávena. a entreabrir-se. versos e perguntas que nunca obtinham resposta. inoportuna. embora gostasse de lhe ver os dentes brancos. a beber café duma pequena chávena de porcelana com uma lista fina no contorno da borda. – Para onde estás a olhar? Ouvi-a a repreender-me desprendida. já perto da hora de ser servido o jantar. numa mistura de risos. num tom agreste. de encantamento maligno que a tomava. apercebia-me assombrada. a fazer-me sentir indesejada. naquela casa silenciosa e aparentemente deserta. como as palmas das suas mãos fortes e morenas cobriam (apenas por alguns segundos) as mãos da minha mãe. braços trémulos que juntava ao corpo cuidando aquietá-los. na taça do meu gelado derretido. estrangeiras. ele aparecia apressurado e expectante. chamava-a num sussurro de brisa árida: – Mãezinha… Só que ela já voltara a perder-se dentro de si própria. a minha mãe transportando a marca da sua infidelidade imperfeita. mas sem conseguir esquecer a presença dele. semelhante a uma rosa ou a uma camélia. romântico. simultaneamente possessivo e indolente. nem porquê. Apesar de estar ciente disso. fitei com acinte aquele homem moreno. A desfolhar-se.Para entretê-la. E quando eu já me alegrava. Não me contendo. mas do seu lado. E na tentativa de fazê-la lembrar-se de mim. que me pareceu inóspita e ameaçadora. começava a falar do que me vinha à cabeça. e de como ela. as retirava. um perfume. Lembro-me. ansiando por amparar-me nela. as guardar no meu quarto. ou somente o seu sorriso perfeito. falando baixo de coisas que eu não entendia mas a levavam a rir alto. presa de uma espécie de fascínio. sentado na cadeira diante da minha mãe. sigilosa. escondendo-as debaixo do travesseiro. . certos e húmidos. e ela recompunha-se como por milagre. e eu a de sua cúmplice. um disco com uma ária de ópera. No primeiro desses dias fugazes chegámos a casa atrasadas. quando tirou a chave da mala para abrir a porta da rua cambaleei a tiritar de frio como quando se tem febre. num riso solto de prazer que me envergonhava ouvir. olhar incerto a afastarse do meu demasiado depressa. relutante. risca perfeita no cabelo acamado e luzidio de brilhantina. Assim entrámos como duas estranhas.

Sem uma palavra e nem sequer acendendo a luz. Afastei-me. invisível. fui-me apercebendo da música: uma ária de Puccini. Mas. sentado à secretária. muito magro e moreno. reparei que debaixo da porta do escritório do meu pai havia uma lista de luz solitária. desconhecendo que até de olhos fechados eu era capaz de seguir a pista do odor almiscarado do seu corpo. aliviada. atordoada. a descobri-lo. . a preparar a aula que iria dar no dia seguinte. junto da escova de cabelo com cabo de prata e dos frascos de cristal onde os aromas conturbados se entorpeciam. Furtiva. a minha mãe largoume no escuro. e estaquei do lado de fora do quarto de dormir onde ela se fechara. E encostada à parede do corredor. Deslizei. e sem ruído entreabri os batentes apenas encostados. pois. Em bicos de pés aproximei-me. rodeado de cadernos e de livros. descobriria mais tarde. a adivinhá-la no atirar da écharpe para cima da colcha de cetim corde-rosa e no pousar da malinha sobre o tampo lavrado da cómoda. eu era hábil na arte de urdir. a pouco e pouco.

leve balancear das ancas magras. *** Olhou o livro que o pai tinha nas mãos magras. que ela acabou por quebrar num repente. da janela do escritório. gume e espelho a mostrar coisas terríveis que não queria ver nem escutar por tanto a assustarem. bonitas. curvando-se. enquanto em silêncio o pai. miudinha de ossos e de carnes. para logo a derrubar nos braços a descê-la um pouco inclinada até a pousar de novo no chão. pô-la debaixo do braço e contornando o maple de veludo grená. embora aparentemente relutando no seu próprio gesto inacabado. Foi então que. na sua posição inclinada de lado. E quando a mãe se voltou. sapatos de verniz preto com presilha de abotoar no peito do pé com botãozinho de lustro. súbito rompante incontrolável. ficou imóvel. em vez de tentar encontrar-lhe o olhar cinzento esverdeado que sempre se distraía dela. pô-la junto da anca fina. de braçado. palavras que se misturavam no grito. de uma palidez doentia. a menina. passo tímido a deslizar no chão encerado. enquanto dizia. começou a andar na direcção da porta do escritório. roçou ao de leve com o tornozelo o biombo lacado . Mas como de costume acabou por sair sorrateira do seu esconderijo onde passava tardes inteiras. aturdida no seu fatinho de cassa de algodão de rosa da Abissínia. olhos lápis-lazúli toldados pela mornidade das pestanas. A vê-la afastar-se da sua vida: loura e esguia. por segundos julgou vê-lo encolher-se como se temesse que elas regressassem. Pegou nela. Depois. fininha e atordoada. modelando as palavras. um pouco antes de se perderem as duas no escuro do corredor da casa. delas entendendo só a ameaça. para ir de manso encostar a face pálida à saia lisa e travada da mãe. sem no entanto dar qualquer sinal do arrepio que sempre provoca o ínvio encontro com a adversidade. a menina ouvia-os discutir. Mal escondida atrás dos cortinados de um tom dormente de pêssego aturdido. pernas altas à transparência da saia lilás. e num passo nervoso mas decidido evitou a chaise longue de faia com estofo de damasco. num arroubo esta a agarrou e a subiu ao peito apertando-a muito. sentado à pesada secretária de mogno diante dos cadernos de capa de oleado preto e dos livros sublinhados. tornou a agarrar nela. bibe de bordado inglês no peitilho a defender o vestido de organdi cor de romã com mangas de balão enfunadas. a mãe disse: – De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. sem moderar a exaltação da voz: – De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. olhar de hortênsia subitamente fixo.LÁPIS-LAZÚLI Em contraluz e falando devagar.

no silêncio de acinte que guardava. as duas silenciosas.e. em vez de coar os odores do corpo da mãe. sem um gesto. mas a menina que levava um ouvido encostado ao seu corpo ouvia o silvo. A mãe. magrinha e perplexa no vestido de organdi cor de malva. Espectador. apenas? O olheiro da casa. desceu a mão e em seguida abriu os dedos que até então mantivera fechados. fez correr a fechadura cromada. tentando encontrar os traços do seu rosto perdido na escuridade absoluta. encrespadas. a menina que então se encontrava de lado. lhe trazia intactas as essências frutadas. Apenas uma imensa e gelada indiferença. impedisse a mãe de a levar consigo quando partisse. sem aparentar qualquer estremecimento de arrependida. mas virada para a maciez dos seios da mãe. E encandeada. no intuito de largar as chaves sobre as cartas na salva de prata da mesa de cerejeira ao lado da terrina da Companhia das Índias. Naquele momento. Foi então que ela repetiu: – De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. tendo o cuidado de ao sair bater com a porta. E embora não conseguisse definir o sentir. reparou no brilho de lâmina dos seus olhos de anil luzente. vulto mal delineado pela luz que atrás dele alguém acendera. deixou o escritório. imóvel. a demonstrar determinação na pressa que levava. lábios colados ao cetim do vestido turquesa que. que a menina descortinou o pai. que no peito tanto a magoa. Tornara a tomá-la nos braços. na sua imobilidade e distanciamento. fitava-o fremente de indignação. pô-la debaixo do braço e deixou o hall. . da sua carnação de loura. vergastando o ar abafado com as chaves da casa que colocou na taça Arte Nova pousada no tampo da mesa de canto perdida na penumbra do fim do corredor. mão alteada ao peito. surpreendida pela inesperada presença do marido. desviou a cara para a cintura delgada. uma palavra que detivesse. soube do espinho envenenado que acaba de lhe atravessar o coração pequeno. degraus tépidos do Estio muito quente. a mãe flectiu o pulso onde dançavam sete escravas de ouro. por seu lado. encolheu-se na tepidez da pele suada do braço perfumado que a segurava. a menina percebeu que ele nunca passara disso mesmo: observador ou testemunha muda. Parou só um tudo-nada antes de respirar fundo e começar a descer as escadas de mármore cor-de-rosa raiado. a silva que lhe atravessava a respiração abafada. junto do arco que dava do corredor para o hall da entrada… Mais a sombra do pai do que ele mesmo. Quando iam a caminho da porta da rua na obscuridade do corredor. Sem zanga nem queixume nem afecto expresso. Sem tropeçar em nada ela atravessou a penumbra. como se fosse num filme. sem se voltar para trás em jeito de saudade. Foi quando a mãe para abrir a porta a pousou no chão. Lentamente. E com andar orgulhoso afastouse.

E foi quando. e mais acima. encontrou abaixo do ombro da mãe e sob o pulso que a estreitava nervoso e febril. os olhos lápis-lazúli ponteados de estrelas que ela sempre ia inventando em translúcidos simulacros de realidade. rosto afogueado no desejo de erguerse na direcção da luz. os lábios junto da barriga da mãe. a delineada doçura dos seios delicados. enrugando odores anisados que lhe enchiam a boca de saliva. desviados numa inquietude esquiva. bebia-lhe o cheiro a rosas selvagens que lhe chegava coado pela seda escarlate do vestido liso. . ao virar a cabeça de cabelos encaracolados cor de fogo. de onde iam caindo um após outro os laços de um amarelo-pálido.A menina que ia de lado. perto dos seus lábios ávidos e humedecidos. a ondear ao longo das coxas altas.

intuindo mais do que sabendo o desvario e a vertigem. nela se desmanchando na equívoca precisão do gesto côncavo de lhe colher as nádegas: conduzindo-a até si e em seguida afastando-a. mas que de tão fulgente sempre a atrai. fenda que ela nunca ultrapassa. indo enroscar-se na tepidez da luz coada pelo tom de marfim das cortinas de renda. retardando. espécie de rugido selvagem de quem se descobre a si mesma entretecida e dúbia. enquanto consegue dominar um novo arranco que já sente trepar no amargor do excesso. as ancas direitas do pai envolvendo a lonjura das pernas altas da mãe. num esvoaçar de balouço. para depois rodar sobre si mesma e tornar ao ponto de vigia. A empurra e a agarra. sem evitar o fulgor. e muito devagar começa a levantar-se. barriga lisa firmando-se na ombreira onde vai deixando pousar as pétalas esvaídas dos lábios numa espécie de beijo mudo. afasta-se. colcha de cetim cor de cravo rosado que os corpos entrançados enrodilham. a menina amedronta-se. Espia na casa do amor. De súbito aturdida. o dulçor do cheiro que sabe vir do corpo da mãe. Em seguida terá de limpar do rosto o vómito azedo à ponta da camisinha de dormir. joelhos de ossos miudinhos a cederem enquanto tenta passar pela fresta da ombreira da porta entreaberta. e já de joelhos vomita nas tábuas enceradas do chão. amparando-se à parede branca do corredor. nó de nudez e de gemidos e gritos mordidos como sempre. dirige os olhos relutantes até à cama. os dedos longos dela atados ao seu pescoço num laço ávido. estonteada a menina lentamente escorrega. travo a licor de rosa púrpura estilhaçado pelo almíscar da quentura das feras. lâmina da qual ela sente o gume sem entender o motivo. para logo recomeçar tudo de novo. da invenção que a salva. Caracóis molhados do suor que lhe perla a garganta frágil. aproximando-a. enquanto ele a sobe e depois se debruça. que se entrega enquanto inclina para trás a cabeça. perdida toda a noção do tempo. Perdido o equilíbrio e o arrimo da imaginação. caule de lírio alvo de onde parte aquela espécie de uivo mordido. sem conseguir desviar a atenção do que acontece no quarto. Enojada. linha intacta e pura das costas por onde desce a correnteza loura dos cabelos. Demorando. fazendo-a recuar. amparando-a com as coxas quando ela se esvai muito pálida. pela frincha que deixa estreita. boca ávida a buscar a sombra espessa e dourada daquela pele assombrada no vértice do ventre liso.A ESPIA A menina empurra de manso com a ponta dos dedos a porta do quarto dos pais e. . a menina assustosa morde a língua até sentir o travo do sangue que engole à mistura com as lágrimas. enquanto olha fascinada o pai a reclinar a mãe nos lençóis e nela se deitando.

E quando a mãe rola na cama. . inundados de espanto ou cegos de delírio. olhos lápis-lazúli de súbito a fixarem-se nela. cabelos emaranhados e boca húmida. Olhar arrebatado. limita-se a estremecer vagamente.

liso e encorpado pelo calor. Então a mulher chama Mónica. a sulcar-lhe o ventre e as coxas. o calor é temperado por uma aragem que percorre. A mulher desce os três degraus e. junto ao canteiro onde só crescem ervas daninhas. dedos fechados sobre os joelhos nus e subidos até perto dos lábios crestados pela sede e a aragem ácida e salgada. percorre-os com os olhos semicerrados no esforço de se concentrar . absurdamente ausente. que no começo do Outono começará a soltar-se das ondas e a infiltrar-se. Chama a criança que se volta e a olha tal como há pouco fitava o mar: distraída. cabelos no desalinho do sono que ela sabe ser sempre inquieto. um calor pegajoso e espesso a envolver os corpos. envolta pela luz ácida da manhã. Mónica observa todos os gestos da mãe: um por um examina-os. na saliva. abre a torneira escondida pela esquina da parede da casa. levanta a mangueira a encontrar o alívio da água adocicada. sem reparar no oceano que ao meio-dia ganhará um tom fulvo de fogo domado pelo sal da água. somente cortado pelo sabor acre do álcool e do suor do gelo no vidro do copo e nas palmas das mãos. debaixo da palmeira. mas que dentro de duas horas queimará como uma labareda. distraída. Atenta e voraz. pelos ombros. A mulher pára a observar Mónica. a contornar-lhe os seios duros. Para lá do portão de madeira lascada. onde no último degrau a criança se esquecera de brincar. e em silêncio olha em frente. dir-se-ia que sem a conhecer. como uma mínima lâmina. pouco a pouco. levanta e mistura a areia com a terra ressequida do atalho que começa quase ali. agreste. por dentro da noite sufocante. um calor naquela manhã intacto e se possível maior ainda do que na véspera. que engole ao senti-la finalmente deslizar pela cara. Parecendo por momentos fazê-la esquecer a sua vida isolada. calções desbotados. pequenos caracóis colados à testa e ao pescoço alto por uma humidade febril que a entontece. sem dar conta do mar a perder-se na praia.CALOR I A mulher fica à porta a olhar Mónica a brincar no pátio. apenas o seu nome. um pequeno vento rasteiro fazendo mover devagar as folhas secas da palmeira que se ergue no pátio onde a criança brinca. a gretar a pele. mas que na sua claridade intensa e dura faz cegar a mulher mal esta chega à porta escancarada que dá para a escada de pedra. embora por enquanto apenas se aloure e engrosse sob o calor opaco. desatenta. baixo. nos cabelos. sem se dar ainda por isso. devora-os. cortante. displicente. E a mulher desce os três degraus de pedra morna. camisolinha gasta. cheios e tensos. vulnerável e vertiginosa. uma ponta de aço ou de diamante acerado. sem nunca a ter visto.

à mistura com aquele bafo de Estio ardente. obediente. De todo o mar. de onde fica a contar os barcos que passam ao largo com as velas inchadas de vento. . O caminho que conduz à praia imensa. tojo carcomido. a mãe ainda húmida e fresca da água da mangueira a aproximar-se dela. de plantas selvagens. insectos que a criança esmaga nos braços com a ponta dos dedos. a mulher cede ao cansaço: deita-se de bruços. Depois. que em seguida se dirige para o portão baixo. a abrir-se sem esforço. a leveza da planta curva dos pés que quase não apoia na pedra quente. calada e sem se mover. talvez temerosa do maior calor que antecipadamente teme encontrar. a perder de vista. da urze roída pelo sal das areias desgovernadas. cancela antiga de onde chama a menina que voltara a sentar-se no último degrau da escada. deixando no chão a marca do contorno dos seus passos sobressaltados e. uma fina sombra esfiapada e puída. mas apesar de tudo leve. cada vez mais quente. enquanto o leite desce pela sua garganta contraída. e diz alto. por instantes esquecida da vontade de fugir pelo estreito caminho ladeado de cardos e espinhos. A mulher traz-lhe uma caneca de leite com bolhas de gordura a nadarem no cimo cremoso de brancura intacta. as tranças a voarem-lhe nas costas. Ao vê-la distanciar-se pelo trilho poeirento e árido a mulher sente medo. e onde a criança continua sentada. a enlouquecer com o zumbido persistente dos insectos que ali tentam inutilmente fugir à brasa incandescente do princípio da tarde. A criança engole o leite. em cada degrau da escada. nata a pegar-se às bordas da louça vidrada e em seguida aos lábios. A mãe acena que sim. rangendo nas dobradiças enferrujadas. As duas olham o mar. mas que logo passa correndo à sua frente. Sob a palmeira a mulher penteia Mónica.nos seus movimentos e gestos bravios. ou a escutar os estampidos dos motores das lanchas a fenderem as ondas que rasgam de cima a baixo. docilmente abandonada às mãos macias da mãe. esconde o rosto entre os braços magros. sem entender o porquê dessa súbita angústia. dessa espécie de premonição materna. E o seu desespero logo toma a ambígua dimensão de todo o amor. erva curta e seca. fingindo brincar. com dunas altas às quais gosta de subir até ao cimo. translúcida. numa chuva de espuma transparente. a forja do sol incandescente a ferir-lhe o corpo neste momento ainda abrigado à sombra esgarçada da palmeira. as pernas magras tisnadas pelo Verão. subitamente alto: – São horas de ir para a praia. receio desperto pela solidão.

indiferente à queimadura do sol que a envolve. Mónica limpa o suor acumulado sobre o lábio superior e no seu pulso fica um risco húmido. fita o mar em frente.II Mónica vê a mãe estendida de bruços. também se recorta de encontro ao horizonte anil. não sabendo se ela adormecera de torpor. A vela desfraldada que parece apontar para o alto. quem sabe se também o barco a distanciar-se de novo. os braços erguidos e dobrados onde repousa a cabeça. cegos de sol. irregular. Sufoca-se sem uma aragem. rija de calor. ao comprido. de encontro ao céu esbranquiçado. esquecida da criança . em seguida leva-as até aos joelhos unidos e erguidos que abraça. De onde parte um odor espesso a madeira aquecida. Com as tranças a roçarem os ombros delicados. com uma luz difícil de suportar. claridade ácida a prender-nos o pensamento. agora sentada. e ao voltar-se apercebe-se de que a mãe se movera e. Por momentos Mónica fixa o céu. olha ainda a mãe estendida de bruços. a olhar apenas por olhar. atordoada. o corpo quieto e dourado com a sua pele de uma maciez deleitosa de seda. as pernas abertas. o corpo delgado. deixa tombar a cabeça para trás. Adormecida? Pergunta a si mesma se na realidade a mãe terá adormecido. a incendiar a atmosfera àquela hora em que a tarde começa. caminha lentamente até sentir nos pés a frescura redentora da rebentação na areia molhada. quieto. uma mancha estreita. de cabeça erguida. O sol é uma mancha esbranquiçada. ou se somente o horizonte ou nem isso. O mar de um azul intenso com laivos de verde-ácido. os olhos muito abertos. Mas a criança não se apercebe do barco nem do homem. Então. sem perder a mãe de vista. ou a perfume retido há muito num frasco de vidro onde pouco a pouco se adensa. por seu lado. entontecida de calor ou de sono. as pernas firmes e abertas. limpa o suor que lhe humedece o pescoço alto e. A praia vazia faz lembrar à menina um enorme deserto onde se encontrasse perdida. estremece ao de leve. e o homem que. o rosto iluminado pela claridade ávida. o homem de pé. ondulando num movimento perpétuo onde apetece mergulhar num breve arrepio de receio. onde Mónica apoia as mãos pequenas. os cabelos muito louros a tocarem a areia escaldante e rugosa. a vela muito branca e aquietada na atmosfera estagnada. absurdamente imóvel. quase enegrecido. intensa. nua. O barco que há pouco era apenas um ponto escuro. os cabelos muito louros a tocarem a areia quente. a pele lisa e brilhante. distingue-se agora recortado ao fundo da lonjura. pele humedecida por uma neblina pesada e entontecedora. sente medo e levanta-se. passa a língua pelos lábios gretados. Aí dá conta do barco agora junto da praia: a vela inchada e dura de calor.

a lembrar-se da penumbra tépida da casa. onde um pequeno barco parece abandonado ao sabor das ondas e do tempo. E ela limitara-se a confirmar: – Há menos rosas hoje.estendida à borda da água. estremece. embora a acaricie com os lábios. a mulher sonha com a rosa esquecida na meia-luz da sala. Na sua boca há um ricto de indiferença. de um homem apoiado nas suas pernas fortes. com a sua sombra doce. a esboroar-se aos poucos pelos recantos umbrosos da sala. Teme a própria imobilidade. imóvel. aguarda a rosa que lhe estendem. atenta ao ruído do corpo da mãe sobre a areia. quando ela mergulha. Dá umas braçadas. Novamente nadando de costas. sente o pulsar violento do corpo e recorda-se do homem. e regressa ao presente. os cabelos a aflorarem as rosas rubras ou de um amarelo-pálido. e estende-se de costas. esvaída. como se a perseguisse. vacila. a fugir desse modo à atenção obsessiva de Mónica. com o sol a bater-lhe de frente. A mulher que recusa. que com uma rosa pousada nos joelhos adormeceu. Segue-lhe o andar e. agora – murmurara. Deitada de costas no mar. o corpo distendido. E ali fica. os braços pendentes. mansamente. retomando o fio-de-prumo das vagas. sem pressa. e trema de cansaço». a mulher relembra a sala. num manso caminhar onde as mãos se demoram nos gestos mais breves e esgotados. num outro tempo… Eis a mulher. numa longa viagem. tal como a vela branca endurecida e tesa. afinal. Do lugar onde está. de um azul que de memória sabe serem azul-safira. perfeitas. com um ardiloso sabor a cicuta desfazendo-se na língua. as pupilas contraídas. De febre? Eis a mulher que se debruça sobre a jarra. somente distância ou apenas memória tomada das suas palavras. Ali. talvez haja. obscuros. e os olhos sombreados. arrancada à contemplação de cada um dos seus mais pequenos movimentos. brandamente sedutora. uma mancha mais escura a recortar-se. a perderem-se nas cores abertas e insidiosas. inventa: «Eis a rosa que nego e recuso. – Há menos rosas. mas que sem sequer a fitar não a recebe. Olha. No crepúsculo. ténue. O homem que lhe estendera uma rosa de esplendor. leva os olhos presos na água onde entra sem pressa. a iluminar a penumbra da sala: uma rosa branca. as tranças sem laços atiradas para trás. e nada em direcção ao largo. de costas no mar. sem ver ninguém. A mulher repara que ele parece fixar a criança na orla da praia. A mulher sente o corte brusco da água a cobrir e a rasgar o calor do seu corpo. e ao imaginá-la. os olhos presos no tom esbranquiçado do sol. No entanto. as pernas muito altas. . que aninhada na praia a acompanha com o olhar azul-pavão. sem saber se aquele hoje significaria tempo. Mónica só lhe distingue as longas pernas bronzeadas. E quando esta passa por ela. sem nenhuma brandura. magra e frágil. vogando ao capricho das ondas.

não serve. um imenso deserto a perder de vista. e só a rosa caída no tapete. senta-se no seu sítio um pouco afastado e. perturba a organização da tarde. no deleite da própria sede.A sala. já nada mais tem verdadeira importância. querem ensinar-lhe ao corpo. Que falsa acusação lavram. os cabelos escurecidos pela água a tocarem a areia. que deste modo posto sem pudor. os dedos que se crispam por segundos no tecido da saia. a pele dos lábios. como é hábito. a sublinharem o nada a que desde o dia do nascimento fora votada? Sente o pulsar violento do coração e resolve regressar. A secura. temerosa sobretudo da memória. desmanchada. Ergue as mãos. do barco a afastar-se cada vez mais. os cabelos louros cintilando no final de tarde. desfolhada. Da recordação do homem de pé no seu barco. a impeli-la para a fuga. Que torpor e passividade lhe pedem? Que posições lhe insinuam. como que a defendê-la dos outros. Então Mónica aproxima-se. tropeça na cama. Não atenta à presença das rosas brancas ou amarelas. a boca entreaberta. onde ela se demora. . Sente o sol queimar-lhe as pálpebras. para regressar ao final da tarde. o sono a ganhar-lhe os membros distendidos em abandono. recua. sem saber se ela teria adormecido ou se descansa apenas antes de voltarem a casa. Atenta. Do homem a espiá-la. tentando afugentar a memória daquilo que sabe poder vir a recordar em seguida: o olhar manso de espanto. nem às outras mais intensamente sanguíneas – uma destas está posta nos seus cabelos – mas ao silêncio que a rodeia. absorta. enquanto se curva sobre as rosas numa fingida atenção demorada que todos aprovam. Mergulha de novo. a impedi-la. e vai deitar-se de bruços sobre a toalha onde poisa a cabeça. dizem. palavra após palavra. e em seguida tornar a distanciar-se a fim de voltar de novo na manhã seguinte: o calor a esboroar-se na proa do seu barco. como se não a visse. nadando sem pressa. na pele descoberta das coxas entreabertas. A praia vazia àquela hora parece-lhe um enorme deserto. tem os olhos fechados. já cansada. A secura. fica a olhar a mãe. A mulher passa pela criança na areia. E já nada mais tem urgência. com as rosas nas jarras e a mulher que as examina e se inclina. O calor a tomar novamente conta da nudez do seu corpo.

O oceano ficara subitamente prostrado e liso. ao contrário do cabelo escuro e acamado pela brilhantina. como usavam então os actores de cinema americano. correntes e espumas. gesto ágil. ambos desbotados e já acanhados para a sua medida de criança solitária. A lembrar Rudolfo Valentino. E durante anos. julgando estar prestes a ver a mãe emergir das águas como Vénus. a explodirem em delírio à sua volta.RAQUEL Raquel imagina equilibrar-se na crepitação das ondas que vêm de manso envolver-lhe os pés de concha rosada. Movimento alado de bailarina fazendo o seu cabelo louro libertar-se num jorro de luz. a primeira vez que viera sentar-se a seu lado na areia escaldante. – A tua mãe parece uma sereia – dissera-lhe o homem. . numa vertigem estonteada. a precipitar-se ondulando nos ombros molhados. Ela é uma deusa – acredita. a memória prisioneira daquele espaço ardente. ela aguardara franzina e frágil no vestido curto de piqué azulado. livre e sinuoso a tirar a touca. Mesmo assim Raquel continua expectante. Lianas breves e açucenas de chama recamada. tentando puxá-los em seguida ao retornarem ao mar. sob a inclemência da claridade intensa. Ou iluminá-la. A menina olhara-o de raspão. ou no fatinho de banho de malha com alças de rolo. teima naquela espera iníqua. todos os meses de verão. E volve para o sítio habitual os olhos fixos no anil do horizonte. fulgor que parece empenhado em cegá-la. sem desespero nem cansaço. com uma espécie de zunido acre. acalmado de marés. todos os dias. sem se deter sequer na sua boca muito séria que achara bonita.

febril e quebradiça. «demasiado engenhoso para seu dano». tentando mitigar no frescor da beira-mar a sede que a atormenta. Mas a menina consegue captar o mal contido ímpeto da haste do seu corpo. de halo. velo branco e negro. de mergulhar. À sua frente o mar mantém-se ilusoriamente imóvel. porém. . que surdamente tenta submeter o tumulto e iludir a rasgadura dos nervos. Raquel estremece assustada. Aturdida pelo mistério. folhas e urze. inebriando da silva do peito ao silvo da respiração. na companhia indesejada e ardilosa de sua irmã Lia. grave. É ali que ao fim da tarde Jacob costuma procurá-la. «Talvez apenas mais súbita. pastoreia um rebanho de cabras e de ovelhas magras. E ao retomar o seu posto de vigilância. rumoroso. Suspeitosa e dúplice. a criança grita antes de despertar. – A tua mãe é uma sereia – assegurou-lhe o homem num tom de temperança. do silêncio implacável e enganoso de Raquel. invisivelmente trabalhado pelas farpas das rochas e amaciado pelas algas do seu fundo incomensurável. dobado. aproxima-se com o seu passo miúdo da areia molhada. destrinçar os cristais. olhando à roda como se escutasse alguém a chamá-la naquela aridez amarelada e carcomida pelos ventos agrestes. observar a fatalidade da sua mirada azul-safira. desmancha uma por uma as tranças longas. os brilhantes e as estrelas que traçam uma espécie de arco-íris.» E inesperada. Ambos à espera de que ela se canse de flutuar. sem lembrança do sonhado durante o curto e sobressaltado sono – de olhos bem abertos. Caracóis empoeirados e revoltos a toldarem-lhe o olhar de esmeralda sombria. constelações e diamantes de Estio.Uma vez por outra. sonolenta devido à canícula que a aflige. de aura a circundá-la: cintilante. raízes e árvores tristes. resplandecente. e volte… Para além deles. não se dando conta. implacáveis. onde num outeiro de erva curta. de nadar. Iludindo.

Imoderada. Vendo-se reflectida no espelho do precipício Raquel recua. Prisioneira das ambiguidades que a consomem depois de ter sido afastada dos braços de Jacob. desamparada. sentando-se. Sob a brasa do calor. sedutora de aventureiros e piratas. forma abandonada na brancura escaldante sob o sol a pique. com a voz enrouquecida dos cantadores dos tangos argentinos de Gardel: – a tua mãe é uma sereia… E a criança suspirara num brando e trémulo sussurro. desmanchando-as e desfazendo-as ao perfazê-las no sentido oposto. Ignorando a menina até a sede das águas de súbito imobilizadas e falsamente toldadas. pretendendo decifrar o enigma. desfalecida. Um ponto apenas no areal imenso. que Raquel conhecia de poemas e romances tirados das estantes de casa e lidos às escondidas da austeridade do pai. Chegando à morada de Deus. Pior seria recordar os abandonos. «Vai-te. Raquel desmaia. desobedece e fica. resolve seguir as pegadas do amado. cúmplice e meditativo. lhe confidenciara. os desagrados. «Eu voo e despenho-me» – suspeita. Insurrecta. se esgarça por entre os dedos pequenos das mãos que tem de pétala a cheirarem a maresia e a lágrimas secas como flores. Na paisagem ao fundo pensa divisar o vulto de uma mulher delgada e vacilante a esboroar-se. a temer que ela se desgraçasse no alto-mar. as florestas malditas e os pântanos. para quem olhe de longe. desespera-se com a flata do seu corpo entre os lençóis da cama vazia. Imoderada.À medida que o Verão se esgota. levada pela atracção da queda. corpo leve e enrodilhado em torno de si mesmo. incerta do que sonhara. antes de se afundar. Mas tomada pela paixão do conhecimento. encantadora de Ulisses. E tal como acontecera a Jacob. rosto exposto e olhos azul-cobalto sem enxergarem coisa alguma do nada visível à sua beira. Desejando pedir ajuda ao divino e lembrando-se de onde ele se deparara com a «porta do céu» quando da saída de Bethsabée a caminho de Haran. asas matizadas pelas quais de imediato se enamorara. deita a cabeça numa pedra e descansa. atordoada. logo se depara a escada de ouro com degraus de luzimento. as areias movediças por onde desde cedo corre risco de . a menina torna a si. respiração opressa sem quase lhe altear o peitinho débil. por entre a bruma dos sentidos desacordados. as perplexidades. turvadas por uma cerração baixa e tremeluzente. Imprudente. por onde os anjos descem e sobem para além das nuvens. Devagar. Tudo começara quando o homem aparecera a seu lado e. que este não é o lugar das mulheres!» – ordenara-lhe o Senhor.

vida. vagarosa. embora jamais a tivesse possuído. A menina rumoreja. E ao pôr-se de pé. . os danos da saudade. – Perdi-a! – sabe. Pior seria recordar a dor. o caos onde habita. cada vez mais distante. a queimadura da lava e das cinzas ardentes dos vulcões. como se fosse um pássaro. Raquel fita as ondas e nebulosamente julga distinguir a mãe no sentido contrário à corrente. o desassossego.

o pai cuida sempre de lhe confirmar a realidade: – A tua mãe perdeu-se no mundo… E conhecendo o olhar branco com que a filha habitualmente lhe responde. Quando tinhas quatro anos. Cansado da sua equívoca mudez. A saudade que o tempo não apazigua. ou de ter visto a prata da lua derramar-se na própria pele tisnada. curvado sobre os livros e os cadernos que permanecem intocados. adormecendo antes de a cabeça tocar o travesseiro. sublinhando com crueldade de lâmina e gume voraz: – A tua mãe jamais te amou. não ergue as pálpebras pesadas. porém. Tão exausta que se deita sem comer. . tentou matar-te… Lívida como a cera e sem um único gemido. atenuando-lhe a ferida da alma. incendiado na lonjura do universo. Desta vez. levanta-se e acrescenta. Raquel tomba inerte e fria aos pés dele. O coração parara.Raquel chega a casa habitualmente depois do sol-posto.

numa regular monotonia entorpecedora. mais névoa ou negrume de cobrir o sol. vestida de shantung escarlate e casaquinho cintado cor de marfim. no instante em que a desordem começou a tomar conta de tudo à sua roda: primeiro foram as jarras dos gladíolos. perturbando-se se o primo mais velho lhe ia espreitar sobre o ombro. as canetas. ela estremeceu e tapou inutilmente os olhos de um azul líquido feito de lágrimas retidas. recorrendo ao instinto e à memória. os candeeiros. dando força aos sentimentos ruins. a fitá-la com severidade. – Isso não se diz da própria mãe – repreendera-a a avó. a moldura trabalhada de casquinha. levando consigo duas malas de cabedal depois de ter largado as chaves em cima da cama por fazer. as figuras de biscuit voando como se tivessem asas. houve um ciclone que derrubou a vida de todos. com as suas prateleiras compridas de madeira encerada por onde ganhara o hábito de passar os dedos numa espécie de carícia breve. levando-a a tropeçar nos versos. vingativa. cabelos louros ondulando nos ombros. os discos. – Mais valia que ela tivesse morrido – desejara malévola. e do outro lado o relógio de pé alto. Assustada. as gravuras. Sem rebuço ela insistiu. um pequeno chapéu de feltro vermelho posto de lado. as mesas. É o inferno. os cadernos de capa de oleado e os livros do pai. num imenso breu ou como se estivesse cega e fosse preciso encontrar a saída do escritório. de onde também partia o bafo escaldante e um fumo denso. A precipitá-la no abismo. tacteando à volta. pêndulo de precisão a trabalhar o tempo.ECLIPSE No dia em que a mãe saiu de casa. o tinteiro. que se soltaram. A tempestade com o seu estrépito parecia vir das entranhas da terra. imaginou Laura. e em seguida as cadeiras. com a floreira de rosas-damascenas. repetindo numa zanga revolvida: – Mais valia que ela tivesse morrido choro oculto pelo novelo do seu fio de voz. o lustre de cristal de Veneza. hostil. que num rapidíssimo galgar se espalhara. a secretária. cobertores revolvidos puxados para trás deixando ver o lençol de baixo ainda com a marca leve do seu longo corpo de porcelana branca. acre como o enxofre. assim como as palavras dos poemas degustados com lentidão estremecida. que sem olhar para trás percorreu no seu passo dançante o curto caminho das pedras até à cancela de ferro entreaberta e alcançou a rua. e o jogo de faz-deconta da menina acabou por se transfigurar numa espécie de ficção assustadora. e mesmo o seu banquinho de madeira com assento de palha entrançada. Mas aquela manhã chegara embrulhada em negror. Maria. Nas paredes maiores estão as estantes até ao tecto. com o seu hálito quente. Mais adiante estava a mesa de canto D. a supor as histórias dos romances que lhe eram proibidos. num lastro de tragédia. impiedosa e . o cinzeiro e a caixa da Vista Alegre. onde estivera subida à janela a espiar a mãe.

«Mais valia que ela tivesse morrido». rodopiando perigosamente. ao vê-la a hesitar entre o saiae-casaco verde-água que lhe realçava a pele alva de loura e o vestido de shantung escarlate com o qual acabaria por sair. a alegria inconsequente. que no seu desatino ora os atirava para longe ora os trazia até si e os devorava. e num canto o volume encadernado de Madame Bovary. Imóvel. a espreitar pela fresta da porta a mãe que fazia as malas: no fundo os soutiens de renda e as calcinhas de cetim. as blusas. E ela escutou esse medo. Ao sentir-se atraída para o centro de onde . antecedendo a rua. a sacudi-la. pela porta entreaberta do quarto onde ela se arranjava. portanto. chegando-se a ela. alternando entre a ardência e a frieza. Tal como se sentira na obscuridade do corredor. levados pela vertigem de um vento incontrolável. «Mais valia que ela tivesse morrido». Pequeno chapéu de feltro vermelho a escorregar nas ondas do cabelo lustroso. de onde a observou a afastar-se. descorados e mordidos pela lâmina dos dentes. como se fosse uma bíblia. Laura atirou-se para o chão no momento em que os objectos começaram por erguer-se em torno dela com enganadores vagares de levitação.fraca. ao aperceber-se de que ela se vestia para partir. a imprevisibilidade dos seus actos. os vestidos de seda e tafetá. os frascos de perfume com essências de lobélia. O cofre das jóias. Durante anos Laura acompanhara-lhe a indiferença. pensou. doendo-lhe o desinteresse aliviado. Não se admirou. tentando fixarlhe para sempre a silhueta esquiva. tomando-a e enregelando-a. detido apenas pelos ganchos invisíveis e a travessinha de tartaruga a aflorar-lhe a orelha de concha rosada. sem sequer acenar a despedir-se. o peitinho ferido por uma dor revolvida e absurda. igual ao dos sapatos de salto alto muito fino. usando a vergasta do medo. o entusiasmo e o desprendimento. agitada. tendo como testemunha a filha. Alheia aos ventos uivantes que a sua fuga desencadeara. o rouge. «Como uma garça». lembrava-se de ter pensado. teimou com afinco. idênticos aos das actrizes que copiava seguindo-as nas páginas das revistas e no ecrã dos cinemas. nem ao escutar o som dos saltos dos seus sapatos no mármore do patamar que dava para o jardim de gerânios. de onde a soltaria no espaço. E no entanto era como se continuasse na sua obsessiva vigia voyeurista. sabendo quanto esse desejo lhe era interdito mas não se arrependendo dele. esvoaçando meio despida. desamada e esquecida por falta de merecimento. de narciso e de nardo. como se um sortilégio a prendesse e em simultâneo a invadisse pela devassa de menina culpabilizada. desmesurado e punidor. limitou-se a subir para o banco junto da janela. que por trás das vidraças lhe seguiu fascinada o andar dolente. para logo treparem no ar gelado. a envolvê-la e a empurrá-la. A caixa do pó-de-arroz e a cigarreira de prata guardou-as na carteira de verniz encarnado. o robe a adejar como uma asa mostrando-lhe as pernas longas e esguias. quando ela entrou no carro e partiu. as camisas de noite e em seguida as meias de vidro. Ou de culpa merecida. ansiando por guindá-la até ao tecto e daí às nuvens. E foi nesse momento que Laura escutou pela primeira vez o rugido do temporal que irrompeu implacável. os boiões dos cremes. que ela fechou pensativa e pálida. os lábios secos. iam na outra mala.

sentada ao início da tarde. por demais ciente de não gostarem os homens de mulheres melancólicas. vaticinada a um destino rasgado pelo brilho das grandes histórias de desespero e amor clandestino: um dia ansiosa pela banalidade de Emma Bovary e no seguinte a preferir o drama de Anna Karenina. como se fosse virar-se ou mesmo voltar atrás. onde a deitou na sua cama a cheirar a madressilva. culpando-se já do que estava a acontecer. Mal se afastou julgando-a calma e adormecida. enrolou-se sobre si própria. entretanto transformada em vendaval implacável. na pressa de fugir. a cara protegida pelo ninho dos braços. tal como ela. espionando pela estreita frincha os movimentos nervosos da mãe a preparar-se . Cansada da inexistência árdua. sabendo como encontrar o trilho do odor materno que a guiou resvalando de mansinho até ao quarto dos pais. garras em riste para a pegar pela cintura de friso da sua magreza e a levar consigo. para logo mudar a expressão transtornada do rosto em riso leviano.provinha a voragem insondável. Tão vulnerável que. Hipóteses que Laura inventava enquanto se apercebia do deflagrar da tensão do final da manhã. diante das quais. Instante esse que entreabriu a guarda da menina. desmerecedora de felicidade e sossego. a filha viu-a hesitar um tudo-nada. contudo. saltou do banco e rastejou a esconder-se entre o sofá de veludo e a parede. da sedutora segurança do seu andar elegante. pondo-lhe a mão muito leve e esguia e fresca na testa escaldante. E atirou para trás os caracóis soltos. tentando passar despercebida. forte e tisnada. largara no tampo da cómoda. menos bibelot do que aristocrata. para logo se arrepender e com um ligeiro encolher de ombros continuar até ao carro preto estacionado rente ao passeio. onde ficou a tremer do lado de fora da porta. só então dando conta de ter-se esquecido de o prender com os pregos de pérolas e granadas que. apesar de longe. a empurrá-la de volta à amenidade da sombra. cruel e carnívoro. contente de o ter seguido na aventura. poderoso e veloz como uma águia e. fissura que a tornará vulnerável. Da janela de onde a vigiava. Escadas que balançavam um tudo-nada no ar. oferecendo o seu flanco à lâmina da espada. de mulheres tristes. entontecida e acuada. Mas instintivamente esquivou-se. – Estás a arder em febre! – afligira-se a avó ao encontrá-la. degraus oscilantes onde então se refugiara. a cabeça apoiada nos joelhos de ossos salientes e miúdos a cheirarem ao verdete e ao ferro da escada de caracol de serventia às traseiras. atenta em não ondear as ancas estreitas. manta leve a acalmar-lhe os calafrios e a secar-lhe os suores. e aí se enrolou como fazem os bichos. se sentia incerta e insegura. abrindo a porta para ela entrar. mas desconhecendo o significado dessas palavras estranhas. a aguardar que se acalmasse a violência do dia. tanto o pulso moreno como o relógio de ouro a contrastarem com o punho alvo da camisa. Face oposta da obstinação destemida da mãe. desagradada ao sentir o pequeno chapéu de feltro a oscilar nos cabelos dourados. fio de lápis-lazúli a desenhar nela uma incisão muito fina. a menina correu meio despida e descalça. a mãe estremeceu num pressentimento ruim. E Laura distinguiu uma mão masculina. Acabando por recusar a abnegação e escolher a fatalidade.

não havia mais lágrimas para ela chorar. menor. um pássaro colorido e emplumado. num inexplicável e misterioso gesto de defesa. isso sim. A ignorar as vozes. de saliva e ranho. com a lividez da morte. «Mais valia que ela tivesse morrido». ajoelhada na capela do colégio das Doroteias. – A tua mãe é maluca – irão dizer-lhe mais tarde. mesmo se for uma silva». pois não havia salvação se ele ficasse cravado na alma. demasiado pequena para tão desmesurada tarefa e intenso julgamento ou desatino camuflado de perda. a construir o casulo à sua volta. E rolando sobre si mesmo o furacão não se acalmava. nem socorro que pudesse aguardar. Um dia ouvira dizer que «mãe é mãe. Rasura a intrometer-se na felicidade que o abandono destrói sem piedade de nenhuma espécie. fugaz e igualmente feroz.» Olhos secos e fechados tentando olhar por trás das pálpebras de pétala descida. sem comparação possível no comparável uma da outra. do desaforo. mais do que o tornado. o silvo. que depois de ela sair a tormenta varreria. as mãos emaranhadas uma na outra por cima da cabeça. tu minha pedra. mas ela nunca virá a entender se as pessoas achavam que a sua mãe era louca ou a acusavam de leviana e adúltera. Desconhecendo qualquer frescor capaz de atenuar a mágoa que a secura afiava. ou por entre os dedos peganhentos de vómito. – Mais valia que ela tivesse morrido – confessará Laura misturando a ânsia com a reza. numa solidão sem apaziguamento. ao ensino do catecismo. tu meu outro eu e idêntico lado». e ela.. consciente da heresia. a urtiga. Na verdade. a boca entreaberta num soluço calado. «Tu minha perda. como se apesar de tudo esperasse um milagre no qual nunca acreditara porque. sob a vigilância severa das madres atentas ao cumprimento da disciplina. como se depois da tormenta uma onda gigantesca rolasse ávida. alheada. a arrecadar o que encontrara de mais precioso. mas igualmente da chaga aberta no sentimento. Lembrá-la-á. a quem nenhuma menina escapava. tão feroz como um animal predador escapado da selva.. Dividindo-se Laura entre o encantamento e o desprezo. Angustiada ao ficar diante do eterno entendimento que fizera das duas: a mãe. ao deixar de crer. Recuando diante dos picos aguçados dos cactos ou dos picos afiados das rocas das histórias de fadas más e madrastas desalmadas. no temor e no júbilo. «tu minha ilharga e pensamento escuso. num encantamento que já não queria para si. ínfima. sem antídoto para o veneno daninho... terço de madrepérola esquecido na mãozinha suada. desarticulada. olhar azul-hortense . pensara. tu meu afago mesmo se não me afagas. Não. passara a dedicar-se com empenho a disfarçar a pequena assassina que nela tomara o seu lugar. E depois de voltar a si continuou ausente e muda. E ela por ali ficava quanto podia. embora sem esperança ou apesar do seu avesso. Laura temia o espinho.para abandonar a casa. Mas ela recusava a silva. uma mosca que a tempestade assassinaria de bom grado. cintilando à medida que ia cedendo para acabar seguindo o trilho da paixão. Abandonada e inquieta. A avó encontrou-a de borco e desacordada no chão do escritório. e nele a menina-larva. deixando atrás dela um imenso rasto de desmoronamento. às orações diárias das alunas de uniforme azul-da-prússia. sibilante e desvairado.

mas afinal cuidadosa. de quem pretende transportar. olheiras a ensombrarem-lhe o rosto afilado. que me fazes lembrar a tua mãe! – irá repeli-la mais tarde. preservando. tentando disfarçar o sopro que era a sua respiração mínima.. o pouco que resta de si. De braços estendidos para a frente como se fosse sonâmbula. andar aplicado. as tranças desmanchadas ao longo das costas. delicado e frágil.. Idêntico a uma rosa de sangue. com acinte. dos precipícios. quem sabe. exasperado de nela reconhecer traços da mulher que o abandonara. na protecção do que levava unido ao peito. – acrescentou evasivo. e iludir o roçagar dos pés nus. ela levantou-se pela calada da noite.fito no absoluto nada. sem esquinas nem aspereza de nenhuma espécie: um pequeno coração rubro. No entanto. na concavidade tépida criada pelo gesto imóvel que os dedos sustinham. – Inconsciente. temerosa de que o negrume onde mergulhara iludisse a percepção que o seu corpo possuía dos poços. E à medida que ia fluindo. das quedas de água.. e estava interessado em que ela fosse considerada vítima do abandono materno. a pulsar sobressaltado. insistindo em dissimular o corpo débil que. colava à escuridade através da qual passava com jeito de assaltante.. das armadilhas que as trevas sempre guardaram no fundo limoso e lodoso das cisternas. Pelas palmas de ambas as mãos juntas e abertas em leque perpassou um levíssimo tremor de apreensão. como os animais. sem brechas. – Sai daqui menina. – Catatónica. ao vê-la aproximar-se em busca de carinho. Laura curvavase mais e mais um tanto. – diagnosticou o pai que era médico. à cabeceira da filha para quem nem olhava. Tremeluzindo na cerração do eclipse. deslizando silenciosos no soalho encerado. .

segundo ela nome próprio e nunca diminutivo. chamasse. enquanto repetia o meu nome.  – Perdida perdida perdida – ia murmurando enquanto. «Somos almas de luz» – sussurravam os espíritos que comecei a ouvir depois da morte da minha avó. num alarme inexplicável. começava o roseiral da Santa Teresinha. me arrastasse para fora de mim. eu corria rente ao muro cor-de-rosa: aí. sem . tal como eu invisível em criança. pequeno animal selvagem acossado e vigiado. gelado e solitário. – Teresinha! Chamava-me às vezes sem motivo. tantas vezes sumida. rosas mínimas de toucar. mais uma e outra e outra vez. palavras atadas na garganta com o nó da aflição. Tanque mandado construir resvés à casa. Nome pelo qual a minha mãe exigia que me tratassem. Desculpa se deixei que desligasses o telefone com a tua voz tão perto das lágrimas e eu sem conseguir dizer nada. meu único oceano possível naquele ermo. para em seguida as ir lançar no grande tanque. perseguido ao longo da minha memória de menina a aninhar-se no tojo seco. a esgueirar-me sozinha por entre a madrugada cintilante de astros. de desvarios e abismos. Desculpa se te pareci feroz na desmesura do calamento gelado. pelo simples prazer de soletrar o meu nomedizendo-me. quase no seu termo confluindo com o jardim. a coarem a luz da alva e também do crepúsculo em finais de tardes demorados. a tentar esquecer a realidade do abandono. naquele tempo ínvio. água fria e imóvel repleta de rosas jacentes à medida que as atirava e elas vogavam sem nunca se afundarem. durante meses e anos até hoje. para lá das sebes de teixo. como se me invocasse. a deixar-me paralisada onde estava. mas escondido entre as árvores que o cercavam e encobriam. uma por uma. de um tom pálido muito deslaçado e esvaído. ganhando tons de um azul-cripta. que colhia uma por uma com os dedos vorazes sangrando dos seus espinhos ínfimos e acerados. a fazer com que a sua água parecesse de aço. quase transparente. Mas hoje ainda a esbracejar como se me afogasse. se parece que não te compreendi ou te fiz crer de algum modo que não me importo contigo como sempre me importo. ensimesmada e magrinha. onde quer que então estivesse desavinda.PERECÍVEL Desculpa. Dor e luto entrelaçados no lado esquerdo do meu peito.

pinga de sangue. Ambas crianças débeis em busca da desmesura. sim. trancado em mim pelo lado de dentro e tão de repente que não encontro nenhuma réstia de claridade nesse lugar da infância. o que se pode dizer da profunda dor. em segredo. ora a dobrar cada esquina por onde eu passasse. sempre e sempre. num dia qualquer do passado. do desconcerto. numa constância compulsiva. onde eu passara a viver com o meu. que ela deixara às claras. junto dos salgueiros. Como se nunca tivesse existido. desdenhando-o. sempre. Lembrava-a. numa obstinação. enquanto num dos bolsos do bibe escondia as rosas escolhidas por mim e que tinham o nome de uma outra Teresa. sem hipocrisia. da descosura que provoca cada fissura da alma? Porque sentia a falta dela como quem nomeia o contrário? Recordando-a em silêncio. criança débil apenas contemplo uma cor branca uma figura» 2 Em pequena já ela adivinhava esse excesso e os êxtases que haveria de . Mas. ora de costas. ou no centro do eixo da madrugada onde se erguem as neblinas. dos amieiros debruçados nos riachos. Tinham-na matado. a deixar-lhes ver aquilo que foi. ou mesmo aos pés da minha cama durante a alva. Portanto tive de aprender a reinventá-la. numa perseverança obsessiva. a descobri-la num repente. Afinal. amaldiçoado mesmo no silêncio da memória calada. eu ia-a recriando nos lugares mais solitários que encontrasse: nas ruínas das modestas casas dos antigos feitores entretanto despedidos e esquecidos ou ao fundo das áleas dos álamos e das buganvílias. Lembrá-la passou a ser o meu objectivo de vida. amordaçado nos sentimentos. Teresa Martin de Lisieux. para dizer-te o quê? Se eu mesma nada percebo desta incapacidade de me aproximar das pessoas. pois até o seu nome passara a ser banido das conversas da família e com os convidados. como viria a saber um dia. Entretanto. envergonhando-o diante de todos – como escutava dizerem quase ao ouvido uns dos outros. idealizava-a em sigilo. a contornar uma árvore da qual eu estivesse perto. inventava-a. *** Desculpa se não te falei do que devia explicar-te: a minha impossibilidade e fechamento da alma. mesmo antes de nos ter abandonado. sentada num dos bancos compridos de madeira antiga e grossa de lisura polida na capela umbrosa da casa do seu pai. numa teima. «De paraíso é feito teu contentamento enquanto eu.

inclemente e implacável. as freiras viram-na extinguir-se a pouco e pouco. *** – Talvez um dia venhas a fazer versos – era o que às vezes me diziam com voz de troça e desdém quando me viam debruçada nos livros. Sem dúvida.. Eu largada. pedaços de diários e de salmos. e a arma branca que tínhamos entre os dedos. me possa tornar de pedra e cal de parede. em séculos diferentes.experimentar. lembrava a si mesma Teresa de Lisieux quando em clausura.. Ou se te levo a acreditar na rigidez dos meus sentimentos revoltosos e desabridos. que tanto me afligiu quando o li. abandono. por ser tão sequiosa de afecto. que entretanto passara a lamber a cal dos muros e das paredes. fizeram poesia. Insegurança ou incompletude? Continuo sem saber. Mas há sempre a poesia. versos. Por vezes a ira e a revolta apareciam de golpe. Desculpa se te fiz crer que pretendia destratar-te ou se. embora a dureza pudesse advir da minha vida truncada. eu abandonada. e o sabor da cor dos mares. num ápice poderia parecer-nos demasiado pequena para a nossa raiva. e que até esse momento sempre víramos como sendo inquietante e perigosa. eu como se fosse órfã. meu peito ardente» Ambas ardendo de um mesmo modo. e também me ensinou a esconder-me por defesa. no tojo incendiado das nossas vidas desavindas connosco mesmas. prenúncios de magia que. apesar das agruras. como se usasse uma máscara de ferro igual àquela usada pela personagem do romance de Alexandre Dumas. Estremeci perturbada. a de Ávila – desde cedo as duas. as chuvas. Eu não sabia ainda das tantas suturas da crueldade esmerada. os temporais e as pegadas dos animais destruíam. a procurar entender as lágrimas trancadas num lugar por certo enigmático do meu corpo. comecei por escrever frases na terra com os galhos afiados das árvores: dizeres. tratando-a com uma indiferença amável. Oposição do rosto. A seu lado. Eu. os ventos. tal como uma outra Teresa. com sufocações e hemoptises. Tal como Teresa de Lisieux eu era irredutível. trancada lá atrás. na sua exaltada entrega. eu menina imaginária . em poucos segundos. em contentamentos desfeitos… «Consola-o do medo E da fadiga.

como dizem. recorrente e desabrida. Embora nos primeiros anos de vida ainda tenha havido relâmpagos de luz. Recordo ainda o meu deambular de criança perdida. por entre as silvas. em queda no próprio abismo. Porque a incompletude é a minha condição. mas eu sempre me interroguei sobre a menina que teria sido aquela mulher encurralada. uma menina apenas. mas para estarmos conscientes disso. E eu que em cada momento sou devorada pelo sentir. tecidos com matizes ilusórios que eu aceitava de coração aberto. por . Inquietante imaginação. Aliás a felicidade sempre foi ilusória. julgando encontrar-me defendida sem sequer saber o que isso representava. com o afiado gume de uma adaga. Mas na altura era demasiado pequena e iludida. deitada numa cesta como Moisés. os animais mínimos que habitam debaixo das pedras. arrepio a escapar como uma raposa ao longo da minha pele áspera e suja. mas sim pelo perdimento de Elsa na cena final do filme A Dama de Shangai. fico interdita sem entender como foi que a minha imagem se multiplicou pelos espelhos até se tornar fatal e falsa. – Não corras. e os bichos maiores em tocas e grutas de negrumes imprevisíveis. e nem tu vais perceber o que estou a dizer. embrulhada num lençol de linho. é preciso ter a coragem de se olhar nos olhos a escuridade. que inevitavelmente nos devolve esse infinito olhar de negrume. *** Desculpa se por vezes me mostro irredutível. assassinada pela própria tristeza. Havia igualmente as lianas das árvores mais densas. mas eu fugia até encontrar o rio que corria manso por trás da nossa casa em Benfica. dobra bordada com pequenos pássaros e asas a ponto de cruz. sem conhecer ainda a dimensão do perigo da maldade. Teresinha! – cuidavam de me avisar com ansiedade. perecível. Sobressaltei-me.deixada à porta de casa dos meus pais. adivinho. bordejando a morte. os cardos e os pássaros. de entre as tantas que olhamos. Sem ninho. lianas por onde as aranhas desciam ágeis e ambíguas ao longo da própria saliva entretecida. E a tristeza sempre foi a marca a ferro em brasa da minha e da tua solidão. nos bosques e nas florestas. a náusea a trepar-me no peito liso de menina espigada e quebradiça. não pelo lado de Alice. enfermiça de um adoecer empenhado. reflectida e multiplicada como se fosse cúmplice da sua morte solitária. e por vezes fico assim. sem sentimentos. assim como uma só mulher.

tudo o que de ti possa intuir ou adivinhar eu calo. tal como tudo o que não deveria relembrar e relembro. de onde chegavam ruídos ofegantes e maldosos. Nessa altura eu dormia melhor debaixo das árvores ou aninhada na palha da cavalariça. Desculpa se quase nunca tenho alegria nem sou amena. contrapondo-se ao arrulhar amodorrado das rolas e dos pombos-correios trancados nas suas enormes gaiolas. Se nem sempre o meu olhar claro deixa de ser toldado. a escapar às regras de comportamento num mundo normativo. A amizade é um sentimento que desejo conservar inocente e incólume. cuspidas e maldosas. embora consigam ser quase tão fortes quanto ela. eu só consigo cativar as constelações da curvatura celeste. afligida com a ideia de ser desse mesmo modo que eles gostariam de me ver aprisionada. Afinal. Num hospital psiquiátrico. Desde pequena que eu sei da salvação e do fascínio da leitura. rapariga! – irão dizer-me com rispidez pouco tempo mais tarde. comprido e sem luz.entre os chorões que ladeavam as suas margens pedregosas. assim como me aterrorizavam os passos ínvios que se detinham colados à minha porta. e por onde acreditava esgueirarem-se de noite aqueles que não estavam vivos. E mesmo se vejo a tua aura. nem te digo o perigo que corres por seres tão clara. fenda estreita pela qual eu espreitava na segurança das horas de sol. fitando-me com agrura e azedume. assim. dos mochos e das corujas. – São horas de ir para a cama. à esquerda de quem entrava pelo portão principal. dentes cerrados por onde costumam escapar as palavras mordidas. sem te envenenar a veia. como fizeram a ela? No quarto sentia-me sozinha e vulnerável. escutando lá fora o bater seco das asas dos morcegos. a compensar a fealdade imprevisível. Os verdadeiros encontros raramente se assemelham à literatura. Também temia o corredor inclemente. a vertigem no despenhar incongruente. sabendo-me em segurança envolta pela quentura dos corpos febris dos cavalos. a desequilibrarem o passo miúdo de quem ia. limosas e escorregadias. porta entreaberta. nunca a menciono. o perigo da . enrodilhado e sem remédio. sem saber. olhos abertos no escuro à espera das sombras ameaçadoras que sempre vinham debruçar-se à cabeceira da minha cama gelada. *** Coisa alguma naquele tempo tinha paz e temperança. dado o meu sentir amotinado. Livro após livro. nem o que vivi deixa de pesar na minha vida. Havia ainda a capela. diante das quais eu nunca me detinha.

só pensando em esgueirar-me para onde a . os arranhões das pernas esgalgadas. sucos de raízes. esburacado. os pássaros com o seu canto entontecedor. E eu mordi-a para escapar ao vexame. Os cães e os gatos seguiam de longe o meu deambular perdido. folhas e pétalas de flores. a olhar em volta antes de ma entregar. Como se isso fosse possível naquele tempo de ferocidades brutais. a embrenhar-me pelos meandros de uma perda interior. Já em criança descobria nelas a beleza. de pão roubado da cozinha. Asinha. a quebrar o seu habitual silêncio de mármore. Então foram só os animais que me ajudaram. iludir a solidão. muda. a tentar não me atirar a um poço. entendia nelas o paraíso. ficando uma semana sem acordo. o desamor desamado. Sem saber que sabia. as doninhas com uma vivacidade alegre e o pêlo ruivo do seu dorso que a certas horas incandescentes de Verão parecia de chama. enquanto pasmada eu me limitava a reconhecer a letra inclinada e alta. cheia de nojo. bichos com o seu rasto de risco e visco. Empenhada que andava a desejar sobreviver à vida. mãos duras e ásperas a inspeccionarem-me num acinte. a alimentar-me de frutos. Páginas voltadas com sofreguidão desatada na ânsia de saborear o sonho. cada vez mais selvagem e sem remédio. Foi então que a carta chegou. – E na desconfiança logo saiu do quarto. *** – Esta menina não se lava há meses! – exclamou a tia. sentada atrás do divã onde me deitava: – Sabe que foi uma menina negligenciada? Fui. compensar a falta de afecto. sem nenhum equívoco. Muitos anos mais tarde. sussurrando: – O carteiro acaba de trazer esta carta para a menina. fio de voz a escapar na sua invisibilidade sumida. aproximavam-se acautelados a lamberem-me as feridas. sem regresso possível. as urtigas e os cardos dissimulados nos densos matos de esteva semeados de flores brancas. mangas de balão. que eu teimava em atravessar como se fossem atalhos de encurtar caminhos. Pulsos estreitos. a minha analista irá sugerir-me. bibe imundo tal como o vestido desbotado. A escapar ao desconsolo. pelas arestas das pedras ferinas. vindo ter às minhas mãos por milagre ou devida à compaixão de uma das criadas. a querer não me entregar ao desnorte de uma sorte desalmada. a não fugir para longe. o pescoço por trás das orelhas. feitos pelas quedas. pelas silvas. e quando finalmente exausta me sentava ou deitava na terra aquecida. A examinar-me os braços e os tornozelos. peitilho de rendas e gola a esfiaparem-se. cada hora mais fugidia e esquiva. abertos pelo peso dos livros. olhos secos da febre que me tolheu na cama.entrega.

coração a saltar-me no peito. Fora a minha primeira carta de amor. Mas logo em seguida tornou. Desculpa se por vezes pareço desabrida. largou-te! Ela abandonou-te! *** À nossa roda. tirei-a e fui dissimulá-la entre o enredo das hastes espinhosas de rosas púrpuras de almíscar.pudesse ler às escondidas. como se constantemente aguardasse um inesperado golpe de destino. absoluto. de repente fez-se um silêncio imenso e árido. mas soubesse que a tinha comido. com bruxas más absurdamente reais. Devagar.  – Onde está a carta que a tua mãe te mandou? E o seu rosto era de desvario absurdo. e eu ficara sozinha a enfrentar as histórias de desencantar. madrasta que nem era minha e sim da minha mãe. engolindo cada um dos pedaços. A sua voz de estilhaço feria. Como se a incorporasse. como se se tratasse de uma campa rasa. e comi-a. Ela deixou-te. no seu fundo de húmus e farpas. mas que transferira para mim o seu ódio resguardado. numa das áleas ao fundo do jardim. Sangrei um pouco por dentro. uma leviana. a sua voz de punhal cortava. como tinha prometido à minha avó. – Estúpida rapariga! Ingrata! A defender uma maluca. – Onde escondeste a carta da tua mãe? Primeiro escondera-a no fundo de um buraco. Mas a morte levara-a consigo. – Onde escondeste a carta que a tua mãe te mandou? – Qual carta? Sumida. olhar de intenso azul-violeta. na teima de resistir. comera-a. Supersticiosa. sorriso triste e vão. Mas com medo de que alguém mesmo aí a descobrisse. por baixo de uma das faias e pusera-lhe uma laje por cima. enquanto ela me abraçava. Era como se não me lembrasse. uma voz sumida que soltei trémula fazendo frente à fúria enorme e descontrolada da mulher do meu avô. exortando-me no seu tom macio de seda natural: – Nunca deixes que o medo te vença! Como se adivinhasse o meu futuro sem ela para me abrigar no seu abraço imenso. que nem sequer lhe liga. ferina: . não acreditando nos outros. mas continuei calada. todas as letras que ela me escrevera. de tal modo sobressaltado que nem conseguia entender o que ela me escrevera. olhos tão secos que doíam.

Mas numa fúria. Olhei-a nos olhos verdes-garços. Acabara. A mesquinhez. vindo do fundo do meu peito. uma mulher sem vergonha nenhuma! Olhei-a. Qual carta? Qual carta? Comera a mãe. Desmaiei. uma pasta grossa e peganhenta. o corpo magrinho a fazer um arco. a alastrar. frase a frase. Uma maluca. como morta. Comera a carta pedaço a pedaço. Mais tarde soube que um dia escreveria esta história. Ainda tentei equilibrar-me. Sem nenhuma revolta de que eu desse conta. sustos e perdições. – Hás-de ouvir. Quem me dera poder guardar-resguardar a mãe dentro de mim. mas o chão ficou de súbito escorregadio e inseguro debaixo dos meus pés. ela deixou-te! De uma vez por todas percebe quem é a tua mãe. Diante de mim descortinava a vileza. antes de começar a gritar. cheios de riças. mastigando e engolindo papel e cuspo e tinta. mas deslizei empurrada pela vertigem e fiquei estendida no chão. agudo. a baterem um no outro. doce. a sufocar-me. A cobardia. cada facto desmanchado. Mas também a mais pura maldade. espumando um pouco nos cantos da boca. E quando o pai entrou a correr. a perseguir cada indício. Comera. Antes de começar a soltar aquele grito imenso. a resvalarem. tornar atrás na própria dor. subindo pela garganta. sem saber como soltei-me. doce. – O que é que se passa aqui? – perguntou assustado. Foi quando me senti agarrada por baixo dos braços. as pernas magras e encardidas a vergarem-se. da desmesura daquele rancor. a galgar. De repente a vida parou. hás-de ouvir o que tenho para te dizer!  E a casa começou a andar à roda a uma velocidade louca. erguida à força até ficar de novo diante do seu furor. a subir de tom. encontrou-me com a cabeça e os calcanhares apoiados no soalho encerado. daquele ódio. a trepar sem fim. olhar nos olhos medos e fantasmas. Comera a carta.– A carta? – Qual carta? E os meus joelhos quase cederam. apesar de para isso ter de regressar ao inferno. erguendo-me nos seus braços. do mesmo modo que eu já vira acontecer nos filmes. ela continuou: – Ela não te quer. . imobilizou-se. pegando-me ao colo. o suor a nascer nas raízes dos meus cabelos encrespados. Um som rouco e fervilhante a enrodilhar-me a língua. ah.

sem saber narrar a desmesura e a fragilidade da minha história de menina escusa e precária que escutava vozes em surdina. *** Desculpa se por vezes fico muda e outras não canso de me contar. Enlouquecida de mágoa. .A arrancar da escuridade o esquecimento. Jamais dizendo o suficiente. Relógio D’Água. Ciente de que teria de fazer o levantamento de memórias e imagens. de Lisieux. Thérèse Martin. 2 O Alto Voo da Cotovia. embora sem nunca conseguir ir tão longe quanto foi a minha realidade de criança perdida. de percursos e delírios. nem me contar tanto quanto em mim foi o sofrido e a perdição.

cada um do seu lado. tombados na defesa do . o pescoço hirto e vulnerável. nas cadeiras. na mesa de vidro. o corpo tenso. como se ainda estivessem imóveis. vigilante e astuciosa. a sua expressão de desobediência. na marquesa. caem sobre ela. Na lisura do peito sente o coração em desordem. Respiração ofegante que traz consigo um pequeno silvo a escapar-lhe por entre os lábios de botão de rosa entreaberta. desliza manhosa pelo lado oposto. manietam-na e em seguida arrastam-na para a marquesa.. compõem-lhe o fato amarrotado. a algemá-la ao falar manso. esmaecida na vertigem. E lentamente começa a andar para trás. negando-se a escutar as frases costumadas: – Anda cá! Não vai doer nada! Não te vou magoar. E a menina fecha os olhos com a força que pode. ao mesmo tempo que lhe imobilizam a cabeça. todavia. os grandes olhos azul-da-china com uma fixidez de vidro atentos a todos os sinais. o corpo frágil vacila e ela cambaleia.. prometo. bata branca abotoada até meio da camisa bege. sobressaltada ao sentir-se presa. quando na verdade a cercam.AZUL-DA-CHINA A certa altura da discussão ela rebela-se. não vai doer nada – a entretê-la. dando conta do decorado discurso do médico: – Não dói nada. Agachada no chão. eles aproximam-se com precaução e vagares de bichos rastejantes. Na tentativa de iludir a sua vigilância. a todos os gestos e movimentos à sua volta a fim de detectar quem tente acercar-se. endireitam-lhe os soquetes enrodilhados nos tornozelos. onde a obrigam a sentar-se. Sara encolhe-se recusando entregar-se.. sorrateira. laço de borboleta dado na cintura até onde vão os favos bordados com fio de linha do mesmo tom amarelo-junco do vestido às flores. a tentar desviar-lhe a atenção da enfermeira que. até as costas embaterem na parede. pulsos estreitos e quebradiços tolhidos pelo baraço e os nós do abraço feminino. com um tremor de susto a trepar ao longo das compridas pernas que a saia franzida tapa. como se chegasse de longe. começando a deslizar feita boneca desarticulada. a tropeçar na secretária. afastam-lhe da cara de feições miúdas o cabelo castanho-avelã. a fazê-la sentir-se encurralada. na estante. apertando os joelhos subidos e unidos junto ao queixo. E ao julgarem-na mais calma. Só quero ver se estás melhor. passos miúdos no arrastar dos pés que os sapatos de verniz apertam em desconforto ruim. empurram-na de encontro à porta fechada. enquanto tapa os ouvidos em arremedo de concha. Cautelosos. passos curtos medidos no recuo. arrepelando-lhe os caracóis embaraçados e desprendidos dos ganchos. – voz meio apagada. simulam aquietar-se. Num impulso inesperado a menina escapa daquele zelo contaminado. o estetoscópio transbordando do bolso direito. e não conseguindo fugir da sala retoma o lugar anterior junto à parede. ao pé da qual se aninha acocorada.. anda cá. Ignorando.

não! É uma . Afogada no desconcerto que lhe trazem as inesperadas lembranças. o retrato das filhas na moldura de prata colocado no fundo. tapando-lhe as orelhas pequenas que ele põe a descoberto e percorre devagar. de crépon. som que mais parece de raiva do que de lágrimas. porta-voz dela em relação a si própria. que a tanto custo arrancara apavorada de entre os seus dedos hirtos e gelados. Calando todavia o soluço. perdida num turbilhão mestiçado de ira e temor. sabendo de antemão o que irá passar-se: o frio do éter. num arremesso dos ombros para a frente. as visitações que ultimamente lhe acontecem a qualquer hora do dia ou das madrugadas que passa acordada no escuro do quarto. Mesmo assim mantêm-na agarrada por baixo dos braços. semeara atrás de si ao abandoná-los sem nenhuma explicação. Operação a que são submetidas as raparigas quando nascem – «As minhas filhas. entre a maciez das rendas e das alças. das meias de seda e das écharpes. mas mesmo correndo nunca chega a tempo de dar-lhe a mão. a tempestade que a mãe espalhara. dos entremeios da roupa interior. Saudade dela ainda pior – sabe – do que a falta.. Nessa noite.rosto. maremoto enfurecido a embater tanto nas rochas miúdas como nos imensos rochedos escurecidos entretanto erguidos a partir do desconcerto a que se entrega. a vencer o do consultório: a éter. e vê se estás quieta! – ela pára de debater-se.» E ela estenderase a fazer-lhe companhia. a sentir-se impotente à medida que o médico lhe retira os pensos das orelhas. a álcool e a tintura de iodo com os quais o médico trabalha. a água oxigenada. Feridas saradas que irão ser reabertas. Volta então a esbracejar. confessara-lhe aflita: «Tenho medo de dormir sozinha. Por vezes julga ver a avó ao fundo do corredor da casa mergulhada na penumbra. – Outra vez não! Outra vez não! – diz num soluço enrouquecido pelas águas enregeladas da cisterna do vacilo. de cetim dobrados ao acaso. E tenta fugir de novo. Perfume intenso do seu corpo de loura. acabando por adormecerem de mãos dadas. e por fim o espinho aguçado da agulha a trespassar de um lado ao outro tecidos e cartilagens.. Odor que a menina sente chegar numa nuance de rosas. a sentir menos dor do que revolta. desinfecta os lóbulos das orelhas furadas. dando-se conta da raiva que nela sobe. tacteando os lóbulos já cicatrizados mas ainda ocultos sob os pensos de gaze. quando ao acordar a encontrara morta a seu lado. das fitas e dos atilhos. sem bater com a porta – contaram-lhe as criadas – carregando a mala feita à pressa: vestidos. enrodilhada de mágoa. do algodão ensopado em álcool de olor volátil. saias e blusas de tafetá. o arranco do vómito a arranhar-lhe a garganta apertada pelo grito atravessado que finalmente solta: – A minha mãe não quer! A minha mãe não quer! – E a menina é já a força da obstinação da mãe. pálida e expectante. E só ao dar-se conta da presença do pai dentro do consultório – Não digas disparates Sara. Tirando-lhe o ar que em pânico tenta engolir às golfadas. à mistura com a sua fragrância enovelada de madressilva e de tília. das camisas de noite decotadas e transparentes. num último arremedo de coragem que afinal nem tem. esquivando-se na partida. antes de ir para a cama.

ambas a abandonarem-na sozinha sem nenhum amparo nem consolo. a prometer baixinho ao apertá-las a si. uma luva de pelica desirmanada. um véu ambarino e outro cor de malva. embalada por Guilhermina. tez esvaída com a palidez do desmaio. Mas depois fora-se embora. igual ao das artistas de cinema. tom de arrependimento tardio. enterra também os objectos por ela esquecidos em cima do tampo do toucador D. se aos seus sentimentos diante das perdas diversas mas quase simultâneas da mãe e da avó. da canela e da erva-doce. no uso das calças vincadas e compridas. Lana Turner e mais tarde Rita Hayworth. envolvendo-as na sua essência de nardo: – Eu juro que torno para vos buscar. Lauren Bacall. Olhar azul-da-índia. em sessões de posse do pai sobre o seu corpo de criança débil. uma caixinha de rouge. como um pequeno fantasma. a menina amodorra-se imóvel. ganchos invisíveis para prenderem as ondas dos seus cabelos. quando de saia-e-casaco preto e chapeuzinho de veludo escarlate a mãe apareceu de visita uma semana depois. do sorriso mordido. A percorrer emudecida. Está a ver como não custou nada?. um fio de brilhantes com granadas. pois só o colo da cozinheira a acolhe com a quentura emprestada do fogão de lenha. vulnerável às palavras que lhe chegam numa revoada sem aparente sentido – Eu disse-lhe. determinada. dos gestos equívocos e harmoniosos. eu juro.. nunca!».. o consolo do seu cheiro a suor. Alquebrada e dorida. assim como na escolha do fato de banho preto desnudado nas costas comprado na América.. nas unhas em amêndoa pintadas de vermelho-sanguíneo. a fumo e a leite-creme. um broche de águas-marinhas. trato áspero. Eu juro. na ostentação de uma modernidade incómoda para a família. embora pareça ausente. espalha no chão os restos do pó-de-arroz como cinzas de mulher morta. sem entender se o que ouve se refere ao que acaba de lhe ser feito. o vazio da casa.. A madre superiora fora espia do pai e delatora. Colégio de freiras quase todas impiedosas. na cópia da sensualidade misteriosa. nos cigarros longos e finos levados até aos lábios carmim humedecidos. – É uma violência! Não deixo que façam isso à minha filha. Tal como a tortura que representam as tardes passadas num consultório da Baixa de Lisboa. parecida com a gravura da Dama das Camélias que Sara se lembrava de ter visto num livro: exausta e esguia. olhar endurecido e palavras lançadas como punhais. De musselina. o bâton ciclâmen-da-pérsia. Inusitada na defesa das suas ideias desgarradas. repetira. num carinho que guarda o travo do açúcar queimado. a mãe. durante horas sem fim. cuidando de se manter a si mesma de olhos secos. Além das fotos. E antes de cobrir o buraco cavado com a sua pá da praia. eu disse-lhe. E Sara quisera poder tê-la defendido de assistir ao pranto da irmã mais nova. à hora de as filhas estarem na escola. Maria: uma travessa de tartaruga. Não quero! – E Sara .. bibe sujo da terra do jardim onde se entretém a enterrar com afinco fotografias de que a mãe é o centro.brutalidade! As minhas filhas.. a reter na memória a imagem da sua beleza.. Atordoada demais para entender a extensão da falta que lhe faz o afecto. Exorcismo? Por vezes Sara adormece exausta.. a adoecer da teima em recusar tudo o que negaria a escolha materna.

sente já a apodrecer o fio passado através do orifício refeito nas orelhas
latejantes, onde a infecção se reiniciara. Reconhece os sintomas, sabe o que irá
seguir-se num ritmo apressado e opresso: as dores, o inchaço, o vurmo, o arrepio
da febre, os pachos de água a ferver no castigo da carne que supurará até ser
lancetada.
Sem experimentar os brincos de platina e pérolas toldadas.
Nervosa, a enfermeira continua a teimar no próprio desagrado:
– O doutor não lhe ia fazer mal! Está a ver? Já passou... Vê como passou? – diz
num tom condoído de brandura inquinada, onde a menina detecta uma zombaria
malévola, hipócrita, na qual distingue uma troça envenenada e quase
triunfante.
Foi nesse momento que a fúria iniciou a lenta caminhada mutante ou imaginária
dentro dela: pela berma das matas, pelas ravinas, pelos outeiros, atingindo os
cumes alvacentos para logo entrar nos matagais sombrios, a tomar os desvios e
os atalhos da mente, até atingir as pontes que irão franquear-lhe o coração; a
destroçar os pontos de equilíbrio das emoções, quebrando-lhe as fracas
resistências de quietude ilusória, minando-lhe a vontade. Contrariando o
compromisso tomado com o princípio de obediência e submissão, impostas pelas
regras e severidade paternas.
Descontrole de que não se dá conta.
Desorganização e desgoverno que já alastram, crescem, trepam, corroem-lhe a
firmeza, a determinação do sossego inventado. E por instinto salta, com a
agilidade, a rapidez bravia de um predador selvagem. A mordê-la, a cravar os
dentes afiados na garganta sardenta da enfermeira, pele deixada a descoberto
pela gola aberta e imaculada do uniforme.
De joelhos na marquesa, Sara toma pela primeira vez o gosto do sangue: a ferro,
a ferrugem e a sol, a cal das paredes. E segurando com a força que os nervos
aumentam a garganta que tenta escapar-lhe, começa lentamente a sugar-lhe a
veia latejante, surda ao tumulto entretanto levantado à sua roda.
Como uma pequena vampira sequiosa e voraz.
Gulosa.
Engolindo o prazer rutilante com a demora que o vagar empurra.

BRANCA DE NEVE
«Espelho meu, espelho meu! Há alguém no mundo
mais poderoso do que eu?»

Sempre que a madrasta olha para ela, Branca sente a algidez da aragem nevada
atravessando a sua própria história, numa transfiguração contada de maneiras
diversas ao longo dos séculos, mantendo sempre o seu âmago desértico de
solidão e desafecto,
crueldade e abandono.
Conservando no entanto intacto o seu imaginado voo iridescente e vário,
tomando embora o caminho das pedras e as margens dos lagos de gelo
quebradiço que atravessa atenta, passos cuidadosos, sozinha à beira-face do
risco, consciente da sua fragilidade de criança vulnerável.
Coração duvidoso que a madrasta segura
e ela vê palpitar à sua frente, incandescente na palma da sua mão direita, que a
qualquer altura poderá fechar-se esmagando-o com o preceito da crueldade
esmerada e gravosa que a madrasta cultiva com afinco.
Tentando extinguir nela a chama acesa.
Mas Branca não tem a quem pedir auxílio,
nem colo ou protecção.
Por isso limita-se a olhar em silêncio o próprio coração já enevoado e vacilante,
que quando anoitece faz de vela à cabeceira da cama onde a madrasta dorme
ao lado do marido,
– É bom que te habitues: aqui em casa ele não é teu pai, é meu marido.
Dr. Frankenstein? Ou Drácula e a mulher, imagina diante do temor que pretende
empurrá-la para trás, dentro de si mesma, num recuo, num tormento, num temor
absoluto,
numa regressão sem remédio.
E a menina esconde-se debaixo do lençol e da manta, camisinha de dormir
enrodilhada nas pernas de criança magra, a querer que a noite caminhe
depressa, ansiando por esquecer a casa, a cave, a gruta,
a cripta
onde o pai e a madrasta se encontram mergulhados numa perfeita noite
artificial, pela qual não passa nem uma réstia de luz, nem uma pétala de lua,
nem uma haste de sol, nem uma linha de claridade difusa, pois absolutamente
nada consegue ultrapassar, atravessar aqueles vidros, aquelas persianas,
aqueles cortinados. Negrume implacável cumprido até ao próprio âmago,
conseguido com aquela espécie de ecrã opaco que descem, fazendo correr entre

os dedos um fino cordão de seda. Numa tontura, numa vertigem.
Num ápice,
como a lâmina de uma guilhotina.

de uma brancura irrepreensível. desatinos de um coração desacertado com a vida que todos os dias parece querer matá-la. mais parece uma menina vestida de primeira comunhão. E Branca esforça-se por manter o pensamento absolutamente vazio. E pela calada da noite sai do quarto. encarando o futuro. para ir de novo e de novo olhar. em cujo fundo raso e estreito escondera o único tesouro que possui: duas fotografias do casamento dos pais. até chegar à sala onde está a mesa D. com uma estreita gaveta dissimulada pelo desenho de embutidos na madeira brilhante. e quando se encontra com a madrasta no corredor penumbroso. sem nenhuma expressão no olhar perdido. tentando resistir a um sentimento de queda. que todos os dias eles inspeccionam pelo crivo do alarme persecutório. olhar azul de boneca de louça. que apesar das tantas desgraças por que entretanto passara não adivinhara ainda a sua condição de tragédia. no soalho encerado e escorregadio. embora ainda não existisse. como se a fitassem nos olhos. pensa Branca. apesar de tudo não deixa de ser já seu. Na outra foto. Menos a noiva. . e olha-as com incerteza. de perdição. com os seus pequenos olhos malévolos de bruxa má. com a leveza dos pés descalços voando nos tapetes. Nelas a mãe. Duas imagens que lhe garantem um passado antes de si própria. Amando sobretudo a fotografia onde a mãe e o pai se encontram sozinhos a olhar em frente. ao fundo das escadas da igreja. sério e magro. os padrinhos e os convidados sorriem para o fotógrafo. mexer. Leva sempre o coração ao pé da boca franzida de aflição enquanto atravessa o cerro da noite. ainda sem entendimento das gravosas ameaças contidas na vida que a espera. ela empurra-a de encontro à parede sombria. que acabara de deixar o colégio interno das freiras do Bom Sucesso. inquisidora. com o seu semblante longínquo. ao qual nunca irá habituar-se. «As fotografias são as únicas provas da minha origem». desse modo tornando invisíveis os seus arrebatamentos e fantasmas. espelho meu! Há alguém no mundo mais poderoso do que eu?» Sempre que a deixam Branca isola-se no seu quarto. num curto e perigoso diálogo mudo e perecível: ele. ver as únicas imagens reais que lhe restam de um passado que. Maria. indagando em surdina: – O que foi que fizeste agora? – enquanto a fita. ela não mais que uma jovem perplexa consigo própria.«Espelho meu. agarrada aos cadernos e aos livros. os noivos. tiradas à porta da igreja de São Domingos de Benfica. tocar. Debatendo-se.

Num começo sem desespero?
Quando o seu nome não passava ainda de mero silêncio.
Nem sequer um suspiro.

Ao regressar ao quarto pelo breu da casa adormecida, a madrasta, que de longe a seguira e a
espreitara debruçada sobre as fotografias, intercepta-a e, chegando muito perto, indaga ao seu
ouvido num murmúrio de ameaça escondida, mordida pelos dentes cerrados:
– De onde vens sorrateira, a esta hora da noite, pode saber-se?
Encurralada, Branca não fala. Limita-se a recuar, a aguardar os seus malefícios, a
esperar o efeito dos seus poderes, a querer lembrar-se do desenrolar da história
da Branca de Neve, que ela julga conhecer de cor…
Vigilante,
como diz o poema escrito na véspera:
«Procuro na maçã
onde se esconde o veneno
de entrançar o sangue
– Diz a menina.

Vigilante.»
***
E à tarde, quando o pai regressa do hospital onde trabalha, chama-a ao escritório
para lhe dar uma nova ordem:
– A partir de hoje, estás proibida de saíres do teu quarto durante a noite!
Regra, ordem que Branca infringe com um mau pressentimento à hora em que a
noite se transforma em madrugada, coração fremente por um desassossego
atormentado. Como se vivesse num sonho a caminho da perda, dedos trémulos
a abrirem a gaveta; logo se tranquiliza porém, ao dar conta das fotos viradas de
costas, tal como as deixara na véspera.
Mas ao tirá-las com cuidado, sente-as de imediato mais pequenas e mais leves, e
quando as puxa, já num rompante, e as vira para si, mal consegue sufocar o
grito na garganta que se contrai num espasmo.
O pai tinha desaparecido de cada uma delas, cortado, ou melhor, escortejado
com uma tesoura. Apenas restava a mãe, sozinha, com a sua face de rapariga
em flor, olhar perdido na imagem de noiva abandonada nas escadas da igreja,
vestido branco comprido de cetim e rendas, véu lívido de tule preso à ondulação
dos seus cabelos por pequenas flores de laranjeira, numa memória distante de
inocência perdida.
Cega! – repara.
Cega por um grosseiro traço de caneta, que lhe riscara de lado a lado ambos os
olhos

de azul bordado.

AZUL-COBALTO
Devia tê-la matado.
Devia tê-la afogado no banho.
Tive tantas oportunidades para isso. Quando me estendia o braço magro para
lhe passar o sabonete leitoso, que gostava de deixar dissolver na água quente,
fumegante; assim como os sais prateados, brilhando no fundo do frasco. Ou
então quando punha primeiro uma e depois a outra perna fora da banheira,
estendidas, longas, docemente rosadas e começava, em desequilíbrio, a
ensaboá-las devagar. Ou quando se deixava afundar, os cabelos a boiar à
superfície da água e eu a via de olhos fechados como uma morta, durante um
tempo infinito, que a mim me parecia uma eternidade, sentindo um nó apertado
na garganta subitamente contraída pelo grito que não soltava.
De medo puro.
Bastaria ter carregado durante uns segundos, com toda a minha força, as mãos
pequenas bem assentes nos seus ombros. Talvez tivesse que saltar para dentro
da banheira a fim de a calcar bem no fundo, até os olhos se lhe escancararem.
Pasmados e vazios. De azul-cobalto.
Será que ela se teria defendido? Será que teria estrebuchado? As pernas
esguias, esguias, convulsamente a tentarem livrar-se das minhas, enroladas,
entrelaçadas, como se cerzidas, enroscadas nas suas.
Será que ela teria tentado salvar-se dos meus dedos, nervosos e persistentes
nos seus ombros tão quentes, ensaboados e escorregadios debaixo de água?
Teria tentado fugir ou submeter-se-ia com alguma passividade ao meu desejo de
a ver morta?
Depois seria finalmente o silêncio dentro de mim.
A paz.
O vazio absoluto, terminal, onde me pudesse encolher, aninhar a um canto da
penumbra, da luz filtrada pelo vitral do esquecimento que aí começava. Que aí
se iniciava o meu começo, a partir do crime.
A partir da paixão assumida.
Da paixão empunhada como uma bandeira negra de pirata ou de corsária, como
nas histórias de aventuras que lia de bruços no chão do meu quarto. Atenta à
ausência da sua presença pela casa. Do seu cheiro.
Perdendo-me sem dar conta disso.

De manhã ela dormia até tarde.
Na sua cama de linho, de cetim e de veludo.
Quando ficava em casa todo o dia, estendida no sofá dourado da pequena sala
Arte Nova cheia de flores nas jarras de porcelana ou de cristal facetado, a folhear
revistas de capas cintilantes, sedenta de conhecer melhor as vidas das actrizes
de cinema que parecia copiar, num quotidiano enfastiado.

e começava a passar na pele o creme que. a demorar-se nos seios. a língua explorando aquela rugosidade boa. Revendo-se em que paixão desavinda? Às vezes eu mergulhava as mãos até aos pulsos na água do seu banho. Na sua cama de cerejeira com um abaulado espaldar de embutidos. Hoje sei que ela nem dava por mim. como as artistas do cinema americano. suavemente. espalhando o óleo doce que guardava num frasco quadrado de cristal. das caixas e das borlas de pó-de-arroz que se soerguiam leves. e se ela não fechava totalmente a porta esquecia-me do tempo a espreitá-la. na barriga lisa.Entediado. no interior das coxas entreabertas. e depois subindo de novo até às axilas depiladas. com garras de grifo de um metal esverdeado. ao toque da sua respiração breve. punha repetidamente os mesmos discos na grafonola alta. Sentia-me sufocar. nas coxas. os cabelos presos por uma toalha posta como se fosse um turbante. nas ancas. Quando ficava em casa todo o dia quase sem se mexer. tardes inteiras na escuridade das salas cortada apenas pela claridade das imagens e o foco da projecção. De manhã dormia até tarde. os cabelos encaracolados nas pontas ondeando até aos ombros. Ou fazia escorregar o robe para o chão e com a ponta dos dedos percorria o corpo. Eu seguia-a na ponta dos pés. nas ancas estreitas. escorregadio. as saias e os casacos pendurados no . engasgada e tonta. a roçar o chão. eu ia cheirar-lhe os vestidos. No púbis punha uma gota de essência almiscarada. que ouvia com lágrimas nos olhos. continuando com pequenos toques em torno dos tornozelos. esgarçada. a saia de pregas e sobretudo o bibe de peitilho bordado a ponto-pé-de-flor. tirava de um boião redondo de vidro opaco sempre poisado no tampo de pedra-mármore do toucador de madeira-cetim. Curvando-se para espalhar o óleo de amêndoas doces sobretudo nos seios. recolhida aos pés da banheira esmaltada. a olhá-la pela estreita frincha: nua. Sobretudo Madame Butterfly de Puccini. Se ela saía. a encharcar a lã dos punhos das camisolas. quando se debruçava sobre elas. alta. misturando-se com a espuma translúcida dos sabonetes redondos. aninhada em torno de si própria. sofregamente. engolindo a água morna que me escorria pela cara a molhar a blusa. do perfume que. No Verão afundava os braços nus e ficava muito tempo a respirar o vapor tépido dos sais e do odor do seu corpo. ela nem me via. Embrulhada no enorme lençol turco cor-de-rosa. depois descia até aos joelhos. quase à frente da porta da rua mas do lado esquerdo. a misturarem-se nos seus tons lívidos e diluídos. ao lado dos perfumes. persistia à tona. na esponja espessa que passava pela boca ressequida. No quarto deixava tombar a toalha no tapete oval diante do espelho alto de corpo inteiro. de um frasco que guardava na gaveta onde estavam as pequenas calças e soutiens de seda e renda preta. atado atrás com um grande laço branco. insistente. o coração estilhaçado e sem nenhum ar no peito. Outras vezes punha o robe cor de damasco. emboscada nas sombras do corredor. deslizava para o quarto ao fundo do corredor sombrio. tentando não fazer barulho quando voltava a respirar. vagarosa. nos enredos que seguia fascinada nos ecrãs dos cinemas. encolhida.

parecer-me ouvir lá dentro o crescendo trágico da ária «Un bel dì vedremo». mas também na tépida curvatura dos braços despidos. Lembro-me de. . cosida às paredes. Sem pressa. Fiquei a chorar sem saber porquê. a sentir o vidro na palma da minha mão subitamente trémula. a roupa interior arrumada nas gavetas impregnadas daquele odor a madeiras.guarda-fatos. uma bola com o seu pequeníssimo pé ajustado ao estreito gargalo um pouco áspero. Gostava de a ver passar a essência atrás das orelhas. nos pulsos. entre os seios que os decotes fundos mostravam. Pegava-lhe a medo temendo derramá-lo. sem ruído. como anos mais tarde Marilyn Monroe. repus a roupa no seu lugar e. No espelho do toucador os meus olhos pareceram-me sem cor. como se tentasse ocultá-lo. esgueirei-me pela porta que deixara encostada. num fim de tarde em que olhava a luz do crepúsculo através da iridescência desse frasco. os dedos a tropeçarem na rolha de vidro translúcido. Da cozinha vinha um cheiro bom a chocolate quente. que no entanto me deu volta ao estômago. amarelado. com uma gota de acidez a escapar do frasco de vidro toldado. que ela sempre escolhia. pousado a um canto. Estreito.o 5. da ópera Madame Butterfly. perfume adocicado. perdida no silêncio profundo do final do dia. como se extintos por dentro. espesso. com a marca gravada: Chanel N.

mas já à entrada de casa. Mas ela logo ficara desatenta. inquieta e impaciente. de emoções. Vigiava-a enquanto bebia champagne. no Hospital de Santa Marta. Uma noite. nos seus vestidos justos ou soltos e leves sobre as ancas. . longe de nós. às vezes. reparara como a sua cara primeiro se manchava de branco e em seguida de vermelho. linda de morrer. ia alto um Outono chuvoso e frio. enluvados por uma pelica fina e quente. que estavam fora de casa. dizia-me: – Pareces uma sonâmbula a andar pela casa. as duas de mãos dadas. com a luz forte dos holofotes que cortavam o céu nocturno. Estávamos ambas na rua. Recordo-me de a ver dançar o tango nos braços de alguns dos homens sedutores que a rodeavam no casino da praia para onde íamos no Verão. no princípio da guerra. Na verdade. Volteando. Foi um momento só nosso. os meus dedos nus apertados nos seus. a rir muito alto. os lábios pintados de vermelho a deixarem a sua marca de sensualidade nas bordas das taças largas de cristal. Em busca de situações.O pai. Punha as mãos atrás das costas e calava-me. sempre a conheci desatenta. que ainda hoje guardo. O meu pai ficava a trabalhar em Lisboa.

A avó era a única pessoa que sorria quando ela finalmente chegava à sala de jantar. e os saltos agulha que ela usava a pontuarem os passos firmes e leves em direcção ao quarto. Nunca dava uma desculpa. a caixa de pó-de-arroz e um lenço de cambraia branco moldado nervosamente numa bola. na qual passava a ponta do guardanapo. Instalar a calma na tormenta. o pai à cabeceira da mesa na cadeira de espaldar com o assento forrado de veludo vermelho-sanguíneo. compondo o vestido ao longo dos quadris estreitos. Às vezes ela saía com um pequeno chapéu preto de plumas igualmente negras ou grenás. Um pequeníssimo chapéu preto com um levíssimo véu que mal lhe cobria os olhos azul-cobalto. «Qualquer dia não volta para casa». Farejava-lhe o cheiro. talvez a imaginá-la ainda e ainda. para onde iam quando queriam discutir. entreaberta. da atracção e da mágoa. De paixão absurda e de obsessão sem nome. por certo despindo e atirando o casaco para cima da cama. Um imenso vazio viria substituir tudo isto. Ressentimento. retendo todo o sol da tarde. A bonança tomaria o lugar da tempestade solta pelos ventos e pelos oceanos da alma e do corpo que não se aquietavam. e a minha língua ganhava inesperadamente uma secura rugosa. as mãos voando em direcção ao copo de água que bebia cheia de uma sede inexplicável para todos nós. muitas vezes atrasada para o jantar. a entrarem-me na boca. pensara. a sopa a arrefecer nos pratos fundos com minúsculas flores pintadas em redor das bordas recortadas. o seu permanente esquecimento de tudo e de todos nós. pequena. num sítio qualquer.» Em sítios que eu não conhecia. sem pressa pela cara abaixo. posto de lado no cabelo louro enrolado em torno da nuca. fechados ambos no seu escritório. tal como a carteira de verniz. mas não mais do que isso. Sentia a saliva salgada. tão nova como uma menina. – Eu sou o teu marido – ouvira o meu pai dizer. Todos sentados em silêncio nos seus lugares. Ou sem a sua indiferença. de onde escorregavam as chaves. Ia ter com o amante – adivinhava – e ficava sem me mexer até ela regressar à noite. realçando-os. – «Fica com o homem com quem vai encontrar-se. do ciúme. uma explicação. Limitar-me-ia a ficar imóvel. Por fim ouvíamos a porta da rua a ser aberta ao fundo do corredor. agachada no escuro. quando a puxava para baixo sobre o nariz e o início da boca: num dos dedos brilhava uma safira. De desejo submerso e de culpabilização. Seria o terminar do tormento. . como se tivesse chorado. Devia tê-la afogado no banho. Sem os seus súbitos e inesperados olhares de ódio que eu não sabia explicar. perfume e cremes misturados no seu corpo. dizendo – não me apetece nada comer. intensificando-os por trás da rede apertada.Devia tê-la matado. da sensação de abandono permanente. com as lágrimas.

ser uma actriz do cinema americano. Pois o que ela desejava era viver como uma personagem. . Afasta-se de nós por entre as brumas dos cais. e eu sabia isso. Abandona-nos. Adormece para sempre nas camas por onde vai passando. Da prata da lua. Das rosas dos bosques.Qualquer dia não volta para casa – imaginava. vivendo histórias fascinantes como nos filmes. Foge. A família era o seu único acidente real. Das sombras das florestas. Dos mares das praias. Um dia não voltará para casa – percebia.

a fixar o céu terrivelmente azul. Com meigos reflexos nas asas que apenas eu parecia ver desdobradas nos seus ombros até à altura da nuca breve. muda. como se continuasse a rodopiar. mergulhando-a antes na caixa redonda de pó de talco com uma mulher-arlequim na tampa redonda de um cor-de-rosa baço. com o amante. seguia-a. Já na relva punha-me a andar à roda. de cetim. E quando ela saía batendo com a porta da rua e logo a seguir com a cancela baixa do jardim da casa. Umas altíssimas pernas moldadas pelo tecido macio ou pelas combinações cor de malva. nas traseiras. desinteressada. apenas com o coração a bater mais forte no meu peito raso. o lápis nas sobrancelhas louras do tom dos cabelos e dos pêlos do púbis: de um ouro claríssimo e luminoso. a provocar-me um fremente arrepio de medo. Quase distraída. a chávena a transbordar no pires. E ficava a imaginá-la em diversas situações. mais depressa e mais depressa. Flexível. Eu decorava-lhe os gestos e suspendia a respiração quando ela erguia os braços mostrando as axilas onde passava ao de leve a enorme borla branca. entontecida. Tinha os ombros fora da dobra do lençol: os ombros nus sublinhados pelas alças estreitas das suas camisas de dormir de seda. Se me descobria a espiá-la. o guardanapo de linho branco dobrado junto ao prato das torradas.». e logo se esquecia de mim. a descer entontecida a estreita escada de ferro em caracol. as combinações negras. lá atrás. quando ficava em casa. que permanecia imóvel no meu canto. de crepe-da-china. Devia tê-la afogado no banho. dizia apenas. a tombarem quase justas com os seus secretos entremeios de renda. a desenharem-lhe as virilhas. na ponta dos pés. «Ah. humedecida nos dias quentes de Verão. a colar-se às pernas sem fim. onde gostava de passar as mãos quando me deitava debaixo dos cobertores. vezes sem conta. com os cabelos espalhados na almofada.Devia tê-la matado. Ia ter com o amante – adivinhava. Ia ter com as amigas. até cair nauseada no chão. a ouvir o chiar do moinho de vento em cima do poço do quintal ao lado. Ou Rita Hayworth.. a cabeça enterrada na almofada a tentar evitar os ruídos. Ou no chá da manhã. Devia tê-la matado. corria para o quintal. pela calada. Tal como aprendia nos filmes: Lana Turner reclinada na colcha cor de pêssego a sorrir para um homem seminu. a camisa até aos pés. a querer vê-la a dormir. colocados no pequeno tabuleiro de prata. degraus oscilantes. a vê-la arranjar-se: passar o bâton vermelho-rubi pelos lábios. languidamente em contraluz a olhar pela janela. numa vertigem a que me entregava com um gosto ácido a rebuçado amargo. A seguir-lhe os passos que caminhavam para lá do possível.. entreabrindo somente um tudo-nada as cortinas. com a voracidade dos dias que aconteciam . em torno de mim própria. veneno no copo de whisky que ela bebia sempre ao fim da tarde. Quando a criada lhe ia levar o pequeno-almoço à cama. estás aí. as coxas.

puxando uma pequena alavanca que descobrira junto do assento improvisado onde me tinham sentado. . afastada de mim. Então. precipitar-nos no mar lá em baixo. rasando o mar. numa avioneta insegura. Numa tarde de férias de Agosto. um deles levara-nos a voar por cima da praia. Às vezes inventava-lhe apaixonados. tentei matar-nos. a voz forte e a fatalidade no olhar e nos gestos viris. Lembro-me de imaginar que esse meu gesto nos iria fazer cair. frágil. cheia de prazer. Sozinha lá atrás via-a reclinada no ombro dele. que vistas lá de cima pareciam quase lisas e imobilizadas. À minha frente. com os rostos dos actores que ambas víramos em vários filmes: Clark Gable ou Humphrey Bogart. a sermos engolidos pelas ondas. friamente. rindo muito do hipotético perigo para o qual inconscientemente me arrastara. sedução com a qual eu nunca poderia competir. os cabelos dela enredavam-se de vento.do lado de fora da nossa casa. esquecida já da minha presença silenciosa.

inutilmente à espera que viesse para se despedir e aconchegar-me. No dia seguinte peguei às escondidas no libreto que o pai deixara sobre a secretária. Uma cobra. Quando foi a S. depois no lençol e em seguida ensopando o colchão. Esta minha avidez. escorregando nas ancas magras. Esta minha vontade de a morder. à ópera. finalmente. Devia tê-la apunhalado no lugar do coração. Será que tentaria fugir à minha mão fraca mas firme. Apenas esta avidez. Mas ela esquecia-se. tardes e tardes inteiras. embora aparentemente trémula? O corpo convulso distendendo-se logo num último espasmo. Constatei também o abandono. sem palavras. no escritório repleto de papéis e de livros sempre bem arrumados onde me ia refugiar todas as tardes. Será que teria sentido alguma dor? A faca de lâmina afiada a abrir nela o caminho até à morte. De lhe percorrer a sombra quando ela passava. Carlos assistir a La Traviata de Verdi. Depois. ao cinema. Foi quando finalmente consegui ler alguns deles que entendi a paixão. Escorrendo pelo soalho. Nunca houve gestos. era de penas escuras. que nunca abria. também. Às vezes chorava por ela. Reconheci-me nas pessoas destituídas de amparo. vestindo-se para um jantar. O colar de pérolas pareceu-me uma nuvem de um branco opaco. se enfastiasse de me ver perto dela. um ruído rouco soltando-se da sua garganta. Nem ternura. sobre o seio esquerdo. E o leque. ao alcance da mão. grande decote afundando-se nas suas costas alvas e desmaiando entre os seus seios de rola assustada. Esquecia-se sempre de mim como se me enjeitasse. A perda. como fazem as mães que encontramos nos livros. De carinho. enrolado como uma corda de seda. com a faca de abrir os livros que o pai me dera nos anos e que eu guardava todas as noites debaixo do travesseiro. a mancha de sangue alastrando primeiro na camisa de noite. na cama. O infringir dos limites. pois reconheci nas suas descrições o gosto a cinzas de vulcão nos meus lábios. E a paz. de lhe lamber os cheiros. De tranquilidade. onde permanecia apenas o tempo de dormir e de se arranjar para voltar a sair. descobrindo-lhe o peito e os ombros. seria o silêncio dentro de mim.Devia tê-la matado. para ir a uma recepção. Implacável. Apunhalá-la enquanto estivesse a dormir. levava um longo vestido negro de seda natural. nubladas e nocturnas. Nunca houve palavras entre nós. colada às suas saias. sempre demasiado longe de casa. E o sabor acre e vicioso da obsessão. por vezes à noite. perdida nos próprios pensamentos. .

Filme de que tanto gostámos. Desta minha vontade de lhe lamber os traços. Se imaginasse. a cheirar as gorduras derretendo nas frigideiras. empurrando-me. ouvi uma amiga perguntarlhe: – Serias capaz de matar por amor? – Não lhe respondeu. Escondida atrás das cortinas da sua sala de estar. Morta? Juntas e coniventes as duas. como se a sua imagem fosse apenas a projecção numa tela que ela mesma criasse. – Vai lá para fora brincar – mandava a avó. Absurdamente distante. Não conseguindo enxergar nada tão perto que a sufocasse de emoção. no entanto. . atandome os atacadores das botas. afagando-me a face. mas apreciava estar na cozinha a respirar o fumo da madeira queimada no fogão preto chapeado de cobre. mas eu não me esforçava. Idealizava-a e incendiava-a. como se a sua vida fosse uma série de remakes. Tudo o que me davam a provar repugnava-me. Inacessível.. Lana Turner perdendo-se no próprio desejo. O Carteiro Toca sempre Duas Vezes. arranjando-me o lanche que eu nunca comia. desta minha voracidade. conseguindo apenas engolir à pressa o leite sem lhe tomar o gosto. à ambição de si própria mais do que de todos os outros que.. transformando em borboletas os laços das minhas tranças. Imaginasse. Eu seria capaz. Recriava-a. apreensiva. o olhar refugiando-se longe com uma ponta de desespero. – Tu não comes nada! – ralhava branda. revendo a seu modo. na sua incomensurável solidão. o voo. Intocável. subitamente pálida e ausente. afinal. Eu imaginava-a. a ver o açúcar a ganhar ponto nos tachos. não queria. mas somente em tudo o que dizia respeito ao cinema. Cenas e personagens femininas que ela parecia repetir. aos quais eu assistia dia após dia. sem o entendimento desta sofreguidão. aos filmes que víamos e amávamos. o destino que ela tentava moldar à sua vontade. Sobretudo adorava respirar o ar que a minha mãe respirava.Continuando.

o veneno a roer-lhe a carne. pendurado sobre o toucador do seu quarto. o seu olhar era ainda. a tremer de frio no meu pijama colado ao corpo magro por um suor gelado de febre. perdida em si mesma. virados de frente para as ondas. Iguais aos meus. Às vezes eu tinha pesadelos com a sua morte. encandeada pela luminosidade do meio-dia. Henrique encimava o largo com bancos de madeira pintada. como uma moderna e fatal Madame Bovary. Agressivo. Uns olhos ácidos. Por vezes. ao meio-dia. com o olhar cruel cada vez mais enlouquecido. Tinha os olhos cor das asas das borboletas. a boiar à tona de água na banheira enorme. Azul-cobalto. debaixo de um sol intenso. ou estendida na cama ou no sofá da sala. ficava a olhá-la a nadar. como nos romances de Agatha Christie e nos filmes policiais. Quando regressava e se deitava na areia escaldante. outras azuis.Ela enchia a casa com hortênsias vindas dos arredores da cidade da Horta. Inquietantemente para muito longe. de anil e especiarias. azul-cobalto. passeando de trás para diante em casa. na ilha encharcada de sol transparente: azul-cobalto. A estátua do Infante D. Mas a mãe detestava a ilha. nos pés vulneráveis a resvalarem nas sandálias abertas. inalteradamente. Acordava aos gritos. quando os fitava no espelho esquecida do mundo lá fora. tomando por vezes o tom do mar que bramia sem descanso batendo no paredão. Sonhava com a sua morte. a avó contava-me que eu havia . Os olhos que semicerrava. Algumas cor-derosa alilasadas. No dia seguinte. como um animal selvagem em cativeiro. Quantas vezes dei com ela a olhar-nos com ódio? Uma espécie de raiva surda que só se acalmou no dia em que. antes de mergulhar nas ondas que rebentavam aos meus pés. Sentia a humidade persistente do Faial nos braços despidos. Ela era fatal. as duas tomámos o hidroavião de volta a Lisboa. cada vez para mais longe. nas pernas sem meias. As hortênsias. Cada dia mais magra e pálida. Tinha os olhos da cor das hortênsias. deixando o meu pai para trás. Via-a morta. o punhal enterrado por mim no seu coração até ao cabo de marfim. enquanto fitava o céu até adormecer. o cristal dos frascos e as caixas de pó-de-arroz com uma leve tampa de prata trabalhada reflectida na parte baixa desse espelho com uma moldura escura. Silenciosa. O ar era quase sempre salgado. Azul-cobalto. Quando ela não estava.

O pai fechava-se no escritório a trabalhar. e. de que eu gostava bem mais do que das calças compridas. até onde ela subia as ligas pretas de renda. devagar na pele acetinada das pernas. passava-lhe os sapatos da mesma cor da saia justa. Hoje entendo a lentidão dos meus gestos. escondida. de súbito. pois ela já não dava por mim. Talvez fosse nessas alturas que mais tinha vontade de a fazer desaparecerprender com um simples gesto: Apagá-la. onde Humphrey Bogart mimava na perfeição a virilidade e o cinismo dos homens. Debruçado sobre os livros e os cadernos. dito a dormir coisas disparatadas. Como a Greer Garson. e mais ainda a Rita Hayworth. mandava-me ir para o jardim. que então só conhecia dos misteriosos panos escondidos nos cantos escusos das casas de banho. do mesmo modo ínvio. no início da curva das pernas. largas. cigarro longo entre os dedos. enquanto tentava adivinhar. Tirá-la. Ou ficaria apenas a estudá-la. Antes de me deitar. no movimento ondulado do andar. . fitando-lhes o brilho transparente à medida que as fazia deslizar. numa cena de filme policial. que na altura desafiavam a moral e os bons costumes burgueses melhor do que a justeza dos vestidos ou as rachas discretamente abertas atrás. traçada à frente. parando-as antes de chegarem às virilhas ou talvez um pouco mais abaixo. o que os homens lhe murmuravam ao ouvido? Eles tinham o cabelo acamado. ali onde começava o rebordo mínimo da cueca a tapar o púbis encaracolado. uma mão segurando o copo grosso e a outra dentro do bolso do casaco a formar um alto como se fosse uma arma. fatos escuros de traço severo. Porque ela era discreta. o pé apoiado na borda da cama. sublinhando a estreiteza esguia dos tornozelos breves. ou se me descobria a espreitá-la pela frincha da porta ou atrás de algum cortinado. primeiro uma e logo a outra. Mas em vez disso permanecia quieta.gritado. Mas com aquele tom provocante de desafio. a contarem suspeitosos segredos umas às outras. a perna traçada. fazendo tempo para regressar a casa onde ela provavelmente estaria a arranjar-se para sair: a subir as meias de vidro. Presa àqueles gestos que conhecia de cor. a espiá-la. sem nexo. a ouvi-la rir alegre com as amigas. – Vai-te embora! – mandava. antevendo menstruações futuras. que fora buscar a Lauren Bacall. expulsando-me de perto das suas saias. assustada. o joelho erguido. arrancá-la da memória. atenta. desapiedadamente. E eu mantinha-me no mesmo sítio. ou nas caves onde as criadas os punham de molho em alguidares de zinco. depois na esquerda. – Toma conta da tua mãe – lembrava-me muitas vezes. primeiro na direita. onde eu ficava cismada. os tangos argentinos e os risos à mistura com as vozes em tumulto que lhe chegavam do fundo da casa. a anca estreita que sabe suspender. a tentar abafar os fados de Amália. pondo Beethoven no gira-discos. luzente de brilhantina. como se de súbito me tivesse tornado transparente. levando-as de seguida até meio das coxas. a esmagar pétalas de flores vermelhas dentro de água até obter uma mistura fulva e ambígua.

Comigo. – Esta menina não tem mãe. Nessa madrugada permanecera acordada. em plena sala de aula.desmanchava sozinha as tranças.. e de manhã estava com os olhos pisados mais pelo ódio do que pelo desgosto da verdade que ela expusera diante de todos. Pois mesmo antes de sair de casa e nos abandonar. Assim como? Não explicara. tapava melhor as minhas irmãs adormecidas. entreabria as portadas de madeira da janela a fim de perscrutar o escuro da noite para além do luar que fazia brilhar a amendoeira do quintal enovelado nessa claridade difusa. ávida da sua atenção. a cruzarem-se umas sobre as outras. cabeça baixa. – E a professora apontara para mim com o dedo espetado. varrendo depressa o espaço no qual gostaria de me perder um dia. Nesta obsessão que me vai corroendo. Esfomeada. nos deixar para trás. . ela já não estava lá connosco. Comigo. enquanto a freira continuara a falar. acrescentando: – Por isso ela é assim. que na altura nem entendia o que fosse. atormentada.. quantas vezes não desejei que um avião nos viesse bombardear. cortar a minha solidão. a esbater-se num céu imenso onde já não vislumbrava os holofotes da guerra. pouco a pouco. Tal como ainda agora. Os vidros das janelas também não guardavam mais aquelas tiras de papel coladas. Afinal. Encolhi-me ainda mais no meu lugar. sem que eu entendesse o que ela estava a dizer. com a sua luz branca e encarnada. envergonhada.

numa última agonia. sem uma única ruga. E um vómito ardente começa a formar-se dentro do meu peito. grosso. avassalador e tenaz. magoando-me os pulsos e os tornozelos.As correias de cabedal a segurarem-me. . à estreita cama de ferro. enorme. Vejo-me como se fosse ela que estivesse aqui deitada. a prenderem-me. de coberta muito esticada.

II .

resultado de um Inverno que não passa nunca. deitada na terra ainda húmida do orvalho da alba. delas preferindo as águias. desaparecendo na espessura dos cedros. Erzsébet esquiva-se quanto pode. promete jurando a si mesma. magoada pelo seu avesso esconso onde disfarça os sonhos interditos e os desejos íntimos que trata em segredo com delícias de adiamento de crueldade e vingança.ERZSÉBET Orsolya Kanizsay olha Erzsébet com inquietação e desconfiança. cabelos frisados descendo na cinta como uma cascata. precoce aprendiza de feiticeira. menina sombria esgueirando-se emudecida pelas galerias e ao longo dos varandins. enredando-se nos cortinados de veludo carmesim. passo corrido até à floresta que começa perto. por questões de saúde. furtiva. mas mal ela chegara no meio da tempestade. nela detectara o negrume. Agachada antemuros a um canto agreste. deslargando-se dos braços que por seu lado sabe deslaçados de qualquer ponta de afecto. num trato especial com os duendes e as bruxas que a aprimoram no tratamento . – Um dia terei poder e serei o que desejo. que habitualmente usa descidas. sombreando cá em baixo a rama pobre e esquálida. sobre as ervas daninhas. deslizando em silêncio pelas escadarias e pelos intermináveis corredores gelados e escuros do castelo de Léká que. afinal bem mais arranhada. os esfacelados caules de flores tardias e os bruscos cogumelos venenosos que reconhece pela cor ácida e pelo cheiro a sépia. Escolhera-a com cuidado de esmero para sua nora. das pálpebras semicerradas. dedos nodosos a magoarem-na. das nogueiras e dos carvalhos de onde regressa trazendo os olhos tomados por uma luz incendiada e maldosa a escapar-se. Hostil. sem que nunca se queixe. Rosto mais inclinado para as pedras das quais o seu coração toma os traços endurecidos do que subido para o céu bordado de cirros carregados de chuva. o seu planar demorado por cima das torres e dos pátios interiores de um ocre doentio. invejando a liberdade das aves que lhe prendem o olhar. trazida pela rica carruagem de seu pai. de onde fica a espreitar o alto. criaturinha que adivinha manhosa. onde se refugia quando não dorme. E ela acoberta-se nas neblinas. rebelde no cumprir dos preceitos e ordens. o verrume insuportáveis. os condores e os milhafres. acocorada nos esconsos nocturnos das janelas. Orsolya escolhera para viver. De madrugada foge por entre a cerração que se levanta ainda noite fechada. corpinho magro de longas pernas esguias. e onde nos gabinetes e salões Erzsébet se demora o menos possível. esquivando-se habilidosa ao seu controle. testa larga apoiada nos joelhos subidos e cobertos pelo vestido de brocado pesado com que as aias a vestem. as folhas caducas que ali apodrecem à mistura com o musgo.

das poções e dos filtros. como se fossem manchas de alperce. a querer descortinar o anil do fundo. a cravarem-se ávidos por entre o pêlo curto que afasta com a seta da língua impaciente. a viver nos salões e nos gabinetes do castelo com vagares de preguiça e desdém.das infusões. . A sofreguidão que Erzsébet demonstra preocupa Orsolya Kanizsay. zimbro e as urtigas dos atalhos que percorre descalça até à superfície negra do rio. saiotes de linho e saias de musselina malva que os picos e as farpas dos arbustos prendem e ela desprende num gesto solto. assim como no ensino do ponto de cruz na talagarça hirta. que lava nos ribeiros e nos lagos gelados. Erzsébet guarda na manga de punho alto de cetim franzido rolinhos de papel marfim escrito com o sangue dos pequenos animais que mata. ou quem sabe azulgenciana. Mas a única mudança que Orsolya consegue detectar naquela que virá a ser sua nora é o gosto que ultimamente ela tomara pelo brilho das pérolas que lhe bordam o corpete curto e lhe dobam as encrespadas madeixas negras. atalhos arredios eriçados de silvas e de cardos. para lhes chupar a linfa. Conhece bem os trilhos ladeados de urze. fitas amarelas-açafrão ou verde-jade. roseiras selvagens. pente de osso largo marchetado em ouro tropeçando nas riças e nós que as poeiras e os ventos dão nos cachos de caracóis. buraquinhos abertos pelos dentes acerados e certos. rosa-chá e ambarinos. bichos-deconta. no trato com as palavras em várias línguas. usará opalas da Boémia e granadas cor de sangue coalhado. que vão ficando largados pelos caminhos. domadas a custo com pomadas. nos esconjuros e na decifração dos presságios. presa de uma sede pertinaz que não lhe dá descanso. tem por costume aninhar-se e que ela gosta de esquentar na quentura do peito. pele tão branca que parece azulada nas virilhas estreitas e nos tornozelos. para logo as subir nas coxas pálidas. unguentos e o óleo tirado das avelãs esmagadas. no início da nuca levemente suada e no ventre côncavo. arrepio de soslaio a trepar-lhe até à estreita folha do sexo. Já mulher. iniciando-a na leitura dos livros. com a música. sítio esconso onde a obsidiana verde. até elas estendendo o olhar. Tentando fazer recuar o tronco ou a rocha que se abrigam naquela rapariguinha de sobressalto. dos feitiços. quase negra. por entre as quais se afoita descobrindo veredas onde se perde por gosto. que na queda simulam outras cores na tintura da água das pequenas poças que vai encontrando: azul-da-prússia. que desejando domá-la cuida dela com aspereza. laços meio encobertos por gavinhas e insectos ressequidos. esquecida para todo o sempre das fadas das brumas das histórias de encantar. que ela alarga macerando-a com pressa. soltos dos ganchos de prata e dos laços de seda nova. de quem prefere as penumbras das cavernas e das grutas. mistura de chuva e granizo correndo no leito enrugado com as grossuras das raízes sombrias.

a oficializar o noivado: «Epithalamium conjunguit Dominum Fransciscum Nádasdy et Domina Helisabeth de Báthor». então. em seguida as pernas finas despidas da tepidez das meias brancas que lhe acentuam a lividez doentia. na aprendizagem do uso do nome e do brasão dos Nádasdy. Mais distante ainda. à mão alheia. já perto do vale onde começam as cabanas das feiticeiras e das bruxas. contrato de casamento firmado entre as famílias quando a menina completou onze anos e Ferencz dezasseis. destapa mais acima a cintura e as ancas direitas de criança arredia. na mata onde a floresta já se esgarça no declive que leva até às margens do rio onde se entremeiam os chorões e salgueiros que gemem à hora da alba. E por ali fica enquanto cresce por entre odores de alfazema. que acreditava na felicidade do casamento. e por fim o vestidinho do tom de cereja tardia arregaçado. A beleza obscura e ameaçadora de Erzsébet assusta Orsolya Kanizsay. enquanto de soslaio se mantém atenta à menor distracção de Orsolya que cada vez detesta com mais aplicação. de quem foge. que depois de casados Erzsébet gostará de apertar nos braços. no fundo das cavernas cavadas nas rochas. odiando cada minuto que a obrigam a passar abafando nas salas e gabinetes fechados dos castelos. depois de atirados fora os calções de folhinho de renda austríaca. mais longe os lobos. lentas e sombrias: as raposas muito perto. Noivo guerreiro e desatento. que em vão tenta educá-la para mulher de seu filho único. saia plissada enrodilhada na barriga côncava de tão lisa. e a vai consumindo numa obstinação rancorosa e jeito ágil. que contra-vontade dela já anda nas batalhas em que o pai lhe experimenta a coragem. Ilosvai Benedictus. Com a destreza que lhe vem do hábito. Gosta de os igualar ou mesmo de competir com a sede que eles têm do sangue de criaturas vivas. corpo de ossos miudinhos que a correnteza acaricia sem conseguir atenuar a brasa precoce que toma Erzsébet. dormem os vampiros. sem nenhuma abertura no coração para a ternura. enroscada pelos cantos áridos ou sentada nas almofadas de veludo cor de goivo espalhadas sobre os compridos bancos de madeira e as cadeiras baixas onde se senta junto ao fogo das lareiras. as martas e o restolhar do rastejo das serpentes. Nas suas costas sente o olhar fixo das feras que a espreitam ou a guardam escondidas atrás das árvores de casca grosseira por onde as trepadeiras sobem. «apesar do seu trato não ser com os homens. E ao ver nos lábios da menina um sorriso de triunfo e troça apertou-se o coração de Orsolya. leu a ambos o epitalâmio. . de Cracóvia.Águas de correnteza onde Erzsébet mergulha devagar os pés que sangram dos golpes traiçoeiros dos espinhos e das farpas. pensa com tristeza em Ferencz. os linces. e inconformada. que despreza pela evidente fraqueza». bravia. Mas ela não ignora quanto Erzsébet é daninha.

fugindo do calor sufocante. a esgueirar-se cosida às paredes até ganhar a porta alta para em seguida galgar nervosa os grossos degraus esburacados das escadas. das avencas. intactas e íntimas. que avança deslizando. onde se pode descansar da brasa da planície. correntezas de frescura e das sombras estriadas das florestas entreabertas de clareiras. adivinha a mulher que virá a ser um dia. dente de urso pendurado ao pescoço numa corrente de ouro dado por uma feiticeira. sítio onde descansa por entre as hastes da luz. No Verão tiram-na de Léká ou de Sárvár e levam-na para o castelo de Csejthe de que tanto gosta. numa mistura de carvalhos e pinheiros de ramos nodosos. Orsolya Kanizsay pressente nela o abismo. sítio aprazível para os cervos e os gamos que se imobilizam. enrodilhado no chão de pedra do salão iluminado por velas de cebo da Rússia. sainhas de crepe pregueado. nas terras altas. tendo-a então por aquilo que ainda não é mas nela já desperta. que sempre que pode despe para correr mais à vontade na descida demorada. e com um único golpe os mata. perto dos vidoeiros e dos abetos junto dos quais fazem toca os furões. balanço sustido pelo colete apertado à frente com botõezinhos de esmeralda. punhal com cabo de madrepérola preso na dobra das botas de pele macia que só usa quando caça: predadora astuta. gatinhando. sedenta. embora por vezes opte por descer as colinas por entre os renques dos limoeiros bravos e das vinhas. preguiçosa no peitinho quase liso. da seiva e das silvas. da placenta das crias. cuidando afastar o amuleto quando se debruça. . rastejando na terra e na caruma. na carqueja. obriga-a a usar vestidos de tule e seda. dorsos de âmbar percorridos por estremecimentos delicados. apercebendo-se da cobra pronta a desenrolar-se. em busca das ribeiras cristalinas. deixando escorrer as mãos pelas parras que afasta para colher os bagos que trinca devagar. da qual bebe com empenhamento sequioso e voraz. dos aroeiros e dos ciprestes. dando-se conta da vibração do ar à sua roda repleto de odores entorpecentes ou vertiginosos. estacando aflitos quando ela os fixa. ferida aberta na tepidez acetinada da veia. onde acoberta o coração descompassado nas escuridades do húmus. A sua natureza porém está mais perto da matéria orgânica. até onde ela gostaria de chegar tomando asas. as torcidas do sol esgarçado e o grito ácido e rápido das aves de rapina que pairam por cima dos penhascos. sumo a encher-lhe a boca com uma doçura malva que engole. Mas Orsolya. na casca quebradiça dos arbustos desalinhados.Pronta a afastar-se. para ir matar a sede no rubi da sua pequena boca. e sem conseguir discernir no vazio da menina o menor laivo de claridade que a sossegue. rápida. certeira. gemas mínimas. a dar conta da sua falta. Mas Erzsébet prefere escapar para mais alto ainda. até à álea que pela encosta a leva às cavernas do bosque onde se dissimula a fatalidade dos lobisomens. E sem descanso volta a trepar pelas subidas íngremes até onde se inicia o lado escurecido da floresta. Bordadinho abandonado na pressa. que não tem por hábito desistir.

tentando desvendar sem embustes o futuro em adivinhações de assombração. pousada em cima do tampo de carvalho da cómoda ou da arca onde se guarda alguma roupa branca no embrulho de cheiros. e por ela posta debaixo da almofada de linho. Orsolya recua. que a levam até às fundações das árvores despidas. onde afunda os passos. sem esperar debaixo deles encontrar a dureza da terra que de humidades em si mesma se funde. Dureza no modo de entrelaçar os dedos demasiado compridos. unhas como garras que mantém encolhidas por mera cautela. Ser nocturno que prefere a escuridade dos subterrâneos dos castelos à luz tamisada das suas salas. Erzsébet cheira à neve por baixo do plissado vestidinho magenta. depois de ter andado em busca de ervas infusas: meimendro e artemísia. Quarto por onde perpassa uma aragem ríspida que faz ondular as cortinas de seda bordada a fio amarelo-torrado. a transmitir-lhe a força da perseverança. Recusando por isso as infusões de cidreira e de tília que ela lhe serve em taças fumegantes. acoitada no mal que encobre de minúsculas safiras e topázios. olhar de cereja preta escapando cruel por entre o tremeluzir das pálpebras translúcidas. numa estranha dança a que fica atenta. rosmaninho e alfazema. cada vez mais sob o domínio do lobo. Mandrágora apanhada numa sexta-feira treze ao despontar da alba. aspereza de inocência perdida. Tão perniciosa. murmurando baixo ladainha ou sortilégio à medida que a lua sobe ensanguentada nos vapores da madrugada. ciente da morte lenta que esta planta resguarda. bainha aberta a linha dobrada. esvaindo no entanto a bruxuleante chama da lamparina de azeite perfumado. mais alados que firmes. Nociva. ficando de longe a vê-la caminhar na direcção do perdimento. para que aguente a espera através da qual avança em direcção a si própria. escuridez cortada pelo luar fraco que mal consegue passar as portadas de madeira entreabertas. nas quais se descortina o mestiço odor da beladona. peito opresso e cheio de tempestades desalmadas. que respira a haustos largos. Ela mesma loba. macios e traiçoeiros. entende ser melhor desconfiar e temê-la. à medida que Erzsébet cresce na demanda do negrume. por prudência. voraz. Atrás de si deixa com descuido e desleixo sinais e pistas que os flocos logo cobrem. que Orsolya Kanizsay. matreira e perniciosa. busca meticulosa por entre as estreitezas dos penhascos e os regos de musgo queimado pela geada. E pedra de feitiço escarlate que aperta na palma suada da mão esquerda. Então. No ar detecta cheiros amargos a argila e a pântano. ela mesma . cidreira ou camomila silvestre. escavando valas à sua volta de onde espreita aqueles que a rodeiam. No final das tardes curtas de Inverno. noite fora acordada na hostilidade do quarto. agachada na selva do abandono. nefasta e arredia.Perturba-a a obstinação que destrinça em Erzsébet. Por entre as ruínas onde vai dormindo descobre as fascinantes bagas negras do hyoscyamus niger. atroz e devoradora. Obstinada e resoluta. Traçando o seu próprio percurso. Ciguë Sem desistir contudo de tentar domá-la. catando de seguida as plantas balsâmicas que resistem à agulha do frio.

Porque não sei de onde venho. tal como hoje sou. Quem? – Ela. que desde a infância a consumia. conservai-me assim. 3 Erzsébet Báthory – A Condessa Sanguinária. Valentine Penrose.» 3 Não referindo Erzsébet a sua imensa sede de sangue. não sei realmente de onde venho. Assírio e Alvim. que de si mesma deixará escrito. na dúvida: «[…] Não sei de onde venho. sou incapaz de imaginar de onde possa ter vindo. não sei para onde vou: apenas existo e estou. levando-a aos actos mais tresloucados no cumprimento do seu ofício de feiticeira do negrume. Vós que não conheceis o vosso misterioso poder. . vós que haveis nascido tal como sois.nascida sob a nefasta influência da escureza.

filha! . «a pintar a própria loucura» – diziam os outros. como se algum estranho ruído a tivesse acordado com a pancada surda do susto. baixando as pálpebras maceradas. Estonteada. com a leveza de uma pequena bailarina. e começou a andar sem ruído. procura detê-la: – Não. Maria do Amparo olha Eurídice. levantou-se tacteando a penumbra pesada do quarto. olhos azul-da-pérsia muito fixos no pequeno rosto lívido. corpinho perdido e dúctil na longa camisa de dormir. sem antídoto possível. Mas a casa não respondeu ao seu chamamento. alarmada no escuro. atravessou a entrada que dava para a rua. seguiu o caminho da luz vinda da escada que começou a descer. tapete espesso mordendo-lhe os pés descalços... pequeno silvo apressado a fazer uma trança com o seu hálito macio. movendo o pulso fino e intocado como se quisesse guiar o próprio braço relutante na firmeza do gesto necessário para empurrar a porta à sua frente… Da inexistência do seu novo estado. Eurídice só parou diante do atelier onde a sua mãe se fechava durante meses. Atrasando o passo miúdo. e entranhou-se no labirinto da casa. Como se adivinhasse o futuro. Já no corredor. ou talvez tenha sido apenas um ligeiro sussurro. pois o silêncio à sua roda era tamanho que mais lhe parecia de pedra de nos prender ao nosso próprio fundo. Certa de que alguma coisa de mal acontecera enquanto dormia. Hesitou. e com as suas palavras mudas. braços descidos ao longo do corpo magrinho e selvagem de sílfide. pequeno espinho que lhe tivesse atravessado o coração espalhando em torno um misterioso halo de inquietação predestinada e venenosa. olhar petrificado de anjo assombrado. à espera de algum sinal que a tranquilizasse. degrau após degrau sem tocar no corrimão de lustro.ASSOMBRADA Sentou-se de súbito na cama. língua a aflorar os lábios finos e entreabertos por onde passava o sopro da respiração translúcida. suspira mais fundo ainda. parece murmurar. os pés descalços deslizando na madeira encerada do chão. Eurídice afastou então com cuidado o lençol pela dobra com entremeio de renda. – Ah!.. antes de estender a pequena mão arrepiada até ao fecho antigo.. – Ah!.

como é hábito. Maria do . E a mãe que ainda há nela tranquiliza-se. minha ervilha-de-cheiro. à medida do teu sonho. Ostracismo e paixão? Porque a vida sempre nos ultrapassa. está. por entre gemidos mordidos e soluços soçobrados no peito convulso das mulheres loucas. embora sabendo que ela se cumprirá no destino que já traça. para nenhuma de nós – dizlhe em vão. «Amanhã. e tu poderás continuar a reinventar-me como sempre fizeste. sozinha. alguém me encontrará. das escuridades que começam a invadir-te o peito. julgando escutar a voz da mãe à sua beira.» Eurídice sobressalta-se. Mas se abrires essa porta. – Menina desprotegida! – irão confidenciar mais tarde as pessoas sem comiseração nem piedade. me cobrirá o rosto. – Não dês o passo que falta na devassa daquilo que à tua beira ainda se esconde. mudado que tudo ficará nesse nada sem remédio nem ressurreição. precipícios e almas abismadas. língua bifurcada em sua defesa. narradora desta história de perdas. precavida no desamparo. a sua cruel expressão de soslaio. me descerá nos braços.E embora sabendo que ela não a ouve. para nenhuma de nós duas. Uma minúscula víbora? Maria do Amparo vê a víbora em tons de coral e rubi desenrolar-se devagar do estreito pulso da filha. Por vezes sente-se uma pequena loba. minha amendoada. E sabendo eu. me enterrará na fundura da terra. distraídas. mas a ignorarem. enquanto demoram o olhar de gelo desapiedado na sua magreza de órfã julgando adivinhar-lhe a tristeza. sempre desvirtua. Rosa-de-jericó sombria. tenta preveni-la do perigo que invariavelmente traz olhar nos olhos a morte arrastada pelo desespero. porque a partir do momento em que o faças nada para ti voltará a ser o mesmo. vais transformar-te no próprio labirinto. Mas ao voltar-se apenas descobre o vazio raiado de escuridade. e por isso ela nunca conseguiu ser mais que uma desencantada imagem desfocada pela sua cruel mão assassina.

mas logo distingue o vulto à sua frente. e julga ouvi-la sussurrar-lhe ao ouvido palavras incompreensíveis. de brancura ávida e perecível. Porque nada se perdeu. . tal como as escutou Virginia. o atelier parece-lhe deserto. as cores do arco-íris. embora existam em ti os genes da minha escureza. até à total perda do conhecimento. dedos trémulos a empurrarem já a porta pesada. com um lancinante grito interminável. com um pressentimento terrível. das telas no chão nu ou encostadas às paredes. num murmúrio cada vez mais baixo: – Fecha os teus olhos cor da água da inocência. e por fim como um baraço em torno do seu pescoço quebrado. seta do coração de fogo! *** Eurídice escuta a desordem que a rodeia. os panos manchados de óleos e resinas. da mesa antiga onde se encontram as tintas. imobilizada no início do gesto mal esboçado.Amparo. a paleta. uma difusa claridade nocturna manchada pela ramagem do grande cedro. as espátulas. Oh. oscilando devagar suspenso no espaço parecendo dirigir-se-lhe. ela dá um salto para trás. Inquieta dá outro passo incerto. Tu. mas aterrada. as latas onde a mãe arruma os pincéis. um dia irás ouvir as vozes. ou Sylvia ou Marina ou mesmo Florbela e Anna Akhmátova… Terás visões como Teresa de Ávila. como se fosse no teu corpo o corpo da cicatriz da minha alma. Continua com a mão estendida. admiro-te a determinação com que tentas salvar de ti a tua filha. Porém. Eurídice recorda-se de ter visto com uma nitidez improvável. deixa antever os contornos do cavalete. crescido no jardim diante das janelas. as forças desalmadas que se confrontam na ausência da mãe que lhe falta. e uma pequena carta lívida que parece rebrilhar à luz esvaída da lua. Corda grossa de muitas voltas de nós cegos. minha flor. com a qual a mãe se enforcara. primeiro passada em torno de uma das traves do tecto. Quando volta a si. a mãe no seu longo vestido escarlate pendurada numa corda de fios espessos. minha angelada. Primeiro.

num ciciar de que só ela dava conta. perturbava-a pelo lado do enredamento perfumado do seu corpo de rosa abrasada. menina rodeada de nuvens e sombras. a sua avidez contaminada.TRANSFORMAÇÃO Quando se aproximavam de Dulce. Já o pai trazia preso às suas roupas um adocicado odor persistente a formol e a hospital. acre e assustadora. descansava enroscada e tranquila debaixo das acácias ou das pesadas flores brancas das magnólias. numa trança fiada de transpiração de almíscar. dizia o pai. odor de largueza saudável e de normalidade harmoniosamente misturado aos tons de verde. Quanto à mãe. Para ela a realidade era demasiado árdua. com os seus gestos e falas atemorizadoras. dela desprendia-se um aroma macilento mas rebarbativo. preferia manter-se dentro de casa como se esta fosse gruta de recolhimento. Dulce era diferente. deslumbrante e abandonatória. que desde sempre a incomodava. surpreendido. cordas de saltar ainda enrodilhadas nos bolsos dos bibes. enleada no ensimesmamento das letras e das aventuras imaginárias. as suas opressivas exigências normalizantes. se o pudesse trocar pelos enredos que se entreteciam nos livros que lia com afinco. tomando atalhos só dela conhecidos. sob as quais se sentava de manso com a sua desordem. sumida quanto podia nas páginas de livros enluarados que aprendera a ler sozinha. – Esta rapariga é estranha. Distante e calada. a despertar a volúpia. estonteada. nauseada. recuando a olhá-la de longe. vinda das sombrias e húmidas cavernas ou das grutas pelos carreiros de assombro. mãos peganhentas de rebuçados e caramelos. Do que Dulce fugia. em busca de trilhos novos. sabonete de seda e nardo ou gardénia. Por isso desviavase da banalidade dos costumeiros caminhos da existência. Habituado que estava com as filhas mais novas. . de amarelo. tintinando. ao insurgir-se contra o convívio com os outros. A delinear-lhe a silhueta frágil parecia haver uma espécie de aura translúcida. cheirando à aragem e ao sol do jardim onde tinham passado a tarde a brincar às escondidas ou a jogarem à cabra-cega. onde os matizes ainda hesitassem num breve cintilar um tudo-nada trémulo e vacilante. iludindo os vómitos. voando ambas alto no salto inventado. deitada na terra quente e rumorosa. desse modo salva da presença intrometida das pessoas.. Das irmãs não lhe vinha mancha nem perigo: idênticas a flores e a riso.. ela tilintava como se fosse um sino de cristal. sempre satisfeitas. torpor do qual se desviaria de bom grado. que em breve partiria deixando a todos para trás. rumos furtivos ou até veredas inesperadas. E quando assomava às clareiras tépidas. cereja e tangerina. a correrem alvoroçadas mal o ouviam abrir a porta da rua para irem atirar-se-lhe nos braços.

quase sem ar para respirar a vida. na recusa dos sintomas de afecto. Do desenvolvimento do seu corpo infantil que. Do desejo que sentia adejar como asas de anjo nos seus sítios mais íntimos. de tal forma ali se sentia resguardada das conturbações.. A empurrá-la já para o corredor às escuras. Assustada. Da memória. desmanchava-se. Pelo contrário. porém. No entanto. esfiapava-se. obstinado. olhar de arame farpado. aflita. das quedas.. abotoados nas costas com botõezinhos forrados. Simultaneamente assustada e jubilosa. a querer defender-se dos precipícios. Debruçada nos livros. – Esta rapariga é estranha. Depressa. tornava o pai. laços de cetim apertando a cintura de fio. o quarto das criadas e o de engomar. Dulce descera a escada de pedra grosseira até à cave onde ficava a carvoaria. embora atenta e encolhida dentro de si. das ameaças que desde o nascimento a perseguiam sem compaixão. a amodorrar-se ao longo das histórias que ela lhe contava até a ver adormecida. Empenhada.Já o corpinho delicado e leve de Dulce. sumia-se. cabelo de ondulamento contido. apertado no peitinho liso. Lugares penumbrosos e equívocos de humidades sombrias. enquanto a mãe dizia impaciente: – Levem daqui a menina. ela tilintara só de o ver investido daquele negrume dos pés à cabeça. onde a deixava perdida. e por isso se disfarçava com o nada para se assemelhar ao nada.. afinal indefesa e exposta. desaparecia no enovelamento dos vestidos de cassa. desafiando todos a esquecê-la. esvaziava-se de tudo. como quando envergara pela primeira vez a toga. jamais Dulce se esquivaria ou usaria com ela o desafeiçoado comportamento de pássaro arisco. do crescimento e das emoções.. pelo contrário. se fosse a avó a aproximar-se. da ansiedade. se negava a deixar de . na sua quentura calma agasalharia os pequenos dedos de sino sempre frios. demasiado idêntico aos inquisidores de que os livros falavam. olvidava dúvidas e receios. ambicionando no entanto alcançar o alto. onde gostava de se esconder sem tilintar. austero e altivo. Um dia. repetia o pai com descontentamento. coração desordenando-se. Olhos de corça arredia. Portanto. desfiava-se. de cambraia ou tafetá. numa obsessão compulsiva. negando-se a tomar peso ou fruto ou seiva de veia... trabalhando as palavras com os lábios severos de finura desagradada. substituindo o excesso que era da sua condição pelo desvanecimento lídimo da ausência. Indiferente ao pouco e ao muito que acontecesse em seu redor. – Esta rapariga é estranha. pois parecia crescer um tudo-nada cada vez que tilintava. esmaecendo-se nos sonhos onde tilintava como cristal quando alguém dela se abeirava. modo de impedir a neta de se tornar transparente à medida que dormia. saia acanhada a subir nas pernas esgalgadas. Mas sem descobrir. impelida por aragens fortuitas. bordados a sedas frouxas. Semelhante a uma haste. folho alteado no peitilho e nos punhos.

e às escondidas levou-o para o seu esconderijo onde o leu com sofreguidão. que desde o berço não lhe tocava nem escutava o seu sopro de criança enfebrecida. em que Dulce inferiu. Por isso. em morbidez de água alvoroçada. tilintava como se fosse de cristal. ossos miudinhos de ave. Instante luzente. de Ray Bradbury. Sobretudo enfurecido pelo facto de não descobrir o que esconderia aquela menina por trás de tamanha apatia desmaiada. – Não tens pena do teu pai? Perguntou-lhe a madrasta. sentindo avolumar-se a raiva diante da sua recusa.ser ilusório. que tanto teimara em inexistir que certamente se tornara numa mera personagem das histórias de fadas. tecida – roca e fuso – com a saliva das aranhas. passou sem piedade a envergonhar-se dela. e ao procurar na estante do pai novas leituras. consciente da sua essência quebradiça. cena copiada das aventuras dos contos de encantar. E não descortinando nenhum vestígio daquilo a que chamava normalidade. E Dulce. inquieto e inseguro ao olhar a filha insubmissa embora desbotada na tentativa frustrada de desaparecer. determinante. o instinto guiou-a até O Homem Ilustrado. membros com a flexibilidade de lianas. num desabafo de navalha cortante. teimando em evadir-se através da leitura e da escrita. desse modo desandando-lhe o destino de opala preciosa. a abeirar-se desta sempre que pressentia o risco adensar-se à sua volta. suspirou baixo. Temendo a perfídia. adelgaçando-se cismada em busca de uma harmonia impossível. Então deixou de querer ler essas histórias. que acabara de perder a avó numa madrugada fria. calamento de cisne tentando vogar num lago de inquietude. mesmo se pé ante pé. – Mais valia que ela sumisse acabou por confessar o pai. Lívida de cera.. por entre estilhaços de gelo e estalagmites. assemelhando-se a uma abelha ou borboleta de bilro. desatando-se das horas.. confusa e ofuscada. E se a obrigavam a engolir qualquer outro sustento. outra e outra vez ainda e ainda. Extraviada. Dulce alimentava-se de colherinhas de leite coalhado cor de pérola de lua. tecidos débeis. o que encobriria ela debaixo da pedra musgosa do seu mutismo. depois voltou de novo e de novo ao conto «A Selva». mal os outros se aproximavam. continuava a suspeitar o pai. caracóis emaranhados e fulvos como se estivessem pegando fogo a fim de se tornarem cinza.. – Esta rapariga é estranha. da sua desobediência equivocamente apagada. . Para essa menina em que ela se tornara não havia perdão possível. Crivo ou joeira ou filtro. ela tilintava como se fosse de cristal. mais pétala do que menina na sua palidez de ruiva. – Esta rapariga é estranha. Em dívida para com a ficção e os poemas que sabia de cor. perdida numa mudez de lírio de Inverno.. De néctar. mais sopro imaterial do que remoinho. ia insistindo o pai. que ocultava no seu saco uma belíssima maçã envenenada. Dulce assemelhava-se crescentemente a uma teia.

a morte. idêntica ao pêlo áspero dos leões. começar a formar-se um surdo e indomável rugido cruel de felino. que no seu todo se iam misturando. Só ela via a vegetação árida. a urina e a fezes. E sem dar por isso. que se distinguiam ao longe devorando as suas presas. um quarto pequeno que lentamente se foi transformando numa imensa planície africana impondo o seu sol calcinante. onde distinguia as zebras e as gazelas. como quem incorpora. na sua garganta ainda de garça. os urros. a charcos de água inquinada. o riso agourento das hienas. o tropel de patas pesadas das avestruzes. divisão a divisão. a formar-se. E no momento em que a canícula tomou conta de tudo. os grunhidos. Depois. os guinchos de outros animais.tardes a fio: como quem decora. a sangue. a carne apodrecida. como quem toma para si. O zunido simultaneamente acetinado e áspero de milhares de insectos invisíveis sob a folhagem viva. os torrões de terra esfarelada e o pó vermelho de onde se elevava um intenso cheiro a savana. uma leve poalha de brasa oculta e frondosa começou a germinar. Dulce rumorejou sussurrante. a embrenhar-se por entre os milhares de outros sons. A assassínio. a crescer e a adensar-se em torno dela. com vagares de mudança. . avolumando: o piar grasnado dos abutres. o resto da casa foi mudando sem ninguém se aperceber disso. Dando início à metamorfose: primeiro surgiu a substituição «da sala de brinquedos» onde habitualmente se resguardava. Céu profundo e infinito a encimar o que dali se abarcava: vegetação amarelecida. as serpentes e os tigres. para logo em seguida.

. apavorado e estupefacto. fremente e implacável. Inquieto. mas em vez de qualquer delas. entrar finalmente na mente da filha. trancado. Com o mesmo olhar azul vidrado de Dulce. para a levar ao consultório de um psiquiatra seu amigo. acompanhado por um leve tilintar cristalino. chegar até ao seu inconsciente e extrair o que lá se encontrasse iludido. ecoou inutilmente pelo interior da casa. em dissimulação transfiguradora. encontrou.Quando a meio da tarde o pai a fora buscar. Predadora. vindo de trás das árvores da selva que havia tomado o lugar das estantes e da sua secretária. imenso e degolado. a savana ardente. ao abrir a porta de casa deu conta de um intenso e nauseabundo cheiro desconhecido. Na selva. com o fito de. quem sabe. a perder de vista. Mergulhada num implacável e cruel odor de sangue. o sol resplandecente atingiu o zénite no exacto momento em que o lancinante grito dele. se aproximava. E ao entrar na divisão onde deveria estar o seu escritório. enquanto se apressava pelo corredor. onde num repente tudo parecia ter voltado à normalidade: não mais que uma casa irremediavelmente vazia. chamou a mulher e depois a menina. apercebeu-se de que. com o andar vagaroso de animal selvagem. Pronta a formar o salto. uma pantera que o fitava.

a mim que vivia com o coração nas mãos. num sobressalto contrariado. com quem vivia. me brotassem do corpo. Eu entreabria uma nesga mínima. invisíveis. Pérolas de poeira mate entorpecida. e as asas cintilantes. – Convida-nos a entrar. aflita com o chegar do crepúsculo. topázios e diamantes. olhos muito abertos no escuro. deixava-me de noite sozinha para fazer contrabando de esmeraldas. sensação indizível de fascínio e temor revolvidos no meu desassossego calado. um pequeníssimo cicio. que nunca resultavam. A partir do final das tardes. E abria a porta aos anjos. . Então recuava um pouco afligida e corria para a minha cama gelada. cuidadosa. Por vezes. esquírolas ou lâminas de luar. pois a minha mãe. quando me chamavam pelo nome que só eles e a minha mãe me davam: – Maria do Resgate! Aproximava-me descalça. um leve rumor de corrente de ar ou fio de água. e em seguida ficava a escutar o seu sussurro indizível. já em menina incandescia. abrindo-nos a porta. que mais pareciam constelações celestes. e quem sabe as suas bênçãos de protecção.MARIA DO RESGATE Não sei porque ardo. distinguia-lhes as mãos de carícia com a palidez dos círios votivos. Sem ter a quem recorrer. em cada omoplata. onde ficava a tiritar do frio que o seu esvoaçar provocava. ensinavam-me. a tentar esquecer as oblongas manchas rosadas de asperezas equívocas na minha pele lisa. como se cortassem a pele. abria apenas uma estreita frincha por onde entrassem. por essa fresta ínfima. em cada ombro. estrelas e cometas. apoiava-me onde podia para chegar ao fecho dourado lá no alto e. apertava-se-me mais ainda o peito de menina assustada a temer a noite. confundida. no fim da madrugada. de raspão nos meus cabelos. manchas que continuavam a aparecerme nas costas. a sentir os seus beijos.

numa cadência suspensa: – Maria do Resgate. Flibusteira com as suas espadas e punhais. Só me tranquilizava quando os anjos rompiam o círculo à minha roda e me deixavam voltar a adivinhar-lhes as asas esvoaçadas. E aninhada no chão a um canto do quarto. voltava a entreabrir-lhes a porta e os anjos entravam. sempre que os anjos se remetiam ao silêncio. Então. E sem saber o que eu resgatava nem o que queriam de mim. etéreos e cruéis. habituara-me a cobrir com os braços em cruz a cabeça deitada nos joelhos arranhados e magros. a frieza da morte. porque sendo corsária passava meses em galeões com bandeiras de negrume. apesar de não os escutar nem ver. pois a minha mãe. pelo sacudido zumbir que eu ouvia. sentia-os ávidos e avaros. desorientada e sem rumo pelo muito que eles voavam na casa. combatendo na lonjura dos mares que nem os mapas assinalavam.. deixava-me sozinha. nauseada. com quem morava. . e no entanto entrava em pânico quando de súbito se calavam. E embora quisesse muito ir abrigar-me na minha cama. o sítio onde estavam. pois desse modo perdia-lhes o vestígio. Sem ter a quem pedir ajuda. enquanto eu. a examinarem-me… a inocência impossível? – Como se eu fosse uma parábola. onde aflorava o vento quando volteia a desatar e a desarredar do espaço o precipício. num rasto de jasmins-do-cabo. e nem o seu incerto brilho de rasura me guiava. escutava-os a chamarem-me de murmúrio. julgava que esbracejassem. o rumor rarefeito das suas asas. Cimitarras? Com lâminas afiadas e deslizantes. Outras vezes. esperava em vão um alvorecer redentor. implacáveis e sangrantes. Rápidas. com as suas nervuras de espinho e rosa. com a firmeza.Mal a noite descia. tomando rotas diferentes. numa amálgama indistinta de luz difusa. de segredar entre si. o ciciar viciado dos seus lábios intocados. e na boca o seu compassado respirar perfumado.. paravam de murmurar. não sabia como a encontrar. debruçados sobre mim. Sentia-lhes o hálito na minha nuca a arrepiar-se. adagas ou sabres. atordoada com o seu ligeiro mas constante zunir. quase sem os divisar na bruma que deslizara com eles para dentro de casa. arrastando consigo pequenas labaredas ou lampejos. Preferiria poder contá-los. designar cada um pelos seus nomes árduos – imaginava.

no início. Disfarçando a minha condição de equívoco. temperando fogos interiores e medos que sempre me inquietavam. eles eram os oráculos. Quem sabe se viriam para me salvar – pensava. enquanto eu não passava de uma menina abismada. lhes recusar a entrada. . reconhecendo o contrário. os anjos me tenham parecido necessários.Talvez por isso. mas sem coragem para os enfrentar. Na verdade eles eram os eleitos.

cumprindo o papel de mediadora da crueldade dos anjos: «Todo o anjo é terrível». tinha perfeita consciência de que. . num acinte de aflição: «Quem. de repente. pergunto. na minha «infância impossível». E abria a porta aos anjos. uma réstia de porta por onde eles se esgueirassem. Tradução de Vasco Graça Moura. num súbito esmorecimento ambíguo 4 «um deles. se eu gritasse. uma fresta. dirá séculos mais tarde um poeta. quando era menina. num fuso de versos. Noite após noite. embora fosse sempre eu a sentir-me uma intrusa na minha própria casa.Não sei porque ardo. 5 4 Do livro Elegias de Duíno – Os Sonetos a Orfeu. me ouviria de entre as ordens dos anjos?» Na verdade. 5 Ibidem. de Rainer Maria Rilke. se na fundura da minha solidão. sonsa no deslize emudecido dos pés nus ao longo do soalho. finalmente. E também como ele. quando me chamavam pelo nome que só eles e a minha mãe me davam: – Maria do Resgate! Aproximava-me sonâmbula. já em criança incandescia. num fuso de mágoas… Ano após ano. num fuso de luz. uma intrusa na história que me sentia obrigada a cumprir. uma intrusa na vida. a entreabrir-lhes uma nesga. olhar rapace imobilizado no reflexo do espelho. Bertrand Editora. me cingisse ao coração: eu desfaleceria da sua existência mais forte».

para em seguida lhes tomar a alma. lama e seixos. num fascínio desmedido. ervas aquáticas. com os quais ia antevendo. onde as águas dobadas corriam contornando plantas. sem no entanto deixar de ser sombria e geniosa. o sorriso de rosa escocesa. colheu-as uma após outra. traídas e assassinadas pela própria sede. De quem as pessoas se afastavam. no entanto. folhas. a pele resplandecente. cinabres. as madressilvas e os chorões. abelhas afogadas. esgueirando-se pela porta que antes de se deitar deixara só no trinco. pedras escorregadias e limosas. uma por uma. a perder-se e a afundar-se em si mesma numa ansiedade convulsa. Destino? Quer na rota clara da praia. mais afoita. desamarrá-la da vida. para em seguida as comer. já perto do rio. rodeada pelo sussurro insurrecto de vozes em surdina e de vultos. miúdas e delicadas como minúsculos sinos de igreja. carmesins. Antecipando-se à própria morte. o caminho que a levava até ao portão alto em ferro forjado. acompanhada por uma febre alta que a fizera arder durante horas. lodo. os renques de roseiras selvagens. mas igualmente as campainhas amarelas. Bermas onde nascia a esteva com as suas flores alvas. o olhar de brilho. Ao tocar-lhes. pálidas de desmaio. não resistindo à desdita que a empurrava pelos declives da vida. Trazia sempre consigo nos bolsos cristais de transparências lívidas nos seus muitos lados irisados. arrastando consigo galhos quebrados. de aridez tardia. toda ela renascia. nela indo o mais longe possível. a desencadearem nela uma náusea salivosa. Uma tarde. e descia em bicos de pés os degraus de mármore branco e depois. penumbrosa.FATAL Era uma menina fatal. prevendo o que viria a acontecer à sua volta. quer no difícil acesso sombrio à floresta. Mas Cassandra também trazia nos bolsos pedras vermelhas: escarlates. numa pressa de rola aturdida. – Passaste a madrugada a delirar! disseram-lhe na manhã do dia seguinte quando lhe foram pôr o termómetro . com o tom intenso e luminoso do ouro dos alquimistas. e por isso enlanguescia. lajes quebradas e brilhantes. por entre silvados e mato. silhuetas sem rosto nem rasto que tentavam desatá-la. gravetos e pétalas maceradas. pela areia que. temendo que as olhasse nos olhos. a escapar na pressa de chegar à encruzilhada onde teria de escolher o seu caminho. entrasse dentro delas. Margens estreitas de esfarelados torrões de terra. amargosa e ácida. Cedo aprendeu a sair de casa em bicos de pés. sempre lhe parecia movediça e muito fria.

Por vezes preferia a praia: imensidão tamanha que gostava de admirar. do rumorejar imperceptível da queda das folhas. ignorando se na realidade poderia ou não ter morrido envenenada. ignorados pelos outros. pela fieira do húmus e das lamas. unhas cortadas rentes. os salgueiros. afastava-se pelo atalho das árvores. A vertigem. a entreabrir-se. que lhe estava proibida. tal como as ondas. sortilégios. as vagas alterosas luzindo inundadas de sol. Cassandra acamou dentro de cada um deles rolinhos de papel muito fino. Mas para onde sempre escapava a fim de se reencontrar e se salvar a si mesma. dizeres mágicos e factos imaginosos. escavava buracos no chão com as mãos e os dedos de fuso. a crescerem nas margens do rio que atravessava os lugares mais escusos. satisfeita por não ir ao colégio das madres ela mantivera-se silenciosa. Outras vezes. atenta ao ínfimo deslizar dos insectos a correrem debaixo dos ramos de fetos. . a vertigem… Ela conhecia a vertigem. e os choupos. onde já se escutava o bramido do mar. a tentarem escapar por entre musgo e caules apodrecidos pelas chuvas ou as humidades nocturnas e as ervas daninhas que ela reconhecia e evitava. onde escrevera versos. desejos que calava. como acontecia quando fazia o mesmo no areal da praia. quando o desejo de se isolar era tanto que disso dependia a sua vida. mais misteriosos da mata. em busca do canto dos pássaros. Em seguida.ainda cedo. rimas e dilemas. Sentada na berma do rio. cada vez mais fácil. pois não confessara a ninguém ter comido as campainhas que nasciam a meio caminho entre os cactos do deserto logo antes de começarem as dunas da praia. que a encharcavam sentada à beira-mar. sentindo pouco a pouco a terra ceder. palavras de vidente recriadas nos sonhos.

miudinha e ardilosa. de quem as pessoas se afastavam. as faltas culposas. de ódio e sordidez que escondiam nas mentes e nos corações mirrados.Sem medir o excesso daquilo que dizia e do demasiado que adivinhava. Então tentavam desacreditá-la. afirmando no disfarce da raiva: – Esta rapariga é maluca! Quem sabe se. empurrando-a para fora do sagrado círculo da comunidade. sempre temendo que Cassandra. encontrando no lodo desse fundo os muitos pensamentos de inveja e traição. esquivosa. Cassandra era uma menina esquivosa. «Ovelha negra sem aprisco». temendo-a. detentora de poderes escusos exacerbados pela caligem. acabava sempre por escapar-lhes por entre os dedos. a exigirem para ela a expiação e a mágoa. embora admitissem a possibilidade de Cassandra poder escutar-lhes as falhas. não tentariam seguir os passos de Apolo no decorrer dos tempos. impiedosos que eram. assinalando-a eternamente com a marca do descrédito. – Ela consegue adivinhar o que nos vai na alma – preveniam-se uns aos outros. ao descobri-los. nem afronta ou ódio ou sequer desafecto. a ignoravam. Provavelmente porque os ignorava sem desgosto algum. Talvez também por saberem isso eles pareciam ir ganhando esperança à medida que a afastavam. supersticiosas. Só gostava de livros. . com a lividez das velas dos altares. da família. Era uma menina desapegada dos outros. Mas Cassandra. que a seu modo irado de quem não perdoa o desdém e a diferença amaldiçoara aquela outra Cassandra profetisa. a magoavam. embora sem jamais confessarem com clareza o medo que sentiam dos seus poderes divinatórios. E menos ainda dos seus poderes proféticos. temendo que tamanha afoiteza a pudesse levar a devassar-lhes o olhar maldoso. denunciavam com acinte. que constava ela possuir no devassar do passado e no desvendar do futuro. pela calada da noite. os tornasse visíveis diante de todos.

aí permanecia até à alvorada fitando a enorme lua a tomar conta do céu ponteado de luzes e flâmulas. logo lhes adivinhava a saúde. para ir deitar os seus cristais na clareira das faias. tentava adivinhar pela melodia das palavras se eram de negrume ou de cintilação. onde ficava a conversar com os astros. embora a sua invisível presença a inquietasse. de safiras e esmeraldas. ou a morte. a tropeçar na camisa de dormir até aos pés descalços. inquieta e insone.Cassandra escapava de casa durante a madrugada. Quando era mais pequena. De múltiplas constelações. Arcanjos. que sempre rondava a tentar cercar todos os que nascem. pelo lado do equívoco dúbio que sempre encontrava nas palavras da avó quando esta se referia a um voo sem regresso. arrastava um pequeno banco de palhinha entrançada. Por isso. . como se fossem anjos. ou das feiticeiras com as suas asas de ametista e rubi. mesmo que só à superfície do olhar. Pois ao fitar as pessoas. subindo nele para chegar aos vidros quadrados da janela do quarto. Cassandra jamais as temera. sem jamais lhes responder coisa alguma. quando as vozes a contactavam. em noites de lua cheia. E sendo da mesma condição voada. da qual abria para trás as portadas de madeira. De onde voltar não seria mais possível. A distinguir os vultos das bruxas de quem as mulheres mais velhas enumeravam os poderes.

como se um poeta os tivesse escrito na água absolutamente imóvel. sem o destino. edição portuguesa de MEL Editores. a fim de soprar as brasas que refulgiam como rubis por entre o cinzento vulcânico das cinzas. nuinha de todo deixara-se afundar no rio. que lhe reequilibravam o corpo frágil de menina arredia. . Mas como nos últimos tempos já nada lhe chegasse.Só se sentia liberta quando ficava sozinha. 6 Hamlet. quentes. de respiração sustida. duro de goma seca pelo ferro de passar. das máculas do mal. lisas e macias. clamando por Ofélia. 6 Da condição da tragédia. a limpar-se das contaminações. o abismo dos outros pesando nos seus ombros de menina vulnerável. de William Shakespeare. E eram as noites em claro que passava escutando os astros e as demoradas tardes perto do mar ou à beira do rio que a salvavam. que as mulheres abriam levantando a parte de cima. das nódoas da angústia. suspensa. Só os seus cabelos de fogo ficaram a flutuar à superfície translúcida das correntes que se entrecruzavam. e «os seus vestidos desenrolaram-se à superfície da água e sustiveram-na como se fosse uma sereia». «Oh! rosa de Maio!» – invocou Shakespeare. tradução de Domingos Ramos. letárgica. pequena sibila contra quem se volta sempre a lâmina afiada do próprio dom de adivinhar o impossível. a desgraça. por um laço de borboleta. a molhar a bainha da saia e em seguida a ponta do bibe apertado na cintura. pés descalços que mergulhava até aos tornozelos fininhos. Sentada nas suas pedras duras e escorregadias.

é um suplício de lágrimas recusadas. descuidados e rebeldes. mas de súbito a peçonha parece transbordar e ir brotando selvagem. numa espécie de sangria fluida. a cobrir-lhe os cabelos crespos e negros sempre despenteados. deixando-a a esvair-se aturdida. Então o seu próprio coração ora esvoaça ora sobe demasiado alto. de sussurros contidos. voraz. Manter-se sentada ao longo do ócio de tardes inacabadas. do rosto moreno e impenetrável da infanta. Atrás e dos lados escapam no entanto. intento e modo de intuir o cálice envenenado guardado no coração de pedra da princesa. Enquanto ele diante do cavalete lhe copia os traços. a navalha afiada. a ponta da crueldade por si já apercebida. tomado de tonturas e de suores frios. que a partir desse momento começa a emagrecer.O RETRATO Põem-lhe a cabeleira pequena e empoada. a contaminar Mariano Maella. e ele pára de pintar até encontrar novo ânimo para regressar aos pincéis e às tintas. ou na sensualidade a florescer já nos cantos dos lábios finos. descolorida. a Mariano Maella interessa captar-lhe a atenção. sentada hirta na sua cadeira. a partir do corpo intocado daquela que é agora princesa da Beira. O seu olhar incendiado brilha mudo. de quem está a tentar tirar-lhe a alma. a enfraquecer. Carlota Joaquina. fel e aziúme. os longos dedos de Mariano Maella tremem. à medida que os dias passam demorados. unidos com determinação teimosa. a tomar conta dele. Quebrantado. Desconfiada e esquiva. alguns canudos feitos a poder de ferro quente. a desfalecer. feito de ódios recalcados. para os outros invisível. cativar-lhe o espírito que sente escapar. gestos demasiado medidos e lentos. cabelo amarrado atrás com um laço de veludo. cheio de amargor. pelo contrário. óleo de nardo e amêndoas doces. dominado o desassossego que pouco a pouco está a entranhar-se. astuto e ardente. a despontar apenas na crispação. Sem se importar com o tremor que faz vacilar o corpinho delgado da princesa espanhola. o retrato vai surgindo. pulso amortecido num desmaio adiado que nunca chega a acontecer. havendo nesse fundo penumbroso uma lentidão de raiva obstinada. incerto. prendendo-o e soltando-o no mesmo movimento. para lhe ser pintado o retrato. Por vezes. deixando uma madeixa solta sobre a fronte ampla. travar-lhe o desagrado. A sua essência conturbada? No entanto. de gritos sumidos e unhas enterradas até ao sangue nas palmas das mãos suadas. fica horas a . Para além do rosto ingrato e sedento. alto e pálido. no orvalho dos seus olhos furtivos com obscuridades de bosque. nas unhas pequenas e róseas. imperfeito ainda. cingido ao busto nervoso de criança magra. inquieta e falsa no seu vestido de seda azul-pervinca com reflexos de prata e renda de pérola cinzenta. o pintor demora-se. vista toldada. Carlota Joaquina depressa começa a detestá-lo. Mas existe igualmente o espinho. adivinha a sua respiração retida.

Pior ainda. Carlota Joaquina passa aparentemente a sua cúmplice. Maella desobedece. indiferente ao tempo que resta por cumprir em cada semana. desejo voraz de a possuir pelo interior da textura húmida das tintas do retrato. a cada exaltação recalcada. como se estivesse atordoado. A sobranceria. A enfrentá-lo. em cada hora. Rapace. Tem as pupilas fixas. sob o comando febril da sua vontade e da mão gelada. extingui-la com um sopro. E o pintor vacila. com um rancor sem perdão no qual se perde: atenta a cada pincelada. e com perseverança acaba por obter a maceração da pele da princesa até atingir o tom quente da canela moída. como uma pequena águia imóvel no seu voo planado. de paleta na mão esquerda. Modificando-a. de delírio e safiras intactas. ao limitar-se a dar testemunho da princesa tal e qual como ela na verdade é. inexacta: no desalinho. num lento rosário de ónix e febre. mordida pelo sol. a cada segundo que passa. dia após dia. arrogante. Anseio só igual ao de conseguir destruí-la. perdida. no excesso. como por vezes julga entenderse. repintá-la vezes sem conta. Mariano Maella arde por tocá-la. ao aceitar essa visão em silêncio. A jogar com o destino e também com o desdém. testemunha do enredo fatal onde Maella se afunda. de rede. à forma como ele. Arrebatada e fácil. apesar da perplexidade que intui diante dos sentimentos aos quais se entrega por inteiro – podendo isso impeli-lo até ao desvario –. espátula. Enleada. . e jamais um pássaro de gaiola. mais voraz e feroz se possível a cada minuto. a desenha e pinta. Transformando-a. no desassossego. se emaranha numa espécie de teia. armadilha urdida pela fadiga que cada vez mais o aproxima do esgotamento. Desse modo a escapar-lhe. Mas ela desafia-o através do mais completo desapego e desprendimento. ansiosa e alvoroçada. supondo que desse modo Mariano Maella dará por findas as intermináveis sessões de pose. mostrando-a tal e qual como seria quando chegara a Portugal… Portanto. Transfigurando-a. a cada hesitação. ostensivamente errática e entediada. a aperceber-se todavia lúcido. a inocência ardorosa que ele preferiria esquecida. cores. à medida que este ganha forma. Diverte-a a sua vulnerabilidade à medida que ela experimenta a própria força.seguir-lhe os gestos extenuados. conivente com o desacerto da própria imagem. onde ele consegue fazer chegar a ponta infectada do pincel. pois na verdade tenta destruir-lhe a aura de realeza na qual arduamente tem sido ocultada. Sangue magoado. Ele que fora contratado para retratá-la embelezando-a. do mesmo modo passional da sua entrega à pintura. exigência de tomá-la para si na inteireza do gesto de imaginá-la. recriála. como a uma lamparina. pincéis e tela a captá-la tal como a vê e não como ela é. oscilante e inatingível. Expondo-lhe a venalidade temporã.

Emoção afundada e oculta na sua face de criança maldosa. mas ambos imóveis. corantes. à medida que Mariano Maella lhe capta uma por uma as feições. o amarelo-enxofre. vingativa. isolando-o de todos. no desleixo de conter as correntezas da paixão. Doentes e doendo um no outro: a menina ardilosa e seca. que em vez de realçar Carlota Joaquina antes simula diluí-la: mais criança destruída e fantasmada pela sua perdida infância. entre a pureza e o vício. conivente com o rapto da sua alma. a raiz obscura de mandrágora do seu espírito. no abraço dos tons trabalhados noite dentro. os pós por si triturados. Carlota Joaquina dorme sobressaltada. Trama usada pelo pintor espanhol. por seu lado aquietada. No precipício. Defendendo-se Carlota Joaquina de si mesma. dobra e desdobra com a espátula: o anil e o carmesim. com o pretexto de continuar inacabado. para além do seu leve e franzino porte. fazendo frente aos sentimentos amotinados. o azul-da-prússia e o negro da Alemanha. e o pintor. Num arco-íris luxuriante que o entontece. que de imediato se toldam e veladas se escusam e ela encobre: cúmplice. o estonteia e. grande no sobrar. obcecado por captar aquilo que afinal é visão. na cisterna. entregando-se. no final da tarde ele cobre com um pano manchado de violeta-da-pérsia. ao único acto de posse que conhece. vai seguindo o seu curso de rio de águas alterosas. Sôfregos os dois. uma por uma. E quando na tarde seguinte se senta de novo nas duas altas almofadas de shantung ressentida mas pronta a ceder a sua parte de dentro. a terra de Colónia. mas também a cochinilha escarlate. Venenosa. se distraia e dela se aproxime desacautelado.Expectante e evasiva. manejando as tintas preparadas durante a madrugada insone – pigmentos. Cores que enxagua com extremo cuidado. Noutra ala do Palácio de Queluz. Raso fundo obscurecido de um quadro que mal equilibra o lodo onde se perde. e em seguida mexe com a vareta de vidro. mas igualmente o esmalte e o ferrete de Espanha. moídos muito finos. Abrindo-se em sensualidades precoces. embora julgue ser realidade. Para o final deixa a pedra de fel. por demais deslumbrado. o cinabre. o espírito toldado pelo desvario. o branco chumbo e o azul obtido do lápis-lazúli. e as rouba a fim de as colocar no retrato que. o abate sobre a cama num sono pesado. espantado. do que mulher a despertar já em cada feição. roçagante. Mariano Maella curva-se ansioso. Insónias com as quais desculpa no dia seguinte o modo errante mas obstinado com que fita Carlota Joaquina. óleos. Obsessivo. devorada por pressentimentos e aflições que lhe provocam pesadelos turvos. E o retrato. sôfrego. usando a sua candura inquinada e nublada de búzio. à medida que a tranquilidade soçobra. sonsa e astuciosa na cadeira de braços forrados a brocado. em seguida. o verde-íris. fremente e agitado. . insensato. povoados de medonhas aparições e de terríveis presságios. hipócrita. Pronta a morder-lhe o pulso caso Mariano Maella. as expressões. no fosso. nos quais mistura as resinas.

fitando-o enfastiada. sem no entanto impedir que a maledicência corra mais do que se apouca. a cré e a enxofre. terem sido encontradas velas gastas em torno do seu leito intocado. E quando. Matreira. que grita durante o sono. que enquanto posa emudece. alguém confidencia haver um rasto de incenso queimado nos aposentos da princesa. sob a seda azulpervinca do mesmo vestido usado ao longo dos meses. a águas putrefactas. A pouca idade de Carlota Joaquina é pretexto aparentemente aceite para a demora do tempo que o retrato leva a ser feito. cheirando a sua câmara a mar. pequenos cristais que maneja com demoras dormentes.E a infanta. para logo voltarem a fitar-se nessa espécie de olhar clandestino onde se encontram. Cousa pouca seria. roído pela febre e por vómitos negros e ácidos. acariciando-os antes de os voltar a guardar no interior das mangas tufadas dos vestidos de seda e de veludo. Rasteira. ambos banidos do sentimento de recusa de que comungam. Tal como Mariano Maella a pinta. supersticiosas. ao descobrirem-na uma noite. casto. embora para sempre perdidos um do outro. Os silêncios nocturnos passam a ser entrecortados de suspiros. fatal. Conta-se mesmo que de madrugada começaram a aparecer pequenas cruzes e esqueletos de aves e velas acesas em torno do leito da princesa da Beira. as suas damas e fidalgas persignam-se e afastam-se aterradas. por um roçagar de asas. Olhares trocados entre os dois. por descuido ou maldade. deitando em lânguido esquecimento tardio. funesta. Havendo mesmo quem fuja da Corte em Queluz. Um dia Mariano Maella cai de cama. traçando uma cruz com os dedos anelados de rubis cor de sangue coalhado em cima dos joelhos de sino. alarmado. . murmúrios e de inexplicáveis sussurros. furtiva e maldosa. e logo todos o dizem enfeitiçado e possuído. entrecortado. insidiosa e malévola. escondidos nos seus punhos apertados. gemidos. onde continua a não haver sinal do despontar dos peitos. se a certa altura a tez dela não começasse a ganhar uma estranha luz dourada que a nimba e os seus negros olhos cintilantes não tomassem equívocas claridades esbraseadas. a lodo. ou ocultos nos corpetezinhos curtos. o asseguram embruxado. que assustam quem nisso repara. a formarem um pequenino monte. de cicios. e perpassando por tudo isto escuta-se de vez em quando um rumor movediço. enfurece-se e empalidece mais ainda. cor de círio e de cera. olhar maligno. Há também uns estranhos odores ressentidos a maré baixa. amedrontado.

e na sua carruagem de janelas fechadas e cortinas de couro descidas. num tremor de delírio. . ele enterra os dedos lívidos e gelados. ajudado pelos raros amigos que tem na Corte portuguesa. Quadro envolto em sedas e cetins. levando consigo o retrato inacabado da princesa Carlota Joaquina. parte a caminho de Espanha. Onde.Numa longa madrugada de negrumes e tempestades. embrulhado por cobertores de papa. Mariano Maella sai em braços do Palácio de Queluz.

indo matar a sede com o orvalho protegido pelas pétalas das camélias fechadas sobre si mesmas. – Aranhas? Esther sorri silenciosa. desafio brilhando surdamente. inquietos. como brevíssimos lagos… Enclausurados. E a nudez do seu corpo intacto guarda um estranho odor mórbido a flores vermelhas. Tomada de uma súbita aflição estéril que lhe tira o ar. que ela ama mas os pais temem. isolada no espaço imenso. Para trás ficara a álea dos jacarandás anil-violeta. Quando está sozinha. salta para o carreiro estreito e empoeirado. pula a cerca que a deveria inutilmente guardar dos animais selvagens. – Abelhas? – perguntam-se os pais. menina enigmática. e segue pelo carreiro dos recantos sombrios. com a aura do nascer-do-sol. esquecendo-se dela mesma. . que vai dar à floresta. onde se chega sempre pelo rasto do prato incontido. uma frisada rosa da Alexandria. respiração por momentos suspensa. encontra deitada a seu lado como uma promessa.PERDIÇÕES Ao acordar Esther encontra a marca sanguínea de pequeninos dentes à sua volta no lençol. Mas ao tornar daquela sensação de isolamento e abandono. com cheiros de humidades a poço e a regato. levita um tudo-nada enquanto se imagina uma pequena estrela dúctil. sem dar conta do coração imóvel no peitinho intocado. abre a janela rasteira do quarto.

mais e mais distante apesar dele próprio.Ao acordar Esther descobre delicados sulcos esvaídos a delinearem-lhe o corpo. Enquanto Esther continua inventando e refazendo a existência à sua medida de criança esquivosa e sonhadora. revolvida e inquieta. E a claridade infantil da sua pele lívida guarda um perfume enfermiço. com uma conturbada salvação perdida. obrigando-o a ir temosamente mais longe. a flores fanadas. Então. depara-se com uma intranquila rosa da Abissínia. perplexos. iluminando o quarto com uma claridade difusa. – Almíscar? Iludindo Esther a sua condição perecível. Como se a linha do horizonte se tivesse estilhaçado à hora do poente. vê aquilo em que os outros nunca acreditariam caso soubessem destas suas exaltações. fala com os mortos. e ao retornar pelo rumo do sono. nem a de demorar a infância aquilo que a move e a motiva. mansas reentrâncias desmaiadas. Perdições. muito ao de leve por baixo da manta que a tapa. a contornarem-lhe a nudez de menina frágil. . suspeita que possa haver um leve nevoeiro a erguer-se da sua pele ainda intacta. pensamento tenaz a empurrar-lhe o corpo fraco. E não sendo a pressa de crescer. – Âmbar? – perguntam-se os pais. vai urdindo outras urgências que a fazem voar de si mesma. que escuta vozes. tocadas por uma ligeira bruma. quebradiço. reclinada a seu lado.

longa e fulva rosa da Índia. Pouco a pouco. mais perecível. guardando uma adocicada fragrância de alvorecer onde com frequência se perde. Nem a situação ambígua. prefere no entanto entreter-se com o jejum. sem saber explicar a própria estranheza. arrancada pelos dedos da avidez do afecto. mais transparente. esquivando-se pela essência da aurora boreal de que agora é feita. e quando de madrugada. não obstante a passagem dolorosa e dolorida já feita. a menina magrinha na camisa de dormir onde o corpo impoluto parece invisível. e de onde o fogo parte. desnorteados. na brancura mate das hóstias. odor nocivo a ervas daninhas. Toldadas ambas pelas nuvens que a aragem da aurora arrepia. encontra distendida à sua beira uma arredia rosa do Nilo. Por entre sombras e neblinas. contornando-lhe a nudez de criança ansiosa e inventiva. adivinhando aquilo que não vê. segue o crivo dos olhos. a decomposição. a ensombrarem o rosto lívido de Esther. que vê reclinada a seu lado uma ruiva. Um odor exausto… A velas? Acende velas para iluminar as trevas. na qual é arrastada pelo amor cego que a deseja manter viva. de menina assassinada pela própria existência feminina. cada vez mais vulnerável. sinais e matizes. Pequena e loura e branca. num estranho cheiro a enxofre… – Chama? – Labareda acirrada? – perguntam-se os pais. Solidão – imagina. Círios votivos. Esther parece ir destruindo todos os elos. Goivos. escrevendo-os pelo debrum das páginas. todas as pontes que a ligam aos dias. torna de novo a si mesma. . puxada pelas mãos dos pais que a arrastam do lugar inexacto onde se encontra. Menina fraca mas de ferro em brasa na exigência de resistir. Natureza. a estrago.Ao acordar Esther depara-se com a marca de pequeníssimas cicatrizes. Espalha junto de si os versos que faz.

.vítima de violência infinita.

do qual é o centro absoluto. Como se ela mesma fosse uma clareira e à sua roda houvesse um trilho que esses passos desenhassem. cada vez mais próximos. predestinada à sua inexistente condição de eterna criança volátil. pegadas. universo de cinzas e negrumes incendiados. que quando torna traz no olhar vazio um toque daninho. cada vez menos hesitantes a abeirarem-se já. uma fatal rosa da Pérsia. de éter que se evola. chegando em círculo para a levarem de volta até onde ela pertence. assustados. de açucenas ávidas. cercando-a. escondendo na sua aridez um arrastado travo infindável a deserto. Brandas? De lítio.Ao acordar Esther encontra a cercá-la a marca desvanecida de passos mínimos. . inclinada junto dos seus sonhos. sem mais arrimo para salvarem a filha. perdida para sempre. olhando absorta. – De sais? – De lágrimas? – perguntam-se os pais. Esquecida de si. E o odor que dela se desprende detém estranhas fragrâncias mormacentas.

e ao levantar um pouco mais o lençol uma leve penugem colorida solta-se. madrugada após madrugada. E um torpor obscuro desprende-se de Esther. quase enrolada em si mesma. invocando o amor. toldando a claridade esparsa como se fosse névoa ou nuvem.Ao acordar Esther defronta-se com diminutas e levíssimas penas de pássaro à sua volta. – Etéreo? – Incorpóreo? – perguntam-se os pais. esvaído e intangível. maravilhando-a e fazendo-a desejar enovelar-se nela. A seu lado. de se afogar nas lágrimas. que todos os dias insistem em trazer a filha de volta. . está uma rosa de mar. esvoaçando da sua dobra bordada com entremeios de renda veneziana. do seu hálito tumultuado e obscuro.

olhos ansiosos fitos na sua lisura brilhante. Na parede. procurando chegar à memória. aos livros. Apavorada. o espírito. sai da cama a cambalear. colcha de cetim rosado onde. debatendo-se. menina de madrepérola mais dada ao sonho. Esther desliza em silêncio. clandestina nela mesma. nas humidades da terra. – Oh. A mesma volta a gritar. Esther começa pouco a pouco a desvanecer-se. andar vacilante. sub-reptícia. ela revê a reverberação da lua na lâmina polida da navalha. Enrodilhada no soalho. vestido de cambraia com sainha plissada. eternamente presa. a sumir. acabando por lhe mostrar não mais que a imagem de um vulto masculino a derrubá-la. Esther tenta firmar-se no próprio pensamento. o âmago dos outros. coisa alguma. sem querer cortar os atilhos de ligação à vida. E como se fosse uma santa mártir invocando um pecado mortal ou uma ladra da mente no árduo trabalho de roubar a alma. Hesitante. que se esquiva e lhe escapa. debatendo-se. perto da janela baixa do seu quarto. nela ainda vá navegando a ilusão esperançosa. avançando para logo suster o passo. sem tirar os olhos do espelho de onde a sua imagem continua banida: translúcida. furtiva. negando-se ainda ao desaparecimento. consciente de que só lhe restam as lianas que a prendem ao abismo. a coragem a fugir-lhe. reclinada entre as pequenas almofadinhas de shantung cor de malva. Mas. Com nitidez ela apenas se recorda da flecha do próprio grito interminável. aproxima-se do espelho de pé. a gravura do anjo-da-guarda com o seu manto azul-celeste. minha ervilha-de-cheiro! – clamam os poetas. num súbito clarão. de um salto. empurrada pelas recordações que a mantêm cruelmente diante da realidade. Criança sobressaltada com o próprio assombro. Mas entre as imagens que o espelho lhe devolve Esther não encontra a sua. Aproxima-se mais e mais ainda. a esvaecer. que se encontra do outro lado. às fundações de si mesma. «Talvez esteja do outro lado» – finge acreditar. . e ao parar diante do espelho tem os olhos fechados – cegando por vontade própria ou por falta de coragem? E quando finalmente os entreabre vê nele reflectida: a sua cama feita com esmero. embora. agora na casa que julga vazia. às trevas a que se sabe condenada.Atordoada. mão delicada pousada no ombro da menina à sua frente. quando de um único golpe esta lhe rasga a garganta de haste. está a boneca de louça com a qual nunca brincara. como uma curta chama de lamparina.

Há ainda a memória das velas com a sua luz bruxuleante a desenhar sombras de sussurro. imagens de maior excesso e devoção. A menina fitava-a sempre nesse seu reflexo. num sobressalto de suspeita. diante do qual esta se enxugava e arranjava depois de cada banho. ou pedaços de vida inventada? Lívia não sabe. E dois espelhos. Lembranças estranhas naquilo que diz respeito a uma menina de negros cabelos encaracolados. como também. tal como todos aqueles que convulsionassem a perenidade da luz. santas Rita de Cácia e Teresa de Ávila. do quarto da mulher. Com vagares de sonâmbula. Memórias ou histórias sonhadas. que oscilam nas paredes brancas. Um que reflectia não só a porta da rua. na penumbra da entrada. .LUPINA Enrosca-se mansamente nos braços da mãe. a floresta. o carreiro que levava ao sopé do monte. mais real dentro da irrealidade que representava. quando esta estava aberta. sabendo que ele a iria reflectir de costas. em frente de santa Catarina da Alexandria. – A menina mergulhava nele o olhar antes de sair. a esvoaçarem na louça de uma jarra lilás com rosas exangues pousada no tampo de madeira da cómoda. Encosta a boca ao seu pescoço macio a respirar-lhe o cheiro almiscarado a selva. a dormir numa cama feita com lençóis bordados e macios. Diante das imagens das santas do oratório. e fica ali a revolver inexplicáveis memórias ou a imaginar situações e sentimentos que sempre chegam até si. vê uma lamparina com o seu pequeno pavio aceso e trémulo deslizando muito devagar no azeite. E o outro. mal se afastasse. como se nele a mãe se tornasse mais verdadeira. antes de o atravessar. em vez de no chão de terra batida do covil.

entontecida. senta-se nas folhas ainda tépidas de sol. Parecendo tremer de febre. onde os molhos e as compotas ganham ponto a ferver mansamente num borbulhar grosso e demorado. o lugar do interdito. Indecisa. Sua origem. já acesos nas trevas. Ali é a fronteira. quando na verdade apenas toma o gosto ao cheiro do fumo das chaminés das casas. e uma lágrima começa a deslizar. Os seus olhos mesclados de azul-violeta cintilam na escuridade pardacenta: dois grandes lumes que se avermelham. provavelmente. vindo dos primórdios do mundo. calor do forno que as mulheres escancaravam sem recuarem diante de tamanho braseiro. esperançosa. que lhe parece ainda sentir no rosto. trança de seda que em seguida lhe iria ajustar a cintura de menina delicada. Mas ela não se recorda. sem sequer ter consciência de que chora. enorme e translúcida. com o vestido cor de fogo. Sem saber onde vai buscar estas tantas memórias que julga poderem não lhe pertencer. mas também abissal: um punhal a . a incandescerem enquanto as nuvens pesadas e baixas tapam os astros. nos braços. Pior ainda: sem saber o significado da palavra chorar. pausadamente a respirar o ar espesso e sufocante que a cozinha guardava em torno do próprio calor: calor do pão a cozer no forno. A imaginar. nem tem como saber o significado daquela visão cintilante e terna. mas ela ignora-a. de distinguir com clareza por entre aquele confuso tumulto de dor convulsa que lhe sobe ao coração. demorandose a reparar em torno como se estivesse perdida. a espiar os movimentos das pessoas lá em baixo. Inquieta. junto aos pinheiros até onde se esgueirara. na ponta dos dedos com os quais aprendera a entretecer os fios. ou provavelmente lembrando o que não deve mais permitir-se a si mesma imaginar. Lentamente desce mais um tanto. que a mulher possa estar perto. com o seu odor acre a madeiros queimados nas lareiras e nos fogões de ferro. De tudo aquilo que lhe está absolutamente proibido. enchendo-lhe o coração de um imenso júbilo antigo. ficando depois a espreitar por entre o arvoredo. quem sabe. daquela mulher a inclinar-se sobre os seus sonhos. ao abrigo da escuridade. mas também recôndita. Escava um pouco na terra fria. recua um pouco. E na esperança de estar equivocamente a inventar tudo aquilo. Fixando a imagem daquela mulher debruçada sobre o seu sono. até se ir perder em seguida por entre o pelo ou na lonjura da pele. Uma espécie de neblina impede-a de ver melhor. bainha a roçar o chão de terra batida e pedra. troncos antigos marcados pelas suas unhas aguçadas.Em noites claras de lua cheia vai até perto da povoação pelos atalhos da floresta. Emudecido. nos pulsos.

farejando. desce um pouco mais ainda por entre o resguardo da ramagem do arvoredo que vai ficando ralo à medida que. num impulso. a água dos poços. a querer acabar com aquele ardor de queimadura. a gado. ao fumo entorpecedor das chaminés. ferida revolvida que lambe tentando curá-la. sentindo na língua o sabor a ferro de um sangue inexistente. fascinada. pára de novo indecisa. sem reflectir. Enjeitada? Desce então mais em direcção ao vale. E quando começa a cheirar-lhe a corpo humano. se aproxima das casas no fundo da colina. . e em seguida.golpear-lhe o peito.

repelindo os laços de fita que tentavam domá-lo. em busca de um lugar onde possa abrigar-se do perigo. sem nada saber das . a espiá-la através do negrume. a melancolia a esperam. Ardente até às cinzas. a detectar cada um dos ruídos. pétalas.De onde se encontra agora. a encrespar-se. a testar as fragrâncias desconhecidas. abelhas mortas devido à sede que as levara a debruçarem-se na própria vertigem e pequeníssimos seixos esbranquiçados. prendê-lo. sem remissão. perdendo-se mesmo nas clareiras. e mal a sede lhe queima os lábios. gravetos e folhas. a desenredar-se daquele interior de inquietação onde se acoita. a querer recusar o medo. Repara à volta. Narcisa. «E se o meu nome fosse Lívia?» – pergunta-se a certa altura. Pois só a contragosto torna de regresso ao interior da floresta. até encontrar a água que sempre bebe com uma sofreguidão desajustada. Em que espaço do tempo? A verdade é que ela nunca teve nenhuma noção de tempo. demorando a subida. do lago ou da queda de água. um após outro. pode aperceber-se das cortinas coloridas das janelas que o final do crepúsculo desbota. que logo empurra de si. diluídos pelas fracas claridades que ainda chegam da rua. trabalhados pelas correntes tranquilas. A atrasar a partida. de que as cortinas estão a ser afastadas por uma mão trémula. já noite cerrada. como se tivesse sido apanhada por um incêndio que em seguida a consumira sem misericórdia. desvanecem. e encolhe-se ansiosa. embora equívocas. a olhar para o fundo da correnteza do rio. mais inóspito. – Lívia! – parece-lhe ouvi-la chamar. a olhar-se. ambas lá reflectidas: o cabelo encaracolado de cada lado do rosto a desmanchar-se. como se de algum modo conhecesse ou adivinhasse a sua presença oculta. Estremece ao escutar aquele que poderá ser o seu nome. silhueta delicada que fica a desvendar o escuro. Mero pensamento errante. a correrem mansas mas determinadas. onde o esquecimento. e dos halos luminosos em torno dos candeeiros entretanto acesos dentro de casa. dificultando-lhe o passo cauteloso. como se cumprisse um ritual. Sôfrego. da ribeira ou mesmo do riacho. ela encontra-a e encontra-se. a rejeitarem a agonia do ocaso. desenhando uma espécie de aura que os seus abajures de vidro pintado entorpecem. de bom grado desvia-se do seu trilho seguindo a frescura do ar. Mesmo assim recua até onde a folhagem se adensa. Perto delas fica esquecida. Imagem a esvair-se já no seu leito de rio. e que entretanto foram caindo. mais árduo de cardos. Por vezes apercebe-se. deixando atrás de si pegadas arrastadas de quem a contragosto se afasta. o tojo se torna mais espinhoso e áspero. de urze e pequenas farpas. a turpitude. feito da areia do fundo.

irrealidades ilusórias, ou mesmo das tenacidades desavindas.
Ou de desapegos.
Num ápice a aperceber-se, arquejando dobrada sobre si mesma, daquela
estranha sensação de mágoa e saudade a morder-lhe o peito sem ar, que faz
aumentar nela a sensação de perda da mãe, do calor do seu corpo e da sua
pele.
Do seu pêlo?
Da sua protecção impossível.
Numa constância dividida e ambígua, olha de novo para trás na direcção da
aldeia, instintivamente reconhecendo nela o lugar do seu desencontro, do seu
desconcerto, da sua perda, da sua falha, da sua falta.
Raízes de inevitável perdição.
Lugar onde reside aquela dor que a quebra e estilhaça, e onde dá conta da
hostilidade, da crueldade ferina. E repentinamente foge, tropeçando nos ramos
caídos, nos troncos atravessados nos atalhos, a esquecer-se dos buracos, dos
precipícios inesperados, das arestas aguçadas das pedras, das armadilhas
acobertadas espalhadas dissimuladamente pelos guarda-caça,
sem cuidar Lívia de evitar pisar os espinhos e as estilhas, as urtigas. Para, em
breve, a fadiga e o excesso de cansaço lhe tomarem o corpo magrinho, de ossos
miúdos de criança arredia. E quando está suficientemente longe da aldeia, ela
estaca ofegante a descansar na terra gelada, por onde perpassa um vento de
geada que a atravessa como se fosse lâmina de espada numa batalha. No
entanto, quando decide continuar, segue lentamente, embora certa de que,
apesar do perigo maior ter passado, ele irá manter-se eternamente intacto
dentro si: moldando-a, dominando-a, minando-a.
Dominador e nocivo.

Leva o focinho levantado,
farejando, seguindo o cheiro da mãe que a espera, imóvel, à entrada do covil
com as suas plantas rasteiras, o rumorejar das rolas que por ali esvoaçam, e a
terra macia que as duas parecem moldar todos os fins de tarde, com lentos
cuidados de quem prepara uma cama.
Lívia começa a correr, levada por uma pressa súbita e arquejante, na urgência
de chegar.
De dormir.
De esquecer para sempre aquilo de que não se lembra-lembrando, a querer
evitar com empenho os seus indizíveis contornos sombrios, os poderes escusos e
devastados, nefastos, descobrindo apenas aqui e ali uma ínfima parte das trevas
onde tudo se passa.
Não há qualquer clareza na sua sombridade.
No entanto, algo de muito negro e devastador persiste, a devorar-lhe a alma sem
salvação, e que permanecerá para sempre palpitando dentro dela como uma
maldição terrível.
Da sua condição humana.

Quando finalmente distingue o vulto da mãe, nimbado pelo luar esvaído e esgarçado, corre
mais, na esperança de que ao sentir o seu hálito a floresta, a sua língua morna, com a tepidez
do sol a afagá-la,
possa ser tomada pela imensa paz de que necessita. E durante o resto da
madrugada as duas permanecem em silêncio, reclinadas, amparadas uma na
outra, junto das rochas avermelhadas da gruta,
invadida pelo espírito de uma mulher,
que no futuro escreverá debruçada num caderno aberto sobre uma mesa de
madeira escurecida pelos séculos. A questionar o destino incerto da sua
condição de orácula, de poetisa a prolongar o tempo e a reinventar o sonho, na
companhia dos lobos.
Guardadora de enigmas, de vastidões absolutas e de imensidões secretas e por
vezes desérticas, de estrelas, de cometas e vigílias,
nessa noite ela descobre Lívia,
patas da frente desdobradas, pálpebras fechadas, inesperadamente sedosas
como pétalas adoçadas pelo sono, focinho apoiado no pêlo sedoso do corpo
daquela que acredita ser sua mãe,
e que mansamente a embala.

na recusa de aceitar domínio ou conselhos. chegando a exibir descarada os próprios defeitos. desperta nos outros primeiro a surpresa. a boca gretada de cieiro. as unhas de amêndoa sujas de terra. missas. – Brujas. conseguindo. os dedais. o negar-se às habilidades cortesãs. Deleita-se a infanta com o extremo prazer tirado desse sistemático semear de confusão e desorganização espalhafatosa: espaço vazio onde se isola. as malfeitorias. as tesouras de prata das inquietas fidalgas vigilantes. Rosário que a princesa Carlota Joaquina se vê obrigada a rezar todos os fins de tarde. os ardis. Casamento realizado «em pessoa» na Real Capela da Ajuda. depois o desconcerto e em seguida provoca o caos à sua roda. presente do príncipe D. já depois da Casa da Música. a quebrar com gosto o jejum das sextas-feiras imposto pelo padre Felipe Scio de San Miguel. lambuzados de chocolate ou doce de leite comido à socapa. Copas frondosas de verdura sob as quais se resguarda dos olhares persecutórios de quem pretende arrastá-la de regresso às fastidiosas obrigações: recepções. Depressa se apercebendo de como o uso da agressividade e da desobediência. brujas! – clama. João seu noivo à chegada dela a Vila Viçosa. neles escondendo os ganchos. Tentando resistir à solidão e ao sentimento de rejeição. a costumes. expondo defeitos e carências de criança mimada e caprichosa. e também a incontrolável repulsa que tanto lhe desperta a tacanhez da Corte portuguesa quanto a extremada feiura do marido que lhe fora destinado ao fim de dois anos de negociações entre Lisboa e Madrid. a torná-la princesa da Beira. rápida e ágil. atingir – apesar do vestido tufado lhe embrulhar os movimentos e tolher a corrida – o maciço de loureiros que fica para além da ponte. a aboborar ressentimentos e rancores em relação a todos e a tudo. os ostensivos desleixos. sem mãe nem afecto nem pátria. as cicatrizes das bexigas recentes. as multiplicadas contas de ouro marchetado do rosário com esmeraldas e cruz de marfim. saltando vedações de dálias e narcisos. cabeceando de sono e exausta da longa viagem pelos acidentados caminhos de Espanha. visitas aos conventos.A PRINCESA ESPANHOLA – Brujas! – grita. com vagares de torpeza. fugindo por entre as áleas do Palácio de Queluz. as agulhas. da sua comitiva para Portugal. deslizando-o por entre os dedos pegajosos. Maria . deixa-se crescer na raiva. pelo costume entretanto ganho de cavar buracos nos canteiros dos jardins. as mentiras a que recorre sem se culpar. o infringir ostensivo de ordens. a tentar escapar de uma outra audiência ou de mais uma missa. opalas e ametistas vermelhas. ao temor de se ver entre desconhecidos. enfastiada e distraída no bocejo. astuciosa. tantas as cerimónias oficiais quantas as missas diárias. nele achando-se por fim agasalhada. Partidas pregadas com a intenção de passar o tempo que por ali se espreguiça ocioso. regras e etiquetas. esconde os maus pensamentos. terços e novenas impostas pela Rainha D. Confessor de quem.

às açafatas. palavras sibiladas por entre os dentes miúdos e os lábios finos cerrados de raiva. na tentativa de fazer sobressair as ancas que a infanta de dez anos tem de ossos delicados. feridos e sofredores. confundindo-se com os cheiros na sua textura difícil de suportar: odores intensos a incenso. quieta e hirta. na escuridade espessa do levedado silêncio das igrejas. nozinhos de fita dados até à cintura cingida por uma larga faixa decorada com a chama dos rubis. arrepelando as saias sobrepostas e os saiotes de goma com as mãos marcadas pelas frieiras do Inverno. para seguir no sossego do passo miúdo.. nauseada com os olores. Sabe bem como trocar as voltas às aias. dos recantos esconsos. encandeando-a agora que parou. – Brujas. a verdete. as larvas. . onde se encosta a tomar fôlego. lobisomens. a suor retardado e azedo. formando uma mansa e estreita bacia. brujas! – repete numa ladainha perceptível a custo. que mostra ao montar a cavalo escarranchada à maneira dos rapazes. trepando. Algumas delas a partir das minas. em cima das alvas toalhas de altar onde ela fixa o olhar ladino. a alumiar as talhas. no me gustan los santos. ajustando ao tecido o corpo magro de menina nervosa. sapatinhos de cetim bordado a pérolas e lantejoulas que cintilam à claridade arrebatada da manhã.» Quando sai do outro lado da mata fresca Carlota Joaquina apercebe-se da luz a brincar-lhe nos olhos de azeviche. magras e altas. no me gustan los santos. em desconcerto com a pressa que parece levar nem ela sabe para onde. à pestilência das velas de sebo que entornam as lentas e grossas lágrimas amareladas ao longo dos candelabros. das Capelas e dos Oratórios Reais. dos açudes e dos lençóis de água. E ao parar para descansar cruza as mãos atrás das costas – sem a graça nem a afectação em que os mestres de etiqueta do Paço teimam em iniciá-la –. ou a escapar como neste momento. pressentindo o medo por enquanto tolhido a querer soltar-se e espalhar-se a esmo. demónios a espreitarem pelas frinchas das pesadas portas da sacristia e das mofentas cortinas semicerradas dos confessionários. de onde partem as pernas esgalgadas. Pousados diante das imagens dos santos mártires magoados. no cimo das polidas escadas de madeira loura e escorregadia do coro ovalado do Palácio. enquanto ela deixa para trás risos e insultos lançados numa mistura embrulhada de português e castelhano. evitando a menina pisar as lajes do chão debaixo das quais imagina os insectos. a marinhar pelas paredes. os braceletes de diamantes atirados para longe. a cabeleira empoada semeada de esmeraldas. falsas pistas de laços trespassados e de rendas estilhaçadas a balouçarem nos agudos espinhos das roseiras de rosas pálidas matizadas de rubro. À noite fantasia vampiros. os miasmas crescidos na crispação das sombras. os ossos de cadáveres sepultos. ruminando em surdina: «No me gustan los santos. horas intermináveis passadas.. sentindo aí a dureza fria da madrepérola dos botões. às camareiras portuguesas que desajeitadamente lhe vão no encalço. Demora a que se dá ao luxo.sua sogra. içando-se. pedaços de seda e cetim do vestido presos na casca poeirenta dos limoeiros doces.

empurrada pelos gritos das perseguidoras já cansadas. suspeitosa do repentino silêncio talhado em redor. que a . parecendo-lhe experimentar já. queixumes. numa espécie de círculo que lhe permite escutar com nitidez o rumorejar dos ulmeiros. Para logo se endireitar. do desaprendido conhecimento das Sagradas Escrituras e das boas maneiras. encarregada por D. Altiva liberdade espraiando-se nas alturas do sol. a de D. Luísa de Parma. E por tudo isto a menina a afasta. das pedras musgosas. para num repente se perder na lonjura do céu de um azul quase branco de esplendor.Volta a correr. galga e esgueira por entre os cedros e os plátanos. Anna Miquelina cumpre de boa vontade e consciência tranquila. testemunhando cada um dos desaguisados. na penumbra da nuca coberta por caracóis negros. cauda comprida e arguto olhar cinzento pontilhado de verde. acima destes zunidos de cristal e lágrimas retidas. do único toque do sino a dar a sexta das horas canónicas. e Carlota Joaquina julga mesmo reconhecer o fio de voz da açafata D. se vê a rastejar agachada junto das humidades do solo revolvido. – Non me pegan! – desafia. das rebeldias. princesa das Astúrias. o rugido surdo das feras enjauladas. A elas juntaram-se algumas das suas damas espanholas. a odeia. dos repuxos. lhe dificulta a vida naquilo que pode. substituídas pelas indocilidades e as insolências. Relatos que depressa se tornam mais diário do que cartas e menos diário e cartas do que queixas. a queda translúcida da cascata grande. lustrosas. Helena de Mascarenhas. No entanto. das pétalas e das corolas apodrecidas pelo orvalho da madrugada. dizendo dela as impertinências. amarelas garras afiadas que se cravam sem dó nem piedade no dorso dos animais incautos e descuidados. Anna Miquelina. Não se esquecendo dos desprendimentos. a força harmoniosa das grandes asas quadradas. Implacável na busca das presas que mata sem hesitar. estremecendo ao sentir a dureza da gravilha a magoar-lhe os pés delicados e a queimadura dos acerados galhos dos arbustos ao roçarem-lhe a pele morena do rosto afogueado. das lianas e das raízes onde tropeça. Inveja-lhe a liberdade. que perto do meio-dia se torna abrasado. de em carta semanal lhe ir prestando contas do comportamento da princesa da Beira sua filha. enquanto se esconde. O que D. a sumir por entre a murta e o buxo aparado. sopro áspero temperado pelo perfume a gardénia que sempre antecede a bela. dos pulsos fibrosos e titilantes onde as mangas se desviam. impõem-se os gritos profundos da águiaimperial que todos os dias àquela hora sobrevoa em círculos o Palácio de Queluz. Mas naquela manhã a infanta pára a olhá-la. intrigas. Apoucando a infanta que. penas castanho-escuras. por chocante contraste. entrando na minúcia das desobediências. manchadas de um branco cremoso nos ombros e na coroa. com um só golpe certeiro: bico adunco e cruel. Por escassos momentos ela torna a subir e fica planando a evitar as correntes do vento. gélida e enigmática condessa de Lumiares. Emília O’Dempsy e. o ácido som das fontes. evitando as treliças de miosótis e goivos. o hálito escaldante da sua camareira portuguesa D. do rosmaninho e da madressilva. Curva-se então para a frente Carlota Joaquina. mais alta e descompassada no tom de falsete. insinuações. antes de se ir na busca da caça.

E quando ela supõe ter conseguido finalmente captar a atenção da águia. Ao perdê-la de vista Carlota Joaquina cambaleia. por sua vez a fita lá de baixo: olhos cegos de luzimento. . a observar a menina que de cabeça erguida. numa incontida mas impossível vontade de voar. empurrada por uma inesperada dor: punhal de lâmina empurrada sem misericórdia no seu descompassado coração de criança. braços débeis de veias palpitantes erguidos a pretender abarcar o espaço resplandecente. Mas só quando julga estar a desaparecer dentro de si própria a princesa se sobressalta. Por momentos a águia-imperial simula imobilizar-se na bruma ligeira já deslaçada. tomado por pressentimentos ruins. esta aproveita a brisa rutilante a fim de ganhar velocidade no voo em direcção à Serra de Sintra.temperatura fraca do início da Primavera não secou. esquecida das fidalgas perseguidoras.

ia juntando as letras que desenredava para em seguida voltar a entrançá-las com a transparência do som das palavras e a musicalidade das frases enrouquecidas. . levada pelo rumorejar dos textos. e mais tarde ousando enleá-las já nas narrativas que.KATIE LEWIS Katie Lewis aprendera a ler sozinha. ou dos arco-íris que se desprendem das histórias. ia vislumbrando e por fim descobrindo-as no interior penumbroso dos volumes de capas pesadas com odor de pele e ouro marchetado. pelo matiz das cores. uma por uma. Primeiro entrelaçando-as. uma após outra. numa inicial repetição desunida e desagregada. Estremecendo de prazer. Sem jamais conseguir saciar a sede voraz de menina seduzida pela escrita. coração apressado no peitinho liso. na vontade ávida de saborear os livros. que a empurram entontecida. tímida. luzindo como um rubi facetado pelo fulgor. deslumbrada.

. todos os dias ele se demorara a olhá-la. pretexto para começar tudo desde o início. Mergulhada na leitura que lhe despertava prazeres múltiplos e inexplicáveis. as resinas. Sem jamais desviar a atenção da menina que. tal como sempre a via: perdendo-se por entre as páginas mágicas. pintor pré-rafaelita e amigo da família. Katie nem deu conta de que sir Edward Burne-Jones começara a pintá-la. nem dava por que ele a ia desenhando ou pintando. sem que ela alguma vez cumprisse essa proibição. emendando ou mesmo destruindo o trabalho feito na véspera. corpo frágil e esguio estirado de bruços num enorme sofá junto do qual. alinhando na madeira manchada da paleta as tintas preparadas com os óleos. começara a levar-lhe livros bem mais fascinantes do que aqueles que estavam nas estantes da biblioteca do pai. indiferente a tudo o que não fosse a sua febril leitura.Tinha quatro anos quando sir Edward Burne-Jones. os pigmentos e os corantes. durante quatro anos. lugar que sempre lhe fora interdito.

(Durante as lentas madrugadas Katie sonha que deambula por entre as árvores e as ruínas. ) . chegando-se à sua ilharga. na companhia de uma pantera silenciosa e voraz. que as névoas e as brumas descidas da lua a ocultam de quem a possa procurar ou persegui-la por onde ela se afasta. Sem destino. que a segue retesando o passo ágil.

que ela adivinha quando lhe passam perto. surpresa como uma pequena sonâmbula que fita pela primeira vez a claridade negra. Oscar Wilde. do despropósito que era dar a ler a uma criança um romance tão aterrador – e afastara-se contrafeito. embora consciente do equívoco. perturbando-se quando. e desse modo afastando-se da realidade impiedosa. os subterrâneos. página após página. se apercebe de que ela está a ler o seu conto «O Aniversário da Infanta». mas logo Katie esboça um leve sorriso cúmplice que. dos textos e dos poemas. assiste àquela obstinada voragem. No entanto ela devorara cada página até à última linha. Oscar Wilde acaba sempre por desviar o olhar de tanta emoção recolhida. ou de Canções de Inocência e de Experiência a Frankenstein. de Alice no País das Maravilhas a Dom Quixote de la Mancha. levando-lhe no dia seguinte o seu romance O Retrato de Dorian Gray. depressa se dá conta das duas obsessões paralelas que se desenrolam diante de si. dos contos. resvalando rente aos abismos. aos poços. e a do pintor que com entusiasmo a retrata lendo. como já quebrei na história da infanta o coração defeituoso do anão no seu peito deformado» – divaga inquieto. uma à outra se enredando sem estranheza: a da menina que tão compulsiva e apaixonadamente se perde nos livros. com um olhar branco e esvaído. Acabando. dedos magrinhos e longos passando sem pressa as páginas da colectânea que acaba de ser publicada. aliviado. por se deixar enlear pelo fio incandescente da entrega daquela rapariguinha à leitura. de Ilíada a Electra. às correntes das águas interiores. perdendo-se como quem se reencontra. pelas fundações e as cisternas da escrita. os ribeiros. gritos funestos e crueldades recolhidas. num fim de tarde de crepúsculo tão intenso que parece sangrar vagarosamente em tons de púrpura. cabelo encrespado de chama acesa. e quando termina levanta os olhos a procurá-lo. ele também. para acrescentar uma ainda mais gravosa malignidade. muito pálida e esvaída na sua alva pele de ruiva. «Estilhacei-lhe o coração de porcelana. . Oscar Wilde retribui. transida e cativada. acabando sempre por se entregar rendida. pelas caves. Cada vez mais rendida. os entremeios. amigo íntimo tanto do pintor Edward Burne-Jones como do pai de Katie e frequentador da sua casa.Oscar Wilde. deambulando pelos sótãos. impressionado. as faldas e as colinas dos romances. passeando com vagares de hipnotismo pelas orlas. livro após livro.

(Sentidos revolvidos e despertos apesar de mergulhada no sono. Katie caminha por entre árvores e constelações celestes. mais envenenada. Eternamente fatais. aquelas por onde se esgueira às escondidas de si mesma. resguardadas em si.) . Guardando. estilhaçada e luzente. aquelas de beleza mais faminta e sequiosa. como se desfiasse as aventuras pelas quais tem vindo a perpassar ao longo de cada leitura.

por vezes estremece de espanto ao dar conta da desmesurada cativação de Kate. nunca consegue saciar a sua sede de menina viciada pela literatura. atraída pelos livros que. Apego só comparável à compulsão de Katie pela leitura. inocente e audaz leitora. diante do cavalete que já ali ganhara o seu lugar. o corpo da escrita. perplexo. Oscar Wilde. perto do qual Edward Burne-Jones. Perdida de amor correspondido. ao longo dos anos. manipula. Rapariguinha intacta numa tenaz sedução esquiva. com as suas morenas e delicadas mãos de cigana maneja. o pintor vai-se demorando. as cores e as resinas. naquele aprisionamento voraz e sem medida. curioso. vai misturando com demora os óleos. para passado semanas voltar. afaga. para a ir retratando na sua inquietude ambígua. cruel e equívoca. as frases. corpo frágil a abandonar-se ao longo do comprido sofá dourado onde passa os dias. Dia após dia. A encontrar o amigo cada dia mais apegado àquela revolvida. e afasta-se de novo e de novo. as palavras. folheia e volta a folhear. acariciando as letras. Amotinada.Katie. deitada a seu lado em desfalecimentos ambíguos. Por sua vez afeiçoado voyeur do envolvimento amoroso de Katie com os livros. na verdade. . que fascinado sempre retorna.

Com os dedos compridos da mão direita que desce junto da saia de cambraia.(De noite acorda e julga perder-se na floresta dos seus sentidos amotinados. que no seu imaginário jamais a abandona. Defendendo-a de si mesma?) . vai aflorar ao de leve o dorso de pêlo sedoso e macio da pantera.

Será precisamente essa desordem. Fazendo prisioneiro dela quem ao longo dos anos tiver vindo a olhá-la. também ele atravessa sem pressa crateras. entrega-se àquilo que lê. junto dos vulcões. Oscar Wilde viu o quadro exposto na parede de uma galeria de arte. nas nervuras das folhas.Quando. Dorian Gray. respiração suspensa. das catedrais. Heitor. ora a tropeçar no piso escorregadio dos barcos assombrados dos piratas. a voltear ora na ondulação alta de cristal rebrilhando. em ramos e galhos caídos. nas pétalas caídas. Demorando-se no equilíbrio instável das pedras implacáveis. meses mais tarde. Isolda ou Lilith ou Uriel. Lancelot ou o Rei Artur. rosto meio encoberto pela encrespada e revolta ondulação de labareda acesa dos seus cabelos de fogo. Quando escreve. tal como a menina imbuída pelo maravilhamento de que é tomada diante de tudo o que intui ou adivinha. caminha no cimo dos mares da escrita. o anjo da poesia. Imagem equívoca de pequena vampira dos sangues dos heróis da literatura e seus imaginários múltiplos… Quer sejam Maria Madalena ou Alice. ela segue e prossegue. tombados e soltos. tal como testemunha o insólito quadro do seu amigo. continuou a não perceber aquilo que mais o intriga: se o deslumbramento de Edward Burne-Jones por Katie Lewis. dos Jardins Suspensos da Babilónia e das Pirâmides do Egipto. ora tropeçando na urze. naquela ardência equívoca tão semelhante à sua. imagem envolvente de uma precoce e revolvida sexualidade. essa voragem oculta e mal contida. afiadas nos seus bordos fendidos e acerados pelo gume dos séculos. Enamorada e atenta. Dir-se-ia de um inquietante erotismo tumultuado. quem sabe mesmo se Ema ou a Princesa de Clèves… . por trás de cada palavra ou árvore. Romeu. Ambos os sentimentos crescidos em desafogo. onde Katie lê estendida de bruços. matas e florestas. Lady Macbeth. se o fascínio desta pela literatura. que ainda agora inquieta quem a descobre na tela de Edward Burne-Jones: uma menina de bruços. no abrigo de cada sombra. Jane Eyre. lendo de respiração suspensa. ora partilhando os aventurosos destinos de espadachins e salteadores. Helena de Tróia e Penélope ou Circe. ela mesma no seu centro inequívoco. E Oscar Wilde reconhece-se nela. Nas clareiras das aventuras onde ele vive ou se esconde. sumindo sob o pó da terra seca ou mesmo da poalha da memória.

mitos sangrentos. afastada de uma das suas pernas cobertas pela saia marron. ela se vai tornando mulher sem dar por isso. . Enquanto. o cão branco-chumbo adormecido a seus pés. A condizer com o seu olhar fixo de egoísmo cruel e o sorriso equívoco e distraído. Mas o que nela tanto fascina Oscar Wilde.Katie é atraída por histórias e narrativas. é aquela luxuriante paixão pela leitura. quase idêntica àquela outra de chama mordida onde. meio encobertos e apoiados na grande almofada cor de fogo. acrescentando e reescrevendo já aquilo que está lendo. E para quem se demore a observar Katie Lewis. Há também a ondulação fatal do oceano dos cabelos fulvos. Katie mal roça a testa coberta pelos cabelos que se soltaram dos ganchos e das travessas de tartaruga. de bruços. a descerem-lhe soltos ao longo das costas. sentindo em silêncio o maravilhamento de todos aqueles múltiplos universos de perdimento e voo. que ela cruza calçados de negro. como a de São Jorge matador de dragões e pecados. versos e fábulas. os pormenores desse encantamento ressurgem um por um: a maçã vermelha esquecida. absorta na leitura. em uníssono com o crescimento tumultuado e obscuro do próprio corpo. como as descrições fulgurantes de Homero das batalhas da Ilíada. em risco de cair do sofá. através do incontido olhar do pintor. ou lendas. intuindo. entregando-se.

olhando-se no próprio reflexo como se nele visse outra que não ela. salas e salões do Palácio Real. parecendo não querer ceder à aproximação de uma Primavera tão tímida e incipiente que nem as rosas ganham alguma cor. João. a mando de sua mãe. Afeiçoara-se àquela menina arredia. Anna deixa tombar enrodilhado no tapetinho da China. Anna Miquelina. que com um mal disfarçado trejeito de nojo D. os futuros reis de Espanha. Nua. a princesinha treme de frio nos seus aposentos do Palácio de Queluz. como se ela de algum modo tivesse vindo substituir-lhe a filha que. princesa das Astúrias.INOCÊNCIA PERDIDA Carlota Joaquina olha ressentida e pálida para a última saia de sombra de seda verde com entremeios de rendas bordadas que D. E assim ficam mergulhadas num esquivoso e prolongado silêncio. Nessa mesma noite. Luísa. desobediente e mal-educada. sentiu o peito apertar-se-lhe de aflição. a começar pelo príncipe D. . no mesmo dia em que Carlota Joaquina chegara. defendida apenas pelo seu corpo impúbere de ter qualquer contacto carnal com D. Mas em vão. todo ele crivado de correntes de ar que se entrecruzam e entretecem. Anna Miquelina. que no ano de 1790 se demora. junto do espelho de corpo inteiro diante do qual a princesinha sempre se despe. se alastre. Carlota Joaquina. prepotente. de modo a impedir que a notícia da sua primeira menstruação. a açafata D. de educadora da princesa espanhola. há tanto esperada por todos menos por ela. câmaras e antecâmaras. e também de sua olheira. aquele que seus pais. D. consciente de que a sua passagem de menina a mulher significa a perda de liberdade na Corte portuguesa. tinha partido para casar em Espanha. rigoroso e intacto. gotas mínimas de rubi sangrante a mancharem a pequena sombra escura do púbis. Carlota Joaquina ainda tenta compactuar com as suas damas. matando de frio os periquitos de muitas cores que esvoaçam pelos seus corredores e câmaras. cada uma levada por motivos diversos e sentimentos opostos. mal defendido que está dos rigores do Inverno. negociando-a oficialmente. D. João. como se fosse um rastilho. Antes de a deitar. Emilia O’Dempsy passa uma toalha de felpa humedecida com água de cravo pelas suas pernas magras e ensanguentadas. conhecedora dos sentimentos de Carlota Joaquina. Mas a primeira pessoa a ser informada fora a Rainha que. sentindo-se invadida pela grande satisfação de ver chegado o fim da ingrata e dura tarefa junto da Coroa de Portugal. lhe arranjaram para marido. acaba de lhe despir: um pequeno saiote ensanguentado. Quando acordou já ninguém falava de outra coisa. príncipe do Brasil. encolhidas entre os espinhos dos roseirais que circundam a Casa da Música. incendiando corredores. sua primeira dama espanhola. radiante e sorridente.

mostra-se fria.Meninas usadas. negociáveis. e desde logo a cerimónia de consumação do casamento da princesa espanhola com o príncipe D. . querendo adiar o inevitável. No entanto. pressionada pelos seus ministros e pela impaciência agreste do único filho que lhe resta. Maria. D. quando a princesinha do Brasil vem até si. irredutível. João fica marcada para a primeira oitava da Páscoa da Ressurreição. sem que ninguém tivesse compaixão por elas.

ninguém dá conta do seu semblante tomado pelo desejo esfomeado e cobiçoso. apesar de só ter para estreitar. para lá da qual a partir daí tudo irá desenrolar-se. Carlota Joaquina falta a todos os deveres de protocolo devidos à princesa do Brasil. alheada de todos e de tudo. onde apenas ficam as damas espanholas que ajudam a princesa a tirar cada peça de roupa: primeiro o . de quem está determinada a não deixar transparecer qualquer sentimento. numa cadeira de veludo bordado a fio de ouro e espaldar alto. deixa-se paramentar pelas suas damas inusitadamente sem um único gesto de impaciência ou reclamação. muito severo. E quando todos esperam assistir ao habitual espectáculo. onde é esperada pela Corte. Carlota Joaquina segue-a muito hirta. que em breve será oficialmente violentada. com um longo séquito de convidados. Voraz. e sai do Palácio em direcção à Matinha. viúva do príncipe D. rancoroso e um tudo-nada estrábico no chão. Como se a ponta envenenada de uma faca tivesse aberto um lanho no seu coração ainda de criança.Durante o tempo que ainda lhe resta de alguma liberdade. Do outro lado da Sala do Trono. Maria finalmente se levanta. e quando é chamada à Rainha firma o olhar escuro. Quando D. hirta no seu vestido tufado. a Rainha. peruca delicada sobre os cabelos rebeldes que parecem querer expulsá-la. Volta tarde e almoça no quarto. sapatinhos bordados com pérolas. peito quase liso. sem responder às perguntas que lhe põem. pois todos os olhares estão postos na princesinha. E quando entra na Sala do Trono. abrindo sulcos no corpo ainda de criança. João parece espiá-la. manda fechar a porta do quarto. sem uma única palavra. sem que alguém saiba dizer por onde ela tinha andado. Atrás. num resguardo de marido ainda desapossado de tudo o que nela é seu por direito. Carlota Joaquina. que acabam por ficar amontoados à porta. No entanto. Mas quando o dia do ajuntamento chega. de tão revoltada. vem a Corte. na humilhante devassa da intimidade dos príncipes. E a madrugada está ainda envolta pelas sombras da noite quando manda buscar o seu cavalo. vira-se para sair e com um gesto seco. D. depois de beijar a nora. mais parece uma boneca sem vida. que ela é. que ao sentar-se junto da Rainha. que sempre monta sem sela. Pristila. rosto inexpressivo de uma palidez doentia. autómato demasiado pequeno para a sua idade. exibe uma estranha expressão absolutamente neutra. e começa a dirigir-se para aquela que nessa noite será a câmara dos príncipes do Brasil. para tornar a sair de seguida e só regressar por dentro do breu faltando ao jantar. a sua extrema magreza morena e selvagem. por onde a peçonha estivesse a entrar e pouco a pouco se fosse espalhando nas suas veias. absurdamente. espalmado pelo pequeno espartilho sufocante que é obrigada a usar. onde se perde por entre o arvoredo. tendo a seu lado a princesa Mariana Vitória. vestido de seda lívida bordado a pérolas adormentadas e safiras álgidas. José.

como se fora somente uma brisa. enquanto a menina levezinha recua. ela esbraceja. tira a camisa de dormir cor de cera. e nuinha deixa-se possuir sem um gemido de reclamação ou dor nem qualquer movimento. matreiro. e quando ele a aprisiona e esmaga com a sua corpulência de encontro ao pano de Arrás que cobre grande parte da parede. cauteloso. depois ainda as saias de sombra. pesado. Mal saem. É então que Carlota Joaquina julga escutar um sussurro de asas. desabotoando botão após botão forrado. ao partir voando. .vestido. Carlota Joaquina olha para o marido que. sem pronunciar uma só palavra. um leve perpassar de aragem. uma por uma. desatados e descruzados os atilhos. já se aproxima. dentes cerrados e olhar cego e prisioneiro do tecto com os seus medalhões pintados. e por fim a camisinha e as culotes de cambraia transparente. num ciciar de escusas e ininteligíveis palavras ao seu ouvido. Nesse momento ela cede. a querer escapar-lhe dos braços que não se desentrelaçam e a transportam por fim até à cama. da sua inocência perdida. «Adeus. minha atormentada!» – diz-lhe o anjo muito baixo ao ouvido. e em seguida o espartilho.

da teima do pai em não a deixar ir à escola nem sequer aprender a ler. como a sua língua preta e aguda. que olha de longe. relata-lhe tudo do nada que lhe vai acontecendo no dia-a-dia da sua ainda curta vida esvaziada. embrulhada num cobertor da sua cama. Sem lhe esconder coisa alguma de si. o seu amigo único. A menina vê-os chegar. e vai até ao celeiro onde o falcão habitualmente dorme. fotos que ia guardandoamontoando. mexendo imperceptivelmente a pata livre de correntes e espinhos. só regressando a casa quando as brumas que embrulham a escuridão começam a ficar raiadas com o alvor da manhã. E embora se fitem separados pela distância. Sentimento após sentimento. Mas unidos pela friagem dos costumes e dos desafectos. já de madrugada. a menina deseja-lhe uma boa noite. olhar de verrume pregado no anil dos olhos dela. rejeite após rejeite de si mesma e da vida que leva. passara a sentar-se à sua frente numa almofada esventrada que encontrara a um canto e começara a falar.SOLIDÕES Ingride afeiçoou-se ao falcão. De manhã quando se levanta. o pequeno falcão passa a ser o seu ouvinte mudo. mantendo-a fechada em casa. passo tropeçando no sono. o seu psicanalista. Por um segundo Ingride sente-se menos abandonada. parecendo-lhe sempre vê-lo sacudir um tudo-nada as asas aparadas. Depois. com o pequeno capuz a cegá-la. o seu confessor. das lágrimas recalcadas no rejeite. trazendo-a ainda no punho. das raivas súbitas e dos ódios. mordida pela solidão. dos venenos que oculta numa gaveta trancada da sua cómoda. Ao princípio ainda acendia um lanternim que levava consigo. e Ingride logo o apagava precipitando o escuro. desculpando-se. uma pata vermelha e fina. da mãe que morrera de parto mal ela nascera e agora lhe aparece noite alta aos pés da cama. contando-lhe tudo aquilo que lhe vai acontecendo. das memórias e das fotografias antigas do casamento dos pais. apesar do infinito precipício que os separa. com o passar do tempo ela julga conhecerem-se melhor. de menina sem conhecimento. do mundo que nunca conhecerá. mas isso encandeava-o no sobressalto e no recuo. da mãe ainda solteira à saída de um baile. proibida que está de lhe chegar perto. dá-lhe baixinho os bons dias. Nos dias em que os treinos da ave receosa duram até mais tarde. o seu diário. suspeitando que o falcão a espera impaciente. Diz-lhe igualmente das tempestades que nela se digladiam e tumultuam. deita-se na pedra do chão curvada sobre si mesma e adormece. e de noite esgueira-se pela porta das traseiras. das avalanchas que nela se precipitam. Sem luzes e sem mãe. De certa maneira. mas também de si mesma em diversas ocasiões de solidão e aridez. Por fim. do que vai pensando e imaginando: dos translúcidos mantos dos anjos que vê. o pai só regressa a casa pela hora do crepúsculo. empurrada pela aragem cortante que lhe .

.revolve os cabelos de ouro muito fino. Sem a conseguir tirar do pensamento. numa repetida e interminável despedida. Escutando atrás de si o piar ríspido do pequeno falcão.

programadas para voos curtos e baixos. os odores da natureza. diante do espaço livre que tanto almeja alcançar. não está seguro do retorno do falcão arredio até à sua enluvada mão estendida. apesar desse secreto anseio. como se o desafiasse. a filha muito se parece. diante do medo contrário. aliás. a querer degustar. Então assusta-se e aquieta-se de novo. primeiro baixo e hesitante. devido à demasiada luz para aquele que está habituado à cerração da penumbra ou ao negrume de quem vive vendado. lhe começam a aquecer o corpo gelado. adivinhar. com alguma doçura. demasiado vasto e perigoso ainda para as suas asas dormentes e prudentemente mandadas aparar pelo dono. só entende de aves. levada pela inconfessada esperança de que. tomando gosto ao júbilo sentido quando os raios de sol. Desconfiando. a encher-lhe de lágrimas os olhos que continuam sem ver. e embora comece a distinguir o vulto escuro do arvoredo à sua frente e a cordilheira mais ao longe. . enquanto tratador. ele não se sinta capaz de fugir. embora nunca salvadora. Nessa altura o sol rompe as nuvens. de partir para sempre na senda da liberdade.Um domingo. atenta ao falcão que. E no entanto aceita o convite do pai. rápido e luzente. rasando a folhagem. o incitasse a uma fuga benigna. num súbito golpe de calor. Mas. mal vê o pai entreabrir a gaiola onde ele se amodorra. Então diz a Ingride que fazia gosto em que ela assistisse ao último treino da pequena ave arredia. E mesmo assim o pequeno falcão arrepia-se. estremece quando a mão enluvada de preto lhe abre de par em par a porta da gaiola. Calando ele a incerteza. Respiração suspensa. quanto à obediência aos gestos e às habituais palavras e ordens de falcoeiro experiente. Assim sendo. permanece alerta. não sabendo como fazer para amenizar a orfandade da menina que ultimamente lhe quer fugir do afecto mas que ele prende. Na verdade. que desde o começo percebera a atracção e o apegamento da filha triste e perdida ao falcão que lhe entregaram para treinar. E quando finalmente voa. a sentir o fio translúcido da aragem. voos incipientes que levam. de volta à sua mão autoritária. presta atenção a cada barulho. que irá soltar de todo pela primeira vez. sente a angústia precipitar-se. moldadas. o pai. mas logo mais e mais alto. invariavelmente. unhas afiadas cravadas na pele dura da luva que cobre a mão onde ainda se apoia e que já o ergue no ar. Por seu lado Ingride perturba-se. vendo-a a esperá-lo. considera o espaço imenso. pois tendo-lhe cabido em sorte criá-la sozinho esmera-se a fazê-lo como sabe. certa de o falcão preferir as aventurosas e poderosas correntes do vento. por sua vez. o falcão hesita e hesita de novo. e lhe desprende das correntes as patas escarlates. cada vez mais distante. e em seguida retira o pequeno capuz que o cega. com alguma das quais. Falcoeiro quase desde menino.

julgando vê-lo hesitar na correnteza dos ventos. e suspira muito fundo. Ingride sente um súbito e inexplicável cheiro a roseiras bravas. a planar no espaço ridente.sobrevoando as sombras. . Num imenso adeus emudecido. Parecendo imóvel. num impulso incontrolável Ingride atira-se para a frente. acaba por ir ombrear as nuvens lá no cimo. braços no ar a incitá-lo a partir. o leve a quebrar uma ancestral promessa da liberdade. desça até si. Coração estilhaçado. completamente sozinha. Preferindo a prisão a perdê-la. por outro lado anseia que ele torne. na terra árida. No entanto. Cá em baixo. que lá do alto ele a veja e isso lhe faça esquecer o sonho de fugir. os pássaros pequenos. volte e venha. olhos de safira nublados de lágrimas. confundida com os próprios sentimentos contraditórios: pois se por um lado deseja que o falcão parta no rumo da distância por dentro da luz. as cerradas copas das árvores da mata.

Cobrindo com os seus os passos dos . julgando sempre ser pouco aquilo que dos outros sabe e percebe. as escadas. dos murmúrios e dos suspiros. Atenta a tudo o que se diz. como estreitando-se no vão das portas. mais rapariguinha já. sem impor regra. enganoso. apesar do deleite que lhe dá ficar horas perto das jaulas dos animais ferozes. dissimulando-se nas esquinas. na obscuridade equívoca do pavilhão chinês. na esconsa e perigosa solidão da Matinha. único professor capaz de aquietá-la. tem gosto em aprender. magreza encoberta pelos vestidos de folhos e rendas com saias de sombra e saiotes de goma.A INFANTA PRINCESA A princesinha Maria Teresa. astuta. caso se trate de Física e Matemática e na condição de ser com Monteiro da Rocha. se murmura. Precavida contra as ciladas. Olhar de ónix sombreado pelas sobrancelhas espessas como asas de negrume unindo-se na testa curta ao cimo da cana do nariz fino e direito. das frases soltas. escapa dos seus aposentos cosida com as sombras. perto do Pavilhão da Música. apesar da natural inclinação para preguiçar no macio colchão de plumas. tão depressa agachada atrás dos móveis. Severa e alta demais para a idade. os pátios e os jardins do Palácio. Sempre que há ocasião. a hipocrisia astuta. ou debaixo do caramanchão das fulgurantes rosas trepadeiras. perspicaz e implacável. afastados pelas pernas longas e ágeis de animal selvagem.. cumprindo na perfeição o papel de espia perspicaz e astuta. dos bilhetes escondidos nos decotes e nos canhões das luvas. na ressaca almiscarada das noites. dos venenos para os quais não existem antídotos. ocultando-se nas manchas de escuridade do veludo pesado e aconchegante dos cortinados. a dividir o rosto moreno. das segundas intenções. a fantasiar a própria vida.. Rigorosa na observação do que se passa à sua roda e na escuta daquilo que supõe ser secreto. e percorre distraída os corredores penumbrosos. cala e faz pelos corredores escusos ou na intimidade dos quartos e dos boudoirs. do que criança a julgar precaver-se diante da ameaça dos adultos que na Corte a rodeiam sem nenhuma atenção nem carinho. dos subentendidos. na pequenez dos oratórios. por entre a frondosa vegetação dos caminhos que ela conhece como os seus dedos firmes de menina precoce para os nove anos que leva. Aplicando-se a infanta no esgueirar-se. de lhe prender a atenção imaginativa. na bruma. transfigura-se: muda. princesa com o peso acrescido dos seus vários nomes a dividi-la entre mulher indesejável e homem que deveria ter nascido: Maria Teresa Francisca de Assis Antónia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Miguela Rafaela Isabel de Gonzaga. os aposentos silenciosos. dos risos disfarçados sob os leques. proibição ou medida a si mesma. Desencaminhada e desamada. A dar conta dos pormenores. nas doces curvas das áleas musgosas dos jardins onde se abriga. sigiloso. nos jardins do Palácio de Queluz.

Na madrugada em que D. que a observar os outros já aprendera bastante da vida. diante dos aposentos de D. mas de quem esta nunca gostara devido ao falso ar de rola perecível. escondida dentro do guarda-vestidos de onde fica a espiar pela frincha dos batentes entreabertos. ruído de ligeireza ou de arrasto e indecisão. a altas horas da noite. que ela reconhece pela cadência e o carrego. olhar pregado na cama em frente. camareira que ela ganhara da sua mãe a princesa Carlota Joaquina. Eugénia de Menezes. João acaba por abrir a porta e entrar furtivo no quarto da neta do marquês de Marialva. É assim que ela dá pelo pesado e inquieto deslizar de seu pai o Príncipe Regente.outros. porte de recato manhoso e olhar baixo de sonsa. pastora de desassossegos e guardadora de seduções inesperadas e traiçoeiras. De culpa. . limita-se a suspirar com um sussurro de pássaro. Maria Teresa. De remorso.

conclui que esta está prestes a receber a visita nocturna de seu Real Pai. o Regente. a suor. levada pela sua observação atenta. à expressão comprometida de Eugénia de Meneses. nas penumbras sigilosas dos gabinetes. É ali. que escuta da boca de seu pai D. a princesinha teve a confirmação de haver na verdade um pacto secreto entre a Coroa portuguesa e D. Confirmação surpreendente. o minucioso relato da intriga que está a ser organizada na Corte. João. Leonor de Almeida. a pomadas. . toma então as precauções necessárias para escapar dos salões a tempo de se esconder naquele armário onde sufoca com o cheiro a roupa usada. à sua amante perecível. Numa dessas noites tão longas quanto vertiginosas. Leonor de Almeida. aprendera a gostar sem artifícios de nenhuma espécie. que lhe provocam vómitos secos e silenciosos. contra a condessa de Oeynhausen. ao longo dos seus poucos anos. de quem a menina. que a princesa escuta da boca de seu pai. o Regente. todas as vezes que. Revelação que. a infanta Maria Teresa. menina acautelada. que o negam por entre risos ultrajantes. mentiras e enredos.A partir dessa noite que para sempre lembrará como um pesadelo. Eugénia de Meneses. intriga baseada em suposições. acocorada no escuro. quebradiça e pálida D. pacto esse que esta altivamente sempre invoca mesmo quando diante dos próprios ministros do Reino. pois. guardará para si mesma. com a finalidade de levar ao exílio D. no Conselho de Ministros. a carmim e a perfumes inquinados.

só quer ir de novo ao encontro da rosa. sobe na pedra que arrasta para debaixo da folhagem miúda de uma pitangueira.SEM CULPA Habituou-se a regressar da escola por uma das ruas onde moram os ricos de Recife. na sua curiosidade. Encandeada. ou arrastando o passo de criança leve. fechando-se umas sobre o veludo acetinado das outras. Esquecendo-se mesmo de volver o olhar para a janela. iluminando o jardim no seu traçado singular de abraço apertado em torno do silencioso palacete branco. ganhara já a carnação e o odor de rosa ardente e insurrecta.. rosas em flor! Sobressalta-se com o pensamento que não é dela. a levantar-se em surdina. onde vão reflectir-se os últimos raios de sol neles projectando a luz incendiada do poente. Abandonada no chão de terra batida coberta de pitangas vermelhas. por trás da qual uma cortina translúcida é incertamente afastada pelos dedos afuselados de Hildegarda. julga antever numa delas um vulto esquivo. No entanto. na devassa do seu olhar furtivo escapando por entre as grades trabalhadas. talhadas em flecha no cimo. com venezianas verde-esmeralda. a pasta da escola parece-lhe apenas uma mancha sem significado. acompanhada por uma voz sussurrante que lhe chega vinda do nada. . Apoiando-se nela e içando-se nas grades. sem entender o que ali procura ou para ali a atrai. ainda se encurvam em botão. Vós. Escolhe um portão ao acaso e. de quem imagina escutar o hálito doce da respiração suspensa. de um tom nacarado a adensar-se em púrpura até ao seu amotinado coração clandestino. olha em frente o espaço misterioso. Detendo-se a abadessa no delgado lábio superior. que a observa subida no gradeamento de ferro forjado pelos braços magros de pele suave ligeiramente perlada de suor. no laço de borboleta desmanchando-se nos encaracolados cabelos fulvos. que num ricto indócil deixa a descoberto os pequenos dentes de madrepérola. na qual lentamente se está a transformar. empurrada pela imprevista aragem tépida. mas está na sua cabeça. ou talvez somente o ondear diáfano de uma cortina. Ergue instintivamente os olhos de susto até às janelas de sacada com pequenos vidros quadrados. A avaliá-la. e aturdida afasta o olhar desatento que. apesar de mal entreaberta. na qual nem repara. cujas pétalas espessas e sedentas. querendo olhar para além do que lhe mostra a sua pouca altura.. a vê-la de imediato: Uma rosa de exultação. Sob o sossego das árvores densas. mãos esvoaçando baixo a roçar os muros de onde partem os gradeamentos para defenderem as casas por ela espreitadas de longe. Rute vai saltitando nas bermas dos passeios estreitos. a atenção presa na longa haste que oscila ao de leve. única no seu canteiro. deixados a descoberto pelas mangas de balão do fatinho de organdi azul-genciana.

Hildegarda de Bingen segue até onde, na menina, brota já uma obsessiva paixão
em desmesura, que mal consegue ser adiada.
E uma palavra terrível começa a formar-se na sua língua:
Expiação...
Estremece. E mantendo na criança a atenção minuciosa, testemunha a sua
palidez excessiva, o assombro recamado, a crispação das pálpebras de seda, o
respiramento opresso, o brilho febril dos olhos de ametista presos na rosa
escarlate, toda ela tomada por um súbito e irremediável desejo de posse:
«Eu quero aquela rosa para mim!»
Quem melhor do que ela, abadessa de Rupertsberg, para conhecer o significado
daquela exigência absoluta, daquela força de vontade, daquela determinação
obstinada e implacável.
Porque ambas as nossas almas pisam o fio de uma navalha.
Vorazes?
Ela mesma fora assim diante das próprias visões: consumindo-se nelas.
Minha Senhora Magistra!
Difusamente escuta o chamamento e, embora sabendo-se sozinha, vira-se na
penumbra ensombrada da sala, tacteando em torno a quietude vazia, numa
busca vã pelos seus desvãos, cantos e recantos devastados onde o negrume
mais se adensa. E quando, apreensiva, torna a espreitar o jardim, já não
encontra Rute que partira a custo num manso restolhar de rola. Mas ao procurar
o canteiro junto do portão apercebe-se da rosa entreabrindo-se, parecendo
incendiar-se no rubor das suas pétalas.
Para depois renascer das cinzas?
Ascensão...
Hildegarda curva a cabeça, por momentos parecendo orar...
Ave Maria, gratiae plena.
Enquanto a rosa se endireita no caule firme, a matar a sede árida com a bruma
que invadira a cidade e ali se adensa, arrastada pela queda do crepúsculo raiado
de breu e neblina de anelo,
daquele final de tarde.
Ciente de que não poderá explicar aos pais o seu atraso, Rute precipita-se no
rumo do pôr-do-sol, prisioneira da rosa que não queria ter abandonado, mas a
mãe sempre dá pela sua falta, numa ansiedade zangada e aflita.
Nunca se acostumando aos devaneios da filha.
E esta, tentando colmatar a muita demora, toma na pressa os atalhos, os
desvios urbanos daquele lado da cidade; mas em contrapartida vai-se afastando
mais e mais da rosa, sentindo a lâmina da saudade a golpear-lhe o peito.
Coração a estilhaçar-se de privação,
na desordem do vício.
Aumentando nela o desassossego que a tomara no preciso instante em que a
fitou pela primeira vez; embora sabendo que nos alvores da manhã estará de
regresso para a seduzir, a colher. Atordoada, tropeça na calçada, expressão
nublada pelo tumulto que lhe atormenta os nervos e o corpo suave de
rapariguinha precoce. Mais tarde, com um qualquer pretexto esquiva-se ao
jantar, apaga a luz mal se deita e fica no escuro de olhos escancarados,
a rever-lhe as pétalas e a corola, o talo e o húmus, as raízes obscuras em busca

da nascente da água que corre perto, pormenores que agora lhe surgem com
extrema nitidez na memória, como se alguma vez os tivesse realmente visto:
espécie de coral a revolver-se no pesadelo onde submerge, adormecida.
Mistura de insónia febril e de sonhos alvoroçados nos quais, envolta em estilhas
de luz, surge a mesma silhueta dúctil mas severa, que por segundos ela
apercebera na janela do palacete branco...
Ó púrpura de sangue,
ouve-a sussurrar, enquanto se debruça sobre o seu sono agitado, a insuflar-lhe o
alento que lhe falta, a força que nela algumas vezes se esgarça, a desobediência
que no seu peito frequentemente se quebra, como se fosse de cristal. Ao
acordar, porém, não se lembra de como aprendera palavras tão derradeiras e
perturbadoras, lianas de versos que à sua revelia tecem nela aquele inexplicável
apegamento à rosa.
Numa espécie de responso ou de antífona...
Tu és a flor
que o sopro da serpente
jamais lesou.
Mas a menina, que nada sabe da poesia do excesso, limita-se a seguir o plano
por si minuciosamente traçado na véspera.
Acautelando-se em não acordar os pais, atravessa o corredor como uma sombra,
desce dois a dois os degraus da escada, palmas das mãos tépidas da quentura
da cama a aflorarem o corrimão de madeira gasta, e num ápice está à porta da
rua, que entreabre sem ruído, frincha a deixar passar a ténue claridade da
madrugada ainda estriada pela escuridez da noite.
A criança que nela se anula talvez hesite, mas a mulher que já cresce no seu
corpo vence-a, a empurrá-la numa pressa absurda, levando-a, intuitivamente, a
lembrar-se dos trajectos mais curtos e vazios à hora da alva. Sem cuidar de ver
por onde segue veloz, às vezes cambaleia em desequilíbrio, recompondo-se de
imediato na ânsia de chegar à rosa, a sentir-lhe finalmente a delicadeza, a
delgadeza, o lume do cheiro.
Transparentes, as mãos de Hildegarda ajudam-na nas ladeiras íngremes e nas
esquinas, amparam-na nas descidas abruptas, nas calçadas árduas, por onde ela
parece empenhada em voar no anseio, desatenta aos perigos que desencadeia
com a sua veemência, a sua tempestade interior de infanta bravia.
Querendo defendê-la, a abadessa de Rupertsberg e Eibingen tenta anular os
perigos maiores, ao invocar para ela a tolerância e a clemência, que consigo
tiveram, pela mesma idade, a sua mestra D. Jutta e as madres da abadia de
Desibodenberg...
Escuta filha, os preceitos,
e inclina o ouvido do teu coração...
Por fim Rute avista as persianas verde-esmeralda das janelas de sacada do
palacete, única referência de cor naquele bairro monótono e solitário que ela
atravessa em desordem, passa em frente da sebe alta e densa da igreja
presbiteriana, da qual apenas distingue a ponta do telhado, e em seguida pára
diante do alto portão de grades.

Olha até ao fim a rua deserta, e só depois se soergue na ponta dos pés,
inutilmente levantando os braços, sem conseguir chegar ao puxador de ferro.
Recorda-se da pedra que usara na véspera, arrasta-a de volta para nela se
elevar o mais alto possível, e embora com esforço logra correr o ferrolho
enferrujado. Em seguida finca os calcanhares no chão e encostando o pouco
peso do seu corpo de criança magra, empurra os batentes, até poder esgueirarse para o jardim, onde tudo parece ainda dormir.
Estonteada, toma o caminho das pedras, delimitadas pelo musgo, contorna o
lago onde os cisnes deslizam em silêncio, rodeia o canteiro num passo rápido
que lhe parece exasperantemente lento.
«Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.»
E de súbito, à sua frente,
está a rosa cintilando de orvalho.
Desconfiada pára, coração desordenado sob as nervuras estreitas do peitilho do
vestido cor de jacinto. Absolutamente imóvel, como se estivesse pregada ao
chão, sem conseguir desprender-se da sua beleza enlanguescida, ela só pensa
em colhê-la, em guardá-la, tomá-la e apertá-la perdidamente a si, num
vertiginoso e interminável arrebatamento:
«Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume»,
confessa a si mesma, consciente de quanto deseja roubá-la, raptá-la, levá-la
consigo para infinitamente longe.
Finisterra...
Vacila um tudo-nada, mas logo se domina, a boca seca, a vista turvada
percorrendo-lhe as pétalas, as folhas, a corola.
A haste longuíssima onde a rosa resplandece.
«Tem de ser minha!» – teima enrouquecida, avançando no atropelo dos sentidos,
e afoita, tenaz, cruel, agarra-a a tentar dobrar, torcer, quebrar-lhe o caule que
julgara débil e vulnerável, mas que afinal resiste ao seu desejo, os espinhos a
lacerarem-lhe os dedos, a cravarem-se na maciez dos braços, carnívoros e
ferozes como presas de animais selvagens a cravarem-se nos seus pulsos finos.
Mas a menina não desiste, as mãos ensanguentadas, como uma assassina.
De súbito, porém, a rosa cede, e com um esgarçar de gemido entrega-se
mórbida, num demorado desmaio, permitindo que ela lhe pegue, a possua, e a
leve consigo, depois de lhe retirar a alma.
Subjugada.
A inundá-la de puro deleite.
No entanto, clandestina, a inquietude insinua-se na fruição do prazer,
começando a miná-lo, a corroê-lo, com a mais nefasta eficiência. Desconfiada,
ela sobe pela última vez o olhar violeta pela frontaria do palacete e nos vidros de
uma das janelas vislumbra o rosto intenso de uma mulher, que inquiridoramente
a fixa.
Guardiã de que enigma?
Corpus verum...
Hildegarda de Bingen adivinha-se nela pela avidez, pelos sonhos revoltosos, pela
insubmissão, descobre-se nela pela travessia alucinatória, pelas vozes que
escuta, pela rebeldia, reconhece-se nela pela temeridade, pelas asas escondidas,
pelos cabelos de fogo tombando frisados ao longo das costas de ossos miúdos

recusando-se a interpretar a pergunta oculta que adivinha naquele conturbado olhar de profetisa. .. por onde escapa levando a sua primeira rosa roubada. Resguardando a rosa chegada ao corpo. e receosa foge de regresso à rua. cumprindo o trilho intangível traçado por si à chegada. Com prudência recôndita alcança o portão entreaberto. Sem arrependimento nem culpa.. Não olhes para trás! – murmura-lhe sem mover os lábios.como se fossem de pássaro. a menina recua alarmada.

à sua escolha. Maria Teresa Horta optou por reinterpretar a menina de «Cem anos de Perdão». do Rio de Janeiro. Tratou-se de uma iniciativa da editora Oficina Raquel. De Portugal. que convocou doze autores a reescreverem personagens. . No presente conto de Maria Teresa Horta. um dos organizadores do volume. participaram ainda os escritores Hélia Correia e Pedro Eiras. uma homenagem à escritora nos 35 anos da sua morte.NOTA O conto «Sem Culpa» foi publicado no Brasil em 2012. Convidada pelo professor e poeta Luís Maffei. de contos da homenageada. os trechos em itálico são citações de Hildegarda de Bingen e os que se reproduzem entre aspas são de Clarice Lispector. conto que Clarice incluiu no livro «Felicidade Clandestina». na colectânea «Clarice Lispector – personagens reescritas».

grinaldas que apresentam as pétalas miúdas e rosadas de um tom indeciso. depois de terem estado tão perto que distinguira a sombra dos chinelos de feltro castanho que ele usa. corpinho arrepiado mal coberto pela camisa de flanela branca. sem conseguir vencer as nuvens que a partir do crepúsculo começaram a amontoar-se num pesado céu de borrasca. mais firme. mas que despido parecia mais forte. o azul-cobalto dos amores-perfeitos temperado pelo amarelo esvaído das rosas entrelaçadas umas nas outras. através da abertura entre a parte inferior da porta e o soalho encerado. cobertor subido até ao queixo pelas mãos aflitas que arrepelam a renda de bilros da dobra do lençol de linho. puxando-a para debaixo do seu peso. a sentir a frescura da porcelana mate onde pequenas flores pintadas se organizam em círculo. olhar fixo na obscuridade. agarrando-a com os dedos finos e trémulos. o hálito ácido de ferro e húmido de cuspo. a forçar-lhe as pernas que teimavam em permanecer fechadas enquanto ele lhe ordenava ao ouvido: – Deixa! Deixa! Abre as pernas que é bom! Estrela desobedecendo à voz enrouquecida. golinha subida e abotoada a madrepérola. cabelo cor de madeira descendo até ao início dos ombros. bainha pespontada quase a tocar a ponta dos pés em que se firma. sabendo como ele a magoava. primeiro de lado dominando-lhe o esbracejo de quem tenta fugir. enquanto a esmagava. tão assustada que se esquece de respirar. a pele toda naquela imundície que limpava da cara e da barriga depois de ele ir embora. medindo os próprios ruídos: mais cuidadoso e atento na ida do que na vinda aos . cruento. fica para além das portadas entreabertas da janela. Vidraças quadradas a reflectirem apenas o exterior da escuridade em que não repara. a sentir-lhe o cheiro de água-de-colónia inglesa cortado pelo fio ácido do suor que se escapava enfebrecido das aberturas do pijama grande demais para o corpo que ele tinha magro. Sufocando-a. a sujava de esperma. Encolhida na cama estreita. a rasgava. esbatido pelo uso. Estrela engoliu o queixume apavorada. a enojá-la com os beijos molhados. Atenta a confirmar o som abafado dos passos furtivos que se afastam. frincha por onde se esgueira a luz esmaecida do corredor. às horas em que ele sempre chega. subindo ao longo da sua própria altura. e logo depois de frente. mais ávido. mansidão fingida e opaca num dissimulado deslizar cosido ao longo das paredes da escada. O bater do próprio coração sobressaltado parece a Estrela ressoar em todo o quarto onde o silêncio engrossa no negrume profundo. a querer detectar no silêncio os mais pequenos ruídos da noite. como se já estivesse na sua presença. ficava tremendo.ESTRELA A mão dela apoia-se mais na maçaneta do que tenta fazê-la rodar. já que a claridade da lua. rolava para a beira do colchão.

embora quando gritava a vir-se dentro dela não se contivesse nem pelo receio de poder ser ouvido. e ela chorava baixinho de vergonha e dor. . e tapava os ouvidos com a concha rósea das palmas das mãos humedecidas.inexistentes barulhos da casa adormecida. – Olha como sou grande e te encho toda! Confessa! Diz que gostas! E Estrela soltava os dedos de onde ele os punha para voltar a excitar-se.

e o áspero arreganhar dos lábios a descobrir os dentes que lhe parecem de lobo. que habituada às trevas lhe distingue o vulto ameaçador e feroz a espreitá-la de longe. consciente embora de como irá ser curto o intervalo entre esta madrugada e as seguintes. esquivando-se à parca claridade vinda da fresta entreaberta. que com as suas lágrimas de cera se ia reclinando na palmatória de prata deixada pela criada na mesa-de-cabeceira ao lado do copo com água. Estrela não entende a que se deve a sorte daquela noite. soluço grosso preso na garganta trancada pelo susto. Horas antecipadas por sorrisos turvos. dividida entre o medo de adormecer e a vontade de soprar a luz estralejante da vela. Como se visse o espinho. que ele lhe deitava quando se despedia a seguir ao jantar. gesto brando que ele de imediato muda na voragem de se aproximar dela. tremura leve das narinas estreitas. E a contragosto deitava-se tremendo. medindo as distâncias. antes de ele se ir enterrar na sua carne viva. movimento de navalha a golpear-lhe os rins. Incrédula e estonteada. a perder-se na curva que dá para o patamar onde começam os degraus da escada nos quais por vezes ele tropeça na sofreguidão de agarrála.Esperançosa. diante da imagem da Nossa Senhora do Carmo. a forçá-la num único impulso. fatinho cor de canela tirado pela cabeça. olhos descidos sobre o colo sagrado. onde com o cinto escorregadio dava um nó de borboleta escassa. ansioso que está de se pôr nela. mão a cheirar a tabaco e a água-de-colónia inglesa amordaçando-lhe o grito impotente e atormentado. ansiosa por ir refugiar-se no quarto. a trocá-lo depressa pela camisa de dormir franzida na cintura. . Lâmpada fraca que ensombra mais do que ilumina o corredor comprido e estreito. embora a saiba temente à sua espera. ciente da necessidade de se manter desperta até aos primeiros alvores da aurora. ela pudesse. começa a ser capaz de sentir a queimadura do frio a enrolar-se nela. longo e perverso. calcando as lágrimas na duvidosa recusa de mergulhar no escuro oceano que a cerca. Pressiona os dedos sobre os olhos. numa adivinhada ameaça muda. esmagada pela força com que ele a prendia num abraço de ferro. voando. Como se no escuro. Conhecia de cor o olhar de feltro cinzento. diante da qual Estrela suplicava transida de medo: «Faz com que não venha hoje!» – a enrodilhar as contas de marfim do rosário. Espécie de cilício enquanto rezava de joelhos diante do oratório. a rasgar-lhe a vagina. sumir-se dentro do nada. que quase despida se aplica na escuta do arrastar dos chinelos que se afastam já na curva do corredor e logo depois na descida cautelosa dos degraus encerados da escada. chama tremeluzente de pavio curto a nadar no azeite da lamparina. levada pela aragem. nós dos dedos a tomarem a branquidez da cara. na expectativa de ouvir o seco deslizar da porta a ser aberta com precaução. demorados olhares de lâmina de que só ela se apercebe. recordada que está das vezes em que adormecera e fora acordada pelo seu pénis duro e intumescido.

Nas madrugadas em que ele não chega Estrela tranquiliza-se.Estrela. joelhos magros subidos até ao início dos lábios onde já se forma o vómito amargo. um morto-vivo a pegá-la com as mãos geladas. . encolhe-se consumida debaixo das cobertas. atreve-se mesmo a dormitar embora sobressaltada. não vá encontrá-lo materializado na sua cama. ao escutar a madeira que estala.

Só então se afunda. esquivosa que és. acabaram por ser mais fortes do que o asco. E quando finalmente os seus pés miúdos encontram o tapete de lã macia e quente. e matar a sede no suco assombrado do seu pequenino clitóris frágil. cuidando de manter o caminho sem percalço. terna. Os soluços devorados e emudecidos que a cortam ao meio. certezas dúbias de estar a ser castigada. Como se lhe adivinhasse os pensamentos. distingue apenas o roçar áspero das folhas da grande nogueira nos vidros da janela de empena que se debruça no parque. deixa-se tombar atordoada.. consciente do silêncio pesado que desce sobre si. gritar até que a salvassem. a todos os seus desejos entretanto acrescentados. absurdamente à procura na fechadura da porta.Há muito que Estrela deixara de ter por certo fosse o que fosse. traçando rápidos sulcos na pele azulada pelo frio que a tolhe. língua a demorar-se nas ancas magras. porca! – ouvia-o murmurar-lhe ao ouvido. noite após noite. aninhando-se nela. Passando a ceder a partir dessa altura a todos os seus caprichos. encolhida em desequilíbrio. o sofrimento. as pegadas das suas visitas nocturnas. juntamente com o pudor de mostrar aquilo em que ele a tornara. bondoso e delicado? Quem adivinharia nele a ferocidade de animal predador só por ela conhecida? E as dúvidas devastadoras. dividido no pretender ser algoz ou vítima. do que nele. pedir ajuda. apoiada na fama da imagem de seriedade e honestidade inatacáveis criada por ele ao longo dos anos. Estrela vira-se para trás na penumbra do quarto.. – És tu que me levas a fazer isto. e para além do barulho dos bichos que roem o escuro. mas apesar de tudo vai esbarrando neles ao calhas. percorrendo o trilho. homem generoso. e o silvo. Desse modo tomando para si a culpa daquilo que se passava entre ambos. da chave a que há muito ele dera sumiço. enquanto lhe emaranhava os caracóis cor de mel no linho da almofada. salgadas e grossas. lhe lacerava as lágrimas enquanto lhe mexia no peitinho liso. é como se não saísse da sua boca entreaberta. a todos os seus prazeres. o nojo. bicho-do-mato? Estrela reconhecia o motivo daquela afoiteza. chorar. Quem irá acreditar em ti. querendo provar o odor a baunilha das suas virilhas. o sopro do suspiro entrecortado. Como poderia alguém crer mais nela. amedrontada e esquiva. à sua maneira: – Será a minha palavra contra a tua. nela desencadeando delírios e alucinações. menina calada. face molhada pelas lágrimas que rolam embrulhadas umas nas outras. . No início ainda pensara queixar-se à mãe. sem querer retomar toda a altura do corpo. saliva citrina a escorrer dos cantos dos lábios gretados. dizer ao padre confessor o que estava a acontecer. vertigens e sentimentos contraditórios. ele ameaçou-a de ser ele a contar tudo. deslizando até ao queixo. Gemendo como se sofresse. a orientar-se mal por entre a vertigem que pretende derrubá-la. a dobrá-la sobre si mesma. Conhece de cor o lugar dos móveis. estranha.

esfiapando-se na própria bainha alinhavada pelo pesadelo no qual afinal vive. os seus ombros pequenos e macios não se acalmam. E apesar de entender que por esta vez está salva. . dominados por uma tremura fina que os agitam.vão-se espaçando. esgarçando-se.

. sempre que debaixo das tílias se agachava lambendo as feridas e as nódoas negras que trazia escondidas sob os vestidinhos de tafetá e de cambraia bordados com fios de seda frouxa. o musgo.Torturando-se com a persistência das negruras e das lâminas aceradas que a dilaceravam. das dores sumidas nas partes vergonhosas do corpo. sentindo de novo cravar-se a seta dolorosa no seu coração em corrida. da cadeira de toilette escorregava o corpete de atilhos deslaçados e as saias cor-de-rosa macias. Vozes audíveis que se aproximavam mais. as pétalas caídas à mistura com as silvas e a casca das árvores. Por vezes conseguia isolarse sonolenta. E estremecendo. E mesmo quando tomava banho na tina com pés de garra dourada posta pelas aias a um canto do quarto. meia azul de filosela cobrindo as cicatrizes recentes nos tornozelos breves. ponto laçado nas mangas de balão e no peitilho alto. Se as vozes por acaso se calavam era para logo voltarem mais intensas e estrídulas. a lembrança contínua dos prazeres ínvios. repugnada com os gemidos. cetins e tafetás encobridores das mazelas e das chagas femininas. dos medos. dos soluços contidos à beira do0s lábios. cedendo terreno à violência: quebrando-se para logo se incendiar. suspeitosa. Estrela ia sumindo na magreza de um modo particular. Tepidez apaziguadora dos ardores. como acontecera a Joana d’Arc. dor que por breves momentos conseguira acalmar. na morbidez da água que lhe cobria o corpinho tapado com o único saiote que mantinha vestido. sapatinhos de pelica com os quais ultimamente não evitava a folhagem húmida de orvalho. elas vinham. as raízes pútridas e as roseiras bravas. frente bordada e faixa acobertando a cintura mordida sob os folhos largos. sempre que ouvia alguém passar por perto. encolhia-se na humidade aquecida e enevoada do ar. corrompidas aos poucos sob as ervas daninhas. Estrela sobressaltava-se. dos arranhões e das feridas. levada ora pelo pavor ora por sonhos impossíveis.

uma por uma. devido à completa imobilidade que ela mantém. botinhas de camurça abotoadas ao lado. como se não quisesse deixar impressões digitais. cabelos encaracolados atados com fita de seda malva. sem sequer se dar conta do estiolado dramatismo das suas lágrimas. tentando sem empenho fazê-la tirar a saia de pregas azul escura da farda do colégio de freiras onde a puseram semi-interna. a aflorarem-lhe os pulsos que mantém erguidos junto à face crispada. Passada a entrada da sala de estar. esquecendo-se da filha. a querer fazer-se invisível. continua recuando ainda e ainda. mãos entrelaçadas uma na outra atrás das costas. escapando cuidadosa. e a mãe mandara-a chamar. Então a menina comia-as. conduzindo-a até uma culpa que recusa poder ser sua. Aproveitando a desatenção materna. ameaçando-a. . Acocorada naquele lusco-fusco. em grande esquecimento de si mesma. com castigos e médicos e análises. é no vão escuso e bafiento da escada de nogueira que dá acesso ao andar de cima. crispada. uma sombra. nenhum indício da sua passagem pela infância. era só o que me faltava! O que andas a inventar agora? – exclama a mãe a querer confundi-la com a sua zanga desleixada e matizada de preguiça aguiçosa. ténis a deslizarem no soalho encerado.– As camisas de noite e os lençóis da menina têm aparecido com sangue! – fora queixar-se a criada. – Ainda não tens idade para sangues de mulher. passo abafado e comedido em direcção à saída. de quem sabe mais do que mostra ou de quem não quer entender aquilo que já intui. Estrela começa a recuar de mansinho. fica horas a ver as aranhas a descerem como acrobatas penduradas no fio translúcido e tecido da própria saliva. desabrida. o melhor sítio para se esconder. Ali. «Sempre está menos tempo em casa» – disseram. e por isso se distrai com qualquer coisa. a ignorarem as nódoas negras que a T-shirt de algodão azul-turquesa só deixava ver se era levantada. que parece querer perturbá-la com a sua face pálida. Insectos curiosos mas também confiantes. dedinhos hirtos sob as asas do laço do bibe enfeitado com renda suíça.

afasta-se de casa esperando que ele não dê pela sua falta e lhe vá vasculhar o quarto. a começar para lá do portão. em que as feridas vão cicatrizando sem pressa. adormecendo aqui e ali: nas covas acomodadas pela urze miúda. reparando no cheiro que lhe chega: a húmus. de segredos. que no sítio onde ela se debruça mal cobrem os pedregulhos e as raízes. debaixo dos salgueiros. devassar as gavetas. de indícios. com inundações e ventanias.Sempre que pode Estrela foge para o bosque. Agora é tarde demais. na esperança vã que a sua delicada fragrância lhe acalmasse os nervos. e sem hesitar toma o desvio por onde escapa à violência suportada durante demasiado tempo. cheirar os vestidos. de fotos. E como para o veneno do ódio não há nenhum antídoto. de bilhetes ou de cartas. já remoinham e se aprofundam por demais traiçoeiras. no fundo das armadilhas mal dissimuladas com palha. horas que se confundem numa amálgama opalina sem chão nem bermas onde a misericórdia se firme. vai tentando resistir. no fim do jardim envolto no seu denso odor a buganvílias. ramagem espinhosa e canas colhidas ainda verdes. mas que um pouco adiante. terra que em breve o Inverno afogará com geadas. estriado pelo cheiro doce e mórbido a íris azuis e glicínias. levantar a almofada e o colchão da cama em busca de suores. a limo e às rosas estriadas de amarelo de siena. Ainda se lembra de ter ficado a chorar debaixo do cedro ou encostada à tília. Está consciente de viver os últimos dias. crostas ardentes que acalma e amolece com o cuspo ou com o arrepio das águas. de faltas. Estrela assinala um por um os sítios onde se demora. de perfumes. determinada. . a madressilva. forçar os armários. na erva seca.

depois de descalços os sapatinhos rasos de cetim e lantejoulas. Mas era só debaixo dos salgueiros que se atrevia a dormir sem sobressalto. exaurida. dos insectos mortos e das humidades. podia deixar-se embalar sem perigo escutando o entorpecido zunido do calor intenso. pedra amaciada e polida pelos anos a servir de almofada. a caruma seca. Certa de ele não a ir procurar nas espinhosas sombras para lá dos outeiros. o tojo. entre-pernas doridas que lavava secando-se de seguida com o lenço de cambraia que trazia precavida. pronto a denunciá-la. manga de balão descida até ao cotovelo. E se vomitava. as folhas caídas. que lhe parecia terem desistido de ajudá-la. sob a faixa larga de cetim posta em torno da cintura de biscuit. Por vezes o sono fugia-lhe e Estrela. cobria a aguadilha espumosa e ácida com as aparas de madeira dos arbustos fendidos. tentava encontrar de novo o caminho das pedras na tentativa de retomar a escuta das palavras fugidias. lugar escolhido para atenuar a dor das feridas: lacerações das nádegas. mal rasando a sua superfície enganadoramente imóvel. .Ao meio-dia. com a medida incerta de um obstinado rancor que Estrela reconhecia como antigo habitante do seu coração sobressaltado. Por trás das sebes de lírios e dos outeiros de urze branca. envergonhada do seu pequeno corpo traiçoeiro. bainha aberta e peitilho de bordado inglês. as buganvílias e as madressilvas das quais se abeirava fascinada tomavam a intensidade do ardor febril. rasgões da pele das virilhas. Antes de adormecer alisava o bibe de alças. a defender da terra e do verdete da erva. descansava sem contar as horas. Estio acentuado pelo zumbido das abelhas que impelidas por uma sede ardente sobrevoavam de raspão o rio. a saia do vestidinho de musselina ou de tafetá cor de leite que a ama lhe vestira ao raiar da manhã. forro e palmilhas de seda branca a ganhar a marca delicada dos pés.

saliva sanguinolenta a escorrer pelo queixo. arrastando-a atrás de si ou empurrando-a à sua frente. lívido de desejo e de raiva em direcção ao quarto. olhos azuis espavoridos. demasiado largo para as palmas das suas pequenas mãos escorregadias. apertando-a ao peito. gemido vacilante na comissura dos lábios mordidos. madeixas de cabelo enredadas nos dedos que as puxam. agarrando-a pelos pulsos estreitos. pénis duro debaixo do tecido das calças e mesmo assim a querer forçar-lhe o meio das pernas. convulso e desordenado. ouve-o repetir enquanto a obriga a subir as escadas. torcendo-se e esbracejando. que algema entre os dedos fechados sacudindo-a e. que se limita a observar a menina que em vão tenta agarrar-se ao corrimão encerado. nem o rasto de sangue que na cara desbotada lhe deixam as unhas. nauseada com o cheiro que lhe chega da sua pele. no mesmo movimento convulso. corpo mole fazendo-se pesada. . escaldante e excitado. – Eu mato-te! Eu ainda te mato. Os dois distanciando-se aos tropeções diante do evasivo olhar da mãe. corpo dele colado ao dela. – Desobediente e fingida! – acusa. abraço do qual ela se esquiva o melhor que pode. possuído por uma fúria que nada acalma.– De onde vens a esta hora? – grita o pai quando Estrela aparece arrastando o passo e trazendo consigo o sopro da noite. fardo que ele puxa e impele e arrasta. «Deixe-me ou eu conto tudo! Eu conto tudo». tenta ameaçá-lo permanecendo no entanto calada. nem os murros nem as bofetadas.

escapando dos braços a quererem-na reter amachucada no cheiro ácido da cama. assegurando o movimento cristalizado do corpo fininho que cobiça num crescente desejo enrodilhado.O silêncio ia-se dilatando à medida que era espancada. a terra. encurralada entre a cama e o seu peito. apalpada e forçada a despir-se e a acariciá-lo. estar a descer ainda os degraus da escada de madeira encerada. os arbustos mais frágeis. sem qualquer disfarce a sugar-lhe o ar da sua pouca vida. em busca de insectos ou de sementes que a podridão pudesse ainda guardar. mal coberto pela meia translúcida. embatendo nas esquinas dos móveis a caminho da porta. tomada sem pensar nem dar pela dor que a cega. de onde se desloca a doçura a querer salvar-se e por isso o empurra de cima de si com uma força que não sabia ter. antes que ele refeito da surpresa a segure. Ela nem sequer reconhece que foge. suor azedo dele à mistura com a saliva e . os pequenos animais desprevenidos que andavam pelas margens catando na lama as ervas ruins. como uma pequena serpente preguiçosa sugando-lhe o calor para aquecer a sua pele álgida. dorso rolando e afastando-se no desvairo. a imaginar-se já distante. dúctil e rastejante. mas também lugar de onde se tem que fugir. fazendo-lhe fremir o corpo magoado debaixo do vestido com folho de tule. E consciente de não poder mais retroceder. enquanto magro a derruba e prende nos lençóis. olhar crispado que voa pelo quarto a chocar de encontro às paredes como um pássaro aflito. a cama onde ele sempre vai procurá-la. a empurra. dois a dois no deslizar dos pés. na afloração do pé arqueado. enojada enquanto o escutava a vir-se. Vertigem de desespero e de solidão a cobri-la como se fora a água escurecida do rio que arranjara leito no bosque de salgueiros. pulsar que se acentua à medida que foge. o quarto. as raízes e as prímulas esgarçadas pelo frio. mistura de esperma e de cuspo. desenrolando-se rápida. e os corvos partiam crocitando em bandos enegrecidos. aterrada. comprida e nervosa. a lambê-lo para em seguida ser possuída à força: a mão esquerda dele. Friúra do medo deslizando por baixo de todos os sentimentos. Mais tarde. as folhas atapetando a azinhaga. a paralisa e se insinua. Estrela fita num breve reparo a Via Láctea brumosa por entre as nuvens que aos poucos se separam na vastidão do céu. está sobre a sua boca a amordaçar-lhe o grito plangente. ao abrigo da escuridade. sem no entanto conseguir ultrapassar a fronteira do pavor que por dentro ainda a tolhe. sítio onde se sufoca e se pode morrer. as urtigas. ansiando por sobrevoar as pedras. deixando para trás a casa. durante a invernia arrastando na sua correnteza tudo o que apanhava: os troncos quebrados pelas tempestades. continua às cegas. nó corredio que a estrangulara dia após dia da sua curta existência. as raízes. a bordejar as ervas e as plantas ao fundo do parque. E a aflição é como uma corda grossa enrolada em torno do pescoço. respira-lhe o hálito salobro. E ela. Estrela escuta o bater descompassado do próprio coração no silêncio da casa. Imaginando ela. quem sabe. Enquanto no ar nevado os falcões e as águias traçavam invisíveis círculos solitários.

Antes cuidara de tirar os sapatinhos de verniz enlameados. Há quantas horas entrara na água? Atordoada misturou a memória com o imaginado. vestidinho de tafetá fúchsia a rasgar-se cada vez que tombava e se erguia. que lhe ia faltando. ao abrigo do escuro áspero que Estrela lambe. E Estrela julga-se escapando de súbito ao peso do seu abraço. tomada por um imenso vazio. onde reverbera a luz da tempestade. começa a entrar com sossego hirto pelo rio gelado. os limos lembravam-lhe dedos invisíveis no embaraçar dos tornozelos breves. E resguardando sob as pálpebras leves o olhar enfebrecido. Aflita. ávida.as lágrimas dela. pelos desvios. os espinhos das plantas a golpearem-lhe as pernas altas. deslizam-lhe na lividez da cara. chocando com os nodosos troncos dos salgueiros e dos chorões junto das águas. corre a tropeçar nas covas. lábios mordidos. passo ligeiro a escorregar nos teixos. Mas as pernas continuaram a avançar embora fraquejando. nos buracos. arranhando-se nas silvas. enquanto o correntio lhe fez vacilar o passo cauteloso na tentativa de firmar-se ainda nas pedras escorregadias onde resvalava. nas roseiras selvagens. nos taludes. greta. pelos vidros. determinada. sem sentir sequer os espinheiros. levantando-se numa espécie de gemido para si mesma inaudível. nos limos. a embater nas plantas ramosas que tacteia a espetar-se nos espinhos. e na areia do fundo. no musgo. fio das pestanas espessas a tocar-lhe as faces lívidas. enquanto afasta tudo o que à sua frente lhe impede a pressa enlouquecida. bracinhos a golpearem o ar de Inverno por entre os galhos nodosos das árvores. . Estremeceu arrepiada e fechou os olhos de safira. cheirando as humidades mormacentas do ar pesado. E duas lágrimas. deixando em seguida tombar dos ombros estremecidos a capinha de lã a cheirar a mirtilo. pelos carreiros. a impelirem-na. gorgolejar mantido como marca da sua desobediência. entorpecendo-lhe o grito que em vão tenta forçar-lhe as cordas de harpa da garganta. pelas pontas aceradas dos ramos que o rio arrasta. nas bermas. enquanto vai caindo nas brechas. que a camisinha esfarrapada não tapa nem defende do espaço a galgar. ao arregaçar a saia do fatinho de tafetá cor-de-rosa-malva. a vê-lo ficar surpreso e hirto. as farpas. indo tombar uma após outra na corrente rápida. que a lâmina do ar gela. encaminha-se para a beira da corrente escondida na pele da escuridade. nos socalcos. à mistura com o salitre do pranto. Respiração opressa e enovelada. a guiar-se assim pelos atalhos. tentando prendê-la a beber-lhe o hálito num beijo que toda ela recusa esbracejando. a levarem-na de forma imperceptível para a voragem do lodo movediço. Perecível. e sem reparar no banco de névoa que entretanto se levantara. peitilho bordado com fios de seda frouxa. planta macia dos pés lacerada pelas arestas. nos cardos. menos atenta ao rumor surdo do seu lamento que ao barulho desfolhado das asas dos morcegos que tanto a assustam. mãos estendidas de aflição desatada. cada vez mais pesadas. os picos.

primeiro os tornozelos. numa pacificação tranquila. sobe. cobre cada vez mais alto. e em seguida as coxas magras. a água nevada trepa. as ancas de lisura mestiça. Talhe miudinho de bom grado a entregar-se à correnteza áspera a derrubá-la. . a ternura dos joelhos estreitos. mais acima. remoinho envolvente contra o qual ela não luta. deixando-se resvalar e por fim submergir. a tomá-la pelo embalo do esquecimento. sufocando-a. a impeli-la para as suas fundações de terra e limos. submetendo-a.Fechando depressa as asas sobre a vida. E num trilho límpido e cristalino.

os fetos e os caules esgarçados pela ventania que continua desgrenhada arrebatando tudo. Estrela voga à tona. simples rubor escarlate no horizonte pálido. De um lado e do outro das margens agora submersas. semelhante a uma colorida flor à deriva. os salgueiros e os chorões vêem-na passar. empurrando a ondulação sombria em direcção ao mar distante. numa mistura verde-limão. anil e rosa-malva.Começa a clarear o dia quando a sainha de balão que ela tem vestida a traz lentamente à superfície. corola debruçada para o seu próprio fundo. enfunando-se como a vela de um barco meio-afundado. ao mesmo tempo que parece navegar em direcção ao sol que mal desponta. Cabeça virada a esconder-se da vida. com folhas e limos agarrados ao franzido da roda do vestido de organza e aos cabelos longos que flutuam por entre os galhos partidos pela tempestade da véspera. .

MENINAS Quando as meninas fitam o nada de olhos vagos Uma brisa cruel vacila e sussurra no seu peito Estão a ver um anjo – imagino Mas as mães desesperam .

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