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ARTIGOS SOBRE O WHIGGISMO

2. DO WHIGGISMO AO PRIGGISMO
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins
Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, PUC/SP
E-mail: lacpm@uol.com.br
INTRODUÇÃO
Como já foi discutido em números anteriores desta publicação (Prestes, 2010; Martins, 2010), de
acordo com Herbert Butterfield (1968), a interpretação whig da história, inicialmente aplicada à
história política e depois à história da ciência, caracteriza-se dentre outras particularidades, por
avaliar o passado em termos do presente e deve ser evitada. Entretanto, conforme seja a interpretação
anti-whig que se adote, pode-se cair no extremo, que Edward Harrison (1987) chamou de
historiografia prig, o que também não é desejável. O termo prigaparece muitas vezes nos dicionários
como sinônimo de snob.
O objetivo deste artigo é discutir um pouco sobre o que consiste a historiografia prig na visão de
Harrison, o posicionamento de Ernst Mayr (1904-2005) e finalmente apresentar algumas
considerações sobre o assunto.

Edward Harrison descreveu o conflito entre whigs e prigs como semelhante ao ciúme entre Clio (musa da história) e
Urania (musa da astronomia). Cada uma das musas defende de modo ciumento seu domínio particular.

QUEM FAZ A HISTORIOGRAFIA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA?
De acordo com Edward Harrison, inicialmente a história da ciência foi o foco de interesse de
cientistas que desenvolveram diversos estudos. Por exemplo, Pierre Duhem (1861-1916), em relação
à ciência medieval; James Partington (1866-1965) em relação à química; Clifford Ambrose Truesdell
(1919-2000) na mecânica. Entretanto, nas últimas décadas que antecederam 1980 os profissionais em
história da ciência com formação em ciências sociais criaram sociedades, periódicos e encontros
próprios. Houve então uma lamentável separação entre a ciência natural e o estudo de sua história.
Estudos históricos raramente envolviam a consulta a periódicos científicos (Harrison, 1987, p. 213;
Mayr, 1990, p. 303).
Na visão deste autor, esses “novos historiadores” seguiam à risca a máxima de Thomas Kuhn:

p. a interpretação whig do passado condenada por Butterfield faz com que a história fique saturada de julgamentos de valor. 213-214). . a posição de Harrison. CRÍTICAS À PROPOSTA DE BUTTERFIELD Na visão de Harrison. p. A seu ver. p.“Na medida do possível o historiador da ciência deve ficar distante da ciência que ele conhece” e aprender “a partir dos livros e periódicos do período que ele estuda”. Dentro dessa visão. as interpretações finalistas qualquer que seja a abordagem historiográfica que adote (Mayr. é bastante radical. 1987. não vai entender muitos aspectos daquilo que está sendo discutido. a seu ver. Historiadores da ciência que não leram a monografia de Butterfield podem cair no extremo do anti-whiggismo. Ele discorda da afirmação de Butterfield de que “o verdadeiro entendimento histórico não é conquistado pela subordinação do passado ao presente. p. Para isso. p. fez com que muitos historiadores optassem por não fazer uma avaliação do passado temendo serem rotulados de whig. Concorda também com David Lee Hull (19352010) em que o conhecimento do presente é crucial para o historiador (Hull. mas vazia” (Harrison. que é um cientista. as duas posições mencionadas são problemáticas. p. 1990. 1979). 1990. o anti-whiggismo se transforma em uma forma de priggismo (Harrison. 213). p. Consequentemente. 1987. menor será a probabilidade de adulterar a ciência de ontem (Harrison. que é o que ele procurou fazer nesta obra. Ou seja. seria necessário dispor de uma máquina do tempo (Harrison. A interpretação whig transforma em virtude o olhar a partir de hoje e descarta do passado o que não trouxe contribuições para o presente. 1990. as diferenças existentes entre a terminologia das ciências do passado e atual também não devem ser levadasem conta. o anti-whiggismo levado ao extremo defende que se deve ignorar a ciência moderna que não existia no passado. o historiador deve evitar a tendenciosidade. apud. Ele menciona outros autores como Timothy Lenoir e Rachel Laudan que também adotaram esse gênero de historiografia (Mayr. 1987. Harrison enfatiza que a audiência à qual o historiador da ciência se dirige é atual. mas tornando o passado nosso presente e procurando ver a vida com olhos de outro século que não os do nosso”. A POSIÇÃO DE MAYR Ernst Mayr (1990) propõe que se faça uma revisão do termo “whig”. pp. Por exemplo. o estudo do passado auxilia a compreensão do que está ocorrendo no presente. O próprio Mayr (1990) procura se defender da acusação de fazer uma historiografia whig em seu livro The growth of biological thought. 214). 213). Desse modo. porque é impossível entender muitas controvérsias ou conceitos atuais sem conhecer sua história. 313. as falsificações de prioridade. Mayr partilha da opinião de Michael Ruse (1988) de que não há nada de errado em olhar o passado tendo como base o entendimento do presente. 304). 1987. 1987. A INTERPRETAÇÃO PRIG A interpretação prig. Como foi possível perceber. muitas vezes empregado com um sentido pejorativo. Em suas palavras: “Reconstruir o passado requer comentários cuidadosos sobre as diferenças entre as ciências e linguagem do passado e do presente” (Harrison. 301). ou seja. Desse modo. o chauvinismo. Entretanto. Tornando a ignorância uma virtude. Mayr. A interpretação anti-whig levada ao extremo descarta do presente o que não contribuiu com nada para o passado. Ele concorda com Harrison em que com o intuito de evitar ser rotulado de whig o historiador muitas vezes “volta ao método indutivo baconiano que procura investigar os fenômenos com uma mente investigadora. quanto menos o historiador da ciência souber sobre a história da ciência atual. Isso. Ele argumenta que é importante estudar o desenvolvimento das idéias desde sua origem até a atualidade. o estudioso da alquimia medieval deve saber pouco sobre a química moderna.

Além disso. Whigs. Ernst. 1990. Roberto de Andrade. Concordamos com Mayr (1990) em que a história que somente relata fatos e apresenta documentos sem avaliação é anti-intelectual ou prig. Past and present knowledges in the practice of the history of science. CONSIDERAÇÕES FINAIS A nosso ver. 2010. p. 309) que é a sua opção historiográfica. quando ele atribui o mesmo comportamento a todos os historiadores da ciência atuais. que deve ser considerada. Quando aparecesse deveria ser aplicado a casos genuínos e não à historiografia do desenvolvimento (Mayr.308-309). prigs and historians of science. O mesmo se aplica à ausência de relações no que se refere às mudanças de conotação da terminologia científica de diferentes períodos. Edward. 1979. concentrando-se apenas na mesma e no período em que ocorreu é igualmente inadequado. segundo Mayr. a história do desenvolvimento deve ser “histórica” (Mayr. ao interpretar a afirmação de Kuhn de modo categórico ou ao a condenar todas as características atribuídas por Butterfield à historiografia da ciência whig. p. a posição de Harrison (1987). Seria possível uma história da ciência totalmente neutral. Além de comparativa e seletiva. mas sem perder de vista o que ocorreu antes e o que ocorreu depois. A seletividade é importante e avaliações são permitidas ao historiador que trabalha com a história intelectual. MAYR. David L. Versão online disponível em <http://www. 309). como considera Harrison. 205).org/Boletim/Boletim-HFB-04-n3-Set2010. MARTINS. O whiggismo proposto por Herbert Butterfield. Maria Elice Brzezinski.1995. In defense of presentism. HULL. PRESTES. concordamos com ele em que ao levar em conta todas as críticas da historiografia whig a ponto de perder de vista o que precede e o que sucede a contribuição estudada. 308).pdf>Acesso em 12/12/2010. Nature 329: 213-214. Por outro lado. O rótulo pejorativo whiggismo da forma que tem sido usado (em demasia e de modo irresponsável) deveria desaparecer da literatura. 1987.abfhib. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HARRISON. mas também fazer uma análise de seu próprio mundo para ser capaz de falar para a audiência não especializada” (Pickstone. é prig (Mayr. p. Deveria ser usado com mais cuidado e moderação aplicando-se a casos específicos onde realmente coubesse. 1990. John V. p. É muito importante estudar uma contribuição dentro de seu próprio contexto.History of Science 32: 203-224. History and Theory 18: 1-15. Boletim de . Pickstone: “O historiador precisa entender o passado em seus próprios termos. When is historiography whiggish? Journal of the History of Ideas 51 (2): 301-309. sem qualquer aspecto whig? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 4-7. ao contrário do que admitem os anti-whigs. 1990. é bastante radical. sob diversos aspectos. O rótulo pejorativo whiggismo que tem sido usado demasiadamente e cada vez mais de modo irresponsável em casos em que não se aplica. que “O estudo de aspectos do passado nos ajuda a entender a ciência do presente”. 1995. set. Como afirma John V. 1990. Por exemplo. A história que somente relata fatos e apresenta documentos sem uma avaliação é anti-intelectual. PICKSTONE. deveria desaparecer da literatura. AGRADECIMENTOS A autora agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo apoio concedido.

muitas deles partilhadas – embora. O CONDICIONAMENTO DAS DISTINÇÕES EPISTEMOLÓGICAS TRADICIONAIS Descrição vs. eles são “ideativos”. Michael. Se o posicionamento do narrador fosse o mero reflexo das condições culturais. abfhib. UNISINOS (RS) E-mail: aregner@portoweb. pressupõe-se que a descrição revele um mundo passível de ser descrito por uma linguagem neutra. é inevitável um condicionamento inicial em nossa visão do objeto e em nossa atitude diante dele. não vemos. valores. Biology and Philosophy 2: 377-381. independente das . RUSE. dez. Portanto. Acesso em dd/mm/aaaa.História e Filosofia da Biologia 4 (3): 2-4. atitudes e procedimentos. valores e atitudes que demandam crítica a determinadas distinções epistemológicas tradicionais. 1987. igualmente. 2010. Ou seja. 2010. Booknotes. set. Versão online disponível em: <http://www.br A questão que proponho cobre um dos aspectos fundamentais do whiggismo: o condicionamento prévio imposto pelas posições assumidas não só no modo de explicar os fatos. Citação bibliográfica deste artigo: MARTINS. Lilian Al-Chueyr Pereira. em certa medida.[colocar a data de acesso à versão online] 3. Ambas por sua vez refletem nossas crenças e valores. Em um sentido amplo. Já em seu “ponto-de-partida”. o qual refletiria as condições sociais em que o whiggismo é plasmado. Ao nível das descrições devem novamente retornar as explicações calcadas nas interpretações (teorias) bem sucedidas. Versão online disponível em <http://www. Contudo. A possibilidade de tal questionamento.abfhib.pdf>. observacional. Não os vemos. mas já na sua descrição. Deixando de lado características próprias da posição whiggista. não homogeneamente metabolizadas pelos membros da comunidade – pela cultura e meio social em que se insere o narrador. ao descrevê-las. Explicação Esta distinção tem sido um dos pilares da visão tradicional de ciência. É O WHIGGISMO EVITÁVEL? Anna Carolina Regner Programa de Pós-Graduação em Filosofia.org/Boletim/Boletim-HFB-04-n4-Dez-2010. “fatos nus”. Do whiggismo ao priggismo. mas os vemos de uma certa maneira. seria mesmo impossível um distanciamento crítico e questionamento da inevitabilidade ou não do whiggismo como um conjunto determinado de crenças. minha questão se dirige a um ponto mais fundamental: podemos evitar tal condicionamento prévio? Minha resposta será não. como nos diz Paul Feyerabend. por sua vez. de crenças. situamo-nos e situamos as coisas das quais falamos em uma teia de “como as coisas acontecem” e.com.org/Boletim/Boletim-HFB-04-n3-Set-2010. não teríamos nem a consciência de que estamos diante de um objeto determinado.pdf>Acesso em 12/12/2010. a meu ver. Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (4): 2-4. passamos a narrá-las. funcionando as primeiras como corroborações ou falseamentos para as segundas. À descrição pertencem os enunciados chamados de observacionais e à explicação pertencem as teorias vistas como alternativas interpretativas dos dados colhidos pelas descrições. penso que podemos fazer dessa negativa um êmulo para a abertura a alternativas. A INEVITABILIDADE DO “PONTO DE PARTIDA” DO NARRADOR Ao descrever os fatos ou ao buscar explicá-los. simplesmente. Caso contrário. depende.

interpretações que deles façamos. mas de ter um significado. “natural”. bem como reduzir o que chamamos de “sociais” a uma realidade diferenciada pelo fato de que. Minha proposta não é reduzir um ao outro. uma polêmica similar já havia no interior do próprio Positivismo Lógico. A. mas não no da investigação da Natureza. Parece-me um tanto ingênuo querer despir o que chamamos de “fenômenos naturais” da ingerência dos elementos “subjetivos” (opostos a “objetivos” da pesquisa). mesmo porque a discussão de tal redução demandaria que antes. mas mesmo nossa estrutura (e posição) física. Natural vs. valores e atitudes. como do investigado. Em qualquer caso. México: Fondo de Cultura Económica. “social” etc. sobre a exigência de se compreender a natureza das proposições observacionais como partes de um sistema. como bem o viu Carl Hempel em seu seminal artigo “Problemas y cambios en el critério empirista de significado”. “Construir” o mundo que conhecemos não nos compromete com um mero nominalismo ou idealismo acerca do mundo. cujo conhecimento depende não só de sua existência física. mas com o “mundo que conhecemos”. enquanto fatos a serem descritos e explicados. tanto de parte do investigador. seus pressupostos. biológica. impõe condicionantes ao modo como apreendemos os objetos. para que possamos explicar o que descrevemos. conciliadoras ou não. temos presente que as distinções “observacional / teórico” são antes distinções que se estabelecem no âmbito de cada sistema teórico e que o “ver” não está desvinculado de “um modo de ver”. Não apenas conceitualmente. a refletir-se no cuidado em seus próprios procedimentos de investigação. BIBLIOGRAFIA AYER. pronto para ser descrito. desde as críticas de Popper. mas epistemologicamente diferenciada.) De fato. . Feyerabend e Lakatos. que a linguagem com que descrevemos os fatos os insere em uma rede de significações taxonomicamente qualificada. em suas discussões sobre a natureza das proposições elementares e. devamos recorrer a parâmetros comuns a ambos? Lembremos. whiggista ou não – encontre a possibilidade de uma atitude crítica em relação à sua própria posição. que encontra naquela proposta por Marcelo Dascal em vários de seus textos a expressão mais aprofundada. a última distinção apontada. O ESFORÇO HERMENÊUTICO As considerações acima buscaram apontar à necessidade de revermos as distinções epistemológicas que orientam nossas análises. Também a investigação da Natureza sofre determinações que lhe são impostas pelo sujeito que a pesquisa. sujeita aos condicionantes inicialmente referidos. Kuhn. ou. a questão de fundo é que tanto fenômenos chamados de naturais como os chamados sociais são “sociais”. ou encontrarmos novas posições. J. “Descobrir” o mundo supõe que o mundo está aí. tem a ver com a anterior. Para a posição que ora defendo a melhor denominação que encontro é a de defesa de uma “teoria das controvérsias”. Contudo. Essa atitude é o primeiro passo para que a inevitabilidade de um condicionamento prévio – seja qual for. pelo menos. Social Por fim. de admitir que possa haver alternativas. Edição: 1959). Dito de modo breve é pelo confronto de alternativas que podemos conhecer melhor as posições que defendemos. para o que aqui nos interessa. sabedor das ingerências dos condicionamentos prévios. Isso significa que toda a ciência é produção como tal contextualizada e dependente dos nossos pressupostos sobre o que seja “real”. discutíssemos o que entender por um e outro termo. nesse caso. na medida em que toda ciência é produção humana. quando. como pretender uma cisão entre “descrever e explicar”. Descoberta Esta pode ser uma distinção sutil. El positivismo logico. o investigador é ao mesmo tempo “sujeito e objeto” da pesquisa. Construção vs. (A rigor. 1993 (1ª. o qual pressupõe “nossa” rede de significações. igualmente. quando este for também suscetível a tais ingerências. de ser algo passível de determinações.

retomar análise sobre a história da ciência produzida por Butterfield. São Leopoldo: Editora da UNISINOS.DASCAL. Versão online disponível em: <http://www. [colocar a data de acesso à versão online] 3.br O meu objetivo nesta breve comunicação é o de tratar de três aspectos bastante introdutórios com relação ao whiggismo. A. A filosofia e a ciência redesenham horizontes. (1ª. 2005. O historiador inglês Herbert Butterfield (1900-1979). LAKATOS. É o whiggismo evitável? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (4): 5-7.Cambridge: Cambridge University Press.P. A. O WHIGGISMO PROPOSTO POR HERBERT BUTTERFIELD Maria Elice Brzezinski Prestes Instituto de Biociências. do presente . Edição: 2000). ela própria.). se não a glorificação. In: REGNER. 2007 (1ª. KUHN. Paul. A dialética na construção coletiva do saber científico. Falsification and the methodology of scientific research programs. Anna Carolina. Acesso em dd/mm/aaaa. O caminho desde a Estrutura. acusada de ser. dez. In: LAKATOS. (eds. Marcelo. (orgs).org/Boletim/ Boletim-HFB-04-n4-Dez-2010. Primeiro. FEYERABEND. 2010.usp. Thomas. Butterfield chama de whiggish a: Tendência de muitos historiadores escreverem em favor de protestantes e Whigs. de enfatizarem certos princípios de progresso no passado e de produzirem uma história que seja a ratificação. São Paulo: UNESPE. Universidade de São Paulo eprestes@ib. Nesse ensaio. Segundo. I. Contra o método.whiggish. Edição: 1975). de exaltarem revoluções bem sucedidas. & MUSGRAVE.pdf >. relembrar por que whig e whiggish. Citação bibliográfica deste artigo: REGNER. voltada à discussão de como se produz o relato histórico.C. São Paulo: UNESPE. indicar de que modo os historiadores da ciência usam esses termos para designar e criticar o que se pode também chamar de presentismo. & ROHDEN. renomado professor da Universidade de Cambridge. 2003. 1970. L.K. Criticism and the growth of knowledge.abfhib. isto é. Imre. cunhou o termo em 1931 um livro intitulado The whig interpretation of history. Terceiro. uma obra de caráter historiográfico.

). Esse tipo de história era criticado por seu anacronismo resultante da suposição de uma tradição histórica inglesa contínua culminando na forma do então governo parlamentar. os Whigs defendiam uma monarquia constitucional em oposição ao absolutismo monárquico. da abolição ou não da escravatura etc. desde o final do século XVII. muitas vezes acompanhado por termos parceiros como “hagiográfico” (isto é. que se contrapunha. p. “internalista” (isto é. ao rival. profissional e científica.). Pode-se dizer que se trata de um “relato centrado no presente”. o termo era aplicado para as histórias que celebravam não o progresso em geral. Contudo. e que trata eventos e instituições a partir do olhar de seu desenvolvimento subseqüente. o que mais motivou os ataques contra whiggishnessou whiggism. como argumentou Nick Jardine em 2003 ao rediscutir este mesmo tema. ). envolve uma longa trajetória de contraposição. defendido pelos Tories. dos Whigs. não apenas em favor do parlamento ou da monarquia. de diferentes dinastias em disputa pelo trono inglês. como uma oposição a um “relato propriamente histórico”. no qual julgava terem ocorrido mudanças no caráter das operações mentais habituais ao homem. Foi apenas nos anos 1970 e 1980 que os termos viraram moda.. foi precisamente esse anacronismo conceitual. ) ou “positivista” (isto é.. a revolução científica. em que se pretendia que a disciplina da história se tornasse mais autônoma. intitulada As origens da ciência moderna. Butterfield não receava em trabalhar com a noção do próprio progresso ou sobre a aplicação do termo “ciência” para as matemáticas antiga e moderna e para a filosofia natural. Os defeitos para os quais Butterfield aplicou os termos whig e whiggish foram os que os historiadores estavam acostumados a descrever como “anacrônico”: descrito como o relato que coloca as coisas fora de seu próprio momento histórico. de estar inserido em um contexto marcado por categorias distintas que podemos ler whiggismo no próprio relato histórico de Butterfield. 1931. triunfalista (isto é. Em 1949. da liberdade ou não do comércio. O termo provém do antigo partido político inglês. se me permitem assim dizer. Na época do ensaio de Butterfield. Tories. Os historiadores criticavam então a história focada nas origens. O adjetivo whiggish foi então largamente utilizado para denegrir grandes narrativas do progresso científico. Em termos gerais. Embora crítico da noção de um progresso contínuo na mão de grandes homens. ao publicar outra obra que se tornou famosa. 2) não trazia um tratamento biográfico porque esse . A história dessas tendências. Essa comparação já nos conduz ao terceiro aspecto que eu queria mencionar. Pela análise de Jardine. Butterfield esclareceu a novidade do método que orientava a obra. antecipações e homens que promoveram progresso. entre os historiadores da ciência. os historiadores da ciência do último terço do século XX também buscavam uma abordagem mais profissional e desinteressada. em favor de nobres da província ou da corte. mas especificamente o triunfo progressista das instituições representativas inglesas e liberdades condicionais. mas a apresentação de um caso.(Butterfield. É nesse sentido. o que estava sendo julgado era diferente dos anos 1930. mas em favor de Protestantes ou da Igreja da Inglaterra. 1). Em paralelo aos ataques contra a história whig do começo do século. associado a narrativas do progresso científico. caracterizando-o sob três aspectos: 1) não era uma enciclopédia ou compêndio cobrindo 4 séculos. tornadas partidos em meados do século XVIII.

[colocar a data de acesso à versão online] . O whiggismo proposto por Herbert Butterfield. para que não menosprezassem mais a importância desse fator da história. tanto da Idade Média. enfim. sem considerá-los exemplos de “uma ciência deficiente”. Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 2-4. conferiu às transformações derivadas primordialmente do trabalho de Galileu e da física-matemática a responsabilidade integral por terem subvertido “a autoridade científica. Maria Elice Brzezinski. menosprezando os enganos. como vimos. as hipóteses falhas. os obstáculos intelectuais. além de não ser genuinamente histórico. set. da escolástica e da física aristotélica. Butterfield imprimiu um caráter à “revolução científica” que será acusado do mais puro whiggism. como do mundo antigo”. deixarei a palavra para que os colegas desta mesa estendam suas reflexões sobre a relevância dessa polêmica. Ainda que com a intenção de também mandar um recado aos historiadores. Daí a enfática e.pdf>. e 3) a obra não trazia uma leitura de Galileu com “os olhos do século XX”. ou seja. um percurso sobre o conhecimento contemporâneo a Galileu e a tempos recuados dele.método. Butterfield também alertou que a obra não se destinava a expor descobertas (e este era o recado que dirigia aos cientistas e seu costume de escrever História da Ciência mapeando predecessores). Mas. muito whiggish. Acesso em dd/mm/aaaa. se houver. a fim de conhecer o sistema anterior que Galileu pôs em questão. Citação bibliográfica deste artigo: PRESTES. 2010. Versão online disponível em: <http://www.abfhib. além de compreender modos de pensar diferentes dos nossos.org/Boletim/ Boletim-HFB-04n3-Set-2009. mas. para a história da ciência atual. ocupado em “seguir os caminhos do progresso científico”. ao contrário. conclusão de Butterfield: de que a ciência nascente “excedeu em brilho qualquer coisa desde o aparecimento do cristianismo e reduziu o Renascimento e a Reforma ao nível de meros episódios”. remeteria a um mero catálogo de descobertas ou invenções. os becos sem saída. Ele buscava investigar os processos históricos e as interdependências dos acontecimentos. uma série de elementos que considerava essenciais para “seguir os caminhos do progresso científico”. Com isso.

p.] De fato. Em seu livro The whig interpretation of history (1931). ao se tentar apresentar a história de forma resumida. e que vão levando a resultados “melhores” com o passar do tempo. 6) Quase sempre. sendo o anacronismo o mais citado e discutido. e deve mais do que podemos saber a muitas influências que tinham pouco a ver com religião ou com liberdade. que na Inglaterra costuma ser atribuída a Lutero. 45) Um grande problema. Mas será possível fugir totalmente às armadilhas do pensamento whig? Ou será uma ilusão qualquer tentativa de fugir do whiggismo? O conceito de uma história whig contém muitos aspectos diferentes. (Butterfield. pois esta liberdade vem por caminhos tortuosos e nasce de estranhas conjeturas. Ela representa objetivos frustrados talvez mais do que objetivos atingidos. Não podemos dizer a quem devemos ser gratos por esta liberdade religiosa e não existe lógica em ser grato a alguém ou a algo. Vou focalizar aqui um outro desses aspectos: o problema de analisar influências e seqüências históricas. p. é a busca de uma visão geral e abreviada da história: A verdade é que existe uma tendência para que toda história se converta em história whig [. que produziu todo o presente – a menos que queiramos ser gratos àquela Providência que desviou tantos propósitos para nosso benefício último. associado à idéia de uma história linear (na concepção whig) versus uma história complexa (na concepção anti-whig). 44) Butterfield utilizou o exemplo da liberdade religiosa.4... (Butterfield.br Uma história da ciência whig é algo que tem sido muito criticado. exceto a todo o passado. Herbert Butterfield comentou: Não é por uma linha mas sim por um pedaço de rede em labirinto que se deveria fazer o diagrama do caminho pelo qual a liberdade religiosa chegou até nós. 1931. para se compreender como se chegou às idéias do presente (ou de qualquer outra época) não devemos ficar procurando “o responsável” pela idéia.unicamp. p. as idéias sobre liberdade religiosa defendidas na Inglaterra no século XX são bem diferentes das de Lutero. toda história deve tender a se tornar mais whig na proporção em que se torna mais resumida. SEM QUALQUER ASPECTO WHIG? Roberto de Andrade Martins Grupo de História e Teoria da Ciência. No entanto. .. 1931. e sim entender um processo complexo que levou até a idéia atual (ou de qualquer outra época). que ajuda a gerar uma interpretação whig da história. SERIA POSSÍVEL UMA HISTÓRIA DA CIÊNCIA TOTALMENTE NEUTRA.. cai-se em uma história linear: uma seqüência de eventos que são efeito um do outro. Unicamp Rmartins@ifi. 1931. que certamente não concordaria com as idéias atuais. (Butterfield.

Além disso. e tudo isso influencia cada situação histórica que se quiser analisar. Algumas delas são mais importantes. mas é difícil analisar essas diferenças. No entanto. veremos que a história linear simplista é totalmente inadequada. Na verdade. produzindo efeitos parciais. por sua vez. É seguindo essa tendência simplista que se costuma estruturar a história da teoria da evolução: indicando alguns personagens importantes (como Lamarck e Darwin) e estabelecendo um progresso linear entre eles. Evidentemente. outras menos.Esse tipo de história traz em sua base a idéia simplista de progresso (melhora qualitativa) e de causalidade direta entre fatos do passado e do presente. os acontecimentos que se influenciam podem ser tão diferentes que nem é possível compará-los. sob o ponto de vista de um “progresso”. Uma coisa que nos leva a distorcer e simplificar essa complexidade é buscar o presente no passado: . não sendo nunca o início nem o final de um processo linear. no meio de muitas redes de conexões. Não é cada situação isolada que produz um efeito. há uma rede de inúmeras influências que vão interagindo entre si. além de indicar no “pai” da teoria da seleção natural apenas as idéias que aceitamos hoje em dia (e que são diferentes das que ele tinha). Aceita a concepção de que aquilo que valorizamos no presente já existia no passado e que basta procurar para encontrar os “pais” das idéias que aceitamos. mas grupos de situações em determinados contextos que produzem em conjunto certo efeito. cada situação histórica está. cada acontecimento histórico sofre muitas influências diferentes. Se quisermos realmente entender a história das idéias a respeito da teoria da evolução biológica.

então. ou por aquilo que podemos chamar de conjeturas afortunadas. nossas mentes se concentram no processo que produziu tal resultado imprevisível. há um número praticamente infinito de circunstâncias que poderiam ser estudadas. 1931. (Butterfield. É impossível estudar tudo o que ocorre em cada instante. 1931. e nos tornamos mais abertos para um estudo intensivo dos movimentos e interações que estão sob a mudança histórica. Temos. minha ênfase) De acordo com essa visão. História não é o estudo das origens. podemos perdê-las de vista em nossas descrições de história geral. mas sua descoberta é a glória da pesquisa histórica. . um grande problema: em cada instante. (Butterfield. p. Nessas circunstâncias a questão será formulada em sua forma adequada: Como surgiu a liberdade religiosa? Então se reconhecerá que o processo de transição histórica é diferente do que o historiador whig parece assumir – muito menos como o procedimento de um argumento lógico e talvez muito mais como o método pelo qual se pode imaginar que uma pessoa escapa de um conflito. em vez disso. a partir do qual emerge algo que provavelmente ninguém jamais desejou. A pergunta adequada seria “Como surgiu a teoria da evolução biológica?” – e. nós nos encontraremos organizando a narrativa histórica sobre aquilo que é um princípio de desdobramento do progresso. 45-46. É um processo que se move por mediações. e essas mediações podem ser proporcionadas por qualquer coisa no mundo – pelos pecados ou equívocos dos homens. a luta dos que poderíamos chamar progressistas contra os reacionários. São usadas pontes muito estranhas para fazer a passagem de um estado de coisas para outro. O papel do historiador é descobrir como se dá essa transformação e não procurar heróis e precursores. 46. deve-se investigar toda a complexa rede de relações históricas que levaram à concepção atual (ou de qualquer outro período). que se transforma gradualmente em outra situação complexa que é o presente. e nossos olhos se fixarão sobre certas pessoas que aparecerão como os agentes especiais daquele progresso. temos no passado uma situação complexa. pp. porém. podemos dizer que é inadequado perguntar “A quem devemos a teoria da evolução biológica que aceitamos hoje?”. é a análise de todas as mediações pelas quais o passado se transformou no nosso presente. por exemplo. porque a pergunta já parte de uma suposição equivocada – a de que cada idéia se originou do trabalho de um único indivíduo. minha ênfase) Aplicando essa análise de Butterfield à teoria da evolução. Seremos tentados a perguntar a questão fatal: A quem devemos nossa liberdade religiosa? Mas se vemos em cada geração um confronto de vontades.Se vemos em cada geração o conflito do futuro contra o passado.

Dá para evitar? Não é um pecado que um historiador introduza uma preconcepção que possa ser reconhecida e levada em conta. Então. realmente.] a arte do historiador é precisamente a arte de resumir. Todos os whigs fazem isso.Uma conseqüência da visão de história que foi apresentada neste ensaio seria [. o historiador apresenta a sua visão pessoal daquilo que é relevante ou não. através de um processo de seleçãodaquilo que é descrito e pelas conexões que ele próprio inventa. O pecado. mas como pode ser condensada..] nunca existiu uma obra de história que não resumisse muito. Deixar de selecionar e resumir é impossível. p. houve uma omissão de inúmeros aspectos. e uma grande simplificação da complexidade histórica. devemos simplesmente aceitar que não podemos escapar desse problema? Deixar de selecionar e resumir é impossível. Como poderia ser feita a seleção e busca de conexões e influências de uma forma neutra? Parece que os resumos se tornam falsos por assumirem que a essência da história pode ser contada deixando de lado as complicações – uma suposição que ignora o fato de que a história é toda a rede produzida por incontáveis complicações que perpetuamente se envolvem mutuamente. e. p. e realmente [.] que ela implica em um tipo de história incapaz de ser abreviada. todas as dificuldades da questão do estudo histórico parecem brotar deste problema básico de seu resumo.. e o caos adquire forma em virtude daquilo que escolhemos omitir. Se a história pudesse ser contada em toda sua complexidade e detalhe.. Pode-se dizer que. é organizar a narrativa de modo que essa preconcepção não possa ser reconhecida. especialmente uma que nunca seria viável se toda a história fosse contada com todos os seus detalhes. O resumo pode ser tão simples quando se queira.. Mesmo se sua seleção não levar a uma história linear. 101) A partir do caos histórico. Mas este é exatamente um dos problemas da historiografiawhig. 102) Porém. o historiador cria uma ordem compreensível. em certo sentido. não seja imposta uma nova estrutura sobre os eventos. na composição histórica. (Butterfield. e o leitor fique preso com o escritor naquilo que é . 96) Além disso. 1931. não há nada que não possa ser transformado em algo simples.. mas ele deve ser uma exposição da complexidade. 1931. assim como uma sinfonia de Beethoven também não pode. em uma forma ou outra. seu problema é este problema. Qual a solução apontada por Butterfield? O que temos o direito de exigir dele [do historiador] é que ele não mude o significado e importância da narrativa histórica pelo mero ato de abreviála. 1931.. Ele não descreve simplesmente os fatos. que pela seleção e organização de seus fatos não seja interpolada uma teoria. a história não pode ser realmente resumida. é necessário procurar conexões ou influências entre os diferentes fatos. além de resumir. p. ela nos proporcionaria algo tão caótico e incompreensível como a própria vida. ele cria uma narrativa contaminada por suas preferências e crenças. (Butterfield. [. (Butterfield.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUTTERFIELD.abfhib. mas pode-se deixar explícito. e que a seleção e as conexões apresentadas são fruto da mente do historiador. 2010.pdf >. London: G. 105) Não é possível uma narrativa histórica totalmente neutra. Acesso em dd/mm/aaaa. Seria possível uma história da ciência totalmente neutra. que se trata de um resumo de uma história mais complexa. para o leitor. Roberto de Andrade. Herbert. The whig interpretation of history.realmente um argumento circular pérfido. 1931. Citação bibliográfica deste artigo: MARTINS. e depois pretender que está permitindo que ‘os fatos falem por si mesmos’. Bell. (Butterfield. sem qualquer aspecto whig? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 4-7. p.org/Boletim/ Boletim-HFB-04-n3-Set-2009. Versão online disponível em: <http://www. [colocar a data de acesso à versão online] . set. 1931. É abstrair os eventos de seu contexto e arranjá-los numa comparação implícita com o presente.