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TEOLOGIA DA CRIAÇÃO:

- Uma teologia da criação, que queira responder aos desafios


atuais, deve libertar-se de toda leitura literal da bíblia sobre a
criação;

- A primeira tarefa terá de ser a de detectar a perspectiva segundo a


qual os autores dos textos bíblicos escreveram sobre a questão;

- Só agora, com o auxílio da moderna exegese, é possível, com o


auxílio da análise literária, oferecer uma interpretação dos textos
bíblicos que possa dialogar com as indagações científicas feitas ao
texto;

- A pesquisa demonstrou que o material utilizado pelos autores


nesses relatos não era diferente do material também utilizado por
povos vizinhos nas suas cosmogonias. Os autores de Gn 1-11 não
pretendiam ser originais no tocante aos materiais utilizados nos
relatos. Tanto eles como os seus ouvintes sabiam e conheciam
isso. O material era bem conhecido na região;

- A originalidade se coloca no fato de que os autores tentaram juntar


e harmonizar o material existente, também pertencente a outros
povos, para construir uma ponte entre todas as velhas crenças
populares que são citadas nos escritos, com a fé em Iahweh como
o criador de tudo.

Fontes antecedentes ao texto de Gn que revelam a consciência


de Deus criador :

- Dt26,5ss é, provavelmente, um dos credos mais antigos de Israel


– Iahweh é o Deus de Israel, Ele caminha com o seu povo. No
desenvolvimento da fé monoteísta de Israel, aqui Ele não passa de
um Deus local que cuida dos seus, mas já nesse período há a fé
que Ele para cuidar do seu povo domina até a natureza:

- Josué 10,5-13 – fala de acontecimentos extraordinários: chuva de


granizo e detenção do sol, tendo como ponto comum a intervenção
de Iahweh intervém na natureza para auxiliar o seu povo.
2

- Jz 4-5, é outro exemplo da intervenção da natureza, a natureza


está a serviço dele para a defesa de Israel.

Jz,5: Cântico de Débora: celebração da vitória -* 1 Nesse dia,


Débora e Barac, filho de Abinoem, entoaram este cântico:

Introdução - 2 Havia chefes em Israel para assumir o comando;


apresentaram-se voluntários paralistar-se em massa. Bendigam
todos a Javé! 3 Ouçam, reis! Escutem, governadores! Eu vou
cantar, cantar para Javé. Vou celebrar Javé, o Deus de Israel. 4
Javé, quando saíste de Seir, avançando dos campos de Edom, a
terra tremia, o céu ribombava e as nuvens se desfaziam em água;
5
os montes se agitavam diante de Javé, que vem do Sinai, diante
de Javé, o Deus de Israel. A vitória - 6 No tempo de Samgar, filho
de Anat, no tempo de Jael, as caravanas cessaram, os que
viajavam seguiam por desvios, iam por trilhas tortuosas. 7 Os
camponeses se saciaram. Em Israel se saciaram com os
despojos, quando você, Débora, surgiu, quando você, mãe de
Israel, se levantou. 8 Os sacrifícios para os deuses cessaram, o
pão faltou nos armazéns, sem que se visse escudo ou lança entre
os quarenta mil de Israel. A convocação - 9 Meu coração está
voltado para os comandantes de Israel, para os voluntários do
povo: bendigam todos a Javé! 10 Vocês que montam jumentas
brancas e se assentam em tapetes; vocês que vão pelos
caminhos, cantem! 11 Juntem-se ao grito dos homens enfileirados
entre os bebedouros. Aí eles celebram as vitórias de Javé, as
vitórias dos camponeses em Israel, quando o povo de Javé correu
às portas. 12 Desperte, Débora, desperte! Desperte logo e entoe
um canto. Vamos, Barac! Vamos, filho de Abinoem! Domine os
que o haviam aprisionado. 13 Então os sobreviventes desceram
com os nobres e o povo de Javé me ajudou contra os poderosos.
14
Os príncipes de Efraim estão no vale, e atrás de você, com as
tropas, vem Benjamim. De Maquir desceram os comandantes, e
de Zabulon os que levam bastões de oficial. 15 Os chefes de
Issacar estão com Débora e, no vale, também Barac aperta o
passo. Nos clãs de Rúben, os planos são grandes! 16 Por que você
ficou sentado entre os currais, escutando a flauta dos pastores?
Nos clãs de Rúben, os planos são grandes! 17 Galaad ficou do
outro lado do Jordão, e Dã continua com seus barcos. Aser
permaneceu na orla do mar, e ficou junto às suas enseadas. 18
Zabulon é um povo que arriscou a vida, como Neftali em seus
campos elevados! A batalha - 19 Chegaram os reis para o
combate, os reis de Canaã combateram em Tanac, junto às águas
3

de Meguido, mas não ganharam uma peça de prata sequer. 20 Do


alto céu as estrelas combateram, de seus caminhos lutaram
contra Sísara. 21 A torrente Quison os arrastou, foi impetuosa a
torrente Quison: a torrente pisoteou os valentes. 22 Os cascos dos
cavalos martelaram, ao galope desenfreado dos corcéis. 23
Amaldiçoem Meroz, amaldiçoem, diz o anjo de Javé; amaldiçoem
os seus governantes, porque não auxiliaram Javé, não auxiliaram
Javé contra os poderosos. Jael - 24 Que Jael se ja bendita entre as
mulheres, a mulher de Héber, o quenita; bendita seja entre as que
habitam em tendas. 25 Ele pediu água, ela trouxe leite; na taça dos
nobres serviu-lhe coalhada. 26 Com a esquerda ela pegou a estaca
e com a direita um martelo de operário; golpeou Sísara, rachando-
lhe a cabeça, e de um golpe atravessou-lhe as têmporas. 27 Ele se
encurvou entre os pés dela e caiu deitado; encurvou-se entre os
pés dela e caiu; encurvado, ali mesmo caiu, e ficou aniquilado. A
mãe de Sísara - 28 A mãe de Sísara olha pela janela e se lamenta
por trás da persiana: «Por que o carro dele tarda a chegar? Por
que a marcha de seus carros é tão lenta?» 29 A mais sábia das
donzelas lhe responde, e ela fica repetindo: 30 «Certamente
encontraram despojos e agora estão repartindo: uma ou duas
mulheres para cada guerreiro, e para Sísara panos coloridos, um
despojo colorido e bordado; uma veste colorida e duas bordadas,
e um despojo para o meu pescoço». Conclusão - 31 Desse modo
pereçam teus inimigos, Javé, e teus amigos sejam fortes como o
sol em seu fulgor. E a região ficou em paz durante quarenta anos.

A CENTRALIDADE DA FÉ NA ALIANÇA E O PODER ILIMITADO


DE IAHWEH PARA QUE ELA SE REALIZE:

- Iahweh não se identifica com nenhuma força cósmica, Ele está a


cima de qualquer elemento da natureza.

- Ao ser perguntado que é, Ele diz “Eu sou aquele que é”, se
identifica com a história e não com os poderes da natureza, como
era comum às outras divindades circunvizinhas a Israel.

- O leitmotiv dos episódios narrados nos textos do Antigo


testamento é que a promessa feita a Abraão será cumprida esse é
o primeiro núcleo da fé israelita:a aliança.
4

- Portanto, esse seria o primeiro conceito teológico cunhado pela fé


de Israel: a aliança. Antes de formular uma doutrina criacionista
expressa, Israel se deu conta de que o seu Deus havia criado o
povo gratuitamente do nada. A fé na aliança é anterior à fé na
criação, ou melhor, a fé na criação deve ser compreendida em
relação á fé na aliança. È com base na fidelidade de Deus para com
a sua aliança que Israel vai aprofundando a sua fé no poder
ilimitado de Deus até sobre a criação para que a sua aliança se
realize.

DA FÉ IMPLÍCITA À FÉ EXPLÍCITA: OS PROFETAS DO EXÍLIO.

- Muito provavelmente Jeremias foi o primeiro profeta que falou


explicitamente sobre a criação:

Jr 32,17: 17
„Senhor Javé! Tu fizeste o céu e a terra com teu grande poder
e com teu braço estendido. Para ti nada é impossível.

- Os três louvores no livro do profeta Amós são, provavelmente,


acréscimos posteriores para uso litúrgico:

Am4,13: 13
Vejam: ele forma os montes e cria os ventos; manifesta seu
pensamento ao homem; faz a aurora e o crepúsculo e caminha sobre as
alturas da terra: seu nome é Javé, Deus dos exércitos.

Am 5,8-9: 8* É ele quem fez as Plêiades e o Órion, é ele


quem transforma as trevas em aurora o dia em noite escura.
Ele convoca as águas do mar para inundar a face da terra.
Seu nome é Javé. 9 É ele quem determina a invasão da
fortaleza e comanda a destruição da praça forte.

Am 9,5-6: 5*
Javé, Deus dos exércitos, fere a terra, ela se desmancha e
todos os seus habitantes ficam de luto. Ela sobe feito o rio Nilo, de novo
baixa como o rio do Egito. 6 No céu, Deus fez a sua alta morada e, por cima
da terra, firmou sua abóbada. Ele é quem chama as águas do mar para
inundar a face da terra. Javé é o seu nome!

- Mas, na verdade, será o Dêutero-Isaías quem desenvolverá


sistematicamente a idéia da criação como elemento condutor da
sua mensagem profética: o livro da consolação Is 40ss.
5

- A experiência de crise traz muitas dúvidas e questões à fé do povo


de Israel: Teria Iahweh nos terá abandonado? Não seria Ele forte o
suficiente para nos salvar? O profeta responderá a essas
indagações, salientando a força de Iahweh que pode tudo. Ele é o
todo poderoso, o criador do céu e da terra.

- Como se pode vê, a explicação da fé na criação é tardia. Ela é


tematizada frente a situações históricas bem determinadas: a fé
tentada pela incredulidade, desafiada pela cultura da babilônia, com
a sua liturgia cosmogênica. É nesse contexto que Israel se sente
provocado a refletir sobre a sua fé em Iahweh.

- Mas, mesmo assim a reflexão sobre a criação deve ser


compreendida em relação à fé na aliança de Iahweh com o seu
povo. O objetivo do autor é refletir sobre a fidelidade de Iahweh com
a sua aliança que chega até a criação. Tudo, inclusive a criação,
está relacionado com o plano de Iahweh para a concretização da
sua aliança.

OS PRINCIPAIS PONTOS DA TEOLOGIA DA CRIAÇÃO SÃO:

a) Se Deus pode decidir o fim de tudo, é porque tudo tem nele o


seu princípio:

Is40,22-28: 22
Javé se assenta sobre o círculo da terra, e seus
habitantes parecem bando de gafanhotos. Ele desdobra o céu como toldo,
e o estende como tenda que sirva para morar. 23 Ele reduz a nada os
poderosos e aniquila os governantes da terra. 24 Apenas são plantados,
logo que são semeados ou a sua muda ainda nem está com raízes no
chão, e Deus sopra por cima deles e eles secam, e a primeira ventania os
carrega como palha. 25 Vocês, por acaso, podem me comparar com alguém
que se pareça de verdade comigo? - pergunta o Santo. 26 Ergam os olhos
para o céu e observem: quem criou tudo isso? Aquele que organiza e põe
em marcha o exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome. Tão
grande é o seu poder e tão firme é a sua força, que ninguém deixa de se
apresentar. Javé sustenta os fracos e cansados -* 27 Jacó, por que você
anda falando, e você, Israel, por que anda dizendo: «Javé desconhece o
meu caminho e o meu Deus ignora a minha causa»? 28 Pois você não
sabe? Acaso não ouviu falar? Javé é o Deus eterno; foi ele quem criou os
confins do mundo. Ele não se cansa, nem se fatiga, e sua inteligência é
insondável.

O mesmo tema volta em: Is42,56; Is 44, 24-26.


6

b) É esse poder de Deus que recorrem os profetas para confortar


a fé de Israel na aliança:

Is51,9-11: Não há o que temer -* 9 Desperta! Desperta! Reveste-te de


força, braço de Javé! Desperta como nos tempos passados, como nas
épocas antigas. Não foste tu que derrotaste o monstro e transpassaste o
dragão? 10 Não foste tu que secaste o mar, as águas do grande abismo, tu
que fizeste um caminho pelo fundo do mar para que os redimidos
pudessem atravessar? 11 Os resgatados de Javé voltarão! Estarão de volta
a Sião, cantando e com alegria sem fim sobre suas cabeças; serão
acompanhados de alegria e contentamento; dor e aflição ficarão para trás.

- Para esse relato convergem os três grandes momentos da


história: a criação (com o mítico combate do caos personificado), a
libertação do Egito e restauração do povo – protologia,
soteriologia e escatologia se encontram formando uma unidade,
encontrando-se em uma passagem a relação entre cosmológico e
histórico, da criação á aliança.

c) Alem de manter a confiança abalada, o poder criador de Iahweh


é usado como argumento para superar a tentação da idolatria:
enquanto os deuses dos gentios são abras dos homens, os
homens e o resto dos seres são obras de Iahweh:

Is46,1-10: 1
O deus Bel se encurva, o deus Nebo se abaixa, seus ídolos
são entregues às feras e às bestas de carga; a carga que vocês
carregavam é um peso para a besta cansada. 2 Esses deuses se abaixam e
se encurvam, não conseguem salvar essa carga; eles próprios vão para o
exílio. 3 Ouçam-me, casa de Jacó, resto da casa de Israel, vocês que eu
carrego desde que nasceram, e carrego no colo desde o ventre materno. 4
Até à velhice de vocês eu serei o mesmo, até que se cubram de cabelos
brancos eu continuarei a carregá-los. Já fiz isso e continuarei a fazê-lo: eu
os carregarei e os salvarei. 5 Que semelhança vocês vão arranjar para
mim? Com o que vão me comparar? Com alguma coisa que eu me pareça?
6
Alguns tiram o ouro da bolsa, pesam na balança certa quantidade de
prata, contratam um ourives e mandam fazer um deus. Depois se ajoelham
e o adoram. 7 Põem o deus nos ombros e o carregam, depois o colocam
num suporte e o firmam bem para que ele não venha a sair do seu lugar.
Por mais que alguém o invoque, ele nada responde e não livra ninguém de
suas dificuldades. 8 Lembrem-se bem disso e fiquem firmes. Levem a sério,
vocês que são rebeldes. 9 Lembrem-se das coisas há muito tempo
passadas, pois eu sou Deus, e não existe outro. Eu sou Deus, e não existe
outro igual a mim.

- O mundo criado por Iahweh é o contrário do caos, é o realmente


existente.

Is45,18 18
Porque assim diz Javé, que criou os céus, o único Deus, que
formou a terra, que a fez e a firmou em suas bases; ele não a fez para ser
um caos, mas para ser habitada: Eu sou Javé, e não existe outro.
7

d) Para denotar a ação criadora de Deus, o Dêutero-Isaias usa o


verbo bara abundantemente(a terça parte das mais de quarenta
vezes que aparece na Bíblia). È um verbo estritamente teológico,
seu sujeito é Iahweh, nunca se menciona uma matéria, um
instrumento, um colaborador. Seu significado está relacionado ao
ineditismo do criado. O que é criado é inédito. Puro ato criador de
Deus, sem mediações. Bara significa tanto a ação criadora de dar
princípio à realidade, mas também a ação consumadora dessa
realidade:

Is45,8 8
Céus, gotejem lá de cima, e as nuvens chovam a justiça; que a
terra se abra e produza a salvação, e junto com ela brote a justiça. Eu,
Javé, as criei.

Is65, 17 17
Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra. As coisas
antigas nunca mais serão lembradas, nunca mais voltarão ao pensamento.

O RELATO DA CRIAÇÃO: Gn1,1-2,4A:

Contexto:

O exílio;
A ameaça que as cosmogonias dos outros povos colocasse a
fé de Israel em risco;

O relato que segue é uma reinterpretação de um texto já


preexistente;

O esquema do Gênesis:

1,1 até P
2,4a
2,4b até J
4
5 P
6 até 8 J
Dilúvio
9 até 12 P

Para a compreensão desse esquema é importante ter


presente a importância do termo toledoth = geração, que dá título
8

ao livro – a expressão alle toledoth (“estas são as gerações”). Que


aprece pela primeira vez em Gn2,4a, como conclusão de toda a
cosmogonia e que vai se repetindo em 5,1; 6,9; 10, 1; 11,10. 27.

Os diversos acontecimentos narrados vão sendo articulados


por esse fio condutor, a história das gerações. Apresenta-se o fluxo
dos acontecimentos até chegar a Abraão.

Toda a cadeia de toledoth mostra a sua verdadeira intenção e


finalidade: afirmar que o feito-Abraão remonta ao desígnio
primordial de onde surgiu todo o criado – da criação até Abrão. Ou
seja, o autor quer demonstrar a relação profunda entre a origem do
mundo e a origem de Israel.

Comentário:

Do ponto de vista literário, o Gn de 1 a 11, originalmente


foram narrativas transmitidas oralmente, independentes, mas que
foram amadurecendo ao longo do tempo e formaram uma
unidade, de forma que o bloco de relatos deve ser compreendido
na sua totalidade, mesmo que, do ponto de vista metodológico,
seja necessário limitar ao texto da criação. É óbvia a influência do
texto do relato da criação no restante dos capítulos e a
interconexão entre eles.

COMENTÁRIOS LITERÁRIOS:

1) Há duas tradições subjacentes ao texto:

Uma mítica
Outra teológica

2) O relato justapõe duas maneiras de criar: pela palavra e pela


ação (ex.: v. 6-7; 11 e 12; 14 e 15);

3) Há uma “defasagem” entre o número de dias e o número de


obras a serem criadas, ficando o terceiro e o sexto dias com dois
9

elementos. O autor fez isso, propositadamente, para que o sábado


ficasse livre – o sábado é o signo da aliança - Ex 31,13. 16-17.
13
«Diga aos filhos de Israel: „Observem meus sábados, porque são um
sinal entre mim e vocês, ao longo de suas gerações, para que todos
saibam que eu sou Javé, aquele que santifica vocês. 14 Observem,
portanto, o sábado, porque é uma coisa santa para vocês. Quem o
profanar, será réu de morte. Quem realizar nele algum trabalho, será
excluído do povo. 15 Vocês podem trabalhar durante seis dias; o sétimo dia,
porém, é para vocês o dia de descanso solene em honra de Javé. Quem
trabalhar no dia de sábado será réu de morte‟. 16 Os filhos de Israel
observarão o sábado em todas as suas gerações, como aliança perpétua.
17
Será um sinal perpétuo entre mim e os filhos de Israel, porque em seis
dias Javé fez o céu e a terra, mas no sétimo dia ele parou para respirar».

4) Há duas tradições que, aparentemente, se contradizem: vv1-2


1*
No princípio, Deus criou o céu e a terra. 2 A terra estava sem forma e
vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as
águas.

O v.1 é uma grande novidade para o contexto cultural e


religioso dA época, sem paralelos nas cosmogonias
religiosas da época;

O v.2, com a sua imagem de um caos aquático original que,


por divisões, vai surgindo a ordem do mundo, é uma
imagem familiar na região, pois tem paralelo com o poema
babilônico da origem do mundo.

Trata-se uma cosmogonia popular, mítica(v.2) e o v.1, de uma


interpretação teológica.

Observações prévias

Pertencente à fonte sacerdotal, ou Priestercodex (=P), a única


cosmogonia contida na Bíblia é contemporânea dos textos proféticos
deve sua origem aos mesmos elementos. A confrontação direta com
10

as mitologias cosmogônicas pagãs colocaram a fé na aliança de


muitos israelitas em crise.

Na verdade, o mais notável desse primeiro capítulo da Bíblia é


que a criação interessa, mais do que por si mesma, por ser ponto de
partida de uma corrente histórica que leva à vocação de Abraão;

A fonte P, depois do parêntese de 2,4b (procedente da fonte


javista, ou fonte J), continua no capítulo 5, com a enumeração das
gerações que vão desde Adão a Noé, salvo um novo parêntese
javista (o relato do dilúvio, ao qual justapõe uma versão própria),
para continuar no capítulo 9, com um relato de recriação e uma nova
lista genealógica (cap. 10), que se junta com a de 11,10ss, até
desembocar na narração da escolha de Abraão (cap. 12).

É importante não esquecer o importante papel que


desempenha nos onze primeiros capítulos de Gn o termo toledoth
(=gerações), que dá título ao livro, e a expressão elle toledoth
("estas são as gerações"), que aparece pela primeira vez em Gn
2,4a, como conclusão de toda a cosmogonia e que se repetirá em
seguida em 5,1, 6,9; 10,1.32; 11,10.27.

Os diferentes acontecimentos vão-se introduzindo nesse fio


condutor das diversas gerações. Tudo o que acontece desde a
própria origem dos céus e da terra aparece assim concatenado,
soldado por esses pontos de sutura do tecido histórico que são as
toledoth, e que conduzem o fluxo dos acontecimentos até chegar a
Abraão.
11

Lida retrospectivamente a partir deste, toda a cadeia de


toledoth (gerações) nos mostra sua finalidade: afirmar que a
escolha e a promessa feita a Abraão remonta ao desígnio
primordial de onde surgiu todo o criado, fundindo literalmente
suas raízes no próprio limiar da história e do tempo. Toda a
criação está relacionada à promessa feita entre Javé e Abraão.

Outro indício dessa arquitetura telógica, na perspectiva


histórico-salvífica da cosmogonia bíblica é a artificiosa redução dos
dias da criação a seis - sobre esse ponto vamos nos deter mais
adiante -; assim, todo o relato aponta para o sábado, signo da
aliança segundo Ex 31,13.16-17.

Portanto, Gn 1 não é um fragmento de ciência natural, uma


“notícia” sobre o começo do mundo e de seus habitantes, mas sim
uma página - a primeira - da história de salvação, de como Israel
interpretou a origem do mundo em função de sua própria origem
como povo de Deus escolhido parta a aliança.

Um problema de crítica literária

Teria Gn 1 sido integralmente produzido por um sacerdote


judeu do tempo do exílio, que (isto sim) utilizou as idéias
cosmomitológicas da cultura ambiente? Ou estamos diante de uma
cosmogonia popular muito mais antiga, e a redação inspirada não
faz mais do que retocar esse relato folclórico?
12

W. H. Schmidt,1 assim como a opinião majoritária da exegese


contemporânea, inclina-se em favor da segunda alternativa: em Gn
1, encontramos:

a) uma tradição mítica, fundamentalmente conservada tanto na


estrutura geral como nos traços característicos, mas teologicamente
irrelevante;

b) uma interpretação profética, que é a que tem importância


religiosa.

Em favor dessa hipótese, pode-se aduzir uma série de


irregularidades, detectáveis na mera leitura do texto, e que delatam
a confluência nele dessa dupla reprodução de imagens:

a) Repetições: o relato justapõe uma dupla maneira de criar, pela


palavra e pela ação. Tomemos como exemplo os versículos 6
(“Deus disse: haja um firmamento ... e assim se fez") e 7 ("Deus fez
o firmamento"); se Deus disse "haja um firmamento" e se constata
que"assim se fez", que necessidade existe de acrescentar o
versículo 7? O mesmo ocorre com os vv. 11 e 12; 14-15 (criação dos
astros pela palavra) e 16-18 (criação dos astros pela ação); 24 e 25.

b) Defasagem entre o número de obras e o número de dias: as


obras criadas são oito (luz, firmamento, terra e mar, plantas, astros,
peixes e pássaros, animais terrestres, homem). Normalmente, a
cada obra corresponde um dia. Mas,

1
SCHMIDT, W. H.. Die Schöpfungsgeschichte der Priesterschrift. Neukirchen-Vluyon,
1964.
13

inesperadamente, os dias da criação são seis; há dois dias, o


terceiro e o sexto, em que se criam duas espécies de seres (terra-
mar e plantas; animais e homem, respectivamente). A razão dessa
aparente irregularidade já foi apontada: P estava interessado em
deixar o sábado livre para introduzir a ação criadora dentro do
quadro da aliança.

c) Contradição (aparente?) entre os vv. 1 e 2: trata-se da


irregularidade teologicamente mais importante. Enquanto o versículo
1 ("No princípio, Deus criou o céu e a terra") é uma novidade
absoluta, sem nenhum paralelo nas cosmogonías religiosas da
época, o versículo 2 (“Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas
cobriam o abismo") reproduz uma imagem familiar às mesmas: a de
um caos aquático primordial do qual, por sucessivas divisões, vão
surgindo a luz, o firmamento, a terra, o mar... O poema babilônico da
origem do mundo (Enuma Elis) começa assim:

Quando acima os céus não existiam


nem a terra firme abaixo tinha nome,
apenas reinavam Apsu (=água doce), o progenitor,
e Tiamat (=água salgada), a que gerou;
suas águas se confundiam em uma.

Marduc, rei dos deuses, lutará contra esse caos aquático,


personificado no monstro marinho Tiamat; saindo-se vencedor,
esquartejará o monstro, e de seus pedaços originar-se-ão as
diversas partes do universo.
Um esquema cosmogônico substancialmente Idêntico (caos
aquático primordial, deuses, combate entre um deus e a
14

personificação do caos, origem do universo a partir da divisão do


caos vencido) é vista nos poemas do Egíto, Suméria, Fenícia e
Caldéia, ou seja, na área cultural e dentro das demarcações
geográficas às quais pertence Israel.
As tentativas de harmonização entre os vv. 1 e 2 são inviáveis,
conforme é destacado pela exegese atual; encontra-se aqui duas
formas mutuamente irredutíveis de entender o começo da realidade;
cada uma tem uma origem diversa (o versículo 2, na tradição mítica
e o original versículo 1, na interpretação teológica). É importante ter
presente que está junção não é feita sem uma intenção pelo autor.
Por tudo isto, do ponto de vista literário, termos que ver o texto na
sua forma atual, tendo um fundo tradicional muito antigo,
reconhecível ainda hoje em seus traços gerais, e que seria a
cosmogonia popular sobre a qual P trabalhará para redigir o texto de
Gn 1.

Qual era a cosmogonia popular? (Hipótese)

O trecho mais antigo dessa tradição mítica é reconstruído (claro,


de maneira hipotética) por Schmidt, desta forma:

(v. 2) 0 que havia antes do mundo era o caos aquático e


tenebroso. Elohim, Deus de Israel, luta contra esse caos, encarnado
numa entidade mítica que recebe vários nomes (Tiamat, Leviatã,
Tehom ... ) e o vence, ficando assim em posição de começar a
"fazer" („asah: verbo antropomórfico, pois se refere a uma
manufatura artesanal, a um "confeccionar" com as mãos). Vestígios
desse combate mítico são encontrados em lugares como Sl 74,12-
15; 89,10-11; 104,5-9; Is 27,1; 51,9-10; Jó 25,10-13; 38,8-9 etc. A
15

idéia das águas como potência perturbadora - recordemos o dilúvio,


que é uma intercalação no sentido do caos primordial, depois
daquele em que se narra uma "nova" criação: Gn 9,1-7 – conserva-
se até Ap 21,1 (na criação escatológica "já não há mar").

(v. 4b) E Elohim separou a luz das trevas.

(v. 7) E Elohim fez o firmamento, separando as águas que estão


sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento.

(v. 9) As águas que estão sob o céu se reuniram numa só massa,


e apareceu o continente.

(v. 12) A terra produziu verdura: ervas e árvores (é o mito da


Terra Mater que dá à luz, por geração espontânea, os vegetais).

(vv. 18s.) E Elohim fez os dois luzeiros maiores, para governarem


o dia e a noite (o domínio do sol e da lua sobre o mundo era
importante elemento das religiões egípcia, Cananéia e babilônica).

(v. 21) E Elohim fez os peixes do mar e os pássaros do céu. (A


curiosa combinação peixes-pássaros é facilmente explicável: a
chuva nos lembra que sobre o firmamento existe um massa aquosa:
os pássaros, portanto, são seres pertencentes ao mesmo meio dos
peixes.)

(v. 25) E Elohim fez as feras, os animais domésticos e todos os


répteis do solo.
16

(vv. 26ss.) E Elohim fez o homem, como sua semelhança, para


que dominasse sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais
domésticos...

(2,2) E Elohim descansou de toda a obra que fizera.

Nesta reconstrução (naturalmente hipotética e passível de


objeção quanto aos detalhes), a linha narrativa é clara e coerente.
Trata-se de um relato de criação pela ação (Tatbericht): do caos
preexistente vão surgindo, por sucessivas divisões ou separações,
os três grandes espaços que logo serão preenchidos por seus
respectivos habitantes (astros, vegetais-animais, peixes-pássaros).
A criação é entendida aqui como simples ordenação do caos, sobre
o qual Elohim "trabalha" ('asah) seguindo o esquema cosmológico
da época, que concebe o universo como a superposição de três
camadas: trevas, águas, terra. A ação de Deus realiza-se, portanto,
de cima para baixo, segundo a ordem lógica oferecida pelas
camadas que tal ação vai encontrando.

A redação de P2

O autor de Gn 1 assumiu, em princípio, essa maquete mítico-


popular. A ele não interessam os dados cosmológicos ou biológicos;
deseja oferecer uma doutrina sobre a relação do mundo com um
Deus que não é o herói das cosmogonias pagãs, nem um ser
ensimesmado e distante, alheio e estranho à nossa história, mas o

2
Trata-se da redação sacerdotal, feita no período em torno do exílio da Babilônia. P vem de
Priester = Sacerdote.
17

Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que criou e escolheu Israel para a


aliança e do qual tudo depende - não apenas a história, mas
também a natureza. A trama mítica sobre a qual trabalha, P somará
idéias e introduzirá variantes que darão ao conjunto um tom
completamente diverso.
Logo no início, toda a cosmogonia está emoldurada pelo vv. 1,1
(que antecipa o conteúdo do relato) e 2,4 (que o resume); ambos
dizem substancialmente o mesmo, a saber:

a) Deus "criou" (bara). Já falamos sobre esse verbo; quando


aparece, significa uma ação que tem por sujeito exclusivo a Deus,
que não se exerce sobre uma matéria preexistente, que dá como
resultado um efeito absolutamente inédito. P o empregou
deliberadamente, deslocando outros verbos de significado afim, e
muito precisamente o verbo 'asah, nos pontos teologicamente
nevrálgicos, conforme veremos.

b) Deus criou "o céu e a terra", ou seja, tudo. Com efeito, a


expressão hebraica hasamayin we haarets, como outras do mesmo
tipo, designa a totalidade pelos extremos. Israel não possui o
conceito de cosmos ou universo. Isto porque o mundo não era para
ele o que será para outras culturas (a grega, por exemplo): uma
magnitude fechada, estática, auto-suficiente, inteiramente abarcável
pela contemplação. Para o israelita, o mundo é um acontecer, cujo
fundamento último não radica neste ou naquele princípio cósmico,
mas na livre ação de Deus. Em todo caso, é clara a vontade do autor
de remeter a origem de tudo o que realmente existe à ação criadora
divina.
18

c) Deus criou "no princípio". O autor está concebendo a ação


criadora como um acontecimento temporal, e não como algo
atemporal ou não-históríco; o mundo tem um começo e, com ele, o
tempo; este não se pode separar daquele, mas lhe pertence como
elemento constitutivo de seu futuro.

Com essas três afirmações do v. 1, nos é fornecida de antemão


uma interpretação teológica de tudo o que se seguirá. O relato tem
de ser entendido, portanto, à luz dessas afirmações, às quais o texto
restante empresta um desenvolvimento temático de acordo com as
idéias da época. Vamos nos deter nas passagens teologicamente
mais significativas.

v. 2. Já conhecemos os antecedentes literários desse versículo,


e ficou pendente a pergunta de por que o autor o conservou. Antes
de mais nada, notemos que suas fortes ressonâncias míticas foram
amortecidas em princípio pelo v. 1. De outra parte, esse caos
primordial está aqui drasticamente desvirtuado: é algo inerte,
estático, sem vida. Ficam suprimidas as descrições do combate
entre ele e o deus demiurgo (presentes, como vimos, em outros
lugares bíblicos, já despreocupados do rigor teológico).
Como contraste, o único traço vital presente no versículo é o
ruah Elohim, o alento contido na garganta de Deus antes de ele
emitir a primeira palavra; o que resta é tohu-wabohu, ou seja,
confusão, desordem, vazio. As trevas que cobrem esse abismo
passivo são o correlato, comum no Antigo Testamento, dessa
imagem de vazio desordenado que se pretende transmitir (Jr 4,23;
Jó 12,24-25; Is 45,19). Em suma, não existe tempo (posto que só
existem trevas, falta a alternância luz-obscuridade, dia-noite); não há
19

espaço (posto que apenas existe o disforme, o indistinto); na


verdade, não há nada, dado que nada pode ser pensado como
concretamente existente fora das coordenadas espácio-temporais;
onde nada age e nada acontece, nada é, salvo a pura possibilidade
de ser.

Por que P manteve essa figura mitológica?

Agora, já podemos entrever uma resposta. Para uma


mentalidade como a semita, que discorre por imagens e não por
conceitos abstratos, seria irrepresentável - e, portanto inconcebível -
um começo do zero absoluto; o nada não é uma imagem concreta, é
uma abstração. Pois bem, esse caos despojado de toda virtualidade
"é a representação plástica do nada absoluto".

Contudo, é evidente que, para hábitos mentais mais


especulativos que intuitivos, existe uma tensão (uma contradição?)
entre o v. 1 (“Tudo foi criado por Deus") e o v. 2, com seu caos
aparentemente preexistente à ação criativa divina. Em outras
palavras, os dois versículos refletem a dialética tradição (v. 2) -
interpretação (v. 1) que atravessa todo o capítulo.

v. 3. O ruah pronuncia o primeiro fiat: surge a luz, que haverá


de iluminar o resto da obra criadora. Essa entidade é independente
das astros - que serão criados mais tarde -, pois desprende-se do
próprio Deus; "Não terás mais o sol como luz do dia, nem o clarão
da lua te iluminará, porque lahweh será a tua luz para sempre" (Is
60,19). Por isso, P pode desconhecer deliberadamente o que se
aponta no v. 4b: que a luz tenha surgido por decantação (por
20

separação) das trevas. Eis aí um novo lance da tensão, antes


sublinhada, entre tradição (v. 4: a luz procede de sua separação das
trevas; criação pela ação) e interpretação (v. 3: a luz procede do
dizer de Deus; criação pela palavra).

Um aspecto significativo do criar pela palavra já foi abordado


mais acima: é o caráter dialógico da relação criador-criatura. Essa é
a resposta a uma interpelação, e não mero efeito de uma causa
impessoal. Desse modo, torna-se patente que a criação já é
revelação.

v. 4a. Fórmula de aprovação: o criado "está bem". Não se trata


de um juízo estético e sim ontológico: a criatura corresponde à
intenção do criador.Existe o mal, e o autor sabe disso, mas Deus é
inocente; nada sai defeituoso das mãos divinas. Como um estribilho,
a fórmula irá se repetindo ao longo de todo o relato para culminar
triunfantemente com o superlativo do v. 31 ("Deus viu tudo o que
tinha feito: e era muito bom).

v. 4b. Aqui, a luz surge, não da palavra de Deus, mas da divisão


ou separação das trevas, isto é, do esquartejamento do caos
primordial. Com efeito, essa era a primeira das três separações com
as quais a tradição mítica explicava a origem dos três grandes
âmbitos cosmológicos (céu, terra, águas). Assim, pois, o v. 4b
parece ignorar o v. 3, como este ignorava o v. 4b; ambos têm
procedências diversas. Deve-se notar que a fórmula de aprovação
recai sobre o v. 3, não sobre o 4b.)
21

v. 5. O v. 4b falava da luz como de algo extraído do caos; para


anular, uma vez mais, o eventual poder dele, P vai apresentar Deus
colocando nomes ali - e apenas ali - onde a -narração popular falava
do que surgiu pela separação ou divisão do caos; além desse v. 5, a
Imposição de nomes reaparece nos vv. 7-8 (criação do firmamento)
e 9-10 (criação da terra-mar). Para compreender esse procedimento
do autor, deve-se recordar que, nas culturas semitas, o ato de dar
nome subentende uma potestade quase incondicional, pois o que
não tem nome não existe, e o nome de uma coisa, notificar sua
identidade, lhe outorga sua capacidade funcional: é o próprio ser da
coisa.

v. 5b. "Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia"; os dias são
contados, em Israel, "de tarde a tarde": Lv 23,32; Ex 12,18. A
enumeração dos dias aparece num estado tardio da história do
texto, pelas razões teológicas já indicadas: os dias são enumerados,
não para contar as obras, mas sim para configurar a semana, e sem
nenhuma preocupação "científica". Assim se explica como se podem
suceder as tardes e as manhãs antes que haja sol e lua.

v. 12. A versão mítica da origem dos vegetais por geração


espontânea, o autor antepõe (v. 11) a palavra de Deus.

vv. 14-18. A extensão concedida ao relato da origem dos astros


é compreensível quando recordamos o que foi dito anteriormente
sobre sua qualidade de entidades sacras, na Babilonia, às quais se
atribuía um culto idolátrico. Israel também padeceu repetidamente
do fascínio que exerciam esses corpos celestes: 2Rs 23,5.11; Jr 8,2;
Dt 4,19 etc.
22

A versão de P (vv. 14-15) conserva duas das funções que o


relato mítico atribui aos astros: "Iluminar" e "separar o dia da noite".
Mas J suprime a terceira ("dominar"), na qual aparecia uma falsa
concepção religiosa, e que se mantém ainda no Sl 136,7-9 (o sol
"domina" o dia e a lua "domina" a noite). Como nova tarefa,
desconhecida na versão primitiva, o v. 14b estabelece a de "servir
de sinais" para a confecção do calendário litúrgico, assunto no qual
a classe sacerdotal obviamente estava muito interessada.
Não contente com essa drástica desvalorização do prestígio
astral, P suprime também os nomes próprios; o sol e a lua são
designados com os apelativos, um tanto displicentes, de "grande
luzeiro" e pequeno luzeiro". Dessa forma fica consumado seu
rebaixamento ao posto de simples objetos úteis. Em resumo, o
grande trecho dedicado à criação dos astros exemplifica nitidamente
o procedimento redacional do autor inspirado; ao invés de cancelar
as passagens da tradição mítica que julga improcedentes, prefere
conservá-las,depurando-as com cuidadosos retoques e, em todo
caso, antepondo à versão "Deus fez" (Tatbericht) sua própria versão
("Deus disse": Wortberícht). Dessa forma, toda a perícope é uma
sólida confirmação da exegese proposta por Schmidt. A tensão
Tatbericht-Wortbericht e a origem diversa dessas duas maneiras de
descrever a criação aqui se tornam evidentes ao se polarizar na
sorte que cabe ao verbo “dominar".

v. 21. Inesperadamente, torna a aparecer o verbo técnico bàra,


que o autor havia usado no v. 1, e cujo emprego havia sido
cuidadosamente evitado até agora. A razão é óbvia: segundo já
vimos, os monstros marinhos eram encarnações do caos primordial;
23

haviam sido o adversários do deus demiurgo na luta que precedeu a


criação.
Por isso, P quer aqui dar a certeza de que também eles foram
criados por Deus. Portanto, o v. 21, em sua redação atual, foi escrito
pensando no v. 2; forma parte da campanha contra o caos ali
iniciada e surte o efeito retroativo de consumar a ofensiva
desmitificadora de que P se valeu, primeiro despojando-o de toda
capacidade operativa 2), depois dando nome aos que, na versão
mítica, dele derivava (vv. 5. 8. 10) e, por fim, atribuindo-lhe agora o
estatuto ontológico de simples criatura de Deus.

v. 22. "Deus os abençoou". A fecundidade, como faculdade de


transmitir e multiplicar a vida, é obtida do beneplácito divino: apenas
o vivente pode ser o vivificador. A fórmula se repetirá no caso do
homem (v. 28). Não se pode senão ver nessa interpretação teológica
da capacidade reprodutora dos seres vivos uma polêmica tomada de
posição diante dos ritos pagãos da fertilidade, muito arraigados em
Canaã, e a que Israel sucumbiu mais de uma vez.

v. 26-30. A ação criadora de Deus chega a seu clímax com a


criação do homem, "imagem de Deus". O estudo dessa seção
corresponde aos tratados de antropologia teológica. Para efeito de
nosso tema basta assinalar que: a) o encargo conferido ao homem
representar o criador enquanto à sua imagem; (exercer em seu
nome um domínio senhorial e tarefas de governo sobre o resto da
realidade criada) outorga à doutrina criacionista bíblica um caráter
de novidade revolucionária, para a época da sua redação; a criação
é coroada com o surgimento de um concriador; o mundo saído das
mãos de Deus não é uma magnitude fechada e concluída; agora
24

passa às mãos do homem para que ele o aperfeiçoe e dirija até seu
fim; b) o verbo bára, que até o momento fora empregado com
extrema economia - apenas duas vezes - é usado abundantemente
no v. 27; esse tríplice bara responde muito bem à preocupação
quase obsessiva de P pela ortodoxia. É certo que o homem é
Imagem de Deus", "quase como um deus" (Sl 8,6); contudo, a
soberana transcendência divina tem de ficar livre de qualquer
dúvida. Entre Deus e sua imagem continua-se interpondo uma
distancia incomensurável. Por mais semelhante que Deus tenha feito
o homem, em última instância ele não é, senão, sua criatura.

Cap. 2,2-3. Já se indicou qual é a função do sábado no relato;


toda a criação aponta para o sábado, sacramento da aliança, e nele
desemboca. Assim, o autor quer rubricar o leitmotiv de sua teologia
da criação: a ordem da natureza está abaixo da ordem da história,
que será história de salvação. Conforme adverte von Rad, não se
trata aqui de promulgar o conceito do descanso sabático (ainda que
aos sacerdotes seguramente não escapasse a conveniência de
fazer com que esse descanso remontasse a uma decisão do próprio
Deus); o sábado é bendito - como a fecundidade - e santificado para
fazer ver que o descanso pertence de alguma forma à própria
constituição da realidade criada. Seu valor está não em servir de
ocasião para a inatividade ociosa, mas sim em criar o espaço para a
relação gozosa, festiva, entre o criador e a criatura.
Esse repouso do sétimo dia tampouco significa que a criação já
esteja terminada, de uma vez por todas, e que Deus não criará mais.
O que é certo é que, a partir de agora, o poder criador de Deus
passa de alguma forma pela mediação da imagem de Deus; ao
monólogo divino a que assistimos, sucede o diálogo entre Deus e o
25

homem. Ou melhor: o monólogo - segundo ficou sublinhado -já era


um começo de diálogo, que se torna efetivo a partir do momento em
que há uma voz que pode responder ao criador em nome de toda a
criação. Portanto, longe de significar uma despedida divina do
cenário cósmico, o repouso (e a bênção que o acompanha) é o
gesto de um Deus que vê sua criação com benevolência. O mundo
fica aberto (não fechado) a um futuro de fecundidade, de descanso
gratificante, de plenitude.

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