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PATOLOGIA GERAL

INTRODUÇÃO

Patologia é o ramo da ciência médica que estuda as alterações morfológicas e


fisiológicas dos estados de saúde. Quando essas alterações não são
compensadas podemos dizer que um indivíduo está doente.
Etimologicamente, o termo "patologia" origina-se do grego ("pathos" =
sofrimento, doença; "logia" = estudo). Conceitualmente, podemos
posicionar a doença como sendo uma alteração de forma e de função não
compensada de uma célula, de um orgão, de um sistema, de um indivíduo, de
uma população e, finalmente, de uma sociedade. Já um "estado de saúde" é
definido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como sendo "o bem-estar
físico, mental e social do homem".
A ciência Patologia atualmente ramifica-se em diversas subáreas;
PATOLOGIA GERAL por restringir-se ao estudo dos mecanismos gerais
envolvidos na determinação de um estado patológico, portanto, de doença, não
se preocupando com as características peculiares de cada entidade em
particular. O objetivo é transmitir a filosofia do processo patológico,
descrevendo as características que definem o mecanismo de transição de um
estado de saúde para um estado de doença e PATOLOGIA ESPECIAL que
estuda as patologias nos diferentes aparelhos e sistemas orgânicos.
Com esse intuito, o programa de Patologia Geral engloba os tópicos de
Degeneração, Infiltração, Alterações circulatórias, Pigmentação patológica,
Necrose, Inflamação e processos reparativos, Processos proliferativos e
neoplásicos (distúrbios de crescimento e desenvolvimento).
Previamente a qualquer explanação sobre períodos ou personalidades saúde e
doença são aqui empregados para designar estados funcionais, cuja
especulação está diretamente ligada ao estudo dos elementos primários
constituintes dos seres vivos. Isso quer dizer que narrar sobre Patologia e sua
história implica ao menos se considerar a origem desses indivíduos, ainda que
sob a forma de informação simplesmente ilustrativa.
É claro que abordar sobre a geração, o desenvolvimento e o crescimento dos
seres vivos é uma tarefa complexa; relacionar o surgimento da vida com a
própria origem do Universo é duplamente difícil. Indiscutivelmente esse assunto
recai em dúvidas e colocações que ainda se encontram em níveis de
suposições, o que leva a se considerar algumas teorias vigentes. Dever-se-ia
reservar um capítulo a parte para esse tipo de discussão, talvez sob forma de
texto introdutório em explanações sobre a evolução natural, seja ela científica
ou religiosa, a semelhança do que se observa em obras que citam a teoria do
Big Bang ou mesmo nos livros da Sagrada Escritura.
A idéia desta explanação, porém, é tentar relacionar o processo de formação
dos seres vivos com as diferentes fases de evolução do pensamento filosófico
sobre Patologia, culminando com a conceituação atual, sem contudo manter o
caráter de retrocesso temporal, inerente a qualquer narração histórica, mas
sim, acentuar a sutileza da contemporaneidade que existe em cada uma das
fases. Em suma, a tentativa aqui apresentada é resgatar os conceitos
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antigamente difundidos e reuni-los em um esquema comum de aprendizado


dos fenômenos patológicos.
Baseando-se nessa linha de abordagem, o mesmo se faria com as diferentes
fases de aprendizado do aluno, intituladas por nós como sendo, agora, a sua
história. Isso se traduziria, em termos práticos, no retorno do aluno às matérias
básicas, como Histologia, Fisiologia, Anatomia e outras. Assim, explicar a
origem dos indivíduos por intermédio da abordagem dos seus elementos
químicos constituintes representaria, nesse momento, reintroduzir ao estudante
o raciocínio sobre Biologia, Bioquímica, Histologia; a Microbiologia seria
avivada quando na abordagem da descoberta da célula e da formação dos
primeiros seres unicelulares, que por sua vez envolveria tópicos de Fisiologia, e
assim por diante.
É por intermédio dessa interrupção das diretrizes temporais que acreditamos
conseguir transmitir o conceito sobre a origem da doença como um
desequilíbrio da contínua transformação do ser.
De acordo com a teoria celular, a célula é formada por uma membrana, um
citoplasma e um núcleo, que originam uma estrutura viva capaz de controlar
seus níveis energéticos, mantendo-os em equilíbrio com o meio extracelular.
As membranas são formadas pela combinação de moléculas básicas do tipo
lipoproteínas e fosfolipídeos; a polimerização dos nucleotídios origina o núcleo,
mais precisamente o DNA e o RNA, responsáveis pelo controle das reações
moleculares internas à membrana ou nela realizadas. O DNA e o RNA formam
o código genético e são as estruturas informacionais e controladoras da
manutenção dos níveis energéticos internos, traduzida principalmente pela
biossíntese de proteínas. O citoplasma, por fim, é composto
predominantemente por proteínas imersas em um meio aquoso, originando
uma espécie de "gel" no qual se processam inúmeras reações químicas e o
transporte de moléculas. No citoplasma estão imersas as organelas,
compartimentos delimitados por membranas mais simples, com funções
específicas de respiração, síntese energética e transporte.
Cada uma das partes da célula - organelas, núcleo, membrana e citoplasma - é
constituída pelas macromoléculas já descritas. Imaginando a combinação
desses elementos em unidades cada vez mais crescentes em complexidade,
pode-se "viajar" da estrutura simples de uma bactéria (membrana e DNA) ou
de um vírus (cápsula protéica e DNA) até às diferentes células dos vários
sistemas estruturais do ser humano.
Cada célula tem a propriedade de adquirir características e funções peculiares.
A união de células com características comuns é denominada de tecido. O
tecido, pois, é composto predominantemente por células e pela substância
intercelular. Formada pelas mesmas moléculas primárias que compõem a
célula, a substância intercelular é responsável pela arquitetura básica na qual a
célula se apóia. É na substância intercelular que se processam as
comunicações célula a célula, aspecto biológico muito estudado atualmente na
Patologia Moderna.
Conhecida a célula e o ambiente na qual ela realiza suas funções, podemos
nesse momento dissertar sobre como, durante a História, os estudiosos de
Patologia abordavam esse assunto, considerado atualmente como
extremamente multidisciplinar.
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HISTÓRIA DA PATOLOGIA EM FASES

Didaticamente, a Patologia tem sua história dividida em fases. Estas nada mais
são do que a descrição dos conceitos utilizados para explicar a origem dos
estados de doença vigentes em um determinado intervalo de tempo e segundo
a corrente filosófica predominante.
 Fase Pré-Humoral (Não Anatômico) [Idade Antiga até 400 AC]
O mecanismo da origem das doenças era explicado, nessa fase, pelo
desequilíbrio de humores. Os humores eram considerados os líquidos do
corpo, em particular, a água, o sangue e a linfa. Os deuses tinham o poder de
controlar esse desequilíbrio, bem como de restituir a normalidade do
organismo. Essa visão mítica de doença foi criada principalmente pela
civilização antiga grega. As moléstias eram consideradas como conseqüentes
do desagrado dos deuses ou pela fúria dos espíritos maléficos. Nesta época a
medicina era empírica, confundia-se com a religião, a feitiçaria, magia e a
superstição, sendo exercida principalmente pelos sacerdotes e pelos feiticeiros.
Este conceito teista ainda perdura entre os povos primitivos atuais. Para se
protegerem dos espíritos maléficos utilizavam-se de amuletos. No código de
Hamurabi (2000 AC) trata-se dos honorários médicos e inclusive a sua
responsabilidade. Para os gregos, o deus da medicina era Asclépio (Esculápio
para os romanos), filho de Apolo representado pela imagem de um homem de
barba, segurando um bordão erroscado por uma serpente.
 Fase Humoral (Não Anatômico) [Hipócrates - 400 AC]
Esta fase caracteriza-se pela compreensão das moléstias como alterações que
provocam os humores. Os sintomas são relacionados com as lesões.
Hipócrates, filho de um médico nascido na ilha de Cós em 460 AC transformou
a medicina em uma ciência e arte. Hipócrates de Cós é considerado o pai da
medicina tendo em vista suas contribuições principalmente pelo juramento
médico. A medicina hipocrática era baseada nos humores: sangue
(sanguíneo), bile amarela (bilioso), bile negra (melancólico) e fleugma
(fleugmático). Saúde ocorria quando os quatro humores estavam em equilíbrio
(eucrasia) Doença era a discrasia. Em Roma, Cornélius Celsus estabeleceu as
bases da inflamação. Na Europa Medieval com o advento das cruzadas a
medicina retorna ao ocidente, tornando-se os monges, médicos que
dedicaram-se a copiar e fazer traduções de manuscritos antigos.
 Período Anatômico
• Fase Orgânica (séc. XV - XVI)
Nessa época, há o predomínio da observação dos orgãos do corpo, feita
principalmente às custas das atividades de necrópsia ou de autópsia (estudo
do cadáver). Jean Fernel rompeu com os conceitos antigos e passou a
classificar as moléstias em gerais (aquelas de localização inderminada – febre)
e especiais (com localização definida). No renascimento Leonardo da Vinci
deixou inúmeros desenhos de anatomia. Andréas Vesalius de Bruxelas
publicou “De Humanis Corporis Fabrica” demonstra a verdadeira anatomia
humana relacionando a forma com a função. No século XVII, Willian Harvey e
Malpighi desvendam a circulação sanguínea. Morgagni em 1761 escreveu a
origem e a causa das doenças, gerando os principais fundamentos da
patologia.
• Fase Tecidual (séc. XVI-XVIII)
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A Fase Tecidual enfatiza a estrutura e a organização dos tecidos. É nesse


período que se iniciam os primeiros estudos sobre as alterações morfológicas
teciduais e suas relações com os desequilíbrios funcionais. É com o advento
do microscópio melhorado por Robert Hooke que descreve as celas existentes
na cortiça que depois deram o nome à célula. Marcelo Malpighi funda a
anatomia macroscópica com as observações das estruturas macroscópicas.
• A Fase Celular (séc.XIX)
Com o predomínio da visão morfológica, somada à aplicação do microscópio
óptico às pesquisas médicas, segue-se a Fase Celular, período considerado
"inicial à Patologia Moderna". A preocupação com o estudo da célula,
principalmente de suas alterações morfológicas e funcionais, é determinante na
busca da origem de todo processo mórbido. Após a proclamação da teoria
celular por Scheiden & Schwann, Virchow lançou as bases da Patologia
Celular. Nesta fase as doenças são decorrentes de alterações celulares e
desta forma podem ser explicadas.
• A Fase Ultracelular (séc. XX)
A Fase Ultracelular é a fase atual do pensamento conceitual sobre Patologia,
envolvendo conceitos sobre biologia molecular e sobre as organelas celulares.
Os avanços bioquímicos e a microscopia eletrônica facilitam o desenvolvimento
dessa linha de estudo. Com o advento da microscopia eletrônica pode-se ver
que a estrutura celular era muito mais complexa do que se pensava.
Sendo a preocupação dos estudos em Patologia centrada em explicações
moleculares, retornamos ao início da História da Patologia, em que se
dissertou sobre a gênese celular por intermédio de teorias sobre as principais
"moléculas da vida".

HISTOTÉCNICA

Os métodos para obtenção de preparados histológicos para estudo a través do


microscópio ótico é conhecida como Histotécnica. A técnica histológica
engloba uma série de procedimentos que veremos a seguir:
Primeiro há necessidade de obter-se a amostra de tecido que pode ser de duas
formas:
- Necropsia: obtenção de tecido de indivíduo morto.
- Biópsia: (do grego: bios=vida, psia=ver). Significa exame ou obtenção de
tecido através de punção, incisão, excisão, “punch”, pinça sacabocado,
raspado, trepanação, etc.
Uma vez retirado o tecido, este é enviado ao laboratório para processamento.

a) FIXAÇÂO: dura cerca de 12 horas dependendo do tamanho do material


e do fixador. Normalmente utiliza-se de solução de formol a 10% ou
formoldeído a 5%. Objetiva fixar as proteínas através de enlaces,
mantendo a estrutura celular e inativa enzimas com a finalidade de
evitar a autólise.
b) DESIDRATAÇÃO: dura cerca de 6 a 12 horas. É utilizado álcool etílico
em concentrações crescentes (50%, 60%, 70%, 80%, 90%, 96%)
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terminando com álcool absoluto. O fixador é eliminado bem como a


água no histo-processador, substituindo-os por álcool.
c) CLAREAMENTO ou DIAFANIZAÇÃO: dura de 1 a 6 horas, a
diafanização é a substituição do álcool por benzina ou xilol, que serão
solventes da parafina. Lembre-se que o álcool e o xilol dissolvem
também os ácidos graxos e as gorduras que serão nesta fase removidos
das células.
d) INCLUSÃO EM PARAFINA: dura de 30 minutos a 6 horas, a peça é
colocada em parafina fundida em estufa a 60ºC, e o xilol é substituído
por parafina.
e) CONFECÇÃO DO BLOCO: uma vez substituído o xilol por parafina,
deixa-se descançar para a secagem do bloco.
f) MICROTOMIA: é o corte do material no micrótomo elétrico ou manual,
com o fim de obter cortes finos do bloco de parafina. Na microscopia
ótica de luz utiliza-se cortes com a espessura de 3 a 10 um. Para se
estudar lipídios ou quando se busca um exame antecipado, pode-se
fazer a biópsia de congelação já que o material congelado pode ser
cortado pois encontra-se endurecido.
g) COLORAÇÃO: o tecido preparado é transparente. Para que se possa
vizualizar as estruturas celulares há a necessidade de coloração do
material. Os principais corantes utilizados são a hematoxilina e a eosina.
h) MONTAGEM DA LÂMINA: após a coloração é colocado bálsamo do
Canadá e a lamínula sobre a região que manterá esta lâmina. O
bálsamo do Canadá evita a oxidação do material.

FUNDAMENTOS QUIMICOS DA COLORAÇÃO

Os corantes dividem-se em três classes:

• Corantes que diferenciam os componentes ácidos e básicos.


• Corantes especializados que distiguem os componentes fibrosos.
• Sais metálicos que precipoitam nos tecidos e formam depósitos
metálicos.

A eosina é um corante (róseo), acido, que se liga às partes básicas das celulas
– citoplasma – (acidófilas). A hematoxilina (azulada), é um corante básico que
se liga às partes acidas da célula – núcleo – (basófilo).

COLORAÇÕES ACIDAS COLORAÇÕES BÁSICAS


Fucsína ácida (roxo) Verde de Metileno (verde)
Azul de anilina (azul) Azul de Metileno (azul)
Eosina (roxo) Pironina (roxo)
Laranja G (laranja) Azul de toluídina (azul)

Metacromasia: é o fenômeno em que o corante sofre variação de cores de


acordo com o componente tecidual. (ex.: azul de toluidina).
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Tricrômio de Mallory: é um corante especial que utiliza-se da mistura de


vários corantes, e deste modo cora os tecidos conforme a afinidade existente
pela estrutura.

CORANTES E REAÇÕES HISTOLÓGICAS COMUNS


REATIVO RESULTADO
HEMATOXILINA Azul => Núcleo e regiões acidas do
citoplasma
EOSINA Rosa => Regiões básicas do
citoplasma
TRICROMIO DE MASSON Azul escuro => Núcleo. Roxo =>
músculo. Azul claro => colágeno.
CORANTE DE ORCEÍNA Pardo => Fibras elásticas.
CORANTE DE WEIGERT Azul => Fibras elésticas.
TINTURAS ARGÊNTICAS Negro => Fibras reticulares.
HEMATOXILINA FÉRRICA Negro => músculos estriados.
ÁCIDO PERIÓDICO DE SCHIFF Magenta => moléculas de lipídios.
CORANTES DE WRIGTH E GIEMSA Rosa => hemácias.
Púrpura => núcleos dos leucócitos.
Azul => Citoplasma dos monócitos.

Houve, no decorrer dos diferentes períodos citados, um direcionamento das


observações humanas para um mundo cada vez mais microscópico,
culminando com a fase atual. O pensamento filosófico sobre Patologia engloba,
pois, escalas dimensionais extremamente variáveis, desde o átomo até o
homem como um todo, podendo-se estender essa escala até mesmo para
sociedade. Pretende-se, assim, no decorrer desta apostila, apontar, sempre
que pertinente, os diferentes conceitos envolvidos em algumas dimensões
determinadas, o que se traduz pela abordagem das diferentes ciências
relacionadas em cada fase histórica.

CÉLULA NORMAL

As numerosas investigações iniciadas no princípio do século XIX por Mirbel,


1802, seguidas entre outros por Lamark, 1809, Dutrochet, 1824, - e finalmente
por Schleiden, 1838, e Schwann, 1839, levaram ao postulado da "teoria
celular", a qual estabelece que todos os seres vivos, animais ou plantas são
compostos de células e seus produtos. Tal teoria causou grande efeito em
todos os campos da investigação biológica, tendo em seguida se estabelecido
que toda célula é formada pela divisão de outra célula. Mais tarde, com o
desenvolvimento da bioquímica, foi possível mostrar que existem semelhanças
fundamentais na composição química e atividades metabólicas de todas as
células. Reconheceu-se facilmente que a função de um organismo como um
todo é o resultado do somatório das atividades e interação das unidades
celulares. A teoria celular foi logo aplicada à patologia por Virchow.
O contínuo aprimoramento do material óptico e outros equipamentos de
laboratório permitiu o desenvolvimento de técnicas cada vez melhores para se
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conhecer e entender a morfologia e o funcionamento da célula. O século pas-


sado foi importante por ser o período das descobertas de estruturas celulares
fundamentais como o núcleo (Brown, 1831), os cromossomas (Waldeyer,
1888), as mitocôndrias (Altmann, 1894, Benda 1897), o aparelho de Golgi
(Golgi, 1898), etc., assim como pela descrição dos fenômenos da mitose,
fertilização e segmentação celular.
No início deste século, as atenções foram voltadas para a célula viva,
culminando com o desenvolvimento da técnica de cultura de tecido. A
microcirurgia (micromanipulação) foi outra técnica que permitiu não apenas o
isolamento de uma única célula em cultura, como possibilitou operações
intracelulares chegando-se a uma infinidade de dados sobre a fisiologia celular.
A convergência da citologia com a bioquímica levou ao desenvolvimento da
citoquímica, que permite a localização de diferentes compostos celulares in
loco.
A partir de meados deste século, outro grande avanço foi o uso do microscópio
eletrônico, o qual continua a ser utilizado atualmente, inclusive combinado com
citoquímica. O conhecimento da organização da célula é de importância
fundamental porque praticamente todas as transformações físico-químicas
acontecem no nível da arquitetura da célula. A descoberta de que, na molécula
de proteína, a seqüência exata dos aminoácidos e o arranjo tridimensional da
cadeia polipeptídica têm relação direta com um segmento do DNA da célula
que a sintetizou é um exemplo do avanço dos conhecimentos em nível celular
e que levaram ao aparecimento da biologia molecular. Esta proporciona
informações a vários campos, entre eles à Patologia, através da descrição das
doenças moleculares.
Concluindo, podemos dizer que, sem perder a visão da célula como a unidade
morfológica e funcional dentro do organismo, devemos estar preparados para
estudar fenômenos biológicos em todos os níveis e usar todos os métodos, téc-
nicas e conceitos de outras ciências.
MORFOLOGIA E METABOLISMO CELULAR
O exame de uma célula viva é baseado principalmente nas diferenças dos
índices de refração dos diferentes componentes celulares. Às vezes, o uso de
corantes vitais facilita essa visualização. Entretanto, as mais importantes
observações morfológicas são feitas em células fixadas e coradas com os
diversos fixadores e corantes. A célula eucarionte é caracterizada pela
presença de uma membrana que segrega o material genético, dividindo-a em
dois componentes principais: o núcleo e o citoplasma. Este último é limitado
pela membrana plasmática, que possui muitas diferenciações. O citoplasma é
subdividido em compartimentos e subcompartimentos por numerosas
membranas intracelulares formando o chamado sistema vacuolar, cujas
principais porções são o retículo endoplasmático (rugoso e liso), o envoltório
nuclear (carioteca), e o complexo de Golgi; aparecem ainda, como organelas
separadas por membranas, as vesículas de secreção, os lisossomas, as
mitocôndrias, etc. O citoplasma fundamental ou matriz permanece fora desse
sistema e contém ribossomas livres, microtúbulos, microfilamentos, proteínas
solúveis, etc.
A MEMBRANA PLASMÁTICA
As características individuais de cada célula são mantidas por uma membrana -
a membrana plasmática, que, além de definir o tamanho da célula, mantém as
diferenças existentes entre seu interior e o meio externo. Assim, ela se com-
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porta como um filtro altamente seletivo, controlando a entrada e saída de


substâncias. Ela também atua como receptora de estímulos externos,
permitindo que a célula responda aos mesmos.
A membrana plasmática e todas as demais membranas celulares apresentam
estrutura geral comum: são formadas pelo arranjo de moléculas de lipídeos e
proteínas mantidas juntas por ligações não-covalentes. Vejamos primeiro as
características dessas moléculas e em seguida como elas se arranjam para
formar a estrutura de membrana.
Lipídeos: são moléculas anfipáticas, isto é, têm uma extremidade hidrofílica e
outra hidrofóbica; são insolúveis em água, mas solúveis em solventes
orgânicos. Os lipídeos das membranas são chamados também de lipídeos
compostos porque após hidrólise liberam outros compostos além do glicerol e
dos ácidos graxos. Estes últimos têm longas cadeias de hidrocarboneto; elas
podem ser saturadas (ligações simples entre os carbonos) ou insaturadas (com
ligações duplas) e representam a cauda hidrofóbica da molécula. São os
seguintes os principais lipídeos das membranas:
a. Fosfoglícerídeos (glicerolfosfatídeos ou fosfolipídeos): esses lipídeos
possuem apenas dois ácidos graxos ligados por ligação éster a uma molécula
de glicerol. O terceiro grupo hidroxila do glicerol é esterificado a ácido fosfórico.
Tal molécula constitui o mais simples dos fosfoglicerídeos e é denominado
ácido fosfatídico. Entretanto, ao ácido fosfórico freqüentemente se liga um
álcool que pode ser a colina, etanolamina, inositol, serina, etc., constituindo
esse conjunto a "cabeça" hidrofílica da molécula. Dependendo, portanto, do
radical ligado ao fosfato, o fosfoglicerídeo será denominado, por exemplo:
fosfatidilcolina (lecitina), fosfatidiletanolamina (cefalina), fosfatidilinositol,
fosfatidilserina, etc. Em geral, uma das moléculas de ácido graxo é insaturada
e a outra é saturada; cada dupla ligação provoca um pequeno dobramento na
cauda hidrofóbica.
b. Glicolipídeos e esfíngolipídeos: nesses lipídeos o glicerol é substituído por
um aminoálcool de cadeia longa, a esfingosina, que se liga, através do seu
grupo amina, a um longo ácido graxo, saturado ou monoinsaturado, formando
um ceramídeo (cauda apoIar). Ao grupo hidroxila deste, pode juntar-se
fosforiletanolamina ou fosforilcolina, formando a "cabeça" polar da molécula.
Tais lipídeos são as esfingomielinas. Se a cabeça polar for constituída de uma
ou mais moléculas de açúcar, a molécula será um glicoesfingolipídeo; este é,
portanto, caracterizado pelos tipos e quantidades de moléculas de açúcar.
Pode ser um glicolipídeo neutro se seu grupo polar for constituído de um ou
mais açúcares neutros (sem carga); um exemplo é o galactocerebrosídeo – o
mais simples deles com apenas uma galactose como grupo polar. Quando o
grupo polar de açúcar apresenta uma carga negativa, o glicolipídeo é ácido;
exemplo deles são os gangliosídeos que contêm um ou mais resíduos de ácido
siálico.
c. Colesterol: possui uma porção rígida formada pelo núcleo
peridrociclopentanofenantreno, cujo carbono 17 possui uma cadeia alifática
ramificada de oito átomos de carbono; ambos formam a porção hidrofóbica da
molécula, sendo a porção hidrofílica constituída por uma hidroxila presa ao
carbono 3.

Desde 1926 existe a afirmativa de que a camada de lipídeo da membrana é


dupla. Em meio aquoso, os lipídeos espontaneamente formam bicamadas
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expondo seus pólos hidrófilos para o meio aquoso e as caudas hidrofóbicas


voltadas para o interior. Na membrana, eles se arranjam de maneira contínua,
constituindo sua estrutura básica com cerca de 5mm de espessura. As
diferenças no comprimento e saturação dessas caudas influenciam a
capacidade dessas moléculas de se ajustarem umas com as outras, afetando
assim a fluidez da membrana.
A bicamada lipídica é assimétrica, isto é, a distribuição de suas diferentes
moléculas se faz de maneira não uniforme nas duas camadas. Assim, os
glicolipídeos são encontrados apenas na camada externa, expondo seus
grupos de açúcar na superfície celular. A maioria dessas moléculas são
receptoras de moléculas sinalizadoras para o funcionamento normal das
células, enquanto outras recebem sinais, por exemplo, de toxinas externas. A
análise dos lipídeos da .membrana de eritrócitos humanos mostra que,
enquanto as esfingomielinas e lecitinas predominam na camada ou face
externa, as cefalinas e fosfatidilserinas predominam na face citoplasmática.
d. Proteínas: Embora a estrutura básica da membrana plasmática seja dada
pela bicamada lipídica, as proteínas representam seu principal componente
apresentando várias funções: algumas servem para transportar moléculas
específicas para dentro ou para fora da célula; outras são enzimas
catalisadoras de reações que acontecem no nível da membrana; podem ser
receptoras e transdutoras de sinais químicos do meio; outras têm papel
estrutural, seja para ligar a membrana ao citoesqueleto ou às células
adjacentes.
As proteínas periféricas ligam-se indiretamente à membrana interagindo com
as proteínas integrais ou diretamente por interação com a "cabeça" polar dos
lipídeos. Elas podem estar tanto na face citoplasmática (exemplo: espectrina,
actina) como na face externa (proteínas do glicocálix). Verifica-se que também
as proteínas são distribuídas as simetricamente na membrana plasmática. A
proporção de proteínas e lipídeos na membrana plasmática é, em geral, de
60% e 40%, respectivamente, havendo menores ou maiores variações
conforme o tipo celular; por exemplo, na membrana de mielina, que tem a
função primordial de isolar os axônios das células nervosas, a proteína
representa de 20% a 23%.
A membrana plasmática dos eritrócitos é a melhor caracterizada entre as
membranas das células dos mamíferos, embora por suas peculiaridades
conhecidas não seja a melhor representante desse organismo. Suas proteínas
estão mais ou menos uniformemente distribuídas, sem formar grandes zonas
de especialização. O citoesqueleto dessas células forma uma rede fibrilar
contínua logo abaixo da face citoplasmática da membrana, ligando-se a ela
através de vários pontos; essa estrutura confere à membrana sua grande
resistência e flexibilidade. Diferentemente, a maioria das células de mamíferos
tem um citoesqueleto que cruza o citoplasma e se ancora à membrana em
alguns pontos apenas.
Por outro lado, enquanto os eritrócitos são células livres que flutuam em um
líquido, a maioria das células dos mamíferos se organiza para formar tecidos
sólidos. Para desempenhar suas funções, as células agregadas, seja em
epitélios simples, seja em outro tipo de arranjo, devem apresentar as
membranas plasmáticas organizadas em pelo menos duas regiões distintas,
cada uma especializada em tarefas muito diferentes. Tais células são ditas
"polarizadas". Exemplos clássicos são as células acinosas do pâncreas e a
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maioria das células epiteliais que revestem interna e externamente o corpo. As


células acinosas do pâncreas sintetizam enzimas (amilases, proteases,
ribonucleases, etc.) que degradam macromoléculas dos alimentos contidos no
intestino.
Tais enzimas ficam estocadas como precursores inativos em vesículas
limitadas por membrana, sob a membrana plasmática apical que limita o lúmen
do ácino. As vesículas secretaras fundem-se única e exclusivamente com essa
porção da membrana plasmática, assegurando, assim, a liberação das enzimas
digestivas para a luz do ácino que se continua por outros duetos até o dueto
maior, que desemboca no duodeno.
O resto da superfície celular é chamada de membrana basolateral e inclui as
faces laterais e basal da célula. Nutrientes vindos pelo sangue chegam às
células por essa porção de membrana. Elas também possuem receptores dos
hormônios que disparam a secreção das enzimas digestivas; hormônios esses
que são liberados no sangue pelo estômago e intestino, na presença de ali-
mentos.
Além do mais, para manterem-se unidas, absorver substâncias, transportar
fluidos, secretar e desempenhar outros processos fisiológicos, as células
apresentam modificações em suas membranas.
ESPECIALIZAÇÓES DA MEMBRANA APICAL
1. Microvilosidades - especialmente desenvolvidas nas células epiteliais que
revestem o intestino e nas que revestem os túbulos renais. São o resultado de
prolongamentos citoplasmáticos muito delgados, homogêneos, recobertos pela
membrana plasmática, representando um aumento efetivo da superfície de
absorção celular. Em células epiteliais intestinais, no centro dessas
microvilosidades existem feixes de microfilamentos de actina que se ancoram
às proteínas da face citoplasmática da membrana microvilar e se intersectam
com uma rede de filamentos existente no citoplasma logo abaixo das
microvilosidades. Esses microfilamentos dão rigidez às microvilosidades e
permitem seu movimento para frente e para trás. Outras células como as
hepáticas, epiteliais da bexiga, do útero, etc. possuem também essas modifica-
ções, embora em menor número.
2. Estereocilios - assemelham-se às microvilosidades, sendo apenas mais
longos, tortuosos e ramificados. Não possuem características morfológicas ou
fisiológicas para serem comparados aos cílios. São encontrados em algumas
células epiteliais que revestem os ductos do aparelho genital masculino.
ESPECIALIZAÇÕES NAS SUPERFÍCIES LATERAIS DAS CÉLULAS
EPITELIAIS
1. Interdigitações - formadas por saliências e reentrâncias nas faces laterais
entre células vizinhas, permitindo o seu encaixe e constituindo uma maneira de
aumentar a adesão entre as células; essas continuam separadas por um es-
paço de cerca de 20mm e revestidas pelo cimento composto pelo glicocálix.
2. Zônula de oclusão (também chamada de "zônula occludens" ou tight
junction) - aparece logo abaixo dos ápices das células, principalmente daquelas
que formam epitélios de absorção seletiva, como por exemplo as intestinais. É
sabido que tais células epiteliais absorvem seletivamente, através de proteínas
carreadoras confinadas em suas superfícies apicais, os nutrientes que se
encontram na luz do órgão; uma vez nos citoplasmas, esses nutrientes
passam, por difusão facilitada, através das superfícies basolaterais, para o
fluido extracelular que permeia o tecido conjuntivo subjacente, e deste para os
11

vasos sanguíneos.
Esse mesmo epitélio deve impedir que moléculas absorvidas tão seletivamente
voltem para a luz intestinal pelos espaços intercelulares. A zônula de oclusão
tem aí, portanto, duas funções bem distintas: primeiro, impede que as proteínas
da superfície apical das células migrem para as superfícies basolaterais, o que
permite a manutenção das funções específicas de cada domínio. Segundo,
impede que pelo espaço intercelular, moléculas que já foram absorvidas
seletivamente voltem para a luz ou mesmo que moléculas solúveis em água
passem, sem seleção, da luz para o tecido conjuntivo subjacente.
Embora não esteja completamente clara a estrutura molecular dessa zônula de
oclusão, imagens de criofratura ao microscópio eletrônico mostram uma rede
de fitas que se "anastomosam" e que circundam completamente a superfície
apical de cada célula da bainha epitelial. Cortes ao microscópio eletrônico de
transmissão mostram uma série de conexões pontuais entre as hemicamadas
externas das membranas plasmáticas de duas células vizinhas. Pensa-se que
as fitas são compostas de proteínas transmembranas específicas em cada uma
das membranas que se avizinham, as quais se unem diretamente uma com
outra a fim de tornar ocluso o espaço intercelular. Embora todas as zônulas de
oclusão sejam impermeáveis a macromoléculas, elas possuem permeabilidade
variável a pequenas moléculas. Elas são, por exemplo, 10.000 vezes mais
permeáveis aos íons no epitélio do intestino delgado que naquele que reveste a
bexiga urinária. A capacidade de impedir a passagem de íons entre os espaços
intercelulares aumenta em função logarítmica com o aumento do número de
fitas na rede, já que cada fita atua com uma barreira independente. O Ca2+
extracelular é importante na manutenção da integridade dessa estrutura. Elas
já aparecem nos embriões na fase de duas células, o que demonstra serem
essenciais para o desenvolvimento.
3. Desmossomas (chamados também de macula adherens ou desmossoma
em botão) são pontos de contato intercelular que prendem as células de vários
tecidos, principalmente aqueles que estão sujeitos a fortes estresses mecâ-
nicos, como o músculo cardíaco, epitélio da pele, do colo do útero. Sua
estrutura é melhor observada ao microscópio eletrônico e seus constituintes
foram recentemente purificados e muitas de suas proteínas principais já estão
identificadas. Na região do desmossoma as membranas de cada célula vizinha
aparecem paralelas e separadas por um espaço de 30mm a 50mm. No lado
citoplasmático de cada célula adjacente existe uma placa elétron-densa
constituída de material protéico, cuja proteína principal é chamada de
desmoplaquina. Essas placas são conectadas aos respectivos citoplasmas, por
filamentos intermediários que formam uma verdadeira rede, ligando-se a vários
desmossomas. O tipo de filamento intermediário aí presente depende do tipo
celular: nas células epiteliais são de queratina, nas células musculares
cardíacas são filamentos de desmina, em muitas células de origem
mesenquimal são filamentos de vimentina. Nessa região ainda, oligoproteínas
transmembrânicas especiais, chamadas glicoproteínas de ligação, se prendem
à placa de desmoplaquina por um lado e reagem entre si através de seus
domínios extracelulares, mantendo assim juntas as membranas plasmáticas
adjacentes. Essas glicoproteínas de ligação pertencem à família das caderinas
e são as desmogleínas e desmocolinas.
A importância do papel dos desmossomas é verificada em uma forma de
doença de pele, o pênfigo, na qual o indivíduo produz anticorpos contra essas
12

glicoproteínas de ligação acarretando o rompimento dos desmossomas entre


as células epiteliais, causando o aparecimento de bolhas na pele como
resultado do vazamento de líquido tissular para o epitélio afrouxado. Vale notar
que esses anticorpos rompem somente desmossomas na pele, o que indica
que os de outros tecidos devem ser bioquimicamente diferentes.
As células da superfície basal dos epitélios se prendem fortemente à lâmina
basal, através dos hemidesmossomas. Morfologicamente, eles se parecem
com os desmossomas, mas são química e funcionalmente diferentes.
Enquanto nos desmossomas os filamentos intermediários fazem ligamentos
laterais com as placas protéicas, nos hemidesmossomas eles penetram suas
extremidades nas mesmas. As glicoproteínas transmembrânicas de ligação
pertencem à família das integrinas e se prendem por um lado à placa protéica
e, por outro, às lamininas - proteínas de matriz extracelular.
4. Zônula de adesão (também desmossoma em cinto ou zônula adherens) -
encontrada logo abaixo da zônula de oclusão em bainhas epiteliais, rodeando
toda superfície das células adjacentes. Nessa zônula não aparece placa de
adesão; dentro de cada célula corre um feixe de filamentos contráteis (actina e
miosina) paralelo à membrana plasmática e à qual se prendem através de um
complexo de proteínas intracelulares, entre elas, as vinculinas, que se ligam às
proteínas transmembrânicas de ligação; estas são da família das caderinas,
dependentes de Ca2+. Os feixes de actina, portanto, acabam formando uma
rede transcelular, que se acredita ter um papel fundamental na morfogênese
animal por exemplo, as dobras das bainhas epiteliais para formar tubos e
outras estruturas correIa tas durante o desenvolvimento.
5. Junções comunicantes (também nexos ou gap junction) - encontradas com
freqüência em células epiteliais de revestimento, glandulares, musculares lisas,
cardíacas e nervosas. Quando aceitamos o conceito de que a célula é a unida-
de básica de todo ser vivo, não podemos esquecer que os organismos
pluricelulares são feitos de populações de células que interagem entre si. Tal
interação é essencial para a coordenação das atividades celulares, tais como a
propagação de sinais para o crescimento e diferenciação, coisas
indispensáveis para o desenvolvimento do organismo. Essa interação é em
grande parte feita pelas junções comunicantes.
Ao microscópio eletrônico, dependendo do corte, a região dos nexos se
assemelha às uniões estreitas. As técnicas da criofratura ajudaram a entender
sua estrutura. Em seu nível, as membranas são separadas por 2mm apenas e
apresentam conjuntos de tubos protéicos paralelos que atravessam ambas as
membranas de duas células vizinhas; esses tubos apresentam poros ou canais
da ordem de lmm, o que permite a passagem de moléculas de mais de mil
daltons. Eles são formados pelo arranjo de seis moléculas de proteínas
transmembrânicas de cada célula justaposta, chamadas conexinas.
A permeabilidade desses canais é regulada pela Ca2+; normalmente o nível de
cálcio no interior da célula é baixo e a permeabilidade desses canais é alta; se
a concentração intracelular de cálcio aumenta, os nexos se fecham. O controle
interno do nível de cálcio é feito pelas mitocôndrias, que seqüestram o cálcio
em excesso. Em qualquer tecido lesado aumenta o cálcio intracelular e os
nexos das células vizinhas se fecham para não perder seus nutrientes; em se-
guida entram em mitose até restabelecer o tecido. Além de íons, foi verificado
que o AMP cíclico, conhecido como o segundo mensageiro celular, açúcares,
vitaminas e outros metabólitos, também passam pelos nexos. Portanto, essa
13

conexão entre as células não é apenas elétrica, mas também metabólica.


Outro achado importante foi o de que certas células cancerosas não mostram
essa conexão intercelular e, portanto, são incapazes de se comunicar com as
células normais; pensa-se que essas células têm um defeito genético que inter-
rompe a passagem entre elas, de moléculas que controlam o crescimento. A
produção de heterocárions pela fusão de células tumorais com normais tem
mostrado que nesses heterocárions se estabelecem as conexões ausentes nas
primeiras. Esses e outros experimentos sugerem que conexão e desconexão
poderiam ser determinados geneticamente. É também apontado o possível
papel regulador no crescimento e diferenciação celular de pequenas moléculas,
provavelmente nucleotídeos que passariam pelos nexos. Esses agentes não
podem ser transferidos para as células cancerosas que perdem tal
comunicação intercelular. Isso mostra que em muitas células, como na
sociedade, a troca de informações é essencial para manter a saúde normal.
6. Cobertura celular - Recebe o nome de glicocálix a cobertura de
oligossacarídeos que constitui as cadeias laterais dos glicolipídeos e
glicoproteínas da face externa da membrana plasmática e de glicoproteínas
adsorvidas. Em geral, aparece como uma camada de 10mm a 20mm de
espessura, em contato direto com a superfície externa da membrana
plasmática.
A espessura, resistência e durabilidade da cobertura varia de célula para
célula. Por exemplo, a do epitélio intestinal resiste a vigorosos ataques
mecânicos e químicos, enquanto em outras células é lábil, desaparecendo
após lavagem ou exposição a enzimas. Como as glicoproteínas da membrana
que fazem parte do glicocálix são sintetizadas no nível do retículo rugoso,
passando pelo Golgi para completar a parte glicídica, o glicocálix pode ser
considerado como o produto da secreção da célula que é incorporado à super-
fície celular e sofre contínua renovação.
O CITOPLASMA
Vista ao microscópio óptico, a região do citoplasma apresenta-se
uniformemente corada, em geral por corantes ácidos; em algumas células,
entretanto, dependendo da quantidade de substâncias basófilas, o aspecto
será diferente. Ao microscópio eletrônico observa-se um mundo de estruturas
filamentares, corpusculares, vacuolares que se entremeiam e que
desempenham as mais diversas funções. Comecemos analisando o sistema de
membranas do citoplasma. Esse é também chamado de Sistema Vacuolar e
compreende o envelope nuclear, o retículo endoplasmático rugoso (RER) , o
retículo endoplasmático liso (REL) e o aparelho de Golgi.
As membranas desse Sistema, embora tenham a mesma estrutura e
composição química básica da membrana plasmática, apresentam variações
na qualidade e quantidade de suas moléculas, dependendo da função que a
organela desempenha.
ENVELOPE NUCLEAR (CARIOTECA)
É composto de duas membranas: a interna contém proteínas específicas que
servem como sítios de ligação para os filamentos intermediários, que se
entrelaçam formando uma placa denominada lâmina, local onde se prende a
cromatina; a externa, separada da primeira por um espaço denominado
cisterna ou espaço perinuclear, exibe ribossomas em sua face voltada para o
citoplasma. Ambas fazem contato na região dos poros. Tais poros representam
aberturas de forma octogonal com orifícios de 60mm de diâmetro. Contudo,
14

eles não estão completamente abertos, apresentando um tampão cilíndrico de


material protéico. A carioteca regula a troca entre o núcleo e o citoplasma
através dos poros, que permitem a passagem de algumas moléculas, sejam
elas de baixo ou alto peso molecular. É possível detectar por microscopia
eletrônica a passagem de grandes partículas, tais como subunidades
ribossômicas, RNA mensageiro, etc., enquanto medidas do potencial de
membranas, com auxílio de microeletrodos, sugerem que a carioteca
representa uma barreira à difusão de pequenos íons como K+, Na+ ou Cl-.
RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO RUGOSO (RER)
É muito desenvolvido em células comprometidas na síntese de proteínas de
exportação. Ao microscópio óptico aparece como basófilo, devido à presença
dos ribossomas. Ao microscópio eletrônico aparece como cisternas achatadas,
paralelas, onde os ribossomas são vistos aderidos à sua superfície externa;
estes estão presentes como polissomas mantidos juntos pelo RNA mensageiro.
Os ribossomas estão sempre ligados à membrana do retículo pela sua
subunidade maior. Essa ligação é complexa, envolve interações eletrostáticas
que podem ser quebradas em meios com alta concentração de sal. Os
ribossomas são levados ao retículo quando estão carregando uma cadeia
polipeptídica em crescimento que traz a seqüência inicial conhecida como
sinal; esse indica que a proteína deverá ser segregada na luz do retículo; essa
seqüência sinal é bloqueada por uma partícula citoplasmática denominada
"partícula reconhecedora do sinal" (PRS) que, por sua vez, é reconhecida por
uma proteína que faz parte da membrana do retículo e é denominada receptor
da PRS. Após a ligação desse complexo, a PRS se desprende e a síntese da
proteína, que estava bloqueada, continua, com a cadeia polipeptídica
crescendo dentro da luz do retículo. Em células que produzem grandes quanti-
dades de proteínas de exportação, como as pancreáticas, o RER é muito
desenvolvido, ocupando as porções basal e laterais da célula. Nos hepatócitos,
ele aparece como grupos de cisternas entremeadas com regiões de retículo
liso.
RETÍCULO ENDOPlASMÁTICO LISO (REL)
Aparece ao microscópio eletrônico como uma rede tubular, sem ribossomas
aderidos. A maioria das células contém muito pouco REL. Em todas as células,
uma pequena região do retículo endoplasmático é parcialmente rugosa e
parcialmente lisa; essa região é chamada de elementos transicionais, pois é aí
que brotam vesículas contendo proteínas e lipídeos recém-sintetizados e que
serão transportadas para o aparelho de Golgi. Dependendo da especialização
da célula, entretanto, o REL pode ser bem desenvolvido e ter diferentes
funções, como por exemplo:
a. Metabolismo de lipídeos - células que sintetizam hormônios esteróides, a
partir de colesterol, como as células de Leydig e as de córtex da supra-renal,
têm o REL bastante desenvolvido, a fim de abrigar as enzimas necessárias
para fazer o colesterol e modifica-Io para formar o hormônio. Como algumas
enzimas envolvidas na esteroidogênese encontram-se dentro das mitocôndrias,
elas são vistas nessas células em número apreciável junto ao REL.
b. DesÍntoxÍcação - o hepatócito é um bom exemplo onde o REL, além de
produzir a porção lipídica das lipoproteínas que ele exporta, também possui as
enzimas que catalisam uma série de reações de desintoxicação. Drogas tera-
pêuticas, inseticidas, hidrocarbonetos policíclicos e alguns produtos naturais do
metabolismo são freqüentemente solúveis em lipídeos e insolúveis em água e,
15

portanto, poderiam acumular-se continuamente em células gordurosas e nas


membranas lipídicas. Porém, a célula animal encontrou uma maneira para
excretá-Ios, chamada de desintoxicação, que é um sistema que funciona por
solubilização. O processo é feito através de uma seqüência de reações
catalisadas por uma família de enzimas denominadas citocromo P450, ligadas
ao REL e que torna finalmente tais produtos suficientemente solúveis em água
para poderem deixar a célula e serem excretados pela urina.
Quando grandes quantidades de certos compostos como, por exemplo, o
fenobarbital entram na circulação, o fígado sintetiza também uma grande
quantidade de enzimas para desintoxicação, aumentando, conseqüentemente,
as membranas do REL. Uma vez que a droga desapareça, o REL é degradado
nos autofagossomas até que sua quantidade volte ao normal. O uso contínuo
dessas drogas mantém o REL e suas enzimas aumentadas, o que faz com que
sejam necessárias doses cada vez maiores das drogas para que elas possam
fazer o efeito inicial.
c. Controle de Ca2+ citoplasmático - o REL dos músculos é especial e recebe o
nome de retículo sarcoplasmático. Ele contém uma proteína em sua
membrana, a Ca2+ ATPase que bombeia Ca2+ do citosol para o interior do
retículo; a liberação de Ca2+ da luz do retículo e seu subseqüente seqüestro
do citosol são necessários para a rápida contração e relaxamento das
miofibrilas durante cada ciclo da contração muscular.
COMPLEXO DE GOLGI (APARELHO DE GOLGI)
Embora descrito desde 1898 pelo italiano Camilo Golgi, após utilização de
métodos de impregnação dos tecidos pela prata, o reconhecimento de sua
existência foi motivo de grande controvérsia entre os pesquisadores durante
décadas. Somente após as observações feitas ao microscópio eletrônico, a
presença desse característico sistema de membranas foi definitivamente
comprovada. É formado por pilhas de quatro a seis cisternas achatadas e
vesículas associadas e, dependendo da célula, esse conjunto aparece em
número e localizações variadas. Em plantas superiores e algas, ele aparece às
centenas ou milhares, espalhados ao acaso pelos citoplasmas.
Em células polarizadas, como as acinares do pâncreas, e as caliciformes do
intestino, o Complexo de Golgi ocupa a porção entre o núcleo e o pólo apical
por onde a célula libera sua secreção. Em células não-polarizadas, eles são
muito menos desenvolvidos e podem aparecer rodeando o núcleo, como nos
neurônios ou espalhados em vários pontos do citoplasma, como nos
hepatócitos.
Embora haja variações na localização, tamanho e desenvolvimento, de acordo
com o tipo celular ou o próprio estado fisiológico da célula, o Complexo de
Golgi tem características morfológicas únicas que permitem sua diferenciação.
Ao microscópio eletrônico, apresenta as já referidas pilhas de cisternas, em
geral curvas, dando ao conjunto um aspecto de cálice mais ou menos aberto. A
face convexa desse conjunto é também denominada face cis (ou de entrada),
enquanto que a face côncava pode também ser denominada face trans (ou de
saída). Vizinho à face cis do Complexo de Golgi, o RE perde os ribossomas e
libera vesículas que se associam a essa região recebendo o nome de
elementos transicionais. Outras vesículas aparecem ao longo das bordas di-
latadas de cada cisterna. Admite-se que essas vesículas transportam proteínas
e lipídeos para dentro e para fora de Golgi, assim como entre suas cisternas;
muitas vesículas são cobertas por um tipo especial de proteína, a clatrina. Na
16

face trans aparece um retículo tubular distendido conhecido como rede trans
Golgi (cuja sigla,TGN, vem do inglês Trans Golgi Network).
Resumidamente, pode-se dizer que a principal função do Golgi é processar as
proteínas sintetizadas no RER, removendo e/ou adicionando diferentes
grupamentos às mesmas; empacotá-las em vesícula dando-Ihes o
direcionamento final. Os passos de processamento são organizados. Cada
cisterna é um compartimento distinto com seu próprio conjunto de enzimas; as
proteínas são modificadas na medida em que passam de um compartimento
para outro.
Brotando do RE, os elementos de transição trazem as proteínas para os
primeiros compartimentos do Golgi (face Cis). Em seguida, elas passam para o
compartimento mediano - constituído pelas cisternas centrais do Complexo -
para, finalmente, chegar ao compartimento trans. Desse, elas vão para o TGN,
onde são segregadas em diferentes vesículas e de onde seguem para seu
destino final: a membrana plasmática, os lisossomas ou as vesículas
secretórias.
O mecanismo de transferência de proteínas e lipídeos de uma cisterna para
outra ainda não está bem esclarecido, porém pensa-se que essa transferência
seja feita pelas vesículas cobertas que brotam das bordas das cisternas
mantendo o tráfego de uma cisterna para outra.
As glicoproteínas que irão fazer parte da membrana plasmática ou dos
lisossomas ou ainda de outras secreções exócrinas sofrem a primeira
glicosilação ainda na luz do RER, na forma de um oligossacarídeo, que vai
sendo "quebrado" à medida que a proteína avança pelo retículo em direção ao
Golgi. As modificações finais da molécula ocorrem no Golgi. Tais modificações
consistem de quebras das moléculas, adições de outros radicais de açúcar ou
de sulfato, etc., e que são efetivadas por enzimas estrategicamente loca-
lizadas, como proteases, galactosil transferases, e sulfotransferases,
respectivamente. A falha dessas enzimas pode resultar em um glicocálix alte-
rado, ou em lisossomas e outras secreções deficientes.
É amplamente conhecido que muitas enzimas são primeiramente sintetizadas
como precursores biologicamente inativos; a ativação acontece mais tarde e
em geral consiste na remoção de uma porção da cadeia polipeptídica. Essa
remoção pode ocorrer em diferentes locais, por exemplo: os grãos de
zimogêneo secretados pelo pâncreas são ativados extracelularmente, isto é,
após a liberação de secreção. Por outro lado, vários hormônios péptides são
produzidos como pró-hormônios que são, então, ativados intracelularmente por
"enzimas de conversão" (isto é, proteolíticas) provavelmente presentes no
Golgi. Exemplos de tais pró-proteínas são: pró-albuminas, pró-paratireóide
hormônio, pró-glucagon, pró-gastrina, e o caso melhor conhecido é o da pró-
insulina. A insulina, produzida pelas células beta das ilhotas pancreáticas,
contém duas cadeias ligadas por duas pontes de S-S: uma cadeia A, com 21
aminoácidos, e uma B com 30 aminoácidos.
Porém, o RNA mensageiro para sua produção contém informação para fazer
uma cadeia polipeptídica com 330 aminoácidos. A tradução desse RNA
mensageiro resulta na pré-pró-insulina, que contém, além dos segmentos
peptídicos correspondentes ao "sinal" e à cauda, comuns a todos os transcritos
para exportação, um segmento "C" que fica entre os segmentos A e B. A tra-
dução de mensageiro é feita no retículo endoplasmático rugoso; a cadeia
traduzida sofre a primeira quebra logo que é segregada no lúmen do retículo,
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perdendo a região referente ao sinal. Assim, como pró-insulina, contendo o


traduzido correspondente às regiões A, C e B, a cadeia chega ao Golgi; nele
uma "enzima de conversão" quebra a cadeia peptídica C e as cadeias A e B se
ligam por duas pontes de -S-S, transformando-se no hormônio ativo dentro de
um grão de secreção.
LISOSSOMAS
O conceito de lisossoma surgiu após a técnica de fracionamento celular pela
qual diferentes componentes puderam ser isolados. Entre eles De Duve
encontrou um grupo de partículas que continham alto conteúdo de fosfatase
ácida, além de outras enzimas hidrolíticas. Por causa dessas propriedades
enzimáticas o autor, em 1955, denominou-os lisossomas. Hoje, sabe-se que os
lisossomas possuem dezenas de hidrolases capazes de digerir a maioria das
substâncias biológicas. São encontradas em todas as células de eucariotos.
Bactérias não possuem lisossomas, mas o "espaço periplasmático" às vezes
encontrado entre a membrana plasmática e a parede celular pode
desempenhar um papel semelhante ao dos lisossomas.
Uma importante propriedade do lisossoma é a sua estabilidade nas células
vivas. Sua membrana é especial, pois possui proteínas transportadoras que
permitem a saída de macromoléculas resultantes da digestão para o
citoplasma, de onde poderão deixar a célula ou ser reaproveitadas. Ela contém
também bomba de H+ que, com a quebra de ATp, bombeia H+ para o interior
do lisos soma mantendo seu pH ao redor de 5, enquanto o do citoplasma está
ao redor de 7,2. As enzimas lisossomais são ativas em pH baixo, o que impede
sua ação contra o conteúdo citoplasmático. A membrana do lisossoma também
possui muitas proteínas altamente glicosiladas, que devem protegê-Ia das
proteases contidas no lúmen.
Os lisossomas só podem ser vistos ao microscópio eletrônico onde mostram
forma e tamanho variáveis. Entretanto, são facilmente identificados pela
histoquímica. A heterogeneidade das formas apresentadas pelos lisossomas
reflete a grande variedade de funções digestivas mediadas pelas suas enzimas
e que inclui digestão intra e extracelular, digestão de microrganismos, nutrição
celular (por exemplo o aproveitamento do colesterol endocitado nas partículas
de lipoproteínas de baixa densidade).
É do trans-Golgi (TGN) que brotam as vesículas que darão origem aos
lisossomas; elas têm enzimas e membranas espeeializadas. As enzimas são
sintetizadas no RER e transportadas através do Golgi; na porção eis desse
aparelho, elas recebem oligossarídeos, que são processados fosforilando um
resíduo de manose. Ao chegar ao TGN, tais proteínas estão, portanto,
marcadas pela manose-6 fosfato (M-6P). As membranas do Golgi nessa região
apresentam proteínas receptaras de M-6P que se ligam às enzimas marcadas;
dessa forma, brotam vesículas cobertas cheias de enzimas hidrolíticas. Até há
pouco tempo, essas vesículas eram chamadas de lisossomas primários,
distinguindo-as dos chamados lisossomas secundários, que apresentavam
material sendo digerido.
Trabalhos recentes têm mostrado que existe um compartimento membranoso
denominado endossoma, formado por túbulos e vesículas, que se estende da
periferia celular até a região perinuclear, estando muitas vezes muito próximo -
porém separado - do Complexo de Golgi. O interior desse compartimento é
ácido (pH entre 6 e 5), tanto mais ácido quanto mais interno esteja o
endossoma. Moléculas endocitadas se fundem com o endossoma periférico,
18

em seguida passam para o endossoma perinuclear. Porções das membranas


desses endossomas contendo os receptores voltam à membrana plasmática na
forma de vesículas. As vesículas contendo enzimas lisossomais liberadas pela
TGN são inicialmente encaminhadas para um compartimento especial pré-
lisossoma localizado próximo do endossoma perinuclear. Esses dois tipos
(endossoma perinuclear e vesículas com enzimas lisossomais) se fundem
formando o endolisossoma. Tal processo é concomitante ao constante
reaproveitamento da membrana e à crescente acidificação convertendo o
compartimento em lisossoma. No conceito atual, portanto, o lisossoma contém
material endocitado em digestão. Quando o endolisossoma se funde a um
fagossoma (vesícula com material fagocitado), torna-se o fagolisossoma;
quando se funde a um autofagossoma (vesÍcula com material da própria
célula), forma-se o autofagolisossoma. Todos os três tipos fazem a digestão
intracelular. Na digestão intracelular, seja de material ingerido, seja por
autofagia, as proteínas são quebradas até formar dipeptídeos que passam
facilmente pela membrana e são depois separados em aminoácidos; já os
carboidratos são hidrolisados a monossacarídeos, que são liberados.
Entretanto, dissacarídeos como a celobiose, inulina ou dextran não são dige-
ridos e permanecem dentro do lisossoma. O dissacarídeo mantido dentro do
lisossoma pode fazer aumentar sua pressão osmótica, provocando entrada de
água e tornando a célula intensamente vacuolizada.
Durante o processo de desenvolvimento do organismo, o lisossoma tem papel
importante, como na ecdise dos insetos ou na remodelação dos tecidos com a
remoção de células inteiras ou mesmo de material extracelular. Em órgãos que
sofrem regressão durante a embriogênese, como os duetos de Wolf nos
embriões das fêmeas e os duetos de Muller nos machos, há considerável
aumento de enzimas lisossômicas. Alguns tecidos que sofrem regressão após
um período de atividade podem fazê-Io por ação de lisossomas. Por exemplo,
o útero humano após o parto pesa cerca de 2kg e, em poucos dias, volta ao
seu peso normal de 50 gramas. Durante esse período existe uma grande
infiltração de células fagocitárias, que digerem todos os debris celulares e
partes do endométrio. A autofagia é proeminente nas glândulas mamárias após
a lactação, assim como no útero durante o ciclo menstrual.
Dissemos anteriormente que as enzimas lisossomais também fazem a digestão
extracelular. Um exemplo desse último é o que fazem os osteoclastos, células
multinucleares que aparecem durante a reabsorção óssea. Ao que tudo indica,
essas células liberam vesículas lisossomais cujas enzimas atacam a parte
orgânica da matriz óssea. Esse processo é ativado pelo hormônio da
paratiróide e pela vitamina "N”. Um excesso de vitamina "N” pode causar
fraturas espontâneas em animais.
Outro exemplo do envolvimento lisossomal é na produção final dos hormônios
da tiróide [tetraiodotironina (T 4) e triiodotironina (T3)]. O pré-hormônio
tiroglobulina fica estocado dentro do folículo tiróideo; pinocitado de volta pelas
células, sofre a ação das enzimas lisossômicas, que quebram a molécula
liberando T3 e T4. Estes saem da célula para a corrente sanguínea.
Quando qualquer célula produz mais grânulos de secreção de que o
fisiologicamente necessário, estes são "quebrados" pelos lisossomas e tal
mecanismo autofágico recebe o nome de crinofagia.
Todos os leucócitos dos vertebrados contêm grânulos de natureza lisossomal.
Os monócitos têm poucos lisossomas, mas quando eles penetram no tecido e
19

se modelam em macrófagos produzem muitos lisossomas.


O acrossoma do espermatozóide pode ser considerado um lisossoma especial.
Na verdade, ele contém protease e hialuronidase, além de muita fosfatase
ácida. Foi verificado em ouriço do mar que, no momento da fertilização, através
de receptores específicos de sua membrana, o espermatozóide se liga à
camada gelatinosa da zona pelúcida que envolve o óvulo. A ligação ativa a
exocitose da vesícula acrossomal liberando as enzimas; estas digerem a
camada gelatinosa e a camada vitelina que encobrem a membrana plasmática
do óvulo, permitindo que, com auxílio do citoesqueleto, a membrana do
espermatozóide se funda à do óvulo.
Os lisossomas são de importância particular na medicina porque estão
envolvidos em muitas doenças e síndromes. Poderemos exemplificar algumas.
Em certas condições patológicas, tais como artrite reumatóide, silicose e as-
bestose (produzidas pela inalação de partículas de sílica ou asbestos), ou gota
(na qual cristais de urato se acumulam nas articulações), existe liberação de
enzimas lisossômicas dos macrófagos nos tecidos e, conseqüentemente,
inflamação que pode levar a um aumento da síntese do colágeno, causando
fibrose.
Liberação aguda de enzimas lisossômicas ocorre em estados de anoxia,
acidose e chock, e as enzimas podem ser encontradas no sangue. Um
exemplo comum é a liberação dessas enzimas após o infarto do miocárdio.
Em relação a todas essas doenças, é importante lembrar a natureza da
membrana lisossômica. Ela pode tornar-se lábil por ação de muitas
substâncias, tais como todas as vitaminas lipossolúveis (A, K, D e E) e pelos
hormônios sexuais esteróides. Por outro lado, a cortisona, hidrocortisona e
outras drogas de ação antiinflamatória tendem a estabilizar as membranas
lisossômicas.
Existem doenças congênitas, cuja principal alteração consiste no acúmulo,
dentro das células, de substâncias como o glicogênio ou vários glicolipídeos.
São chamadas "doenças de depósito", e o erro é causado por uma mutação
que afeta enzimas lisossômicas envolvidas no catabolismo. Atualmente, são
descritas dezenas de doenças congênitas envolvendo lisossomas, quase todas
relacionadas ao acúmulo de glicolipídeos ou mucopolissacarídeos.
PEROXISSOMAS
Também chamados de microcorpos, foram descritos pela primeira vez em
1954, em túbulo renal de camundongo, como corpos arredondados, separados
do citoplasma por uma membrana simples e possuindo granulações finas. Em
1956, foram descritos em hepatócitos, onde chamaram a atenção pela
presença de um "core" mais elétron-denso, na forma de cristal. Diferem dos
lisossomas por não possuírem fosfatase ácida, não englobarem substâncias
provenientes da fagocitose e pinocitose e por darem reações enzimáticas
diferentes. Possuem as enzimas catalase, urato oxidase, D-aminoácido
oxidase. A membrana que os envolve é mais fina que a dos lisossomas e é
permeável às pequenas moléculas. As proteínas contidas em seu lúmen e as
de sua membrana são codificadas pelos genes nucleares e sintetizadas no
nível dos ribossomas livres no cito sol. A catalase, que é a mais estudada de
todas, é uma proteína tetramérica contendo um grupo heme; os monômeros
são internalizados no lúmen do peroxissoma, onde se associam ao heme.
Quando o peroxissoma chega a um determinado tamanho, sofre fissão, dando
origem a dois menores.
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Até 1974, os peroxissomas só haviam sido descritos no rim e no fígado.


Entretanto, naquele ano, foram descritos em miocárdio de camundongo e em
vários outros tipos de músculos. Hoje se sabe que todas as células contêm
peroxis somas. A denominação de peroxissoma éjustificada porque eles
contêm uma ou mais enzimas que usam oxigênio molecular para remover
átomos de hidrogênio de substratos orgânicos específicos, produzindo água
oxigenada, conforme a reação:

RH2 + O2 ® R + H2O2

A catalase decompõe a H2O2, oxidando uma grande variedade de substrato


(incluindo fenóis, ácido fórmico, formoldeído e álcool), conforme a reação:

H2O2 + R' H2 ® R' + 2H2O2

Esse tipo de reação oxidativa é importante nas células do fígado e rim, onde os
peroxissomas desintoxicam várias moléculas que entram na corrente
sanguínea. Quase a metade do álcool que uma pessoa ingere é oxidado a
acetoaldeído dessa forma. A catalase também converte a água oxigenada, que
é formada em várias reações químicas, em água e oxigênio conforme a reação:

2 H2O2 ® 2H2O2 + O2

Além de conter diferentes enzimas, os peroxissomas se adaptam às condições


celulares. Experimentos mostram que leveduras crescendo em meio com
açúcar têm peroxissomas pequenos; se colocadas para crescer em meio com
metanol, os peroxissomas tornam-se grandes para oxidar o álcool; se
colocadas em meio com ácidos graxos também os peroxissomas crescem e
quebram os ácidos graxos a acetilcoenzima A. A proliferação de peroxissomas
foi verificada, em ratos, após a administração de drogas hipolipidêmicas. Por
outro lado, experimentos mostraram que a injeção de catalase liofilizada
reduzia o nível de colesterol no sangue e prevenia a aterosclerose aórtica em
coelhos alimentados com colesterol.
Na maioria dos mamíferos e, provavelmente, dos eucariotos em geral, o
peroxissoma é o principal local de degradação de ácidos graxos. Na verdade,
essa é a única organela onde ácidos graxos de cadeias muito longas (contendo
mais de 20 CH2) são degradados. Ácidos graxos contendo entre 10 e 20 CH2
são quebrados tanto nas mitocôndrias como nos peroxissomas. Esse processo,
nas mitocôndrias, ocorre acoplado com a produção de ATP em uma cadeia
transportadora de elétrons, os quais são para ela transferidos via FADHz após
liberados pela oxidação do ácido graxo. Os peroxissomas não possuem cadeia
transportadora de elétrons e, por isso, os elétrons liberados durante a oxidação
dos ácidos graxos são usados para produzir H2O2 e a energia liberada é
convertida em calor. A uratooxidase está relacionada com o metabolismo das
purinas. De Duve sugeriu sua possível participação na gliconeogênese.
MITOCÔNDRIAS
São organelas presentes no citoplasma de células eucariontes. Elas
proporcionam um sistema de transdução de energia, pelo qual a energia
química contida nos alimentos é convertida a moléculas com ligações de
fosfato de alta energia (trifosfato de adenosina - ATP). Elas podem ser vistas
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em células vivas principalmente usando-se o corante vital Verde Janus. Sua


morfologia, porém, é melhor estudada após fixação. Em geral, têm a forma de
bastão com diâmetro médio de 0,5 μm e comprimento de 7μm. Tudo isso é
muito variável e depende da célula e da espécie animal. Como o tamanho, o
número também é variável: estima-se que um hepatócito contém entre 1.000 a
1.600 mitocôndrias, enquanto alguns ovócitos têm 300.000. Sua distribuição
está relacionada à sua função como fornecedora de energia à célula. Sua
orientação pode ser influenciada pela organização da matriz e do sistema
vacuolar. Apresentam movimentos e mostram mudanças na forma e volume.
Ao microscópio eletrônico, pode-se observar que elas apresentam dois
compartimentos - o interno, que contém a matriz mitocondrial, e é limitado por
uma unidade de membrana interna que se projeta para o interior formando as
cristas mitocondriais; e o externo, chamado câmara externa, localizado entre a
membrana interna e a membrana externa.
Técnicas especiais de tratamento e coloração negativa mostram que a
membrana externa é lisa, enquanto que na interna existem partículas com
cerca de 8,5 μm de diâmetro presas a ela por um pedúnculo; são as partículas
elementares, conhecidas pela designação de F1. A forma e disposição das
cristas variam em diferentes células e seu número está relacionado à atividade
oxidativa da mitocôndria.
Na substância fundamental da matriz, além das várias enzimas e substratos
relacionados com o ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs), existem DNA,
ribossomas e, em algumas, podem-se observar grânulos maiores e elétron-
densos, tidos como depósitos de cálcio seqüestrados do citoplasma pelas
mitocôndrias. Há tempos vários autores vêm observando que a disposição dos
lipídeos na célula pode estar relacionada à atividade mitocondrial. Em células
pancreáticas e hepáticas, por exemplo, após curto período de jejum, a
mitocôndria entra em contato com gotas lipídicas. As imagens ao microscópio
eletrônico sugerem um processo ativo do aproveitamento do lipídeo sob ação
de oxidase de ácidos graxos presentes na mitocôndria.
As mitocôndrias são os mais sensíveis indicadores de injúria celular. Embora
elas possam ser rapidamente alteradas pela ação de vários agentes, essas
alterações são reversíveis, dentro de certos limites. Quando chegam a um
ponto crítico, entretanto, tornam-se irreversíveis.
De que maneira essa organela é capaz de aproveitar a energia química contida
nas ligações covalentes das macromoléculas alimentares e convertê-Ias em
ATP? Sabe-se que enquanto essas moléculas energéticas estiverem altamente
ordenadas elas não liberam energia. Assim, uma molécula de glicose (que é a
principal fonte de energia da célula, seguida pela gordura e pela proteína) para
liberar energia aproveitável pela célula (na forma de ATP) deve ser quebrada
até COz e Hp. O primeiro passo de liberação de energia a partir da glicose
acontece no citoplasma sem a necessidade da presença de oxigênio. O
processo é chamado de glicólise anaeróbica e pode ser resumido pela
equação:

Glicose + Pi + 2 ADP ® 2 Lactato + 2 ATP

Em condições aeróbicas, o resultado final é o seguinte:

Glicose + Pi + 2 ADP ® 2 Piruvato + (NADH2) + 2 ATP


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O piruvato, uma molécula com três carbonos, entra na mitocôndria e, ao reagir


com a coenzima A transforma-se em acetilcoenzima A. Na matriz da
mitocôndria, a acetil-CoA, sempre por ação enzimática, libera a CoA e seu
radical acetil condensa-se com o ácido cítrico, que segue numa série de
reações químicas mediadas por desidrogenases e descarboxilases, dando
diferentes substâncias, culminando novamente com a produção de ácido
cítrico. Tais reações recebem o nome de "ciclo de Krebs" ou "ciclo do ácido
cítrico". A cada volta que esse ciclo completa, ele utiliza o produto da quebra
de meia molécula de glicose, liberando dois COz' dois NADHz (nicotinamida
adenina dinucleotídeo), um FADHz (flavina adenina dinucleotídeo). Tais
coenzimas reduzidas (NADHz e FADHz) precisam se oxidar para poder
continuar como receptores de outros hidrogênios liberados pelo ciclo de Krebs.
Então eles vão entrar no próximo passo a caminho da quebra final da glicose, o
qual acontece no nível das cristas mitocondriais e é denominado de
"fosforilação oxidativa", que consiste no transporte, em cadeia, de elétrons até
o oxigênio, formando água e a concomitante fosforilação do ADP à ATP.
O sistema de transporte de elétrons quase sempre se inicia com o NADHz e
segue de maneira vetorial a outros transportadores como FMN (flavina
mononucleotídeo) FAD, coenzima Q, uma série de citocromos, finalizando com
o Oz. O sistema de fosforilação é representado pelas partículas elementares,
um complexo multipeptídico com uma porção FI voltada para a matriz que
funciona como ATP sintetase; uma porção Fo localizada no centro da
membrana, altamente hidrofóbica, que representa a porção que transporta
próton; e uma porção que conecta essas duas e contém o fator de
acoplamento. Sabese, portanto, que ao mesmo tempo em que os elétrons do
hidrogênio são transportados de uma maneira vetorial até seu último aceptor,
que é o oxigênio para formar a água, há também a liberação de moléculas de
ATP. Qual a natureza química desse acoplamento? Existem várias hipóteses e
a mais aceita atualmente é a quimiosmótica. De acordo com ela, o ATP é
formado no nível da partícula elementar, sob a influência de um campo vetorial
gerado pela transferência de elétrons através de cadeia respiratória.
Explicando melhor, existem na cadeia respiratória transportadores de todo o
átomo de hidrogênio, isto é, próton e elétron, enquanto outros apenas
transportam elétrons; os prótons excedentes são "empurrados" para fora da
membrana, acumulando-se na câmara externa. A membrana da crista é
considerada impermeável a íons; corno conseqüência, forma-se um gradiente
de prótons na câmara externa (força próton-motriz), criando um potencial de
membrana, além de urna diferença de pH entre a matriz e a câmara externa.
Esse potencial eletroquímico gerado funciona corno urna força propulsora
tentando "bombear" os prótons de volta para a matriz. Na porção Fo da
partícula elementar deve haver um canal que permite a aproximação dos íons
H+ ao sítio ativo F1, o qual, modificado, promove a fosforilação do ADP para
ATP. Existem drogas capazes de "desacoplar" a fosforilação da cadeia
transportadora de elétrons. Desde a Primeira Guerra Mundial foram desco-
bertos os efeitos tóxicos dos nitrofenóis em indivíduos que trabalhavam com
explosivos. Só 30 anos mais tarde descobriu-se a ação do 2,4 dinitrofenol
corno "desacoplador" da fosforilação. Outro desacoplador é o hormônio
tiroxina. Corno eles agem? Ao que tudo indica, agem tornando a membrana
interna das mitocôndrias (cristas) permeáveis aos íons. Sendo assim, não há
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formação de um gradiente de íons H+ na câmara externa, que podem voltar


facilmente para a matriz e vice-versa, não havendo a formação do potencial
eletroquímico. Sem esse potencial não há ativação das partículas elementares,
que não poderão fosforilar o ADP à ATP. O transporte de elétrons continua, e a
energia usada para "empurrar" os pró tons de hidrogênio para a câmara ex-
terna é liberada na forma de calor. Explica-se, assim, a intolerância ao calor
que se observa no hipertiroidismo.
Além da produção de ATp, a mitocôndria está envolvida com outros processos
metabólicos da célula. Por exemplo, na produção dos hormônios sexuais, ela é
passagem obrigatória de um dos seus passos. Em resumo, no citoplasma no
nível do REL, acontece urna série de reações que começa com a condensação
de 3 moléculas de acetil-CoA, terminando com a produção de colesterol. O
colesterol penetra na matriz mitocondrial e aí, após hidroxilação e quebra da
cadeia lateral, transforma-se em pregnenolona, que volta ao citoplasma,
transformando-se em progesterona.
CITOESQUELETO
As formas das células, incluindo a infinita variedade de sua superfície, são
determinadas por espécies de "andaimes" de fibras e tubos que se cruzam no
citoplasma formando o citoesqueleto. Na verdade, a figura celular que se vêem
uma lâmina preparada é apenas "um momento" do que é constantemente
mudado. As células mudam suas formas constantemente. Mudam seus
conteúdos, geram correntes citoplasmáticas, provocam movimentos saltatórios
de alguns grânulos, dobram membranas, movimentam-se, modificam o
tamanho contraindo-se e distendendo-se, passam por pequenas aberturas,
englobam substâncias, etc. Qual seria o papel do citoesqueleto em todo esse
frenesi de movimentos? O citoesqueleto não é uma rede rígida. Na verdade,
não é nem mesmo uma rede articulada como se pode imaginar. É um arranjo
versátil e complexo de elementos estruturais, sendo apenas alguns
verdadeiramente fixos. A maioria tem a capacidade de rapidamente se
desarranjar em pequenas unidades e se rearranjar em estruturas de formas
diferentes, explicando, assim, as mudanças de que a célula é capaz. Toda
essa maquinaria é feita de proteínas de vários tipos. O microscópio eletrônico
não consegue mostrar a beleza do citoesqueleto. Apenas dá idéia dos
elementos que dele fazem parte.
Basicamente, três tipos de fibras formam a rede do citoesqueleto: aquelas com
7mm a 9mm de diâmetro, que constituem os microfilamentos; aquelas com
cerca de 10mm de diâmetro que constituem os filamentos intermediários e os
que apresentam um diâmetro de cerca de 24mm, tendo um lúmem de 7mm,
que constituem os microtúbulos. Os microfilamentos e os microtúbulos estão
envolvidos com os movimentos celulares enquanto que os filamentos
intermediários escoram o interior celular.
A actina é o microfilamento melhor conhecido, e exerce papel em muitos tipos
de movimentos, desde migração celular até transporte intracitoplasmático. O
microfilamento de actina é formado pela polimerização de monômeros de
actina (actina G) em dois filamentos enrolados (actina F). Tanto a
polimerização de G actina como a despolimerização de F-actina são processos
importantes que caracterizam as propriedades dessa proteína; a concentração
iônica do meio dado pelo Mg2+, K+ ou Na+ é importante nesse processo. A
polimerização é acompanhada de hidrólise de ATP, o qual está sempre ligada
à G-actina. As extremidades da F-actina são diferentes: uma é chamada de (+)
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e se alonga de 5 a 10 vezes mais rapidamente que a outra extremidade,


chamada de (-).
Seis tipos de actina já foram isolados: três tipos de alfa-actina encontradas nas
diferentes células musculares, beta-actina e gama-actina encontradas em
outros tipos celulares. Os filamentos de actina podem se arranjar paralelamen-
te, formando feixes, ou se cruzar em ângulos retos, formando redes. Um típico
arranjo em feixes é observado nas células musculares esqueléticas e
cardíacas. Formando rede são observadas logo abaixo da membrana
plasmática em arranjo bidimensional semelhante a teias, e mais interiormente
em arranjo tridimensional, dando ao citoplasma a propriedade de um gel. Para
formar feixes ou redes, os filamentos de actina são presos entre si por
proteínas especiais, chamadas proteínas de ligação. Feixes ou redes também
sempre são conectadas por proteínas de ligação às respectivas membranas
plasmáticas. São exemplos mais comuns de proteínas de ligação de
microfilamentos, a vilina (encontrada nas microvilosidades), a distrofina (no
músculo), a alfa-actina (em filipódeos e placas de adesão), a espectrina, etc.
Esse arranjo de ligação acaba prendendo a célula ao extracelular. Por
exemplo, em células musculares, glicoproteínas transmembrânicas se ligam a
filamentos de actina, através da distrofina, pelo lado citoplasmático e pelo pólo
oposto se ligam às lamininas da matriz extracelular. A actina pode também
ligar-se diretamente às glicoproteínas transmembrânicas. Em resumo, os
filamentos de actina podem formar redes que sustentam a membrana
plasmática e organizam o citoplasma e a sua capacidade de polimerizar e
despolimerizar é aproveitada pela célula para gerar algumas formas de
movimento, como o amebóide. Porém, a actina é incapaz de realizar sozinha
alguns tipos de movimentos celulares. Portanto, ela interage com outro tipo de
proteína chamada miosina. A miosina é uma ATPase que se movimenta ao
longo da actina. Ela é uma enzima mecanoquímica, isto é, converte a energia
química em mecânica e por isso é também chamada de proteína motora.
Então, nos movimentos gerados por esses elementos, a mio sina é o motor, os
filamentos de actina são os trilhos e o ATp, o combustível. Estudos da
seqüência de DNA mostraram mais de 10 classes de genes para miosina.
Entretanto, três são os mais conhecidos: miosina I, II e V. A estrutura molecular
de todas mostra uma "cabeça", onde se encontra o sítio de ligação com ATP e
com a actina, sendo o local de geração de força; um "pescoço", que regula a
atividade da "cabeça" ligando-se à calmodulina ou outra proteína reguladora
semelhante; uma "cauda" que contém sítios de ligação que determinam se a
molécula vai se ligar à membrana plasmática ou a outras caudas para formar
um filamento grosso. A miosina I tem uma cabeça e uma cauda (monomérica);
nesta, tem sítio de ligação para a membrana plasmática à qual se prende; pela
cabeça ela se prende à actina. A mio sina II e V são diméricas. Como a mio
sina I, a miosina V se relaciona à membrana plasmática e ao transporte de
vesícuIas de secreção. A mio sina II se polimeriza em filamentos grossos
observados nas células musculares estriadas. Esses filamentos têm organiza-
ção bipolar (as cabeças estão colocadas em ambas extremidades e separadas
por uma zona composta só de caudas que se interagem).
Nas células musculares estriadas, os filamentos de actina e de miosina estão
arranjados de maneira definida e estável no citoplasma, para que possam
promover a contração muscular. A contração das células musculares lisas e
das mioepiteliais também é feita pela interação da actina e miosina, só que a
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organização desses filamentos nessas células não segue os padrões


apresentados nas células musculares estriadas. Esse sistema actina-miosina
promove outros tipos de movimentos em outras células não-musculares. Por
exemplo, ao final da divisão celular aparece abaixo da membrana plasmática,
na porção central da célula, um anel contráctil constituído de filamentos de
actina e miosina; ele promove a contração do citoplasma nessa região, levando
à separação das duas células-filhas.
Na verdade, são inúmeros os movimentos promovidos pelo sistema actina-
miosina, como os movimentos amebóides, deslocamento de organelas no
citoplasma, etc.
Os filamentos intermediários são encontrados em quase todos os eucariotos,
mas ainda não foram vistos em fungos e outros organismos inferiores. Sua
função primordial é estrutural, reforçando as células e estruturando-as em
tecidos. Algumas características distinguem-os dos demais filamentos de
citoesqueleto: são extremamente estáveis, pois a grande maioria continua
polimerizada após extração com detergentes e altas concentrações de sais;
suas subunidades são filamentos em alfa-hélice que se agregam como cor-
dões, com seqüências e pesos moleculares diferentes; suas subunidades não
se ligam a nucleotídeos e, portanto, não requerem a hidrólise de ATP na
polimerização.
A heterogeneidade de seus monômeros origina diferentes filamentos, os quais
foram classificados em cinco tipos. Como tipos I e 11 são classificadas as
queratinas ácidas e básicas, respectivamente. São obrigatoriamente
heteropolímeros contendo uma mistura de polipeptídeos ácidos e básicos. São
encontrados tipicamente em células epiteliais, em geral associados aos
desmossomas e hemidesmossomas. Podem também ser divididos em dois
grupos: aqueles específicos para endurecer os tecidos epiteliais e que dão
origem às unhas, cabelos, bicos, penas, lãs e aqueles denominados de
citoqueratinas, encontrados nos epitélios que revestem cavidades internas do
corpo.
Como filamento do tipo III são classificadas a vimentina, desmina, a proteína
ácida da glia e a periferina. Filamento de vimentina é encontrado em células de
origem mesenquimal, incluindo fibroblastos, células endoteliais de vasos san-
guíneos e leucócitos. Está freqüentemente associado a microtúbulos e a
distribuição de ambos nas células se superpõe. Filamento de desmina é
encontrado em células musculares; nas estriadas, envolve o disco Z, fazendo
conexões entre os vizinhos ou com a membrana plasmática adjacente,
concluindo por alinhar o disco Z de células vizinhas. A proteína ácida de glia
forma os filamentos gliais em alguns tipos de células da glia (astrócitos e
algumas células de Schwann). Filamento de periferina é encontrado em
neurônio do sistema nervoso periférico e pouco se sabe ainda sobre ele.
Como filamentos do tipo IV são classificados aqueles encontrados com os
principais elementos de citoesqueleto dos axônios e dendritos e, conse-
qüentemente, denominados de neurofilamentos. Existem três classes de
neurofilamentos: os de baixo, os de médio e os de alto peso molecular.
Também se associam aos microtúbulos: são responsáveis pelo crescimento do
diâmetro de um axônio. Assim, a velocidade da transmissão do impulso
depende do número de neurofilamentos.
Os filamentos tipo V compreendem as lâminas, encontradas exclusivamente no
núcleo. Elas formam uma rede com os filamentos organizados em ângulo reto
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na superfície interna da membrana nuclear. Essa rede recebe o nome de


lâmina nuclear; durante a divisão celular (no final da prófase) as lâminas são
fosforiladas e se desarranjam formando dímeros entre elas ou ligando-se às
proteínas dos poros da carioteca, para tornar a se arranjar no final da anáfase
e início da telófase.
Como os demais filamentos, os intermediários também têm proteínas
associadas a eles. Um possível papel para elas seria o de ligar os filamentos
intermediários aos microfilamentos e aos microtúbulos. Já foi verificado em
preparações de axônios por criofratura, numerosas conexões filamentosas
ligando microtúbulos e filamentos intermediários. Finalmente, os filamentos
intermediários são importantes para se fazer diagnóstico diferencial de
tumores, se de origem epitelial ou mesenquimal ou neuronal. A célula tumoral
pode perder sua morfologia original, mas não perde algumas de suas
características diferenciais, inclusive seus filamentos intermediários. Anticorpos
marcados podem revelar a presença de filamentos específicos; por exemplo, a
presença de queratina em carcinoma de mama e gastrointestinal e a ausência
de vimentina mostra que eles são derivados de células epiteliais e não do
estroma mesenquimal. Como os tumores de origem epitelial e mesenquimal
são sensíveis a diferentes drogas, essa diferenciação é importante para o
correto tratamento.
A célula tem outro sistema de citoesqueleto feito por microtúbulos. Ao
microscópio eletrônico, aparecem como cilindros longos e finos com cerca de
24mm de diâmetro. Quimicamente, são constituídos por proteínas globulares
com capacidade infinita de polimerização linear. Na verdade, são duas
tubulinas, alfa e beta, muito semelhantes. Elas se associam em dímeros, os
quais se associam linearmente formando protofilamentos. Esses, por sua vez,
se associam lateralmente de modo a formar um cilindro, quando exatamente
treze protofilamentos estão ligados lado a lado.
Os microtúbulos podem ser observados tratando-se as células com anticorpos
antitubulinas fluorescentes. Na célula em interfase são vistos em maior
densidade ao redor do núcleo e daí irradiando para a periferia. Eles irradiam a
partir de um centro organizador, localizado ao lado do núcleo, denominado
centrossoma (ou centro celular). O centros soma (menos nas células vegetais
superiores e fungos) contém um par de centríolos rodeados por um material
amorfo. Como os microfilamentos, o microtúbulo possui um pólo menos H e um
mais (+). Experimentos demonstraram que a vida média de um microtúbulo de
fibroblasto em cultura é curta - menos de 10 minutos. Assim, o centro
organizador produz continuamente novos microtúbulos, com seu pólo (-)
ancorado no material amorfo do centro organizador. A capacidade de se
polimerizar e despolimerizar é uma propriedade intrínseca dos microtúbulos e é
necessária para que a célula desempenhe suas funções. Durante a divisão ce-
lular, a rede de microtúbulos se rearranja, formando o fuso mitótico, com seus
pólos (-) ancorados em cada um dos dois centros organizadores formados,
também denominados de pólos celulares.
Da mesma forma que acontece com os microfilamentos, os microtúbulos
possuem outras proteínas a eles associados, e são conhecidas na literatura
pela sigla MAPs (mjcrotubuleassociated protejns). A maioria delas é chamada
de MAPs de montagem, que ligam os microtúbuIas entre si e às outras
estruturas no citosol, como microfilamentos e filamentos intermediários. Outro
tipo são as chamadas proteínas mataras, sendo a cinesina e a dineína as mais
27

conhecidas. Elas utilizam os microtúbulos como trilhos para transportar


vesículas de secreção, mitocôndrias e outras organelas menores; a cinesina
movimenta-se em direção ao pólo (+) e a dineína em direção ao pólo (-). Esses
movimentos são particularmente notáveis nos axônios neuronais, onde
observa-se transporte em ambas direções: transporte anterógrado, que leva
grãos de secreção formados no corpo celular até as junções sinápticas; e o
transporte retrógrado, trazendo substâncias em direção ao corpo celular, subs-
tâncias essas principalmente constituídas de membranas "velhas", vindas da
região das sinapses com destino aos lisos somas para serem degradadas.
Microtúbulos também são responsáveis pelos movimentos dos grãos de
pigmentos em células especiais chamadas melanóforos. Estes são
encontrados na pele de muitos vertebrados, nas escamas de peixes, etc. As
mudanças de cor apresentadas por vários animais são o resultado da
movimentação dos seus pigmentos ao longo dos microtúbulos, servindo para
ajustá-los ao meio, a fim de obter proteção contra predadores.
A dinâmica de organização e desorganização dos microtúbulos citoplasmáticos
pode ser afetada por temperatura, pressão e drogas como a colchicina,
vimblastina e taxol, todas extraídas de plantas. A colchicina em altas doses
despolimeriza os microtúbulos. Já as baixas doses inibem sua dinâmica por
ligar-se aos dímeros de tubulina, que dessa maneira se prendem ao pólo em
crescimento, impedindo tanto sua polimerização como a despolimerização. O
mesmo foi verificado com as demais drogas que, embora agindo da mesma
maneira, têm outros sítios de ligação com as tubulinas. Por essas
propriedades, essas drogas vêm sendo usadas no controle de várias doenças,
principalmente dos tumores, onde há multiplicação constante de células (o uso
destas drogas bloqueia o crescimento celular). O taxol tem sido usado
especificamente para controlar tumores ovarianos.
Além desses microtúbulos lábeis, que atuam em vários processos de
movimentação celular, existe outro sistema de microtúbulos mais estáveis.
Estes formam estruturas como os cílios e flagelos.
CíHos - são protrusões recobertas pela membrana plasmática, vibráteis, que
aparecem em grande número, dispostos paralelamente, em células livres ou
em superfícies epiteliais.
Flagelos - são semelhantes aos cílios, porém maiores e em geral únicos em
uma célula. Com poucas variações, cílios e flagelos têm estrutura semelhante,
que compreende: o axonema, o corpo basal e raiz cHiar. O axonema que se
projeta do citoplasma é o elemento móvel e a estrutura microtubular básica dos
cílios e flagelos. É revestido pela membrana plasmática e rodeado pela matriz
ciliar, que nada mais é que um prolongamento citoplasmático. Apresenta nove
pares de microtúbulos na periferia e um par central. Nos pares periféricos, um
microtúbulo é denominado subfibrila A e outro subfibrila B. Estes se distinguem
porque a subfibrila A apresenta dois "braços" orientados na mesma direção,
chamados dineína, constituídos pela proteína do mesmo nome e que é uma
ATPase. A interação entre a tubulina e a dineína promove a movimentação dos
cílios e flagelos. Além dessa, existe outra proteína, a nexina, que liga essas
duplas. Cada subfibrila A é ligada por outra proteína à bainha que reveste a
dupla central de microtúbulos. O corpo basal tem a mesma estrutura dos
centríolos. O centríolo é outra formação tubular que aparece no citoplasma, em
geral próximo ao núcleo, aberto em ambos os lados, onde os microtúbulos
periféricos são triplos e não existe par central. O corpo basal se relaciona com
28

fibras que se aprofundam no citoplasma e constituem a raiz ciliar.

O NÚCLEO
Em 1831, Brown descreveu uma estrutura constante no interior das células e
chamou-a de núcleo. De acordo com a presença ou ausência do núcleo,
promoveu-se a classificação das células em procariontes (sem núcleo definido)
e eucariontes (com núcleo definido, isto é, o material nuclear contido por uma
membrana, a carioteca).
Por volta de 1871, o médico suíço Friedrich Miescher analisou quimicamente o
conteúdo de núcleos isolados de células mortas em pus de curativos
hospitalares e encontrou uma substância que continha fósforo, denominando-a
nucleína. Após Fleming ter verificado que o núcleo era corado pelos corantes
básicos, o seu conteúdo foi denominado cromatina. Em 1888, Waldeyer usou a
palavra cromossomo para descrever as estruturas em forma de bastão que
apareciam no núcleo antes da sua divisão, enfatizando sua continuidade com a
cromatina do núcleo interfásico.
A função de tão importante estrutura, entretanto, só foi entendida em meados
do nosso século. Nem mesmo as descobertas de Mendel em 1885 e os
enunciados de seus "princípios" foram correlacionados com as de Miescher,
Fleming e Waldeyer.
Hoje, todos sabem que a função do núcleo é a de transmitir informações. Ele o
faz nos dois momentos do ciclo celular: a) na mitose, quando transmite para as
células-filhas toda a "bagagem" ou "material hereditário" que possuem na
cromatina, através dos cromossomos; b) na interfase, quando a cromatina
transcreve os diferentes tipos de RNAs, os quais, no citoplasma, irão con-
juntamente e por um intrincado processo produzir as diferentes proteínas
específicas daquela célula ou daquele organismo.
É importante que o patologista conheça as características de um núcleo
interfásico, pois estas irão ajudá-Io a entender os possíveis estados fisiológicos
das células.
Um núcleo interfásico apresenta duas estruturas fundamentais: carioteca e
cromatina. Uma terceira pode ser visível, dependendo do estado fisiológico da
célula: o nucléolo.
A forma do núcleo se adapta à pressão do ambiente, podendo ser esférico (se
em uma célula isodiamétrica, ocupando em geral o centro celular); cilíndrico (se
em uma célula prismática, ocupando em geral a porção basal de célula),
comprimido contra a membrana, como nas células gordurosas; irregulares,
multilobados como em alguns leucócitos. De forma regrada, aparece em
número de um por célula, havendo exceções, tais como no fígado, onde 5%
das células são binucleares, ou nos músculos estriados dos vertebrados, onde
as células são multinucleadas.
Ao microscópio óptico, como resultado de seu alto conteúdo de substâncias
ácidas (ácidos nucléicos), pode ser visto corado por corantes básicos; exibe a
reação de Feulgem positiva que identifica o DNA, um de seus principais
componentes. O DNA, o principal constituinte genético da célula, leva
informação de uma maneira codificada e não está livre, mas "complexado" com
proteínas básicas (histonas), formando a estrutura denominada cromatina.
Pouco ou nada podese ver de tal estrutura mediante a microscopia óptica, a
não ser que ela esteja mais ou menos condensada. Ao estado de mais
condensada deuse o nome de heterocromatina, e ao estado menos
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condensado ou disperso foi dado o nome de eucromatina. As regiões


heterocromáticas às vezes tendem a se agregar, formando os cromocentros.
Os cortes finos ao microscópio eletrônico (M.E.) também pouco ajudam para o
conhecimento da estrutura da cromatina. Neles, a cromatina aparece como
massas de fibras densas dobradas com cerca de lOmm de diâmetro. Elas
podem estar distribuídas uniformemente no interior do núcleo, ou em regiões
mais ou menos empacotadas. A cromatina, quando condensada, se arranja em
geral na periferia do núcleo. A análise bioquímica da cromatina isolada mostrou
que ela tem aspecto viscoso e contém DNA, RNA, proteínas básicas (histonas)
e proteínas ácidas (não-histonas). O conteúdo das proteínas ácidas e do RNA
é variável entre os diferentes preparados, mas histona e DNA estão sempre
presentes na razão de 1:1. As proteínas ácidas são muito heterogêneas,
variando nos diferentes tecidos; entre elas estão incluídas RNA e DNA poli-
merases, e outras. Por outro lado, há apenas cinco tipos de histonas. Por
serem básicas, ligam-se fortemente ao DNA, que é um ácido. As histonas H2A,
H2B, H3 e H4 são muito semelhantes em diferentes espécies; elas estão
presentes em quantidades equimolares, duas de cada, a cada 200 pares de
bases de DNA. A histona H1 não se conserva entre espécies, e é tecido-
específica. Está presente apenas uma vez a cada 200 pares de bases, estando
mais frouxamente ligada ao DNA.
A cromatina, observada ao M.E., não em cortes, após ser dissociada e
"espalhada" sobre o suporte, mostra um aspecto de fio cheio de contas, as
quais têm cerca de 10mm de diâmetro. Essas contas são chamadas
nucleossomas e representam, segundo R.D. Kornberg, um "core" formado por
oito moléculas de histonas 2(H2A); 2(H2B); 2(H3); 2(H4), rodeadas pela dupla
hélice do DNA. Essa figura de rosário seria resultado de um artefato de técnica
pela perda da histona H1
durante a preparação. Esta estaria entre os dois nucleossomas e promoveria,
em estado normal, a aproximação dos mesmos, dando ao filamento de
cromatina a espessura homogênea de 10mm. Tal filamento representa a forma
mais descondensada da cromatina, hábil para transcrever, no núcleo
interfásico. A cromatina pode sofrer outros tipos de dobramentos, tornando
difícil sua transcrição, formando o que conhecemos como heterocromatina. Nas
células interfásicas das fêmeas das espécies, cuja determinação do sexo é XX,
XY, existe sempre uma heterocromatina chamada de facultativa. Ela
representa a inativação de um dos cromossomos X, para compensar a dose
genética dos machos da mesma espécie. Assim, nas células das fêmeas,
sempre um cromos soma X está inativo. Porém, a condensação da cromatina
pode ser feita de outra forma, quando a célula vai entrar em divisão. Ela chega
a dobrar-se cerca de cinco a 10 mil vezes formando os cromossomos.
Portanto, no núcleo interfásico, o grau de condensação da cromatina é um
indicador da atividade celular. Assim, quando ela está bastante
descondensada, o núcleo aparece claro com poucos pontos mais corados e
recebe o nome de núcleo frouxo. Isso significa que tal cromatina
estátranscrevendo muitos RNAs para a síntese protéica. Um dos RNAs, o
ribossômico, é transcrito em regiões especiais da cromatina, denominadas
"organizadoras de nucléolo". O nucléolo nada mais é do que o acúmulo de
RNA ribossômico, que vai sofrer maturação e tornar-se complexo com
proteínas para formar os ribossomos. Estes, por sua vez, irão ao citoplasma
efetuar a síntese de proteínas.
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É por isso que dissemos anteriormente que o nucléolo é uma estrutura que
pode ou não ser observada no núcleo. Se este está frouxo em grande atividade
transcricional, certamente mostrará também um ou mais nucléolos. Se, entre-
tanto, estiver pouco ativo por razões fisiológicas ou patológicas, mostrará a
cromatina condensada, sem nucléolo ou outra estruturação; assim, tomará
muito corante, recebendo o nome de núcleo condensado.

Os conceitos de Saúde e Doença invariavelmente referem-se aos termos


"morfostase" e "homeostase". A MORFOSTASE e a HOMEOSTASE referem-
se, respectivamente, ao equilíbrio da forma e da função. Portanto, pode-se
dizer que:
"Saúde é a manutenção da morfostase e homeostase".

Nos estados de saúde, as reações energéticas do organismo ocorrem


respeitando padrões de tempo, de local e de intensidade que indicam estados
de normalidade dessas reações. As reações que obedecem esses padrões de
normalidade são denominadas Reações Homólogas. As reações homólogas
são assim chamadas por serem comuns a todos os indivíduos de uma
determinada espécie, podendo-se determinar, com isso, suas formas e funções
normais.
Já o termo "doença" pode ser compreendido como se segue:

"A doença é resultado da ação de uma agressão que leva a uma alteração
não compensada da homeostase e ou da morfostase."