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“A Invasão dos Estorninhos” - PALOMAR - Italo Calvino

Há uma coisa extraordinária para se ver em Roma neste fim de outono:


o céu apinhado de pássaros. O terraço do senhor Palomar é um belo posto de
observação, de onde o olhar paira sobre os telhados num amplo círculo do
horizonte. Sobre esses pássaros, sabe apenas o que ouviu dizer por aí: são
estorninhos que se reúnem em centenas de milhares, provenientes do Norte
da Europa, esperando o momento de partirem todos juntos para as costas da
África. À noite dormem nas árvores da cidade, e quem estaciona o carro às
margens do Tibre pela manhã estará obrigado a lavá-lo de cima a baixo.
Aonde vão durante o dia, que função esta parada prolongada na cidade
desempenha na estratégia das migrações, o que significam para eles essas
imensas congregações vespertinas, esses carrosséis aéreos como numa grande
manobra ou num desfile, o senhor Palomar não chegou ainda a compreender.
As explicações que dão para isso são um tanto duvidosas, condicionadas à
hipóteses, oscilantes entre várias alternativas; e é natural que seja assim,
tratando-se de vozes que passam de boca em boca, mas tem-se a impressão
de que mesmo a ciência, que poderia confirmá-las ou desmenti-las, permanece
incerta, aproximativa. Estando as coisas neste pé, o senhor Palomar decidiu
limitar-se a observar, a fixar nos mínimos detalhes o pouco que consegue ver,
agarrando-se às idéias imediatas que lhe são sugeridas pelo que vê.
No ar violáceo do crepúsculo vê aflorar numa parte do céu uma poeira
microscópica, uma nuvem de asas que voam. Percebe que são milhares e
milhares: a cúpula do céu é por elas invadida. Aquilo que até então lhe
parecera uma imensidão serena e oca agora se revela inteiramente percorrida
por presenças levíssimas e ligeiras.
Visão tranqüilizadora, a passagem das aves migratórias é associada em
nossa memória ancestral ao harmônico suceder das estações; mas o senhor
Palomar, ao contrário, sente nisso um sinal de apreensão. Será porque esse
apinhar-se do céu nos recorda que o equilíbrio da natureza se perdeu? Ou
porque o nosso senso de insegurança projeta em tudo ameaças de catástrofes?
Quando pensamos nos pássaros migratórios imaginamos logo uma
formação de vôo ordenada e compacta, que sulca o céu numa grande fileira ou
falange em ângulo agudo, quase uma forma de passaro composta de
inumeráveis pássaros. Essa imagem não vale para os estorninhos, pelo menos
para esses estorninhos outonais dos céus de Roma: trata-se de uma multidão
aérea que parece sempre pronta a rarefazer-se ou dispersar-se, como grãos de
pouvilho em suspensão num líquido, e em vez disso se condensa
continuamente como se de um conduto invisível o jorro de partículas
turbilhonantes continuasse, sem nunca chegar, no entanto, a saturar a
solução.
A nuvem se dilata, negrejante de asas que se desenham mais nítidas no
céu, sinal de que estão se aproximando. No interior do bando o senhor
Palomar já distingue uma perspectiva, devido ao fato de já haver alguns
voláteis muito próximos em cima de sua cabeça, outros ao longe, outros mais
distantes ainda, e continua a descobrir outros cada vez mais minúsculos e
puntiformes, por quilômetros e quilômetros, poderíamos dizer, atribuindo às
distâncias entre um e outro uma medida quase igual. Mas essa ilusão de
regularidade é traiçoeira, porque nada é mais difícil de avaliar que a densidade
de distribuição dos voláteis em vôo: onde a compacidade do bando parece
estar escurecendo o céu eis que entre um penígero e outro se escancaram
voragens de vazio.
Se se detém alguns minutos observando a disposição dos pássaros
relativamente uns aos outros, o senhor Palomar se sente preso numa trama
cuja continuidade se estende uniforme e sem lacunas, como se ele próprio
também fizesse parte desse corpo em movimento composto de centenas de
corpos separados mas cujo conjunto constitui um objeto unitário, como uma
nuvem ou uma coluna de fumo ou um repuxo, algo que embora seja fluido em
substância adquire solidez na forma. Mas basta que se ponha a seguir com o
olhar um único pássaro para que a dissociação dos elementos se imponha e eis
que a corrente em que se sentia transportado, a rede em que se sentia
suspenso se dissolvem e o efeito é o de uma vertigem que o toma pela boca
do estômago.
Isto acontece, por exemplo, quando o senhor Palomar, depois de haver
persuadido de que os estorninhos em conjunto estão voando em sua direção,
volta o olhar para um pássaro que na verdade está se distanciando, e desse
para outro pássaro que se afasta mas em direção diversa, e em breve percebe
que todos os voláteis que lhe pareciam estar se aproximando na verdade estão
fugindo em todas as direções, como se ele se encontra-se no centro de uma
explosão. Mas basta-lhe voltar os olhos para uma outra zona no céu e ei-los
que se concentram além, num vórtice cada vez mais denso e compacto, assim
como um ímã oculto sob um papel atrai a limalha de ferro compondo desenhos
que s tornam ora mais escuros ora mais claros e por fim se desfazem e deixam
sobre a folha branca um salpicado de fragmentos dispersos.
Finalmente uma forma emerge do confuso bater de asas, avança,
adensa-se: é uma forma circular, como uma esfera, uma bola, o balão das
histórias em quadrinhos de alguém que esteja pensando num céu repleto de
pássaros, uma avalanche de asas que rodopia no ar e envolve todos os
pássaros que voam em torno. Essa esfera constitui um território especial no
espaço uniforme, um volume em movimento em cujos limites – que, no
entanto, se dilatam e se contraem como uma superfície elástica – os
estorninhos podem continuar voando cada qual em sua própria direção desde
que não alterem a forma circular do conjunto.
A certa altura o senhor Palomar se dá conta de que o número de seres
que turbilhonam no interior daquele globo está rapidamente aumentando como
se uma corrente velocíssima despeja-se nele uma nova população com a
rapidez da areia escorrendo na clepsidra. É uma outra multidão de estorninhos
que por sua vez adquire também a forma esférica no interior da forma
precedente. Mas dir-se-ia que a coesão do bando não resiste para além de
certas dimensões: de fato o senhor Palomar já começa a observar uma
dispersão de voláteis pelas bordas, e mesmo verdadeiras fendas que se abrem
desinflando a esfera. Mal teve tempo de aperceber-se disto e já a figura se
dissolveu.
As observações sobre os pássaros se sucedem e se multiplicam em tal
ritmo que para reordená-las na mente o senhor Palomar sente a necessidade
de comunicá-las aos amigos. Também os amigos têm algo a dizer a propósito,
porque já ocorreu a cada um deles interessar-se pelo fenômeno ou
experimentar esse interesse depois que lhes falaram sobre do assunto. É um
argumento que não se pode jamais considerar exaurido e quando um dos
amigos acha que viu alguma coisa de novo ou sente a necessidade de retificar
uma impressão precedente, vê-se na obrigação de telefonar sem perda de
tempo aos demais. Assim, um vai-e-vem de mensagens percorre a rede
telefônica enquanto o céu está sulcado de fileiras de voláteis.
- Você observou como conseguem não se chocar uns cons os outros
meso quando voam muito juntos, mesmo quando seus percursos se
entrecruzam? Parece até que possuem um radar.
Não é verdade. Já encontrei passarinhos estropiados, agonizantes ou
mortos nas calçadas. São as vítimas desses choques no ar, inevitáveis quando
a densidade é muito grande.
Já percebi porque à noite continuam a sobrevoar todos juntos esta parte
da cidade. São como os aviões que giram em cima do aeroporto até receber o
sinal de “pista livre” para aterrar. Por isso os vemos voar tanto tempo em
torno do mesmo local; esperam sua vez de pousar nas árvores onde passaram
a noite.
- Vi como fazem quando descem em direção às árvores. Giram e giram
no céu em espiral, depois um a um se precipitam velocíssimos em direção à
árvore que escolheram, para então frear bruscamente e pousar num ramo.
- Não, os congestionamentos do tráfego aéreo não podem ser um
problema para eles. Cada pássaro tem uma árvore que é a sua, o seu ramo
próprio e o lugar definido em cada ramo. Ele o distingue do alto e mergulha
em sua direção.
- Terão a vista assim tão aguda?
- Ora ...
Esses telefonemas são em geral curtos, mesmo porquê o senhor
Palomar está impaciente para voltar ao terraço, como se tivesse receio de
perder alguma fase decisiva.
Dir-se-ia agora que os pássaros ocupam apenas aquela porção do céu
que ainda está investida pelos raios do Sol no poente. Mas observando melhor
percebe-se que a condensação e a refração dos voláteis se desenrola como
uma longa fita esvoaçante em zigue-zague. No local em que ela se curva o
bando parece mais denso, como um enxame de abelhas; onde ao contrário se
alonga sem torcer-se é apenas um pontilhado de vôos dispersos.
Quando o último clarão do céu desaparece, uma maré de escuridão sobe
do fundo das ruas e submerge o arquipélago de telhas e cúpulas, terraços e
áticos, mirantes e campanários; e a suspensão de asas negras dos invasores
celestes se precipita até confundir-se com o vôo pesado dos aparvalhados e
escagaçantes pombos citadinos.
• O projeto não pode ser encarado como fim, onde você mistifica uma idéia e
estabelece uma linha clara e coerente para atingir um resultado, um objetivo.
Mas mesmo não estabelecendo uma linha, se você já souber o que será, já pré-
determinou um caminho.

• Estou buscando, ou pelo menos vou investigar isso, o espaço sem memória.
Existiria uma memória do espaço? Ou a memória seria das pessoas, enquanto o
espaço não carrega nada? Mas será que a memória seria algo transportado ou
seria a repercussão gerada independentemente do tempo? Será que existiria essa
memória das pessoas?

• Estou pensando em algo que capta, relaciona e transmite o movimento, a ação.


Essa transmissão também sofreria transformação.

• Estava andando na chuva e vi as gotas caindo na água que corria. Fiquei


encantado com aquilo. Elas caíam, transformavam onde caiam, se
transformavam, se misturavam, transformavam-se todas e umas nas outras, iam,
se separavam pelo caminho sem saber mais qual parte era antes.
A nossa relação com a arquitetura e com todas as outras coisas também deveria
ser assim...

E talvez já seja, nós é que insistimos em ver de outro jeito.

• ... plantar árvores mas não porque é política ou culturalmente correto, mas
simplesmente porque acordou com vontade de plantar árvores. Plantar árvores
porque viu uma árvore e achou aquilo parecido com um brócolis, e como gosta de
brócolis imaginou um mundo cheio deles e resolveu plantar um monte...

• Entender a obra como processo, não como fim. O processo é constante e gera
produtos durante, sempre. Sendo a obra esse processo, seus produtos são o que?
E se esses produtos também geram processos, que também geram mais
produtos...
No que acredito ser a arte, processo e produto se misturam, ou melhor, nem existe
mais essa distinção entre um e outro. É sempre ela se retorcendo, esticando,
dobrando,... não se consegue classificar porque não se isolam partes.

• A maneira como pensamos e nos expressamos tenta ser na grande maioria das
vezes um decalque da língua verbal, aquela que conseguimos de maneira direta
falar e escrever. Tentamos universalizar todas a possibilidades de comunicação
em um único meio, capaz de ser “traduzido” sempre. Essa tradução seria o fim de
toda possibilidade de criação em detrimento do desenvolvimento de modos mais
eficientes e seguros de se “transmitir” algo.
A sociedade Ocidental está acostumada a ver as coisas dessa maneira, e encara
a informação como algo único e palpável, portanto “transportável”. Nesse
transporte não haveria mutações nem trocas. A informação sempre chega como
parte. Esse é o nosso ideal de eficiência em comunicação, fazer com que algo vá
de um lugar a outro no menor tempo e com o mínimo de alterações ou
interferências.
Vale a pena pensar um pouco sobre isso. Se a intenção é fazer com que a
informação “vá de um lugar a outro no menor tempo e com o mínimo de alterações
ou interferências possíveis”, qual seria a importância do meio por onde essa
informação é transportada?
Esse meio deve ter uma facilidade muito grande para receber a informação e fazê-
la escorregar da melhor maneira até a outra ponta. Qualquer interferência nesse
percurso não é nem um pouco desejada.
Qualquer semelhança dessas idéias com aquelas dos nossos planejadores
urbanos não é mera coincidência, esse modo de pensar está implícito nos ideais
de modernidade e progresso da nossa sociedade.

Mas qual seria o meio mais comum que essas informações percorrem? Não seria
a própria sociedade? E como ela se comporta conduzindo/gerando informação?

• Uma Arquitetura que seja viva, que reaja a estímulos e que também gere outros.
Uma arquitetura que seja sensível, e não somente programada para responder de
tal maneira em determinada situação.
Uma arquitetura assim deixaria de ser abrigo para se transformar em espaço
semelhante ao homem, espaço co-existente, espaço híbrido.
Nesse espaço Híbrido as ações deixariam de ser somente humanas e a
arquitetura deixaria de ser receptáculo para se transformar em extensão.

• A Arquitetura precisa deixar de ser o aquário para se transformar na água, e o


homem precisa deixar de observar o aquário para se transformar no peixe.
Depois do mergulho ambos se percorrem mutuamente. O peixe gera um fluxo
constante de água dentro de seu corpo, assim como ele mesmo flui
constantemente na água.
Não se tem o idéia de onde ambos se separam, transformam-se em um só pela
ação do movimento.
É a partir dessas idéias que podemos falar no aparecimento de seres híbridos.

• “Impossível explicar. Afasta-se aos poucos daquela zona onde as coisas têm
forma fixa e arestas, onde tudo tem um nome sólido e imutável. Cada vez mais
afundava na região líquida, quieta e insondável, onde pairavam névoas vagas e
frescas como as da madrugada”.
Clarice Lispector

• Não quero contar nada a ninguém, não quero descrever algo nem processos,
quero proporcionar experiências aos outros.
Mais do que isso quero proporcionar sonhos onde eu também possa participar, um
sonho partilhado.
Como compartilhar os sonhos com os outros? Como se comunicar nos sonhos?
Porque será que não conseguimos gritar quando sonhamos?

• A propaganda de massa faz crer numa grande sociabilidade, onde a sociedade


teria um relacionamento amigável com a produção e sua lógica de sua
distribuição.
Mas o problema não está no que se apresenta às pessoas, se é bom ou ruim. O
problema está na relação que essas pessoas estabelecem com o que lhes é
apresentado. As pessoas passam pelas vitrines, vêem os objetos, se submetem
aos apelos, mas não estabelecem contato. Independente de os produtos serem
bons ou ruins continua sendo uma exposição de produtos.
A arquitetura não tem que expor, não precisa reforçar ou esconder, precisa antes
de tudo se relacionar e se transformar com as pessoas. Fora isso, qualquer
julgamento de qualidades fica dependente de posicionamentos externos à coisa.
Porém, para quem está mergulhado não existe a possibilidade de sair, já que não
se entende mais essa separação entre partes. Não há julgamento, só ações
constantes, que também geram reação imediata, e assim por diante. Não há
julgamentos porque não se analisam as ações. As ações são sempre participadas
e coletivas, não se resumem a movimentos independentes, individuais.
Isso não quer dizer que o indivíduo não participe. A diferença é que agora todos
participam e tem consciência dessa participação, não somente ele.

• O Princípio da Incerteza, enunciado por Werner Heisenberg (1901-1976), afirma


que é impossível determinar, com precisão exata e ao mesmo tempo, a velocidade
e a posição de uma partícula subatômica, como um elétron ou um fóton. De
maneira mais genérica, pode-se dizer que é impossível determinar todas as
características de uma partícula simultaneamente: ao se definir uma certa
característica “X”, a característica complementar “Y” torna-se indeterminada. Se,
depois de medir “X”, alguém tentar medir “Y”, esse novo esforço alterará o valor
inicial de “X”, e assim por diante, ad infinutum.

• Um bit é a menor unidade de dado em um computador. Nos computadores


eletrônicos atuais, o bit está sempre em um de dois estados possíveis. É por isto
que se convencionou dizer que o bit pode ser 0 ou 1.

Estado entrelaçado é um efeito de mecânica quântica que torna difusa a distinção


entre partículas individuais, de tal forma que é impossível descrever as duas
partículas separadamente, não importando a distância pela qual as duas estejam
fisicamente separadas. Esta propriedade é chave para o imenso poder da
computação quântica porque ela permite ao computador verificar cada resposta
possível para um problema de uma única vez, fazendo-se valer de todas as
possibilidades dos estados daqueles átomos.
Com o entrelaçamento de partículas, um bit quântico, ou qubit, poderá ter não
apenas seu valor individual (0 ou 1), mas também poderá ter infinitos valores de
seus estados entrelaçados com cada um dos outros qubits. Dois bits podem
representar ou armazenar apenas duas informações, mas dois qubits podem
armazenar quatro dados ao mesmo tempo, os seus próprios e os resultantes de
seu entrelaçamento. Esta vantagem quântica aumenta exponencialmente à
medida que o número de qubits aumenta.

• Situações de equilíbrio levam à cegueira. As moléculas em equilíbrio só vêem as


mais próximas que as rodeiam. Uma situação de não equilíbrio, pelo contrário,
leva a molécula a ver.

• Alguns estudos mostram que o homem é sensível aos sons produzidos por outro
ser humano mais do que os produzidos por outras coisas. Isso demonstra que o
corpo está mais voltado para as atitudes que ele próprio realiza, pois existe uma
pré-disposição biológica para se comunicar e interagir.
Daí a importância de o projeto se relacionar com as pessoas, se transformar como
extensão sua, utilizar seus sentidos e se metamorfosear neles.

• A “lógica” foi criada para suprir as limitações de memória operacional (curto prazo)
do ser humano. Porém, utilizando-se dessa “lógica" deixamos de nos esforçar em
compreender. Sabemos que seguindo tal raciocínio “lógico”, dentro de
determinadas regras, chegaremos a um resultado confiável.
Deixamos de criar outras possibilidades nesse intervalo, o processo foi esquecido.

• “Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que
o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está
precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos
tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou
agradecendo nada...”
Clarice Lispector

• Está ficando cada vez mais difícil perceber o mundo no qual vivemos porque ele
se apresenta como o melhor. Adquirimos produtos e mais produtos que não se
adaptam a nós. Nós é que temos de nos adaptar a eles. Nos adaptando sempre,
acabamos acreditando que o mundo perfeito é aquele dos produtos, e como não
somos perfeitos temos de nos adaptar da melhor maneira possível.
Produtos de infelicidade ocupam nosso tempo, nos “divertem”.
Sofremos de uma ilusão de liberdade. Consumidores desses produtos,
acreditamos ser livres para fazer escolhas e assim, acumulando cada vez mais o
que nos é “oferecido”, atingir um estágio de felicidade.
A coisa começa no nosso velho sistema educacional. Ele não busca a formação
do indivíduo, mas sim sua adaptação a uma situação que se coloca como
verdadeira. O sujeito formado por essa situação estaria muito bem adaptado e
poderia se inserir tranqüilamente dentro dos padrões vigentes, e pronto para
buscar sua “felicidade”.

Mas e um pensamento crítico das coisas não nos tornaria infelizes?


Desesperados?
Talvez sim, mas infelizes todos já somos. Só que vivemos em um estágio de
euforia, uma ilusão das coisas.

• As aves em revoada fazem parte de um sistema complexo, onde cada indivíduo


mantém sua independência preservada. Essa relação é contrária a de sistemas
sociais como comunidades de abelhas ou formigas, onde o sistema é
extremamente complexo, mas uma formiga isolada é completamente idiota.

• Penso um espaço formado não por dimensões métricas, mas sim por dimensões
temporais. Um espaço que não esteja subordinado a pontos, de onde sempre se
parte e onde sempre se chega, mas sim um espaço subordinado ao trajeto, onde
os pontos aparecem, esbarramos neles. Seria um espaço apreendido, e não
observado. Um espaço onde os materiais agiriam muito mais por suas forças,
suas características estruturais, do que por aquilo que representam. Ao invés de
formas moldarem a matéria, a matéria é que moldaria formas ao se relacionar.

O que diferencia esses percursos não é mais aquela conhecida qualidade objetiva
dos lugares, nem uma determinada quantidade mensurável de movimento que se
executa. A diferenciação se faz pelo modo como se está no espaço, no modo
como se relaciona com ele, a maneira de ser no espaço.

• Quando se fala em restabelecer o nômade, não imaginamos que o homem vá


pegar o que conseguir carregar e sair andando por aí. A idéia do nômade agora é
outra. As novas tecnologias permitem que estejamos permanentemente em
movimento, em fluxo, sem que necessariamente tenhamos que nos locomover
fisicamente.
Mas nosso corpo não é dissociável em partes com suas respectivas funções e
especializações. Não dá pra se pensar numa situação parecida com aquela
explorada em “Matrix” onde o corpo não funciona como extensão, mas somente
como ferramenta.
Diversos estudos têm demonstrado que nosso corpo reage, mesmo que
involuntariamente, a estímulos os mais variados. E essa reação não é
simplesmente ato reflexo, muitas vezes determinados processos neurológicos só
se realizam em conjunto com determinadas reações do corpo.
Entendendo o nosso corpo dessa maneira, podemos supor algumas coisas a
respeito do começo desse texto. Quando dissemos que não temos mais a
necessidade de nos locomover fisicamente, o que queríamos dizer é que o
movimento, o locomover-se, não se faz objetivamente, ele é extensão, é um ato
involuntário...

Sendo assim, criar um espaço nômade não deve ser simplesmente a criação de
coisas que se movimentam. Esse espaço nômade não está dentro da ordem
estabelecida, está sempre transitando. Aparece e desaparece aqui e ali, sempre o
vemos, poucas vezes nos damos conta, e quando tentamos colocá-lo dentro
dessa nossa ordem acabamos com algumas fotografias nas mãos, nunca com a
coisa.

• Dentro da cultura Ocidental a invenção do alfabeto teve um papel fundamental não


só na maneira como as pessoas passaram a se comunicar, mas também, e
principalmente, no modo como elas passaram a ver, interpretar e agir no mundo.
O alfabeto introduziu uma lógica de tempo e seqüência que conduziu o ocidente a
uma racionalização de toda experiência humana, inclusive a percepção do espaço.
Somos treinados desde crianças a ler dentro dessa lógica e com isso acabamos
sendo pra “ler” o mundo, não para experimentá-lo.
Comprovadamente, a forma como aprendemos a ler e escrever vai condicionar
nossas rotinas básicas de processamento cerebral, exercendo influência direta nos
outros processos psicológicos e sensoriais.

• A invenção da perspectiva coincide com a popularização e o aperfeiçoamento da


escrita ocidental. A perspectiva permitiu organizar o espaço e a maneira de vê-lo
dentro de uma lógica de codificação e sequenciamento muito semelhantes aos
utilizados pela escrita.

• Um neurônio, seja ele natural ou artificial, é um objeto vetorizado. Nele, o fator


primordial é a transmissão. Ela se faz devido a diferenças de potencial que geram
um impulso com fator velocidade em determinada direção. Necessariamente, os
neurônios têm essa transmissão em forma de seta, ou seja, tem sentidos de
entrada e saída.
As diferenças de potencial geradas por um neurônio ativam outros neurônios, que
ativam outros e assim por diante.
Informação alguma se transmite através de um meio percorrido. Toda informação
se constrói por essa cadeia de reações, onde cada molécula pode reagir
diferentemente alterando o conjunto todo.
Podemos afirmar que a informação não percorre, ela se constrói e se propaga nos
sistemas.

• As redes neurais artificiais representam um novo paradigma metodológico no


campo da Inteligência Artificial, ou seja, no desenvolvimento de sistemas
computacionais capazes de imitar tarefas intelectuais complexas.
Diferentemente das tentativas de se obter sistemas inteligentes baseados em
lógica e em processamento simbólico, as redes neurais se inspiram em um modelo
biológico para a inteligência, isto é, na maneira como o cérebro é organizado em
sua arquitetura elementar, e em como a mesma é capaz de executar tarefas
computacionais.
Da mesma maneira que no cérebro, as redes neurais artificiais são organizadas na
forma de um número de elementos individuais simples (os neurônios), que se
interconectam uns aos outros, formando redes capazes de processar e transmitir
informação. Outra capacidade importante das redes neurais artificiais é a auto-
organização, ou plasticidade. Através de um processo de aprendizado, é possível
alterar-se os padrões de interconexão entre seus elementos. Por este motivo, as
redes neurais artificiais são um tipo de sistema chamado conexionista, no qual as
propriedades computacionais são resultado dos padrões de interconexão da rede,
como acontece também no sistema nervoso biológico.

• Os computadores convencionais atualmente utilizados tem no mínimo 2 fases: a


primeira, chamada de design & teste, precisa para ser construída de 3 coisas:

1. um algoritmo correto, confiável e conhecido em todas as suas nuanças;


2. um conjunto de dados de entrada;
3. correspondente conjunto de dados de saída, equivalente àqueles de entrada,
devidamente processados pelo algoritmo.

Durante o funcionamento da segunda fase, apenas duas das três coisas acima
continuam sendo conhecidas: o algoritmo (que não muda) e as entradas que são
geradas. Este tipo de sistema está pronto para ser utilizado quando passa a
sinalizar a sua capacidade de gerar saídas corretas.
Nas Redes Neurais Artificiais, a coisa é um pouco diferente. Estes sistemas
também têm duas fases, que recebem nomes diferentes do caso convencional. A
fase 1 é conhecida como treinamento. Nesta, apenas duas coisas são conhecidas:
a entrada e a saída esperada. O algoritmo é desconhecido e assim permanecerá.
Isto é, resolvem-se problemas para os quais não se conhece a lógica da solução.
Na fase dois, aqui também chamada produção, apenas a entrada é conhecida. A
saída gerada pela rede devidamente treinada está correta e pode ser usada.
Porém, se a entrada for diferente daquelas do “treinamento”, não só o processo
como as respostas são totalmente inesperados.
Toda vez que um programa de computador exibe um comportamento para o qual
não foi explícita e declaradamente programado, estamos diante de um fenômeno
conhecido na informática e na cibernética como "comportamento emergente", que
seria a característica primordial de sistemas inteligentes.

• "A aprendizagem pode levar a alterações estruturais no cérebro" (Kandel). A cada


nova experiência do indivíduo, redes de neurônios são rearranjadas, outras tantas
sinapses são reforçadas e múltiplas possibilidades de respostas ao ambiente
tornam-se possíveis. Portanto, "o mapa cortical de um adulto está sujeito a
constantes modificações com base no uso ou atividade de seus caminhos
sensoriais periféricos" (Kandel).

• “Depois de montada uma rede neural artificial, segue uma fase chamada de
treinamento, ou seja, uma fase cuja tarefa é "treinar" a rede neural com uma
coleção de estímulos (sinais complexos, voz, imagens, etc.) que se deseja que a
rede reconheça quando em operação.
Na fase de treinamento, os neurônios competem para serem os vencedores a
cada nova iteração do conjunto de treinamento. Ou seja, sempre que é
apresentada à rede neural uma entrada qualquer, existe uma competição entre os
neurônios para representar a entrada apresentada naquele momento. Esse
aprendizado, nada mais é do que sucessivas modificações nos pesos dos
neurônios de forma que estes classifiquem as entradas apresentadas. Dizemos
que a rede neural "aprendeu" quando ela passa a reconhecer todas as entradas
apresentadas durante a fase de treinamento.
Assim é que se traduz o aprendizado da rede neural, pois, havendo pelo menos
um neurônio que represente uma determinada informação (um estímulo
apresentado na entrada), sempre que este estímulo for apresentado a esta rede
neural, aquele neurônio que foi treinado para representá-lo, automaticamente irá
ser disparado, informando assim, qual o estímulo que foi apresentado à rede
neural.
Mas é interessante ressaltar que uma forte característica das redes neurais é a
capacidade de reconhecer variações dos estímulos treinados. Isto significa, por
exemplo, que apresentando um estímulo X qualquer, semelhante a um estímulo Y
que fez parte do conjunto de treinamento, existe uma grande probabilidade de que
o estímulo X seja reconhecido como o estímulo Y treinado, revelando assim a
capacidade de transformação da rede neural artificial”.

Pesquisas recentes feitas em macacos têm demonstrado que o que se acreditava


sobre as especializações de todo o sistema nervoso pode estar equivocado.
Uma cobaia teve seus nervos óptico e auditivo cortados após o nascimento e
conectados na saída do outro órgão, ou seja, o nervo óptico foi conectado ao
ouvido e o nervo auditivo ao olho.
Para espanto dos cientistas, o animal desenvolveu visão e audição normais.

• Não se pode dissecar um cérebro animal para extrair conhecimento, nem mesmo
dizer onde está “a informação”. Para tentar entender o funcionamento do cérebro,
os cientistas trabalham com a captação das atividades cerebrais e o conjunto de
reações, e através disso tentam entender algo.

• O neurônio recebe inúmeros impulsos das sinapses às quais se liga, mas para que
esses impulsos se propaguem é necessário uma variação mínima de potencial, ou
então o neurônio permanece carregado sem transmitir nada. Permanece enquanto
potencial, mas não gera nem armazena coisa alguma.
A partir dessas observações podemos especular algumas coisas.
Se o que permanece armazenado é somente impulso elétrico, que logo se
transmite e dá lugar a mais impulso, numa constante variação de potencial e, o
mais importante, numa constante transmissão, não haveria então “informação”
armazenada em lugar algum. A informação seria construída pelas constantes
transmissões, e se modificaria a cada nova transmissão.
A informação deixa de ser algo estático, armazenável, manipulável, para ser
entendida como toda uma rede de relações em constante mutação.

• O homem sempre acreditou que o ar fosse vazio e que sobre a proteção de suas
peles privadas, estaria sempre imune às conseqüências de suas próprias ações.
Ao produzir arquitetura, pensando sob essa mesma lógica, o espaço sempre foi
criado como um palco vazio onde desfilavam homens e objetos.
Mas hoje o ar não é mais visto como vazio. Nossas descobertas têm mostrado que
o ar é uma massa de partículas e elementos, e se adensa cada vez mais com a
invasão de redes de comunicação eletrônicas.
A própria preocupação com a poluição só começou a crescer depois que nos
demos conta de que o ar também está vivo e pode morrer.

• Se esse movimento parar e as idéias tiverem de ser esclarecidas e colocadas em


ordem acho que não vou conseguir fazer mais nada. Prefiro me sentir fazendo
parte dessa coisa que se transforma e se controla, onde não tenho nada
pontuado, mas tudo embaralhado. Colocar ou retirar um pedaço não vai impedir
que a coisa funcione, mas com certeza vai influenciar no seu funcionamento.
Sentindo-se parte desse todo você se torna responsável por ele, sabendo que sua
presença é ao mesmo tempo importantíssima quanto desprezível.

• O Universo não é um sistema mecânico composto por uma multiplicidade de


partículas independentes, mas um conjunto dinâmico de eventos emaranhados,
onde unicamente as suas interações determinam a estrutura da realidade.

• “ O contexto serve para determinar o sentido de uma palavra, assim como cada
palavra contribui para produzir o contexto.
Não somente cada palavra transforma, pela ativação que propaga ao longo de
certas vias, o estado de excitação da rede semântica, mas também contribui para
construir ou remodelar a própria topologia da rede ou a composição de seus nós.
Cada vez que um caminho de ativação é percorrido, algumas conexões são
reforçadas, ao passo que outras caem aos poucos em desuso. A imensa rede
associativa que constitui nosso universo mental encontra-se em metamorfose
permanente.”
Pierre Levy

• A informática traz a idéia do tempo real, todas as informações estão disponíveis, e


não somente disponíveis como também manipuláveis, mutáveis instantaneamente.
O que entra em questão é essa possibilidade de ter tudo em seu estado mais
recente, sem a necessidade de um acumular no tempo. É a possibilidade de um
tempo pontual e não mais linear.
• A informática não se contenta com a transmissão de informação, ela também é
processo. Depois de digitalizado, qualquer tipo de texto, imagem, música, é
passível de edição. Dessa maneira, a verdade deixa de ser a questão
fundamental, em proveito da operacionalidade e da velocidade, já que os modelos
digitais raramente são definitivos, sendo sempre modificados. A simulação toma o
lugar das teorias e a eficiência ganha o lugar da verdade.

• Na programação orientada para objetos, cada um dos objetos é programado com


características próprias, e a maneira como eles vão se relacionar após essa fase é
imprevisível. Trabalha-se em cima das características de cada objeto e não em
cima do resultado das interações entre eles.
Em uma revoada de pássaros ocorre algo semelhante, cada ave é dotada de
características individuais, mas a dança que elas criam em vôo nunca é previsível
ou programada.

• “A simulação não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber ou da relação


com o mundo, mas antes a um aumento dos poderes de imaginação e da intuição.
O conhecimento por simulação e a interconexão em tempo real valorizam o
momento oportuno, a situação, as circunstâncias relativas, por oposição ao
sentido molar da história ou à verdade fora do tempo e espaço, que talvez fossem
apenas efeitos da escrita.”
Pierre Levy

• Se afirmarmos que o pensamento se constrói através da articulação de infinitos


emaranhados, poderíamos supor que esse mesmo pensamento não se constrói
somente dentro dos cérebros, mas também e com todos os objetos biológicos ou
não e, até mesmo, com sistemas e instituições sociais.
Sendo assim, seria possível imaginar a idéia de um pensamento coletivo, mas
coletivo não somente entre as pessoas, um coletivo formado por toda e qualquer
matéria existente.
Partindo dessas idéias, podemos afirmar que o pensamento é sempre a realização
de um coletivo, nunca individual.

• “Estou livre? Tem qualquer coisa que ainda me prende. Ou prendo-me a ela?
Também é assim: não estou toda solta por estar em união com tudo. Aliás, uma
pessoa é tudo. Não é pesado de se carregar porque simplesmente não se carrega:
é-se o tudo”.
Clarice Lispector

• Texto produzido em cima da simulação das plataformas:

A informação não está contida em algum compartimento, não está armazenada


em algum lugar. A informação existe e se constrói em função de um fator
velocidade, daquilo que podemos chamar de transmissão, já que ela também não
é algo, uma unidade transportada, se assim fosse poderia ser armazenada.
A informação está nas constantes trocas que ocorrem em todo sistema. Se essa
dinâmica cessa, toda a “memória” existente desaparece. O objeto contém em a
potencialidade de atualizar qualquer ação, porém essa potencialidade independe
da continuidade com as dinâmicas antes estabelecidas com o mesmo.
Se alguma ação se constitui em torno de determinado objeto aparentando certa
continuidade com algo que já existiu, é porque de alguma maneira o que o faz está
muito próximo na rede de relações em torno daquele objeto.
Como essas redes são alteradas em todas as transmissões, existem infinitas
hipóteses para esse tipo de acontecimento, desde alterações muito simples, onde
a informação pouco se modifica, até coincidências em torno da relação com o
objeto.

O espaço não guarda nada. A memória, se assim podemos chamar, é aquele fluxo
contínuo formado por transmissões que geram estímulos e que vão se
transmitindo e se alterando constantemente.
Quando algumas transmissões cessam o estado físico permanece, porém sem a
ação, só a possibilidade dela. Essas possibilidades, por sua vez, geram novas
utilizações que vão gerar novas transmissões. Portanto, o ebjeto não contém
memória alguma, mas como é fruto de ação contém em si a possibilidade das
infinitas ações, sempre transmitindo isso adiante.
Se existe alguma “continuidade” é porque o que ali se processava se transmitiu já
em transformação para além dali, através de uma rede de relações onde ecos
voltam transformados. Sempre essa constante transmissão.

• Os sistemas caóticos apresentam determinados padrões que permitem entender


todo o sistema. Esses padrões são ressonâncias que vem de várias partes do
sistema, se sobrepondo em sincronia.
Ao contrário de sistemas lineares que isolam e idealizam situações perfeitas, os
sistemas em questão jogam com todas as interferências externas, sendo por isso
de apreensão muito mais intuitiva do que intelectual.
É o mesmo que tentar observar a chuva caindo na água. Quando as primeiras
gotas caem o movimento delas e das reações ainda é bem previsível, mas quando
a chuva aumenta de volume o sistema assume um estado caótico, atingindo uma
dinâmica que não é mais compreendida linearmente. Ou você entra em sincronia
com esse sistema ou se afasta.
Outro aspecto desses sistemas dinâmicos é a forte interdependência entre todas
as partes. Qualquer alteração, por menor que seja, altera todo o conjunto de
relações existentes.

• “A roda, depois de certa velocidade, mostra os desenhos iguais a ela parada”.


Os sistemas dinâmicos têm a característica de fazer reaparecer qualidades
passadas com impressionante clareza ao entrar em estado de turbulência.

• O desenvolvimento da espécie humana não pode ser dissociado da evolução


tecnológica. Não somos seres independentes desenvolvendo tecnologias,
evoluímos juntamente com elas. Se não fosse assim, seríamos uma raça
estagnada tentando produzir tecnologia para depois se adaptar a ela.
Evoluímos caoticamente com a tecnologia, não conseguimos descrever nossa
evolução sem ela, assim como não conseguimos descrever a evolução dela sem a
nossa.

• Organismos coloniais, como os recifes de coral, são comunidades de criaturas


individuais que formam um todo interligado para tornar viável a própria
sobrevivência coletiva.
Um recife de coral é formado por milhões de organismos muito pequenos que
funcionam individualmente como criaturas separadas e coletivamente como uma
comunidade, e que se beneficiam tanto de sua capacidade de se comportar como
indivíduos em certas circunstâncias, quanto como um todo único em outras.
Seres vivos convivendo em organismos coloniais acabam gerando uma sincronia
em todo o sistema. Todo indivíduo do grupo fica mais sensível ao estado de corpo
e espírito de cada membro.

Sincronismos não são criados nem forçados, eles surgem naturalmente das
necessidades e tendências de todo um grupo.

• A idéia de fractal não é a da repetição idêntica, mas sim a recapitulação de


grandes movimentos em movimentos menores, ou seja, padrões de auto-
semelhança impressionantes, mas ao mesmo tempo inexatos.
As formas ampliadas de detalhes mínimos do fractal são semelhantes mas nunca
idênticas às maiores. Parecem-se o suficiente para que as reconheçamos, mas
não para que a igualemos.

• “Uma cultura caótica trabalha como uma equação interativa. É um sistema


dinâmico turbulento, um fractal. Qualquer coisa gerada por ele é reintroduzida
várias vezes, até que, ou todo o sistema é alterado ou ela se dissipa em nada.
Num sistema cultural caótico, as idéias que geram tolerância, melhores condições
de sobrevivência ou níveis mais altos de organização continuarão a iterar. As que
não encontrarem ressonância suficiente somem no esquecimento, como as
mutações aleatórias, mas ineficazes de uma espécie de bactéria... Na pior das
hipóteses, como no caso dos OVNIs ou mesmo do nazismo, o que não nos mata
antes de se iterar completamente, vai no mínimo nos ensinar alguma coisa”.

Douglas Rushkoff