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O dia da tempestade – Rosamunde

Pilcher
 

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O dia da tempestade – Rosamunde
Pilcher
 
 

Contra-capa: "A genialidade de Rosamunde Pilcher é construir personagens com os quais nos
importamos de fato." 
Daily Express
"A britânica Pilcher é profunda conhecedora da alma humana."
Sunday Times
O dia da tempestade é um romance de personagens protagonizado por Rebecca Bayiiss, jovem londrina
que vive longe da mãe e nunca soube do paradeiro do pai, um talentoso pintor e ex-oficial da Marinha.
Buscando aproximar-se do passado, Rebecca parte para Boscarva, na península britânica da Cornualha,
onde conhece pessoas ambíguas que se revelam aos poucos. Grenville Bayliss, seu avô irritadiço e
teimoso; Joss Gardner, o carpinteiro habilidoso por quem Rebecca nutre sentimentos conflitantes;
Andréa, uma jovem instável apaixonada por Joss; Eliot, seu primo ambicioso, envolvido em negócios
escusos; e Pettifer, o criado leal a Greenville Bayiiss. A cada página surgem novos c inesperados
personagens, habilmente construídos com a criatividade humana e literária de Rosamunde Pilcher.

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O dia da tempestade – Rosamunde
Pilcher

O dia da tempestade
Rosamunde Pilcher nasceu em 1924 na Cornualha, Inglaterra. Aos 25 anos publicou seu primeiro livro usando o
pseudônimo de Jane Fraser. Somente em 1955, Pilcher passou a assinar com o nome verdadeiro e, aos 63 anos,
tornou-se reconhecida mundialmente com a publicação do best seller Os catadores de conchas. Talentosa
romancista e contista, suas histórias costumam tratar das complexas relações familiares, sempre ambientadas nas
mais belas paisagens da Grã-Bretanha. A escritora tem livros publicados em mais de trinta países.

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O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher 1 Tudo começou numa segunda-feira.Trabalho. Era uma daquelas pessoas sorridentes e expansivas.Laranja mecânica! Maggie acendeu um cigarro e afundou-se no sofá. filha de um membro graduado de Oxford que Stephen conhecera em seus dias de estudante. um quarto no sótão. mas a nova estação ainda não havia começado a se revelar.Você trabalha na loja de Stephen. Com ele. O chão de lambris era nu.É demais para mim . Havia bastante espaço. Ergui o braço para acender a luz e observei o ambiente deserto com extrema satisfação.Rose Marie! . virando a cabeça para me olhar. derrotada. mas ele pertencia somente a mim. depois de pôr as crianças na cama. no segundo andar de uma casinha que pertencia a Maggie e John Trent. Olhei novamente para o relógio e notei que começava a ficar tarde. e Maggie e John Trent juntaram-se a nós. sua esposa Mary e sua numerosa prole desleixada. O APARTAMENTO FICAVA em Fulham. decidi aceitar o convite e me divertir a valer. Era tudo meu. ele insistira vagamente. não é? E poderia ajudar Mary a assar o peru e catar todos os pedacinhos de papel de seda do chão. barulho. eu podia fazer o que bem entendesse. convocar .para passar os três dias na companhia deles. Londres estava fria e úmida. O despertador me acordou e deparei-me com a escuridão. onde acendi o gás e coloquei a chaleira no fogo. quando nos sentamos lado a lado no sofá. Não há nada como um Natal em família. . quando tivesse tempo. Eu os conhecera no Natal que passara com Stephen Forbes. Não havia móveis em meu quarto. através das quais eu avistava o topo dos plátanos iluminados pelo brilho alaranjado dos longínquos postes de luz das ruas. não é? . tentando adivinhar os gestos incoerentes que Mary esboçava a fim de nos fazer entender o nome de um filme. Eu havia começado a adquirir um interesse particular por lojas de quinquilharias e antigüidades. e já andava de olho num espelho dourado antigo. . . embora tivéssemos continuado a fazer brincadeiras e jogos infantis. feitos em casa. a grama pisada parecia insípida e morta de tal modo que era impossível acreditar que pudesse algum dia voltar a ser coberta por montes de açafrão roxo e amarelo. Analisando por esse ângulo. embora esmaecida pela grande quantidade de janelas descortinadas. Lixar o chão ou enchê-lo de cores. as lojas apinhadas de vã esperança e roupas "para viagem". os Forbes ofereceram uma festa aos adultos. formando uma pintura dentro da moldura adornada. que eu passaria o Natal sozinha. Recobrir as paredes brancas com cartazes ou pintá-las de laranja. e lustrar com uma camada de cera. Uma caixa de laranjas servia de mesa-de-cabeceira e uma outra.disse ela. Os Trent eram recém-casados. mas não tive coragem de entrar na loja e descobrir quanto me custaria. O Natal e o ano-novo já haviam passado e caído no esquecimento. As árvores dos parques erguiam-se rendadas e desfolhadas contra o céu melancólico e. Essas doces fantasias tomaram-me algum tempo. por intermédio de uma das moças. eu não iria me importar.na verdade. . exceto um sofá-cama onde eu dormia e uma mesa de cozinha que eu pretendia pintar. sem razão aparente. Eu tinha me mudado havia apenas três semanas. No dia seguinte ao Natal. uma cama no quarto de Samantha. Foi assim que adquirira a mesa. cheia de coisas. onde eu trabalhava havia um ano. em sua grande e desmazelada residência em Putney. para que refletisse o céu e a árvore. e não passava por uma sem vistoriar a vitrine à procura de algum tesouro que eu pudesse me dar ao luxo de comprar. num final de janeiro. Um dia aborrecido de uma aborrecida época do ano. abaixo. Meu primeiro apartamento. com crianças. e depois de sua chegada a festa ganhara um novo ritmo. saí da cama e caminhei descalça até a minúscula cozinha. embrulhos e presentes. Talvez eu o pendurasse bem acima da lareira ou na parede defronte à janela. Sempre foi muito generoso comigo e quando descobriu. fazia a vez da cadeira. e ainda um pinheirinho de Natal enfeitado com bolas brilhantes e objetos decorativos. em algum lugar. mas só tivemos oportunidade de conversar num jogo de mímicas. dono de uma livraria na Walton Street. ela. Stephen Forbes era meu patrão. Era um dia como outro qualquer. O dia havia começado. ele e Mary apressaram-se em me convidar .gritou alguém. Página 4    . Fomos apresentadas.

Mas agora estou.. Engoli. é a sua vez.ela sorriu. de modo afetado.Ah.. . . eu não tenho o endereço. Acabamos de nos mudar.prometi. Qualquer noite dessas.Claro que tem. -Ainda não me acostumei a escrever o endereço.Não me importo.Por acaso sabe de alguma pessoa distinta que esteja interessada em alugar um apartamento sem mobília? Olhei para ela. Eu não estava atendendo ninguém naquele momento e saí de trás de uma pilha de romances de capas reluzentes para saudá-la: . . mas observando-a fazer-se passar alegremente por boba. Nossos pensamentos estavam tão sintonizados que nem precisei falar. e Maggie riu. Atei o nó do embrulho e cortei o barbante. Cumprindo a promessa. Pode me ajudar? .Acabamos de nos mudar e quero ter uma porção de coisas sobre a mesinha de centro para que nossos amigos pensem que sou incrivelmente inteligente. grande ou pequeno demais. mas de quê? .Eu adoraria . precisei conter o entusiasmo. . Ela me observava. . nós a compramos livre de ônus. bobinha. . .Sorte sua.Irei até lá. repleta de vales-livro. Sei que é Rebecca.Combinado.Não. Não sei quanto está querendo. .Rebecca Bayliss. Esperava encontrá-la. escolhemos um livro de culinária.Você precisa conhecê-la. acredite se quiser. preocupada com as dobras do papel. ela apareceu na loja alguns dias após a festa. . . É CLARO.. se você não se importar. SW6 leu em voz alta. Mas acho que poderei arranjar alguma coisa. Hoje à noite .Você tem mobília? . usando um casaco de pele de carneiro. . gastar todos os meus vales-livro. É extremamente excitante. a fim de saber o que teria que representar para o grupo.foi impossível disfarçar minha impaciência e excitação.concordou ela. . Tudo isso somou um pouco mais do que o valor dos vales-livro. . caso eu não entendesse sua letra. Aguardarei você por volta das 19 horas.falei enquanto embrulhava meticulosamente suas compras. Tome o ônibus 22. na semana que vem.Creio que poderei pagar.Eu.Estarei lá . está no verso do cheque. Então alguém gritou: .Bom. e então ela tateou sua bolsa e retirou dali um talão de cheques a fim de pagar a diferença.Sabe. E se eu puder pagar o aluguel.. tivemos que deixar o segundo andar disponível para pagarmos a hipoteca. Aquilo era um tiro no escuro.Não estava até então. meu coração ficou feliz por ela.Você fala como se estivesse desesperada para sair de lá. . Nossos pais entraram com o sinal e John estudou uma maneira de arranjar um empréstimo para cobrir o restante. Teremos de compartilhar o banheiro. não estou desesperada. . . é extremamente rude ter que dizer isso.. mas gostaria muito de morar sozinha.Maggie. pegando o esmerado embrulho de livros e preparando-se para sair.Céus! . pois John e eu trabalhamos.Esta noite? .Ela virou a folha e escreveu o endereço no verso.ela respondeu e levantou-se.John vai ficar furioso . Mas é claro que. E A ENCONTREI. SACOLEJANDO DENTRO DO ÔNIBUS que descia a Kings Road. O apartamento poderia ser totalmente inviável. entrei em pânico. Ganhei uma dúzia deles no Natal. enquanto escrevia a quantia com uma caneta vermelha encapada com feltro. uma biografia comentadíssima e um volume espantosamente caro sobre pinturas impressionistas para a lendária mesinha de centro.Olá.É apenas um quarto com cozinha. Eu divido um apartamento mobiliado com duas amigas. Maggie me disse. . fiz alguns cálculos de cabeça e respondi: . Não me lembro o que era. por conta disso. . O cheque era amarelo e a mistura das cores formou um efeito engraçado.Ele diz que estamos gastando dinheiro demais.Você? Está procurando um lugar para morar? . . . mas eu não sei o seu nome. Subitamente.Não.Que acha de mim? .disse ela alegremente. mas acho que tudo dará certo ..14 Bracken Road. seria melhor ver o apartamento antes de se decidir. . que bom que você está aí. .Claro. uma saia roxa comprida e uma bolsa enorme. e desejei encontrá-la novamente. Aí está. . . ou ter alguma Página 5    .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Juntas.

E as moças que dividem o apartamento com você? . . . não sei. mas eu o avisei de que você viria. tentando soar como se aquilo não importasse..Eu não tenho pai e minha mãe está fora do país.sua voz se perdeu no vento. portas adornadas e janelas de vitral. Olha sempre para a frente de uma maneira particularmente otimista.E a mobília? . Mas ele enjoou da vida caseira ou achou que sua carreira era mais importante do que ter uma família. Ele era ator. Maggie usava um velho jeans e um suéter azul. Desculpe minha falta de tato.. Uma rajada gelada de vento soprou subitamente. . mas de uma maneira franca e amistosa. senti o cheiro da terra úmida e da folhagem do parque e observei a vasta escuridão da noite. Não que o assunto a magoasse. está tudo perdoado"? . Uma delas tem uma irmã que está vindo para Londres. a casinha não tinha nada de extraordinário: um sobradinho de tijolos vermelhos. no patamar da escada ficava o banheiro que iríamos compartilhar. . Ela parecia incapaz de compreender uma situação que eu havia aceitado com resignação a vida inteira. até que ele deixou minha mãe e eu nasci. .Acho que ele mora em Los Angeles. .Não sei. . .. o vulto negro do plátano farfalhou e seu ruído confundiu-se com o ronco do avião a jato que passava naquele instante.Sinto muito. Mas dentro da casa de número 14 tudo era claro e novo. . Tornamos a entrar e Maggie mostrou-me a pequenina cozinha decorada com um armário fundo. por isso você terá uma espécie de sacada no telhado. mas porque ela apagou o passado.Ah. É por isso que quero ter um lugar só para mim. Acendeu a luz. Os antigos donos construíram um terraço aqui em cima. Eu a observei em silêncio. . . minha mãe me presenteou com alguns tesouros que ela guardava no sótão e toalhas de linho. .Que coisa horrível ele fez. Eu deveria saber.. Minha mãe fugiu com ele aos 18 anos.Já estou eu novamente abrindo a boca e me intrometendo em sua vida. .que seus pais vão querer visitá-la. você passou o Natal com os Forbes.Mas o que aconteceu depois que você nasceu? Ela voltou a morar com os pais? .disse Maggie sem cerimônia . talvez algo tão bom quanto isso .. descemos para a sala de estar aquecida e bagunçada. eu deveria ter imaginado. Sempre foi assim.Deve ter sido a maior confusão quando sua mãe fugiu de casa. Falando sem parar.Suponho que sim.Parece que estamos no campo .. e me pareceu ridículo não querer tocar no assunto e me calar como sempre fazia quando alguém perguntava sobre minha família. e Maggie encontrou uma garrafa de sherry e um saco de batatas fritas que ela jurou estarem velhas. . Quando me mudei para Londres. . . Nunca refleti muito a esse respeito. E. realmente. . . .. ela subiu as escadas e entrou na sala vazia que dava para os fundos da casa. Honestamente.. Minha mãe raramente falava dele.ela estremeceu.Quando pretende se mudar? . .Desculpe por estar vestida desse jeito.Vamos entrar antes que congelemos. se puder. a tinta da parede era fresca e os tapetes. novos.sua voz foi sumindo.. Pendure seu casaco no corrimão. mas tenho que fazer todo o serviço doméstico quando volto do trabalho. Na semana que vem. eles sempre querem.Acho que não .O mais breve possível..O apartamento fica para o lado sul e tem vista para um pequeno parque.Bom..Elas encontrarão outra pessoa. o casamento durou apenas alguns meses. mesmo assim.Quer dizer que ninguém mandou um telegrama dizendo "Volte. De qualquer maneira. darei um jeito.respondi.comentei. Qualquer coisa era melhor do que ficar desapontada.ela perguntou. por isso geralmente troco de roupa ao chegar.Imagino .Que tipo de gente faria uma coisa dessas com a própria filha? Página 6    . Ela abriu uma porta de vidro e nós duas saímos na noite fria e escura.Você não tinha como saber. e ele achou ótimo. mas que me pareceram boas.Seu pai morreu? Era óbvio que ela estava curiosa.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher inconveniência. olhando de fora. Ela mora em Ibiza. Finalmente. Espero que ela fique com meu quarto. Nunca. anelada pelas luzes dos postes das ruas. . . Vamos subir e ver o apartamento.Mais do que nunca. mas. . .Não. . e ela finalmente riu de si mesma. John ainda não chegou. Quero dizer.. .Você ainda quer o apartamento? .

Mas era educativo. sim.Ah.Sei onde eles moravam. . . na Provença. . imprudente e confusa. .. . Fiz um curso de secretariado e me empreguei em serviços temporários até que finalmente fui trabalhar com Stephen Forbes.Não. . Ela possuía um apartamento em Kensington.Não era nenhum internato famoso. mas ela estava sendo amável. não era exatamente do tipo casadoura. . Uma herança de uma velha tia ou qualquer coisa assim. mas que possui uma linda casa. Contas a pagar são brincadeira. Página 7    . que morreu na guerra.Não sei.. Ela não sabe lidar com dinheiro e não tem senso de responsabilidade. . Saí de sua vida aos 17 anos.. . mas não sei o quê. Uma pessoa difícil de se conviver. . relembrando coisas que aconteceram e coisas que costumavam fazer quando pequenas. Nem sei se continuam vivos.Mas o que ela fez depois que você nasceu? Deve ter saído à procura de um emprego. Uma vez foi na França. não sente falta deles. Sua expressão era de ávida curiosidade. mas nos arranjamos bem. Não me lembro de ter-me sentido tão feliz como quando eles terminaram o relacionamento.Sua mãe se casou novamente? Olhei para Maggie. Irritante. É claro que nunca tivemos carro ou nada desse tipo. .Quer dizer que não conhece seus próprios avós? . . Eu nunca sabia onde iria passar as férias.Você deve estar brincando! . Moramos lá até eu completar 8 anos. E certa vez passamos o Natal em Nova York. Certa vez. Se você não conheceu seus avós. talvez. Na Cornualha. eu não sei.Quantos anos você tem? . na Inglaterra.Há quanto tempo não a vê? ..Vinte e um.. em seguida. .Pense nos lugares que conheci e nos lugares extraordinários em que morei.O que ela está fazendo em Ibiza? . . Bayliss . Você não conseguiu nenhuma pista? Ri diante de sua insistência.. .Não sei nem quem são. ....Uns dois anos. .Mas. . Ou quem foram.Internatos custam caro. Tudo para ela é "brincadeira". mas os homens acham que sim. às vezes mencionava algumas histórias do passado em nossas conversas.Gosta de lá? . outra.. deveria lhe contar o restante. onde moravam? . Decidi que..ela procurou as palavras -. . .Está vivendo com um sueco que conheceu por lá.Não é um nome muito comum.ela franziu a testa.Ela.Você não sabe nada? Sua mãe nunca lhe contou nada? .Não parece ter sido muito divertido para você. Maggie sorriu novamente. francamente.Não. Foi para ficar com um casal de amigos e conheceu esse homem. Mas sempre foi uma mulher bastante atraente. quando então fui para o internato..Não. mas nada que indicasse alguma coisa.Mas você não fica imaginando... e acho até que alguns a consideravam amoral...Você fala como se eu quisesse saber.. Numa casa de pedras com jardins debruçados sobre o mar. balançando a longa cabeleira. no porão da casa de uns amigos. Dessa vez era um poeta que queria criar ovelhas.Eu havia aprendido a fazer disso uma piada. nos mudamos. Disse que ele é terrivelmente nórdico e melancólico. eu não quero. e em seguida. Ela é bastante alegre. . . recebi uma carta em que ela dizia que iria morar com ele.. assim como malas perdidas e cartas não respondidas. E como eu estava sempre na escola. minha mãe tinha algum dinheiro guardado. Ele me faz lembrar alguma coisa. imagino que não havia razão para ela continuar sendo circunspecta. no Ritz de Paris. Você sabe como as mães conversam com os filhos. E minha mãe tinha um irmão chamado Roger. É sua palavra predileta. . aqui.Gosto muito.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .. maravilhada. Maggie ouviu o que eu disse e fez uma careta. numa casa fria e horripilante em Denbighshire.Ela deve ser uma mulher linda. . Mas. Honestamente. outra. tendo ido tão longe.. não me lembro de nenhuma época em que não houvesse um homem a postos.

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- Quanta coisa você já fez - disse, sem parecer compdecida de mim, e sim com uma pitada de inveja. - Com 21
anos eu estava envergonhada dentro de um vestido de noiva, atrás de um velho véu cheirando a naftalina. Não sou
exatamente uma mulher tradicional, como minha mãe, mas, como gosto muito dela, costumo fazer suas vontades.
Fiquei imaginando como seria a mãe de Maggie. E comentei, lançando mão de um velho clichê, pois não consegui
pensar em outra coisa para dizer:
- Ora, há gosto para tudo.
- Naquele momento, ouvimos a chave de John mover-se na fechadura e não tocamos mais no assunto de mães e
famílias.
ERA UM DIA COMO OUTRO qualquer, porém premiado. Na última quinta-feira eu havia trabalhado até tarde
com Stephen, na tentativa de completar o levantamento do estoque de janeiro, e, em troca, ele havia me dispensado
de trabalhar naquela manhã, portanto eu teria até a hora do almoço para fazer o que quisesse. Decidi dar uma faxina
no apartamento (o que não levaria mais do que meia hora), fazer algumas compras e levar uma pilha de roupas
sujas até a lavanderia. Às 1 lh30 eu já havia terminado meus afazeres e vestira o casaco para sair, sem pressa, para
o trabalho; pretendia caminhar até lá e talvez almoçar mais cedo, antes de chegar à loja.
Era um daqueles dias frios, úmidos, escuros, que nunca clareiam. Caminhei pela manhã melancólica, subindo a
New Kings Road na direção oeste. Ali, algumas lojas vendiam antigüidades, camas usadas e molduras para
quadros, e pensei conhecer todas elas, mas de repente me vi diante de uma que eu nunca havia notado. O exterior
era pintado de branco, as janelas de preto, e havia ainda um toldo como proteção contra a garoa iminente.
Olhei para cima a fim de descobrir como a loja se chamava e li o nome TRISTRAM NOLAN escrito em
caprichadas letras de fôrma pretas acima da porta. Esta ficava entre vitrines repletas de bugigangas, e, a fim de
observar o que a loja continha, parei na calçada banhada pela claridade das várias lâmpadas acesas lá dentro. A
maioria dos móveis era vitoriana, e haviam sido reestofados, restaurados e envernizados. Um sofá de botões, de
braços largos e pernas espiraladas, uma caixa de costura, uma pequena fotografia de cãezinhos de estimação sobre
uma almofada de veludo.
Olhei além da vitrine e observei a loja por dentro; foi então que vi as cadeiras de cerejeira. Era um par de cadeiras
de encosto côncavo, pernas delgadas e assentos bordados com rosas.
Eu as desejei. Exatamente daquele jeito. Podia vê-las em meu apartamento e ansiei desesperadamente por tê-las.
Por um momento, hesitei. Aquela não era uma loja de cacarecos e o preço deveria ser bem acima do que eu poderia
pagar. Mas, afinal de contas, não havia problema algum em perguntar. Antes de perder a calma, abri a porta e
entrei.
A loja estava vazia, mas o barulho da porta se abrindo e fechando fez soar uma campainha e, no mesmo instante,
ouvi os passos de alguém descendo as escadas, a cortina de lã atrás da porta dos fundos sendo puxada para o lado e
um homem apareceu.
Acho que esperava ver alguém mais maduro, vestido formalmente, de acordo com o ambiente e o estilo da loja,
mas a aparência daquele homem balançou minhas expectativas vagas e preconcebidas. Ele era jovem, alto e vestia
calça jeans - de um azul suave e desbotado, que mais parecia uma segunda pele - e uma jaqueta de brim azul,
igualmente velha e desbotada, com as mangas dobradas, revelando os punhos da camisa axadrezada que ele usava
por baixo. Trazia um lenço de algodão atado ao pescoço e, nos pés, um par de mocassins macios, decorados com
franjas.
Naquele inverno, as pessoas mais inverossímeis andavam por Londres vestidas de caubóis; porém, de alguma
forma, aquele parecia verdadeiro, e suas roupas gastas, tão genuínas quanto ele. Olhamos um para o outro e então
ele sorriu, e por alguma razão isso me pegou de surpresa. Como não gosto de ser pega de surpresa, desejei-lhe
bom-dia com uma certa frieza.
Ele puxou a cortina atrás de si e veio em minha direção suavemente.
- Posso ajudá-la?
Podia ter a aparência de um autêntico e ferrenho americano, mas no instante em que abriu a boca ficou claro que
não era. Não sei por que isso me incomodou. A vida que eu havia levado com minha mãe me deixara com uma
forte desconfiança dos homens em geral, principalmente dos impostores, e aquele jovem, acabei decidindo, era um
impostor.
- Eu... eu queria saber sobre as cadeirinhas, as de encosto côncavo.
- Ah, sim. - Ele se aproximou de uma delas e pôs a mão sobre o encosto. Os dedos de suas mãos eram alongados e
sua pele tinha um tom moreno. - Há apenas esse único par.
Olhei para as cadeiras na tentativa de ignorar sua presença.
- Gostaria de saber quanto custam.
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Ele se agachou ao meu lado a fim de procurar a etiqueta de preço, e observei seus cabelos grossos e rentes ao
colarinho, bastante escuros e brilhantes.
- Você está com sorte - ele me disse. - Elas estão com um preço mais baixo, pois o pé de uma delas se quebrou e o
conserto não ficou perfeito. - Ele se levantou, surpreendendo-me com sua altura. Seus olhos, castanho-escuros,
eram ligeiramente encovados e tinham uma expressão que considerei desconcertante. Ele me deixava pouco à
vontade e minha antipatia por ele começou a virar aversão.
- Quinze libras pelo par - ele disse -, mas, se quiser esperar e puder pagar um pouco mais, posso mandar refazer o
conserto e cobrir a junta quebrada com verniz. Isso a deixaria mais resistente e com uma aparência melhor.
- Ela não está boa como está?
- Está boa para você - disse o jovem - mas, se receber um convidado grande e gordo, ele poderá acabar no chão.
Houve uma pausa enquanto eu o observava. Esperei friamente. Seus olhos transbordavam de uma alegria maliciosa
que eu não tinha intenção de compartilhar. Não gostei da idéia de receber um homem gordo e grande para jantar.
Finalmente perguntei:
- Quanto custaria o conserto do pé da cadeira?
- Cerca de 5 libras. Isso significa que cada cadeira sairia por 10.
- Vou levá-las.
- Ótimo - disse ele, colocando a mão no quadril e sorrindo amistosamente, como se aquilo encerrasse a transação.
Concluí que se tratava de um funcionário completamente ineficiente.
- Quer que eu pague por elas agora ou deixe um depósito...?
- Não há necessidade. Pode pagar quando vier buscá-las.
- Bom, quando ficarão prontas?
- Em uma semana.
- Não quer anotar meu nome?
- Não, a menos que queira me dizer.
- E se eu não voltar nunca mais?
- Então terei que vendê-las a outra pessoa.
- Não quero perdê-las.
- Não vai perdê-las - disse ele.
Fechei a cara, irritada com suas maneiras, mas ele apenas sorriu e foi até a porta abri-la para mim. Um ar gelado
entrou na loja e, do lado de fora, uma garoa começara a cair; a rua estava escura como se fosse noite.
Ele se despediu e eu esbocei um sorriso frio de agradecimento, passando por ele em direção à escuridão da rua.
Assim que saí, ouvi a campainha soar quando fechou a porta da loja.
O dia tornara-se, de uma hora para outra, execrável. Meu prazer em comprar as cadeiras havia sido arruinado pelo
irritante vendedor. Não costumo antipatizar com as pessoas à primeira vista e estava aborrecida não apenas com
ele, mas comigo mesma, por ser tão vulnerável. Continuei refletindo sobre aquilo enquanto descia a Walton Street e
entrava na livraria de Stephen Forbes. Nem o conforto lá de dentro nem o cheiro agradável de tinta de impressão
conseguiram melhorar meu deplorável humor.
A loja possuía três andares: os livros novos ficavam no primeiro piso, os usados no segundo e os raros no terceiro.
O escritório de Stephen ficava no porão. Observei que Jennifer, a outra vendedora, estava atendendo um cliente, e a
outra pessoa na loja era uma senhora de casaco de tweed absorta na seção de jardinagem. Sendo assim, caminhei
em direção ao pequeno vestiário, desabotoando o casaco enquanto andava; foi então que ouvi os passos pesados e
inconfundíveis de' Stephen subindo as escadas, e parei para esperá-lo. Stephen apareceu no momento seguinte, alto,
curvado, de óculos, com sua expressão costumeira de vaga benevolência. Costumava usar ternos escuros com
aparência de amarrotados e, pelo adiantado da hora, o nó de sua gravata começava a se afrouxar, revelando o
primeiro botão da camisa.
- Rebecca - ele chamou.
- Sim, estou aqui....
- Ainda bem que a encontrei. - Veio até mim, falando em voz baixa, para não incomodar os clientes. - Há uma
carta para você lá embaixo; foi remetida de seu antigo endereço. É melhor se apressar em recebê-la.
Franzi a testa.
- Uma carta?
- É. Correspondência aérea com vários selos estrangeiros. Há uma certa urgência nela.
Minha irritação com relação ao episódio das cadeiras perdeu-se em meio à súbita apreensão.
- É de minha mãe?
- Não faço idéia. Por que não vai descobrir?
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Desci a escada íngreme até o porão, iluminado naquele dia escuro por longas lâmpadas presas ao teto. O escritório
encontrava-se incrivelmente bagunçado - como sempre -, apinhado de cartas, embrulhos, arquivos e pilhas de livros
velhos, caixas de papelão e cinzeiros que ninguém se lembrava de esvaziar. A carta estava em cima do mata-borrão
de Stephen, bem á vista.
Peguei o envelope de correspondência aérea, repleto de selos da Espanha e com o carimbo do correio de Ibiza. Mas
a letra pontiaguda não me era familiar. Fora enviada ao meu antigo endereço, então riscado, e sob ele havia o
endereço
da loja em letras grandes e infantis. Fiquei imaginando quanto tempo ela teria ficado sob a porta da frente até que
uma das meninas tivesse a idéia de enviá-la para a loja.
Sentei-me na cadeira de Stephen e abri o envelope. Dentro havia duas folhas finas de papel de carta, e a data do
cabeçalho era de 3 de janeiro - quase um mês atrás. Minha mente captou um sinal de tragédia e, temerosa, comecei
a lê-la.
Querida Rebecca:
Espero que não se importe de chamá-la pelo primeiro nome, mas sua mãe me falou muito a seu respeito. Escrevolhe porque sua mãe está muito doente. Faz algum tempo que ela não se sente bem. Gostaria de ter-lhe escrito há
mais tempo, mas ela não me permitiu.
Contudo, agora tomei as rédeas da situação e, com a aprovação do médico, quero lhe dizer que acho que deveria vir
visitá-la.
Se isso for possível, informe-me, por meio de um telegrama, o número de seu vôo a fim de que eu possa ir buscá-la
no aeroporto.
Sei que está trabalhando e que talvez não lhe seja possível fazer tal viagem, mas lhe recomendo que não perca
tempo. Receio que vá encontrar sua mãe bastante mudada, embora ainda mantenha vivo o seu otimismo.
Com votos de felicidade, Sinceramente,
Otto Pedersen
Permaneci incrédula, olhando para a carta. As palavras formais não diziam nada e, ao mesmo tempo, diziam tudo.
Minha mãe estava muito doente, talvez à morte. Havia um mês, ele me pedia que não perdesse tempo e fosse visitála. Naquele momento em que eu acabara de receber sua carta, talvez ela já estivesse morta - e eu não tinha ido vêla. O que ele pensaria de mim, esse Otto Pedersen que eu nunca tinha visto, cujo nome, inclusive, eu desconhecia
até então?

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Não posso ir . fazendo careta para chorar como se fosse uma criança de 10 anos.Pode.Mas não posso permitir que você. Pedersen a hora de sua chegada.. Obrigado. furiosa e com um nó na garganta: Isso foi há quase um mês. E a que horas chega a Ibiza? E o número do vôo? Muito obrigado. embora já me sentisse um pouco mais aliviada..Você sabia que ela estava doente? Balancei a cabeça. Página 11    ..Ora.Por que não pode ir? . satisfeito. . ele pegou o catálogo telefônico. Ela nunca me escrevia -olhei para ele e comentei. minha querida. por favor? Srta. . .. Permaneci ali. Em vez disso. sentada à mesa. Agora não adianta se lamentar. Ele deve ter pensado que eu não me importo com ela! . . ficaríamos logo sabendo. Nada mais importa. se isso a faz sentir-se melhor.Há quatro ou cinco meses. deixe isso comigo. E agora.comentou Stephen -. eu mesmo vou levá-la ao aeroporto. deixarei que me devolva o dinheiro em cinco anos e com juros. enquanto ele a lia.. . Rebecca Bayliss. Jogou a carta sobre a mesa e inquiriu: . Não há nada como ter um homem maduro e gentil para tomar conta de tudo nos momentos de estresse emocional. sim. . Essa carta ficou no apartamento e ninguém se lembrou de mandá-la para mim. . entreguei-lhe a carta e. Virei a cabeça e o olhei. lutando contra uma terrível ansiedade. faz uma conexão em Palma de Maiorca e chega a Ibiza às 7h30. . Ela já deve estar morta e eu nem cheguei a vê-la. . quando? Ótimo. Sim.Lançou-me um sorriso. com amargura e ódio. e se teimar em me pagar. não toquemos mais nesse assunto. Stephen terminou de lê-la rapidamente.Você tem passaporte? Ninguém vai exigir que tome injeções de varíola nem nada aborrecido assim. Pode fazer a reserva. as finas folhas de papel farfalharam em minhas mãos. não há tempo para isso.Sim. Ele pôs o fone no gancho e examinou. mas não consegui.Está tudo certo.Quando foi a última vez que teve notícias dela? . debrucei-me sobre a mesa.Se ela tivesse morrido . Imediatamente. Você viaja amanhã de manhã. mais uma vez. pelo amor de Deus.O que diz a carta? Tentei lhe contar. roí as unhas. os rabiscos ilegíveis que fizera com o lápis.. comportando-se de modo absolutamente eficiente. Precisamos fazer com que você chegue a Ibiza o mais rápido possível e comunicar ao Sr. Ele notou minha expressão e perguntou: . até que Stephen finalmente desceu a escada para falar comigo.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher 2 Li a carta novamente e. .respondi. enquanto eu tentava conter as lágrimas e o descontrole.Porque não tenho dinheiro para pagar a passagem. diferente do seu jeito de ser. Alô? British Airways? Gostaria de fazer uma reserva no primeiro vôo para Ibiza. Ele pegou um lápis e um pedaço de papel e começou a fazer anotações.

. Mas. Sob o céu iluminado pelas estrelas do Sul havia apenas o cheiro de combustível. intensamente bronzeado. provavelmente em razão de longas exposições ao sol. sorri na tentativa de ser identificada e. Otto Pedersen . . Usava um suéter preto e um paletó bege. Apertamos as mãos e ele fez uma mesura formal com o corpo. era fino e ossudo.Está do outro lado da rua. um cheiro que evocava as viagens de férias de verão que eu costumava fazer quando menina. enfiando-o no bolso do casaco como se já não tivesse mais utilidade para ele. . . Estava escuro quando aterrissamos. mas não avistei ninguém que se parecesse com um escritor sueco à minha procura. Era uma brisa cálida que recendia a pinho.. VOEI NO DIA SEGUINTE.Sim. Era um homem alto e magro. Engoli. E não comece a discutir de novo. a fim de comunicar sua chegada.Sou Otto Pedersen.Então vamos para o carro.comentei. Só que Otto era também urbano e bem-educado.. apanhei minha mala e caminhei para o saguão de chegada.Sorriu para mim de um modo tão confiante e jovial que me encheu de esperança. não obstante. e seus rostos.de maneira interrogativa. e percebi que ele estava tão inseguro quanto eu. é só isso. uma resoluta esperança de que o dia seguinte certamente seria melhor.Rebecca? . Espanha. assim que as transpusemos e atravessamos o mar.era impossível identificar a cor exata sob a claridade da luz elétrica e impessoal. pronunciou meu nome . no estacionamento. como se tivesse sido posto para quarar. novamente em meio à escuridão. . Santa Catarina. Parou diante de um Mercedes preto.Não quero que me agradeça . abriu o carro e colocou minha mala no banco traseiro. mas. . . enquanto deixávamos o terminal do aeroporto e entrávamos na estrada.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Vou levá-la ao aeroporto.disse Stephen. eram louros e mostravam seus primeiros fios grisalhos. Seus cabelos. enquanto se aproximava.Sim. . A chuva não cessou durante as quatro horas que precisei esperar no saguão lotado do aeroporto.Nunca poderei agradecer-lhe. . Carregavam com eles seus chapéus de palha. . à medida que eu caminhava pela pista empoçada em direção às luzes do edifício do terminal. Não custei muito para liberar-me da alfândega. assim que desembarcamos em Palma em meio a uma garoa persistente. E assim fomos juntos até o carro. pois não ficarei tranqüilo enquanto não a vir embarcando naquele avião. num avião semilotado de esperançosos turistas em férias de inverno. Então um homem que acabara de comprar o jornal num quiosque virou-se para mim. com cabelos que podiam ser louros ou brancos . Escuro e úmido.Sim. Não há vôos diretos nesta época do ano. como vê.Estava um tanto turbulento em Palma. . ainda sem saber ao certo se eu era a pessoa que ele procurava. e seu rosto.Espero que tenha feito uma boa viagem .É o mínimo que posso fazer. subitamente pareceu difícil dizer alguma coisa. posso buscá-lo e poupar-lhe a caminhada. As nuvens tornaram-se menos densas e mais esparsas. Tive que esperar quatro horas. . revelando o céu azul-esverdeado e limpo do entardecer. Vimo-nos pressionados pelas circunstâncias de nosso encontro. a pele ressecada e ligeiramente enrugada.disse ele. ele dobrou o jornal e caminhou na minha direção. Havia os costumeiros grupos de pessoas aguardando a chegada dos vôos ou sentados apaticamente nos compridos bancos de plástico. Segurou a porta para eu entrar. Não foi encaminhada a mim. e o vôo para Ibiza foi turbulento. o tempo clareou. Os olhos eram muito pálidos. mais cinza do que azuis. e abaixo o longínquo mar encapelado mostrava-se raiado pelo clarão cor-de-rosa do sol poente.disse ele. Com o passaporte carimbado. e assim se portou. o avião não viera cheio. Parei para ver se havia alguém à minha espera. antes de dar a volta e sentar-se ao meu lado. na Villa Margareta.. cujos bolsos possuíam pregas como as de uma camisa de safári. Página 12    . e um cinto frouxo com a fivela pendente. Naquela época tranqüila do ano. Antes que ele estivesse a meio caminho do piso lustroso.. com nuvens pesadas e úmidas. denotavam desapontamento e.Vou com você. Se preferir esperar aqui. polidamente.Quero explicar-lhe o motivo de não ter respondido à sua carta. E agora vamos passar um fax para o Sr. Foi muita gentileza sua ter-me avisado. você deve ter achado estranho não ter obtido resposta. Ao nos encontrarmos. Cheirava a loção de barba e tinha uma aparência asseada. Ele me guiou ao estacionamento semivazio. sentia o vento suave tocar meu rosto. Mudei de endereço e só a recebi ontem pela manhã. . . carregando minha mala e perguntando-me se aquela era toda a minha bagagem. percebi então. Nossos olhares atravessaram o saguão e se encontraram. . alheios ao improvável resplandecer do sol. apanhando a carta novamente -.

as patas da mula produziam um som agradável na estrada empoeirada e um lampião balançava na parte traseira da carroça. . Agora.. nem de longe. formal como sempre.perguntei.disse Otto. O médico achou que deveríamos tentar uma transfusão de sangue e eu a levei para o hospital. Não. não contei a ela.Escreve livros sobre história? . . .. . Ainda é possível ficar totalmente isolado se você a conhecer bem e estiver de carro ou de barco. .Ela está morrendo. Página 13    . ao sul. percebi que estávamos no campo. passando por pequenos bosques de oliveiras. . . . O vento suave da noite soprou em meu rosto. . A vila de Santa Catarina era praticamente inexplorada quando vim para cá.Não .Estou feliz que ela esteja aqui. Leucemia. A carroça passou. havia-lhe dado uma casa para morar. Desejei perguntar-lhe se ele a amava. -Acho que ela é muito feliz.Deve esperar uma grande mudança.Quanto tempo faz que não vê sua mãe? . -Ele sorriu friamente.Câncer no sangue.Sua casa fica muito longe? . seu nariz começou a sangrar intensamente. o que seria então? Após algum tempo. Mas esteve gravemente doente antes do Natal.Há quanto tempo ela está mal? .Sim . Fiquei impressionada. Até onde me lembrava. . há grandes empreendimentos hoteleiros e receio que vá terminar igual ao restante da ilha. estou trabalhando numa tese acerca da ocupação moura dessas ilhas e do sul da Espanha. se ela tiver que morrer. nenhum dos amantes anteriores de minha mãe tinha sido. mas achei que não nos conhecíamos o suficiente e que seria impertinente fazer uma pergunta tão íntima e pessoal. Foi então que escrevi para você. e de vez em quando surgia um clarão da janela de alguma fazenda. . . . .Mas é claro que estaria.Já fiz isso. brilhando através dos contornos bulbosos e pontiagudos dos cactos. . Paramos num cruzamento para esperar uma carroça passar.Não é tarde demais.Imaginei que algo assim tivesse acontecido. Estava quente no carro e por isso abri a janela.A uns 8 quilômetros daqui. intelectual. Otto aproveitou a oportunidade para tirar um cheroot do bolso do casaco e o acendeu com o isqueiro do painel.Mas é claro.Sou. Ela passou o Natal internada e só depois teve alta para voltar para casa.Há cerca de um ano. como é chamado. quando ela estava doente.Gostaria de ter recebido a carta quando chegou. pois assim que a levei de volta para casa.Você é escritor. . apenas os sons das vogais e uma certa formalidade na maneira como se expressava traíam sua origem. Receio que ficará chocada. que diferença faria? Ele a conhecera e quisera ficar com ela. Mas isso não lhe fez bem. Quero dizer. ficou feliz que seja num lugar assim. ao receber sua carta. E prosseguiu.Você a conhece bem. mas tente fazer com que ela não perceba. O inglês dele era perfeito. . . sua expressão era séria e grave.Dois anos.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Ela sabe que eu vim? . No momento. Se aquilo não era amor. Algo em sua voz me fez olhar para ele. Viera primeiro em seu iate e gostara tanto do lugar que voltara no ano seguinte para comprar uma casa e estabelecer-se no local. . Além do mais. que fosse tarde demais.comentei. Continua bastante vaidosa. Você sabe como ela adora surpresas e como detesta ser desapontada. Como alguns locais da ilha.Tive medo. A pergunta estava na ponta da língua. e tivemos que chamar uma ambulância para levá-la novamente para o hospital.disse Otto. tratava-a com carinho apesar da aparente frieza. Seu perfil tornava-se bem definido contra o brilho amarelado da iluminação das ruas.Não. . mas também leciono história.Sim . Achei que havia uma chance de algo dar errado e você não estar nesse vôo. entretanto.O que ela tem? .disse Otto. Perguntei-lhe há quanto tempo vivia na ilha e ele respondeu que morava ali havia cinco anos. com o calor do sol e o cheiro de pinho . e agora. começamos a conversar sobre outras coisas.Ela está morrendo? . nós prosseguimos.

ela disse. deixamos o vilarejo para trás e mergulhamos na extensa escuridão. Em seguida ele lhe entregou minha mala e ela se retirou. de maneira organizada e encantadora. É o que sempre fazíamos antes do Natal. branca e quadrada. Em seguida atravessou a sala até alcançar uma outra porta. Os faróis penetravam na noite escura. a mão e o braço delgados que se estendiam ante a aproximação de Otto. Percebi então que estávamos correndo em paralelo com o mar.Señor.Mas o que está fazendo aqui'? . Ela então virou-se para Otto e falou mais alguma coisa. O chão de cerâmica era coberto por tapetes e havia uma enorme quantidade de livros e quadros. ela respondeu. Entramos no salão da casa. -Você vai ficar? . Obedeci e. . ao lado da porta. à frente. mas. Minha filha querida. salpicado aqui e ali pelas luzes dos barcos pesqueiros. uma mesa redonda expunha. e eu me ajoelhei diante dela para beijá-la. Num momento. fiquei nervosa. avistei a quinta. Oh. Eu disse a ela quem você é. Fingiu seriedade. no meio da sala. caminhei até o seu lado e disse: . Ela sorriu.Mas. . que brincadeira agradável. .Ela olhou sobre meus ombros para Otto e de volta para mim. mas está acordada agora. que usava um macacão cor-de-rosa e chinelos de dormir. O fogo queimava numa enorme lareira de pedras. A música flamenca chegou aos nossos ouvidos pelas portas abertas. . Otto freou o carro e desligou o motor. fazendo um gesto para que eu o seguisse. alguns gerânios cor-de-rosa num jarrinho. . Foi como beijar uma folha há muito tempo arrancada da árvore pelo vento. o contorno iluminado do vilarejo.Imaginei que gostaria de vê-la . Descemos. entrecortada por janelinhas furtivas.Você não demorou muito. Sente-se pronta para receber uma visita? .Querido .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Seguimos em silêncio pela estrada deserta.Achei que a deixaria mais alegre. . um lampião aceso pendendo sobre a enorme porta da frente. óleo e carne frita pairava no ar. . Um jarro alto. . os postes telegráficos corriam para encontrar os faróis do carro. livros e um abajur aceso. . continha uma série de bengalas e guarda-sóis.Por um dia ou dois.disse Otto. como corcovas. revistas e jornais. pude ver o contorno estreito. que parou sobre o tapete da lareira. afinal. por que não me contou? Sorri.. e. pediu? . à sua frente havia uma cama e. . Você não pediu a ela que viesse.De quem? Otto ergueu os olhos para mim.Lisa. da porta.Ela me soltou e eu me sentei sobre os calcanhares. dos cobertores cor-de-rosa.Queríamos fazer-lhe uma surpresa. Deixe-me guardar seu casaco. Abriu a porta e me deu passagem para que eu entrasse à sua frente.Rebecca. Estendi a mão e Maria a segurou: cumprimentamo-nos com sorrisos e acenos de cabeça. Metade da felicidade era antecipada. e. ao tocar seu rosto. e rostos escuros e distraidamente curiosos viraram-se para nos ver passar. e ele então virou-se para mim a fim de formalizar as apresentações.Maria. . Enquanto Otto fechava a porta da frente. ele retirou minha mala do banco traseiro e guiou-me pelo caminho de cascalhos. O abajur e as chamas da lareira eram as únicas fontes de luz da sala.Ele segurou e beijou sua mão. Uma enorme sala de teto baixo e paredes brancas como o restante da casa. Seu corpo não oferecia resistência ou apoio. iluminado por um lampadário de ferro batido e decorado com um longo sofá recoberto por uma manta de cor clara. paralelamente. senti sua pele fina como papel sob meus lábios. Ele lhe fez uma pergunta em espanhol. revelando alguns dentes de ouro. que se estendia pelo horizonte escuro e invisível. Desabotoei o casaco e ele me ajudou a colocá-lo sobre o braço do sofá. uma mesa baixa e comprida com um copo e uma jarra de água. diminuímos a marcha quase imediatamente para vencer a curva íngreme que levava a uma estreita passagem ladeada por uma plantação de amendoeiras. subitamente. No instante seguinte apareceu. Página 14    .Esta é Maria. .Sua mãe esteve dormindo. de tão magra que estava. de cabelos negros.Sua voz era uma ameaça. temerosa pelo que iria encontrar. querida. que cuida de nós. Ela ergueu os dois braços para mim. Estávamos no hall.. um cheiro de cebola.Sou eu. uma outra foi aberta à nossa frente por uma mulher pequena. . .Uma visita? . decorada com uma mistura agradável de moderna mobília escandinava e antigüidades espanholas. .Maria me disse que você adormeceu. azul e branco.Mas eu adoraria saber. . . para poder aguardar ansiosamente sua chegada. diante de nós. Passamos por uma placa que dizia SANTA CATARINA e logo nos vimos cruzando a rua principal. Rebecca.

Posso voltar . não sou. Nem ninguém que queira se casar comigo.Faz você parecer uma personagem de conto de fadas. aqui. sua aparência estava terrível. Não conseguia parar de falar. .Tocou meu rosto como se precisasse do contato para se convencer de que eu realmente estava ali. Sou uma negação para escrever cartas. Havia um banheiro dentro dele. sabe. Mais tarde mostraram-me meu quarto. Otto saiu para buscar o champanha e ficamos sozinhas. como se passasse quase todo o tempo tomando sol.Ah.Mas é claro que sim. não sinto vontade de fazer nada. ele deveria ter esperado até eu melhorar. Otto. creio.Ah. .Ora.. . não sei dizer qual dos dois. Ela fez uma cara maliciosa. Observamos Otto retirar a rolha com habilidade e a bebida dourada escorrer dentro dos copos. e ela não conseguia parar de sorrir.Acho que posso conseguir uma garrafa. .Ah. . Nunca pensei que alguém pudesse ficar tão magra e continuar viva. . Na verdade. por isso. .É claro que não me prejudicaram. querido. Ajudaram-me a amadurecer. O único problema é que estou tão entediante agora. De quem será a culpa? Minha.Gostei de Otto. obsessões ou qualquer uma dessas doenças de hoje em dia! Você não parece ter nenhuma delas. Balancei a cabeça. Em algum lugar da casa. sabia? Possui o colorido de seu pai.. . sair de barco. tem uma mulher encantadora e um monte de filhos. que maravilha. . Entreolhamo-nos. escrupuloso e setentrional. como uma corda sobre meu ombro direito. fazer piqueniques e outras coisas. .Ora.Devo pegá-la já? . Tenho sorte por ele não exigir que eu seja tão brilhante quanto ele! Sente-se feliz por eu diverti-lo.Não. que brincadeira divina.ela disse. acho que me lembrei de colocar uma no gelo para uma ocasião como esta. que era. Querida. Ela pegou minha mão e foi como segurar ossos de galinha. Otto e minha mãe estavam me aguardando.disse minha mãe.Não.Isso nunca me incomodou. da mesma forma que seus cabelos negros que se espalhavam como tinta sobre o travesseiro branco feito neve. quando a última soou.Ele não é divino? Tão correto. escovei os cabelos e os trancei novamente. Maria já sabe que ela vai ficar? . . Tem champanha? Otto sorriu. sua pele tinha um tom escuro. aqueles livros antigos com ilustrações mágicas.Está tudo arranjado. Mas ela estava excitada. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Sua mão passeou pela trança jogada para a frente.Por favor. -Você está linda. o que você tem feito? Há séculos que não tenho notícias suas. . para que pudéssemos nos divertir juntas.Beberemos ao nosso encontro . Ela achou graça do que contei. Por outro lado. Otto voltou à sala carregando uma bandeja com uma garrafa de champanha num balde de gelo e três copos de vinho. Contei a ela sobre a livraria e o novo apartamento. . simplesmente um luxo e suntuosamente simples. vamos tomar alguma coisa. .E sobre o jantar? . Um drinque. Poderemos conversar bastante. Encontrei um banquinho e puxei-o para perto a fim de sentar-me ao seu lado. ao mesmo tempo. . ele também se trocara para o jantar. construindo um pequeno ninho para si mesma sem ter alguém para compartilhá-lo.Você é muito engraçada. em seguida voltei ao salão. Ela deu uma risadinha afetada. tomei banho e troquei de roupa. querida.. um relógio deu sete badaladas e. você está linda e isso é ótimo.acrescentei. que homem sábio. Ah. O sorriso deslumbrante e seus brilhantes olhos castanhos continuavam os mesmos. sorridentes e felizes pela inesperada comemoração.eu disse. Ainda não conheceu ninguém com quem queira se casar? . ir nadar.Um brinde a nós três e aos tempos felizes . Você é muito bonita. colocando calças compridas e uma blusa de seda.. E adorei o modo como o prendeu. que mãe terrível eu fui para você. E o mais assustador era que ela não estava pálida nem descorada.Ele é casado..E o homem para quem trabalha? . . . e minha mãe usava um penhoar azul-bebê Página 15    .É claro. cada um serviu-se de uma taça e a erguemos. com esses grandes olhos verdes e esses cabelos dourados. Jantaremos juntos.Só um homem doce e querido como ele saberia quanto eu adoraria vê-la. É um milagre você não ter colecionado as mais horripilantes neuroses. E tão inteligente. talvez essas coisas todas não a tenham prejudicado tanto. . . . . só nós três.

Ele era muito bonito. com a opinião dos outros. Na verdade. Ele era ator e bonito demais para se descrever. . bem baixinho. . Essa era. E me apaixonar por ele fazia parte da magia. .afirmei. mostrou-se curioso e bastante surpreso e fazia perguntas.Eles não gostavam dele. Querido. E todas as manhãs. Sempre achei que você se parecia comigo.. .. não acha? Além do mais. Minha mãe me perguntava por que eu não me casava com um jovem do local. E eu não sabia como deixá-lo sem ferir seus sentimentos. ..É verdade .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher e um xale de seda bordado com rosas que pendia sobre seus joelhos.Ele estava apaixonado por você? .perguntei. isso foi há tanto tempo.completou Otto. assim que saiu. "Pela casa. E o que as pessoas diriam se eu me casasse com um ator? Às vezes eu achava que ela só se importava com isso. . Achei que Otto ficaria chocado. .. era pior.ela explicou para que Otto entendesse.Ele a adora .. eu nem sei qual era seu nome. cautelosamente. .Tudo era mágico. . . Mamãe continuou a falar.. Desaprovavam nosso relacionamento.. estimulando minha mãe a contar mais. Mas Bayliss é um nome bem melhor. eu a criei sozinha e sempre achei que você era minha e de mais ninguém. um copo após o outro. mas bebia o champanha aos golinhos. e Sam representando Oberon. o cheiro da grama molhada de orvalho. incrivelmente. Otto desculpou-se e nos deixou a sós. Tudo era tremendamente romântico. mas até que tive sorte. a música divina de Mendelssohn.Sabe.Mas onde vocês se conheceram? . por sermos inteiramente diferentes.Oh. . Mas só porque meus pais não me deram outra alternativa. querida." . sossegava e parava de me exibir. e aquela fazenda terrível em Denbighshire. Tomamos mais um drinque até que Maria serviu o jantar sobre uma mesa baixa em frente à lareira.E o melhor de tudo é que ele nunca sequer tentou me modificar. . sem se esquecer de reabastecer a lareira com novos tocos de madeira e certificar-se de que tínhamos tudo de que precisávamos.Quase sempre.Ele chegou na região da Cornualha com uma companhia de teatro para apresentar peças de Shakespeare ao ar livre. lembra-se daquela casa horrorosa? Quase morríamos de frio e o fogo tinha que ficar aceso o tempo todo. E Roger foi morto. Mas ela me sufocava e me reprimia.Foi.Mas você fugiu e casou-se com ele. Ela detestava aquela situação tanto quanto eu. . mas não é verdade. mas não era melhor poeta do que fazendeiro. as franjas roçando o chão. enquanto Otto e eu nos deliciávamos com os quitutes de Maria. e eu senti tanto a sua falta. Esse foi Sebastian . as noites azuis do verão. .Não compreendo. . Os elfos. a primeira vez que eu a ouvia mencionar sua mãe. mas ele não se chocou de modo algum. ele tinha um cachorro horrível que estava sempre ameaçando mordê-la. Minha mãe não parou de falar lembrou os velhos tempos em que eu era ainda uma menina. Às vezes eu achava que ela tentava me asfixiar com suas convenções. Alegando ter trabalho a fazer. . gnomos e duendes São leves feito aves nos galhos.Ela tornou a tocar minha trança. Como se eu me importasse com o que os outros iriam dizer. Rebecca. pois Rebecca teve bronquite e eu arranjei a desculpa perfeita. E falei. . Tudo Página 16    .confirmou minha mãe. É tão difícil de me lembrar.Todos pensávamos que ele seria um poeta famoso.Nós dois achávamos que sim. Quando terminamos e os pratos foram retirados. Diziam que eu era jovem demais.. como um brinquedo de corda que só pára quando fica rodando no chão e finalmente se quebra.Sam Bellamy. instigando-a: .Você está cada vez mais parecida com seu pai. Acho que é por isso que nos damos tão bem. Ele é bastante meticuloso. será que tem mais champanha? Ela quase não comia nada.Há tão pouco a dizer. .Você não gostava dela? . Você nunca me disse nada a seu respeito.Não foi tanta sorte para Rebecca .Gostaria que me falasse dele. a luz tremeluzente Do fogo adormecido e apagado. simplesmente me aceita com minhas fraquezas e meu passado sombrio. está parecida com ele..Ele trabalha todas as noites? . . .Foi sim. . minha mãe sugeriu que ouvíssemos música e Otto colocou um concerto de Brahms no toca-fitas.

Teve um menininho. deveria ter suspeitado.O que será que aconteceu com Mollie? . . é nojento.Como ele era? . .. . e. Quase amável demais.Você nunca escreveu? . E então era tarde demais para responder à carta. Soltei uma risada. seguindo-me por meio mundo. de alguma forma.Minha mãe era sempre cruelmente precipitada.Era óbvio que nada do que Mollie fazia era visto com bons olhos por minha mãe. a neve e as lojas tocando "Jingle Bells"? Quando o Natal passou.Não. Eu não a suportava. Já lhe contei isso? Um pintor. . após a morte de Roger. Pensando bem.Também não gostava dele? Ao que parecia. Eu me senti desconfortável. desejei nunca mais ouvir aquele raio de canção novamente. . Coitadinho. Provavelmente ele pensou que eu nem me importei. nunca fui boa em coisa alguma.Acho que está sendo maldosa. Eu havia imaginado tudo.. colocando os sapatos na fôrma ou esterilizando os brinquedos do bebê. Além disso.Bem. pois estava ficando claro que eu a estava forçando a falar.Seus pais ainda estão vivos? . talvez eles fossem reais e eu fosse o sonho. Isso quase partiu o coração de minha mãe.Minha mãe morreu no Natal que passamos em Nova York. . Esse nome não lhe diz nada? Balancei a cabeça com pesar.. Ele era pintor. Um verdadeiro VP desde o início. . É um milagre você ter lidado tão bem com a minha negligência materna. Ou talvez. Uma bonequinha loira.Ele era tão amável. o pobrezinho sofreu ainda mais. dizendo alguma coisa. sempre pendurado no pescoço da mãe e dormindo de luz acesa. Lembra-se daquele Natal? O frio.ela fez uma careta como se o simples fato de mencionar aquele nome a incomodasse. Adorava reinar em Malta e Página 17    . que lhe deixou um estigma indelével. . Sabe. Era terrível nunca ter ouvido falar num avô famoso.Não. Até que se casou com uma. .O que é um VP? . esse era um assunto delicado. se sua mãe lhe tiver dado alguma chance. Grenville Bayliss.Seu pai. não tenho jeito para escrever cartas. Era um homem incrivelmente bonito. . Para ela. . Minha mãe a achava um doce. . com cabelos de boneca e olhos azuis de porcelana. . atraente e assustador. .ela sorriu. ela insistiu em chamá-lo de Eliot. Começou ávida na Marinha. leonino.Mollie ..disse minha mãe. ele fez jus ao nome.Quem? . menos que ele fosse um pintor. você nunca me contou. Ela deu uma gargalhada. eu sei. Sempre limpando a bolsa de mão. .Errado ..Ele não era nada disso.Vítima das prostitutas. Tampouco me importo.Oh. . E. . quando abdicou de uma carreira promissora. Ele sempre se apaixonava pelas moças impossíveis.Oh.ela baixou o tom de voz -.Boêmio. Tão loucamente metódica. ele só se decidiu a ser pintor com quase 30 anos. Sempre senti pena daquela criança por estar atrelada àquele nome horrível. eu o adorava. . . Rebecca. Provavelmente se tornou uma boa pessoa. . Ele era maravilhoso.Ela não pode ter sido tão ruim assim. .Sim.Como era seu nome? .Não sei. mudar-se para a Cornualha e morar numa casa em Porthkerris era uma afronta somada à injúria. Acho que ela nunca o perdoou por ter sido tão egoísta.É um nome bonito.Então ela teve um bebê? .Eu achava que era. Como se lembrar de personagens de um sonho. se você teve algum tipo de educação. .Ora. não foi culpa dele. . . . e por que lhe diria? Nunca fui de levá-la a galerias de arte ou museus. sabe como são as pessoas.Como você o imagina? Considerei a pergunta e lembrei-me de Augustus John. barbudo. mas obviamente a carta demorou meses para chegar. .. Meu pai me escreveu.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher teria sido diferente se Roger estivesse lá . .É como um sonho.

Então vou tentar reavê-las para você. quando sua voz mostrouse cansada e suas palavras rareadas pela exaustão.. existem coisas em Boscarva que pertencem a mim.Oh. Deve estar tudo em Boscarva ainda. o dobrei e o coloquei sobre uma cadeira. Sentar ao lado do fogão com eles. . eu lhe disse que eu também precisava descansar. Não agi direito me afastando deles. cuidava do meu pai. Mas.Mas talvez você não as considere um estorvo. nunca mais sairia de lá. e tornou-se cada vez mais impossível admitir que eles tinham razão e que eu havia cometido um erro crasso. Nunca faria isso. isso me fazia sentir tão segura.Claro que sim.. dando a impressão de estar longe dali. praticamente nenhuma. o que era verdade. . Coisas terríveis haviam sido ditas por todos nós. Acho que o vento era o que minha mãe mais detestava naquele lugar. Finalmente ela disse: . Sempre achei que elas iriam me atrelar a algum lugar.ela sorriu e concluiu a explanação de modo tristonho. com gavetas laterais e um tampo que se abre. Página 18    . espreguicei-me e coloquei mais alguns tocos na lareira. ela me pediu para encher sua jarra d'água. Ficamos conversando até as primeiras horas da manhã. da mesma forma que dizia quando eu era criança: . Você tem mobília nesse seu apartamento? .Mas você não o temia? . Então retirei um dos travesseiros para que ela pudesse deitar e dormir. E você não me pertenceria mais. eu me lembro. Pequenina. Essas coisas eram minhas. ultimatos foram dados.Você pertence a mim . eu deveria ter voltado. A Sra. lá chovia muito. Não apenas pelo fato de eu precisar de mobília. Por volta da meia-noite. Você era preciosa demais para mim .Não. Seu olhar estava perdido no fogo da lareira. . sabe. . Por outro lado. Eu o amava.E nós nos divertimos. não foi? . Eu nunca suportei ter raízes.Mas quem tomava conta de você? . que doçura. Descobri sozinha o caminho da cozinha deserta para atender ao seu pedido e notei que Otto. .Pettifer e a Sra. Pettifer. Não preciso nem dizer como eles eram agradáveis. Era uma casa maravilhosa.Pettifer servira na Marinha também. mas eu nunca fui dotada de fibra moral..O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher devia gostar de ser a esposa do comandante-chefe.Que tipo de coisas? . franzindo um pouco a testa. você seria da sua avó.Boa noite.E eu sempre achei que elas iriam me fazer pertencer a algum lugar. deixando-a à luz do fogo. Mas aqui é quente e os ventos são brandos.Quem era Sophia? Ela não respondeu. Boscarva era o seu nome. Talvez nem tivesse me escutado. incerta de suas lembranças. . E. E então ela corrigiu: . . havia se recolhido em seu quarto para que pudéssemos ficar juntas. se a casa não tiver sido vendida. Você gostaria que eu tentasse recuperar essas peças? .Não podia. querida. eu o apanhei. essa era Sophia. Nunca perdeu a pose de militar. .Não. ameaças foram feitas. O xale de seda havia escorregado para o chão.Depois que minha mãe morreu. Algumas vezes cheguei perto disso.Quem eram? . . finalmente.Não. E quanto mais se opunham a mim.ela olhou para mim. diante do mar. Quando Otto me trouxe aqui pela primeira vez.Ela nunca fazia nada com você? . ventava forte e o jardim era escondido por sebes altas para proteger os canteiros de flores dos ventos marinhos.ela disse. Se tivesse voltado para casa. Ela costumava vedar todas as janelas e trancar-se dentro de casa para jogar bridge com as amigas ou bordar. . Pettifer se encarregava da comida. lembrei-me de Boscarva. mas por terem pertencido a você. E isso eu não suportaria. Alguns jades que meu pai trouxe da China e um espelho veneziano. postura altiva e temível. e o lugar se parecia um pouco com este vilarejo.Então. . . . de vez em quando. Eu sabia disso. vê-los preparar torradas e ouvir o vento batendo nas janelas. bem no alto da montanha. passava por motorista.sua voz baixou. limpava a prataria e. que linda essa sua procura por raízes.. Velhos ressentimentos e verdades vieram à tona. E costumávamos ler a sorte nas xícaras de chá. . Curvei-me para beijá-la e desligar o abajur. mais determinada eu ficava. num gesto gentil. Devo acrescentar que ele foi feito por encomenda para tal função: olhos azuis. as pernas dormentes de ter ficado tanto tempo sentada. eu já me mudei tantas vezes que teriam sido um estorvo .Eu gostaria de ter voltado. levantei-me.Uma papeleira. ela disse. meu amor.Nunca. Quando eu estava saindo da sala. Até amanhã.Mais do que tudo. sabendo que estávamos protegidos. queimada ou qualquer coisa assim. . por que não voltou para casa? Ela franziu a testa. .

estava tudo acabado. assim peguei o dinheiro e o beijei. consumida pela dor. Ele disse meu nome. Eu teria me casado com ela.Ela morreu durante a noite.Estava em sua bolsa. e eu teria que decidir se a abriria toda ou não. Fisicamente. .. Soube antes mesmo de ele se aproximar e eu poder observar a expressão de seu rosto.Sim. a não ser algumas moedas para telefonar e algumas promissórias vencidas e amassadas.. acordei cedo.Sim. . refiz todo o caminho de volta sobre a montanha. Não vivemos juntos há muitos anos. então ele começou a descer o jardim para me encontrar. mas mesmo assim não resisti e arranquei um único raminho. .. ficamos parados olhando um para o outro. Parando para respirar. embora o que estivesse atrás dela fosse escuro e repleto de incertezas. . e o estava segurando quando.Queria que soubesse.Do outro bolso ele retirou um maço de libras. Ela teve uma morte serena. mas só uma frestinha. Maria e eu. Detesto despedidas. Voltei para Londres num estado miserável de indecisão.Pode ir. olhei para cima e avistei uma profusão de flores cor-de-rosa. em direção à casa. eu estava vazia. Eu sabia que cada flor daquelas carregava uma fruta preciosa que. mas primeiro. conferidas minha passagem e a bagagem. só isso. Em seguida.De repente senti um nó na garganta e meus olhos se encheram de lágrimas doloridas. a seu tempo. isso lhe pertence. Ele estendeu a mão para me ajudar a pular o muro e continuou segurando-a enquanto atravessávamos o jardim até a casa. observando minha chegada. com os raios de sol que se infiltravam pelas fendas das persianas. Era como se uma porta fechada há muito tempo tivesse sido aberta.'. Mas havia algo na expressão de Otto que não me deixou recusá-las. A maior parte do tempo ficamos em silêncio. eu também estou feliz. VOEI DE VOLTA PARA LONDRES na manhã seguinte. . não sei se isso importa para você.eu disse. Presentes. Quando Maria entrou na sala para acordá-la.. . Otto.. Colocou-o na palma da minha mão e fechou meus dedos sobre ele. Tomou conta dela. Dei a volta por um muro baixo de pedra e prossegui em direção ao mar. . Estava com elas na noite anterior.5 quilômetro de distância. Página 19    . segurando ainda o raminho de flor. . mas continuei subindo por entre o arvoredo. mas não consegui dormir nem comer a refeição que a aeromoça me oferecera. mas eu teria me casado com Lisa. cercada por amendoeiras. Saí pela porta da varanda de pedras que circundava toda a extensão da casa e observei a montanha debruçada sobre o mar. Otto. . mas ela não pode se divorciar de mim por motivos religiosos. Não precisa me dizer . . No aeroporto. Voltei para o quarto. Emocionalmente.Fico feliz que tenha vindo. Quando terminou. e ele virou-se sem dizer uma palavra. estava exausta.. Ela me trouxe um chá e tentei bebê-lo. .Você a fez muito feliz.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher NA MANHÃ SEGUINTE. portanto. Eu sabia que aquelas notas não estavam na bolsa dela. abri a janela e apreciei a manhã radiante do Mediterrâneo. ergui a cabeça a fim de olhar a casa e vi Otto Pedersen parado na varanda. no pequeno cemitério do vilarejo.Eu sei. apenas o padre.. me vi num arvoredo. mas tenho uma esposa na Suécia.Ele pegou minha mão e as colocou em meu pulso. mais ou menos uma hora depois. me vesti e tornei a sair -atravessei a varanda. após ter caminhado até o mar. . .Você não precisava me contar isso. e Otto me levou ao aeroporto em seu carro.respondi. e finalmente nos encontramos perto do pequeno muro de pedra. seria frugalmente colhida. Parei. Minha mãe nunca as tirara do pulso. Ela nunca carregava dinheiro na bolsa. ambos ficamos em silêncio.. . . Ela foi enterrada segundo a lei espanhola naquele mesmo dia.Está bem. mas quando nos aproximamos do terminal ele disse subitamente: . . Por um instante. Eu já sabia. Fico feliz que a tenha visto. por trás delas despontava o céu de um azul pálido e limpo. Talvez porque não fosse necessário. -Fique com isto. O caminho era mais íngreme do que parecia. mas seu gosto era amargo e eu o deixei de lado.E isto.Não precisa esperar . depositei o ramo de flor de amendoeira sobre seu túmulo. Ocorreu-me que não estávamos nos esforçando muito para confortar um ao outro.ele enfiou a mão no bolso do casaco e retirou dali três pulseiras finas de prata. Caminhei mais lentamente do que antes. a cerca de 1. A terra cor de areia estava coberta pelas delicadas flores cor-de-rosa das amendoeiras. um lance de escada e o jardim bem cuidado. Levantei da cama.Rebecca.

com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. expressara sua vontade. . já. Recostei a cabeça. sua expressão mudou. .Ele foi marinheiro. Mas ele não fez nada disso e certamente essa era uma grande barreira entre nós.Voltei. e quando apareci no patamar da escada ele levantou-se e caminhou em minha direção. Fiquei ali. eu desejava ter raízes. E. . Fez parte da minha vida. Ele me fitou com uma interrogação no olhar. e então talvez fosse minha obrigação ir à Cornualha reclamar o que me era de direito.Qual o problema? . oferecido ajuda.O que pretende fazer agora? perguntou. desejado conhecer sua neta.O que você não sabe? . a casa não tinha forma e a única coisa que parecia real era o barulho do vento fresco e frio que soprava do mar aberto para a terra. CHEGUEI A LONDRES no começo da tarde. Finalmente. mas ele certamente poderia ter sido um pouco mais positivo em sua maneira de lidar com ela. Costumava me sentir mareado só de olhar para ele. não obstante.Rebecca! Você voltou. procurar a família de minha mãe. eu o culpava um pouco por ter deixado sua filha ter feito o que fez da vida. .Não sei. Encontrei-o no segundo andar.que eu nem conseguia imaginar quem era. Meu avô devia ser muito velhinho.Minha mãe faleceu ontem de manhã.Stephen.tive que admitir. em meu sonho.É meu avô.Fico feliz por você tê-la encontrado. Por que não tira uns dias de folga? . .disse Stephen. Por fim. .repeti.Foi. Mas. Não havia mais ninguém com ele. . porém. . esteve na Marinha Real. Esperei que continuasse. mas ele se calou. uma pessoa amarga. Ele era um especialista em paisagens marinhas.Céus.Parece exausta.Ele afastou alguns livros da beirada da mesa e apoiou-se nela.Sophia . eu tivesse que lhe dar a notícia. Peguei um táxi e fui para a Walton Street.Não sei o que fazer." E ela mencionara um nome . ir até lá por essa única razão parecia uma atitude fria e mesquinha. Um mar cinza e tempestuoso e um barco pesqueiro com uma vela marrom. mas o dia escuro perdera sua forma e significado.Deus do céu. Ele franziu a testa. solitário e.Mas deveria.O que devo fazer. .Ele é conhecido? . Quando foi que descobriu? . Eu sabia que ela era impulsiva e teimosa. . Não que eu quisesse necessariamente viver com elas.Faz sentido. examinando uma caixa de livros de uma casa antiga que acabara de ser vendida. Stephen olhou-me com atenção. Quero dizer. eu diria. se fosse encontrá-lo. Cheguei às 2 horas. já ouviu falar de um artista chamado Grenville Bayliss? . Havia um Grenville Bayliss sobre a lareira da sala de jantar na antiga casa de meu pai. Nunca ouvi falar dele . provavelmente. Stephen? . Por quê? . . mas o que eu ouvira falar de Porthkerris não era nada encorajador. . imaginando que eu fosse uma cliente. "Nunca o temi. perguntei: .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Talvez eu devesse ir até a Cornualha. Havia coisas em Boscarva que pertenceram à minha mãe e que agora pertenciam a mim. e assim havia uma grande possibilidade de que. quando eu era garoto. à procura de Stephen Forbes. Tive uma noite com ela e conversamos bastante. Cheguei a tempo. e eu não tinha idéia do que fazer com o que restava dele. mas as queria ali. Rebecca? Página 20    . Lembrei que não havia feito nenhum acordo com Otto Pedersen sobre quem comunicaria a ele a morte de minha mãe.O que quer fazer. Ela queria que eu ficasse com elas. . Poderia tê-la procurado. .Minha mãe me contou. Deveria ter voltado. Eu o amava.Não sei . há 20 anos. cochilei e tornei a ouvir a voz de minha mãe. Quando viu que era eu.Entendo . adormeci e sonhei que havia chegado. em Oxford. cruzando os braços e olhando para mim através dos óculos. Além disso. . .

Talvez nem valham a viagem. . mas eu gostaria de guardar alguns objetos que pertenceram a ela.Suponhamos que ele não queira fazer as pazes. Mas vá.Boa tarde. muito bem. Iria à Cornualha. sim. .Sei que não é muita coisa. ele disse: . Palavras duras foram ditas.Estou com medo. Aquele dia parecia bastante distante.Então. então vá à Cornualha no domingo ou na segunda.Você está tentando me convencer a ir .Sua mãe sugeriu que você fosse? . ele se inclinou. Eu vim por causa de um par de cadeiras que comprei na segunda-feira. . até o ponto de ônibus e aguardei a condução chegar e me levar de volta a Fulham. tentei fazer alguns planos. . Vá conhecer o lugar. A primeira deve ser fazer as pazes com Grenville Bayliss. . com encosto côncavo. Com isso na cabeça. . eles as venderiam.Se não queria meu conselho. E se amanhã for cedo demais. e como se num gesto decorrente de uma reflexão tardia.eu disse. Mas ela disse que havia coisas lá que pertenciam a ela. Poderá levar alguns dias. Distraída. . de cabelos grisalhos e barba escura. então por que veio me ver? Ele tinha razão. . Hoje é quinta-feira.disse..Tenho muito o que fazer além de servir de conselheiro para você. .tentei fazer da história uma piada ..Você não sabe muita coisa.Que tipo de coisas? Contei a ele. . De ser esnobada. se eu não as fosse buscar. o olhar perdido na paisagem da janela.admiti. . . tchau . .De quê? . .Agora é. como sugerira Stephen. talvez. nas ruas cinzentas e tumultuadas.Isso é muito importante? . carregando minha mala. a fim de ir à loja pagar pelas cadeiras e certificar-me de que elas estariam esperando por mim quando eu voltasse de viagem. Não volte para Londres até ter feito tudo o que puder. . na segunda-feira. aliviada.Não. E relações cortadas.. eles podem me ajudar a encher alguns espaços vazios do meu apartamento. sei quais são. mas lembre-se de que elas têm importância secundária. A não ser.Não sei.Posso voltar a trabalhar quando tudo terminar? . .Existem. . conhecer seu avô. tirando o par de óculos de aro de chifre do rosto. mais velho. . Vá para casa e durma um pouco. como ameaçara o desagradável vendedor. . .Uma delas precisava de conserto. boa tarde. não é? .. quando finalmente chegasse a Porthkerris. Ele riu.disse a ele. mas não importa. Mas. eu acho. .disse Stephen. e sim outro homem. Achou que eu deveria tomar posse delas.Au revoir . Não com essas palavras. assim que entrei e a campainha da porta soou anunciando minha chegada.Ah. um pouco de orgulho ferido. . observei com certo alívio que não era ele quem estava atrás da mesa.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Oh.Então vá . Ele se levantou. eu sei. Não posso me arranjar sozinho sem você. Ele aproximou-se.Nunca tive uma família. Pensar no apartamento me fez lembrar as cadeiras que comprara antes de ir a Ibiza. . . E se conseguir suas bugigangas.Deve. nos fundos da loja. porém. desajeitado.. Há algum motivo que a impeça de ir? . Página 21    . Além disso.Sim. E Maggie cuidaria de meu apartamento. De cerejeira. para me beijar.Não sei . enquanto eu deixava minha mala no chão.Acho que pegar o que lhe pertence deve ser uma razão secundária para ir à Cornualha. Nessa época do ano não seria difícil conseguir lugar no trem ou encontrar uma vaga para dormir.e. quando ri de volta. mas isso não irá matá-la. Esse tipo de coisa.Então não haverá mal algum nisso.E boa sorte! Eu já havia gasto um bocado de dinheiro em táxis. Enchi-me de coragem para negociar mais uma vez com o jovem de jeans. por isso caminhei.Então vá procurá-lo.Existem rixas de família tão terríveis assim? .Olhe. . . saltei do ônibus alguns pontos antes de casa. Ou ignorada.

Certamente. . . Não posso levá-las. Preenchi o cheque e o cruzei. Para preencher o silêncio. . Comecei a abrir a bolsa.Posso pagar em cheque? Tenho o cartão do banco. apenas ficou aguardando que eu explicasse melhor o que havia dito.Pôs a pintura de volta no lugar. . está perfeito.Ainda assim.Muito obrigada. Senti-me gratificada em saber que era ele o dono daquela linda lojinha e não o vaqueiro deselegante. Ele ficou parado. .Em meu nome. . e a data. conservassem a valentia e impusessem respeito. . era de 1932. estou indo para a Cornualha na segunda-feira. debruçados sobre um amontoado de conchas. continuei. a fim de inspecioná-lo de perto. Precisa ser limpo.Mas decidi que talvez seja a hora. . Não tenho carro. Estou com uma mala.Mas isso é esplêndido.Em nome de quem devo fazer o cheque? . eu apanhei minha mala. Página 22    . .Sou . era extraordinário e.É apenas o seu nome: Bayliss. Não é muito comum. um tanto saturnina. Dei um passo à frente. é claro.Sim. O estilo provavelmente estava fora de moda. um grande colorista.Já está pronta. mas a composição era interessante . sua expressão. é uma bela viagem. lendo-o. de trás de outro móvel. E divirta-se em na Cornualha. Na verdade.Extraordinário . . Vai levá-las agora? . se pagasse por elas agora.Eu coloquei a data? .Sim. Espero que o sol apareça.Certamente.Vou de trem. vocês poderiam guardá-las até a minha volta.respondi. embaixo.É meu avô.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . completei: .o colorido delicado e vigoroso -. . E vou viajar por alguns dias. mas eu o acho muito charmoso.Você o conhece bem? .Ele era bom. é uma linda viagem. colocando o peso de uma das quinas sobre a mesa. e notei as dunas de areia sob a luz da noite e dois garotos nus. . . não é.ele disse.. .Não. . Sua assinatura estava no canto. não tão extraordinário assim. de cabeça baixa.Colocou meu cheque sobre a mesa e tirou.Porquê? .Vou lhe mostrar.. e levou tanto tempo que achei que tinha esquecido de escrever alguma coisa. uma grande pintura a óleo numa moldura dourada. Adeus.ele tinha uma voz grave e charmosa e. . sem conseguir esconder o tom de orgulho na voz.Cuidará das cadeiras para mim? . . exatamente agora. E então. Tristam Nolan. não era? .Eu não o conheço. por não haver nenhuma razão para não lhe dizer a verdade. embora vulneráveis em sua nudez.perguntei. . Andamos em direção à porta. Ele a abriu.É parente de Grenville Bayliss? Carregar este nome. Fiquei confusa. Ele a ergueu.Não. se iluminava.Mas é claro .Acabei de comprá-lo. e eu vi que era do meu avô. como se os garotos. . entregando ao homem. Ele não disse nada. . . Comecei a preencher o cheque. Nunca o vi. quando sorria.Olhou para mim. . Não prefere usar minha mesa? Aqui está a caneta. . . Pensei que. As estradas estão vazias nesta época do ano. Era o mesmo que fazer parte de algo relevante de que nunca se tivera notícia. ao mesmo tempo.

salvo os contornos anuviados de montanhas e fazendas e. consolei-me. De um Plymouth. outro clima. Poderia atravessar a ponte Saltash e chegar a outro país. e minha vaga esperança de que o tempo melhorasse à medida que o trem rumasse para o oeste caiu por terra. de vez em quando. onde reinariam chalés cor-de-rosa. seria diferente. obviamente.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher 3 Mas o sol não apareceu. palmeiras e o brilho tênue do sol de inverno. o que aconteceu Página 23    . Mas. Não havia nada para se ver através das janelas encharcadas. A segunda-feira amanheceu cinzenta e depressiva como sempre. Por fim. o dia dissolveu-se numa chuva copiosa. um aglomerado de telhas de um vilarejo visto de relance ou ainda uma estação semivazia de alguma cidadezinha anônima. uma vez que o céu escurecia e o vento soprava mais forte a cada quilômetro.

aumentando o tom de voz a fim de me fazer ouvir: . até que o rastro das lanternas do último carro.. não conseguia me lembrar de onde conhecia aquela voz.Não tem de quê.. .Você acabou de perder um. e ele me viu pela primeira vez e ficou paralisado. e então ele me reconheceu. Esboçou um sorriso e exclamou: . Aqui está. olhei as pernas longas. Ernie. e a escuridão da tarde havia sucumbido ao crepúsculo. batendo violentamente o portão da estação contra o vento gelado. proveniente do mar escuro. coberta de pingos de chuva.Ótimo. Assim que o trem diminuiu a marcha ao longo da plataforma. segurando o pacote nas mãos como uma oferenda. Encontrei um cabineiro empilhando gaiolas de galinhas num morrinhento depósito de encomendas. . avistei uma palmeira descomunal. Comecei a me sentir desencorajada. . Onde tem um telefone? .. o toco de lápis retirado de trás da orelha de Ernie. e a chuva que caía tremeluzia e dançava diante do sinal luminoso que mostrava "St Abbotts. Eram quase 16h45 quando chegamos ao entroncamento que anunciava o fim da viagem para mim. . O telefone e o táxi foram esquecidos por um momento.Não há muitos táxis nesta época do ano. Permaneci ali. que imediatamente se soltou da minha mão com a força do vento. Seu cabelo estava grudado à cabeça. O súbito impacto do forte vento gelado. carregando uma enorme caixa cheia de etiquetas vermelhas onde se lia VIDRO. Mas. no ímpeto de saltar do trem. e respondeu: .Olá. à espera de alguém que me oferecesse uma carona. Segui o fluxo dos viajantes por sobre a ponte de madeira até o prédio da estação mais ao longe. tenho que ir a Porthkerris. O trem finalmente parou. desanimador. Fiquei boquiaberta. o brim azul encharcado de lama até os joelhos e a capa de chuva preta.Levantou os olhos para o relógio na parede cujos ponteiros moviam-se morosamente. puxando a mochila atrás de mim. é esse. .Que coincidência fantástica. desapareceu no alto da montanha em direção à estrada principal. Parece que é aquele ali. inevitavelmente. A maioria dos outros passageiros encontrou-se com amigos que aguardavam ou atravessaram. De Londres. não avistei táxi algum. Se algum dia precisei de um amigo foi naquele momento. sentindo-me totalmente perdida e estranha. por Deus. a porta bateu. e grudei os olhos na porta esperando o homem reaparecer.Santo Deus! Era o homem que me vendera as duas cadeirinhas de cerejeira. Acho que chegou uma encomenda para mim. A estrada está alagada. . assim. segurei minha mala e pulei na plataforma. Deixei a mochila pesada deslizar para o chão.Olá. E. e o destino havia decidido me enviar a última pessoa na Terra que eu queria tornar a ver. O que está fazendo por aqui? Página 24    . ouvi. e foi então que ouvi o carro parar do lado de fora da estação. não? .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher foi que a chuva caiu ainda mais incessantemente. Seus olhos negros oscilaram de perplexidade.Terrível. o saguão à procura do toalete. surgiu um homem. Saí à procura da cabine. mais remotas ficavam minhas esperanças.Preciso pegar um táxi. foi a gota final. com a silhueta de um guarda-chuva quebrado contra o céu torrencial. Eu o ouvi dizer: . o motor de um carro descendo velozmente a montanha.Há um ônibus.Ah. quanto mais me deparava com os campos encharcados e as árvores desfolhadas pela ventania. nem por que ela me parecia tão familiar.. ambos derrotados diante da gravidade da situação. me fez arfar. quando saí da estação. encharcada e desesperada. Sr. mais alto do que a tempestade. na esperança de que me guiassem a um ponto de táxi. Gardner. E ser vista. Ajeitei a mochila nos ombros e abri a porta pesada. Sacudiu o corpo como um cão antes de atravessar o saguão e desaparecer atrás da porta do depósito. Eu os segui cegamente. vai ter que esperar um pouco. e nos fitamos um ao outro. Passa de hora em hora. Onde posso tomar um táxi? Ele balançou a cabeça lentamente.Há uma cabine bem ali. intencionalmente. Enquanto isso. Seu sorriso se abriu. Meus pés molhados começavam lentamente a congelar. ouvi os passos de alguém que corria e.Com licença. . Quer que eu assine? . envergonhada demais para pedir. .Posso chamar um táxi pelo telefone? . sentindo obscuramente que alguém havia me preparado uma armadilha maldosa e injusta. Noite horrível. Falei. e fui forçada a voltar ao guichê de passagens a fim de conseguir alguma ajuda. Muito obrigado. em seguida. Sim. sim. Quando ele surgiu. baldeação para Porthkerris". o senhor tem que assinar. Imaginei o papel sendo desamassado sobre a mesa. lá adiante.

notando meu jeans remendado. eu lhe dou uma carona.Então vamos. .disse o jovem. Ele me olhou de esguelha.Mais ou menos. apertando a bolsa entre as pernas. Quase ao mesmo tempo ele entrou no carro. Essa é toda a sua bagagem? . e era provável que ele viesse a descobrir a verdade. não tem? . que oferece cama e café-da-manhã. pegou minha mochila e a colocou ao lado da caixa. Só por uma noite.mas. Ainda estarão lá quando eu voltar. como se pudesse tomar conta de mim sozinha: . . mas ele disse: . Não..Ah.Acabei de descer do trem.Eu. Do Castle.Vou chamar um táxi. . . Fiquei observando-o. Qualquer coisa para me livrar dele. Pensei em fazer isso ao chegar. .AGORA ME DIGA UMA COISA. em Fish Lane. . .Já foi pegar as cadeiras? . tentando parecer autosuficiente.Eu estava oferecendo uma ajuda por um ou dois dias. Ela cuidou de mim por três meses ou mais antes de eu ter meu próprio canto. ele virou-se para mim.O que quer dizer? .Podemos ir de um extremo ao outro. Deixando a porta bater atrás de si.Veio passar férias aqui? . . . Mas nessa época do ano a maioria está fechada. Há seis meses. cobrindo apressadamente os dois volumes com um velho pedaço de lona.Não fiz reserva em nenhum hotel.Bom. em direção a Pothkerris. Sob a luz tênue.Vá entrando. . Mas eu nunca soube mentir. Qual hotel? Lancei-lhe um olhar exasperado e ele respondeu. deixando para trás a estação e entrando na estrada principal. Respondi: .Porthkerris está cheio deles. mas ele pareceu considerar o assunto encerrado.Vai demorar horas para chegar. Eu ainda hesitei. diminuindo a marcha. e a loja na New Kings Road.Isso soa bem e meio vago. estou indo mesmo para lá.Não é incômodo algum. .. Quero dizer que não sei . .Conheço. . se não me disser.A Porthkerris. e continuei.Mas. Kernow..O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Agora moro.Não.Só isso.E moro.. . De outro modo. Há um hotel em cada esquina. vai passar a noite na praia. não vou poder levá-la até lá.Bom. Eu obedeci. .. . Estou indo para Porthkerris. . Não sei. Kernow eu recomendo. minhas roupas cheiravam a cachorro molhado.fui rude. .. vou ficar num hotel.Aonde está indo? Tive de contar a ele. Mas. é melhor se decidir antes de chegar a Porthkerris. meus sapatos puídos e meu velho casaco de couro que eu conservava por ser quente e confortável.Seu próprio canto? Quer dizer que mora aqui? .. naquele momento. batendo a porta com força e ligando o motor como se não houvesse tempo a perder. mas não pude evitar. aparando-a com as costas e esperando que eu o seguisse. Fiquei interessada.Conhece algum que esteja aberto? . dirigindo-se até a porta para abri-la.Alguém vem buscá-la? Por pouco não menti e disse que sim. acomodando-me no banco do passageiro. Chegamos a um cruzamento e.. Mas já paguei por elas.Vou. Ele parecia estar me encurralando. ponderando: .. ele foi até o carro e guardou delicadamente a caixa na parte traseira.ele disse. Lá tem hotéis. Mas vai depender de quanto pode pagar. Pensei que morasse em Londres . avistei a pequena caminhonete estacionada. .É. com o pisca-alerta ligado. no alto da montanha. onde comprei as cadeiras? . até a Sra. não faz sentido os dois se molharem. Não conseguia controlar as palavras. .Assim é melhor. não precisa se incomodar. onde se troca de roupa para jantar e dançar o foxtrote ao som de uma orquestra. A Sra. Vai ficar em casa de amigos? . Então respondi que não. O carro rugiu montanha acima.Ótimo .. . Página 25    . e seu preço é bem acessível. Portanto passei à sua frente e entrei na escuridão furiosa da noite.

vou pegar uma xícara de chá para vocês. lá embaixo.Olhou casualmente para mim. Finalmente.O quarto está vazio.Tudo bem . entramos num bairro de ruelas e becos desnorteantes e fomos dar numa rua que margeava a enseada. ficaria sob o jugo daquela criatura manipuladora. em Fish Lane. e voltarei às. Enfim.Joss Gardner. Minha primeira impressão de Porthkerris. Ela pareceu encantada.. Está bem? . A Sra. Ela ficou de pé ao lado da lareira. . está bem quente aqui. com a porta fechada.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Guiamos em silêncio por alguns instantes. Mas não vou poder lhe oferecer o jantar de hoje à noite. parece que houve um chamado da via Trevose. . não a culpei por ficar em dúvida. ele me dirigiu um Página 26    . . por uma ou duas noites. Passamos por um vilarejo e por sobre um trecho de mata selvagem acima do mar. Sra. e. . e então descemos uma estrada arborizada dos dois lados. Kernow. estávamos todos do lado de dentro. . e pude ouvir o gemido do vento e o barulho próximo do mar. em seguida. Fiz menção de abrir a boca. pela primeira vez. no mínimo.. se quiserem. e estava com um incômodo pressentimento de que.. A porta se abriu e ele foi banhado por um veio de luz cálida que emanou do interior da casa.Não queremos chá . . pude dar uma boa olhada nela: uma senhora pequena.. em meio à escuridão e à tempestade..É. A rebentação estourava na areia e as ondas que retrocediam produziam um longo silvo. . mas. ..Olá. incerta. enquanto aguardava.. .disse Joss. Eu quis protestar. . .. se eu me envolvesse com aquele homem. .Eu posso alimentá-la. as ruas desertas e molhadas refletiam a luz e as valas escoavam a água da chuva.. não esperava ninguém. é o apelido de Jocelyn e não de Joseph. Naquela noite lúgubre. mas eu não sei direito. Kernow.. era. E vai ter que me dizer se quer ficar no Castle ou em Fish Lane. além de um pastelão de carne.Bem. . nós a seguimos até uma sala de estar pequenina e aconchegante. o carro diminuiu a marcha e encostou.. para buscá-la.Ela é uma moça de respeito e não vai roubar os talheres. Sra. sorrindo.Só queremos saber se tem uma cama para Rebecca. . não costumo receber hóspedes nesta época do ano. . hein? Tom foi até o alojamento da guarda costeira. Através dela. . e eu a amo como a uma mãe.Vou deixá-la aqui para que se instale e desfaça as malas. se eu fosse para Fish Lane. . Eu não tinha vindo a Porthkerris por outro motivo a não ser o de me encontrar com Grenville Bayliss.Então vai para a casa da Sra.ele comentou. não sei o seu nome . a julgar pela minha aparência e pelo casaco cheirando a cachorro. Mas entrem.a Sra. ele desceu do carro e tocou a campainha e. . Eu lhe garanto. saiam da chuva. querendo que ele sugerisse algo mais modesto. não tenho nada em casa. viramos numa rua estreita.Pôs o braço em volta dela e a beijou.Trouxe-lhe uma hóspede.Joss! . .Chegamos. . parecia quase desabitada. ele grudaria em mim feito um carrapicho.Bem. surgiram de repente.O que está fazendo aqui? .É Porthkerris? . mas Joss se adiantou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Seus olhos eram bonitos.Não. Kernow.. que usava óculos. através de troncos retorcidos e galhos torturados pelo vento. Em alta velocidade.Oh.ele disse. . de uma cidade estranha. virou-se para retirar minha mochila de debaixo da lona. e mal havia espaço para os três no estreito hall. De alguma forma. E eu não sei o seu.respondi. Cortinas de renda velavam as janelas e olhei de relance algumas estatuetas de meninas ao lado de cachorros e grandes vasos verdes com flores ornamentais.Isso é ótimo . mas fui novamente contida.Sabe.ele lhe disse. .. -A senhora é um anjo. Após ter dado essa informação desnecessária. . O Castle estava fora de questão. Kernow ajoelhou-se para atiçar o fogo e despejar mais carvão na lareira e.. mas ele encurtou logo a conversa. . Olhou para mim. não sei. não ouvi nenhum rojão. . meu Deus. porém desarrumada. as luzes cintilantes de uma cidadezinha. era óbvio.Venham para perto da lareira.ele olhou rapidamente para seu relógio 19h30. de um azul bastante claro. chinelos de dormir e um avental sobre o vestido marrom. Engoli. então talvez ela possa ficar. de idade.Rebecca Bayliss.. que tempo.. Kernow sorriu.Ele desligou o motor. Não vai se arrepender. fizemos a volta para entrar novamente no labirinto de ruas de pedras e casas aleatórias e assimétricas. com casas de varandas verdes e portas no nível da calçada. o Castle não. Tudo parecia bonito e decente. . Disse a ela que a senhora tinha o melhor hotel de Porthkerris.

É um rapaz adorável . 4 Página 27    . .. Mas estava limpo e logo estaria aquecido.a Sra. Kernow desceu as escadas e deixou-me à vontade. e a água do chuveiro é boa e quente. a Sra. Sempre digo que ficamos tão emporcalhados quando andamos nesses trens imundos. mas fiquei ali mesmo assim. O quarto era pequeno como os demais cômodos da casa. dizendo: . Ouvimos o ronco do motor do carro descendo a rua. caso queira tomar um banho. Agora venha.. imaginando o que estava fazendo naquela casinha e tentando descobrir por que o reaparecimento de Joss Gardner me causara um inexplicável incômodo. mas eu tenho um aquecedor elétrico que você pode usar.Vejo você mais tarde . O velho caixilho da janela tinha sido bem vedado com pedaços de borracha para evitar a entrada do vento... Kernow me disse. Não havia nada para se ver.Ele morou aqui comigo durante uns três meses. .e saiu. Depois de mostrar-me onde ficava o banheiro. traga sua malinha que vou lhe mostrar seu quarto. mobiliado com uma cama de casal enorme que ocupava quase todo o espaço. Ajoelhei-me perto da janela baixa a fim de cerrar as cortinas. É claro que ele vai estar frio. e o vidro escuro estava molhado de chuva...O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher sorriso amistoso e derradeiro.

Não é muito chique. Ainda brincando com o casaco. pois ele parou de rir de repente e chamou a Sra. três e corra. Lá dentro estava quente. Dois homens de idade jogavam dardos num dos cantos.onde estava escrito HOTEL -sobre a porta balançava e rangia com o vento.Poderia se importar. chamando primeiro pela Sra. Importa-se? . quase completamente encharcados. maquiei os olhos.Mas você vai se molhar. Continuei. Ele saiu atrás de mim.Agora . Enquanto apertava as tarraxas dos brincos de pérola. . parecia que estávamos dando uma volta num barco veloz e furado. na intenção de me ajudar a carregá-lo. meias finas pretas e um par de sapatos de salto com fivelas antiquadas que havia encontrado. Minha auto-estima começou a se esvair de mim. Joss sacudiu o corpo levemente. e logo em seguida ouvi sua voz no andar de baixo. relegando o papel de pária resgatada em que subitamente me encontrava. E nós dois percorremos. Num de seus lados. desabotoou e tirou sua capa de chuva preta e acomodou-a. ouvi.Ora. . dois. a curta distância entre o carro e o toldo da entrada.Um. levando-nos para longe dali.ele respondeu. . ele enrolou o casaco e o colocou em seus braços. viramos uma ou duas esquinas e passamos sob uma arcada de pedra que dava para uma pequena praça. Página 28    . Ajeitei o cabelo. num quiosque da Portobello Road.Depressa . Pendurei-o no braço e desci as escadas. fumaça de cachimbo e madeira embolorada. e continuava pesado feito chumbo. e o letreiro . Por baixo. Atravessamos a Fish Lane. Eu o havia colocado ao lado do aquecedor elétrico na esperança de que secasse.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Eu precisava de defesas. . desligou o motor e disse: .Deixe-me levar seu casaco. Poderia preferir o Castle. com uma expressão exasperada e. considerando o volume de água fora e dentro do carro.. com uma certa graça.. no corredor.. Uma luz cálida atravessava as pequenas vidraças da entrada arqueada. O carro soltou um guincho. Kernow.Sim.E abriu a porta para a cortina de chuva. fechamos bem as portas do carro para nos protegermos da tempestade. havia um hotel baixo e antigo. . . Ali.Oi. Um banho quente e roupas limpas me ajudaram a recuperar a calma.Não tenho outro.Joss. parando ruidosamente em frente à casa. e Joss estacionou cuidadosamente a caminhonete num lugar estreito entre dois outros carros. sobre meus ombros. olhou para mim. e eu me apressei em sair. retirou a capa de chuva dos meus ombros e abriu a porta para que eu entrasse à sua frente. E ainda está molhado. lentamente. os pneus trepidando sobre a rua de pedras. a apertar a tarraxa do brinco. Ligou o motor ruidoso. . . . Assim que ela apareceu. o teto era baixo e o lugar tinha o mesmo cheiro dos velhos pubs: cerveja. vesti o traje preto de mangas compridas. O calor tinha apenas enfatizado o odor de cachorro que andou na chuva.Aonde estamos indo? . o som da pequena caminhonete de Joss Gardner. Protestei: . embora pequenas poças d'água no meu assento e em meus pés me fizessem suspeitar de que o fiel automóvel não fosse mais tão inviolável quanto já fora um dia. a toda a velocidade. Precisava criar confiança e auto-estima. Joss. Kernow e em seguida por mim. que transformação. ao mesmo tempo. Peguei a bolsa e o casaco de couro. . É logo ali. Sente-se melhor agora? . mas ele continuava úmido. refresquei o corpo com o restinho da colônia cara que havia no vidro.Por que me importaria? .Ao Anchor. Ninguém nunca me ensinou.Olá. flexionando os joelhos por causa do peso. em meio ao farfalhar do vento tempestuoso. vai levá-la ao chão.estamos prontos.Não sei dançar foxtrote. amável. Havia um bar com bancos altos e mesas espalhadas pelo salão. O barman olhou para nós e disse: . e logo estávamos de novo na caminhonete. em seguida.Dançar o foxtrote ao som de uma orquestra? Ele sorriu e respondeu: . Havia uns quatro ou cinco carros parados do lado de fora.. Eu havia retirado um vestido da mochila inseparável e o pendurara na tentativa de que parecesse menos amassado. espanou a chuva da superfície macia do suéter.Não pode usar isto. ele usava um leve suéter cinza e um cachecol de algodão amarrado no pescoço. . há tempos. pedindolhe que o secasse para mim. e fez um gesto cômico.ele disse . e.perguntei. . ele começou a rir. e estava quase pronta a recobrar a compostura. Ele o puxou do meu braço. e devo ter aparentado minha fraqueza.

. caminhando para a porta. Um grupo de quatro pessoas mais velhas. a boca encantadora. pergunte a ele. .Tommy tinha cabelos grisalhos e muitas rugas. O cão se levantou. pois.Quem é o carpinteiro? .Como vai? . o que quiser saber a respeito de Porthkerris ou das pessoas que moram aqui. este é Tommy. Acendi um cigarro e olhei à minha volta. e quase instantaneamente alcançou o bolso para retirar dali uma caixa prateada e pegar outro cigarro.perguntou Tommy. ele riu subitamente de algo que seu companheiro lhe dissera. Os dois começaram a se levantar. ele deixava à mostra o perfil claro e distinto. E. Meus olhos passearam pelo salão. como se quisesse enfatizar seu ponto de vista. por alguma razão. gostando do que via. Minha atenção se dispersou. um jovem casal. discutiam. Sua cabeça tinha um contorno perfeito e seu cabelo espesso mais parecia uma raposa prateada. de repente. pela manga da jaqueta cinza de tweed.dissemos. puxou o punho da camisa para trás a fim de consultar o relógio e terminou seu drinque. . O magro apanhou uma capa de chuva pendurada no espaldar da cadeira e a jogou sobre os ombros feito um manto.Vai economizar um bom dinheiro. Enquanto Tommy preparava os drinques. Enquanto um era esbelto e elegante. Mas o homem com o cachorro decidira que era hora de ir. Os dois velhos jogavam dardos. vestidas elegantemente: os homens constrangidamente casuais e as mulheres inadvertidamente formais. Ele mora aqui desde garoto. Imaginei que estivessem hospedados no Castle e entediados com o tempo. Em pé. pois. pelo modo como acomodava as pernas sob a mesinha.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Joss colocou a capa de chuva num cabideiro e me levou até ele a fim de nos apresentar. Aparentava ser marinheiro nas horas vagas. de pelagem bonita e lustrosa. Em seguida esqueci o desapontamento. . inspecionei o homem que parecia ser o dono daquela criatura invejável e o achei quase tão interessante quanto seu animal. Sentado. o existencialismo? Pintura? Como iriam pagar o aluguel? Alguma coisa que os interessava profundamente. provavelmente mais de 1. quase como se estivesse posando para mim. se tiver sorte. Por um instante fiquei desapontada. um aplauso particular.90 metro. o rabo se mexia lentamente num movimento de aprovação. os dois pareciam mais diferentes do que nunca. Era um lindo cão.Está tudo pronto? . mas o gordo subitamente apagou seu cigarro no cinzeiro cheio que havia sobre a mesa. e notei que o cabelo castanho ostentava um corte um tanto ingênuo.Mais ou menos. Seu rabo era uma pluma sedosa de pêlo cor de cobre contrastando com o piso cinza lajeado. vestia um blazer azul-marinho apertado e o colarinho da camisa parecia enforcá-lo. O único olho que seu perfil me permitia observar era profundo e escuramente sombreado. o nariz era longo e aquilino. pois de frente sua estampa não estava à altura do perfil promissor e intrigante que possuía.Na Páscoa. mas havia um brilho de suor sobre sua sobrancelha avermelhada. curvados sobre a mesa e um par de drinques. Não estava excessivamente quente dentro do pub. . o rabo fazendo círculos exultantes. Não pareciam à vontade ali. o queixo fortemente torneado. de jeans e cabelos compridos. . Intrigada. e Joss pediu um uísque com soda para mim e um com água para si. produzindo um rangido estridente. Rebecca.Como estão as coisas? . acendeu impacientemente seu cigarro e engoliu seu uísque. talvez. de rosto vermelho. e virouse em nossa direção.Nada mal. Página 29    . de modo que um longo cacho oleoso fora penteado para cima e para o lado. com ávida e intensa concentração. o outro era baixo. disfarçando a cabeça quase completamente careca. O homem gordo. eles não combinavam em nada. empurrando as cadeiras. os dois conversaram amenidades como normalmente fazem os homens nos pubs. o tipo de pessoa que começa a ficar grisalha antes da hora. Sentamo-nos nos bancos. . e que talvez tivessem vindo visitar a região mais pobre da cidade.Eu mesmo. . Isso chamou minha atenção para o outro homem e fiquei surpresa. como peixes fora d'água. e foi então que avistei o cachorro. Enquanto eu o observava. pela extensão do pulso que emergia do punho da camisa xadrez. de vez em quando.Tommy. abominável. um setter grande e marrom. . Ele estava parado ao lado do dono e.Quando vai abrir? . um tão baixo e gordo e o outro tão magro e alto. Tirou a mão do queixo. O homem com o cachorro não estava fumando. e mal podiam esperar para retornar ao conforto das almofadas de veludo no grande hotel na montanha. aparentemente aquiescendo à decisão do outro. gordo. com o cotovelo na mesa e o queixo apoiado sobre o punho. suspeitei que fosse alto. esta é Rebecca.

Meu primo. por sorte. situada num nicho estreito com vista para a baía. Minha família. ele não deu atenção ao meu blefe. Além disso. Presumi que tivesse um encontro urgente e não pensei mais no assunto. E partiu. para a senhorita também". sem dizer uma palavra. .Boa noite. levou-me a uma porta. Eu continuava zangada e não queria olhar para ele. olhei para ele.Pensei que estivesse em Londres. Sr. que dava para a escadaria de um pequeno restaurante.Se não quer que eu fale com Eliot Bayliss. O menino de Roger. deixando-nos sozinhos. Senti minha cabeça girar como se alguém a tivesse puxado.Tome outro drinque. o gordo. Por alguma razão a falta de tato de Joss era um tapa na cara. Página 30    . Eliot.disse o homem alto. Esperei ser apresentada. .Boa noite.Eliot Bayliss. e a garçonete saiu. . A maioria das mesas já estava ocupada. O silêncio cresceu entre nós. . Após algum tempo. estava faminta. mas isso não aconteceu.Você sabe meu nome. levandonos para a que. Não queria mais ficar nem um minuto com aquele homem mal-educado e despótico. pois parecia não haver mais nada a ser feito.foi a primeira pergunta que passou pela minha cabeça. . sem piscar. Eu o segui.Joss. .Grenville Bayliss é meu avô também. deixando a porta balançando atrás de si. . . avistei os contornos dos telhados lavados pela chuva e. Por que não contou a ele? Por que não me deixou conhecê-lo? . talvez possa me falar sobre ele.Oi . . Pus-me a desenhar com o dedo sobre a toalha de mesa e o ouvi pedir o jantar. Era tarde demais. .Vai encontrá-lo logo. nos fundos do bar. como se estivesse surpresa com seu comportamento descuidado. .respondeu o barman. deslizei do banco para segui-lo. . A essa altura. e Joss respondeu que "Sim. Comentei em seguida: .disse Joss. Observei-o terminar seu drinque e descer do banco e. Ouvi o barulho do motor do carro lá fora. saíra silenciosamente.Eu não sabia. por um momento. Tommy .Bom. . eu não estava autorizada a fazer minha própria escolha. Pensei que realmente não quisesse.Ele é meu primo. O rangido da porta chamou minha atenção.disse Joss. Ele já havia desaparecido. Os olhos encovados moveram-se em minha direção e voltaram-se para Joss. enquanto abria a porta e deixava o cão passar à sua frente. provavelmente sentindo sua presença.Também não quero comer. E Joss.perguntei.Claro . Pela janela. Aparentemente. mais além. Nós nos entreolhamos. mas uma mão segurou meu braço detendo-me. .Nesse caso. O neto de Grenville Bayliss. iria me levar de volta a Fish Lane e me deixar com fome.Direi ao velho que encontrei você. era a melhor mesa do restaurante. decerto. simplesmente pagou pelos drinques e. .Quem é ele? . parou de falar com Tommy Williams e virou-se para ver quem estava atrás dele. Há quanto tempo! .O que quer saber? . eu estava bastante chateada. Sem pensar. imaginei que ele fosse respeitar minha vontade.Faça isso. e eu me libertei de sua mão. Bayliss .ele se despediu do barman. Está muito tarde e você está molhada demais para reuniões familiares. Mas. . Ouvi a garçonete dizer: "Para a senhorita também?". Por um segundo ambos pareceram desconcertados.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher ele reconheceu Joss. .Achei que deveria haver alguma ligação .Não quero tomar mais nada. a escuridão líquida da enseada manchada pelo reflexo difuso dos postes de luz da beira do cais e pelas luzes dos barcos pesqueiros. Seu olhar sombrio encontrou o meu. . vamos jantar. e virei-me para encontrar Joss me segurando. nos veremos por aí. Por um surpreendente minuto nossos olhares se chocaram. friamente. Voltei.Não. . Finalmente: . mas uma garçonete reconheceu Joss e veio lhe desejar boa noite. e em seguida o homem alto abriu um sorriso que delineou suas bochechas e enrugou seus olhos. e era impossível não se sentir atraída por tamanho charme. O outro homem. . e tive a ridícula sensação de que ele estava esperando que eu me desculpasse com ele.Ele é casado? . .concordou Joss. O filho de Molhe.Sua voz era agradável e amistosa. sem descer do banco.

Grenville Bayliss está com 80 anos.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Nunca nos encontramos.Estou fazendo um trabalho em Boscarva. ela e Eliot acabaram se mudando para lá.Tal idéia me pareceu assustadora. . pois de repente tudo me pareceu distante.perguntei a ele.Os Pettifers? Joss franziu a testa. algumas delas precisam urgentemente de conserto. Nunca estive aqui antes.E finalmente admiti: .Eu sabia que Grenville tinha uma filha e uma neta.Minha mãe dizia que ele era assustador. É um homem atraente . .É simples .Seu avô sabe disso? .Restaura móveis antigos? Deve estar brincando.Como sabe a respeito dos Pettifers? .Ele está muito fraco? . Eu estava tão faminta que tomei tudo.Ele nem me conhece. As gavetas encolheram. . Estava grossa..ele se inclinou na cadeira. e seu avô ficou sozinho com Pettifer.. não lhe fica bem.Nunca imaginei que eles ainda estivessem lá.disse.. Joss havia engolido a sopa às pressas como eu e agora estava passando manteiga num pãozinho.há apenas alguns dias -.Não sei. Grenville Bayliss teve um enfarte. . Ela nunca usou o sobrenome dele..Sinto muito ..Meu pai deixou minha mãe antes de eu nascer. sendo assim. sendo enlouquecedoramente vagaroso.Não sabe muito sobre sua família. E agora.Suponho que terei que lhe contar. .Você veio para lhe dar a notícia? . restauro móveis antigos.De uma forma ou de outra . . . Quando finalmente descansei a colher.Não sei nem como chegar até a casa. num tom desafiador. Não quis sair de Boscarva e então ficou com um casal. .reiterei . Ainda é? Joss fez uma careta. .É terrível .Meu avô é doente? . e as pernas das cadeiras se quebraram..Ele sabe que está aqui? Em Porthkerris? Meneei a cabeça. Foi quando parou de pintar. até aparecer o fundo do prato. .respondeu ele. mora com a mãe. Mas dessa vez eu não me rebelei. marrom e quentíssima. até que não foi mal. .Como sabe tanto a respeito da família Bayliss? .Para quem não queria comer.Que tipo de trabalho? . sem dizer uma palavra.ele fez um gesto vago. E não me olhe desse jeito. A garçonete nos trouxe a sopa. Por acaso. É bastante forte.Mora sozinho? . . . . .Há uns 10 anos. não que jamais tenham sido polidas. . levantei os olhos e vi que Joss estava rindo de mim.ele acrescentou. Fiquei aflita.respondeu. ele não está fraco. . . há alguns dias. fui eu que consertei a perna de sua cadeira de cerejeira.. esticando as mãos compridas sobre a beirada da mesa.lembrei-me das antigas reuniões realizadas na quentura da cozinha. Página 31    . . Pettifer morreu no ano passado. e Pettifer não está muito atrás. Eles têm uma casa no alto de High Cross. distraidamente -. .Onde está sua mãe agora? . Em Ibiza .Ela morreu.Falo sério.Não. mas não dei muita importância ao fato de seu sobrenome ser Bayliss. .Não .disse Joss -.A Sra. mas há cerca de um ano mudaram para Boscarva. chama-se Lisa? Fiz um gesto afirmativo com a cabeça. a uns 10 quilômetros daqui. . Meio a contragosto. por não ter o que dizer. E a casa de Grenville Bayliss é cheia de peças antigas e valiosas.Sua mãe. . você vai deixá-lo chocado..Joss admitiu. . não é? .Minha mãe me contou . . Empurrei o prato de sopa vazio e pousei os cotovelos sobre a mesa. . . mas o aquecedor central que ele instalou há alguns anos as deixou arruinadas. . Mollie Bayliss queria que ele vendesse a propriedade de Boscarva e que os dois fossem para High Cross.Não. mas o velho é teimoso feito uma mula. . Mas parece que é forte como um touro e teve uma recuperação milagrosa.. para ficarem com o velho.Bom. nada fazendo para me consolar. devo acrescentar. Ele já ganhou muito dinheiro e investiu grande parte em antigüidades.Não. o verniz ressecou e rachou. .. Mas está ficando velho.

Vejamos. de tomar a sopa. Comentei: . mas deixou o motor ligado.Há quanto tempo trabalha com isso? . Peguei o cálice de vinho que. antes disso. Ele riu. . E isso incomodou a mim. o que estava fazendo naquela loja em Londres? . quando a garçonete saiu. Você disse sete. Tenho uma oficina para isso. .É tudo o que está fazendo em Porthkerris? Restaurando a mobília de Grenville Bayliss? . de alguma forma. trazendo filés. mas.Amanhã. Franzi a testa. Mas vou continuar restaurando antigüidades. Morei com ele e sua esposa. de móveis modernos. Reservei um quartinho no último andar. Não tinha ouvido Joss pedir o vinho. perguntei: . quando já estava apto.Não faço a menor idéia. . Ele sorriu. ele é meu amigo. claro. E.Eliot? Gerencia uma oficina de automóveis em High Cross. . saí da escola com 17 anos e estou com 24 agora.Não. empreguei-me como aprendiz de um velho marceneiro por mais dois anos.Na loja de Tristam? Já lhe falei.Ah.Eu nunca disse que não gostava. Eu lhe agradeci. Venho aqui de vez em quando desde então. brilhava feito rubi. poderá conhecer onde moro. enquanto ele terminava. por que não come seu filé antes que esfrie? ELE ME LEVOU PARA CASA. Havia tantas coincidências.Se trabalha aqui. batatas fritas e as tigelas de salada. Joss parou o carro em frente à casa da Sra.. polindo e criando formas. .Vou. Agora. gostava da idéia de eles trabalharem com madeira e coisas antigas e bonitas. Mercedes. e é por isso que pôde ficar com meu quarto na casa da Sra. Meu pai tem um primo que administra um rancho de gado nas Montanhas Rochosas. Continuava chovendo e eu estava mortalmente cansada. Tomei um gole do vinho e fiquei olhando para Joss. Nossas vidas pareciam entrelaçadas. achei que parecia um rancheiro.O que Eliot Bayliss faz? . . Fiz algumas contas. estudei marcenaria e carpintaria quatro anos numa escola profissionalizante de Londres e. fiz de tudo um pouco na oficina e aprendi tudo o que sei.Por Deus..ele franziu a testa. Olhei-o com antipatia. Kernow. não... . ele poderá conseguir qualquer coisa para você. moldando e medindo. Se você tiver o tipo certo de talão de cheques. .A líder de um orfanato bem administrado. e mais uma vez estávamos em lados opostos. .Tirei um ano de férias para viajar.Porquê? Ele olhou para cima e fez uma cara engraçada..Mas não gosta. vegetais. fiquei incomodada.Mas é preciso aprender. . . como as cordas de um embrulho. Um dia. a garçonete retirou os pratos vazios e trouxe uma garrafa de vinho tinto. Página 32    . Trabalhei lá como rancheiro durante nove meses ou mais . . . vidros e tecidos. desejei-lhe boa noite e ameacei abrir a porta mas.São apenas seis anos. . Kernow. . Olhei-o terminar o vinho e mais uma vez senti o mesmo incômodo de antes. no sudoeste do Colorado.. contra a luz. Eu sabia que deveria lhe fazer uma porção de perguntas. E agora estou tentando colocar tudo em ordem antes da Páscoa ou do Pentecostes ou quando realmente começarem as vendas de verão. Um breve lance de esgrima. então faz mais ou menos sete anos. . Primeiro.Do que está rindo? Contei a ele: . Meus pais diziam que eu estava ficando provinciano. sempre passo por lá quando vou à cidade. Alfa Romeo. em Sussex.Não.E sabe o que você parecia? Parei de rir. Estou abrindo uma loja. a garçonete voltou à nossa mesa. lá na loja.A primeira vez que o vi. quando você achar que sou digno de confiança. e o observei encher os dois cálices com seus dedos longos e finos. ele me segurou. . Aluguei um prédio junto à enseada há cerca de seis meses. Ignorei sua investida. antes de começar. alegremente.Você não gosta dele.ele perguntou.É uma loja de antigüidades? . Vai a Boscarva? . onde moro atualmente. Virei para olhá-lo. parecia mesmo.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . gosta? .Talvez fosse mais correto dizer que ele não gosta de mim. especializada em carros usados de alta potência.

no pequeno quintal atrás da casa.Não.Além do mais. Fazia frio. o Sr. a janelinha do meu quarto. e é um pouco arriscado para Pettifer dirigir aquele carro enorme por essas estradas estreitas. Sentei-me à mesa da cozinha. . antes que fôssemos levadas pelo sentimentalismo. no verão e no inverno. Além disso. .Uma xícara de chá.Jantou bem ontem à noite? Foi ao Anchor? O restaurante de Tommy Williams é muito bom.respondi.De Lisa. . Ela olhou para mim e franziu a testa. .Acho que Joss pode tomar conta de si mesmo. . Virei pegá-la de carro. pendurando na corda a roupa lavada.. Ouvi quando Joss a trouxe para casa. graças a Deus. Kernow não acreditava no movimento de libertação da mulher. está sempre cheio.É melhor se apressar. Página 33    . todo mundo.Agora coma antes que esfrie. . no verão o tráfego fica intenso por causa dos turistas.Está bem . atravessado por nuvens brancas que navegavam a uma certa velocidade. Às vezes eu vou até sua casa fazer uma faxina e trago sua roupa suja para lavar. Kernow.. . É um dos moradores mais antigos.Vou levá-la.Boa noite. Ele venerava sua mãe. eu queria estar lá para ver a cara do velho. Kernow. é uma longa caminhada montanha acima.Não sei como chegar lá. Além disso. ele vive ocupado demais trabalhando para o Sr.Posso ir sozinha.Seu avô?. Kernow. . Ela virou o toucinho num prato e o colocou à minha frente. na casa da Sra. .Sra.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Você não sabe onde é. O lugar fica abarrotado deles. Às 11 horas? Discutir com ele era o mesmo que argumentar com um rolo compressor. Ele abriu a porta para mim e a empurrou. Rapidamente. ela disse: .. Ele não pode mais descer e subir a montanha como costumava fazer. Quer tomar seu café-da-manhã? . batendo lençóis e toalhas.Sim.Ela puxou uma cadeira e foi se sentando lentamente. formava um painel quadrado azul-claro. Bayliss não sabe que está aqui? . . falei: .Vejo-a pela manhã.. Ah. . mas quando apareci entre uma camisa e uma anágua velha e remendada ela se assustou. Bayliss? .Não está certo um homem fazer o trabalho de uma mulher. Costumava expor suas telas todos os anos. A princípio. . . mas parou de chover. ela pôs a chaleira no fogo e começou a fritar toucinho. contei para ele ontem à noite. ela não me viu. Quando acordei.Ela era uma garotinha adorável . . Rebecca. Senti falta dele quando se mudou.Todo mundo o conhece.Boa noite. . Uma lágrima brilhou.E o Sr.Filha de Lisa. talvez. e vinha muita gente de Londres. Quando terminei. a única diferença era que tinha cabelos castanhos e você é loura.Você me deu um susto. Notei que a tinha chocado. mas eu me levantei da cama bravamente e desci as escadas à procura da Sra.e em seguida: -Você é filha de quem? . Às vezes parece que metade da população do país está nesta cidadezinha.A senhora conhece o Sr. Bayliss. Ele mora aqui há quase cinqüenta anos. O susto a divertiu e ela soltou uma risada estridente. Ele é um rapaz adorável. Pensei que ainda estivesse dormindo! Dormiu bem? Esse vento enjoado continua a soprar. . Sentimos falta dela quando se foi e nunca mais voltou. . como se nós duas fôssemos um mecanismo de duplo efeito. Onde está agora? Contei a ela.Era óbvio que a Sra. É claro que ultimamente não o temos visto. . gente famosa. e então ela pegou a cesta vazia e eu a segui para dentro da casa. -Posso vê-la em você. Ande logo.ela me encarou.contei-lhe. 5 O vento não parou de soprar a noite inteira.Joss sabe disso? Isso parecia irrelevante. Encontrei-a do lado de fora. . . . Bayliss é meu avô . . E eu estava exausta. Ajudei-a a pendurar o restante da roupa. É triste um jovem como ele ter de viver sozinho e não ter ninguém com quem contar. E foi um pintor maravilhoso antes de adoecer.

as velhas sebes destruídas. resplandecente. sem fazer idéia do problema que estava causando. um carro surgiu atrás de mim. ela me confundiu ainda mais. a luminosidade revelou-se fascinante. pilhas de tijolos e concreto espalhavam-se por toda parte e. a presença de Joss em Boscarva lhe dava a liberdade de ir e vir quando bem quisesse. Menos de 3. Enquanto eu estava ali parada. Continuei a subir. como um estandarte envaidecido. Aquilo também era uma campina. Um homem como Eliot ficaria ressentido com tal comportamento. e o homem que desceu dele. um tapume anunciava o responsável pelo massacre. por grossos estrepeiros e olmeiros atrofiados.ladeadas eventualmente por algumas fileiras de casas -. disso eu tinha certeza. e as janelas davam de frente umas para as outras. ela estava subitamente ao meu lado. na noite anterior eu havia sido completamente submissa e condescendente. afinal. e de repente aconteceu uma coisa engraçada. Máquinas misturavam cimento. Não faria mal algum ao vasto ego de Joss chegar aqui e descobrir que eu havia ido sem ele. por fim. diante de tudo. parecia-me totalmente familiar. estava morando em Boscarva. sem fôlego. E embora eu mal tivesse pensado em minha mãe desde que tomara a decisão de vir a Porthkerris. Podia ser encontrado ali. Fiquei olhando para ela. deixei de observar o que me cercava. Ou havia sido. Aquele lugar não era inteiramente novo para mim. nas horas mais estranhas do dia. as gaivotas gritavam e velejavam no azul do céu com suas asas brancas. ao contrário. esforçando-se como eu. ERNEST PADLOW VANTAJOSAS CASAS AFASTADAS À VENDA Dirija-se à Alameda do Mar. e Joss. redesenhando mentalmente todo o projeto. Eliot. lembrei-me da promessa de Joss de chegar às 11 horas e levarme para Boscarva em sua caminhonete caindo aos pedaços. a fazenda tivesse sido comprada. que se curvava a distância e margeava o prado verdejante.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Tentando me explicar. sua casa. abaixo. subindo os degraus das ruas com suas pernas longas. por lances de escada e vielas íngremes. Sua presença me incomodava. raiado de jade e púrpura e salpicado de carneirinhos brancos. quando o sol despontou por detrás das nuvens galopantes. e o oceano se revelava. mas agora a estrada se aplainara sob meus pés e pude parar e apreciar a paisagem à minha volta e me certificar da direção a ser tomada.50 metros entre si. Fez-me sentir menos sozinha e bem mais encorajada. embora com certa relutância. Olhei ao meu redor. parando em frente ao tapume. Meu coração lamentou os prados e as oportunidades perdidas. feliz por não ter esperado por Joss. um caminhão de carga encalhara num mar de lama. Era um vento gelado. remendado por miniaturas de fazendolas e campinas. cheirando a maresia. o pior de tudo. Olhando para ela. Era óbvio que não havia nenhuma simpatia entre ele e Eliot Bayliss. coisa que eu compreendia facilmente. a seu tempo. Senti-me em casa. Espalhava-se pelo horizonte dominado pelo céu e. atravessado por vales profundos. A medida que eu caminhava. Entretida com os pensamentos e no afã da subida. Era um antigo jaguar azul-marinho. mas eu não fazia idéia do motivo. reagiria a tal ressentimento. sozinha. Lá fora. acima. Caminhei e logo estava subindo a montanha por estreitas estradas de pedra . usava um casaco de Página 34    . porém. como se tivesse retomado para um lugar em que morara a vida inteira. azul-escuro. tirando minhas dúvidas e me explicando tudo o que eu quis saber. como uma corrente de ar numa chaminé. a cidade e a enseada pareciam insignificantes brinquedos. tomando fôlego. Ele havia sido. desde então. a cidade tornava-se menor. A cidade ficara para trás. Eu estava no topo da montanha. encontrou um velho envelope e um toco de lápis e desenhou um mapa simplificado. Era um Bayliss e a casa seria. onde riachos estreitos corriam para encontrar o mar. e. Os dois não tinham nada em comum. Porthkerris Telefone: Porthkerris 873 As casas eram realmente afastadas. Quanto mais altura eu ganhava. inesperadamente. um ano atrás. por sua vez. Tudo parecia por terminar. mas só um pouco. fui instantaneamente açoitada pelas rajadas de vento que formavam um túnel pela rua estreita. às vezes sendo intrometido e. Fui confortada pela sensação de déjà-vu. as máquinas de terraplanagem trazidas. mais forte tornava-se o vento. à frente estendia-se o litoral escarpado. talvez quando sua presença não era nem conveniente nem bem-vinda. Além do mais. Por outro lado. E talvez. Fiquei imaginando-o tão à vontade com todos. a terra rica revolvida e aplainada e uma nova propriedade estivesse sendo erguida. bastante franco comigo. Tal pensamento me animou consideravelmente e subi as escadas para pegar o casaco. batendo a porta atrás de si com um barulho surdo. mas de repente me pareceu uma idéia bem melhor ir imediatamente.

. e agora eu estava realmente no campo. numa fazenda de prados pastados por cabeças de gado de aspecto dócil. Enquanto falava.Olhou a devastação à sua volta com uma certa dose de satisfação. saí da frente para que ele passasse e subisse a montanha. em direção ao mar. Franzi a testa. Não conseguia imaginar o que fazer nem o que dizer. Seu sorriso me era familiar. voltada para mim mesma. Quando o carro se aproximou. . O carro freou em seguida fazendo os pneus cantarem e uma chuva de pedrinhas voarem das rodas traseiras. Verá a casa mais embaixo. ouvi o ronco do motor de um carro vindo a alguma velocidade pela estrada.O senhor é o mestre-de-obras? . . Minha mente estava. . Ele estava sorrindo. . Ela possui telhas de ardósia e um enorme jardim em volta. No Anchor.Não.Turista? .Não quero comprar uma casa. . . A vista daqui é ótima. com menos velocidade.Bom dia.Não.A vista daqui de cima é linda. Como não o fiz. Cerca de 1 quilômetro. um modelo esporte antigo. A estrada levava montanha abaixo. . . ele perdeu o ar bondoso. Parei diante dos portões abertos e olhei para a entrada de carros.falei. . caso conseguisse chegar à casa. . . Não consegui enxergar a casa. Mas não.Procurando por Eliot? . a entrada de carros fazia uma curva e sumia de vista. Ele esperou que eu acrescentasse alguma coisa à resposta. não chegou a me oferecer um. . mas estava enganada. ele tentou fazer uma piada. e o sol brilhou naquele instante. ele puxou um cigarro e o acendeu.É. Não há como errar. menos se briga. Se quer ir a Boscarva.Não. transformando a grama espessa em verde-esmeralda. Fiquei surpresa. . . pegue aquela estradinha que desce a montanha.Por acaso já fomos apresentados antes? . Pego de surpresa.Mas deveria. em direção ao mar azul.sorri polidamente. . De dentro da propriedade. Elas são um estrondoso sucesso de vendas.É melhor fora da alta estação. .Tinha um bocado de gente querendo este lugar.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher operário e carregava uma prancheta e um punhado de papéis que balançavam ao vento. Violetas selvagens e prímulas floresciam nas sebes viçosas. novamente como se fôssemos velhos amigos.Sou Ernest Padlow. inesperada e compassivamente. E então ele deu marcha à ré e foi voltando. mas ainda pude avistar o motorista e o grande setter sentado no banco traseiro. sentindo minha coragem esvair-se de mim como a água de uma banheira cuja tampa fora retirada do ralo.Tenho certeza que são. Seus olhos tornaram-se agudos como seixos em seu rosto corado. Virou-se e me viu. e altas sebes de olmeiros inclinavam-se empurradas pela fúria implacável dos ventos. decida-se logo.É um bom investimento. tentando ajeitar o cabelo sobre a careca. Sua expressão tornou-se ardilosa. com a capota abaixada.Se quiser uma casa. Voltou a atenção para mim. tomando o mesmo caminho pelo qual eu havia chegado. em minha direção. Pensei não ter sido notada. . e eu consegui convencê-la a me vender. hesitou apenas por um segundo para então caminhar em minha direção.Adeus. sentindo que seu olhar me seguia. Eu já o tinha visto antes. Virei-me e comecei a andar. . E então ele voltou a falar e eu me virei para ouvi-lo.Obrigada . é o que sempre digo: quanto menos se fala. como se fôssemos velhos conhecidos. Na noite passada. com um ar delirante e satisfeito de qualquer cão sendo levado para um passeio em carro aberto.Estou procurando por Boscarva .Bom. ao Página 35    . mas a dona da terra era uma viúva. obrigada. mesmo sem ver. Fiz uma curva e avistei os portões brancos entre duas muretas de pedra.Não . Conversando com Eliot Bayliss. Ele desviou o olhar para o tapume. . seus dedos eram manchados de nicotina e ele me parecia o homem menos charmoso do mundo..Sou. . de certa forma.Pensando em comprar uma casa? . .ele olhou para o tapume atrás de si com um certo orgulho.Sei. Não tem muita gente..Boscarva? A propriedade do velho Bayliss? .

. . Quero dizer.disse Eliot. Lisa Bayliss? .Como ele se chama? . Finalmente ele disse: . sobre meu casaco surrado e o jeans remendado. . .Senti-me uma tola em meu casaco velho.Bom dia. Eliot. Grenville Bayliss é meu avô também.. se ele decidir vir hoje. Joss me contou ontem à noite. A caligrafia pontiaguda era inconfundível. Não demonstraram surpresa nem prazer.perguntou Eliot gentilmente. .. Sou Eliot Bayliss.Você é filha de Lisa? . até que parou e seu motor foi desligado.disse o carteiro. Eliot Bayliss. seu focinho estava frio. Bayliss. Usava um casaco de pele de carneiro e sua expressão era de contentamento ou talvez de perplexidade. Entrei no carro e fechei a porta. provavelmente rumo a alguma fazenda distante. para lhe contar sobre a morte de Lisa. com um sorriso e um aceno. inabalável. . . Irmã de Roger. saindo do carro para pegar a correspondência e os jornais das mãos do carteiro. Tentei afastá-los da cara. Página 36    .Bem . .Não. . . .. . apenas me encararam sem expressão.Eu sei. Outro carro. Ele não costuma aparecer antes do meio-dia.O que vou fazer com você? Eu mal o ouvi. . Eu não havia pensado nisso.Foi. não estou. . . Virou a carta e leu o nome de Otto. não estou procurando por ele. por essa eu não esperava. É de um homem chamado Otto Pedersen.Sou sua prima. que mora em Ibiza. com um dos braços apoiados sobre o volante. não foi? No Anchor? Com Joss.Olá . .E.. com uma certa autoridade: . Ele continuou a me olhar fixamente. verde-acinzentados. Um carro é um bom lugar para confidências. Vai economizar a viagem. Isto é.Não. A que está em cima. Sua tia. Seus olhos tinham uma cor estranha. . . continuou seu caminho. Quero dizer. Ele está escrevendo para. Rufus. . sacolejando alegremente estrada abaixo.disse ele. Ela morava com Otto em Ibiza. . A pilha de cartas foi deixada em seu colo e por cima havia um envelope aéreo com o selo de Ibiza. sorrindo para mim. ele inclinou-se para abrir a porta do carro e disse.Como sabia? . .Como posso entrar e entregar a correspondência se você estaciona o carro na frente do portão? .E. Grenville Bayliss. Olhou para mim. franzindo a testa.disse ele.Rufus. .Seria bom se todos fizessem meu trabalho por mim. com o vento soprando os cabelos sobre meu rosto. Mas dessa vez era o furgão dos Correios. O cachorro inclinou-se para a frente e farejou minha orelha. ainda não chegou. para seu avô. Pude sentir seu olhar sobre mim. como seixos lavados pela correnteza de um riacho. Eliot entrou no carro novamente.Parece perdida. O furgão freou e o carteiro baixou o vidro da janela para falar com Eliot de maneira jovial: .Ótimo .. Não tem telefone e não se é interrompido inesperadamente.Eu a vi na noite passada.Por que quer ver meu avô? .. . eu queria ver o velho Sr. . ele estava intrigado com meu relacionamento com Joss.Ah.Conheço sua letra.Então por quem está procurando? .Lisa. . e pus o braço direito sobre meu ombro esquerdo para acariciar sua orelha longa e aveludada. pegou o envelope nas mãos. .Está procurando por ele? Pelo que sei. pois ele continuou a falar do mesmo modo gentil e amistoso: . franzindo levemente a testa.perguntei.Virei o rosto e olhei-o nos olhos. então falei: . Minha mãe.Eu levo.Talvez eu possa ajudá-la.É um pouco cedo para isso.Essa carta. Uma pequena ruga surgiu entre suas sobrancelhas.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher lugar onde eu estava.Desculpe . Naturalmente. Eu o conheço.Eu. Devo ter externado em meu rosto minha decepção.Sim.Ora. . o Vermelho. observou-me por sobre o banco vazio do passageiro. endereçado ao Sr.Sou.Entre. responde? Fui salva por mais uma interrupção. como não respondi. Ela morreu há cerca de uma semana. . Mas isso não responde à minha pergunta.

Eu não sabia nada sobre Boscarva..Por que não espera aqui enquanto vou tentar achar minha mãe e apresentá-la a você? Gostaria de uma xícara de café? . deveríamos ter cuidado. Fechava as cortinas contra a escuridão e a chuva e fazia as crianças sentirem-se seguras e queridas. com cortinas de seda bege." Assim dissera minha mãe.. e então..ele sorriu. o sol saiu de trás de uma nuvem e. é claro.. . como se tomasse uma decisão súbita. inclusive algumas pequenas peças de jade. Foi uma coincidência.Fique à vontade. Pettifer havia morrido. e a Sra. subitamente o tempo ficou quente demais. Na lareira entalhada em pinho e adornada com ladrilhos holandeses o fogo crepitava jovialmente. essa carta de Otto Pedersen. Vou pedir a Pettifer. Coloquei-o sobre uma cadeira onde ele ficou parecendo uma enorme criatura morta. Minha mãe nunca me contou até a noite em que morreu.Onde entra Joss nessa história? .Incômodo algum. e ele desapareceu. mas. seguindo o caminho.E nunca esteve aqui antes? . . Sozinha.. ele jogou a pilha de cartas em meu colo.Bem. A porta se fechou suavemente.Se não for incômodo. ligou o carro e fez a volta para entrar no portão da casa. aqui está. uma série de vasos de flores.Grenville está velho. um par de luvas de jardinagem e uma coleira de cachorro. Notei um armário envidraçado cheio de tesouros orientais. . .. escondida por um telhado rasteiro e cinza. vermelhos e fúcsia. não sabe? .Eu o conheci em Londres.disse Eliot. Achei mesmo que ele fosse escrever.Na casa da Sra. Sabe disso. cheia de velhas lembranças.Acho que. . Pettifer era a cozinheira.Moro. um aspirador de pó zumbia.Ele abriu a porta atrás de si. nem grande demais. . E havia um cheiro de pedra escovada. E doente. piso velho encerado e anos e anos de cinzas de lenha. ela levava Lisa e o irmão até a cozinha e preparava torradas com manteiga. esperando por mim. observei a sala onde me deixaram esperando. Olhei à Página 37    .Sim. Ao descermos do carro. Era vigorosa e transpirava vivacidade.E agora ele já fez isso por você . "Pettifer também esteve na Marinha. como não houve resposta. .. Talvez minha mãe fosse a pessoa ideal para. triste e nostálgica..Eu. Passamos pela varanda e entramos no saguão escuro revestido de papel e iluminado pela enorme janela na curva da escadaria. e fiquei imaginando se seriam as que minha mãe mencionara.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Não era bem isso que eu desejava ouvir. Eu havia imaginado Boscarva como uma casa antiga. e lá dentro pude ver o piso de lajotas vermelhas. Nem pequena. Mas estava com medo de ter que dar a notícia a todos vocês. no passado. e de repente pareceu mais novo. Aconteceu de ele estar na estação quando meu trem chegou. . é claro. enxerguei a linha azul do mar. . e a fumaça subia alto pela chaminé. .O que você acha? Levando-a para casa.Quando chegou aqui? . . além da balaustrada. Boscarva. com o cachorro atrás de si.Você mora em Londres? .Foi.Sei. Fizemos uma curva na estradinha da propriedade e lá estava ela. Por que não tira o casaco? Fiz isso. Eliot parou no primeiro degrau da escadaria e chamou: .Era complicado demais para explicar. . revestida em tons pastel e com sensível aroma de flores primaveris no ar..É melhor vir comigo. desmentindo os olhos de cor estranha e os cabelos grossos e prateados. . E Joss me dissera que a Sra. Voltamos ao saguão e passamos por uma porta que dava para uma sala de estar comprida e de teto baixo. Não sabia que Grenville Bayliss era meu avô. Uma casa de pedras acinzentadas.Ontem à noite. em Fish Lane. capturado pelos braços abertos da casa protegida do vento norte. gerânios cor-de-rosa.Mamãe! -. Estava muito quente. . . Sobre a mesa. . havia papéis.O que está fazendo? . Por detrás de uma das portas chegavam os sons de vozes da cozinha e o estardalhaço da louça de cerâmica.Foi sorte você ter visto a carta primeiro.perguntei. Mas ela não se parecia com nada disso. enquanto Eliot Bayliss fechava a porta e dizia: .Onde está hospedada? . Permaneci no meio dessa sala charmosa. uma varanda em semicírculo com a porta aberta aos raios solares. . apenas o barulho do zumbido do aspirador de pó. Mas.. davam para uma varanda lajeada.Venha . ele disse: . Pettifer. ele cuidava de meu pai e às vezes servia de motorista. . . pois eu não conseguia pensar em nada para dizer. uma cortina esvoaçava numa das janelas do segundo andar. .ele perguntou. . e três janelas altas. Ficamos em silêncio.Nunca. Peguei o trem em Londres. Casa. Acima. No segundo andar. Kernow.

Mas você é jovem demais e ela deve estar na meia-idade agora.Pettifer? . . enquanto um senhor de idade entrava na sala.. e sim por alguma janela que captava o brilho do sol. pois ela não estava olhando para o pintor.Ela morreu. Fui interrompida pela porta batendo. . O efeito das cores era rosa e dourado.Sim. vestida como nos anos 1930. quando falou. Foi o Sr. depois que a Sra. . Pettifer costumava dizer. .Foi o meu. magra.Por um momento. eu mesmo posso cozinhar. no intuito de investigar. foi. Um brilho tênue de prazer transpareceu em suas feições sombrias.. . o fazia parecer um legítimo agente funerário. do homem que.Com licença um instante.Não.É. que Eliot foi buscar a mãe. Mas vou lhe dizer uma coisa: sua presença irá ajudar muito. . E seu cabelo era preto como o melro. Morreu na semana passada. somada à sua aparência sombria. Eliot e a mãe. Só com um pouco de leite.E quem perguntou ele . Era encantador. não ficou ninguém para cozinhar. há uma carta para o meu avô que chegou essa manhã.disse Pettifer. .Sim. . . e os cabelos castanhos e curtos revelavam com encantamento o pescoço comprido. . A filha dela. é claro que não.. mas minha atenção foi desviada para o quadro sobre o console da lareira e fui até lá olhá-lo de perto. o comandante e eu..O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher minha volta.Minha mãe morreu..vai contar ao comandante? .O que eu acho não fará diferença . um avental branco de açougueiro. a se-nhorita me lembrou uma pessoa. Estivemos juntos todos esses anos..perguntei. . e o comandante teve esse enfarte. inocente e esguio.O que o Sr. e eu não gostaria de vê-lo andando pela casa mal ajambrado. Nunca me engano nesse tipo de coisa... deixando a porta aberta. com o raio de sol infiltrando-se através do tecido fino do vestido branco. mas o comandante nunca se desfaria dele .Então eu estava certo. mas não era possível ver seu rosto. Uma voz masculina e forte chamou: . Seu nome é "A Dama Segurando a Rosa". essa não é a casa deles. O quadro estava na Academia. Achei que nunca viria. Eu estava olhando o retrato. É muito bonito. ele colocou de volta seus óculos. Deveria ter voltado para casa.Seus olhos se umedeceram.. mas ocupa um bom tempo tomar conta do comandante.. Não tem problema. calvo.Não. bem.. Ele disse: .O Sr. .. Preto como a asa de um melro. .Sinto muito. Página 38    .O senhor está falando de Lisa.-É um grande prazer conhecê-la.. Em Ibiza. Ele usava óculos sem aro e uma camisa listrada com um colarinho engomado e fora de moda e. É por isso que estou aqui. Ele assoou o nariz novamente e guardou o lenço. . imponente. Eu disse a ele que nós poderíamos dar conta de tudo. Ela deveria ter voltado. Sabe. Isso era o que a Sra.. . Pettifer faleceu. eu sei. estendendo a mão calejada.E Pettifer disse: ..Ora.E.. .Ele se aproximou..É você a jovem que deseja uma xícara de café? Ele possuía uma voz profunda e lúgubre que.. .Ah. A porta se abriu de repente atrás de mim. E eles não estariam aqui se o médico não tivesse insistido. sobressaltada. .Sem açúcar. Ela posava sentada num banco alto. esquecendo-me do restante. Mas não somos mais jovens como antes. Sua mãe veio com você? Desejei que Eliot tivesse tomado as coisas um pouco mais fáceis para mim. imaginando que talvez pudesse encontrar o espelho veneziano e a pequena papeleira. . .Obrigada. Seus olhos cansados eram pálidos.Não dá para ver seu rosto. vestido branco ajustado nos quadris. e eu me virei.Eliot não lhe contou? . Era o retrato de uma moça. sobre ela. tomava conta de minha mãe. -Tirou do bolso um lenço e assoou o nariz. um tanto curvado e caminhando com cautela. não está? Sou Rebecca. . .Leite e açúcar? . Todos nós queríamos vê-la novamente. retirou os óculos cuidadosamente e olhou-me com atenção.. podia ter sido vendido centenas de vezes. Veio de Ibiza. segurando uma única rosa de caule comprido.E quem quer que conte ao comandante não irá amenizar sua dor. Um prazer que pensei que nunca fosse ter. de seios achatados.Um pouco hesitante. Sinto muitíssimo. .. .Eu acho.enquanto falava. Mas ou o comandante e eu nos mudávamos para High Cross ou eles se mudavam para cá. senhorita. se não for muito trabalho. . Eliot não me contou? . Bayliss quem o pintou? . Mas se o senhor acha que não é uma boa idéia. .E saiu.

Sim. mas enquanto ficamos olhando um para o outro através da sala lindamente acarpetada e por sobre o grande jarro de narcisos perfumados. pernas longas. seus olhos eram azuis. Seus passos aproximaram-se da sala e. Joss.Onde está a carta? Mollie virou-se para ele. não é um choque. .Na sala de estar. mas. . .comentei.Alguém já sabe que você chegou? . e se eu estava ali ou não.Não sei do que está falando. por favor. Página 39    . . Aquela era Boscarva. ficando de costas para mim e de frente para as chamas. Preto e forte.. Eliot? Joss murmurou alguma coisa que me pareceu inconveniente e dirigiu-se para a lareira.inquiriu. ela trazia muitos anéis e pulseiras de ouro. . E sua mãe. está aqui. Eu estava justamente indo lhe servir uma xícara de café. Sua casa. mas era difícil acreditar. pareceu aceitar o fato inevitável. . com grande satisfação: .Traga duas. Eliot me contou da carta. na sala de estar.. ela me fazia lembrar uma gatinha charmosa enroscada bem no centro de sua almofada de cetim. Nesse instante. . Sinto tanto.Pettifer deverá levá-la para ele.Alguém já contou a Grenville sobre sua mãe? . Achei que não viesse hoje. imaculadamente preservada. Perfumada. eu suponho. meu bom amigo. diabos. .Chegou uma carta.Eu lhe disse para me esperar. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . como um cão desconfiado. é claro. enfurecido. as pernas eram finas e bem torneadas.Rebecca. hesitou por um instante e então caminhou em minha direção com a mão estendida. Kernow me disse que você já havia saído. .Fui buscá-la e a Sra. a pele fresca e levemente salpicada de sardas. um cardigã e uma blusa de seda creme.) Eliot veio atrás dela e fechou a porta. Joss nem mesmo se virou.Não.Encontrei Eliot no portão e ele me trouxe até aqui. o que ajudava a criar uma impressionante ilusão de mocidade. . . .Rebecca . é uma surpresa.Já conhece Rebecca. vieram os sons das vozes e dos passos pelas escadas.Decidi não esperá-lo. admirada. . as unhas estavam lindamente pintadas de rosa-claro e.Ela está aqui? .. Senti meu pêlo se eriçar. por fim. para mim. Ele fez silêncio. emoldurado no batente da porta. em seguida. . aparentemente afrontosa.O que. minha casa. . Joss não tinha nada a ver com isso.Joss.. .Procurar a mãe. Mas acho que ele ainda não leu. .Acabei de chegar. Pettifer deverá estar lá quando ele a ler. .E daí? . com raiva. No minuto seguinte. deixou-me sem palavras. Usava uma saia azul.(Finalmente uma calorosa acolhida.. Imaginei que Mollie deveria estar com mais de 50 anos agora. Eliot havia dito.completou Joss.Onde ele foi? . ao que pareceu. Sua interferência. . acha que está fazendo? .Espero que isso não seja um choque para vocês . essa manhã. os cabelos louro-claros estavam charmosamente penteados. Ouvi uma voz feminina dizer: .Não. cabelos negros e.Pettifer! Ouvi Pettifer dizer. de Otto Pedersen. Ela era rechonchuda e bonita. .Pettifer não parece pensar assim.Já viu mais alguém? Grenville? .Olá. . em nossa direção.Eu penso assim . ele estava ali. nas mãos.Quem? . e era impossível dizer se só então ela o notara ou se já o tinha visto e simplesmente decidira ignorá-lo. Joss saiu de frente da lareira.. Mollie apareceu à porta.

Houve uma pausa.Almoça conosco? . falando pela primeira vez.Obrigado assim mesmo.Por mim. Eliot e sua mãe aguardaram pacientemente. Vou comer um sanduíche no bar. . Eu não o culpava.ele hesitou.Bem.Eu apenas acho que Pettifer deveria dar a notícia ao velho. ele enfiou a carapuça. virou-se para apoiar o ombro largo contra o aparador da lareira e se desculpou. . está tudo bem . Página 40    . se me dão licença.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . tirou o ombro do console da lareira e disse: . arrependido.Não é da minha conta mesmo . só poderei ficar por algumas horas.disse Eliot.Ele tem razão . . Então sorriu. . Mollie foi educada.Não.respondeu Eliot.Deu um sorriso amável para nós todos. Sei que não é da minha conta.Por quê? . Joss tornou a dizer: . mas a carta que chegou essa manhã.Em meu bolso . Acho que Pettifer é a única pessoa que poderia fazer tal coisa..Perdão. estava do seu lado. Por fim. E saiu. que se fixara em Joss. . porém seu olhar.Grenville é mais chegado a Pettifer. Mollie quebrou o silêncio e virou-se para o filho. parecendo fazer um esforço enorme para se recompor.Não tem de quê. . um empregado. Em seguida.. aparentemente colocando-se em seu lugar. . . É muita gentileza sua estar preocupado. preciso trabalhar. já nos conhecemos .admitiu ela.Perdão.Sim. . sem deixar pistas de seu comportamento anterior. Tenho que voltar para a loja. . Mais uma vez. modesto. com um trabalho a fazer.disse Joss. onde está? . arrependido. estava frio de antagonismo. como um jovem trabalhador.

O dia da tempestade – Rosamunde
Pilcher

6
- Deve desculpá-lo. Ele nem sempre é o mais diplomático dos homens - disse Mollie.
Eliot soltou uma breve gargalhada.
- Essa é a declaração mais branda do ano. Ela virou-se para mim a fim de explicar:
- Ele está restaurando parte da mobília para nós. Está velha e precisa de conserto. É um carpinteiro maravilhoso,
mas nunca sabemos quando vai chegar nem quando vai sair!
- Um dia - disse seu filho - vou perder a paciência com ele e socar seu nariz até entrar na nuca. - E sorriu
charmosamente para mim, piscando, encobrindo a ferocidade de suas palavras. - Também tenho que ir. Já estava
atrasado antes e agora estou mais ainda. Rebecca, você me dá licença?
- Claro. Sinto muito, acho que a culpa é minha. E obrigada por ter sido tão gentil...
- Estou feliz por ter parado. Eu já devia saber como era importante. Vejo-a mais tarde...
- Sim, claro - disse Mollie apressadamente. - Ela não vai embora agora que nos encontrou.
- Bem, vou deixar vocês duas para que se conheçam melhor... -Virou-se em direção à porta, mas sua mãe o
interrompeu gentilmente.
- Eliot. - Ele se virou. - A carta.
- Ah, sim, claro. - Tirou do bolso a carta fatídica, já um pouco amassada, e a entregou a Mollie. - Não permita que
Pettifer faça disso um carnaval. Ele é um velho sentimental.
- Não permitirei.
Sorriu novamente e despediu-se de nós duas:
- Nós nos veremos no jantar.
E se foi, assobiando para o cachorro enquanto sumia no corredor. Ouvimos a porta da frente abrir e fechar e o
ronco do motor do carro. Mollie virou-se para mim.
- Então - disse ela - venha sentar-se à lareira e contar-me tudo sobre você.
E assim o fiz, como já havia contado a Joss e à Sra. Kernow; porém, dessa vez, eu me vi gaguejando um pouco ao
falar que Otto e Lisa viviam juntos, como se tivesse vergonha disso, coisa que nunca sentira antes. Enquanto falava
e Mollie escutava, tentei imaginar por que motivo minha mãe a detestava tanto. Talvez fosse apenas uma antipatia
natural. Era óbvio que elas nunca tiveram nada em comum. E minha mãe nunca foi muito tolerante com mulheres
que a aborreciam. Já com os homens era diferente. Os homens eram sempre divertidos. Mas, para minha mãe, as
mulheres tinham que ser muito especiais para que ela tolerasse sua companhia. Não, não poderia ter sido culpa de
Mollie, de modo algum. Sentada ao seu lado, perto da lareira, resolvi que seríamos amigas e que talvez isso
pudesse compensar, de uma maneira menor, a falta de confiança que Lisa demonstrara a ela.
- E por quanto tempo vai poder ficar em Porthkerris? Seu emprego... você terá que voltar?
- Não. Eles me deram uma licença por tempo indefinido.
Página 41 
 

O dia da tempestade – Rosamunde
Pilcher
- Vai ficar aqui conosco?
- Bem, aluguei um quarto na casa da Sra. Kernow.
- Sim, mas ficaria muito melhor aqui. Não há muito espaço, esse é o único problema; terá que dormir lá em cima,
no sótão, mas é um quartinho adorável, se não se incomodar com o teto inclinado e souber como não machucar a
cabeça. Veja, Eliot e eu estamos no quarto de hóspedes e, além disso, minha sobrinha está passando uns dias
comigo. Talvez você faça amizade com ela. Será bom para ela ter alguém jovem por aqui.
Imaginei onde estaria a tal sobrinha.
- Quantos anos ela tem?
- Só 17. É uma idade difícil e acho que a mãe dela pensou que seria uma boa idéia se ela saísse de Londres por um
tempo. Eles moram lá, sabe, e ela tem uma porção de amigas, e lá há tanta coisa para se fazer... - Estava com
dificuldade para achar as palavras exatas. - De qualquer forma, Andréa ficará aqui por uma ou duas semanas para
mudar um pouco de ares, mas suponho que esteja entediada.
Imaginei meus 17 anos, colocando-me no lugar de Andréa, hospedando-me naquela casa aconchegante, recebendo
toda a atenção de Mollie e Pettifer, com o mar e os penhascos à minha frente, as campinas convidando-me para
longas caminhadas e as ruelas tortuosas e secretas de Porthkerris esperando para serem exploradas. Conhecer tudo
aquilo teria sido o paraíso, impossível me sentir entediada. Fiquei pensando se eu e a sobrinha de Mollie teríamos
alguma coisa em comum.
- Claro - continuou ela -, como você já deve saber, eu e Eliot estamos aqui apenas porque a Sra. Pettifer morreu e
os dois velhos não podem ficar sozinhos. Temos a Sra. Thomas, que vem todas as manhãs para ajudar nos afazeres
da casa, mas eu faço a comida e mantenho o lugar o mais limpo e arrumado que posso.
- As flores são adoráveis.
- Não suporto uma casa sem flores.
- E a sua casa?
- Minha querida, está vazia. Terei que levá-la a High Cross um dia desses para mostrá-la a você. Comprei um par
de chalés antigos logo depois da guerra e os reformei. Embora não devesse dizer isso, a casa é muito charmosa. E, é
claro, bastante conveniente para a oficina de Eliot; de qualquer modo, morando aqui, ele está permanentemente
viajando.
- Acredito que sim.
Ouvi passos vindo do corredor novamente; em seguida a porta se abriu e Pettifer aproximou-se, cautelosamente,
carregando uma bandeja repleta de delícias do café-da-manhã, inclusive um grande e fumegante jarro de prata.
- Oh, Pettifer, obrigada...
Ele se aproximou e parou, sustentando o peso da bandeja, e Mollie levantou-se para pegar um banco, colocando-o
com agilidade sob a bandeja para que o velho pudesse baixá-la antes que tudo fosse ao chão.
- Esplêndido, Pettifer.
- Uma das xícaras era para Joss.
- Ele está lá em cima, trabalhando. Deve ter esquecido do café. Não tem problema, beberei por ele. E Pettifer... ele endireitou as costas lentamente, como se todas as suas juntas envelhecidas doessem. Mollie pegou a carta de
cima do console da lareira, onde a havia colocado por segurança. -Nós achamos, todos nós, que talvez fosse melhor
se você contasse ao comandante sobre sua filha. Seria melhor, imaginamos, se a notícia viesse de você. Importa-se?
Pettifer pegou o fino envelope azul.
- Não, madame. Farei isso. Estava justamente indo acordar o comandante e arrumá-lo.
- Seria muita gentileza sua, Pettifer.
- Tudo bem, madame.
- E diga a ele que Rebecca está aqui. E que ela vai ficar. Teremos que fazer a cama no sótão, mas acho que ela
ficará bem confortável.
Novamente, um brilho iluminou o rosto de Pettifer. Fiquei imaginando se ele já havia sorrido alguma vez, ou se
suas feições tinham sucumbido permanentemente àquelas linhas lúgubres, e fosse fisicamente impossível para ele
expressar alegria.
- Fico feliz que vá ficar - ele disse. - O comandante vai gostar disso.
Quando ele saiu, eu disse:
- Você deve ter muito o que fazer. Não seria melhor eu deixá-la à vontade?
- Você terá que buscar suas coisas na casa da Sra. Kernow. Como poderíamos resolver isso? Pettifer poderia levála, mas ele está ocupado com Grenville agora, e eu tenho que falar com a Sra. Thomas para arrumar seu quarto e
então começar a pensar no almoço. O que vamos fazer? - Eu não fazia idéia. Certamente eu não poderia carregar

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O dia da tempestade – Rosamunde
Pilcher
sozinha toda a minha bagagem montanha acima. Mas, felizmente, Mollie respondeu à sua própria pergunta: - Já sei.
Joss. Ele poderá levá-la e trazê-la de volta em sua caminhonete.
- Mas Joss não está trabalhando?
- Ah, vamos interrompê-lo por essa vez. Não é sempre que lhe pedimos um favor. Estou certa de que ele não vai se
importar. Venha, vamos procurá-lo.
Pensei que ela fosse me levar a alguma dependência esquecida ou um galpão onde encontraríamos Joss, cercado
por aparas de madeira e o cheiro de cola quente, mas, para minha surpresa, ela guiou-me para cima, e eu me
esqueci de Joss, pois aquelas eram minhas primeiras impressões de Boscarva, onde minha mãe fora criada, e eu não
queria perder nada. A escada não tinha tapete, as paredes eram revestidas de madeira até a metade e de papel escuro
da metade para cima e estavam repletas de pinturas a óleo. Tudo contrastava com a sala de estar elegante e
feminina do andar de baixo. No segundo andar, o corredor dava acesso tanto para a esquerda quanto para a direita,
havia uma cômoda alta de nogueira envernizada e estantes apinhadas de livros; continuamos a subir. O último piso
era revestido de forro vermelho e tinta branca, e mais uma vez o corredor dava acesso aos dois lados; Mollie virou
à direita. Ao final desse corredor, havia uma porta aberta e, de dentro, vieram as vozes de um homem e de uma
moça.
Ela pareceu hesitar e então apertou o passo, determinada. De costas, subitamente, sua aparência era altiva. Eu a
seguia, e ela atravessou o corredor e a porta, e demos num sótão que havia sido transformado, com a ajuda de uma
clarabóia, num ateliê ou sala de bilhar; num dos cantos havia um sofá de assento de couro e braços e pés de
carvalho maciço. Todavia, agora, esse quarto frio e arejado estava sendo utilizado como oficina, e Joss estava no
centro, cercado de cadeiras, molduras quebradas, uma mesa com o pé torto, alguns retalhos de couro, ferramentas,
pregos e uma geringonça a gás, na qual repousava um recipiente de cola de aparência repugnante. Enrolado num
surrado avental azul, ele estava adaptando, cuidadosamente, uma linda peça de couro escarlate ao assento de uma
das cadeiras, e enquanto trabalhava era entreíido por uma companhia feminina e jovem, que se virou distraída para
ver quem adentrara o quarto e, conseqüentemente, interrompera o agradável tête-a-tête. Mollie chamou:
- Andréa! - E então, menos rispidamente: - Andréa, eu não sabia que estava aqui.
- Ah, estou aqui há horas.
- Já tomou o café-da-manhã?
- Não estou com vontade.
- Andréa, esta é Rebecca. Rebecca Bayliss.
- Ah, sim. - Ela desviou o olhar para mim. - Joss estava me falando a seu respeito.
- Como vai? - disse eu.
- Ela era bastante jovem e magra, e sua cabeleira comprida e sedosa escorria pelo rosto; era bonita, exceto pelos
olhos pálidos e ligeiramente protuberantes, não melhorados pela enorme e deselegante quantidade de rimei. Vestia,
inevitavelmente, jeans e uma camiseta de algodão não completamente limpa e que revelava, sem sombra de dúvida,
o fato de que ela não usava nada por baixo. Calçava um par de sandálias que pareciam botas ortopédicas, pintadas
de verde e roxo. Em torno do pescoço trazia um cadarço de bota com uma pesada cruz de prata num vago estilo
céltico. Andréa, pensei, tão entediada em Boscarva. Fiquei incomodada com o fato de ela e Joss estarem falando a
meu respeito. Tentei imaginar o que ele lhe teria dito.
Ela não se mexeu, permaneceu na mesma posição em que estava, com as pernas escarranchadas, apoiadas numa
velha e pesada mesa de mogno.
- Oi! - disse ela.
- Rebecca vai ficar aqui - Mollie os informou. Joss olhou para ela, a boca cheia de tachas, os olhos brilhando de
interesse e um cacho do cabelo negro caindo sobre a testa.
- Onde ela vai dormir? - perguntou Andréa. - Pensei que a casa estivesse lotada.
- No quarto do corredor- respondeu a tia asperamente. - Joss, poderia me fazer um favor? - Ele cuspiu as tachas na
palma da mão e levantou-se, ajeitando o cabelo para trás com o punho. - Pode levá-la agora à cidade e avisar a Sra.
Kernow que ela vai ficar aqui, depois ajudá-la com as malas e trazê-la de volta a Boscarva? Seria muito
inconveniente?
- De modo algum - respondeu Joss, mas o rosto de Andréa assumiu uma expressão de tédio e resignação.
- É uma amolação, sei disso, você está ocupado, mas seria de muita ajuda para mim...
- Não há problema. - Joss deixou de lado o pequeno martelo e começou a desatar o nó do avental. Ele me encarou.
-Estou ficando acostumado a levar Rebecca para lá e para cá.
Andréa bufou - se de raiva ou impaciência era impossível dizer -, levantou-se e saiu do estúdio, deixando a
impressão de que tivemos sorte de escapar sem uma monumental batida de porta.

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mas.. Joss pegou a estrada da enseada.Exatamente. .Por que ela não volta para Londres? .Ainda não conheci todo mundo.Você nunca se sentiu entediada? .. ou de dinheiro. localizada entre duas casas baixas e largas.O que ela faz o dia inteiro? . Boscarva é uma casa de velhos.E como vou pagá-la? . com a mochila nas costas.Ninguém que viveu com minha mãe se sentiria entediado. . Não fico lá o dia inteiro. .Não quis ser hipócrita. foram dirigidas a mim pela sábia e bem-intencionada diretora da escola. Entramos na casa e eu subi para pegar a mala e a mochila enquanto ele escrevia um bilhete para ela. por isso ela veio passar uma temporada com a tia Mollie. Saímos de Boscarva em silêncio.Porque ela só tem 17 anos. Não se pode culpá-la por estar entediada. a Sra. Ele sorriu.Era o que a maioria dos homens achava. e não me pareceu oportuno argumentar com ele. . Essas palavras. certa vez. vai pegar todos os turistas que vêm para cá gastar dinheiro. Página 44    . .Quero lhe mostrar minha loja.Ela deve ter sido ótima. . . . . . Já lhe expliquei no bilhete. . .Então tudo deu certo. .É o que espero. . com o carro sacolejando sobre o paralelepípedo. . . mas nunca foi um tédio . E se quiser entrar em contato comigo algum dia.Vai gostar dele .ele disse. pelo terreno em construção do Sr. Parece que não acorda antes da hora do almoço e depois senta em frente à televisão. . . E acho que não tem coragem de desafiar os pais. Não conheci Grenville. Achei que seria fácil irritar-me com ele. ou apenas de diversão.É bem localizada.Fale-me de Andréa . e seus pais não aprovam o namoro. . . e o primeiro piso parecia estar em reforma.Que bom.Deu. apertada na pequena caminhonete caindo aos pedaços. Usava sua jaqueta de brim azul e um suéter de malha azul-marinho. .observou Joss . Seu semblante parecia fleumático. E anda entediada. explicando o que havia acontecido. Ali está ela. . dessa vez. Qualquer coisa.Resolvo isso da próxima vez que me encontrar com ela. .soa inescrupulosamente hipócrita. vou apenas lhe mostrar onde fica. . Era uma casa alta e estreita. mas Joss tinha uma chave.pedi. Quero dizer.Por que eu iria querer entrar em contato com você? . Mais uma vez minhas coisas foram colocadas na parte traseira do automóvel e mais uma vez nos dirigimos para Boscarva.ele citou. não há como se enganar.Você pode ser uma dor-de-cabeça.É claro que pode. . mas me deixe fazer isso por você. Possuía três altos pavimentes com uma janela em cada andar. Olhei para ele. -Joss pegou minha mala e tomou o rumo da porta.perguntei assim que desci as escadas. Kernow havia saído.Só os entediados ficam entediados . Não tem dinheiro. . eu disse: . com as paredes por pintar e grandes círculos de cal espalhados sobre o vidro espelhado da janela da frente.Ela tem 17 anos e acha que está apaixonada por um rapaz que conheceu na Escola de Artes. Ao passarmos pela loja.falei sem pensar.Gosta de sua família? .Isso . Padlow e pelo declive da montanha que dava acesso à cidade.Não há mais ninguém para conversar naquela casa.Parece que ela o fez seu confidente.Sei lá. com Joss. saberá onde me encontrar. Ao chegarmos a Fish Lane. Mas a maneira como falou soava: Vai gostar dele. Joss quebrou o silêncio.Mas eu mesma posso pagar.Sei lá. . Exatamente o meu tipo de mulher. Pode precisar de algum sábio conselho. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher LÁ ESTAVA EU DE VOLTA ao ponto onde havia começado.O que quer saber sobre ela? .Não sei.Gostei de todos.

Não vai fazer nada disso . Toda a parede do lado norte é feita de vidro. E um esplêndido colorista. enquanto Joss retirava minha bagagem do carro. Parece milho.Combinado . .. Não se ouvia mais o ruído do aspirador de pó.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Havia um guarda-roupa embutido. Joss olhou-o.Ele foi um bom pintor. . Sobre o reflexo do meu ombro. o comandante está no escritório. havia um chalé de pedra com telhas de ardósia.Está muito chateado? .Não sei.Venha ver a vista.disse Joss.perguntou Joss. Estremeci de repente. mas o comandante disse que queria vê-la assim que chegasse. fiquei satisfeita com seu jeito mandão. .Joss. . Quando ajeitei as pontas. agora. pela primeira vez.respondeu Joss.Saí de perto da janela. não me foi possível avistar da janela da sala de estar. ouvindo que havíamos chegado. ele havia colocado minhas malas no chão e estava abrindo a janela do sótão. . .O que é aquela casa? . Ele engatou a segunda marcha na caminhonete e iniciamos nossa jornada montanha acima. é claro. .Quer que eu vá com você? . segui Joss pelos dois lances de escada que subira de manhã.Está com frio? . que foi construído por um pedreiro local. . Fechado e trancado. Deixei a escova e o pente de lado. As pernas longas de Joss deixaram-me para trás. Pus-me ao seu lado.perguntei. abaixo. . vi que Joss me observava.Por favor. sacudi os cachos e voltei ao espelho para começar a escovar os cabelos. surgiu à porta da frente. . Onde ela vai dormir? . foi Pettifer quem.. Ele mesmo projetou o lugar. Ele fora construído sobre uma série de encostas que desciam junto com a montanha. . enquanto virava a esquina da igreja. e o tempo na Marinha são cinco minutos antecipados. abri a mochila e retirei uma escova de cabelo e um pente.Quando poderei visitá-la? . não era um chalé. Sequei as mãos. por isso pare de se preocupar. .Do outro lado parece.Como ele está? Pettifer baixou a cabeça. velho amigo. Vai estar mais ou menos pronta. O quarto era branco com tapete vermelho escuro. . com um amplo sótão sobre ele. encurralado num canto da parede do jardim.No sótão. . .disse Joss. mas havia no ar um cheiro de carneiro assado. . ..A cor é linda.Acho. não devemos deixá-lo esperando. talvez fosse um estábulo. E.Puxei o elástico da ponta da trança.Joss.E está. Não é aberto desde que ele teve o enfarte e parou de pintar.Certo. .Venha aqui na semana que vem. acompanhados de um barulho parecido com o de um motor de motocicleta mal regulado. o dourado das samambaias e os primeiros círios amarelos do arbusto.Ele está bem. ficava o jardim de Boscarva. Pediu-me que levasse Rebecca até ele tão logo chegassem. que agora era meu. .É o ateliê . Joss? Acha que ele foi um bom artista? . Ele ficou calado enquanto eu me arrumava e refazia a trança. . do outro lado da sala de bilhar. deixe a mala que eu a levo para cima. Semana que vem. Mas ainda dá para levar a moça ao seu quarto. ele disse: . Enquanto Pettifer ainda protestava. De volta a Boscarva.Sei disso . . por causa da balaustrada de pedra da varanda.Era lá que seu avô costumava pintar. o qual. Fui recepcionada por uma rajada de vento frio e salgado. os penhascos. Não.. e quando cheguei ao quarto de teto inclinado. Aproximei-me dela e joguei o sabonete na água morna.Não parece um ateliê. estantes repletas de livros e uma bacia para lavar as mãos. desabotoei o casaco e joguei-o sobre a cama. . porém magnífico. e. Da escola antiga. .Eu levo isso lá para cima. Sobre a bacia havia um espelho cujo reflexo revelou uma imagem desgrenhada e ansiosa.Não tão mal. ao fundo. Página 45    . .Parece que está fechado. Foi então que percebi que eu estava faminta e minha boca encheu-se de água. Avistei o mar. Percebi quanto eu estava nervosa por ter que me encontrar com Grenville pela primeira vez e como era importante ele ter uma boa impressão de mim.sorriu Joss -.

Você o conhecia? Contei a ele sobre minha viagem a Ibiza e sobre a noite que passei com Otto e minha mãe. .conveniente. venha se sentar conosco. O escritório continha ainda fotografias em porta-retratos de prata. observando as gaivotas e as nuvens alvas navegando pelo céu.. e eu imaginei que ele ocupasse seu tempo naquele jardim secreto e ensolarado. por favor. Quero dizer. eu sei. dizendo que.Há uma carta desse amigo Pedersen.. talvez até um tanto trêmulo. mas ficou apenas me olhando. . e um par de olhos azuis me examinava calmamente sob supercílios salientes e sobrancelhas brancas e arrepiadas. Mas a essa altura ele já estava de pé e ereto.eu disse. . sua calva era marrom como uma castanha. Usava um blazer azul-marinho de talhe militar.Eu poderia lhe beijar . Grenville Bayliss. Desejei que ele dissesse alguma coisa. . as paredes eram cobertas de telas e livros. e ele curvou o corpo ligeiramente para que meus lábios tocassem a pele macia e limpa de seu rosto. Por fim. fraco. como se fosse de um homem bem mais jovem.. por que não nos sentamos? Joss.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Percebi então que era a primeira vez que eu lhe pedia ajuda. . .Por que não faz isso? E assim fiz.Então ele era um homem decente? Bom para ela? Página 46    . impelir-me a entrar. Disse que tinha leucemia. até uma porta que ficava no fim do corredor. mais uma vez. ele se foi.Sim.ele disse. Torci para que ele gostasse do que estava vendo e fiquei aliviada por ter tido tempo de escovar o cabelo.Trouxe alguém que deseja vê-lo. calça de flanela cinza com vincos e chinelos de veludo com suas iniciais bordadas em dourado. e comecei a dizer: . E então ele disse: . com janelas que davam para um terraço pavimentado e um jardim secreto. Percebi então que eu havia me preparado para encontrá-lo num estado patético: velho.Creio que você o conhece muito bem.Nunca estive numa situação como esta antes. de um velho navio da Marinha. . fiquei à mercê daquele olhar azul penetrante. aos 80 anos. cheirando levemente a rum aromático. -tentei imaginar a palavra certa . . e havia um modelo. Grenville disse: .Oh. Mas Joss se desculpou. aquecido pelos raios solares e fechado por sebes densas. distraindo-se com um cachimbo. Quando entrei. Joss a abriu e enfiou a cabeça pela fresta. Vão ter muito o que conversar -e. . sobre o console da lareira. Mãos divinas. não precisa. ele sempre está por perto quando precisamos. . falou: . pelo corredor e pela sala de visitas.Um bom carpinteiro.Bem .Sim. Está restaurando todos os meus móveis.Sim. sob os ralos fios de cabelos brancos.É um rapaz habilidoso.Nem tanto. possuía ainda uma aparência altiva. SEGUI-O ESCADA ABAIXO. . lendo o jornal matutino. Mas ficou tempo suficiente para ajudar o velho a sentar-se em sua poltrona e nos servir um cálice de sherry da garrafa que estava na mesinha.... com a ajuda de uma bengala. Mas ele tem sido muito atencioso e.. Olhamos um para o outro. Sua pele era bastante bronzeada. Não estou bem certo de como devemos nos cumprimentar. ele já estava se levantando.Colocou de lado o cálice de sherry e. não produziria nada o dia inteiro. dando um passo à frente e erguendo o rosto. . O fogo crepitava na lareira. .Não tinha certeza se concordava inteiramente com isso. uma mesa entulhada de papéis e revistas e um vaso chinês azul e branco repleto de narcisos. Porém. . . de uma poltrona de couro vermelho semivirada na direção da quentura do fogo. Joss escancarou a porta e pôs as mãos nos meus ombros para. . Bastante alto e aprumado. .. Puxei uma cadeira a fim de poder sentar à sua frente. engomado e barbeado. Era um quarto pequeno. . ele conferia crédito a seu criado Pettifer.Bom dia .a voz tinha um tom mais agudo do que eu imaginava. .Sua mãe morreu. com um aceno jovial. se não iniciasse logo seu trabalho. gentilmente. fechando a porta suavemente atrás de si.E nunca quando não precisamos? .Vou deixá-los a sós. Fiquei impressionada com o fato de Joss não tê-lo ajudado a levantarse.ele disse -.Quem está aí? Joss? Entre.

E Mollie e Eliot? Já os conheceu? . . É isso o que importa. ela não respondeu à minha carta. Boscarva poderia ter sido seu lar.Você a está defendendo. . Ele fez uma careta engraçada.Vou me lembrar.Quantos anos tem? . Ele pegou o cálice de sherry.Você já descobriu? .comentei. Roger. Mas esse tal construtor a convenceu a vender-lhe a fazenda e agora eles terraplenaram os campos.seu tom era de desgosto.Já conheceu Pettifer? Servimos juntos na Marinha há um século. meu filho.Parece que você adotou uma atitude bastante experiente. Provavelmente nem saberiam o significado. . Imensamente gentil. . Gregory.Qual é mesmo seu nome? Eu já esqueci. . Mas depois ela cresceu e tudo mudou. deixando-os lisos como panquecas. uma menina desagradável de peitos caídos.Sim. Você não se parece com Lisa. por que você não veio? .É uma palavra exagerada. ela não era muito dada a escrever cartas. adorei. e eu lhe escrevi para dar a notícia. . Há muito tempo. mas o médico insistiu. Ela só recebeu sua carta meses depois. . Por falar nisso. . Além disso. e estão erguendo uma porção de casas.A cidade está crescendo montanha acima. fiquei presa àqueles olhos azuis que insistiam em me encarar.Era. . . . .Ela era muito geniosa. sorveu a bebida e tornou a colocá-la sobre a mesinha ao lado da poltrona. Lembre-se disso. . . Você se parece com você mesma. . mas é trabalhoso para o pobre Pettifer. Página 47    .Ela era minha mãe. . . Acabou se apaixonando por esse tal ator e foi isso.Não.Estávamos em Nova York naquele Natal. que pertencia a uma velha mulher chamada Sra. Nem com seu pai. Você nem imagina como foi barato. Eu as vi.É. E quando a mãe dela morreu. A maioria dos companheiros que ela escolhia era simplesmente um bando de pulhas.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . . Um pedaço de terra em volta da gente dá uma sensação de segurança. . mas precisamos descobrir isso sozinhos. Lembrei-me dos criadores de ovelhas e do americano que usava camisas da Brooks Brothers e imaginei se gostariam de ser chamados de pulhas.Ela deveria ter voltado para Boscarva.Eu sei. E então lhe pareceu tarde demais para responder. E Boscarva? O que achou de Boscarva? . .Você está discutindo comigo. . O que cheguei a conhecer.Era como se ela tivesse varrido o passado de sua vida. por um instante.Ela estava realmente apaixonada por ele. Sorri diante do adjetivo antiquado. foi morto na guerra. Teria sido bem-vinda a qualquer momento que retornasse. Mas foi a garotinha mais encantadora que se pode imaginar. . .Já. ele realmente denunciava a idade e a falta de firmeza.Eu não sabia a seu respeito até a noite que antecedeu a morte de minha mãe. E eu gosto do seu cabelo.Adorei.Você é madura para 21. Não faz muita diferença para mim. em 1922. Um brilho iluminou seu olhar. Ainda guardo uma ou duas telas de Lisa quando criança. elas não poderão ir muito longe. Havia uma fazenda em seu topo. . adotei. Eu a pintava com freqüência. A vida é muito mais do que estar apaixonado. Não se ressente do fato de que ela a afastou deste lugar? Você poderia ter crescido aqui.Vinte e um. . Nessas ações cautelosas.Apaixonada . Ele franziu a testa. Nem mesmo Pettiffer. E Mollie trouxe também uma sobrinha.Acho que às vezes ela se deixava levar um pouco por eles . Ninguém discute comigo hoje em dia.perguntou. Eu os comprei quando comprei Boscarva.Um instante pode ser tempo demais. Você já a viu? Tentei disfarçar o riso. . levando-o cuidadosamente à boca. -Mais uma vez.Fico feliz que ela tenha terminado seus dias com alguém decente. . pois a fazenda nos fundos desse lugar e os campos dos dois lados da estrada me pertencem. . e Lisa estava sempre em forte desavença com a mãe. E a adorava.Eles não deveriam estar morando aqui.Já. Não tem graça. Vou pedir a Pettifer para procurá-las e mostrá-las a você. fugia em seu carro e não voltava para casa à noite.Bom.

Seu cabelo escorrido fora amarrado para trás com um pedaço de fita de veludo. com o qual parecia elegante como um galgo. veio o toque de um gongo. Grenville usava um smoking de veludo desbotado.Rebecca. Mas vieram a sopa. O pato estava saboroso. um terno claro de flanela. dos fundos da casa.Eliot me chama de Grenville. Em seguida. Como quer que eu o chame? . Pode me chamar assim também. prataria e copos que reluziam à luz das velas. Mollie apareceu vestindo um chambre brocado em tom de safira. deveria se trocar em homenagem ao aparente ritual noturno. . Juntos. bastante aquecida. Até mesmo Andréa. naquela ocasião. E como vai me chamar? . Tentei me concentrar nas Página 48    . Não queria jantar com minha nova família. Preferia ficar sozinha. Todo mundo. porcelanas e copos de uso diário. porém. A medida que o jantar prosseguia. servida numa mesa redonda ao lado da janela que dá para o mar. ser inteligente e charmosa. 7 O cansaço me abateu ao final daquele dia longo e agitado e. .Não sei. usei minhas pulseiras de prata e um par de brincos de argola. radiantes. tivéramos uma refeição caseira e substanciosa. trajava um novo par de calças e uma blusa de bordado inglês. o pato e o vinho tinto. Não estando habituada a participar de jantares formais.Rebecca.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Bebemos nosso sherry. ao que parecia. Com ele. seria repetido durante todo o tempo em que ficasse hospedada na casa. um traje que. eu trouxera. seguimos pelo corredor em direção à sala de jantar para o almoço em família. Não queria ter que conversar. infelizmente. dispersa. e Eliot. mesmo assim. e a sala. trouxera-me um estranho consolo e segurança.Está certo. tonta. sentia-me cada vez mais estranha. Queria ir para a cama e comer algo simples como um ovo cozido. Era um cafetã marrom de jérsei sedoso com bordados prateados na gola e nos punhos das mangas delicadas. que Eliot dispensou. com certa dificuldade. mas a expressão em seu rosto continuava a ser de tédio. na grande sala de jantar. Corri a fim de abrir a porta para ele. A mesa comprida e lustrada. ouvir. o que realçava o colorido de seus olhos. No almoço. o jantar foi totalmente diferente. Grenville colocou de lado o cálice e. duas coisas que me eram fundamentais. foi disposta com cinco lugares. satisfeitos um com o outro. pôs-se de pé. O peso das jóias. em meio ao jantar. obviamente. A mesa fora coberta com uma toalha simples de tecido axadrezado. presentes de minha mãe em meu 21° aniversário. provavelmente sob protestos. que parecia ter sido lavada e passada. por não haver outro. Soa mais íntimo. no meio da sala. toalhinhas individuais de linho.

. leve Andréa com você. ela poderá lhe mostrar o caminho e onde fica a peixaria. Você poderia ir a Porthkerris buscar o peixe para mim. Olhe. olhando fixa e impacientemente a vista como um passageiro mareado num navio. Grenville falou: . enchendo um vaso de flores com uma grande quantidade de primaveras-do-jardim cor-de-rosa e púrpura. e. Pode tomar o atalho pelos campos e pelo penhasco. sob uma nesga de sol. Por um lado. sinto muito. a sensação de que iria desmaiar.Você está bem? .. Da cabeceira da mesa. O peixeiro ligou para dizer que conseguiu alguns linguados.Onde estão todos? . eu me senti ótima.Dormiu bem? . .. Andréa olhava para mim friamente interessada. eu disse pela terceira vez: ..Oh.. Eliot puxou minha cadeira e me ajudou a levantar.ela pareceu subitamente inspirada..O que posso fazer? Deve haver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar. você estava exausta. saí à procura de Andréa. . Desculpem. Ela me levou até a cozinha e esquentou o café enquanto eu preparava algumas torradas. por conta própria. Quer tomar café? . repetindo-se a si mesmas. Lá embaixo. Tentei protestar. horrorizada. Posso lhe emprestar meu carro. tirei a camisola e entrei no banho. enquanto as olhava fixamente. apesar de tudo. -. pois Eliot levantou-se depressa e se pôs ao meu lado. ela estava usando um suéter de cashmere caramelo e uma saia justa de tweed. . Não acordava tarde assim havia anos.Minha querida. mas. mas não muito. não apreciei a idéia de ter a companhia de Andréa por toda a manhã.. .perguntei. . da minha janela. elas se dividiam em várias. Encontrei-a enrolada numa manta. ela respondeu: . Você dirige? . o líquido vermelho espalhar-se por entre os estilhaços do vidro. Imaculadamente arrumada.eu já me sentia melhor e não tinha mais.. notei que o céu estava azul e que a luz fria do norte refletia nas paredes brancas e inclinadas do meu quarto.Claro. Sinto muito sobre ontem à noite.-ela considerou Olhei para ela. deitada numa longa cadeira de palhinha. leve-a para cima e ponha-a na cama. Ao passar por Grenville. se é o que deseja.Para quê? . .. Página 49    . uma vez que todos pararam de falar e olharam para mim. ela quase não parecia humana.Está bem. Particularmente. e pensei em prepará-los para o jantar.O copo.. . DORMI 14 HORAS. Mollie abriu a porta e o ar frio do corredor irrompeu na sala . acordando às 10 horas. encarregada daquela criatura desagradável.. finalmente encontrei Mollie numa pequena despensa. Ajudou a me despir e a me deitar.respondi. ela nunca faz exercício algum. Mollie fechou a porta atrás de nós e subiu comigo.Não.Quer descer a montanha até Porthkerris comigo? -perguntei a ela. . é claro. .Dirijo. a quem Molhe vira pela última vez na varanda.Não se incomode com o copo. exceto pelo fato de estar morrendo de vergonha pela maneira como me portara na noite anterior. o acidente foi uma bênção. Considerando minha sugestão. querida . contudo eu estava solidária a Molhe. .. Perdoe-me. Vestida. assim que terminei o café...O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher chamas das velas à minha frente. como quando se ouve uma conversa ao longe. Levantei-me. não muito bem. Torci para que nem todos pensassem que eu estava bêbada. .Só café. e ela achou que deveríamos descer pelo penhasco. e eu adormeci antes mesmo de ela apagar a luz.Como uma pedra. Ela olhou para mim com espanto: .ela perguntou imediatamente. Além disso. Mas será que não poderia ir andando? Gosto de caminhar e a manhã está tão linda.. Mollie. e Pettifer foi de carro até Fourbourne fazer umas compras para Grenville..Bem. e uma caminhada lhe faria bem.Sinto muito. Devo ter ficado completamente pálida. ..Eliot está na oficina.Mollie me pediu para ir buscar um peixe e eu não sei onde fica a peixaria. afastei meu prato para trás. . então falei que seguiria sua sugestão e. Além disso. Deixe o copo.Mollie jogou o guardanapo sobre a mesa e empurrou a cadeira para trás. Nessa manhã. e as vozes ao meu redor tornavam-se indistintas e ininteligíveis..Ela insinuou que Andréa era uma grande preguiçosa. . Boa noite. A moça está exausta. Do outro lado. Instintivamente. esbarrei no cálice de vinho e observei. Desculpe por não ter notado antes. com cada fio de cabelo no lugar. . está uma linda manhã. segurando meus cotovelos com firmeza..Inclinei-me para beijá-lo e deixei a sala.

. os degraus de pedra seguiam sobre o muro. . e continuamos nosso percurso.Gosta dele? . permaneci em silêncio. Aceitou o que eu disse.Em Londres. . .Eu o conheci em Londres. precisou parar para que eu examinasse o ateliê daquele novo ângulo. pensei. quando me convidam e quando aceito. de cima do muro e desapareceu completamente.Ele não pinta mais .Tia Mollie disse que ela vivia com homens. Não há nada de errado com ele. Passamos por um portão e entramos numa estrada de verdade. . Andréa. mais do que depressa. caixas de lixo e placas que sinalizavam os perigos de desmoronamento do penhasco. Teria sido uma vitória imediata para Andréa se eu tivesse dito outra coisa. E o tratam como se ele devesse chamá-los de senhor madame. ela era genuinamente curiosa e invejosa. Ela disse que sua mãe era leviana.Não o conheço o suficiente para não gostar dele. mas assim que percebeu que eu não me importava nem um pouco se cometeria suicídio ou não. abandonado. estávamos voltando aos negócios.Porque eles não gostam de tê-lo por perto o tempo inteiro. . . . Estava. Havia bancos em mirantes cobertos. As gaivotas rodopiavam e grasnavam. .Trabalho numa livraria.comentei. Num pequeno apartamento. Dei uma última olhada no ateliê e a segui por um caminho irregular e estreito que finalmente terminou. . . Usava o mesmo jeans sujo do dia anterior e um suéter preto-e-branco bem maior do que seu número. .Eliot o odeia. o cabelo voando. onde pudemos caminhar lado a lado. e Andréa. . saímos pelo terraço e descemos o jardim íngreme na direção do mar.Onde você mora? . E a tia Mollie também. . Chegamos a uma curva de onde se podia avistar a cidade e as casas cinzentas e baixas que se aninhavam em torno da baía e subiam pela montanha íngreme até a charneca mais atrás.Não. ultrapassando seus quadris estreitos. e. a enorme janela do lado norte tinha as cortinas cerradas de modo a não deixar nenhuma fresta aberta para algum transeunte curioso. .Foi.Ela era muito alegre. . não foi? .Você trabalha? Tem um emprego? . Magoada.Não sei por quê. de alguma forma. como se fosse se jogar do penhasco. moro sozinha. Nos fundos do jardim. para então continuarmos a descer o penhasco.Você costuma ir a festas ou coisas assim? . .Ela não a conhecia de verdade.Ela era leviana? .Nossa. .Não. que horror. Ela abriu os braços e balançou o corpo ligeiramente para a frente.Eu sei.ela me disse..Sua mãe morreu há pouco tempo. Voltamos à cozinha a fim de apanhar uma cesta.Eu gosto. Andréa mostrou-se comunicativa. seguindo-me com os olhos. Ele consertou uma cadeira para mim.Mora sozinha ou com outra pessoa? . . mas seu rosto não trazia expressão alguma.Onde conheceu Joss? Agora.Por quê? . Andréa ficou parada no topo do muro. ela recuou. Página 50    . com ela à frente. Eu já os vi conversando.Tia Mollie me contou.. e é claro que ele não faz isso. caminhando à minha frente.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Desvencilhou-se da manta e levantou-se. Ela pulou. como Joss dissera. após passarmos por alguns arbustos na altura do peito e por um torniquete. foi até a beiradinha para olhar para baixo. Aquela era obviamente a caminhada favorita para os visitantes de Porthkerris. e lá de baixo vinha o longínquo estrondo da arrebentação sobre as pedras. adorável e muito bonita também . Fazia anos que não se viam. E ele conversa com Grenville e o faz rir. fechado e trancado.Sim. . o vento sacudia violentamente seus cabelos e seu enorme suéter. Percebi então que Andréa não estava apenas tentando me alfinetar.

Pelo amor de Deus. . ela disse: . e Joss disse que o carro não estava bom para viajar. Ainda quer que eu vá para lá.Ah. mas a chata da minha mãe se meteu no meio e estragou tudo. de alguma forma. .A peixaria é ali . . Ela olhou para mim encantada.Sim. Mas parece que estou aqui há seis meses. e eles estavam do lado de fora da casa. Assim que completar 18 anos. .A vida é minha. Foi sobre um carro que Eliot vendeu para um amigo de Joss.O que faz em Londres? Ela chutou uma pedra violentamente. Pareceu-me uma idéia fantástica. . não é minha. Quando saí da peixaria. .Pensei que gostasse daqui.Vamos voltar agora? . viver numa espécie de comunidade. Quantos anos você tem. e eu vou.Ele e Eliot tiveram uma terrível desavença. e quando Andréa voltou a falar.Ou vai querer comprar mais alguma coisa? . . tinha um amigo que dirigia uma olaria na Ilha de Skey e queria que eu o ajudasse. .Por que não volta para a Escola de Artes primeiro e tira o diploma? Isso lhe daria tempo.apontando a direção. saiu de uma loja ao lado. . . .Vamos visitar o Joss. .Onde Danus está agora? . Danus. Por isso me mandaram para cá.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Imaginei-a ouvindo atrás da porta e espiando pelo buraco da fechadura. O que se tem para fazer aqui? Brincar de baldinho e pazinha na areia da praia? . onde comprara uma revista estranha chamada True Sex. não acha? Senti uma pontada de pena de seus pais.O que é que você sabe? Você fala como os outros. . a fim de buscar o linguado. meus pais não vão mais poder me impedir.Mas não vai poder ficar aqui para sempre. Ela se virou para mim. . . Fui pega de surpresa. uma menina tão detestável. não sou criança.Não posso comprar mais nada. . . viver por minha conta..Entrei. Súbita e irracionalmente. . foi para dizer: ..É loucura destruir sua vida antes mesmo de começar a viver. afinal? Fala como se estivesse com um pé na cova.Você ouviu isso também? . continuamos em silêncio nossa caminhada rumo à cidade.ela baixou o tom de voz . Sempre vou visitá-lo quando venho à cidade. mas meus pais não aprovaram .Não.Ele escreveu para lhe contar como é lá? Ela jogou a cabeça para trás. remexeu o cabelo com as mãos.. fazer o que bem entendesse.Duas semanas. queria fugir. . e achei que ela fosse aceitar alegremente minha modesta oferta.perguntei. . O que vai fazer quando voltar? . .meus amigos. mas ela ficou do lado de fora. se quiser. Ele sempre fica contente em me ver. Não sua.Porque quero. .Por que quer ir visitá-lo? . demonstrando seu ódio pela Cornualha.Como sabe que ele vai estar lá? Página 51    . . ..Não pude evitar. longe de todos.Há quanto tempo está em Boscarva? . Só alguns centavos. mas.Estava estudando na Escola de Artes. ele foi para Skey. não estava mais lá. à porta da frente. um grande amigo meu.Que bom que ele faz o velho rir. em vez disso. Eu estava no banheiro e a janela estava aberta. senti pena dela.Obrigada.Mas será que não há nada que você queira fazer? .Um montão de vezes.perguntei a ela.. evitando meu olhar. DEPOIS DESSA DISCUSSÃO. e Eliot o chamou de insolente e de bastardo intrometido. . curiosa em saber quanto tempo teria levado para descobrir os podres da família. e no momento seguinte. não tenho dinheiro.Eles é que devem decidir.Posso lhe pagar uma xícara de café. .. E me fez prometer que sempre o visitaria quando viesse à cidade. que criaram.

mas ninguém sabe. Já esteve lá? É incrível.De vez em quando.eu disse gentilmente -. e subitamente começou a chover. eu havia começado a esquecer minha antipatia inicial e começado a simpatizar com ele. não vai querer ser interrompido.Oh. eu já lhe disse. como se alguém estivesse se acercando de mim. sorrimos uma para a outra. Ele não nos quer atrás dele o tempo todo. Andréa. jogar bridge com alguns amigos em Fourbourne. A Sra. Ontem.Quer dizer que. tem uma espécie de apartamento no último andar.Tenho certeza que sim . mas havia sido divertida. O silêncio da tarde sombria era quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de meu avô e por leves ruídos provenientes da cozinha.Como está meu avô? . ele não tinha a menor importância para mim.. . desde o princípio.Olá.. mas vamos voltar para Boscarva. não foi difícil trazer à tona a desconfiança que depositava nele.Mas eles não. Ele olhou para mim assim que apareci na porta. nada me faria aproximar-me da loja de Joss. Eu estava começando a ficar desesperada. Não ouvi você. eu havia antipatizado com Joss.Ora.é tudo tão íntimo e secreto. Sozinha. . fiquei parada ao pé da escada. . Não vai contar aos outros.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher ..seu tom era de devaneio . .. Ele era bonito demais. eu lhe digo que vou ao cinema. encantadora e cheia de vida. como nos contou.Está falando de mim? . Venha.. GRENVILLE NÀO DESCEU para almoçar naquele dia. De qualquer forma. . limpando a prataria. eu não queria tomar parte nisso. Pettifer vai levar seu almoço no quarto. mas não era tola... Tentei não parecer embasbacada. Além disso. A mesa. que vinham de Pettifer.Pensei que gostasse dele. só há a luz do fogo. depois de tal revelação. porém mais entediada ainda diante de minha companhia. ela havia classificado o restante da família com desconcertante precisão e.Ele está cansado . Por que não podiam se lembrar dela dessa maneira? Enquanto estávamos à mesa. . vai? . Ela sorriu. avisando que estaria de volta às 18 horas. achei desnecessário que Mollie tivesse falado com Andréa a respeito de Lisa. porém.Estou falando de nós. imaginando uma maneira de matar o tempo. com um sofá-cama. Respondi que ficaria bem. ele não foi a Boscarva hoje. vamos até a loja de Joss. Lembrei-me de que. Se o tivesse conhecido melhor e gostado dele. provavelmente exaurida pelos exercícios matinais. não há tempo. Mas. e também uma lareira. E eu não quero ir. . Pensamos que seria melhor ele passar o dia descansando. Ela deu de ombros..Não se trata disso. você e Joss.Vai passar o dia na cama. . não quero ir. Desejei acreditar na segunda opção. Apesar de sua aparente preocupação e afabilidade. . . . ele sempre me deixava com aquela estranha sensação inquietante. Assim.Ah. Roger saiu? Página 52    . Apenas um pouco cansado pela excitação de ontem. Nem sei por que lhe contei. Disse que esperava que eu arranjasse alguma coisa para matar o tempo. Foi sob essa chuva que Mollie partiu em seu carrinho rumo ao seu jogo de bridge. o tempo lá fora mudou. está bem. e pus-me a imaginar se ela realmente dissera a Andréa que minha mãe era leviana ou se teria sido simplesmente a interpretação de Andréa diante de uma vaga explicação eufemística de Mollie. sentado à mesa de madeira da copa.Ele deve estar trabalhando. eu o manteria a distância e o censuraria pelo que ela disse. encobrindo os raios solares. mesmo se houvesse apenas um grão de verdade em tudo o que dissera sobre Joss. então deve estar na loja. um monte de almofadas e outras coisas. igualzinho aos das revistas. Andréa podia ser mentirosa. . .Você disse que havia tempo para um café. Mollie não. charmoso demais. subiu para o quarto com sua revista nova. por que não há tempo para Joss? .. E à noite . De qualquer modo. Ela estava morta agora. Mollie colocara um elegante vestido de lã e um colar de pérolas de duas voltas. Ela não se importa que eu vá ao cinema.Ele sempre quer me ver. após as confidências de Andréa. Talvez jante conosco. eu tinha outras coisas com que me preocupar. ainda assim.Molhe nos avisou. nós três almoçamos juntas. O vento oeste começou a soprar e uma massa de nuvem cinzenta espalhou-se rapidamente pelo céu azul. lhe faz perguntas? . mas.Andréa. jogando a cabeça para trás.. Ela estava indo. Sei disso.

Então ela vinha passar o tempo conosco. e agora Pettifer falara nela como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sophia. e. dando o dia por encerrado.Ah .Esteve.É muita gentileza. fui também.Era Sophia. Mas era alegre. que já se foi. agora. Pettifer ficou aqui com a Sra.Quem era ela? Ele não respondeu. Ia ao ateliê com o comandante até que ele ficava cansado ou perdia a paciência com ela.O que minha avó achava de Sophia? .Quer que eu o ajude? . mas o antigo era bonito.Quem lhe contou? .. . . Página 53    .Então Sophia nunca esteve em Boscarva? . ficava hospedada em Porthkerris e posava para qualquer artista que pudesse pagá-la. sei. certo? .Saiu.Nem todas. Sua mãe ainda não havia nascido.Quem era ela? A moça no quadro? . Bayliss não gostou de sua decisão. Quando Roger foi para o internato. Apenas o barco pesqueiro sobre a lareira da sala de jantar e uns dois pequenos desenhos em preto-ebranco ao longo da escadaria. . . aquele. Roger está. Foi assim que se conheceram. então ele veio de vez. O comandante foi recrutado para Slade.. . e isso significava ter que trabalhar em Londres. Quando o comandante lhe comunicou que iria sair.disse Pettifer. . Pertencer à Marinha significava muito para ela. E construiu o ateliê. Puxei uma cadeira e sentei à sua frente.Ela era bonita? . . sim. não havia mais ninguém com quem ela pudesse conversar. lindas paisagens marítimas. .Mas e quando acabou o serviço em Slade. A Sra.Não era o meu tipo. .E um na sala de estar.Essas telas estão todas aqui? . em dias chuvosos como hoje..Era uma moça que posava de modelo para o comandante. quando foi para Londres. Não sei como ficam tão marcadas e manchadas. para vigiá-lo. Ficou sem falar com ele durante três meses ou mais. ela costumava preparar torradas no velho fogão. Aliás. talvez estivesse preocupado com a prataria.. . Fez coisas maravilhosas.Desde quando o comandante a comprou. Foi sua melhor época como pintor. É essa maresia úmida. Os objetos de prata odeiam umidade. Tiveram um bonito casamento. Pettifer? . Sua mãe costumava ficar metade do dia na cozinha. eles discutiram muito. Desde que minha mãe a mencionara de passagem eu queria saber quem ela era..Ah.Comecei a esfregar a parte côncava e fina da colher. "A Dama Segurando a Rosa". então ele teve esse pequeno pied-à-terre fora de St James. Pettifer sempre mantinha a chaleira sobre o fogão.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . e ela subia pelo jardim e entrava pela porta dos fundos.Ela conviveu com a Marinha a vida inteira. e a Sra. Seu pai era capitão do Imperioso quando o comandante era primeirotenente. E. muito bom também. Tem mais uns três ou quatro no ateliê e dois no quarto onde a Sra.. Casaram-se em Malta. Baylisse Roger. . a Sra. mas ela não conseguiu dissuadi-lo. . Pettifer olhou para mim por sobre os óculos. .. e viemos todos morar aqui. A velha Sra. é.E você está aqui desde então? . aquelas colheres ali precisam de uma boa esfregada com a flanela. temos um novo. .É engraçado tê-la aqui após todos esses anos. Então deixamos Malta de uma vez por todas.Minha mãe. com cruzamento de espadas e tudo o mais.. a Sra. gritando: "Há alguma chance de se conseguir uma xícara de chá?" E.Mais ou menos. sim.Ela costumava ler a sorte nas xícaras de chá. em 1922.. . . . Foi o ano em que ele deixou a Marinha.. e então ela passou a vir aqui algumas vezes durante os meses de verão. decidido a ser pintor.Há quanto tempo está em Boscarva. com o fogo queimando atrás das grades e os botões de bronze bem polidos. .Bem. por causa de Sophia. Acho que ela começou a trabalhar para ele em Londres quando ele ainda era estudante. Pettifer ensinou-lhe a fazer biscoitos encantados e a jogar cartas.? .Por que ela ficou tão chateada? . .Elas nunca se deram bem. sua avó tinha contato social apenas com o açougueiro e a cabeleireira. tão frias e reluzentes que se podia sentir o vento e o sal nos lábios. de County Cork.. Nós nos divertíamos a valer.Ouvi o barulho do carro. e o comandante encontrou esta casa.. esfregando um garfo como se estivesse determinado a achatá-lo. Pettifer e eu. e como falava! Era irlandesa.

Só soubemos da notícia muito tempo depois. Era uma senhora educada.. mas não gostava muito de crianças.Rebecca está aí? Diga a ela para entrar. Eram apenas desenhos. iria? . Pettifer? . Pettifer. . .Pettifer me ajudou a levantar depois do almoço. .Eu estava mostrando a Rebecca os dois quadros no quarto da Sra.Pegue a chave com Pettifer.É o comandante.Será que poderíamos subir para vê-los? .Guardei-a num lugar seguro.O que vocês dois estão murmurando aí? .Isso mesmo. Ela foi apenas uma moça que trabalhou para ele.Pensei que estivesse na cama . Não vejo por que não poderíamos.Voltou para Londres. Há um na galeria de Porthkerris. Eu a trouxe da China anos atrás e presenteei Lisa com ela.O que aconteceu com Sophia? .E o que minha avó fazia? . ela foi morta durante a guerra. .Está no sótão. E ela nos dizia as coisas maravilhosas que iriam acontecer a nós todos. Há vários deles no ateliê que nunca foram escolhidos. então teremos que descê-lo e limpá-lo.E meu avô? . Aquela peça de jade na estante lá de baixo. Ele levantou-se penosamente da cadeira e eu o segui escada acima e pelo corredor do segundo andar até o quadro na sala de estar de um quarto amplo e decorado com antiga mobília vitoriana e tapete rosa-claro e bege. . os jovens artistas.Bem. . . Sabia que retornariam. mas sentado numa poltrona funda com os pés apoiados sobre um banquinho.Eu estava ansiosa e Pettifer pareceu surpreso... e talvez sua mãe não tivesse fugido. eu acho. Tem onde pendurálos? .Pensei em mais uma coisa que está aqui. Roger. não.eu disse. elas faziam longas caminhadas pela charneca. E há dois lá em cima. passando por Pettifer. . não gostaria? Página 54    . Então. . Fico entediado de ficar deitado o dia inteiro. Eles retornaram ao realismo. Mas eles não se viam havia muitos anos. do andar de baixo.Tenho um apartamento em Londres que precisa de quadros.Pettifer estava me mostrando alguns de seus quadros. em 1942. ele nos ouviu conversando. . Você tem que ficar com um de meus quadros. se o tempo não estivesse bom. senhor. Com licença um instante. A Sra. E. casou-se e teve um bebê. Você gostaria de tê-lo. no quarto da Sra. o fogo aceso na lareira dava ao quarto um ar aconchegante.Continuo sem saber como ela era. vá até lá e dê uma olhada.. mas Sophia ficara em Londres por estar trabalhando num hospital. vestido e coberto até os joelhos com uma manta.A Sra. venha. Agora pertence a você. uma trazia um castanheiro com uma moça deitada sob sua sombra e a outra. Pettifer preparava o piquenique. Fechei aquele lugar há dez anos e desde então não voltei mais lá. Mantinha um círculo de amizades bastante seleto. Mollie o deixara meticulosamente arrumado. Deixamos o quarto de Mollie.Vocês têm algum retrato dela? . O bebê estava no sul do país e o marido viajando. como se eu tivesse sugerido algo indecente. se quiser ver. Roger. mas era divertido ouvi-la assim mesmo. .. Tudo estava em seu lugar e cheirava ao rum aromático que ele usava nos cabelos. tivessem tido mais afinidade quando ela cresceu.. . Bayliss não iria se importar.Há retratos de Sophia em galerias de arte provincianas por todo o país. Pettifer e eu sentimos como se uma luz tivesse se apagado em nossas vidas.. a mesma moça pendurando roupas lavadas numa corda num dia ventoso. e eu ouvi a voz de Grenville. E um espelho que sua avó deixou para ela. se tivesse se interessado mais por Lisa na infância. Obviamente nada aconteceu. . veja se há alguma coisa de que gosta. Andou até o fim do corredor e abriu uma das portas.Ficou triste. Ela era uma grande amiga de sua mãe. onde está a chave? . onde está. . .Suponho que você os julgue ultrapassados.. Pettifer ia responder quando.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Entrei. e fiquei desapontada. Ele levantou a cabeça. As duas velhas telas estavam penduradas lado a lado entre as janelas. senhor. como um cão escutando. ouvimos um sino tocar. deixando-nos tão tristes. Sophia a levava até a praia e a Sra. e ele fechou a porta atrás de mim. Do que estavam falando? . Talvez. .Jogava bridge quase todas as tardes. é claro.Ah. Grenville não estava na cama.

Não . um tanto gasto.disse Pettifer. eu preferia que ele não tivesse tão boa memória.É provável . Pettifer me encontrou. e peguei a bandeja de chá a fim de levá-la para a cozinha. e Pettifer pegou um pano para secar a louça. -Ah. pois poderiam não encontrá-la. parecendo chateado com o que havia acontecido. Grenville havia feito isso para mim. Naquela noite. disse de repente: . Enquanto Grenville e eu tomávamos nosso chá. sim.Ele lançou-me um olhar feroz. .Grenville levantou uma sobrancelha. E ponha mais lenha na lareira.falei. .De qualquer modo . Vamos dar-lhe um descanso. Como vai? . Roger saiu para jogar bridge. .Bem. na companhia de seu cão. observando-o.Onde estão todos? A casa está tão quieta.O que eu faria com uma papeleira no ateliê? Eu o utilizava para pintar. Andréa está em seu quarto. Desejei na mesma hora não ter dito nada. se ninguém fosse querê-la.A Sra.. Lá. mas não vou contar isso ao comandante. agora que a mencionou. .Gostaria.Grenville estava ficando bastante agitado. Sua vista anda tão cansada quanto a minha. Estava imaginando uma maneira de tocar no assunto dos pertences de minha mãe e agora. olhando para mim.Mas para o comandante tem.Senti um alívio enorme.Lembro. Página 55    . .. . Pettifer está subindo e descendo essas escadas o dia inteiro. . como uma gloriosa pele. nem você. ora. . . Hesitei e então. . Bem... aproveitando a oportunidade. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Eles pareciam amistosos à luz do abajur. Grenville pareceu gostar da idéia. mencionei o terceiro objeto: .Pettifer obedeceu. nunca ter tocado no assunto da papeleira. muitas vezes depois.. Ouço apenas o barulho da chuva. Só não me lembro de tê-la visto ultimamente. Prometi que não contaria.Hã? . ela vai aparecerdisse com a voz mais suave possível. ora eu estou velho demais para sair da cama.. Ele pode ter sido um artista.eu disse -. Grenville não queria acreditar.Gostaria de tomar chá com o senhor.Não é bom para o comandante ficar preocupado com alguma coisa. .Eu não poderia deixar de ver uma papeleira . sobre o tapete da sala.eu disse.Às vezes. . . e havia uma pequena papeleira. O assento era de tapeçaria.. Estava sentado diante da lareira com um drinque numa das mãos e o jornal na outra. Não ia querer uma papeleira me estorvando. . encontrei Eliot na sala de estar. flores e coisas assim. mas a cadeira estava sempre em frente à papeleira.. magoado. se ninguém a estiver usando. Estava no outro quarto do sótão. havia uma cadeira Chippendale que combinava com.. ele havia vasculhado a casa inteira sem sucesso. . . . quando desci para o jantar. tentando ajudar . . . não é mesmo? .. não? Não tivemos muita chance de nos conhecermos.Os dois olharam para mim como se eu fosse uma tola e tratei de ficar quieta.. ela também se foi. Grenville.. .Eu trarei. . . lembra-se dessa papeleira? . certo? Desejei.. Acho que a Srta.Pettifer aventurou-se. procure-a qualquer hora dessas.Quero dizer.Que tal uma xícara de chá? .. e Eliot levantou-se..Está certo. mas minha aparição perturbou a cena plácida. . não para escrever cartas. . .Mas eu me lembro dela. . Não sei por que fui mencionar isso.Bom.Como sabe disso? . Pettifer começou a procurá-la. Ora você desmaia no meio do jantar.Foi tudo culpa minha. triste: . elas não combinavam.Será que não está no ateliê? . e isso é a única coisa que ele não perdeu.. e Rufus estava esparramado.que esteja em outro lugar ou que tenha sido levada para o conserto ou qualquer coisa assim. tendo vestido mais uma vez o cafetã marrom e prateado.Comecei a lavar as xícaras e os pires. não tem importância.Pettifer. mas tem uma memória de elefante. com pássaros. Sei que vai. isso não tem importância. .Minha mãe me falou do jade e do espelho e disse que havia uma escrivaninha também. largando o jornal no assento da poltrona.E acrescentou.Rebecca. . Levantei-me. e ele vai procurar por ela como um gato que persegue um rato. Formamos uma dupla e tanto. mas não me lembro de tê-la visto ultimamente.Continuou me olhando.Gostaria de uma xícara de chá.E tem mais uma coisa..Pettifer nos trará uma xícara. . . sim. ... sem precisar de nenhuma indireta. Quando veio buscar a bandeja.Fiquei receoso ontem à noite de que fosse ficar doente.Você deve ter-se enganado.. senhor. meu bom amigo.. Você busca o chá e prepara algumas torradas com manteiga também. é que.

. posso ir sozinho daqui.. Quer beber alguma coisa? Aceitei.. Quando Eliot me entregou o cálice. a todo canto que vou. .. Pettifer.O que quer dizer com começar de novo? Temos de achar a maldita papeleira. disse que já vasculhou a casa inteira e não a encontrou. surpreso. ao alcance de Grenville. pare com essa cerimônia toda.Quer beber alguma coisa? . Grenville.É uma pequena escrivaninha com gavetas laterais.Tudo bem.A pequena papeleira que costumava ficar num dos quartos. Pettifer tenha feito alguma coisa com ela e esqueceu de lhe contar.. aos pubs. Está achando que quero me sentar dentro da lareira? Vou queimar até a morte se me sentar aí. ele não esquece nada.Pettifer não esquece nada.Não. Puxei a cadeira para o lugar em que estava antes.. . ouvimos os dois avançarem pelo corredor e o barulho surdo da bengala de Grenville contra a madeira polida do piso. descendo as escadas passo a passo.Eliot perguntou a ele.Melhor do que este mausoléu. . tratar da compra de um carro.Sim. . Acabei de dizer a Pettifer para continuar procurando até encontrá-la. e foi servir-lhe o drinque. É um cão bastante conhecido por aqui. O que acha? Fiquei surpresa com o convite. Mas talvez você possa se distrair por uma ou duas horas enquanto trato de negócios. mas hoje eu vou tomar um uísque. Eu também. talvez a Sra. .Minha mãe me contou. pacientemente. não vamos começar de novo. balançando a cabeça com paciente aquiescência. Eles servem deliciosos frutos do mar.Que papeleira? . Decerto. E Pettifer não consegue achá-la. Você a viu por aí? . uma voz aguda e a outra grave e rascante.Ora.Ele o acompanha a todos os lugares que vai? . . .Encolhi-me na cadeira. Eliot. . Enquanto o fazia.Pelo amor de Deus.Nunca gostei muito de relíquias vitorianas.. São consideradas raridades agora. . Grenville entrou na sala.Eu já disse.Uísque? . ao restaurante.Quero um uísque. Ela a quer. querendo ajudar a empurrar a cadeira que ele usara na noite anterior. . Eliot o fitou. e você poderia ver onde eu e minha mãe moramos. conhecer um pouco mais esse lugar. mas meu gesto pareceu irritá-lo... Valem um bom dinheiro. . . Eliot voltou com o copo de uísque.Ora. Tem um apartamento em Londres e quer colocá-la nele.Não será muito excitante.Amanhã irei a Falmoufh. Gosta de ostras? . Antes que eu pudesse protestar. .Eu adoraria.perguntou ele.. Nós o ouvimos aproximar-se. e Eliot deixou-se cair novamente na poltrona. ao escritório. Eu só estava cansada.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . perguntei-lhe: .. Dormi até as 10 horas. Grenville inclinou-se para trás na cadeira e perguntou: .Sim.Oh. Pertencia a Lisa e agora pertence a Rebecca. você viu aquela papeleira por aí? . pegando o copo de sherry e dizendo: . Eu me levantara do tapete. . isto não é um mausoléu. . todos. agachei-me em frente ao fogo.. . apenas consentiu..Que bom. Eliot não discutiu.Eu nunca cheguei a vê-la. . e finalmente Grenville a alcançou e sentou-se nela. . À oficina. . forrada de couro por cima. Imaginei se gostaria de me acompanhar. e ele me serviu um cálice de sherry. e então poderíamos parar num pequeno pub que conheço no caminho de casa. acariciando as orelhas sedosas do cão. eu acho. Não sei nem o que é uma papeleira. Sei o que aquele médico idiota disse.Eliot.Pettifer provavelmente a colocou em algum lugar e esqueceu. depositando o copo sobre ela. moça. ele não estava bem-humorado. e o escutamos falar com Pettifer. Eliot fez uma ligeira careta para mim e adiantou-se para abrir a porta. E poderíamos voltar por High Cross. e Grenville entrou. . um uísque. Sentei-me no tapete. feito a proa de um imenso e indestrutível navio.Sua mãe me contou. Página 56    . Deve ser um lugar encantador.Gosto.. Puxou uma mesinha.. .

como se tivesse ouvido a voz exasperada através da porta e quisesse amenizar a situação. está com uma aparência mais descansada.. Mollie lançou-me um olhar de reprovação.Grenville a interrompeu bruscamente.E Grenville. .Uma papeleira valiosa.Deve estar guardada em algum lugar seguro.Ela o beijou.Nada pessoal. Eliot pôs a garrafa de uísque na mesa com uma pancada.O que foi que perdeu? Suas abotoaduras novamente? . .. que diabo você pensa de mim? . Ele parou abruptamente. .. Talvez ele a tenha colocado em algum lugar e não se recorde. Isso estava se tomando ridículo. O que sabe a respeito de Joss? O que qualquer um de nós sabe a seu respeito? . . . . eu faria algumas perguntas ao seu Joss Gardner. Estou certa de que ele precisa de um novo par de óculos.Ela pegou o cálice da mão de Eliot. .Mas deve estar em algum lugar.Perdemos uma coisa . sabe o que tem valor. ele prosseguiu: . . . servir-se de mais uma dose.. Mollie entrou na sala parecendo determinadamente sorridente.disse.. Ao ficar sabendo que fora eu quem havia precipitado a crise. Eliot perdeu a paciência. sucintamente: .Não acho que Joss. A fim de quebrá-lo. Tive que sair e tomar algumas providências para preparar o delicioso linguado que Rebecca comprou hoje de manhã. creio que me atrasei um pouco. Fui treinado para julgar o caráter de um homem..ele lhe disse. . como se achasse que aquela era uma maneira mesquinha de retribuir a hospitalidade e a gentileza que me foram endereçadas..Tudo bem. . . Página 57    . Andréa já vai descer.Mas por que Joss levaria uma papeleira? .Na verdade .perguntou Mollie. .Então.. Grenville o encarou.Vocês perderam uma papeleira? Grenville explicou-lhe a confusão.Fez-se uma pausa. . . Terminou seu uísque e foi. elevando a voz quase ao mesmo tom de Grenville -. antes que ele pudesse contradizê-la. Mas Joss entra e sai desta casa o tempo todo. Grenville socou o braço da cadeira com o punho cerrado. .disse Eliot com frieza -.Sim.Olá para todos. .Você acabou de dizer que ele está velho demais para saber o que está fazendo. como um hippie. .ela parou para beijá-lo também.. e não seria má idéia se você recebesse algumas lições para escolher melhor suas companhias.O que quer dizer? .Não tão mal.. . Trata-se de uma valiosa raridade. Apenas que ele está ficando velho.Sei que posso confiar nele. puxou uma cadeira e sentou-se. Como foi o jogo de bridge? . Ela não vai se atrasar. Eliot. Está sempre indo a Londres. Mollie disse.Como pode saber? Como pode saber alguma coisa sobre Joss Gardner? Ele aparece do nada. Ganhei uns trocados. . . Eliot. Grenville gritou mais alto que Eliot. . querido... entra e sai de todos os cômodos..Pettifer já procurou em todo canto.. ninguém aqui está querendo acusar ninguém de roubo.. E então. .Perdemos uma papeleira. Ele bem que gostaria de algum dinheiro extra. como se houvesse percebido que falara demais. Talvez estivesse precisando do dinheiro. como disse Grenville.Se for para culpar alguém . e o senhor abre a casa para ele e o emprega como restaurador de móveis.. sem dizer uma palavra. pronta a desvendar aquele mistério. eu adoraria tomar um drinque.Não estou acusando ninguém.Talvez ele não a tenha visto.Pettifer não esquece nada.Você o acusou. .. Grenville imediatamente abriu fogo contra ela: . obrigada. é um especialista. Passou uma tarde agradável? . . querido. -. Não se esqueça disso. Conhece tudo o que há aqui melhor do que ninguém. ele esquece as coisas com freqüência. num tom de voz mais moderado. . Quando finalmente Mollie não tinha mais o que inventar para dizer.Creio que está acusando Pettifer. Se ele está velho demais. Além disso.. .Eu não disse que. O silêncio tornou-se incômodo. Eu estava inclinada a concordar com ela. Saberia onde vendê-la. aparentemente vendo o filho pela primeira vez naquele dia.Conversa fiada . diz que vai abrir uma loja.Pode estar enganado. E é um especialista. ela sorriu por sobre sua cabeça em minha direção.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Nesse momento..

O que quer dizer? . aquele vagabundo de praia. eu o teria feito. . ela o viu com Padlow naquele pesadelo que ele chama de projeto de urbanização. Thomas apareceu aqui hoje de manhã e confirmou essa história.A gente ouve as verdades das pessoas confiáveis. E se pensa que vou vender minhas terras para aquele trapaceiro. se você quer passar por idiota.. 8 Página 58    . . . foi Hargreaves. . atrás da cadeira de Grenville. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Eliot apertou os olhos. Mas estava encurralada no canto da sala.Se tem tanta certeza de que serão suas. Pois você. Se eu pudesse ter escapado naquele momento. do banco. faça negócios com aquele escroque do Ernest Padlow.Não foi Joss Gardner quem me contou. tudo o que posso lhe dizer é que não conte com o ovo na galinha.Quero dizer que. . não é meu único neto. Nesse momento dramático. não importa onde moram essas pessoas.O que sabe a respeito de Ernest Padlow? ..Fofoca de empregados.. que mais parecia uma cena teatral. está muito enganado. a porta se abriu e Andréa apareceu dizendo que Pettifer avisara que o jantar estava servido... .Aquele bastardo do Joss Gardner.Sei que você tem sido visto com ele. rapazinho. Ele passou aqui outro dia para tomar um cálice de sherry comigo. E a Sra..Essas terras não serão suas para sempre. bebendo nos bares. Eliot olhou para mim e então falou entre os dentes: .

. Mollie e eu terminamos na sala de estar. Tentamos falar sobre isso com Grenville. rapazinho.Ele magoou Eliot. Mollie. Grenville nunca deixaria um lugar como este para mim. não é meu único neto. eu não quero Boscarva. A situação toda é tão absurda.. voltei para a cama e tentei mais uma vez me acalmar. e as vozes ecoavam em meus ouvidos sem cessar.Creio que seja difícil ser sensato quando se tem 80 anos e se morou no mesmo lugar quase a vida inteira. Temos que fazer concessões aos mais velhos. . E Andréa ficara observando todos nós..Minha vida foi dilacerada por Grenville. Eliot está simplesmente tentando fazer o melhor que pode. Eliot nunca poderá pagar as despesas. Ele só falou aquilo porque estava nervoso. . E Mollie foi momentaneamente distraída. assoviou para seu cão e saiu batendo a porta da frente. Ela segurava uma tapeçaria e parecia totalmente preparada para bordar em silêncio. como faria qualquer restaurador. Ela me lançou um olhar gélido. de onde podíamos ouvir o barulho da televisão. enquanto Pettifer andava pesadamente para lá e para cá. a casa é dele. Até na agência de automóveis em High Cross. É assustador. levantei para pegar uma garrafa de água.Oh. Se a mobília de Grenville precisa de conserto. Pelo visto.Mas será de Eliot um dia. todos se dispersaram. faça negócios com aquele escroque do Ernest Padlow. . E Boscarva deveria ter sido cedida a Eliot há anos. Sempre foi turrão. Nessas circunstâncias. sem dar satisfação. mas Grenville disse que não se meteria com carros usados e lhe passou uma descompostura. Andréa para o sótão.. e finalmente Eliot arrumou o dinheiro emprestado com outra pessoa e nunca pediu ao avô um níquel desde então. No começo. Ele e Pettifer poderiam ter ido morar em High Cross.E toda aquela terra e a fazenda. Eliot. nunca vai perceber que toda situação tem dois lados. É como se Joss exercesse algum poder sobre ele. Grenville foi para o seu quarto.. Não é nossa. Eliot e Grenville não disseram uma palavra do começo ao fim.Grenville é um velho estranho. . provavelmente foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça. e quando Grenville falou sobre a peça de jade e o espelho. aquele vagabundo de praia. Ela não olhou para mim. Eu disse. servindo um suflê de limão com creme chantilly pelo qual ninguém pareceu interessar-se. como um filme se repetindo. Ele merece algum crédito por isso.Ele disse que me levaria até High Cross na volta.Você se refere a Joss. era o que queríamos. inventara uma tagarelice sem sentido. nunca encorajou Eliot em nada. com um brilho triunfante nos olhos esbugalhados.uma tigresa. ele certamente poderia levá-la em sua caminhonete até a oficina. eu duvido. afinal de contas. você. . uma em cada lado da lareira. tornava a ver a discussão em minha mente. espiei pela janela. Eliot toca o negócio totalmente sozinho. Ele nunca demonstrou nenhum interesse. Essas terras não serão suas para sempre. para compensar o silêncio dos dois. Página 59    . O que sabemos a respeito de Joss? Se quer passar por idiota. não me ocorreu que isso daria início a uma tempestade num copo d'água. .. lançando-me diretamente às desculpas que achei que lhe devia: . "Tudo bem. A fim de mudar de assunto. Ela ignorou minha intervenção. ele pediu ajuda ao avô. . os impostos de transmissão serão exorbitantes. . nenhum dos dois perdera o costume. da qual tentei participar. mas. retirando pratos. .Eliot vai entender. andei de um lado para outro." O jantar tinha sido horrível. e lembrei-me da opinião desfavorável de minha mãe acerca da maneira como ela superprotegia e mimava o menino Eliot.Depois desta noite. sempre que fechava os olhos. Quando finalmente terminou. contei-lhe sobre o convite de Eliot para o dia seguinte.Eu só toquei no assunto porque minha mãe a mencionara.. Eu me revirei na cama. . pensei. A casa é menor e mais confortável e teria sido melhor para todo mundo. . . Imaginei que teria ido se embebedar e não o culpei de todo. bem. cortando com violência um fio de lã com a tesoura prateada.Sinto muito por esta tarde.. .Estou farta de fazer concessões a Grenville . mas aquilo seria insuportável. Ele não quis dizer isso. . ninguém aqui está querendo acusar ninguém de roubo. . Eliot e eu nunca o quisemos entrando e saindo daqui dessa maneira. E se pensa que vou vender minhas terras para aquele trapaceiro.Não se pode fazer mais nada..Não sei por que ele morre de amores por Joss.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Foi difícil pegar no sono naquela noite. está muito enganado. Ela estava pálida de ódio por conta do filho . Eu não devia ter falado na papeleira. Mollie. mas ele ficou irredutível e.disse Mollie. vestiu um casaco. lutando por sua cria. mas Grenville não vê isso.

escolhi as palavras cuidadosamente .que teria que subir para acordá-la. não esqueci.disse ele .E. o sono chegar. . em meio à luminosidade translúcida e fria da primavera. e senti uma maravilhosa sensação de alívio por estar em seu carro. . Tomei banho.Sobre Grenville ter lembrado que tem outro neto. Desculpei-me com sua mãe ontem à noite. . . Mas eu sabia que não poderíamos aproveitar nosso dia juntos e ficar completamente tranqüilos.Servi-me de uma xícara de café. e hoje seria melhor. comendo ovos e bacon. a estrada úmida refletia o azul celeste.Se vendesse. e o ar cheirava a prímulas. . . e por estar fugindo. Nem em mil anos.Isso tudo vai passar..Foi culpa minha mencionar aquela papeleira estúpida. A brisa estava tão serena que era possível ouvir a distante descarga do motor. afinal de contas. Não queria pensar nele morrendo. Recobrei o ânimo.Somos os primeiros a descer.Isso está acabando comigo.Mas . não pense mais nisso. vesti-me e desci. Tentei soar casual. Eu não vou pensar. .fiquei grata em observar . eu não gostaria de saber nada. . Quando não é o gerente do banco. encontrando Eliot na sala de jantar. Ele moveu os olhos por sobre o jornal. Ele não falou sério.Você venderia as terras? . como um par de cães..O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . O dia anterior se fora. afastando-se de Boscarva. mas fico tão deprimida por ter que deixar minha casinha querida e voltar para este lugar lúgubre.jovial. Eliot tem a chave. Ao subirmos e passarmos pela charneca. Ele nem me conhece. poderemos sair antes que alguém apareça .Pensei .. . mas o dia amanheceu sereno e claro. morar lá. mas precisamos conversar sobre ontem à noite.Não. . Inclinei-me no peitoril da janela e senti o cheiro doce da umidade de musgo. pior. Sei que não falou sério. inventando histórias e fomentando discórdia. Quando tudo isso terminar. Mas vou ficar muito feliz quando tudo isso terminar. e velhos arvoredos de carvalhos e olmeiros agrupados ao lado de pontes estreitas e arcadas. como um garoto arrependido. Vou lá quase toda semana para me certificar de que está tudo em ordem. Se tivermos sorte. Talvez estivesse apenas querendo jogar-nos um contra o outro.Sobre o que precisamos conversar? . provavelmente conseguiria pagar as despesas para morar em Boscarva. . Isso significava quando Grenville morresse. enfiando-as dentro da caminhonete e vendendo-as ao primeiro negociante que lhe fizesse uma boa oferta "O que sabe a respeito de Joss? O que nós sabemos sobre ele?" De minha parte.Está se referindo a Ernest Padlow? Que bando de fofoqueiros aqueles velhos são. minúsculos e esquecidos vilarejos incrustados nas dobras de inesperados vales onde correm riachos.ele sorriu. cercado pelas casinhas do Sr. Achei que tivesse esquecido. Já é hora de me manter sozinho. olhando-me de esguelha. é a Sra.. se aquelas terras serão suas um dia.Não. . Ele sorriu para mim. O carro roncou morro acima.Ele nunca deixaria Boscarva para mim. quero dizer. não está? Preciso tentar me controlar. e quando não é ela. longe da reprovação de Mollie e da presença inquieta de Andréa. com Rufus encarapitado no banco traseiro.Sei que isso tudo vai passar e que talvez não seja importante. . pesarosamente. Então falei: . Choveu à noite. o céu estava azul pálido e tudo parecia úmido e reluzente. Padlow? Página 60    .Sinto muito por você ter sido envolvido. rumo a remotas águas piscosas. . . não vejo motivo para não começar a pensar no que fará com elas. sem muita esperança. Thomas.Essas pequenas divergências de opinião sempre passam.. acabei de entrar em sua vida.Rebecca.Vá conhecer a casa.Em seguida ela riu de si mesma. a menos que eu fizesse as pazes com ele. talvez não tenha falado.. da mesma forma que não queria pensar em Joss ligado à detestável Andréa nem tampouco queria pensar em Joss ganhando dinheiro com a papeleira e a cadeira Chippendale.A última coisa que quero numa linda manhã como esta é recriminação. . .disse Eliot. é Pettifer. e com uma aparência . Senti-me aliviada por estar deixando a casa. . Virei-me na cama. . O mar estava liso e azulado como um lençol de cetim. soquei os travesseiros e aguardei. a vista abriu-se e desapareceu momentaneamente diante de nós: havia montanhas coroadas com antigos marcos de pedras. as gaivotas adejavam sobre a margem do penhasco e um barco se afastava da enseada.não seria ruim. Saímos logo em seguida.

ela me fez pensar em algum porto do Mediterrâneo e tal ilusão foi reforçada pelo azul do mar naquele primeiro dia quente de primavera e pelos mastros altos dos iates ancorados na enseada. Encontrei uma pulseira estreita de couro escuro. Sorrimos um para o outro. repleto de chalés brancos. E para Eliot. uma garrafa de sherry para Pettifer e um disco para Andréa .Certo .Notei que sua pulseira estava gasta.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Eliot deu uma gargalhada.Mas se você lhe explicasse. havia um pub. bem à beira-mar. como combinamos.a capa mostrava um grupo de travestis de sobrancelhas cintilantes. por algum motivo.Comprou presentes para todos? .Não acredito. . Senti-me. Você costuma presentear as pessoas? .Nunca houve alguém especial. Seriam casas caras para pessoas ricas e não haveria muitas delas. .respondi finalmente. colocando a nova e lustrosa pulseira de couro e ajustando os furinhos com a lâmina de seu canivete. Estava tão quente que eu havia tirado o suéter e enrolado as mangas da camiseta de algodão.Neste caso. O que acha disso? . Endon.Notei que estava com outros embrulhos. Respondi que não. Pareceu-me ser exatamente a seu gosto. no saguão do grande hotel no centro da cidade. O automóvel avançou morro acima. há algo mais que queira discutir? Considerei sua pergunta. comprei um tubo de pasta de dentes para mim. Atravessamos uma ponte e uma subida íngreme. onde Eliot reduziu a marcha. Não está interessado e ponto final. ao fundo. até chegarmos a um vilarejo chamado St..Ninguém especial? . perfeita para ele. .. surpreendendo-me com sua benevolência. estava sendo fácil conversar com Eliot naquele dia. Certamente eu não queria discutir sobre Joss. retirando a velha. . Pequenas gaivotas empoleiravam-se ao longo da mureta e seu olhos eram brilhantes e amistosos.Porquê? Página 61    . . Eliot me apanhou.Realmente não. Guiamos velozmente em direção a Truro e descemos no labirinto de pistas e córregos arborizados mais ao longe. E então. sob o sol. .Comprei. tomando sherry..ele perguntou.. . vencendo a forte subida.Ele não me deixaria falar. . Não me ouviria. ele pareceu excessivamente excitado. em botões fechados. palmeiras e jardins floridos. e seu longo e elegante capô parecia apontar diretamente para o céu. . impelida a fazer compras. .? Nada para Joss. diferentes das gaivotas vorazes e selvagens de Boscarva. com jardins repletos de camélias e loureiros perfumados. porque estava precisando. Não sei por que eu lhe estava confidenciando tal coisa. Não seria um projeto de urbanização como aquele no topo da montanha. não é melhor esquecermos a noite passada e nos divertirmos? Pareceu-me uma ótima idéia. Talvez fosse culpa do sherry.Não há ninguém em Londres? . Talvez fosse simplesmente a intimidade de duas pessoas que haviam causado tamanha discórdia na noite anterior. .É bom ter a quem presentear.Tenho tentado lhe explicar as coisas durante minha vida inteira e nunca cheguei a lugar algum.É verdade. observando-me do outro lado da mesa. percebi que a pulseira de seu relógio estava bastante gasta. Finalmente. Sentamo-nos do lado de fora. Qualquer que fosse a razão.Você está redondamente enganada. Seria um projeto de alto nível. caríssima.. A estrada seguia sinuosa em direção ao córrego e.. E para Joss. Chegamos a Falmouth por volta das 10 horas. . . Ele se recostou na cadeira. com lotes de dois acres. uma caixa de charutos para Grenville. com os talos amarrados em limo úmido para que não murchassem antes de chegarmos em casa. Talvez tivesse alguma relação com a quentura do dia. Comprei frésias para Mollie.O que a fez pensar em me dar isso? . pegando-me desprevenida. altas especificações quanto ao estilo e ao preço das casas construídas. e dei a Eliot seu presente ali mesmo. Voltada para o sul e abrigada do vento norte. movendo habilmente a alavanca de mudança de estilo antigo. Enquanto Eliot tratava de negócios.Já conversou a respeito com Grenville? . fiquei livre para explorar a cidadezinha. . Fiquei embaraçada. Achei que poderia perder o relógio. em que a maré alta projetava-se contra o muro sob o terraço.

Fiquei tocada com o que ele disse.. . Ao chegarmos a High Cross. diante de uma mesa que oscilava tanto sobre o piso irregular. . ainda assim. tomando a longa estrada que passava por vilarejos esquecidos. a quietude.A menos .Tem toda a razão .Seu rosto é uma pintura.É verdade..Estou bem. Comemos ostras. E gosto do formato de seu nariz. Não pude pensar em nada para dizer diante do longo discurso. enquanto o esquife adernava e afastava-se de nós. poderíamos pescar cavalinha em Porthkerris.Por que eu ficaria? Senti-me lisonjeada por estar sendo persuadida com tanta insistência.Não há razão alguma para partir. vivi com eles também. Rimos.Mas isso pode ter um lado negativo. o queixo apoiado na mão. . Principalmente eu. e embaraçada também. termine seu drinque e vamos comer ostras. ele alugaria um barco e me ensinaria a velejar.Não quero abusar. . Tenho um emprego me esperando. . . .? . Porque acho que todos queremos que você fique. sabia? Notei isso naquela primeira noite em que a vi.Se quer um emprego.Logo? . E não há nada como viver entre quatro paredes com as pessoas para se perder a maravilhosa ilusão que se tem a respeito de romances. o sol. Você não sabe para onde olhar e está corada. Eliot. girando em torno da extremidade de um promontório arborizado. e a tarde terminou num longo e brilhante arco-íris.. Sorri e balancei a cabeça. .. o marulho das ondas.Seu gesto incluiu o céu. como pode voltar para Londres e deixar tudo isso para trás. . pode arranjar um aqui. .Mas não será abuso. Vamos lá. Não argumentei. observando dois rapazes bronzeados armarem a vela desbotada do barco e navegarem pelas águas azuis da enseada. . Observamos a vela listrada encher-se com a brisa misteriosa e imperceptível. Prometo que não lhe farei mais nenhum elogio! Estendemos nosso almoço no restaurante pequeno. Você é tão serena. sendo assim. se eu ficasse na Cornualha.que esteja embaraçada pelo que aconteceu ontem.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Ele inclinou-se sobre a mesa.Porque não fica um pouco mais? . e do som da sua risada.. E Eliot disse que. e ele poderia me mostrar todas as pequeninas praias e os esconderijos jamais descobertos pelos turistas. descobri que o lugar situava-se bem na extremidade da península. Do outro lado da mesa. pode alugar um aqui também. ele começou a rir de mim. Deve ter alguma coisa a ver com a minha criação. . antes mesmo de saber quem você era. A agência de Eliot ficava no meio da rua Página 62    .. para Mollie e para mim.Preciso voltar. era como estar numa ilha onde os ventos correm livremente e o mar nos cerca por todos os lados. que Eliot foi forçado a escorar um dos pés com um pedaço de papel dobrado. . . no outro parece a princesa de um conto de fadas. ele guiou vagarosamente até High Cross. filé de peixe. com a trança caindo sobre o ombro e aquele vestido imponente que usa à noite. E é por isso que não quero que se vá. um apartamento que precisa de pintura e uma vida para recomeçar. . Mas. no verão. Ainda não. Se quer um apartamento. Sonolento e saciado. . Por fim.Vou.Oh. era hora de voltar.continuou ele .Isso não pode esperar? . e do modo como você fica maravilhosa usando jeans e cabelos soltos num minuto. uma para o norte do Atlântico e a outra para o sul do Canal. minha mãe viveu com vários homens e. de teto baixo.Não indefinidamente. a chegada da primavera. no coração do campo. pois havíamos prometido não tocar mais nesse assunto.observou Eliot. .Provavelmente. senão ninguém nunca vai conseguir chegar perto de você. de modo que o vilarejo tinha duas faces.Porque seria bom para Grenville. uma salada verde e bebemos uma garrafa de vinho inteira.Vai voltar para Londres? . Levamos nosso café para ser tomado à luz do sol e nos sentamos na beirada da mureta do terraço. E eu mal tive tempo de conhecê-la. Não deve se fechar completamente. De qualquer modo. A cada dia descubro coisas novas a seu respeito.Não sei. era gratificante ser admirada e mais gratificante ainda ouvir tudo aquilo.

. pneus velhos e troles.Pensei que viesse de manhã .Um Bentley. Morris olhou para mim e cumprimentou-me inclinando a cabeça. o que serviu de grande incentivo para que a construíssemos aqui. ninguém pode dizer. à medida que atravessávamos o átrio em direção aos carros.Que carro é este? . com um átrio de pedras decorado com floreiras e. . Havia um cara.Eu lhe disse que iria a Falmouth. mas a vendemos uns dias atrás. 1933. Fiquei imaginando.Além disso..Parece estar ok. .inquiriu Eliot. fios elétricos pendendo do teto.Teve sorte? . era de minha mãe. E voltará a sê-lo quando Morris o tiver terminado. . um pouco recuada.2 litros. Ele usava uma máscara de soldador que o fazia parecer monstruoso e trabalhava com a chama azul estrondosa do maçarico. Eu disse "olá". . . parecendo bastante sincero: .Em que condições? . . Olhei a confusão de peças em que ele trabalhava e finalmente perguntei a Eliot que tipo de carro teria sido originalmente aquele. E este é um Alfa Romeo Spyder com apenas dois anos de uso.Eu sei. se quer saber exatamente. .E acrescentou. . . Ela está passando uns dias em Boscarva. lâmpadas. ou melhor. Eliot? Não seria melhor em Fourbourne. . dispendiosa e bem cuidada.Um Jaguar XJ6. latas de óleo.E as pastilhas do freio? .Esta é Rebecca Bayliss. Em meio a tudo aquilo.Olá. tirando a máscara do rosto. Falmouth ou Penzance? . Um pouco enferrujado. O barulho da ferramenta era abafado pela música ininterrupta de um surpreendente rádio colocado sobre uma viga acima de sua cabeça. Página 63    . Acho que teremos que mandar trazê-lo para cá amanhã ou depois. negro.E um Jenser Interceptor. Os dois ficaram em silêncio. Tudo ali tinha uma aparência bastante nova. tentando ser simpática. Era um jovem magro. outro dia. seu cabelo era comprido e o olhar. meus pés não faziam ruído algum no piso emborrachado e lustroso.Estão..Por que decidiu abrir uma agência de automóveis aqui. Ali estava a habitual bagunça de motores. Ela havia sofrido uma batida. quando ele terminou o serviço.Todos esses carros estão à venda? . . penetrante e brilhante.reconheci um deles. Faça um bom nome no mercado e as pessoas virão do fim do mundo para comprar o que você tem para lhes oferecer. Coloquei a mão sobre a capota amarela e polida.Venha ver a oficina.Um Lancia Zagato.cumprimentou Eliot.eu perguntei. o carro estava como novo. . .O que exatamente está fazendo com ele? . . mas não obtive resposta. Como pode ver. procurando um desses.Deve estar precisando de uma nova pintura.. porém mais alto do que antes. Morris tornou a vir até nós. Eu o segui através de outra porta corrediça nos fundos da loja e achei que aquilo era o que eu imaginava ser uma oficina.ele disse a Eliot.Olá. porém apenas quando Eliot abaixou o volume foi que ele desligou o maçarico e se levantou. .Venda psicológica. Morris . Lindo carro. o quanto Eliot se aventurara e por que decidira que seria uma proposta viável abrir uma agência de automóveis tão sofisticada num lugar tão remoto. Ele acendeu o cigarro e guardou o isqueiro de novo no bolso do macacão encardido de óleo. o terreno já era meu. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher principal do vilarejo. Se ele percebeu ou não nossa aproximação. . Também sofreu uma colisão. Procurando um cigarro. .4. foi por isso que o comprei. manchado de óleo e precisando se barbear. havia um homem curvado sobre o motor desguarnecido da carcaça de um carro. mas eu tenho um lanterneiro que trabalha para mim e.1971. Ele abriu uma das portas de vidro corrediço e eu entrei. por trás da parede envidraçada.. Morris foi até o rádio e o ligou novamente. nós nos concentramos em vendas de carros de estilo continental e esporte. .Endireitando o chassi e alinhando a direção. Tivemos uma Ferrari aqui na semana passada. minha querida. bancada de ferramentas. dispunham-se os automóveis reluzentes.

não exatamente. tomamos uma estradinha. Ficamos ali. não pude dizer nada.Você está com sono. atravessamos uma entrada com portões brancos e subimos por um caminho que levava a uma casa branca. por algum tempo. Ele estava aqui nas férias do último verão. entretendo os amigos sentados em cadeiras de vime dispostas sobre a laje. . que pude sentir. é isso. Nosso dia juntos parecia estar chegando ao fim.... A cozinha parecia saída de uma revista e a sala de jantar fora mobiliada em mogno envernizado. por outro lado.. mas resolvi aproveitar as velhas para nos cobrir pela garantia. na elegante e extraordinária sala de visitas.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Possui uma coleção de carros antigos.Foi um dia maravilhoso. Rebecca.E vinho demais. eu o ouvi dizer: . Agora. sentindo-me uma tola. Eliot tirou uma chave do bolso e abriu a porta. . Talvez Eliot estivesse sentindo o mesmo e quisesse adiá-lo.. mas possuía uma suavidade no olhar que eu jamais vira antes. querendo chorar.É uma casa perfeita. Quando Eliot finalmente me soltou. Meu rosto escondia-se em seu casaco. sabe. cruzei o salão de automóveis e o átrio. ao redor do meu corpo. Ele parará de rir. Kemback telefonou de Birmingham.Você não deve voltar para Londres. Gerencia um motel e uma oficina. estava verificando um outro serviço. totalmente diferente. Caminhamos rua abaixo.Quer dizer que vai mudar-se para Birmingham? . uma segunda ocupação para sair da rotina. anteriormente havia duas antigas cabanas de pedra de paredes espessas.Desculpe. Talvez porque fosse perfeita demais. onde Rufus aguardava com dignidade e paciência atrás do volante do carro de Eliot. . Sobre minha cabeça. Dentro estava frio. olhando um para o outro. como a vibração de um tambor. e Eliot riu de mim. parece? De qualquer forma. um quarto de costura e um guarda-louça branco de proporções gigantescas cheirando a sabão. mas não havia cheiro de mofo ou umidade. Página 64    . ensurdecida pelo barulho do rock.respondi. e seus braços. A mobília lembrava um apartamento luxuoso de Londres. Não deve ir embora de novo. mas sei que não tem leite na geladeira. Eu disse: . Pôs as mãos em meus ombros e disse: . grande e baixa. . construída onde. pois disse: . e o Sr. eu estava tão trêmula que caí debilmente em seus braços. Morris é um bom mecânico. Era extremamente charmoso. vamos conhecer a casa de minha mãe. . pois ele me beijou e. todos bebendo martínis servidos num caro carrinho de vidro. Fui surpreendida por um enorme bocejo. Nos fundos da casa havia um pequeno pátio e um jardim comprido em aclive. percebendo que a situação havia fugido totalmente do meu controle.Quem é o Sr. Fui sincera. seguravam-me tão apertado.. Joguei a cabeça para trás a fim de olhá-lo nos olhos e ficamos muito próximos. No andar superior havia quatro quartos e três banheiros. Kemback? Outro cliente? . . Parece que quer que eu tome a frente de seus negócios. os sólidos batimentos de seu coração.Eu posso colocar a chaleira no fogo e lhe fazer um chá. e exatamente como eu havia imaginado. .foi tudo o que consegui dizer. Havia muitos espelhos e pequenos lustres de cristal pendendo do teto rebaixado. e. paredes claras e sofás estofados com brocados bege. mas não gostava dela tanto quanto de Boscarva. mas fica nervoso quando tem que atender o telefone. que terminava numa longínqua sebe. Senti seus dedos apertarem meus ombros.Ar fresco demais .Eu poderia ter trocado as pastilhas. Quer montar um museu. Eu podia ver Mollie no pátio. Eu me afastei. Ficamos ali os dois até que Eliot veio juntar-se a nós.Não parece muito tentador. .Não.Acho que deveríamos voltar para casa. com tapetes claros e grossos. Eles começaram a falar sobre negócios.

e finalmente deu às frésias o lugar de honra no meio do console da lareira. nem a Ernest Padlow ou à possível venda da Fazenda Boscarva. não podia cultivá-las em Boscarva. pela primeira vez. . e senti-me confortada pela lembrança do toque do marfim e das telhas de bambu.The Creepers! Como adivinhou que era meu grupo favorito? Oh. como explicou. Está corada.?. se algum estranho chegasse de repente. apertando os olhos. . para o retrato de Sophia.Lindo . A cada nova rodada. a fim de aprender as regras do jogo. que jogamos até a hora de dormir.. . com oferendas de paz. proporcionei a descontração de que precisávamos para atenuar o embaraço da incômoda noite anterior. à medida que as misturávamos no centro da mesa. . Nossa. Após o jantar. na sala de estar.Deve ter custado uma nota. mas não sei dizer se ela se referia às flores ou ao quadro. maduro no crepúsculo de seus anos.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher 9 As compras que fiz em Falmouth provaram ser uma inesperada bênção. pela sua beleza e pelo som agradável que produziam. pois. .disse Mollie. mas notei que ele ficou contente. Ninguém falou em Joss. acertado. Eu havia jogado aquele jogo quando criança com minha mãe.Olhou-me fixamente. Não houve menção à papeleira. como nos aconselhou Grenville. Mesmo com Andréa eu havia. olhando de longe. baforando com imensa satisfação e reclinando-se em sua grande poltrona como alguém que não tem nada com o que se preocupar no mundo. Elas encheram o ar com seu perfume rico e romântico. Molhe ficou encantada com as frésias..E então ela voltou à Terra. Ela me agraciou fazendo um belíssimo arranjo. demonstrando um talento que ninguém jamais pensara ser possível. o máximo. viu-se absorvida pela complexidade do jogo. E Grenville ficou feliz como uma criança com os charutos. acho que o dia de hoje lhe fez bem. violeta e rosa-escuro chamavam atenção.e até mesmo Andréa. Eu me peguei pensando que. iria se deparar com o agradável quadro familiar que formávamos sob o feixe de luz do abajur de pé. mas não tem. e os tons de bege. A noite anterior não foi discutida.Sabe. eu queria que tivesse um toca-discos aqui. Grenville imediatamente tomou um nas mãos e o acendeu. entretidos com a interminável ocupação. eles não são demais. pois o médico o havia proibido de fumar e Pettifer escondera seu suprimento habitual. . Deduzi que ele os estava racionando com parcimônia. as dúvidas e os segredos vergonhosos de família também pudessem ser excluídos e deixados de fora. O ar fresco combina com você. como as pedras do mar perturbadas pela maré. Pettifer aceitou o sherry com solenidade. Posso imaginar que esteve ao sol. procurando o preço na etiqueta. O ilustre pintor. às vezes formando um quarteto com duas de suas amigas. tal qual moscas no âmbar. que aprendera o jogo milenar quando era um jovem subtenente em Hong Kong e conhecia todas as suas tradicionais superstições. naturalmente. Eliot a levou para conhecer minha casa? Então agora você entende como me sinto tendo que morar num lugar tão incrível como este.Foi muita gentileza sua trazê-las. Página 65    . pela primeira vez atenta e interessada. Imaginei como seria fácil e seguro se os fantasmas. cercado pela família: a bonita nora e o lindo neto . Andréa sentou-se ao lado de Mollie. Eu devia estar inspirada. e deixei o meu em Londres. Foi como se. construíamos as quatro paredes. duas telhas altas e as fechávamos num quadrado apertado "para afastar os espíritos malignos". tivéssemos feito um acordo tácito. pois os ventos eram muito frios e o jardim exposto demais. As flores pareciam complementar o tom brilhante de sua pele e o ligeiro tremeluzir do vestido branco. sem pensar. Eliot preparou uma mesa e Mollie trouxe a caixa de jacarandá que continha o mah-jong.

Estou procurando a galeria de arte. não precisava mais que Andréa indicasse o caminho. em tais condições. as ruas formavam um labirinto estreito e confuso e eram sempre sujeitas às investidas furiosas de ventos cortantes.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher FOLHETOS DE VIAGENS e pôsteres de férias de Porthkerris inevitavelmente retratavam um lugar onde o mar e o céu tinham sempre um tom azul brilhante e imaculado. Uma parte de mim entendia exatamente por que a indolente moça atrás do balcão se animara. . Quando entrei.olhando-me através de um par de óculos destoantes.Qual delas? . eu assenti. pedaços de papel e até telhas arrancadas dos telhados. as mãos enfiadas dentro dos bolsos fundos da capa. com os ventos nordestes soprando. Virei-me e deparei-me com Joss. fumando cachimbo e discutindo a pescaria da semana anterior. embaçando com sal as janelas das casas da frente e enchendo as canaletas de espuma amarelada. pela primeira vez. Agora que estava mais familiarizada com a cidade. Terminadas as compras. O dia não estava nada convidativo. dirigi-me à enseada.Ela quer ir à galeria de arte. A moça olhou por sobre meu ombro. usando uma capa de chuva emprestada e botas de borracha. e uma terceira pessoa juntou-se a nós.eu possa ajudá-la. Mas Porthkerris. eu sabia.disse uma voz atrás de mim . pois sentia-me mais segura andando a pé do que utilizando o carro de Mollie..Sim? . Imaginei que poderia sair andando à sua procura. A galeria de arte. em fevereiro. E disse friamente: . mas à medida que me embrenhava pela avenida da enseada. lutando contra as investidas do vento e os borrifos de água do mar. eu não a culpava. folhas. . Joss. os corpos se enrolavam em roupas indistintas. o vento. pitorescos como piratas. O que pretende fazer? A moça intrometeu-se: . A imaginação era naturalmente conduzida a visões de lagostas frescas degustadas ao ar livre.Eu a vi entrando aqui. O céu tinha a cor do vento e o ar ficava repleto de destroços voadores de naufrágios. ela parecia a única sobrevivente de alguma expedição ártica. Joss esperou minha confirmação. Andréa ainda encontrava-se na cama quando saí de Boscarva e. todos com botas de borracha deselegantes. que usava botas de borracha. bem mais animada. e era difícil acreditar que ontem mesmo eu estivera sentada ao ar livre. localizava-se na antiga capela batista. Seu rosto estava molhado. os olhos castanhos faiscando de alegria. Lembrei-me da escrivaninha e da cadeira.Pensei que talvez pudesse haver alguns quadros de Grenville na galeria.Há a Town Gallery e a New Painters . O mar. como espuma suja de sabão. Atrás de mim. avistei o antigo abrigo de pescadores. . e decidi que pouparia tempo e esforço se obtivesse ali algumas dicas.Não sei qual das duas é a melhor. A maré era alta. Eu fora outra vez às compras para Mollie.Olá. debruçada sobre um fogareiro a querosene. . o céu e a própria cidade eram acinzentados. de modo que não se podia distinguir os homens das mulheres.. a cesta pesada sobre o braço. sentados sobre postes de amarração. com roupas leves. eu teria ido direto para Boscarva. .. Tentei sentir pena dela. as pessoas esqueciam o que vinham comprar e distraíam-se conversando sobre o tempo. ao norte da cidade. encurralada. Era como se o lugar estivesse sitiado. Lembrei-me de Andréa. ela não se moveu da cadeira e disse: . lutando para achar a descida da montanha. saí da padaria no instante em que o relógio na torre da igreja Norman marcou 11 horas. expondo-me a um sol quente como o de maio..Talvez . o estrago que a tempestade faria. as ondas quebravam contra a encosta e a água espirrava na estrada. Página 66    . Lá dentro encontrei uma moça desanimada. usando botas e tremendo. Cabisbaixa. em algum lugar no labirinto de ruas.. mesmo porque. Nas lojas. não tinha nenhuma ligação com esse vago paraíso. . em primeiro plano. artistas barbados usando aventais manchados de tinta.Não sabia que havia mais de uma. mas tinha outros planos em mente. um oleado preto respingado de chuva e um boné de marinheiro enfiado na cabeça. a porta se abriu e se fechou. Os compradores se cobriam com todo tipo de proteção e cobriam a cabeça com capuzes. que fora transformado num ponto de informações para turistas. demonstrando um vago interesse por detrás das lentes. e pescadores castigados pelo tempo. Normalmente. as casas eram iluminadas pelo sol e uma exótica palmeira. galhos.disse ela. . A outra metade estava enlouquecida pela extraordinária capacidade que ele tinha de aparecer justamente quando eu menos esperava. sugeria o glamour do mediterrâneo.

Estive em Boscarva e Andréa me disse que você havia ido para Falmouth com Eliot. a despeito da aparência. Ele mantinha uma conversa animada. Kernow.Eu adoro isso . sacudindo os pingos de chuva como um cão sacudindo o pêlo -. só quero saber onde fica. Joss olhou-me sob a ridícula aba do boné. Lá dentro. . Thomas.Ele pintou. ou o Sr. como rochas expostas pela maré vazante. Antes que causássemos mais estragos. o frio era implacável e o lugar estava vazio e ventoso. .Quem lhe contou sobre Sophia? Sorri docemente para ele.Não se pode ver seu rosto. Se Andréa não tivesse me contado. Ou talvez a Srta.Parecia adorar também a fúria e a vitalidade do vento soprando. puxando a pala sobre os olhos como um sentinela. Parei ao seu lado e olhei para cima. o que gostaria de ver? . sorriu e tornou a pôr o boné na cabeça. meu amor . Uma mulher com um chapéu que parecia um penico e um avental azul esfregava os degraus de sua casa. Ele lançou-me um olhar direto.GALERIA DE ARTE DE PORTHKERRIS . Ao lado da porta havia uma mesa com uma pilha arrumada de catálogos.Talvez tenha sido a Sra.disse ele. . e lá estava ela. e uma pilha de folhetos voou de cima do balcão e espalhou-se no chão. a galeria apresentava uma densa atmosfera de tristes domingos.. .Estou começando a perceber.Aí está . Não pense que pode guardar segredos neste lugar. . . O uivo do vento e uma rajada de ar carregado de espuma adentrou o lugar.Há um retrato de Sophia aqui. virando a cabeça subitamente. Dobramos a rua da enseada e começamos a subir uma rua de pedras. . sentada sob um feixe de luz com um trabalho de costura nas mãos. . As casas se enfileiravam em ambos os lados da colina. Olhos Brilhantes do guichê de informações. . Faz parte da vida em Porfhkerris todos saberem exatamente o que o outro faz.Bom. Fiquei olhando para o quadro por muito tempo e finalmente soltei um longo suspiro de decepção.ele disse. ainda que o vento varresse as palavras de sua boca e me obrigasse.Joss pousou a cesta no chão e retirou o boné. eu ainda não vi.Você está carregando o motivo: as compras de Mollie. e duas grandes esculturas abstratas jaziam abandonadas no meio do salão. Ela olhou para nós e disse: . .. nos vimos numa pequena praça que eu não conhecia.e Joss largou o meu braço. Um dos seus lados era tomado por uma enorme construção que lembrava um galpão. . . e a porta de mola fechou-se atrás de nós. dê-me isso. Ou talvez a Sra. ou a Sra. Pettifer me contou.Não podia ter vindo de carro? .O que a traz à cidade num dia como este? . Várias vezes. No fim da rua.O que sabe sobre ontem? . Por que ele nunca pintou seu rosto? . . apenas com uma bolha no lugar. Continuo sem saber como ela era. Kernow.Adoro dias assim.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Pettifer o teria feito. Divertiu-se muito ontem? . ao mesmo tempo. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.Então .Olá. Página 67    . nossas botas de borracha produziam um ruído alto no vazio do lugar. a fazer todo o esforço do mundo para caminhar. As paredes brancas eram ornadas com quadros de todos os tipos e tamanhos. .Quero ver Sophia.Você está certa. mas. com janelas em arco dispostas no alto e ao longo da parede. sorriu para a moça e abriu a porta. Eu o segui salão adentro. mas. há três.Não preciso que me leve.Eu gostaria de levá-la. Ao lado da porta havia uma placa . seus dedos pareciam salsichas cor-de-rosa por causa da água quente e do vento frio. panfletos e cópias de publicação The Studio. mesmo estando segura pelo braço. empurrou a porta com o ombro e pôs-se de lado para que eu entrasse na frente.para Joss. . Vou levá-la. . .É verdade. Olhos Brilhantes no guichê de informações..Menina insolente.. um gato atravessou a rua apressado e desapareceu através de uma fenda numa janela. Tirou a pesada cesta de minhas mãos.Por que esse suspiro? . Thomas. ou a Srta. corri para fora.Imaginei que o carro pudesse ser jogado para fora da estrada pelo vento. Venha comigo. Ele sempre pinta sua nuca ou suas mãos ou qualquer outra parte do corpo e ela sempre fica sem rosto. Joss me pegou pelo braço e me guiou para o meio da rua de pedras.

que dava para o que parecia ser um porão escuro. havia outra porta. E. cheio de orgulho. até o chão. eu me peguei lembrando da ardente descrição que Andréa fizera do apartamento e desejando que fosse inteiramente diferente.Minha mãe me contou. Nenhum dos cômodos era muito espaçoso." Mas era tudo exatamente como ela descrevera. . notei as mudanças realizadas. . Como estão suas pernas? Agora chegamos ao pièce de résistance. somado ao piso cinza.tive que admitir.O que fará então? . Apenas charmosa e atraente. . o vidro laminado fora limpo e uma placa fora colocada sobre a porta. e comecei a caminhar de volta para a porta. Eu apenas queria saber. recipientes de culinária em cores vibrantes e tapetes indianos listrados com cores alegres. minha fugaz esperança desvaneceu-se rapidamente. produzia um contraste simples e interessante com as mercadorias coloridas à venda. o que. mas. Apenas saberei como ela era. só assim eu me certificaria de que ela se deixara levar pela imaginação e inventara tudo aquilo. . eu quase perdi o equilíbrio. então. E depois Pettifer. demorando-me atrás das longas pernas de Joss. JOSS GARDNER. Está terrivelmente bagunçada.Tenho que voltar . tão charmosa e feminina que faz pensar que ela era bonita.Pettifer diz que há retratos de Sophia espalhados pelas galerias de todo o país. Observei as mãos e o brilho da luz sobre seus cabelos negros.Vamos subir. resignada e relutante. Virei-me. enfiando as mãos nos bolsos para que não me segurasse pelo braço. .O que acha? . Nos fundos da loja. Passei por um banheiro minúsculo imprensado no patamar da escada. . depois a levarei para casa.Quando foi a primeira vez que ouviu falar dela? .O que é aquela porta? . . Olhamos novamente para o quadro. A casa estreita não passava de uma atraente escadaria com um piso em cada andar. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . bastante semelhante às que existem nos parques para as crianças subirem. aqui se pode comprar cestos para se colocar lenha.ele abriu a porta. estantes de diversos tamanhos estavam sendo montadas até o teto. e o quadro na sala de estar em Boscarva. até encontrar um em que ela não esteja de costas. por si só. E você ainda não conhece minha loja.eu disse. . onde minha cesta carregada de coisas esperava por mim. grampos de roupa. Observei a pequena cozinha atrás de uma bancada.Não deixarei ..Esplêndida . "Parece que saiu de uma revista. Eu NÀO PODERIA voltar sem a cesta. desapontada.Nada. . obviamente. . Quando subi os últimos degraus.É a minha oficina. destrancou a porta e entramos na loja. Terei que ir de Manchester a Birmingham. Havia caixotes de embalagem sobre o piso lajeado e.Saímos no segundo andar e mal podíamos andar com tantos cestos e outros trabalhos de vime espalhados pelo chão. Com um sofá-cama.Vamos subir de novo. uma construção alta e estreita entre duas casas baixas e largas. Venha conhecê-la comigo e farei uma xícara de café. Tão logo a loja pôde ser avistada.ele consultou o relógio -1 lh30. uma escada descoberta levava aos andares superiores e. eu lhe mostrarei da próxima vez. bebês. compras. E havia algo de secreto naquele lugar. Era difícil não sentir-se desarmada diante de gestos tão protetores e magnânimos.Não. fui com ele. pelas paredes. Ele não parecia de modo algum embaraçado diante da minha indelicadeza que. em absoluto. Agora veja. e ele riu e tirou minha mão do bolso e tomou-a na sua. não desistiria. o antigo Página 68    . mas Joss apressou-se em levantá-la antes que eu a alcançasse. Mas Pettifer disse que ela não era bonita. sob ela. os aposentos palacianos do proprietário. porém. . prontamente decorada com modernos vidros dinamarqueses e porcelanas chinesas. As paredes eram brancas e a madeira do mobiliário fora deixada em seu estado natural. não importa. como um bar.Claro que posso. . Não pode subir a montanha com todo este peso. . a Nottingham. quando voltamos para a enseada e nos deparamos mais uma vez com o vento inesperado.Importa para você como ela era? .São apenas .Ainda não arrumei direito. entreaberta. As janelas tinham sido pintadas. com o teto descendo inclinado. -Venha. Ele tirou uma chave do bolso. uma janela de água-furtada e um sofá sob ela. roupas sujas ou qualquer coisa que se queira. Eu o acompanhei. a Glasgow.Ele foi na frente. e ele. ..ele perguntou. era desconcertante. No centro da sala havia uma outra estrutura. como vê. montes de almofadas e outras coisas e também uma lareira.

Que eram elegantes e excitantes. estalaram e incendiaram-se prontamente.É verdade. isso aqui deve parecer outro país. lavada pelas ondas que quebravam acima da muralha do cais. encheu uma chaleira e acendeu o gás. pegou alguns pedaços de madeira embebidos em alcatrão. . o que quer beber? Café? Chá? Chocolate? Conhaque com soda? . Os barcos na enseada balançavam feito rolhas dementes. carregando uma bandeja com as xícaras fumegantes. Joss deixara minha cesta no chão e estava tirando a roupa molhada e pendurando-as num antiquado cabideiro de bambu.disse Joss. ajoelhei sobre o assento e olhei.Conheceu algum dos seus funcionários? Sua voz soou tão casual que fiquei desconfiada. isso aqui parece o metrô de Piccadilly na hora do rush. ele parecia totalmente inofensivo.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher tapete turco no chão e o diva. ficamos frente a frente.Joss. Endon e o pequeno pub à beira-mar. . para a rua embaixo. . grasnando contra o vento.O que achou de todos aqueles carros elegantes e excitantes? .Não há razão para não acender a lareira. Joss levantou-se e virou-se para mim. Juro que não.Café. Mas dura apenas dois meses.Pôs-se atrás da bancada. coberto com uma manta vermelha.Não estou.. Contei-lhe sobre St. -Vou acender a lareira.Saiu de trás da bancada. a fim de desviar a atenção: .O que sabe sobre Morris? . Eles crepitaram.Quem. já ouvi falar.Com bom tempo.Estava. Por conseguinte. . Enquanto pendurava o casaco e o gorro ao lado das roupas de Joss. emanou vida. tire o casaco. . . prontamente. Todo mundo sabe disso e essa é a única coisa boa a seu respeito. e seu olhar encontrou o meu. . . ele se ocupava da lareira. retirados de um cesto junto à lareira.Conheci. tirei o gorro de lã umedecido e sacudi minha trança sobre o ombro. era detestável imaginá-lo com Andréa. E o que aconteceu depois? . de repente. . Não era difícil imaginá-lo como um amante impiedoso e apaixonado. Quando o fogo começou a crepitar. . Página 69    . mas já tinha visto suas várias facetas. juntando as cinzas de algum provável fogo anterior e acendendo tudo com um círio alongado. por exemplo? .Fale-me mais sobre ontem .. empilhando-os em torno da chama. você deve ter uma vista adorável. E do quarto. Absorvido na tarefa de preparar o café.Agora.Ele é um bom mecânico. com a luz do fogo. não foi? Está me sondando. Ele me entregou a xícara num pires. Joss moveu-se.Sim. . Como ela dissera. . e imensas gaivotas adejavam sobre seus mastros oscilantes. Desabotoei-o com os dedos congelados. O almoço estava bom? . O cheiro do café era delicioso. você não me convidou para tomar café. recuado na parede. através da fúria da tempestade.Não aconteceu nada. Eu apenas queria saber se Morris está trabalhando para Eliot. . .No verão. Puxou um banco comprido com o pé. Falei. nervoso e extremamente rude. . Sabia que ele podia ser charmoso. E. Eu conhecia Joss havia apenas poucos dias. .Você conheceu a agência de automóveis? ..Saindo dois cafés. o açucareiro e a jarra de leite. contudo.Morris Tatcombe? . com moderação.Apenas que é um vigarista. Joss. contudo. pega em meus pensamentos. Assim ocupado. Fiquei embaraçada. E o tempo estava tão quente que nos sentamos ao sol.Dá para ver até o farol. amassando papéis. .ele disse. . Mas é também uma pessoa totalmente desonesta e degenerada. aproximei-me da janela.Eliot levou-a a High Cross? .É. de um lado ao outro da cozinha de modo meticuloso e auto-suficiente. .É a costa leste.No verão. por favor. . as desconcertantes revelações de Andréa pareciam conter uma parcela de verdade. mas nunca estive lá. depositou a bandeja numa beirada e sentou-se na outra. . Voltamos para casa. partindo gravetos. Ele levantou os olhos. E a casa de Molhe também. havia várias almofadas espalhadas.Tire suas roupas antes que morra de frio . como um simples iatista.Achei exatamente isso. para você. obstinado.Não posso ficar.. Enquanto apanhava bandeja e xícaras. .

Se Ernest tivesse chance. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . pedaços de madeira. . o tom grave da voz de Joss chegava aos meus ouvidos. pairava um cheiro de cola. e foi sorte eu têlo acertado primeiro. Desci ao primeiro andar e fui até a loja. Se não quer saber das coisas. tornos.Ele abaixou a cabeça. acabei me envolvendo com Boscarva também. . de madeira nova.Não gosto nem desgosto. pus a xícara de lado e disse: . uma cadeira no estilo Chippendale chinês. mas continuei de cabeça erguida. parecendo mais segura de mim do que realmente estava. Ele escolhe mal os amigos. . bem no fundo do quarto.Porquê? .. .Falei isso porque vi Ernest Padlow com Eliot naquela noite em que fomos jantar no Anchor. Estava cansada de ouvir as pessoas de quem eu queria gostar arruinarem a reputação das outras. apenas tirou meu casaco do cabideiro e ajudou-me a vesti-lo. Ouvi-o chamar..Eliot é meu primo. . espere por mim.Eu sei. à sombra.Eu sei. girando a xícara nas mãos. Continuava chovendo. . .. Porthkerris inteira se transformaria em um estacionamento. desculpou-se: . . . Joss. .Levantei-me.Você não gosta de Eliot. foi atender. Nossos olhares se encontraram.Tenho que voltar. Uma cômoda sem os puxadores.Está se referindo a Ernest Padlow? Joss lançou um olhar cheio de relutante admiração. . Mas vou lhe dizer uma coisa. E todos teríamos que subir a montanha e morar em suas minúsculas moradias que. estarão cheias de goteiras e caindo aos pedaços. uma mesa-de-cabe-ceira sem o pé.Pronto? Sim.Não estou chateado com você. não deveria fazer perguntas.Se ele é totalmente desonesto.. talvez um tanto curiosa.. aparas. bancadas.Você não perde tempo. e eu comecei a descer as escadas.Ele estava.Tem razão. Terminei o café. . Não retruquei diante de sua explosão.Eu a levarei para casa.Não precisa.Porque você pediu.Perdoe-me. aparentemente em perfeito estado. Joss. por que não está na prisão? . com o seu oleado. Lá de cima. pois ele estava carregando uma faca. . Absolutamente nada. Entediada por ter que esperá-lo. . E então.disse novamente. Havia a bagunça costumeira. com notório esforço.? ..Preciso ir . é Joss Gardner quem está falando. com assento de bordado florido. Uma papeleira. acendi a luz e desci quatro degraus de pedras.e em seguida. Esse é outro patife. . sem querer. .Mas ele não deu atenção ao meu protesto.Nada. ferramentas. em dez anos. Página 70    . Joss. ao seu lado.E o que devo fazer a esse respeito? . . Sinto ter tocado nesse assunto.Mas. Fomos para fora e eu esmurrei seu nariz. num pub.Apenas não deixe que seus preconceitos recaiam sobre mim.E como sabe que ele é um degenerado. falou ao telefone: . no ar. e.Rebecca. O telefone tocou. Não vou demorar. eu as vi. de verniz. Havia ainda um amontoado de móveis velhos tão empoeirados e corroídos que era impossível imaginar se tinham ou não algum valor. Tirou o chão de debaixo dos meus pés. . Enfiei o gorro de lã molhado sobre as orelhas e apanhei a pesada cesta.. empurrei a porta da oficina. Não haveria uma casa de pé. Tomei o café e pensei em como seria agradável conversar sem ser envolvida em antigas rusgas que nada tinham a ver comigo. gosta? .Porque puxou uma briga comigo. uma noite.Por que está me contando isso? . ... Ele não tem nada a ver comigo.Por perder a calma. Parece que sabe de tudo. pouco antes de tirar o fone do gancho: . Ouvi dizer que Eliot havia lhe dado emprego e eu esperava que não fosse verdade. Acabou de sair de lá. .

Fora a minha papeleira.Grenville .Ele estava completa e nitidamente chateado comigo. .Estou aqui há três dias. lendo o jornal matutino.Não me importo se é permitido ou não. bem antes de alcançar Boscarva. sempre morro acima. Acabei de me dar conta de que hoje é sexta-feira. apaguei a luz e fechei a porta. . . Em situações intoleráveis como essa. Página 71    . Por onde tem andado? . . . quase sempre existe uma saída. traindo a confiança e a bondade do velho. Como está passando nesta manhã tempestuosa? . Você sabe onde fica a garrafa. comigo mesma. lavei as mãos e refiz minha trança cuidadosamente. tenho que voltar para Londres. . Gradativamente. e Stephen Forbes. . . . por ter sido levada por seus encantos vazios. sentado diante do fogo da lareira.Que horas são? . Precisei fazer algumas compras para Mollie.Rebecca. . num ímpeto.O quê? . É a filha de Lisa. fui me acalmando. . tirei as roupas encharcadas. enxuguei as lágrimas com a luva e me recompus. Mas. sobrecarregada pela cesta de compras pesada feito chumbo. se eu estava com tanta raiva. como se tivesse recebido um soco na boca do estômago." Caminhei e então descobri que havia tomado a direção da igreja. e meu coração pulava em meu peito e havia um gosto de sangue em minha boca. o queixo pronunciado estendeu-se à frente. . e nunca imaginei que fosse possível suportar tanta emoção por mais de dez minutos. que simplesmente aproveitara a chance. eu havia decidido o que faria.Meio-dia e meia. saí à procura de Grenville e encontrei-o no escritório. Voltaria para Londres.Você não é visita. eu lhe mostrarei da próxima vez. como uma enfermeira ensandecida. . e. mas ele a havia tirado da casa de Grenville. atravessei a loja e saí da casa em direção à fúria do vento naquele inoportuno dia de fevereiro. ainda que não se saia de casa. Esse vento mata. Preciso voltar para Londres neste fim de semana. foi tão bom para mim que não posso continuar abusando de sua bondade e generosidade.É permitido? . Depois de três dias os peixes e as visitas começam a cheirar. Eliot estava certo. Virei-me e subi os degraus.Então vamos tomar um cálice de sherry.soei resolutamente animada.Mas você acabou de chegar. então por que estava chorando? 10 Foi uma longa e exaustiva subida até Boscarva. .Tenho que voltar para Londres.Os olhos azuis se apertaram. "Minha oficina está terrivelmente bagunçada. Eu nunca havia me sentido tão irritada em toda a minha vida. Estou afastada do meu trabalho há quase duas semanas. Ele baixou o papel e ergueu os olhos quando entrei. Com ele e. mais calma. Puxei uma cadeira e senteime frente a frente com ele.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Senti-me mal. Enchi dois copos e pus o dele cuidadosamente sobre a mesinha ao lado de sua poltrona. Eu poderia matá-lo e isso seria fácil. por me deixar enganar. Devo voltar ao trabalho na segunda-feira. troquei os sapatos. o homem para quem trabalho. Eu nunca havia sentido tanta raiva. Prometi a mim mesma que jamais tornaria a lhe dirigir a palavra. lutando penosamente contra a escalada e o mau tempo.eu disse -. usei Stephen Forbes como desculpa. Tropecei enquanto subia a montanha.Em Porthkerris.Cheio de dores. Estava correndo.Olá. Havia sido fácil demais para Joss. onde ele nunca poderia me encontrar. que não suportaria chegar perto dele outra vez. pior ainda. Deixei a cesta de compras na mesa da cozinha e subi para o meu quarto. passando por um bairro repleto de ruelas. fora a minha papeleira que ele levara.Não posso ficar aqui para sempre.

acho que está sendo totalmente antiquado e bastante injusto. . Ele suspirou.afirmou ele. pensativo. . Permaneceu ali.O seu jade.Não irei com você. Você tem um carro? . colocou o cálice de lado e virou-se para mim. um olhar fixo que me fez baixar os olhos. ele estava sorrindo. Ele não respondeu. . Ele fez um enorme e tocante esforço para se recompor. Gosto do meu trabalho e não pretendo abandoná-lo. não pense nunca mais nisso.Quando pretende partir? Fiquei surpresa.O senhor não poderia ter sido seu pai? . . tomou um demorado e trêmulo trago do sherry. sombriamente. olhando fixamente para o fogo. .Vou voltar .. .Sorri.Posso não estar mais aqui . Não poderia suportar todos brigando por causa disso. . para Grenville. Se eu fosse vinte anos mais jovem e ainda pudesse pintar. Ele riu e inclinou-se para beliscar minha bochecha. mas isso realmente não importa. tentando distraí-lo.. . agarrado à sua saia.Ele poderia ter ingressado na Marinha. será que poderá levá-lo no trem ou é grande demais? Você deveria ter um carro.Ele seria diferente se Roger não tivesse morrido. . por mim.Você não devia morar sozinha num apartamento em Londres. Vá e vasculhe o lugar.Não me importa se pediu ou não. tenho compromissos.apressei-me em dizer -. . aparentemente resignado.Talvez isso venha a acontecer algum dia. era como um tiro no braço. Ele me observou com atenção. . Diga-lhe que tem minha autorização. como se não esperasse de mim modos tão rudes. havia mil razões que me impediam de fazê-lo. . contudo. . ainda assim. girando o copo na mão. . . Ele afastou-se de mim e disse: . veja o que encontra por lá.Suponha que ele não quis ingressar na Marinha? . . mas não tem importância.sua voz estava cheia de injustificado desdém. porém aliviada.Como eu queria poder pintar .Pode pegar a chave do ateliê com Pettifer.E agora que conheço o caminho para Boscarva. .Acho apenas que vocês nunca conversam.perguntou. ficou apenas parecendo velho e ra-bugento. Um bom argumento.O senhor não vem comigo? Mais uma vez seu rosto encheu-se de dor.Provavelmente amanhã à noite. E o espelho. no mesmo instante.ele respondeu rispidamente e virou-se a fim de alcançar o copo de sherry. .prometi.Eu lhe pedi sua opinião? Mas.Não me importo com a papeleira! .Não .Oh. há três anos. olhando para o líquido âmbar. por ele ter sucumbido tão facilmente. limpando a garganta. não fale mais nisso. Ela desejava tê-lo em casa.ele disse.E creio que a papeleira não. assim não teria esse tipo de problema. mas agora já sabe.Ah. E assim terei o domingo para ajeitar as coisas em meu apartamento. quando tiver mais tempo livre para passá-lo com o senhor. Página 72    .eu o interrompi num tom de voz tão alto e de maneira tão súbita que Grenville olhou para mim um tanto surpreso. Ele foi um garoto que precisava de um pai. talvez eu possa voltar. Seu rosto encheu-se de tristeza. . num campo ou jardim. . . E então mandarei buscá-lo. Sempre saltando de emprego em emprego e agora montou essa agência de automóveis.Mas. Grenville.Carros usados! .Gostaria que ficasse. ajeitando-se na poltrona. é claro que vai estar. . .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . lhe mostraria como viver neste mundo. . . . .Acha que sou injusto com Eliot? . ..Você ainda quer um de meus quadros para levá-lo para Londres com você? Tive medo que ele tivesse esquecido.Mollie nunca deixou que eu me aproximasse dele. se sua mãe não o tivesse feito desistir da idéia. Por favor. Foi feita para se casar.Parece ser um sucesso. ocupada com plantas e filhos.. Pegarei uma cabine-dormitório.Ele quereria. . Você não foi feita para morar sozinha. Ele nunca se ligou em nada. . ter uma casa e filhos. Desejei poder lhe dizer que ficaria.Não. Teremos que pedir a Pettifer que o coloque numa caixa para poder levá-lo..Mais do que tudo.. nunca contam nada um ao outro.Desculpe . .

. Vamos entrar e tomar uma xícara de chá. não estou zangado. Pettifer. porém. não seria apropriado.Oh. amigos outra vez. realmente tenho. Já disse que vou. Ao ver o carro.É muito fácil dizer "Oh. A fúria do vento diminuíra um pouco. Naquela tarde.disse ele rispidamente. Após o almoço. e nós estávamos sorrindo.Não suporto mais nem um minuto disso . ele ainda vai estar aqui no verão.disse Mollie. Tenho um emprego esperando por mim e não posso ficar para sempre. galhos quebrados e campos de bulbos. . estufas destruídas. Cheguei em casa e me deparei com Mollie no jardim de Boscarva.Ele está com 80 anos. Ela sabia ser charmosa quando não estava sendo agressiva e possessiva com Eliot. . . Ele se derreteu. Não vai durar para sempre. e o tempo vai estar quente e poderemos fazer muitas coisas juntos.E não vá escolher um de seus nus. . . Preciso voltar. parece egoísmo. Minha voz foi sumindo. Subitamente eu o vi não como o onipresente Pettifer. quase tão velho quanto meu avô. e assim enterrado a dois metros debaixo da terra? . Talvez eu esteja sendo egoísta. E eu odiava me sentir culpada e não ter razão. mas como um homem de idade. . mas o mau tempo continuava violento e tempestuoso. Eu disse a ele que voltarei..Sinto muito. ou ressentida com Grenville e Boscarva. pois quando estacionei e caminhei em direção à casa. do início da primavera. . ela as deixou marrons.Vou voltar. Mas os outros ficaram consternados. Já é bastante ruim ter que partir sem que você me faça sentir cruel. Página 73    . não pensei que você fosse esse tipo de pessoa. achatados pela ventania. justamente quando está se acostumando e o comandante começando a conhecê-la? Ora.Eu tenho um emprego. fui até a cozinha ajudá-lo com os pratos. Mas o pobrezinho daquele loureiro iria se partir em pedaços. . Pettifer estendeu o pano na beirada da pia. para mim.Não suportei sua censura. quando ele estava secando a pia com um pano úmido.Adoramos tê-la aqui conosco. e eu guiei os 8 quilômetros até a estação e lá comprei minha passagem e reservei uma cabine para o trem noturno de sábado. com árvores caídas e devastação por toda parte. não fique zangado comigo. ELE DEU a notícia aos outros. mas agora conhecia suas longas garras escondidas sob as patas macias e aveludadas e sabia que ela não hesitaria em usá-las. tentando amarrar e salvar alguns dos arbustos mais frágeis que cresciam em volta da casa. Pettifer lavou as mãos calejadas..Não sei o que vai encontraria. E eu vou voltar. Não queria vê-la rolando por aí. eu a vi andando em minha direção. caso achasse necessário. Pettifer falou: .Ah.. e ele não fez rodeios. . retirando as luvas e escondendo uma mecha de cabelo no lenço da cabeça. Que tipo de neta é você? Não respondi porque não tinha nada a dizer.Isso não é justo.. E o temível momento se foi.O comandante mandou lhe entregar a chave do ateliê . Não há nada que eu possa fazer. . Talvez no verão. Pettifer. Todas as camélias foram queimadas pela ventania.Sim. . . . Eu ainda a via como uma linda gatinha. pare". pare.ela disse. .Ora.Por que quer ir embora agora. lívida por eu estar voltando para Londres enquanto ela teria que ficar na terrível e entediante Cornualha. Terminamos de lavar a louça em silêncio... . e certamente tão sozinho quanto ele. . Senti uma estúpida sensação de aperto na garganta e por um terrível momento pensei que fosse explodir em lágrimas. onde qualquer um pudesse achá-la.. me deixa exausta. devo informá-la. Está escondida num lugar seguro. . Provavelmente muito pó e aranhas.Vou pegar a chave. Tem muita coisa boa lá dentro.Ele disse que eu poderia escolher um quadro. muito mesmo. mas. Andréa. o que.Por todos esses anos ele ficou sem ver a filha e então você aparece e fica por três dias. ela decidiu dar por encerrado o que estava fazendo. Talvez você possa nos levar de carro. assumiu uma expressão emburrada.Também adorei. .. Talvez seja eu que não queria vê-la partir.Para mim. lentamente.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher NO ALMOÇO. envolvido com os afazeres domésticos. Pettifer foi o mais sincero. foi bastante gratificante. . tentei fazer as pazes com ele. Mollie me emprestou seu carro.Odeio vento. Pettifer. Como vai se sentir quando voltar e ele não estiver mais aqui. . .Mas tem mesmo que ir? .Quando puder. o que seria a segunda vez no dia. encasacada para esconder-se do frio (mesmo Mollie não parecia elegante num dia como aquele). .

Ora.Mas Mollie se deu por vencida.respondeu Andréa. Pettifer surgiu. . bolos e biscoitos.perguntei a Mollie quando ela voltou. .Tem dinheiro? . é claro. sentindo que esperavam dela algum comentário: . Mollie tinha razão. Mesmo para um chá na cozinha. o melhor de tudo.Tenho algum. . Receio que não esteja lhe fazendo nenhum bem ficar aqui...Grenville está tirando uma soneca e Andréa está em seu quarto. Sua cruz céltica pendia do cordão de couro. a expressão em seu rosto não era de mau humor nem de malevolência. . .comentou. Página 74    . . não vejo como você poderia impedi-la de sair. E. Vamos tomar o chá na cozinha hoje. Eu estava concentrada em minha xícara de chá. Eles se mereciam.Isto é .. pois o impossível havia acontecido: Andréa subitamente decidira cuidar da aparência. . A que vai assistir? . É provável que ela sorria para Joss o tempo todo. tia Mollie. . Vamos jantar depois.prosseguiu ela -.Não. açucareiro e uma jarrinha de prata cheia de leite.Devo dizer que ela não é uma menina fácil. ..Eu sabia que a tinha guardado num lugar seguro.Honestamente. .Obrigada. Quero dizer. não é mais criança. vagamente. . Tal resposta inesperadamente polida fez Mollie virar-se para olhá-la. vou com Joss..Tchau! .Divirta-se. . eu sou responsável por ela. E então. . Ela não ficaria bem. . Lavei as xícaras e os pires.. chegou bem na hora.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Enquanto ela se trocava. e eu sabia disso. e sim. Andréa. .Esse sempre foi o problema de Andréa. Nós duas olhamos para ela com cara de bobas. Deve saber se cuidar.. .Onde está todo mundo? . mas não podia desiludir Mollie. Eu nunca a tinha visto tão apresentável.. Ela fica atraente quando toma banho e se lembra de sorrir. Quer uma xícara? .disse Mollie. a cozinha era aconchegante. Vamos tomar nosso chá aqui mesmo. . os jeans escuros tinham sido cuidadosamente passados e os sapatos pesados. Pôs na mesa uma toalha e o bule de chá. fiquei encantada em ver.Oh .Ah. vestira um suéter limpo e até mesmo. Puxou duas cadeiras de rodinhas e estava a ponto de alcançar o bule de chá quando Andréa apareceu.Vai sozinha? . Quando enxugava o último prato e o guardava. Está passando no Plaza. engraxados. Havia lavado o cabelo e o amarrara para trás. .Então.. Se ao menos fizesse alguma coisa para se divertir em vez de se esconder por aí de maneira tão aborrecida. . meticulosos. convidá-la para sair.Esse é o problema . ... Além do mais..Sinto muito.. se a senhora permitir. Eles eram muito parecidos. mas não tenho tempo. trazendo na mão uma chave grande que mais parecia a de um calabouço.Andréa e. mas.perguntei casualmente. . usava sutiã.Vou andando e Joss deverá me trazer em casa. -Tchau! A porta se fechou atrás dela.Ela nos lançou um rápido sorriso.Como vai descer a montanha? .. Ela tem 17 anos.Está aconchegante aqui.disse Mollie. Ficarei bem..Vou . querida. . de recato! Alguém poderia imaginar Andréa recatada? .. pus a chaleira no fogo e as xícaras na bandeja. .? .Ela suspirou. para ser honesta. E olhou para mim.O que é extraordinário? .Ela vai ficar bem... .Acha que não há problema em deixá-la sair? Sabe. Quando terminamos o chá. . mas minha pobre irmã estava completamente desesperada. não achei que faria. encontrei-a no fundo de uma gaveta no escritório do comandante.disse Mollie.Mary of Scotland. .. que importância tinha? Não era da minha conta se Joss escolhera passar suas noites fazendo amor à beira da lareira com uma adolescente ninfomaníaca..Não deveria estar tão surpresa.Ela olhou a cozinha confortável. milagrosamente arrumada. . Mollie amarrou um avental em torno da cintura e começou a preparar o jantar. Sobre o braço ela trazia uma capa de chuva e uma bolsa de couro com franjas... .Vai sair? . seus padrões me pareceram. Ele me ligou enquanto a senhora estava no jardim.Extraordinário . Joss. ele sempre foi muito educado com ela. A sala de estar tem muita corrente de ar quando o vento sopra do mar e mal dá para cerrar as cortinas depois das 16h30.Vou ao cinema. usando colar e brincos de pérolas.

o amontoado de telas sem molduras encostadas na parede.Tem. cobertas de poeira. Havia um cheiro de umidade e mofo. A carcaça de um pássaro jazia. e lutei com ele por algum tempo. como o restante das coisas. acendeu-se debilmente. meia dúzia de conchas. que pesava como chumbo nas mãos.Minha criança. e as sombras lentamente serenaram.O que é isso. Aquilo era o mesmo que bisbilhotar. vestida com meu casaco de couro e munida do archote e da chave. semelhante a um galho ressecado. Mas eu queria ir. porém fora de ordem cronológica.Ficarei bem. e não acendi o archote até precisar do feixe de luz para encontrar o buraco da fechadura. contudo ainda havia luz suficiente para descer com cuidado o jardim inclinado.Não tem importância.Não tem luz elétrica? . Um intrincado dispositivo de cordões e roldanas movia a cortina. e a maioria delas não deixava indício algum de quando ou onde haviam sido pintadas. desaparecendo nas sombras. Vou botar um casaco. ..Grenville disse que eu podia ir até lá escolher um quadro para levar para Londres. e. a porta se abriu. Página 75    . Pettifer? . Estavam. Eu sabia apenas que elas registravam a totalidade da vida profissional de Grenville e as suas influências. A tarde prematuramente melancólica transformava-se em noite.. necessitando de óleo. há dez anos sem ver a luz do dia. paletas. Os ratos também estiveram ali fragmentos de veludo vermelho e tecido de crina estavam espalhados sobre ele. todas viradas para dentro. junto com sujeira de rato e uma grande quantidade de poeira. um jarro chinês azul e branco cheio de lápis. e tive que lutar para fechar a porta atrás de mim. frascos de óleo de linhaça. madame.Céus. eu erguia as telas. Estremeci diante de tamanha desolação e tornei a descer para o ateliê. Pus de lado o lençol e me detive no verdadeiro propósito de minha visita. rangendo. Algumas estavam datadas. mas do outro lado da sala havia outra lâmpada num abajur torto e quebrado.Peguei a chave. Entrei e fechei a porta atrás de mim. mas os lençóis haviam escorregado para o chão. Notei que o ateliê fora projetado em dois níveis.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Vai lá agora? Está escurecendo. Na mesma hora. o caminho pelo jardim é íngreme e escorregadio. no mesmo instante. presa ao teto alto. encardidas pelo tempo. recostava-as em série contra a poltrona para modelo. . Foi uma operação vagarosa. é melhor levá-lo. a bandeja de tubos de tintas. e rapidamente pus a mão para dentro à procura do interruptor. Sob outro lençol encontrei a bancada de trabalho de Grenville. pilhas de telas virgens. Espere até amanhã de manhã. encontrei o interruptor e o acendi e. e fui cercada por sombras dançantes. sim. . Sobre a cama havia uma janela hermeticamente fechada e um travesseiro com penas soltas. mas é muito sombrio. Cinco ou seis por vez. O vento do mar continuava violento e acompanhado da chuva fina e fria. no canto do quarto. Uma pedra polida do mar. Aproximei-me dele. formas cobertas de pó se avultaram à meia-luz. alguns frascos de tinta indiana petrificada e fragmentos de lacre. . meus dedos tocaram em algumas teias e uma enorme aranha repugnante fugiu apressada pelo chão. quem quer isso? . uma única lâmpada. indícios de teias de aranhas e bolor. pois a corrente de ar fez o fio da lâmpada balançar de um lado para o outro como o pêndulo de um relógio. espanava a poeira. tudo pareceu um pouco menos abandonado. espátulas.A chave do ateliê. . O vento fazia trepidar a enorme janela do lado norte. quando desalojei a primeira pilha. saí pela porta que dava para o jardim. Havia ainda uma coleção de objets trouvés. . Aquele lugar deve estar na maior desordem. . coberta com um lençol.Eu quero . coisinhas que talvez tivessem cativado sua afeição. E assim. No meio da sala havia uma poltrona para modelo. Subi até o meio da escada e vi o diva e o cobertor listrado. mas fui finalmente derrotada pelo mecanismo e acabei por deixar a cortina fechada. . mudando o abajur de posição para que a luz as iluminasse.Há um archote na mesa do hall.falei. como se eu estivesse lendo o diário de outra pessoa. Havia fotografias retorcidas e desbotadas de pessoas que eu não conhecia. seus pincéis. um monte de penas de gaivotas. com um mezanino para se dormir no lado sul. . À minha volta. Enfiei a chave e ela virou com certa relutância. . indo ao encontro de uma escadaria que fazia lembrar um navio. provavelmente adquiridas com o objetivo prático de limpar seu cachimbo. talvez fosse obra de algum rato gatuno.inquiriu Mollie. que trabalho vai ter.

Estava escuro e o ateliê. Com a agradável sensação da tarefa quase cumprida. encantadora. gelado. peguei uma cadeira e ajeitei a tela com cuidado sobre ela.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Havia paisagens terrenas. e não havia modo de recolocá-los ali e fechar a tampa novamente. Havia falado com ele.. decepcionante. Não havia retratos. A frustração de não saber como ela era apenas aumentara minha obsessão. cenas das ruas de Porthkerris. por isso não ouvi Eliot aproximando-se pelo jardim. à beira de uma gargalhada. a papeleira de minha mãe. como se fosse uma rajada de vento. uma vez que eu estava com o archote. Mas. e. Então. Era o rosto de Joss Gardner. Sophia e Joss. Dei início à minha seleção. foi morta na guerra. mas parecia estremecer. E ouvi a voz de Mollie: "Não sei por que Grenville morre de amores por Joss. Eu conhecia aquele rosto. Eu não tinha relógio e havia perdido a noção do tempo. Porém eu podia sentir o sangue esvair-se do meu rosto como água caindo da bacia. em 1942. Segurei-a no alto utilizando uma das mãos e inclinei-me para trás. Desde que minha mãe mencionara seu nome. Mas ele não mencionara Joss. afastei-me. com as pernas trêmulas. É como se Joss exercesse algum poder sobre ele. casou-se. pus-me a separar a última pilha de telas.. marinhas . senti-me como Pandora. incompletos. Era a última tela e a maior de todas. Havia três desenhos em caneta e tinta e uma vista de uma enseada com iates ancorados. o vestido que usara ao posar para o retrato pendurado sobre a lareira da sala de estar em Boscarva. discutido com ele. eu acho. podia ouvir as batidas ritmadas do meu coração e comecei a tremer violentamente.o oceano em todos os seus humores -. 11 De repente o frio tornou-se insuportável. em seguida. as salientes maçãs do rosto e a boca sensual que não sorria. Mas agora que a encontrara e estávamos finalmente cara a cara. como um criminoso que tenta ocultar um corpo ou algo pior. de duas crianças que eu sabia serem Roger e Lisa. E então. eu ficara fascinada por ela. sorrindo com uma vitalidade que a poeira de anos não foi capaz de ofuscar. interiores graciosos. e abaixei-me lentamente sobre o assento alto do velho sofá. tinha visto aqueles olhos negros se apertarem de raiva e brilharem de contentamento. escondida nos fundos da oficina de Joss." Pettifer me havia dito. "Ela foi para Londres. fazendo a Página 76    . por fim. Eu abrira a caixa e os segredos fugiram. diversos desenhos a carvão. para que apoiasse o retrato de Sophia como um cavalete. alguns desenhos de Paris e outros que lembravam a Itália. O vento encobria qualquer outrc ruído. O rosto da moça encontrou o meu. Meu primeiro impulso foi o de pôr o retrato de volta em seu lugar. e eu estava suja e com frio. Observei o cabelo negro. Escurecera. que ela tanto queria que ficasse comigo. Não escutei coisa alguma até que a porta se abriu de repente. empilhar algumas outras telas sobre ele e escondê-lo. aventurando-se pela escuridão." Sophia e Joss. e Joss. E ela usava o mesmo vestido branco de tecido delicado. Sophia. Sophia. teve um bebê. Apesar de Joss e Sophia estarem tão inextricavelmente ligados. Precisei usar as duas mãos e toda a minha força para erguê-la do canto escuro e virá-la na direção da luz. É assustador. Então pensei em minha papeleira. quem eu finalmente descobrira não ser digno de confiança. com as mãos imundas e teias de aranha agarradas à roupa. Havia barcos e pescadores. o olhar caído. vira-o amuar-se e sorrir. separando as telas que achava particularmente atraentes. havia meia dúzia delas apoiadas contra o assento de uma poltrona de espaldar arqueado. Quando cheguei à última pilha.

deixou-se enfeitiçar por seu charme pueril. ao que parece. instintivamente buscando conforto em seu pêlo macio e cálido. . e Pettifer também deve saber. Ele e Grenville não têm segredos um para o outro. não o deixa em paz. Eliot. e notei que ele havia visto o retrato. subitamente relaxado.Mas você gosta de Joss. sempre achei que havia algo engraçado a respeito de Joss. Não consegui me mover. Andréa está embriagada por ele. . Ele virou a cabeça para olhar para mim. suéter azul-claro por baixo com uma capa de chuva jogada sobre os ombros. . Ademais. . . O modo como apareceu em Porthkerris. Nunca confiei em Joss além do que meus olhos podiam enxergar. Sua evidente satisfação deixou-me intrigada e não quis que ele notasse que eu a compartilhava. . a pape-leíra que deveria ser entregue a você.Ora. jogá-la sobre uma cadeira. atrás de uma série de telas.. Segurei a cabeça de Rufus. . Eliot continuava falando e não notara minha incipiente interrupção. Por causa de Joss Gardner? . . não devemos contar a ninguém que achamos o retrato. mesmo assim. pois de alguma forma as palavras não saíram. Permaneci em silêncio. .. Seus olhos não desgrudaram do retrato. Por causa de Grenville. Tudo muito suspeito. Eu vim. No instante seguinte.Não.Ele franziu a testa . Rufus entrou e jogou-se ao meu lado no sofá.Minha mãe jurava que ele tinha alguma ligação com Grenville.Você gosta de Joss. Ele recostou-se no sofá e cruzou as longas pernas elegantes.É Sophia.Parece ansiosa. o neto de Sophia. Meu primo Eliot estava parado à porta.Eu sei. .Onde foi que encontrou isto? . e então percebi que eu tinha companhia.Sabe. Abri a boca com a intenção de fazê-lo e tornei a fechá-la.Queria saber como Sophia era. serenaram lentamente. Por fim. Sabe. .Mas todo mundo gosta de Joss! Todo mundo. Pensei que você estivesse prestes a entrar para o clube."Aqui estou. era tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito. .Você fala como se se tratasse de extorsão.Eliot. . você acha? .Não estava procurando por isto . Grenville e Pettifer. algo inexplicado. de uma forma ou de outra.Deus do céu.£ Joss Gardner. .Num canto.Pode ser. o emprego que lhe ofereceu e seu livre acesso em Boscarva. Usava jaqueta de camurça. . . Página 77    . Ele parou. o que vai fazer por mim?".Provavelmente. Limpei a garganta e tentei novamente. E o desaparecimento da escrivaninha. As sombras dançantes.É. Ele ignorou minha observação. Não houve negativa. macacos me mordam. . como um manto.Não gosto mais. . emoldurado pela escuridão.Eliot.Não. Minha mãe me disse. Rebecca.O neto de Sophia.Minha mãe disse que você estava aqui. porque Grenville disse que eu poderia levar uma delas comigo para Londres. mas não fazia idéia de que havia um retrato dela aqui. A luz cruel drenou todo o colorido de seu rosto fino e transformou seus olhos encovados em buracos negros. mas acho que deve haver algo físico naquela atração. Ele simulou espanto. E o modo como Grenville sabia de sua presença. e fiquei observando Eliot sacudir a capa de chuva. estava petrificada de frio e. Entendi que poderia contar a Eliot que eu havia encontrado a papeleira.É. .expliquei. do nada.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher lâmpada reiniciar sua demente oscilação e quase me enlouquecendo de pavor. . aproximar-se vagarosamente e sentar-se ao meu lado. como um ilustre crítico de arte numa visita pré-inaugural a uma exposição. .. não devemos dizer nada. . Nenhum dos dois disse nada. ele falou: .. Apenas vim escolher uma tela. . .Num canto. . Ele entrou no ateliê e fechou a porta.minha voz soou como um grasnido. mais uma vez.

O que acontecera? Nada. . você não me ama. . dos dois rapazes velejando pelas águas azuis da enseada.. . Eliot estava aguardando minha resposta. por detrás do meu ombro. de estar escorregando de um penhasco. Ninguém jamais me pedira em casamento antes. Talvez.Como Boscarva . Mas eu nunca me senti à vontade com Joss e todas as coincidências que pareciam entrelaçar nossas vidas.ele perguntou.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Ele começou a ficar intrigado. não posso ficar. calmamente. Mudamos de assunto.Quando? . Tremi novamente.. se vou ter que lhe dizer isso. mas você precipitou a situação anunciando repentinamente que vai voltar para Londres.Decidi esta manhã.Você não me contou nada. mantendo um caso clandestino com a detestável Andréa.Não fique tão chocada. . . Por algum motivo você precisa de Boscarva. .Ontem eu lhe pedi que ficasse. Então. . E acha que Grenville pode deixá-la para mim. um tanto surpreso: . você está tremendo e gaguejando como uma colegial acanhada. e há tantas coisas boas por vir para nós. jaziam em meu colo.Rebecca. de modo que ficamos quase cara a cara no sofá. estou aqui há horas. mas Eliot não se perturbou. os braços de Eliot me envolvendo e me abraçando.. por fim. parece ridículo dizermos adeus e sairmos da vida um do outro quando acabamos de nos conhecer. e fiquei aliviada por isso. Quero que se case comigo. nesse exato momento. E ele roubara a papeleira de minha mãe. Seu sorriso foi se congelando lentamente em seu rosto..Mudou de idéia e tomou uma série de decisões num único dia.O que aconteceu? . mais tarde. e achei lisonjeiro. .eu estava gaguejando como uma idiota." . Minhas mãos. Talvez eu a ame. Porque havia ainda Boscarva e a terra que Eliot precisava vender para Ernest Padlow. ..disse eu.É. Mas eu apenas dei de ombros e balancei a cabeça desesperançosa. Mas..Você está congelando. Eu não podia nem imaginar tal coisa.Eu sei.Você ficaria se eu a pedisse em casamento? Levei um susto. Meu rosto deve ter assumido uma expressão de horror.. eu preciso voltar.. fiquei tocada. Página 78    . . Talvez eu a ame desde muito antes de pedi-la em casamento.. Quero dizer.Minha mãe disse que você está querendo voltar para Londres. Eliot.Amanhã à noite. . . Isso era algo constrangedor para ser dito. frias e imundas. Involuntariamente.Mas nós não. . . eu pudesse.Nada. .Lembrei-me de quando sentei-me com Eliot no terraço ensolarado do pequeno pub. suja e cansada demais para discutir esse assunto. .O que a faria ficar? . . E estava agora. quero dizer. e.Ontem? . mudou de posição. mas estava gelada. Não há nada de chocante em se casar. .Mas nós somos primos.. Eliot as cobriu com sua e disse..Sejamos honestos. "Você não é meu único neto. ainda que estivesse escutando Eliot com uma parte de minha mente.O dia de ontem teve alguma coisa a ver com isso? .Isso não tem importância.Boscarva? . Acho que nos daríamos muito bem. pois ele jogou a cabeça para trás e riu. do gosto do seu beijo e da sensação de ter perdido o controle. .. dizendo: .Tenho que ir. Estou afastada do trabalho há quase duas semanas.Não tinha me dado conta de como o tempo voou. outra parte corria em círculos como um esquilo na gaiola. Ele ergueu uma das sobrancelhas.Mudei de idéia. . .. Lentamente. seu braço ao longo do encosto. . que seja agora.

Eu havia acabado de conhecê-lo e já o amava.Precisei do dinheiro para construir a agência de automóveis. . .Se eu vendesse a agência e fosse trabalhar em Birmingham. .O que me diz do Sr. Grenville dissera: "Você foi feita para se casar. tornou-se a Princesa do Gelo. Passou a mão no alto da cabeça.que você andou conversando com Grenville. então recorri a Padlow. Um compromisso não seria melhor do que um emprego das 9 às 17 horas pelo resto da vida e um apartamento vazio em Londres? Ele tocou em minha ferida. o que iria fazer? . Kemback e o museu de automóveis em Birmingham? . Livrar-se de Boscarva e. Você sabe disso.Quem iria imaginar que três anos depois ele ainda estaria conosco? .fiz uma pausa e então pensei. Como dizem nos filmes de faroeste: "Esta cidade não é grande o bastante para nós dois.Uma coisa é certa: ou Joss ou eu teremos que partir. Grenville não se mostrou interessado.o tom divertido persistia. cautelosamente. O que há aqui para ele querer ficar? Eu sabia que não poderia concordar com Eliot. O fim viria em breve.Talvez não.Como você é fria.Joss não é importante. Eliot. .Eu poderia vender a agência. serei obrigado a fazer isso de qualquer maneira. não sabe? .e de sua mãe . ele era parte de mim. . . Um acordo de cavalheiros.concluí rapidamente. . ter uma casa e filhos. Seus olhos encontraram os meus e foi como se Joss estivesse ali. .Acho que deveria. E então: . . Era uma probabilidade desalentadora. significava dignidade e determinação. Do jeito que andam as coisas.Não existiria outra maneira de pagar ao Sr.Que memória irritante você tem.Você quer vender Boscarva para que Ernest Padlow construa suas casas. .Você fala como se o quisesse morto. De repente.." Mas eu preferia que Joss se fosse.seu tom era divertido. .Eliot.Nesse caso .Não acontece com todo mundo.Pensei que a agência estivesse indo bem. Começar de novo. . esperando por mim. no caso de Grenville.O que sugere que eu fizesse? . Talvez nunca venha a acontecer com você. Página 79    . rindo de nós. você viria comigo? .E deixar a Cornualha? . Eu esperei. Virei o rosto e me vi.. como se eu fosse uma tola. Velhice. -Ele esticou as mãos. Eu estava sozinha havia tempos e a probabilidade de continuar sozinha pelo resto da vida era assustadora. escutando cada palavra do que dizíamos.Oh.Mas. cara a cara com o retrato de Sophia. . vou até o fim . hesitou e então expirou o ar num longo suspiro. Padlow? .Trabalhar para ele seria tão mal assim? . . . . .Minha mãe? . ." E agora estava tudo ali.É . como se eu fosse uma criança cheia de caprichos a serem satisfeitos.. se vendesse a agência. Ele não merece nossa consideração. Fez-se um longo silêncio. Solidão e tristeza. perguntei: . Seu sorriso era pesaroso. . .Eu acho . Não podia suportar a idéia de sua morte. Então Eliot segurou meu queixo e virou meu rosto a fim de me forçar a olhá-lo nos olhos.. .Sinto muito. Tudo o que tinha a fazer era esticar minha mão e aceitar a oferta de Eliot. Ele aproveitou a vida.Você sabe o que quero dizer.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Ele inspirou profundamente como se fosse negar.Sempre achei que isso fosse importante. . um compromisso não seria má idéia.inquiri.disse ele.A velhice é uma coisa terrível. E Grenville estava velho e doente.Mas ela não era sua. já fui até aqui.Ouça o que estou lhe dizendo! . Tentando ser prática. .É o que todos pensam.Não precisamos estar apaixonados um pelo outro. Não havia razão para não ser.seu tom era gentil e moderado -.Estou ouvindo. .disse ele .Estava certo de que seria. . . outra vez. Ele concordou e acertamos que o seguro seria a fazenda Boscarva.

ser obediente e servir os drinques para Grenville e minha mãe. extenuada. tateando o caderninho. Então peguei as outras telas.. preparar um banho e relaxar em seu vapor quente e perfumado. .Que horas são? Ele consultou o relógio de pulso. Página 80    . Fiquei horrorizada. meu rosto. minha querida. . abotoei o colarinho do cafetã marrom. galgando os degraus molhados e brilhantes da varanda.Procure aqui para mim. Pettifer. . perplexa. e tirei Joss da minha vida de uma vez por todas.Oh.Ouvi o motor de um carro. Encontrava-me demasiadamente cansada para raciocinar.e foi interrompida por uma série desenfreada de soluços. seguindo o feixe dançante de luz. infelizmente. a porta da sala de estar estava escancarada e Mollie veio em nossa direção.. Acima de nós. .não havia tempo para mais nada -. desconhecida. Passei uma camada de batom .Quer dizer caída na estrada? Ela foi atropelada ou coisa assim? . mas parece que a menina está histérica. Disse que ia de Porthkerris para casa quando a encontrou na estrada.. junto das teias e das aranhas.. vesti as roupas. O hall estava aquecido e parecia seguro. .. -Você precisa tomar um banho. e eu tenho que tirar o gelo do congelador..O que houve com Andréa? . e havia um cheiro gostoso de galinha assada que seria degustada no jantar.Pettifer. os cômodos acesos fulgiam por detrás das cortinas cerradas e tudo o que havia à nossa volta eram o vento e as silhuetas das árvores atormentadas e desfolhadas. Mas não adormeci. Mollie: -. enxuguei-me e comecei a cruzar o corredor até o meu quarto. escovei e trancei o cabelo. a vida continua. Sophia nos observava. mas parei subitamente ao ouvir as vozes exaltadas que vinham do hall.Morris Tatcombe. ... eu a encontrei a meio caminho do topo da montanha. disse a mim mesma. . a casa avultava-se.Temos que voltar. . E Mollie. virado para a parede.Certo . Pettifer havia saído.. está tudo bem. atravessamos o jardim. Quem a trouxe para casa? .. Podíamos ficar aqui a noite inteira. Entrei em meu quarto. apresse-se com o conhaque. Peguei o caderninho e comecei a procurar o número. Ouvi Eliot dizendo: . e provavelmente me afogaria. e as coloquei à frente do retrato.Venha para perto do fogo. Ajeitamos tudo rapidamente e cobrimos as telas com o lençol empoeirado que caíra no chão. Sentia-me mortalmente cansada. Ao chegar lá embaixo. tudo num curto espaço de tempo. Eu não me lembrara de puxar a cortina e os faróis do carro iluminaram. Pegaria no sono.. Disse a mim mesma que ela estava morta. menina. Sem olhar para o retrato.Quase 19h30.Separou seu corpo do meu. O banheiro era voltado para a entrada de automóveis e a porta principal. o vidro escuro. saí do banho. . Saímos do ateliê.. Eliot desligou o abajur e eu peguei o archote. mas. . . Tudo.Não sei exatamente o que aconteceu. Doutor Trevaskis..desvencilhei-me de seus braços e afastei uma mecha de cabelo da frente dos olhos. minha boca. mas não consigo achar. ajeitar tudo.Nunca vi uma tempestade durar tanto tempo . . trazendo nas mãos um cálice de conhaque. beijando meus olhos. calcei um par de sandálias e desci as escadas enfiando os brincos. aleatoriamente. pois. a correia com que eu o presenteara continuava nova e reluzente. Por que me importaria com o que os dois pensariam de mim? Eliot disse finalmente: . Pettifer surgiu pela porta da cozinha com uma expressão tempestuosa no rosto. mais alto do que o silvo do vento. . Levantei-me. .perguntei. finalmente consegui não pensar em nada. o som de um carro se aproximando. tropeçando sobre os canteiros e os tufos de grama. minha querida Rebecca. Nos fundos do hall. . tomei-o nas mãos e coloquei-o de volta em seu canto escondido e empoeirado. Provavelmente levou um tombo. enquanto jazia na banheira. Descontraída.comentou Eliot enquanto abria a porta lateral para entrarmos. e ele envolveu-me em seus braços e apertou seu corpo contra o meu.dizia uma voz masculina. que coisa terrível. não fique aí conversando.. Separamo-nos. ouvi. Está segura agora.Ela me viu parada.Não sei.. Mas minha criança querida. juntos. apagamos a luz e trancamos a porta. Eliot tomou o archote de minhas mãos e.Ela estava ao telefone. Vou ligar para o médico. Eliot foi para a cozinha e eu subi para trocar minhas roupas imundas. deve estar escrito aí em algum lugar. Em seguida.Oh... Uma porta bateu e eu ouvi vozes. . o que aconteceu? .. tal idéia não me abalou. Agitada. novamente: . decidi. O indicativo da gravidade da situação era o fato de que ele não cuidara de servir a bebida numa salva de prata.. por um segundo.Pelo amor de Deus. absolutamente terrível.. estava como antes. incapaz de enxergar por ter esquecido os óculos em algum lugar.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Pronunciei seu nome. quase correndo. Por alguma razão. mas eu não me importei.

Não quero falar sobre isso. com isso.A meio caminho do topo da montanha.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .eu disse. Sua expressão poderia ter sido esculpida em madeira. falou: . ao que parecia. quando saímos.Ah. . o topo de sua cabeça mal atingia o ombro de Eliot. Poderia ter morrido.ela gritou na minha cara como se eu fosse surda." E me odiei pela frieza do meu coração. .É uma história horripilante.Mas. um gesto tanto agressivo quanto constrangido.disse Morris. ..Qual pub7. contra o meu.. .. . Percebi que dele não sairia nenhuma ajuda. Pelo rasgo das calças. .. e tentei virar seus ombros na minha direção. . Notei que ele estava vestido para alguma ocasião noturna.Fez! . de verdade.. eu deveria ter decorado o número. Tomei assento ao lado dela. calado. pude ver seu joelho ralado e sangrento. Grenvüle. Ela poderia ter passado a noite inteira lá. Apesar de aturdida e estranhamente relutante em saber os detalhes da infeliz experiência de Andréa.Aqui está. catou o copo e saiu da sala.Não sei. Por misericórdia Morris a encontrou. Ela havia perdido.Joss! . A suéter limpa e os jeans bem passados. Pensei comigo mesma que ele nunca gostara da moça. Mal posso acreditar. um dos sapatos.. é claro.Andréa! Ela soltou um gemido estridente e girou o corpo para comprimir o rosto contra o encosto do sofá.. estavam ensopados e sujos de lama. e quan. (Pensei prontamente: "Pelo menos não está faltando nenhum dente. cuspindo o conhaque e jogando o copo nas mãos de Pettifer para longe. fomos ao cinema.. . enfeada pela choradeira.Oh. .Vá sentar ao lado dela.. como se tivesse sido selvagemente espancada.Eu. .. à sala de estar...Alguém fez isso com você? Andréa lançou o corpo.segurei-a pelos ombros e lhe dei uma ligeira sacudidela de modo que sua cabeça bateu contra o estofado de seda como uma boneca de trapo com pouco enchimento. fiz o que ela me pediu. Mesmo calçado...Pode se lembrar onde foram? Página 81    . e perdi a compostura. Blusão de couro. Parece que ela teve uma briga com Joss Gardner.. notei. num tom circunspecto .. talvez tenha se partido em alguma luta inconcebível. como alga marinha. ela virou o rosto para me encarar com olhos patéticos e molhados. a enorme equimose na têmpora.Onde a encontrou? Ele trocou a perna de apoio. Eu estava prestes a dizer isso quando Andréa soltou outro gemido. tropegamente. Sabe. A cruz céltica no cordão de couro se perdera.Tem que saber qual pub. Atrás de mim. com louvável paciência. Minha voz aumentou com impaciência. mais gentil.! . .. menina. aparentemente estupefato. que eu não ouvira entrar na sala.Pegou o fone e discou. os homens são tão inúteis. com os quais ela saíra tão feliz. em convulsão. respingado de chuva. Virei para Morris Tatcombe. falou comigo rapidamente: . Seu cabelo estava grudado à cabeça. Não seja indelicada. não grite com ela. com emblemas bordados. estava diante da lareira com as mãos atrás das costas. Ela pôs a mão no rosto. Porthkerris 873. exasperado.. Fiz um esforço e tentei de novo. Ergui os olhos para Grenville e fui submetida a um olhar penetrante e impassível. Eliot servira um drinque a Morris e os dois observavam Pettifer. e seus cabelos compridos pendiam úmidos e escorridos. quando a chamei pelo nome. ela debulhou-se outra vez num mar de lágrimas.interrompeu Grenville.. Dirigi-me.Oh. como uma bruxa velha num lamento fúnebre. na beirada do sofá. vulnerável como o de uma criança. jeans colados à pele e botas de saltos.. E Andréa. onde a estrada se estreita e não há calçada. horrorizada. . Lionel Trevaskis. . nós. Ele jogou os cabelos para trás. nunca sabem o que fazer. Enquanto esperava. . . Pensei que tivesse sido atropelada. fomos a um pub e.que tudo terminou. pelo amor de Deus. . .Mas precisa! Pettifer.) .Mas foi assim . .e. .. seu rosto estava borrado pelo choro e. tentar derramar um bocado do conhaque na garganta de Andréa.Tinha que haver outra explicação.Pare de fazer esse barulho demente e conte-nos o que aconteceu.. Ela estava entre a ribanceira e a vala. apesar de tudo. Foi sorte eu tê-la visto. Mollie. cale a boca! . Não quero falar sobre isso. Ele a convidou para ir ao cinema . As palavras começaram a sair de sua boca. Os outros estavam agrupados em torno do sofá. . fiquei chocada e amedrontada ante sua aparência.Não sei como tudo começou . mas não foi isso.

mas continuava impassível. Grenville apertou os olhos.disse Mollie.. .Como sabe que ela está mentindo? .Pronto . começou a gritar comigo. . Olhei para os outros à minha volta e o mesmo ar de horror e consternação. Os dois olharam para mim um tanto surpresos. com a voz um tanto trêmula. Ele queria que eu fo. Sua boca ficou quadrada.. Foi Morris quem.. talvez mais calma com o tratamento que Mollie lhe dispensara. O médico está a caminho. Eliot teceu um comentário primoroso. Apenas Grenville parecia frio.Devemos perguntar a ele. De alguma forma.Ele deu uma olhadela para Grenville e completou: ... e nossos olhares se fixaram.O senhor tem intenção de deixá-lo impune? . . Mas aquela parte ela certamente inventou. .. Não estou certa do restante da história... Não sei o que aconteceu esta noite. Eu.E depois? . Caminhou para sua poltrona. .Alguma coisa do que ela disse deve ser verdade. o que o fazia parecer temível. E ela sabia que eu sabia que ela estava mentindo. murcha e enlameada.. ela abriu os olhos e olhou diretamente para mim. lentamente. seria descrito como "Arre!" . sustentando-a. em diversos graus. . E então ele me.Então . Andréa. Na mesma hora Mollie tomou o meu lugar. e eu gritei e ele me bateu. e deve ter ido mesmo..Por aqui. E ele veio atrás de mim. ela teria aceitado prontamente. . s. E.Não há mais nada com o que se preocupar. deu um passo adiante e a segurou antes que ela caísse.Que história desagradável..Porque. e eu.. ouvimos o restante da história. Contudo. Eu a soltei.E Joss bebeu um bocado de uísque. e ela cedeu a um pranto incontrolável. mas suas pernas não agüentaram seu peso e ela começou a desfalecer.. ainda assim. E eu.Ela era mais gentil do que eu.. . ela estava embriagada por Joss. Mas sei que. que parecia não ter outra escolha.perguntou Eliot calmamente .. porém incompleto: ..Quem falou em ligar para a polícia? . e depois..Não. como você mesmo disse.Como? . saiu. .. pois me descreveu exatamente como era a casa e cada detalhe estava certo. .como explica a equimose em seu rosto? .. Não o deixava em paz.Podemos descobrir o que realmente aconteceu .Ela está mentindo . Rapidamente... Recostando o rosto contra o peito de Morris.. sua voz era doce e maternal. pronto. Ela me contou que ia com freqüência ao seu apartamento. Ouvimos os passos sobrecarregados de Morris atravessarem o hall e começarem a subir os degraus da escada. Vamos lá para cima. Não precisa mais tocar no assunto.. nos antigos romances.desabafei. Você vai ficar bem. Sem hesitar. estava estampado em seus rostos.disse Mollie mais uma vez.Eu não queria ir.ele disse então. Olhei para Andréa. E depois.O que disse? . parado ao seu lado.Pronto . Andréa pareceu ansiosa para revelar tudo e.ela disse... .Devo ligar para a polícia agora ou mais tarde? Finalmente. Ele esteve parado durante muito tempo. E eu sabia que ela estava mentindo. eu queria voltar para casa. foi carregada da sala. . . foi erguida cuidadosamente do sofá. e.. escuro. Página 82    . ela está mentindo.Não sei. se Joss quisesse que ela fosse até lá com ele. Grenville se moveu. e inclinou o corpo cuidadosamente para se sentar.Morris vai levá-la para cima. Eliot emitiu um som que.. não pude ver. Provavelmente a maior parte.. .. . e meu sapato. E ele vai nos contar a verdade... . Em seguida.Eliot disparou a pergunta como um tiro de revólver. ela se pôs a chorar novamente. eu tentei correr e tropecei na cal. Eliot franziu a testa.Ela andou até a porta.Certo . em seus braços franzinos. . Estava es.Podemos perguntar a Joss. me levantei e me afastei. em meio a intermináveis soluços e arfadas. o deixei. .. calado.. Não precisa nos contar mais nada. com uma força surpreendente. Mas.disse Morris.Pronto. A medida que Morris se movia. e Pettifer está preparando um saco de água quente para pôr em sua cama.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . Grenville se pronunciou: . profundamente enraivecido. na tentativa de acalmá-la. Grenville virou a cabeça e fixou o olhar em Eliot.Tudo bem .Agora está tudo bem. me pegou e com. E disse que não me levaria em casa. calçada.. . Segurei-a com firmeza. Morris.. .. fosse para o seu apartamento com ele...

.Não. não da sua boca. Sr.Eliot! .Já vi o bastante de Joss Gardner.Não. Em meio ao jantar. . se tal revelação tivesse que ser feita. . Mollie ficou fazendo companhia a Andréa. Eliot se calou. a frase incompleta evocava imagens de Andréa morrendo por abandono. É um problema nosso. ele o fez num tom um pouco mais alto do que um sussurro. . Grenville tornou a sentar-se. .ele recuou. Sr. Ele baixou os olhos para o copo e terminou seu drinque de um gole só. Eliot mostrou-lhe o caminho. não diga mais nada.replicou Eliot num tom tranqüilo. Boa noite. é melhor eu ir. . a súbita discussão que acontecera entre Grenville e ele havia sido prontamente esquecida. nós o ouvimos conversando com Mollie no hall.Ah.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Boa noite a todos. . Mas o que não aceito é o fato de ele tomar conta dela e de nós também. está lá em cima. Esta casa é sua. exaustão e perda de sangue.Está certo .ele disse a Eliot.Essas coisas se espalham. Tatcombe.desejou.Creio que estamos em dívida com aquele jovem -disse Grenville. .O senhor está bem? . Nunca confiei nele nem gostei dele. Somos muito gratos ao senhor. será que a verdade tem que ser jogada em sua cara para que o senhor a enxergue? . Eliot perdeu a compostura.ele parou.Vou embora agora . Apanhou seu drinque. Morris deu de ombros. o médico chegou e foi conduzido por Pettifer ao quarto da moça. O que teria acontecido se você não a tivesse visto.Ela está bem? . Tatcombe. Parecia ter esquecido que eu estava ali. .Espero que algum dia possamos recompensálo. .Ele não sabe o significado dessa palavra. E ficaríamos agradecidos também se o senhor guardasse a versão da moça para si.Gostaria de um drinque? . .Saúde! . certamente ansioso por partir. Eliot tapou a garrafa com a rolha.. mas. . que estava de costas e então virou-se para olhá-lo. ele pareceu ter recuperado o bom humor. . Levou algum tempo até que Eliot retornasse. Quando finalmente voltou a falar. Enquanto o fazia. E Pettifer mandou lhes dizer que o jantar está servido. e ela o levou até a porta e veio à sala de jantar nos informar sobre seu parecer.Sim. entendia que. . largou o copo cheio sobre a mesa e veio em seu socorro. pelo amor de Deus. Jantamos sozinhos. os três.Vou levá-lo até a porta. Pelo menos até que tudo se esclareça.Exatamente. Morris inclinou a cabeça em nossa direção. Então o deixei sozinho e me ocupei de ajeitar as almofadas achatadas do sofá. Não obstante.Bom. . .O senhor deu conta de tudo muito bem.Eu não me preocuparia tanto com Morris . Morris Tatcombe tornou a aparecer na sala.Porém. e Grenville e eu o observávamos em silêncio. . . . ao voltar. em sua poltrona. por favor. . um ladrão e um mentiroso. estou. Desejei poder-lhe confidenciar o que descobrira a respeito de Sophia e Joss. Passou a mão nos olhos e ocorreu-me que preocupações desse tipo não seriam boas para sua saúde.Não levante a voz para mim. erguendo o copo para o avô. penosamente. encarando o velho com descrença e revolta. Sua mãe está com ela. Morris pareceu cético.Por hora não direi mais nada. deveria partir dele..Isso é problema de vocês.concordou.Foi sorte eu tê-la visto . .Realmente não temos como agradecer-lhe. .Ele virou-se para mim. .Creio que ele pode arranjar-se sozinho.. e sei que tenho razão. Tive que impedi-lo.Eliot. Mas Grenville esforçou-se e pôs-se de pé com sólida dignidade. E um dia o senhor vai me dar razão. Eu o considero um impostor. Eu aceito isso. só porque ele é.. . Mais tarde. Página 83    . . E foi servir-se de outra dose.Você não tem o direito de dizer isso. . mas sem saber ao certo como fazê-lo. .Tome mais um drinque antes de ir. .

O que vou dizer à mãe dela? Nem imagino.Alô? Comecei a ouvir uma voz fraca e tímida. mas ele estava afundado na poltrona. traziam os pés plantados no chão. Bayliss.. meu marido disse. estávamos sentados diante da lareira para terminar nosso café. desejando saber quando eu voltaria ao trabalho.Está em choque. sensatez e..." Peguei meu cálice de vinho e. Imaginei que Eliot atenderia. No que Joss estaria pensando? Ele deve ter enlouquecido. ter uma casa e filhos. . mas ele não quis. apesar do prosaísmo. Um compromisso..Imagine. Aquele poderia ser meu último jantar em Boscarva. talvez estivesse. Ele lhe deu um sedativo e ela terá que ficar na cama por um ou dois dias.. Sentei-me sobre o baú que havia no hall e peguei o fone.. . temos medo de deixá-lo lá sozinho.. eu comia um cacho de uva. mas levei algum tempo para perceber que aquela era a Sra. Senti-me culpada por não ter entrado em contato com ele para dizer o que estava fazendo e quando pretendia voltar para Londres. . mas isso não significava que eu havia me esquecido de Joss.. .ele respondeu.disse Eliot .Quem é. estávamos passando. com o jornal numa das mãos e um drinque na outra. .Não pense nisso .Provavelmente estava bêbado. Talvez fosse Maggie. Lentamente. 12 Página 84    . . A campainha do telefone cessou. . é claro. e aquilo soava morno..disse Eliot. Pettifer? . Talvez Stephen Forbes. Ouvimos a porta da cozinha abrindo e seus passos arrastarem-se pelo hall.. . Era como se tivéssemos feito um acordo tácito. olhei para o relógio que ficava sobre o console da lareira. mas eu não estava inteiramente certa de que seria ou não. Dali a pouco. Encontrava-me numa encruzilhada e não fazia idéia do caminho que deveria tomar. ele já soubesse que eu o faria. nem fechado os olhos para as coisas que ele havia feito.. Não sei por que.Mollie quis saber.Quem pode estar ligando a uma hora dessas? . Grenville e eu não dissemos nada. quando o telefone começou a tocar.. Devo ter sido demasiadamente lenta e estúpida. Pettifer enfiou a cabeça pela fresta e seus óculos refletiram a luz do abajur. Queríamos chamar um médico.Oh. A expressão em seu rosto denotava confiança e júbilo. Era provável que. Porém... aquelas palavras ganharam certa consistência. . E se eu ainda estivesse aqui. Ele sorriu.Sim. como se fôssemos conspiradores. Mas. após as representações histriônicas daquela noite. ... "Você foi feita para se casar. Só tem 17 anos. parecendo estar muito distante. Ela é apenas uma criança. então o levamos para sua casa e o ajudamos a subir a escada.Não faço idéia. Srta.até amanhã. Levantei-me do sofá e deixei a sala.Para mim? .É para Rebecca . e custou tanto a tomar a iniciativa que Pettifer foi obrigado a atender. não sei o que houve. numa olhadela. enquanto eu pensava em acabar me casando com ele.. Fiquei surpresa. Bêbado e violento.. Eram quase 21h45. deve haver alguém aí.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . . coberto de sangue e mal podia falar. a porta se abriu. notei que Eliot me observava do outro lado da mesa envernizada. Kernow. Mais tarde. Esperamos. Eliot levantou-se para buscar uma cadeira para a mãe. toda a verdade viria à tona.Mas é uma coisa tão terrível. querendo me falar alguma coisa sobre o apartamento. acontecer uma coisa dessas. ele disse que ficaria bem.. A essa altura. eu provavelmente já estaria em Londres.. ele estava lá caído. provavelmente quando fosse interrogado por Grenville. teria de me decidir. em breve. dissera Eliot. que mergulhou nela parecendo exaurida e trêmula. me ligando de um telefone público da Alameda Fish para me dizer que alguma coisa tinha acontecido com Joss. De volta à sala de estar.

. Fiquei enojada. vestida com minha velha jaqueta de couro.Vou sair. Era simples assim. .Ele foi ferido. a porta da sala de estar se abriu e Eliot atravessou o corredor em minha direção. o vesti e o abotoei. ouvindo o que ele dizia. Não passou pela minha cabeça que ninguém.falei entre dentes -. Não há lugar para mais ninguém em sua vida.. para mim. tornei a descer as escadas.Você não vai .Pensei que fosse você que não soubesse amar. Sem dizer mais uma palavra e sem parar para olhar para Eliot.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Fiquei surpresa e agradecida por me encontrar num estado de quase absoluta tranqüilidade.sua voz estava fria e séria.Está certo. Não obstante. Ele me soltou tão de repente que eu quase perdi o equilíbrio. Você sabe disso. ele afirmara.E daí? Você viu o que ele fez com Andréa. a pele se esticou sobre os ossos salientes. . . que nada pudesse me impedir de sair. Seu rosto fino se enrijeceu. As duras palavras. . Mas a acolhida que ele me dispensara. com duas largas passadas. que deveriam me chocar. Peguei-a e. . entraram por um ouvido e saíram pelo outro. que eu diga que a amo.Ele segurou minha cabeça com as mãos. Ele me viu. recebido ordens e soubesse o que fazer. Porém.pedi. ele não faz parte da sua vida. Eu havia reconhecido tais falhas em seu caráter e estava preparada para aceitá-las.Não acha realmente que eu a deixaria ir. mas Eliot foi mais rápido e. de imediato. mas isso não aconteceu. Sua avó era uma prostituta irlandesa. e minha indiferença o deixou enfurecido. Eliot.Joss foi ferido.Suponha que eu diga que não vou deixá-la sair. Eu nunca poderia me casar com Eliot. Ela e o Sr.disse ele de maneira divertida.E daí? . Do lado de fora havia a escuridão e a chuva.Você não ama ninguém. Não passou pela minha cabeça que ele pudesse tentar me impedir de sair. e me senti mais leve e aliviada.. Ele apertou mais forte. .Você ficou louca? . . Fechei os olhos na tentativa de suportar a dor. Esperava me intimidar. Mas entendi. . Mas. Minha vida ainda estava confusa. Só a si mesmo.Vou pegar o carro de sua mãe emprestado. Joguei a chave no bolso e aproximei-me da porta. . Fui até o meu quarto e apanhei o casaco. não é da sua conta. Permaneci parada. Era como se eu já tivesse sido preparada para essa crise. olhando para ele.Quem era ao telefone? . apertando tão forte. Não havia dúvidas e. Kernow estavam voltando para casa pela estrada da enseada.Aonde você vai? .O que ela queria? . . Eliot .Não acho que tenha ficado.Suponha. . que achei que meu crânio fosse se quebrar como uma noz. Kernow. sobre a bandeja de bronze no centro da mesinha do hall. passei por ele correndo como se fosse me abrigar em outro lugar. Deixe-o em paz. . Página 85    . Minha cabeça começou a latejar. colocou-se à minha frente. uma coisa tornara-se absolutamente clara para mim. e ele é um bastardo efeminado. ele girou a maçaneta e escancarou a porta e. . não vai ser com você. agora. . como se ele tivesse tirado um grande peso das minhas costas. se é que está à procura de agradecimento. que tudo havia terminado. a incerteza e a indecisão. A chave do carro de Mollie estava onde eu a havia deixado. Rebecca. Ele se calou. . . o vento correu para dentro como uma criatura monstruosa que aguardara a noite inteira para invadir a casa. Violentamente. Eliot notou. Vou até lá. . Suponha que eu a prenda aqui. eu continuava numa encruzilhada. então vá. e o encontraram.A Sra. por isso. foram visitar a irmã dela. isso teria sido uma barganha insignificante. de costas para a porta e com a mão na maçaneta. sem que nada do que ele falasse fizesse sentido para mim.Deixe-me sair. . Ele é um crápula. Tudo bem. na mesma hora. Deus sabe quem era seu pai. nesse momento. ele era fraco e certamente não era o mais bem-sucedido dos profissionais.Por que quer ir atrás dele? O que vai poder fazer? Ele não ficará agradecido por você se intrometer. a hospitalidade e o charme que ele ligava e desligava quando melhor lhe convinha não me deixaram enxergar seu caráter vingativo e a assustadora força de seu ciúme. nenhuma indecisão.Quando eu aprender . Um compromisso.

.A líder de um orfanato bem administrado.Sempre quis fazer isso . Ele estava deitado na cama. como se quisesse evitar alguma luz indesejável. quem fez isso? Mas ele não respondeu. . . Ao me aproximar do mar. Seu rosto estava terrivelmente machucado. ele o baixou e levantou ligeiramente a cabeça para ver quem era. . Ele estava nu até o peito e.O que posso fazer? Deve haver alguma coisa que eu possa fazer. Diminuí a velocidade para os prudentes 50 quilômetros por hora. atravessando a escuridão e a chuva. A estrada inclinava-se na montanha escura e molhada. Quando chamei. enquanto ele me segurava com seu braço direito. e não parecia haver pele alguma na junta da mão direita. . . entrando na casa debilmente iluminada. Deliberadamente. semicoberto com uma manta.. ele fora delicadamente envolvido em ataduras que pareciam ser tiras rasgadas de algum velho lençol.Pensei ter ouvido sua voz. O sangue havia escorrido de um corte no lábio e secado. A primeira vez que a virei. . O braço jazia sobre os olhos. e em seu lado direito. e meus pés roçaram as aparas de madeira que permaneciam espalhadas pelo chão. Estava convencida de que Eliot estava atrás de mim.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher Tive ainda que chegar à garagem. enxerguei a escada. estava aberta. abaixo. O fogo não estava aceso e fazia muito frio. gentilmente puxando a manta para cima. sem entrar em pânico. Havia pessoas pelas ruas. saltei e caminhei até a porta.Joss. Continuei subindo. Dirigindo. Com a luz do poste de iluminação da rua. Bati a porta do carro. e minha mão tremia tanto que quase não consegui enfiar a chave na ignição. e finalmente deixando a propriedade e ganhando a estrada.eu o ouvi dizer. . A tempestade varria o telhado acima da minha cabeça.Os Kernow me enfaixaram todo. cautelosa. sem correr o risco de sofrer um acidente. E Chamei: .perguntou de maneira confusa. . Mas eu me curvei sobre ele.Rebecca.Está machucado em algum outro lugar? . Apenas uma única luz iluminava a janela superior. sua mão esquerda se ocupava em puxar o elástico que prendia as pontas do cabelo e. Mas uma ferida horrível se espalhava e subia pelo peito. sou eu. .Eu disse a ela que não falasse nada. desembaraçando-os de modo que meu cabelo escorregou como uma borla de seda. nuvens recortadas continuavam a despejar a chuva torrencial do céu. ele ergueu o braço e me puxou para baixo para que eu me sentasse na beirada da cama. . salpicando os cascalhos. o motor não deu a partida. Em vez disso. você se lembra. Dessa vez o motor pegou. Precisava dirigir com cautela e bom senso. com uma estranha força para alguém tão ferido. ele soltou os fios. . Fui até ele. .Sim.Isso. tão assustador quanto um espectro esperando para pular. . Estacionei o carro rente à calçada. A loja estava às escuras. em todos os lugares. o lado esquerdo estava ferido e inchado. semicerrado.ele disse. Eu havia escapado de Eliot e estava indo ao encontro de Joss. Subi os degraus.Meu Deus . em seguida. Eu estava indo ao encontro de Joss.Eu o chamei. subindo pela passagem de carros encharcada. Choraminguei. utilizando os dedos como um pente. como foi mesmo que eu disse? . lutar contra os portões e enfrentar a escuridão até achar o carro de Mollie.. Página 86    . .Ela ficou preocupada com você. Engatei a marcha e pisei no acelerador. alisando seu peito nu.Joss. enquanto puxava o afogador e tentava novamente. .O que está fazendo aqui? .Desde a primeira vez que a vi. e o olho.A Sra. mas não muitas. notei que as luzes refletiam na areia molhada e os barcos encontravam-se fora do alcance da tempestade. o sangue manchara o pano de algodão branco. para me pegar.. Senti o cheiro de madeira nova.. E então deixou-a cair novamente sobre o travesseiro. Acima. Joss. Imagine só. o que aconteceu? .Joss! Não houve resposta. mas você não respondeu.Sim.Fui pego por bandidos. . talvez por causa do inchaço do lábio. . Minha longa trança de cabelos louros caiu sobre meu ombro e. Kernow me telefonou. parecendo a líder de um. Achei que estava sonhando. recuperei a calma interior. para me impedir de fugir. até o segundo andar. A maré estava então totalmente baixa.Deixe-me ver. afrouxei a mão agarrada com força ao volante.

Costumava deixá-la ficar ao meu lado enquanto eu trabalhava em Boscarva. Não posso beber uísque deitado. Agachei-me para apanhá-la e deparei-me com um outro pequeno objeto reluzente. é claro que estou bem. acendi a lareira. . Era Joss. que tinha sempre sido tão forte.Fique. enquanto sua boca buscava a minha. diabo. Eram os restos das minhas defesas que se iam. como um raio de sol repentino. Era quente. como se eu não tivesse dito uma palavra.Pegue mais algumas almofadas. me comoveu.Um pouco de uísque.Sim. dane-se.O que. Uma vez.Eu lhe disse..Ela esteve aqui esta noite. seus sangramentos. ajoelhando-me no chão ao seu lado.Encontrei o abridor e retirei a tampa. que todos a odiavam. Meu cabelo pendia solto em ambos os lados do meu rosto. Peguei-o e vi que era a cruz céltica que Andréa usava no pescoço. Está na cozinha.Soda.Talvez fosse verdade. Não tinha nada a ver com minha mãe e a interminável procissão de homens que invadiram sua vida. Agi de modo desajeitado e a tampa caiu no chão.disse Joss. Juntei algumas almofadas do chão e ajeitei-as de modo que ele se recostasse sobre elas. de forma alguma. . Disse a ela que estava ocupado.Isto estava sob a pia . minha menina querida.. Ele apertou os olhos penosamente. Eu disse que não queria beber e lhe disse para ir embora. caído embaixo do armário da pia. Não deixei que Joss se mexesse e. mas ela subiu até aqui. Eu estava trabalhando lá embaixo.. no armário em cima da pia. assim. empilhando a lenha.Eu sempre quis fazer isso também. que eu era a única pessoa com quem ela podia conversar. E então ela respondeu que não queria ir para casa. Onde encontrou isso? . As lágrimas encheram meus olhos e. seu lábio cortado poderiam. e o quarto encheu-se da luz bruxuleante do fogo. ... Mas eu estava ocupado esta noite. Servi os drinques e entreguei a bebida de Joss. que queria conversar.Ela já havia estado aqui antes.eu disse. Sentia-me leve de satisfação.Ora. . de modo que fiquei sobre ele e senti sua mão deslizar sob meus cabelos e se fechar em torno da minha nuca. Fiquei com ela na mão. querida. Eram as idéias cínicas e preconcebidas escapando pela janela aberta.. . Senti pena dela e lhe ofereci uma xícara de café. por não ter outra opção. . E eu. . e senti seus olhos acompanharem todos os meus movimentos. mostrando-lhe a cruz. não é? . Mas ela não quis ir. Seu olho inchado dificultava a visão.O que você quer? . . Ele pronunciou meu nome e o fez soar bonito. Tem um abridor de garrafa preso num gancho. longe do fogo. BEM MAIS TARDE. você sabe. .Precisamos conversar. esse tipo de bobagem. Joss. mas por pouco eu não a enxotava do quarto. . que ninguém conversava com ela. é isso? .Já. tentando terminar a estante. e minhas bochechas estavam quentes por causa do fogo. A ternura em sua voz. Fui procurar e trouxe dois copos.ele disse. . não tinha tempo para lhe dar atenção e não estava com pena dela. .Certo.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .E em seguida: .Pertence a Andréa.Não fale . pois eu tinha pena dela. a única pessoa que a entendia.Pode me trazer um drinque? . Fiquei de pé.Você está bem? . descobri que não era nada disso. eu posso machucá-lo. ele me puxou. ele deitou a cabeça sobre os braços. impedi-lo de fazer exatamente o que queria.. Estava no chão. . . Era evidente que nenhuma de suas feridas. . O ato de se sentar foi uma agonia para ele e o fez soltar um gemido involuntário.Fez isso com ela esta noite? Página 87    .Joss. Uma manhã. . Eu a segui e disse-lhe que voltasse para casa. E então: . que sempre imaginara que o amor tinha a ver com fogos de artifício e explosões de emoção. . . rolando endoidecidamente para um canto escuro. ao perceber. Disse que tinha ido ao cinema.Precisamos.. Apenas fique. Disse que queria tomar um drinque.Soda ou água? .

Virei a cabeça e beijei o dorso de sua mão. O que é? Página 88    .O que não aconteceu. eu não a machuquei. .Pobre Andréa. eles me atacaram.Não literalmente. .baixei o olhar até meu drinque. E ainda teve a maldita desfaçatez de inventar para todo mundo que eu a convidara para ir ao cinema. . ..Morris Tatcombe. lágrimas. Mas tudo leva a crer que não.O que tem ele? . . Rebecca. mas era tarde demais.ele interrompeu a frase e voltou a falar em seguida: . acho que ele tem ciúme de você. acreditou? . Isso se encaixa..Eliot. .Não me diga que foi o Morris.. Chamei seu nome para ter certeza de que tudo estava bem.Pensei que lhe tivesse dito.Eles a colocaram na cama. Ouvi seus passos descendo a escada sobre aqueles sapatões medonhos que ela usa. eu poderia imaginar que cometeu um assassinato.Eu.. Mas também mostrou sua raiva. E isso deverá tirá-la do caminho de todos nós. Morris Tatcombe.perguntou ele. Eu não queria acreditar.. Fui ao Anchor tomar uma cerveja e comer alguma coisa e.Se ele for experiente. Quando terminei. Recobre a calma e use a cabeça. sabe? .Sempre achei. . você quer dizer. Foi quando eu finalmente recorri à força e a expulsei daqui.Na verdade. Gritos.. Mas. Joss disse calmamente: . e foi então que a ouvi sair da loja correndo e bater a porta com força atrás de si. vamos lá.Alguém acreditou? . Como se não pudesse se conter...Não sei. . Imaginei que seu ataque desta noite fosse apenas parte de nossa contínua contenda.Aquela putinha. Quem você acha que me deu essa surra? . Ela pode ter tropeçado nela. ele estendeu a mão para tocar meus cabelos. Mollie chamou o médico. por fim.. . deve ter diagnosticado histeria induzida. ele deu um longo e incrédulo assobio.. Sem raciocinar. e então acho que ela deve ter escorregado nos últimos degraus. eu. Por que está perguntando isso? Contei a ele. . jogando sua capa de chuva e sua bolsa imunda escada abaixo. . fiquei cheio das suas baboseiras e sua crença totalmente infundada de que eu estava pronto e ávido para pular na cama com ela. . Tapa na cara e tudo o mais.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher .Morris e mais outros três..Porquê? .Ora. . . . .Morris? Ora.Mollie e Eliot acreditaram. Eliot queria chamar a polícia. você sabe. E vai prescrever uma boa surra e mandá-la de volta para Londres. sentindo-me subitamente nervosa.. e então perdi a paciência e resolvi lhe dizer a verdade.Não quero falar de Eliot. Não gosta do fato de você e Grenville se darem tão bem.O que tem Eliot? .Há mais uma coisa. .Estava o tempo todo falando em alguém chamado Danus.Interessante. a histeria de costume. mas Grenville não permitiu.Não.Você não acreditou nela.Você não a machucou? . as juntas laceradas. o rapaz que trabalha para Eliot. . Ele me odeia. porque ouvi um barulho terrível.. Fui submetido a todo tipo de difamação. . .. . Não gosta do fato de que Grenville dê tanta atenção a você. É muito infeliz.É provável. comecei a falar: . E. indo aos mais íntimos e horripilantes detalhes. não. . Onde ela está agora? . Havia uma caixa cheia de porcelanas chinesas bem ao pé da escada. quando caminhava de volta para casa.Suponho que sim.Ela poderia ter batido em algum lugar? Machucado o rosto na queda? .Pela sua expressão. Mas acho que a assustei.Você sabia que era Morris? .Quem mais poderia ser? Ele sempre teve esse ressentimento por mim desde a última vez que cruzamos as espadas e ele acabou jogado na sarjeta. Acho que ela é ninfomaníaca. girando o copo na mão.Ele mandou que Morris viesse atrás de mim? . .e então parei. pois ela foi embora depressa como o diabo. Eu não a convidaria nem para colocar o lixo para fora.Quem foi que levou Andréa para casa? ... . acusações.O que aconteceu depois? .

ele acredita que Boscarva e tudo o que há lá pertencem a ele.Certamente ele sabia. e provavelmente ele sabia que elas não haviam desaparecido.. e acreditei nele. mas Eliot me deixa irritado. . Ele nem ao menos me deixou levar o carro de Mollie. roubo.Vamos à luta . quando você estava ao telefone.De um homem que possui uma loja de antigüidades depois de Fourbourne. . Deus sabe como 50 libras fazem diferença para Eliot.Há uns dois dias. vestido com gaze e um par de jeans. . aquela agência de automóveis foi financiada por Ernest Padlow.ele disse. . . Em primeiro lugar.Joss. Eu as comprei. Levantei-me a fim de guarnecer a chama com outro toco. . mas Joss me deteve.Deixe estar . pôs-se de pé. E agora pertence a mim. em sua oficina. . Porque Eliot. . munido de infinita cautela.Para azar de Eliot. Estive num leilão há cerca de um mês e aproveitei para visitá-lo na volta. mas ele me empurrou e.É sobre.Joss.? . eu não as peguei. eu sei.Disse que você não seria capaz de tal atitude. pegue minhas roupas e pare de reclamar. judiado. . . você possa tentar persuadi-lo. . Encarei-o.Mas por quê. .Eu sei. angustiada. meu amor. mas foi seu primo Eliot. a papeleira pertencia à minha mãe. Houve um silêncio. . apostar num cavalo ou qualquer coisa assim. .De certa forma. recebendo um salário fixo. minha menina querida. . quando estiverem bebendo juntos em Boscarva.Se você encontrar uma camisa e um par de sapatos.Mas quem as tirou de lá? .. a papeleira. Foi por esse motivo que resolvemos procurá-la. . lentamente. uma simples gota no oceano para alguns. E poderemos descer. estarei pronto.. Seria melhor que trabalhasse para alguém.? .Sim. e foi quando vi a cadeira e a papeleira na loja.Houve.De quem? . . Senti-me obscuramente inclinada a sair em defesa de Eliot.A papeleira e a cadeira estilo Chippendale. pôs o copo no chão.Receio ter que despedaçar sua inocência. .. Talvez. Página 89    .Posso fazer o que quiser ..O sarcasmo não lhe cai bem. . cautelosamente. o fogo começava a fenecer. custou uma fortuna e tem dado prejuízo há 12 meses. sei lá.. . Cá entre nós.Você não as pegou. . O quarto estava se tornando frio novamente. .. Ele terminou o drinque. ele ferido.. a se levantar.Se eu as peguei? Não. Sua calma me deixou chocada. . Mas eu conhecia todo o mobiliário de Grenville e sabia que elas haviam pertencido a Boscarva. Sempre foi assim.Mas você não pode dirigir assim. alcançar a caminhonete e ir até Boscarva. Joss suspirou profundamente.Sim. até onde me lembro. Elas pertenciam a Boscarva. uma visão bizarra. Voei para o seu lado.ele disse.ele me disse.Isso está parecendo o jogo da verdade. Elas estavam num dos sótãos...Qual foi a opinião de Grenville? . Talvez ele não tenha encarado o que fez como. não é.Mas Eliot não sabia do paradeiro das peças. .Isso mesmo .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . A que está lá embaixo. você não deve. não acho que ele tenha competência para levar adiante o negócio.. afastou a manta que o cobria e então começou. Veja bem. ao lado da cama. .Agora. Sorriu para mim de modo triunfante.E então houve outra balbúrdia monumental.admiti. surpresa.Suponho que ele tenha dito que eu a levara. noite dessas. mas talvez ele estivesse precisando de algum dinheiro vivo para pagar uma conta..Quando foi que perceberam que havia coisas faltando? . Eu a vi hoje de manhã. está atolado em dívidas. o que pretende fazer? . Joss? .

Sabe de uma coisa? .Então Tristam.. Por alguma razão. E Grenville é meu avô. A pequena caminhonete estava estacionada na esquina. Ele pareceu surpreso. com a atenção voltada para a estrada. tornaram-se familiares. . . .Então o retrato estava no ateliê? . com um velho amigo de infância. "A primeira vez que vi seu rosto Achei que o sol nascesse em seu olhos E a lua e as estrelas.Então ele lhe telefonou e mandou que você me esperasse na estação. E eu vou me casar com minha meia-prima. cruzando a cidade ao longo das ruas que.E ele descobriu que eu me chamava Rebecca Bayliss pelo meu cheque. além dos contornos desordenados das construções de Ernest Padlow. suponho que sim.? .Vamos deixá-lo aqui.Naturalmente.Tristam é filho de Grenville. numa ruela estreita. . por meio de sagazes perguntas.perguntou Joss.O que tem Sophia? .O que é agora? .Você o conheceu. Alcançamos o topo da montanha.Pettifer me disse que Sophia nunca significou nada para Grenville. Tristam Nolan Gardner. E descobriu que você estava prestes a pegar o trem para a Cornualha na segunda-feira passada.Ele disse isso? . mas nunca mais teve filhos. . Entramos e ele deu a partida no motor.É.Mas por quê? ... Sophia casou-se." . mas ele permaneceu impassível. . num momento de raiva.falei. jazia o litoral escuro. Sabia que ainda restava algo a ser dito. pois ele não podia se mover no banco. Encontrei um retrato de Sophia que mostrava seu rosto. Permaneci parada.disse ele finalmente. . Que era apenas uma moça que trabalhou para ele. Porque queria que eu tomasse conta de você. As luzes da cidade ficaram bastante distantes de nós. que você era neta de Grenville Bayliss.Ela se parece muito com você.Porque se sentiu envolvido. Pettifer juraria que o preto é branco. Joss começou a cantar.Não me diga que há outro segredo? . mais além. . tomando o rumo da estrada. . E descobriu. não há problema. como se estivesse imensamente satisfeito com a vida em geral. Fez-se um longo silêncio. passando pelas rodovias transversais até alcançarmos a montanha e iniciarmos a subida. Alguém poderá vir buscá-lo pela manhã.Exato. eu ajudando a indicar o caminho. .É. Você comprou um par de cadeiras de encosto côncavo em sua loja. Página 90    ..Não. Porque está sendo maravilhosamente inocente.Entendo . Lembra-se? . Grenville entrou com a metade do capital da minha loja.Joss. para mim. .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . E tinha que ser agora. concentrada na estrada. . muito antes de sua mãe nascer.É sobre Sophia. . eventualmente.? . . E Eliot foi até lá me encontrar e também o viu. Porque a achou perdida e vulnerável. ..Eu ainda não compreendo. Guiamos. . .Exato. .Grenville me deu a chave do ateliê para que eu escolhesse uma tela e a levasse para Londres.Seu pai. foi o que imaginei.Desculpe. . Ela era minha avó. A frente. Mas Grenville. antes de chegarmos a Boscarva.. salpicado de aleatórias luzinhas das fazendas. . E Eliot acreditou. Exato.Não me lembro de tê-lo ouvido me pedir em casamento . com as mãos apertadas sobre o colo. para Eliot. .Não brinque. O que é? Senti a garganta apertada. e. .Eu a amo muito.. Grenville e meu pai arranjaram as coisas a seu modo. Olhei para Joss. foi por isso que veio morar em Porthkerris? . Exato. ou você com ela. .Porque estou sendo estúpida? . foi também sua amante. Sophia não foi apenas modelo de Grenville..Foi.Há mais uma coisa.Foi. Meu pai nasceu no início do relacionamento dos dois.Disse. "Você não é meu único neto!" . a imensa escuridão do mar. . Possui uma loja de antigüidades em New Kings Road. foi menos discreto.Se fosse para proteger Grenville.

com toda a certeza. Joss me explicou. . Isso faz sentido para você? . durante todos esses anos. mas ninguém mais sabia. Joss. a vida para a qual a Sra. Ninguém mais lembrava-se dela. ele não se importa que alguém venha a saber. Ainda está acordado.Refere-se à pintura.Estou bem. Vem acontecendo desde os primórdios da humanidade. Tudo aconteceu há muito tempo. lhe respondeu que nunca havia afirmado tal coisa. E viu o rosto de Joss. Joss e eu gastamos um dia inteiro procurando pelo retrato.falei. a única diferença é que. Roger também estava presente e ficou escandalizada. a luz do hall foi acesa e Pettifer abriu a porta. Ele tirou uma das mãos do volante e pousou-a sobre a minha. . isso não tem mais importância. E a Sra.Depois que Rebecca saiu. na época do comandante.explicou Joss. mas não conseguimos encontrá-lo.Eu e nosso velho amigo Morris Tatcombe divergimos de opinião. .falam a respeito de uma sociedade permissiva como se fosse algo que eles inventaram. .. é verdade.Grenville está bem? .. e eu o segui.Não que ele sentisse vergonha disso. o que fez com demasiado tato.. Bayliss. . foi direto ao console da lareira e depositou o quadro ao lado do outro que há na sala. . Vamos entrar. Ela sentia ciúme de Sophia.Você está bem? . ficou apenas observando seus movimentos. que tudo aquilo era conjetura e que eles simplesmente haviam contado com o ovo na galinha.Estou feliz em vê-lo. Nenhum osso quebrado. Pettifer estava nos falando de Eliot. Sabíamos que estava em algum lugar por aqui.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher A pequena caminhonete sacolejou e deu uma súbita guinada na estrada que levava a Boscarva. Então Eliot dirigiu-se à sala de estar. O que nunca encontramos. Bayliss não tinha tempo para se dedicar. não porque soubesse da verdade. O que aconteceu com todos eles? Houve uma pausa. .Ela nunca teve nada em comum com Sophia. ensandecido.Não vejo por que isso era tão importante.Sim. em visível desconforto e dor.. Em seguida. O comandante não disse uma palavra.Nada. havia um pouco mais de discrição. ele está bem. Entramos na casa e Pettifer fechou a porta.Os jovens de agora . que consideramos ultrapassados. Mas ele é orgulhoso e vive a vida de acordo com certos padrões. enquanto Joss e Pettifer se entreolhavam. Mas nada disso é novidade. o que aconteceu com você? . eu apenas comunico. foi Pettifer quem apareceu para nos recepcionar. O que procurávamos. deixando que Eliot pensasse ser seu único neto e que herdaria Boscarva quando ele morresse. E Eliot disse: "O que isso tem a ver com Joss Gardner?" E então o comandante lhe explicou tudo. o comandante os enganara. como se soubesse instintivamente que estávamos a caminho. Então foi a vez de Eliot se Página 91    .disse Joss. Tão logo Joss desligou o motor do carro. pois ele a amava muito. Normalmente. . . Só não queríamos que ninguém mais o encontrasse. E. esperando por Rebecca. Tivemos uma situação embaraçosa aqui. ACABAMOS NA COZINHA. por isso permitiu que todas as telas de Sophia se fossem.Suponho que sim. mas ele ainda os mantém. . Como da outra vez. todas. Grenville queria que tudo permanecesse do mesmo jeito.O que teriam feito dele se o tivessem encontrado? . Observou Joss descer do carro. Joss falou: .Sim.E Eliot? Os olhos de Pettifer passaram por Joss e chegaram a mim.Pelo amor de Deus. . exceto a que você encontrou. Então foi a vez de Pettifer explicar.Ele se foi. . O comandante. mas porque Sophia fazia parte da outra vida do comandante. . . na sala de estar. E o comandante sabia disso e não queria chateá-la. Joss. . Calma e dignamente.. após sua morte.Não compreendo .. Pettifer assentiu: .comentou Pettifer gravemente . . Provavelmente eu não estaria assim caso ele não estivesse acompanhado de três amigos. Eliot foi até o ateliê e voltou com o retrato de Sophia. .. claro.Não sou muito bom em fazer pedidos . .Pettifer sabia que Sophia era minha avó. por sua vez. Disse que.Mas por que havia apenas um retrato do rosto de Sophia? Grenville deve ter pintado dezenas deles.Parece que saímos pela tangente.. Concordamos resignadamente. .Foi a velha Sra.Grenville não queria que ninguém soubesse o que acontecera entre ele e Sophia . sentados em torno da mesa.

.disse Joss .Para onde ele foi? . Dê a ele a chance de realizar alguma coisa sozinho. com isso. Virou-se para o comandante. . Fiquei tocada de pesar e compaixão por Molhe. Não posso deixar Andréa.Não tenho nem idéia de para onde ele possa ter ido. Ele me pareceu interessado. seus amigos.. . . POR FIM. para seus pais.Vou subir e falar com ela. ele lavaria as mãos. Eu poderia confortá-la a respeito de Eliot. E.. . Ela baixou os olhos. Sinto muitíssimo. agora sabemos a razão. Ele não me disse. E. . Essa pequena demonstração de defesa foi acompanhada por um sonoro murro sobre a mesa da cozinha.Debulhou-se em lágrimas.Há um homem em Birmingham que lhe ofereceu um emprego. e ela está infeliz aqui. Ajoelhei-me ao seu lado e pus o braço em torno dela. Eliot me contou. Molhe. seu jardim.Pettifer me contou o que houve.Oh.E eu .Acredito realmente que ele fez isso para o seu bem. Nem Grenville.O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher pronunciar. Estava o tempo todo tentando governar a vida de Eliot.Birmingham? . E acho que Andréa deveria voltar para Londres.que Eliot deve ter ido para Birmingham.Onde ela está agora? . DESCI as escadas carregando a bandeja de chá. ." Mas o comandante lhe respondeu que seus planos não eram de sua conta.Não posso sair de Boscarva. Amarrotaria a colcha. Joss abriu um sorriso. tentou dissuadi-lo. lá sentado.vou ver Grenville. O que quer que eu fizesse por Eliot.Mas eu não posso ir morar em Birmingham.Tudo é tão desesperadoramente injusto. Você já fez tudo o que pôde por ela. E. . . Nem se despediu de mim. Pode tentar acreditar nisso também? . obviamente. Aquilo soava bastante dramático. ..inquiri. pela primeira vez achei que ela aparentava a idade que tinha.E qual foi a reação de Eliot? . .. que tinha seus próprios planos e que estava aliviado por livrar-se de nós. .) Quando entrei no quarto.prometeu.E Mollie? .Então talvez já seja hora de viverem separados. é óbvio. . . Nem mesmo a mais profunda dor levaria Mollie a se atirar numa cama. Deixe-o ir. Encontrei Mollie. Levei-a até a cozinha e coloquei-a sobre a mesa. Pettifer.Diga-lhe que eu estarei com ele num instante. ela me olhou e seu rosto refletiu-se três vezes em seu espelho triplo. dizendo que a culpa era toda dele. .. Sentei-me ao seu lado. . sim.Acho .Para High Cross. nesse caso. Ouvi o motor do carro subindo a estrada e desaparecendo. . juntou alguns papéis numa pasta. Ela me olhou horrorizada. Por ela estar se sentindo infeliz e solitária. . Encontrei-a sentada à penteadeira feito uma estátua. apertando um lenço encharcado entre os dedos. pálida e chorosa. ainda sentada diante da penteadeira enfeitada com babados. Página 92    . muito friamente: "Talvez agora o senhor nos queira deixar a par de seus planos. Não tinha importância. Pobre Mollie. Percebi que ela estava muito mais preocupada com a partida de Eliot do que com as abruptas revelações a respeito de Joss naquela noite.eu disse .Levei-lhe uma bandeja de chá. ainda que seja sua própria mãe. . quanto a Grenville.. e ele estava coberto de razão. estava sempre errada.Eliot disse que.Estaremos à sua espera . Não havia coisa alguma que eu pudesse fazer sobre Joss. sempre o agrediu terrivelmente.. Levantei-me. Mas.ele acrescentou rispidamente. não havia nada que ela pudesse fazer para deter o filho.Pode. você não precisa ir. referindo-se à família. Algo a ver com carros usados.Mas nós sempre estivemos juntos. Você tem sua casa em High Cross.A senhora está bem? .. ficar entre mim e ele. Implorou que ele ficasse. ergueu os olhos para mim sobre a ponta do jornal. suponho. é claro. Grenville nunca nutriu afeto por Eliot. Não há nada que possa deter um homem adulto que está saindo de casa. deixando a casa. (Aquilo era característico. Senti-me feliz por não ter participado de tudo isso. . ficarei com ele.Em seu quarto . vestiu o casaco e assoviou para o cachorro. . Foi por isso que tudo aconteceu. Eliot pode se virar sozinho.

Fim Página 93    . o jovem de pernas compridas e seus perversos olhos negros e o velho.E pôs-se a ler sobre as corridas.Vou ficar.Como ela está? . esperando por você. .perguntou. E ela vai voltar para High Cross. . atrás deles. Os dois homens olharam para mim quando entrei. . os dois retratos de Sophia com o vestido branco. Se estiver tudo bem para você. o mais perto que ele conseguia chegar da alegria. Então caminhei na direção das duas pessoas que eu mais amava no mundo. Na parede. Pettifer virou a página do jornal. Concordou que Andréa deveria voltar para Londres. Uma centelha de satisfação cruzou o rosto de Pettifer. agora. Não havia necessidade de dizermos mais nada um ao outro.Está bem.É tudo o que ela sempre quis. Nós nos compreendíamos. Joss parado em pé ao lado da lareira e Grenville mergulhado em sua poltrona.Eles estão na sala de estar .O dia da tempestade – Rosamunde Pilcher . .disse -. exausto demais para se levantar. Encontrei os dois. E quanto a você? .