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CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DOSSIÊ Edição Especial O Brasil e a Agenda Global
CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
DOSSIÊ
Edição Especial
O Brasil e a Agenda Global

VOLUME 2 - ANO 10 - 2012 www.cebri.org.br

DOSSIÊ Edição Especial O Brasil e a Agenda Global VOLUME 2 - ANO 10 - 2012
DOSSIÊ Edição Especial O Brasil e a Agenda Global VOLUME 2 - ANO 10 - 2012

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DOSSIÊ Edição Especial O Brasil e a Agenda Global VOLUME 2 - ANO 10 - 2012

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Quem Somos

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais - CEBRI, sediado no Rio de Janeiro, é uma OSCIP (Organização da

Sociedade Civil de Interesse Público), independente, multidisciplinar e apartidária, formada com o objetivo de promover estudos e debates sobre temas prioritários da política externa brasileira e das relações internacionais em geral.

Criado em 1998 por um grupo de intelectuais, empresários, autoridades governamentais e acadêmicos, o CEBRI tornou-

se

rapidamente uma referência nacional na promoção de encontros de alto nível, conferências e seminários internacionais.

O

Centro atua como um think tank de políticas públicas na área externa do País. Sua Missão é criar um espaço para

estudos e debates, onde a sociedade brasileira possa discutir temas relativos às relações internacionais e à política externa, com consequente influência no processo decisório governamental e na atuação brasileira em negociações internacionais.

Em recente pesquisa, a Universidade da Pensilvânia apontou o CEBRI como o 3° mais importante think tank da América

do Sul e Central. A pesquisa distingue a capacidade do Centro de reunir prestigiosos acadêmicos e analistas; e de produzir

conhecimento por meio da reflexão, do debate e de publicações sobre temas de política externa.

O CEBRI produz igualmente informação e conhecimento específico na área externa e propostas para a elaboração de

políticas públicas. Linhas de pesquisa resultam em estudos, boletins, relatórios, newsletters e outros produtos específicos para instituições e empresas patrocinadoras.

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para instituições e empresas patrocinadoras. Dossie.indd 2 Conselho Curador Presidente de Honra Fernando Henrique
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Conselho Curador

Presidente de Honra Fernando Henrique Cardoso

Presidente Luiz Augusto de Castro Neves

Vice-Presidente

Tomas Zinner

Vice-Presidentes Eméritos Daniel Miguel Klabin José Botafogo Gonçalves Luiz Felipe Lampreia

Conselheiros Armando Mariante Armínio Fraga Carlos Mariani Bittencourt Célio Borja Celso Lafer Claudio Frischtak Gelson Fonseca Junior Georges Landau Henrique Rzezinski José Aldo Rebelo Figueiredo José Luiz Alquéres José Pio Borges de Castro Filho Marcelo de Paiva Abreu Marco Aurélio Garcia Marcos Castrioto de Azambuja Marcus Vinícius Pratini de Moraes Maria Regina Soares de Lima Pedro Malan Roberto Abdenur Roberto Teixeira da Costa Ronaldo Veirano Sebastião do Rego Barros Vitor Hallack Winston Fritsch

Diretora

Fatima Berardinelli

Ronaldo Veirano Sebastião do Rego Barros Vitor Hallack Winston Fritsch Diretora Fatima Berardinelli 18/09/2012 10:51:07
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Edição Especial O Brasil e a Agenda Global

Aluisio de Lima-Campos Carlos Eduardo Freitas Cláudio Oliveira Ribeiro Damian Papoulo Demétrio Magnoli Denise Gregory Eduarda Hamann Equipe CEBRI Fabio Feldmann Georges Landau Gustavo Piva Andrade Henrique Rzezinski José Botafogo Gonçalves Ko Colijn Luiz Augusto de Castro Neves Marcelo de Paiva Abreu Marcos Castrioto de Azambuja Maria Fatima Berardinelli Arraes de Oliveira Natalia N. Fingermann Odilon Marcuzzo Paul Isbell Ricardo Sennes Roberto Abdenur Roberto Teixeira da Costa Rodrigo C. A. Lima Rodrigo Cintra Sandra Rios Seth Colby Susan Kaufman Purcell Thomas S. Knirsch Tomas Tomislav Antonin Zinner

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Edição Especial O Brasil e a Agenda Global

ÍNDICE

Introdução

7

- Brazil and Predatory Currency Misalignments Aluisio de Lima-Campos

1

8

- O Brasil e a Crise Econômica Internacional Carlos Eduardo Freitas

2

13

- Da Crise do Euro à Crise da União Europeia Demétrio Magnoli

3

18

- A Importância do Uso Estratégico da Propriedade Intelectual Denise Gregory

4

21

- A “Responsabilidade de Proteger” e “ao Proteger”: breve histórico e alguns esclarecimentos Eduarda Hamann

5

25

- Understanding Brazil as a Global Trading Partner Equipe CEBRI

6

29

- Avaliação da Participação Brasileira na Rio + 20 Fabio Feldmann

7

33

- A Reforma das Instituições Multilaterais Georges Landau

8

37

- Propriedade Industrial e Importação Paralela no Ordenamento Jurídico Brasileiro Gustavo Piva Andrade

9

40

10

- Brazil and the New Geopolitics of Energy

45

Henrique Rzezinski e Damian Popolo

11

- Os Próximos Desafios da Política Externa Brasileira

49

José Botafogo Gonçalves

12

- Brazil and the Netherlands: common ground in the neo-geo world?

53

Ko Colijn

13

- Afinal, o que o Brasil quer ser no Mundo?

58

Luiz Augusto de Castro Neves

14

- O Brasil Deve Levar a OMC a Sério

61

Marcelo de Paiva Abreu

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15

- O Brasil e a Ordem Internacional

65

Marcos Castrioto de Azambuja

16

- Acordo Internacional para a Proteção de Investimentos Brasileiros no Exterior

69

Maria Fatima Berardinelli Arraes de Oliveira

17

- Brasil e África: uma parceria estratégica

73

Natalia N. Fingermann e Claudio Oliveira Ribeiro

18

- Desmatamento, Desarmamento, Não Proliferação Nuclear e Compromissos Internacionais Assumidos

78

Odilon Marcuzzo

19

- The Continuity of Pragmatism: the key to a successful Brazilian energy future

83

Paul Isbell

20

- Os BRICs e a Relativa “Desorganização” Internacional

90

Ricardo Sennes

21

- Mudando o Mapa Mental: África, América do Sul e Atlântico

96

Roberto Abdenur

22

- O Brasil e o Mundo em 2030

99

Roberto Teixeira da Costa

23

- Novo Código Florestal: agenda para o Brasil sustentável

103

Rodrigo C. A. Lima

24

- Diplomacia Corporativa

107

Rodrigo Cintra

25

- Transição para a Economia Verde: oportunidade na agenda econômica externa brasileira

111

Sandra Rios

26

- Follow the Brazilian Leader? assessing the exportability of the country´s development model

114

Seth Colby

27

- Brazil and the Global Agenda

117

Susan Kaufman Purcell

28

- A Glimpse at the Coming Energy Revolution

120

Thomas S. Knirsch

29

- Brasil: reforma trabalhista e competitividade internacional

125

Tomas Tomislav Antonin Zinner

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Edição Especial O Brasil e a Agenda Global

Introdução

Em setembro de 2008, no bojo das comemorações dos 10 anos do CEBRI, foi lançada, pela primeira vez, a edição especial do Dossiê CEBRI, que condensou a opinião de Conselheiros e Colaboradores do CEBRI, sobre a temática “Prioridades da Política Externa Brasileira à luz do Interesse Nacional”.

A iniciativa foi mantida na comemoração do 12° aniversário desta Instituição, transformando-se

assim em tradição. Este ano, ao completar 14 anos de existência, estamos publicando nova edição especial,

com as visões de um grupo de especialistas sobre a instigante questão: “O Brasil e a agenda global”.

O motivo da escolha desta linha temática está claro. O Brasil, nos últimos anos, vem conquistando

posição de maior proeminência no cenário internacional, o que tem refletido na curiosidade e interesse de interlocutores externos - think tanks, delegações diplomáticas, universidades e pesquisadores, centros de relações internacionais e, até mesmo, a imprensa estrangeira - em conhecer mais sobre o País e sua atuação internacional.

Também na sociedade brasileira, o estudo de questões afetas à agenda externa, ganha cada vez mais adeptos. É visível o surgimento de novos cursos de Relações Internacionais e a grande participação de estudantes e empresas, entre outros, nos eventos promovidos pelo CEBRI.

Sob tal inspiração, organizamos a presente publicação, buscando cobrir uma diversidade de aspectos presentes na ordem do dia no cenário internacional, tendo como elemento de ligação a análise das posições brasileiras nessas áreas.

As contribuições recebidas para essa edição especial vão de comentários à política externa brasileira a pontos de vista sobre tópicos específicos como cambio, crise na zona do euro, investimentos das empresas brasileiras no exterior, Organização Mundial do Comércio, energia nuclear, meio ambiente - Rio +20 e Código Florestal - entre outros.

Com a valiosa ajuda e expertise dos Conselheiros e Colaboradores do CEBRI, esperamos ter contribuído para a realização de nossa missão de promover o debate e difundir o conhecimento sobre Relações Internacionais em alto nível.

Fatima Berardinelli Arraes de Oliveira

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Diretora

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Aluisio de Lima-Campos

Brazil and Predatory Currency Misalignments

Aluisio de Lima-Campos 1

Currency misalignments (CMs), as expressed by the difference between an actual exchange rate

and its estimated equilibrium rate, are not the only problem affecting the competitiveness of Brazilian

exports. There is widespread recognition in Brazil that other factors, such as deficient infrastructure in

the transportation sector, high taxes and interest rates, among others, are also culprits and need to be

addressed. These are domestic factors and their solution is dependent solely on actions by Brazilians,

government and private sectors alike. On the other hand, misalignments of foreign currencies are beyond

Brazil’s control and not influenced by its national policies. Although Brazil can deal with the negative

impacts of CMs in the balance of trade through domestic policy interventions, it risks openly going

against the multilateral trade liberalization process by doing so. Thus, a solution to the misalignment

problem must be international or multilateral in nature.

As far as international trade is concerned, my argument is that the most predatory type of CM

is a significant undervaluation, kept in place for an extended period of time, beyond what would be

required to correct specific economic imbalances and unjustified by the undervaluing country’s economic

fundamentals. Under normal foreign exchange market conditions, such undervaluations can only be

explained by direct or indirect governmental currency manipulation. In other words, if all pertinent

1 Chairman of the ABCI Institute and adjunct professor of the Washington College of Law, American University.

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Brazil and Predatory Currency Misalignments

economic indicators are positive in a particular country, this country’s currency, under normal market

conditions, would most likely tend to appreciate overtime, not stay depreciated for a long period. In this

case, one could say that the aim of the government’s manipulation is to improve its balance of trade

(BOT) by both gaining unfair advantage for its exports, as if injecting steroids into an Olympic athlete

to help him/her win the race, and increasing barriers to its imports at the same time.

Some other definitions of what constitutes predatory undervaluation or misalignment are worth

mentioning. According to the International Monetary Fund (IMF), a currency is misaligned when a

persistent, sizeable and one-way intervention exists. This is too broad and does not differentiate between

predatory and other types of CMs. Section 3004 of the Omnibus Trade and Competitiveness Act of

1988 requires the U.S. Treasury to determine if any country with global current account and significant

bilateral trade surpluses with the U.S. is found to be manipulating the rate of exchange between their

currency and the dollar for the purposes of preventing effective balance of payments adjustments or

gaining unfair competitive advantage in international trade. If the U.S. Treasury concludes in the

affirmative, which it never does, expedited negotiations, through the IMF or bilaterally, are to be

initiated. J. Gagnon, from The Peterson Institute of International Economics (PIIE), defines extreme

manipulators as countries that have foreign exchange reserves that are greater than the value of six

months of goods and services imports; have an average current account balance (as a percent of GDP)

between 2001 and 2011 that is greater than zero and have increased their reserve stocks relative to their

GDP over the past 10 years. There are, of course, other definitions, but yet no multilateral consensus.

The negative effects of predatory CMs on trade have been demonstrated in at least two excellent

research studies. One is by the School of Economics of Fundação Getúlio Vargas (São Paulo - 2012),

which demonstrates that import tariff protection levels, duly negotiated at the World Trade Organization

(WTO), are eroded to the point of becoming negative in what I would call not-undervalued-currency

(NUC) countries. It also shows that import tariff protection levels are increased, even beyond the limits

of WTO bound rates, in undervalued-currency (UC) countries. Another paper by Mattoo, Mishra

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Aluisio de Lima-Campos

and Subramanian (PIIE, March 2012) looks into the “spillover effect”. It suggests that, on average, a

10 percent appreciation of China’s real exchange rate boosts a developing country’s exports of a typical

4-digit Harmonized System (HS) product category to third markets by about 1.5 to 2 percent.

Brazil is pushing for a multilateral solution at the World Trade Organization (WTO). As proposed

in September of 2011, the Brazilian initiative was comprised of three steps. The first was a review

of the literature available on the subject, which was done by the WTO secretariat on October 2011

(Staff Working Paper ERSD-2011-17). Second, a two-day seminar to discuss the subject of currency

misalignments and trade, which was held in Geneva in March 2012. The focus of the latter, however,

was more on “stock taking” rather than on “what can be done”, which given the political sensitivities was

not unexpected. It was supposed to be an open meeting, with broad participation, which unfortunately

was not, reportedly at the request of China and the U.S. Third, a discussion of proposals to tackle the

problem, which is still to take place. A paper with Brazilian suggestions for a solution is to be presented

in the next meeting of the WTO’s Working Group on Trade, Debt and Finance, sometime in the second

half of 2012. The idea is to keep the discussion going at the WTO until a solution is reached.

As demonstrated by the difficulties in the Doha Round of negotiations, any consensus on a

negotiated solution in the WTO for the CM problem is bound to be a long-term proposition, especially

if it involves a new agreement or changes in existing rules. If this is so, what are governments and affected

industries to do in the meantime? Right now, in the absence of a clear guideline from the WTO on how

to deal with this problem, NUC countries are getting creative with questionable unilateral trade barriers

and/or currency wars, both undesirable from an economic perspective. Under these circumstances, I

have been suggesting that a better alternative would be a complementary second track approach to take

care of short and medium term situations that, if well designed and implemented, can even aid in a

negotiated solution at the WTO. It calls for the use of trade remedies, specifically countervailing duties

(CVDs).

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Brazil and Predatory Currency Misalignments

The proposal is laid out in detail in the article “A Case for Currency Misalignments as

Countervailable Subsidies” (Journal of World Trade, 46:5, 2012). It advocates that predatory CMs (not

every CM) can be treated as prohibited subsidies under the Agreement of Subsidies and Countervailing

Measures and be subject of a petition to the Brazilian investigating authority (DECOM) at the Ministry

of Development Industry and Trade. Predatory CMs are prohibited subsidies because they are contingent

upon exports – the benefit only accrues to exporters if there is exportation. An injury test and a causal

relationship between the injury and the subsidized imports would be required to impose a CVD.

There has been resistance to this approach on what could be considered very shaky grounds. One

is that the trade remedies agreements (antidumping and countervailing duties) of the WTO make no

mention of currency misalignments or exchange rates, which implies that they cannot be used to deal

with CMs. Another is that if such a case ends up in a dispute settlement panel the judges will tend to

be very conservative, implying that a CVD based on CMs would not be acceptable by the panel. With

regard to both of these concerns, I would cite professor Luiz Olavo Baptista, former chairman of the

Appellate Body, who reminded everyone at a recent seminar in São Paulo, that there is very little or no

mention in the agreements of “health”, “environment”, “dolphins” or “turtles” either, but the dispute

settlement body was able to interpret the agreements and come up with a decision in these novel cases.

Novel cases are riskier by nature; they are more difficult to prove. The Brazilian case against

U.S. cotton subsidies is a good example. It was the first and only case to challenge the “peace clause”,

which granted developed countries “carte blanche” to subsidize their agricultural products as long as

they did not go over a predetermined value limit. At the time, this was viewed as an insurmountable

barrier for bringing the cotton case to fruition. Even when the numbers revealed that the United States

had subsidized beyond that limit there still was concern on the Brazilian side that a panel would decide

against Brazil. This case turned out to be a successful one because its inherent difficulties were not

allowed to become impediments at the end of the day.

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Aluisio de Lima-Campos

There are benefits in following a two-track approach: first, a well prepared CVD case can put

pressure on negotiators to expedite a consensus solution at the WTO; second, even the threat of a CVD

case may remove negotiating obstacles; third, a CVD case can aid in providing ideas for a negotiated

solution at the WTO; and fourth, if it is reviewed by a WTO panel, it narrows the focus of the analysis to

technical issues while reducing the opportunities for political influence. In addition, NUC governments

will have in a CVD investigation a ready legal instrument to compensate an injured domestic industry,

under due process, which is a better alternative than “ad hoc” unilateral trade barriers that could be

clearly challenged at the WTO.

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O Brasil e a Crise Econômica Internacional

O Brasil e a Crise Econômica Internacional

Carlos Eduardo Freitas 1

A economia mundial é impulsionada por três turbinas. Com a recidiva da crise internacional, a

primeira e mais importante delas – a economia americana – está trabalhando a meio vapor. A turbina

número 2, a União Europeia, está praticamente parada. A turbina número 3 – a China – que não

enfrentou crise alguma, mas cuja potência depende das outras duas, dá sinais de perda de empuxo.

Usando o referencial da crise da dívida externa latino-americana de 1982, podem-se caracterizar

para efeitos didáticos, três etapas nas trajetórias de recuperação dessas turbulências econômicas, como

segue 2 :

a) Fase I, em que o objetivo é manter-se à tona no período agudo, isto é, não permitir que a

crise saia de controle e a economia degringole;

b) Fase II: depois que a crise se cristaliza, trata-se de reequilibrar a economia preparando-a

para novo ciclo de expansão;

c) Fase III: resolvida a crise, chega o momento de ganhar produtividade, voltando-se a

pensar no crescimento econômico.

As estatísticas mostram a economia americana recuperando-se gradualmente. A dívida do governo

cresceu muito para evitar a degringolada pós-erupção da gigantesca bolha imobiliária, e será necessário

1 Consultor Independente de Assuntos Econômicos em Brasília e Conselheiro Efetivo do Conselho Regional de Econo- mia do Distrito Federal (CORECON/DF). Ex-Diretor do Banco Central na Área Externa e na Área de Liquidações e Desestatização. 2 Não necessariamente as Fases se sucedem cronologicamente. Há superposições da Fase I com a II e dos momentos mais avançados da Fase II com a Fase III.

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Carlos Eduardo Freitas

mais tempo para sua redução. Os Estados Unidos se encontram no que seria a Fase II da trajetória de

saída da crise. A flexibilidade do sistema econômico americano, associada à vanguarda daquele país em

matéria de ciência e tecnologia, milita a favor de uma retomada mais rápida da prosperidade econômica

na Fase III.

A crise europeia é mais complicada. Ainda se encontra na Fase I, pois não conseguiu, até agora,

sair de um renitente período agudo. A zona do euro não é um estado propriamente dito, nem uma

confederação e muito menos uma federação, o que dificulta a implementação de medidas de sustentação

e de reequilíbrio.

O temor de que uma reestruturação formal da dívida dos países mais afetados possa desencadear

uma crise bancária em cadeia parece ser o fator que vem inibindo o encaminhamento de soluções do

tipo que foi usado na América Latina em 1982/1983. Lá, os países saíam temporariamente do mercado

financeiro e passavam a girar suas dívidas administrativamente, junto a comitês de credores, sob a

supervisão do FMI, com apoio do Federal Reserve e do Bank of England.

Essa estratégia evitava pagamento de juros exorbitantes e abria uma janela temporal para o

reequilíbrio das economias endividadas e para capitalização dos bancos.

No caso europeu, o reequilíbrio e a capitalização dos bancos têm de ser praticamente concomitantes

às medidas de socorro financeiro imediato, porque se pretende que os países continuem girando suas

dívidas em mercado. Esse giro não é feito sem dificuldades e demanda intervenções sistemáticas do

Banco Central Europeu (BCE). Daí a percepção permanente de iminência de desastre que é transmitida

pelo noticiário on line da mídia.

Reequilibrar uma economia em crise é exercício sempre doloroso, porque envolve reduções de

preços – salários e margens

– que se elevaram excessivamente durante a euforia. A taxa de câmbio

real é o principal balizador desses preços. Ela precisa ser desvalorizada para trazer salários e margens

aos respectivos níveis de equilíbrio. A experiência mostra que fazer isso mediante flutuação da taxa de

câmbio nominal é mais simples de administrar do que conduzir uma política de redução nominal de

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O Brasil e a Crise Econômica Internacional

salários e preços, mantendo fixa a taxa de câmbio nominal. Mas, o problema é que os países do euro

não têm moeda própria para flutuar – tudo se passa como se operassem com uma moeda estrangeira e,

por conseguinte, só têm um caminho para desvalorizar sua “taxa de câmbio real”, que é gerenciar uma

política de redução nominal de salários e preços internamente.

Dolorosa que seja tal política, tudo indica ser essa a opção dos países endividados aliás, confirmada

nas eleições gerais da Grécia de 17 de junho último.

Em resumo, a Europa deve demorar a chegar à Fase III e voltar a a crescer. E isso, abandonando-

se a hipótese apocalíptica de ruptura desordenada da zona do euro.

A economia chinesa adotou o modelo de crescimento voltado para as exportações, que, combinado

à sua elevadíssima taxa de poupança interna, resultou em vultosa acumulação de investimentos no

exterior (reservas internacionais de US$ 3.240 bilhões em junho/2012 3 ).

Entretanto, a estratégia está sentindo o impacto da desaceleração americana e europeia. Porém,

a China tem espaço para substituir parte do investimento no exterior por absorção doméstica (consumo

mais investimento interno), sustentando o nível de sua demanda agregada. Ao mesmo tempo, essa

mudança de foco seria de todo positiva para alavancar a recuperação da economia mundial. O problema

é se o governo chinês desejará e conseguirá fazer um movimento nesse sentido, uma vez que parte

importante de seu parque produtivo está voltada para o mercado externo. De qualquer forma, essa

mudança eventualmente terá de ocorrer, até por razões sócio-políticas. Porém, isso pode demorar.

Em resumo, uma expectativa razoável seria de que a economia chinesa continuasse a ostentar

taxas de crescimento ainda elevadas, mas, possivelmente, em patamares mais baixos que os observados

no passado recente 4 .

3 WEB, Wikipedia, List of States by Foreign Exchange Reserves, “Bloomberg China Monthly Foreign Exchange Re- serves”, Bloomberg 2012-03-31 Retrieved 2012-07-05. 4 O FMI está prognosticando 8% e 8,5% de crescimento do PIB chinês, respectivamente, em 2012 e 2013, contra 10,4% e 9,2%, observados em 2010 e 2011.

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Carlos Eduardo Freitas

Disso tudo decorre a perspectiva de meia década de expansão modesta da economia mundial,

com as turbinas 1 e 3 operando a meia força e a turbina nº 2 em baixa rotação. E este poderia ser visto,

inclusive, como cenário otimista.

O Brasil conduziu bem a Fase I na crise de 1982 e chegou a esboçar um processo de reequilíbrio

macroeconômico. Entretanto, a Fase II foi interrompida pela mudança do governo em 1985, e em seguida,

totalmente paralisada pela Constituição de 1988, que estruturou um sistema econômico socialmente

muito ambicioso, exigindo carga tributária elevada. A riqueza do país é insuficiente para conciliar os

mandamentos da Constituição com investimento elevado, e, por conseguinte, o potencial de expansão

do PIB diminuiu.

Afinal, em 1994, o Brasil assinou os acordos definitivos da dívida externa oriunda da crise de

1982, embora sem a benção do FMI, porque os fundamentos fiscais não seriam suficientemente fortes.

De fato, o processo de reequilíbrio macroeconômico só se completou em 2002, e assim mesmo alguns

passos ficaram faltando. Contudo, pouco pôde ser feito relativamente à Fase III, isto é, aos aumentos de

produtividade para recuperar o potencial de crescimento econômico.

Entretanto, embalado pelo vento de cauda da subida dos preços das commodities o PIB alcançou

taxa média de crescimento de 4,2%a.a. no período 2006/2011. Mas, a crise europeia recrudesceu e

registra-se, neste 1º semestre de 2012, uma desaceleração generalizada. Em consequência disso, o vento

de cauda dos ganhos nos termos do intercâmbio deverá ser substituído por certa calmaria, se não por

algum vento de proa.

Assumindo nosso cenário de meia década à frente de expansão modesta da economia mundial, o

ambiente econômico internacional deve se mostrar neutro do ponto de vista brasileiro. Pode-se esperar

que as relações de troca se mantenham mais ou menos estáveis aos níveis atuais, o que não seria de todo

mal, pois significaria um patamar 30% acima do que prevaleceu no período 1999/2005. Deverá haver

liquidez internacional suficiente, e eventualmente até mais do que suficiente, para irrigar a economia

brasileira com investimentos externos necessários à complementação da baixa poupança doméstica.

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O Brasil e a Crise Econômica Internacional

Entretanto, o padrão de 4,2%a.a. de média de crescimento observado nos seis anos de 2006 a

2011 deverá reduzir-se para um potencial mais próximo de um comportamento histórico, como, por

exemplo, o refletido na média de crescimento observada nos vinte anos de 1993 a 2012, consideradas as

seguintes razões:

a) O

período

inicia-se

quando

macroeconômico no Brasil;

ganham

momentum

as

medidas

de

reequilíbrio

b) Alterna períodos favoráveis com quadros desfavoráveis da conjuntura internacional,

embora ,no todo, a economia mundial tenha sido amigável à prosperidade brasileira;

c) Parece assim, uma fase da história brasileira apropriada para sugerir um potencial de

crescimento compatível com uma economia mundial que anda de lado, e com uma economia brasileira

que avançou bastante no processo do equilíbrio macroeconômico, mas falta um pedaço no que concerne

a reformas de ganhos de produtividade.

A taxa média de crescimento do PIB de 1993 a 2012 6

foi de 3,3%a.a. Parece, assim, razoável

se pensar em numa taxa potencial de crescimento da economia brasileira para os próximos cinco anos

entre 3,0% e 3,5%a.a

O FMI é mais otimista e enxerga um potencial de 3,75% a 4,25% para o

crescimento anual do PIB. Segundo ele próprio, o Banco Central seria ainda mais otimista, colocando

uma expectativa de expansão potencial do PIB entre 4,5% e 5,5% 7 .

Evidentemente, mudanças de curso no cenário mundial em relação à hipótese aqui assumida,

como também da direção das políticas econômicas do governo brasileiro poderiam alterar a previsão.

5 Assumiu-se crescimento do PIB de 1,8% em 2012, conforme estimativa do IBRE/FGV.

6 Valor, 24/7/2012, C14. Reportagem sobre o Relatório do FMI sobre a economia brasileira (art. IV do Convênio Constitutivo).

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Demétrio Magnoli

Da Crise do Euro à Crise da União Europeia

Demétrio Magnoli 1

A União Europeia é o fruto de dois intercâmbios entre França e Alemanha, separados por quatro

décadas. No primeiro, em 1951, a Alemanha cedeu a supremacia sobre a siderurgia – a fonte última do

poder militar – no altar de sua admissão ao concerto de uma Europa reinventada. No segundo, em 1991,

a Alemanha cedeu a soberania sobre a sua moeda, compartilhando-a com a França, em nome do direito à

reunificação. “Metade do marco para Miterrand; a Alemanha inteira para Kohl”, disseram os cínicos. O

euro almejava dissolver o espectro da “Europa alemã” na solução da “Alemanha europeia”. Ironicamente, a

crise do euro evidenciou a consolidação de uma “Alemanha europeia” – mas na moldura inesperada de uma

“Europa alemã”. O arranjo instável, desequilibrado, ameaça o edifício construído por Monnet, Schuman e

Adenauer no imediato pós-guerra.

A crise do euro não foi um raio no céu claro. Desde a introdução da moeda única, ao longo de

uma década, alargou-se o diferencial de produtividade entre a Alemanha e os países da periferia da Zona

do Euro. A democracia alemã, com sua notável capacidade para produzir consensos abrangentes, restaurou

a competitividade da “economia social de mercado”, por meio da articulação dos dois grandes partidos em

torno de um programa de flexibilização do mercado de trabalho e de participação dos sindicatos na gestão

das empresas. Em contraste, a França e, especialmente, os países do sul da Europa conservaram a rigidez de

seus mercados de trabalho. A conta chegou na hora da crise financeira global, evidenciando o esgotamento

de um modelo que ocultou as assimetrias reais sob as máscaras financeiras do crédito e da dívida.

1 Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana, é integrante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional da USP (GACINT-USP), colunista de O Estado de S. Paulo e O Globo e comentarista de política internacional do Jornal das Dez da Globo News.

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Da Crise do Euro à Crise da União Europeia

A integração assimétrica, expressa nos enormes saldos positivos de conta-corrente do intercâmbio

da Alemanha com a Zona do Euro, serviu aos interesses de todos os participantes do sistema. Numa ponta,

a máquina exportadora da economia alemã, vergada sob o peso da incorporação da RDA na paridade

cambial artificial decidida por Kohl, retomou seu dinamismo graças aos mercados quase cativos da Europa.

Na outra, os níveis de renda e consumo nos países periféricos cresceram à custa da elevação acelerada do

endividamento público e privado.

Não há solução estrutural para o impasse sem a restauração prévia da verdade econômica. No quadro

restritivo da união monetária, só há dois caminhos para restaurá-la: uma deflação impiedosa nos países

endividados ou uma inflação de rendas e preços na Alemanha. A inflexível opção do governo de Merkel

pelo primeiro caminho reflete tanto as percepções impressionistas do eleitorado sobre o comportamento

dos países endividados quanto o trauma histórico da hiperinflação alemã da década de 1920. Contudo, o

resultado dessa opção é o esgarçamento do tecido político da própria União Europeia.

Sarkozy figura como vítima mais recente de um fenômeno que devasta os sistemas políticos nacionais

na União Europeia: por doze vezes consecutivas, os partidos no governo foram derrotados pelos partidos de

oposição. Na Itália, um governo não-eleito escancara a crise de legitimidade. Na França, a Frente Nacional

ameaça se converter no núcleo da oposição. Na Grécia, os dois partidos tradicionais experimentam um

cenário próximo ao do colapso eleitoral. A perspectiva de uma prolongada depressão econômica tensiona as

democracias, gerando forças centrífugas de extrema-esquerda e extrema-direita orientadas por plataformas

anti-europeias.

Se, no plano nacional, a receita alemã abala os equilíbrios políticos e sociais, num plano mais amplo

ela provoca a erosão do concerto supranacional da União Europeia. Na sua “etapa heroica”, o projeto

europeu nutriu-se do espectro do “expansionismo soviético”. A incorporação dos países do antigo bloco

soviético encerrou aquela etapa, o que implicou na mudança do foco da legitimidade para a promessa

de prosperidade e bem-estar social. A saída deflacionária formulada por Merkel desmancha esse alicerce

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Demétrio Magnoli

político da Europa. O crescimento dos nacionalismos, nas suas versões de direita e de esquerda, é o sintoma

mais evidente da gangrena do concerto europeu.

O sentido voluntarista da política de Merkel foi expresso num diálogo travado entre a chanceler

alemã e o ex-premiê grego Papandreou, no momento da imposição à Grécia do plano de austeridade. Face

a um pedido de relaxamento dos termos do acordo, a chanceler retrucou que sua intenção era assegurar-se

de que nenhum outro governo europeu quereria receber um resgate financeiro. Não funcionou: Irlanda e

Portugal, mesmo a contragosto, provaram do mesmo copo envenenado, que provavelmente será servido à

Espanha.

O fracasso econômico da austeridade extremada já foi demonstrado na prática. Hoje, contudo,

assiste-se ao esgotamento político do “plano Merkel”. À frente do Banco Central Europeu, Mario Draghi

conduz um experimento de quantitative easing que ainda não envolve o resgate direto de dívidas públicas

nacionais. Na Espanha, Rajoy ameniza, unilateralmente, o aperto financeiro definido pelo pacto fiscal

europeu. Na França, crucialmente, Hollande exige a renegociação do pacto fiscal e um “reequilíbrio”

político na União Europeia – uma senha de contestação da liderança hegemônica de Merkel. No círculo

ampliado do G-8, Obama alinha-se com Hollande e proclama que as prioridades da Europa devem ser o

“crescimento” e o “emprego”. A mudança de rumo está em curso, mas resta saber se não é tarde demais.

Mesmo se a União Europeia conseguir evitar uma catástrofe econômica, a Europa ingressa em

profunda recessão, que acarretará anos de estagnação. O fenômeno encerra a “etapa chinesa” da globalização,

que se baseou no forte contraste entre o comportamento da conta-corrente da China e o do conjunto

Europa/Estados Unidos. Efetivamente, como já se verifica, reduzem-se os mercados para as exportações

chinesas, o que tende a produzir um recuo significativo nas taxas de crescimento da potência asiática e na

sua demanda de commodities.

A economia brasileira, como a de outros países emergentes, surfou durante quase uma década na

onda de investimentos gerada, direta ou indiretamente, pela expansão da China. Agora, todo o cenário

mudou – para pior.

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A Importância do Uso Estratégico da Propriedade Intelectual

A Importância do Uso Estratégico da Propriedade Intelectual

Denise Gregory 1

Na era da informação, do conhecimento e do crescimento vertiginoso e sem precedentes das

trocas comerciais de bens e serviços, assume igual velocidade a demanda por direitos de Propriedade

Intelectual (PI). Os ativos em PI: patentes, marcas, desenhos industriais e software são bens intangíveis

que adquirem cada vez mais importância como indicadores do conhecimento e do desenvolvimento

tecnológico dos países.

Ao se acirrar a competição entre as empresas, possui mais vantagem quem está na vanguarda

tecnológica, quem protege seu conhecimento e quem reconhece que processos e produtos exclusivos

agregam valor e podem gerar riqueza. Inovação não existe sem proteção! Os Direitos de PI - a propriedade

industrial e o direito de autor- asseguram tanto posição jurídica, a titularidade, quanto posição econômica,

a exclusividade. A proteção permite ao titular privilégio para a utilização do seu invento no país onde ele

está protegido. Permite ao dono a exclusividade de processo industrial de produção, de comercialização de

seu bem ou serviço, de sua marca, de signo distintivo ou de sua obra literária. A patente ou o registro confere

ao titular, o direito de impedir que um terceiro use, produza, venda ou importe sem seu consentimento. O

dono pode explorar seus direitos ou transferi-los a terceiros, por meio de contratos de licença, o que permite

a construção de parcerias tecnológicas. Ativos de PI são fundamentais para a maior inserção internacional

do país, e para a conquista de espaço no mercado global pelas empresas brasileiras.

1 Diretora de Cooperação para o Desenvolvimento do INPI

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Denise Gregory

O Brasil figura entre os primeiros países do mundo a regular Direitos de PI. Data de 1809 o Alvará

de Dom João VI de concessão de exclusividade aos inventores de novas máquinas, como um beneficio a

industria e às artes. Somos signatários dos principais instrumentos jurídicos do Direito Internacional que

estabeleceram parâmetros contemporâneos de proteção e de respeito a esses direitos.

Cabe, igualmente, destacar o protagonismo histórico brasileiro no campo cientifico, com instituições

seculares, como os Institutos Butantã e Manguinhos, ainda hoje na elite da pesquisa. São esplêndidos e

conhecidos os resultados alcançados a partir das ações de estimulo à pesquisa, à produção cientifica, à

formação de mestres e doutores (com a Capes e o CnPQ), bem como ações de financiamento e fomento

(com as Fundações de Pesquisa e a FINEP). O Brasil ocupa a honrosa 13ª posição no mundo em número

de artigos publicados, o que corresponde a 3% do total mundial. O mesmo, no entanto, não se verifica no

campo patentário. O total de depósitos de patentes por residentes é muito baixo, não correspondendo ao

desenvolvimento científico, levando-nos a afirmar que se converte pouco conhecimento em inovação.

Em recente discurso, a Presidente Dilma Roussef destacou o número de depósitos de patentes como

o mais relevante indicador do impacto da evolução econômica de uma nação. Ela afirmou que temos de

medir nossa capacidade de formação e, sobretudo da nossa meritocracia, no que se refere ao processo de

inovação e tecnologia em patentes, e não em artigos científicos apenas. Continuou afirmando que o Brasil

tem de valorizar o cientista, o tecnólogo e o inovador, uma vez que temos de ter pessoas capazes de gerar

patentes no país, e assumiu o compromisso de modernizar o Instituto Nacional da Propriedade Industrial

– INPI. O Instituto é o responsável pela proteção, pela concessão dos direitos de PI e pela promoção e

fomento à geração da PI, e vem ampliando e aperfeiçoando seus quadros e sua estrutura, com a automação

dos seus servicos (e-marcas e e-patentes).

Por conta do importante acervo e acesso a bases patentárias, o INPI é, por vezes, referido como o

Banco Central do conhecimento. Estima-se que 75% do conhecimento tecnológico do mundo está contido

apenas nos bancos de patentes. As informações ali contidas permitem conhecer o estado da técnica, fazer

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A Importância do Uso Estratégico da Propriedade Intelectual

um mapeamento da rota tecnológica de determinado setor, verificar se a patente foi concedida no país e se

já caiu em domínio publico; o que, por sua vez, permite encontrar oportunidades para seu uso e exploração.

Um dos maiores desafios da Instituição é divulgar e disponibilizar essas informações à sociedade.

É bem recente a articulação no governo federal entre as políticas industrial, tecnológica e de

comercio exterior, tendo como eixo central o fomento à inovação. O recém lançado Plano Brasil Maior, a

nova política industrial, traz como sub-titulo “Inovar para competir. Competir para crescer”. Também cabe

ressaltar o nível de maturidade e compreensão, a respeito da importância do uso estratégico de PI, pelo setor

privado. A Propriedade Intelectual é o ponto número um da agenda empresarial da inovação, dentre dez

pontos prioritários para o Brasil inovar e competir. A agenda foi lançada em 2011 pelo movimento da CNI

conhecido como MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação).

O crescimento do numero de pedidos de depósitos de patentes e de registros de marcas é exponencial

em todo o mundo, o que torna a demora no exame, o chamado backlog, um problema mundial. Os números

referentes a pedidos de patentes já ultrapassaram a casa de um milhão em 2011, nos EUA e na China.

No Brasil, o INPI recebeu cerca de 32 mil pedidos de patentes e 155 mil pedidos de marcas. O sistema

internacional de PI trilha um caminho de cooperação entre os escritórios nacionais responsáveis, na busca

de alternativas de solução para o backlog e aceleração do exame de pedidos.

Os cinco mais importantes Escritórios do mundo: EUA, Europa, China, Japão e Coréia do Sul, se

articulam no chamado IP 5, buscando entendimento de caráter operacional nos campos da classificação,

documentação, estatística e procedimentos comuns , bem como de caráter colaborativo. Também proliferam

arranjos regionais, a exemplo do ASEAN Group e do Vancouver Group. Mas é na América do Sul que

avança rapidamente o projeto de integração denominado PROSUL (PROSUR), que reúne Argentina,

Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname e Uruguai. O objetivo é melhorar os serviços

prestados pelas oficinas de PI, por meio do desenvolvimento de uma plataforma comum de integração,

um Portal Sul-Americano de Serviços de PI e de Informação Tecnológica da instituição do Registro Sul-

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Denise Gregory

Americano de Marcas e de Indicações Geográficas, bem como do Exame Colaborativo de Patentes. Está

sendo criado um ambiente de confiança entre os examinadores de patente da região, onde o ganho é a

utilização do trabalho já feito pelo escritório parceiro.

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A “Responsabilidade de Proteger” e “ao Proteger”:

breve histórico e alguns esclarecimentos

A “Responsabilidade de Proteger” e “ao Proteger”:

breve histórico e alguns esclarecimentos

Eduarda Passarelli Hamann 1

Breve histórico

A “responsabilidade de proteger” (R2P) foi oficialmente inserida no âmbito da Organização das

Nações Unidas (ONU) por meio do Documento Final da Cúpula Mundial de 2005 (“Documento

Final de 2005”), aprovado por consenso por chefes de Estado e de governo 2 . Uma de suas principais

contribuições é pôr fim a algumas discussões da década de 1990 acerca dos limites materiais da

intervenção militar por motivações humanitárias. Nele, afirma-se que a R2P se refere a apenas quatro

crimes: genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e limpeza étnica. Outra importante

contribuição diz respeito à prevenção, princípio que permeia todo o conceito – tanto a responsabilidade

que cada Estado tem de proteger populações, como a da comunidade internacional, ao apoiar os Estados

no exercício de sua responsabilidade.

1 Eduarda Passarelli Hamann é advogada, tem mestrado e doutorado em Relações Internacionais e coordena o Programa de Cooperação Internacional do Instituto Igarapé (www.igarape.org.br).

2 Para o Documento Final de 2005, ver A/RES/60/1 (24 out. 2005), disponível em: <www.un.org/Docs/asp/ws.asp?m=A/ RES/60/1>. O conceito de “R2P” foi criado alguns anos antes, em dezembro de 2001, com o relatório da International Comission on Intervention and State Sovereignty, comissão externa à ONU, integrada por 12 especialistas de diferentes nacionalidades e financiada pelo Canadá (disponível em <responsibilitytoprotect.org/ICISS%20Report.pdf>). Na ONU, as discussões avançaram em dezembro de 2004 com o Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças, criado pelo então Secretário-Geral do organismo, Kofi Annan - ver A/59/565 (02 dez. 2004), disponível em: <www.un.org/ secureworld/report.pdf>).

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Eduarda Passarelli Hamann

Coube ao Secretário-Geral da ONU (SGNU) refletir sobre a implementação da R2P em um

relatório de 2009 3 que, entre outras coisas, reorganiza a discussão em três pilares. Tal relatório, além de

detalhar o texto do Documento Final de 2005, foi relativamente bem recebido pelos Estados-membros 4 .

Segundo ele, o Primeiro Pilar reforça o entendimento de que cada Estado tem a responsabilidade

primária de proteger suas populações. O Segundo Pilar prevê que a comunidade internacional tem a

responsabilidade de recorrer a meios diplomáticos, humanitários e outros meios pacíficos que sejam

adequados para proteger populações em apoio aos Estados envolvidos. O Terceiro Pilar enfatiza que,

quando as autoridades nacionais realmente fracassarem, ou quando os meios pacíficos se mostrarem

inadequados, a comunidade internacional poderá recorrer à ação coletiva, de maneira decisiva e oportuna,

por meio do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), de acordo com a Carta da ONU,

analisando-se cada caso. Esses são os parâmetros previstos pelo Documento Final de 2005, reforçados

posteriormente pelo relatório do SGNU.

A complexidade do Terceiro Pilar

O Terceiro Pilar é o mais controverso e, de maneira incorreta, tem sido frequentemente equiparado,

em sua integridade, ao uso da força ou à intervenção militar unilateral 5 . Uma análise dos documentos que

fundamentam a R2P e da própria Carta da ONU demonstra que esse pilar é muito mais abrangente, por

pelo menos três razões.

Primeiro, a prevenção está presente no Terceiro Pilar com a mesma intensidade que nos outros

dois Pilares, o que abre um leque de possibilidades para ação coletiva não-coercitiva sob os Capítulos VI

(Art. 33) e VIII (Art. 52) da Carta da ONU. Como exemplos, há missões de investigação, mediação,

3 Ver A/63/677 (12 jan. 2009), disponível em: <www.un.org/Docs/journal/asp/ws.asp?m=a/63/677>.

4 Alguns países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, resistem ao uso da força sob o Terceiro Pilar e não ao Terceiro Pilar em sua integridade – por receio de agendas escusas. 5 ICRtoP. “Clarifying the Third Pillar of the Responsibility to Protect: Timely and Decisive Response”. 20 set. 2011. Disponível em: <http://responsibilitytoprotect.org/Clarifying%20the%20Third%20Pillar%20of%20the%

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A “Responsabilidade de Proteger” e “ao Proteger”:

breve histórico e alguns esclarecimentos

bons ofícios, meios judiciais, recurso a organismos regionais e outros arranjos pacíficos à escolha dos

envolvidos. A autoridade para fazê-lo não se restringe ao CSNU: outros órgãos do Sistema ONU,

organismos regionais (Cap. VIII) ou grupos de Estados podem fazê-lo. Essa abordagem mais abrangente

é bastante defendida pelo Brasil 6 .

Segundo, a adoção de medidas sob o Capítulo VII não equivale ao uso da força, tal Capítulo

também contém dispositivos como o Art. 41, que versa sobre ações coletivas “menos coercitivas”, a

serem aprovadas pelo CSNU. Entre elas, destacam-se a ruptura das relações diplomáticas, a imposição

de embargos econômicos e a aprovação de operações de manutenção da paz robustas. Além disso, o

emprego de militares tampouco equivale ao uso da força. Com frequência, militares são desdobrados

para missões de manutenção ou de consolidação da paz (Cap. VI ou VII) como assessores, analistas e

observadores – sempre desarmados. Ou seja, a adoção de medidas não coercitivas e menos coercitivas é

uma possibilidade real de operacionalização do Terceiro Pilar e tem sido bem aceita pelo Brasil 7 .

Por fim, há a referência, no Terceiro Pilar, ao uso da força em operações de R2P, ou seja, ao

emprego de tropas, em nome da comunidade internacional, para proteger populações dos quatro crimes

prescritos pela R2P. Essas, sim, são ações coletivas coercitivas e estão previstas nos Capítulos VII (Art.

42) e VIII (Art. 53) da Carta da ONU. Devem ser analisadas a cada caso e necessariamente aprovadas

pelo CSNU, ainda que sejam executadas por um organismo regional ou coalizão. Fica evidente que o

uso da força é apenas uma parte do Terceiro Pilar, a que se recorre somente depois de esgotadas todas

as outras possibilidades. O Terceiro Pilar, portanto, não pode ser reduzido ao uso da força, sob pena de

neutralizar politicamente a R2P e de dificultar o alcance do consenso em relação à sua implementação.

Sobre este aspecto, vale destacar que nem o Documento Final de 2005 nem o Relatório do SGNU de

6 Ver, p.ex., os seguintes discursos do Brasil, representados por Gelson Fonseca Jr. (10 jun. 1999), Henrique Valle (31 mar.2004) e Maria Luiza Viotti (23 jul. 2010 e 12 ago. 2010), disponíveis em <www.un.int/brazil/>.

7 Ver, p.ex., os discursos de Maria Luiza Viotti em discussões sobre R2P de 23 jul. 2010, 12 ago. 2010 e 12 jul. 2011, disponíveis em <www.un.int/brazil/>. Ver também Gelson FONSECA JR. “Dever de proteger ou nova forma de intervencionismo?”. Segurança Internacional: perspectivas brasileiras. Nelson Jobim, Sergio Etchegoyen e João Paulo Alsina (orgs.). Rio de Janeiro: FGV, 2010.175-192 (pág. 191).

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Eduarda Passarelli Hamann

2009 versam sobre princípios e critérios para orientar ou regular o uso da força em operações de R2P.

Coube ao Brasil, no final de 2011, dar o passo inicial nessa reflexão.

Operações de R2P sob a égide da “responsabilidade ao proteger”

A preocupação com a operacionalização do uso da força sob o Terceiro Pilar fez com que o Brasil

apresentasse uma nova expressão à ONU em 2011. A “responsabilidade ao proteger” (RwP), que tem

relação intrínseca com a tradição conservadora e com os valores legalistas e multilaterais da política

externa brasileira, resgata antigos princípios, parâmetros e critérios, sobretudo da teoria da guerra justa

e do Direito Internacional Humanitário, para orientar operações de R2P. Entre eles, destacam-se o

“uso da força somente como último recurso”, “proporcionalidade”, “não causar dano ou instabilidade”,

“autoridade” (CSNU) e “prestação de contas” (accountability) 8 . Se, por um lado, essa consideração retira

do Brasil parte do crédito pela inserção de um suposto “novo” conceito (que não seria tão novo assim),

por outro lado, a escolha de princípios e parâmetros já existentes facilita o consenso quanto à difícil

implementação do uso da força em operações de R2P.

A RwP, desde que lançada, suscitou várias discussões entre governos, organismos internacionais e

organizações da sociedade civil internacional e está em construção. No Brasil, pouco tem sido produzido

em termos analíticos, e o debate parece centralizado no Itamaraty, embora haja interesse por parte da

Presidência e do Ministério da Defesa, e da sociedade civil especializada, como institutos de pesquisa e

universidades. Independente do caminho que venha a trilhar, a reflexão sobre operações de R2P sob a

égide da RwP representa uma visão mais sistêmica do direito internacional, como almejado pelo Brasil,

e, com ela, o país contribui para a elaboração de novas normas que visam a regular, de maneira mais

coerente, ética e responsável, como se deve usar a força, em nome da comunidade internacional, para

proteger populações em pleno século XXI.

8 Ver A/66/551–S/2011/701 (11 nov. 2011), disponível em: <www.un.int/brazil/speech/Concept-Paper-%20RwP.pdf>.

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Understanding Brazil as a Global Trading Partner

Understanding Brazil as a Global Trading Partner 1 2

Maria de Fatima Berardinelli Arraes de Oliveira 3 Adriana de Queiroz 4 Leonardo Paz Neves 5 Renata Dalaqua 6 Andressa Maxnuck 7

After a few decades fighting against inflation, a combination of macroeconomic policies

implemented since the mid-nineties put Brazil in a different track. Benefiting from a scenario of high

international liquidity, the country succeeded well in its plans to redeem its external debt and to interrupt

the historical booms and busts behavior of its economic growth path. It was also during this period that

Brazil adopted measures to open its economy and liberalize trade. This new situation allowed the success

of a sequence of innovative public policies put into practice aiming to improve social and economic

indicators, from education to income distribution.

1 The views

2 This article is a modified version. The original one can be found in BRICS: The 2012 New Delhi Summit, edited by the BRICS Research Group of the University of Toronto, and published by Newsdesk.

not reflect their institution.

expressed

here

are

the

authors’

alone

and

do

3 Director of Brazilian Center for International Relations

4 Executive Coordinator of the Brazilian Center for International Relations.

5 Study and Debate Coordinator of the Brazilian Center for International Relations.

6 Project Coordinator of the Brazilian Center for International Relations.

7 Assistant to Coordination of the Brazilian Center for International Relations.

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Equipe CEBRI

In order to understand the rise of the country in economic terms, one should consider that Brazil

has experienced both internal and external favorable momentum 8 .

On the domestic side, Brazil has

achieved outstanding numbers in social indicators, although it has presented worse results than other

emerging economies, such as the ones in BRICS, in terms of GDP growth 9 . The country has attained

amazing outcomes not only in social inclusion but also in social mobility – approximately 27 million

Brazilians were raised out of poverty and extreme poverty between 2004 and 2009 10 and 13 million

joined the middle class between September 2009 and May 2011 11 12 . Beyond that, household income

evolution in Brazil surpasses other countries in BRICS. In result, Brazilian consumption market is

not seen anymore as a “potential” market. It has become a reality and foreign companies have already

realized that.

The soundness of Brazilian financial and banking systems couldn’t be let aside when talking

about Brazil’s economy. The several measures adopted by the government in the past years were put into

test when the international financial crisis arose in 2008. The number of bankruptcies observed all over

the world had little impact in the Brazilian financial system. In part due to the existence of an improved

regulatory system, the banking and financial sector proved its solidity and consistency enhancing the

perception of the country as a safe destiny for foreign investment.

On the external side, Brazil has been positioning itself not only as a relevant supplier of

commodities − mainly minerals, food and energy related products − but also of a wide range of industrial

goods, including even aircrafts. Its highly mechanized agribusiness and outstanding productivity give

the country an important role in world food security.

8 This article was written in the beginning of 2012. Thus, these statements refer only to indicators up to 2011.

9 Since 1992, GDP growth indicators in China and India are far better than Brazil.

10 IPEA (2011). “Mudanças Recentes na Pobreza Brasileira”. Brasilia: Comunicados do IPEA n.111: 15 de setembro

11 Neri, M. (2010). “Os Emergentes dos Emergentes: reflexões globais e ações locais para a nova classe média brasileira”. Rio de Janeiro: FGV/CPS.

12 According to OECD, Brazil was the only BRICS member that obtained income inequality reduction in the last 20 years - OECD (2011). “Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising”.

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Understanding Brazil as a Global Trading Partner

Even though the significant increase in its exports and imports can be interpreted as a sign of

the Brazilian economic opening process and the diversification of its trading partners, Brazil’s trade still

represents less than 2% of world trade. Traditionally, the most important Brazilian partners have been in

the West: US, Europe and South America. However, in 2010, for the first time, China became Brazil’s

most important trading partner, outweighing the US situation that is valid until the present moment.

At the same time, a continued increase in Brazil’s trading flows with non-traditional partners has been

observed. Politically, one could say this would represent a greater independence from traditional powers

as well as be considered as a consolidation of new political alliances.

Although one may acknowledge that Brazil is very competitive in some sectors, such as agribusiness,

it should be said that the country still faces crucial limitations that hamper its competitiveness. Poor

infrastructure and its consequences over the logistics costs has been historically a top constraint.

Additionally, the complex fiscal structure and a substantial degree of uncertainty in the legal framework

increase time and cost of doing business in the country 13 .

Concerning the global rules governing international trade, the Brazilian government has a

strong perception that a refurbishment in the regulation of the World Trade Organization (WTO),

the appropriate forum for the discussion and support of the multilateral trade system, is necessary to

allow trade and development opportunities to be realized to their fullest, increasing trade flows. That

is a special concern not only of Brazil, but of Russia, India, China and South Africa, as expressed in the

Ministerial Declaration issued by the BRICS Trade Ministers last December: In this process of buttressing

the multilateral trade system, we underscore the pressing need to further develop its rules and structure to

address in particular the concerns and interests of developing countries 14 .

Two practices, in particular, reinforce Brazil’s understanding: the concession of prohibited subsidies

and the misuse of exchange rates, both with protectionist purposes and resulting in trade distortion. The

13 As an example, the Brazilian government has been criticized for undertaking some protectionist measures in the recent months, as a post crisis defense mechanism. 14 Ministerial Declaration of the BRICS Trade Ministers – Geneva, 14 December 2011.

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Equipe CEBRI

first one, the concession of prohibited subsidies on export performance or upon the use of domestic over

imported goods – according to the WTO Agreement on Subsidies and Countervailing Measures – is a

known and discussed unfair trade practice. However, it is still largely exercised. Many times, it is granted

by developed economies, particularly in agriculture, to enhance competitive gains and represents one of

the most harmful forms of protectionism and trade distortion. The extinction of the “red box” subsidies

is a demand of the developing countries in general – as they may generate food insecurity and deny the

potential development or undermine the competitiveness of their agriculture sector.

The second is not expressly forbidden by the WTO, whose generic previsions concerning the

distortive effects of exchange rate measures to international trade give room for dubious interpretation

and loose action 15 . Brazil raised the discussion on “currency war” in the WTO during 2011, suggesting a

working program to debate the subject, being the first seminar scheduled for 2012 16 . Under consideration

are not only the impacts of the artificial exchange rate misalignments on trade flows but also on WTO

rules effectiveness 17 .

In the last years, Brazilian trade policy has been very much focused on these two demands – that

is, a ban on the concession of subsidies and an end to the artificial exchange rate misalignments – and also

on seeking the conclusion of the Doha negotiations. These priorities have, to a certain extent, weakened

Brazil’s capacity to promote a positive bilateral or regional commercial agenda 18 . Symptomatically,

Brazil has done very little recently to expand its network of free-trade agreements. Conversely, other

countries, including its neighboring countries, have enlarged the number of trading partners and signed

new agreements.

In this sense, a revamped commercial strategy would certainly make Brazil a more

significant trading partner as well as a more important global player.

15 Lima-Campos, A. and and Gaviria, J. (2012). “A Case for Currency Misalignments as Countervailable Subsidies”. Journal of World Trade, 46, Issue 5

16 WTO (2011). Documents WT/WGTDF/W/53 and WT/WGTDF/W/56.

17 Thorstensen, V., Ramos, D., Muller, C. (2011). “The Most-Favored Nation Principle and Exchange Rate Misalignments”. Draft.

18 An additional constraint is related to the fact that Brazil, as a member of the Southern Common Market (MERCOSUL), has to abide by its rules and negotiate trade agreements together with the other MERCOSUL member states.

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Avaliação da Participação Brasileira na Rio + 20

Avaliação da Participação Brasileira na Rio + 20

Fabio Feldmann 1

“A crise ecológica planetária é muito séria para ser deixada na mão dos diplomatas”

Ainda que possam existir visões diferentes sobre a Rio + 20, é inegável que os seus resultados

foram muito aquém dos desejados. De fato, só o tempo irá fazer um balanço definitivo e, a exemplo do

que aconteceu com a Rio + 10 – Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em 2002

em Joanesburgo, a Rio + 20 deve entrar no rol daquelas que em pouco tempo são esquecidas.

Do ponto de vista de mobilização, a Conferência foi bem sucedida: 3.000 eventos paralelos fora

do Riocentro, 500 eventos paralelos no Rio Centro, muitos compromissos voluntários foram assumidos

por vários segmentos empresariais, a comunidade científica se reuniu em torno do “Earth Future –

research for global sustainability”, a sociedade civil e movimentos sociais na denominada Cúpula dos

Povos e as megacidades mundiais se reuniram em torno do C40 Cities – Climate Leadership Group,

reafirmando seus compromissos.

O documento “O Futuro que Queremos” não passa de uma compilação “com gosto de comida

requentada” de documentos anteriores, incluindo a Agenda 21 e o Plano de Implementação da

Rio + 10. Inacreditavelmente, apresenta lacunas significativas, a começar pela exclusão do tema ”ciência”,

1 Ex-Secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Ex-Deputado Federal e Consultor da FF Consultores.

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Fabio Feldmann

do capítulo VI – Means of implementation (Meios de implementação), havendo menção apenas à

“tecnologia”. Temas contemplados no documento tais como oceanos, novas métricas de desenvolvimento

e objetivos do desenvolvimento sustentável foram habilmente adiados sem qualquer certeza de que, de

fato, venham a ser implementados.

Também não trata da discussão recente do papel da Humanidade em relação ao planeta, valendo

lembrar que esse tema ganhou novos contornos com a divulgação do último relatório do IPCC – Painel

Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em 2007 e, mais recentemente, com a discussão do

‘Antropoceno’. Esta expressão foi cunhada pelo geoquímico Paul Crutzen, que recebeu o Prêmio Nobel

de Química em 1995, e refere-se às mudanças no planeta ocasionadas pelo homem a partir da Revolução

Industrial. Seguindo essa linha, a Humanidade teria alcançado uma força geológica capaz de colocar o

planeta em uma nova era.

Nesse sentido, os cientistas indicam que as mudanças climáticas, a erosão dos solos, as ameaças

à biodiversidade, a acidificação dos oceanos, dentre outros, são reflexos da ação da Humanidade, o que

faz com que essa nova era esteja sendo moldada pelo ser humano. Este assunto foi capa da prestigiada

revista The Economist, em 2011 (28/05/2011 – 03/06/2011).

A pergunta de difícil resposta é “qual o legado da Rio + 20?”

É certo que o Brasil tem enorme responsabilidade pelo resultado da Conferência, não apenas pelo

protagonismo sempre reservado ao país anfitrião, mas pelo fato de que em todo o processo negociador

ficou claro o déficit de liderança, que na Rio 92 foi exercido, incontestavelmente, por Maurice Strong.

Este, que já havia organizado a Conferência de Estocolmo em 1972, não poupou esforços em seu papel

articulador com governos e chefes de Estado, bem como com a sociedade civil.

Acompanhei o esforço de Maurice Strong nos anos que precederam a Rio 92, buscando desanuviar

uma certa hostilidade que existia no Brasil, em decorrência de uma a suposta conspiração contra a

soberania brasileira na Amazônia.

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Avaliação da Participação Brasileira na Rio + 20

Cabe também assinalar o compromisso do ex-presidente Fernando Collor com o sucesso da Rio

92, emprestando-lhe todo apoio político e adotando iniciativas que claramente sinalizavam a sintonia do

país com a agenda da Conferência. Destacam-se, entre elas, a demarcação do território dos Yanomamis

e a colocação simbólica da pá de cal no programa nuclear bélico brasileiro.

Às vésperas da última Conferência, o país transmitiu sinais ambíguos: a discussão sobre as

mudanças do Código Florestal, evidenciando os riscos de retrocesso na legislação, com impactos diretos

na conservação dos biomas brasileiros. Por outro lado, a divulgação de dados confirmando a redução

do desmatamento na Amazônia, em uma demonstração do compromisso brasileiro de reduzir as suas

emissões de gases do efeito estufa.

Como reflexo de toda essa conjuntura, isto é, da falta de disposição da Presidência da República

em assumir uma postura mais agressiva, como aconteceu em 1992, a diplomacia brasileira apegou-se a

uma posição de extrema prudência. Assumiu que o melhor papel para o país anfitrião seria o de estar

longe de qualquer controvérsia. Com isso, alinhou-se às posições mais conservadoras do G-77 no que

tange ao reconhecimento da crise ambiental planetária. E, mesmo em relação à necessidade de mudanças

na arquitetura das Nações Unidas no que tange ao PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio

Ambiente, ou a algo que possa a vir sucedê-lo, o Itamaraty manteve-se excessivamente silencioso.

Esta posição de aversão total a riscos pode comprometer o capital que os negociadores brasileiros

adquiriram ao longo dos anos, desde a preparação da Rio 92, passando especialmente pelas negociações

no âmbito das COPs (Conferências das Partes) da Convenção do Clima e da Convenção da Diversidade

Biológica.

No caso da primeira, a liderança brasileira tem sido incontestável, gerando frutos muito positivos

como o Protocolo de Kyoto; a oferta de compromissos voluntários de redução de emissão em Copenhague

(COP 15) e a ideia de um novo tratado em Durban (COP 17). No que se refere à biodiversidade,

vale citar a atuação brasileira em Nagoya, resultando no Protocolo de Nagoya e na criação do IPBES

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Fabio Feldmann

– Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. Aliás, pela primeira vez, um

brasileiro, Bráulio Dias, assumiu a secretaria geral da Convenção da Diversidade Biológica.

É bom lembrar que o próprio Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, retratou-se

por exigência do Brasil sobre suas críticas à pouca ambição consubstanciada no documento no início

da Conferência. E, em resposta às críticas da sociedade civil, da comunidade científica e da mídia, as

autoridades brasileiras responderam que a Rio + 20 não era uma Conferência de meio ambiente e sim de

desenvolvimento sustentável.

Com tais afirmações, paradoxalmente, esvaziaram a grande contribuição das conferências

anteriores, que consistiu em colocar na agenda global as temáticas ambientais.

De

positivo,

devem

ser

assinaladas

algumas

inovações

importantes,

introduzidas

nessa

Conferência, especialmente a ideia de incorporar as vozes da sociedade civil e de personalidades no

evento oficial: os diálogos sustentáveis. Embora a iniciativa seja louvável, a falta de algum mecanismo

mais efetivo de incorporação dessas mensagens no documento final gerou o repúdio da sociedade civil,

tornando a iniciativa bem intencionada, mas ineficaz.

Concluindo, o Brasil perdeu a oportunidade de exercer uma liderança efetiva na Rio + 20,

assegurando que esta Conferência pudesse se tornar um ponto de inflexão incontestável na busca de

um novo paradigma da relação da Humanidade com o planeta. Para tanto, era necessário se avançar na

arquitetura atual das Nações Unidas, com o propósito de que esta possa exercer efetivamente um papel

formulador de novas políticas públicas no âmbito do Desenvolvimento Sustentável.

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A Reforma das Instituições Multilaterais

A Reforma das Instituições Multilaterais

Georges D. Landau 1

É evidente que os organismos internacionais criados no imediato pós-guerra, ou pouco depois,

ou seja, há seis décadas, carecem de modernização para adequá-las às novas realidades da convivência

global. O caso emblemático é o do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), que reflete uma

estrutura de poder absolutamente ultrapassada, mas que se eterniza, mercê das tremendas dificuldades

geopolíticas para a reforma da Carta de São Francisco. Seria necessário adequar o Conselho às novas

realidades, incluindo a participação nele de potências intermédias, como o Brasil, a Turquia, a Indonésia

e a Nigéria. Para obviar as deficiências do CSNU, criaram-se novas instâncias multilaterais, como o

G-20, os BRICS e a IBSA, mas nenhuma delas tem o alcance do CSNU para a governança global. O

novo contexto, porém, é de escassez de recursos, e quaisquer novas iniciativas multilaterais devem ser

avaliadas à luz desses parâmetros essenciais.

Dão testemunho disso as dificuldades institucionais com que nos defrontamos, na Rio + 20,

para a criação de uma agência das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável, ou sequer para a

consolidação de um programa já existente, o PNUMA.

Ainda no âmbito das Nações Unidas, houve intentos de modernização institucional. Deles emana

a criação do Conselho de Direitos Humanos, reflexo da importância crescente deles no relacionamento

multilateral.

o

ECOSOC

parece

excessivamente

esclerosado

para

desincumbir-se

das

suas

responsabilidades quanto à promoção do desenvolvimento sustentável, através da rede de Organismos

1 Mestre em Economia Internacional e Direito Internacional pela Universidade de Harvard. É professor da FAAP e é Membro do Conselho Curador da FUNCEX e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

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Georges D. Landau

Especializados, cuja contribuição efetiva à causa do desenvolvimento é, em vários casos, pelo menos

questionável. Um dos pontos para os quais haveria de atentar, numa eventual reforma do ECOSOC,

seria o da função do Conselho de interagir com a sociedade civil, trazendo para o âmbito multilateral os

anseios desta.

No caso das instituições financeiras de Bretton Woods, vem-se verificando algum progresso, ainda

que tímido, no sentido de torná-las mais representativas das economias emergentes, o que beneficiará

inclusive o Brasil, que tem militado nests sentido. Entretanto, a proliferação de bancos sub-regionais

permite inferir que subsistem, nesse nível, necessidades não satisfeitas pelos grandes bancos multilaterais

de vocação universal.

A convergência entre instituições de vocação universal, como as Nações Unidas, e outras de

âmbito mais restrito ao perímetro regional ou sub-regional, merece análise mais detida. Busca-se obter

sinergia, evitando-se a duplicação de esforços e orçamentos. Um exemplo relativamente bem sucedido de

articulação entre um organismo mundial e outro de vocação regional é o da relação, na América Latina

e Caribe, entre a Organização Mundial da Saúde (WHO) e a Organização Pan-americana de Saúde

(PAHO). Talvez fosse possível institucionalizar esse modelo.

Por outro lado, com o avanço acelerado da globalização em que as principais questões que

preocupam os estadistas são hoje de âmbito universal, é lícito se questionar a validez, quando não a

necessidade, de instituições de âmbito regional. Pareceria, pois, haver uma tendência à progressiva

eliminação destas.

Seria possível inventariar outras instâncias de colaboração entre organismos de âmbito global e

outros com jurisdição regional. A grande dificuldade em harmonizar as suas atuações reside, porém, em

que os mesmos governos, que participam em umas e outras, se pronunciam de modo diferente, e não

raro antagônico, em foros distintos. Cada organismo multilateral conta com a sua própria constituency

nacional, e cada uma delas funciona como um grupo de pressão próprio, promovendo uma rede de

interesses criados, o que dificulta enormemente a busca pela sinergia. Se já é difícil, no seio de cada

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A Reforma das Instituições Multilaterais

governo, harmonizar as políticas, os programas e as prioridades de diferentes ministérios, imagine-se a

dificuldade de fazê-lo com uma plêiade de organismos internacionais formados por Estados soberanos,

rivalizando entre si por jurisdições abrangentes e orçamentos escassos. Pode-se cogitar de dois enfoques

convergentes: na coordenação de políticas, melhor que a existente, ao nível nacional, e uma atuação

proativa das Nações Unidas visando a harmonizar e coordenar os esforços dos organismos multilaterais.

Em que pese à existência de mecanismos formais de coordenação, entretanto, até agora esses esforços

revelaram-se basicamente infrutíferos.

Em resumo, a reforma das instituições multilaterais passa por uma manifestação dinâmica de

vontade política no seio de organismos de governança global, como o G-20. Até agora, ests foro se

absteve de enfocar o assunto, que constituiria um imenso desafio à sua capacidade. É de se esperar,

porém, que em breve surgirá uma constelação de oportunidades que engendrem o necessário consenso. A

humanidade progride graças às suas crises cósmicas, mas se poderá cogitar de um sistema com patamares

concêntricos, geográficos e funcionais, tendo o CSNU no topo da pirâmide.

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Gustavo Piva de Andrade

Propriedade Industrial e Importação Paralela no Ordenamento Jurídico Brasileiro

Gustavo Piva de Andrade 1

No livro “O Mundo é Plano”, o escritor Thomas Friedman apresenta a interessante teoria de

que o planeta se achatou. Citando eventos como a queda do muro de Berlim e a criação da Internet,

ele argumenta que diversas forças contribuíram para o desaparecimento de barreiras entre os países e

geraram o desenvolvimento de uma verdadeira economia global. Isso possibilita, por exemplo, que um

computador fabricado na Ásia, com componentes advindos de diversos países, seja oferecido em um

estabelecimento da América do Norte apenas dois dias depois. Segundo Friedman, este é um dos muitos

exemplos que denotam o encolhimento e o achatamento do mundo, reforçando a sua tese de que tudo

está conectado.

Essa nova ordem cria enormes desafios para o comércio internacional. Nesse contexto, torna-se

fundamental examinar a questão da livre circulação de bens entre diferentes países, o que, no escopo

do presente artigo, será feito à luz dos direitos de propriedade industrial e da prática conhecida como

importação paralela.

A “importação paralela” se dá quando um produto que incorpora marcas, patentes ou desenho

industrial alheio é introduzido em determinado país, à margem do sistema de distribuição administrado

pelo titular do direito de propriedade industrial. Trata-se, pois, de produtos genuínos, mas que são

1 Mestre em Direito da Propriedade Intelectual pelo Franklin Pierce Law Center e sócio do escritório Dannemann Siemsen.

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Propriedade Industrial e Importação Paralela no Ordenamento Jurídico Brasileiro

incorporados ao mercado daquele território sem autorização do titular do direito exclusivo ou do seu

licenciado. A questão é se, baseado nas regras da legislação brasileira e dos tratados internacionais, o

titular do direito de propriedade industrial pode ou não coibir esse comércio paralelo.

Na seara da propriedade industrial, existe um importante princípio chamado “exaustão de

direitos”. Tal princípio consagra o entendimento de que a prerrogativa do titular de impedir a circulação

do produto que incorpora a sua marca ou patente esgota-se com a primeira venda. A partir daí, entende-

se que o titular já foi devidamente remunerado, não podendo proibir ou reivindicar participação em

vendas subsequentes daquele exemplar específico.

Como direitos de propriedade industrial são territoriais, sua exaustão pode se dar nos âmbitos

nacional ou internacional. Na exaustão nacional, o direito do titular da marca ou patente esgota-se

apenas no país em que o respectivo produto foi inserido no mercado interno pelo próprio titular ou com

o seu consentimento. Já na exaustão internacional, o direito exclusivo exaure-se a partir do momento em

que o titular ou seu licenciado coloca o produto no mercado, independentemente do país em que isso é

feito. Portanto, nos países que adotam o sistema da exaustão nacional, o titular do direito de propriedade

industrial pode coibir a importação paralela dos seus produtos, ao passo que nos países que adotam o

sistema da exaustão internacional, ele não pode.

Diante dos interesses divergentes de cada país, não surpreende que a questão da exaustão de

direitos de propriedade industrial sempre tenha gerado enormes controvérsias. Prova disso é que, durante

as negociações do TRIPS, principal tratado que regula a proteção e exercício de direitos de propriedade

industrial, assinado em 1994, os países-membros não foram capazes de chegar a um consenso para

estabelecer uma diretriz internacional sobre o tema. Assim, consignou-se no artigo 6 que “nada no

Acordo será utilizado para tratar da questão da exaustão direitos”, de onde decorre que cada país ficou

autorizado a adotar as suas próprias regras.

Foi exatamente nesse contexto que, dois anos depois, o Brasil promulgou a atual Lei de Propriedade

Industrial (Lei 9.279/96) e legislou sobre a matéria. Em relação às marcas, a lei brasileira garante ao titular

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Gustavo Piva de Andrade

do registro o direito de uso exclusivo em todo o território nacional (art. 129), bem como a prerrogativa

de zelar pela reputação e integridade material do signo (art. 130, inciso III). Ademais, determina, no seu

artigo 132, inciso III, que o titular da marca não poderá “impedir a livre circulação de produto colocado

no mercado interno, por si ou por outrem com seu consentimento”.

Em relação às patentes, a lei estabelece, no seu artigo 42, que “a patente confere ao seu

titular o direito de impedir terceiro, sem seu consentimento, de importar produto objeto da patente”. Além

disso, destaca, no artigo 43, inciso IV, que tal prerrogativa não se aplica a “produto que tiver sido colocado

no mercado interno diretamente pelo titular da patente ou com seu consentimento”. Os desenhos industriais

seguem o mesmo regime das patentes, pois a lei deixa claro, no artigo 109, parágrafo único, que “aplicam-

se ao registro de desenho industrial, no que couber, as disposições do artigo 42 e do inciso IV do artigo 43”.

Da leitura desses dispostos, percebe-se que, tanto na seara das marcas, quanto das patentes e

desenhos industriais, o legislador brasileiro fez expressa referência ao mercado interno quando tratou

da exaustão de direitos. Como resultado, conclui-se que o direito exclusivo se exaure apenas quando

o produto é inserido, pelo titular ou por outrem com o seu consentimento, no mercado brasileiro.

Em termos práticos, isso significa que o titular e seu licenciado não podem impedir a livre circulação

do produto que eles introduziram no território nacional, mas podem combater a venda e revenda de

produtos introduzidos por terceiros sem sua autorização no mercado interno.

Essa parece ter sido a clara opção do legislador, especialmente porque o Projeto de Lei n° 824-B

de 1991, que resultou na Lei de Propriedade Industrial, preconizava regras substancialmente distintas.

De fato, em relação às marcas, a redação do referido Projeto de Lei estabelecia que “o titular da marca

não poderá impedir a livre circulação de produto colocado no mercado por ele mesmo ou por outrem com seu

consentimento”. Ou seja, a redação original não fazia qualquer referência à expressão “mercado interno”

que atualmente existe na lei. Já em relação às patentes, o Projeto de Lei determinava que o direito de

excluir do titular não podia ser exercido em relação a “produto que tiver sido colocado no mercado interno

ou externo diretamente pelo titular da patente ou com seu consentimento”.

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Propriedade Industrial e Importação Paralela no Ordenamento Jurídico Brasileiro

Como se vê, o Projeto de Lei postulava solução diversa do texto que foi aprovado, pois estabelecia

que a colocação do produto pelo titular em qualquer mercado (interno ou externo) gerava a exaustão

de direitos. Portanto, a referência somente ao “mercado interno” vista nos artigos 132, III, e 43, IV, da

lei não foi fruto do acaso, mas, sim, adveio de uma clara opção legislativa que parece absolutamente em

linha com a política de fortalecimento dos direitos de propriedade industrial vista no Brasil nos anos

pós-TRIPS.

Apesar disso, a jurisprudência brasileira ainda é vacilante quando o assunto é importação paralela.

Existem importantes decisões que reconhecem a ilicitude da prática, mas também existem julgados no

sentido contrário. Normalmente, os órgãos julgadores que se posicionam a favor do comércio paralelo

argumentam que ele é benéfico para o consumidor, já que possibilita uma maior redução de preços.

Também fazem alusão ao direito antitruste, ressaltando que o comércio paralelo está em consonância

com os princípios da livre iniciativa e da livre concorrência.

Entendemos que essa é uma forma simplista de examinar a questão, pois existem aspectos mais

amplos que precisam ser considerados. O mais importante deles talvez seja o fato de o legislador brasileiro,

como visto, ter adotado uma política que fortaleceu sobremaneira a posição dos titulares de direitos

de propriedade industrial.

E se o legislador tomou esta decisão, certamente não o fez inocuamente,

mas, sim, por vislumbrar prerrogativas que servem para estimular a inovação e a criatividade no meio

empresarial. Logo, ainda que no curto prazo direitos exclusivos possam parecer prejudiciais, eles estão

intrinsecamente relacionados ao conceito de eficiência dinâmica e a todos os benefícios de longo prazo

dela decorrentes.

Também é importante lembrar que transmitir qualidade e reputação é uma das principais funções

das marcas. Muitas vezes, o comércio paralelo interfere nessa questão, pois não se pode garantir que

produtos importados paralelamente serão transportados e armazenados de forma adequada, nem que

respeitarão a legislação consumerista e diversas obrigações regulatórias impostas pelas autoridades locais.

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Gustavo Piva de Andrade

Em alguns segmentos – como, por exemplo, medicamentos, cosméticos, alimentos, bebidas e brinquedos

–, isso pode causar grandes prejuízos para a reputação da marca.

Sob a perspectiva antitruste, a importação paralela também não resiste a uma análise mais

minuciosa, uma vez que tal prática gera alocação ineficiente de recursos econômicos e possibilita o

chamado free riding. Afinal, o importador paralelo simplesmente “pega uma carona” na publicidade e

em toda a estrutura pré e pós venda montada e administrada, a altos custos, pelo titular do direito de

propriedade industrial. Como resultado, se o comércio paralelo for permitido, o titular e seu licenciado

tendem a investir cada vez menos nesse tipo de serviço, o que é altamente prejudicial. Por fim, vale destacar

que as regras do direito antitruste não foram concebidas para promover a concorrência intramarca, já

que, normalmente, existem diversos substitutos no mercado relevante em que o produto está inserido.

Por tudo isso, a menos que o Congresso resolva mudar de direção e promova uma mudança

legislativa, parece-nos inexorável a conclusão de que o regime vigente no Brasil é o da exaustão nacional,

de onde decorre que coibir a importação paralela é uma das prerrogativas que a lei brasileira confere aos

titulares de direitos de propriedade industrial.

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Brazil and the New Geopolitics of Energy

Brazil and the New Geopolitics of Energy

Henrique Rzezinski 1 e Damian Popolo 2

The Context

Brazil is perhaps a unique case of an emerging power which is facing the prospect of growth

from a position of independence or near-independence in all the resources that underpin contemporary

and future geopolitical considerations: food, water, energy and mineral resources. Its energy matrix

is exceptionally green, and the country has the ability to substantially increase the output of biofuels

without expanding its physical agricultural frontier or without threatening food production. What is

more, Brazil has stabilized its demographic growth, has no territorial disputes and faces no credible

threat to its security. Even the rates of deforestation in the Amazon seem to be going in the right

direction. Brazil is now an established democracy with solid institutions which, through effective policy-

making and implementation, have successfully kept one of its traditional enemies – inflation – firmly

under control. As the global economy continues to suffer from apparent structural challenges in the

financial sector, Brazil can boast some of the world’s most solid banks.

Importantly, Brazil did not get to this position by geographical accident alone. Some of the most

salient features of this extremely comfortable situation are the result of long-term planning and of an

uncommon ability to learn from past developments. The ethanol revolution is the result of a conscious

1 Vice Presidente da BG Brasil em Assuntos Corporativos e Relações Governamentais, Presidente da AMCHAM e Membro do Conselho Curador do CEBRI. 2 Gerente-Sênior de Relações Governamentais da BG Brasil

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Henrique Rzezinski e Damian Popolo

decision to achieve energy independence in the long term even if the economics in the short-term did

not make much sense. The solidity of its banks has a lot to do with lessons learned in the painful years

of financial crisis. In the new age of global diplomacy, such cultural features and global public opinion

(Joseph Nye’s famous “soft power”) are just as important as any other factor affecting international

relations. Here too Brazil has some advantages: unlike other BRICS has no “glorious past to rescue”, but

possesses distinctive culture with near-infinite possibilities in the creative industries, including fashion,

music, architecture and design.

In sum, this situation is so unprecedented that there is probably no established geopolitical theory

to address the “challenges” of Brazil. This unique situation calls for a major paradigm shift to analyze

the geopolitical opportunities that Brazil faces. As the world continues to think about energy and food

security, for example, Brazil has to think about how the security concerns of others can be translated

into benefits for Brazil. In other words, the geopolitics of Brazil are about making the most out of

opportunities, and not about achieving a difficult independence in key areas (food, energy). To illustrate

the point, agriculture is currently around 20% of Brazil’s GDP, and the Oil and Gas sector is projected

to be another 20% by 2020. This means that about half of the Brazilian economy will produce goods

that have a near automatic access to global markets with sustained patterns of consumption: people

around the world are always going to need food and energy, and this demand can only accelerate because

of demographics and because of the elevation of global standards of living.

In this context it is not an exaggeration to state that, if Brazil makes the most out of these

opportunities, we will be looking at the creation of a new model of economic development, based on

the rational, sustainable and efficient use of natural resources. In the old paradigm, commodities-driven

economies are bad for development and progress. In a new paradigm, the sustainable development of

these resources requires ever increasing levels of progress and of technological understanding: there

is no soya belt in the Cerrados without Embrapa technology, no protection of the Amazon without

sophisticated satellite-based monitoring systems and, of course, no pre-salt developments without world-

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Brazil and the New Geopolitics of Energy

class expertise in Oil and Gas. This is a “knowledge and nature-based economy”. The geopolitical options

in this context are particularly evident in the Oil and Gas sector.

Brazil as a Global Energy Player in Oil and Gas: new realities, new opportunities

Energy independence means diplomatic flexibility. It is through this flexibility that Brazil can

secure the sustainable development of its Oil and Gas industry. By sustainable we mean the ability to

ensure that the economic and social benefits of oil and gas can be felt well after this finite resource

disappears. In this case, the best way to pursue this goal is through the development of a world-class

industry in Brazil that will be able to solve global industrial challenges after the key domestic challenges

(for example, pre-salt technology) are successfully met. Flexibility means that Brazil can pick and choose

how to use its resource from a foreign policy perspective based on a simple assumption: priority must be

given to whichever partner is able and ready to transfer the necessary technology needed to create such

a world-class industry in Brazil.

It is difficult to exaggerate the impact of technology in the sector: recent developments here

have, simply, revolutionized the entire global geopolitical scenario. Less than 2 years ago the standard

imagination of the pre-salt was based on an assumption that Brazil would diversify global oil supply

away from instable stakeholders in the middle-east, and that the “West” was the primary beneficiary of

this. Now, the United States are due to achieve their own energy independence by 2030. In the words

of Lord Browne, the former executive of BP, “the amount of shale gas in the US is effectively infinite”.

The most recent studies from Harvard (Leonardo Maugeri, June 2012) argue that the key hubs for the

expansion of global supply in the future will be the United States, Canada, Brazil, Venezuela and Iraq.

Out of these five developments, four are due primarily to recent technological progress: shale in the

United States, tar sands in Canada, ultra deep pre-salt in Brazil and extra-heavy oils in Venezuela.

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Henrique Rzezinski e Damian Popolo

The future of the sector seems to be in the hands of the Western Hemisphere and this has

important geopolitical implications. Brazil can be a key player in the organization of global supply

through strategic partnerships within the Americas. In the same way that shale technology have projected

US “oil power” globally, Brazil must use its energy independence and technological development as a

means of projecting its own oil power in areas of its own expertise (ultra-deep offshore): the Equatorial

margins in Latin America and off the coast of Africa look like primary candidates.

More importantly, Brazil can use its energy independence to plan in the long term – something

it seems to be very good at – and to use a possible American continental alliance to make substantial

progress in technology beyond ultra-deep developments through the creation of a knowledge and nature-

based economy.

Of course there are challenges which need to be overcome in order for Brazil to successfully

capitalize on these opportunities. In order for the economy to grow at a rate which is compatible with

the successful delivery of Brazil’s energy agenda and sustainable development of its energy resources,

measures need to be taken to increase the level of savings and re-invest them in the necessary infrastructure

that will allow Brazil to grow at a sustainable rate of 5 to 6% per year for the next decade. Further, from

an institutional and regulatory perspective, Brazil needs to undertake root and branch social security

reform and fiscal reforms, as well as investing in basic education and innovation. Although beyond the

scope of this paper, these are topics which have been widely discussed elsewhere – they are salient and

current political issues. Brazil needs to move beyond discussion and build a coalition of support for such

measures, and have the resolve and determination to drive them through to completion.

Only then will

everything be in place to ensure that the next energy revolution takes place in Brazil. Anything other

than that could only be considered a failure.

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Os Próximos Desafios da Política Externa Brasileira

Os Próximos Desafios da Política Externa Brasileira

José Botafogo Gonçalves 1

A Política Externa de um país se faz ou pelas armas ou pela diplomacia ou por uma combinação de

ambas. A história do Brasil independente e, sob muitos aspectos, a história do Brasil colonial se fez mais sob

a égide da diplomacia do que sob a força das armas. A construção da nacionalidade e da unidade territorial

brasileira está pontilhada de conflitos armados internos ao longo do 1º e do 2º Império. Exceção foi a Guerra

do Paraguai, que foi quase o único conflito externo em que as armas precederam a diplomacia na solução

do conflito. Desde a independência até meados do século XV, a política externa foi definida e executada

pelo Executivo através do Itamaraty, que o fez de maneira quase que absolutamente monopolista. Com a

industrialização brasileira, a partir dos anos 50, a diplomacia incorporou entre seus objetivos prioritários

a administração da política comercial brasileira, com o objetivo de legitimar os aspectos protecionistas do

modelo de substituição de importações.

Essa fase culmina, no início do século XXI, com o Itamaraty envolvido nos desafios dos acordos de

livre-comércio, tanto regionais como multilaterais. No campo não econômico, a diplomacia brasileira, livre

de conflitos fronteiriços com seus vizinhos sul-americanos, pode se dar ao luxo de praticar uma política

externa universalista, indo além do contexto hemisférico e buscando um papel relevante seja, no passado,

na Liga das Nações, seja hoje, na Organização das Nações Unidas.

1 Diplomata, ex-Ministro da Indústria e Comércio, ex-Embaixador Extraordinário para Assuntos do Mercosul e Vice- Presidente Emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

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José Botafogo Gonçalves

O modelo econômico brasileiro, fechado e autárquico, que perdurou até o fim dos anos 80 teve

como corolário a adoção de princípios defensivos de política externa, incorporados na legislação brasileira,

mesmo a nível constitucional, como a não intervenção em assuntos interiores, a prevalência dos foros

jurídicos nacionais sobre os internacionais, a rejeição da arbitragem como solução legítima de conflitos

econômicos e políticos (abandonando a bem sucedida experiência do Barão do Rio Branco), a rejeição ao

conceito de supranacionalidade nos esquemas de integração regional, a diferença entre empresas nacionais

e estrangeiras, as quais, de uma certa forma, ainda prevaleceram nas nossas relações com países, empresas

ou organizações estrangeiras, mesmo as multilaterais.

A partir do fim dos anos 80, o Brasil mudou muito. A deplace financeira levou o Brasil a 20 anos

de ajustes. A vitória sobre a hiperinflação e a prosperidade mundial levaram o Brasil de devedor a credor

e a sexta economia mundial. O combate à pobreza reduziu a desigualdade econômica e reforçou o papel

do mercado interno no crescimento da economia. A exportação de “commodities”, agrícolas e minerais,

multiplicou por quatro os valores do comércio exterior. A comunidade internacional olha o Brasil hoje

como uma potência emergente, com vocação para líder regional e protagonista importante nos processos

de governança global.

Curiosamente, o Brasil e os brasileiros parecem ter dificuldades em definir sua própria missão

no mundo de hoje. Nos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC, a diplomacia se projetou no hemisfério

ocidental, através do Mercosul e da ALCA, e no mundo, através da OMC e de outras agências das

Nações Unidas, embora no plano interno a economia tenha sofrido reveses decorrentes de sucessivas

crises financeiras internacionais.

No Governo Lula, a situação econômica se reverteu. O Brasil consolidou a macroeconomia e

expandiu suas relações econômicas e políticas com os países vizinhos. Iniciava-se o espetacular processo

de internacionalização das empresas brasileiras. Paradoxalmente, as iniciativas da diplomacia brasileira

no plano da governança global foram, em alguns casos, desastrosas ou, no mínimo, controversas. No

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Os Próximos Desafios da Política Externa Brasileira

plano regional o Mercosul perdeu dinamismo e prestígio, a despeito da pletora de iniciativas de integração

latino-americana.

Algumas lições devem ser tiradas desse descompasso entre a realidade internacional, velozmente

dinâmica, e a ação diplomática brasileira, lenta e desritmada. A primeira delas é a de não explicar os

processos ou frustrações só em função de erros pessoais dos agentes diplomáticos, mesmo porque no Governo

Lula o Itamaraty perdeu o monopólio da execução da política externa. Quando há muitos executores, a

identificação de responsabilidades é quase impossível. A segunda lição é a de reconhecer que os paradigmas

que norteiam com sucesso a política externa brasileira já não são suficientes ou inequívocos para continuar

a pautar a ação diplomática. Os temas transversais como meio ambiente, sustentabilidade, mudanças

climáticas, políticas de baixo carbono, conservação de energias, matrizes limpas, uso racional de recursos

naturais trans-fronteiriços, drogas e crime organizado, lavagem de dinheiro, pirataria intelectual, cidadania

e segurança urbana, segurança alimentar e combate a fome, etc., parecem cada vez mais incompatíveis com

os princípios tradicionais de soberania fronteiriça e jurídica, de não intervenção em assuntos internos de

outros países, e de rejeição a qualquer instrumento de supranacionalidade, particularmente no campo da

solução de controvérsias.

A terceira e última lição a se frisar é a de que o tratamento que a política externa dará a esses temas

transversais dificilmente se dará através de consensos. A globalização e a complexidade dos interesses em

jogo, muitas das vezes contraditórias, entre agentes governamentais ou não, nacionais ou estrangeiros, faz

com que seja necessário adotar critérios de governabilidade baseados no princípio da prevalência da opinião

da maioria, mas algumas limitações em proteção a opiniões minoritárias, a fim de se evitar a ditadura da

maioria a que se referia Tocqueville.

É nesse momento que os partidos políticos podem e devem desempenhar um papel de grande

relevância institucional. Cabem a eles resgatar os valores mais nobres da democracia representativa, hoje

ameaçada pela baixa qualidade da ação parlamentar e pela reduzida independência frente ao autoritarismo

do Executivo e a lentidão do Judiciário.

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José Botafogo Gonçalves

A presunção de que consensos serão difíceis em política externa não implica o abandono do debate.

Pelo contrário, só um profundo conhecimento de um tema em estudo é que vai permitir que se construa

uma ação de política externa que seja o reflexo do melhor acordo possível de maioria, garantindo assim a

governabilidade e a eficácia da ação programada.

Qual o papel que um partido de centro tem nesse campo?

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Brazil and the Netherlands: common ground in the neo-geo world?

Brazil and the Netherlands:

common ground in the neo-geo world?

Ko Colijn 1

The world becoming multipolar, it is tempting to follow the emergent positioning of nations in the

neo-geopolitical landscape and explore their potential for cooperation. In the context of the joint CEBRI-

Clingendael conference on ‘New Threats, New Actors and New Mechanisms, Dealing with de 21st

Century International Security Agenda’, the positions of Brazil and the Netherlands have been explored.

Starting from quite different political environments, both countries enter the new era as self-proclaimed

‘middle powers’. For Brazil, if that is correct, it is certainly a very big middle one, a middle power on the

rise. The Netherlands are a small middle power, a well-organized and rich member of the EU-27, a triple

A country of the now fragile but still going Eurozone, and its future role in the multipolar world is highly

dependent on the capacity of the European Union to get its act together and play a single role or single

partner role in the multipolar system to come.

Whereas Brazil can claim the status of a giant middle power, the Netherlands are only a pocket-

sized middle power, as the saying goes in Holland.

The Netherlands are a tiny stretch of land, owing its geographical and strategic relevance to its

position in the North West delta of some aortic European rivers rather than to its vastness in square

kilometers. Logically, the Dutch depend on trade and logistics, on free trade and smooth connections.

Dutch policies breathe a deep interest in level playing fields economically and legally and in a manifest

1 General Director of Clingendael Institute.

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Ko Colijn

drive for promoting global order and global justice. One step further is its constitutional provision that

the Dutch do not only defend the national territory but will be fit and ready to defend the international

legal order as well with their armed forces. Implicit is the Dutch wariness of any turbulence a new

multipolar may bring and its interest in looking for like-minded partners.

Thus, Dutch global interests are not in power competition, but in global justice and helping to

eliminate other’s conflicts.

Brazil may be such a partner.

Far different in size, geography and history, both countries seem no natural allies at first sight,

but they share enough ‘atypicalness’ in their own categories as to complement and meet together. As Peter

Hakim rightly observes, Brazil is atypical in that it is a large and powerful actor, (but) facing no serious

hostilities from any other side. It has no enemies, is located far away from any of the world’s major armed

conflicts, and is not involved in any of them. Brazil’s army is a small, defensive force, but its military is

definitely apt for