Série Compreender

Francisco P ereira N óbrega

- Compreender Kant
Georges Pascal
- Compreender Nietzsche
Jean Lefranc
- Compreender Platão
Christophe Rogue
- Compreender Schopenhauer
Jean Lefranc
- Compreender Hegel
Francisco Pereira Nóbrega

c ODmErT°

COMPREENDER
HEGEL

D ados Internacionais de C atalogação na P ub licação (C IP)
(C âm ara B rasileira do L ivro, SP, B rasil)

Nóbrega, Francisco Pereira
Compreender Hegel / Francisco Pereira
Nóbrega. - Petrópolis, RJ : Vozes, 2005.
Bibliografia.
1. Dialética 2. Hegel, Gcorg Wilhelm
Friedrich, 1770-1831 - Crítica e interpretação
3. Idealismo 4. Razão I. Título.
r

05-4934

CDD-193

A EDITORA
▼ VOZES

índ ices para catálogo sistem ático:

1. Hegel : Filosofia alemã 193

Petrópolis

A DIALÉTICA E AS ORIGENS, 35
17. Em busca das origens, 35
18. Segundo Platão, 37
19. Segundo Kant, 39

PRÓLOGO

20. Hegel: a identidade dos opostos, 40
2 1 .0 movimento descendente, 42
22. Tese, Antítese, Síntese, 43
23. Aufheben, 45
24. Explicitação e concretização, 47
25. A primeira tríade, 48
26. O nada, idêntico ao Ser, 49
27. O mais explícito e o mais concreto, 51
O SISTEMA EM SUAS PARTES, 53
28. A divisão tripartida do Sistema, 55
29. A Idéia, 56
30. A Idéia Absoluta, 57
31. Idéia e Razão, 59
32. A Natureza, 60
33. Transição Idéia/Natureza, 62
34. Ser e Conhecer, 63
35. Espaço, início da Natureza, 66
36. Espírito, 67
37. Espírito subjetivo e objetivo, 68
38. A História, 69
39. Espírito Absoluto, 71
Bibliografia de referência, 75

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart, Alemanha, em 1770. Filho de um funcionário pú­
blico, aos 18 anos comcçou a cursar Teologia num se­
minário protestante que o poderia credenciar para pas­
tor. Sua preocupação com a temática religiosa o levou a
escrever uma vida de Jesus em 1795.
Em 1801 tomou-se professor de Filosofia da Uni­
versidade de Jena, juntando-se a Schclling que succdcra
Fichtc. Pouco depois já fazia uma publicação sobre Di­
ferenças entre os Sistemas Filosóficos de Fichte e
Schelling. Em Jena defendeu tese sobre Orbitas dos
Planetas (De Orbitis Planetarum) tornando-se cm se­
guida definitivamente professor daquela Universidade.
Publicou, a seguir, a Fenomenologia do espírito
(1807), marcando a ruptura de seu pensamento com o de
Schelling. Dele herdou, contudo,/a tríade básica de seu
sistema: Idéia, Natureza, Espírito/De 1812a 1816 con­
solidou sua obra A ciência da lógica. Em 1816 passou a
ser professor na Universidade de Heidelberg. Em 1817
publicou a Enciclopédia das ciências filosóficas, onde
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já despontam as partes básicas de seu sistema: Lógica,
Filosofia da Natureza, Filosofia do Espírito. Em 1818
sucedeu Fichte na Universidade de Berlim, da qual foi
reitor posteriormente e onde permaneceu até sua morte.
Em 1829 publicou sua Filosofia do Direito.

mão. Relembremos que Hegel foi aluno de um e colega
do outro. Na vertente religiosa, esses três passaram pelo
mesmo seminário de Teologia protestante. Como toda
Teologia, já é um esforço de explicação do universo sob
um laço de unidade transcendental.

De sua atividade como professor em Berlim resulta­
ram várias obras póstumas: Filosofia da História, Esté­
tica, Filosofia da Religião, História da Filosofia. Mor­
reu vítima da cólera que assolou a Europa em 1831.

Não é, pois, de admirar que a ambição intelectual
de Hegel tenha sido a de expressar a unidade do Todo
numa síntese abrangente e universal. Via partes deste
Universal na História da Filosofia, também nos ho­
mens e momentos da política de seu tempo. Assim,
Napoleão era dito por ele “alma do mundo” que “se
estende sobre o mundo e o domina”, representante de
uma nova ordem universal e unificação política de
culturas e povos.

Hegel dominava os conhecimentos de sua época.
Era excelente conhecedor do grego e do latim. Estudou
as Ciências Naturais. Viveu intensamente os momentos
políticos de seu tempo, daí derivando sua reflexão para
Direito e Constituição. Deixou assim um escrito so b rei
Constituição Alemã.
‘Eu vi o Imperador, essa alma do mundo, atravessar
a cavalo as ruas da cidade... Sentado sobre um cavalo,
estende-se sobre o mundo e o domina ”. Essas palavras
são trecho de uma carta de Hegel, comentando este mo­
mento da batalha de Jena onde morava e onde Napoleão,
o Imperador que ele assim exalta, acabava de pôr fim ao
Sacro Império Germânico que perdurara mil anos. He­
gel, po dia anterior a essa batalha, fugira de Jena com os
originais de seu livro: a Fenomenologia do espirito.

Em cada particular Hegel buscava o Universal.
Abordando Estética, Religião, História, Direito, Políti­
ca, Ciências Naturais, seu pensamento não é dispersi­
vo. Quis ser enciclopédico, não por justaposição de saberes parciais, como ocorre em obras desse gênero.
Quis unificar, num sistema seu, o saber todo de seu tem­
po, a partir das razões mais remotas. Assim fez sur­
gir uma visão do Todo a partir de um denominador co­
mum, a Idéia, anterioridade lógica sobre o Universo que
a mente pretenda explicar.

A formação intelectual de Hegel teve assim uma
vertente religiosa, outra filosófica. Na Filosofia, Fichte
e Schelling foram seus antecessores imediatos e com
Hegel se tomaram os vultos terminais do Idealismo ale­

Assim, concebeu Hegel sua Filosofia segundo a
qual as coisas, a Natureza, a História são momentos da
realização de um Espírito através dos quais ele toma
consciência de si. Todos esses momentos são presidi­
dos por uma lei do devir universal: a dialética.

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Esta carência coloca o limite da nossa ambição nes­ tas páginas. ou­ tras mais. Ou recorre a algum livro específi­ co. a nossa pretensão. fazendo História a partir da dialéti­ ca hegeliana. de intro­ dução a Hegel. É pouco demais. seja a Lógica. Hegel se toma assim de algum modo afluente do pensamento marxista. Elas representam um esforço de didática. As obras específicas do pensamento hegeliano se detêm apenas sobre alguma parte de seu sistema. Não oferecem descobertas sobre He10 11 . porque supõe toda uma introdu­ ção ao pensamento hegeliano. Facilitam a apresentação do que já foi demais pes­ quisado e se acha demais disperso em publicações mais para eruditos do que para iniciantes. Habitualmente o estudante de Filosofia procura se introduzir no pensamento hegeliano. para as realidades concretas. mas ao aluno. Não só por ser idealista .Neste ponto. Para isso.mas também porque dentre os idealistas Hegel é um dos mais sutis. sociais sobretudo. usamos tanto de exemplos como de repetições. de algum modo é herdeiro de Hegel o pensamento contemporâneo. Mas não é fácil uma abordagem de seu pensamento. Depois dele.um tipo de reflexão pouco encontradiça no homem contemporâneo . dispondo apenas de algumas páginas em algum manual de História da Filo­ sofia. Não se destinam ao professor. é o que não se encontra. Esta. não de pesquisa. gel. Um meio-termo. Ele permanece assim inacessível e necessário aos principiantes. grande vulto de filósofo foi Marx. da História. voltada não mais para o Idealismo. abstratos. seja a Filosofia da Natureza. Permanece a carência sobre uma visão mais detalhada de seu sistema como um todo. pesado e complexo.

Mas. 2) explicar é dizer a “razão”. talvez opostos.e saberemos logo abaixo . de toda a realidade. A filosofia de Hegel ó um sistema e tem toda esta ambição mental.A RAZÃO E SEUS ATRIBUTOS 1. de explicação da realidade. “Causa” e “Razão” Nem todos os filósofos pretenderam fazer sistema filosófico. concatenadamente. E de fato o é. A expli­ cação por “razão” é uma explicação idealista. 13 . de modo a se ter uma visão coerente.se percebe que estamos numa primeira encruzilhada do pensamento filosófico que determina rumos completamente diferentes. Num sistema se pretende explicar tudo. Embora não se entenda de imediato a diferença entre “causa” e “razão” . há uma questão preliminar: o que é mesmo “ex­ plicar” o Universo? Há duas respostas possíveis: 1) explicar é dizer a “causa”. global. antes de se dizerem os princípios sobre os quais repousa toda a sua explicação exaustiva do Uni­ verso. a partir de determinados princípios. A ex­ plicação por causas é uma explicação realista.

Mas vejo o absurdo do oposto quando digo que um e um são dois. (A explicação evidentemente seria mais ampla e mais complexa.2. De fato assim acontece. por sua vez. abstrata. Se eu perguntar quem é a mãe de Maria e me disserem Joana. se refugia na mente e nos raciocínios. acontece.) Mas me leva a uma segunda questão: e por que nosso planeta é hoje assim? Imediatamente re­ montamos a um passado da Terra que. me pergunto: e a de Joana? Posso chegar a um final de série em que alguém se diga mãe de si própria? \H á uma outra razão para se rejeitar a via causai. embora muito usada por espiritualistas também. 3. nada está sendo realmente explicado. E uma causa de si parece absurda. necessariamen­ te. digo que isto assim. explicar é dar a razão. No segundo caso. Cada nova afirmação se deduz da outra. do Universo inteiro. Explicar o Universo não é dizer-lhe as causas Eu me pergunto: por que um terremoto? E a respos­ ta virá: por causa da constituição interna de nosso pla­ neta. E por isto há quem a chame de via espiritualista. É uma necessidade lógica da razão. No segundo. Estamos dan­ do uma explicação através de causas. pede explicação. o do fogo. O fogo é a causa do incêndio. através de ou­ tros “porquês”. Explicar o Universo é dizer-lhe a razão Por tudo isto. deva acontecer. mensurável. Mas não vejo a necessidade absolu­ ta de assim acontecer. de fato. diria ele. Cada causa leva a outra causa que. a terceira? Sempre resta uma causa exigindo explicação. como os raciocínios que provam um teorema. No segundo caso. Quando digo que B é casa de A. o da soma. porque. E quem. se tem de falar em uma causa que seja causa de si própria. E desta via dis­ cordará Hegel por duas razões: primeiro. das galáxias. Mas não vejo nenhum absurdo do 14 oposto (um fogo que não queime). Quem explica a segunda causa? A terceira. constato um fato que sempre assim se verificou mas nada me convence de que assim. De fato não estamos explicando. sem explicações. para Hegel. No primeiro caso temos uma explicação causai. Pois é assim que Hegel pretende “explicar” toda a realidade. se perde em todo o passado do sistema solar. No prime­ iro caso. E por isto há quem chame esta via de materialista. Estamos adiando a explicação. tangível. percebemos que na via racional se elimina um inconveniente: as parcelas aludidas que formam a explicação global do Universo se concate15 . para se pôr ponto fi­ nal a esta caminhada. dizemos que os fatos sempre assim aconte­ cem sem enxergar uma necessidade de assim acontece­ rem. vejo claramente que seria absurdo esta soma ser mais ou menos de dois. No pri­ meiro caso. A razão é conceituai. uma racional. concreta. incontrolável. nos encontramos diante de uma necessidade absoluta. De qualquer modo. ne­ cessariamente. A um certo momento. Já enxergamos claramente que a causa é sempre mate­ rial.

não existe em si própria. Mas a eqüidis­ tância não é uma coisa. se seguem. Traga-me aqui a eqüidistância! Ela está nas paralelas. individuali­ zada. existin­ do em si próprio. com o que se encontra cm todas as coisas de uma mesma espécie ou gênero. Digamos: a Causa. neste sentido. concretamente exis­ tente. se não é causa é razão: a Razão de onde. primeiro Princípio. Mas este princípio. 16 5. se chama de coi­ sa. Esta pri­ 17 . É o caso da eqüidistância em todas as paralelas. Mas a Razão não seria uma coisa. A razão é universal e abstrata Depois que se falou tanto em Razão. como o giz. particularizadas: este lápis.e com ele todos nós .nam. de algum modo. de “eqüidistância” ! Todas as paralelas são eqüidistantes. E na vida racional. Não bas­ ta dizer o que não é. A razão não é uma coisa Escrevemos agora Causa e Razão (com maiúscu­ las). É isto que em Filosofia se cha­ ma de “coisa”: um ser individual. Entretanto nada mais universal do que aquilo que é a fonte de todas as coisas e de algum modo deve estar presente em toda e qualquer existência e não apenas em linhas ou em paralelas. Toda coisa é. Só posso fazer abstração com o que é univer­ sal. eu falar. toda realidade procede. que não é aquele. Por via causai chegamos a uma primeira Causa. “Eqüidistância” é uma abstração. um Absoluto de onde o Universo in­ teiro.veremos logo abaixo . Mas se. este giz. se interdependem numa coerência e necessidade absolutas. Até uma pessoa. como cada coisa. não se chegaria a uma últi­ ma razão que é razão de si própria? E isto não seria igualmente absurdo? A resposta a esta questão será dada adiante sob os números 6 e 31. Ima­ ginem-se as razões pelas quais se prova que a soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos.é en­ contrar uma explicação coerente do Universo. este traço.) Precisamos ter cons­ ciência de seus atributos. O outro aspecto a que se aludiu contra a explicação causai e que se chegaria ao absurdo de uma causa de si própria. A razão se explica a si própria O que Hegel pretende . (Não é coisa. distinto de tudo o mais. procede. E o primeiro deles é a univer­ salidade: a Razão é universal. 6. E o caso da Ra­ zão. Nada é mais universal do que a razão. As coisas são individuais. 4. sentimos ne­ cessidade de saber exatamente o que é este Princípio. Nenhuma das ra­ zões aludidas na explicação do Universo é coisa. Não são coisas. o lápis. que não se confunde com nenhum outro ser. como já vimos. Assim o foi cada causa apresentada. de algum modo. E isto não se verifica na explica­ ção causai. concretas. Porque . este Absoluto hegeliano de onde tudo procede. A primeira causa deve ser algo individual. em vez de falar de coisas. E “este” quer dizer que não é outro.coisa é individual e a Razão é universal. por exemplo. Várias razões são apresentadas. São ra­ zões. assim. este Absoluto.

sem se identificar com nenhuma. capaz de satisfazer às nossas indagações. de tal modo que a inteligência indagadora se satisfaz. 31. O que se quer é a racionalidade que está ou deve estar por trás dos fenômenos. aceitável men­ talmente. É difícil entender plenamente o pensamento hegeli­ ano neste particular. E o que a nossa mente percebe como racional se impõe como inteligível. o princípio da própria racionalidade. não se quer saber apenas o fato de que o Universo é assim. Mas uma primei­ ra Razão se explicaria a si própria? Ou recai na contradi­ ção de uma primeira Causa que fosse causa de si? Quando se pede uma explicação do Universo. Em muitos raciocínios matemáticos. antes de conhecermos a Lógica de Hegel. A resposta plena. Mas quando.meira realidade de onde tudo flui deve explicar o Univer­ so e se explicar a si própria.por necessidade lógica. 18 19 . Uma primeira Causa falha diante destas duas condições. Não quero com isto dizer que a Razão suprema do universo seja evidente. Se encontramos a racionalidade do Universo. uma vez apreendida a série completa de razões e sua fundamen­ tação última. das causas e efeitos. que de fato de tais causas se seguem tais efeitos . sob o n. Numa palavra: se explica a si própria. ou de qualquer outro tipo. filosóficos. uma razão em particular (e já vimos que a Razão não é individualizada mas universal). ela pode se apresentar diante da inteligência humana como racional. portanto. e que os explica. uma razão apresentada ainda pa­ rece obscura e pede outra razão para se justificar. chegamos à evi­ dência. Como a eqüidistância está em todas as paralelas sem ser idêntica a nenhuma. Não se pode dizer isto de cada razão apresentada. ninguém pede a razão da evidência. Esta razão última é realmente razão de si. Quero dizer que uma série concatenada de razões pode chegar a uma última. de raciocínio em raciocínio. mas necessária e inevitavelmente. mas é a razão em geral.já disse. só poderá ser apre­ sentada adiante. Ela se ex­ plica e se justifica a si própria. Mas já percebemos que a primeira Razão do Universo não é esta ou aquela razão.já se disse . isto é. teria sentido perguntarmos pela racionalida­ de da racionalidade? Parece que não. aquilo que está em cada razão particular. as coisas não apenas de fato assim aconte­ cem. Segundo ela. Uma primeira Razão expli­ caria o Universo .

cadeira. de alguma ma­ neira. Não passam de sombras das idéias de mesa. anterior às coisas. uma cadeira. lápis.HEGEL. é que têm realidade. apenas sombras das verdadeiras realidades que estão fora do tempo e o espaço. E sombra é sombra de algu­ ma coisa. 21 . um lá­ pis. autônoma. Se esta coisa não existe. Existem como as sombras. apenas duas: a de Platão e a de Kant. E que realidades são estas e que mundo é este? São idéias existindo no mundo das Idéias. sim. fora deste mundo. que se encontram no mundo das Idéias. para Platão. Entre estas várias tentativas apresentamos. como seres independentes. Vejo neste mundo uma mesa. com existência própria. nem também a sua sombra existirá. IDEALISMO E IDEALISTAS 7. Hegel e Platão Não foi Hegel o primeiro a tentar explicar o Univer­ so a partir da idéia. para fins de comparação com o pensa­ mento hegeliano. Estas. Por outras palavras: várias vezes na filosofia se tentou afirmar que a idéia é. Para Platão as coisas não existem realmente. Nosso mundo é.

Quando digo “todo” e digo “é”. já estão classificadas. não é contudo tão universal. Neste silogismo estamos com três termos: “ho­ mem”. portanto. Mas neste próprio silogismo há categorias ple­ namente universais. não pode ser aplicável apenas a alguns seres. mesas. Posso dizer: “Toda planta é vegetal”. Trata-se de um deter­ minado homem. mas a todos os homens. é que procedem. Pla­ tão também entende que o mundo flui de universais. independentemente de minha men­ te. vemos melhor fun­ dada a existência hegeliana desta distinção. sem pretender com isto 23 . um indivíduo. Só se aplica a determinados seres . para ambos. animais e coisas. porque não convém apenas a Pedro. (E poderíamos falar de outras percepções sensoriais. Para al­ cançá-las. É próprio do olho perceber a cor e. E estas duas categorias valem para quais­ quer tipos dc ser e para quaisquer outros termos que eu use para substituir estes três. A acácia é uma planta. E esta classificação não é tirada dos objetos individuais (esta mesa. de algum modo. 22 Todo homem é mortal Pedro é homem. através desta. aquele que não tem nenhuma mistura de percepção sen­ sível. logo Pedro é mortal. O universal é. Analisando alguns silogismos. Mas há discrepâncias entre Platão e Hegel. isto é.como em “Pedro”. mesa etc. embora já universalizado. a forma.Há coincidências e discrcpâncias nisto entre Hegel c Platão. Onde entram elementos de percepção sensí­ vel . o tipo de razão que explica o Universo. Aquilo que deve ser. “mortal”. já que toda realidade deles promana.os materiais. “Pedro” não é um universal. E o próprio termo “homem”. portanto. “mesa” . “cadeira”. “homem”. Existem an­ tes que eu os pense. é que deve ser. esta cadeira). Digo “universal” enquanto supera os limites de cada indivíduo e se estende a toda a espécie “cadeira”. cada uma. Não sou eu que classifico as coisas. por exemplo. mas não parece ter alcançado a necessi­ dade desta distinção. este lápis. individualiza­ dos. Esta cadeira. segundo Hegel. dos universais. Outros exemplos podem ser citados para maior clareza. como homem. em sua existência. Este globo é uma esfera. E os universais de Hegel devem se aplicar a tudo o que é real. lápis etc. Platão também queria chegar até aí. Citei o exemplo de “totalidade” e de “existência”. Não convém a plantas. aquela e aquela outra. dependem. Antes de mi­ nha mente.) Mas o que é sensitivo não é tão universal. Como Hegel. as coincidências. na explicação de toda realidade. de uma idéia universal de cadeira. es­ tou falando de duas categorias: de “totalidade” e de “existência”. Primeiro. Há um tipo de universais marcados pela percepção dos sentidos. “lápis”. “Pedro”. Logo este globo é redondo”. Ou ainda: “Toda esfera é redonda. em cadeiras. fonte de todos os seres.a própria universalidade fica algum tanto li­ mitada. Logo a acácia é um “vegetal”. Ao contrário: estes objetos. Começamos a entender que o puro universal. individualmente. convém antes verificarmos dois tipos dife­ rentes de universais. objetivo.

nos objetos que enxergam. pela experiência. Nunca as coisas como são em si. As “sombras” de Platão são as “aparências” das realidades que estão cm outro mundo. “substância”. E não te­ nho condição de me furtar a esta necessidade. Mas voltando aos óculos azulados.aqui exaurir a relação dos universais hegelianos: “ser”. anterior a qualquer experiência. E a expressão latina a priori signi­ fica exatamente isto: “anterior a”. estas categorias. são as condições do conhecimento. Os puros universais de Hegel são as categorias a priori de Kant. A distinção portanto que Platão não fez. 25 . “unidade”. tanto num como no outro. Elas são anteriores à experiência. “antes de”. projeto-o sobre os objetos. portanto. Do mundo. Para Kant são a aplicação do conhecer. Mas usa outra terminologia. São condições de existir. Distingue os universais sensíveis dos puros universais. O que até aqui chamamos de universais.) Se estou de óculos azuis e vejo tudo azulado. segundo Kant. mas na minha mente. sob elas percebo o mundo. Meus olhos não o co­ lhem. “pluralidade” etc. Há. para Kant. E se toma a única maneira inevitável de perceber os objetos. “quantidade” etc. Está cm mim. pelas quais forçosamente percebe o mundo. “odor”. são destituídas da marca de sensibilidade. “pluralidade” etc. segundo Kant. já que toda nossa experiência é através da aplicação dos sentidos. 8. Aplico a elas as categorias que estruturam a minha mente. são exemplos destas categorias. Kant e Hegel tiveram o cuidado de fazê-la. E a mente se encontra na dificuldade. São sensitivas. este “azulado” não está na natureza. o real como é em si mesmo. “qualidade”. “som”. ele chama de categorias. o que a eles aplico. Mas entre Kant e Hegel há uma diferença ainda: Para Hegel estes universais puros (sem mistura de per­ cepção sensível) são as razões de onde brota todo ser. também a mente já traz em si. categorias que resultam da experiência. de apreender. Como uma pessoa que coloca óculos azuis e vê tudo azulado. É tempo de notar que aqui Platão e Kant estão con­ cordando. Mas categorias como “tota­ lidade”. me pergunto: então não percebo os objetos como eles são? Percebo como eles me aparecem através destas lentes? Sim. Assim tam­ bém. diretamente. E assim também. supraditas. tem determinadas estruturas sob as quais percebe o Universo: são as categorias a prio­ ri. mas do conhe­ cimento. Kant acredita que elas não nas­ cem em nossa mente como resultado de nossa experiên­ cia sensível. sob as categorias de “unidade”. Hegel e Kant Kant não se fixa no problema do ser. (Também não preten­ demos dar aqui a relação completa das categorias a pri­ ori de Kant. “Cor”. embora não esteja nos obje­ tos. se as categorias a priori estão em minha mente. E o que ele chama a priori. só as aparências. Nossa mente. é o próprio conhecimen­ to: não percebo as coisas como elas são. percebo.

Tais idéias são os primeiros prin­ cípios de onde fluem todos os demais seres.Tais universais . em si.Tais universais são os primeiros princípios de on­ de fluem todos os demais seres. O que Platão quer dizer é que a 26 27 . convém estabelecer os postulados básicos do pensamento idealista. Mais tarde veremos que a distinção entre ser c conhecer existe cm Kant mas cm He­ gel. objeti­ não têm existên­ va. se identificam. No pensamento hegeliano .) E aí está em que Kant e Hegel discordam: para Kant. indepen­ cia objetiva.Tais categori­ as são os primei­ ros princípios do conhecimento. dente de uma men­ te que as pense. sem dis­ dos universais tinção alguma que não têm mar­ entre os aspectos ca de percepção sensorial e imate. 9. devemos distin­ guir as categorias resultantes da ex­ periência dos sen­ tidos e as catego­ rias a priori. É a via racional de preferência à via causai. em que confrontamos Hegel com dois outros que têm posições semelhantes. dizer que tal distinção não é possível. portanto. comparados 10. li. rial. cm que discordam e concordam estes três fi­ lósofos de tendências idealistas. KANT .O Universo procede das procede apenas idéias. não. Platão. presentes.sensorial. . E após isto poderemos dizer as teses básicas do pensamento idealista: PLATÃO HEGEL . Explicar o Universo a partir da idéia não é. . Afinal o que aparece (a aparência) não é real? Sim e não. conhecer e ser. à primeira vista. para melhor se entender este termo. . de ver.veremos no número 33 . portanto. Realidade/Aparência Estamos em condições. portanto. comecemos pe­ las “sombras” de Platão.O Universo . -Tais categorias têm existência subjetiva. Kant. É o que se chama de idealismo. .Aí está cm que Hegel e Kant concordaram: nas distin­ ções entre puros universais e universais sensoriais. E a estas alturas. são objetivos. estes universais são condições do co­ nhecer. originalidade de Hegel.idéia e coisas. D is t in ç ã o e n t r e r e a l id a d e e a p a r ê n c ia : P o- der-se-ia. ao pensa­ mento de Hegel. São subjetivos. Esta observação é feita para se entender melhor alguns detalhes. (A dis­ tinção que Platão não fez. Hegel. agora. portanto. num quadro sinóptico. para Hegel são fontes do ser. conforme o que se entenda por “realidade”. Vários antes dele fizeram o mesmo.Tais idéias têm existências.Na análise do conhecimento.

é aparência. Não existe na subjetividade de alguém. esta cadeira. e) O real não tem existência. Está no tempo se é psíquico. Foi dito que tem ser. mas na mente de alguém. g) O real (o universal) é também pensamento. Mas é sempre individual. existe individualizado. A aparência tem um ser depen­ dente de outro ser. f) Existência é aparência. inteligência. Chegamos pois a estas conclusões que parecem de­ mais estranhas: a aparência não tem ser senão depen­ dência do que é real. razão. É objetivo e abstrato. do 29 . h) Este real. A reali­ dade é independente. b) “Aparência” é o ser que depende de outro ser. 11. Todo ele flui dos universais que Hegel chama de Razão. Está no tempo e no espaço. mente. em si. Um sonho sem alguém que o sonhe é impossível. c) “Existência” é o que pode ser imediatamente apre­ sentado à consciência. sendo formado de indivíduos.sombra não tem uma existência independente do ser de que é sombra. Mas a alvura. já que tudo procede dos universais. o Absoluto. Realidade/Existência Em nenhum momento. Pode alguma coisa aparecer se­ não a alguém que a perceba? Pode algo ser percebido sem alguém que seja o perceptor? Mas a realidade tem o ser em si. também.) De fato o real não existe. E é real somente o universal. Teses básicas do idealismo Podemos agora formular sucintamente algumas te­ ses básicas do pensamento idealista. Esta­ mos falando de seres que não existem senão em depen­ dência de outros seres. Existe o indiví­ duo. nas linhas acima. Conseqüentemente o universal não tem existência. Tudo o que se inclui nos itens b e c. este lápis. esta flor alva. inteligência.). se é físico. razão. O Universo.) ou psíquico (um sentimento etc. (É bom reler novamente. d) O real é somente o universal. Mas o universal não exis­ DISTINÇÃO ENTRE REALIDADE E EXISTÊNCIA: te. Sendo universal é um ser lógico. A sombra da árvore não existe se não existe a árvore. Uma ilusão sem ilusionado. logo acima. Tudo o que existe. Existe este chapéu alvo. como universal. é individual e aparência. prin­ cípio e fonte de todos os seres. universal. abstrato. independente de qualquer outro ser. esta mesa. Tem ser mas não tem existência. Pode ser algo material (mesa etc. É assim tudo o que o idealismo chama de “aparência”. Mas esta mente. pensamento. esta casa alva. esta coisa. simplesmente não existe (conforme número 5). se disse que a rea­ lidade tem existência. não é algo individualmente existindo no tempo ou no espaço. é o último ser. 12. a) “Real” é só o que tem um ser independente de qualquer outro. Tomemos outros exemplos: o sonho ou a ilusão não se reportam a algo que exista em si.

precede o Universo. portanto. Mas esta anterioridade. É algo parecido com o esforço de falar uma língua estrangeira: ainda quando nos chegue o vocábulo e a gramática seja respeitada. alguns bilhões de anos antes tia criação do mundo. de prioridade cronológi­ ca. Nunca se diria que o filho causou o pai. O idealismo é uma espécie de língua bastante es­ trangeira ao homem comum que espontaneamente parte do real e a ele acredita subordinar suas idéias. Dos universais procede o Universo. enquanto nossa maneira de pen­ sar. Falamos de antes e depois. E facil­ mente supõe no idealismo teses que o idealismo nunca afirmou. nossas convicções filosóficas divergem. Mas logica­ mente existe uma prioridade de um sobre outro. Duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. existindo em algum lugar que não o mundo. e num certo sentido. A lógica interna de um sistema dificilmente se percebe plenamente. Paternidade e filiação são. entra mais água no rio. de acom­ panhar suas deduções e suas conclusões últimas. Mas há ou­ tro tipo de prioridade. nossas categorias. lógico. Pai e filho se coligam sem nenhuma priorida­ de temporal. Abaixo da­ mos alguns exemplos. estritamente simultâneas. É sempre o contrário. E facilmente entendemos mal. na or­ dem cronológica. uma ser anterior à outra. encontramos dificuldades inúmeras: de raciocinar com ela. Alcança­ mos no sistema estranhas conclusões que nunca foram por ele admitidas. Ou lhe faz perguntas a partir de supostas afir­ mações idealistas que de fato não existem. estritamente simultâneas. temporal. Outro tempo e outro lugar para os universais. O que o idealismo não afirma Quando entramos em contato com uma maneira di­ ferente de pensar. E a distância entre sistemas filosóficos é mais profunda do que entre línguas. Exemplo: pai é aquele que gerou um filho. 13. Evidentemente. Prioridade lógica e cronológica Um sistema de categorias. nos resta pelo menos o sotaque. 31 . num sentido estritamente mental. com os conceitos dela. segundo Hegel. É puramente lógica. Talvez algumas horas sejam precisas para a água da montanha engrossar o caudal do rio. esta prio­ ridade não é no tempo. i) Este primeiro princípio é primeiro no sentido de prioridade lógica e não cronológica (conforme número 14).qual o Universo procede e pelo qual o Universo se explica. não é cronológica. Há uma priori­ dade daqueles sobre este. 14. como facil­ mente se entende mal uma língua estrangeira. A mente popular imediatamente se põe a imaginar estes universais. Só se é pai no mesmo instante em que se tem um filho. Quando chove na montanha. Então logicamente há uma prioridade. aquilo de onde o Universo procede é anterior ao Universo. uma precedência do pai sobre o filho. Não prioridade cronológica. Ninguém imagine bilhões de anos medeando entre a existência dos universais e o surgimento do Universo.

no sentido amplo da palavra. de certo modo. não é temporal. à primeira vista. participada do único ser plenamente real que é Deus. E quem não tem nenhuma experiência. Todo este argumento não passa de uma reedição do equívoco anterior. E todas as coisas (o mundo in­ teiro) são apenas aparência. como a do pai so­ bre o filho. veio depois que tive a experiên­ cia de cor (desta e daquela cor) e de casa (desta e daque­ la casa). O idealismo em geral (menos ainda Hegel) não sente nestas teses da psicologia experimental qualquer desmentido de suas próprias teses. Mesmo os conceitos que independem de as­ pectos sensoriais. a pensar assim ou quase assim. Mas o universal em si independe do individual. No processo do conhecimento o universal é posterior. um dado psicológico: os conceitos (universais) não se formam na mente antes de se ter a experiência do individual. Esta separação evidentemente não é possível no plano cronológico ou espacial. O mundo como aparência Só o universal é real. Para o cristão e o judeu. por nenhum dos sentidos. uma prioridade lógica pela qual a cate­ goria de “unidade” precede o ser uno e a categoria de “existência” precede o ser existente. A repugnância da con­ clusão não está na conclusão em si. A realidade das coisas é. Prioridade cronológica do indivíduo Alega-se. entretanto.). não existe em lugar al­ gum e em tempo algum. Tudo o mais dele vem por um ato criador. 15. Esta conclusão idealista repugna. Afirmou. tem pleno ser. Mas o que é posterior no tempo é an­ terior na lógica.Há uma prioridade puramente lógica. Muitas vezes também conhecemos pri­ meiro um fato e depois sua razão lógica que. Tem realidade mas não existência (conforme número 11). como tal. isto é. contra Hegel. separada das coisas que são alvas. O universal nunca existiu nem existirá. teve precedência lógica. a psicologia preten­ de afirmar que são posteriores à experiência sensível. aconte­ ce algum tempo depois que se teve à vivência da expe­ riência das coisas. a muitas mentes que se acostu­ maram. como são as categorias a priori de Kant (“existência”. 16. sim. a prioridade do universal sobre o individual é lógica. Como poderia existir a categoria de “pluralidade” sem várias coisas existindo como o próprio plural? Como poderia existir a categoria de “unidade” sem um objeto concreto existente no Universo que seja uno? Como poderia acontecer a categoria de “existência”. Porque só Ele é realmente independente e 33 . a partir de categorias religiosas. sem alguma coisa concretamente existindo? É de um certo modo como se quiséssemos encontrar a alvura em si. E tais absurdos o idealismo nunca afirmou. só Deus realmente “é”. Se tenho o conceito de “cor” ou de “casa”. mas nos conceitos de onde ela flui. “unidade” etc. não teria categoria em sua mente.

O que não existiu sempre. pronta c para sempre feita. que. Mas na própria teo­ logia cristã este mundo perenemente dependendo dc uma realidade divina parece confirmado. Como a sombra é manifestação do objeto e como tal apenas sua aparência. entretanto. E por causa deste aspecto dc existência inde­ pendente. por sua vez. teríamos que admitir que todas as coisas que aí estão (o Universo inteiro) teriam vindo do nada. como uma colônia se toma independente do reino. Po­ demos agora fazer este raciocínio que é válido em qualquer sistema filosófico. Em busca das origens Até aqui acompanhamos Hegel em suas reflexões: a explicação do mundo não está na ordem das causas. em direção ao passado. E mais claramente ainda no pensamento hindu. (Não é portanto um racio­ cínio de Hegel. sem ter origem num ser anterior. causa estranheza a afirmação de um mundo apenas como apa­ rência dc algo que precede o mundo. concatenados num sistema. E do nada. Os fundamentos últimos. devem ser da ordem de idéias. dc ter o universo um ser cm si mesmo. São os universais. O mundo subsiste a cada ins­ tante como manifestação do único real. Estamos. confirmando a necessidade lógica de encontrar algo que sempre existiu. É um suposto de todos os sistemas que se empenham cm dar a explicação última do Universo): SE ALGUMA COISA EXISTE HOJE. ALGO É ETERNO: Evi­ dentemente não se está dizendo que é eterno tudo o que existe hoje. O concei­ \ 35 . uma vez o mundo cria­ do. de onde procede o Universo. de ordem conceituai. algum tanto confusamente. vem de algo que anteriormente existiu. se toma independente de Deus e passa a existir por própria conta. no qual o mundo não é uma criação dc Deus. mas uma manifestação perene dele. se não exis­ tiu sempre.incriado. apenas regressando. Este sis­ tema de universais é o que Hegel chama de Razão. 001268 A DIALÉTICA E AS ORIGENS 17. com esta re­ flexão. nada se faz. E isto. Do contrário. O pensamento popular. vem de algo anterior. É portanto apa­ rência de outra coisa. absolutamente nada. imagina.

Segundo Platão Mais uma vez verifiquemos como se pensou antes de Hegel para com ele compararmos alguns dos exemplos anteriores.) No esquema platônico que apresentaremos. “preto” etc. todos os siste­ mas filosóficos concordam numa coisa ainda a respeito deste problema: é que este “algo eterno” é um único ser. todas as coisas “brancas” do Universo. jun­ tamente com as demais idéias de “verde”.to de “nada” não é o de uma substância. uma a uma. Ambas estas tendências do pensamento concordam sobre a eternidade de um prin­ cípio de onde toda realidade recebe origem. Ainda uma terceira questão dentro do mesmo pro­ blema: este princípio eterno que deve ser único. que. dando origem.) 18. em um certo sentido deve ser múltiplo. Se este “algo eterno” for tão rigidamente 36 uno. “azul”. sob a úl­ tima linha. procedem da idéia superior de “cor”. O materialista dirá que é a matéria eterna. Algo portanto é eterno. Exceção feita talvez unica­ mente ao pensamento maniqueísta (que admitia dois princípios igualmente eternos). neste sentido. de um “ponto de partida”. sem paralelos. Não serão dois nem mais. dele não poderia proceder a pluralidade de coisas que constituem o mundo. que achou como único atributo deste princípio eterno a palavra “Uno”. em algum momento se encontraram idênticos neste úni­ co princípio. Nem na Bíblia se insi­ nua. ou­ tro. ninguém mais ousou isto na filosofia. O sistema dele está de um certo modo reduzido a dois grandes momentos: um as­ cendente. (Evidente­ mente é um esquema nosso de um pensamento de Platão. Mesmo Plotino. que o mundo se fez do nada. de “um termo anterior” à criação do mundo. pelo qual tentamos entender como deste “algo eterno” procedem todas as coisas. até opostos tantas vezes. neste caso. descendente. já que dele procede tudo o que existe. (A termi­ nologia “ascendente” e “descendente” não é de Hegel e a usamos aqui apenas para distinguir mais nitidamente os diversos aspectos do problema. com a qual se começou a fazer alguma coisa. Não pode gerar a pluralidade o que é radicalmente pura unidade. Antes de tudo. termina afirmando que do Uno procede indire­ tamente a Matéria com os seres materiais todos que co­ nhecemos. Platão: apresentamos no grá­ fico da página seguinte um esquema que pretende repre­ sentar de algum modo o pensamento platônico. espiritualistas ou materialistas. à pró­ pria matéria. deveríamos enumerar. de certo modo. pelo qual tentamos entender como essa imen­ sidade de seres heterogêneos. O espiritualista poderá falar de um Deus. Esta conclusão nem é espi­ ritualista nem materialista. Mas. Fala-se. Discordam quando se pergunta a natureza deste princípio imprincipiado. Agora voltemos a Hegel. Ninguém dá o que não tem. sem ri­ vais. por mais uno que seja.. incriada. que por sua . de um ser que não é matéria. De onde procedem estes objetos brancos? Da idéia de “branco” anterior.

Aqui vemos uma necessidade lógica e não apenas um fato. exceção feita talvez à idéia de “sensação”. que a soma dos ângulos todos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. Vemos que é possível a procedência. As categorias de Kant 39 . exatamente porque uma não engloba a outra por força de necessidade lógica.) O bem seria para Platão este “algo eterno”. E esta. Em um certo sentido é múltiplo. supremo. Segundo Kant É bom repetir: Kant não quis apresentar o princípio do ser. Há necessidade mesmo que da idéia de “cor” proceda a cor azul. cm geome­ tria. sem mostrar a lógica que exija este fato ser de tal maneira assim que seria absurdo ser de outra maneira. de onde toda realidade procede. 38 Mas o pensamento platônico tropeça em algumas dificuldades. as próprias afirmações em que se fundamenta a assertiva.Qualidade Sensação c °r Verde Este branco Azul Tato B ranco Gosto Preto Este branco Este branco Este branco vez procede (com os demais objetos dos cinco sentidos) da idéia de “sensação” que é uma dentre as muitas quali­ dades englobadas portanto na Idéia superior de “qualida­ de”. E na própria explicação do teorema vamos deduzindo. por exemplo. logo choverá necessaria­ mente. Nem por isto uma comparação com seu pensamento seria desnecessária. pro­ cede da suprema e última idéia de “Bem”. uno. por exemplo? Necessidade nenhuma. Vemos o fato esquematizado. ao explicar. deduzida da anterior. 19. nenhuma pre­ tendeu enumerar todas as suas subdivisões ou explicita­ ções. já que nele estão contidas todas as demais idéias. mas os princípios do conhecer. a origem última do Universo. Não vemos a procedência necessária de cada idéia. passo a passo. (Como se vê. Mas não vemos que é necessária. juntamente com inúmeras outras idéias. Também quando está nublado vemos que é possível chover. Mas não alcança­ mos a necessidade. Platão expôs um fato. Vemos que as idéias procedem umas das outras. último. Nenhum absurdo seria imaginar um mundo sem a cor azul. Mas não pode­ mos concluir: está nublado. E o que queríamos de Platão é que as idéias fossem deduzidas uma da outra como as afirmações to­ das que fazemos.

não graças a um processo pelo qual uma. em síntese. Porque a idéia de cor não contém necessariamente a idéia de “azul”. termina em doze princípios últimos. conter todas as demais coisas. quiçá contraditório. se reduz a uma 40 cos numa realidade anterior. de um certo modo. digamos. Afi­ nal. Mas se alvura não vem de cor. Kant não buscou uma superior a elas na qual elas se en­ globassem. como o fez Platão. Além disto. É a única maneira pela qual Hegel acha possível este movimento ascendente de englobar um mundo profunda­ mente heterogêneo. elas não se deduzem umas das outras. E a idéia de “alvura”? Da idéia de “cor”. Ou que o nada está no ser. idêntica à vida e oposta a ela. O branco. doze categorias. Mas a per­ gunta resta: é possível encontrar outra via? Isto não é possível no pensamento platônico. com a idéia de Bem.(as destituídas de qualquer marca sensorial) são doze. contraditórios. Hegel: a identidade dos opostos momento. idêntico ao ser e oposto a ele. 2) Mas se “C” procede de “B” e “B” de “A”. de onde virá então? Opostos parecem ter a mesma origem: “preto” e “branco” viriam da mesma idéia de cor? Isto importaria em dizer que opostos teriam existido idênti­ 20. Dele todas as coisas devem proceder necessariamente. num certo sentido. O que nos importa no momento é perceber como Hegel conclui sobre a identidade dos opostos: como única ma­ neira de entender a procedência de todos os seres a partir de um único ser. Exis­ tem. E fácil achar isto estranho. as condições que se impõem à solução do problema: 1) este princípio imprincipiado deve ser. Seres opostos são idênticos. Repitamos. existiu de­ pois doutra e dela se explicitou. de uma certa maneira. permanecendo idênticos e permanecendo opostos. de seres. Veremos depois mais detalhadamente este caráter de contradição e de identidade de opostos (conforme números 22 e 23). Não será tão estúpida se refletir­ mos mais. uno e múltiplo. opostos são idênticos. Se contivesse necessariamente. por exemplo.ele não está di­ zendo que cessou a oposição nem que cessou a identidade. A multi­ plicidade está evidente. em algum . Ao dizer Hegel que opostos são idênticos .preste-se bem atenção a isto! . A unidade não é afirmada. o primeiro princípio deve. uma ao “lado da outra”. num ser que seja a origem de tudo. A explicação está ineficiente. Per­ gunto: de onde vem este “alvo” que vejo neste obje­ to? E vem a resposta conforme o esquema anterior: da idéia de “alvura”. qual será a conclusão? Que. e se admitirmos que tudo veio de um único ser. O processo do conhecimento em Kant. segue-se que “C” es­ teve contido antes em “B” e “B” contido em “A”. Hegel poderia dizer que a morte está na vida. fórmula que eu estabeleceria nestes termos: “cor” + “al­ vura” = “branco”. portanto. A idéia de uma “identidade de opostos” parece es­ quisita à primeira vista. Se admitirmos que no Universo há seres opostos. tudo o que fosse colorido seria azulado.

A dialética he­ geliana tem três unidades que ele denomina de Tese. Fixemos mais a atenção na dialética hegeliana: uma dialética não é um movimento simples. a Hegel. Negação e Negação da Negação. à oposição que existe na realidade anterior. nunca surgirá uma segunda realidade. Tese. Vamos partir de exemplos bem ma­ teriais.. Se tudo estiver profundamente pacificado dentro de cada um destes três exemplos. planta. Mas em Hegel esta dedução (esta impossibilidade de o primeiro ser restar o único) tem sua explicação. Podemos então dizer que a planta está na semen­ te. oposição. Quando tentamos imaginar um princípio de todos os seres. sensíveis. único. necessa­ riamente. como as realidades se deduzem necessariamente. existe. 22. já o dissemos. É composta dc várias unidades. na semente. etc. eternamente idêntico a si próprio. Antítese. e que convém reler. como o fez Hegel: de um ovo surge um pintinho. Algo no ovo conspira contra este estado atual e busca um es­ tado novo. E quando a segunda realidade surge (pintinho. tangíveis.. sem nenhuma necessidade imperiosa. Afirmação. contradição. criança). necessariamente. portanto. Se perguntamos. E por este conflito. E por isto não satisfazem como explicação do Universo. Dc uma semente surge a planta. se nenhuma luta. (conforme número 20). O mesmo se diga da semente e da criança. idêntica. na criança. 42 Hegel não daria estes exemplos. houver. antes de colocá-los ao nível das categorias de puros universais. Antítese e Síntese. mais freqüentemente. a resposta está aí: ele carrega em si a contradição e a luta de opostos. pois. se origina. é necessário 43 . ou. forçosamente. Deve haver uma contradição no ovo. desta luta de opostos. sem dele procederem novos seres? O que é que explica o movi­ mento descendente. no número 20. De uma criança surge o adolescente. que esteja isenta deste movimento dia­ lético. que existe dentro de cada realida­ de. pelo qual. Não fala aqui de coisas tangíveis. eterno. Sc perguntamos por que o princípio imprincipiado não resta eternamente a única realidade. graças à contradição. Surgiu da realidade an­ terior. Síntese Estamos falando da dialética hegeliana: dc um mo­ vimento pelo qual realidades novas se explicitam.21. Hegel aqui fala de universais não sensoriais. O movimento descendente Por que um ser uno. Nenhuma realidade. É exatamente a estranha afirmação feita há pouco: a iden­ tidade dos opostos. a resposta é esta: por um movimento dialético. não ficou nele mesmo. a realidade nova. sensíveis. Os próprios ter­ mos lembram a identidade dos opostos referida acima. Daremos um exemplo hegeliano logo abaixo (conforme números 25 e 26). Mas tais exemplos são mais inteligíveis e neles está salva toda a lógica de Hegel de uma identidade dc opos­ tos. surgiu do nada? Não. se deduzem. as realidades vão se deduzindo umas das ou­ tras? Isto não tem explicação no pensamento de Platão nem em vários outros sistemas que apenas apresentam um fato.

Em português diríamos que uma contradi­ ção sustentada (suspensa) não é uma contradição cessa­ da. Mas quando estamos no primeiro mo­ mento deste movimento dialético. quando suscita uma nova negação. cessou. a luta de opostos vigen­ te entre a Tese e a Antítese. Auflteben Tese é afirmação. usa um só ver­ bo que exprime as modalidades: suspender e cessar: Aufheben. Sín­ tese. Mas não é uma identidade. Mas nela não cessou definiti­ vamente toda e qualquer luta de opostos. E porque a oposição continua é que a dialética acontece. Foi dito acima: “suspender” ou “cessar”. está suspensa. Hegel. na unidade da Síntese. de Tese.que nele coisas opostas tenham em algum sentido exis­ tido idênticas. capaz de reaparecer no futuro? A resposta hegeliana é que tal contradição está “aufgehoben” (particípio passado de “aufheben”). alemão que era. não restou tudo na unidade original da primeira categoria. Uma vez explicitada a oposição. Coloca­ mos dois verbos. 23. Como suspender uma pena de morte não é fazê-la cessar. Sustada em um sentido. enquanto prescindimos do momento se­ guinte. podemos dizer que a Antítese já está na Tese. se explicou necessariamente dialeticamente. É importante atentar para os sentidos. Se fixamos nossa atenção apenas ao primeiro mo­ mento (a Tese). No que se refere à tensão anterior en­ tre Tese e Antítese. na Tese. há uma oposição superada. os dois opostos vão encontrar sua identidade num terceiro mo­ mento: na Síntese. mas tudo o que existe se deduziu. A Antítese é negação do que se afirmara antes. como resta na Síntese? Está definitivamente extinta? Cessou mesmo? Ou apenas está sustada. Exa­ tamente por isto. Antítese. Ela já carrega em si sua contradição. Perguntamos então a Hegel: a contradição. A Síntese se transforma por sua vez numa nova Tese de outra tríade. A tensão entre estes dois termos encontra sua conciliação na Síntese. nega­ ção da negação. No segundo caso. entrou em um estado definitivo. E se nos lembramos ainda do princípio hegeliano da identi­ dade dos opostos (conforme número 20) podemos repe­ tir: A Antítese está na Tese. podemos perguntar: onde está a Antítese? Como cada momento se deduz do anterior. a contradição está implícita na Tese. cessando a oposição. Mas só se explicita depois o que já existiu implícito antes. a pena que se coloca contra o réu cessou provisoriamente. poderá re­ cair sobre ele novamente. está ao mes­ mo tempo sustada e cessada. Poderíamos representar graficamente o mo 44 45 . Um processo decorre. cessada. idêntica à Tese e oposta a ela. No primeiro caso. Nela algo é afirmado. Ela vai fazer “suspender” ou “ces­ sar” a contradição entre a Tese e a Antítese. E assim por diante. uma nova Antítese que pede outra conciliação numa nova Síntese. Ela se ex­ plicita no segundo momento quando a própria Antítese se explicita. extinguiu-se. suspensa. ambos intencionalmente buscados por Hegel num verbo só de sua língua. cessada em outro. de categorias que se opõem e se contradizem.

que entre a primeira Tese e a última Síntese tenha havido uma “queda”. Este. mais vasto. Estava nele implí­ cito e se explicitou depois. uma “deteriorização” ou algo semelhante. Antítese. em direção oblíqua descendente. se procede do abstrato para o concreto. está de algum modo contido num conceito (do qual procede) mais vasto. Mas como esta­ T AS T AS T AS T AS T AS T AS TA Neste gráfico. T 24.o dc “sensação”. Deve ser. mais amplo do que todos os momentos que dele se explicitam. Explicitação e concretização Foi dito acima (número 21) que o momento poste­ rior está sempre contido no anterior. portanto. estava implicitamente contida na primeira Tese da primeiríssi­ AS T AS T AS ma tríade. Antítese. em termos de conceitos. Nem Hegel disse tal coisa nem este gráfico pretende representá-la. num conceito. por sua vez. ve­ mos sempre a tríade TAS (Tese. por um instante. é o mais abstrato. Além disto. mais abstrato: . O menos vasto é o mais concreto. mais vasto. enquanto não podemos exem­ plificar com categorias hegelianas. aos exemplos do número 18. dc conceitos (conforme nú­ meros 3 e 5). mos tratando de categorias. por exem­ plo. Não só isto: todos os momentos contidos en­ T AS tre a primeira Tese e a última Síntese já estavam implí­ T AS citos neste primeiríssimo momento. implícito. mais abstrato. anterior. com nova tríade. não busquemos outros significados neste gráfico. de “cor”. da última tríade do esquema que apresentamos. O “azul” é um conceito que está de algum modo englobado. Mas cada Síntese (S) se transforma cm nova Tese (T) (em vertical.vimento dialético de Hegel no modelo a seguir em que cada Síntese é por sua vez transformada na Tese de nova tríade. Assim também é o movimento da dialética hegeliana: enquan­ to se procede do implícito para o explícito. Não imaginemos. enquanto se defronta com nova negação. portanto. um “regresso”. Volte­ mos. no gráfico) que inicia novo movimento dialéti­ co. T AS O processo dialético não é apenas de explicita­ T AS ção. 46 47 . mas também dc concretização. o mais vasto. Síntese). O momento ante­ T AS rior deve englobar todos os momentos posteriores. A última Síntese.

a mais abstrata. aqui referida. não é nenhum ser determinado. este ainda não basta. Nem podemos dizer que seja o de “cor” porque não engloba todo e qualquer conceito. puro Ser. Qual é. Hegel não pretende “inventar” mas “descobrir” a realidade como ela é. o NADA. está de algum modo se aproximando mais do Nada. “odor”.Busquemos agora uma Síntese do Ser e do Nada. a Antítese de Ser? É o não-ser. a primeiríssima Tese desta primeira tríade hegeliana? Deve ser uma catego­ ria. ao falar do puro conceito de Ser. Queríamos apenas estabelecer dois critérios (de explicitação e con­ cretização) para entendermos quais devem ser necessa­ riamente as categorias de Hegel. mais abstrata. Há tantos conceitos exemplos: “espírito”. regredindo. “existência” etc. 26. arbitrariamente. diminuir. Todos estes conceitos recaem sob o conceito comum de movimento. Qual é a negação. então. Matéria = Ser + materialidade. estamos em condições bem mais fáceis de en­ contrar sua Antítese e sua Síntese. A primeira tríade Os exemplos acima . ou seja. E achada a primei­ ra Tese. “vermelho”. Mas aqui. o conceito mais universal e mais abstrato. individualizado. Quando digo “matéria”. Não englobaria os de “som”. Falo de Ser. Está em direção ao mais “ser”. progredir. que englobe cm si tudo o mais. . aumentando. A primeiríssima Tese do sistema de Hegel é portanto o “Ser”.que de si nada dizem necessariamente de “sensação” ! Mas se conside­ rarmos o conceito de “SER” temos a categoria mais vasta. apenas Ser. está sendo menos. Como se poderia dizer que o Nada e o Ser são idênti­ cos? Antes de tudo convém observar que a categoria de Ser.foi dito explicitamente . Porque não se trata de estabelecer. regre­ dir. A cate­ goria de DEVIR é pois a síntese do Ser e do Nada. então. idêntico ao Ser Vejamos agora até que ponto o primeiro exemplo dialético de Hegel confirma as condições preestabelecidas de crescente explicitação e concretização e de iden­ tidade de opostos.não foram dados com categorias hegelianas. devir. crescer. Qualquer ser indi­ vidual é Ser mais inúmeros outros atributos. 48 Quando algo está crescendo. etc. mais ampla. nem nenhum atributo. está “sendo” mais. nenhuma determi­ nação a mais. capaz de envolver todos estes exemplos até aqui citados. decrescer. vir-a-ser. Busquemos agora uma cate­ goria que englobe todos estes verbos. que não são de si sinônimos de Ser. . progredindo. diminuindo. que seja síntese de todas estas ações: aumentar. devo excluir este “mais” (+). Qual deve ser. se desenvolvendo. na qual todas as outras se encontram implicitamente. O nada. a mais universal. tenho um conceito que é Ser mais alguma coisa. Quando algo está definhando. algumas categorias. concretamente existindo. E se nos refugiamos no conceito mais amplo de “sensação”. 25. abrangedor de qualquer outro conceito? Não podemos dizer que seja o conceito de “azul” por­ que não abrange o de “verde”.

é de se esperar que estas sejam mais concre­ tas e existam em Devir implicitamente. atributos. de todas.Acabei de dizer que qualquer objeto. Teríamos então: ela é jovem. fazer agora este exercício mental de destituir um determinado ser de todas as suas determi­ nações até coincidir com o puro conceito de Ser. pois. . E estes atributos. inúmeras determinações. loura. Se já prescindimos de tantas que elas ficaram reduzidas a quatro.) Mas é o quê? (Esta afirmação de Ser eqüivale a quê?). Prescindamos agora da última. 27. Evidentemente nesta relação já estão omissas mui­ tas outras determinações que se poderiam acrescer. qual­ quer movimento. já temos meio cami­ nho andado. Prescindamos agora da últi­ ma e. sem qual­ quer determinação. Realmente Devir está implícito em Ser. passagem. é que constituem este algo a mais que excede. O nosso exercício é exatamente de prescindir destas determinações. puro Ser. E te­ remos. Se compararmos agora Devir com as próprias categorias que se seguem. como novas Teses e Antíteses. além do puro conceito de Ser. tomarmos um ser individual e mental­ mente dele retirarmos todas as suas determinações. determinações. visto que Ser e Nada são idênticos. agora. alva. Se. por conseguinte. Teríamos: ela é loura. Devir as inclui implicitamente. Vamos. Não faz mal. O mais explícito e o mais concreto Outras condições preestabelecidas do movimento dialético são uma passagem do mais abstrato para o mais concreto e do mais implícito para o mais explícito. De fato. Devir é também uma categoria mais con­ creta do que a de Ser que é a noção mais abstrata que se pode imaginar. Teríamos apenas “ela é”. absolutamente de todas as determinações. ab­ solutamente todas. Imaginemos uma senhorita com os seguintes atri­ butos: . teremos o próprio conceito de Ser. temos o próprio Nada. ao término. É uma modali­ dade de Ser.Ela é jovem loura alva culta. é uma modalida­ de inclusa na categoria geral de Devir. qualquer ser concreta e individualmente existente tem. transição. (Dizer “é” é fazer a afirmação de Ser. Porque a diferença entre o conceito de Ser e qualquer Ser concretamente existente são os seus atributos. Elas incluem De­ vir explicitamente. que está fora do conceito de Ser. Prescindamos de mais duas. Nada! Quan­ do chegamos à conceituação de Ser. portanto.

nenhum valor quantitativo representado. não corresponde ao realmente desenvolvido por Hegel que ó bem maior. A primeira tríade do Ser. Física e Orgânica. 2. Igualmente se distinga Idéia. Espírito se subdivide em Subjetivo. portanto. 7. Devir. Natureza e Espírito. Essência. seja do Sistema todo. Não há aqui. Nada. “Ser”. pois. e portanto de todo o Sis­ tema. E Espaço é a primeira categoria da Na­ tureza Mecânica. Objetivo e Absoluto. 3. primeiríssima categoria de “Ser”. 53 . é Ser. seja de cada parte. 4. 6. A Idéia se subdivide em Ser. da primeira par­ te da Idéia. Distinga-se. 5. o número de tríades. primeira parte do Sistema da Idéia Absoluta que é última categoria da Idéia.O SISTEMA EM SUAS PARTES Explicando o gráfico 1. O Sistema globalmente se divide em três partes: Idéia. Noção. Neste gráfico. A Natureza se subdivide em Mecânica.

Síntese. Antítese. De tríade em tríade. do Nada. Nem iremos responder a todas. Antíteses. E surge real­ mente uma grande Antítese de toda esta série de tríades anteriores. a respeito do Ser.8. A exigüidade deste trabalho não comporta ambição maior do que a de levar o interes­ sado a obras de amplitude e especialização no assunto. Não vamos. 9. Vamos apresentar apenas os delincamentos gerais do Sistema. A primeira série de tríades se chama a Idéia. por exemplo. é de se esperar que algo de completamente novo venha a surgir. que se po­ dem levantar a estas alturas da reflexão hegeliana. como se fez antes. A divisão tripartida do sistema Por onde marcha e para onde marcha este movi­ mento dialético? Que nomes outros. Reli­ gião. Cada uma destas divisões tripartidas corresponde sempre a Tese. munido de um mínimo de iniciação às teses básicas do pensamento hegeliano. S er D m > Essência c /r •„>H Noção * * * * * * * DIVISÃO * * * * * * Mecânica DO SISTEMA «» Física HEGELIANO c m w cn Orgânica CO * * * * C«O>' H co' * * * * * * * * * n>H Subjetivo C/J m Objetivo cn ■o Cn> cn Absoluta Arte Religião Filosofia 54 28. Filosofia. recebem as seguintes Teses. A segunda série se chama a Natureza. entre outras. E Espírito Absoluto se subdivide em Arte. de dedução em dedução. Sínteses? Que raciocínios se podem apresentar para se perceber a dedução lógica. do Devir? São estas algumas perguntas. globalmen55 . Síntese (= tríade). além da primeira tríade. passando do cada vez mais abs­ trato para o cada vez mais concreto. Embora formada de sucessivas Tese. Antítese. cami­ nhar de tríade em tríade.

agora. Depois se objetiva. portanto. A Idéia Absoluta é plena identidade do sujeito com o objeto. da Noção. A Idéia é inicialmente subjetiva (= Ser). o Universo inteiro dc . assim também cada um destes momentos se subdivide em uma pequena Tese. como Tese. Idéia c Natureza se de­ frontam. Essência (= Antítese) e Noção (= Síntese). da di­ visão do Sistema hegeliano. sem mistura de percepção sensorial. A idéia Vamos recuar ao número 9. E esta Síntese é o Absoluto. Nela o pensamento subjetivo. 30. Há ainda um terceiro grande momento em que Idéia e Natureza se re­ conciliam numa grande Síntese: o Espírito. Depois o subjetivo e o objetivo (Ser e Essência) encontram sua síntese na Noção. como se vê no gráfico.) Mas assim como o Sistema hegeliano. A este ponto. A Idéia Absoluta E a última categoria. b) Estes universais não têm existência objetiva. demanda uma síntese sujeito-objeto. Kant e Hegel. Síntese. A Idéia Absoluta é talvez o que se aproxima de um certo modo do nosso conceito de Deus. Aí encontra­ mos teses de Hegel. Um é apenas parte do outro. é a “Idéia Absoluta”. global­ mente considerado. onde estabelecemos comparação entre Platão. Mais uma vez remetemos o leitor ao gráfico da divisão do Sistema hegeliano. Antítese. desde o primeiro (que se chama o Ser) até a última categoria. a segunda série de tríades se coloca em relação à pri­ meira como uma grande Antítese. Síntese. Lá a idéia está subdividida em três momentos: Ser (= Tese). como Tese e Antítese. a divisão tripartida do sistema de He­ gel: Idéia (= Tese). pois. se distingue daquele “Ser” cuja antítese é o Nada. É a Essência. c) Os universais são os primeiros princípios de onde fluem todos os de­ mais seres (diremos nós agora: de onde fluem a Nature­ za e o Espírito). como estas: a) O Universo (dire­ mos nós agora “a Natureza”) procede de (categorias) universais. se dividiu cm três grandes momen­ tos. última portanto de toda a primeira parte do Sistema. Aí está. Natureza (= Antítese). alheio a si. se exterioriza. uma di­ visão dialética. Antítese. constituem “a idéia”.te. exterior a si. o Ser. O objeto do sujeito é o próprio sujeito. depois que se objetivou. como veremos. Esta primeira parte. Estes universais. reconhece o objeto como idêntico consigo mesmo. todos eles considerados global­ mente. Espírito (= Síntese). A di­ visão tripartida da Idéia é toda ela. anterior à Natureza (e que se chama Idéia Absoluta). (Distingue-se portanto da “Idéia Absoluta” que é apenas a última categoria desta série toda chamada “a Idéia” [conforme gráfico na pági­ na 44]. 29. mais uma vez. Acompanhando este gráfico anexo. vamo-nos demorar um pou­ co em cada um destes três momentos. Em vez dc o sujeito ter o objeto como algo fora de si.

A verdade completa é que o Universo é pensamento (conforme nú­ mero 9) e pensamento dc pensamento. era o seu eu objetivado. sujeito e objeto. O Ser está contido na “Idéia Absoluta” explicitamente. animais. A Idéia Absoluta é. controlada por “causas”. total. O mundo exterior é a própria mente colocada fora de si. diferente de todas es­ tas coisas. formam uma úni­ ca síntese. sem rival. Estamos em condi­ ção agora dc dar uma explicação mais satisfatória. o absoluto sujeito-objeto. e uma primeira Causa. 31.já dissemos. exteriorizada. se a considerarmos sob o aspecto de prin­ cípio e explicação última de onde toda realidade se de­ duz. E tudo o que está no Ser se explicita no que vem depois. A “Idéia Absoluta” está contida no “Ser” implicitamente. afirmando algo como causa de si mesmo. A Idéia Absoluta é o Infinito absoluto. pelo conhecimento de si. à luz apenas de algumas. oposição. pois. Trata-se de um sistema de idéias. até à última. sujeito. É ela. A “Idéia Absoluta” se explica por tudo o que vem antes. É a primeira razão de que antes se falava. é coextensiva a toda realidade. E es­ ta primeira tríade se explica por tudo o que vem depois até a “Idéia Absoluta”. havia um princípio e este devia ser “Idéia”. não é algo oferecido ao conhecimento de uma mente. Mas não se trata de uma idéia distinta das outras. mas não de todas as categorias. de Deus e do Universo. Porque o que está explícito na “Idéia Absoluta” já estava implícito no Ser. É pensamento pensado idêntico a quem o pensa. o pensamen­ to que se pensa a si próprio em todas as coisas. Idéia e Razão O que queríamos inicialmente era explicar o mun­ do. objetivação. para se identificar consigo própria. Dissemos que uma primeira Razão pode explicar a si própria. Mas esta mente que conhece e estas coisas que são conhecidas. Nela todos os obstáculos. E ela se explica a si própria. A Ra­ . Devir”. E para explicá-lo optamos por uma primeira Razão. Hegel a chama tam­ bém “Razão”. formando. temos uma visão inverídica do Universo. foi assimi­ lada na identidade dc si. Se nós olhamos o mundo como um sistema de “maté­ ria” governada por “Forças”. É a definição completa. que vão desde a pri­ meira. que é a primeiríssima tese da primeiríssima tríade e se chama Ser. O que era obstáculo. Hegel achou que anterior à Natureza. homens. de universais. plantas. desde o “Ser. O mundo visto na sua verdade outra coisa não é senão a Idéia Absoluta. unidade: a Idéia Absoluta. como há na via causai. não. a Idéia Absoluta. de categorias. Deus é o pensamento do pen­ samento. oposições (antítese) estão superados. Esta série toda se chama sim­ plesmente “Idéia” . pois. Agora que esta exteriorização.coisas. Não há um só momento inexplicável. acaba­ da. nesta unidade. Nada. em vez de primeira Causa (conforme números 2 e 3). o pensamento dos pensamentos. numa unidade única e universal. anterior à Natureza e que se chama “Idéia Absoluta”. ao Mundo. a verdade absoluta.

porque tem em si a explicação de si. depois no animal. Natureza mecânica é a primeira fase. Também há um processo de interioridade. é um processo lógico. idêntica à Tese e oposta a ela. Apenas esta diferença e multiplicidade de partes é si­ multânea no Espaço e sucessiva no Tempo. Tempo. idêntica à Idéia e oposta a ela. A Matéria é. “física” (= Antítese) e “orgânica” (= Síntese). um lado distinto de outro lado. que é própria da Razão. como sua antítese. Ela é a Idéia mas num outro mo­ mento dialético. aos objetos individuais. aqui ainda precária e débil. a Razão pode ser dita e aceita como razão de si mesma. Todo o processo de dedução das categorias. gravitação. é a idéia alienada. É um plano puramente abstrato. de fato. como pensamento puro. sofre gravitação etc. na sua interioridade e subjetividade. A Idéia. Como a Idéia se subdividiu em uma pequena Tese. é interna a si mesma. por menor que seja. no espaço. Antítese.zão se explicita a si própria. que não se constitua de partes várias e vários lados. Noção). na gravitação. O que temos agora é parte distinta de parte. Agora temos a absoluta exterioridade expressa cm Espaço. objetivada. Síntese (= Ser. A Natureza Dissemos que a Antítese está na Tese. de objetivação. a gravitação uma busca de unidade e revela uma ação da Razão. no Tempo. na sua alteridade. superando a multiplicidade anterior. E. E por isto. na Matéria. primeiro na planta. uma parte diferente de outra parte. Não é pois a Natureza algo totalmente desvinculado da Idéia. dc oposição. neste momento. já que tudo está no tempo. Podemos dizer. Essência. E vice-versa. Esta Natureza mecânica. O momento da Idéia é também a Lógica de Hegel. Matéria. Na Natureza física chegamos à concretização das coisas. tem sua expressão ru­ dimentar. A Nature­ za é a Idéia exteriorizada. E Tempo é este instante diferente daquele. esta parte que não é aquela parte. portanto: a Nature­ za está na Idéia. também a Natureza tem sua subdivisão numa pequena tríade: “mecânica” (= Tese). É go­ vernada por puro mecanismo. Por­ que Espaço é sempre esta parte “espacial” distinta da­ quela outra. ilógica. Não há matéria. em qualquer objeto. É a multiplici­ dade expressa no Espaço. assim constituí­ da. Aqui chegamos às formas e espécies da Natureza inorgânica. A Natureza física su­ cede à mecânica. 32. Entretanto. com seus caracteres e atributos individuais e intransferíveis. de consciên- . O primeiro momento é a Idéia em si mesma. dos universais. é matéria. Tempo. começa a adquirir unidade cada vez maior. a busca de unidade. Depois vem a Natureza orgânica que. A Natureza. num fluxo dedutivo do im­ plícito para o explícito. isto que não é aquilo. é carente de qualquer unidade e subjetividade. Esta interiorida­ de passa dialeticamentc à sua Antítese de exterioridade. emergindo do nada. Anteriormente falamos de Espaço. Matéria. Todas estas categorias podem ser aplicadas in­ diferentemente às coisas concretas.

Poderá alguém. Não se trata de um processo subjeti­ vo. dissemos. Respondemos que cada coisa . . de uma soma de universais. Não é porque Hegel pensou que o Universo existe. so­ nora (naturalmente terá outros atributos. por exemplo. Se as ca­ tegorias universais de Hegel não chegarem a cada coisa. que é feita esta bola de pingue-pongue: . É disto.continua in­ solúvel. e não deste ob­ jeto concreto. mensurável.e foi a isto que nos propomos com Hegel inicialmente (conforme número 1) . Tudo o que estas coisas têm. sonoridade. rotundidade. Hegel não pretendeu criar coisas por força do pensamento dedutivo. 31. Mas o leitor. A Natureza existe porque existe a Idéia. porque Hegel a deduziu. nem plantas dc matéria inanimada. Trata-se de dedução de “universais”. Este retomo pleno à sub­ jetividade se consolida com o Homem. individualmente existindo. alva. Não se trata de deduzir coisas (esta mesa. Hegel apenas descobre o que existia antes. são universais. como antes e como sempre. enquanto Hegel pretende apenas deduzir pen­ samento de pensamento. poderá estender o exercício a outros aspectos). Hegel continua deduzindo idéias de idéias. Estes atributos são universais: alvura. rotundidade. para as quais levantou-se o desa­ fio de uma explicação em busca de sua origem. indepen­ dente da mente humana: uma série de universais se ex­ plicitando. Deles declinamos alguns. em contraposição à pura objetividade inicial da Natureza. E se na Natureza falamos de matéria inorgânica. plantas. já aflorando no animal. tangível. Evidentemente esta bola não existe. animais. desapontado. Tenho aqui uma bola de pingue-pongue. Melhor situados conceitualmente. Transição Idéia/Natureza A Natureza acaba de ser conceituada e exemplifica­ da em suas subdivisões. que é esta caneta. Continua. redonda. a explicação do Universo que buscávamos . reais. sonoridade. Ela é leve. não faz outra coisa. Antes de tudo é preciso dissolver uma ambigüidade muito comum a toda mente que se aproxima deste pro­ blema. deduzindo idéia de animal da idéia de planta. di­ zer que. le­ veza. É uma soma de uni­ versais.não é senão idéia. senão abs­ tratas reflexões. Declinamos apenas estes para exemplo e exercício. não porque Hegel a deduziu. feito de coisas tangíveis. é uma soma de universais. E apesar delas aí está o mundo. Com ele já começa o Espírito. tudo o que elas são. este lá­ pis etc. podemos regredir um pouco para um problema crucial do hegelianismo e de todo idealismo. É a transi­ ção da Idéia para a Natureza. leveza.) de idéias.de alvura. como deduz esta idéia de uma anteri­ or. este quadro-negro etc.esta mesa. 33. Hegel não está deduzindo animais de plantas. se quiser. Mas uma questão pode surgir: será 63 . este pedaço de giz etc.cia. Ser e Conhecer Voltemos a uma questão atrás: uma bola de pin­ gue-pongue. Mas este já não é mais pura Natureza.

Porque. Tudo o que existe é conhecivel e se traduz em cate­ gorias universais. E o que está fora da mente e com ela se relacio­ na como o objeto com o sujeito. Esta soma de universais existe porque. tem existência. rotundidade. não estaremos aí incluindo os universais sensíveis. contra Platão (conforme núme­ ros 7 e 9). mas não existência. Estes teriam aplicação apenas a determinadas coisas. como a bola de pingue-pongue. uma coi­ sa. De um objeto não conhecemos senão conceitos. sem estes. Quem existe.que uma bola se reduz a isto mesmo? Será que não há algo inconhecível. A expressão “identida­ de do Ser e do Conhecer” expressa que o sujeito (o lado do conhecimento) e o objeto (o lado do ser) são idênti­ cos. Hegel afirma que as suas categorias são objetivas. em afirmar 65 . universais. totalmente outra realidade que não os meus conceitos. Poder-se-ia dizer que há meus conceitos da coisa e há a coisa em si. Isto importaria. sonoridade etc. cada uma exterior à outra. Para prosseguirmos esta reflexão. Não seriam. Mas quando queremos reduzir uma bola de pingue-pongue a universais. o conhecimento parece impossível. Para negar a objetividade dos universais deveríamos negar a objetividade da bola. 64 aqui usada como tudo aquilo que é objeto do conheci­ mento. sais existem porque a bola existe. em afirmar que Ser e Conhecer são a mesma coisa. em favor de Platão e contra Hegel? Além disto. Qual­ quer objeto se dissolve. Sujeito e objeto não são duas realidades indepen­ dentes. Mas consideran­ do cada um separadamente. pois. conjuntamente. não os universais de que ela é composta. São dois aspectos di­ Para Hegel. E coisa. Isto importa. para Hegel. a bola é objetiva. A razão última da objetividade dos universais está na identidade do Ser e do Conhecer. E a posição de Hegel é exatamente inversa: os universais têm realidade. nenhuma palavra tem sentido. parece dizermos que os univer­ ferentes da mesma realidade. pois. E. alvura. se não aceitamos isto. convém reler toda a distinção feita entre existência e realidade (conforme número 11). no sentido de existir. pois. Conseqüentemente os universais são objetivos. nenhum destes universais tem existência. tão universais como os primeiros. que os universais são objetivos porque a bola é objetiva. indivíduo. forma um indivíduo. entretanto. nenhum pensamento é possível. em soma de uni­ versais. impenetrável? Hegel acha que o inconhecível não existe. analiticamente. A palavra “Ser” é Talvez esta afirmação pareça provar além do que Hegel pretende. Daí concluímos que o objeto nada mais e senão uma soma de universais. das mais sutis do pensamento hegeliano. Hegel acha que não poderia afirmar que tudo o que existe é traduzido em uni­ versais e idêntico a estes universais. é a bola. Ela não é mais do que leveza. Se dizemos. ele distinguiu bem os puros universais dos universais sensíveis. E sem afirmar esta identidade entre Ser e Conhecer.

Ser significa ser para a consciência.também a Natureza começa com a categoria mais va­ zia e mais abstrata do Universo: o Espaço. não se poderia manifestar 66 67 35. Agora. ou aceitamos isto. Agora. Porque Espaço é a suprema oposição do pensamento. com o Espírito. início da Natureza . pois. É a Síntese da Idéia e da Natureza. de si. e admitimos os univer­ sais como objetivos. pois. Por isto. sozinha. A Idéia. saindo de si mesma. É negação dc forma. É afirmar que o inconhecível existe. A Razão que. É pura exteriorida­ de. já que existência é aparência. Espírito Caracterizamos a natureza para entendermos toda a transição entre Idéia e Natureza. Hegel diz que o primeiro momento é a Idéia em si. antítese da Idéia. tem realidade mas não tem existência. se alienan­ do. refleti­ mos agora sobre o primeiríssimo momento da Natureza (a primeira categoria da Natureza mecânica).o de Ser . já vimos. esta aparência é a Na­ tureza. e caímos na aceitação do inconhecível. se torna seu oposto. E se quisermos falar. E o conhecemos como uma soma de universais. Ou negamos isto. distinta de parte. O Universo inteiro não é outra coisa senão o conteúdo da consciência. não pode se manifestar a si mesma. como antes. a Natureza está em sua suprema opo­ sição à Idéia. é a Natureza a esfera de muitas coisas. por não encontrar universais que sejam a sua realidade. Assim como a Idéia é a esfera de muitos conceitos. já vimos tam­ bém (conforme número 11). Espaço. 36. Porque a Idéia. de determina­ ção. em si. antes de se manifes­ tar e aparecer. Pensamento é interioridade. um sujeito.que algo da coisa resta ineonhecível. Um objeto não é objeto senão para uma consciência. Neste momento chamado Espaço. Espaço é es­ sencialmente vazio. é a mente absoluta. Espaço é parte fora de parte.a pura exterioridade começa a ce­ der lugar à interioridade. o Espaço. É a Natureza. toma existên­ cia. A única maneira de superar estes limites que se tenta impor ao conhecimento é a identidade do Ser e do Co­ nhecer. é Deus como Ele é e em si mesmo. aparece. O segundo é a Idéia fora de si. Espaço é exterioridade. começa o retomo. A Idéia. estaria cada uma dentro de outra. O objeto é objeto como o conhece­ mos.porque é com ele que começa o Espírito . Com ele a Idéia será não apenas em si. mas também para si. A Idéia se manifesta. de diferenciação. o objeto começa a se identifi­ car com o sujeito e o irracional começa a se racionalizar. de conteúdo. englobada na interioridade. de um certo modo se perdendo. se ob­ jetiva a Idéia. As partes do Espaço são partes exatamente porque estão exteriores às outras. Continuando. porque não tem existência. Só por metáfora se pode falar de partes de O Espírito é o terceiro grande momento do sistema de Hegel. Esta manifestação. exteriorizada e irra­ cional. E como Idéia come­ ça com o conceito mais vazio e mais abstrato . com o Homem . se exteriorizando. existindo antes do Universo. pensamento. Saindo.

Espírito subjetivo e objetivo Como aconteceu com a Idéia (conforme número 29) e com a Natureza (conforme número 32) também o Espírito sofre uma subdivisão numa Tese (Espírito Sub­ jetivo). De um lado o Homem é parte da Natureza. passa para um estágio de maior liberdade.nem existir . Ela se determina. Antítese (Espírito Objetivo) e numa Síntese (Espírito Absoluto). aprisionada. As leis do Estado. 37. A mente não é determinada por algo exterior a ela. Pelo homem. o Estado. percep­ ção. consoante com as demais mentes. sem condições de se manifestar. ao Espírito objetivo. É um objeto material. colocadas fora de cada um dos homens. Não é que a Lei. desde o “subjetivo” até o “absoluto”. a objetivação não propriamente do meu eu no que ele tem de único. se objetiva fora de si mesma. a Moral etc. É animal. materializada no tempo e no espaço. de certo modo. por­ que a pura exterioridade jamais seria condição de mani­ festação do que é pura interioridade e subjetividade. Todas as instituições humanas pertencem.conforme acima . se toma exterior ao Homem. não serão a expressão do capri­ cho de um homem. tência na interioridade de cada indivíduo. E quem ama a Lei não é escravo da Lei. fazendo prevalecer sua vontade so­ bre a dos demais. a Política são modalidades do Espírito despidas do caráter de in­ dividualidade. existindo exteriorizado. A História Num segundo momento. isto é. particular e excêntrico. sai de si próprio. imaginação. o Estado. Realidades da psicologia humana como desejo. O Espírito subjetivo é o espírito humano ainda en­ cerrado em sua interioridade. lhe sejam impostos de fora para dentro. com par­ tes distintas de partes. Mas categori­ as outras como a Moral. ele vai crescendo em liberdade. e não apenas no Direito. Nelas. espírito. objetivadas. enriquecida pelo seu estado de Antítese e de alie­ nação. O processo é inverso: a mente ao se exterioriz^r nas instituições hu­ manas faz com que sua vontade coincida com a Lei. Tais realidades são. subjetividade. 38. a Moral etc. memória. pois. No momento da Natureza a Idéia estava. a Razão está voltando a si mesma. No Espírito objetivo a mente se liberta. Doutro lado. opressiva e ditatorialmente. o Espírito se objetiva. o Direito. são categorias do Espírito subjetivo. é a Razão exter­ na existindo corporifícada. a História. Porque as categorias psicológicas supra-aludidas só têm exis­ Em toda a evolução do Espírito. sob a dominação das leis da Natu­ reza. portanto. emoção. portanto.agora tem no Homem sua manifestação e sua existência dentro da Natureza. em cn- 68 69 . Serão a expressão da vontade coleti­ va. ele é um ser espiritual. a mente está presa dentro de si mesma. mas objetivação do meu eu no que ele tem de comum com todos os homens. No Espírito subjetivo. pois. ao passar o Espírito do plano subjetivo para o objetivo. inteligência.

neste momento de apresentação do Espírito não se pode passar adiante sem uma pausa. para a apresentação da concepção hegeliana da História sob alguns itens: a) A característica da matéria é a gravitação. 70 d) Esta conquista gradativa da liberdade não se faz graças a heroísmos. sobretudo no momento primeiro da Natureza: mecânica. Depois. em que alguns eram livres (as oligarquias privilegiadas. utilizando os ho­ mens da História universal.contro consigo mesmo. da matéria. É as­ sim que a encontramos descrita na Natureza. das realizações coletivas da mente humana. escravos. O Espírito é único através delas. vieram civili­ zações como a grega. escravos. para através disto que eles buscaram restar para a humanidade uma liberdade maior. Espírito Absoluto O terceiro momento é o Espírito absoluto. c) A História. As civi­ lizações se sucedem várias. em conhecimento de si. re­ presenta globalmente um momento do Espírito. O Espí­ rito humano no plano anterior —a mente subjetiva das realidades psicológicas e a mente objetivada das reali­ 71 . A História toda se toma como que uma espécie de strip-tease do Espírito. entre elas. altruísmos. Cada civili­ zação. e) De fato. as aristocracias) e os demais. num processo de conscientização. Se sujeito c obje­ to. seu regime político. sua ética. Isto é também o que se passa em proporções menores ao longo de todos os mo­ mentos do Espírito objetivo. Os fatos da História comprovam isto. sucinta que seja. A liberdade é uma determinação interior do ser. se coinci­ dem numa síntese. regra ge­ ral. pura exterioridade. Nos dois momentos anteriores sujeito e objeto (Espíritos subjeti­ vo e objetivo) se limitam mutuamente. A gravitação é uma determinação ex­ terior ao ser e é própria da Natureza. é autodeterminação. da sede do poder da glória. cada civilização é um novo momento do despertar do Espírito ao longo da História. a característica do Espí­ rito é a liberdade. Nas primeiras civilizações. um estágio superior de civilização em que eles não pensaram. da ambição. imbuídos que são. to­ mando consciência e posse de si por uma liberdade cada vez maior. se revelando a si próprio. É o Espírito absoluto. das instituições humanas. no caso. em sua fase objetiva. é necessariamente um crescimento de liberdade. que serão exceção na História humana. a História humana não faz exceção a isto. cessam as limitações recíprocas e o Espírito se toma infinito. Porque é bastante ampla a obra de Hegel sobre a Filosofia da His­ tória. E existe uma “astúcia da Razão”. Finalmente chegaremos a um está­ gio da História em que nenhum será mais escravo e to­ dos serão realmente livres. por exemplo) e os demais. b) Em contraposição a isto. 39. eliminam as mútuas oposições. a romana. sendo um crescimento do Espírito. De fato é a Razão quem dirige a His­ tória. com suas leis. E. apenas um era livre (o Faraó.

O Espírito se percebe então idêntico a todo ser e qual­ quer realidade. superou os limites do sujeito-objeto e se tor­ nou pura liberdade. portanto. Na transição do Espírito objeti­ vo para o absoluto houve uma conquista de maior liber­ dade. É igualmente o conhecimento do Absoluto pelo Absoluto. E o Espírito absoluto. O momento do Espíri­ to absoluto. pela religião ou pela filosofia. são fases do Espírito absoluto. passando da subjetividade às instituições humanas objetivas. Cessada esta dicotomia entre sujeito e objeto. se dá quando a mente se percebe a si própria em qualquer outra coisa. Resta dizer ainda que o Espírito abso­ luto tem a apreensão do Absoluto. Esta apreensão tem três momentos que são subdivisões em momentos ou­ tros do Espírito absoluto: a arte. infmitude. ou qualquer outra coisa que imaginar se possa.zações coletivas . luz ou flor. a religião e a filosofia. realidade. e portanto como oposto. idêntico a toda 72 73 . esta é também a esfera da Religião que outra coisa não é senão o conhecimento de Deus. Todos os modos pelos quais o ser humano pode se tor­ nar consciente do Absoluto. A característica da mente humana é a liberdade. Esta liberdade se tomou maior quando. E porque o Absoluto e Deus são idênticos. Espírito e Absoluto são sinônimos. Talvez finitudes ainda possa haver na esfera da arte e da religião. como objeto. autodeterminação. o Espírito absoluto é necessaria­ mente a consciência de si próprio. a apreensão do divino e do eterno. O Espírito Absoluto é portanto o conhecimento do Espírito pelo Espírito. seja pela arte. Tal Espírito só existe como consciência humana. Ele é então realmente absoluto. a men­ te se tomou idêntica ao Estado e às suas Leis. Mas. seja sol ou terra. Somente na filosofia o Espírito absoluto é ab­ solutamente livre e infinito. Estes três momentos são sucessivas aproximações do Espírito. em busca da plena liberdade e da infmitude. É por­ tanto o próprio conhecimento que o Homem tem do Absoluto através de tudo o que se faz presente à sua consciência e é percebido como idêntico a si próprio. Ele se contempla a si mesmo ao contemplar qualquer coisa. ain­ da neste momento. qualquer instituição do Espírito ob­ jetivo se coloca diante do Homem como algo distinto dele.está limitado. Mas o Espí­ rito que se conhece em toda realidade.