30 Dias com Alex Vause

Capítulo I – The day we met
23 de julho de 2006
Paris, França
Eu sempre fui fã do estilo de vida parisiense que eles mostram nos filmes;
dos passeios pelo rio Sena com um cigarro entre os dedos, comer macaroons
em frente à torre Eiffel, e não posso deixar de mencionar as visitas rotineiras
ao Louvre. O que chega a ser um pouco irônico já que não fumo, tenho
alergia a glúten e meu conhecimento sobre arte é tão restrito quanto o meu
francês.
-Merci. – agradeço ao barista que me traz uma xícara de chá.
Neste exato momento estou sentada no balcão de um bistrô, observando a
chuva escorrer pelas janelas de vidro, ao mesmo tempo em que belisco um
pedaço de croissant. Soa mais legal do que realmente é.
Minha mãe não ficou muito feliz ao saber do meu destino para os próximos
30 dias – vinte e nove, agora. “Franceses são mal-educados”, “eles fedem”,
“você não vai fazer amigos”. Ela sempre foi assim, muito motivadora.
A verdade é que a França só foi uma opção pois tem um dos metrôs mais
eficientes da Europa. O que é bem importante, considerando minha
incapacidade de dirigir um automóvel. Dizem que o de Londres é ainda
melhor, mas o sotaque inglês me irrita. E a comida é péssima.
A razão dessa viagem repentina? Há um mês eu surtei. Um surto de verdade,
com direito a quebrar as peças de decoração da minha mãe na parede e muito
choro. O psicólogo disse que é a mistura de estresse com frustração pessoal.
Semestre passado eu larguei a faculdade de Direito no último período. Pode
parecer besteira, mas não sei se é isso que quero para a minha vida. Demorei
oito semestres para tomar essa decisão. Desde então, parece que não tenho
mais perspectiva alguma. Quero dizer, eu moro em Nova Iorque! É terrível
saber que as pessoas trabalham 14 horas por dia, enquanto você está sentada
no sofá passando os canais de televisão.

-As tu fini?
-Me desculpe? – franzo a testa para o homem, que não parece estar com
muita paciência para traduzir.
Não posso culpá-lo. Se estivesse no meu país, provavelmente garçom
nenhum falaria francês.
-Você já terminou? Tem pessoas querendo seu lugar.
Olho para a xícara vazia e empurro o pirex para frente.
-Sim, obrigada. – o rapaz apenas assente com a cabeça, murmurando algo
para si mesmo.
Muito agradável, ele.
Retiro meu sobretudo e o coloco em cima da cabeça para me proteger da
chuva. Dica número um sobre a França: esteja o sol que for, sempre traga
um guarda-chuvas consigo.
É incrível como tudo fica mais triste quando está chovendo. As pessoas se
recolhem dentro de casa e só sobra na rua aqueles que 1. estão a negócios ou
2. são turistas. É o dia perfeito para um chocolate quente e histórias clichês
de amor. Até porque, deve ser ilegal ler algo diferente na cidade mais
romântica do mundo.
Animo-me no momento em que avisto uma loja de livros, praticamente à
frente do meu hotel.
No instante em que abro a porta um sino toca. Acho graça. Nunca havia visto
uma dessas. O lugar tem um ar retrô e para minha surpresa, não tem cheiro
de mofo, mas de incenso. Não aquele sufocante, como os de templos hindus.
É bem agradável.
Estou prestes a tirar meu minidicionário de francês da bolsa quando percebo
que tudo por ali está em inglês. Uma tremenda sensação de alívio, posso
afirmar. Sigo direto para a sessão de Romances.
Estripulias de uma Mulher Moderna é a primeira obra que ponho os olhos.
“Eu não acredito”, penso comigo mesma. Ah vai, pelo menos a arte da capa
não é tão ruim quanto o título. Com um pouco de hesitação, agarro uma cópia
e seguro-a contra o peito.

Continuo pela prateleira e termino com mais dois livros; Os Moedeiros
Falsos, de André Gide e Madame Bovary, porque uma vez na França...
Diiiiing.
Não demora muito para que apareça alguém atrás do caixa.
É uma mulher.
Que mulher.
O que eu observo primeiro é seu cabelo (é a primeira coisa que observo em
todo mundo). É escuro, bagunçado – mas não muito – e médio, pouco abaixo
dos ombros. Contrasta com a pele branca, pálida, e a regata de seda rosabebê. Angelical demais para um rosto com tanta personalidade.
E também tem um par de óculos.
Ela desliza os livros pelo móvel de madeira e sorri quando checa o primeiro.
-Você deve ter dinheiro. – ela comenta, numa voz rouca que me faz suspirar
internamente. – Manhattan, eu suponho.
-Upper East Side. – corrijo-a, e ela levanta as sobrancelhas. – Você é algum
tipo de vidente ou coisa parecida?
-Não é preciso ser vidente para perceber isso. Ninguém que valorize seu
dinheiro gasta EUR 21,00 em um livro como Estripulias de uma Mulher
Moderna.
Ouch.
-Foi minha mãe quem escreveu esse livro, na verdade.
Que surpreendentemente conseguiu ser classificada como a autora mais
vendida pelo New York Times, por duas semanas.
-Me desculpe, eu não quis...
-Tudo bem, eu te entendo. Não é meu tipo de leitura preferida também, mas
ela tem me pedido para dar uma opinião faz três meses.
-Bom, boa sorte, eu acho. – a moça me entrega a sacola e o troco para a nota
de 50 que lhe dei.
Eu não quero partir.
-Obrigada. – sorrio.

Ela deve ter cerca de uns 25 anos, aposto.
-E você? De onde é? – pergunto, já perto da porta.
-Brooklyn. – ela responde, com a cabeça apoiada sobre o braço.
Mordo o lábio, afim de não deixar transparecer as sensações estranhas
acontecendo dentro de mim. Viro-me novamente para a saída e deixo o local,
dessa vez um pouco mais feliz do que quando entrei.
***
Três horas e 173 páginas depois, finalmente termino Estripulias de uma
Mulher Moderna. Tenho que admitir que não é tão ruim quanto eu pensava.
Não é a história mais original que já li, porém é cativante. Penso em ligar
para ela e lhe contar sobre o que achei, mas são três horas da tarde em NY –
o que significa que é hora do pilates.
A chuva cessou e estou morta de fome. Com preguiça demais para sair, no
entanto.
Sinto o telefone vibrar embaixo do travesseiro. “Número privado”.
-Alô?
-Piper? – é difícil não reconhecer essa voz.
-Larry!
-Como anda Paris? Problemas com o francês? Já está com saudade do
Central Park? Muitas garotas francesas? – ele se atropela nas próprias
perguntas.
Larry é meu melhor amigo desde que me lembro. Nossas mães foram a
faculdade juntas e não se desgrudaram desde então. Estávamos sempre
juntos, consequentemente. Aula de espanhol, karatê, piano... ballet. Ah, cara,
eu amava vê-lo usando aquela calça legging, era hilário.
-Tediosa, óbvio, não e sim.
-Você já conheceu alguma? – ele questiona, interessado.
-Não, mas existem várias na rua.
-Há.
-Eu conheci alguém, mas ela não era francesa.

-Mesmo?
-É, não foi grande coisa. – menti. – ela trabalha numa livraria e é do
Brooklyn.
-Bom ver que já está arrumando amigas. – ele comenta.
-É. – eu não diria que somos amigas. – estou com fome.
-Coma um crepe por mim. E vinho. Pouilly-Fuissé.
-Eu nunca, na história da humanidade, seria capaz de pronunciar essa
palavra.
-Eu sei. – ele ri. – Sinto sua falta.
-Eu também...
-Você deveria sair para comer.
-Talvez eu vá. Agora, me prometa que não vai esquecer de colocar comida
para o doutor House. E que vai fazer carinho nele.
Dr. House é meu gato. Eu tinha 14 anos e era obcecada por séries medicinais,
não acho que precise explicar mais nada.
-Eu prometo.
-Tudo bem, vou desligar. Mande lembranças à Clary. – a mãe dele.
-Mandarei. Divirta-se, por favor. – ele recomenda.
-Eu vou. – digo e desligo em seguida.
Recosto novamente sobre a pilha de travesseiros brancos na cama, encarando
a paisagem através da janela. São precisamente 9:04 da noite em Paris e só
agora o Sol decidiu se pôr. O céu está num tom alaranjado que mais parece
um quadro de aquarela. É tudo tão bonito, que fica até um pouco difícil de
acreditar, sabe?
Sou desconectada dos meus devaneios pelo barulho da campainha.
-Limpeza. – uma mulher grita, depois de dar alguns socos na porta.
Europeus... sempre delicados.
Enfio os pés no par de tênis ao lado da cama e pego algumas notas de
dinheiro na carteira.

-Pode ficar à vontade, eu vou sair para comer alguma coisa e volto logo. –
aviso à moça, que mal olhara para mim.
A temperatura lá fora está surpreendentemente mais agradável que antes.
Existem pessoas andando pela rua também. Casais, na maioria delas.
Gostaria de poder entrar no meio de todos eles e dizer para pararem com essa
baboseira de amor. Amor... nunca foi muito justa comigo, essa palavra de 4
letras.
Anthony foi o primeiro. A verdade nós tínhamos 14 anos e eu só o beijei
porque não havia beijado ninguém antes. Depois disso convenci a mim
mesma que precisava gostar dele, porque é errado usar as pessoas como
cobaia. Ele terminou comigo quando descobriu que eu preferia bisbilhotar
sua irmã trocando de roupa a ficar com ele. Tive que fazer suas tarefas de
casa por uma semana, em troca de seu silêncio. Idiota.
Depois veio Bethe, da aula de karatê. Ela era bruta e sempre machucava meu
lábio quando tentava me beijar de uma forma diferente. Terminamos quando
ela descobriu que sua religião não apoiava o homossexualismo. Dois meses
depois ela apareceu de mãos dadas com o filho do pastor. Eu não fiquei com
raiva, só pena.
E por último... Alice. A professora de Direitos Civis mais cobiçada da
Universidade. A deusa Afrodite entre nós, meros mortais. Cabelos ruivos até
a altura dos ombros, sardas vermelhas no nariz e seios que poderiam chamar
a atenção de alguém à quilômetros de distância. Amei Alice com todas as
minhas forças, por seis meses e vinte e nove dias. Foi numa quinta-feira que
ela disse que não era eu, era ela. Vadia. Ela foi transferida para a Filadélfia
no semestre seguinte, sabe-se lá porquê. Tive que frequentar a terapia por
algum tempo, posteriormente.
Talvez eu simplesmente não seja feita para ter relacionamentos duradouros.
Talvez eu seja a próxima tia solteira da minha geração, que aparece com uma
pessoa diferente em cada reunião de família.
-Le numéro 3, s'il vous plê. – peço à atendente, apontado para o painel acima
dela.
Vejo que se não me aperfeiçoar nessa língua em breve, viverei da comida de
cafeterias para sempre.
-É s'il vous plaît, não s'il vous plê. – ouço alguém dizer atrás de mim.

A mulher do balcão ainda me olha confusa.
-Une crêpe au fromage cottage, s’il vous plaît. – a garota de cabelos negros
pede.
É a vendedora da loja de livros. Meu estômago se remexe.
-E uma água.
-Et Une bouteille d’eau. – ela acrescenta.
Gostaria de poder expressar a sensação de escutar aquela voz pronunciando
um francês perfeito.
Entrego à mulher 10 euros e deposito outros cinco na caixa de gorjetas. Ela
murmura um simpático “merci”.
-Achei que eles ensinassem francês nas pomposas escolas de Manhattan. –
ela ri. – Quero dizer, Upper East Side.
Pomposas? Sério?
-Ensinam, mas nunca fui muito boa em aprender línguas novas.
Nos movemos para o lado, junto das outras 20 pessoas que esperavam seus
pedidos. Todos os ambientes gastronômicos daqui parecem estar sempre
abarrotados de gente.
Noto que ela continua com a mesma roupa, só que agora posso ver sua calça
Levi’s e o All Star encardido.
E um pouco mais de seu decote.
E os óculos.
-Nós não nos apresentamos. Eu sou Alex Vause. – ela estica o braço, como
se fosse a primeira vez que falássemos.
-Piper Chapman. – balanço nossas mãos.
-Chapman... não sei por que achei que o nome da sua mãe tivesse algo a ver
com a Bonequinha de Luxo.
-Holly Golightly é um pseudônimo. Acho que Carol Chapman não era
glamoroso o suficiente.
-Cliente número 1 da Tiffany’s, eu suspeito.

-Bom...
Ela ri e nega com a cabeça. Nossos pedidos ficam prontos ao mesmo tempo.
Laura me guia para a saída, antes de seguirmos para um parque ali perto.
Minha barriga está roncando tanto, que desejo comer meu crepe pelo meio
do caminho.
Você pode esperar.
-Quanto tempo vai ficar por aqui? – ela pergunta assim que sentamos em um
dos bancos.
-Um mês... se eu não morrer de fome antes.
-Você não vai, eu garanto. Existem pessoas que falam ainda menos que você.
– Alex debocha.
-Sério?
-Sim! Chocante, não é mesmo? – ela zomba, mais uma vez, e faz uma cara
feia quando lhe dou um soco fraco no ombro.
A conversa com Alex flui tão facilmente que perdemos total noção da hora.
Descobri que ela curte Indie Rock e bandas alternativas das quais eu nunca
ouvi na vida, que se torna um pouco técnica demais ao falar sobre pôquer (eu
não faço ideia do que um Royal Flush significa) e que sabe um pouco demais
sobre futebol. Ela também tem repulsa por italianos, principalmente depois
que tomaram o título da França na Copa do Mundo desse ano. O que me fez
sentir uma completa idiota alienada, já que eu não fazia ideia de que tivesse
havido uma Copa na Alemanha esse ano.
-Você já visitou algum lugar aqui? – ela pergunta, assim que dobramos a
primeira esquina para o caminho de volta.
-Ainda não tive muita disposição. Fuso horário, você sabe... Mas estou
planejando ir na Torre Eiffel amanhã.
Alex me encara e solta uma gargalhada alta. Olho-a confusa e ela ri mais
uma vez.
-Meu Deus! A típica turista americana.
-Qual é! Eu nunca estive aqui antes.

-Você pode ver a Torre de qualquer lugar em Paris, olha lá. – ela aponta para
o pedacinho de metal apontando atrás de um dos prédios. – É uma visita de
cinco minutos, não há muita coisa para se fazer.
-Bom, pelo menos sei que posso chegar lá sem que me perca.
-Esquece isso, eu vou te levar a um lugar de verdade.
-Hum? E quem disse que quero sua companhia?
Ela me encara, avaliando a possibilidade daquilo ter sido uma pergunta real.
-Eu só estou brincando. Vai ser ótimo.
-Tudo bem. Te vejo amanhã? – paramos à frente do hotel.
Espera! Você não quer entrar? Beber um café, talvez? Ou me fazer
companhia naquela cama enorme...
-Dez horas?
-Magnifique. – o biquinho que ela faz ao pronunciar a palavra me faz rir. –
Boa noite, Chapman.
Ela sorri.
Nós estamos perto. Perigosamente perto. Do tipo posso-sentir-seu-hálito-degorgonzola perto. Eu realmente gostaria de que meu cérebro pudesse
formular alguma frase. Qualquer coisa...
Por favor.
Não? Ok.
E então ela se foi. Desceu pelo breu da rua com as mãos nos bolsos, até
desaparecer de vista.
Boa noite, Vause.

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