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É sintomático…

Uma das frases feitas, muito ouvidas nos meios da MTC é que a Medicina
Ocidental é sintomática, ou seja, trata sintomas. Mesmo que não se diga
directamente, esta afirmação está ligada a outra crença muito comum na
MTC: os acupunctores tratam os desequilíbrios energéticos do corpo.
Nós regulamos as energias do corpo, uma vez que temos uma visão
mais holista do processo do ser humano.

O que é importante reter em mente é que os especialistas em MTC não se


limitam a tratar o sintoma do paciente. Trata-se algo mais, que ninguém
sabe exprimir muito bem, mas que deve ter alguma coisa a ver com as
energias que tanto gostamos e tão pouco conhecemos. Já mostrei, noutros
artigos, a validade deste discurso das energias e o quão vazio de sentido
são os discursos que nela se baseiam. Neste artigo quero focar-me noutra
asserção igualmente ridícula: a Medicina Ocidental só trata sintomas
enquanto que a MTC trata algo mais.

Comecemos com um exemplo prático de acupunctura. O seguinte protocolo


foi retirado da obra de Ganglin Yin: 12VC, 6MC, 4BP, 36E, 44E, 6BP, 9BP.

Olhando para o protocolo eu sei duas coisas: em primeiro lugar que a


queixa principal está associada ao estômago (neste caso seria gastrite) e
em segundo lugar que existe um padrão de Humidade-calor no Aquecedor
Médio (AM).

Os sintomas apresentados pelo autor são: dor epigástrica tipo distensão


acompanhada de sensação de queimadura agravando com ingestão de
alimentos, regurgitação ácida, boca seca, sabor amargo na boca, etc…1 O
que eu fiz foi simples: olhei para um conjunto de pontos e, através da lógica
de construção de protocolos, descobri qual era a queixa principal (sintoma
mais relevante) e o padrão clínico (sintomas associados) e descrevi os
sintomas do paciente. Isto parece sintomático o suficiente para o leitor?
Pensemos agora nos conceitos base da MTC. Os órgãos não têm existência
real, por exemplo. O órgão físico é uma manifestação de um conceito mais
abrangente e isto quando esse conceito tem manifestações físicas. O órgão
Triplo Aquecedor, por exemplo, não tem nenhum órgão. Quando olhamos
para estes conceitos, chamados órgãos, como Coração, Baço, Fígado, etc…
o que é que percebemos deles? São formas de catalogar sintomas, da
mesma forma que o são os padrões clínicos, as doenças ou os meridianos.

Por Coração, em MTC, compreende-se um conjunto de funções no


organismo que se manifestam, quando em desarmonia, através de um
conjunto de sintomas físicos e psicológicos. O que realmente interessa é a
capacidade de reconhecer os sintomas e tratá-los, saber agir. Qualquer
especialista em MTC deveria ter assente a ideia base de que a cultura
chinesa é essencialmente normativa. Ela cria teorias de forma a saber agir,
a saber definir procedimentos. E é isso que realmente interessa naquilo a
que chamamos órgãos: reconhecer os seus sintomas e a melhor forma de
os tratar.

A catalogação de pontos em sistemas de meridianos segue uma lógica


semelhante. Os pontos pertencem a determinado meridiano devido à sua
capacidade de tratar um determinado sintoma. Por isso existe algo a que
chamamos patologia dos meridianos. E baseia-se em… sintomas.

Basta dispensar 5 minutos ao diagnóstico em MTC para notar que ele se


baseia essencialmente na análise de sintomas e na relação que estes
formam. Sem sintomas não existe diagnóstico e por muito que algumas
escolas realmente gostem de se focar unicamente em sinais clínicos como
os obtidos pela língua ou pulso, dificilmente irão conseguir diagnosticar
correctamente um paciente só com isso. Não é a olhar para a língua de um
paciente que eu consigo saber que ele tem dor no tornozelo que agrava
com frio e melhora com calor e movimento, por exemplo. Por muito que
algumas pessoas não gostem os sintomas são a base da Medicina Chinesa.
….
A Medicina Chinesa é essencialmente sintomática. O seu pensamento está
feito de forma a tratar sintomas. Se já dei um exemplo de acupunctura
permitam-me agora citar um exemplo retirado da obra “Gynecology of
Traditional Chinesa Medicine”. Neste livro da especialidade os autores, no
tratamento da metrorragia e metrostaxis, devido a calor no sangue, referem
os seguintes sintomas:

“Occurrence of menstrual blood not at the due time, or profuse and


fulminant blood flow, dripping bleeding, bright-red or deep red color and
thin texture menses, accompanied by disphoria, dry mouth, or fever,
yellowish urine, constipation, red tongue with yellow fur, slippery pulse or
thin and rapid pulse”2

Nestes sintomas é possível observar 3 categorias distinctas de sintomas:


(1)sintoma da queixa principal(Occurrence of menstrual blood not at the
due time), (2) características próprias desses sintomas atendendo à forma
como o padrão clínico se manifesta (bright-red or deep red color and thin
texture menses) e (3) sintomas acompanhantes ou agravantes da queixa
principal (accompanied by disphoria, dry mouth, or fever, yellowish urine,
constipation) e sinais clínicos (red tongue with yellow fur, slippery pulse or
thin and rapid pulse).

A Medicina Chinesa é toda ela um gigantesco jogo de sintomas. Atendendo


ao que disse acerca da cultura chinesa enquanto cultura normativa temos
que todo o diagnóstico e terapêutica estão feitas de forma a permitir
intervenções seguras baseadas nos sintomas do paciente. Neste caso os
autores aconselham a seguinte fórmula:

Radix Scutellariae (Huangqin)– 10 g


Fructus Gardeniae(Shanzi) – 6 g
Radix Rehmanniae (Shengdihuang)– 10 g
Cortex Lycii (Digupi) – 12 g
Radix Sanguisorbae (Diyu) – 15 g
Cortex Mountain Radicis (Mudanpi) – 10 g
Plastrum Testudinis (Guiban) – 10 g
Colla Corii Asini (Ejiao) – 10 g
Trachycarpi Carbonisatus (Chenzongtan) – 10 g
Nodus Nelumbinis Rhizomatis Carbonisatus (Oujietan) – 10 g
Radix Glycyrrhizae (Gancao) – 5 g3

O mais curioso é que a seguir a estabelecerem a fórmula aconselham


alterações à mesma de acordo com a variação sintomática que possa
existir. Desta forma os autores aconselham:

No tratamento da sede e febre adicionar:


10 gramas de Rhizoma Anemarrhenae (Zhimu)
10 g de Radix Ophiopogonis (Maimendong)
10g Radix Scrophulariae (Xuanshen)
No tratamento de hemorragia com coágulos adicionar:
10 g de Pollen Typhae (Puhuang)
6 g de Faeces Teogopterorum (Wulingzhi)

E assim sucessivamente para diferentes sintomas. O que define a


prescrição ou alteração de fórmulas, a construção de protocolos de
acupunctura ou a dietática são essencialmente os sintomas do paciente.

Na ausência de sintomas não há doenças nem padrões clínicos de MTC.


Gostaria de ver alguém diagnosticar um Vazio de Yin do Rim ou um padrão
de Humidade-Calor no Pulmão na completa ausência de sintomas. A
Medicina Chinesa só trata basicamente sintomas e não são os discursos
embelezados dos seus aderentes que irão alterar esta realidade. Não é por
usarmos termos como “holistismo” ou “energias” ou “desequilíbrios
energéticos” que vamos negar este simples facto da MTC: o sintoma é a
razão de ser da Medicina Chinesa, é o fundamento da sua acção, é a sua
essência clínica.
…..

Agora que já vimos que a MTC é essencialmente sintomática deveríamos


levantar outra questão: é a Medicina Ocidental sintomática? Será esta forma
de Medicina essencialmente sintomática? Será que tanto necessita de
sintomas? Que se baseia unicamente no alívio de sintomas? Que não trata
mais nada além disso?
Já denunciei este tipo de discurso noutros artigos, nomeadamente, num
outro texto relacionado com este intitulado “Os outros tratam sintomas, nós
tratamos as causas”. Aconselho uma leitura atenta do mesmo. Para já eu
gostaria de me focar num exemplo, extremamente comum nos dias de hoje.

A uma mulher é diagnosticada uma massa tumoral benigna na mama. Esta


massa é pequena demais para ser sentida à palpação e a paciente não
apresenta sintomas nenhums. É 100% assintomática. O seu diagnóstico
deveu-se a tecnologia médica de ponta que permite detectar tumores que
nem são visíveis a olho nu, nem palpáveis.

Neste caso sabemos que a mulher sofre de uma neoplasia benigna da


mama. Temos as provas científicas que o sustentam. A questão é esta: o
que é que a Medicina Chinesa tem a dizer sobre isto? Os métodos de
diagnóstico da Medicina Chinesa são totalmente incapazes de avaliar o
estado clínico desta paciente. O interrogatório não vai denunciar nada
porque ela não tem sintomas relevantes, a palpação local não vai denunciar
nada uma vez que nem sequer tem massas palpáveis, a palpação de outros
sinais clínicos como o pulso ou a língua também não vai contribuir em nada.

Uma vez que os acupunctores fazem por publicitar o seu holismo e a sua
capacidade de avaliar “energeticamente” os pacientes, então, deveriam
ser capazes de avaliar esta paciente e dizer que existia um problema
específico na mama. Felizmente não são precisos exemplos muito
elaborados para mostrar a falsidade da verborreia energética.

No entanto, interessa mais continuar com o exemplo da nossa paciente.


Após diagnosticada a paciente é proposta para uma cirurgia de extracção
do tumor benigno. O tumor é extraído e a paciente fica tratada (pode ser
mais complicado que isto, no entanto este artigo não pretende focar-se em
todas as particularidades do tratamento do cancro da mama).

Neste caso a Medicina Ocidental, uma medicina essencialmente sintomática


conseguiu tratar com sucesso uma paciente que nem sequer apresentava
sintomas ao contrário da Medicina Chinesa que nem foi capaz de a
diagnosticar. A Medicina Ocidental consegue intervir com sucesso junto de
doenças assintomáticas ao contrário da Medicina Chinesa que nada faz se
não existirem sintomas.

Ironicamente a MTC é mais dependente de sintomas que a Medicina


Ocidental para o seu diagnóstico e prescrição. A MTC é principalmente
dependente de sintomas. O desenvolvimento científico ocidental e a
aplicação de tecnologia de ponta ao campo da Medicina fez com que esta
fosse capaz de diagnosticar problemas e intervir junto de situações que a
Medicina Chinesa nem sonha atingir. Isto tornou a Medicina Ocidental mais
independente dos sintomas do paciente enquanto que a MTC está
totalmente dependente da sua análise semiológica.

Podemos obviamente protestar contra este ponto de vista afirmando que a


Medicina Ocidental não consegue diagnosticar tudo e que existem
problemas para os quais ela só consegue aliviar sintomas. Sem dúvida que
é verdade. Mas em que é que isso nos ajuda nesta discussão? Afinal de
contas a MTC também não consegue diagnosticar tudo e em muitos casos a
única coisa que consegue fazer é aliviar sintomas.

Uma coisa é certa, das duas formas de Medicina se existe uma que é
essencialmente sintomática essa é a MTC. Se isto é um motivo de orgulho
ou tristeza para os seus profissionais não sei. Muito certamente irão sentir-
se indignados com estas afirmações. Apesar dos inúmeros exemplos clínicos
ou científicos que eu possa arranjar, as pessoas continuam sempre a
remoer nos mesmos chavões holistas e energéticos… os outros tratam
sintomas, nós tratamos as causas, etc… é caso para dizer: é sintomático.

BIBLIOGRAFIA

NANJING UNIVERSITY OF TRADITIONAL CHINESE MEDICINE, Gynecology of


Traditional Chinesa Medicine, Publishing House of Shangai University of
Traditional Chinese Medicine, Shangai, 2006

YIN, Ganglin; LIU Zhenghua; Advanced Modern Chinese Acupuncture


Therapy, New World Press, Beijing, 2000
1 Ganglin Yin, Advanced Modern Chinese Acupuncture, pág. 320
2 Gynecology of Traditional Chinese Medicine, pág. 74
3 Idem, idem, pág. 75