Você está na página 1de 1

Umuarama, domingo,

28 de fevereiro de 2010 15
Thiago Casoni

E a Quaresma
chega novamente por Tiago Lobão

E estamos nós, outra vez, num dos períodos que


eu mais gosto do ano: a Quaresma. Só seria melhor
se ao invés do calorão do verão, esses quarenta

Gravura por Paula Toaneiro - http://paulotanoeiro.blogspot.com/


dias se passassem no inverno, sem toda essa
transpiração desnecessária.
É durante estes quarenta dias que, enquanto os
santos, os anjos e todo mundo lá das altas rodas
está ocupado em penitência, meditando e refletindo,
os espíritos matreiros saem pra atazanar as simples
pessoas e acabam gerando aquelas ótimas histórias
de assombrações. É o tempo do Saci-Pererê, do
Lobisomem, da Mula-sem-cabeça e do Curupira. É
quando as bruxas saem pelas cidades escolhendo
seus alvos, os demônios ficam a cochichar nas
nossas orelhas e nos colocando em enrascadas, isso
quando não aparecem na nossa frente, loucos para
negociar alguma coisa em troca da nossa alma.
Halloween que nada! Onde já se viu trocar 40 dias
de pura festança sobrenatural por uma noitezinha
de novembro, com sustos aqui, travessuras acolá.
Sou do Movimento Viva a Quaresma (mesmo

IMPERMEÁVEL Por Ângela Russi


que na morte!). Pra completar, deixo vocês com a
primeira história sobrenatural de algumas que virão:
O Ramalhete de Flores do Campo.
Seu Orlando tinha uma floricultura que ficava de
frente pro cemitério. Seu negocio ia de vento em
“-Mãe, posso tomar banho de chuva?” poupa, afinal, morre gente todos os dias e não tem
Um dia desses, em que chovia muito, lembrei- lugar mais propício para uma floricultura do que ali,
me dessa frase tão constante em minha infância. Nos em frente ao cemitério. Já perdeu a conta de quantas consciências estando do outro lado da rua. O enterro perto das seis da tarde,
dias chuvosos era lógico para mim, pedir para brincar salvou, pelos mais de 10 anos que estava ali, ao vender uma flor naquela terça-feira.
na chuva. Minha mãe às vezes deixava, às vezes não. para aquele ente querido e quase esquecido. Quinze pras seis da tarde Orlando fechou a floricultura e foi ao
Depois da chuva eu tinha de tomar um banho quente de Diferentemente dos clientes emergenciais, ele tinha alguns enterro de seu amigo. Depois do sepultamento veio caminhando
chuveiro e então me aconchegava no sofá para assistir costumeiros, como a dona Olga, que aparecia todas as quartas- aleatoriamente pelo cemitério e ficou espantado com o numero
feiras, próximo do horário de fechar a floricultura, lá pelas seis horas de conhecidos seus que estavam lá, mortos. Também conseguia
TV. Nessas memórias não me recordei de ficar resfriada da tarde. Ela era uma senhorinha, nos seus setenta e poucos anos, reconhecer alguns dos arranjos de flores saídos de sua floricultura,
nenhuma vez após brincar na chuva. Parecia que eu era mas aparentava muita saúde e lucidez. De passos firmes, chegava definitivamente era um bom negócio. Parou estarrecido em frente a
impermeável à chuva fria. Parece que as crianças são no balcão e pedia o seu ramalhete de flores do campo, conversava um túmulo.
impermeáveis às doenças quando brincam. Deve ser um tiquinho com o Orlando, saia em direção ao cemitério e entrava As flores do vazinho já estavam secas, a foto era de uma senhora
porque estão felizes. pelo portão. imponente, mas de olhar feliz. Olga Albuquerque do Nascimento
Hoje, não mais criança, pelo menos fisicamente, Pelo pouco que conversaram, Orlando concluiu que Dona Olga (17/08/1932 - 23/11/2005). Era a Dona Olga, sua cliente contumaz
penso em como seria se eu fosse impermeável à chuva, era viúva há muito tempo e, decerto levava flores ao finado marido da floricultura. A data da morte já completava mais de um ano.
todas as quartas-feiras. A única queixa que Olga fazia era sobre a Ainda pálido e com o pensamento a mil, foi até sua floricultura,
aos raios, relâmpagos e trovões do cotidiano. Nada ausência dos seus filhos e netos, faziam muitos meses que eles não reabriu as portas, fez um belo ramalhete de flores do campo e o
relacionado às intempéries do clima, na verdade falo das a visitaram e ela estava se sentindo só e abandonada. “Ainda bem levou até aquele tumulo. A partir desse dia, Orlando repetia o ritual,
intempéries dos relacionamentos humanos. que tinha o túmulo de seu marido para visitar” pensava Orlando, às quartas-feiras levava um ramalhete de flores do campo para
É difícil relacionar-se com pessoas inconstantes. algum exercício de afeto para ocupar seu cotidiano. a Dona Olga e jamais percebeu qualquer sinal de outra pessoa
Comparo-as aos dias em que não se sabe se chove ou Num dia cinzento desses, morreu um grande amigo do Orlando, visitando sua singular cliente. Mas sentiu-se feliz ao perceber que
não. Pego o guarda-chuva ou não? Complicado isso. manteve a floricultura aberta apesar da dor no coração. Mandou Dona Olga nunca mais apareceu pra comprar um ramalhete de
Lidar com a inveja alheia também pode ser comparado uma bela coroa de flores para fazer-se presente no funeral, mesmo flores do campo.
com um dia nublado em que sem mais nem menos o céu
dispara raios sobre você. De onde veio? Por quê? Difícil
isso. Estar rodeado de pessoas competitivas ao extremo
é dureza. É como um dia cheio relâmpagos. Tem de estar
PARTE IV – Corpo Desacostumado
alerta senão o clarão vem e não dá tempo de se preparar Por Caroline Guimarães Gil
para a trovoada. O susto é grande. Frustrante isso.
Ignácio entrou no aposento, conhecimento. Um homem que fala
O bom mesmo era se pudéssemos ser batendo os pés com arrebatamento, daquilo o que não conhece é um tolo.
impermeáveis aos comportamentos dos que convivem observou toda a atmosfera com um Sabe armazenar impecavelmente
conosco. Assistiríamos a tudo sem sentir o frio que a olhar de repulsa. as informações, mas não faz outra
enxurrada de chateações provoca. - Não consigo com- coisa a não armazená-las. Não sabe
Detesto a inconstância, a inveja e a preender – colocou as mãos na o que fazer com o que contém. Nada
competitividade. Eles detonam qualquer relacionamento. cintura – porque motivo ainda, sabe escolher, fazendo com que a
Por que será que sempre há alguém assim por perto? até mesmo hoje, não me chama de mente fique cheia de coisas inúteis
pai. e desnecessárias.
Desconfio que alguém que age dessa maneira tenha - Senhor Ignácio! Que bom - Sabe que isso é um as-
medo do fracasso. Um medo grande que faz com que que apareceu, eu mesmo ia travar sunto delicado para mim. – engoliu
busque vencer a todo custo e sem pensar em ninguém conversas contigo. em seco - Falar sobre Abigail, oras!
mais. Pode ser que nele habite uma solidão enorme que - Ah, ia? – disse com sus- Como posso falar de alguém que já
o faz triste e quando vê o outro se dando mal sente-se peita e desprezo, olhando Benjamim está... Morta. É um assunto total
menos solitário e consegue ser um pouco feliz. Quem sabe por debaixo dos óculos de meia delicado, oh Deus!
tem raiva de todo vencedor por sentir-se perdedor? lua. - Há quanto tempo é deli-
. Não sou de ficar me martirizando pelo comportamento - Sim. Vamos até a sala, cado este assunto, Senhor? Nada
aqui não me parece um local ad- me falaste até hoje sobre Abigail!
alheio. Quando esse comportamento me atinge de equado para tal assunto. Nem ao menos posso conceber meus
alguma forma mais profunda acabo ficando uns dias - Você vive escolhendo pensamentos de como poderia sê-la!
magoada. Conviver com quem tem esse comportamento locais adequados, horas adequadas, mangas do paletó – Se eu fosse você, não condizem com seus reais tra- Perdão aborreceu-me por demais.
ofensivo desgasta qualquer um. Seus gestos e palavras pessoas adequadas... não consumiria tempo incumbindo balhos. Vá, saia de meu quarto.
às vezes são como os raios, tão rápidos que quando se - O que quer dizer com isto? Edna... De tarefas, que quiçá, não - O que quer dizer com isto?! - Está me expulsando?
dá conta já caiu e se cair no lugar errado faz um estrago - Não sei. – caminhou sejam relacionadas com os quefaz- - Minha mãe, deveria - Perdoe-me. Estou cansa-
danado. Duram tão pouco, mas, perduram na lembrança até a janela e notou indiretamente eres da casa. mesmo, realizar tarefas incumbidas do. Por favor, retira-se. – abaixou a
o que havia por cima da bancada, - Você lembrou-me cor- pelo senhor... cabeça, coçou os olhos, num gesto
por tempo demais como se procurasse alguma coisa, retamente, senhor Ignácio! Total - Cala-te! Não fale assim de exaustão.
Ser impermeável é ser imune a todas as palavras voltando-se a olhar para Benjamim grato eu fico! Disse muito bem as de sua mãe! – levantou-se enraive- - É ainda meu filho, Ben-
e atitudes contra o sucesso pessoal. Quem consegue – Preocupa-me isolar-se tanto neste palavras... Que são suas, inteira- cido. jamim. – aproximou-se colocando
faz com que elas batam e voltem sem nenhuma avaria. dormitório imundo. – passou os mente! Pois sou Benjamim, e não... - Não. Não estou argu- a mão sobre o ombro do rapaz, deu
Como a água no azulejo do banheiro. Como a chuva dedos sobre a mesa e sentiu o pó Ignácio! Se você fosse eu... Mas mentando sobre minha mãe, senhor umas sacudidelas - A loucura o está
fria em criança feliz. Quem consegue não precisa se entre os dedos. quem sou eu: sou eu mesmo! Só Ignácio. Peço perdão, se caso o acha corroendo como a mim, também.
preocupar com as invejas brancas, boas, santas, pretas, - Edna... Edna está ocu- poderia praticar o que me apetece, isso. Estou precisamente falando Todos são confusos, Benjamim, mas
pada, atualmente. e nada mais, nada menos. Além de ti. Fique sossegado. Como posso vivemos.
ruins, diabólicas. Nem ligar para aquele que um dia sorri - Ah, claro! Edna tornou- (...) Cadê o restante?
disso, o senhor quem deva conhecer falar de minha mãe, se nada sei
e no outro rosna. Muito menos para o que corre na sua se tão atarefada recentemente. – muito bem, a respeito de incumbir dela? Não é mesmo? Só posso vestir- Confira no próximo domingo, na
frente o tempo todo. Deixe que corra sozinho. Para haver sentou-se na cadeira ajeitando as as pessoas a realizar tarefas que me de palavras daquilo o que tenho página do Culturanja!
competição precisa haver pelo menos dois.
Porém, criaturas de carne e osso, uns mais
carne do que ossos, uns mais emoção do que razão e
todos desprotegidos das misérias alheias, são atingidas
e sofrem. Relacionamentos assim realmente machucam.
Ser totalmente impermeável é impossível porque somos
humanos, seres emocionais. Mesmo as pessoas mais
‘frias’ têm emoções. Mesmo assim é bom ser humano.
Isso significa poder sentir a chuva e, com sabedoria, se
proteger dos raios, relâmpagos e trovões.
Não sou impermeável, mas se além da chuva
há raios, relâmpagos e trovões só saio de casa se
necessário e mesmo assim com um bom guarda-chuva.
Do contrário, só sendo como uma criança na chuva. A
felicidade é um impermeabilizante excelente.

Interesses relacionados