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Volumen 30 (2) diciembre 2014 Asociación de Lingüística y Filología de América Latina Associação de
Volumen
30 (2)
diciembre
2014
Asociación de Lingüística
y
Filología de América Latina
Associação de Linguística
e
Filologia da América Latina
www.mundoalfal.org
ISSN: 1132-0214 impresa
ISSN: 2079-312X en línea
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ESTE FASCÍCULO MONOGRÁFICO SOBRE O TEMA GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS:

VARIEDADES DE ALÉM E AQUÉM-MAR FOI PLANEJADO E ORGANIZADO

por Roberto Gomes Camacho

Lingüística / VoL. 30 (2), Diciembre 2014:

ISSN 1132-0214 impresa ISSN 2079-312X en línea

Índice

Apresentação

7

Artículos/Artigos

Maria Helena Mira Mateus - O comportamento das vogais

nas variedades do português / Vowels behaviour in portuguese varieties

17

Ana Ruth Moresco Miranda - A fonologia em dados de escrita inicial de crianças brasileiras / Phonology in data on early writing

produced by Brazilian children

43

Silvia Rodrigues Vieira e Silvia Figueiredo Brandão - Tipologia de regras linguísticas e estatuto das variedades/línguas: a

concordância em português / Tipology of linguistic rules and status of varieties/languages: the agreement in portuguese

79

Maria Helena de Moura Neves - Intersubjetividade e interlocução nas relações de causalidade. A funcionalidade dos juntivos

causais na língua portuguesa / Intersubjectivity and Interlocution in Causal Relations. The Functionality of Causal Conjunctions in Portuguese

111

Erotilde Goreti Pezatti e Aliana Lopes Câmara- Da descrição ao ensino da oração adjetiva: a perspectiva dos livros didáticos de

língua portuguesa / From description to teaching of relative clauses:

6

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

Mariangela Rios de Oliveira e Hanna Batoréo - Construções com pronomes locativos (Loc) do tipo LocV e VLoc no PB e no PE: correspondências e distinções / Grammatical constructions

with locative pronouns (loc) of the locvandvloctype in ep and bp:

correspondences and distinctions

169

Dante Lucchesi - A hipótese do substrato no contexto da história sociolinguística do Português popular do Brasil / The substrate

hypothesis in the context of the sociolinguistic history of popular Brazilian Portuguese

207

Juanito Avelar e Charlotte Galves - O papel das línguas africanas na emergência da gramática do português brasileiro / The

role of african Languages in the emergence of Brazilian Portuguese grammar

239

Esmeralda Vailati Negrão e Evani Viotti - Contato entre quimbundo e português clássico: impactos na gramática de impessoalização do português brasileiro e angolano / The

Contact Between Kimbundu And Classical Portuguese: Impacts On The Grammar Of Impersonal Constructions In Brazilian And Angolan Portuguese

287

Reseñas/Resenhas

MARCOS BAGNO. 2011. Gramática pedagógica do português brasileiro, São Paulo, Parábola

331

Resenhado por: Manoel Luiz Gonçalves Corrêa

MARIA HELENA DE MOURA NEVES & VÂNIA CASSEB GALVÃO (Orgs.). 2014. Gramáticas contemporâneas do português: com a palavra os autores, São Paulo, Parábola

343

Resenhado por: Marize Mattos Dall’ Aglio-Hattnher

Lingüística / VoL. 30 (2), Diciembre 2014:

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ApResentAção

Este número da revista Lingüística da Alfal é dirigido à descrição do português, em especial às variedades de além e aquém-mar. Esse tema claramente dialoga com o texto “Diagnosticando uma gramá- tica brasileira: o português d’aquém e d’além-mar ao final do século XIX”, escrito por Fernando Tarallo e publicada em 1996, como ca- pítulo do livro Português Brasileiro. Uma viagem diacrônica, orga- nizado por Ian Roberts e Mary Kato. A principal questão que aquele texto levantava é se já poderia comprovar a emergência de uma língua brasileira em oposição à lín- gua portuguesa tradicional, ou se a língua aqui falada permaneceria lusitana, especialmente num contexto, digamos assim, ideológico, em que, muitas vezes, o perfil da gramática normativa praticada no Brasil vinha sendo ditado (e talvez venha sendo ainda), em grande parte, pela tradição portuguesa. Em sua discussão do assunto, Tarallo argumenta que, no final do século XIX, a gramática do Português Brasileiro exibe diferenças estruturais em relação à do Português Europeu. Evidências quan- titativas apontam para a ocorrência de “mudanças dramáticas” na virada do século XIX para o XX, deixando claro, então, que uma gramática brasileira, ou uma variedade especificamente brasileira, de fato emergiu com sua própria configuração, diferenciando-se ra- dicalmente da variedade lusitana. Conquanto não pareça pairar quaisquer dúvidas sobre a emer- gência de uma gramática brasileira específica, a discussão desse as- sunto têm se polarizado em torno da defesa da chamada hipótese da deriva e da defesa da chamada hipótese do contato. Os defensores da primeira posição sustentam que todas as marcas gramaticais do Português Brasileiro já existiam na língua falada em Portugal. Já os defensores da segunda posição sustentam que as características gra-

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

maticais do Português Brasileiro, especialmente das variedades po- pulares, emergiram em consequência de contato do Português com as línguas indígenas e africanas. Um dos objetivos deste número monográfico é traçar um pano- rama tão geral quanto possível, em face das limitações naturais do espaço, da descrição de variedades do mundo lusófono, retomando alguns aspectos que comprovam diferentes gramáticas de um e de outro lado do Atlântico e retomando outros que apontam para aspec- tos inovadores que possam motivar essa diferenciação em função do contato linguístico do Português Brasileiro com línguas indígenas e africanas. O outro objetivo deste número está vinculado à aplicação de as- pectos variados da descrição à formulação de princípios que possam guiar uma gramática de referência do português, questionando-se, por um lado, como a análise cientificamente fundamentada pode se converter num discurso sobre as regras efetivamente em uso e, por outro, o grau em que aspectos relevantes da descrição do fenômeno abordado estejam próximos ou distantes do modo como o mesmo fenômeno é apresentado nas gramáticas prescritivas. Esse segundo tipo de objetivo responde por um anseio de revisão do conceito tradicional de gramática, iniciada no Brasil, principal- mente na década de 80, com a Nova gramática do português con- temporâneo de Cunha & Cintra (1985), com a Gramática descritiva do português de Perini (1996), com a Moderna Gramática Portu- guesa de Bechara (1999) e, em Portugal, com Gramática da língua portuguesa de Mateus et al. (1983); seus reflexos mais recentes se fazem sentir na Gramática de usos de Neves (2000), na Gramática da língua portuguesa de Vilela & Koch (2001), na Nova gramáti- ca do Português Brasileiro de Castilho (2010), na Gramática do Português Brasileiro de Perini (2010), na Gramática pedagógica do Português Brasileiro de Bagno (2012) e no debate organizado por Neves & Galvão no livro Gramáticas contemporâneas do portu- guês: com a palavra os autores (2014). Estabelecidos esses dois eixos principais, diferentes, mas inter- relacionados, convidei especialistas com suficiente prestígio cien-

Apresentação / RobeRto gomes camacho

9

tífico e acadêmico na pesquisa em língua portuguesa, que, em sua maioria, aceitaram participar fornecendo contribuições diversas, que, desde já, reputo extremamente relevantes.

Com efeito, basta um rápido olhar nos textos, para perceber que, além de certa diversidade temática, estão contemplados os diferen- tes níveis de análise. Os textos de Mateus e de Miranda, que abrem

o número, tratam da Fonologia; a contribuição de Vieira & Brandão,

de uma perspectiva variacionista, e as de Avelar & Galves e Negrão & Viotti, de uma perspectiva formal e diacrônica, cada qual a seu

modo, tratam de aspectos diversos da Morfossintaxe. Já a perspec- tiva funcional e a funcional-cognitivista identifica as contribuições de Neves, Pezatti & Câmara para o estudo da junção entre orações e

a de Oliveira & Batoréo para o estudo de construções oracionais. O

texto de Lucchesi se aplica à defesa de uma hipótese sociolinguística

geral de transmissão linguística irregular do tipo leve com base em processos derivados do Léxico. O eixo descritivo conta com contribuições que contemplam uma comparação entre as variedades brasileira e europeia do português, como os de Mateus, Vieira & Brandão e Oliveira & Batoréo, e ou- tros, como os de Miranda, Neves e Pezatti & Câmara, que se restrin- gem ao tratamento de diferentes aspectos da gramática do Português Brasileiro; o mesmo se aplica às resenhas de Corrêa e Dall’Aglio- Hattnher. Já o eixo das possíveis influências de línguas africanas na formação do Português Brasileiro conta com as contribuições de Lucchesi, Avelar & Galves e Negrão & Viotti. A ordenação dos artigos se apoia numa perspectiva nitidamente ascendente de gramática, que parte das unidades fônicas, em rela- ção com as gráficas, para, passando pelas unidades morfossintáticas em si mesmas, atingir um nível de formulação descritiva em que a Morfossintaxe acaba necessariamente por incorpora as motivações discursivas emanadas da própria situação de uso. Assumindo a perspectiva teórica da fonologia gerativa, Mateus analisa as vogais do Português Europeu e do Português Brasileiro, tanto em sílaba tônica como átona, distinguindo as vogais resultantes da aplicação de regras que atuam nas duas variedades (como a har-

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

monização vocálica nos verbos) das vogais que apresentam variações, sobretudo em sílaba átona. Todas as explicações ali desenvolvidas contribuem, por um lado, para advogar uma clara distinção entre as duas variedades de aquém e de além-mar e, por outro, para servir de apoio ao ensino do Português como língua segunda ou estrangeira. Miranda traz um estudo descritivo com base na aquisição de gra- fia por crianças brasileiras em fase escolar. A autora analisa dados de escrita inicial para discutir as relações entre a seleção de elementos gráficos e o conhecimento fonológico, com incidência especial so- bre as consoantes palatais, as soantes, /□/ e /□/, e as fricativas, /□/ e /□/, consideradas complexas em estudos do português. A grafia que as crianças selecionam para representar as soantes traz evidên- cias que corroboram o conceito de consoante complexa, mas não a grafia das fricativas: ao revelar a apropriação do sistema alfabético, projetada sobre a produção dos ditongos, esse tipo de grafia pode ser interpretado como indício de mudança representacional das fri- cativas palatais. Vieira & Brandão abordam a concordância de número nominal e verbal, em diferentes estruturas, no Português Europeu e no Portu- guês Brasileiro, cujas bases se assentam nos pressupostos quantita- tivos e qualitativos da sociolinguística variacionista. Os resultados

a que chegam as autoras permitem delinear diferenças nítidas entre

os padrões de concordância das variedades d’aquém e d’além-mar. São justamente essas diferenças que lhes permitem demonstrar que

a aplicação de uma tipologia de regras em três instâncias –categóri-

ca, semicategórica e variável–, representa um recurso metodológico eficaz para avaliar perfis tipológicos linguísticos em relação aos di- versos fenômenos gramaticais. Passando, agora, para os estudos funcionalistas, o artigo de Ne- ves contempla a expressão da causalidade na junção oracional em português, considerando o encadeamento entre o desempenho na so- ciointeração e o gatilho cognitivo, arraigado nas relações intersubje- tivas. Com base no pressuposto de que é o nível morfossintático, o responsável pela organização funcional dessas relações, o estudo se debruça sobre os juntivos tradicionalmente considerados “causais”,

Apresentação / RobeRto gomes camacho

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mas se dedica especialmente às construções investidas de efeitos de sentido que extrapolam a estrita direção causa-consequência. Pezatti & Câmara, por seu lado, analisam o modo como os livros didáticos, voltados para o nível fundamental de ensino no Brasil, tratam as construções do domínio funcional da relativização - ora- ções adjetivas restritivas e explicativas - com base na seleção de cinco livros didáticos aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático. Os resultados mostram que o ensino dessas construções ainda reflete os postulados da gramática tradicional, na medida em que se baseia em atividades puramente metalinguísticas de identifi- cação e classificação de unidades morfossintáticas, desconsiderando aspectos semânticos, pragmáticos e prosódicos que sobressaem da descrição do uso real que as autoras desenvolvem com base numa perspectiva teórica discursivo-funcional. Sob uma orientação funcional e cognitiva, própria da perspectiva da Linguística Baseada no Uso e da Gramática das Construções, Oliveira & Batoréo analisam expressões verbais do Português Bra- sileiro e do Europeu, formadas por pronomes locativos (Loc), inter- pretadas como instanciações de dois padrões construcionais, confor- me a posição do pronome em relação ao verbo (V), LocV e VLoc, que atuam, respectivamente, na conexão textual e na marcação dis- cursiva. As autoras deduzem que, embora as duas variedades trilhem caminhos análogos, não deixam de apresentar também distinções de uso. Nesse caso, a gramaticalização dessas construções, a depender da variedade, pode assumir traços mais específicos, com distinção de visibilidade e de ritmo no nível das mudanças construcionais, diferenças essas que se acham vinculadas a motivações pragmáticas, cognitivas e estruturais específicas. Encerrado aqui o elenco dos trabalhos descritivos e, em alguns aspectos, também voltados para o ensino, restam por apresentar os três artigos que se debruçam sobre a história do Português, especial- mente do Português Brasileiro, em relação à língua da metrópole colonizadora, o Português Europeu, e as línguas africanas aportadas na América em razão do tráfico, motivado pelo sistema escravocrata de economia implantado nas colônias.

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

O trabalho de Lucchesi discute a transferência de estruturas das

línguas indígenas e africanas para a formação da gramática de varie- dades do português popular brasileiro. O estudo se baseia na hipótese do substrato, segundo a qual é o contato um fator preponderante na história linguística do país, por permitir acentuar o paralelismo entre a origem do português popular brasileiro e a formação de línguas criou- las. O artigo defende uma formulação substratista, em pauta na pes- quisa de várias línguas crioulas, baseada no conceito de relexificação, para examinar as possibilidades de sua aplicação ao estudo da história sociolinguística do Brasil, dentro da visão adotada de que as varieda- des populares do Português Brasileiro passaram, em sua formação, por um processo de transmissão linguística irregular de tipo leve.

O trabalho de Avelar & Galves se situa também entre os que ad-

vogam a hipótese do contato, explorando a ideia de que certas marcas gramaticais, que singularizam o Português Brasileiro no conjunto das línguas românicas, se devem à ação dos contatos interlinguísti- cos estabelecidos entre falantes de português e de línguas africanas. Os autores defendem a hipótese de que as línguas africanas, faladas pelos escravos introduzidos no Brasil colonial, desempenharam um papel significativo na emergência da gramática do Português Bra- sileiro. Explorando um viés teórico mentalista, de base gerativa, o estudo se debruça sobre paralelismos morfossintáticos entre o Por- tuguês Brasileiro e o Português Africano, bem como entre essas va- riedades e as línguas bantas. Como resultado, os autores defendem que a aquisição do português como segunda língua pelos africanos produziu mudanças em duas direções: (i) a transferência de proprie- dades sintáticas de suas línguas maternas para o português em for- mação no Brasil e (ii) a reestruturação desencadeada pela dificulda- de no aprendizado de marcas gramaticais específicas do português. Negrão & Viotti também se alinham à hipótese de contato na busca de uma explicação, também de fundo gerativo, para a emergência de estratégias de passivização, entendidas como construções de impesso- alização, nas variedades brasileira e angolana do português, com mar- cas que as distinguem de construções similares na variedade europeia. As autoras postulam que essas construções emergiram do contato en- tre o Português Clássico e uma língua banta, o Quimbundo, com base

Apresentação / RobeRto gomes camacho

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em um espaço transatlântico construído na época colonial decorrente

de interações intensivas, primeiramente, entre europeus e africanos e,

posteriormente, entre mercadores brasileiros e angolanos. Foi nesse

espaço, que se teria formado um banco de dados linguísticos a partir

de características morfossintáticas das línguas em contato. Por fim, as duas resenhas, que fecham esse número, tratam exata-

mente do segundo eixo organizador, a revisão de conceitos tradicio- nais e a formulação de princípios que possam guiar uma gramática

de

referência do português, que se sustente na descrição linguística.

O

texto de Corrêa se debruça sobre a gramática de Bagno (2012)

e

o de Dall’Aglio-Hattnher, sobre a obra organizada por Neves &

Galvão (2014), em que os próprios autores discutem os princípios estruturadores de seu fazer gramatical. Este breve relato mostra que as contribuições priorizam resul- tados de pesquisas sobre as variedades da América, da Europa e da África, fornecendo, desse modo, um painel, senão exaustivo, pelo menos muito relevante, de aspectos cruciais da organização grama- tical do português, assim como da emergência de uma gramática es-

pecífica para a variedade brasileira. Como pode testemunhar o leitor,

o presente número apresenta também um conjunto potencialmente

inovador de contribuições, especialmente em função da diversidade teórica das propostas, da variedade dos fenômenos envolvidos e dos níveis metateóricos a que se aplicam as análises. Como organiza- dor, deixo registrada a esperança de que a leitura dos artigos aqui enfeixados estimule um debate com outras propostas e com outras posições teóricas, que possa fornecer as sementes de uma reflexão sempre crítica e fecunda, razão de ser da pesquisa linguística.

RobeRto gomes camacho

Organizador

ARtÍculos/ARtigos

Lingüística / VoL. 30 (2), Diciembre 2014:

ISSN 1132-0214 impresa

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o coMpoRtAMento dAs VogAis nAs VARiedAdes do poRtuguÊs

VoweLs behaViouR in PoRtuguese VaRieties

maRia heLena miRa mateus

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa / ILTEC mhm@mateus.com.pt

Este artigo tem como objetivo a análise das vogais do Português Europeu (PE) e do Português Brasileiro (PB), tanto em sílaba tónica como átona, distinguindo entre as vogais resultantes da aplicação de regras que atuam em todas as variedades (como a harmonização vocálica nos verbos) e as vogais apresentam variações, sobretudo em sílaba átona, provocando uma clara distinção entre PE e BP. A perspetiva teórica que enforma esta análise é a fonologia generativa que tem como princípio a existência de níveis separados: o nível fonológico em que atuam processos fonológicos, e o nível fonético que contém as formas de superfície resultantes da atuação desses processos. As explicações apresentadas podem servir de apoio no ensino do Português como língua segunda ou estrangeira, tanto no esclarecimento dos professores sobre questões linguísticas e seus resultados na pronúncia da língua como na elucidação dos apren- dentes. A dimensão pedagógica deve provir de uma reflexão ade- quada sobre as propostas aqui apresentadas.

palavras-chave: Vogal; Harmonização Vocálica; Vogal Temática; Sílaba Átona.

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

The goal of this paper is the analysis of Portuguese vowels in Eu- ropean (EP) and Brazilian (BP) varieties, both in stressed and un- stressed syllable, making a distinction between vowels resulting from categorical rules that occur in all Portuguese varieties (as vowel harmony that applies on root verbal vowels) from vowel al- ternations and variation, namely in unstressed syllable, that cause a clear distinction between EP and BP. The theoretical framework that sustains this analysis is the generative phonology that considers the existence of separate tiers: the phonological tier where processes that have as a result the phonetic surface forms apply. The explana- tions we present may reinforce the Portuguese language teaching as a second or a foreign language in clarifying certain linguistics questions related to the pronunciation of Portuguese and the eluci- dation of the students. The pedagogical dimension can issue from an adequate reflexion about the proposals presented here.

Keywords:Vowel; Vowel Harmony; Theme Vowel; Unstressed Syl- lable.

1. intRodução

Neste artigo serão analisados os sistemas de vogais do português em sílaba tónica e em sílaba átona, tendo em atenção as diferenças patentes nas duas variedades (português europeu, PE, e português brasileiro, PB), e, quando tal se justificar, a variação no interior das variedades. A descrição e a explicação do comportamento das vo- gais poderão ter aplicação no ensino da língua a falantes que não têm o português como língua materna, para uma melhor compre- ensão da especificidade da produção oral. A perspetiva teórica que enforma esta discussão tem como princípio a existência de um nível subjacente em que se integram sistemas (e subsistemas) presentes na consciência fonológica dos falantes, e em que assentam as variantes

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

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lexicais que ocorrem em superfície quando são resultado de aplica- ção de regras 1 .

2. Vogais fonoLógicas do PoRtuguês em síLaba tónica

As vogais fonológicas do português são as que permitem criar oposições distintivas através da construção de pares mínimos de pa- lavras que contrastam apenas numa vogal e têm significados diferen- tes. As vogais que permitem a oposições distintivas podem ser vo- gais médias opõem dois nomes (bola [ból ]/[b ́l ][o]/[ ]), um nome e uma forma verbal (selo [sélu] N / [s lu] ́ V [e]/[ ]), ou duas formas do mesmo paradigma (devo / deve [dévu]/[d vi] ́ [e]/[ ], verbo dever, ou como / come [kómu]/[k mi] ́ [o]/[ ] verbo comer) 2 . Podem também criar-se pares mínimos por oposição de duas vogais altas (fila / fula [i]/[u]) ou de uma vogal média e uma baixa (bela / bala [b l ́ [/[bál ], [ ]/[a]). As vogais depreendidas a partir destas oposições figuram no Quadro i.

a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas
a partir destas oposições figuram no Quadro i. Quadro i PORTUGUÊS Altas i u Médias altas

Quadro i

PORTUGUÊS

Altas

i

u

Médias altas

e

o

Médias baixas

Médias baixas
Médias baixas

Baixas

a

1 Agradeço aos meus colegas Celeste Rodrigues e Fernando Martins a ajuda que me de-

ram não só lendo com atenção o texto mas, também, resolvendo questões de compatibilidade dos símbolos fonéticos utilizados.

2 Note-se que nestes exemplos as vogais médias que formam pares mínimos têm a mesma

ortografia, o que constitui uma das dificuldades sentida na aprendizagem do português como língua estrangeira, sobretudo pelo facto de, ao aprenderem simultaneamente a escrita e a ora- lidade, não ser clara a distinção das diferentes alturas dessas vogais médias. A oposição entre fila e fula é muito mais evidente. Na transcrição fonética dos exemplos que apresento de (1.) a (5.) as vogais átonas seguem a pronúncia do português europeu. A variação das átonas entre as duas variedades do português será discutida adiante, a partir de 6.

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

Neste Quadro apresentam-se as vogais fonológicas do português que ocorrem em sílaba tónica. Os diversos processos fonológicos e fonéticos que funcionam na utilização da língua têm como resultado variações que, no nível fonético, distinguem variedades da língua portuguesa, nomeadamente as variedades que são objeto deste arti- go: Português Europeu e Português Brasileiro. Para compreendermos as variações a que estão sujeitas as vogais fonológicas é necessário considerarmos que os segmentos fonoló- gicos são unidades complexas que têm propriedades identificadoras denominadas traços distintivos. Os traços estão organizados hierar- quicamente e dependem de nós de classe que reúnem traços dis- tintivos com propriedades comuns. Para a análise da relação entre os traços identificadores e as alterações das vogais fonológicas, são necessários e suficientes dois nós de classe: Altura, de que depen- dem os traços [alto] e [baixo] e Ponto de Articulação, de que depen- dem os traços [arredondado] e [recuado]. O Quadro ii apresenta os quatro traços designados, a que correspondem os sinais [+] e [-] conforme a vogal em questão for identificada pela presença ou au- sência do traço. As vogais [e/ /o/ ] são habitualmente designadas como médias o que está de acordo com o facto de elas serem menos claras nas oposições que formam entre si e pouco produtivas na cria- ção de pares mínimos, além de constituírem uma particularidade do português que não se verifica em muitas outras línguas 3 .

que não se verifica em muitas outras línguas 3 . Quadro ii Vogais 4 traços i
que não se verifica em muitas outras línguas 3 . Quadro ii Vogais 4 traços i

Quadro ii

Vogais 4

traços

i

e

traços i e a o   u

a o

a o
 

u

alto

+

– –

– +

 

baixo

+

+ –

+ –

 

recuado

+ +

+ +

 

arredondado

– +

+ +

 

3 No castelhano, por exemplo, a variação entre médias como o mesmo ponto de articula-

ção ([e/ ] ou [o/ ] não altera o significado do par de palavras.

] ou [o/ ] não altera o significado do par de palavras. A vogal [a] é
] ou [o/ ] não altera o significado do par de palavras. A vogal [a] é

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

21

2.1. Alternância entre vogais do radical nos paradigmas verbais.

A oposição de altura entre vogais médias em sílaba tónica como devo, deve [dévu] / [d ́ vi] e movo, move [móvu] / [m vi] ́ envolve a aplicação de dois processos sobre as vogais tónicas dos radicais verbais: Harmonização vocálica e Abaixamento de altura das vo- gais acentuadas. Esta alternância entre as vogais do radical é uma especificidade do português e está presente em todas as variedades. A exemplificação destes processos está apresentada em (2.2.) com os verbos dever, mover, ferir e dormir. As vogais em análise, que al- ternam entre médias ([e/o]), baixas ([ / ]) e altas ([i/u]) estão dentro de parênteses retos.

([ / ]) e altas ([i/u]) estão dentro de parênteses retos. 2.2. Exemplos de alternância: verbos
([ / ]) e altas ([i/u]) estão dentro de parênteses retos. 2.2. Exemplos de alternância: verbos
([ / ]) e altas ([i/u]) estão dentro de parênteses retos. 2.2. Exemplos de alternância: verbos
([ / ]) e altas ([i/u]) estão dentro de parênteses retos. 2.2. Exemplos de alternância: verbos

2.2. Exemplos de alternância: verbos dever, mover, ferir e dormir

Presente do Indicativo

d[é]vo

m[ó]vo

f[í]ro

d[ú]rmo

d[]ves

m[]ves

f[]res

d[]rmes

d[]ve

m[]ve

f[]re

d[]rme

d[]vem

m[]vem

f[]rem

d[]rmem

Presente do Subjuntivo

d[é]va

m[ó]va

f[í]ra

d[ú]rma

d[é]vas

m[ó]vas

f[í]ras

d[ú]rmas

d[é]va

m[ó]va

f[íra

d[ú]rma

d[é]vam

m[ó]vam

f[íram

d[ú]rmam

A alternância das vogais do radical exemplificada em (2.2.) ([e]/ [ ]; [o]/[ ]; [i]/[ ]; [u]/[ ]) decorre da atuação da harmonização vocá- lica e do abaixamento das vogais, dois processos morfo-fonológicos que têm sido interrelacionados em descrições sincrónicas e diacróni-

das vogais , dois processos morfo-fonológicos que têm sido interrelacionados em descrições sincrónicas e diacróni-
das vogais , dois processos morfo-fonológicos que têm sido interrelacionados em descrições sincrónicas e diacróni-
das vogais , dois processos morfo-fonológicos que têm sido interrelacionados em descrições sincrónicas e diacróni-
das vogais , dois processos morfo-fonológicos que têm sido interrelacionados em descrições sincrónicas e diacróni-

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

cas do português. Na gramática do português contemporâneo (Cunha

e Cintra, 1984) a descrição da harmonização vocálica incide sobre

os Presentes do Indicativo e do Subjuntivo e sobre os Imperativos Afirmativo e Negativo (formas que se identificam com as dos refe- ridos presentes). A alternância entre as vogais do radical em cada paradigma e entre vogais correspondentes entre os três paradigmas (1ª, 2ª e 3ª conjugações) segue o modelo dos verbos apresentados em (2.2.), estendendo-se a aplicação, em Cunha e Cintra, a verbos como levar e lograr, dever e mover, servir e dormir, frigir e acudir.

A gramática histórica procurou uma explicação destas alternân- cias vocálicas reportando-se, ao étimo latino, os aspetos morfoló- gicos e fonéticos deste caso particular da gramática do português (Williams 19381, 1961: 213-221; José Joaquim Nunes 19291, 1951:

282-290; Piel 1944). Williams considera que, nos verbos regulares da 2ª e 3ª conjugações com vogal breve no radical em latim (exs. verter e volver, servir e dormir), a diferença nas vogais acentuadas do radical (primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo vs. as segunda e terceira do singular, e terceira do plural) se deve ao fechamento da vogal da primeira pessoa, que seria, no português ar- caico, aberta na 2ª conjugação (p.ex. v[ ́ ]rto, hoje v[e]rto ou v[ ]lvo, ́ hoje v[o]lvo) e média na 3ª por influência assimilatória da semivogal

drmio, hoje

(p.ex. s[e]rvo, de servio, hoje s[i]rvo ou d[o]rmo, de

d[u]rmo) 5 . Este fechamento seria causado por metafonia – ou assi- milação a distância – da vogal final da primeira pessoa. Nas vogais fechadas do Presente do Subjuntivo, segundo Williams, a passagem

de v[ ]rta a v[e]rta e de v[ ]lva a v[o]lva ou de s[ ]rva a s[i]rva e de d[ ]rma a d[u]rma se fez por analogia com a primeira pessoa do Presente do Indicativo, e ainda por influência das formas do plural em que a vogal não é tónica mas também fechada: sirvamos, sirvais,

etc

A importância da analogia para o neogramático Williams leva-

o a dizer: “Tal é a força da analogia no seu triunfo sobre a força da modificação fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a

fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são
fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são
fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são
fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são
fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são
fonológica” (1038: 214). José Joaquim Nunes tem a  5 Os exemplos dados por Williams são

5 Os exemplos dados por Williams são de verbos com ĕ(o que justifica que apenas procure

uma explicação para a primeira pessoa, já que as restantes seriam, naturalmente, abertas.

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

23

mesma explicação para o fechamento das vogais da segunda conju- gação (influência assimilatória e analogia). Também em Piel (1944) a analogia tem um lugar de relevo. Se o fechamento da primeira pessoa do Indicativo e das formas do Sub- juntivo se deve à influência assimilatória da vogal final, as formas do Subjuntivo resultam da “solidariedade morfológica” com a primeira pessoa do Indicativo (ou seja, um processo de analogia) (1944: 373). Repare-se no entanto que, se foi possível explicar as vogais médias ou altas recorrendo à assimilação e à analogia, as vogais baixas de d[ ]ve (de dēbet), m[ ]ve (de mōvet), ou s[ ]be (de sŭbĕt ou t[ ]sse (de tǔssǐt), não cabem nesta explicação considerada a natureza das vogais etimológicas. Neste cruzamento de influências assimilatórias das vogais finais e das semivogais com analogias entre tempos e formas verbais, ape- nas José Joaquim Nunes se refere à importância da vogal temáti- ca na elevação das vogais: “As mesmas vogais -e- e -o- do radical convertem-se respectivamente em -i- e -u-, se o verbo em que se encontram é dos que terminam no infinitivo em -ir” (1951: 284). A explicação da história das línguas com recurso à analogia, de que frequentemente se serviam os neogramáticos, tem sido discuti- da 6 . O seu âmbito está hoje bastante limitado, e utiliza-se, sobretudo, na referência à extensão da aplicação de regras gerais na variação linguística e na aquisição da linguagem. Por outro lado, a análise da estrutura interna das palavras e a subsequente construção de for- mas subjacentes regida por princípios gerais das línguas permitiram apresentar uma explicação mais satisfatória do que a atrás referida para a alternância vocálica nos verbos do português, não só por ser mais generalizante mas por integrar numa mesma perspectiva os ní- veis fonológico e morfológico.

mesma perspectiva os ní- veis fonológico e morfológico. 6 Ver Kiparsky (1968:192 e ss.) sobre a
mesma perspectiva os ní- veis fonológico e morfológico. 6 Ver Kiparsky (1968:192 e ss.) sobre a
mesma perspectiva os ní- veis fonológico e morfológico. 6 Ver Kiparsky (1968:192 e ss.) sobre a
mesma perspectiva os ní- veis fonológico e morfológico. 6 Ver Kiparsky (1968:192 e ss.) sobre a

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

3. a haRmonização VocáLica e o abaixamento nos VeRbos do PoRtuguês. uma PRoPosta com RecuRso à teoRia autossegmentaL

Como foi dito em (1.) e (2.), os problemas em análise reportam- se à existência de uma alternância de altura das vogais do radical acentuadas nos tempos verbais Presente do Indicativo e Presente do Subjuntivo. 7 Em função das características do traço distintivo ‘altu- ra’, o termo de fechamento é substituído pelo de elevação relativa- mente às vogais médias e fechadas, e o de abertura, pelo de abaixa- mento relativamente às vogais abertas. A constituição das formas verbais subjacentes – as suas represen- tações lexicais que são fonológicas e constituem o léxico – incluem o tema formado pelo radical e pela vogal temática, e os sufixos de tempo-modo e pessoa, como se apresenta em (3.1.) e (3.2.). Esta constituição interna permite a aplicação de regras diversas na pro- dução fonética. No período de aquisição da língua a aplicação de regras inferidas por analogia com outros processos pode criar for- mas erradas que posteriormente serão corrigidas pela integração das exceções e pela estabilização da gramática. A criação dessas formas pode entender-se como uma evidência de capacidades metalinguís- ticas dos falantes mesmo quando estão em processo de aquisição da língua.

3.1. Representações lexicais das formas verbais

Presente do Indicativo 8

fal + a + o fal + a + s

bat + e + o bat + e + s

part + i + o part + i + s

7 Como disse, as formas do Imperativo afirmativo e negativo identificam-se com as dos

Presentes.

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

25

fal + a fal + a + mos fal + a + m

bat + e bat + e + mos bat + e + m

part + i part + i + mos part + i + m

Presente do Subjuntivo

fal + a + e fal + a + e+ s fal + a + e fal + a + e + mos fal + a + e + m

bat + e + a bat + e + a + s bat + e + a bat + e + a + mos bat + e + a + m

part + i + a part + i + a + s part + i + a part + i + a + mos part + i + a + m

Se compararmos os exemplos de (3.1.) com as formas de super- fície (ver 3.2.) em que a vogal temática não está presente (primeira pessoa do singular do Indicativo e todas as pessoas do Subjuntivo), verificamos que a vogal temática é suprimida quando à sua direita se encontra uma vogal, seja o sufixo da primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo, <o>, seja o sufixo do Presente do Sub- juntivo (<e> na primeira conjugação e <a> nas segunda e terceira conjugações).

3.2. Formas de superfície

Presente do Indicativo

Presente do Subjuntivo

/fal + a + o/

falo

[fálu]

/fal + a + e/ → fale [fál□] (PE)/[fáli] (PB)

/bat + e + o/ →

bato

[bátu]

/bat + e + a/→bata

[bát□] etc.

/part + i +o/ → parto

[páRtu]

/part + i + a/→parta [páRt□] etc.

No quadro da teoria autossegmental em que se fundamenta a análise fonológica aqui realizada, os segmentos fonológicos situam- se em níveis autónomos e independentes e os próprios traços dis- tintivos também têm autonomia. É portanto uma teoria multilinear. Apesar de autónomos, contudo, os traços distintivos que constituem

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

a estrutura interna de um segmento estão agrupados em nós de clas- se de que dependem, e estão localizados em níveis separados. O traço distintivo da vogal temática que nos interessa aqui consi- derar é o traço de altura. Se as vogais de uma forma como fal+a+o forem representadas como V1 (vogal do radical), V2 (vogal temá- tica), V3 (vogal do sufixo), a supressão da V2 por estar seguida de outra vogal cria as condições para que o traço autónomo de altura dessa vogal temática suprimida (denominado segmento flutuante) se projete na vogal do radical (ver 3.3.). A aplicação das duas partes da regra ((a) e (b)) tem, portanto, como resultado que a altura da vogal temática é assimilada pela vogal do radical, o que provoca a alter- nância destas vogais de acordo com a altura da temática. Na regra está indicado o traço Vocálico que é o traço distintivo característico das vogais. Veja-se a formulação da regra.

3.3. Supressão da Vogal Temática

a)

V1

|

Vocálico

V2 ] Tema

|

V3

|

Vocálico Vocálico

|

Altura

(b)

V1] Tema

|

V3

|

Vocálico Vocálico

Altura

A altura está agora como um segmento flutuante e pode projetar- se sobre a vogal do radical. Ora a harmonização vocálica nos verbos do português resulta exatamente da assimilação, pela vogal do ra- dical, da altura da vogal temática. Essa harmonização torna-se evi- dente se compararmos a altura da última vogal do radical acentuada (tónica) nos verbos das três conjugações. As formas verbais são as mesmas em que a vogal temática foi suprimida: a primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo (cf. a) e as primeira, segunda e terceira pessoas do singular e terceira do plural do Presente do Sub-

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

27

juntivo (cf. b). Também aqui existe uma alternância de altura que se verifica em todas as variedades da língua. Os verbos que exemplifi- cam são levar e morar, dever e mover, ferir e dormir.

levar vogal temática baixa

morar

dever vogal temática média

mover

3.3.1. Presente do Indicativo

l[ ]vo

m [ ɔ ]ro

d[é]vo

m[ó]vo

3.3.2. Presente do Subjuntivo

ferir

dormir

vogal temática alta

f[í]ro

d[ú]rmo

l[ ]ve

m[

ɔ]re

d[é]va

m[ó]va

f[í]ra

d[ú]rma

l[ ]ves

m[

ɔ]es

d[é]vas

m[ó]vas

f[í]ras

d[ú]rmas

l[

]e

m[

ɔ]re

d[é]va

m[ó]va

f[íra

d[ú]rma

l[ ]vem

m[

ɔ]rem

d[é]vam

m[ó]vam

f[íram

d[ú]rmam

As formas verbais incluídas em (i), (ii) e (iii) mostram que as vogais acentuadas são:

(i)

[ ] e [] vogais baixas, nos verbos de vogal temática /a/, vogal baixa

(ii)

[é] e [ó], vogais médias, nos verbos de vogal temática /e/, vogal média

(iii)

[í] e [ú], vogais altas, nos verbos de vogal temática /i/, vogal alta

Assim, e deixando por discutir outros aspetos que constituem ex- ceções, a projeção do traço de altura da vogal temática sobre a vogal do radical representa-se como segue:

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

3.4. Assimilação do traço de altura pela vogal do radical

V1 ] Tema

|

Vocálico

de altura pela vogal do radical V1 ] T e m a | Vocálico Altura V3

Altura

V3

Vocálico

Em consequência da projeção da altura da vogal temática, nos verbos da primeira conjugação as vogais do radical ficam baixas, na segunda ficam médias e na terceira ficam altas.

4. abaixamento da VogaL do RadicaL

Nas formas em que a vogal temática não é suprimida, ou seja, nas 2ª e 3ª pessoas do singular e na 3ª do plural do Presente do In- dicativo, as vogais acentuadas do radical são todas baixas nas três conjugações:

4.1. Formas com vogal baixa

l[

]vas

m[ ɔ ]ras

d[ ]ves

m[ ɔ ]ves

f[

]res

d[ ɔ ]rmes

l[

]va

m[ ɔ ]ra

d

ve

m[ ɔ ]ve

f[ re

d[ ɔ ]rme

l[

]vam

m[ ɔ ]ram

d[ ]vem

m[ ɔ ]vem

f[

rem d[ ɔ ]rmem

A proposta de explicação da ocorrência destas vogais baixas é a seguinte: elas são o resultado de um processo de abaixamento que atua sobre as vogais do radical nas formas em que a vogal temática não foi suprimida. Se lembrarmos agora que a primeira pessoa do singular tem no nível fonético uma vogal com a altura da temática, verificamos que essa vogal muda conforme as conjugações (ver 4.2.). Mas as vogais

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

29

das outras formas verbais (as segunda e terceira do singular e tercei- ra do plural) que receberam a aplicação da regra de abaixamento são todas baixas, alternando assim com a primeira pessoa do singular nas 2ª e 3ª conjugações. (ver mais uma vez 4.2.).

Formas com aplicação da regra de abaixamento

l[

]vo

m[ ɔ ]ro

d[é]vo

m[ó]vo

f[í]ro

d[ú]rmo

l[

]vas

m[ ɔ ]ras

d[

]ves

m[ ɔ ]ves

f[ ]res

d[ ɔ ]rmes

l[

]va

m[ ɔ ]ra

d[

]ve

m[ ɔ ]ve

f[ re

d[ ɔ ]rme

l[

]vam

m[ ɔ ]ram

d[

]vem

m[ ɔ ]vem

f[

rem

d[ ɔ ]rmem

Encontra-se assim, neste conjunto de formas, uma outra alter- nância de altura das vogais, resultante de um processo específico de abaixamento. Esta alternância não se verifica na comparação entre as três conjugações (como no caso da harmonização vocálica) mas constata-se entre as formas de cada um dos verbos das segunda e terceira conjugações como vemos em 4.2. Resumindo: a harmonização vocálica dos verbos em português é um processo de assimilação da altura da vogal temática pela vogal do radical. Essa assimilação segue-se à supressão da vogal temática que deixa o seu nó de altura como um segmento flutuante que se projeta sobre a vogal do radical. Todo este processo precede a aplicação do acento de palavra. O abaixamento das vogais do radical nas formas em que a vogal temática não foi suprimida é um processo diferente da harmonização que atua quando o acento já está aplicado. Tendo presente (i) que a diferença entre dois tipos de vogais mé- dias que funcionam na distinção entre formas verbais nos verbos do português, e (ii) que outras línguas podem não apresentar este tipo de oposições distintivas, deve integrar-se a explicitação deste problema no ensino do português como língua estrangeira ou língua segunda. A relação entre a abertura das diferentes vogais do radical e as respetivas vogais temáticas é uma questão que merece atenção mesmo no âmbito do ensino da língua como materna.

30

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

5. ainda as Vogais tónicas

A referência a ‘representações lexicais’ não é exclusiva do apa- relho teórico da fonologia generativa. O léxico faz parte do conhe- cimento da língua que possuem os falantes, e, nesta perspetiva, é no léxico que estão inscritas as alternâncias de altura das vogais que criam oposições distintivas entre nomes – como os exemplos dados em (2.) de bola [ból ]/[b l ́ ], com a mesma ortografia mas com dife- rentes vogais na língua oral, ou entre um nome e uma forma verbal

como selo [sélu] N ,/[s lu] ́ V 9 . Ao referir as representações lexicais não posso deixar de pôr em relevo a importância do conhecimento do léxico para o ensino da língua materna ou estrangeira. As represen- tações lexicais dos radicais que fazem parte do léxico e dos outros elementos que fazem parte da constituição interna das palavras per- mitem que se compreendam as formas de superfície sobre as quais já se aplicaram processos fonológicos e morfológicos. O ensino na aprendizagem de uma língua terá de ter em conta características des- te tipo obtidas quer por memorização dos aprendentes, quer porque

o professor conhece e está consciente dos processos da língua que a

caracterizam e podem determinar variedades diferentes. 10 Existem no entanto variações que não provocam oposições dis- tintivas e que devem ser consideradas no ensino da língua. Algumas decorrem do contexto em que as vogais estão inseridas. Por exem- plo, as vogais seguidas de consoante nasal não são produzidas como baixas nas normas padrão do PE e do PB (antes de /m/ ou /n/ a vogal tónica nunca pode pronunciar-se como baixa, mas torna-se média como [ ] em cama [kɐ mɐ], [o] em sono, [sónu] ou [soɲu]) 11 . A variação não distintiva pode resultar de outros fatores como

a proximidade acústica entre segmentos. Exemplos desta variação que não interfere no significado encontram-se por comparação entre

interfere no significado encontram-se por comparação entre 9 Embora a vogal baixa se possa explicar por
interfere no significado encontram-se por comparação entre 9 Embora a vogal baixa se possa explicar por
interfere no significado encontram-se por comparação entre 9 Embora a vogal baixa se possa explicar por
interfere no significado encontram-se por comparação entre 9 Embora a vogal baixa se possa explicar por
interfere no significado encontram-se por comparação entre 9 Embora a vogal baixa se possa explicar por

9 Embora a vogal baixa se possa explicar por harmonização vocálica como se diz em 4.

10 A oposição que se dá num par mínimo em que as vogais são distintas também ortogra-

fia – por exemplo, fala/fila [fál ]/[fíl ] ou murro/morro [múRu]/[móRu] torna-se mais fácil de apreender.

11 Vogais baixas seguidas de consoante nasal ou vogais baixas nasalizadas caracterizam

dialetos não-padrão.

apreender. 11 Vogais baixas seguidas de consoante nasal ou vogais baixas nasalizadas caracterizam dialetos não-padrão.
apreender. 11 Vogais baixas seguidas de consoante nasal ou vogais baixas nasalizadas caracterizam dialetos não-padrão.

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

31

diferentes estádios da língua, como as vogais baixas e médias repre- sentadas pelas letras <e> e <o> que, no português antigo, tinham uma distribuição diferente do português atual, ocorrendo em poesias da época rimas entre eterno, governo e inverno, entre despreza e al- teza, ou entre senhora e embora. 12 Também esta variação das vogais médias está presente nos dialetos atuais do português europeu e bra- sileiro, provocando a pronúncia variável de palavras como dezoito [dizójtu]/[diz ́ jtu] em PE e [dizójtu]/[diz jtu] ́ em PB. A comparação entre dialetos e socioletos evidencia tipos de variação da vogal acen- tuada que não se restringem ao traço de altura, mas podem abranger outros traços distintivos como, por exemplo, o ponto de articulação. Em dialetos do PE existem exemplos de vogais recuadas e não pala- tais como /u/ e /o/ pronunciadas com palatalização (uva, [ü]va; pou- co, p[ö]co; boi, b[ö]i). No ensino da língua este tipo de variação não deve ser considerado um erro porque decorre do contexto dialetal ou social em que o aprendente está integrado.

6. comPoRtamento das Vogais em síLaba átona

Uma das diferenças claras e evidentes no nível oral quando con- trastamos o português europeu e o brasileiro situa-se na área das sí- labas não acentuadas (átonas). Não pode analisar-se esta diferença se nos restringirmos às vogais que integram essas sílabas mas temos de considerar a ‘sílaba’ como um constituinte prosódico da língua cuja segmentação é cognitivamente mais simples do que a segmen- tação em elementos fonológicos isolados. Compare-se a divisão de palavra em sílabas: ou em segmentos fonéticos: tanto uma pessoa não alfabetizada como uma criança em idade pré escolar podem com facilidade dividir em “pedaços” o exemplo (pa-la-vra) mas será mais difícil distinguir todos os segmentos fonológicos que o constituem ([p]-[ ]-[l]-[a] [v]-[ ]-[ ]) 13 . Contudo, essa diferença não é das mais

]-[ ]) 1 3 . Contudo, essa diferença não é das mais 12 Ver, por exemplo,
]-[ ]) 1 3 . Contudo, essa diferença não é das mais 12 Ver, por exemplo,
]-[ ]) 1 3 . Contudo, essa diferença não é das mais 12 Ver, por exemplo,

12 Ver, por exemplo, Mateus e Nascimento (2005).

13 Na variedade brasileira o primeiro [a] é mais audível do que o [ ] europeu.

por exemplo, Mateus e Nascimento (2005). 13 Na variedade brasileira o primeiro [a] é mais audível

32

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

notórias. Para analisar as reais distinções, devemos ter presente a estrutura interna da sílaba.

6.1. Estrutura da sílaba

Quando consideramos as palavras é, , par, constituídas por

uma sílaba, verificamos que em todas elas está presente a vogal [a], ela é o núcleo da Rima. A consoante que a precede em e em par

é

o Ataque; a final de par é a Coda. Da unidade silábica dependem

o

ataque e a rima, e desta dependem o núcleo e a coda. A estrutura

da sílaba está portanto organizada hierarquicamente como se repre- senta adiante nas sílabas da palavra pares (o sinal convencional de

sílaba é [σ]; [R] indica a rima, [cod], a coda).

σ

σ

é [σ]; [ R ] indica a rima, [ c od], a coda). σ σ A

A

R

A

R

 
 
 
 

N

N

Cod

p

a

r

e

s

6.1.1.

O Ataque e os núcleos vazios

 

Todas as consoantes isoladamente podem ser ataque de sílabas. Contudo, uma sequência de duas consoantes está sujeita a restrições,

a principal é o princípio de sonoridade definido como segue:

Princípio de Sonoridade

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

33

A sonoridade dos segmentos que constituem a sílaba aumenta a partir do início até ao núcleo e diminui desde o núcleo até ao fim 14

Assim, os ataques formados por uma oclusiva seguida de uma fricativa (por exemplo, [ps]) infringem o princípio de sonoridade, aliás sujeito também à condição de dissimilaridade que restringe a formação de ataques em que as duas consoantes seguidas não man- tenham entre si uma certa distância de sonoridade (por exemplo, [bl] é possível mas [vl] é desaconselhável). Os princípios e as res- trições têm consequências diversas sobretudo a nível da oralidade e são um dos fatores mais influentes na diferença entre as duas varie- dades da língua. Em português europeu muitas sequências em ataque de sílaba violam o princípio de sonoridade como as incluídas nas seguintes palavras:

[pt] - captar

[gn] - gnomo

[bt] - obter

[bs] - absurdo

[pn]- pneu

[bd] - abdómen

[dv] - advertir

[tm] - ritmo

[dk] - adquirir

[dm] - admirar

[tn] - étnico

As sequências destes exemplos infringem o princípio da sonori- dade e em certos casos a condição de dissimilaridade 15 .Estas vio- lações verificam-se no nível fonético (ou nível oral), mas não se verificam no nível fonológico. Neste nível pode pôr-se a hipótese de que as duas consoantes constituem o ataque e a coda de uma sílaba, e entre elas se integra um núcleo vazio. Em (i) e (ii) estão argumen- tos que sustentam esta hipótese:

14 A sonoridade intrínseca dos segmentos permite a elaboração de uma escala, aqui apre-

sentada no sentido crescente. Escala de sonoridade: consoantes oclusivas (não-vozeadas, vo- zeadas) < fricativas (não-vozeadas, vozeadas) < nasais < líquidas (vibrantes, laterais) < glides < vogais (altas, médias, baixas). A definição atual de princípio de sonoridade está na base dos tradicionais ‘grupos próprios’ constituídos por oclusivas seguidas de líquidas, as únicas consideradas permitidas pela gramática tradicional das línguas românicas.

15 A análise da sílaba em português europeu tem maior desenvolvimento em Mateus et al.

34

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

i)

Ao pronunciar pausadamente uma palavra que integre uma sequência de consoantes não aceitável pelo princípio da sonoridade, é frequente, na lín- gua oral, inserir-se uma vogal entre essas consoantes. No PE a vogal inse- rida é [i] 16 . Esta inserção ocorre em produções infantis, como por exemplo em *afeta [áfit ] ou *pacto [pákitu] mas também pode ocorrer em produ- ções de falantes adultos se lhes for pedida uma divisão silábica. No PB a vogal inserida é [i]: uma inserção que ocorre com muita frequência como em psicologia [pi-sikoloíɐ], absurdo [abi-sú -du], captar [kapi-tá ]

 í ɐ ], absurdo [abi-sú -du], captar [kapi-tá ] ii) Quando se faz uma translineação
 í ɐ ], absurdo [abi-sú -du], captar [kapi-tá ] ii) Quando se faz uma translineação
 í ɐ ], absurdo [abi-sú -du], captar [kapi-tá ] ii) Quando se faz uma translineação

ii) Quando se faz uma translineação (divisão gráfica de uma palavra), é co- mum haver hesitação na separação das letras que correspondem a uma sequência de consoantes inaceitável A hesitação pode provir da interpre- tação de palavras como admirar ou advertir entendidas como tendo um prefixo /ad/ (ad-mirar e ad-vertir) que explica a ‘etimologia’ e permite a interpretação da consoante [d] como a coda da primeira sílaba 17 . Também se podem aceitar separações silábicas como a-dmirar em que a consoante [d], a primeira da sequência [dm], passa a fazer parte do ataque da segunda sílaba. Se [dm] fosse um grupo admissível (p. ex. [d ]), o falante não sepa- rava as duas consoantes e sabia que ambas pertenciam ao ataque da síla- ba. Mas na análise que estou a desenvolver as sequências como [dm] são inaceitáveis e, portanto, o falante teria que recorrer à hipótese do núcleo vazio. Neste último caso considera-se que as duas consoantes pertencem a duas sílabas e entre elas existe um núcleo vazio

a duas sílabas e entre elas existe um núcleo vazio Como se verifica, há estratégias diferentes

Como se verifica, há estratégias diferentes nas duas variedades do português para impedir sequências de consoantes não aceitáveis na língua oral: PE introduz [i] e PB [i]. Estas vogais, que preenchem núcleos vazios de acordo com a hipótese apresentada no tratamento da divisão silábica, também ocorrem em outros contextos (em sílaba final quando a consoante em coda não é [l] ou [ ] como sebe [s bi] ́ / [s bi]; ́ em sílaba inicial grafada como <es>- espaço, estar, escuta PE [ɨʃ] / PB[iʃ]).

espaço , estar , escuta P E [ ɨʃ ] / PB[i ʃ ]). 16 Esta
espaço , estar , escuta P E [ ɨʃ ] / PB[i ʃ ]). 16 Esta
espaço , estar , escuta P E [ ɨʃ ] / PB[i ʃ ]). 16 Esta

16 Esta vogal também pode ser representada por [ə]. A utilização de [□] responde melhor à

representação das características da vogal neutra do português europeu, de acordo com afir- mações de foneticistas e dialectólogos.

17 Já os étimos latinos de absurdo ou captar não permitem que a divisão evidencie a etimo-

logia e portanto a translineação não pode recorrer a essa interpretação.

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

35

6.1.2. Outros contrastes em sílaba átona entre PE e PB

A diferença entre as vogais em sílaba átona é um dos fatores de distinção nas variedades do português PE e PB. Se compararmos, nos mesmos exemplos, as vogais das sílabas tónicas (a) com as cor- respondentes em sílabas pré tónicas (b), pós tónicas não finais (c) e finais (d) 18 , vemos que o comportamento das átonas não é idêntico nas duas variedades.

6.1.2.1. Exemplos de tónicas e correspondentes átonas

PE e PB

PE

PB

(a)

Vogais tónicas

 

(b) Vogais átonas pré-tónicas

[í] livro

[lí]vro]

[i]

[li]vrinho

[i][ li]vrinho

[é]selo

[sé]lo

ɨ

[]lar

[e]

[se]lar

[s

selo

[s ]lo

ɨ

[]lar

[

]

s ]lar 19

[]telha

[tɐ ]lha / [e] [té]lha 20

[ɨ]

[]lhado

[e]

[te]lhado

[

pega

p ]ga

[ɨ]

[]gar

[e]

[pe]ga]

[ɔ ] bola

[bɔ ]l

[u] [bu]linha

[ɔ]

[bɔ]linha

[ó] bola

[bó]l

[u] [bu]linha 21

[o] [bo]linha

[ú] bula

[bú]l]

[u] [bu]linha

[u] [bu]linha

[á] casa

[ká]sa

[ɐ]

[kɐ]sinha

[a]

[ka]sinha

1920 21

18 Os exemplos de 6.1.2. não incluem vogais nasais.

19 Segundo Cunha e Cintra (1984: 38), “No português do Brasil, em posição átona não fi-

nal, anulou-se a distinção entre [□] e [e], tendo-se mantido apenas [e] e [i], na série das vogais anteriores ou palatais (que aqui denomino [-recuadas]); paralelamente, anulou-se a distinção entre [□] e [o], com o que ficou reduzida a [o] e [u] a série das vogais posteriores ou velares (aqui denominadas [+recuadas])”.

20

No dialeto padrão do PE as vogais fonológicas /e/ e / / antes de consoante palatal real-

izam-se muitas vezes como [ ] (telha [tɐ ʎɐ , fecho [fɐ ʃu ) com alteração do traço [recuado] que passa de [-recuado] a [+recuado], mas em outros dialetos, e no interior de um mesmo dialeto,

/ [f ʃu]) e mesmo uma ditongação da

existe uma variação entre [ ], [e] e [ ] ([fɐ ʃu /

variação entre [ ], [e] e [ ] ( [ f ɐ ʃ u / féʃu
variação entre [ ], [e] e [ ] ( [ f ɐ ʃ u / féʃu
variação entre [ ], [e] e [ ] ( [ f ɐ ʃ u / féʃu
variação entre [ ], [e] e [ ] ( [ f ɐ ʃ u / féʃu

féʃu

tónica ([fɐ jʃu ).

21 Algumas palavras com sufixos diminutivos e todas as que são formadas com sufixos

iniciados por /z/ não mostram alteração nas vogais átonas pré-acentuadas (bolinha [bɔɲɐ], ferrinho [f ʀíɲu], papelzinho [pɐp lzíɲu]). Existem também numerosas palavras que apresentam vogais abertas (baixas) em posição pré-tónica mas que não podem ser integradas numa regra porque estão marcadas no léxico da língua e têm portanto que ser memorizadas (esquecer

[ʃk céɾ), corar [kɔɾáɾ], direção [diɾ sw]).

36

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

c) Átonas pós-tónicas não finais 22

(d) Átonas finaisl 23

 

PE

PB

PE

PB

[i]

súbito

sú[bi]to

sú[bi]to

[u]

cómoda

có[mu]da

có[mo]da

[ɨ]

jure

ju[ɾɨ

jú ɾi

[]

sábado

sá[b]du

sá[ba]du

[ɐ]

jura

ju[ɾɐ]

jú ɾɐ]

[ɨ]

vértebra

vér[tɨ]bra

vér[ti]bra

[u] juro

jú[ɾu]

jú ɾu

[u]

régulo

ré[gu]lo

ré[gu]lo

Em (iii)-(vii) estão resumidas as constatações decorrentes da ob- servação dos exemplos apresentados:

iii) Os exemplos de (a) mostram que todas as vogais fonológicas podem integrar sílabas tónicas tanto em PE como em PB.

iv) Os exemplos de (b) mostram que as vogais /i/ e /u/ se realizam em sílaba átona como as tónicas correspondentes, tanto em PE como em PB.

v) Ainda nos exemplos de (b), a realização das vogais médias /e/ e / / cons- titui uma das maiores diferenças entre as duas variedades: realizam-se como [i] em PE – o que significa uma alteração nos traços de ponto de articulação e de altura dessas vogais, que passam a [+recuadas] e também a [+altas] – e em PB mantêm-se com os mesmos traços das tónicas 24 .

PB mantêm-se com os mesmos traços das tónicas 2 4 . vi) As vogais médias /o/

vi) As vogais médias /o/ e / / realizam-se em PE como [+altas] e não mos- tram alteração em PB. A vogal /a/ na sílaba átona passa a [ ], [-baixa], em PE e não altera em PB 25 .

passa a [ ], [-baixa], em PE e não altera em PB 2 5 . vii)
passa a [ ], [-baixa], em PE e não altera em PB 2 5 . vii)

vii) Os exemplos de (c) e (d) mostram mais uma vez que no PE e no PB, em sílaba átona pós-tónica, as vogais /i/ e /u/ não alteram. As vogais médias [-recuadas], [e] e [ ], reduzem--se a [i] no PE e a [i] no PB; as [+recu- adas], [o] e [ ], convergem em [u] em ambas as variedades. A vogal [ ] parece ocorrer nas duas variedades em final absoluto.

[ ] parece ocorrer nas duas variedades em final absoluto. 22 As vogais átonas pós-tónicas não
[ ] parece ocorrer nas duas variedades em final absoluto. 22 As vogais átonas pós-tónicas não
[ ] parece ocorrer nas duas variedades em final absoluto. 22 As vogais átonas pós-tónicas não

22 As vogais átonas pós-tónicas não finais incluídas em (c) não são determinadas a partir de

contrastes como nos exemplos de (a) e (b) por seguirem as regras gerais do PE e d PB.

23 A vogal [i] pode encontrar-se em PE em posição final, em algumas palavras importadas

ou cultas como táxi [táksi] e júri [úɾi], sendo no entanto excecional esta ocorrência.

24

e alguns nordestinos mantenham (ou mesmo realizem) ambas as vogais [-recuadas] como [+baixas], [ ].

É possível que frequentemente [e] e [ ] convirjam para [e], embora os dialetos baianos

possível que frequentemente [e] e [ ] convirjam para [e], embora os dialetos baianos 25 A
possível que frequentemente [e] e [ ] convirjam para [e], embora os dialetos baianos 25 A

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

37

As alterações do vocalismo átono no PE e no PB estão represen- tadas nos Quadros III e IV. As setas que apontam para as realizações fonéticas das átonas podem ser entendidas, num outro tipo de for- malização, como regras gerais do vocalismo átono. O Quadro iii diz respeito ao PE e o Quadro iV, ao PB. Estes quadros, que foram construídos a partir dos exemplos de 6.1.2.1., mostram de forma evi- dente, quando comparados entre si, a diferença de realização entre as vogais átonas nas duas variedades.

Quadro iii. Alterações gerais das vogais átonas do PE.

+alta i ɨ u – alta e o – baixa  +baixa ɔ a –
+alta
i
ɨ
u
alta
e
o
baixa
+baixa
ɔ
a
recuada
+recuada

Quadro iV. Alterações gerais das vogais átonas do PB.

+alta

i

u

alta

 

e

o

baixa

 
– baixa  
– baixa  

+baixa

 

a

ɔ

 

recuada

+recuada

 

Vejamos ainda um outro comportamento das vogais átonas em PE que caracteriza a produção oral desta variedade: a subida das vogais

38

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

representada no Quadro III tem como consequência o seu frequente desaparecimento (ou a sua supressão) na língua oral, nomeadamente da vogal [i] que ocorre entre consoantes ou em fim de palavra depois de consoante 26 (pequeno, decifrar terreno, separa p.ex. meter [mté ], despegar [dʃpgáɾ], bate [bát], toque [tik], desprestigiar [dʃpɾʃtiʒɾ]). Nestas palavras e em outras semelhantes encontramos no nível foné- tico a sequências de duas consoantes, de três, de quatro e até cinco consoantes seguidas o que torna muitas vezes a perceção das frases difícil mesmo para os falantes de PB. É importante que na aquisi- ção da língua materna e na aprendizagem do português como língua segunda ou estrangeira o ensino tenha em conta as diferenças aqui analisadas porque elas são centrais na comunicação entre falantes da mesma língua sobretudo quando se trata da mesma língua. Finalmente, numa perspetiva de ensino é indispensável que o aprendente da variedade PE tome consciência das exceções às re- gras gerais até aqui referidas. Em 6.1.2.2. estão incluídos exemplos dessas exceções.

Em 6.1.2.2. estão incluídos exemplos dessas exceções. 6.1.2.2. Exemplos de exceções às regras do vocalismo

6.1.2.2. Exemplos de exceções às regras do vocalismo átono em PE

(a) Sílabas terminadas por [l] e sílabas com ditongo em núcleo de sílaba

salto

[á]

saltar

[a]

mal

[á]

maldade

[a]

relva

[ ́]
[ ́]

relvado

[ ́]
[ ́]

belo

[ ́]
[ ́]

beldade

[ ]
[
]

incrível

[ ́]
[ ́]

golpe

[•́]

golpear

[ ]
[
]

volta

[•́]

voltar

[ ]
[
]

solta

[ó]

soltar

[o]

volvo

[ó]

volver

[o]

soldo

[ó]

soldado

[o]

26

menos frequentemente do que [i].

Também a vogal [u] resultante da subida das vogais [o] e [ ] pode ser suprimida embora

menos frequentemente do que [i]. Também a vogal [u] resultante da subida das vogais [o] e

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

39

bairro

[áj]

bairrista

[aj]

gaita

[áj]

gaitinha

[aj]

loira

[ój]

aloirada

[oj]

boi

[ój]

boiada

[oj]

causa

[áw]

causar

[aw]

Nos exemplos de (a) as vogais átonas não se elevam e também não são suprimidas – ou seja, não estão sujeitas à regra gera do PE – por integrarem sílabas com [l] em coda ou por fazerem parte de um núcleo com ditongo, portanto, em consequência do contexto silábico a que pertencem.

(b) Exceções não analisáveis por aplicação de regras

Existem outras excepções ao comportamento regular das vogais átonas em PE que estão exemplificadas em (b). A realização das vo- gais átonas nestas palavras obriga a uma memorização por parte dos aprendentes de português, visto não estarem sujeitas às regras gerais de aplicação em sílaba átona. Vejam-se exemplos.

invasor

[a]

relator

[a]

redacção

[a]

protector

[ ]
[
]

absorver

[ ]
[
]

adoptar

[ ]
[
]

pregar

[ ] 27

[ ] 2 7

corar

[ ]
[
]

aquecer

[ ]
[
]

27 As vogais nestes últimos exemplos resultam de uma crase, o que as impede de se eleva-

rem e muito menos de serem suprimidas.

40

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

Termino salientando a importância do estudo das variantes de uma língua de modo a que se perceba e se aceite a especificidade das variedades a par dos aspetos comuns. Num mundo globaliza- do em diversas áreas vivenciais, existem forçosamente línguas que são pontes entre comunidades, línguas que são portadoras de força económica e empresarial. Mas a seu lado permanecem as línguas identificadoras de uma comunidade que são um suporte e um enri- quecimento da sua história e da sua cultura. A língua portuguesa é uma língua “pelo mundo em pedaços re- partida”, é utilizada no quotidiano por muitos milhões de pessoas e distribui-se por um espaço imenso. É natural, portanto, que a sua va- riação seja notória e que o estudo dessa variação se torne a atrativo e estimulante. Porém o facto de, como linguistas, investigarmos a di- versidade que qualquer língua apresenta não justifica a perspetiva de criação de novas línguas por divisão das existentes. Pelo contrário, o estudo e o consequente ensino das variantes de uma língua são parte importante da sua riqueza e do fortalecimento da sua identidade.

7. RefeRências bibLiogRáficas

Andrade Pardal, Ernesto d’ (1981). Sobre a alternância vocálica em portu- guês, Boletim de Filologia, 26: 70-81. Cunha, Celso e Luís Felipe Lindley Cintra (1984). Nova gramática do Por- tuguês contemporâne, Lisboa, João Sá da Costa. Freitas, Maria João e A. Santos (2001). Contar (histórias) de sílabas. Des- crição e implicações para o Ensino do Português como Língua Mater- na, Lisboa, Edições Colibri e Associação de Professores de Português. Freitas, Maria João, Celeste Rodrigues, Teresa Costa e Adelina Castelo (2012). Os sons que estão dentro das palavras, Descrição e Implica- ções para o Ensino do Português como Língua Materna. Lisboa: Edi- ções Colibri e Associação de Professores de Português. Mira Mateus, Maria Helena, Isabel Falé e Maria João Freitas (2005), Foné- tica e Fonologia do Português, Lisboa, Universidade Aberta. Mira Mateus, Maria Helena e Ernesto d’Andrade (2000), The Phonology of Portuguese, Oxford, Oxford University Press.

O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS

/ maRia heLena miRa

41

Mira Mateus, Maria Helena e Maria Fernanda Bacelar do Nascimento (orgs.) (2005). A Língua Portuguesa em Mudança, Lisboa, ILTEC, CLUL e UA. Mira Mateus, Maria Helena et al. (2003). Gramática da Língua Portugue- sa, Lisboa, Caminho. Nunes. J. J. (1919). Compêndio de gramática histórica portuguesa, Lisboa, Livraria Clássica Editora (4.a ed. Lisboa, Clássica Editora, 1951). Piel. J. M. (1944). A flexão verbal do português, Biblos, 20: 395-404. Williams, E. B. (1938). From Latin to Portuguese. Historical phonology and morphology of the portuguese language. Philadelphia: University of Pennsylvania. (Trad. part. de A. Hoauaiss. 1961. Do Latim ao Portu- guês. Fonologia e morfologia históricas da língua portuguesa, Rio de Janeiro, MECIINL).

Lingüística / VoL. 30 (2), Diciembre 2014:

ISSN 1132-0214 impresa

ISSN 2079-312X en línea

A FonologiA eM dAdos de escRitA iniciAl de cRiAnçAs BRAsileiRAs

PhonoLogy in data on eaRLy wRiting PRoduced by bRaziLian chiLdRen

ana Ruth moResco miRanda

Universidade Federal de Pelotas anaruthmmiranda@gmail.com

Neste artigo, são analisados dados de escrita inicial como o obje- tivo de promover discussões acerca das relações entre as escolhas gráficas das crianças e o conhecimento linguístico, especialmente, o fonológico. O foco incide sobre a fonologia das consoantes palatais, as soantes, /ʎ/ e / ɲ/, e as fricativas, / ʃ / e /ʒ/, ambas consideradas complexas em estudos do português. Os argumentos para a caracte- rização desses segmentos como complexos ao serem confrontados com dados de escrita inicial mostram que as grafias das crianças es- tudadas, no que diz respeito às soantes, corroboram a idéia de con- soante complexa acrescendo evidências às discussões. No que tange às fricativas, especificamente, em relação aos ditongos fonéticos, os dados de aquisição da linguagem não trazem evidências referentes à constituição complexa das consoantes, mas revelam o efeito da apropriação do sistema alfabético sobre a produção dos ditongos, o que pode ser interpretado como indício de mudança representacio- nal das fricativas palatais.

palavras-chave: aquisição da linguagem; fonologia e ortografia; soantes palatais; ditongos fonéticos

44

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

In this paper, data on early writing are analyzed in order to promote discussions about relations among children’s spelling choices and their linguistic knowledge, mainly the phonological one. Emphasis is given to the phonology of palatal consonants, the sonorants, /ʎ/ and / ɲ/, and the fricatives, / ʃ / and /ʒ/, which have been considered complex in studies of the Portuguese language. Arguments used to characterize these segments as complex ones, when they are com- pared with data on early writing, have shown that these children’s spelling, regarding sonorants, agrees with the idea of complex con- sonant and provides evidence to the discussions about the issue. Concerning fricatives, especially in terms of phonetic diphthongs, data on language acquisition have not provided any evidence of the complex constitution of consonants. However, they have revealed the effect of the appropriation of the alphabetic system in the pro- duction of diphthongs, a fact that may be interpreted as a clue to the representational change of the palatal fricatives.

Keywords: language acquisition; phonology and written; palatal sonorants; phonetic diphthongs

1. intRodução

A relação entre a escrita inicial e a fonologia tem sido abordada a partir de diferentes perspectivas, dentre as quais três principais po- dem ser mencionadas: estudos que visam analisar os erros de escrita produzidos pelas crianças com base na idéia de que eles são refle- xos de processos fonológicos, como aqueles encontrados na aqui- sição da linguagem e descritos por Stampe (1973) (Varella 1993; Ilha 2003); outros que enfocam o papel da consciência fonológica para o desenvolvimento da escrita, largamente desenvolvidos após o estudo inaugural de Bradley e Bryant (1983); (Cardoso-Martins 1991; Freitas 2004; Rigatti-Scherer 2008); e por fim, os que, na tri- lha de Abaurre (1988, 1991), abordam o dado de escrita como fonte para reflexões acerca da fonologia da língua e/ou do conhecimento fonológico construído pelas crianças ao longo do desenvolvimento (Miranda 2008, 2009, 2012; Cunha 2004, 2010; Adamoli 2012).

A FONOLOGIA EM DADOS DE ESCRITA

/ ana Ruth moResco

45

Neste estudo 1 , os dados de escrita inicial serão analisados na linha da terceira vertente de estudos recém referida. O erro (orto)gráfico 2

é tomado pelas investigações desenvolvidas pelo GEALE 3 como um

dado capaz de revelar as hipóteses das crianças sobre o sistema que elas estão a adquirir e, sobretudo, como um elemento revelador do conhecimento linguístico construído desde os primeiros anos de de- senvolvimento da linguagem até o momento em que elas ingressam no processo de escolarização.

A fonologia nos/dos dados de escrita inicial será explorada, nes- te artigo, com o objetivo de fomentar duas discussões principais: a primeira referente à compatibilidade de um modelo teórico da fono- logia não-linear, especificamente a autossegmental, com dados de escrita inicial que revelam aspectos do processo desenvolvimental;

a segunda, ao efeito de reciprocidade entre as duas modalidades da

língua, isto é, entre fala e escrita. As grafias da soante líquida palatal serão tematizadas com o objetivo de subsidiar a primeira discussão;

e dados de fala e de escrita de crianças dos anos iniciais referentes aos ditongos fonéticos, a segunda. A abordagem aos dados de escrita inicial tem como pressupostas três idéias centrais: i) a aquisição da linguagem é um processo de descoberta orientada, guiada pela capacidade que as crianças têm para construir gramáticas (Kiparsky e Menn 1977); ii) aquisição da escrita é parte do processo de aquisição da linguagem (Abaurre 1991); iii) a aquisição de um sistema de escrita alfabética cria as condições necessárias para a atualização do conhecimento fonológi- co já adquirido (Miranda 2012).

1 O presente artigo integra pesquisa apoiada pelo CNPq – Processo nº 309199/2011-5.

2 O uso de parênteses tem como objetivo demarcar a diferença existente entre erros rela-

cionados às regras do sistema ortográfico propriamente dito, os quais envolvem as relações múltiplas entre fonemas e grafemas, definidas contextual ou arbitrariamente, e aqueles produ- zidos na fase inicial do desenvolvimento da escrita, muitas vezes motivados por questões re- presentacionais ou ainda por influência da fala, isto é, referentes ao funcionamento fonológico da língua.

3 O Grupo de Estudos sobre Aquisição da Linguagem Escrita (GEALE), em funcionamen-

to desde 2001, desenvolve estudos sobre os erros (orto)gráficos produzidos por crianças das séries/anos iniciais.

46

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

O artigo está estruturado em três seções, além desta introdução. Na primeira, são tecidas considerações sobre a aquisição da fono- logia e da escrita bem como sobre o modo como o conhecimento fonológico se manifesta em dados de escrita inicial. Em seguida, são focalizadas as consoantes palatais, as quais são contextualizadas do ponto de vista da diacronia, da sincronia e da aquisição da lingua- gem. Por fim, são apresentadas as considerações finais.

2. aPontamentos sobRe a aquisição da Linguagem: fonoLogia e escRita

Autores que se voltam para questões desenvolvimentais, tais como Kiparsky e Menn (1977), Karmiloff-Smith (1986, 1992) e Macken (1992), por exemplo, concordam com a visão segundo a qual há uma capacidade humana específica para a construção de gra- máticas, sendo o processo de aquisição da linguagem resultado da

integração de princípios gerais e padrões de línguas particulares sob

o controle de um mecanismo central de aquisição, responsável pela

formação de hipóteses por parte das crianças desde uma idade muito precoce. Esse mecanismo libera e limita as hipóteses que possibi- litam à criança a descoberta dos padrões de sua língua e também a criação de regras que atuam no sistema em aquisição. Assumir uma abordagem como essa implica em preservar a ideia de desenvol- vimento cognitivo que, intrinsecamente, pressupõe mudança, bem como valoriza a variação e a presença de diferenças individuais, no- tável no processo de desenvolvimento da linguagem, sem que seja necessário, para isso, abrir mão de estruturas universais e padrões gerais de aquisição.

Para pensar no surgimento da fonologia, Macken (1992) argu- menta em favor da idéia de que as primeiras produções das crianças apresentam uma configuração que explora mais a prosódia do que o segmento e sua estruturação interna. Para a autora, templates de pa- lavras, segmentos e traços são adquiridos de forma simultânea, mas com predomínio dos primeiros. Aos poucos, a palavra deixa de ser

o elemento nuclear e os segmentos e os traços ganham centralidade.

A FONOLOGIA EM DADOS DE ESCRITA

/ ana Ruth moResco

47

Assim, pode ser explicada a presença de formas não condizentes com o que se observa em termos da constituição dos inventários segmentais e prosódicos, observados nas etapas bem iniciais do de- senvolvimento fonológico. Tais formas estariam sendo produzidas como blocos, ainda sem análise fonológica de unidades mais básicas tais como traços, segmentos e sílabas. Exemplos da aquisição do português podem ilustrar o fato. Em estudos desenvolvidos sobre aquisição das róticas e das fricativas, Miranda (respectivamente, 1996 e 2009) observou que a variável posição na palavra tem efeito sobre a produção do ‘r-fraco’, e da fricativa coronal anterior. A rótica é produzida de maneira consis- tente pelas crianças estudadas primeiramente na posição de coda fi- nal, em palavras com ‘flor’ e ‘tambor’, e somente dez meses depois na posição de coda medial, em palavras como ‘por.ta’ e ‘mar.te.lo’, por exemplo. Em relação à fricativa, ao tratar de dados de aquisição de uma menina acompanhada longitudinalmente desde as primeiras palavras, a autora constatou que a fricativa de final de sílaba, assim como a rótica, apresenta comportamento distinto em razão da posi-

ção que ocupa na palavra, isto é, se medial, ‘pas.ta’ ou final, ‘três’. Enquanto a fricativa de coda dentro da palavra somente começaria

a ser produzida pela criança na sessão realizada aos três anos e um

mês, no final de palavra a produção já era consistente desde um ano

e onze meses. Uma interpretação plausível para as assimetrias na

produção de segmentos pertencentes à mesma posição silábica, se consideramos a existência de relação entre os níveis melódico e pro- sódico no processo de aquisição 4 , seria a de que a fricativa de final de palavra não é computada pela criança como uma coda, mas sim como parte integrante da palavra, conforme postulado por Macken

(1992).

4 Por esta perspectiva, além do segmento, é necessária a emergência do padrão silábico,

para que a criança produza as formas-alvo da língua. Por exemplo, a produção precoce de [s] em uma palavra como ‘sapo’ não implica sua produção em ‘pasta’, já que para produzir esta última palavra conforme o alvo adulto, a criança precisa ter à sua disposição a estrutura CVC.

48

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

A aquisição fonológica, numa perspectiva distinta daquela ado- tada pela Fonologia Natural 5 , tem sido tratada como um processo de constante incrementação das representações lexicais, as quais vão se tornando mais complexas e completas ao longo do desenvolvimen- to linguístico (Matzenauer 1996; Lleó 1997; Matzenauer e Miranda 2012; entre outros). Especificamente, em se considerando a fonolo- gia da língua, pode-se pensar que o conjunto de segmentos, prefe- rencialmente não-marcados no início da produção fonológica, vai sendo ampliado por meio da especificação de traços mais marcados até que o inventário da criança assemelhe-se ao da língua alvo. Tal evolução é observada também em relação à prosódia, à medida que sílabas canônicas CV desdobram-se em estruturas mais complexas tais como CVC e CCV, por exemplo. Seguindo essa linha de raciocínio, entende-se que o input tem pa- pel relevante no processo desenvolvimental, uma vez que funciona como gatilho para a construção do conhecimento linguístico que vai sendo internalizado. É um jogo de interação entre mecanismos ge- rais de apreensão da gramática e o input linguístico de que a criança dispõe. No que diz respeito à aquisição da escrita, considerada parte in- tegrante do processo de desenvolvimento da linguagem, conforme mencionado anteriormente, é importante fazer referência às conquis- tas cognitivas necessárias para que uma criança ou mesmo um adul- to se aproprie de um sistema que, diferentemente da fala, pressupõe instrução sistemática e explícita para que possa ser apreendido. As crianças aprendem a falar naturalmente em um ambiente no qual a linguagem esteja disponível, mas não a ler espontaneamente, apesar de fazerem parte de uma sociedade grafocêntrica, onde, em maior ou menor grau, materiais de leitura povoam o cotidiano. De acordo com a perspectiva psicogenética (Ferreiro e Teberosky 1984), a criança deverá compreender que letras simbolizam algo e

5 A Fonologia Natural proposta por Stampe (1973 [1969]) considera que o processo de

aquisição fonológica decorre da supressão de Processos Fonológicos (operações mentais ina- tas). As representações fonológicas já estão constituídas desde o início e a diferença entre a produção do adulto e da criança somente será superada à medida que tais processos sejam suprimidos.

A FONOLOGIA EM DADOS DE ESCRITA

/ ana Ruth moResco

49

que este algo é a língua em sua dimensão sonora, ou seja, são os ele-

mentos da segunda articulação, aqueles não significativos, que de- verão estar sob análise. Essa não é, portanto, uma tarefa trivial e vai exigir um grande esforço cognitivo da parte do aprendiz acostumado

a prestar atenção no significado linguístico, em primeiro plano nas

situações comunicativas de uso da língua 6 . Haverá, neste processo,

a necessidade de os aprendizes perceberem que a cadeia sonora pro- duzida e compreendida não é apenas conteúdo, mas também forma. Isso implica dizer que terão de perceber que a linguagem escrita é um modo de representação da língua, não apenas em seus aspectos significativos mas também em seu aspecto sonoro. Segmentos e sí- labas, antes subsumidos no fluxo da fala, deverão ganhar contornos conceitualmente acessíveis. Em referência ao sistema linguístico, Saussure (1916: 87) afirma que os falantes, diante de mecanismo tão complexo, somente pode- rão compreendê-lo pela reflexão, pois mesmo fazendo uso cotidiano dele, ignoram-no profundamente. Tal observação remete à diferença entre o “saber a língua”, no sentido de utilizá-la apropriadamente nos mais distintos contextos comunicativos e o “saber sobre a lín- gua”, tomando-a como objeto de conhecimento. Esse é um cami- nho interessante também para se pensar sobre o efeito decorrente da apropriação do sistema de escrita no processamento linguístico

o qual, inexoravelmente, será modificado, uma vez que, a partir da

compreensão dos princípios de um sistema como o alfabético, as unidades de segunda articulação adquirem novo estatuto 7 . As condições propícias para a retomada de conhecimentos lin- guísticos já construídos estão, pois, criadas e inicia-se assim um período que se caracteriza por uma ‘atualização’ desses conheci- mentos, especialmente aqueles concernentes à fonologia. O termo ‘atualização’, neste artigo, é empregado na sua acepção linguística

6 Rigatti-Scherer (2011: 230), durante a realização de um teste de consciência fonológica

no início do primeiro ano escolar, pergunta a uma criança em idade escolar: “Se eu tirar o ‘pi’ de ‘piolho’, como fica? A criança responde: ‘lêndea’. Tal exemplo, assim como muitos outros mencionados pela autora, ilustra o fato de o foco da criança não estar na forma, mas no signi- ficado.

50

Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

e corresponde à ideia de emprestar expressão física a uma unidade

abstrata. Lyons (1968), faz referência à visão saussureana segun- do a qual uma unidade formal do plano da expressão, uma forma subjacente, possui uma atualização correspondente em substância:

fonemas são atualizados em fones, morfemas, em morfes e repre- sentações fonológicas (sons e sílabas) em unidades de fala. Note-se que tais constructos pertencem à fala, considerada a substância pri- mária do plano da expressão. A escrita, por seu turno, é a substância secundária que se manifesta em traços visíveis – as letras, tornando possível um outro tipo de atualização, pois usuários da língua po- dem revisitar o conhecimento já construído.

Neste sentido, é possível pensar que o conhecimento fonológico

é atualizado na produção oral e também na escrita. As unidades so-

noras formais da língua são expressas por meio de sons e de letras, realizações substanciais de unidades abstratas que independem da substância em que se atualizam. A aquisição da escrita, com base neste raciocínio, cria uma oportunidade concreta para que a criança

atualize o conhecimento linguístico já adquirido de maneira natural

e espontânea em seus primeiros anos de vida. O diagrama, apresentado a seguir, em (1), ilustra a relação entre o conhecimento fonológico e o processo de aquisição da escrita:

(1) relações entre o conhecimento fonológico e a aquisição da escrita

da escrita: (1) relações entre o conhecimento fonológico e a aquisição da escrita Fonte: Elaboração própria

Fonte: Elaboração própria

A FONOLOGIA EM DADOS DE ESCRITA

/ ana Ruth moResco

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A representação em (1) procura captar o conjunto de idéias ex- pressas nesta seção, a saber: princípios gerais em contato com o input linguístico redundam em um conhecimento sobre a fonologia da língua específica que inclui tanto informações segmentais como prosódicas. Esse conhecimento funciona como insumo para a escri- ta alfabética inicial e, nesse processo, cria-se o contexto para uma nova atualização do conhecimento já adquirido. Ao voltar-se para a língua, neste outro momento do desenvolvimento, contemplando-a em sua dimensão formal, o aprendiz pode reestruturar suas repre- sentações, especialmente nas situações em que houver discrepância entre aspectos de sua fonologia e a da língua alvo, o modelo adulto. É necessário referir que esta formulação, derivada da abordagem adotada neste texto e de seu escopo, não pretende reduzir o comple- xo processo de aquisição da escrita apenas aos efeitos do conheci- mento linguístico. Tem-se em mente que a experiência derivada das práticas de letramento exercem papel relevante durante a aquisição da escrita. O foco do artigo, no entanto, incide basicamente sobre aspectos linguísticos relacionados ao processo.

3. fonoLogia e (oRto)gRafia

Nesta seção, serão trazidos resultados de estudos que enfocam os dois fenômenos em destaque neste artigo: as soantes palatais e os ditongos fonéticos. Nas subseções desenvolvidas a seguir, será feita a caracterização deste tipo de segmento para, logo após, ser apresentada a contextualização dos fenômenos fonológicos aborda- dos. A apresentação dos dados de aquisição fonológica descritos na literatura antecederá a análise dos dados de escrita inicial, a fim de que a fonologia que deles emerge possa ser discutida. Antes de desenvolver os tópicos específicos anunciados, é impor- tante, porém, destacar a relevância do dado de escrita que está sendo tratado como relacionado à fonologia, uma vez que os estudos reali- zados pelo GEALE, a partir da análise de dados do Banco de Textos

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

sobre Aquisição da Linguagem Escrita (BATALE) 8 , mostram que há grande incidência de erros relacionados a aspectos da fonologia da língua. A computação dos erros encontrados em, aproximadamen- te, duas mil produções escritas, os quais foram extraídos dos textos pertencentes ao primeiro estrato do Banco (cf. nota 8), mostra que erros do tipo fonológico são encontrados sempre em maior número que aqueles referentes à ortografia 9 , em ambas as escolas estudadas (cf. Miranda 2013).

3.1. A fonologia das consoantes palatais: diacronia, sincronia e aquisição da linguagem

Com base em parâmetros articulatórios, sons palatais são defini- dos como aqueles produzidos pela aproximação ou contato da parte anterior da língua com o palato duro (Crystal 1988:192). No portu- guês, a classe das palatais inclui as consoantes / ʃ , ʒ, ʎ, ɲ/, todas elas envolvidas em discussões fonológicas produzidas tanto por indaga- ções acerca de sua configuração interna como no que diz respeito a seu modo de funcionamento na diacronia, na sincronia e no processo de aquisição da linguagem.

8 O BATALE começou a ser criado em 2001 e é composto por vários estratos: (i) textos

narrativos produzidos, entre os anos de 2001 a 2004, por crianças de 1ª a 4ª série de duas es- colas, uma pública e outra particular, da cidade de Pelotas-RS; (ii) textos narrativos de 1º a 4º ano produzidos por crianças portuguesas da região de Lisboa, em 2008; (iii) textos narrativos produzidos por crianças de 1º a 4º ano de duas escolas públicas, da cidade de Pelotas-RS, coletados em 2009; (iv) textos longitudinais de 15 alunos de EJA, coletados em 2009 em escola pública da cidade de Pelotas-RS; (v) textos narrativos de 1º a 3º ano produzidos por crianças portuguesas da região do Porto, em 2009; (vi) textos narrativos produzidos a partir de estimulação para a grafia das soantes palatais, ‘lh’ e ‘nh’ por crianças de 1a a 4a série de uma escola Pública da cidade de Pelotas, em 2009; (vii) textos narrativos, descritivos e argumenta- tivos produzidos por crianças de 1º a 4º ano de uma escola pública, da cidade de Pelotas-RS, coletados em 2013.

9 A classificação utilizada para categorizar os erros divide-os em dois grandes grupos: er-

ros motivados por questões ortográficas (arbitrariedade e contextualidade do sistema) e erros relacionados a questões fonéticas e/ou fonológicas (motivação fonética, fonologia da sílaba e do segmento, segmentação não-convencional e acento gráfico, sendo híbridas estas duas últimas categorias, uma vez que informação gráfica e fonológica interagem claramente ali). O resultado da análise do primeiro estrato mostra a seguinte distribuição entre os dois grandes grupos, conforme Miranda (2013), 36.7% e 62.7%, respectivamente.

A FONOLOGIA EM DADOS DE ESCRITA

/ ana Ruth moResco

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Estudos diacrônicos mostram que, na evolução do sistema con- sonantal latino, as soantes palatais que hoje integram o inventário do português derivam de suas contrapartes alveolares, /l/ e /n/, tendo passado por várias modificações. De acordo com Câmara Jr:

A molhada /□/ é o reflexo – 1) ou de um grupo de constritiva labial ou oclusiva surda seguida de /l/, em posição intervocálica (speculum >spe- clum > espelho, scopulum > scoplum > escolho; 2) ou de /l/ seguido de um secundário /i/ assilábico (palea> palia> palha). A nasal /n/, por sua vez, provém: 1) do grupo /gn/ (agnum> anho, ligna > lenha); 2) de /l/ seguido de um secundário /i/ assilábico (linea> linia> linha); 3) da nasalação de /i/ tônico, proveniente da redução de /n/ entre esta vogal e /a/ ou /o/ (pinum > pio > pinho) (Câmara Jr 1975: 55).

As soantes palatais, que não estavam presentes no sistema consonantal do latim, foram introduzidas no português a partir de mudanças fônicas ocorridas na passagem do latim para o português. De acordo com Silva (1996), o étimo da nasal é, preponderantemen- te, a sequência ‘ni’, enquanto a lateral palatal teria derivado de sequ- ências mais variadas como ‘li’, ‘lli’, ‘cl’, ‘gl’, e ‘pl’, por processos amplos de palatalização. Tais processos ocorreram exclusivamente na posição intervocálica, o que pode ser uma das explicações para a restrição posicional que sofrem essas consoantes no que diz res- peito à posição que podem ocupar na palavra. Formas iniciadas por ‘nh’ e ‘lh’ são verdadeiras exceções, constam apenas em alguns pou- cos empréstimos e, não raro, recebem uma vogal epentética, como ilustram os exemplos [i]nhoque e [li]ama, para ‘nhoque’ e ‘lhama’, respectivamente. As fricativas, assim como as soantes, não faziam parte do inven- tário latino, tanto a sonora, /ʒ/, quanto a surda, / ʃ /, surgem a partir de um processo condicionado por ambientes fonológicos específicos. Em (2), estão sistematizados o casos que, de acordo com Williams (1973: 109-110), explicam o surgimento dessas palatais na passa- gem do latim clássico para o português:

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Lingüística 30 (2), Diciembre 2014

(2) o surgimento das palatais no sistema de consoantes do português

étimo latino de /ʒ/

exemplo

étimo latino de /ʃ/

exemplo

g

inicial seguido de e ou i

genuculum > geollho > joelho; gentem > gente

grupo cl 10

clauem > chave

precedido de consoante e seguido de e ou i

g

longe > longe

grupo fl

flammam >chama

i

consonântico inicial, [j]

ianuarium > janeiro; iurare > jurar

grupo pl

plagam >chaga

i

consonântico intervocálico [j]

cuium > cujo

sc itervocálico seguido de e ou i

piscem > peixe

d

inicial + i

diária > jeira

sc e ss seguido de i consonântico [j]

bassium > baixo; fasciam > faixa

d

medial + i

hodie > hoje

x medial

fraxinum > freixo

Fonte: Elaboração própria a partir de Wiliams (1973) 10

A evolução do sistema consonantal latino, ainda de acordo com o autor, evidencia a influência da vogal alta coronal no surgimento das consoantes palatais na língua portuguesa. Em razão da história des- sas consoantes e também de seu funcionamento particular, estudio- sos do português atual têm argumentado em favor da idéia de que as palatais são consoantes complexas, no que tange à sua constituição interna (Wetzels 1992, 1997 e Matzenauer 2000). Uma consoante complexa é assim definida por Clements e Hume (1995: 253), com base na geometria de traços, como “um nó de raiz caracterizado por ter ao menos dois traços de diferentes articulado- res orais, o qual representa um segmento com duas ou mais constri- ções simultâneas no trato oral”. Há duas interpretações para as palatais pela geometria de traços:

elas podem ser consideradas complexas como mostra (3) ou sim- ples, conforme (4):

10 Os grupos consonantais, nem sempre derivaram em fricativas palatais, houve caso em

que eles permaneceram e outros em que resultaram em encontros com gr, fr, pr, como em.

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(3) Representação da líquida palatal – consoante complexa

Representação da líquida palatal – consoante complexa Na composição interna de / ʎ /, em (3),

Na composição interna de /ʎ/, em (3), é possível observar a pre- sença do articulador secundário, formalizado como um nó vocálico em cujo domínio estão o traço de ponto, [coronal], e o nó de abertura responsável pela expressão da altura vocálica 11 . Seguindo-se a pro- posta de segmento simples para esta consoante, tem-se (4).

(4) Representação da líquida palatal – consoante simples

Representação da líquida palatal – consoante simples Em (4), o traço [-anterior] é o responsável pela

Em (4), o traço [-anterior] é o responsável pela diferenciação, necessária às consoantes do português, entre a lateral alveolar /l/ e a

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palatal /ʎ/. Essa mesma oposição entre os valores do traço [anterior] será decisiva para as oposições entre /n/ e / ɲ/, /s/ e / ʃ / e /z/ e /ʒ/, no sistema. A repercussão da adoção de uma ou outra estrutura pode- rá ser melhor observada adiante, quando os fenômenos fonológicos que envolvem as palatais forem analisados. O comportamento das soantes palatais, seja da líquida seja da na- sal, além de motivar a proposta de complexidade segmental, alimen- ta uma linha de argumentação referente à sua complexidade prosó- dica, o que levou Wetzels (1997) a posicionar-se em favor de uma estrutura geminada para as soantes palatais. Os fatos sincrônicos utilizados pelo autor como evidência de geminação podem ser as- sim sintetizados: i) restrição posicional, que impede soantes palatais de ocuparem posição de borda na palavra, ambas somente podem ocupar posição intervocálica (‘malha’ e ‘manha’); ii) restrição quan- to à passagem do acento prosódico, palatais bloqueiam a passagem do acento, que somente pode incidir sobre a sílaba imediatamente anterior (‘baralho’ mas não ‘baralho’); iii) restrição à presença de ditongos precedendo palatais, sequências vocálicas são silabifica- das como hiatos (‘fu.i.nha’ mas não ‘fui.nha’). A postulação de uma estrutura geminada explica essa série de bloqueios, uma vez que pressupõe a existência de uma coda preenchida pela soante que ocu- pa duplamente coda e ataque, como mostra a representação em (5), na qual se pode observar a linha dupla que liga a mesma raiz a dois tempos fonológicos, ocupando a posição de coda e a de ataque:

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(5) Representação da líquida palatal – consoante complexa e geminada

nível prosódico

nível melódico

complexa e geminada nível prosódico nível melódico Na representação em (5), pode ser observada a presença

Na representação em (5), pode ser observada a presença de dois tempos fonológicos na camada CV. Por esta proposta, há dois tipos de complexidade envolvendo as palatais: uma melódica, observada no nível segmental pela presença do nó vocálico, e outra prosódica, concernente à presença de estrutura geminada, existente no sistema latino, mas não consensual para o português. As palatais na aquisição da fonologia são, de modo geral, apon- tadas como consoantes de domínio mais tardio. Um panorama geral dos estudos desenvolvidos no Rio Grande do Sul apresentado por Lamprecht et al. (2004) revela resultados como os que estão suma- riados no quadro em (6) 12

12 É importante salientar que estudos com base em outros corpora mostram sequências

distintas internas às classes naturais, nomeadamente nas plosivas e nas fricativas. Lamprecht (1990) apresenta uma sequência para as plosivas na qual labiais e coronais são adquiridas antes das dorsais; e Matzenauer (2003), por sua vez, coloca a fricativa coronal [+anterior] dentre as primeiras a serem adquiridas. Tais variações, exemplificadas por estes dois estudos específicos, não afetam, porém, o que se está discutindo neste artigo.

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(6)

classe natural

ordem de aquisição

plosivas

p, t, k

> b, d > ɡ

nasais

m, n > ɲ

fricativas

f, v, z > s, ʃ, ʒ

líquidas

l , r > ʎ, ɾ

Fonte: Elaboração própria, seguindo Lamprecht et al. (2004)

O quadro em (6) mostra um ordenamento que, em se conside- rando as classes naturais, é condizente com estudos sobre aquisi- ção fonológica em línguas diversas: plosivas e nasais são as pri- meiras classes a compor o inventário das crianças. Essa constatação converge para a tendência universal já explicitada por Jakobson ([1941]1968) em seu estudo seminal sobre universais linguísticos, aquisição e perda de linguagem. Com base no ordenamento apre- sentado, pode-se observar que as palatais são aquelas de aquisição mais tardia dentro das classes a que pertencem. Dentre as soantes, a nasal estará estabilizada por volta dos dois anos e a líquida somente será consistentemente produzida a partir dos quatro anos; já as frica- tivas estarão estáveis depois de dois anos e seis meses. A diferença no tempo de aquisição das consoantes em foco neste estudo está relacionada ao fato de ser a nasal palatal pertencente a uma classe que, juntamente com a das obstruintes, é adquirida precocemente, enquanto as líquidas integram a classe de aquisição mais tardia.

3.2. A consoantes palatais e os dados de aquisição da linguagem

O estudo de Matzenauer (2000), específico sobre as soantes pala- tais, abrangeu os dados de fala de 130 crianças falantes do português brasileiro, as quais estavam dispostas em 13 faixas etárias que com- preendem idades entre dois anos e quatro anos e dois meses. As es- tratégias utilizadas pelas crianças para ocupar o espaço da consoante alvo que, como mencionado recém, é de aquisição mais tardia foram sumariadas pela autora, como mostram os exemplos em (7).

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(7) Dados de aquisição da fonologia (transversais)

[ɲ] ~[ø] ~[j᷉] ~ [n]

[ʎ] ~ [ø] ~ [l] ~ [j] ~ [lj] ~ [li]

[sõm‟bi ɲɐ] sombrinha

[te‟ʎadu] telhado

[mi‟ɔkɐ] minhoca

[pa‟asu] – palhaço

[si‟kij᷉ɐ] xicrinha

[i‟pelu] – espelho

[deze‟na] – desenhar

[ve‟mejɐ] vermelha

 

[„foljɐ] folha

 

[o‟ɾeliɐ] orelha

Fonte: Matzenauer (2000: 304)

Nos dados estudados pela autora há maior número de variantes na produção da líquida, mas isso tem menos a ver com restrições fonotáticas do que com o fato de a faixa etária inicial de seu corpus ser a de dois anos, período em que a aquisição da nasal está concluí- da para muitas crianças. Em (8), são apresentados dados produzidos por duas crianças acompanhadas longitudinalmente: Laís e Valen- tin 13 , para que as tendências gerais explicitadas em (7) possam ver verificadas em universos mais particulares 14 .

13 Laís e Valentin tem seu processo de aquisição da linguagem acompanhado longitudi-

nalmente desde suas primeiras palavras. Os registros dos dados foram feitos por meio de anotações, gravações de áudio e de vídeo. As coletas de Laís tiveram início na faixa etária de 1:07;14, e foram realizadas mensalmente até a menina completar 4 anos.Os dados de Valentin, nascido em 2009, começaram a ser coletados quando ele completou 1:06;10, e foram registra- dos com periodicidade mensal até 4 anos 6 meses.

14 O acompanhamento longitudinal oferece, ao pesquisador, a oportunidade de trabalhar

sobre dados mais espontâneos, uma vez que a coleta costuma ocorrer em ambiente familiar às crianças. Amostras de fala desse tipo permitem a captura de formas episódicas, as quais são importantes como indiciárias do modo de funcionamento das gramáticas em desenvolvi- mento. É interessante para os estudos em aquisição da linguagem que dados resultantes de acompanhamentos longitudinais sejam tratados de forma complementar àqueles obtidos por meio da análise de amostras transversais.

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(8) Dados de aquisição da fonologia (longitudinais)

Laís

idade

Valentin

idade

[„podu] piolho [„menu] vermelho [ku‟jɛj] colher [„ɔja] olha [mu‟jej] molhei [u a] unha [„piɲa] roupinha [pa‟lasju] palhaço [i‟peʎu] espelho

1:10

[ʎu‟ʎu] lulu [„bila] pilha [tupi‟ɲu] corpinho [„ɡojla] rolha [„belja] abelha [kokɛj] colher [te‟liɲa] estrelinha [pi‟alju] pirralho [„mɔʎa] molha

1:08

1:11

1:08

1:11

1:08

2:00

1:09

2:02

1:10

2:02

1:09

2:04

2:01

3:00

2:01

3:00

2:10

Fonte: Elaboração própria

As estratégias utilizadas pelas crianças para os contextos de so- ante palatal exemplificadas em (8) mostram que, nas produções bem iniciais tanto de Laís como de Valentin, a líquida palatal é produzida como plosiva e como nasal, possivelmente por efeito de harmonia 15 . De modo geral, pode-se observar exemplos que correspondem àquelas formas encontradas por Matzenauer (2000): semivogal palatal, [j], ou ainda a lateral alveolar [l] e a sequência [lj]. A emergência da lateral palatal somente se verifica ao final dos períodos exemplificados em (8), aos três anos para a menina e aos dois anos e dez para o menino. Vale a pena comentar o primeiro dado de Valentin, [□u’□u] para ‘lulu’, uma vez que se configura como uma forma inusitada, em se considerando o desenvolvimento do inventário consonantal, pois, no início do desenvolvimento fonológico, líquidas não são produzidas e, quando o são, a que emerge é a alveolar, [l], definida por Matzenauer- Hernandorena (1990) como a líquida prototípica. Um olhar sobre os dados de Valentin, em (8), revela que a alveolar já é produzida por ele desde as primeiras faixas etárias, porém, no lugar da palatal, [‘bila] para ‘pilha’. Nas palavras em que deveria produzir o [l], o menino

15 Miranda (2005) argumenta em favor da existência de dois tipos de harmonia na fala

infantil: um motivado paradigmaticamente e outro, sintagmaticamente. O primeiro tipo, no qual se enquadram estes exemplo, caracterizam-se por envolverem segmentos que ainda não estão totalmente estabilizados; o segundo engloba assimilações que envolvem segmentos já estabilizados no sistema e que necessitam informação de borda (do pé ou da palavra).

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produz, na mesma entrevista, um zero fonético ou um [j], em [to’et□i]

e [po’je n ta] para ‘colete’ e ‘polenta’, respectivamente. A idéia de que a fonologia segmental emerge gradativamente, como referido no início deste artigo, e que, portanto, formas não analisadas podem surgir nas etapas bem iniciais da produção linguística das crianças, pode ser a in- terpretação adequada para um dado como este, em que um segmento tardio emerge precocemente e, ainda mais, em posição não licenciada pela fonologia da língua. Esta pode ser considerada uma forma pro- duzida como um bloc