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XVI Congresso Brasileiro de Sociologia
10 a 13 de setembro de 2013, Salvador (BA)

Grupo de Trabalho: GT15 ­ Mercados Ilícitos e Processos de Criminalização:
desafios metodológicos

Rodas de fumo no Centro histórico de Salvador, Bahia.
Fabiano Cunha dos Santos, Universidade Federal da Bahia

  como  a  organização  de espaços urbanos para o consumo público de Cannabis.  Esta  metodologia  tem  como  objetivo  descobrir  se  há  a  construção simbólica  de  espaços  para  consumo  público  de drogas  pelos próprios  usuários do  espaço. Isso  tentará  demonstrar que a  criminalização do consumo de  drogas como  política  pública  não  se  adequa   à  realidade  urbana.2 1. Introdução Este  artigo  pretende  investigar o consumo  público de maconha no Centro Histórico  de  Salvador  como  um  fenômeno  urbano. do urbano.  e  nas  redes  de  sociabilidades que  circulam  pelo   Centro  Antigo  de  Salvador.  o  uso  ilegal  de Cannabis  existe  e  persiste  nas  grandes  metrópoles  contemporâneas. ou seja.  através  dos  respectivos  dispositivos  da  lei.  e  contribui . as culturas das mais diversas drogas também compõem a realidade socio­cultural da metrópole e.  passa  por  uma  observação  participante  junto aos atores  sociais  usuários deste espaço  urbano  e  o  contexto  de  uso  de drogas ilícitas. A  discussão  passa   por  uma  investigação  tanto  em  espaços  públicos. O contexto socio­político estabelecido de “Guerra às drogas” criminaliza o usuário  de  substâncias  ilícitas  e.  através  de  uma  pesquisa etnográfica.   Em   ultima  instância pergunta­se  até que  ponto  o  uso  da cidade  também inclui o uso e os usuários de drogas ilícitas.  usuários   do  espaço  urbano.  Este  artigo  visa  investigar. quanto  em  espaços  privados  da  região   especificada  e  a  questão  central  aqui levantada  é  sobre  a  legislação  de  drogas  atualmente  vigente  que  impõe  um controle  comportamental  aos  citadinos. A  investigação.  portanto. promove  o  genocídio  da  juventude  pobre  e  negra  das  periferias  metropolitanas.  no  intuito  de  elucidar  tanto  os controles  informais  estabelecidos  pelos  citadinos. portanto.  Esta perspectiva  de  análise  põe  o  comércio  de  drogas  ilícitas  como  intrínseco  às sociabilidades   do  espaço  urbano  e  também  critica  o  modelo  proibicionista  que gera violência ao invés de respeitar direitos básicos dos usuários da cidade. o  contexto  social estabelecido pelas. Esta  política  de   repressão  ao  consumo  de  determinadas  substâncias  já  se demonstra na  contemporaneidade mais danosa do que os próprios riscos do uso ou  abuso  destas.  Apesar  da  proibição  de algumas  substâncias  psicoativas  e  da  legalidade  de  outras.

  Este artigo  pretende.  discutir  se  existem  controles  informais  organizados socialmente  e  como  os  frequentadores  destes  espaços  controlam  e  sancionam as regras para o consumo drogas. o campo etnográfico a ser investigado é a Escadaria  do Passo.  pretende  investigar  como  se  dá  a organização social entre os citadinos usuários deste espaço urbano. em frente à Igreja do  Santíssimo Sacramento no Centro Histórico  de  Salvador.  e. A grande  atenção  da  segurança  pública recai diretamente sobre o tráfico de  drogas  e  sobre  os  usuários  que. este trabalho etnográfico  se  empenha em  descrever  como ocorre o uso de maconha no Centro Histórico  de  Salvador  e  como  os  diversos atores  e  grupos  sociais lidam  com  os poderes simbólicos e materiais aplicados pelo chamado Sistema Proibicionista.  a  atenção  será  direcionada  às  noites  de  terça­feira.  assim.  na  verdade.  Apesar  do  uso  desta  substância  psicoativa  ser  frequente  no  local  em diferentes  momentos.)   cabe  perguntar  de  que   modos   o cenário  sociocultural  influencia  a  formação  e  a  conservação  de  um padrão  de  consumo  regular  da  maconha  e  de  que  modos  se desenvolvem.  (MACRAE  & SIMÕES.  (. quando  o  cantor  e  compositor  Gerônimo  Santana  se apresenta com  sua Banda Mon´t Serra.  O  foco  da  pesquisa  será  a  dinâmica  socio­cultural  e  os rituais  sociais  que  envolvem  o  consumo  público  de  maconha  neste  espaço urbano. . 2004.   mecanismos  que possibilitam  o  uso  controlado da  substância”.  confecção  e  consumo  público  da substância  ilícita..  encontrando­a. Neste sentido..  entre  os   usuários  regulares.  um  espaço  para  se  considerar  as  diferentes modalidades  de  uso  da   maconha  e  os  significados  culturais atribuídos  à  sua  utilização.  A  análise  do  mesmo  tentará  estabelecer  se  existe  uma rede  de  sociabilidade  em  torno  da  aquisição.  portanto.3 para  o acirramento  da  violência  e  repressão  policial. p. O  objetivo  de  fazer  esta  pesquisa  etnográfica  é.  estabelecem  rituais  sociais  e controles  formais  para  garantir o bom usufruto  de  suas  respectivas  drogas. 30) No  caso  específico  deste trabalho.  demonstrar  o quanto  a  dinâmica  socio­cultural  desenvolvida  neste  espaço  tem  relação  com o consumo  de  maconha. Assim como afirmam MacRae e Simões : “Fica  aberto.  portanto.

  O consumo de maconha  é constante e se  espalha  por  quase  toda  a  região  da  escadaria  antes. dividem o território para  apreciar os clássicos do  axé  music.  ou  não  a  erva  ilegal  sem  maiores preocupações  com os controles formais  e repressores.  onde acontecem  semanalmente.  os  usuários  da  cidade  estabelecem  espaços relativamente  liberados  e  de  certa  forma  tolerados  socialmente. Em termos gerais.  entre outros. estrangeiros.  professores. “Legalise”  é  uma  categoria  nativa. A categoria de espaço “legalise” também envolve um conjunto de códigos sociais que indicam elementos de uma cultura  urbana do consumo de maconha e a  construção  informal  de espaços  para  consumo  público  e  tolerado socialmente.4 Além  disso. .  que  se refere  a  certo  contexto  social  e  simbólico.  possivelmente   soteropolitana. Espaços “legalise”: o conceito através do relato de campo. Estes espaços urbanos  serão  analisados  através  de  uma  categoria  êmica  específica  que simboliza  uma  zona   temporária  ou  “uma  territorialidade  marginal” (PERLONGHER. que chega  a  ser de quase mil pessoas.  descreverei  algumas das normas. encontram­se numerosas  rodas  de  fumo aglomeradas  pela  escadaria de costas para a Igreja e de frente para o palco. 2. Isso não significa que este não seja  ilícito.  comerciantes. Apesar  da  proibição  legal.  travestis. O  evento  transforma a  localidade da escadaria que é lotada por grupos de pessoas  dos  mais  diversos  segmentos  urbanos. Entre  a  multidão.  o  show  promovido  por  Gerônimo  Santana  e  sua  Banda  Mon´t Serra.  onde  o consumo público de  maconha é tolerado socialmente. às  terças­feiras. no  tempo  e  espaço. regras de conduta e rituais sociais  entre  estes  atores  em  conflito  direto  com  o  Estado  e a moral tradicional. o que caracterizaria  um  espaço urbano “legalise” seria um estado de liberdade relativa. Este  é  o  caso  da  Escadaria do  Passo. 2005) para o consumo público de maconha e/ou outras drogas.  situado  no  tempo  e  espaço.  para  o  uso  de  maconha  e/ou  outras  drogas  ilícitas  em  um dado território geográfico urbano público ou privado.  estudantes.  durante  e  depois  do concerto.  Artistas. mas sim que os grupos sociais dispostos entre pares que dividem o  espaço  delimitado  podem  consumir.

  tomando  toda  a  escadaria  até  a  frente  da  Igreja.  da Escola  de  Chicago.  pousadas  e  restaurantes  ao  redor.  Seu  questionamento  à  teoria  anterior  volta­se  ao  próprio conceito  de  território  quando  simplesmente  analisado em âmbito espacial ou  de sua  geografia   física. O autor sugere fluidez nas análises para reconhecer certo trânsito contínuo e diversificado de grupos e comunidades que circulam nestes espaços.  é  mais  complexa  e. do outro  lado  da  rua; algumas vendedoras  ambulantes  dispõem  caixas  de  isopor  para  comercializar  latas  de cerveja. Os  membros  do público  vão  chegando aos poucos  até  tomar  por  inteiro  a  região  desde  a  Ladeira  do  Carmo  na  frente  da Casa  de  Gerônimo.  não  pode ser reduzida  aos  ambientes físicos.  onde   também  trabalham  ambulantes  vendendo  bebidas. na rua do Passo.  balas.  propõe­se  aqui  analisar  o  termo  nativo  “espaço  legalise”  à  luz  dos conceitos  de  “espaço”  e  de  “território”  no  âmbito  da  antropologia  urbana  com intuito  de  entender  mais  sobre  a  cultura  de  consumo  de  drogas  em  espaços urbanos contemporâneos. maconha e outras drogas ilícitas.5 Dito  isto.  por  isso. assim como.  estabelece relação  entre a análise  destes  espaços  com  os conceitos de “espaço intersticial”  ou  “região moral”.  os  shows  da  banda  Mon´t  Serra  são geralmente  cheios  de  pessoas  tanto  nativas.   Nestor  Perlongher  (2005)  ao  estudar  a  dinâmica  do  Gueto  gay paulistano.  água e  refrigerante  geladas. Apesar  de  ocorrerem  em  dia  útil. A baiana do acarajé monta seu tabuleiro; a mesa de beijú  é  colocada  na  calçada. O  consumo  de  maconha é público  e  explícito por  parte  dos  que  estão  reunidos  em  grupos  ou  rodas  de  fumo.  além  dos  estabelecimentos comerciais.  a  maconha  é  consumida em  espaço aberto  e de forma bem visível  e assumida  pelo público do cantor. formulados por Robert Park (1952).  cigarros.  quanto turistas  brasileiros  ou  estrangeiros.  Apesar  da presença  física  do  aparelho  policial  que  fica  posicionado  acima  e/ou  abaixo  da escadaria.  de  classe  média  ou  baixa. A  produção  dos  shows  semanais  modifica  bastante  o  espaço  da Escadaria  do  Passo  em relação  aos outros  dias. encontram­se alguns ambulantes .  segundo  a  crítica  de Perlongher.  Na  Ladeira  do  Carmo.  A  realidade  urbana  contemporânea. A  ocupação  do  espaço  e  o  controle  da  situação  são  realizados  pela própria  comunidade  local.

  Acredita­se  que  a  antropologia  urbana  deva  estar  atenta  às reterritorializações  formadas  pelas  diversas  trajetórias  e  interconexões  sociais.  sociais.  O  público  ocupa  o  local  e  estabelece  também  sua  participação  na geografia  social. 2005.  como  articulado  por  Robert  Park. Neste  sentido. A  crítica  de  Perlongher  ao  conceito  “identidade”  e.  com Deleuze  e  Guatarri  e  além.6 que  montam  seus  negócios  pela rua.  inclui  uma  série  de condições  intrínsecas  às  sociedades  urbanas  “complexas”.  que  levam  em  conta elementos  como:  Desterritorialização  das  atividades  econômicas.  O   acesso  aos  diferentes  espaços  da  escadaria  se  dá através de  uma  organização  informal  e que se  manifesta da mesma  forma. por  ultimo..  A disposição  social ao longo da escadaria  também  se  constrói  como  forma  de  proteção  às  possíveis  e inesperadas  repressões  policiais. 272) Esta  gama  de  novas  categorias  foram  essenciais  para  objetivar  esta análise  etnográfica  e  a  própria  metodologia de  investigação  dos  e  nos espaços urbanos.  específicamente.  Sempre  que  existe  o  perigo  latente  de  ação policial  os  usuários  do  espaço  se  comunicam  disfarçadamente  para  evitar possíveis repressões. códigos e representações.. Em  relação  ao  novo  quadro  teórico  apresentado.  A construção  desse espaço  público  é  feita informalmente  entre os atores envolvidos que  negociam entre si a organização do espaço. culturais;  Heterogeneidade  que  induz  uma  diversidade  de  estilos de vida  difusa entre  estruturas  sociais   fluidas;  Multiplicidade  e  Simultaneidade  de  relações no mesmo campo que exprimem crenças.  deve levar  em  conta também  a  “territorialidade  itinerante que  não .. p.  tanto  nos périplos   existenciais  quanto  na  profusa  proliferação  de  expressões;  e.)  a  noção  de segmentariedade  (que  apresentamos  um  pouco  arguciosamente. “territórios  marginais”.  perpetuando uma  tradição  de ocupação  pelos  seus  usuários..  Perlongher  chama   a atenção  para  alguns  conceitos  importantes  no  intuito  de  estabelecer  uma caracterização mais precisa do conceito de “espaço”: Quero  reter  de  toda  a  discussão  (.  com  Evans­Pritchard);  a  noção   de Plurilocalidade   (que   tem  a  ver   com  os  deslocamentos  dos  sujeitos fragmentados);  a  ideia  de   heterogeneidade  e  multiplicidade. (PERLONGHER.  (.)   de  captar  “redes  reais  de  funcionamento”.

 algumas delas “normais”.  é  ocupado por diversos  grupos  e  camadas  sociais. das  mais diferentes faixas  etárias  e  origem  social  que  também  têm  disponível  nestes  ambientes drogas ilícitas. mesmo que as implicações sociais  sejam  desqualificadoras e criminalizantes?  Como  se dão as metamorfoses  do  “maconheiro”  durante  suas  errancias  pela  cidade?  Estes  são questionamentos  importantes  para  a  análise  sugerida  neste  artigo  porque envolvem  as  redes  sociais  e  as  representações  culturais  no  espaço  e  tempo urbano  que   devem  ser  investigadas  para  uma  melhor  adequação  entre  as políticas públicas de segurança e a realidade socio­cultural.  Perlongher. Em  linhas  gerais.  Os  citadinos  fazem  parte  de uma  rede  de  sociabilidade fluida e complexa no qual o uso de drogas é parte dos seus  elementos  simbólicos.  O  Centro  Histórico  de  Salvador. (ibidem. a  qual  deve  se  referir  à  relação  definida  por  seu  funcionamento. de diversas redes.  e  que  tem a ver com  certa persistência ou insistência do nomadismo urbano”.  Perlongher  enfatiza  a  existência  de  funcionamentos desejantes  na  territorialidade  dos  espaços  urbanos  e  nas  suas  dinâmicas sociais.  objeto  deste trabalho.7 se  subscreve  a  uma  fixitude  residencial. Para além  disso.  Como  entender  o  consumo  de  Cannabis  no  Centro  Histórico  de Salvador?  Como se consolida o hábito cultural de fumar maconha. p. Este  referencial  teórico  ajuda  no  entendimento  do  que  seriam  os mutantes  “espaços  legalise”  e  garantem melhor perspectiva de  análise  sobre  as consequentes dinâmicas sociais de  organização do  espaço.  controles  informais.  enquanto  território turístico. em especial a maconha.  Esta  análise  se  aplica  sobre  a  categoria   nativa  “legalise”. 274) O  consumo  público  de  maconha  na  Escadaria  do  Passo  em determinados  momentos deveria  assim ser  tomado  como uma instância de uma prática  mais  geral  do  consumo  urbano  de  drogas. traz  a  discussão  sobre  a  noção de código­território. Isto significa que a  análise  etnográfica  dos espaços  urbanos  deve corresponder  à fluidez  de suas redes de sociabilidade. . que busca fugir  de uma noção essencialista e reificadora de  identidade.  Esta  noção amplia a análise dos espaços urbanos porque admite um “agenciamento coletivo” indicando   a  capacidade  exacerbada  nos  circuitos  marginais  de  o  mesmo indivíduo  participar.

O  consumo  de  maconha  na  Escadaria  do  Passo  já  é  consolidado  e de .  Mesmo  a  possível repressão ao  tráfico.” (ZINBERG.  impostas  pelo  grupo  de  usuários. Outra  perspectiva  teórica  a ser  invocada  para  o  entendimento do funcionamento desses  espaços  de  relativa  liberdade  de  consumo  de  maconha  é  a  teoria  de Norman Zinberg.  não  impede  às  redes  de  sociabilidade  de  consumirem  substâncias psicoativas  ilegais. 1984.  para  entender  as   experiências   das  drogas.  que  trazem controle ao uso de drogas ilícitas.8 sanções legitimadas e  eventuais momentos de desordem ou desequilíbrio social.  “(. notadamente  a  maconha.” (ZINBERG.  Estas sanções  sociais   definem  quando  e  como  uma  determinada  droga  deve  ser usada..  denominados  de  “rituais  sociais”.  os  frequentadores  destes espaços  se  auto­organizam  e  garantem  suas  próprias  proteções. eu teria  que  levar  em  conta.  é  constante  e  insistente.  Estes  dois  elementos  juntos são  conhecidos  como  “controles  sociais  informais”.  não  somente  a  farmacologia  da  droga   e  a personalidade  do  uso  (set).  chamadas  por  ele  de  “sanções  sociais”. mas  também  o  contexto  (setting)  fisico  e social no qual o uso ocorre.)  é  o contexto  social  através  do  desenvolvimento  das  sanções  e  rituais. 3) Acredita­se  que  os   espaços  legalise  devam  ser  examinados  à  luz  do conceito  de  Zinberg  de  “contexto”  ou  “setting”  justamente  porque  são  espaços socialmente  construídos  e  auto­regulados  onde  o  consumo  de  drogas  ilícitas.  ou  podem  ser  formais  como  as várias  leis  e  políticas  públicas  de  regulação  do  consumo  de  drogas.. 9) Zinberg  considera que  o  uso  de qualquer  droga  envolve  valores e regras de  conduta.  assim  como  modelos  de comportamento.  representado  frequentemente  pela  presença  ostensiva de policiais na área. p. Sua  contribuição  no  entendimento   do  uso  social  e  controlado  de substâncias  ilícitas  é  fundamental  porque  chama  atenção  para  fatores socioculturais  entre  outros que desempenham  importantes  papeis  na  construção dos efeitos pretendidos e alcançados pelo uso de substâncias psicoativas. 1984.  Apesar  das  sanções  formais. p. Sanções  sociais podem ser informais. “Se  tornou  obvio  que.

  inclusive  para  a  força policial. Neste sentido  existe  na prática certa  flexibilização  das  condutas formais e legais e os  representantes das forças de repressão muitas vezes não chegam a combater  o  consumo   ou  apreender  drogas  e/ou  usuários.  As repressões  policiais  se  concentram nos negros. A  disponibilidade  da  erva  ilícita  é  tamanha  que  é  possível  adquiri­la  ali mesmo.  ignorando­se  a  prática  ilícita.  o  consumo  da maconha não se apresenta como uma grande preocupação.  A força  policial  não teria  efetivo  suficiente  para  poder  garantir  a  eficácia  da  lei.  mas  pelo  que  se  observa  durante  as  três  horas  de  música  é  que  os grupos dispõem  de  uma  quantidade  da substância suficiente para a produção de mais  de  um  cigarro  de   maconha  para  cada  indivíduo.9 certa  forma  conhecido  por  todos.  A  polícia  muito  raramente  usa  de violência com brancos de classe média e com turistas estrangeiros.  geralmente   foca sua atenção  sobre   jovens negros.  apesar  da proibição legal. hippies e nos chamados sacizeiros.   isto parece indicar  que para a grande maioria dos grupos sociais que ocupam aquele espaço.  As  quantidades variam.  O  que  se  percebe  no comportamento  da  polícia  é  que  não   se  dá  muita  atenção  ao  consumo  de maconha. pobres.  configurando  um  processo  de  criminalização  de  certos  segmentos sociais devido à  sua condição social.  As  rodas  de  fumo administram  o  consumo  de modo que  diversos  cigarros  sejam fumados ao longo de todo o evento seguidamente. .  pois  o  número  de usuários  é  bastante  superior  ao  contingente  disponível  para  exercer  as  sanções formais.  Para muitos  existe  até  o  consenso  de  que  a  erva  “não  pode  faltar”.  Na  maioria das vezes a força policial presente durante os shows na Escadaria  não  aparenta  preocupação  com  o  consumo  da  droga  em   si. durante  o  show. concentrando suas  ações  em  uma  determinada  camada  desprivilegiada  socialmente.  já  conhecidos  por  delitos  eventuais  ou  simplesmente  porque  são moradores  das  periferias  pobres  da  capital.  mesmo  quando  realizada  de  forma escancarada. Quando  a  força  policial  age. O  clima lúdico  do  ambiente  garante a interação social e aquece  as  redes  de  sociabilidade  que  se  encontram  e  se  reencontram  neste espaço  urbano.  A  maioria  dos  grupos  envolvidos  nessas  rodas  de  fumo  levam uma  quantidade  razoável  de  maconha  para  consumirem  durante  o  show.

 os policiais  de  plantão  durante  a  apresentação  da  banda  permanecem  apenas observando.  o  cigarro  é  aceso  e passado  duas  ou  três  vezes  a  cada  integrante  do  grupo  até  ser  plenamente consumido e a “ponta” restante dispensada. Mais  importante  do  que  as  constatações  de  Zinberg  sobre  os .  os  rituais  sociais  são  comportamentos  estilizados  e abarcam  todo  o  contexto  de  uso  de  drogas. a dinâmica básica para que um indivíduo  ou  grupo  se  disponha  a   fumar  um  cigarro  de  maconha  ou  baseado. implica uma série de  etapas  que culminam com a percepção individual do barato e  a  elaboração  de  estratégias  para  preservar  e  justificar  essa  prática  ilícita. discreto e menos explícito que o primeiro.  em  um  modo  de  consumo  mais rápido.  mas. não permite uma boa visualização dos  usuários  de  maconha  que  se  perdem  em  meio à  multidão. onde geralmente ficam dois policiais fardados.  confecção  e  consumo  de  drogas  em espaços  públicos  expõe o ato  ilícito.  a  escadaria  fica  especialmente povoada  multiplicando­se  aí  as  rodas  de  fumo. Conforme já apontado por Becker (2008). Àqueles que  já trazem prontos seus  baseados  resta  somente  acendê­los  e  compartilhá­los  com  seus companheiros. sem agir da forma efetiva preconizada pela lei.  o  poder  repressor não parece ter muita eficácia  em  impedir o consumo. Primeiramente.  A  grande  aglomeração  de indivíduos  dispostos  na  Escadaria  estabelece  um  espaço  privilegiado  que dificulta  ações  repressoras. Às  terças­feiras.10 Para  Zinberg. Geralmente  um  dos  integrantes  da  roda  já  a  tem em sua posse  e  passa  para  a segunda  etapa. Todo  este  circuito  de  reunião. assim como para a promoção de um conhecimento de como driblar as sanções repressoras.  na  Rua  do  Passo.  é necessário obter a droga a ser preparada e consumida. mesmo  assim.  Depois   de  manufaturado.  Esses  rituais  se  voltam inclusive  para  a evitação dos  efeitos  danosos  das  substâncias  usadas.  dia  do  espetáculo.  A  parte  superior  da  Escadaria. Processos  similares  aos  apontados  por  ele  podem  ser  percebidos  funcionando na Escadaria durante os shows.  desde  a  simples  procura   da substância.  Geralmente.  até  seu  consumo.  o  preparo  do  baseado.  a  ser  realizado  por  ele  mesmo  ou  por outro  componente  do  grupo.

 desenvolvido  por  Magnani.  abre  espaço para  o  florescimento  de  um  comércio  ilícito  de  psicoativos  no  seio  de  espaços públicos da cidade. os lugares de entretenimento urbanos oferecem  um  vasto  campo  para  o  trabalho  etnográfico.  Ao  analisar  as dinâmicas  diferenciadas dentro dos espaços de lazer públicos e privados.  Nesse  espaço de lazer  e  diversão. propiciam  contatos  e  constroem  uma  rica  rede  de  lazer  que  revelam  a heterogeneidade  e a hibridez da cultura urbana.  ou  seja. os  conflitos mais óbvios são entre  os controles sociais formais e  informais. Nesse contexto devemos apontar que  a  denominação  nativa  “legalise”  não  significa  que  o  uso  de  determinado espaço urbano  seja única e exclusivamente voltado para o consumo de maconha. mas  aponta  para  a  presença  de uma extensa rede de lazer  e  diferenciações  na forma de usar o espaço.11 mecanismos de controle do uso social de drogas é a sua observação da maneira que os usuários  lidam  com os  conflitos  impostos pelas sanções sociais. A ineficácia  do   proibicionismo. Segundo ele. O  conceito  de “mancha”. No caso das drogas ilícitas. Muitos  dos  locais  de  consumo  de  maconha  encontrados  no  Centro Histórico  se  propõem  a  ser  ambientes  lúdicos  e  turísticos. disseminadas  por  diferentes  setores  da  sociedade. o autor percebeu que  não  se  podia  acoplar a paisagem urbana a uma só modalidade de espaço  público.  diante  da  cultura  urbana  da  droga. é também pertinente para  interpretar  etnograficamente  os  “espaços  legalise”.  ao  mesmo  tempo em  que se afasta a probabilidade de se sofrer repressão  por parte da polícia. As  análises  de  Magnani  também  nos  ajudam  no  entendimento  do  que seriam  os “espaços legalise”.  o  que  implica  numa diferenciação das dinâmicas e sociabilidades no tempo­espaço.  Os  usuários  de  drogas   da Escadaria  estabelecem  as  regras  informais  para  consumir  maconha.  mas  era  preciso  distinguir  as  formas   em  que  esse  espaço público  se  apresentava  e  era  trabalhado  pelos  usuários.  entre  as  leis  contra  o  uso  e  as  práticas  de  uso  ilegal. .  entre  o público  que  se  aglomera  na Escadaria.  tem  por  finalidade justamente  garantir  o acesso aos  efeitos psicoativos desejados.  voltados  à  música  e diversão. pois instauram  relações.  a  presença da maconha  nas  redes de sociabilidade raramente vem acompanhada de violência e desordem social.

 doces.  um  conjunto  de  elementos  físicos. a garantia  (visível. nem  deve sugerir a ideia de um "palco" que os atores encontram já montado para o  desempenho  de  seus  papéis. 2005. DVDs.  perceber  as transgressões.  descobrir  as  lógicas.12 Esse  conceito  se  aplicaria  à  Escadaria  do  Passo.  como   a  venda  de bebidas.  onde  muitos  têm  o hábito de ir toda terça­feira.  queijos  assados.  como   o  espaço  com  o  qual interagem  –  mas   não  na  qualidade  de   mero  cenário.  escolhas.  nesta  perspectiva.  Identificar  os  movimentos.  CDs.). Além  destes.  um  novo  tipo de  abordagem  etnográfica  surge  para  a  antropologia  dos/nos  grandes  centros urbanos. propriamente  ditos.  os  novos  significados.  ele  é  entendido como produto  de práticas sociais  anteriores  e  em  constante  diálogo  com  as  atuais  favorecendo­os.  pública)   de  sua  inserção  no   espaço   (MAGNANI.  valores  etc. responsáveis pela . os moradores de rua e catadores de lata e  material  reciclável  circulam  antes. quando querem gozar de  uma  noite  de  lazer  no  Centro  Antigo.  durante  e  depois  das  apresentações  para garantir seu sustento econômico diário. A  idéia  era  levar  em  conta  tanto  os   atores  sociais  com  suas especificidades  (determinações  estruturais. outros vão esporadicamente e.  Aqui.  símbolos. p. Quando  Magnani  propõe  a  noção  de  “circuitos  de  jovens”.  os  fluxos  e  as diferentes  formas  de  apropriação  correntes  no  universo de significado dos atores seria o primeiro  passo  para  se deslindar padrões mais  gerais.  Além  dos  membros  do  público.  balas. cigarros.  os  episódios  de conflito e os parceiros com quem os atores estabelecem relações de troca. São  essas  regras que dão significado ao comportamento e através delas é  possível  determinar  as  regularidades.  e  também como  fator  de  determinação  de  suas práticas.  e  sim  como produto  da   prática   social  acumulada  desses   agentes.  Há  aqueles  que  oferecem  serviços comerciais  variados. dificultando­os e sendo continuamente transformado por estes.  constituindo.  sinais  de pertencimento.  registrando  seus  pontos  de  encontro.  etc.  assim. O  cenário  não  é.   circulam  pela  região  um  grande  o  número  de  pessoas  que trabalham  durante  os  eventos  musicais.  A  sua  intenção  seria  privilegiar  a  observação  das  práticas  e  relações sociais nas paisagens urbanas  por meio  da  etnografia  dos espaços por onde os diversos  atores  circulam. 177).

 a devoção termina em festa.  o  âmbito  do  masculino  é invadido pelo feminino. As  descontinuidades  significativas  no tecido  urbano  não são o resultado de  fatores  naturais.  como  tem  sido  relatado.  Ela   já  foi  cenário  cinematográfico  para  o premiado filme  “O  Pagador de Promessas” e.  com  base  nesses  eixos  de oposições.  esquinas  e  outros  equipamentos estão  lá.  praças.  por  exemplo. identificar e analisar. Ruas. a esquina recebe despachos  e  ebós. através  de  códigos  socializados  entre os usuários .  Tais  descontinuidades  são  produzidas  por diferentes  formas  de  uso  e  apropriação  do  espaço.13 compreensão  dos comportamentos articulados  a  outras instâncias e domínios da vida social.  enquanto  espaço  público.  como  a  topografia.:  casa/rua; masculino/feminino; sagrado/profano; público/privado; trabalho/lazer.  o  espaço  do  trabalho  é  apropriado  pelo  lazer. é uma  região onde ocorrem práticas ilícitas  como o consumo de maconha.  que  é  preciso. De  repente.  justamente. mais amplos.  o  do  passeio  é  usado como  local  de  protesto  em  dia  de  manifestação.  porém  que  uma  classificação.  e  assim  por  diante. As  redes  de  sociabilidade  que  circulam  na  região  do  Centro  Histórico estabeleceram  informalmente.  edificações. A  Escadaria  do  Passo.  tornam­se  outra  coisa: a  rua  vira trajeto  devoto  em dia de procissão; a  praça transforma­se  em  local  de compra  e  venda.  com  seus  usos e sentidos  habituais.  não  produz  tipologias rígidas já que não opera  com sentidos unívocos; às  vezes.  ou   de  intervenções  como  o  traçado  de ruas. o viaduto é usado como local de passeio a pé.  tem  sido  ocupado diferentemente  ao  longo  do  tempo.  A  explicação  deve  ser  encontrada  através  de  uma  investigação etnográfica da ocupação social do espaço urbano. atualmente. Não  poderíamos atribuir a frequência  desse  uso  e  a  sua  tradição  apenas  à  localização  geográfica  da Escadaria.  através  de  uma  lógica  que  opera com  muitos  eixos  de   significação  como. serve como espaço de lazer para crianças que vivem no Centro Antigo; é importante ponto turístico. Observe­se.  Na realidade são  as  práticas sociais que dão  significado  ou  resignificam  tais  espaços.  zoneamento  e  outras  normas.  viadutos. serve de  espaço  de  encontro  para  jovens  que  se  reúnem  aí  para  conversar  durante  o intervalo  das  aulas ou  do  trabalho  e.

  Caso  não  o conseguissem.  possivelmente.  estão aqueles  relacionados  à  observação  e  maximização  dos  efeitos  desejados  da droga.14 do espaço.  os  comerciantes  e  moradores  da região  e  também  a  própria  polícia  que  se  estabelece  territorialmente  a  poucos metros  do  local. os usuários devem também lidar com uma série de exigências sociais implicadas pela sua proibição e pela estigmatização moral.  não  se  reduz  aos  códigos  e símbolos  dos  usuários  de  drogas.)   Acreditando  que  o  fumante  é irresponsável  e   incapaz  de  controlar  seu  próprio  comportamento.  A  categoria  “legalise”.  acreditamos  que  o  passar  de  vários anos  desde  que  Gerônimo  começou  a  prática  semanal  de  fazer  shows  na . Sua ilegalidade torna  o acesso  à  droga  difícil.  podem  puni­lo  com  vários  tipos  de  sanções informais (.  mas  pelos  não  usuários.) (BECKER. 70) Diante  destas  condições.. a Escadaria do Passo  como  um  espaço  “legalise”.  erguendo  obstáculos  imediatos  diante  de qualquer   um  que  deseje  usá­la  (.  portanto. o usuário regular de maconha deve saber enfrentar uma série  de  impedimentos  sociais  e  legais se quiser  manter  seu uso e  seus  efeitos positivos consequentes. “O  ato   é  ilegal  e  passível  de  punições  severas.  Assim.  Dentre  estes  conhecimentos.  Isto  implica que o consumo  desta  substância  neste  espaço  urbano  é  conhecido  não  só  pelos usuários  de  drogas.  em  Outsiders  (2008).  os usuários  de  maconha  da  Escadaria  do  Passo  procuram  estabelecer  condições adequadas  para  desfrutar  os  efeitos  desejados  do  uso  da  maconha  ao  mesmo tempo  que  evitam  problemas  com  as  forças  de  repressão. 2008.  mas  é  também  de  conhecimento  de  outras redes de sociabilidades da cidade.  Além  de  conhecer  e  saber  modular  os  efeitos  da  maconha  em  seu organismo. p.  o  consumo  público  de maconha  não   seria  tão  recorrente. As  estratégias  sociais  e  técnicas  de  consumo  de  drogas  ilícitas  em espaços públicos  urbanos  são postas  em  prática  pelos usuários  para  garantir os efeitos  desejados.  sugere  que  para  um indivíduo  se  tornar um  usuário  de  maconha..  é  de  se  acreditar  que.  é  necessário que  detenha  uma  série de  conhecimentos  e  que  tenha  passado  por  determinados  aprendizados  para obter  as  sensações  desejadas  do  “barato”..  que talvez  esteja  louco.. Como  que  repetindo  os  comportamentos  observados  por  Becker.  Howard  Becker.

  generalizado  pela  região  como  um  todo.15 Escadaria.  constata­se  que  é  pouco  comum  que  os shows  de  Gerônimo na Escadaria sejam desacompanhados do uso da Cannabis.  lícitas  e  ilícitas. para manter  o  uso  de Cannabis. à desordem  social.  os  indivíduos  devem  ser  capazes  de  invalidar  ou  ignorar  essas concepções  e  substituí­las  por  racionalizações  e  justificativas  correntes  entre  os usuários. Por outro lado. “Em suma. O comércio da maconha e a criminalização do usuário O  uso  da  cidade  implica  também  em  consumo  de  substâncias psicoativas. por si  só. o espaço. longe  de  conduzir.  uma  pessoa  se  sentirá  livre  para  usar  maconha à medida  que  passe  a  considerar  as  concepções  convencionais  sobre ela  com as ideias  mal  fundamentadas  de outsiders  e as  substitua  pela visão  “inside”  que  adquiriu  por  meio  de  sua  experiência  com  a   droga na companhia de outros usuários. 87) O  caso  da  Escadaria  do  Passo  é  um  exemplo  de  como  o  consumo  de maconha pode  vir  a  ser  parte da cultura do  lazer em espaços públicos urbanos. A partir  das  observações  etnográficas. sociabilidade  e recreação  pacífica  entre os usuários  que se congregam em  espaços urbanos  de lazer como o Centro Histórico de Salvador.  na  presença  de  um  público  que  faz  uso  de  maconha  durante  as apresentações.” (BECKER. 2008.  A  baixa  incidência  de episódios de violência durante esses evento.  demonstra  que  aí  se  consolidou  um  espaço  legalise   para  essa substância psicoativa apesar das ameaças formais repressoras e ideológicas. o contexto  social  e a tradição dos rituais  de  uso contribuem para  que  a  maconha  seja  elemento  da  construção  cultural  e  parte  do  lazer  no local.  principalmente  em  espaços  lúdicos  e  de  grande oferta de serviços  comerciais como  o Centro Antigo  de  Salvador. além do constante  perigo  de  furto. . A música. p. Becker  nos  ajuda  a  compreender  como  o  consumo  de  maconha  se mantém  diante  de  muitos  preconceitos  morais  que  rotulam  negativamente  seu uso  e  a  busca  do  “barato”  que  proporciona.  vem  ao encontro  com  a  noção  de que  esta substância  psicoativa.  Segundo ele. 3.  é  essencialmente  uma  fonte  de prazer.

  “guerra ao tráfico”.  como  a  Escadaria  dos  Passos.  e  o   Centro  Histórico  de  Salvador é apenas um  caso  específico  a  ser  explorado  em  nome  de   uma  possível  generalização antropológica.  notadamente a maconha. partem de  preceitos  éticos  e  morais  que aparentam ter pouca racionalidade.  especialmente  dos  seus  segmentos  mais  jovens  ou  carentes. apontam  para  que  o  fenômeno  de  criminalização  do  usuário  de  drogas. promovida  pelo  ordenamento  social  e.  não  só  em  relação  aos  shows  de Gerônimo. seja para fins lúdicos ou não. Para  falar  da  política  de  drogas  Zinberg  chama  a  atenção  para  a .  mas  também  com  toda  a  faixa  citadina  usuária  do  Centro  Histórico. A  presença  da  maconha  não  é  necessariamente  causa  de  violência  e desordem. se analisa o mercado ilícito de drogas  como  um  fenômeno  urbano.  como se começa a  dizer  atualmente.  se destacam  como  “espaços  legalize”.  certas  áreas  do  Pelourinho.  ou.  acredita­se  que o consumo público e o comércio de drogas fazem parte do cotidiano ritualistico e cultural dos centros urbanos em geral.  pela  legislação  atual relativa  ao  comércio  e  uso  de  diversas  substâncias  psicoativas. O  constante  crescimento  da  violência  relacionada  ao  trafico  de  drogas ilícitas. Assim.  Neste  sentido.  e consequentemente  do  comércio  desses   bens  de  consumo. sendo a sua proibição  e  a  consequente  repressão   os  prováveis  causadores  da  violência urbana contemporânea. apesar dos montantes  de  dinheiro  e  tempo  dedicados  ao  seu  extermínio. Num  contexto  mais  geral  de  marginalização  de  amplos  setores  da população.  levantam­se  questionamentos  sobre  a  atual política de drogas  e  seus  impactos  sociais  e  políticos.  mas  a  sua   repressão  impõe  uma  criminalização  de  numerosos comportamentos  culturais urbanos.  Neste sentido.  destacadamente.16 as políticas públicas  voltadas para uma  “guerra às  drogas”.  A  literatura  socio­antropológica  sobre  a região  mostra  como   o  consumo  de  drogas  no  Centro  Histórico  de  Salvador  é recorrente.  seja  visto  como nocivo  para  a  segurança social em  espaços urbanos  e  ambientes  públicos além de  alimentar  preconceitos  sociais  históricos  sobre  os  segmentos  sociais  mais sujeitos a esse tipo de criminalização.

  Quando  este  novo  foco  é  adotado. “Para  distinguir  uso  abusivo   ou  controlado.17 mudança de leis.  Uma  intrigante  questão  a  ser  debatida  é  o próprio  consumo  de substâncias  psicoativas  lícitas  em  espaços  públicos  das  grandes  metrópoles. Principalmente  no caso  do  Centro  Histórico  de  Salvador.  o  uso de álcool  e tabaco não são tão .  além de retirar  estes do  âmbito  da  criminalidade. “Certamente.  se   nosso  entendimento  sobre   o  uso  de  drogas  é para  ser  melhorado. 138) Os  atores  sociais  que   resistem  e  persistem  no  uso  de  drogas lícitas  ou ilícitas  produzem  e   reproduzem  um  costume  frequente  da  sociabilidade  do  e  no espaço  urbano. as instâncias  formais  entrariam  em  um  acordo  com  aqueles  que  já  usam regularmente  drogas  ilícitas. Assim.  Pesquisadores  devem  estudar  as  duas  condições   em que  os  usos  disfuncionais  acontecem  e  como  estes  podem  ser modificados  e   as  condições  que   mantêm   controle  para  o  uso  não abusivo  e  como  estes  podem  ser  difundidos.  uma especial  atenção será dedicada  como   as  drogas  são  usadas  (a  condição  de uso)  para  então prevenir  o  uso.   O  objetivo   da  prevenção não  deveria  ser  totalmente  abandonada.  nós  necessitamos   obter  mais  informações  sobre  o contexto  social  de  uso. como  estes  costumes  (controles)  surgem.  e  como  novos   usuários  os adquirem.  mas   as  enfases deveriam  ser lançadas  desde  uma  prevenção  de  todos  os  usos  até  a  prevenção do uso  disfuncional. 1984. promovem uso seguro e desestimulam o uso incorreto. p.  as  políticas públicas  devem  decidir  não  por  tratar  todas  as  substancias  tóxicas como  elas  fossem   ruins.  Os  controles  formais  do  Estado  deveriam  respeitar  os  rituais informais  socialmente  construídos  e  que  definem  a  qualidade do uso.” (ZINBERG.  incluindo  um  conhecimento  de  como os costumes dos  grupos e as normas  operadas  para  moldar os diferentes estilos de  uso.  Estudos  mais  cuidadosos   do  uso  das variadas  formas  de  drogas  e  das  variadas  condições  de  uso  deve revelar  as  necessidades  para  criar  uma   diferente  estrategia  política para cada tipo de droga.” (Ibidem. onde  o  lazer  e  o lúdico estão  promovendo  a  ocupação  do  espaço. A regulamentação  do  uso  legal  de  substâncias  hoje  ilícitas  é  necessidade  para  a sociedade  contemporânea  que  sofre  com  a  própria  violência  gerada  pelas políticas proibicionistas.  Pesquisas  futuras   podem  descobrir  formas  de  fortalecer  estes controles  informais  (sanções  e  rituais)  que  estimulam  abstinências. p 130) Políticas  públicas  que  levem  em  conta  os  fatores  socio­culturais  do  uso urbano  de  drogas  resultariam  em  uma  efetiva  redução  da  violência  e  da criminalidade.

São Paulo: Ed.  Territórios  Marginais.  J. Unesp.  C. A forma como estão sendo tratados os usuários de drogas é que induz  à  violência  e  insegurança  social  através  da  criminalização  deste  tipo  de comportamento  ferindo  os  direitos  humanos  de  liberdade  individual. 2005 PARK.  A demonização  do  consumo  de  substâncias  psicoativas. E.  set  and  setting:  the  balis  for controlled  intoxicant use.  mas   faz  parte  da  cotidianidade  da  condição  urbana contemporânea.  Editora  da Universidade  Federal  da  Bahia.  apesar  da  existência  de alcoólatras e/ou pessoas que possam ter problemas com essas drogas lícitas. 1952 PERLONGHER. R. 2004 MAGNANI. 277p. Salvador.  Júlio. 17.  G. Ronaldo  (orgs. . In: GREEN.  Os  circuitos  dos  jovens.  James  N; TRINDADE. A cultura da maconha e das outras drogas ilícitas não promove violência e desordem  social  em  si. 2. n. 2005.).18 criminalizados  como  o  consumo  de  drogas  ilícitas.  Revista  de Sociologia da USP. New Haven: Yale University Press.  além  de  ser  uma política violenta  e  ineficaz. Illinois: The Face Press. c 1984. 4.  Rodas  de  fumo:  o  uso  da  maconha  entre camadas  médias   urbanas. v.  Edward;  SIMÕES.  Néstor. Bibliografia MACRAE. ZINBERG.  IN:   Tempo  Social.  N. Human Communities.  Homossexualismo  em  São  Paulo  e  outros  escritos.  abusa  da  incoerência  em  relação à realidade  e  ao  cotidiano cultural das cidades.  Drug. Glencoe.