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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA CURSO DE CIÊNCIA SOCIAIS

Profº. Dr. Breno Fontes Aluno: Thiago Santos

Ensaio para a cadeira Mudança Social

r alé da R alé: População em situação de rua e o dilema do (não)reconhecimento.

Resumo: Este ensaio visa fazer uma breve discussão sobre a população em situação de rua e a questão

do reconhecimento. Para tal, parto de uma contextualização do que Jesse Souza entende por “ralé”,

contextualizando a população em situação de rua em uma condição mais precária que este grupo; e, em

seguida, procuro a pensar através de Nancy Fraser caminhos para superação dessa condição de extrema

desigualdade simbólica e material na qual vive a população em situação de rua.

Palavras-chave: Desigualdade social; Teoria do reconhecimento; População em situação de rua.

Embuste da desigualdade social no Brasil: a “ralé” e o problema da meritocracia.

A desigualdade social no Brasil – diferente do que ideologia do liberalismo induz a acreditar –

não está baseada apenas na questão econômica e sua superação, obviamente, não pode se realizar

através de medidas paliativas frente a necessidades básicas de subsistência (“assistencialismo”).

Perspectiva essa arraigada não apenas entre os especialistas/estudiosos, mas também entre os cidadãos

comuns, sob a forma do “economicismo”, onde “O economicismo é, na realidade, o subproduto de um

tipo de liberalismo triunfalista hoje dominante em todo o planeta (…) o qual tende a reduzir todos os

problemas sociais e políticos à lógica da acumulação econômica”(SOUZA, 2009. p.16). Essa

abordagem é consequência de uma visão reduzida a uma perspectiva economicista dos problemas

políticos e sociais, que inviabilizam vislumbrar a verdadeira causa e, consequentemente, tornam

inoperantes as tentativas de combater desigualdades sociais a partir desse posicionamento. Como

exemplo tem-se que, diferente do profetizado pela redentora teoria marxista, a desigualdade de raça e

de gênero não desapareceram com a introdução do negro e da mulher no mercado de trabalho: há uma

série de fatores socioculturais envolvidas da reprodução das desigualdades econômicas e simbólicas

entre os diversos grupos dentro do tecido social. A perspectiva de que tal desigualdade seria superada a

partir de um desenvolvimento econômico – apesar de poder ter sido muito sedutora e viável durante a

segunda metade do séc. XX – não se sustenta ao analisar-se o mundo de hoje: a(s) desigualdade(s)

permanece(m) pulsando vigorosamente.

O que faz com que a desigualdade social seja naturalizada apenas como questão econômica em

sociedades modernas, que prezam por valores de universalidade de direitos e dignidade humana, é a

ideologia do liberalismo na qual o indivíduo é o “self-made-man”, o homem que faz a si, e ao

incorporar essa ideologia, os cidadãos que ocupam uma posição confortável na sociedade não

percebem relação possível entre sua condição e a dos que estão nos estratos mais baixos; pois, dentro

dessa ideologia, são os indivíduos os únicos responsáveis por seu sucesso ou fracasso. Como fica claro

nesta passagem,

O que assegura, portanto, a “justiça” e a legitimidade do privilégio moderno é o fato de que ele seja percebido como conquista e esforço

individual. Nesse sentido, podemos falar que a ideologia principal do

os

privilégios modernos são “justos”. […] O ponto principal para que essa ideologia funcione é conseguir separar o indivíduo da sociedade. Nesse sentido, toda determinação social que constrói indivíduos fadados ao sucesso ou ao fracasso tem que ser cuidadosamente silenciada. É isso que permite que se possa culpar os pobres pelo próprio fracasso. (SOUZA, 2009. p.43)

mundo moderno é a “meritocracia”, ou seja, a ilusão [

]

de que

O que é negligenciado pela ideologia da meritocracia é o fato de que os indivíduos não partem

do mesmo lugar nessa competição “justa” da vida social: os processos de socialização, o acesso aos

bens e serviços, a relação com as artes e com o tempo para desfrutar de outras experiências, viagens

etc. Tudo isso conta quando os indivíduos vão “competir”. Essa parte que é encoberta pela visão

economicista da desigualdade social, está profundamente demonstrada por Bourdieu dentro da noção

que ele chamou de habitus, sendo este o principal mecanismo pelo qual é garantida a alocação e

reprodução dos indivíduos e grupos sociais em seus 'lugares' na estrutura social.

A questão que fica é que a desigualdade existe tanto materialmente (âmbito econômico) quanto

culturalmente (âmbito simbólico), de tal forma que divida a sociedade em classes sociais a partir da

possibilidade de acesso e relação com esses dois universos não tão distantes. E é justamente do lado

dos despossuídos que Jesse Souza aloca o que ele chama de “ralé”:

O processo de modernização brasileiro constitui não apenas as novas classes sociais modernas que se apropriam diferencialmente dos capitais cultural e econômico. Ele constitui também uma classe inteira de indivíduos, não só sem capital cultural nem econômico em qualquer medida significativa, mas desprovida, esse é o aspecto fundamental, das precondições sociais, morais e culturais que permitem essa apropriação. (ibid. p.21) [Grifo nosso]

A observação a ser feita é a de que a questão não é apenas ser desprovido de capital cultural ou econômico, mas desprovido da própria possibilidade de tê-los por questões que estão relacionadas à sua própria situação estrutural de ralé. Pela impossibilidade de se firmar em empregos que exigem

alguma especialização técnica ou cultural, à ralé só é possibilitado (sobre)viver através do trabalho com o/do corpo: “ela só pode ser empregada enquanto mero “corpo”, ou seja, como mero dispêndio de energia muscular” (ibid. p.24). A identificação de tal situação como estrutural não pode ser tomada como um fim em si ou um fatalismo: ela deve ser um início para inspirar investigações que aliem, na realidade brasileira, as investigações sobre as desigualdades sociais que acometem toda uma ralé – estivadores, prostitutas, catadores de materiais recicláveis, empregadas domésticas etc – a partir de uma posição que alie esse duplo movimento de combate as questões estruturais econômicas(materiais)

e culturais(simbólicas) ao mesmo tempo. O estado atual para Souza é o de que “desde o início de seu processo de modernização: a continuação da reprodução de uma sociedade que “naturaliza” a desigualdade e aceita produzir “gente” de um lado e “subgente” de outro.” (ibid. 24) além do fato de que só é possível porque tal aspecto é encoberto por todo um aparato simbólico no qual “a reprodução da desigualdade material em todas as suas dimensões – econômica, cultural e política – pressupõe o sistemático

desconhecimento/encobrimento, produzido e reproduzido simbolicamente, de suas causas efetivas.” (Ibid. p.91). Dessa forma é muito difícil enxergar os causadores desse círculo vicioso que degrada as camadas mais baixas do estrato social com o “ok” da sociedade, como se tudo estivesse no seu lugar e

não pode: conforta as pessoas acreditar que “pobreza sempre existiu e

o que não pode ser mudado sempre vai existir”.

A ralé da Ralé: ou, o buraco é mais em baixo.

Um problema que se coloca é o fato de que a ralé conceituada por Souza(2009) está, ainda que de forma precária, minimamente introduzida no sistema de (sub)trabalho, que mesmo sendo apenas para a venda do corpo, muitas vezes requer carteira de trabalho ou “recomendações” e garantem a manutenção de moradia e alimentação: empregadas domésticas, entregadores de encomendas, carregadores, faxineiros, garis, etc. Além dessa ralé, acredito que existe um outro grupo que difere substancialmente entre as privações as quais são submetidos: os que são impossibilitados de seus direitos básicos como cidadãos por não terem renda, moradia e documentos; que não podem sequer ter acesso aos – vistos dessa ótica como – “privilégios” da ralé de Jesse. Esse grupo é denominado como população em situação de rua, que vive em uma precariedade alarmante. Para além de toda heterogeneidade que inviabiliza o reconhecimento da população em situação de rua como grupo, podemos identificá-los enquanto grupo a partir de suas ausências: são

despossuídos, não têm casa, renda, vínculos familiares – em extremo, são destituídos de cidadania. De

acordo com a definição:

considera-se população em situação de rua como um grupo populacional heterogêneo, mas que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, em função do que as pessoas que o constituem procuram logradouros públicos (ruas, praças, jardins, canteiros, marquises e baixos de viadutos) e as áreas degradadas (dos prédios abandonados, ruínas, cemitérios e carcaças de veículos) como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente. (SILVA, 2009. p.29)

A população em situação de rua está caracterizada em dois momentos por duas questões que se

alimentam mutuamente, e que dão força uma a outra para operarem como elementos que degradam

sem cessar os indivíduos que se encontram nela, que são: a pobreza extrema e o preconceito como

marca do grau de dignidade e valor moral atribuído pela sociedade às pessoas atingidas pelo fenômeno

(SILVA, 2009.). É o estigma de morador de rua que impossibilita a realização da vida enquanto

cidadãos, são estigmatizados como marginais e degradados socialmente, e essa mesma condição vai

aprofundando as dificuldades de superação progressivamente ao passar do tempo. Tais pessoas, como

essa passagem demonstra bem,

são portadores de um estigma social que os associa à marginalidade, o que os faz serem vistos como perigosos, loucos e incapazes. A dificuldade de aceitação social desses indivíduos, associada à sua auto- imagem denegrida, dificulta o estabelecimento de vínculos com o trabalho e a família, que os enquadraria num parâmetros de vida socialmente aceitos” (VIEIRA, BEZERRA, ROSA, 2004. p.97)

Vê-se então a estreita relação de como o aspecto econômico leva a uma condição simbólica,

intrissecamente imbricados na dinâmica da detereorização da identidade dos sujeitos acometidos por

ela. São privados de documentos, muitas vezes de assistência do Estado, vivem de bicos e de caridade

vindas de traseuntes nos centros, alimentam-se muitas vezes do grande volume de comida que pode ser

encontrado nos lixos, são invisibilizados no sentido de indulgentes. Souza diz que o intuito do livro A

Ralé Brasileira é dar visibilidade a uma classe social que não é vista como classe, e que sempre foi

(in)visível, percebida como conjuntos de indivíduos carentes ou perigosos (p.25); o presente ensaio

tem como objetivo, além de dar visibilidade a uma camada recorretemente negligenciada, adicionar à

noção de ralé a sua dimensão radical, que talvez configura até um outro tipo social, que é do completo

despossuído.

Há um caminho para superar essa desigualdade social? Dilema redistribuição e reconhecimento.

A população em situação de rua tem no estigma que acomete a definição de sua identidade, forma um grupo que é definido pela partilha de várias características negativas dentro das sociedades pautadas numa ideologia da meritocracia. Quando procura-se entender os problemas políticos, econômicos e sociais que esta representação acarreta, encontra-se de saída a forma como as pessoas e grupos, as identidades, são reconhecidas e simbolizadas socialmente interfere necessariamente na possibilidade de afirmação político-econômica-social destes. De acordo com Charles Tylor, A tese reside no fato de a nossa identidade ser formada, em parte, pela existência ou inexistência de reconhecimento e, muitas vezes, pelo reconhecimento incorrecto dos outros, podendo uma pessoa ou grupo de pessoas serem realmente prejudicadas, serem alvo de uma verdadeira distorção, se aqueles que o rodeiam reflectirem uma imagem limitativa, de inferioridade ou de desprezo por eles mesmos. O não reconhecimento ou o reconhecimento incorrecto podem afectar negativamente, podem ser uma forma de agressão, reduzindo a pessoa a uma maneira de ser falsa, distorcida, que a restringe. (TYLOR, 1994. p.45).

Esse reconhecimento incorreto, está no plano do reconhecimento identitário/cultural: é negado às pessoas que sua forma de vida, suas valorizações acerca da experiência com/no mundo, o devido reconhecimento de que são equivalentes em sentido de valor. Se formam táticas no tecido social de descredito e de distorção que diminuem as manifestações culturais/valorativas provenientes da identidade cultural vitimada. Mas o ponto de partida, e fundamental, é que a identidade que está em jogo depender de ser reconhecida como legítima para ser positivada, do contrário ela sofrerá uma distorção de sua singularidade e será impedida de se manifestar em sua plenitude sem que sofra sanções socais, que se manifestam também no direito, na política e na economia. Esse debate ganha força muito grande com o livro “Luta por reconhecimento”, de Axel Honneth, onde a luta por reconhecimento se dá, no mesmo sentido que básico que a exposta por Tylor, sendo que para Honnet está propondo uma teoria do reconhecimento que está voltada para entender as identidades culturais e a dinâmica de empoderamento deles, se preocupa basicamente com a questão do desrespeito social que algumas coletividades sofrem, está preocupa do com os ataques à identidade de forma larga. O cerne de sua teoria versa sobre os embates entre diversas perspectivas morais no espaço público, e a violência que acomete uns em detrimento de outros. Charles Tylor e Axel Honnet certamente são dos maiores nomes da chamada teoria do reconhecimento; contudo, o reconhecimento preconizado por eles não leva em consideração que para

fins de superação, de fato, de uma injustiça social, apenas política de reconhecimento parece não poder resolver. Em casos quando prejuízos materiais e simbólicos estão vinculados às identidades, pensar política de reconhecimento apenas no âmbito simbólico parece não ser muito profícuo, por que o reconhecimento identitário (simbólico) não se traduz em mudança material de vida. Assim como a mudança apenas na perspectiva economicista, como demostrado anteriormente, não transforma a realidade social também. Atendendo a essa lacuna Nancy Fraser desenvolve um trabalho crítico da teoria do reconhecimento, que afirma a necessidade de integrar a luta por reconhecimento com a redistribuição. Ela parte da diferenciação entre duas formas de injustiça social que minorias sofrem: a primeira é a injustiça econômica, que se consolida na estrutura econômico-política; ela tem como principais resultados a exploração, a marginalização econômica e a privação material. A segunda é a injustiça cultural ou simbólica, que se solidifica nas representações sociais dos sujeitos e grupos, na interpretação destes e na comunicação; ela tem com principais consequências a dominação cultural (sua forma de vida se torna inferiorizada), ocultamento/invisibilização e o desrespeito público (FRSAER, 2006). O ponto é que essas duas formas de injustiça podem se apresentar sobre o mesmo grupo, e aí tratar da questão a partir de apenas uma forma não supera a condição: têm que ser tratado de uma forma dupla. A identidade que é acometida por essa dupla injustiça, esse tipo híbrido, as “Coletividades bivalente em suma, podem sofrer da má distribuição socioeconômica e da desconsideração cultural de forma que nenhuma dessas injustiças seja um efeito indireto da outra, mas ambas primárias e co-originais” (Fraser, 2006. p.239). Os remédios aprontados por Fraser para superar essa condição requer medidas de redistribuição de renda/riqueza e acesso aos meios de produção, associada ao reconhecimento cultural/identitário dos grupos sociais.

Considerações finais

Talvez assim, se esse modelo fosse levado a sério, não só “minorias tradicionais” poderiam superar sua condição de prejuízo social, mas também toda a ralé em seus casos mais ou menos extremos, de forma que parece ser um caminho possível para a construção de uma sociedade mais juta. O caminho do reconhecimento sociocultural tem sido trilhado em diversas frentes e é, em si, uma vitória no sentido de uma positiva mudança social. Me parece estar longe de se concretizar a jornada pela redistribuição de renda. Mas, o fato de que os movimentos intelectuais que têm demonstrado a ineficácia de medidas de reconhecimento ou redistribuição isoladas, parecem dar um novo ânimo e esperança para mudança desse sociedade, tornando-a menos desigual e mais digna para todos.