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Universidade Veiga de Almeida

Curso de Nutrição – Disciplina Nutrição em Saúde Coletiva


Profª Flávia Farias Lima
AULA 1 – Ministrada em 25/02/2010.

 SAÚDE COLETIVA: ÁREA DO SABER E DE ATUAÇÃO


PROFISSIONAL*

A Saúde Coletiva pode ser definida como um conjunto de práticas ideológicas,


políticas e econômicas desenvolvidas no âmbito acadêmico, nas organizações
de saúde e em instituições de pesquisa vinculadas a diferentes correntes de
pensamento resultantes de projetos e ações em saúde.

A Saúde Coletiva latino-americana foi composta a partir de crítica à medicina


preventiva, medicina comunitária e medicina de família. Logo no início da
colonização brasileira havia apenas Santas Casas de Misericórdia e Capelas
para o atendimento dos doentes. Apenas com a vinda da Família Real
portuguesa (em 1808), assim como outros emigrantes europeus, as demandas
de saúde se tornaram preocupação do governo.

A partir do século XX, já sob a República Federativa Brasileira e não mais como
colônia portuguesa, as principais demandas de saúde foram relacionadas à falta
de higiene, sobretudo do ambiente. Nesse momento a grande corrente de
pensamento foi o Higienismo.

O Higienismo foi uma das primeiras estratégias públicas para o controle dos
espaços urbanos e grupos populacionais considerados sujos e perigosos. O
ambiente das cidades era identificado como ‘objeto medicalizável’ e
determinadas regiões ou comunidades eram consideradas ‘patológicas’. O
ambiente seria tratado através de um conjunto de normatizações e preceitos a
serem seguidos e aplicados no âmbito individual, o que incluía quarentena e
isolamento de doentes, por exemplo.

Nesse tempo, a economia brasileira dependia da exportação de produtos


agrários, sobretudo café e para aumentar a aceitação dos produtos brasileiros no
mercado mundial, houve a grande necessidade de controlar as doenças que
assolavam a população daqui, alem da higiene dos portos e navios de carga.

A chegada da família real e o grande crescimento populacional que tivemos


entre 1808 e 1910 aliado a falta do saneamento básico (não havia em todas as
casas esgotamento fechado, coleta de resíduos sólidos e abastecimento de
* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.
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Profª Flávia Farias Lima
AULA 1 – Ministrada em 25/02/2010.

água potável tratada) propiciou ao surgimento de inúmeras doenças. Foram elas:


varíola, malária, febre amarela.

A chegada das Faculdades de Medicina ao país se deu através da criação de


dois Hospitais-escola, um em Salvador e outro no Rio de Janeiro, ainda à época
da chegada da Família Real, mas a demanda por serviços de saúde era muito
maior do que a capacidade destes Hospitais e médicos particulares.

As primeiras ações de combate a essas epidemias foram comandadas por


Oswaldo Cruz, um médico sanitarista formado na Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro, nascido no interior de São Paulo,
cujos estudos foram pioneiros para saúde coletiva. Porém as
primeiras ações de combate às epidemias foram bastante
criticadas, já que muitos cidadãos eram coagidos a deixar seus domicílios
insalubres no centro do Rio de Janeiro e graças a vacinação
obrigatória, decretada pelo Presidente Rodrigues Alves, com seu
apoio. Houve manifestação popular contra essas ações, mais
conhecida como Revolta da Vacina e os jornais da época o
batizaram de inimigo do povo.

Embora suas ações tenham conquistado impacto na limpeza da cidade, com


redução dos focos de mosquitos, ratos e outros vetores de doenças e muito
embora as campanhas higienistas tenham também abordado a higiene de mãos,
utensílios e do corpo, mais doenças assumiam destaque.

A expedição que Oswaldo Cruz promoveu pelo Brasil (1912) para descobrir as
principais doenças que afetavam nossa população
revelou que havia doença de chagas endêmica,
ancilostomíase, febre amarela, malária, cólera.
Em 1917, morre Oswaldo Cruz e, em 1923 é criado o
Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), que fica sob direção de
Carlos Chagas.

Em 1919 a Gripe Espanhola chegou ao país, trazendo junto uma crise sanitária
nacional. O DNSP tinha o objetivo de ampliar o atendimento à saúde através de
programas sanitários.

* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.
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Nessa mesma época, chega ao Brasil a Fundação Rockefeler, trazendo o ensino


da medicina especializada.

Entre as décadas de 20 e 30 houve o surto de febre amarela e tuberculose. E a


partir de então a crescente urbanização e industrialização trariam novos
desafios. As capitais brasileiras, como a capital Rio de Janeiro, rapidamente
receberam um contingente de pessoas para trabalharem nas novas indústrias,
fábricas e afins, o que determinou o crescimento desordenado da cidade.

Com a industrialização, vieram os movimentos de trabalhadores, com crescente


participação política e reivindicação dos temas relativos à saúde. Em geral, os
movimentos industrializantes traziam urbanização acelerada e desigual. Não raro
os trabalhadores e suas famílias migravam para as regiões próximas aos centros
produtivos em acomodações precárias, sem as condições mínimas de
saneamento, o que se configurou como determinante para o surgimento e rápida
disseminação de doenças.

Na contra-mão do higienismo e compreendendo a crise na saúde como um


fenômeno político e social, surge a Medicina Social. Movimento que acredita
fortemente na participação política como estratégia de transformação da
realidade de saúde da população.

Para a Medicina Social se a doença é uma expressão da vida individual sob


condições desfavoráveis, a epidemia deve ser indicativa de distúrbios em maior
escala na vida em comunidade. Epidemias naturais sempre ocorreram quando
mudanças de estação, de tempo, das marés, entre outros, alteraram as
condições de vida e a população não se protegeu. Correspondem a grandes
sinais de alerta que mostram ao governante que um distúrbio ocorreu no
desenvolvimento do seu povo.

Já as epidemias artificiais enquanto atributos da sociedade, produtos de uma


falsa cultura ou de uma cultura não acessível a todas as classes, são indicativas
de defeitos produzidos pela organização política e social e conseqüentemente
afetam as classes que não participam dos benefícios econômicos e culturais de
uma sociedade.

* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.
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Na Inglaterra e nos Estados Unidos da América (EUA), surge ainda um


movimento no plano político: o Sanitarismo, como resposta integrada a ação do
Estado no âmbito da saúde. O discurso e a prática dos sanitaristas sobre os
problemas de saúde eram fundamentalmente baseados na aplicação de
tecnologia e em princípios de organização racional para a expansão das
atividades profiláticas (ou preventivas), destinadas principalmente aos pobres.

No Brasil, o sanitarismo foi fruto da reivindicação de um grupo em ascenção: os


proletários. Suas ações foram focadas na prevenção de doenças, sobretudo nas
camadas populares e trabalhadores.

A descoberta dos microorganismos nas ciências básicas da saúde representou


um grande reforço a este movimento que, tornado hegemônico e batizado de
Saúde Pública, que reorientou as diretrizes dos discursos e das práticas
ocidentais no campo da saúde social. No que se refere aos problemas
ambientais, o saneamento e o controle de vetores constituíram as principais
estratégias deste movimento, direcionados para o controle de doenças
relacionadas às precárias condições sanitárias.

Em 1953 é criado o Ministério da Saúde com o objetivo de coordenar ações de


Saúde Coletiva para a população brasileira, enquanto as ações de medicina
curativa passaram a ser oferecidas pelo Ministério da Assistência e Previdência
Social, através da arrecadação de tributos da folha de pagamento dos
trabalhadores e da contratação de Hospitais Privados, especialmente para o
atendimento deste público proletário.

A ampliação da compreensão dos determinantes das condições de saúde como


não somente restritos aos aspectos ambientais, mas também sócio-econômicos,
nos conduz a análise da transição demográfica e epidemiológica e a relação
entre estilos de vida e o processo saúde-doença.

O desenvolvimento da engenharia genética e biologia molecular, o surgimento


da atenção médico hospitalar de alta tecnologia, da medicina baseada em
evidência, nos conduzem a uma nova Saúde Pública, que propõe como objeto o
ambiente em sentido amplo atravessando do local ao global, do individual ao
coletivo e incluindo elementos físicos, psicológicos e sociais. A Nova Saúde

* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.
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Pública propõe a reorganização das instituições e das políticas sociais e a


integração entre instituições e organizações (interdisciplinaridade e
intersetorialidade).

 CONCEPÇÕES DO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA:


ORIGENS E TRANSFORMAÇÕES

Para compreensão do processo saúde-doença é preciso entender os dois


conceitos, embora existam algumas diferentes concepções. Também se faz
necessário o abandono estrito dos conceitos de saúde e de doença para a
compreensão de que o processo saúde-doença ou de adoecimento deixa de ser
um fenômeno biológico e individual para tornar-se institucional e simbólico.

 SAÚDE

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde é “o completo bem-estar


físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Já a última
Constituição Brasileira (1988) consagrou o conceito de saúde como: “direito de
todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e
econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos
e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços, para sua
promoção, proteção e recuperação.”

Mas para entender realmente o que é saúde é preciso desprender-se de conceitos e


entender que somos um conjunto de células vivas e alguns microorganismos, (como
bactérias e fungos) que coexistem em harmonia, como um ecossistema. Cada
indivíduo vivo é formado ainda de corpo, mente e interações sociais singulares, com
uma inserção na comunidade, que por sua vez pertence a uma localização sócio-
espacial (sociedade, nação) que se insere no espaço global.

Assim, podemos extrapolar o conceito de perfeito bem-estar e a definição da


Constituição e alcançar a idéia de que a saúde é um dos itens de bem-estar social,
e está relacionada à possibilidade de uma vida digna, onde os indivíduos tenham a
liberdade de realizar as escolhas que lhes sejam importantes.
* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
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 DOENÇA

A doença pode ser analisada a partir de três dimensões: fisiopatológica ou


funcional, processo mental e representação simbólica, ou seja, os significados da
doença para o indivíduo e para a sociedade. A dor é resultado do processo
fisiopatológico, enquanto o sofrimento resulta dos processos mental e simbólico.

A medicina, desde os seus primórdios, é orientada para redução da dor e


manutenção da vida, mas não tem como forte atuação amenizar o sofrimento
humano. E é desta forma que temos reduzido as taxas de mortalidade por inúmeras
causas evitáveis e aumentado a expectativa de vida de nossas populações, sem
que haja redução do sofrimento.

O sistema classificatório de doenças hoje é um esquema lógico, que tem alicerce na


materialidade histórica da doença. A concepção de doença até o século XVII era de
algo natural e concreto que está no espaço ‘extracorpo’ e que invade o ser humano,
determinando seu adoecimento. Os sintomas seriam os sinais da ‘encarnação’ do
corpo pela doença e os sintomas seriam diferentes em cada pessoa porque cada
organismo atrapalha de forma diferente a doença e se expressa com ‘ruídos’
diferenciados.

Com o surgimento das epidemias a medicina sofreu abalos. As concepções


religiosas e populares se difundiram, mas havia um questionamento: Por que
morriam também padres? Por que sobreviviam viúvas e idosas solitárias? Seria a ira
de Deus? Seriam elas bruxas?
Até esse momento a principal teoria explicativa das doenças era a teoria
miasmática. Os miasmas eram a manifestação física já citada acima das
substâncias que tinham o poder de levar doença a um indivíduo ou uma
comunidade ‘encarnando’ o corpo. O miasma seria como uma nuvem que pairava
sobre um povoado em um determinado momento, causando doenças.

A teoria dos miasmas acreditava que as sujeiras externas e os odores


detectáveis deveriam ser reduzidos ou eliminados para deter a disseminação
das doenças.
* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.
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Os Hospitais até este momento eram locais de exclusão da escória da sociedade,


os pobres, desassistidos, doentes leprosos, sifilíticos, com doenças venéreas
deformantes, loucos e prostitutas. Mas não havia atuação médica. Com a chegada
das epidemias, os médicos foram ordenados a atuar nos hospitais e separarem os
doentes dos não doentes (marginais). Os doentes foram separados de acordo com
seus sintomas. E a partir de então, com o advento da clínica médica, o Hospital
passou a ser local de ensino médico. Cada aprendiz recebia uma enfermaria e
observava e relatava seus sintomas significativos e calculavam freqüências
matemáticas para os fenômenos.

Com o advento da necropsia e da anatomoclínica (século XIX) desvendamos que


nos órgãos há sinais que correspondem aos sintomas apresentados pelos
pacientes. A abertura de cadáveres possibilitou a quebra da crença nos miasmas ou
quaisquer outras teorias populares e religiosas explicativas da doença: A doença
não existe fora do corpo!! O referencial teórico da medicina contemporânea passa a
ser a anatomia patológica.

O advento da bacteriologia e os avanços técnicos e científicos da medicina e áreas


da saúde nos conduziram ao modelo de saúde-doença atual, que acredita na
doença como alteração do estado de equilíbrio corporal do indivíduo. Ou ainda, uma
falha nos mecanismos de adaptação do organismo ou ausência de reação aos
estímulos aos quais ele está exposto, levando a perturbações da estrutura ou da
função de um órgão, sistema, organismo ou suas funções vitais.

* a autoria desta apostila é compartilhada entre as professoras Drª Cláudia Valéria Cardim da Silva, nutricionista
sanitarista e epidemiologista pela UERJ e Msc Flávia Farias Lima, nutricionista sanitarista especialista em
Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz.