Quarto grande e senzala

A relação entre senhores e escravos incluía afeto, intimidade e sexo. Nem por isso eles se moviam de seus lugares,
na rígida hierarquia colonial
*Por Suely Creusa Cordeiro Almeida
Sexo e paixão, com ou sem amor, entre livres e escravos. Ainda há quem imagine a atmosfera colonial como um
ambiente lasso, sem freios, passível de todos os desvios. Uma sociedade marcada pelo congraçamento do prazer,
em que corpos, independentemente de qualquer coisa, se entrelaçavam numa “democracia” dos contatos que
parecia aproximar todos. É uma ideia enganosa. Essa proximidade social nunca existiu.
É certo que as relações entre escravos e senhores incluíam a afetividade e a intimidade, e muitas vezes
resultavam em sexo. Mais fortes do que essas “fraquezas” humanas, porém, eram as hierarquias sociais. Em
resposta a tais comportamentos desviantes, prevalecia a busca pela conservação dos padrões da moral cristã e da
honra. Quanto maior a ameaça à norma vigente, pior o castigo.
Se as relações afetivas entre senhores e escravas provocavam escândalos, imagine entre senhoras e escravos.
Sinhazinhas se envolviam com crias dos engenhos, amigos de folguedos, e com eles perdiam a virgindade. Foi o
que motivou a queixa de Domingos da Silva Só, que correu à Ouvidoria Geral da Capitania de Pernambuco contra
seu escravo Antônio, acusado de estuprar sua filha e fugir com ela, em 1755.
É possível imaginar o cotidiano dessa difícil afeição. A convivência diária aproximou Antônio da filha de seu
senhor (de quem não se sabe nome nem idade). O efeito devastador da paixão fez nossos personagens correrem
riscos. Encontros furtivos, adiamentos, a angústia entre o certo e o errado, a culpa marcaram a relação espúria e
desigual de Antônio com sua senhora. Como a felicidade é quase sempre irresponsável, ele arriscou a vida, e ela, a
honra. Por pertencer a um lugar social inferior, ele enfrentou o peso da pobreza, da cor, a dureza da lei. Por ser
mulher, ela submeteu-se a ser abandonada, ter um filho mestiço, sofrer a fúria da família, o escândalo, o desprezo.
O escravo foi preso no Recife, acumulando ainda as acusações de mandingueiro e detentor de artes diabólicas, as
quais teria usado para conquistar a moça, levando-a à gravidez e induzindo-a ao aborto. O ocorrido era grave. As
Ordenações Filipinas – código jurídico então vigente em todo o Império português – eram categóricas nestes casos:
ao senhor cabia o direito de se decidir pela pena de morte para o escravo. Mas talvez Antônio fosse um feiticeiro,
respeitado por negros e temido por brancos, e uma morte violenta poderia suscitar incômodas revoltas de cativos.
Fosse por isso ou mesmo pelo simples medo de sua magia, Domingos preferiu denunciá-lo a assassiná-lo. O dilema
foi então transferido para a Mesa do Desembargo do Paço: deveria ser aplicada a pena capital? A influenciar a
decisão havia outro tipo de hierarquia social: a solidariedade masculina em casos sexuais. Os atos de Antônio
podiam ser entendidos com um crime menor. No entanto, mesmo solidários, os juízes não poderiam admitir que
denúncias de estupro praticado por negros escravos contra mulheres de “qualidade” se amiudassem. Pediram graça
ao Rei, que determinou o encarceramento perpétuo na cadeia da Bahia.
Já o drama de Teresa de Jesus se entrelaçou aos de suas escravas Josefa e Caetana. Teresa foi moça com dote e
casou-se em 1735 com Thomaz Vieira da Silva. Dezenove anos depois, dizia ser maltratada com pancadas. Acusava
o marido de havê-la levado de Pernambuco para Lisboa contra a vontade. Josefa e Caetana, por sua vez, haviam
ganho alforria à época do matrimônio, mas continuaram servindo ao casal. Acusavam Thomaz de violências físicas,
com ameaças de venda para o Maranhão. Recorriam ao Conselho Ultramarino, afirmando serem livres e desejando
continuar ao lado de Teresa.
O tempo, a solidão e a violência aproximaram essas três mulheres. A intimidade do casal tornou-se também
domínio das alforriadas, que passaram a interferir em questões delicadas envolvendo a condição de liberdade que
haviam conquistado. Mas eram ameaçadas por Thomaz de serem reescravizadas. E Josefa e Caetana não tinham
como sobreviver sozinhas. Não podiam optar pela completa liberdade. O que chama a atenção é o fato de, embora
sendo mulheres negras e vivendo em Portugal, terem recorrido às instâncias legais, com a coragem de denunciar
um homem branco e de “qualidade” para afastar o fantasma da reescravização.
Em 1803, outro exemplo de cumplicidade: a fuga espetacular de Dona Ana Senhorinha teve repercussão nas
vilas de Igarassu e Recife, e seria impossível sem a ajuda dos escravos. Ela era casada, filha de um viúvo que se
dizia fidalgo, cavaleiro da Casa Real, capitão da primeira Companhia do Regimento Miliciano da Vila de Igarassu,
chamado José Félix Bandeira Cezar de Mello. Com a morte da mãe, Ana Senhorinha foi educada no Recolhimento
da Vila de Igarassu com todos os cuidados dedicados a uma moça de “qualidade”, retirada dali só para o
casamento. Este foi celebrado com Antonio da Silva Pereira, um parente seu. O consórcio andou mal, Antonio era
um homem inquieto, sempre buscando amores e ausentando-se da casa. Tal situação levou Ana Senhorinha a optar
por voltar ao Recolhimento, acompanhada por sua filha.
Tranquilo com a proteção que o Recolhimento garantia à honra de sua filha e de sua neta, José Félix partiu para a
Bahia para tratar de seus negócios. No retorno, o viúvo encontrou uma situação que qualificou de desgraçada. O
corregedor da Comarca de Pernambuco, João de Freitas de Albuquerque, atuava na Vila de Igarassu quando se
envolveu afetivamente com Ana Senhorinha. É provável que tenham se conhecido na Igreja de São Cosme e

Damião, quase colada ao Recolhimento. As mulheres recolhidas na casa não guardavam clausura completa, ainda
mais Ana, que aguardava que o marido mudasse de atitude e voltasse a desejá-la como esposa. A solidão e as
carências a levaram a aceitar que João a cortejasse. Não sabemos se para João foi uma aventura ou uma grande
paixão, mas o fato é que não poupou esforços para tê-la consigo.
Vem de relato do próprio pai a versão de que o corregedor “enfrentou todas as forças e poderes”, lutando durante
um ano para convencer sua filha, mas sem sucesso. Talvez a insistência de João fosse uma forma que o viúvo
encontrou para reduzir a culpa de Ana Senhorinha. Afinal, ela era casada, e as Ordenações Filipinas eram severas
quanto ao adultério. Provavelmente era uma família de “menor qualidade” porque, se tivesse melhores condições, a
morte do corregedor poderia ser uma saída para lavar a honra da família.
Vencidas as resistências de Ana, deu-se então a fuga. A operação foi organizada por um grupo que incluía dois
pardos (um deles possivelmente uma escrava) e um padre. O percurso entre a vila de Igarassu e a do Recife
aconteceu à noite, chegando Ana Senhorinha ao Porto das Canoas ao amanhecer. Foi abrigada na casa de um
padeiro que morava na Rua da Senzala, gente de cor, ligada à escravidão. Sabendo o corregedor da chegada de sua
amada, achou sábio esperar até a noite, quando enfim a conduziu em cadeirinha para sua casa. Ana Senhorinha,
estabelecida com sua escrava Rita, trazida do Recolhimento e que fora sua cúmplice na fuga, concordou que João
mandasse sequestrar mais duas escravas de seu pai com as quais tinha amizade. Esta atitude acirrou os ânimos,
levando o pai de Ana a pleitear, diante do Rei, a apreensão das escravas e a prisão da filha, com posterior clausura
forçada no Recolhimento de Nossa Senhora de Conceição, em Olinda. Uma diligência em estilo policial cumpriu a
ordem aprovada pelo Rei e a infeliz Ana Senhorinha viu-se enclausurada pela terceira vez – agora como castigo,
por ser mulher e ter ousado fazer uma escolha.
Aconselhando, auxiliando em fugas ou envolvendo-se a ponto de gerarem filhos, os escravos participavam das
questões mais íntimas e delicadas que permeavam a vida dos seus senhores. A sociedade escravista possibilitava
múltiplas relações e negociações, desde que permanecesse clara, como sempre permaneceu, a diferença entre
“dominadores” e “dominados”.
*Suely Creusa Cordeiro de Almeida é professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco e autora de O sexo devoto:
normatização e resistência feminina no Império Português XVI-XVIII (UFPE, 2005).
FONTE: ALMEIDA, Suely Creusa Cordeiro de. Quarto grande e senzala. Revista de História. 1º jun. 2013. Disponível em
<http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/quarto-grande-e-senzala>. Acesso em 05 ago. 2015.

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